sexta-feira, 25 de março de 2016

A Igreja – porta franca da misericórdia

O enunciado faz parte do texto homilético do Bispo do Porto na missa crismal do dia 24 de março, quinta-feira santa de 2016. E articula a passagem do profeta Isaías em que o Senhor estabelece a missão do profeta (Is 61,1-9), de que ressalta o envio a proclamar um ano de graça”, com a perícopa do Evangelho de Lucas (Lc 4,16-21) em que Jesus faz a leitura daquele texto e ousa declarar, para espanto de todos: “Cumpriu-se hoje esta Palavra”.
É em torno do martírio do Gólgota, em sexta-feira da Paixão – de que resultou, pelo sangue de Cristo que jorrou do lado adormecido de Cristo no alto da cruz, acompanhado de algumas gotas de água (cf Jo 19,34), o nascimento da Igreja, mãe do novo Povo de Deus, que incorpora no Corpo de Cristo novos membros, pelo Batismo, e os reúne na Eucaristia, sacramento da unidade, do alimento e da caridade – que se celebra a misericórdia desta graça de reconciliação.
Com efeito, é pelo sacrifício único de Cristo, como sumo sacerdote “que penetrou os Céus” e nos desbravou o caminho, que “nós permaneceremos firmes na profissão da nossa fé” (cf Heb 4,14). Fundados neste nascimento da Igreja do lado adormecido de Cristo, tal como Eva, a mãe dos viventes, nasceu do lado adormecido de Adão (cf Gn 2,21-24), nós “vamos cheios de confiança ao trono da graça para alcançarmos misericórdia e a graça de um auxílio oportuno” (Heb 4,16).
Sobre o sentido do “hoje” de Jesus na sinagoga de Nazaré, que se reitera todos os dias, a ponto de o prelado portuense, no alinhamento com o pensamento expresso do Papa Francisco, considerar presente aquele mesmo anúncio do profeta Isaías, sendo que “o ‘hoje’ afirmado por Jesus é o ‘hoje da Igreja’ e que a terra de Jesus é agora a Europa e o Mundo”.
Porém, este “hoje” tem de ser revigorado de vez em quando, sobretudo quando se encontra mais esquecido dos homens e as situações de contexto o postulam. Assim, para lá da intensidade inerente à vivência forte dos principais momentos do ciclo litúrgico anual e, em especial, o de sexta-feira santa (veja-se a universalidade e a abrangência das preces da oração universal antes da apresentação e adoração da Cruz, na solene oração litúrgica da tarde), afigura-se necessária e oportuna a proclamação de um ano especial de graça. Assim, Francisco proclamou, interpretando o sentido da necessidade da Igreja e do mundo, um jubileu extraordinário, um ano de graça:
Proclamei um Jubileu Extraordinário da Misericórdia, como tempo favorável para a Igreja, a fim de se tornar mais forte e eficaz o testemunho dos crentes (MV 3).
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Talvez seja conveniente recordar, embora muito sumariamente, o sentido primevo do jubileu.
Jubileu, para os cristãos, não pode significar apenas perfazer 50 ou 25 anos de vida, mas sobretudo considerar os aspetos bíblicos que enformam a vivência jubilar: a instrução nos mandamentos da Lei de Deus para com o povo de Israel e a saborosa degustação de cada um dos preceitos; a celebração festiva do ano jubilar; e o cumprimento das exigências de gratidão para com Deus e as de sociabilidade sã para com os concidadãos.
O jubileu decorria com a contagem do tempo: 7x7 anos. E o quinquagésimo ano era o da grande festa, “o ano da graça do Senhor”, que exaltava a grande novidade da vida e da libertação. O livro do Levítico colige as palavras do próprio Deus a Moisés:  
“Santificareis o quinquagésimo ano,  proclamando na vossa terra a liberdade de todos os que a habitam. Este ano será para vós Jubileu: cada um de vós voltará à sua propriedade e à sua família.” (Lv 25,10). 
Jubileu, em hebraico, quer dizer “som de trombeta”. A trombeta hebraica era um instrumento feito do chifre do carneiro, de que se extraía uma nota musical aguda de longa duração e, usado para  anunciar o Ano do Jubileu. O Ano do Jubileu correspondia ao primeiro ano,  depois de 7 vezes o ano sabático. O ano sabático compreendia, por seu turno, o total de 7 anos. De entre eles, em 6 anos trabalhava-se a terra; e, ao 7.º,  devia descansar-se e dar descanso à terra tal como aos trabalhadores.
O ano sabático já era um ano muito importante e o povo comemorava-o com grandes solenidades, pois era o ano de resgate. Nele eram observados preceitos específicos como o repouso da terra e o descanso dos trabalhadores, a liberdade de escravos, a instituição de normas que regularizavam a negociação ou renegociação de propriedades, o resgate de propriedades das  famílias, a anulação de dívidas e outros mais.
Por sua vez, o Ano Jubilar convocava e interessava a todos  levando em conta duas  grandes premissas da ótica divina: o reconhecimento, por parte de todo o povo, de que as desigualdades não provêm de Deus, mas do afã pecador do homem, principalmente, a usura, o  poder temporal e o egoísmo; e o reconhecimento, por parte de todos, de que, se contritos pelos pecados, podiam receber o perdão de Deus, que a todos ama sem medida. O Jubileu presentificava a libertação e, como tal, a sua mensagem já trazia, por antecipação, a chegada do reino  de Deus anunciada por Jesus “o Libertador” (cf Mc 1,15). 
Jesus, ao proclamar como nova Lei a Lei das Bem-aventuranças (vd Mt 5,3-12; Lc 6,20-23), deixou-nos um grande legado e disse que veio para cumprir a Lei e não para a abolir (cf Mt 5,17-20). Ele próprio, pois, cumpriu em si o Jubileu festejado no Antigo Testamento. E Isaías disse, por antecipação: o ano aceitável do Senhor” (Is 61,2) e o ano dos  meus redimidos chegou (Is 63,4).
O Bispo do Porto, na aludida homilia, dirigida especialmente ao presbitério, faz uma apreciação do Ano da Misericórdia pela perspetiva do entusiasmo dos sacerdotes no convite que fazem às comunidades, a quem servem, para a “prática das obras de misericórdia, com alegria”, e pelo lado da exemplaridade do testemunho sacerdotal na celebração do “sacramento da reconciliação e da misericórdia, nas paróquias e nas igrejas jubilares”. E garante-lhes, como missiva de Deus:
“O júbilo do profeta, a alegria de Jesus e a vossa dedicação, irmãos sacerdotes, dizem-nos que aqueles que semeiam com generosidade e perseverança hão de colher a seu tempo com abundância e com alegria”.
Depois, eleva a Missa Crismal à expressão do “sentido de júbilo pelos sacerdotes, pelo presbitério”. E apresenta as diversas notas da espiritualidade e da pastoralidade sacerdotal: a unidade e a comunhão; o peregrinar como pastores no meio do povo; a fraternidade sacerdotal; o valor da Eucaristia e dos sacramentos para “quem sabe por experiência própria o sabor da fé e a bênção da graça divina, que a Deus pedimos”; o valor do perdão e a necessidade do pão eucarístico, “que de Deus recebemos, para multiplicar e repartir”; a contemplação e o agradecimento do “bem realizado por tantos agentes de pastoral que diariamente servem as comunidades na evangelização, na liturgia e no serviço da caridade”; a caminhada junto do povo “a unir, a reunir e a congregar”; a misericórdia “tornada caminho de esperança para o mundo”; e “a ‘Alegria do Evangelho que é nossa missão’, expressa nas bem-aventuranças e impressa nas obras de misericórdia”.
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Ora, a misericórdia é dom da gratuitidade divina que, para o amigo de Deus e seguidor de Cristo, se desdobra nas bem-aventuranças e se concretiza nas obras de misericórdia rumo à justiça e à igualdade de todos perante Deus, à liberdade e à fraternidade que não custam dinheiro. Assim, como diz Dom António Francisco do Santos, “é a partir do terreno da oração confiante, da comunhão fraterna e da gratidão […] que o nosso olhar se volta para o futuro”. E, por isso, o bispo diocesano quer “sacerdotes que se sintam sempre enamorados por esta santa mãe, que é a Igreja”, que a amem “como una e a mesma, seja nas grandes celebrações seja na humildade do viver discreto em paróquias isoladas, no silêncio da contemplação, no paciente atendimento do confessionário e na porta sempre aberta aos que procuram Deus de coração sincero”; “sacerdotes de coração livre e aberto a todos e que se algum excesso de zelo e de atenção têm que seja com os pobres”; e “sacerdotes que não permitam que se instale na sua vida a rotina, o desencanto ou o desalento”, a quem incumbe “semear, trabalhar a terra, cuidar da sementeira e esperar com paciência a hora da colheita, na certeza de que nos campos espiritualmente trabalhados hão de florescer novas vocações e há de frutificar a Alegria do Evangelho”.
Ao longo da sua história, a Igreja descobriu que o Jubileu devia ser vivido como maior frequência que no Antigo Testamento e estabeleceu que ele se celebrasse ordinariamente de 25 em 25 anos para que o maior número possível de crentes tenha ocasião de passar, ao menos, por uma celebração jubilar. E haverá jubileu extraordinário quando o Papa entender convocá-lo.
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O enunciado em epígrafe retirado da supradita homilia faz-me lembrar a génese das feiras francas, que não tinham recinto delimitado por muros, os comerciantes neles intervenientes estavam livres de direitos fiscais, nomeadamente portagens e peagens. Estabelecia-se a trégua da feira, ou seja, interrompiam-se as guerras e demais conflitos, para que os feirantes pudessem operar lado a lado sem risco de vida e de degradação dos bens; garantia-se a proteção e segurança em dias de feira e em lapso temporal de alguns dias anteriores e alguns dias posteriores; e disponibilizavam-se espetáculos, cantigas, rimances e notícias. Era um exercício de gratuitidade, embora limitada.
Também se fala com propriedade de língua franca, em confronto com a multiplicidade de línguas e/ou dialectos locais/regionais ou com a língua oficial.
A língua franca é a língua de contacto ou língua de relação resultante da necessidade e ensejo de contacto e comunicação entre grupos ou membros de grupos linguisticamente distintos para o comércio internacional e outras interações mais extensas. Distingue-se da língua oficial a que o Estado obriga os seus falantes e os trata como tais quando estão em causa o conhecimento e observância de normas comuns, a redação de textos oficiais e a relação entre governantes e governados e entre administradores e administrados. A língua franca é funcional, marcada pela gratuitidade enquanto não obrigatoriedade.
No Império Romano e no milénio seguinte, a língua franca foi o grego no oriente e o Latim no ocidente.
O português foi língua franca na África e na Ásia, nos séculos XV e XVI. E, quando os portugueses começaram a explorar os mares da África, América, Ásia e Oceânia, tentaram comunicar com os nativos misturando uma variante de língua franca influenciada pelo português com as línguas locais. Depois, quando os navios ingleses, franceses e holandeses vieram a competir com os portugueses, a tripulação tentou aprender esse “português quebrado”.
Mas há outras: O francês foi língua franca e a língua da diplomacia na Europa a partir do século XVII; na maior parte da Ásia, África e partes da Oceânia e Europa, o árabe foi língua franca desde o século VII, sendo utilizado desde as Filipinas até ao Senegal; o alemão foi língua franca em grande parte da Europa durante os séculos XIX e XX, especialmente em negócios; e o inglês é hoje a língua franca nos negócios internacionais e na diplomacia.
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Porém, não há maior franqueza, liberalidade e gratuitidade que na misericórdia divina, infinita.
E é nesta gratuitidade do dom de Deus que a Igreja, por força do seu ser e missão, serve de porta franca da entrada do homem e dos povos no mistério de comunhão com Deus. É por essa porta franqueada a todos que ordinariamente Deus Se mostra como o Senhor generoso, o Pai misericordioso, o Salvador dedicado, o promotor incansável da fraternidade universal, armada em torno da Cruz em que Se imolou o próprio Filho de Deus feito homem por nós homens e por nossa salvação. É por esta porta franca de salvação que se revela ao mundo o amor extremo de Deus pelo homem que, no Espírito Santo, renova a face da Terra; e por ela se apresentam a Deus os dramas da humanidade, a situação dos espoliados pela maldade e ambição dos outros homens, que não dão vez e voz aos mais desprotegidos e deserdados da sorte. É esta porta franca a via privilegiada para fazer chegar a Deus as orações e os anseios dos crentes, bem como o meio para fazer chegar ao homem o desígnio do Pai, a vontade de Cristo e as moções do Espírito. É esta Igreja, que da cruz em que Cristo une Céu e Terra e abraça o mundo, aprende a fazer pontes entre os homens e povos e entre a Terra e Céu.
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Que a Igreja e os seus membros tenham sempre disponível esta porta de franqueza e de gratuitidade misericordiosa, para que todos possamos efetivamente vir a estar com Ele” no “Paraíso” (cf Lc 19,43). Sendo misericordiosos, alcançaremos misericórdia (cf Mt 5,7).

2016.03.25

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