quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

No 88.º aniversário da Rádio Vaticano


A 12 de fevereiro de 1931, há 88 anos, um dia após o 2.º aniversário do Tratado de Latrão, Pio XI inaugurou a “Statio Radiophonica Vaticana”, o tesouro tecnológico de então construído por Guglielmo Marconi para abrir as fronteiras do mundo ao Magistério dos Papas.
Passou, como era desejo do Pontífice, a ser a voz do Estado da Cidade do Vaticano, minúsculo em termos geográficos e populacionais, mas importante ponto de referência para a catolicidade e ponte de contacto entre as diversas soberanias que viessem aceitar a sua mediação e a sua autoridade moral. 
Guglielmo Marconi tinha 56 anos. E, dois anos antes, Pio XI, que queria uma estação de rádio de última geração para a recém-criada Cidade do Vaticano, fez-lhe a proposta. E, apenas quatro meses após a assinatura do Tratado de Latrão (a 11 de junho de 1929), o inventor da rádio visitou o Papa no Vaticano. Estava acompanhado por Francesco Pacelli, homem-chave nas negociações entre Santa Sé e Estado italiano. E logo começaram os trabalhos de construção e, aproximando-se o 2.º aniversário do Tratado, que sancionou  a independência da Santa Sé, aproximava-se também a inauguração da rádio que iria garantir ao centro visível da Igreja um maior grau de liberdade, na certeza de que a palavra é o maior sinal dessa liberdade.
Alessandro De Carolis refere ao Vatican News como tudo sucedeu.
Sobre uma discreta tramontana, em Roma, por volta das 16,30 horas, a multidão despreocupada estava reunida em diferentes pontos do centro, porque era um dia especial e os aglomerados de pessoas notavam-se sobretudo nos lugares onde houvesse um aparelho de rádio. Não era uma novidade propriamente, mas era um acontecimento diferente que despertava curiosidade, induzida pelos jornais e pelas lojas de material elétrico, que penduraram altifalantes do lado de fora. Entre a Via IV Novembre, Piazza Vittorio, Via Nazionale e em outros lugares reuniam-se centenas de pessoas que se tornavam milhares, a que se somavam as de Turim e de outras cidades italianas, bem como as de Melbourne, Nova Iorque, Québec e não só.
E havia outra multidão apinhada no espaço de alguns cómodos, cheios de circuitos e maquinaria, que atordoavam de maneira ensurdecedora. Era o edifício construído, em dois anos, na colina atrás da Basílica de São Pedro, no verde dos jardins do Vaticano, com as suas torres e uma arquitetura sóbria, um prédio que não passava de “mais um do imenso canteiro de obras em que Pio XI transformou a Cidade do Vaticano após a assinatura do Tratado de Latrão”. Os muitos olhares convergiam para o grande microfone hexagonal sustentado por quatro molas dentro dum círculo de metal, que fazia de ponto de convergência e de encontro dos olhares.
O Papa Pio XI chegou ao local dez minutos antes da hora marcada.
Diante do microfone, Marconi emocionado sublinhou o aspeto mais marcante da novidade. Depois de “vinte séculos” de magistério pontifício que se “fez ouvir” com os documentos, é a “primeira vez” que este pode ser ouvido “simultaneamente” pela “voz viva” do Papa. E Pio XI, que tinha escrito a primeira radiomensagem pelo próprio punho, não queria dececionar as expectativas. Assim, às 16,49 horas, o Sumo Pontífice entoou em latim uma oração-apelo-universal que reuniu, diante da “invenção admirável de Marconi”, a criação e os sofredores, Deus e os governantes, ricos e pobres, patrões e operários.
Passada uma hora, Pio XI e Marconi estavam nas cercanias da Casina Pio IV, sede da Academia das Ciências e, na presença de estudiosos membros da associação, o construtor da Rádio do Papa foi solenemente nomeado membro da Academia a pedido do diretor da emissora pontifícia, Padre Joseph Gianfranceschi, jesuíta e físico de fama internacional.
As pormenorizadas e vivas crónicas do dia refletiam o interesse e o clamor concitados pela primeira transmissão papal ao vivo da história – sucesso devido também à excelente qualidade da transmissão. Além dos jornais dos dias subsequentes que noticiaram “aquela hora extraordinária”, mais factos ocorreram. Voltaram ao hotel os reis do Piemonte para ouvirem a mensagem de rádio e formaram-se longas filas de habitantes nas ruas de Veneza para a participação na competição anunciada pelo jornal inglês “The Universe” com um prémio de 5 libras esterlinas para quem enviasse o melhor pensamento sobre como ouviu a voz do Papa.
As observações do repórter do “Times” apontavam que o discurso papal tinha sido “um pouco mais rápido do que os dos lábios acostumados a transmissões de rádio” e o presidente da Sociedade Nacional Americana de Radiodifusão referia, de Nova Iorque, a Marconi que tinham sido captadas perfeitamente as transmissões em “lugares como Nassau, nas Índias Ocidentais”. E O L’Osservatore Romano daqueles dias relatava uma correspondência de Praga dum médico surdo que ouviu a voz de Pio XI no rádio, graças a um aparelho que ele inventou. O título era: “Até os surdos o ouviram”. Não era milagre, mas era um excelente momento de humorismo.
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Num contexto de pujança das redes sociais, a Rádio do Papa completa 88 anos. Com efeito, em véspera de Dia Mundial da Rádio, comemorado a 13 de fevereiro, é de relevar que houve vários momentos marcantes que fizeram a história da emissora pontifícia. Do primeiro programa científico até às postagens da era social, passando por oito Papas até à informação multimédia de hoje produzida pelo Vatican News, Vatican Media e Rádio Vaticano Itália. No início da década de 80 do século XX, Fernando Bea, figura prestigiada na Rádio Vaticano, deu vida a um livro sobre os primeiros 50 anos de vida da emissora pontifícia. E, no final da obra, confessou:
O dinamismo excecional e o zelo apostólico de João Paulo II de agora em diante vão tornar-se, dia a dia, hora a hora, o ritmo da sua Rádio, que vai seguir cada passo”.
Bea intuiu que o dinamismo do jovem Pontífice polaco traria reflexos no trabalho da Rádio Vaticano, mas não podia imaginar a revolução que trazia o Papa que “veio de um país distante”.
O livro de Bea conta à minúcia, com informações e episódios, os primeiros anos da emissora vaticana, obrigada a mostrar sua capacidade de “influencer”, em vez de se limitar a fornecer à Santa Sé um eficiente e tranquilo serviço de radiotelegrafia, propiciado a Pio XI por Marconi.
A este respeito, Eugenio Bonanata e Andressa Collet dão conta da importância da Rádio Vaticano, referindo que a propaganda fascista (e depois a nazista) que já usava a rádio de maneira moderna, mas também sem escrúpulos, faz da Rádio Vaticano um contrabalanço através de ensinamentos do Papa e das informações de primeira mão oriundas dos episcopados europeus – ideologias liberticidas que em muitos países estavam consumindo a Igreja. Porém, quando tudo precipitava o conflito, o célebre pregão de Pio XII Nada se perde com a paz, mas tudo pode ser perdido com a guerratransformava a emissora vaticana num “baluarte de racionalidade contra a loucura destrutiva que envenenava o resto do éter”. O livro de Bea recorda uma reportagem, produzida pela Statio Radiophonica Vaticana durante os anos da II Guerra Mundial (e tantas vezes citada), de mais de um milhão e 200 mil mensagens transmitidas do Guiché de Informações (entre os anos 40 e 46) que ajudaram tantas mulheres a ter notícias de maridos, irmãos e namorados desaparecidos ou prisioneiros de guerra. E o renascimento depois da guerra para a Rádio Vaticano constituiu um salto exponencial com a inauguração, em 1947, do Centro de Transmissão de Santa Maria de Galeria que suporta, em nível tecnológico, o esforço editorial realizado nos anos do Concílio. O Vaticano II foi um teste jornalístico sem precedentes para a emissora, que “aprendeu” a falar em 30 línguas e que consegue contar todas as fases de produção com 3 mil horas de transmissão e 300 mil Km de fitas de gravação.
São Paulo VI era um jornalista e pretendia que a “sua” Rádio oferecesse chaves de leitura cristãs dos acontecimentos do mundo. Queria jornalistas que agitassem as consciências, não apenas técnicos que fizessem funcionar a máquina. A este respeito, em 30 de junho de 1966 quando, no meio do equipamento do Centro de Transmissão, explicava querer melhorar a Rádio Vaticano dizia: Para nada serve ter um magnífico instrumento, se depois não o sabemos utilizar magnificamente.
Por isso, a partir de 1970, as salas do Palácio Pio, ocupadas por várias siglas católicas, começaram a dar espaço a redações e estúdios. Depois, no ano de 1978, o ano dos três Papas, 72 dias de fogo afetavam os ritmos bem compassados da emissora. Assim, depois dos tempos da cobertura das primeiras viagens do Papa Montini ao exterior com poucos jornalistas e das transmissões ainda com menos, surge o tsunami que muda tudo, com o primeiro Papa polaco.
O gesto de São João Paulo II infringir o protocolo e falar à multidão no dia da eleição constituiu um presságio do ímpeto com que a Rádio Vaticano iria quebrar esquemas e hábitos consolidados. O Pontificado de Papa Wojtyla é contado no segundo dos dois livros, de 2011, editados pela LEV (Livraria Editora Vaticana), que sintetizam os primeiros 80 anos de história da Rádio Vaticano.
O autor da segunda parte é Alessandro De Carolis, que trabalha no jornalismo vaticano desde o Jubileu de 2000. E é justamente o Ano Santo Jubilar, com as suas 6 mil horas de transmissão, que se transforma no divisor de águas entre a Rádio Vaticano pré-Internet e a sucessora que mudaria várias vezes a pele para se adaptar aos condicionamentos impostos pela tecnologia e pelas mutações da web e das redes sociais, ou seja, aquele “areópago da comunicação moderna”, como a definiu Bento XVI na sua visita à Rádio a 3 de março de 2006.
Nesse areópago, o Papa Francisco estabeleceu por Motu proprio uma nova direção para os organismos de comunicação social do Vaticano (Centro Televisivo Vaticano, Libreria Editrice Vaticana, L’Osservatore Romano, Pontifício Conselho para as Comunicações Sociais, Rádio Vaticano, Sala de Imprensa da Santa Sé, Serviço Fotográfico, Serviço Internet do Vaticano, Tipografia Vaticana e o serviço de Twitter do Sumo Pontífice: @pontifex) reorganizando-os sob um único dicastério, o Dicastério para a Comunicação (resultante da transformação da Secretaria para a Comunicação) – um desafio aberto, que “fala as mil línguas da interatividade e que requer a máxima credibilidade, própria de um veículo institucional e durante o breve segmento do tempo real”. Tudo isto à distância dos 90 anos dos transmissores de Marconi mostra que, “para fazer funcionar um novo motor, às vezes é necessário o coração de uma válvula velha”.
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Na base disto está o Tratado de Latrão, cujo 90.º aniversário passou a 11 de fevereiro, e graças ao qual foi resolvida a Questão Romana, permitindo cicatrizar uma ferida de mais 50 anos.
A este respeito, em 10 de outubro de 1962, nas vésperas da abertura do Concílio Ecuménico Vaticano II, o então arcebispo de Milão, cardeal Giovanni Battista Montini, fez um discurso no Capitólio, inaugurando um ciclo de conferências sobre os concílios ecuménicos.
Recordando o fim do poder temporal do Papa, ocorrido com a Tomada de Porta Pia, em 1870, o futuro São Paulo VI, disse:
Parecia um colapso, e para o domínio territorial pontifício foi. Pareceu então, e por muitos anos sucessivos, a muitos eclesiásticos e a muitos católicos a Igreja Romana não poder renunciar e dever acumular a reivindicação histórica da legitimidade de sua origem com a sua função indispensável, pensou-se que aquele poder temporal deveria ser recuperado, reconstituído”.
Não obstante, prosseguia o Cardeal, “a Providência, agora vemos bem, tinha organizado as coisas de maneira diferente, jogando quase dramaticamente nos acontecimentos”. E o papado “retomou com vigor extraordinário as suas funções de Mestre de vida e de testemunho do Evangelho, de modo a elevar-se a tal altura no governo espiritual da Igreja e na irradiação moral sobre o mundo, como nunca antes”.
Durante quase 60 anos aquela ferida não cicatrizou completamente. E Montini anotava:
Alguma coisa faltou na vida italiana na sua primeira formação, apesar da sua unidade interior, a sua consistência espiritual, a sua humanidade patriótica e, consequentemente, a sua plena capacidade de resolver os problemas da sua sociedade desigual, necessitada de novos sistemas, e desde então atravessada por correntes agitadas e subversivas. Por sorte nossa, alcançámos uma composição satisfatória com a conciliação famosa de 1929 e com a afirmação da liberdade e da democracia no nosso país.”.
O jovem Montini, inserido na vida da Secretaria de Estado, não acolheu com o mesmo entusiasmo a notícia, no momento da assinatura do Tratado de Latrão. As diligências tinham sido iniciadas em 1926. Pio XI socorreu-se do advogado romano Francesco Pacelli, irmão mais velho de Eugénio Pacelli, futuro Secretário de Estado e depois Pontífice, naquele momento Núncio Apostólico em Berlim, que redigiu o esquema do tratado destinado a encerrar o conflito entre o Papa e o Estado Italiano. E, o Tratado de Latrão, composto por dois documentos distintos, o Tratado, que reconhecia a independência e a soberania da Santa Sé, fundando o Estado da Cidade do Vaticano, e a Concordata, que definia as relações civis e religiosas na Itália entre a Igreja e o Governo italiano, foram assinados, a 11 de fevereiro, em São João de Latrão, pelo cardeal Pietro Gasparri e por Benito Mussolini.
O Tratado e a Concordata foram acolhidos com um suspiro de alívio por boa parte do mundo católico. O que os governos liberais não fizeram em 60 anos de Estado unitário foi feito pelo governo fascista, liderado pelo ex-socialista Mussolini. O Papa voltava a ser realmente soberano, mesmo só com um quilómetro quadrado de território, mas que serviu para representar a sua total independência e autonomia em relação a qualquer outra autoridade.
O Bispo de Roma não tinha mais um consistente domínio temporal para administrar, mas a autonomia e a soberania naquele quilómetro quadrado representavam uma vitória póstuma do Beato Pio IX, porque admitia que para realizar plenamente a sua missão espiritual, o Pontífice não deveria estar sujeito a nenhum Estado.
2019.02.12 – Louro de Carvalho

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