sábado, 2 de agosto de 2014

Manuel da Silva Gaio, escritor e teorizador

Com o apelido Silva Gaio conhecem-se dois homens da Literatura Portuguesa: Manuel, o filho; e António, o pai. O texto em desenvolvimento pretende fornecer uma informação sintética sobre a vida e a obra do filho.
Trata-se de um importante vulto das letras que vale pelo que escreve – embora a sua produção literária não seja sempre bem conseguida, como aliás acontece com muitos dos escritores que admiramos e estudamos – e pelos aspetos em que serve de mentor e avalista de estéticas, de expressões e de ideias. A sua valia parece ter ficado no olvido da comunidade cultural. No entanto, a comunidade local honra a sua memória com a dedicação da Escola do poeta Manuel da Silva Gaio, em Coimbra, e o professor José Carlos Seabra Pereira faz jus a aspetos marcantes da sua obra literária.  
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Manuel da Silva Gaio – poeta, teorizador e ensaísta português – nascido em Coimbra a 6 de maio de 1860, onde faleceu a 11 de fevereiro de 1934 – era filho de Emília Augusta de Campos Paredes e de António de Oliveira da Silva Gaio, médico e professor de Higiene na Universidade de Coimbra, onde se formou, e também escritor de nomeada.
Após a conclusão do curso de Direito, abandonando a ideia da advocacia, iniciou-se na carreira burocrática, desempenhando funções administrativas e ocupando cargos de relevo nas cidades de Faro, Silves, Tomar e, finalmente, na de Lisboa, onde passará a viver desde finais de 1887 (ano em que publicou o livro Primeiras Rimas, seu primeiro livro de poemas) até ao mês de maio de 1894. Nesta se entregará ao jornalismo, prestando assídua colaboração no jornal Novidades, de Emídio Navarro, e no Repórter, através de notas e breves estudos sobre exposições de artes plásticas e livros – “cristalizações de ideias e impressões sobre literatura e arte”, como as compiladas no volume Um Ano de Crónica, editado em 1889, momento em que se inicia a conformação da sua intervenção cultural e começa a sobressair a sua faceta de crítico artístico-literário.
Foi também secretário da Revista de Portugal (1889-1892), a convite de Eça de Queirós. Aí, nesse autêntico ponto de encontro de duas gerações de escritores, a de 70 e a de 90, atuou também como colaborador e crítico, a par de Luís de Magalhães, constituindo-se como elemento-charneira da geração intervalar favorável à dobra de página para o novo ambiente ideológico (idealismo e socialismo utópico vs positivismo e republicanismo) e estético-literário (realismo, simbolismo e futurismo) que predominará no contexto finissecular, vindo a talho de foice como exemplo disso o artigo Os Novos: Luís de Magalhães (a propósito de suas notas e impressões), como suporte da sua inflexão antinaturalista (cf Pereira, 1998: 12-13).
Paralelamente, como sublinha o professor doutor José Carlos Seabra Pereira, começa a equacionar a complementaridade entre o neorromantismo e nacionalismo literário em relação ao “novismo” esteticista e cosmopolita de Eugénio de Castro, começando a configurar-se como corifeu do movimento nacionalista e regionalista em Portugal. É a precursão do integralismo lusitano ou neolusismo. Paradigmáticas das claras orientações “neolusistas”, eivadas de simplicidade estética e centradas no novo folclorismo popularizante são as Canções do Mondego, publicadas em 1891 e marcadas pelo pendor madrigalesco. Depois de se iniciar na narrativa com Pecado Antigo (1993), pensa regressar a Coimbra (o que fará em maio de 1994), onde viverá até à morte numa contínua intermitência de fogachos interventivos e de apagamentos, entre ardores de corifeu literário e amargas resignações de académico entregue ao desempenho burocrata (cf id et ib: 15).
Efetivamente, de 1895 até ao final do século XIX, conhece um período de oscilação literária, coincidente com a participação em iniciativas de natureza cosmopolita e esteticista, como a revista Arte, uma revista de arte internacional, que funda e dirige com Eugénio de Castro e que procurava integrar Portugal nos movimentos de vanguarda europeus de literatura, arte e crítica.
Pertencerão a esta fase da sua vida o drama histórico Na Volta da Índia, notável exemplo de conseguido lusitanismo pela reconstituição da linguagem quinhentista, e também O Mundo Vive de Ilusão e As Três Ironias, binómio de obras sem que se nota o afloramento de alguns aspetos interessantes do decadentismo e do simbolismo. Porém, é com a publicação de Mondego, em 1900, que surge como assumido apologeta, apóstolo e até prosélito do neorromantismo lusitanista, prenhe de saudosismo, ao futuro jeito de Teixeira de Pascoais. Lemano – personagem em que o próprio autor se autoprojeta – personifica o poeta desenraizado, exceto na vertente do regresso à terra natal. E é este regresso que o compensa dando-lhe condições para guiar os zagais mondeguinos, de testemunhar que a solução dos problemas está em escutar o fluir natural do Mondego…, em ir beber a inspiração de poesia e vida nas fontes nacionais, numa clara e arrojada antecipação da poesia dos “velhos temas”, de António Sardinha e de Afonso Lopes Vieira (cf Pereira, op cit: 20).
Dos começos da sua produção literária do século de novecentos salientam-se: Versos Escolhidos (1905), uma antologia da sua obra poética; Novos Poemas (1906); obra vária de ficção narrativa, como A Dama de Ribadalva (1901), cuja trama se situa no tempo das invasões francesas napoleónicas, um malogrado projeto heteronímico intitulado As Ideias de Álvaro Bruno ou Romance de um Filósofo, Últimos Crentes (1904), e Torturados (1911).
Neste último romance, veremos o autorretrato do próprio Silva Gaio no retrato psicológico de Miguel de Gouveia. De entre as várias facetas de Miguel, o “psicólogo amador” Simão da Nóbrega – outra personagem da obra – sublinha a apetência pelas teorias do Existente, pela sujeição das energias animais aos ditames do pensamento e da poesia:
(…) Mundo e Vida afinal terão valor aos teus olhos quando os contemples sob a espécie de alguma dessas criações afirmativas, dalguma dessas conceções englobantes, chamadas teorias do Existente (…) tudo subordinas – tu tão dotado de energias animais – aos direitos do Pensamento, aos interesses da filosofia e da poesia – fontes-mães dessas conceções genéricas. Mesmo que estas falhem, e tenham de desabar umas atrás das outras! Pois nunca o seu valor de invenção e o seu intuito nobremente ambicioso poderiam deixar-te indiferente como divinas revelações da intelectualidade – teu grão-fetiche.
Campos de Figueiredo pretendeu encontrar neste presumido intelectualismo a explicação para a escassa aceitação da obra de Manuel da Silva Gaio. De qualquer modo, em contraponto ao alheamento do vasto público, que não conhece minimamente a produção de Silva Gaio, é considerável o seu prestígio em círculos restritos da vida literária e cultural, que exaltam o seu papel de precursor, justamente enquanto paladino e realizador do novolusismo (ou neolusismo) finissecular. Desse acolhimento encontramos exemplo na receção de Chave Dourada (1916), proclamado por Luís Almeida Braga em “O Poema do Momento”.
Que os círculos integralistas lhe votam afeição generalizada espelha-se no acolhimento entusiasta que António Sardinha empresta a Da Poesia na Educação dos Gregos (1917), alegadamente um capítulo de projetado livro sobre a Antiguidade Clássica. Porém, frente às loas que encomiam suas faculdades de escritor e de mentor, como pioneiro e mestre do lusitanismo, os esforços reativos de Silva Gaio caminham no sentido de o inscrever num horizonte axiológico universalista, que extrapole as raias da lusitanidade, procurando enlaçar nacionalismo e universalismo, historicismo e criticismo histórico, rejeitando, através de uma apologia da ação em luta contra a injustiça, possíveis acusações de social-reacionarismo (cf Pereira, op cit: 30). Deste impulso para sentimentos e ideias universais, nascem novos poemas: Dom João (versão de 1924), O Santo (1927) e Sulamite (1928). E na senda da notável monografia dedicada a Moniz Barreto, Manuel da Silva Gaio não para de aplicar-se a novos estudos críticos, publicando trabalhos sobre os Vencidos da Vida (1931) ou sobre o Bucolismo em Bernardim e Cristóvão Falcão (1932-1933).
Entretanto, conhecem-se-lhe também algumas colaborações nas revistas Arte e Vida (1904-1906), Ave Azul (1899-1900), Ilustração Portugueza (iniciada em 1903), A Semana de Lisboa (1893-1895) e Serões (1901-1911). Na revista internacional A Arte, que fundou e dirigiu com Eugénio de Castro, o poeta de Oaristos, prefaciou os volumes deste simbolista, Horas e Poesias Escolhidas.
Autor situado na convergência das tendências neorromântica e simbolista, a sua poesia colhe o misticismo de Guerra Junqueiro e de Antero de Quental, preferindo o verso inflamado e as estruturas de rasgo épico na abordagem de temáticas religiosas ou de cunho histórico-nacional. Na arte dramática, produziu um poema dramático, O Mundo Vive de Ilusão; um drama histórico, Na Volta da Índia; e uma peça em uma ato de cariz melodramático, A Encruzilhada.
Foi o introdutor do neolusitanismo, um movimento literário com a sua origem na obra de António Nobre, que proclamava a criação de uma poesia nacionalista e regionalista em Portugal. Afim do simbolismo, aquele movimento tinha como objetivos centrais reavivar as tradições e as fórmulas literárias verdadeiramente autóctones, mas, ao mesmo tempo, introduzir-lhes inovações métricas e estilísticas. Na poesia de Silva Gaio, tal como na dos outros poetas da corrente estética em que se inseriu, perpassa a angústia motivada pela passagem do tempo, a inquietação religiosa e o amor enquanto fatalidade e causa de morte. Sem ter atingido a plenitude artística em nenhum dos géneros a que se dedicou, Silva Gaio exerceu grande influência, especialmente a nível ideológico, junto dos poetas e artistas do seu tempo.
Em 11 de fevereiro de 1934, o dispersivo regressa ao Uno: Manuel da Silva Gaio morre na sua casa da Avenida Sá da Bandeira. Anos depois, a sua livraria é depositada pelos herdeiros na Biblioteca Municipal, colocando à disposição dos seus concidadãos um valioso património bibliográfico.
Referências
Barreiros, J. (1982).História da Literatura Portuguesa. Vol. II. Séc. XIX-XX. Braga: Livraria Editora Pax L.da
Braga, T. (1986). História da Literatura Portuguesa. Vol. V e VI. Mem Martins: Publicações Europa-América
Lisboa, E. (coord.) – Instituto Português do Livro e da Leitura (1990). Dicionário Cronológico de Autores Portugueses. Vol. II. Mem Martins: Publicações Europa-América

Pereira, J. (1998). A obra e a ação literária de Manuel da Silva Gaio. Coimbra: Escola do poeta Manuel da Silva Gaio

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