Mostrar mensagens com a etiqueta História. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta História. Mostrar todas as mensagens

domingo, 28 de julho de 2019

Governo dá a conhecer História de Portugal através do turismo militar


Começa no próximo dia 29 de Julho uma série de 6 programas de TV dedicados ao Turismo Militar (sendo o primeiro transmitido em direto da “Rainha da Fronteira) em resultado de parceria firmada em protocolo entre a RTP, através do Presidente do Conselho de Administração da Rádio e Televisão de Portugal, e o Ministério da Defesa Nacional, através do Diretor-Geral dos Recursos da Defesa Nacional.
Elvas, a mais importante praça-forte da fronteira portuguesa e a mais fortificada da Europa, vai ser a anfitriã desta série que se prolonga até final de agosto. Nesta cidade, encontra-se o maior conjunto de fortificações abaluartadas do mundo e as suas muralhas, que, em conjunto com o centro histórico da cidade são, desde 2012, Património Mundial da Humanidade.
***
Como pode ler-se na página web do PS, o Governo propõe-se dinamizar o património da defesa através do projeto ‘Turismo Militar’, que reúne um conjunto de roteiros e rotas para dar a conhecer a História de Portugal através da História Militar.
A marca ‘Turismo Militar’ foi dada a conhecer no dia 26, em cerimónia que decorreu no Palácio Foz, em Lisboa.
De acordo com a informação constante nos vídeos divulgados na altura, o programa inclui “253 castelos, mais de 300 fortes, fortalezas e fortins, 100 faróis e farolins, mais de 70 castros e povoados fortificados, 40 casas-torre”, além de redutos, museus, atalaias ou muralhas.
No ‘site’ criado para o efeito (www.turismomilitar.gov.pt), os cidadãos acedem a informação sobre os diversos locais e consultam os roteiros ou circuitos sugeridos que incluem este património.
O Ministro da Defesa Nacional, João Gomes Cravinho, salientou que a “História Militar é uma outra forma de falar da História de Portugal”, pois, ao longo dos séculos, “foram tantos e tantos os momentos” em que a História “foi moldada pela experiência militar”. E vincou:
Essa experiência militar deixou marcas muitíssimo visíveis por todo o território nacional, e o património militar, que é valiosíssimo e riquíssimo, é, através deste projeto, um património que vai ser mais conhecido dos portugueses, é um património que vai permitir aos portugueses conhecer melhor Portugal”.
Gomes Cravinho especificou que o projeto permite dar a conhecer as fortificações espalhadas pelo país, museus e pequenos castros, no fundo, a “experiência militar que construiu Portugal”. E, na sua ótica, permitirá uma dinamização do interior do país, através da atração de turistas.
Notando que a História Militar passa muitíssimo, por exemplo, pela zona raiana e pela Estrada Nacional 2”, considerou o governante que “o nosso país deve imenso à sua História Militar, e a sua História Militar não é, de todo, só Lisboa, Porto, as grandes cidades”. E sustentou:
Levar o turismo, seja o turismo nacional, seja o turismo internacional, um pouco para o interior, desde logo é um favor grande que fazemos aos turistas porque passam a conhecer uma parte menos conhecida de Portugal, mas muitíssimo rica, e é também o contributo que se dá ao desenvolvimento do interior, à promoção da economia do interior”.
Isto, como apontou Gomes Cravinho, porque, “a partir de algo que já existe, que é o património militar, cria-se novo valor, cria-se valor para a economia local”. Este projeto, que este ano é servido por seis programas na RTP, pelo “Roteiro dos Museus Militares” e pelo “Passaporte EN2”, será desenvolvido “ao longo de vários anos, construindo-se, sobretudo, com as autarquias” e com o Turismo de Portugal, por exemplo, na criação de novas rotas.
Questionado sobre o investimento aplicado neste projeto, Cravinho indicou que se trata de “coordenar muitas entidades que estão dispersas e que já dão contributos muito importantes para a valorização do património, mas que não estão ligados entre si”. E observou:
Ao tecer os elos entre as diferentes entidades, ao criar um ‘site’ onde tudo possa ser visto em conjunto, ao criar rotas que permitam uma visão mais sistemática de diferentes aspetos da nossa realidade, o que nós estamos a fazer é simplesmente aproveitar algo que já existe e que não está suficientemente valorizado”.
Presente na cerimónia, o presidente do Conselho de Administração da televisão e rádio públicas frisou que o objetivo passa por ter “uma RTP aberta”, colaborativa, que esteja no terreno e que esteja “muito presente no país”, pois, como sublinhou, notando que os conteúdos produzidos serão didáticos e pretendem fazer a divulgação do património e das diversas regiões do país, assim a RTP cumpre o seu papel.
***
Sem esquecer o papel da ATMP (Associação de Turismo Militar Português) - que tem como missão o desenvolvimento do turismo militar em Portugal, a promoção, divulgação e preservação do património histórico e militar português, a promoção e a realização de eventos no âmbito do turismo militar, bem como o desenvolvimento de uma Rede Nacional de Roteiros de História Militar, integrando e estruturando a oferta turística do património militar nacional –, aos conteúdos turísticos que Portugal já oferece, o Ministério da Defesa Nacional, através da DGRDN (Direção-Geral dos Recursos da Defesa Nacional) propõe-se acrescentar outras propostas através do incentivo ao desenvolvimento do Turismo Militar.
Quanto maior conhecimento existir sobre o Património e História Militar – móvel ou imóvel, tangível ou intangível –, mais facilmente se mobilizarão públicos nacionais e internacionais. O seu conhecimento incentivará o estudo como e enquanto base sustentável para a constituição de rotas e roteiros, percursos e circuitos, formatando itinerários que valorizem e integrem a história e cultura de cariz militar, articulando-o de forma coerente com potencial turístico, valorizando a instituição militar na génese da História de Portugal. E será, outrossim, oportunidade para estabelecer parcerias de intercâmbio com outras entidades públicas ou privadas, contribuindo para assegurar uma maior cientificidade aos nossos projetos, na certeza de que esta união de esforços é essencial para o estabelecimento de critérios de certificação das atividades e iniciativas que integrarão a rede oficial de Turismo Militar.
Não faltam motivos para esta rede, que se imporá com o tempo. Neste sentido, além do ‘site’ próprio e das publicações que têm sido feitas e da que virão à luz do dia, a DGRDN criou a Marca Turismo Militar.  Ainda a procissão vai no adro… Sairá dele?
A logomarca do Turismo Militar baseia-se na Esfera Armilar, instrumento de astronomia aplicado na navegação que, no decurso dos Descobrimentos, foi de relevância para Portugal e pode ser entendido como um forte símbolo da tecnologia náutica dos portugueses que, durante séculos, foram pioneiros na descoberta de novos territórios. Desenvolvido ao longo do tempo, através da observação do movimento dos astros em torno da Terra (???), este instrumento, constituído por um conjunto de armilas (anéis, braceletes ou argolas) articuladas que se movem separadamente e acrescido por uma banda diagonal que indica o movimento do sol nos 365 dias no ano, forma uma representação de um cosmos reduzido. Tornou-se um dos símbolos do “Pela Graça de Deus, Manuel I, Rei de Portugal e dos Algarves, d’Aquém e d’Além-Mar em África, Senhor da Guiné e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia, etc.”, tornando-se, desde o século XV, num elemento importante no brasão de armas português, que se associa a Portugal com facilidade. A Esfera, além de simbolizar Portugal e o seu passado, transmite dinamismo no presente a mirar o futuro, globalidade, abrangência, modernidade, tecnologia, história e envolvimento – tudo o que o Turismo Militar se propõe tratar.
Turismo Militar” e “TM Portugal” são marcas mistas registadas da DGRDN junto do Instituto Nacional da Propriedade Industrial, respetivamente com os n.os de processo 615193 e 615194.
O uso do selo da marca “TM Portugal”, atribuído pela DGRDN ao abrigo do respetivo Regulamento, confere cientificidade e credibilidade ao utilizador, assegurando a uniformização na qualidade dos produtos e serviços prestados. A utilização não autorizada destas marcas é proibida e, como tal, constitui ilícito contraordenacional. Com efeito, a DGRDN é titular do direito de propriedade e de uso exclusivo e, por conseguinte, tem o direito de impedir terceiros de usarem, sem o seu consentimento, no exercício de atividades económicas, qualquer sinal igual, ou semelhante, em produtos ou serviços idênticos afins daqueles para os quais a marca foi registada, e que, em consequência da semelhança entre os sinais e da afinidade dos produtos ou serviços, possa causar um risco de confusão, ou associação, no espírito do consumidor.
***
Entre os roteiros e rotas já definidos, contam-se o “Roteiro dos Museus e coleções Militares”, aRota da EN 2”, o “Passaporte da Rota EN2”, o “Roteiro dos Castelos da Bandeira Nacional” (Raia) e o “Roteiro dos Castelos da Bandeira Nacional” (Algarve).
No âmbito Roteiro dos Museus e coleções Militares”, dão-se a conhecer os Museus Militares e Núcleos Museológicos de Portugal, espaços emblemáticos que bem preservam a nossa história. Ao longo das suas 88 páginas, o roteiro mostra diferentes tipos de património (edificado, bélico, cultural e artístico) deixando o leitor surpreso pela abrangente panóplia de temas e acervos preciosos visitáveis em todo o país. Aí temos: o Museu Militar de Bragança, o Museu Militar do Porto, o Museu Militar de Elvas, o Museu do Ar (Alverca e Ovar), o Núcleo Museológico de Alverca, o Núcleo Museológico de Ovar, o Museu da Marinha (Lisboa), o Planetário Calouste Gulbenkian, o Museu Militar de Lisboa, a Casa dos Gessos (Lisboa), os Núcleos Museológicos n.º 1 e n.º 2 das Ex-Oficinas Gerais de Fardamento e Equipamento (Lisboa), o Núcleo Museológico do Porto, o Aquário Vasco da Gama (Oeiras), a Fragata Dom Fernando II e Glória (Almada), o Museu do Fuzileiro (Vale do Zebro), o Museu Marítimo Almirante Ramalho Ortigão (Faro), o Museu Militar dos Açores e o Museu Militar da Madeira.
De facto, a nossa memória e identidade comuns, igualmente preservadas no Património material e imaterial da Defesa Nacional, encontram nos museus e nos núcleos museológicos uma forma de perpetuar a presença e soberania de Portugal desde as suas origens. Ficam em realce, neste aspeto, os seguintes locais: Barreiro/Coina, Bragança, Elvas, Faro, Lisboa, Lisboa/Odivelas, Luso, Ovar/Maceda, Ponta Delgada, Porto, Sintra, Vila Franca de Xira/ Alverca do Ribatejo.
Sobre a “Rota da EN 2”, é de salientar que foi Estrada Real nos finais do século XIX, sendo em 1884 a Estrada Distrital n.º 128  e, posteriormente, a Estrada Nacional n.º 19-1.ª, assumindo definitivamente o título de Estrada Nacional 2 em 1944. E foi inscrita no Plano Rodoviário Nacional a 11 de maio de 1945. Considerada a terceira maior do mundo e a única desta tipologia na Europa, seguida da Route 66 nos EUA e da Ruta 45, na Argentina, liga Trás-os-Montes ao Algarve passando pelas Beiras e Alentejo. Tem o seu início no Km 0 em Chaves e termina no Km 737,260 km na cidade de Faro junto ao oceano Atlântico, depois de ter serpenteado por montes e vales (de 11 distritos do País e 35 concelhos). Faz parte da história e tem muita história.
Os locais a visitar são predominantemente: Abrantes, Aljustrel, Almodôvar/Santa Clara-a-Nova e Gomes Aires, Avis, Castro Daire, Castro Daire/Parada de Ester, Castro Verde/Ourique, Chaves, Chaves/Águas Frias, Chaves/Santo Estêvão, Chaves/Cimo de Vila da Castanheira, Chaves/Curralha, Chaves/Santo António de Monforte/Águas Frias, Faro, Góis, Lamego, Lamego/Lazarim, Lousã, Mealhada, Montemor-O-Novo, Mora/Brotas, Penacova, Santa Comba Dão, São Brás de Alportel, Sardoal, Sertã, Tondela, Viana do Alentejo, Viana do Alentejo/ Alcáçovas, Vila de Rei, Vila Marim/Quintela, Vila Pouca de Aguiar/Telões, Vila Real, Viseu.
Quanto ao “Passaporte da Rota EN2”, deve dizer-se que responde à importância e abrangência territorial da EN 2, disponibilizando diferentes paisagens, monumentos, espaços e sítios, o passaporte é editado pela Associação de Municípios da Rota da Estrada Nacional 2, com quem a DGRDN tem protocolo de cooperação na área do Turismo Militar materializado, na Rota da Estrada N2. O “Passaporte EN2” encontra-se à venda nos postos de turismo e câmaras municipais dos 35 concelhos aderentes ou através do endereço eletrónico geral@rotan2.pt.
No quadro do Roteiro dos Castelos da Bandeira Nacional, é conveniente dar uma nótula histórica para nos contextualizarmos.
Portugal é o estado mais antigo da Europa, remontando a sua História ao século XII, quando em 1139 Dom Afonso Henriques, rompendo com a soberania de Leão e Castela, declarou a independência do Condado Portucalense, reconhecida mais tarde por Afonso VII, seu primo, a 5 de outubro de 1143, subscrevendo o tratado de Zamora, e pelo Papa Alexandre III, a 23 de Maio de 1179, pela Bula Manifestis probatum, de 23 de maio de 1179.
Foi no reinado de Dom Dinis, em 1297, que a assinatura do Tratado de Alcanices, entre Portugal, Leão e Castela, veio, finalmente, firmar as fronteiras portuguesas. Foi assim que os castelos de fronteira se tornaram os símbolos emblemáticos da independência nacional, delineando os limites extremos do interior do país.
São várias as teorias explicativas e romanceadas para a origem dos castelos dourados representados no escudo e na Bandeira. Se por um lado existe uma teoria que os identifica como os castelos referentes às sete praças raianas consagradas pelos portugueses no referido Tratado de Alcanices – Roteiro dos Castelos da Bandeira Nacional (Raia) – uma outra, remete para as vitórias, durante o reinado de D. Afonso III durante a conquista do Algarve integrando-as na coroa de Portugal, então denominado Reino de Portugal e do Algarve. Seguindo ambas tradições, sem qualquer fundamento científico e de forma a abranger dois pontos diferentes do território continental Nacional, são apresentados dois circuitos da Bandeira de Portugal.
O “Roteiro dos Castelos da Bandeira Nacional” (Raia) inclui: Almeida, Almeida/Castelo Bom, Almeida/Castelo Mendo, Figueira de Castelo Rodrigo, Sabugal, Sabugal/Alfaiates, Sabugal/Vilar Maior, Vila Nova de Foz Coa/Castelo Melhor
O “Roteiro dos Castelos da Bandeira Nacional” (Algarve) inclui: Albufeira/Paderne, Castro Marim, Estômbar/Lagoa, Faro, Lagoa/Porches, Loulé, Loulé/Salir, Vila do Bispo/Sagres, Vila Real de Santo António/ Cacela-Velha.
***
Mais roteiros, rotas, circuitos, percursos e quartéis virão. E a História Militar de Portugal não se estudará apenas nas universidades e institutos politécnicos, mas também nas estradas, monumentos e equipamentos. Não será estudada somente por académicos e escolares, mas também por anónimos e conhecidos, fardados de turistas, viandantes, peregrinos e curiosos.  
Este arroubo turístico convencerá os governos da conveniência de umas forças armadas fortes, modernas, bem equipadas e em quem se possa confiar a defesa militar e o apoio humanitário?
Precisa-se de investimento e politicas amigas do país e dos portugueses!
2019.07.28 – Louro de Carvalho 

quinta-feira, 6 de junho de 2019

A ampliação repentina da corte de admiradores de Agustina


Obviamente que me revejo na postura dos académicos que, por ocasião da morte, velório e exéquias de Agustina Bessa Luís, porque evidentemente sabem do que falam, estudaram a obra e captaram aspetos relevantes da personalidade da escritora. Também aceito a postura da atual Ministra da Cultura, que disse em nome do Governo, na sua atitude discreta, embora assertiva, o que a um governante de bom senso cabe salientar.
Assim, gostei de ouvir Isabel Pires de Lima, professora catedrática que se dedica ao estudo e divulgação da nossa Literatura, a considerar a romancista (integrou Conselho Diretivo da Comunitá Europea degli Scrittori – 1961-1962) como “uma contadora de histórias absolutamente compulsiva” e a assegurar que “a obra romanesca de Agustina Bessa-Luís é de uma singularidade e torrencialidade que configuram uma espécie de apetência quase descontrolada pela ficção”.
Em declarações à Lusa, o Professor Arnaldo Saraiva, investigador científico e literário, ensaísta, cronista, crítico e poeta, refere que Agustina ocupa “o espaço da maior escritora que Portugal já teve” na memória do país. E explicitou:
Tivemos algumas escritoras importantes no século XX, de Florbela Espanca a Sophia de Mello Breyner Andresen e Maria Velho da Costa, mas de longe a maior figura feminina da literatura portuguesa será sempre Agustina”.
O insigne professor universitário, que fundou o Centro de Estudos Pessoanos e é um especialista na obra de Eugénio de Andrade, lembra a “escritora muito produtiva, que só em romances deixou cerca de quatro dezenas de obras e também inúmeras crónicas”, mas cujo legado também se vê em “livros infantis, teatro, contos, com um selo de qualidade invulgar em todas essas obras” – trabalho de “uma escritora absolutamente excecional”.
Apesar de, internacionalmente, não ser a “mais conhecida”, de que é exemplo o “Brasil, que a conhece pouco e onde Saraiva tentou, “desde 1965”, ajudar a revelá-la, é uma “personalidade humana invulgar, uma mulher sábia, bem portuguesa e bem ligada às coisas portuguesas”.
Arnaldo Saraiva conheceu esta mulher “atenta às relações humanas e laços sociais”, a destacada “conhecedora de espaços rurais e urbanos, sobretudo no Norte”, que procurou “entender algumas figuras da cultura portuguesa, de Santo António a Florbela Espanca e Vieira da Silva”.
Salta à memória “a companheira fabulosa para viagens ou para conversas risonhas, sobre isto e aquilo”, além da “excelente cozinheira” que fazia “doces maravilhosos” ou a mulher “muito irreverente”, mas “extremamente séria e intensa”, que tem na sua carreira “páginas incríveis, de escrita exaltante, envolvente, profunda e densa”, como recorda o ensaísta e crítico.
Deixa uma obra que será “cada vez mais objeto de estudo, análise, referência e citações”, por ser “muito rica e complexa, que fala muito de nós mesmos, mesmo quando parece falar do homem universal” – diz o professor, que reforça que “faz bem ler Agustina, mesmo quando alguns dos seus livros parecem ter alguns obstáculos”, até porque nos leva “para mundos que são afinal os mundos do desconhecido, os mundos enigmáticos que queremos perceber e que nos ajudam a perceber”, pois “encontramos ali, talvez, o que possamos definir como a alma portuguesa, se é que isso existe” ou, por outras palavras, “um espaço muito nosso”.
***
Porém, quem lhe presta melhor justiça é o Professor José Carlos Seabra Pereira, Diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, que nela vê, com António José Saraiva, “o segundo milagre do século XX português e, a par do brasileiro Guimarães Rosa, a mais original das contribuições da prosa lusa para a literatura mundial” – com romance, novela e conto, teatro e guião fílmico, biografia romanceada e crónica, ensaio e especulação aforismática, literatura infanto-juvenil –, pois “o mundo sortílego que a sua imaginação, a sua penetração psicológica e a sua magia verbal erguem, não deixa de ser um universo existencial sintomaticamente revelado” logo com Mundo Fechado (1948). 
E este lustroso académico desfia, embora em linhas sintéticas, mas pertinentes, as caraterísticas mais marcantes dos livros da escritora pluriforme, cuja obra abraça o romance que assume as feições histórico-corográficas com o espelho do realismo ou a construção ficcionista, sempre com cor e unção e, por vezes, até com a vidência e a oracularidade. E diz o professor:    
O universo romanesco de Agustina é atravessado pela volúpia ante o sentido trágico da vida, mas também por um sentido de orgulho perante o insondável abismo da morte (decisivo, afinal, porque «Ah, sim, a verdadeira presença está na morte!»). No entanto, vislumbra-se porventura outro sentido em momentâneas fulgurações do fluxo congeminativo e sentencioso que distingue o discurso de Agustina.”.
Assenta em que as personagens de Agustina “parecem pulverizar-se ou enredar-se na disseminação que o mundo nelas provoca”, porém, ao assumirem a crise, “parecem dispor-se a partir”, vindo “a imaginação mediatriz do narrador (e da autora textual) a advertir contra a verosimilhança fácil do senso comum” e a libertar “para o salto, a cargo das personagens ou do leitor, do existir nas situações para o Ser da origem transcendente”.
Agustina, segundo Seabra Pereira, “sobressai pela singularidade genial, eticamente norteada e esteticamente criativa, que é a da seriedade brincada da escrita sob o princípio da incerteza – com seus estilemas de cognição inferencial e sentenciosa, que dotam o discurso de uma aura sapiencial e conferem à sua receção um índice abissal de profundidade ou um índice sideral de projeção (mas também certamente, de quando em vez, motivos de reticente questionação)”. E a arte do texto “deslumbra quase sempre pela feição fulgurante, desconcerta, às vezes, pelo salto epistemológico sem grandes preocupações de irrepreensível nexo ou insofismável motivação na cadeia textual, leva outras vezes a suspeitar, além do rasgo de autoparódia, de certa componente lúdica em que a enunciação se compraz e que deixa o leitor dividido entre julgar-se privilegiado pela partilha do rito iniciático e julgar em risco a sua confiada boa-fé”.
Depois, frisa que a obra agustiniana “não pretende insinuar-se como literatura edificante”, mas “levantar e trazer à perceção estética um mundo que supostamente tem uma força íntima como impulso pregnante e como tecido conjuntivo”. E, “pensando na particular forma (nela subentendidamente literária) do testemunho que o homem deve deixar na História, cada um iluminando ‘com paixão uma realidade’, Agustina estatui que ‘O escritor, desde os seus começos, tem que obedecer a uma ideia, que é a mesma pela vida fora’, como dizia em 1979”, tendo frisado noutra oportunidade a urgência de “primeiro escolher uma ética”, que “não exclui a estética” e onde “a nossa personalidade está centralizada”.
Chamando a atenção para “a coerência da obra de Agustina”, diz que “é tal que os vetores fundamentais que a distinguem até A Ronda da Noite (2006) podem vislumbrar-se já nas suas primícias”, sendo que, “em dois textos seminais, até há pouco conservados inéditos – o conto Colar de Flores Bravias, de 1947, e a novela Cividade, de 1951 – já germina a conexão matricial a uma opção ética que é congénita da criação estética ou que nem sequer existe fora da configuração estética”, conexão que “toma a forma de tensão, se não de antinomia, entre um princípio do desejo (de ser) e um princípio da conservação (da ordem social) e da consequente tensão entre a ética/estética da singularidade sibilina e a ética social”. Enfim, conclui o professor, “questão de ética do desejo estético e questão de estética da ética do desejo”.
Salientando que, na ficção agustiniana, as relações humanas dependem sobretudo “de pressupostos familiares, sentimentais, etnográficos, eróticos, temporais, e de afinidades ou repulsões filhas de uma eletividade nascida em profundezas inconscientes” (e pouco da “hierarquia económico-social”) – “porque o que se revelava essencial nessa ficção agustiniana era a sondagem aberta e a expressão plástica das possibilidades nos circuitos de analogias cognitivas e cósmicas” – acrescenta a tudo isso “as consequências do espaço, físico e humano, percetivo e imaginário, empírico e simbólico, em que se realizam cada personalidade e suas relações interpessoais – em especial, aquela peculiar correlação entre tempo ritual e espírito do lugar que distinguirá a ficção da autora de A Brusca e o interseccionismo visionário da sua escrita, tal como a valoração de “mundo fechado” e a relação com um “mundo fechado”.
Por fim, destaca-se a alusão “à irónica duplicidade de primazia atribuída à linguagem como meio supremo de proximidade humana e de primazia da opção pertinente pelo silenciar da fala”, que surge “na abstenção do agir e do avançar” (no sentido hoje polarizador da narrativa de Gonçalo M. Tavares). Mas o lustroso professor anota que, “mesmo aí, é indelével o tom nietzschiano da liberdade na Necessidade e, oriundo do Romantismo originário, o grande sopro de saga do Espírito humano, na peculiar fenomenologia da imaginação arquetípica (forma do conteúdo) e na forte intromissão da consciência narradora e sua voz imperiosa, torrencial, a um tempo ácida e lírica, cruel e misericordiosa (forma da expressão) – correlatos da tematização axial de ‘o anterior tempo anónimo, o tempo do sangue, dos presságios, do ancestral cuidado’ (Eduardo Lourenço) e da ‘refração do inconsciente coletivo’ (António Quadros).
***
Em comunicado, a Ministra da Cultura lamentou a morte de Agustina Bessa-Luís, “autora de uma obra tantas vezes virada para o passado, mas sempre contemporânea, sempre presente, [que] marcou a escrita em português a partir dos anos 50, inaugurando um novo espaço ficcional, à imagem de outras grandes mulheres e que, em conjunto com ela, revolucionaram radicalmente a prosa em português, como Maria Velho da Costa ou Maria Gabriel Llansol”. E Graça Fonseca descreveu a longa carreira da escritora como “o legado de Agustina” que é “vasto, composto por personagens, visões da história, lugares e, acima de tudo, um percurso pessoal e autoral, únicos e exemplares”.
***
Entretanto, vieram figuras gradas da sociedade a elogiar a escritora, o que nunca tinham feito, mas que fizeram agora em nome do social e politicamente correto. Não esqueço que chegou a ser uma das três estrelas (Agustina, Fernando Pessoa e Bernardo Santareno) do programa de Literatura Portuguesa do 4.º Curso de Literatura Portuguesa do 12.º ano, quando este foi criado. A reforma de Roberto Carneiro deixou-a no acervo de obras que a escola podia adotar, mas a simplificação dos programas de Português de Manuela Ferreira Leite, com vista aos exames nacionais que passaram a realizar-se a partir de 1996, deixou A Sibila fora das prateleiras do supermercado. Por isso, sabe a pouco e a hipocrisia o hodierno elogio rasgado vindo de alguns.
A revista Sábado, saída hoje, dia 6 de junho, realça que a escritora, que escrevera à mão todos os seus livros, “esteve mais de uma década doente e retirada da vida pública, ao ponto de ser ostensivamente ignorada pelo meio cultural e pela generalidade dos media”, tanto assim que, “durante a participação na feira do livro de Guadalajara (México, 2018) – com uma comitiva de 40 escritores e mais de um milhão de euros gastos – não houve qualquer menção à maior escritora portuguesa, ainda viva”. Aliás, a Guimarães Editores pôs fim a uma relação com a autora que datava de 1954 (Parece que já não lhe reconheci interesse editorial!).
Era, segundo a Sábado, aquela que, vendo um papel em branco, lhe apetecia a escrever, “muitas vezes até na folha de rosto dos livros” em que lhe pediam “para fazer um autógrafo” e que, apesar de nunca ter frequentado a Universidade, as movidas estudantis, as tertúlias de literatos”, se tornou “mais culta, mais preparada, mais inteligente”, porque, na mulher que considerava a escrita como “uma confissão espontânea que coloco no papel, “não havia espaço para informações’, mas sim para conhecimento com todo o cortejo de glória e tragédias que ele traz”.
A escritora Hélia Correia recordava num colóquio na UTAD (Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro), em dezembro pp, quão assombroso era o conhecimento de Agustina, “que parecia saber tudo e sobre tudo tinha uma opinião, uma piada, uma tirada irreverente, uma conclusão na ponta da língua, como as suas personagens”. E, num encontro de escritores no Brasil, o poeta Hélder Macedo perguntou-lhe o que ela fazia que não tinha inimigos, ao que Agustina respondeu, gargalhando, que não os tinha, mas que os fazia. Ora, durante as seis décadas em que escrevia romances, peças de teatro, biografias, memórias, literatura infanto-juvenil, ensaios, guiões para filmes, crónicas, artigos de opinião, “foi sempre difícil de engolir pelo meio literário que tende a desdenhar dos que insistem em não idolatrar os deuses que ele insiste em proclamar”. Mesmo entre aqueles de quem o desdém não era de esperar, ele aflorava. Assim, a Sábado relata:
Quando, em 1948, publica o seu primeiro romance, ‘Mundo Fechado’, tinha apenas 26 anos, mas não se recolheu ao anonimato à espera de elogios. Mandou o livro para os maiores escritores vivos da altura: Miguel Torga, Aquilino Ribeiro, Teixeira de Pascoais. Torga foi o único que não lhe respondeu. Ofendida, Agustina mandou-lhe nova missiva onde o informava de que, quando passava junto à casa dele, tinha vontade de lhe atirar pedras aos vidros das janelas”.
***
Enfim, morreu a escritora portuguesa de maior fôlego romanesco (tanto no romance histórico como no da pura ficção), das mais genuínas em literatura infanto-juvenil e a mais intensa e plurifacetada; a mulher completa que alternava a escrita com a costura, sendo ela própria quem arranjava os seus vestidos e chegou a fazer peças de lingerie; a romancista de A Sibila ou de A Ronda da Noite; aquela que foi mandatária nacional da candidatura presidencial de Freitas do Amaral, diretora de O Primeiro de Janeiro, membro da Academia de Ciências de Lisboa, na Classe das Letras, da Academie Européenne des Sciences, des Arts et des Lettres, de Paris, e da Academia Brasileira de Letras; aquela que recebeu inúmeros prémios, algumas condecorações e o doutoramento honoris causa pela Universidade do Porto e pela UTAD – mas que dizia que “nenhum prémio, nem sequer o Nobel, a fazia tão feliz como comprar um vestido novo”.
Dom Manuel Linda, Bispo do Porto, que presidiu à missa exequial na Catedral do Porto, evocou, na homilia, a religiosidade da escritora natural de Vila Meã, Amarante, destacando “a condição humana” como uma das “marcas” da sua “vastíssima obra literária”, afirmando saber que “se prostrava muitas vezes sobre um oratório que tinha em casa”. E o prelado rezou:
Obrigado, meu Deus, que nos deste uma pessoa com tão alta categoria intelectual, religiosa e cristã, e obrigado, Agustina, por esta extraordinária lição de teologia que a tua vida acabou por nos dar”.
***
Resta aguardar pela publicação dos inéditos que a única filha de Agustina, Mónica Baldaque, anunciou que seriam em breve publicados, ela que, em 2013, referiu que estava a ser organizado o arquivo de Agustina, onde há “centenas de papelinhos escritos por si”, notas que registava em faturas ou agendas e “aforismos, pensamentos que iria utilizar na obra”.
2019.06.06 – Louro de Carvalho

terça-feira, 28 de maio de 2019

Biblioteca Vaticana, um local para frequentar o futuro


O Arcebispo Dom José Tolentino Mendonça, em entrevista à agência Ecclesia, publicada a 26 de maio, assinala a importância do património documental postado em 50 quilómetros de prateleiras da Biblioteca Apostólica Vaticana (num Salão de 70m x 11m) para o conhecimento dos saberes do cristianismo e dá conta da sua colaboração com o programa do pontificado de Francisco pelo trabalho das suas duas equipas, a da Biblioteca e a do Arquivo Secreto. 
***
Considerando uma biblioteca como um “grande património” e um “lugar de identidade”, em que os livros e objetos similares documentam e contam “uma história” de família, enfatiza:  
A nossa história vem de longe, são dois mil anos de história. É evidente que os primeiríssimos documentos, hoje conservados na Biblioteca Apostólica, são do final do século II. Mas remontam a uma tradição que pretende conservar as palavras, os ditos, os gestos do próprio Jesus.”.
E essa tradição estriba-se em dois lugares teológicos: a escuta da Palavra e a ação em memória de Jesus. E o prelado vinca os dois aspetos exemplificando: 
Aquela passagem de São Lucas que diz que Maria conservava no seu coração aquilo que a Jesus dizia respeito – o esforço é esse, que a Igreja sempre fez e é um esforço que se liga à Eucaristia, onde se diz ‘Fazei isto em memória de mim’. A conservação da memória foi sempre algo muito importante para as comunidades cristãs. Ao longo dos séculos a conservação da memória teve formas muito diferentes.”.
Em relação à memória da Biblioteca que lidera, testemunha o fraquinho do cristianismo pela pessoa humana e pela História contextualizando:
Esta [história], de que a Biblioteca Apostólica do Vaticano é diretamente herdeira, tem cinco séculos, nasce no meio de uma grande cultura humanista, onde o interesse pela teologia e as ciências sagradas se alia ao interesse por tudo o que é humano. É uma biblioteca 360º, tem uma latitude desde o saber teológico, à astronomia, matemática, arquitetura, medicina… Tudo o que é humano está dentro desta biblioteca e, neste sentido, é um espelho muito fiel da paixão do cristianismo pela pessoa humana e pela História.”.
Relata que, apesar de, após a sua entrada em funções, já ter sido incorporado um colaborador, é o mais novo de quantos ali trabalham, pelo que pediu a todos que o ajudassem a “entender a Biblioteca Apostólica”, e que tem encontrado “um testemunho muito grande” em todos, que “são um tesouro a par dos livros”, “os quais são de efetivamente tesouros “intermináveis”.
Sendo uma das tarefas da Biblioteca a catalogação e o estudo do próprio “material”, regista que “isso é uma tarefa para séculos”, que “sabemos, mais ou menos tudo, o que temos”, mas que é extraordinário ver o “significado de cada um dos volumes” e “as relações entre eles”. E, exemplificando com um exemplo português, observa:
Na Biblioteca nós temos uma quantidade muito significativa de livros de ciências e de marinhagem, da arte de navegar, do século XVI. É evidente que, dentro do amplo património da Biblioteca Apostólica do Vaticano, isto são coisas marginais. Mas, para um português que percebe que aqueles livros são exemplares raríssimos, que aqueles livros serviram para a obra da expansão marítima, que foram impressos em Lisboa ou Chaves, ou em Leiria, que têm nomes que estão no coração e na cultura, damos imenso valor às obras. Ver uma obra do Pedro Nunes, uma obra matemática ou ver o tratado de marinhagem, folheá-lo ou ver o cancioneiro galaico-português…”.
***
É de anotar que na sua crónica “Tesouros Portugueses”, na Revista do Expresso, de 24 de maio, no âmbito da rubrica “Que coisa são as nuvens”, apontava que é fácil “que qualquer cultura ou nação encontre na Biblioteca Apostólica um seu tesouro representado que esse seja um primeiro motivo para cultivar curiosidade, afeto e colaboração científica com este organismo”. E, falando de Portugal, menciona como “um dos documentos portugueses mais icónicos”, o “Cancioneiro da Vaticana” (copiado na Itália no final do século XV ou no início do século XVI), que reúne 1205 composições da lírica trovadoresca galaico-portuguesa (de todos os géneros), “tornando-se assim uma das fontes essenciais que documentam a emergência da nossa língua e literatura”. Depois, menciona, no quadro da literatura científica ligada a Portugal, o caso clamoroso do “Regimento do astrolábio e do quadrante”, “o mais antigo opúsculo conhecido e impresso com regras náuticas, por onde gerações de pilotos se iniciaram nas ciências da cosmografia e navegação e que teve uma edição na oficina de Herman de Campos, nos inícios de 1500”. E frisa:
Há cem anos que a historiografia portuguesa, partindo da descoberta que Joaquim Bensaúde fez na Biblioteca estatal de Munique fala apenas desse exemplar e de uma outra versão depositada na Biblioteca Municipal de Évora, desconhecendo o exemplar, em excelente estado de conservação, que se encontra na Vaticana”.               
E formula uma esperançosa hipótese:  
“Quem sabe se uma nova geração de historiadores portugueses se interessará, com o afinco e os meios necessários, em trabalhar os fundos da Biblioteca Apostólica e do Arquivo Secreto, tão decisivos para a explicação de Portugal”. 
***
Voltando à entrevista, diz que sente “grande alegria quando lá vão portugueses”. E, se lá vai um escritor, faz questão de lhe mostrar “o nosso cancioneiro do Vaticano” e comenta:
É maravilhoso ver a profunda emoção ao perceber como este interesse pelo humano e a ligação que a cultura permite, que é uma ligação que toca até á alma, está bem patente na Biblioteca Apostólica do Vaticano”.
Um antigo colaborador, já reformado, confessou-lhe:
Penso sobretudo que a Biblioteca é um cartão de visita ótimo do que é o Cristianismo ou do que é a Igreja, para um ateu ou para um não crente, porque ele entra aqui e fica em sentido, fica em alerta e cheio de perguntas”.
Ali fica-se “a pensar sobre o que é o Cristianismo ou a Igreja”. A Biblioteca “é um projeto tão grandioso e tocante, tão amplo e abrangente que não deixa ninguém indiferente”.
***
A Biblioteca (hoje existente) mais antiga da Europa (não a primeira biblioteca papal) construiu-se ao longo do tempo, com muitas doações. E os Papas são os grandes benfeitores da Biblioteca que é deles. “Foi o Papa Nicolau V (1447-11455) que ofereceu os 150 volumes iniciais” e a instalou a Biblioteca no Palácio dos Papas (Sisto V transferiu-a para o Salão Sistino no final do século XVI). Agora são 1 600 000 volumes impressos, a partir da aquisição de “vários fundos de família, fundos célebres, como da rainha Cristina da Suécia” (E “hoje continuamos a acolher” – diz o Arcebispo). E tem mais de 180 mil volumes de manuscritos e arquivos, 8,6 mil incunábulos, 300 mil moedas e medalhas, 150 mil gravuras e desenhos e 150 mil fotografias. (Os arquivos secretos do Vaticano foram separados da Biblioteca no início do século XVII). Os muitos volumes mostram o interesse, nos vários pontificados, por todos os saberes e todos os Papas têm contribuído para o aumento do património da Biblioteca. E José Tolentino fala sobre os livros que tem recebido de Francisco:
Ele tem oferecido coisas muito pessoais, como livros de etnologia da América Latina, da Argentina, coisas linguísticas que são muito preciosas para aquela zona do mundo de onde provém o Santo Padre. Depois, também livros que o apaixonam. Ele até contou isso na viagem para a JMJ no Panamá: antes de partir, tinha enviado uns livros preciosos sobre Santo António de Pádua e eu, na resposta à oferta, disse ‘agradeço muito, Santidade, os livros de Santo António de Pádua e Lisboa’. Para dizer como os livros que ele oferece é aquilo que ele considera como o mais precioso que pode estar na sua Biblioteca, refletindo muito os encontros que ele tem, aquilo que as pessoas sabem que é o gosto dele, o que tem mais a ver com o carisma dele.”.
Porém, a maior oferta foi a visita do Papa ao espaço, foi a primeira visita de Francisco ao seu Arquivo, à sua Biblioteca. E diz Dom José Tolentino:
Foi um momento de grande comoção para todos nós, que ali trabalhamos. Preparamos uma série de objetos, andamos pelos espaços, mostramos algumas coisas do tesouro da Biblioteca, uma das quais as moedas que aparecem citadas nos Evangelhos. Ele deteve-se, especialmente, sobre duas pequeninas moedinhas, aquelas [de] que se diz que a viúva pobre ofereceu tudo quanto tinha ao tesouro do Templo. Jesus disse que ela ofereceu mais do que todos os outros.”.
E o Papa, amante dos livros como qualquer habitante de Buenos Aires, disse “que nós, ali, apesar de sermos uma biblioteca patrimonial, onde a dimensão do passado e da memória está muito presente”, temos de ali “em cada dia frequentar o futuro”. De facto, “a Biblioteca tem de estar ligada ao futuro do Cristianismo”.
Também o Papa emérito, “homem dos livros, do estudo, da racionalidade”, queria ser bibliotecário da Biblioteca Apostólica – assim o pediu, quando era Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé a São João Paulo II –, mas não o foi, foi Papa.
O bibliotecário e arquivista da Santa Sé tem “dois governos, o da Biblioteca e o do Arquivo Secreto, que são duas equipas, integrando ambas com cada prefeito e vice-prefeito”. Em cada semana, há uma manhã dedicada ao governo da Biblioteca e do Arquivo, onde se passam em revista os principais projetos, as questões, a agenda da semana, o que é preciso fazer, as programações. E o bibliotecário tem o gabinete próprio, donde vai acompanhando todas as questões internas que se põem à instituição. Há um trabalho de ligação da Biblioteca à Cúria Romana, à Secretaria de Estado, ao Santo Padre e ao exterior. E o Arcebispo dá um exemplo:
Só em 2019, a Biblioteca emprestou muitos dos seus manuscritos, volumes, para dezenas de exposições no mundo. Até chegar a isso, tudo começa com um encontro com o embaixador dessa nação, ou seja, todas as semanas um dos meus trabalhos é receber um embaixador, perceber a natureza dos projetos, começá-los, acompanhar esse interesse – muitas vezes, suscitar, aprofundar o interesse pelo nosso mundo –, dar a conhecer a Biblioteca Apostólica, para que ela seja verdadeiramente um serviço da Igreja Católica, naquele lugar, aos milhares de estudiosos que, por ano, vão ali estudar, mas também àquelas pessoas que nunca entraram na Biblioteca Apostólica e que vão ver um volume, numa exposição, nos seus países.”.
Sobre as afinidades dos dois espaços – Biblioteca e Arquivo – Dom Tolentino explica:
De um lado, temos livros; do outro, documentos. De um lado, temos uma amplitude maior de estudiosos (um cientista pode interessar-se por livros da Biblioteca Apostólica, mas também um filólogo, alguém da literatura, um arquiteto: são pessoas muito diferentes), no Arquivo, não quer dizer que não haja pessoas a fazer pesquisas a partir de outros pontos de vista, mas temos prevalentemente o nível da história e da escrita da história.”.
Quanto ao Arquivo Secreto, o arquivista não é parco em enaltecer-lhe o papel, a ponto de reconhecer que, sem ele, é impossível, por exemplo, compreender “a aventura da modernidade”, em particular a história da Europa, embora o Arquivo tenha muitas coisas da Idade Média. E o chefe do Arquivo explicita:  
Enquanto, muitas vezes, as nações nem sequer têm embaixadores em todos os países, ou o percurso dos embaixadores fica muito dependente dos ciclos políticos, a Santa Sé mantém uma continuidade com os núncios, por exemplo, muito marcada. Isso quer dizer que nós temos uma documentação, um olhar muito constante, muito homogéneo ao longo dos séculos. E temos recolhas fabulosas de informação, que são uma chave fundamental para a história, para entender não só o passado, mas também o presente.”.
***
Questão atualíssima é a referente à decisão de Francisco decidiu abrir os arquivos relativos ao pontificado de Pio XII (1939-1958) para esclarecer o papel da Igreja Católica durante a II Guerra Mundial, sobretudo na relação com os judeus. José Tolentino esclarece que “o Arquivo organiza a sua abertura, não por anos, mas por pontificados”. Assim, a abertura destes arquivos será em março de 2020 – sobre um longo pontificado, num período crucial da história contemporânea.
Efetivamente, “um momento central é o da II Guerra Mundial, da perseguição aos judeus”, mas várias questões, como a preparação do Concílio (1961-1965) – que surgirá no pontificado de São João XXIII –, “o clima, a relação com a teologia, a aspiração das várias Igrejas”, aparecem já no pontificado de Pio XII, pontificado muito rico, nomeadamente para Portugal, e interessante também pela questão de Fátima, pela questão do regime político e por aquilo que se vivia nas várias dioceses. E a abertura muito esperada do arquivo atrairá, na certa, muitos historiadores.
No atinente às acusações de que Pio XII é alvo e se a abertura do Arquivo mostrará não terem fundamento as acusações, nomeadamente a de falta de proteção aos judeus, o arquivista explica:
A nossa posição, no Arquivo, é abrir os documentos. Foram 13 anos de trabalho, eu cheguei há meses, mas existe uma larga equipa a trabalhar todos os documentos. Eles serão abertos, tornados acessíveis, as pessoas poderão ler e tirar as suas conclusões.”.
Não obstante, adianta:
Há notas muito impressionantes, que são algumas já conhecidas, mas que ali ganham uma ligação documental muito forte. Duas delas, para referir: uma, a grande ajuda do Papa e da Santa Sé aos prisioneiros de guerra, é um trabalho incrível. No Arquivo Secreto temos uma quantidade de documentação verdadeiramente extraordinária.”.
A seguir, destaca “a dimensão da caridade de Pio XII”, sendo “verdadeiramente assombroso” o seu perfil neste capítulo. E José Tolentino explana:
Das milhares e milhares e milhares de pessoas que escreviam ao Papa, a pedir uma ajuda, uma ajuda material, não houve nenhuma que não fosse atendida. E o registo desse trabalho, muitas vezes silencioso, que, se calhar, o grande público não sabia, porque é uma relação pessoal, que se estabelece com o Papa, é uma coisa verdadeiramente impressionante.”.
Com razão diz o Papa Francisco que “a Igreja não tem medo da história”. E é esta atitude que levou Francisco a decidir abrir o pontificado de Pio XII, porque “não tem medo da história e temos submeter-nos também, com humildade, ao juízo da própria história”.
***
Questionado por sustentar, numa conferência em Lisboa, que uma biblioteca é uma “farmácia da alma”, asserção aplicada à Biblioteca Apostólica, responde com a tradição egípcia:  
Quando os faraós abriam bibliotecas nas partes mais remotas do reino, colocavam no pórtico da biblioteca essa bela frase: ‘Farmácia da alma’. Uma biblioteca é, de facto, uma farmácia da alma: por um lado, porque uma biblioteca com a dimensão da Biblioteca Apostólica dá-nos uma noção da história. Às vezes, nós pensamos que um problema ou uma questão é apenas do presente e lidamos com isso com o dramatismo de ser um caso único, mas uma biblioteca dá-nos uma profundidade de olhar, mesmo em relação à história da Igreja.”.
Depois, a Biblioteca Vaticana tem uma enorme amplitude. E o Arcebispo Tolentino explana:
O Cristianismo (…) interessa-se por tudo aquilo que é humano, é uma polifonia, não é uma monodia. Nós temos ali uma diversidade polifónica, de vozes, de estilos, de endereços, de correspondências, que acaba por ser uma grande riqueza.”.
Contra o drama da Igreja do pecado da autorreferencialidade da Igreja, denunciado pelo Papa, a Biblioteca “recentra a Igreja na sua missão fundamental” de serviço, em nome de Deus, “à pessoa humana”. E a vontade de servir a humanidade “está ali bem patente”.
***
Encarando o serviço da Biblioteca e do Arquivo como serviço de colaboração com o Papa, o Arcebispo diz que o trabalho do bibliotecário é colocar este tesouro, este património “em sintonia com as linhas-mestras deste pontificado” e porfia, à semelhança do mister colaborante dos outros serviços da Cúria Romana:
Nós queremos fazê-lo ali, também de forma humilde, na Biblioteca e no Arquivo, colocando-os como expressão daquilo que é o desígnio e o programa deste pontificado, que tem sido uma verdadeira primavera para a Igreja”.
Anuindo à opinião de Paulo Rocha, o entrevistador, de que tudo ocorre a partir do perfil tolentino “de diálogo com outros saberes, de pontes com outras culturas…”, assegura que “na Biblioteca é muito difícil ter outro perfil”, pois ela, “por sua natureza, é dialógica, é um lugar de diálogos” e “o trabalho de política cultural é suscitar encontros”. Depois, confessa:
Para mim, são águas que me são muito familiares, de certa forma a minha vida preparou-me para este desafio, muito inesperado, muito surpreendente, que o Papa Francisco me colocou. Sinto também que estou a aprender muito, neste lugar, que também me desafia muito, me inspira a ir mais longe.”.
Por fim, sente-se completamente ao serviço do Papa, dado que a Biblioteca e o Arquivo são dele. E, no espírito das duas comunidades que trabalham diariamente naquelas instituições, há o serviço de colaboração com o Pontífice, o que dá um sentido à missão destes trabalhadores, “que não teria se fosse só um projeto individual”: estão “todos juntos a colaborar para que o Papa possa governar a Igreja e ser a figura de Pedro, hoje”.
***
Resta que os historiadores e outros homens da ciência pesquisem e produzam conhecimento.
2019.05.27 – Louro de Carvalho