sexta-feira, 14 de novembro de 2014

A Europa em regime de agorafobia bipolar

Foi há 25 anos que o mundo assistiu, entre a surpresa e o esperado, à emblemática queda do muro de Berlim. Com a queda deste problemático separador dos dois campos opostos da cidade a Alemanha correu para a unificação e o bastião europeu da dita aplicação do marxismo à ordenação política implodiu.
Apontam-se antecedentes, como: a perspetiva da Perestroika e da Glasnost, de Gorbatchev, na União Soviética; o apoio de João Paulo II ao Solidariedade, na Polónia; o desgaste da guerra fria; “a determinação de Reagan de incrementar colossalmente o orçamento militar dos Estados Unidos para debilitar as finanças exangues de Moscovo e tornar impossível a sua corrida ao armamento” (vd M. A. Belloso, in DN, de hoje); e a própria dinâmica evolutiva contraditória da ação política da RDA.
Por outro lado, o chanceler Helmut Kohl, que fica para o futuro como o grande obreiro da unificação alemã, orientou todo o processo de integração da República Democrática Alemã e da República Federal da Alemanha, que teve início no ano seguinte ao do colapso do muro. Porém, se o chanceler ousou assumir esse grande desígnio político, também arrostou com as dificuldades sociais e económicas (a elevada taxa de desemprego, por exemplo) que o processo de integração acarretou. No entanto, a Europa reconhece-o como um dos grandes arquitetos da União relançada em novos moldes, em tempo em que as decisões pró-europeias ainda eram levadas a sério.
Belloso (id et ib) considera que estes 25 anos constituem “duas décadas e meia nefastas para a esquerda mundial”, que “jamais digeriu o triunfo inapelável do capitalismo”.
Não posso deixar de insistir na denúncia e apelo de João Paulo II:
Existe o perigo de substituir o marxismo por uma outra forma de ateísmo, que adulando a liberdade tende a destruir as raízes da moral humana e cristã. (…) Que os povos não reabram novos fossos de ódio e vingança; que o mundo não ceda à ilusão de um falso bem-estar que avilta a dignidade da pessoa e compromete para sempre os recursos da criação. (…) Mostrai que sois Mãe dos pobres, de quem morre de fome e sem assistência na doença, de quem sofre injustiças e afrontas, de quem não encontra trabalho, casa nem abrigo, de quem é oprimido e explorado de quem desespera ou em vão procura o repouso longe de Deus. (Fátima, 13 de maio de 1991).
Já não falo dos malefícios da economia de mercado apontados por Bento XVI, a que me referi em tempo, ou da tomada de posição do Papa Francisco em prol dos pobres e explorados. A carta dirigida ao Primeiro-Ministro da Austrália por ocasião da cimeira do G20 põe o dedo na ferida:
Gostaria de pedir aos Chefes de Estado e de Governo do G20 que não se esqueçam de que, por detrás destes debates políticos e técnicos, estão em jogo muitas vidas, e que seria verdadeiramente lamentável se tais debates permanecessem puramente no plano de declarações de princípio. No mundo, inclusive no âmbito dos próprios países pertencentes ao G20, existem demasiadas mulheres e homens que sofrem por causa de grave subalimentação, devido ao aumento do número de desempregados, à percentagem extremamente elevada de jovens sem trabalho e ao crescimento da exclusão social, que pode levar a favorecer a atividade criminosa e até o recrutamento de terroristas. Além disso, verifica-se uma agressão constante contra o ambiente natural, resultado de um consumismo exasperado, e tudo isto provocará sérias consequências para a economia mundial. (6 de novembro).
E mais adiante, no mesmo documento, avisa, com a esperança na responsabilidade do G20:
O mundo inteiro espera do G20 um acordo cada vez mais vasto que, no âmbito do ordenamento das Nações Unidas, possa levar a pôr definitivamente fim, no Médio Oriente, à agressão injusta contra diferentes grupos religiosos e étnicos, incluindo as minorias. Além disso, deveria levar a eliminar as profundas causas do terrorismo, que alcançou proporções até agora inimagináveis; tais causas incluem a pobreza, o subdesenvolvimento e a exclusão. Tornou-se cada vez mais evidente que a solução para este grave problema não pode ser exclusivamente de natureza militar, mas deve concentrar-se também naqueles que, de um modo ou de outro, encorajam grupos terroristas com o apoio político, o comércio ilegal de petróleo ou o fornecimento de armas e de tecnologia. Além disso, são necessários um esforço educativo e uma consciência mais clara de que a religião não pode ser explorada como caminho para justificar a violência. (id et ib).
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Neste contexto histórico geopolítico subsequente à queda do muro de Berlim e implosão da União Soviética, a Europa que, do Leste ao Oeste, no dizer de João Paulo II (id et ib), “não pode reencontrar a sua verdadeira identidade sem redescobrir as suas raízes cristãs comuns”, começou a viver numa espécie de agorafobia. Apesar de um pouco maior, porque sem barreiras derivadas da divisão em dois blocos, passou a sentir um mal estar consigo própria, quase a não caber dentro de si.  Faz lembrar as galinhas quando se veem no regime de ambiente aberto em manhã de neve intensa e extensa, os viandantes bêbados pelo nevoeiro que perdem o rumo na caminhada por montes e vales ou, ainda, a estranheza e pequenez sentidas por Paulo VI perante a multidão de peregrinos em Fátima, a 13 de maio de 1967 (segundo a imprensa da época).
Os ditos países satélites da União Soviética recuperaram a independência. No entanto, alguns povos como a Geórgia e a Chechénia sofreram brutal repressão policial e militar, em vez da independência. E os nacionalismos pulularam. Provou-se que as fronteiras de Yalta eram inteiramente artificiais, tendo acoplado indevidamente nacionalidades inassimiláveis. E registou-se o conflito da Bósnia-Herzegovina, o do Kosovo. Desmembrou-se a Checoslováquia. Acabou o COMECON e o Pacto de Varsóvia.
Alguns dos países parece terem desejado voltar ao regime anterior, devido ao uredo psicossocial criado pela mudança. Alguns acabaram por aderir à união Europeia, mas, excetuando os três países do Báltico, com uma posição e objetivos revestidos de inqualificável ambiguidade.
Por seu turno, as instituições europeias manifestaram uma pressa e superficialidade no alargamento da União na última década bem contrastantes com a lentidão e as exigências das décadas de 70 e de 80, mesmo sem cuidar da razoabilidade democrática a nível político e económico dos regimes internos dos Estados candidatos.
Nos países ditos da Europa Central e Ocidental, cresceu o euroceticismo e mesmo o movimento antieuropeu; os europeístas oscilam entre o federalismo e a manta de retalhos difusa; pulularam os partidos radicais de direita, antidemocráticos, xenófobos; e foram tomadas medidas antimigratórias. Que o digam as autoridades de Lampedusa, alguns setores da Alemanha, os lepenistas franceses, os do “Podemos” espanhóis, os nacionalistas da Grécia e os Ucrânia.
Meia dezena e meia de países da Europa criaram o sistema da moeda única, descurando a união financeira e bancária. Afinal, sabe-se que o euro foi criado ao sabor dos interesses das grandes economias; e os sistemas de compensação para as economias mais débeis vêm marcados por vício originário, foram mal distribuídos e, em muitos casos, a sua utilização foi abusiva e mesmo fraudulenta.
Perante o surto das economias emergentes, perante a crise financeira de 2008 (que se tornou global e sistémica) ou perante os conflitos internos ou adjacentes, a União Europeia não sabe construir uma resposta clara, firme e solidária. Apoia quem e quando não deve apoiar.
No entanto, a Europa sabe cavar e acompanhar o anediemento de uns tantos, os grandes ricos (pessoas e povos), o empobrecimento dos que viviam razoavelmente e o espezinhamento dos mais fracos. Mas não sabe criar formas de emprego e de inclusão.
Os países do norte, tornados modelo de crescimento económico e social, acusando os países sulistas de que viveram acima das suas possibilidades, sobrecarregaram-nos com punitivas e vigiadas medidas de austeridade, concretizadas em estagnação e asfixiamento das suas economias, depauperação do Estado Social e crescimento desmedido das dívidas soberanas. Entretanto, foram alguns desses países palco de alojamento das sedes de umas boas centenas de empresas multinacionais, que, abjurando dos sistemas fiscais de seus países de origem (cada vez mais anémicos), pagam ali um pratito lentilhas ao fisco. E os líderes desses países arrepelavam-se todos ante a hipótese de pagar mais uns eurinhos pelo ajustamento financeiro de países como a Grécia, a Irlanda, Portugal e a banca espanhola – as vítimas do resgate.
Mais: os que ajudaram a sepultar os seus países ou os dos outros foram premiados com importantes cargos: Durão Barroso chegou a Presidente da Comissão, onde permaneceu por uma década; Vítor Constâncio subiu a vice-governador do BCE; Juncker, que era presidente do Eurogrupo, foi agora guindado à presidência da Comissão.
As instâncias europeias, Parlamento, Conselho e Comissão, – que deviam ter o poder de governança da União – mantêm-no formalmente, mas o poder real passou nos últimos tempos a ser exercido por uma coordenação bicéfala, Merkel e Sarkozy, acabando Merkel por assumir de facto todo o poder de liderança (com Sarkozy ou com Hollande), a ponto de tudo lhe ser permitido dizer, como: quando se reformar, quer passar a residir em Portugal (nas férias!); que os trabalhadores portugueses trabalham poucas horas e são pouco competitivos; ou que Portugal tem licenciados a mais e profissionais a menos. É a amnésia e a miopia no seu melhor!
Assim, não admira que os cidadãos se divorciem da política europeia e da política nacional. Para entregar o poder efetivo a Merkel ou a homens que se limitam a copiar a legislação europeia e a preparar para si um lugar folgado num qualquer paraíso terreal de ouro, dinheiro e entretenimento?
O remédio é vender as empresas que ainda dão lucro, se possível, ao desbarato? Se o Estado perde a capacidade de definir a estratégia nacional e de colocar ao serviço dela os meios adequados, como pode afirmar-se como Estado soberano? Restar-lhe-á a capacidade de transcrever para o ordenamento jurídico interno as diretivas europeias? Assim, ainda terá de se demitir sob a acusação de plagiato…
Enfim, a agorafobia que venho apontando, torna-se nos pequenos países em claustrofobia, já não só democrática, como enunciava Paulo Rangel há uns aninhos, mas claustrofobia existencial asfixiante. Ou levam com a carga toda ou emigram. Mas para onde emigrar, se a crise se torna pandémica? Querem sair do euro, mas não sabem como nem qual a alhada em que se vão meter. Será que aguentam, que têm de aguentar?

Mas não vale a pena diabolizar a Europa. Será necessário lançar o debate sobre a Europa e também em Portugal, em vez de nos perdermos infindamente e sem resultado nos casos dos vistos de ouro ou de prata e na timorofilia.

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