quinta-feira, 25 de setembro de 2014

O Papa falou da Palavra de Deus

Sim, o Papa Francisco, na homilia da celebração matinal do dia 23 de setembro, em Santa Marta, falou da Palavra de Deus. É a coisa mais natural – dirão alguns. Pois é, mas eu não sei dizer com absoluta certeza se muitos dos que o admiram topam que o seu discurso habitual, mesmo que não o pareça, é sempre fundado na palavra de Deus. Por exemplo, quando denuncia uma economia que mata, por cavar o fosso cada vez maior entre ricos e pobres, poderosos e fracos, opressores e oprimidos, tem como subtexto a Palavra de Deus, que nos diz: Eu vi a opressão do meu povo e ouvi o seu clamor… desci a fim de o libertar (vd Ex 3,7.8); Olhai que o salário que não pagastes aos trabalhadores está a clamar e os clamores chegaram ao Senhor do Universo (cf Tg 5,4); Vós desonrais o pobre. Porventura não são os ricos que vos oprimem? (cf Tg 2, 6). E, se compulsarmos todo o Evangelho de Lucas, qual Evangelho dos pobres e da compaixão do Senhor, ou o capítulo 25 do Evangelho de Mateus (Mt 25,31-46), com o elenco das obras – dar de comer ao faminto, dar de beber a quem tem sede, vestir o nu, dar pousada ao peregrino e visitar o enfermo e o encarcerado – que servem de necessário critério de admissão ao Paraíso, mais esclarecidos ficaremos.
Mesmo, quando intervém e é ouvido como Chefe de Estado, ninguém o ouve ou entende como simples Chefe de Estado. É na força da Palavra que reside a autoridade moral e o desassombro com que se dirige a todos. E, se nem sempre se evidencia a eficácia da sua influência, ao menos serve o mundo como uma peculiar referência de sabedoria, de coração, de humanismo, de transcendência.
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Sobre a Palavra de Deus, para lá das intervenções normais do Magistério Eclesiástico, devem salientar-se os seguintes documentos: o Concílio Vaticano II produziu uma constituição dogmática, a Dei Verbum; Paulo VI elaborou uma exortação emblemática sobre a atualização e a difusão da palavra de Deus, enquanto fermento evangélico no mundo todo e em todos os seus escaninhos, a Evangelii Nuntiandi, e, durante o seu pontificado, a Congregação para o Clero publicou o Diretório Catequístico Geral; João Paulo II elaborou a exortação apostólica Catechesi Tradendade e mandou publicar o Catecismo da Igreja Católica e, durante o seu pontificado, a mesma Congregação para o Clero publicou o Diretório Geral para a Catequese; e Bento XVI elaborou uma exortação pós-sinodal, a Verbum Domini, e mandou publicar o Compêndio do Catecismo da Igreja Católica.
Ora, Papa Francisco, que tem toda uma panóplia de intervenções e documentos radicados na Palavra de Deus, diz-nos frequentemente coisas bem importantes.
Com efeito, a Palavra de Deus deve ser ouvida, lida e guardada no coração, como fazia Maria ao guardar tudo em seu coração (cf Lc 2,19), uma vez que não se trata de “uma banda desenhada” (rica imagem, pela negativa: a banda desenhada entranha-se na mente pelo texto leve e encanta pela visualização, mas não transforma ninguém) para ler, mas “um ensinamento que deve ser ouvido com o coração e posto em prática na vida diária”.
Tanto assim é que, “enquanto Ele falava, uma mulher, levantando a voz no meio da multidão, clamava, Felizes as entranhas que te trouxeram e os seios que te amamentaram, ao que Jesus retorquiu: “Felizes, antes, aqueles que escutam a Palavra de Deus e a põem em prática”. E a carta de Tiago declara: “Tendes de pôr em prática a Palavra e não apenas ouvi-la, enganando-vos a vós mesmos, porque quem se contenta em ouvir a Palavra, sem a pôr em prática, assemelha-se a alguém que mira a sua fisionomia ao espelho – e, mal acaba de se contemplar, sai dali e esquece-se de como era” (Tg 1,22-24).
Nestes termos, o papa conclui que a Palavra de Deus cria um compromisso acessível a todos, pois, ainda que “a tenhamos complicado um pouco”, a vida cristã é “muito simples”: de facto, “ouvir a palavra de Deus e pô-la em prática” são as únicas duas “condições” impostas por Jesus a quem o quer seguir. Mais: a carta de Tiago, já citada, também assegura: “Aquele que medita com atenção a lei perfeita, a lei da liberdade, e nela persevera – não como quem a ouve e logo dela se esquece, mas como quem a cumpre – esse encontrará a felicidade ao pô-la em prática” (Tg 1,25).
Na celebração da Eucaristia do passado dia 23, o Pontífice refletiu em particular sobre o trecho do Evangelho de Lucas (vd Lc 8,19-21), que refere que a mãe e os irmãos de Jesus não conseguem “aproximar-se d’Ele por causa da multidão”. Porém, entre os muitos que o seguiam, havia pessoas que reconheciam nele “uma autoridade nova, um modo de falar novo”, sentiam “a força da salvação” que d’Ele advinha. Segundo o Bispo de Roma, “era o Espírito Santo que comovia o coração deles”. No entanto, sublinhou que, no meio da multidão havia pessoas que seguiam Jesus com segundas intenções: umas “por conveniência” e carreirismo, outras por gregarismo ou moda e curiosidade (digo eu) e outras talvez pela “vontade de serem melhores. Quase “como nós” hoje, disse o Papa transpondo o discurso para a atualidade. Como então, as pessoas que seguem Jesus têm de purificar as suas intenções. É – diz Francisco – uma história que se repete, já que então Jesus repreendia quem O seguia por motivos que não eram os do Reino dos Céus. E exemplifica com o que se passou depois da multiplicação dos pães (cf Jo 6,20-21) ou com os dez leprosos, dos quais só um – um samaritano – voltou para Lhe agradecer, enquanto “os outros nove ficaram felizes com o restabelecimento da sua saúde e esqueceram Jesus” (cf Lc 17,11-19).
O Pontífice insistiu na exortação em ouvirmos a Palavra, verdadeiramente, na Bíblia e, em especial, no Evangelho, meditando as Escrituras para pôr em prática os seus conteúdos na vida quotidiana. Mas, esclareceu, que, se folhearmos o Evangelho superficialmente, então “isto não é ouvir a Palavra de Deus: é ler a palavra de Deus, como se lê uma banda desenhada”. Ao invés, ouvir a palavra de Deus “é ler” e meditar, questionando-se: “Mas o que diz isto ao meu coração? Que quer dizer-me Deus com esta palavra?”. Por consequência, só assim “a nossa vida muda”, só assim se opera a metanoia (a conversão / transformação da mente, do coração, das atitudes e dos comportamentos). E Francisco especificou que “Deus não fala só a todos, mas fala a cada um de nós. O Evangelho foi escrito para cada um de nós” e não só para os outros.
Sem dúvida, reconhece Francisco, “é mais fácil viver tranquilamente sem se preocupar com as exigências da palavra de Deus”. Os mandamentos, enunciados no decálogo moisaico (vd Ex 20,1ss; Dt 5,1ss) retomados nos evangélicos sinóticos (cf Mt, 22,34-40; Mc 12,28-34; Lc 10,25-28, a que se segue a parábola do bom samaritano) e assumidos como mandamento de Cristo em João (vd Jo 13,33-35), são, de acordo com o discurso papal, “precisamente o modo de pôr em prática” a Palavra do Senhor. E o mesmo é especialmente válido para todas e cada uma das bem-aventuranças enunciadas nos evangelhos de Lucas (vd Lc 6,20-26) e de Mateus (vd Mt 5,1-12), que atualizam em termos neotestamentários a interiorização pessoal e a expressão comunitária do decálogo e que se replicam nas obras indicadas no capítulo 25 do Evangelho de Mateus (vd Mt 25,31-40), que garantem, pelo seu cumprimento dedicado, a entrada definitiva no reino, preparado para nós por Deus desde o princípio do mundo.
E concluiu o Pontífice: também hoje, Jesus continua a acolher todos, até os que vão ouvir a Palavra de Deus e depois O atraiçoam”, como Judas (cf Mt 26,25) a quem Ele chamou de “amigo” (cf Mt 26,50). O Senhor “semeia sempre a sua palavra” e, “em troca pede só um coração aberto para a escutar e boa vontade para a pôr em prática”, o bom terreno: “E aquele que recebeu a semente em boa terra é o que ouve a Palavra e a compreende (a apanha e a interioriza para a praticar); esse dá fruto e produz ora cem ora sessenta ora trinta” (Mt 13,23).
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Paulo, na 2.ª carta a Timóteo, dá-nos garantia da fiabilidade da Sagrada Escritura e a certeza da sua utilidade: “Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste e de que foste inteirado, sabendo de quem o tens aprendido, pois que, desde a tua meninice sabes as Sagradas Escrituras, que podem fazer-te sábio para a salvação, pela fé que temos em Cristo Jesus. Toda a Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e esteja perfeitamente preparado para toda a boa obra.” (2 Tm 3,14-17).
Já na era veterotestamentária o profeta Isaías nos advertia: “Porque, assim como desce a chuva e a neve dos céus e para lá não tornam sem regarem a terra e a fazerem produzir, brotar e dar semente ao semeador e pão ao que come, assim será a minha palavra, que sair da minha boca, não voltará para mim vazia sem ter feito, antes, o que me apraz e sem cumprir a sua missão, prosperando naquilo para que a enviei.” (Is 55,10-11).
E o texto do Evangelho que Francisco comentava mostra que é a Palavra de Deus posta em prática que nos torna familiares (parentes, próximos) de Jesus: “Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática” (Lc 8,21).

Assim, o Papa e os demais pastores não hão de cansar-se (por gosto e dever de ofício) de dissertar sobre a Palavra de Deus – nem que a língua lhes doa – como quem a vive por dentro e a faz irradiar – o que devem fazer, segundo as suas possibilidades, todos e cada um dos cristãos, incessantemente.

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