quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Irmã Lúcia de Jesus a caminho da beatificação e da canonização

No dia 13 de fevereiro, no 12.º aniversário da sua morte, ocorreu, no Carmelo de Santa Teresa de Coimbra, a sessão solene de clausura da fase do Inquérito Diocesano do Processo de Beatificação e Canonização da Serva de Deus Lúcia de Jesus e do Coração Imaculado. Era uma etapa “ardentemente desejada”, como reconhecem os responsáveis pelo processo.
A sessão teve lugar, pelas 17 horas, no Carmelo e foi aberta à participação dos fiéis. Seguiu-se a missa de ação de graças. E, à noite, pelas 21,30 horas, realizou-se, na Sé Nova, o concerto “O meu caminho”, com o Coro Sinfónico Lisboa Cantata, o Coro Infantil do Conservatório Regional de Coimbra e a Orquestra Clássica do Centro.
***
Como é natural e dado que a vidente viveu 57 anos em Coimbra, o processo diocesano foi aberto e conduzido sob a égide do Bispo de Coimbra.
A parte inicial da causa de canonização iniciou-se, sob o patrocínio de Dom Albino Mamede Cleto, em 2008, três anos após a morte da vidente, depois de o Papa Bento XVI (é de recordar que João Paulo II morreu a 2 de abril de 2005), a pedido do Carmelo de Santa Teresa, ter concedido uma dispensa em relação ao período de espera estipulado pelo Direito Canónico (5 anos).
Nesta fase diocesana trabalharam a tempo inteiro cerca de três dezenas de pessoas, 18 delas teólogos e 8 elementos na Comissão histórica.
Um processo de canonização é composto pela fase diocesana e pela fase romana. A que agora termina foi constituída pela recolha e estudo teológico dos inúmeros documentos escritos pela Irmã Lúcia: os livros publicados, o seu diário a que deu o título O meu Caminho, a vasta documentação epistolar e outros documentos inéditos. Ao mesmo tempo, foram ouvidas várias pessoas que com ela conviveram e cujo testemunho forneceu dados fundamentais para traçar o perfil da vida e das virtudes da religiosa carmelita que foi vidente de Fátima, Tui e Pontevedra.
Todo este material, juntamente com os documentos relativos à sua fama de santidade, segue para a Congregação para as Causas dos Santos, no Vaticano, onde se iniciará a fase romana do processo, em que se estudará a vida e as virtudes de Lúcia. E, se, em conclusão deste estudo, se reconhecer inequivocamente em Lúcia o perfil de quem viveu exemplarmente a configuração com Cristo, o processo será apresentado ao Santo Padre que assinará o Decreto da Heroicidade das Virtudes, proclamando-a Venerável. Se assim acontecer, faltará a aprovação de um milagre para a Beatificação e de outro para a Canonização, terminando assim este processo.
Dom Virgílio Antunes do Nascimento, bispo da diocese de Coimbra, afirmou que a predita sessão solene de clausura “era ardentemente desejada por muitas pessoas do mundo católico”, porque a vidente, é “pessoa notória na história de Fátima”.
O prelado enalteceu as virtudes heroicas da vidente de Fátima e religiosa carmelita descalça. A este propósito, declarou que “Damos graças a Deus por toda a vida da Irmã Lúcia e por fechar o processo”. Porém, esclareceu que o encerramento deste processo de âmbito diocesano “não significa uma decisão, mas sim uma recolha de provas, das atitudes praticadas em grau heroico”. Na verdade Lúcia “gozou da fama de santidade” e a próxima fase processual decorrerá na Congregação das Causa dos santos, onde se segue a fase romana do processo. Entretanto, a diocese de Coimbra e todos aqueles que prestaram a sua colaboração com a causa sentem a “alegria do dever cumprido”.
Dom Virgílio afirmou que, para a diocese, “este é um momento verdadeiramente histórico”, até porque “não há notícia recente” de uma canonização relacionada com Coimbra.
Agradecendo a quantos se envolveram no processo desde o papa Bento XVI ao Santuário de Fátima e ao Carmelo de Coimbra (onde Lúcia viveu, em clausura, a maior parte da sua vida e onde morreu em 2005, aos quase 98 anos), o prelado concluiu que “o inquérito que hoje se encerra é fruto de muito trabalho, generosidade e muito amor à Igreja”. E explicitou que estiveram envolvidos, entre outros, 2 bispos, 2 postuladores, 3 vice-postuladores, 8 pessoas que integraram a comissão histórica e 61 testemunhas (todas, menos duas, contactaram com Lúcia). Dessas testemunhas, salienta-se 1 cardeal, 4 bispos e 34 leigos, cujas declarações e trabalhos  resultaram num processo de 15.483 páginas, acomodadas em 19 caixas.
Por seu turno, o postulador do processo de Beatificação e Canonização da Serva de Deus Lúcia de Jesus, o Padre Carmelita Romano Gambalunga, exclamando “Bem-aventurados os puros de coração”, porfiou que “Lúcia era mesmo isso, uma mulher de coração puro, com uma missão grandiosa no século XX”. E disse que “a fé do povo não engana” e que Bento XVI também encurtou o processo, pelo que a fama de santidade de Lúcia se difundiu “por todo o mundo”.
O sacerdote, concluindo que aquele era “um dia memorável”, salientou em Lúcia “a sua grandeza, humildade; a simplicidade de se deixar guiar; a liberdade de espírito; a luz da oração; a alegria de se saber na graça de Deus”.
***
Paralelamente, a Irmã Ângela Coelho vice-postuladora da causa de canonização disse à Sala de Imprensa do Santuário de Fátima que o processo diocesano, agora concluído, resultou num documento muito extenso  que segue para Roma, em duplicado, onde será submetido a rigoroso escrutínio formal, que decorre das exigências definidas pela Igreja neste tipo de processos. O trabalho de compilação do material está a envolver várias copistas e irmãs da Aliança de Santa Maria (congregação a que pertence Ângela Coelho) que se voluntariaram para esta missão.
De acordo com a religiosa, todos os elementos têm “trabalhado pela noite dentro para que tudo se apresente de acordo com as indicações da Congregação das Causas dos Santos”, da Santa Sé.
A burocracia é substancial na elaboração dum processo desta natureza, mas este trabalho, além de “necessário” era “uma questão de justiça para com a irmã Lúcia” e “para com a verdade que a Igreja tem de defender”. Com efeito, está em causa a vida de Lúcia, “batizada, cristã, consagrada” e “um pronunciamento da Igreja, com certeza, acerca da santidade de um dos seus membros”, e “esta verdade tem que ser investigada”. E frisa:
“Só depois é que vai ser construída a positio [um compêndio dos relatos e estudos realizados pela comissão jurídica], haverá o decreto de validade, o decreto de heroicidade das virtudes e, só depois do decreto de heroicidade das virtudes, é que pode entrar o milagre ou o estudo de um presumível milagre. Estamos a falar de um tempo muito dilatado.”.
***
Lúcia Rosa dos Santos, filha de António dos Santos e de sua mulher Maria Rosa Ferreira nasceu em Aljustrel, paróquia de Fátima, no dia 28 de março de 1907.
Na companhia de seus primos, os Beatos Francisco Marto e Jacinta Marto, recebeu por 3 vezes a visita de um Anjo (1916), de cariz trinitário e eucarístico, e por 6 vezes a visita de Nossa Senhora (1917), que lhes disse que é a Senhora do Rosário e pediu oração e penitência em reparação e pela conversão dos pecadores. A especial missão de Lúcia consistiu em divulgar a devoção ao Coração Imaculado de Maria como alma da mensagem de Fátima. Em prol desta missão que lhe foi confiada, recebeu ainda outras visitas de Nossa Senhora, assim como grandes graças místicas que a ajudaram a percorrer o seu caminho com fidelidade.
Tinha 10 anos e era completamente analfabeta (a Senhora disse-lhe que tinha de ir à escola) quando viu, pela 1.ª vez, Nossa Senhora na Cova da Iria, juntamente com os primos Jacinta e Francisco. Lúcia foi a única dos três pastorinhos que falava com a Virgem Maria; Jacinta ouvia-a, mas não falava; e Francisco nem sequer ouvia as palavras da Senhora. Assim, Lúcia foi a portadora do Segredo de Fátima. Nos primeiros tempos, a hierarquia católica revelou-se cética sobre as afirmações dos Três Pastorinhos e foi só a 13 de outubro de 1930 que o Bispo de Leiria Dom José Alves Correia da Silva tornou oficialmente público que as aparições eram dignas de crédito. A partir daí, o Santuário de Fátima ganhou uma expressão internacional, enquanto a Irmã Lúcia viveu cada vez mais isolada. Durante alguns anos ficou na Quinta da Formigueira em Frossos, Braga, propriedade do bispo de Leiria.
Em 17 de junho de 1921, o Bispo de Leiria proporcionou-lhe a entrada no colégio das doroteias em Vilar, no Porto, alegadamente para a proteger dos peregrinos e curiosos que acorriam cada vez mais à Cova da Iria e pretendiam falar com ela. Professou como religiosa doroteia e sob o nome de Irmã Maria das Dores em 1928, em Tui (Galiza, Espanha), onde viveu alguns anos, sendo que em 1935 vivia em Pontevedra, casa da mesma congregação. Em Tui e Pontevedra, teve as aparições da Santíssima Trindade, de Nossa Senhora e do Menino Jesus. Regressou a Portugal em 1946. Porém, desejando vida de maior recolhimento para responder à mensagem que a Senhora lhe confiou, entrou no Carmelo de Coimbra, em 1948, onde professou como carmelita descalça a 31 de janeiro de 1949 e se entregou mais profundamente à oração e ao sacrifício. Aqui tomou o nome de Irmã Maria Lúcia de Jesus e do Coração Imaculado.
Foi no convento de Coimbra que escreveu dois volumes com as suas Memórias e os Apelos da Mensagem de Fátima. Em 1982, 1991 e 2000, anos em que João Paulo II visitou Fátima, convidou Lúcia a deslocar-se ali e esteve reunido com ela. Antes, já ela se tinha encontrado também em Fátima com o Papa Paulo VI.
Faleceu a 13 de fevereiro de 2005 aos 97 anos (quase 98), no Convento Carmelita em Coimbra. O Papa São João Paulo II, nessa ocasião, rezou pela Irmã Lúcia e enviou o Cardeal Secretário de Estado Tarcisio Bertone para o representar no funeral. E, em 19 de fevereiro de 2006, os restos mortais da vidente foram trasladados de Coimbra para o Santuário de Fátima onde foi sepultada junto dos seus primos, os beatos Francisco Marto e Jacinta Marto.
***
Desde o passado dia 12, a Irmã Lúcia de Jesus passa a constar da toponímia da freguesia de Fátima, depois da junta de freguesia ter atribuído o seu nome à avenida compreendida entre a rotunda dos Pastorinhos, na Cova da Iria, e a igreja paroquial de Fátima.
Esta avenida, segundo o presidente da Junta de Freguesia, junta-se às ruas Francisco Marto e Jacinta Marto, cuja placa toponímica foi melhorada, formando “uma unidade” que sublinha o “exemplo superior dos pastorinhos”, filhos da terra, e confere a Fátima o epíteto de “cidade da paz”, tema bem presente na Mensagem que a Senhora deixou na Cova da iria aos três videntes.
A inauguração deste novo elemento toponímico, aprovado em assembleia municipal, ocorreu na véspera do dia em que se assinala a passagem do 12.º aniversário da morte da religiosa e contou com a presença, entre outros, do vice-reitor do Santuário de Fátima, Padre Vítor Coutinho e do postulador e da vice-postuladora da Causa de Beatificação da Irmã Lúcia, respetivamente, o Padre Carmelita Romano Gambalunga e a Irmã Ângela Coelho, da Aliança de Santa Maria.
***
Em 2005, um bispo português, criticando o Governo pelo decreto de luto nacional por óbito de Lúcia, dizia que ela não fazia parte da alma da Pátria. Se os factos não desmentem o prelado em termos pátrios, talvez o esclareçam no atinente à alma da Igreja, à alma lusa e à alma fatimita.

2017.02.14 – Louro de Carvalho

Sem comentários:

Enviar um comentário