terça-feira, 30 de junho de 2015

O sentido da palavra “mártir”

Vêm as considerações seguintes a propósito de hoje, 30 de junho, ocorrer a celebração da memória litúrgica dos primeiros santos mártires da Igreja de Roma, logo a seguir à solenidade do martírio dos apóstolos Pedro e Paulo (a 29), que, por sua vez, foi precedida da memória de Santo Ireneu (a 28), bispo e mártir, discípulo de São Policarpo de Esmirna.
Com efeito, a primeira perseguição em Roma contra a Igreja, desencadeada pelo imperador Nero, após o incêndio da Cidade no ano 64, levou muitos cristãos ao martírio, ao que se sabe, com atrozes tormentos. Segundo a referência que lhe faz a edição portuguesa da Liturgia das Horas (1998), o facto é atestado por Tácito, escritor romano pagão, em Annales 15, 44, e por São Clemente, bispo de Roma, na sua Epístola aos Coríntios (cap 5-6).
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A palavra mártir não era exclusiva das religiões. No grego, disse-se μάρτυς, ρoς (masculino ou feminino) a significar “testemunha”. Também existia o vocábulo μάρτυρoς, oυ (masculino), com o mesmo significado. E a ação da testemunha dizia-se μάρτυριoν, ίoυ (neutro, a significar testemunho).
Assim, a testemunha é aquele homem ou aquela mulher que, tendo visto e ouvido (presenciado) qualquer acontecimento ou ocorrência, declara o que viu e ouviu com toda a verdade e objetividade, em juízo e fora dele – o que, muitas vezes, levava a testemunha à morte. Por vezes, o testemunho baseava-se não naquilo que foi visto, mas na convicção formada a partir do ensinamento de pessoas fidedignas. Por exemplo, Sócrates deu a vida pelas convicções que professava em torno de ideais que descobriu, acusado de corromper a juventude.
Daqui, é fácil de perceber como o martírio passou ao campo semântico da religião, significando a pessoa que se submeteu ao sofrimento que lhe foi infligido pela sua fé ou pela defesa de valores morais indeclináveis, como a fé em Deus e no seu Cristo, a fé na Ressurreição, a defesa da virgindade ou a não revelação do segredo presbiteral da confissão sacramental.
Assim, o latim, sobretudo o latim eclesiástico, estabeleceu o uso da palavra martyr, iris, com o significado de mártir ou testemunha no sentido religioso, e a palavra martyrium, ii, com os significados de martírio (sofrimento), sepultura de mártir, templo sob a invocação de um mártir.
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O Antigo Testamento já refere, por motivos religiosos, o martírio de Eleázar (cf 2Mac 8,18ss) e o dos sete irmãos macabeus por todo o cap 7 do segundo livro dos Macabeus. Por outro lado, são recorrentes a passagens em que se refere o testemunho que os profetas dão do nome de Deus como testemunhas convictas e inspiradas no oráculo do Senhor: vd, por exemplo, Jr 29,23; Mq 1,2; Ml 3,5. Porém, quem deve dar testemunho de Deus é sobretudo o Seu Povo (vd Is 43,9-10; 44,8; 55,4; Ez 20,1-31).
Jesus, a quem alguns escritores chamaram o Mártir do Gólgota, é, com o Espírito Santo, a grande testemunha do Pai (vd, por exemplo, Jo 5,31-40; 8,12-14; 13,20; 15,26; 18,37; 1Tm 6,13; 1Jo 5,6-8; Ap 1,5). E, no seguimento de Jesus, os cristãos, que são os seus discípulos, devem ser testemunhas Dele e do Pai (vd, por exemplo, Lc 24,48; At 1,8.21-22; 2,32; 10,41).
O martírio é assumido como testemunho supremo do reino de Deus– vd, per exemplo, At 7,1-45; Ap, 2,13; 6,9.
Do ponto de vista cristão, no contexto do Novo Testamento e da História da Igreja, pode-se dizer que “mártir” é aquele ou aquela que preferiu morrer a renunciar à sua fé, por defender a verdade consubstanciada na Palavra de Deus, entregando a própria vida para este fim, para que a essência da verdade seja preservada e a sua força seja assumida como salvação. Por isso, Tertuliano não teve pejo em afirmar que “o sangue dos mártires é semente de cristãos” (sanguis martyrum semen christianorum).
Na doutrina católica, chama-se “batismo de sangue” ao martírio daquele que morre pela fé antes de ter sido batizado. Assim, os Santos Inocentes, as crianças que foram mortas em Belém sob as ordens de Herodes, o Grande, embora não tenham sido batizados na água, diz-se que receberam o batismo de sangue – equivalente ao batismo sacramental – porque foram mortas no lugar de Jesus Cristo e por causa Dele. Estes são considerados os primeiros mártires do cristianismo, ainda antes da morte de Cristo na cruz. A Igreja Católica reconhece como válido o chamado batismo de sangue quando não pôde ocorrer o batismo sacramental.
Depois da morte de Cristo, o primeiro mártir foi o diácono Estêvão, sendo por isso, considerado o protomártir (leia-se o cap. 7 dos Atos dos Apóstolos). Perseguido até à morte, entregou o seu espírito ao senhor Jesus (cf At 7,59) e pediu ao Senhor que não contasse este pecado aos seus algozes (cf At 7,60).
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Fora da Palestina, os primeiros santos mártires da Igreja de Roma inauguraram uma série interminável de martírios em todos os séculos e onde o nome de Jesus direta ou indiretamente incomode os poderes políticos, económicos, financeiros e militares.
Hoje, conforme lamenta o Papa, já não se olha ao ser católico para aumentar mais do que nunca as ondas dos martírios; basta ser cristão para poder sofrer o martírio, nalguns casos, basta professar uma qualquer religião.
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Por analogia com a religião, no decorrer da História, a palavra mártir e a palavra martírio ganharam também outros sentidos, como a morte patriótica pela liberdade, a independência ou a autonomia de um povo, por um ideal social ou político ou até mesmo numa guerra, bem como o sofrimento discriminação, da sobrecarga se trabalhos, da escravidão, da fome ou das doenças incuráveis e extremamente dolorosas.

É preciso concitar esforços para que todas as formas religiosas ou laicas de martírio sejam abolidas da face da Terra.

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