Assim me dá para designar a luta
de galos entre António Costa e António José Seguro em disputa pela liderança do
partido socialista (PS), a coberto de recente invenção de eleições primárias
para o posicionamento em candidato do PS ao cargo de primeiro-ministro
(confesso ter sentido alguma dificuldade em alinhar a frase em termos o mais
precisos possível). Desta disputa já se diz ironicamente que sai vencedor o António; só não se vislumbra o que se
perderá no PS e no país. Diga-se desde já que, tenha a culpa quem a tiver, se
trata de uma insólita, para não dizer inédita, enormidade política.
Com a queda de Sócrates, António
José Seguro foi eleito secretário-geral do PS. Como lhe era difícil conviver
com a realidade de partido órfão de pai vivo, fez razoavelmente o ponto de
embraiagem entre o futuro desconhecido, mas carregado de sombras, e o passado
marcado pela narrativa da pré-bancarrota, pelo desgaste político do
ex-primeiro-ministro e pelo memorando de entendimento (negociado e assinado
pelos três partidos do arco governamental) em excesso atribuído à teimosia do
anterior líder socialista. O partido começou pouco a pouco a afirmar-se como
oposição perante a visível descaraterização do memorando cada vez mais funesto
nas consequências e a degradação social e política a ficar em situação
explosiva. No entanto, a bondade inicial de Seguro não foi suficiente para
compensar a falta de carisma e arreganho político, sobretudo quando
contraditado frente a passado que não soube nem rejeitar nem assumir
criticamente. Tal postura, por vezes de expressão confrangedora, impediu que o
PS não se perspetivasse perante o povo como alternativa credível: o povo
rejeitava um governo sem norte, mas não via no partido socialista tábua a que
pudesse agarrar-se. E, se o governo tinha rasgado as promessas eleitorais,
também ainda não se tinha banido o espectro dos males que o consulado socrático
infligira a muitos dos grupos profissionais nem do enfrentamento medíocre da
crise, dita nossa, mas internacional e sistémica.
***
António Costa, em tempo útil
reagiu, mas sem consequência: não tinha certeza de conseguir a liderança do
partido, já domesticado pelo aparelho e com uma revisão de estatutos paramentada
de controvérsia (Congresso não decidiu, pois, tal não estava agendado nem
mandatou a Comissão Nacional nas tarefas de revisão estatutária). Mas sabia
que, perdido na eventual luta pela liderança partidária, acabaria, na certa,
por perder as eleições autárquicas em Lisboa. O PS já tinha cometido pelo menos
tantos erros táticos na escolha de candidatos autárquicos como o PSD e o CDS. E
surgiu o milagre transitório: em noite faustosa os dois camaradas com o nome
António consagraram a unidade do partido e a estratégia de ação futura, que o
Congresso rubricou por esmagadora maioria.
E o PS disputou as eleições
autárquicas sob a ameaça de eleições legislativas antecipadas (em ambiente da
crise política das decisões de incapacidade e desistência de Gaspar, da decisão
irrevogável de saída de Portas e do apelo de Cavaco à Salvação Nacional). Ganhou
as eleições autárquicas, quaisquer que sejam os parâmetros de aferição de
vitória. Todavia, graças ao desgaste do Governo e dos erros autárquicos da
parte da maioria que suporta a coligação governamental, a vitória do PS poderia
ter sido mais folgada. Subiram as candidaturas de independentes, genuínos
(poucos) ou postiços (a maior parte eram dissidentes).
António Costa, ganhador em
Lisboa, cedo afirmou que a vitória era indiscutível, mas, perante a descida ou
estagnação do PS nas intenções de voto vaticinou que as pessoas, apesar do
cartão vermelho apresentado ao Governo, ainda não viam no PS uma alternativa
credível de que precisavam para a governação eficaz e alegou que havia um longo
caminho a percorrer.
E vieram as eleições europeias a
25 de maio. A campanha eleitoral foi sofrível em termos do debate: os assuntos
europeus e os nacionais misturaram-se de tal maneira que nada ou quase nada
ficou esclarecido. Os temas mais discutidos eram pormenores de adereços, sem
interesse. E a coligação teve uma derrota estrondosa, mas o PS, em cuja
campanha Seguro se empenhara a fundo (aliás, como na das autárquicas), teve uma
vitória tangencial (Mais 3% + que a coligação governamental). Além do
crescimento de alguns dos pequenos partidos (e a diminuição evidente do Bloco
de Esquerda), foi tremendamente maioritária a abstenção e cresceu de forma
insólita o número de votos nulo e de votos em branco.
***
Dias depois, Costa apresentou-se
como disponível para disputar a liderança do partido, argumentando que a
vitória (engrandecida como histórica pelo secretário-geral e pelo cabeça de
lista vencedora) soube a pouco – o que, pelo número de abstencionistas, brancos
e nulos, mostrava que este PS não dava garantias de vitória eleitoral em 2015.
Seguro, em vez de, ao ler a
realidade, ter assumido a grandeza de pôr o lugar à disposição dos militantes
para obter a clarificação dentro do partido, reage a contragosto. Talvez
enredado no aparelho partidário (há quem espirre compromissos assumidos em
termos de lugares governativos, partidários e empresariais – coisa em que me
recuso acreditar) escuda-se nas duas vitórias consecutivas, no melhor resultado
socialista a nível europeu e na ambição alheia pelo poder. Não promove eleições
para a liderança nem congresso. Pede à Presidente do partido que estude as
possibilidades da intenção do secretário-geral em termos do direito comparado e
propõe à Comissão Política Nacional a marcação de eleições primárias para
candidato do PS ao cargo de primeiro-ministro. E, sim, o órgão mais importante
entre sessões da Comissão Nacional, que, por sua vez, é o órgão mais importante
entre congressos, acolhe a proposta do secretário-geral e marca eleições
primárias para 28 de setembro, em que, além dos militantes, poderão votar os
simpatizantes que se inscrevam como tais até 12 de setembro e declarem concordar
com os princípios do PS, consignados em documento que lhes ficará disponibilizado.
Foi mesmo designada uma comissão eleitoral de consenso das candidaturas, sob a
presidência do prestigiado camarada Jorge Coelho. Seguro, entretanto, terá
declarado que, no caso de perder as primárias, abandonará o cargo de
secretário-geral.
***
Se António Costa está convencido
de que tem razão, deveria, em meu entender, combater até à última essa ideia
peregrina das primárias e lutar pelas eleições diretas para secretário-geral. E
o tempo que se está a perder, com risco de inutilidade, poderia ter sido gasto
na demonstração das razões da bondade e da pertinência da sua atitude. Por seu
turno, se José Seguro fosse amigo do PS e do País, não arriscava uma forma de
solução inédita, de legalidade no mínimo duvidosa e implicando uma considerável
perda de tempo. Uma solução encontrada dentro do partido, e a pensar no país,
seria mais rápida, menos ambígua e mais de acordo com a lei e com os estatutos
e claramente sem engulhos constitucionais.
Desde já, não faz sentido uma
candidatura de primárias para primeiro-ministro. Não há no nosso ordenamento
constitucional eleições para tal. Embora seja voz corrente que o partido que
ganha as eleições dará o primeiro-ministro, na realidade, os portugueses elegem
diretamente a Assembleia da República, cuja composição reflete o método de
representação proporcional, pela média mais alta de Hondt. E o Presidente da
República faz a nomeação do primeiro-ministro, ouvidos os partidos
representados na Assembleia e tendo em conta os resultados eleitorais (cf CRP,
art.º 187.º/1). Ora em tese, o partido que obteve melhores resultados pode não
dispor de condições para formar governo, pelo que não deve fazer-se uma eleição
para algo que pode não acontecer. De facto, nos Estados Unidos da América (EUA)
e em França, consolidou-se o sistema das eleições primárias para o candidato de
partido à Presidência da República. Porém, em Portugal, os candidatos à
presidência não surgem no quadro partidário. Eles resultam de opção pessoal (cf
CRP, art.º 124.º/1), apoiável por um leque partidário mais alargado ou mais
reduzido, consoante o perfil dos candidatos. Já nos países mencionados, o
presidente é eleito por um colégio eleitoral, constituído pelos grandes
eleitores (EUA), ou por voto universal, secreto e direto (França), mas as
candidaturas surgem no âmbito dos partidos. O Presidente escolhido é sempre um
dos candidatos que ganharam as primárias dentro do respetivo partido ou frente
partidária.
Mas o secretário-geral esquece-se
de que o nosso código civil (vd art.º 157.º e seguintes) não prevê eleições
fora dos corpos sociais definidos estatutariamente e aqueles são eleitos em
assembleia geral de associados e não outros; por outro lado, os estatutos do
PS, que poderiam estabelecer de outro modo, não preveem nem eleição de órgão
extrapartidário nem direito de voto extensivo a simpatizantes.
O máximo concedido a
simpatizantes, segundo os estatutos, é: “apresentar
contributos sobre a organização, a orientação e a atividade do Partido” –
art.º 12.º/1, c). Aos independentes o máximo que se lhes confia parece ser: “Os órgãos deliberativos do Partido podem
convidar cidadãos independentes a participar na atividade das estruturas e nas
reuniões dos órgãos do Partido, exceto no período destinado à tomada de
deliberações” (sublinhei) – art.º 18.º/1.
E, sobre a capacidade ativa, os
estatutos são claros: “Só têm capacidade
eleitoral ativa os membros do Partido com doze meses de inscrição na data do
ato eleitoral e com as quotas em dia até um mês antes do dia da eleição” –
art.º 15.º/1.
Sendo assim, é de perguntar:
– Como é que se pode aceitar a
capacidade eleitoral ativa de simpatizantes (quando esta é reconhecida somente
a membros do partido) até quinze dias antes do ato eleitoral, quando os membros
do Partido têm de estar inscritos há doze meses e com as quotas em dia até um
mês antes das eleições?
– Não se vislumbra aqui uma
grosseira violação dos estatutos, que o Congresso não alterou nem mandatou a
Comissão Nacional para tal, sob o olhar cúmplice de toda a massa partidária e
adjacente?
– Vão os promotores dessa farsa e
os cúmplices acreditar na sanação de irregularidade com base na concordância
geral, na convicção de que ninguém levantará incidente (agora não se impugna o
que ainda não aconteceu; depois, não se impugnará por inoportuno ou por lesivo
do interesse partidário e/ou nacional)?
– Vamos aceitar um facto
consumado que alguém criou deliberadamente ou por inépcia?
– Querem que acreditemos, para a
governação justa, em sã legalidade eficiência e eficácia, num partido que não
sabe arrumar a casa a tempo e sem recorrer a subterfúgios?
– Querem que acreditemos num partido que não
está presente como oposição que, após a saída formal da troika, se me afigura
cada vez mais necessária?
– Querem que acreditemos em
Seguro, que disse não ter falado de coisas que tinha em mente apenas para preservar
a paz e o bem-estar no Partido ou que declarou, tarde e a más horas, que não
teria assinado o memorando de entendimento?
– Finalmente, querem convencer os
portugueses de que as primárias para candidatura a primeiro-ministro configuram
aquele “plano de ação para a Democracia Participativa”, previsto na alínea h)
do artigo 63.º dos estatutos, artigo que define as competências da Comissão
Política Nacional: “aprovar, sob proposta
do Secretariado Nacional, um plano de ação para a Democracia Participativa, o
qual será objeto de relatório anual a submeter à apreciação da Comissão
Política Nacional”? Ou estará o partido a observar a alínea d) do mesmo
artigo, que aliás Seguro invocou na proposta que fez à Comissão Política
Nacional?
A Veneranda Comissão designa per modum electionis estranho aos
trâmites usuais no partido. Que generosidade, trapalhada ou quiçá forma subtil
de consecução de intentos subliminares!
Pobre partido socialista, mas
corações ao alto, portugueses!
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