domingo, 24 de agosto de 2014

Economia, ecologia e crematística. Que cidadania?

Tornou-se recorrente, nos últimos anos, a colocação, na agenda e na mesa do debate, da problemática da preservação das condições da vida de qualidade no Planeta. Os areópagos internacionais não se cansam de lançar estudos de diagnóstico e de enunciar medidas tendentes a combater os desequilíbrios que ameaçam a sobrevivência do ecossistema e, por consequência, a vida do homem na Terra.
São os governantes dos diversos países a mostrar efetiva preocupação pelo destino do mundo, acompanhados pelos Papas dos últimos decénios – o Papa Francisco insiste na obrigação de o homem, mormente o cristão, guardar Jesus com Maria, guardar a criação inteira, guardar toda a pessoa, especialmente a mais pobre, guardarmo-nos a nós mesmos, (vd homilia de 19-03-2013) – e por diversas entidades da comunidade científica e de organizações não governamentais.
Discute-se o consumo sistemático e excessivo dos recursos naturais como se fossem inesgotáveis, tais como a floresta, o carvão vegetal e mineral, o petróleo, a água; esgotam-se os solos e reservas naturais; procede-se a emissão descomunal de gases para a atmosfera; alarga-se o buraco do ozono; queimam-se matas, matos e culturas, com a consequente deriva erosiva; sobe o nível das águas do mar, com o consequente degelo de oceanos, o esfarelamento dos icebergues e a invasão das orlas costeiras pelas águas dos mares; poluem-se ares, rios, lagos e mares; estão em vias de extinção espécies vegetais e animais, sobretudo em zonas territoriais cada vez menos circunscritas; promove-se em excesso a monocultura inibidora de crescimento de humidificação, renovação de espécies e retoma dos solos; alteram-se drasticamente as condições climatéricas; com a guerra e com o mau ordenamento do território destrói-se assustadoramente o património natural e edificado (de conceção simples ou de valia artística ou mesmo de aparência sumptuosa); surgem epidemias e pandemias, quase sem retorno; e sobretudo aniquilam-se vidas humanas em larguíssima escala.
Mesmo as medidas que se enunciam de reequilíbrio do ecossistema encontram poderosas resistências em Estados, grupos e indivíduos. Acima de tudo, pontificam os “interesses”.
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Dada a importância da temática do ambiente e os lancinantes apelos de entidades com voz autorizada na matéria e tendo em conta a existência de um elemento comum na formação das palavras “ecologia” e “economia”, entendi dever fazer um bosquejo sobre o tema.
No seu tratado Política, Aristóteles distingue economia crematística. Define economia como o estudo do abastecimento material do oikos (casa) ou da polis (cidade), isto é, da casa familiar ou da cidade. E crematística (do grego crema, chrématos – empresa, soma de dinheiro, bens, riqueza) seria o estudo da formação de preços nos mercados, como, por exemplo, o estudo do aumento de preços em situação de monopólio. Aristóteles exemplificou com o caso de Tales, que ganhou muito dinheiro com o monopólio dos moinhos de azeite de Mileto, demonstrando que um filósofo, se quisesse, saberia ganhar dinheiro como qualquer comerciante.
Hoje define-se usualmente economia (no grego, οικονομία – de οἶκος, translit. oikos, 'casa' + νόμος, translit. nomos, ‘costume ou lei’, ou também ‘gestão, administração’: daí “regras da casa” ou “administração doméstica”) como a ciência que consiste na análise da produção, distribuição/circulação e consumo de bens e serviços – segundo a lei da oferta e da procura. É também a ciência social que estuda a atividade económica, através da aplicação da teoria económica, tendo, na gestão, a sua aplicabilidade prática, segundo a qual devem conseguir-se o máximo de recursos, a sua máxima rentabilidade e o maior bem-estar – com o menor dispêndio de tempo e energias.
O Estagirita, para quem o abastecimento do oikos ou da polis não tinha de ser regulado pelo sistema de preços, não empregou o termo “ecologia”, cujo elemento de composição “eco” é comum a economia e que só foi introduzido no século XIX (1869), pelo cientista alemão Ernest Haeckel, para designar o estudo das relações entre os seres vivos e o ambiente em que vivem. Assim, a ecologia  (do grego oikos, casa; e logos, estudo, tratado – estudo da casa ou do lugar onde se vive) é a ciência que estuda as interações entre os organismos e o seu ambiente, ou seja, é o estudo científico da distribuição e abundância dos seres vivos e das interações que determinam a sua distribuição. As interações podem ser dos seres vivos entre si e/ou com o meio ambiente.
Já a distinção entre “economia” e “crematística” é exatamente a que se estabelece atualmente entre ecologia humana e economia, entre o estudo do uso de energia e materiais em ecossistemas onde vivem homens e mulheres, por um lado, e o estudo das transações no âmbito do mercado, por outro. O sentido que Aristóteles reserva para o termo economia  face à expansão do comércio e à alteração profunda nas relações sociais que aquele implica ─ constitui o significado que se atribui atualmente à expressão ecologia humana. Vivemos no regime de mercado. As Igrejas não vendem graças ou milagres, mas vendem propriedades, objetos e serviços que detenham. Os professores de universidade ou politécnico e os consultores não vendem as aprovações nos cursos, mas (quando podem) vendem o saber na forma de patentes, pareceres, consultas, prestação de serviços ou, em todo caso, na forma de aulas e conferências, etc. Até a terra, mesmo que eventualmente seja de propriedade pública, constitui geralmente propriedade privada e é objeto de compra e venda, doação, permuta e arrendamento, com os respetivos impostos.
A economia ecológica critica o “imperialismo” crematístico em dois casos particulares muito importantes: as exações de recursos energéticos e materiais esgotáveis ou lentamente renováveis; e as inserções invasivas no meio ambiente (poluição, saturação). Por exemplo: a economia ecológica questiona-se se o preço do petróleo se encontra adequadamente regulado e fixado pelo mercado, de modo a satisfazer duas exigências em equilíbrio, permitir um acesso condicionado para a satisfação das necessidades atuais e reservar parte deste recurso para as futuras gerações; pergunta-se outrossim se não se facilita em excesso, ao nível dos preços e autorizações públicas, a inserção pelas indústrias de resíduos não recicláveis no meio ambiente.
Neste sentido, é caso para nos interrogarmos porque é que não se diversificam os recursos para consecução de objetivos similares, por exemplo no âmbito das fontes e modalidades de energias e na diversificação de combustíveis? Por outro lado, torna-se difícil que o mercado queira alocar recursos esgotáveis com a participação dos que ainda não nasceram, aos quais não se reconhece atualmente qualquer poder de compra, vez, voz ou voto.
Quando se verifica a inserção invasiva de resíduos no meio ambiente, isto é, a poluição e os detritos não biodegradáveis, os economistas frequentemente aduzem o termo “externalidades”. Um dos primeiros exemplos de “externalidades” surgiu em textos da década de 1920: se um agricultor cultivar um pomar junto ao qual um apicultor crie abelhas, sem que necessariamente o pretendam, beneficiam-se mutuamente e sem que se configure uma transação mercantil. “Externalidade” é, pois, um benefício que não tem uma valoração crematística, mas que poderia ter. Por exemplo, não se cobra o direito de pasto às abelhas nem pela polinização que elas realizam. Mas poderia fazer-se. Por outro lado, os economistas apontam a existência de “externalidades” negativas, como, por exemplo, os fumos ou odores exalados por uma fábrica, que trazem consequências nefastas para a saúde ou para a limpeza das roupas – que não têm um valor crematístico na contabilidade de custos da empresa, mas poderia ter.
Embora seja difícil atribuir um valor financeiro à saúde, as companhias de seguros, nas sociedades de mercado, estabelecem preços e percentagens para tudo, inclusive para o tempo, a incapacidade e a morte. Os economistas, em seu imperialismo crematístico, propõem inclusive que os efeitos externos sejam convertidos em dinheiro ou preços, com base em inquéritos de opinião e ponderação de base teórica.
Parece que os efeitos das inserções invasivas no meio ambiente recaem sobre nós mesmos, ao passo que que a extração de recursos esgotáveis será problema dos vindouros. Isto explica que o ecologismo, antes de 1973 e talvez de novo agora (já que os preços do petróleo baixam de vez em quando), incida sobretudo nos diferentes aspetos da poluição do que no esgotamento dos recursos. Todavia, os problemas são intercomunicantes, já que muitas formas de poluição têm efeitos de longa duração que não podem ser avaliados em dinheiro segundo as regras rígidas do mercado. A economia crematística falha, então, redondamente, mesmo a nível conceitual, quando os efeitos externos ao mercado são de longeva duração. Também no atinente ao problema da distribuição intergeracional de recursos esgotáveis, os que ainda não nasceram não participam no mercado nem nas pesquisas de opinião.
O discurso crítico respeitante ao valor dos recursos esgotáveis e ao valor dos efeitos de longa duração externos ao mercado repercute-se na macroeconomia, isto é, no cálculo do produto total, do investimento, do consumo, que constituem a matéria básica da discussão política habitual. A modificação das contabilidades nacionais por parte da crítica ecológica é uma questão de enorme importância política. A economia ecológica começa por ridicularizar de bom grado grande parte do instrumental da economia convencional. Depois, tenta explicar o uso das energias e materiais em ecossistemas humanos. É uma ecologia humana, diferente da ecologia das plantas e dos animais, pois a humanidade tem uma caraterística especial: a possibilidade de enormes diferenças – entre as pessoas e entre territórios habitados por pessoas, no uso (e degradação) de energia e materiais.
Ora o que se faz hoje é atribuir valores geralmente baixos (“descontamos”) aos prejuízos (eventualmente benefícios) para os vindouros, ou seja, subvalorizamos o valor dos benefícios ou prejuízos futuros. A ciência económica não tem nenhuma resposta convincente, encontrando-se sem argumentos, no seu próprio campo, face à crítica ecológica. Tê-la-ia se tivesse em conta a dimensão construcional da ética, que, além de promover a moralidade (ἕθος – uso, hábito, costume) da gestão das coisas, dos fenómenos, das relações (a dimensão do uso e do costume), deve edificar a estratégia do zelo pela conservação, desenvolvimento e potenciação ordenada do “corpus”, construção (ἦθος – morada, residência, caráter), a nível micro, meso e macro. Também aqui a cidadania, para que tanto se apela, deveria ter uma palavra, não?!
É pena que à componente analítica e incremental não se adicione a componente “normalizadora”, reguladora, teleológica e ética, que a ciência económica deveria ter, até por exigência dos pressupostos ecológicos (que não excessivamente ecologistas). Desgraçadamente generalizou-se o pressuposto e a convicção da amoralidade da economia e assim se permitiu a hegemonização da vertente financeira sobre a economia e sobre a política. E assim o poder político, que deveria assumir uma função teleológica, normativa e reguladora, assiste impávido, como se nada fosse com ele, ao descalabro, à guerra económica e financeira, ao capitalismo sem rosto (de mercado ou de Estado), ao sistema desumano, que traça e cava o fosso entre ricos e pobres ou sentencia a morte de pessoas, grupos e povos.
É a lei da selva com rosto de decência, é a guerra dos novos tempos, à escala global. E, nestes termos, ou se serve a Deus ou se serve o dinheiro. Talvez o caminho seja o serviço a Deus, no quadro do principado da Paz, a ver se todos, escutando as vozes de bom senso e os clamores dos pobres, podemos passar a dizer Pai Nosso que estais nos Céus, no contexto da fraternidade universal, da vivência das liberdades e do estatuto da igualdade fundamental.
Referências
ALIER, J. Martinez. Economia e Ecologia – questões fundamentais.
GRILLO, Eduardo. (1982), “La producción agropecuaria de alimentos”. In LADO, Ames, Samaniego. Agricultura y Alimentación, Bases de un Nuevo Enfoque. Lima, Pontifícia Universidad Católica.
MARTINEZ ALIER, J. (1984), L'ecologisme i L'economia: história d'unes relacions amagades. Barcelona, ed. 62. 
NAREDO, J. M. et al. (1979), Estremadura Saqueada: Recursos Naturais e Autonomia Regional. Barcelona, Ruedo Ibérico.
____. (1987), La Economia en Evolución. Madrid: Siglo XXI.
SOBEJTMAN, A. 11983), “Análisis integral del problema alimentario y nutricional en América latina”. Estudios rurales latinoamericanos, 6 (2-3).

TOLEDO, Victor M. et. al. (1984), Ecologia y Autosubsistencía Alimentaria. México: Siglo XXI.

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