terça-feira, 17 de março de 2015

O “Jubileu da Misericórdia 2015/2016”

No passado dia 13 de março, no 2.º aniversário da sua eleição para o Sumo Pontificado, o Papa Francisco anunciou um Ano Santo extraordinário, o Jubileu da Misericórdia, centrado na misericórdia de Deus, no Deus que a todos convida a aproximarem-se dele e incita à virtude da misericórdia. Fê-lo na homilia da Celebração Penitencial quaresmal de preparação para a Páscoa, com que abriu a ação “24 horas para o Senhor”, iniciativa proposta pelo Pontifício Conselho para a Nova Evangelização, com vista a promover em todo o mundo “a abertura extraordinária das igrejas para convidar à celebração do sacramento da reconciliação” (cf Comunicado da Sala de Imprensa da Santa Sé, de 13 de março).
E foi àquele Pontifício Conselho que Francisco confiou o encargo da organização do Jubileu da Misericórdia, “para que possa dinamizá-lo como uma nova etapa do caminho da Igreja na sua missão de levar a todas as pessoas o Evangelho da misericórdia” (vd homilia papal de 13 de março).
O ano jubilar será anunciado oficial e solenemente com a leitura e publicação da respetiva bula junto à “Porta Santa” no Domingo da Divina Misericórdia, festa instituída por João Paulo II e que coincide com o II Domingo da Páscoa. O seu início será assinalado com a abertura da “Porta Santa” em São Pedro no dia 8 de dezembro deste ano de 2015, solenidade da Imaculada Conceição de Maria, a Mãe de Misericórdia, e o seu termo ocorrerá no dia 20 de novembro de 2016, com a celebração da solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo, “rosto vivo da misericórdia do Pai” (vd homilia papal de 13 de março).
Após a abertura da Porta Santa em São Pedro, abrir-se-ão sucessivamente as “portas santas” existentes nas Basílicas de São João de Latrão, Santa Maria Maior e São Paulo “extra muros”. A abertura da Porta Santa significa a oferta aos fiéis de um percurso extraordinário de vida para a Salvação.
É de anotar a coincidência da abertura do Ano da Misericórdia com o dia da comemoração cinquentenária do encerramento do Concílio Vaticano II, o que representa um desafio a toda a Igreja a prosseguir a obra iniciada com o Concílio.
O tema do jubileu é tomado a partir da carta de Paulo aos Efésios “Deus rico em misericórdia” (Ef 2,4), que foi também o tema da segunda encíclica de João Paulo II (30 de novembro de 1980), e vem na linha das palavras do Papa Francisco no início deste ano civil: “Este é o tempo da misericórdia. É importante que os fiéis leigos a vivam e a transportem nos diversos ambientes sociais” (11 de janeiro de 2015, Angelus).
E a misericórdia como opção, atitude e prática é garantia da misericórdia da parte do “Deus rico em misericórdia”: ela é uma das bem-aventuranças proclamadas no sermão da montanha, “Bem-aventurados os misericordiosos porque alcançarão misericórdia” (Mt 5,7), e constitui uma explícita recomendação de Jesus, “Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso”, “perdoai e sereis perdoados” e “a medida que usardes com os outros será usada convosco” (Lc 6,36.37b.38b).
Também durante o jubileu as leituras dominicais do tempo comum serão tomadas do Evangelho de Lucas, “o evangelista da misericórdia divina”, ou na referência de Dante Aligheeri, “Scriba mansuetudinis”, o narrador da mansidão de Cristo. São sobejamente conhecidas as denominadas parábolas da misericórdia – a ovelha perdida, a dracma perdida e o pai misericordioso que tinha dois filhos – explanadas no capítulo 15 e contadas por Jesus perante os cobradores de impostos e os pecadores, que d’ Ele se aproximavam para O ouvirem, ao passo que os fariseus e os doutores da Lei murmuravam entre si, dizendo: “Este acolhe os pecadores e come com eles” (Lc 15,1-2).
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O jubileu católico remonta ao jubileu dos hebreus. Este era considerado um “ano santo” que ocorria de 50 em 50 anos, recordava o tempo em que eles viviam como escravos no Egito donde foram libertados por ordem de Deus, apelava à prática da justiça, que, segundo a lei de Israel, consistia na proteção dos mais débeis, e durante o qual se devia restituir a igualdade a todos os filhos de Israel, propiciando novas oportunidades às famílias que haviam perdido as suas propriedades e mesmo a liberdade pessoal.
Sendo este o 29.º ano jubilar e o primeiro desde o início do século, recorde-se que a Igreja Católica iniciou a tradição do Ano Santo com o Papa Bonifácio VIII em 1300, a celebrar de 100 em 100 anos, podendo por determinação papal ocorrer o jubileu extraordinário por ocasião de evento de peculiar importância. Porém, em 1475, foi determinado por Paulo II que o jubileu ordinário ocorresse de 25 em 25 anos, ou seja, por quartel de século, para que todas as gerações pudessem viver ao menos um ano santo. Não se fez a celebração jubilar, nos anos 1800 e 1850, devido às circunstâncias políticas de então.
Ao ano santo hebraico a Igreja Católica faz corresponder um significado mais espiritual, o do perdão geral ou uma indulgência aberta a todos, com a possibilidade de renovar e reforçar a relação com Deus e com o próximo, de aprofundar a fé e viver com renovado empenho o testemunho cristão. E é óbvio que, se o cristão for coerente com a fé que professa e com a relação com o próximo, imersa na relação com Deus, as com sequências económicas sociais e políticas advirão necessariamente.
Que a misericórdia é um tema caro a Francisco vê-se logo na escolha do seu lema “miserando atque elegendo” – citação tirada da homilia de São Beda, o Venerável, em que o homiliante tecia considerações à escolha de Mateus, o publicano, para o colégio apostólico. Olhando para ele, Cristo se compadeceu com um sentimento amoroso, escolheu-o e lhe disse: Segue-me! E ele, deixando a banca, seguiu-O. Tal episódio escandalizou os fariseus, pois, o facto de o Mestre escolher pecadores, sentar-se com eles à mesa e comer com eles contrariava a tradição. A isso o Mestre responde com a misericórdia: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas os doentes. Ide aprender o que significa, Prefiro a misericórdia ao sacrifício, pois eu não vim chamar os justos, mas os pecadores” (cf Mt 9,9-13; Mc 2,13-17; Lc 5,27-32; e também Os 6,6; Sl 50/51,2.19).
A sua evocação da misericórdia é recorrente. Na recitação do Angelus a seguir à sua eleição, em 17 de março de 2013, o Pontífice testemunha que “sentir misericórdia” muda tudo, torna o mundo menos frio e mais justo. Na sua exortação apostólica Evangelii Gaudium, o termo “misericórdia” ou equivalente aparece mais de 30 vezes. A 11 de janeiro do ano corrente, em momento similar, proclamou: “Há hoje tanta necessidade de misericórdia e é importante que os fiéis leigos a vivam e transportem nos diversos ambientes sociais. Estamos a viver o tempo da misericórdia, este é o tempo da misericórdia”. Na sua mensagem quaresmal deste ano, ao comentar a globalização da indiferença, formulou este voto: “Como eu desejo que os lugares em que se manifesta a Igreja, as nossas paróquias e as nossas comunidades em particular, se tornem ilhas de misericórdia no meio do mar da indiferença!”.  E, na homilia do passado dia 13 de março, afirmou que o sacramento da reconciliação “permite a aproximação confiante do Pai para termos a certeza do seu perdão”, porque “Ele é verdadeiramente rico em misericórdia e a estende com abundância a quantos a Ele recorrem de coração sincero”.
Fixando-nos um pouco mais na recente homilia da inauguração do momento “24 horas para o Senhor”, veja-se como o Papa – que, antes de se acomodar para atender de confissão individual quem dele se aproximasse, ajoelhou à beira de um dos confessionários e sujeitou ao veredicto do confessor a sua condição de penitente – comentou a perícopa evangélica da pecadora arrependida, que banhava os pés de Cristo com as lágrimas, os enxugava com os cabelos e os ungia com o perfume (cf 7,36-50).
Francisco entende que este Evangelho “abre um caminho de esperança e de conforto”. É grande “o amor da mulher pecadora que se humilha ante o Senhor”, mas acima e antes de tudo, vem “o amor misericordioso de Jesus por ela, que a desafia a aproximar-se”. Pelo acolhimento, contra a perspetiva farisaica, o Mestre “demonstra-lhe o amor de Deus por ela, que é uma pecadora pública”. O amor e o perdão são simultâneos: “Deus perdoa-lhe muito, perdoa-lhe tudo, porque ela amou muito” (Lc 7,47). Ela ama Jesus porque sente nele a misericórdia, que a acolhe com amor; os seus muitos pecados são perdoados e esquecidos. Ela, que de facto encontrou o Senhor e lhe abriu o seu coração no silêncio, inicia agora uma nova caminhada, “renasce no amor para uma vida nova”. Ao mesmo tempo, ficamos a saber que não é lícito proferir sobre ela mais nenhum juízo a não ser o juízo que vem de Deus, o juízo da misericórdia, que vai além da justiça e cujo protagonista e critério único é o amor. Tanto assim é que o dono da casa, o fariseu Simão, que tudo pensa e calcula, refém do mero formalismo, não encontra “a estrada do amor”. Limitou-se a convidar formalmente Jesus para a refeição, mas não O acolheu, nem sequer com a hospitalidade costumeira. Porém, ousou a fazer um pré-juízo a propósito da mulher pecadora e da presumida insciência do Mestre. “O seu juízo sobre a mulher afasta-o da verdade e não lhe permite compreender quem é o seu hóspede”. É um juízo superficial que não resulta do coração. No entanto, ao ser confrontado pelo Mestre com o exemplo do credor que perdoou tudo ao devedor, Simão acabou por perceber a justeza da postura de Cristo. E Cristo aproveitou o ensejo para o confrontar com as suas omissões de anfitrião e evidenciar a postura de arrependimento e amor da pecadora que encontrou outro caminho.
A partir daqui, o Papa desafiou os pecadores a não terem medo de Deus por haverem pecado e mesmo pecado muito; e os confessores a usarem mais da misericórdia que do juízo, a serem facilitadores do encontro do pecador com Cristo e despenseiros da graça, pois “Deus perdoa tudo, Deus perdoa sempre”. E assegura que “ninguém pode ser excluído da misericórdia de Deus” e que a Igreja “é a casa que acolhe todos e não recusa ninguém”.
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Para aqueles e aquelas que se convencem de que este Papa fala pouco de Deus e muito dos homens e das coisas do mundo, aqui fica a amostra do quanto e de como ele sabe falar de Deus e do seu reino. Só que não pode deixar de falar do homem, imagem de Deus tão desfigurada pelo egoísmo de tantos, e das estruturas sociais e políticas da iniquidade. É mesmo seu dever!

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