sábado, 15 de novembro de 2014

O mês de novembro: perspetivas poligráficas

O mês de novembro literalmente não passa de mais um mês como os outros, embora com a particularidade de nos colocar na varanda do fim do ano. Todavia, à sua volta, podem tecer-se algumas considerações configuradoras de perspetivas não pouco interessantes.
As pessoas mais idosas, em alguns lugares do país, denominavam-no como o Mês dos Santos ou o Mês das Castanhas. Era uma referência temporal com base na matéria religiosa, no primeiro caso, e com base num tipo de produção agrícola, no outro. Para os norte-americanos é o mês em que ocorre o dia de Ação de Graças. Para os portugueses, o dia de ação de graças ou passa despercebido ou então qualquer dia, sobretudo o domingo, serve para dar graças a Deus por todos os benefícios que vem concedendo aos homens.
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Este ano, para os portugueses, novembro fica marcado pela expulsão, em 48 horas, de um grupo de magistrados que prestavam serviço em Timor-Leste – medida tomada em circunstâncias pouco esclarecidas e que o Presidente da República de Portugal considerou desproporcionada. Esta consideração presidencial, num contexto de quase silêncio em torno da ação dos magistrados portugueses (se excetuarmos os órgãos mais diretamente a eles ligados), incluindo a ambiguidade das declarações governamentais, pode ser entendida como merecida, embora com dose excessiva. Uma questão de dose, pasme-se”
Penso esclarecedora a posição de Mari Alkatiri, no DN, de ontem:
Timor aprovou uma lei a admitir magistrados internacionais, que fazem parte do nosso sistema judicial. A solução passava pela revisão dessa lei, para não permitir que esses magistrados exercessem funções executivas em Timor, mas apenas de assessoria e formação. E isso não ofenderia ninguém. Assim, criou-se um clima negativo. (…) A presença dos magistrados portugueses no sistema judiciário e de justiça timorense foi uma decisão soberana de Timor. A lei foi aprovada pelo Parlamento e promulgada pelo Presidente da República, que era Xanana Gusmão. (…) Quando chefiei o governo, de 2002 a 2006, o plano passava por dar cinco anos de preparação aos juízes, no Centro de Formação Jurídica. Devia ter havido reciclagem permanente dos profissionais timorenses. Devia ter terminado esse período de cooperação e evoluir para outro, mais centrado na área da formação e da assessoria.
Por outro lado, rebentou a questão dos vistos Gold, com doze arguidos, sendo alguns altas figuras do sistema, nomeadamente nas áreas dos Ministérios da Administração Interna, da Justiça e do Ambiente e Ordenamento do Território. Segundo o Expresso, o próprio diretor do SIS estaria implicado. Os arguidos estão indiciados de corrupção, tráfico de influências, branqueamento de capitais e peculato. Vamos ver no que isto dá ou talvez seja como de costume: dar em nada.
Porém, o novembro deste ano marca Portugal com um dos desastres mais significativos em saúde pública, o surto de legionella, pelos vistos com epicentro em Vila Franca de Xira, de que resultaram sete vítimas mortais e mais de três centenas de infetados. Como é óbvio, embora não totalmente justo, as atenções acusatórias voltam-se para o Governo, por causa da tergiversação legislativa em matéria de fiscalização, e para os empresários, devido à falta de cuidado na vigilância sobre os equipamentos suscetíveis de aninhamento e proliferação da bactéria. Depois, aponta-se o surto excecional de calor excessivo e húmido na segunda metade de outubro.
Espera-se que a responsabilidade não caia de todo no apóstolo São Pedro, por baralhador das condições climáticas. E dos homens, que é dos homens?!
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Por sua vez, a Europa tem um novembro flagelado com a informação sobre o “LuxLeaks”.
As investigações do ICIJ (Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação), que abrangem um período entre 2002 e 2010, época em que o grão-ducado do Luxemburgo tinha como primeiro-ministro o atual presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, revelam, segundo o DN, de hoje, que a atividade financeira do Luxemburgo é responsável por um terço das receitas fiscais, de acordo com os dados oficiais, e representa hoje um quinto do produto interno bruto (PIB) do grão-ducado. Não obstante, absorve o emprego de apenas um décimo da população ativa. O que ajuda a entender a dimensão e o impacto das revelações sobre a atribuição de benefícios fiscais pelo governo luxemburguês a centenas de empresas internacionais, algumas delas entre as principais no mercado mundial.
A natureza das decisões, em número de 548, que determinaram este tipo de benefícios, equivale a uma forma de garantia jurídica que consagra benefícios fiscais. Tais decisões revestem a forma de pareceres, também designados por acordos, em resposta a pedidos de esclarecimento das empresas sobre qual seria o tratamento tributário que lhes seria aplicado no grão-ducado. 
O antigo primeiro-ministro do Luxemburgo, Jean-Claude Juncker admite “responsabilidade política”, mas desculpa-se com o alegado facto de a atuação ser “corrente” noutros Estados. (vd DN, de 15-11-2014).
Sua Excelência o ilustre súbdito do Grão-Duque esquece-se de que a generalização de um comportamento não transforma esse comportamento em ação aceitável do ponto de vista ético. Ou será que ele, como cidadão de um estado monárquico, estará dispensado da observância da ética republicana? Demais, se nos Estados-Membros os governantes devem tirar consequências das suas responsabilidades políticas perante erros do sistema ou de seus agentes, também o eurocrata as deve tirar. E ainda está a tempo!
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Regressando à mística do mês de novembro, historicamente ele fica marcado pelo terramoto de 1 de novembro de 1755, de Lisboa, que impressionou a própria Europa pela sua dimensão catastrófica e pela sua extensão a outras zonas do país. Para longe vá o agouro sobre estas catástrofes!
Todavia, gostava de aflorar o novembro como o mês da “partilha”.
Nalguns lugares, o primeiro dia era assinalado com o peditório do “pão por Deus”. As pessoas, sobretudo os miúdos, batiam às portas e pediam por Deus o pão de que precisavam. É certo que o fenómeno espelha a miséria de muitos em face da opulência de tantos. Porém, muitos dos que davam o pão não eram os mais ricos (esses costumavam dar só por ostentação; até rezavam a Deus para que lhes desse pobres a fim de exercerem a caridade); por outro lado, exprime uma postura de partilha num contexto da insuficiência dos que pedem e da magra suficiência dos que dão. Pena será se o progresso civilizacional e o desenvolvimento cultural levam à cristalização da posse, com a avara arrecadação e retenção de tudo, deixando aos outros por resto e caridade o que lhes é devido por direito e justiça em razão da necessidade não culpada e/ou do mérito do seu trabalho. E o que se espera do progresso é a partilha, à cabeça, dos recursos, das oportunidades, dos direitos, dos deveres, ou, se quisermos, da expressão da cidadania a nível económico, cultural, social e político.
Ao nível da partilha cultural e social, novembro torna-se o cenário do “magusto”, em que à roda da fogueira, se juntam os circunstantes para a permuta da castanha assada, quentinha e de valor proteico, e do vinho novo (que alegra o povo), pretexto e símbolo da boa disposição, da convivência e da abundância. Muitas vezes, o “verão de São Martinho” fornece ao cenário um pouco mais de conforto, que, de vez em quando, mima a população com o desagrado das epocais doenças, ebriedades e zaragatas. Nem toda a partilha é desejável e plausível!
Mas há outra partilha mais espiritual. Novembro é o mês das almas. E a tradição está repleta de motivos conexos com esta devoção. As pessoas, singularmente consideradas, e os povos em coletivo, sufragam os seus mortos, celebram o jubileu das almas (confissão, ofício e missa com comunhão pelos defuntos), fazem romagem aos cemitérios, gritam pelas ruas o brado das almas, rezam ou cantam os salmos penitenciais e reverenciam os pequenos monumentos dedicados às almas. É o culto pela Igreja que se purifica no Além: “uma bela recompensa espera os que morrem piedosamente – é este um santo e piedoso pensamento” (2Mac 12,43).
O primeiro dia deste “trintário” é dedicado à honra de todos os santos e santas, que formam e emolduram a Igreja dita triunfante, a dos que moram na glória de Deus e na Sua intimidade, que têm a missão de, glorificando a Deus, interceder por nós.
E o último domingo do ano litúrgico, um dos últimos deste mês, celebra a solenidade de Cristo Rei e Senhor do Universo, tradicionalmente dedicados àqueles e àquelas que, incorporados no mistério de Cristo, se dispõem a professar a fé, a difundi-la e a utilizá-la como fermento das realidades terrestres, embora sem lhes retirar a autonomia que lhes cabe. É a Igreja peregrina ou militante e missionária, sempre em saída, com a força do Espírito, em prol do que precisam.

É neste mistério da fé, da esperança e da solidariedade por vivos e defuntos que se inscreve esta modalidade mais nobre de partilha e comunhão, de luta pela realização da justiça, em prol de todos quantos Deus considera seus filhos e nós temos de considerar irmãos e próximos. É esta dinâmica da profunda e larga justiça, inspirada na liberalidade de Deus, que fundamenta e constitui a autêntica, a genuína caridade, em tudo contrária à caridadezinha e diferente da mera filantropia.

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