sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

A escravatura não é uma fatalidade histórica

Ao ler a homilia do senhor Bispo do Porto na celebração eucarística do 1.º de janeiro, solenidade de Santa Maria Mãe de Deus, XLVIII Dia Mundial da Paz e inauguração do ano de 2015, hesitei se devia selecionar para título de reflexão o referenciado em epígrafe ou uma expressão utilizada pelo prelado diocesano e aparentemente mais eclesial,bênção de Deus para a Humanidade”.
Depois, pensei que efetivamente o Papa Francisco, na sua mensagem para a reflexão na celebração da efeméride, faz um excursus histórico e doutrinal sobre a escravatura e denuncia as atuais formas de escravatura, tantas vezes iludidas pelas legislações nacionais e respetivas fiscalizações e pelos documentos de interesse mundial, apresentando mesmo um conjunto de medidas para o combate a toda a modalidade de escravização, apelando à mobilização de todos.
Acho, assim, que o bispo portuense fez muito bem em dizer – aos seus destinatários da Sé Catedral do Porto, da Rádio Renascença e a quem o ouviu de outra forma ou o vier a ler – que a escravatura “não é uma fatalidade histórica nem um desígnio corrosivo a que a Humanidade não saiba dar resposta”. O próprio Papa o deu a entender, ao afirmar que a escravatura, como os outros fenómenos que minam as relações interpessoais e entre povos, resulta da noção que se faça do homem (noção coisificadora), do pecado do homem e da corrupção dos corações. Nenhuma destas causas resulta de um qualquer fatalismo cego, mas das construções que a inteligência humana congemina, levada pela prerrogativa da liberdade, embora mal utilizada neste enquadramento. Porém, o homem, ao longo da História, consegue dispor de elementos que lhe permitam aprimorar as conceções sobre o próprio homem, ganhar força suficiente para renunciar ao pecado e para travar e anular as tentações de corrupção, escravização e espezinhamento das liberdades.
Por outro lado, Dom António Francisco (o segundo nome de Francisco coincide como adotado pelo Papa) alinha com o Papa Francisco na denúncia das novas formas e nomes de escravatura, mas fixa-se sobretudo nos aspetos positivos e esperançosos da mensagem papal – a exortação à aspiração à fraternidade e a estratégia de combate a qualquer uma das formas de escravidão ou servidão irracional movida por interesses mesquinhos de pessoas, grupos e povos.
Quanto à aspiração à fraternidade, decorrente da liberdade e comunhão evangélicas a que os homens são chamados, Dom António declara:
“O Papa Francisco incentiva-nos a assumir esta “aspiração irreprimível da fraternidade, impelindo todos os cristãos e pessoas de boa vontade à comunhão com os outros, em quem não encontramos inimigos ou concorrentes, mas irmãos que devemos acolher e abraçar…porque já não somos escravos mas irmãos … reunidos na comunidade cristã que deve ser necessariamente o lugar da comunhão vivida entre os irmãos” (cf.  Mensagem para o dia mundial da Paz, 2015).
É um excerto que vem na continuidade da mensagem pontifícia para o Dia Mundial da Paz de 2014, mas a que acrescenta o significativo segmento porque já não somos escravos mas irmãos”.
Quanto à estratégia concertada de combate, o bispo salienta:
Francisco convoca a Igreja, os Estados, as organizações internacionais, as empresas e as famílias para um compromisso comum em ordem a vencer a escravatura, unindo-se “ao enorme trabalho de coragem, paciência e perseverança que muitas congregações religiosas realizam silenciosamente há tantos anos, a favor das vítimas da escravidão ... juntando a este trabalho o esforço no campo da prevenção, da proteção das vítimas e da ação judicial contra os responsáveis” (idem).
E conclui que “só se consegue transformar o mundo a partir da conversão do coração de cada pessoa”.
Ora, é ao serviço da fraternidade e da paz que ela postula (e que passa pelo apuramento da noção do homem como ser livre e digno, como filho de Deus) que se implora e distribui a bênção de Deus e se merece o dom da Paz. Não haverá paz, nem a bênção de Deus faz luz em contexto de escravidão ou, como dizem alguns, de exploração do homem pelo homem. O homem livre não pode fazer do seu semelhante nem objeto de estimação nem animal de carga.
Também contra o mundo tenebroso da escravatura, da violação dos direitos do homem e do estrangulamento da dignidade da pessoa humana, “a missão da Igreja é esta: ser bênção de Deus para a Humanidade e sacramento de salvação para o Mundo” – proclama o bispo. E a bênção é para libertar as pessoas da mundanidade e da sua escravidão; e a salvação não se pode adiar para o futuro ou para o Além, tendo mesmo de começar já e aqui.
Junto das pessoas livres, no meio do povo de libertos, fazem sentido e caem como luvas ajustadas às mãos as palavras veterotestamentárias: “Que o Senhor te abençoe e te proteja…que o Senhor dirija para ti o Seu olhar e te conceda a paz” (Nm 6,24-26).
É claro que, embora os cristãos sejam herdeiros da bênção e da paz veterotestamentárias, essas já não lhes são bastantes. É no presépio e no altar que “encontramos Jesus, Príncipe da paz” – o que acontece “pela mediação de Santa Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe”, com quem se aprende a humildade da vida e o sentido de servir com alegria e liberdade. E Dom António Francisco cita o texto da plenitude do tempo e da condição divina e humana de Cristo, o fator da filiação divina adotiva dos homens e da fraternidade universal: “Quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma Mulher, para…nos tornar seus filhos adotivos e irmãos uns dos outros” (Gl 4,4-5).
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Glosando o início deste novo ciclo anual, o bispo da diocese portuense anota que o novo ano se inicia, “para os cristãos, com a bênção e sob o sinal da Mãe de Deus, que nos abre as portas do tempo novo como só as mães sabem fazer, ao abrirem as portas da casa e do coração para os seus filhos”. Para tanto, impõe-se assumir a simplicidade e a alegria de viver, a espontaneidade de ser livre ou, segundo o prelado, que cita Miguel Torga, “iniciar um novo ano é não desistir de ser criança, porque é isso que nos vale.
Como é habitual, nas homilias episcopais do antístite do Porto, ressalta a devoção à Mãe de Deus, que na Sé Catedral se invoca como Senhora de Vandoma e Senhora da Assunção. Nesta, ele confia-Lhe o “desejo profundo, nascido do coração de todos nós, de sermos abençoados e felizes e de vivermos em paz todo o ano”; e confia-Lhe “as mães e as famílias, com todos os seus projetos, esperanças, alegrias e dores”.
Depois, veja-se a personificação que Dom António faz da cidade e diocese do Porto, ao considerá-las “mães” do “nosso viver solidário, da nossa comunhão fraterna e do nosso crescer na fé”. É a fé de que Deus vive do meio do povo, mora na cidade. É o jeito do bispo que em seminarista aprendeu e ensinou a incensar o povo reunido nas liturgias solenes!
Mais: aponta a maternidade da Igreja como dimensão existencial da sua essência e missão: “A Igreja deseja ser para cada um de nós, ao longo do ano que agora começa, esta Mãe onde se espelhe a ternura do rosto materno de Maria, Mãe de Deus”.
Por isso, se queremos a paz, a liberdade e fraternidade, temos de aprender “a ultrapassar os conflitos”, temos de saber resistir à tentação do ódio, que nasce no íntimo do coração humano, e da violência da guerra, presente em tantos países do mundo”.
E define “a opção pela paz” como “o caminho obrigatório da Igreja e o seu imprescindível serviço ao bem comum da Humanidade”. E assegura, com toda a clareza, que “a paz que desejamos para a Humanidade não se pode nem se deve separar da paz que construirmos entre nós com a ajuda de Deus”.
Por fim, o Bispo do Porto fala da esperança dos crentes (e das suas razões) em quem mora a alegria do evangelho, “presente e atuante em tantas famílias e comunidades”. E insiste no seu ideário recorrente de querer que a Igreja do Porto assuma, “inspirada na Exortação Apostólica do Papa Francisco, a alegria do evangelho como sua missão, para o se impõe “construir em cada família, comunidade e instituição uma casa para a alegria do evangelho, para que aí habite a fé, a esperança, a caridade e a paz, como valores evangélicos indispensáveis e insubstituíveis”. A via para tal objetivo é a do Evangelho, que encoraja “a caminhar e a ir em frente, dando maior atenção às pessoas, sobretudo às mais pobres, e oferecendo respostas solidárias às famílias, empresas e instituições em dificuldade”; e a mobilizar a “vontade, generosidade, coragem e espírito criativo para fazermos do nosso tempo uma oportunidade para acolhermos a alegria do evangelho, que o encontro com Cristo e com a Igreja nos oferece, e para fazermos da nossa terra uma escola onde se eduque para a fraternidade humana”.
Também a esperança se estriba no reconhecimento da “capacidade empreendedora” e do “espírito solidário” que fazem do Porto e da sua alma “uma terra solidária e dinâmica e uma Igreja viva e missionária”. Depois, o penhor humano de que “a construção da justiça, da misericórdia, da fraternidade e da paz é um belo compromisso de todos e um imperativo cristão assumido por cada um de nós” reside na “terra fértil e acolhedora que habitamos”; na “lucidez diligente dos que servem a causa pública”; no “espírito construtivo de empresários e trabalhadores”; na “clarividente sabedoria dos que ouvem os pobres”; na “missão evangelizadora”; na “atenção solícita da Igreja”; e no “serviço voluntário de muitas pessoas e instituições junto dos que mais sofrem”.
Por isso, a exemplo de S. Francisco de Assis, “o incansável profeta e construtor da paz”, e do Papa Francisco, que não esquece os pobres e a imagem da Igreja em saída, o prelado diocesano reza em nome de cada um dos diocesanos da Igreja do Porto: Faz-me, Senhor, instrumento da paz, da Tua paz.”.

E, sim, espero não deslustrar com este arrazoado a profundidade e a beleza desta homilia do Bispo do Porto, a primeira que profere no Porto no dia primeiro de janeiro – pela Paz e pela Bênção, pela Igreja e por Maria, pela Liberdade e pela Alegria, pela Herança religiosa e pelo Compromisso com o Futuro.

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