quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Que horror, temos um Papa que acredita no Evangelho!

A frase é referida pelo padre Adolfo Nicolás, prepósito-geral da Companhia de Jesus, em entrevista a Gian Guido Vecchi, publicada no jornal Corriere della Sera, no passado dia 8 de outubro, e postada em [http://www.ihu.unisinos.br/noticias/536058-e-preciso-ouvir-o-mundo-senao-o-mundo-nao-nos-ouvira-entrevista-com-adolfo-nicola, acedido a 16-10], com tradução de Moisés Sbardelotto.
E a exclamação transcrita em epígrafe integra um quadro caricatural que o entrevistado viu em Espanha e que representa um padre desesperado, com as mãos na cabeça: “Que horror, temos um papa que acredita no Evangelho!”. A caricatura espelha bem a tensão existente entre a linha do Papa argentino, a da refontalização necessária da Igreja e aplicação das atitudes evangélicas aos tempos e homens de hoje nos diversos recantos do mundo, e a atitude conservadora da defesa de uma Igreja que acumulou pelos séculos todo um complexo de tesouros de coisas novas e velhas e que pretende tornar-se equipolente ao denominado “depósito da fé”.
O Papa quis e pediu que falassem claro, com liberdade e franqueza, na escuta daquilo que o Espírito tem a dizer à Igreja. E falaram os bispos, os cardeais, os peritos e os casais convidados. Produziram um relatório intercalar sobre os assuntos discutidos na primeira semana dos trabalhos do Sínodo.
Uns, agora, dizem que o relatório não corresponde à verdade; outros clamam que não reflete o pensamento e a posição do conjunto dos padres sinodais; outros levaram a mal o facto de o terem conhecido pela comunicação social (não apreciando a linha de transparência sinodal e vaticana); e outros ainda se queixam de que não foram tidas em conta as vozes dos tidos por mais conservadores. Por seu turno, o grupo de padres sinodais próximos de quem elaborou o relatório explica que se trata de um mero documento de trabalho, que tem em vista fazer o ponto de situação das matérias discutidas – relatio disceptationum (relatório dos debates) – ou dar conta do andamento dos trabalhos da assembleia do sínodo, muito longe de conclusões finais, faltando ainda percorrer metade do percurso sinodal. Do sínodo há de surgir um relatório final com sugestões de decisão para o Santo Padre considerar com inteira liberdade. Por outro lado, deve ter-se em conta que, a seguir a esta assembleia de 2014, outra está convocada para daqui a um ano, a qual se destina a aprofundar as matérias ora debatidas e a reexaminar nas igrejas locais, com base no aludido relatório final, e a oferecer a resposta doutrinal e pastoral aos problemas suscitados pelo mundo (que “é preciso ouvir”, senão “não nos ouvirá”) e assumidos no debate.
Ninguém, por menos habituado que esteja ao fenómeno, deve escandalizar-se com os momentos de tensão, mesmo quando o cardeal Müller, o Prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, disser e tornar a dizer que o relatório é uma vergonha. Aquilo que os crentes devem aceitar é o produto final dos concílios e dos sínodos – depois de aceite e mandado publicar pelo Sumo Pontífice. Não é cada ponto de discussão nem a forma do debate que fará doutrina ou norma pastoral. Todos os concílios foram palco de acesas discussões e lugar de desemboco de grandes lições de teologia. Foi assim já no Concílio de Jerusalém, como se pode ler no livro dos primórdios da vida da Igreja nascente, o livro dos Atos dos Apóstolos (15,6-29).
Foi a grande assembleia dos líderes das comunidades cristãs, em Jerusalém, que discutiu a questão da necessidade de impor ou não a circuncisão aos cristãos de proveniência pagã.  Quando o Evangelho foi  anunciado aos não judeus  e estes fizeram a sua opção de fé em Jesus Cristo e, depois  de  batizados, passavam a  conviver  com os cristãos de origem judaica, que eram circuncidados, surgia o problema da desigualdade de situações perante a Lei de Moisés. Alguns dos cristãos provenientes do judaísmo entendiam que os gentios que se tornassem cristãos precisavam da circuncisão. Por isso, se desencadeou a magna reunião de Jerusalém para decidir. Entre os presentes, são mencionados: Paulo, Barnabé, Tiago, Simão, os apóstolos e presbíteros.
A fórmula da declaração da decisão tomada é usada até hoje nas decisões conciliares: “Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós......” (cf. At 15,28): “De facto, pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não vos impor nenhum outro peso, além destas coisas necessárias: que vos abstenhais das carnes imoladas aos ídolos, do sangue, das carnes sufocadas e das uniões ilegítimas. Fareis bem preservando-vos destas coisas. Passai bem.” (At 15,23-29).
Ora, o Papa crê no Evangelho da misericórdia, e bem: “vai em paz e não tornes a pecar” (Jo 8,8); “a tua fé te salvou, vai em paz” (Mc 5,34; Lc 17,19); “em verdade vos digo que os publicanos e as meretrizes entrarão primeiro do que vós no reino de Deus” (Mt 21,31); haverá mais alegria no céu por um pecador que se arrepende do que por noventa e nove justos que não precisam arrepender-se (Lc 15,7). Mas este evangelho também nos dá conta de disputas elucidativas. Leia-se, por exemplo: Mt 18,1-5; Mc 9,33-37; Lc 7,36-50; 9,54;15,25-32; Jo 7,25-53. E o que é de aceitar é a conclusão formulada por Jesus ou sob a sua autoridade.
A pari, seria bom que os padres sinodais cressem, com o Papa, ao menos no Livro dos Atos dos Apóstolos, onde se veem sérias discussões, a presença da Mãe de Jesus, eleições, união, partilha de bens (por entrega direta aos apóstolos ou por coleta), ensino, oração, pregação, “Fração do Pão”, assistência às mesas, martírio e conclusões – tudo sob a assistência do Espírito. Por outro lado, o Livro dos Atos compendia a pregação de Pedro, que assume o essencial do quérigma, expande o anúncio da Boa Nova aos gentios, testemunha a unidade, a solidariedade e o martírio, bem como todo o furor missionário de Paulo e companheiros.
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Voltando a Adolfo Nicolás, cuja entrevista é um comentário ao decurso dos trabalhos sinodais, o conhecido como “papa negro” começa por assentir que o sínodo pode, segundo a intenção papal, ser lido como o cumprimento do Concílio Vaticano II:Há muitas forças que se afastaram um pouco, distantes do modo de pensar das pessoas, e Francisco está ciente disso”. Por isso, “quer que o Concílio seja uma realidade e não haja mais esse para a frente e para trás (…), mas que a Igreja vá em frente, porque a humanidade vai em frente e não se pode esperar”. E assegura que, tal como o Pontífice citou o Concílio duas vezes na homilia de abertura do Sínodo, também nas apresentações dos Padres sinodais recorrem as referências conciliares.
Assim, o jesuíta-mor acredita que se trata de um retorno muito sólido ao Concílio. E explicita o seu pensamento: fala-se da Igreja, de estarmos num mundo imperfeito, da luta das pessoas, dos problemas das famílias e dos matrimónios; e veem-se pastores preocupados com a situação real, não com ideias abstratas. A questão já não reside no modo de comunicar ou forçar as pessoas a seguir uma vida ou outra, mas como escutar.
Embora haja muitas resistências (ampliadas por boatos), parece que as situações mais problemáticas estarão a ser enquadradas em termos da lei da gradualidade, segundo a qual, “é preciso ser positivo e ver as coisas boas, mesmo que a forma não seja perfeita”, não se podendo buscar apenas o perfeito ou nada”. Pelos vistos, o Papa segue a linha inaciana do crescimento gradual, não repentino (“o mundo não é preto e branco”). Assim, embora não se tenha ouvido isto na aula sinodal, “é melhor um casal que se quer bem do que um casal em que não há amor, não há nada, mesmo que tenham sido completados todos os ritos da Igreja”. Nicolás conta que, no tempo em que estava na Ásia, “sempre ouvia repetir que, para a mentalidade ocidental, europeia, o perfectum é quando tudo é perfeito; ao invés, se houver um defeito qualquer, já não é bom, é malum. E contrapõe que, “se há algo de bom que pode crescer, é preciso alimentá-lo, alimentar a vida em todos os campos”.
E abona a sua posição com a asserção do cardeal Martini, que poderia constituir um grande contributo para o sínodo – “a pergunta sobre se os divorciados podem fazer a comunhão deveria ser invertida: como a Igreja pode chegar a ajudá-los, com a força dos sacramentos?”.
Não pode continuar a suceder que se tire um remédio a quem mais dele precisa: quem chegou a divorciar-se terá sofrido dificuldades, sofrimentos… e depois recebe a marginalização.
E não é necessário mudar a doutrina: “o problema não é doutrinal, mas de acompanhamento”. Os nossos princípios vêm daquilo que Cristo proclamou. “No entanto, como alguns na Aula explicaram muito bem, sempre há um espaço para a interpretação, e esse espaço é pastoral. Os exegetas fazem um grande serviço à Igreja, mas disseram a sua palavra e estão um pouco exaustos. A questão continua sendo pastoral. Não se trata de redefinir nada, mas de encontrar uma linguagem, uma experiência diferente”.
O Papa vem advertindo: não carreguem sobre as costas das pessoas “pesos insuportáveis”(cf Mt 23,4). É preciso criar uma linha de maior abertura, flexibilidade: “não falar de princípios, mas encontrar a realidade, acompanhar as pessoas”. Estar à escuta do Espírito “é toda a vida inaciana”. A Inquisição não ficou contente com Santo Inácio de Loyola, “examinaram-no oito vezes”. Quem ouve o Espírito não está vinculado a normas dos homens. Os inquisidores “viam um homem livre”, o que não era bom. O Espírito sopra onde quer e quem ouve a sua voz, mas não sabe donde vem nem para onde vai (cf Jo 3,8). E isso dá uma enorme liberdade.
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Sabe-se agora que a assembleia, embora ainda marcada por perplexidades no seio dos círculos menores ou grupos linguísticos, concluiu a revisão do relatório intercalar e vai publicar todas as propostas – que vão manter a dialética entre a linha da doutrina e encorajamento às famílias cristãs e apostólicas e a linha da misericórdia a aproximação às situações problemáticas, não assumíveis doutrinalmente, mas profundamente humanas. O cardeal arcebispo de Viena D. Christoph Schönborn disse que o Sínodo tem procurado “acompanhar” a história das pessoas no momento atual, seguindo as indicações do Papa: ‘não julgar, acompanhar’ a história da família”, uma forma de pensar que não é “relativismo”.
Embora o respeito pela pessoa não signifique aceitação de todos os comportamentos humanos, o arcebispo de Viena, mostrando-se “muito impressionado” pelo interesse mediático que esta assembleia sinodal provocou, defendeu a importância de “um alargamento da visão da família” e de ver o seu “papel fundamental”, para lá das “questões morais”. O Papa, segundo as palavras de Schönborn, não pediu para ver “tudo o que não funciona” na família, mas quis, “antes de tudo, mostrar a beleza e a necessidade vital da família”. Assim, convidou-nos a ter um olhar atento sobre a realidade”.
Por seu turno, o porta-voz do Vaticano, padre Lombardi, confessou aos jornalistas que a decisão de publicar as propostas dos diferentes grupos linguísticos revela “um caminho de abertura e transparência”. As ‘centenas’ de propostas e as mais de 260 intervenções nas sessões gerais, durante a primeira semana, levarão à publicação do chamado ‘relatório do Sínodo’, documento conclusivo da assembleia extraordinária convocada pelo Papa – documento cujo texto final dificilmente será conhecido ou publicado no sábado, mas que será objeto de reflexão nas Igrejas locais, com vista aos trabalhos do próximo sínodo dos bispos.
O diretor da sala de imprensa da Santa Sé revelou, ainda, que o Papa reforçou a equipa de redação deste relatório final com a nomeação do cardeal sul-africano D. Wilfrid Fox Napier e do arcebispo australiano D. Denis Hart. Estes juntam-se a outros seis responsáveis nomeados anteriormente pelo Papa – os cardeais Gianfranco Ravasi, presidente do Pontifício Conselho para a Cultura, e Donald W. Wuerl, arcebispo de Washington (EUA); D. Victor Manuel Fernández, reitor da Pontifícia Universidade Católica da Argentina; D. Carlos Aguiar Retes, bispo de Tlalneplanta, no México, e presidente do CELAM – Conselho Episcopal Latino-Americano; D. Peter Kang U-Il, bispo de Cheju e presidente da Conferência Episcopal da Coreia; e o padre Adolfo Nicolás, prepósito-geral da Companhia de Jesus.
O Vaticano vai publicar ainda a tradicional mensagem final da assembleia sinodal, este sábado, da responsabilidade de outra equipa de redatores, após ter sido aprovada pelos participantes.
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Nada se oculta. Vêm à tona as perplexidades, as hesitações, os maus humores, a doutrina, tal como as esperanças, as misericórdias, a magnanimidade de Deus e a sua compaixão pelos dramas dos seus filhos – os pródigos e os “mais velhos”.

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