segunda-feira, 18 de novembro de 2024

É preciso ler a História dos homens na perspetiva da esperança

 

A isto vem a liturgia do 33.º domingo do Tempo Comum no Ano B, o Dia dos Pobres, instituído pelo Papa Francisco, pois quem não tem esperança morre cedo ou passa a vida a matar o tempo.

Na ótica do cristão, o egoísmo, a violência, a injustiça, o pecado, não têm a última palavra na História do mundo e dos homens. A última palavra será sempre de Deus, que, a seu tempo, muda a noite do Mundo em aurora de vida sem fim.

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O Santo Padre comentou o Evangelho do dia (Mc 13,24-32), antes da recitação do Angelus, com os peregrinos reunidos na Praça de São Pedro, no Vaticano.

Jesus descreve uma grande tribulação: “o Sol escurecer-se-á e a Lua não dará a sua claridade”. Ao invés da tentação de se pensar no fim do Mundo, o Senhor oferece-nos uma chave de leitura: “O céu e a terra passarão, mas as Minhas palavras não passarão.”

E o Papa sugere que nos detenhamos a expressão “o que passa e o que permanece”.

Em algumas circunstâncias da vida, ante uma crise ou fracasso, ou quando vemos a dor causada pelas guerras, pelas violências, pelas calamidades naturais, temos a sensação de que tudo caminha para o fim, sentindo que até “as coisas mais belas passam”. Todavia, as crises e os fracassos, embora dolorosos, “são importantes, porque nos ensinam a dar a devida importância a cada coisa, a não apegar o nosso coração às realidades deste Mundo, porque estas passarão: estão destinadas a ser passageiras”.

Ao invés, algo permanece. As palavras de Jesus permanecem eternamente. Por isso, Ele “convida-nos a confiar no Evangelho, que contém a promessa de salvação e de eternidade, e a deixar de viver sob a angústia da morte”. Nele, encontraremos, um dia, as coisas e as pessoas que passaram e nos acompanharam na existência terrena. À luz da promessa de ressurreição, cada realidade adquire novo significado: tudo morre e nós morreremos um dia, mas não perderemos nada do que construímos e amámos, porque “a morte será o início de uma vida nova”.

Mesmo nas tribulações, nas crises, nos fracassos, “o Evangelho convida-nos a olhar a vida e a História sem medo de perder o que acaba, mas com alegria pelo que permanece”. Na verdade, “Deus prepara para nós um futuro de vida e de alegria”. E a questão que se nos levanta é se estamos apegados às coisas da terra, que passam, ou às palavras do Senhor, que permanecem e nos guiam para a eternidade. A afeição às coisas do Alto é uma atitude pascal.

Jesus tinha passado o dia no templo de Jerusalém. Fora o dia dos ensinamentos e das polémicas com os líderes judaicos. No final dia, Jesus dirigiu-se, novamente, a Betânia, com os discípulos. Detiveram-se no Jardim das Oliveiras, a contemplar Jerusalém, que ficava defronte. Pouco antes, em resposta à observação de um dos discípulos sobre a grandiosidade do templo e das suas pedras, Jesus tinha dito que o templo seria destruído e que não ficaria pedra sobre pedra. Agora, olhando a cidade, Pedro, André, Tiago e João pedem explicação a Jesus acerca do que tinha dito sobre a destruição do templo. E Jesus oferece-lhes um largo e enigmático ensinamento, o conhecido “discurso escatológico” (cf Mt 13,4-37), texto que emprega imagens e linguagens com alusões enigmáticas, ao jeito do género literário apocalítico. Nele confluem elementos de caráter histórico – a destruição de Jerusalém e do templo ocorrerá 40 anos depois, no ano 70, quando as tropas romanas de Tito tomarem a cidade e a incendiarem – com reflexões de caráter profético sobre o sentido da História humana. O objetivo do discurso seria dar aos discípulos indicações acerca da atitude a tomar, face às vicissitudes que marcarão a caminhada histórica da comunidade, até ao momento em que Jesus vier instaurar, em definitivo, o novo céu e a nova terra.

Os quatro discípulos indicados no início do discurso representam a comunidade cristã de todos os tempos. São os primeiros chamados por Jesus e, como tal, convertem-se em representantes de todos os futuros discípulos. O discurso não é uma mensagem privada a um grupo especial, mas uma mensagem pública a toda a comunidade crente. No horizonte último da caminhada da comunidade, Jesus põe o final da História e o reencontro definitivo dos discípulos com Ele.

O discurso escatológico divide-se em três partes, antecedidas de a introdução. Na primeira parte, Jesus anuncia uma série de vicissitudes que marcarão a História e que requerem dos discípulos adequada atitude: vigilância e lucidez. Na segunda, Jesus anuncia a vinda definitiva do Filho do Homem e o nascimento de um Mundo novo a partir das ruínas do velho. E, na terceira, Jesus vinca a incerteza quanto ao tempo histórico dos eventos anunciados e insiste com os discípulos para que estejam vigilantes e preparados para acolherem o Senhor que vem.

O trecho em causa abrange a segunda parte e versículos da terceira do discurso escatológico.

Depois de enumerar diversos acontecimentos que marcarão o caminho histórico da comunidade dos discípulos (guerras, conflitos, terramotos e todo o tipo de confusões; perseguições, traições e condenações; a destruição de Jerusalém; o aparecimento de falsos messias e de falsos profetas), Jesus refere-se à sua segunda-vinda e ao surgimento de um Mundo novo.

Jesus recorre a imagens expressivas, tiradas da tradição profética e apocalítica, para descrever a queda do Mundo velho que se opõe a Deus e que persegue os crentes: “o Sol escurecerá e a Lua não dará a sua claridade; as estrelas cairão do céu e as forças que há nos céus serão abaladas”. Em Is 13,10, o obscurecimento do Sol, da Lua e das estrelas anuncia o dia da intervenção justiceira de Javé para destruir o império babilónico e para libertar o Povo de Deus exilado numa terra estrangeira; e, em Jl 2,10, estas imagens são usadas para descrever os acontecimentos do “dia do Senhor”, em que Javé intervirá, para castigar os opressores e para salvar os seus eleitos.

As velhas imagens, utilizadas pelos profetas para descrever a queda dos impérios que oprimiam o Povo de Deus, mantêm atualidade na época de Jesus. Os Gregos, por exemplo, adoravam, como deuses o Sol (“Élios”) e a Lua (“Selénê”); e os Romanos identificavam o imperador como “o Sol” (Nero, o primeiro perseguidor dos cristãos de Roma, fez erigir no palácio imperial uma estátua de bronze com trinta metros de altura que o representava como o deus “Sol”). Os leitores de Marcos entendiam que Jesus, ao falar do escurecimento do Sol e da Lua ou da queda das estrelas, se referia à falência dos impérios que lutam contra Deus e contra os seus santos. Assim, Jesus garante aos discípulos que acontecerá uma viragem decisiva na História: a velha ordem religiosa e política, os poderes que se opõem a Deus e que perseguem os santos serão derrubados, para darem lugar a um Mundo novo, construído segundo o Coração de Deus (os seus critérios e valores).

A queda do Mundo velho vem associada à vinda do Filho do Homem. A imagem leva-nos a Dn 7,13-14, onde se anuncia a vinda de um Filho do Homem sobre as nuvens do céu, para afirmar a sua soberania sobre “todos os povos, todas as nações e todas as línguas” e “para estabelecer um império eterno que não passará jamais”. Esse “Filho do Homem, cheio de poder e de glória, que virá “reunir os seus eleitos”, é Jesus. Com esta imagem, Marcos assegura o triunfo definitivo de Cristo sobre os poderes opressores e a libertação dos que, apesar das perseguições, percorrem com fidelidade os caminhos de Deus.

A mensagem é clara: os discípulos terão de percorrer um caminho de sofrimento e de perseguição, mas não se devem deixar afundar no desespero, porque Jesus vem para os libertar e salvar. Com a sua vinda gloriosa (de ontem, de hoje, de amanhã), cessará a escravidão que os impede de conhecer a vida em plenitude e nascerá um Mundo novo, de alegria e de felicidade.

Na segunda parte do trecho em causa, Jesus responde à questão dos discípulos: “Diz-nos quando tudo isto acontecerá e qual o sinal de que tudo está para acabar.”

Na ótica de Jesus, mais importante do que definir o tempo exato é confiar na chegada do Mundo novo e estar atento aos sinais que o anunciam. A figueira é a última árvore a ganhar folha, mas, quando os ramos ficam tenros e aparecem folhas novas, o agricultor percebe que chegou o verão e o tempo das colheitas. De igual modo, os crentes são convidados a esperar, com paciência e confiança, a chegada do Mundo novo e a perceber, nos sinais de desagregação do Mundo velho, o anúncio de que o tempo da libertação está a chegar. Assim, os crentes podem preparar o seu coração para O acolherem, para aceitarem os desafios que Ele traz.

Não há data marcada para o advento dessa realidade. Porém, os crentes podem estar certos: as palavras de Jesus não são bela teoria ou piedoso desejo, mas a garantia de que o Mundo novo, de vida plena e de felicidade sem fim, surgirá. Essa garantia deve ser um capital de esperança que anima e fortalece os discípulos.

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primeira leitura (DN 12,1-3) anuncia aos crentes perseguidos pelo rei selêucida Antíoco IV Epífanes, que Deus interviria para lhes oferecer a salvação. A ação de Deus porá fim ao sofrimento em que estão e abrir-lhes-á as portas dama vida nova, da vida eterna. Esta esperança deve sustentar os justos na sua aflição e animá-los a permanecerem fiéis a Deus.

Em 333 a.C., Alexandre da Macedónia derrotou Dario III, rei dos Persas, na batalha de Issos (Síria). A Palestina, até aí sob o domínio dos Persas, ficou integrada no império de Alexandre. Quando Alexandre morreu, em 323 a.C., os seus generais disputaram a sucessão. A Palestina passou a ser pomo de discórdia entre a família dos Ptolomeus, que governava o Egito, e a família dos Selêucidas, que governava a Mesopotâmia e a Síria. Os Ptolomeus asseguraram o domínio da Palestina e da Síria, mas o selêucida Antíoco III, aliado com Filipe V da Macedónia, venceu-os (batalha das fontes do Jordão, no ano 200 a.C.) e conquistou a Palestina. O período ptolomaico foi de relativa benevolência para a cultura judaica, mas a situação mudou no reinado do selêucida Antíoco IV Epífanes (174-164 a.C.), o qual, impor a cultura helénica em todo o império, praticou uma política de intolerância, face à cultura e à religião judaicas. Se muitos judeus renegaram a fé e assumiram os valores helénicos, muitos outros resistiram, defenderam a sua identidade cultural e religiosa, uns pela insurreição armada (caso de Judas Macabeu e seguidores), e outros, enfrentando a prepotência dos reis helénicos com a palavra e os escritos.

Então, surge Livro de Daniel. O autor é judeu fiel à cultura e valores religiosos dos antepassados. A pretexto de contar a história de um tal Daniel, judeu exilado na Babilónia, que manteve a fé num ambiente adverso, o autor do livro pede aos concidadãos que não se deixem vencer pela perseguição e que se mantenham fiéis à religião e aos valores dos seus pais, garantindo que Deus não abandonará o seu Povo e que recompensará todos os que se mantiveram fiéis à Lei e aos mandamentos. Estamos na primeira metade do século II a.C., pouco antes da morte de Antíoco (que ocorreu em 164 a.C.).

No livro misturam-se géneros literários diversos. Os capítulos 7 a 12 (que incluem o trecho em referência) pertencem ao género apocalítico (“Apocalipse” significa “revelação”), que recorre, em abundância, a símbolos (números, cores, animais, plantas…) e a linguagem cifrada (que os destinatários conhecem e os perseguidores ignoram). O autor propõe-se comunicar revelações sobre o desígnio de Deus, o protagonismo de Deus na História, a luta de Deus contra o mal, a vitória de Deus sobre os impérios humanos. Em tempo de perseguição e de crise, urge restaurar a esperança e assegurar ao Povo a vitória de Deus e dos fiéis sobre os opressores.

Aos crentes perseguidos é anunciada a chegada do tempo em que Deus intervirá para salvar o Povo fiel. Essa intervenção de Deus será levada a cabo por Miguel, o chefe do exército celestial, cuja missão é castigar os perseguidores e proteger os santos. No imaginário judaico, Miguel é um espírito celeste (um anjo protetor) que vela pelo Povo de Deus e que, por mandato divino, opera a libertação dos justos perseguidos. A ação de Miguel trará a salvação aos membros fiéis do Povo de Deus, os inscritos no livro de Deus. A intervenção de Deus porá fim ao Mundo velho da injustiça, da opressão, e iniciará o Mundo novo de justiça, felicidade, paz e vida verdadeira.

Entretanto, os santos que, antes da intervenção de Deus, foram perseguidos e mortos por causa da sua fidelidade a Deus não estão condenados a ficar no “sheol”, o reino das sombras onde erram os mortos. E o livro abre as portas a nova esperança: todos os que morreram antes da intervenção de Deus a inaugurar a nova era ressuscitarão. Os maus (que tentaram destruir os santos) ressuscitarão para “a vergonha e o horror eterno”; os santos (que se mantiveram fiéis a Deus) ressuscitarão para “a vida eterna”. Pela primeira vez aparece em textos veterotestamentários formulada a ideia da ressurreição dos mortos. O texto não explica em que consiste a vida eterna, mas os símbolos utilizados (“resplandecerão como a luz do firmamento”; “brilharão como estrelas por toda a eternidade”) evocam a transfiguração dos ressuscitados. A vida que os espera não será semelhante à do Mundo presente, mas luminosa e transfigurada. É esta a esperança que sustenta os justos, chamados a permanecerem fiéis a Deus, apesar da prova. A sua vida não é sem sentido e não está condenada ao fracasso; mas a sua constância e fidelidade serão recompensadas com a vida eterna. Embora sem dados concretos e claros, começa a esboçar-se a teologia da ressurreição.

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segunda leitura (Heb 10,11-14.18) lembra que Jesus veio ao Mundo concretizar o desígnio de Deus: libertar o homem do pecado e de inseri-lo na dinâmica de vida. Com a sua vida e seu testemunho, Cristo ensinou-nos a vencer o egoísmo e o pecado e a fazer da vida dom de amor a Deus e aos irmãos. É esse o caminho do mundo novo, o que conduz à vida definitiva.

Os sumo-sacerdotes da Antiga Aliança ofereciam, cada ano, no solene dia da Expiação (“Yom Kippur”), um sacrifício pelos seus pecados e pelos do Povo. Além disso, todos os dias, ofereciam, no templo, diversos sacrifícios de expiação (“hattâ’t) e de reparação (‘âshâm”), para manifestar o arrependimento do pecador e obter de Deus o perdão para os pecados do oferente. A obra desses sacerdotes nunca estará terminada: dia após dia, repetem os mesmos rituais. Além disso, o autor está convicto de que tais sacrifícios não são eficazes, já que não conseguem, de forma duradoura, restabelecer a corrente de vida e de comunhão entre o Povo pecador e o Deus santo. São ritos externos e superficiais, que não transformarão os corações duros e egoístas dos homens em corações capazes de viverem no amor a Deus e aos irmãos.

Porém, Cristo ofereceu a Deus um único sacrifício pelo pecado e “sentou-se, para sempre, à direita de Deus”. Sentou-se, porque a obra estava concluída: não precisou de oferecer mais sacrifícios pois o seu sacrifício perfeito foi totalmente eficaz. Obedecendo ao desígnio do Pai, apresentou-se ante dos homens e mostrou-lhes – com palavras e gestos – como devem viver; com a entrega da vida na cruz, mostrou aos homens o amor até ao extremo e convidou-os fazerem da própria vida dom de amor a Deus e aos irmãos. Dessa forma, Jesus venceu a lógica do egoísmo e do pecado e colocou, em definitivo, os homens no caminho certo, preparados para integrarem a família de Deus. O sacrifício de Jesus, oferecido de uma só vez, libertou os homens da dinâmica de egoísmo e de pecado e permitiu-lhes aproximarem-se de Deus com renovado coração. Assim, “tornou perfeitos, para sempre, os que são santificados”.

Terminada a tarefa de reconciliação dos homens com Deus, Cristo foi entronizado à direita de Deus. Esta imagem de triunfo mostra como o caminho percorrido por Cristo tem o aval de Deus e qual é a meta final da caminhada do homem: a comunhão com Deus, a pertença à família de Deus. Se o caminho da fidelidade ao desígnio de Deus e da entrega aos irmãos levou Jesus a sentar-Se à direita do Pai, também os que seguem Jesus chegarão à mesma meta e sentar-se-ão à direita de Deus. Assim, a Carta aos Hebreus exorta os cristãos a viverem na fidelidade aos compromissos que assumiram com Cristo no Batismo. Quem, apesar das crises, segue o caminho de Cristo, sentar-se-á à direita de Deus e viverá, sempre, em comunhão com Deus.

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Que Virgem Santa, que se confiou totalmente à Palavra de Deus, interceda por nós.

2024.11.18 – Louro de Carvalho

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