quinta-feira, 17 de março de 2016

Em memória de Nicolau Breyner

O dia 16 de março de 2016 fica marcado pelos funerais de Nicolau Breyner que faleceu inesperadamente, no assado dia 14, em sua casa, com 75 anos de idade e uma carreira profissional de 60 anos.
Segundo os dados da autópsia, confirma-se a hipótese, levantada aquando do conhecimento do seu passamento, de que o ator e realizador terá sido vítima de enfarte do miocárdio, doença que ocorre quando uma ou mais artérias que irrigam o coração ficam bloqueadas e este órgão não recebe sangue e oxigénio nas quantidades de que necessita. No entanto, os médicos solicitaram exames complementares de diagnóstico, nomeadamente de toxicologia e de anatomia patológica, para um melhor conhecimento das circunstâncias da morte.
Embora não se encontrasse doente, João Nicolau, que era presidente da assembleia geral da Casa do Benfica, em Serpa, não compareceu, como estava a anunciado, no dia 11 noite na inauguração da Casa do Benfica, em Beja.
João Nicolau de Melo Breyner Lopes nasceu em Serpa, no distrito de Beja, a 30 de julho de 1940, passou para Lisboa aos dez anos e notabilizou-se como ator e humorista, ficando conhecido do grande público no teatro, no cinema e na televisão.
Estreado no teatro ainda aluno do Conservatório, nos anos 1960, depois de passar dois anos em Direito e de ter saído para aprender canto lírico, desistiu deste pelo métier de ator.
Ninguém esquece os programas televisivos que o fazem ter um lugar na memória coletiva, tais como “Senhor feliz e senhor contente”, com Herman José, e “Eu Show Nico”.
Porém, o ator de Serpa deu um contributo pioneiro à realização telenovelística portuguesa – chegou a ter a sua própria produtora, “NBP, Nicolau Breyner Produções” – e à direção de atores, como se pode ver através das muito populares telenovelas “Vila Faia” e “Cinzas”, entre outras. Estava atualmente a participar nas gravações da telenovela da TVI “A Impostora”.
Trabalhou igualmente no cinema, como ator e realizador, tendo colaborado com realizadores como: com António-Pedro Vasconcelos, em “A Bela e o Paparazzo”, “Os Imortais”, “Os gatos não têm vertigens”; com João Botelho, em “Corrupção”; e com Leonel Vieira, em “A arte de Roubar”. Mas, por si próprio, assina a realização de filmes como: “Contrato”, “7 Pecados Rurais” e “A Teia de Gelo”.
Manteve-se sempre igual a si próprio: instável afetivamente; rigoroso no trabalho profissional; conhecedor da realidade, mesmo no campo da política (candidatou-se, em tempos, à Câmara de Serpa pelo CDS, numa época em que isso parecia impensável); amigo do seu amigo e solidário para com os demais atores; sempre com uma ponta de humor naquilo que via, dizia e fazia; e, por fim, dedicou-se à formação de atores com a sua academia.
Foi a ausência inesperada na sua academia, no dia 14, que fez soar o alarme e levou à descoberta da sua morte.
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A sua morte suscitou múltiplos comentários e lamentos da parte da generalidade dos intervenientes na vida pública nacional, incluindo o Presidente da República, que se adiantou em fazer uma declaração pública de pesar pela perda deste vulto cultural. Seguiram-se outros, de que se destacam o Primeiro-Ministro e o Ministro da Cultura, bem como Santana Lopes, Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e antigo Secretário de Estado da Cultura. Mas os mais assíduos e comovidos eram os seus pares: atores, realizadores e humoristas.
Os jornais em suporte digital ou em papel, as estações de televisão e os serviços noticioso de rádio e as redes sociais depressa se tornaram abundantes em notícias, reações e comentários. Eram informações objetivas, eram comentários dolorosos, eram enunciados apreciativos do homem da verdade, da alegria e do humor e eram mesmo títulos evocativos de trabalhos de que reza a história do humor – comoMorreu o Senhor Feliz”, “Morreu o Senhor Contente”, em alusão à rábula da dupla Nicolau Breyner-Hermann José nos anos setenta, após o 25 de Abril, com os dois, Senhor Contente e Senhor Feliz, vestidos de preto e chapéu de coco, bengala, bigode e mímica à Charlot.
Os colegas e amigos destacam a alegria de viver, o à vontade, a capacidade de fazer com que os outros se disponibilizassem a aprender com ele, a maleabilidade, a espontaneidade e naturalidade, a capacidade de relacionamento e a cultura da perceção das pessoas, coisas e ambientes.
Também o ator Jeremy Irons, que trabalhou com Nicolau no filme “Comboio noturno para Lisboa”, lamenta a sua morte e recorda-o como “um dos mais gloriosos segredos” que Lisboa lhe ofereceu. Numa nota de homenagem que enviou ao assistente de realização Sérgio Carlos, amigo de ambos, escreveu:
“Para todos nós que pudemos, durante algum tempo, sentir o brilho da sua presença, o palco parece-nos hoje um bocadinho menos iluminado, mas sabemos que a memória dele perdurará”.
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Não apreciei todas as suas tiradas humorísticas, mas reconheço em Nicolau o homem de ação e relação em sintonia com o país e as pessoas.
Todos os afirmam como católico e com profundo sentido do religioso. E a vida que se transcende a si própria marcou os seus funerais. Lá esteve a profundidade da celebração eucarística, a presença massiva das gentes solidárias, o cante alentejano como significativa fatia da alma lusa e, naturalmente, as lágrimas, os lenços brancos e os aplausos.
Mais do que sublinhar Nicolau e a obra – o que já é muito e a que faz jus a aposição da bandeira nacional na sua urna e a atribuição do seu nome ao cineteatro de Serpa– quero salientar a coroa gigante de pessoas da sua área profissional, que passem o que passarem, em momentos destes dão um belo testemunho de presença solidária que se torna um exemplo contra o individualismo e a fuga palpáveis em muitos dos outros grupos profissionais, em que cada um joga a sua vida, sem o sentido profundo do outro.
Por isso, a minha homenagem à memória de Nicolau e ao sentido solidário dos atores, realizadores e guionistas!

2016.03.17 – Louro de Carvalho 

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