quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Provas de aferição vs exames do 4.º ano de escolaridade

A Assembleia da República (AR) da XIII Legislatura houve por bem eliminar os exames nacionais do 4.º ano de escolaridade nas disciplinas de Português e de Matemática, introduzidos pelo Ministério de Nuno Crato e pelo mesmo eufemisticamente denominados de provas finais. Esta eufemística denominação estendeu-se aos exames nacionais do 9.º ano, introduzidos pela governação de Guterres, e do 6.º ano, introduzidos pela governação de Pinto de Sousa.
Entraram na mesa da AR projetos de lei para a eliminação dos exames daquelas disciplinas no fim do segundo ciclo e do terceiro. Crê-se, porém, que esta iniciativa legislativa terá dificuldade em vingar, dado que se reportam a medidas introduzidas por anteriores governos socialistas e parecem não fazer parte daquelas matérias fundamentais que uniram os partidos que formam a atual maioria parlamentar que garante a sobrevivência do governo minoritário do PS.
Entretanto, embora o Ministério da Educação (Adeus, Ministério da Educação e Ciência!) não o confirme nem o desminta, surgem notícias dadas como certas (até a partir das palavras de António Costa sobre a matéria) de que vão ser repostas as provas de aferição no 4.º ano de escolaridade nas ditas disciplinas de Português e de Matemática, que se estenderão ao 2.º ano da escolaridade. Estas provas não terão quaisquer efeitos nas classificações resultantes da avaliação sumativa final de ciclo, no primeiro caso, e de ano, no segundo.
Dizem alguns jornalistas comentadores que as provas de aferição têm em vista, não avaliar o desempenho dos alunos, mas o cumprimento dos programas e metas curriculares da parte dos professores, com a consequente assimilação por parte dos alunos, bem como o estado do sistema educativo de modo a que possam ser introduzidas medidas de melhoria. Mais: além de os testes de aferição não contarem para classificação, deixarão ainda de ser obrigatórios.
Em termos mais simplistas, a medida parlamentar está a encaminhar os operadores educativos para o retorno ao estado avaliativo do Ministério Maria de Lurdes Rodrigues. Talvez o novo Ministro da Educação Tiago Brandão Rodrigues, além do apelido, tenha mais semelhanças com aquela que ficou para a História da Educação como a antonomásia da infernização da vida dos professores na escola. Se assim for, que o leve o diabo! Digo-o com toda a força dos pulmões, apesar de já não ser parte interessada. Também não quero David Justino ou Isabel Alçada. E de Maria do Carmo Seabra, de que fiquei com boa impressão, não reza a curtíssima experiência governativa. E o Governo de Costa assim não augura nada de bom em matéria educativa.
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É certo que sujeitar alunos a exame final no 11.º ano e no 12.º ano sem eles passarem por uma experiência similar revelava-se nefasta. Porém, a experiência poderia ser feita por iniciativa e a nível de escola a critério do seu conselho pedagógico. Por outro lado, todos sabemos que os exames nacionais junto ao fim do ensino secundário surgiram como forma de encontrar uma solução seletiva para o ingresso no ensino superior, depois das experiências falhadas das provas de aferição no 12.º ano e da sua sucedânea PGA (Prova Geral de Acesso). E daí, a medida igualitarista determinou que todos os alunos tinham de se sujeitar a exame na maior parte das disciplinas como condição para terminarem o ensino secundário, com exceção dos alunos dos cursos profissionais ou similares. Para tanto, houve necessidade de simplificar, ou seja, reduzir ao mínimo os programas curriculares da reforma de Roberto Carneiro, aponto de os descaraterizar.
A introdução dos exames nas duas preditas disciplinas (ditas fundamentais) no 9.º ano correspondeu à ideia de que seriam convenientes no fim do ensino básico de 9 anos. E a sua extensão ao 6.º ano correspondia ao termo daquele ciclo de estudos que se evadia do regime da monodocência. Porém, Nuno Crato, apesar de manter o peso de 30% nos exames nacionais e nas provas finais, atribuiu-lhes uma carga discriminatória e punitiva, em nome de um rigor fictício, porquanto, transferindo-os progressivamente para o mês de maio (no 4.º ano e no 6.º), impôs, por um lado um regime de preparação intensiva para as provas e, por outro, uma intervenção corretiva e recuperadora da parte dos professores sobre os alunos que não obtiveram sucesso nas provas. Maior carga de trabalhos para os docentes, muitas vezes inglória. E essa conotação discriminatória e punitiva rapidamente se estendeu ao ensino secundário. Ademais, com o contributo das editoras, incluindo a do Ministério da Educação, muitíssimas escolas passaram a fazer incidir a sua atividade docente principalmente, para não dizer exclusivamente, no figurino de teste de exame ou prova final. E as escoas públicas e privadas passaram a funcionar mais à semelhança das escolas de condução – a preparar para exame e a alimentar os rankings, mas não a educar e formar à luz dos programas e tendo em conta o contexto.
E a linguagem e preocupações dos pais e da opinião pública, até no 1.º ciclo, são os testes, os exames… Atraso residual na colocação de docentes ou a abertura do ano letivo com uns dias de atraso, por motivos eleiçoeiros, impunha aulas suplementares nas disciplinas de exame.
Resta dizer, neste ponto, que a revolução abrilina não acabou com os exames. Eles mantiveram-se sob o figurino de exames para os alunos autopropostos, os que supostamente se tinham escapulido do sistema formal de ensino, para o que muitos anulavam a matrícula até ao final do 2.º período. Agora podem frequentar até ao fim do ano e podem ir a exame como autopropostos (até se convertem automaticamente de alunos internos em alunos autopropostos) ou a provas de equivalência à frequência. É este o máximo do rigor da parte de quem acusava o “eduquês” do sistema. Por outro lado, havia provas escritas e/ou práticas e orais a nível de escola, revestindo muitas delas o figurino de provas globais.
Convém ainda referir que a Milu tirou muitas disciplinas do mecanismo do exame, sobrecarregando a escola com matrizes e provas de equivalência à frequência a nível de escola.
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Criticados à nascença e contestados até ao fim pelos partidos de oposição à coligação de Passos e pelas associações de pais, os exames/provas finais foram uma das primeiras medidas herdadas do anterior Governo e enterradas pela maioria de esquerda parlamentar. O chumbo dos exames no 4.º ano foi aprovado na Assembleia da República no final de novembro com os votos do PS, PCP e BE, partidos que aduzem que provas com caráter classificativo até ao 4.º ano não resolvem os problemas de ensino e aprendizagem (e dou-lhes toda a razão neste aspeto). A este respeito, Costa, defendendo a diferença entre aferição e avaliação no desempenho da criança como não jogo de palavras, mas “visão completamente distinta da função da escola”, dizia:
“Para nós, não há confusões entre a existência de mecanismos de aferição e provas de avaliação que não se destinam a melhorar a qualidade do sistema, mas simplesmente selecionar os meninos que passam para o nível seguinte”.
Como é óbvio, o CNE (Conselho Nacional de Educação), liderado por David Justino, tomará brevemente posição sobre esta medida, que é do agrado da Confederação Nacional das Associações de Pais e da Confederação Nacional Independente de Pais e Encarregados de Educação. Mas os professores esperam ver debatido o modelo destas provas de aferição.
Os presidentes das duas confederações de associações de pais e encarregados de educação dizem aceitar o regresso das provas de aferição ao 4.º ano de escolaridade, mas as representantes das associações de professores de Português e de Matemática, respetivamente, pretendem que o Governo que abra um período de reflexão e debate público antes de tomar decisões nesta matéria. Ambas as associações consideram ser mais útil, eficaz e económico fazer a aferição por amostragem em vez de a estender a todo o universo de alunos. 
Quanto à abolição dos exames no 6.º ano e no 9.º, a CNIPE (Confederação Nacional Independente de Pais e Encarregados de Educação) pronunciou-se a favor; e a CONFAP (Confederação Nacional de Associações de Pais), parece encará-la “com naturalidade” e “com uma certa satisfação”.
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Do meu ponto de vista, a escola deve centrar-se na educação, formação e ensino com base nos programas e no contexto, valorizando a autonomia dos docentes e promovendo o exercício da liberdade de ensinar e de aprender (sobretudo esta bloqueada diariamente por alunos desmotivados). Deve ainda encontrar dentro de si formas de solução para a aferição interna do desenvolvimento curricular e estabelecer as convenientes medidas de remediação, para quem precise, e de reforço, para quem pretenda mais. Pode e talvez deva organizar provas globais nas diversas disciplinas como forma de os operadores educativos, em cada área curricular, se porem de acordo num conjunto de objetivos educacionais.
O ME tem a obrigação de promover a aferição a nível nacional nos diversos ciclos e modalidades de educação, formação e ensino, desjudicializar a ação educativa, divulgar as boas práticas e apoiar as escolas em caso de insuficiência. Todavia, deve furtar-se à massificação avaliativa e à inflação de classificações, seja na escola pública, seja na escola privada. Por isso, mais eficaz, menos penosa e mais económica será, a meu ver, a aferição por amostragem aleatória. Porém, o universo de alunos e professores eventualmente convocados numa escola devem sujeitar-se obrigatoriamente à aferição.
Quanto ao mais, em vez da obsessão pelo cumprimento do calendário examinal de maio, cuide-se de deixar respirar a escola, os professores e os alunos. Tire-se ainda das metas curriculares a famigerada vinculação a cada ano de escolaridade (passando à vinculação de ciclo) e o seu cariz milimétrico (por exemplo a capacidade para ler um texto de x palavras em y segundos). E passe-se a gestão de programas curriculares da editora para a escola.
E as instituições do ensino superior que assumam o ónus da seleção dos seus candidatos.
Será que vamos ter Ministro da Educação, Governo e Escola?

2015.12.15 – Louro de Carvalho

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