domingo, 21 de setembro de 2014

A liberdade na “Terra das Águias”

“Terra das Águias” é a expressão por que é conhecida a Albânia (tem a águia representada na bandeira como sinal da esperança e da confiança em Deus) e que o Papa Francisco utilizou na alocução que proferiu no “Encontro com as Autoridades no Salão de Receções do Palácio Presidencial”, no âmbito da sua visita pastoral àquele país, hoje 21 de setembro, XXV domingo do tempo comum e, nas comunidades onde o santo apóstolo evangelista é celebrado com relevo especial, festa de São Mateus. Trata-se da primeira viagem internacional de Francisco em solo europeu, para homenagear as vítimas do regime comunista do século XX até há quase um quarto de século, enaltecer a convivência inter-religiosa no país e apontá-lo como exemplo:
Decidi visitar aquele país porque sofreu muito por causa de um terrível regime ateu, e agora atravessa uma fase de convivência pacífica entre os seus vários componentes religiosos. Saúdo desde já com carinho o povo albanês e agradeço-lhe a preparação desta visita. Peço a todos que me acompanhem com a oração, por intercessão de Nossa Senhora do Bom Conselho. (Na audiência geral de 17 de setembro).

Recebido pelo primeiro-ministro albanês no aeroporto internacional 'Madre Teresa', em Tirana (para nós, de Calcutá; para eles, de Tirana), o Papa pôde, num percurso em automóvel fechado, seguido por milhares de pessoas, contemplar ao longo das ruas fotografias dos 'mártires' do comunismo, incluindo católicos, fiéis de outras confissões cristãs e muçulmanos.
Após aquele percurso, o programa iniciou-se no palácio presidencial, onde decorreu um encontro com as autoridades políticas, a que se seguiu a celebração eucarística e a recitação do Angelus na Praça Madre Teresa (a bem conhecida Beata Madre Teresa de Calcutá), na capital albanesa. Após o almoço com bispos albaneses, Francisco dirigiu-se a líderes religiosos na Universidade Católica, antes de rezar com sacerdotes, religiosos e seminaristas na Catedral de Tirana. E o último momento da agenda, que teve seis intervenções, decorreu no 'Centro Betânia', junto de crianças e representantes das pessoas assistidas nos centros caritativos.
Apesar de, na Albânia, a viagem ser vista como uma opção pela “periferia” do Velho Continente, o arcebispo K. Rrok Mirdita explicou-se à Rádio Vaticano:
Se falarmos do bem-estar material como o centro, então certamente a Albânia é uma periferia. (…) O Papa Francisco entra no continente europeu através do encontro com um povo que sofreu muito, mas que também tem muito a dar para a Europa.

E o prelado justifica as suas asserções, quando diz “O nosso país, no entanto, é rico de outros valores. Nós temos a população mais jovem do Continente, apesar dos fluxos migratórios”…
Com efeito, o Pontífice é recebido por “uma Igreja que esteve sempre ao lado do povo”, num contexto que, hoje, leva a Albânia a ser “um modelo de coexistência religiosa”.
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Assim no aludido encontro com as autoridades, o Papa correspondeu com alegria à receção festiva com que foi acarinhado, classificando aquela “nobre terra” como “terra de heróis, que sacrificaram a vida pela independência do país, e terra de mártires, que testemunharam a sua fé nos tempos difíceis de perseguição”.
Reencontrado “o caminho árduo mas emocionante da liberdade”, Francisco verifica ter ela permitido “empreender um percurso de reconstrução material e espiritual, pôr em movimento tantas energias e iniciativas, abrir-se à colaboração e a permutas” com os demais países, olhando “para o futuro com confiança e esperança”, iniciando “projetos” e tecendo novas “relações de amizade com nações vizinhas e distantes”. E não deixa de salientar que o respeito dos direitos humanos, “entre os quais sobressai a liberdade religiosa e a liberdade de expressão do pensamento”, é condição preliminar para o “progresso económico e social de um país”; e o respeito pela dignidade do homem e o reconhecimento e garantia dos seus direitos favorecem o florescimento da criatividade e da audácia, induzindo a pessoa humana a “explanar suas inúmeras iniciativas a favor do bem comum”. Destaca o Papa como peculiar e feliz caraterística da Albânia a convivência pacífica e a colaboração entre seguidores de diferentes religiões, o que mostra a possibilidade da sua realização e concretização em toda a parte:
O clima de respeito e mútua confiança entre católicos, ortodoxos e muçulmanos é um bem precioso para o país e adquire uma relevância especial neste nosso tempo em que é deturpado, por parte de grupos extremistas, o autêntico sentido religioso e são distorcidas e manipuladas as diferenças entre as várias confissões, fazendo daquelas um perigoso fator de conflito e violência, em vez de ocasião de diálogo aberto e respeitoso e de reflexão comum sobre o que significa crer em Deus e seguir a sua lei.


Contra o extremismo religioso, referiu que a ninguém é lícito “tomar a Deus por escudo, enquanto projeta e comete atos de violência e vexação”, nem invocar a religião como “pretexto para ações contrárias à dignidade do homem” e aos “direitos humanos fundamentais”, sobretudo os da vida e da liberdade religiosa.
O Papa exprime também o seu apreço político pela demanda das consequências da liberdade:
Através de eleições livres e novos ordenamentos institucionais, consolidou-se o pluralismo democrático, o que favoreceu a retoma das atividades económicas. Muitos, motivados pela busca de trabalho e de melhores condições de vida, tomaram o caminho da emigração e contribuem, a seu modo, para o progresso da sociedade albanesa, enquanto outros redescobriram as razões para permanecer na pátria e construí-la a partir de dentro. As fadigas e os sacrifícios de todos cooperaram para a melhoria das condições gerais.


Em relação à Igreja Católica, o Pontífice anota a retoma de uma existência normal, pela reconstituição da hierarquia, reatando os fios da longa tradição; a edificação ou reconstrução de lugares de culto, com destaque para o Santuário de Nossa Senhora do Bom Conselho em Escutári; e a fundação de escolas e de centros de educação e de assistência, postos à disposição de toda a população – o que faz da presença e da atividade da Igreja “um serviço à nação inteira, e não apenas à comunidade católica”.
Com a invocação do testemunho da Beata Madre Teresa e dos mártires, que se imolaram heroicamente pela fé – ora alegres no Céu pelo empenho dos homens e mulheres de boa vontade em fazer reflorescer a sociedade e a Igreja na Albânia –, Francisco enuncia o complexo de novos desafios a que importa dar resposta:
À globalização económica e cultural é preciso contrapor todo o esforço possível para que o crescimento e o progresso sejam postos à disposição de todos e não só de parte da população. Depois, o progresso só será autêntico se for sustentável e equitativo, ou seja, se tiver bem presentes os direitos dos pobres e respeitar o meio ambiente. Dito de outro modo: à globalização do mercado tem de corresponder a globalização da solidariedade; ao crescimento económico deve aliar-se um maior respeito pela criação; e com os direitos individuais hão de ser tutelados os direitos das realidades intermédias entre o indivíduo e o Estado, sendo a primeira delas a família. São desafios que hoje a nação albanesa enfrenta num quadro de liberdade e estabilidade, a consolidar, de modo a permitir encarar o futuro com esperança.
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Na Homilia da Missa na Praça Madre Teresa, o Pastor comentou o Evangelho em que Jesus, além dos Doze Apóstolos, chamou outros setenta e dois discípulos a quem manda pelas aldeias e cidades a anunciar o Reino de Deus (cf. Lc 10,1-9.17-20). Ele, que veio trazer ao mundo o amor de Deus e quer irradiá-lo através da comunhão e da fraternidade, forma imediatamente uma comunidade missionária, que treina para estar em saída, «ir» em missão. O método é claro e simples: os discípulos entram nas casas, e o seu anúncio começa com uma saudação significativa, um dom “A paz esteja nesta casa!” (Lc 10,5).
Na missão dos setenta e dois, o Papa revê a experiência missionária da comunidade cristã de todos os tempos: o Senhor, ressuscitado e vivo, envia não só os Doze a anunciar o Evangelho a todos os povos, mas a Igreja toda e, por sua vez, cada batizado. Porém, nem sempre, ao longo dos séculos, o anúncio da paz, trazido pelos mensageiros evangélicos, era acolhido; por vezes, as portas fechavam-se.
Quando, no passado recente, a porta da Albânia se fechou com o cadeado das proibições e prescrições do sistema que nega a Deus e impede a liberdade religiosa, o país tornou-se uma terra de mártires: “naqueles decénios de sofrimentos atrozes e duríssimas perseguições contra católicos, ortodoxos e muçulmanos, muitos bispos, sacerdotes, religiosos, e fiéis leigos, ministros de culto de outras religiões pagaram com a vida a sua fidelidade”.
Embora este tenha sido um dos primeiros territórios a receber a luz do Evangelho (A Ilíria de que fala São Paulo incluía o território da Albânia atual), aqueles que temiam a verdade e a liberdade tudo fizeram para banir Deus do coração do homem e excluir Cristo e a Igreja da história deste país. Todavia, “não faltaram testemunhos de grande coragem e coerência na profissão da fé”. A este propósito, Francisco evocou, visitando-o em espírito, o cemitério de Escutári, lugar-símbolo do martírio dos católicos, junto de cujo muro se efetuavam os fuzilamentos, e, comovido, depôs a sua “flor da oração e de grata e indelével lembrança”.
Lançando o seu olhar sobre o presente, proclama a reabertura das portas da Albânia e o amadurecimento de uma estação de novo protagonismo missionário para todos os membros do Povo de Deus: cada batizado tem um lugar a ocupar e um dever a desempenhar na Igreja e na sociedade. E, agradecendo o testemunho de todos, aproveita o ensejo para os encorajar a fazer crescer a esperança dentro de si mesmos e ao seu redor, nomeadamente na Europa. Que não esqueçam a águia: “a águia não esquece o ninho, mas voa alto”. E apela:
Voai alto! Subi às alturas! Eu vim aqui para vos encorajar a envolver as novas gerações; a alimentar-vos assiduamente da Palavra de Deus, abrindo os vossos corações a Cristo, ao Evangelho, ao encontro com Deus, ao encontro entre vós próprios, como já estais a fazer: com esta maneira de proceder encontrando-vos, dais testemunho a toda a Europa.

Aos pastores e leigos pediu o sentido da comunhão eclesial, a conjugação de esforços para o bem da sociedade e a descoberta de novas formas de presença da Igreja.
Em particular, aos jovens disse:
Este é um povo jovem! Muito jovem! E onde há juventude, há esperança. Ouvi Deus, adorai a Deus e amai-vos entre vós como povo, como irmãos.

E a todos deixou o apelo:
Não vos esqueçais do ninho, da vossa história que vem de longe, incluindo as provações; não esqueçais as chagas, mas não vos vingueis. Continuai a trabalhar com esperança para um futuro grande.

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