segunda-feira, 6 de outubro de 2014

O nosso “Dia da República”

Sejamos republicanos ou não, o 5 de outubro marca a História do Portugal do século XX, passando renovada e reforçada essa marca para o século XXI, na mudança de milénio.
Por mais desmandos que se registem (de qualquer ordem que eles sejam) durante o regime republicano, eles não excedem em nada os desmandos que ensombram períodos significativos do regime monárquico português.
Recordem-se, a título de exemplo, atos intencionados e muitos deles consumados de alguns dos reis: Afonso I ameaçou cortar com a sua espada a cabeça do cardeal Guido de Vico, legado do Papa; Pedro I teve tanto de gago como de justiçoso, tendo o segundo predicativo levado o monarca a castrar o escudeiro Afonso Madeira e a arrancar o coração a dois dos executores da sua querida Inês de Castro; o Príncipe Perfeito mandou executar o Duque de Bragança, por cuja alma pediu, depois, que se rezasse; e José I deu cobertura ao processo dos Távoras, ideia e ação de Sebastião José.
Tudo isto e o mais que se poderia aduzir não podem fazer obnubilar os excessos da República, a ponto de ela ter perdido a face em alguns momentos, embora sempre os corifeus do regime tivessem mantido o rótulo republicano, mesmo quando adoravam o presidente-rei (de pouca dura) ou quando instituíram a Ditadura Militar ou Ditadura Nacional, que deu origem à “República unitária e corporativa” do Estado Novo. Mas os excessos não podem cavar o menosprezo dos valores republicanos, como a igualdade perante a lei, o acesso aos cargos públicos, a não discriminação por qualquer ordem de razões, o exercício de todos os direitos fundamentais (pessoais, económicos, sociais, culturais e políticos), a fruição das liberdades e a certeza das garantias.
O complexo valor da República é tão respeitável que – já o referi algures – Bento XVI, quando visitou Portugal em 2010, felicitou o país pelo centenário da República.
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Estes considerandos servem de pano de fundo ao respigo de algo do que se disse neste 5 de outubro de 2014.
De rasgados encómios à República, cujo regime fora proclamado há 114 anos da varanda dos Paços do Município da capital, o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa passa às vantagens da descentralização de poderes para os municípios, sem grandes despesas, a exemplo do que ele promovera no âmbito da transferência de competências do município para as suas freguesias e almeja a recuperação do feriado de outubro e do de dezembro, recentemente desaparecidos.
Entretanto, o Presidente da República, embora oportunamente, denuncia desabridamente a possibilidade de o sistema político implodir, putativamente sob a responsabilidade dos partidos políticos. Se é certo que os candidatos à governança vêm, nos últimos tempos, prometendo soluções políticas de governo, que esquecem e contradizem totalmente após a tomada de posse, não será esse o único motivo por que os portugueses se divorciaram da matéria política por desencanto ou náusea. Há também outros motivos, como: o salto dos governantes para lugares de extremo conforto pessoal e profissional em Portugal ou no estrangeiro; a influência na colocação de familiares e amigos; a miscigenação entre negócios e política; o clientelismo partidário; o aparelhismo dos partidos; e o viciamento da escolha dos candidatos a deputado, por habitual “dictat” do aparelho partidário.
Por outro lado, não é menos fortemente negativa a atitude de quem sabe aquilo que quer e para onde vai, mas, por trás do estilo austero inspirador de seriedade, origina ou sanciona a desertificação da agricultura com os subsídios à não produção ou ao abate de culturas, a sobrelotação quase monocultural da mancha florestal, o desmantelamento das marinhas (pesqueira, mercante e bélica), o eclipse das principais vias ferroviárias e a rarefação das grandes empresas.
Ora o atual inquilino de Belém não pode esquecer-se de que foi Ministro das Finanças e valorizou a moeda; exerceu o cargo de Primeiro-Ministro durante uma década; a seguir, durante a década de pousio, escreveu o demolidor artigo da “má moeda” e declarou que a vida política ativa era de momento pouco interessante; e agora, como Supremo Magistrado da Nação, tem caucionado habitualmente, com muito raras exceções, toda a política de desmando e de excesso, que tarde e a más horas anatematizou, e a política de austeridade, de empobrecimento generalizado e de emprateleiramento da economia, bem como agora a “política da troika sem troika” (como refere Luís fazenda). E, como lamenta Ferro Rodrigues, devia ter feito a sua própria autocrítica, o que não fez.
Porém, se o Governo, o Parlamento, os Partidos e a Justiça (tudo instituições democráticas!) se deixaram invadir pelo populismo (que potenciará exponencialmente a abstenção), se praticam “a repulsa dos cidadãos mais qualificados para o exercício de funções públicas”, se são enormes os prejuízos pelo facto de o país não ter “as competências certas” nos altos cargos da função pública – então resta ao Presidente demitir o Governo com fundamento no n.º 2 do art.º 195.º da CRP (O Presidente da República só pode demitir o Governo quando tal se torne necessário para assegurar o regular funcionamento das instituições democráticas, ouvido o Conselho de Estado). Importa impedir que o sistema político sofra a implosão, que Sua Excelência vislumbra como iminente. Em último caso, porque os homens são para as ocasiões, o Presidente pode optar pela atitude republicana da renúncia ou pelo republicano murro na mesa público que dê resultados (a dissolução do Parlamento, com marcação de eleições e participação ativa do cidadão presidente na campanha). Salus reipublicae lex suprema esto!
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Por seu turno, Marcelo Rebelo de Sousa, um dos comentadores da República, não gostou de que os deputados da esquerda pretendessem apagar a história com a retirada de alguns dos bustos da exposição Cem Anos de Presidência, porque não é lícito não assumir a história na sua totalidade, no que estamos de acordo.
Todavia, Marcelo cortaria o mal pela raiz: não concorda com a exposição. E aduz dois motivos, a falta de qualidade, e a falta de sentido da mesma exposição. Quanto à falta de qualidade, todos os juízos de valor são possíveis, mas não podemos esquecer que se trata de uma exposição caricatural, que detém o seu valor estético e crítico. Nesse caso, talvez pudéssemos anatematizar as produções do Rafael Bordalo Pinheiro ou os cartoons de António.
Quanto ao facto de fazer sentido ou não a exposição, Marcelo aduz ter já transcorrido o centenário. É certo que a República tem 114 anos, mas a presidência tem um pouco menos. Por outro lado, o comentador acha que o Presidente da República nada tem a ver com o Parlamento. Aqui, Deus lhe perdoe: está mesmo distraído. É certo que o Presidente da República é um órgão de soberania diferente dos demais. No entanto, no sistema parlamentarista, por que já passámos, o Presidente era eleito e destituído pelos deputados. Ainda hoje os deputados o podem destituir em determinada circunstância (cf n.os 1 e 3 do art.º 129.º da CRP). Porém, toma posse perante a Assembleia da República (cf n.º 1 do art.º 127.º da CRP); e a sua renúncia materializa-se em mensagem dirigida à mesma Assembleia da República (cf n.os 1 e 3 do art.º 129.º da CRP). Por outro lado, promulga ou veta os decretos do Parlamento e dirige-lhe mensagens. E, quando lá é recebido, não fica em bancada parlamentar nem em galerias: ocupa a mesa da Presidência ao lado direito do Presidente da Assembleia da República (fica a mesa com presidência bicéfala).
Marcelo faz bem em frisar a separação dos poderes, mas não pode esquecer a sua interdependência e cooperação. E a casa parlamentar é consensualmente reconhecida como a “Casa da Democracia”, a qual, além da sua missão essencialmente política, pode e deve ter concomitantemente objetivos culturais.

É a globalidade ou dimensão holística (ou “católica”, no sentido originário do termo) da democracia em República!

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