quinta-feira, 25 de setembro de 2014

“No tempo em que não se olhava a despesas para adorar Deus”

É o título de uma local do jornal Público, de 24 de setembro, com a chancela de Catarina Moura, e tem a ver com as “cinco peças mais importantes da ourivesaria religiosa portuguesa do século XVIII” que se reúnem no Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), em Lisboa, depois de investigações sobre a sua história. E a colunista sublinha que “uma delas saiu pela primeira vez dos Açores entre protestos”. O conteúdo da informação vem naturalmente replicado noutros órgãos da comunicação social.
Com efeito, o MNAA organizou a exposição Splendor et Gloria: Cinco Joias Setecentistas de Exceção, que, inaugurada a 24 de setembro, se manterá até ao próximo dia 4 de janeiro. São cinco peças de ourivesaria, quatro delas de arte sacra e a última também de feição religiosa, que não sacra: a Custódia da Bemposta (MNAA), a Custódia da Sé Patriarcal (Sé de Lisboa), o Resplendor do Senhor dos Passos da Graça (Convento da Graça, Lisboa), o Resplendor do Senhor Santo Cristo dos Milagres (Convento da Esperança, Ponta Delgada) e o Hábito Grande das Três Ordens Militares (insígnia régia guardada hoje pelo Palácio da Ajuda, em Lisboa).
Apesar de se tratar de uma exposição pequena, o seu interesse, segundo as palavras do comissário da exposição e diretor do MNAA, António Filipe Pimentel, reúne “as mais importantes peças de ourivesaria produzidas em Portugal” na segunda metade do século XVIII. Por outro lado, é a oportunidade inédita de conhecer as conclusões da investigação sobre o modo de funcionamento da produção destas peças e ver peças que nunca tinham sido expostas, mas que agora serão contempladas pelos visitantes numa sala especial em que, ao contrário do aforismo, “tudo o que reluz é ouro, prata dourada, diamantes, rubis, safiras, esmeraldas”.
Ainda, de acordo com a informação do mencionado comissário, estaremos perante uma “exposição zoom” ou “exposição laboratório”, já que esta peças se iluminam-se “entre si e são suficientes para explicar o processo” de conceção de um espécime de ourivesaria deste tipo “e os avanços científicos” que se fizeram até agora.
O comissariado da exposição editou um catálogo que explica toda a investigação desenvolvida em torno destes objetos, como compaginando a história do final do século de setecentos narrada por estas peças. Iniciou-se a investigação com o restauro da Custódia da Bemposta, no ano de 2013, e da Custódia da Patriarcal, já neste ano.
As três peças que pertencem à Igreja, conforme explica Luísa Penalva, que cocomissaria a exposição com Pimentel e Anísio Franco, não tinham estudos científicos laboratoriais e históricos associados.
Com o desenvolvimento deste trabalho, ficou perfeitamente claro que uma coisa é desenhar a peça de ourivesaria e fazê-la é outra. E Pimentel exemplifica com o caso de João Frederico Ludovice, o arquiteto do Convento de Mafra, que também seria ourives, não no sentido de ter uma oficina de ourivesaria, mas no sentido de desenhar as peças. Segundo, o comissário, a mão de Ludovice, que desenhou o Convento de Mafra, está nos desenhos originais do Resplendor do Senhor dos Passos e da Custódia da Patriarcal, a qual tem de facto a estrutura equilibrada e harmoniosa de um edifício em miniatura: “os seus alicerces trabalhados abrem espaço para as pequenas figuras simbólicas que estão no centro, como um pelicano, que bica o seu próprio peito para sangrar e alimentar os filhos”. Mas não é de sua mão o talhe da peça. A produção estava entregue a uma das oficinas que proliferavam por Lisboa. Hoje, diríamos que eram designers sem produção própria, para além de Ludovice, Joaquim Machado de Castro (escultura da Custódia da Patriarcal) e Mateus Vicente de Oliveira (Custódia da Bemposta e resplendor açoriano) – figuras de topo no desenho de ourivesaria. Todo o trabalho de projeto e execução da peça durava um tempo considerável, que podia chegar aos sete anos – o que deu azo a que se disseminassem as oficinas de ourivesaria em Lisboa, para satisfazer todas as encomendas da corte.
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Porém, o diretor do MNAA confessa que fora particularmente difícil reunir estas peças — apesar de serem apenas cinco —, porque três delas servem ainda hoje o culto: a Custódia da Patriarcal e os dois resplendores estão “ligados a imagens de grande devoção”.
De entre as cinco peças que integram a exposição em exclusivo, o ex-líbris desta dificuldade foi o resplendor açoriano. Não que isso tenha afetado as negociações com o MNAA, mas pelo facto de a imprensa regional se ter desdobrado em artigos, textos de opinião, cartas de leitores contra e a favor do empréstimo da mais valiosa peça dos tesouros do Senhor Santo Cristo — movimento liderado pela Irmandade do Senhor Santo Cristo dos Milagres e pela Congregação de Maria Imaculada, a qual tem a guarda daquele tesouro. Argumentavam com a valia do resplendor e com o facto de sair do Convento da Esperança apenas três vezes por ano e ser “parte integrante de um conjunto de culto, que não se pode sujeitar a critérios e visões estritamente técnicas” (vd Joaquim Machado, cronista do Açoriano Oriental). Também o presidente da Irmandade o classificava como “um peso na nossa fé incalculável” e invocava o facto de não estarem asseguradas as condições de segurança. E a reverenda madre superiora do Convento advogava que “o que guarda o tesouro do Senhor Santo Cristo dos Milagres é a fé do povo açoriano” e que, por isso, a viagem até Lisboa equivaleria a deixá-lo desprotegido.
O certo é que, no final do mês de maio, se juntaram 500 pessoas num cordão humano no Santuário da Esperança, em Ponta Delgada, para se afirmarem contra a decisão do bispo de Angra, António Sousa Braga, depois de terem tomado conhecimento do anúncio que a diocese tinha feito de que o Resplendor do Senhor Santo Cristo dos Milagres ia viajar para Lisboa para uma exposição no Museu Nacional de Arte Antiga. E, só quatro meses depois, este resplendor saiu de facto pela primeira vez dos Açores.
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Podendo não ser este o caso da gente dos Açores, é frequente os residentes de uma localidade – considerados individualmente, em mole popular ou mesmo enquadrados por organizações representativas das instituições religiosas – oferecerem resistência à saída dos seus tesouros artísticos conexos com a religião, independentemente do valor artístico que lhes possa ser atribuído. E há boas razões históricas. Os nossos templos foram em determinadas épocas esventrados dos seus tesouros. Também hoje é recorrente o assalto e consequente danificação, destruição ou roubo de imagens, peças de ourivesaria, objetos em material caro. E as peças de museu nem sempre foram adquiridas por meios lícitos. Assim, teme-se pela segurança das peças em transferência e invoca-se a fé. Porém, muitas das vezes, a segurança é um dado adquirido, como no caso do MNAA, e a fé nem sempre é muita. E os mais aguerridos opositores são tantas vezes os que menos zelam pela segurança dos tesouros e os que menos fé demonstram em suas vidas, configurando suas atitudes mais teimosia que zelo ou fé.
Por outro lado, é esquecida uma das vertentes que levam à produção de muitas obras de arte: além do culto de dulia (veneração), a catequese. Se a fé vem ex auditu (do e pelo ouvido), ou seja, se para suscitar o ato de fé é necessária a pregação, a leitura de texto e a visualização da imagem constituem um alimento não dispensável para a fé. E o culto particular, que resulta do afeto que é concomitante com a fé, e o culto público, que manifesta a fé e a reforça comunitariamente, são facilitados com a contemplação da imagem. E, em tempo de menor alfabetização e de menores recursos disponíveis para todos, a hermenêutica do espaço sagrado, das pinturas e dos vitrais bem funcionavam como a Biblia Pauperum (a Bíblia dos Pobres), assim como compendiam períodos da história das mentalidades e das culturas. E a leitura que estas peças do património artístico e cultural não pode circunscrever-se aos utentes habituais; tem de servir de informação e formação alargada ao maior número possível de cidadãos cultos e/ou devotos.
É óbvio que, por exemplo, o São Pedro que Grão Vasco pintou não representa o rude pescador da Galileia, mas figura um papa do renascimento, majestaticamente sentado no trono renascentista como se o novo Pedro fosse o imperador do mundo ou o representante sumptuoso do Cristo “Pantocrator”. E, no quadro da adoração dos magos, algumas versões apresentam, para um deles, uma figura humana conotada com a negritude; noutras, um índio – o que só testemunha a ideia da revelação de Cristo aos gentios ou a universalidade da Salvação.
Neste contexto, é conveniente atentar naquilo que nos diz José Tolentino Mendonça, padre e poeta, que foi convidado a escrever o texto de abertura do catálogo acima referido, onde explica que estas peças sumptuosas “sussurram-nos uma prece, colocam-nos uma questão inapagável”: a “interrogação de Deus”.
Resta-me criticar o enunciado exarado em epígrafe, transcrito do citado diário. Para adorar a Deus não é preciso fazer despesas. Basta, mas é necessário, que Ele seja adorado em espírito e verdade (cf Jo 4,23.24). Porém, para facilitar o culto a Deus e para promover o ato de fé, para concretizar a evangelização, celebrar comunitariamente Fé e a Vida e para disponibilizar meios para que a Igreja esteja em saída para socorro de quem mais precisa, é bom que não se olhe a despesas. É certo que o Evangelho de Lucas testemunha de forma eloquente a compaixão do Mestre e configura o verdadeiro Evangelho dos pobres, bem como a carta de Tiago. Não obstante, Cristo não deixa de ensinar no Templo (cf Jo 7,14-25; 8,2) e de expulsar de lá os vendilhões, porque o zelo da cada do Pai O devora e a casa do Pai é casa de oração (cf Jo 3,13-17).
Não se devem criticar os reis por terem encomendado tesouros artísticos, erigido templos e promovido solenes atos de culto. Critiquem-se por terem acreditado demasiado tempo que o poder lhes advinha diretamente de Deus, sentindo-se, por isso, legitimados para dele usarem e abusarem, oprimindo os súbditos, escravizando as populações, fazendo demasiadas vezes a guerra e cerrarem os ouvidos ao clamor das gentes.
É óbvio que iniquamente muito do que fazia falta aos pobres foi canalizado para o culto e para os templos e joias religiosas, para exponenciar a imagem da magnanimidade régia. Todavia, não se pode pautar a ação da Igreja maniqueisticamente por dois princípios como se fossem antagónicos: ou o esplendor do culto ou os pobres. Tem de haver equilíbrio na distribuição dos recursos. Não se pode roubar aos pobres, aos doentes, à família, à educação para atribuir perdulariamente os recursos ao culto e aos espaços religiosos, como não se pode esvaziar a terra de sinais religiosos e manifestações de fé pessoal e pública à custa imponderada da existência de necessidades, muitas vezes a encobrir uma funda dimensão hedonística. Há valores do espírito – cultura, memória, solidariedade e transcendência – que também não podem esperar. Há valores do progresso e da civilização, da ciência, da investigação e da inovação que bem podem ajudar na resolução dos problemas da pobreza. E esta é a batalha de todos os dias (Pobres sempre os tereis, mas a Mim não me tendes sempre – cf Jo 12,8) ou, se quisermos, a mãe de todas as batalhas.

Não há, pois, um tempo em que para adorar a Deus não se olhe a despesas. Tem de haver sempre a disponibilidade para a mobilização e distribuição equitativa dos recursos e definição justa das prioridades!

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