sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Sobre o desconcerto do mundo

O desconcerto do mundo é tema recorrente na poesia camoniana. A sua própria vida é documento desse desconcerto, como assegura o epitáfio que mandou colocar sobre a sua sepultura D. Gonçalo Coutinho, o nobre que teve a fineza de custear o funeral do vate: Aqui jaz Luís de Camões, príncipe dos poetas do seu tempo. Viveu pobre e miseravelmente e assim morreu. Humanamente é de questionar como é que o príncipe dos poetas (do seu tempo e não só) vive e morre pobre e miseravelmente e assim morre. Não deveria a sorte e a sociedade compensá-lo pelo mérito?
A própria epopeia, que canta as glórias do povo português, não deixa de salientar uma linha moral. O tempo de esforço e glória é uma herança do passado, que os contemporâneos desdizem (como já denunciava Gil Vicente), pois, amam mal: desprezam os artistas e perseguem-nos; entretêm-se no luxo e no vício; são aduladores, corruptos e tiranos; e exploram o povo. Por isso, há que acautelar o futuro contra a “austera, apagada e vil tristeza” (C. X, 145) em que o reino mergulhou ou o “nevoeiro” em que Portugal se transformou, no dizer de Fernando Pessoa.
Em especial, as estrofes finais do Canto VIII (96-99) escalpelizam o poder perverso do dinheiro sobre toda a casta de pessoas. Até a Natureza se arma contra o homem esforçado e voluntarioso, o qual dificilmente pode encontrar um lugar que lhe seja propício, já que não passa de pequeno e inseguro bicho da terra: “No mar, tanta tormenta e tanto dano, / Tantas vezes a morte apercebida! / Na terra, tanta guerra, tanto engano, / Tanta necessidade avorrecida! / Onde pode acolher-se hum fraco humano, / Onde terá segura a curta vida, / Que não se arme e se indigne o Céu sereno, / Contra hum bicho da terra tão pequeno?” (C. I, 106). Notem-se as antíteses!
Mas, entre os sofrimentos que mais doem ao homem, destacam-se, não tanto os que a natureza caprichosamente lhe proporciona, mas os que resultam da iniquidade ou da fraqueza do homem, quer individualmente considerado, quer integrado no seu contexto social. É precisamente no âmbito da iniquidade humana e da fraqueza do inseguro e frágil bicho da terra que se evidencia o caráter flagrante da injustiça que origina o desacerto como se o mundo não fizesse sentido. Isto mesmo nos diz o poeta em relação ao seu tempo na esparsa seguinte, que hoje surge como que saída do nosso quotidiano:
Ao desconcerto do mundo
Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos;
E, para mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado:
Assim que, só para mim,
Anda o mundo concertado.

Verificando que o mundo andava desconcertado a ponto de contraditória e injustamente premiar os maus e lesar os bons, o vate decide “conscientemente” enveredar pela via da maldade. Porém, com amarga ironia, reconhece que para si (“só para mim”) o mundo está concertado.
Também, nos sonetos, Camões aborda a temática do desconcerto. Assim, no soneto cujo primeiro verso é “Verdade, Amor, Razão, Merecimento”, o emissor lírico entende que estes predicados tornarão “segura e forte” qualquer “alma”, qualquer pessoa. No entanto, o regimento do mundo fica desconcertado (“confuso”) por ação da “Fortuna, Caso, Tempo e Sorte” e, nesta ordem de ideias, “Cousas i há que passam sem ser cridas / E cousas cridas há sem ser passadas”.
Já, no soneto “Cá nesta Babilónia, donde mana”, o poeta assinala o labirinto, “onde a nobreza, / Com esforço e saber pedindo vão / Às portas da cobiça e da vileza”. E é “neste escuro caos de confusão” que o poeta está “cumprindo o curso” na natureza.
E, no soneto “Vós outros, que buscais repouso certo”, o eu poético apela àqueles que apenas veem os bens deste mundo e não compreendem a ordem invisível que a ele preside, que entendam que “o que a Deus é justo e evidente / Parece injusto aos homens e profundo”.
O poeta aborda ainda o assunto nas oitavas a Dom António de Noronha, sobre o desconcerto do mundo, e começa por se interrogar:
I Quem pode ser do mundo tão quieto,
Ou quem terá tão livre o pensamento,
Quem tão experimentado e tão discreto,
Tão fora, enfim, de humano entendimento
Que, ou com público efeito, ou com secreto,
Lhe não revolva e espante o sentimento,
Deixando-lhe o juízo quase incerto,
ver e notar do mundo o desconcerto?
  II Quem há que veja aquele que vivia
De latrocínios, mortes e adultérios,
Que ao juízo das gentes merecia
Perpétua pena, imensos vitupérios,
Se a Fortuna em contrário o leva e guia,
Mostrando, enfim, que tudo são mistérios,
Em alteza de estados triunfante,
Que, por livre que seja, não se espante?

 III Quem há que veja aquele que tão clara
Teve a vida que em tudo por perfeito
O próprio Momo às gentes o julgara,
Ainda que lhe vira aberto o peito,
Se a má Fortuna, ao bem somente avara,
O reprime e lhe nega seu direito,
Que lhe não fique o peito congelado,
Por mais e mais que seja experimentado?

Numa longa complexa e extensa exposição de perplexidades e juízos morais, formulados na forma interrogada, se desenvolve o poema ao longo de trinta oitavas, ora interpelando o mundo ora interrogando a circunstância pessoal do sujeito das emoções e pensamentos na relação com a sociedade e, finalmente, encaminhando o poema para os assuntos do amor com que termina:
 XXIX Mas para onde me leva a fantasia?
Porque imagino em bem-aventuranças,
Se tão longe a Fortuna me desvia
Que inda me não consente as esperanças?
Se um novo pensamento Amor me cria
Onde o lugar, o tempo, as esquivanças
Do bem me fazem tão desamparado
Que não pode ser mais que imaginado?
  XXX Fortuna, enfim, co’o Amor se conjurou
Contra mim, porque mais me magoasse:
Amor a um vão desejo me obrigou,
Só para que a Fortuna me negasse.
A este estado o tempo me achegou,
E nele quis que a vida se acabasse;
Se há em mim acabar-se, que eu não creio;
Que até da muita vida me receio.

Dirá alguém que o desconcerto não é novidade, pelo que não há razão para espanto. Todavia, o desconcerto intensifica-se e prolonga-se. Ora, à medida que o desgoverno cresce em injustiça, premiando os maus e castigando os cumpridores, maior espanto se gera e parece que ninguém se habitua a este estado de coisas. Por outro lado, espanta o facto de os homens correrem atrás de valores que parecem imorredoiros e a morte ou a fortuna tornam efémeros. E depois vem a desilusão.
A este respeito, o poeta dos sonetos, das canções e da oitava rima escreve a ode IX, sobre a brevidade da vida, à maneira do venusiano Caio Horácio Flaco, onde confessa que, “enfim, tudo passa; / não sabe o tempo ter firmeza em nada”, inferindo, em termos oximóricos, que “nossa vida escassa / Foge tão apressada, / Que quando se começa é acabada”. Como diz João de Deus, “a vida é ai que mal soa”.
As oitavas acima transcritas integram, como se disse, um conjunto mais vasto de uma trintena de oitavas endereçadas a um amigo, a partir de um lugar de desterro, por mor de um castigo a que fora sujeito. E, não se conformando com, propõe como remédio ou escape, o refúgio na vida rústica contemplativa, segundo os parâmetros da áurea mediania, tão ao gosto dos clássicos.
***
Na atualidade, o desconcerto não é menor. Todos se vão lamentando pelo facto de a vida ser injusta: o crime, aliado ao poder e à riqueza, parece compensar, porquanto; os pobres ou os cumpridores, logo à primeira prevaricação, são duramente castigados; os “espertos” governam-se em esquemas e meandros que rodeiam as leis e as regras; os tubarões ficam impunes ou recebem punições simbólicas e/ou mascarantes de outrem; os medíocres alcançam lugares de relevo; e os dissidentes chutam para fora, ora com êxito, ora com sucesso efémero.
Deixando de parte os casos daqueles para quem a Justiça se torna benigna e carinhosa, fixemo-nos medíocres e dissidentes, evocando alguns casos, meramente a título de exemplo.
Quem não se lembra daquele que, vendo o país de tanga, a passou a ferro e partiu para a Europa, do que falhou rotundamente a regulação e supervisão bancária e ascendeu à vice-presidência do BCE ou do que arquitetou um programa de austeridade e empobrecimento e, não sendo capaz de levar a bom termo a segunda fase, que postulava o crescimento da economia, alcançou lugar de relevo no FMI? Recentemente, Carlos Moedas, que teve responsabilidades em 'dossiês' de coordenação política, como um dos principais representantes do Governo nas negociações com a 'troika', passou a comissário responsável pela pasta da Investigação, Ciência e Inovação. E, segundo as suas palavras, “a Inovação e a Investigação são a chave para o crescimento que queremos na Europa: um crescimento sustentável que promova a qualidade de vida dos Europeus. Estas áreas “são a chave para aumentarmos a produtividade e dinamismo das nossas empresas, para competirmos pela excelência e não pelos baixos custos”. Vai, neste âmbito, gerir duas das maiores direções-gerais da Comissão Europeia, a Direção-geral da Investigação e Inovação e o “Joint Research Centre”, com cerca de 3.000 funcionários, mercê da experiência do ex-governante no mundo empresarial e na gestão financeira.
Quanto a dissidentes, quem não recorda a gesta transitória do PRD, que, por via do desgaste dos partidos clássicos, chegou a atingir 18% dos votos em legislativas? E recentemente Rui Tavares, por desentendimento com o BE, não criou um Partido Livre, cuja expressão eleitoral foi minúscula, pelo que já se encontra em fase de liquidação? Agora, Marinho e Pinto, que levou a um score relativamente elevado o MPT nas europeias e que estava em vias de ser feito seu presidente, criará um novo partido… A ver vamos: é certo que os partidos estão desacreditados, o povo desconfia dos políticos. Mas, não estaremos ante a tentação da “vã cobiça”?
E os dissidentes, sob a capa de independentes, têm feito geralmente boa carreira nas eleições autárquicas. É aliciante, em nome do serviço às populações, ganhar mais uns trunfos económicos e sociais, bem o sabemos!

Em tempo de horizontes bloqueados pela grande incerteza e pelo agravar de dificuldades, cresce, a par das desigualdades, o desejo de Justiça,  gerando entre as gentes, se não revolta, a perplexidade. Deus adiuvet!

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