A Medalha Fields, o mais prestigiado prémio do mundo da matemática, premeia
quatro jovens matemáticos em 2018.
Oficialmente conhecido como “Medalha
Internacional de Descobrimentos Proeminentes em Matemática” e também pela designação de “O Nobel da Matemática”, em razão do seu prestígio,
este galardão é atribuído, a cada quatro anos, a dois, três ou quatro
jovens matemáticos com idade até aso 40 anos – a idade -imite que é regra do
próprio prémio –, pela União Matemática
Internacional no Congresso Internacional de Matemática (ICM).
Assim, o ICM-2018, realizado no Rio de Janeiro, Brasil, foi o palco da
atribuição e entrega do prémio mais importante e de maior impacto na área da
matemática a quatro jovens matemáticos até aos 40 anos, entre os quais se conta
um refugiado curdo, bem como o mais jovem matemático de sempre a conquistar
este galardão.
Os galardoados são, pois, Caucher Birkar, de 40 anos, refugiado curdo
e hoje professor e investigador na universidade de Cambridge, no Reino Unido; o
italiano Alessi Fegalli, de 34 anos, da Universidade tecnológica ETH de
Zurique, na Suíça; o alemão Peter Sholze, de 30 anos, da Universidade de Bona, na
Alemanha, e o mais jovem matemático a ganhar o galardão; e ainda o
australiano Akshay, de 36 anos, professor e investigador na Universidade
de Princeton, nos Estados Unidos.
Além da medalha propriamente dita e do prestígio que ela automaticamente
concede, os premiados ganham também 15 mil dólares canadianos (9.829 euros).
A Fields é uma medalha de ouro 14 quilates e tem 63,5 milímetros de
diâmetro, avaliada em 5.500 dólares canadenses.
Caucher Birkar, que ganhou a medalha pelo seu trabalho na área das equações
polinominais, nasceu em Marivan, no Irão, uma cidade muito martirizada durante
os anos de 1980, na guerra Irão-Iraque. Birkar estudou matemática na
Universidade de Teerão até ao ano 2000, quando rumou ao Reino Unido, onde
solicitou o estatuto de refugiado, que lhe foi concedido um ano depois, em 2001. Durante o ano em que esteve à espera, foi colocado em Nottingham, mas não
perdeu tempo e contactou, logo que possível, o matemático Ivan Fesenko, na
universidade local, que rapidamente se apercebeu de que estava perante um
talento invulgar. Fesenko, citado pelo The
Guardian, contou:
“Ele veio ter comigo, porque estava
interessado nas áreas em que eu próprio trabalho”.
Birkar ganhou, entretanto, a cidadania britânica e acabou por fazer o
doutoramento na Universidade de Nottingham, com Ivan Fesenko, estando
atualmente na Universidade de Cambridge.
Após o anúncio, Birkar expressou seu
desejo de que o prémio coloque “um sorriso no rosto de 40 milhões de pessoas”,
em referência ao povo curdo. E afirmou:
“O Curdistão era um lugar pouco
provável para que uma criança desenvolvesse seu interesse pela matemática”.
E à revista Quanta declarou:
“Passar de sequer imaginar conhecer
estas pessoas [que ganharam a medalha] a eu mesmo ganhar uma (...),
simplesmente não podia imaginar que isso fosse se tornar realidade”.
Outro dos medalhados do ano é o italiano Alessi Fegalli embora nada
parecesse predestiná-lo às abstrações numéricas, pois, segundo o ICM, até ao secundário o seu interesse
era o futebol.
Porém, agora a sua área de trabalho são as equações diferenciais parciais,
conexas com o problema do transporte ótimo e suas aplicações nas equações diferenciais e na geometria métrica, ou seja, a procura das rotas
mais eficientes para o transporte de um objeto entre dois locais diferentes. As equações podem dar “trabalho para os próximos 30 ou 40 anos. Mas
há um problema que espero resolver em breve: viver na mesma cidade que minha mulher”
– brincou o pesquisador.
Fegalli, de 34 anos, recebera, em 2016, uma bolsa milionária do European Research Center (ERC) para
desenvolver o seu trabalho.
O português Carlos Manuel Félix Moedas, comissário europeu da Investigação, Ciência, e Inovação,
congratulou-se com este importante prémio e declarou, a este respeito:
“Estou encantado por entre os premiados estar
o matemático italiano Alessi Fegalli, que é apoiado pelo ERC (European Research Council). Isto confirma que o ERC, que apoia ciência
excelente de forma competitiva, atrai o talento científico e é um exemplo de
sucesso do trabalho da UE para encorajar a investigação e a inovação de alta
qualidade.”.
Peter Sholze, 30 anos, da Universidade de Bona é o mais novo de sempre a
ganhar a prestigiada medalha Fields, pelo seu trabalho na área da aritmética e geometria
algébrica. O jovem alemão, que entende haver sempre problemas para resolver,
tem dado contributos decisivos para que estas duas áreas da matemática – a das
formas e a dos números –, que geralmente são encaradas como dois mundos à parte,
possam caminhar para uma unificação, tal como sucedeu politicamente com a
Alemanha no tempo Helmut Josef Michael Kohl. Essa é, pelo menos, a esperança do jovem Sholze, que se tem dedicado
a isso.
“Há um número infinito de problemas”, disse Scholze. “Quando conseguimos
resolver um, dez novos surgem”.
Por fim, o australiano Akshay Venkatesh, que está a trabalhar nos Estados
Unidos, na Universidade de Princeton, onde realiza suas pesquisas é o quarto galardoado deste
ano. Venkatesh é especialista em teoria dos números, entre outras áreas, e do
seu trabalho esperam-se possíveis novidades na distribuição dos números primos.
Nascido em Nova Déli, é um prodígio que começou a faculdade de matemática e
física na Universidade da Austrália Ocidental quando tinha apenas 13 anos. Foi recompensado
por suas contribuições à teoria dos números. A este respeito, declarou:
“Muitas vezes, quando você faz
matemática, fica preso. Mas você sente-se privilegiado por trabalhar com isso:
você tem um sentimento de transcendência e sente que é parte de algo realmente
significativo.”.
A medalha Fields, atribuída desde 1936 e que desde 1950, premeia, como se
disse, entre dois a quatro matemáticos até aos 40 anos a cada quatro anos.
Porém, até hoje só premiou uma mulher: a iraniana Maryam Mirzakhani, falecida o
ano passado, que recebeu o prémio na edição anterior a esta, em 2014, no
Congresso Internacional de Matemática, em Seul.
***
Entretanto, a medalha entregue ao mencionado matemático
iraniano foi roubada no Brasil. Na verdade, o galardão desapareceu pouco depois
de ter sido entregue a Caucher Birkar, no Rio de Janeiro, na cerimónia que abriu o ICM-2018. O
matemático, tendo acabado de receber a medalha no palco, colocou-a junto com o
seu telemóvel e carteira dentro duma pasta, que foi roubada enquanto ele
atendia pessoas que se aproximaram para conversar e tirar fotos.
A organização do ICM-2018 divulgou um comunicado a dizer que “lamenta o desaparecimento da pasta do
matemático Caucher Birkar que continha a Medalha Fields recebida na cerimónia
desta manhã”.
E o texto acrescenta:
“As imagens registadas durante o
evento estão sendo analisadas. Os organizadores colaboram com as autoridades
policiais na investigação do caso.”.
O ICM acontece pela primeira vez no Brasil – e mesmo na América Latina – e
reúne até ao dia 9 de agosto cerca de três mil pesquisadores e matemáticos de
todo o mundo.
Não sei se é caso para dizer que os brasileiros são muito religiosos ou
muitos desportistas, já que o roubo de medalhas pode significar apego a uma ou
à outra área – religião e desporto!
***
Em 2014, a Medalha
Fields foi atribuída pela primeira vez a uma mulher. Com efeito, a iraniana Maryam Mirzhakani, da Universidade de
Stanford, nos EUA, ficará na história da matemática por ter sido a primeira mulher distinguida
com este prémio, criado em 1936, e desde então até 2014 atribuído a 56 pessoas.
Na verdade, a matemática iraniana, então com a idade de 37 anos, ficou entre os quatro galardoados
com a Medalha Fields e foi premiada pelo seu importante contributo para o estudo da dinâmica e da
geometria das superfícies de Riemann e dos espaços modulares.
Nascida em Teerão, em 1977, emigrou, depois de se licenciar, para os
Estados Unidos, onde completou o mestrado e o doutoramento em Harvard. Aquando
da atribuição do galardão, era professora em Stanford, na Califórnia.
A União Matemática Internacional distinguiu, naquele ano, também o
brasileiro Artur Ávila, o austríaco Martin Hairer e o americano Manjul
Bhargava.
Entretanto, morreu aos 40 anos, a 15
de julho de 2017, nos Estados Unidos, vítima de cancro.
O Congresso Internacional de Matemáticos, quando anunciou a sua distinção,
escreveu:
“Com um conhecimento profundo de uma gama
diversificada de técnicas matemáticas e culturas díspares matemáticas, ela
domina uma rara combinação de ambição técnica audaciosa e uma curiosidade
profunda”.
Na ocasião, a cientista iraniana afirmou que era “uma grande honra” e que
ficava “feliz”, pois a distinção recebida incentivaria “as jovens cientistas e
matemáticas”.
Especialista em geometria de formas incomuns, descobriu novas fórmulas de
calcular o volume de objetos com superfícies hiperbólicas, como uma sela de
cavalo.
Dela escreveu Firouz Michael
Naderi, cientista americano-iraniano, que fez parte dos quadros da agência
espacial norte-americana NASA, na sua conta nas redes sociais Twitter e
Instagram:
“Uma luz apagou-se hoje. Partiu-se-me o
coração... partiu muito cedo. […] Um génio? Sim,
mas também uma filha, uma mãe e uma esposa.”.
***
Enfim,
por duas vezes consecutivas o ICM é palco de destaque para matemáticos
iranianos, mas, pelos vistos não lá residentes!
2018.08.01 –
Louro de Carvalho
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