sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Portugal continua a monopolizar V Centenário da 1.ª circum-navegação?



Portugal continua a ser acusado de tentar eliminar Espanha das comemorações pentacentenárias primeira volta ao mundo. E é o espanhol ABC que volta à carga sobre a alegada desvalorização que Portugal faz do envolvimento do espanhol Sebastián Elcano na volta ao mundo iniciada por Fernão Magalhães há 500 anos. E cita, para o efeito, as declarações do historiador José Manuel Garcia ao DN, há 15 dias.
Na verdade, o diário espanhol insiste em acusar Portugal de “monopolizar” as comemorações dos 500 anos da primeira circum-navegação mundial, iniciada, sob a égide de Carlos I de Espanha, por Fernão de Magalhães, em 1519, e concluída por Sebastián Elcano, em 1522, após a morte do navegador português. Com efeito, segundo o jornal, o papel de Elcano na viagem não está a ser devidamente enaltecido em Portugal.
E, para continuar a sustentar essa ideia, o ABC deu relevo a declarações que o historiador José Manuel Garcia fez ao DN. Num artigo publicado a 19 de janeiro, intitulado “Portugal acusado de tentar eliminar Espanha da primeira vota o mundo”, Garcia afirmou que Elcano “fez o feito de dar a volta completa ao mundo ilegalmente”, já que na viagem de regresso a Espanha teve de usar a rota do cabo da Boa Esperança, contra indicações expressas do rei espanhol Carlos I e, depois, imperador Carlos V.
E o ABC escreveu no passado dia 5:
As palavras do historiador português José Manuel Garcia surpreenderam pelo seu contundente etnocentrismo. Segundo ele, os espanhóis ‘desesperaram’, quando Fernão de Magalhães morreu antes de fazer o caminho de volta e tiveram que recorrer à proposta portuguesa de regressar pelo Cabo de Boa Esperança. ‘Foi uma questão circunstancial’, conclui o polémico intelectual.”.
Mas o diário não se fica pela crítica ao historiador; critica também o Primeiro-Ministro português “por atirar mais achas para a fogueira”. Em causa está um artigo de opinião de António Costa publicado no Le Monde Diplomatique, de que o ABC transcreve um trecho, referindo que o ano de 2019
Dará uma oportunidade única de celebrar os dois vínculos [dos países ibero-americanos] através do programa das Comemorações do V Centenário da circum-navegação sob a direção de Fernão de Magalhães (2019-2022), navegador que ligou os nossos dois continentes e os seus dois oceanos, deixando o seu nome na geografia desses lugares e um legado de abertura do mundo ao conhecimento mútuo”.
Vinca o diário espanhol que, mais uma vez, Portugal quer brilhar à custa da eliminação do papel de Elcano. Outro exemplo negativo que o jornal dá é a candidatura a património da UNESCO da Rota de Magalhães, uma das iniciativas inseridas no V Centenário, protestando contra o Governo espanhol por não se insurgir contra tal atitude do Governo português.
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Não me parece que Portugal esteja a desvalorizar Elcano ou a Espanha só por ao falar de Magalhães no V Centenário da circum-navegação, omitindo Elcano, embora não o negue. Com efeito, a viagem foi a expensas de Espanha e protagonizada pelo português Magalhães. A continuidade do comando por Elcano foi circunstancial, embora importante. E a sua importância não fica aumentada nem diminuída por ter eventualmente sido a 5.ª escolha.
Em termos de justiça, uma comunicação conjunta de Portugal e Espanha deve assinalar Magalhães e Elcano. O povo de Israel também fez a saída do Egito e a maior parte do percurso do deserto sob a condução de Moisés, mas a entrada na Terra da Promissão já ocorreu sob a condução de Josué, por via da morte de Moisés. E os israelitas não apagam o nome de um nem o do outro. Porém, para os hebreus, o grande legislador e condutor é Moisés.   
Assim, nada me repugna, entretanto, que, em separado, Portugal toque o sino por Magalhães e Espanha o toque por Elcano. Fazem os portugueses e os italianos coisa parecida a propósito de Santo António: os portugueses celebram-no como Santo António de Lisboa, por ter nascido em Lisboa, e os italianos, como Santo António de Pádua, por ter morrido em Pádua.  
Não obstante, é de reconhecer que Fernão de Magalhães é um navegador português, mas que empreendeu a viagem sob a égide e a expensas do Rei espanhol porque o Rei português Dom Manuel I rejeitou o empreendimento, pelos vistos, temendo que a causa não fosse favorável à Coroa portuguesa. Apesar de tudo, não podem os portugueses ser impedidos ou ver diminuída a sua pretensão de celebrar o evento e o navegador só por o seu ato ser em prol de Espanha. Com efeito, o mundo inteiro acabou por beneficiar do conhecimento e das relações que a viagem propiciou. Aliás, o ABC bem podia ter feito justiça à Ministra do Mar portuguesa, que, na apresentação do programa das comemorações do V Centenário, há uma semana, sublinhou que a candidatura da primeira volta ao mundo a património da humanidade da UNESCO será apresentada por Portugal e pela Espanha. Ana Paula Vitorino justificou a apresentação conjunta com o facto de a viagem ter sido iniciada por um português e terminada por um espanhol.
Garcia sustenta que o percurso feito sob o comando de Elcano foi ilegal, por ter selecionado, para o regresso a Rota do Cabo, contra as indicações de Carlos I. Porém, ao tempo, não havia telegramas nem correio eletrónico. E quem estava à distância não tinha a capacidade de medir as circunstâncias do lugar e do tempo atmosférico. 
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O predito historiador diz não compreender a reação do ABC, vincando que as suas afirmações se baseiam em factos. E, assegurando que o objetivo não era dar a volta o mundo, sustenta:
Ninguém está a tirar o mérito a Sebastián Elcano, mas não foi ele quem dirigiu de início a expedição. Só o fez nos últimos meses e foi a quinta escolha. Aliás, nem ele nem Fernão de Magalhães tinham o objetivo de dar a volta ao mundo.”.
Depois, explica:
É necessário compreender a circunstância de Fernão de Magalhães, ao conceber e iniciar, em 1519, a sua grande viagem para ocidente, pretender chegar apenas às Molucas, na Ásia, sem ter como objetivo uma circum-navegação. Com efeito, Fernão de Magalhães nunca deu a entender, de forma alguma, ser essa a sua vontade, pois o projeto que alimentou consistia em ir às Molucas por uma via ocidental.”.
E acrescenta:
O navegador, ao querer voltar às ilhas por ocidente, depois de lá ter estado em 1512, sabia que iria fazer a segunda parte de uma volta do mundo, mas de forma indireta, sem ter a preocupação de fazer uma volta ao mundo direta e completa”.
Quanto ao grande mérito e feito de Juan Sebastián Elcano, diz o historiador:
Foi o de concluir a primeira volta ao mundo depois de ter passado a comandar a nau Victoria após a morte de sucessivos comandantes desse navio. Com grande esforço ele comandou o regresso a Espanha dos sobreviventes da expedição, completando assim a primeira volta ao mundo em continuidade. Só o fez porque teve de seguir, como último recurso, a bem conhecida rota do cabo da Boa Esperança, a qual, por ser portuguesa, lhe estava oficialmente interdita pelo seu soberano Carlos V, e por isso, como já atrás sublinhámos, cometeu então uma ilegalidade, contra a qual Dom João III muito se insurgiu, em 1522.”.
E José Manuel Garcia frisa que aqueles factos estão provados através das ordens de proibição dadas por Carlos V, pelo que, “nesse sentido, Elcano completou a volta ilegalmente”.
A terminar, o historiador sublinha que “o mais importante é que Fernão de Magalhães foi o primeiro homem a dar dado uma volta ao mundo, mas não consecutiva, pois deu-a em duas etapas”. A 1.ª etapa, entre 1505 e 1513, foi de Lisboa às Molucas, ao passo que, a 2.ª etapa, entre 1519 e 1521, foi de Sanlúcar de Barrameda às Filipinas.
Por seu turno, o El País escreveu recentemente sobre a participação de Magalhães e de Elcano na 1.ª volta ao mundo, elegendo-a como ponto da “luta entre os espanhóis e os portugueses”. Com efeito, se não são os governantes a cavar a divergência, são os jornalistas, os empresários, os comentadores ou os franco-atiradores. Mas fixação no espírito de luta hoje é paupérrima.
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É de recordar que, em meados de janeiro, o ABC acusava Portugal de tentar branquear a história no programa das comemorações dos 500 anos da circum-navegação de Fernão de Magalhães e na candidatura à UNESCO da Rota de Magalhães.
Essas iniciativas, como referiu em 2018 a Estrutura de Missão das Comemorações do V Centenário da Circum-Navegação, pretendem “reconhecer o papel, passado e presente, de Portugal e dos portugueses para a promoção do conhecimento, do diálogo intercultural e da sustentabilidade do planeta, contribuindo para uma sociedade mais justa, inclusiva e com maior bem-estar”. E, quanto à candidatura a património mundial reconhecido pela UNESCO – já desde 2016 que a Rota de Magalhães consta na lista indicativa de Portugal – não há quaisquer referências a Juan Sebastián Elcano, o espanhol que acabou por terminar a viagem de Magalhães, depois de este morrer em 1521 nas Filipinas, nem “um reconhecimento patrimonial conjunto que contemple tanto Espanha como Portugal em harmonia” – dizia o ABC, que acrescentava não ser reconhecido “o papel preponderante [de Espanha] no feito”, referindo que o monarca português Dom Manuel I havia rejeitado o financiamento para a viagem que acabou por ser prestado pela Coroa espanhola, além de se recordar que Portugal tentou “com todas as armas evitar esta travessia”.
O Ministério da Cultura espanhol, contactado pelo ABC, afirmou solicitar ao embaixador espanhol na UNESCO que elabore um pedido formal sobre a proposta portuguesa.
Contudo, a classificação pela UNESCO da Rota de Magalhães não deverá ocorrer num futuro próximo, pois, em março de 2018, apenas o Santuário do Bom Jesus do Monte, em Braga, e o Real Edifício de Mafra passaram à fase seguinte da candidatura a Património Mundial.
Apesar das contestações veiculadas pelo ABC, em setembro de 2018, o então Ministro da Cultura português, Luís Filipe Castro Mendes, e o seu homólogo espanhol, José Guirao Cabrera, anunciavam, em Lisboa, uma exposição conjunta sobre Fernão de Magalhães e davam conta da colaboração dos dois países nas comemorações. Disse então o Ministro espanhol:
Cada país tem a sua respetiva comissão, que se reuniram na semana passada, e cada um está a elaborar o seu programa, e hoje, justamente, falámos disso, que as duas grandes exposições que se vão fazer em Espanha e Portugal [se fundam] numa só exposição, e que essa exposição conjunta hispano-portuguesa seja a que viaje pelo mundo, para dar essa ideia de unidade, a par de outras atividades que se podem fazer conjuntamente e de que estamos a começar a falar”.
Postura convergente revelaram, em conferência de imprensa, nos meados de janeiro, o Ministro dos Negócios Estrangeiros português, Augusto Santos Silva, e o Ministro de Assuntos Exteriores, União Europeia e Cooperação espanhol, Josep Borrell Fontelles.
Ao DN o já mencionado historiador português José Manuel Garcia, autor de A Viagem de Fernão de Magalhães e os Portugueses (2007) e atualmente a trabalhar noutra obra sobre o navegador português, esclarece que se trata de um empreendimento espanhol com o génio de um português, sustentando:
O feito de Fernão de Magalhães é um feito luso-espanhol. Até direi mais: é um feito europeu, na medida em que Fernão de Magalhães foi acompanhado por 239 homens de seis nacionalidades diferentes. 10% eram portugueses, entre eles alguns dos responsáveis principais.”.
Explicando como acabou por acontecer o que foi uma espécie de aliança perfeita entre o génio de Magalhães e as intenções espanholas, o historiador afirma que “não há dúvidas nenhumas de que foi um empreendimento castelhano”. Carlos V aceitou o serviço do português por ser ele o único que podia fazer o empreendimento de ir as Molucas – valorizadas como o “berço de todas as especiariascomo ele se comprometera a fazer. E reitera:
Foi sob a alçada de Carlos V – na altura o rei Carlos I – que o empreendimento foi realizado, embora protagonizado por um português revoltado com o rei português [D. Manuel I]. Carlos V aceitou o serviço de um português porque ele era o único que podia fazer o empreendimento de ir as Molucas como ele se comprometera a fazer. Ao serviço dos portugueses Fernão de Magalhães nunca faria a viagem que fez.”.
Porém, Fernão de Magalhães morreu no caminho, em luta contra aborígenes, e os espanhóis, desesperados, tiveram de recorrer a uma solução que lhes estava proibida: o caminho português do Cabo da Boa Esperança. E coube a tarefa de completar uma circum-navegação direta, ao comando da nau Victoria, a Juan Sebastián Elcano, “que tinha estado sempre na sombra, era uma figura secundária”. Segundo o plano original, a viagem deveria ter continuado com outro percurso que não daria a volta ao mundo – volta essa que implicou tornar a última parte da viagem ilegal, segundo as normas vigentes ao tempo e contra as diretivas de Carlos I, uma vez que implicava atravessar domínios portugueses, nos termos do Tratado de Tordesilhas.
Garcia lembra que Sebastián Elcano, reconhecido e celebrado em Espanha, mas não mais longe, levou a cabo um feito que “foi uma coisa de circunstância”. E nota que Magalhães, mesmo tendo morrido antes do final da expedição, acabou por completar uma volta ao mundo e foi, aliás, o primeiro homem a fazê-lo, embora em duas vezes, pois, como se disse acima, “ele já tinha feito a 1.ª parte da volta, quando tinha ido com os portugueses de Lisboa até às Molucas”.
O historiador reconhece a ironia de Portugal querer celebrar a circum-navegação que tentou a todo o custo boicotar. Com efeito, o rei Dom Manuel, ao saber que Fernão de Magalhães começara a viagem, “mandou uma armada de 5 navios para a Índia, destinados a dar cabo dele, se o encontrassem nas Molucas” que então pertenciam a Portugal, como Fernão de Magalhães terá verificado.
Também o académico espanhol Agustín Rodríguez González disse ao ABC:
Foi um empreendimento espanhol. Tratava-se de chegar ao arquipélago das Molucas por outro caminho distinto do português, que atravessava o Índico para chegar ao Extremo Oriente.”.
E este professor universitário, autor da obra La primera vuelta al mundo (2018), referiu que os portugueses “enviaram barcos armados contra a expedição”. Assim, por medo de ser detido, Elcano teve de evitar as escalas. Apenas terá feito uma, em Cabo Verde, onde vários marinheiros foram detidos.
Por seu turno, Enriqueta Vila, membro da Real Academia Espanhola, afirma que Portugal tentou, como pôde, boicotar a viagem e que é “uma verdadeira ousadia tentar fazer ver que [a circum-navegação] foi uma obra” portuguesa.
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Dá-me a impressão de que os políticos (ou melhor os governantes) têm uma postura mais tolerante e benevolente que alguns historiadores. O feito de Magalhães-Elcano teve projeção mundial. Não interessa hoje discutir se a 2.ª parte da viagem foi legal ou ilegal. Ela tinha de ser feita com os recursos disponíveis. Se era legítimo torpedeá-la à face dos tratados, era também lógico, por uma razão vital e patriótica dar-lhe prossecução.
Não vi ninguém dizer que a circum-navegação fosse obra portuguesa. Até se sublinha que fora boicotada por receio de ser desinteressante para a nossa Coroa. Parece que hoje se diria que o projeto era do Estado espanhol sob a direção científica dum curador português.
Enfim, a 1.ª circum-navegação abriu ao mundo novas rotas do conhecimento e das relações.
2019.02.08 – Louro de Carvalho

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