A isto vem a liturgia do 33.º domingo do Tempo Comum
no Ano B, o Dia dos Pobres, instituído pelo Papa Francisco, pois quem não tem
esperança morre cedo ou passa a vida a matar o tempo.
Na ótica do cristão, o egoísmo, a violência, a
injustiça, o pecado, não têm a última palavra na História do mundo e dos
homens. A última palavra será sempre de Deus, que, a seu tempo, muda a noite do
Mundo em aurora de vida sem fim.
***
O Santo Padre comentou o Evangelho do dia (Mc 13,24-32), antes da recitação do Angelus, com os peregrinos reunidos na
Praça de São Pedro, no Vaticano.
Jesus descreve
uma grande tribulação: “o Sol escurecer-se-á e a Lua não dará a sua claridade”.
Ao invés da tentação de se pensar no fim do Mundo, o Senhor oferece-nos uma
chave de leitura: “O céu e a terra passarão, mas as Minhas palavras não
passarão.”
E o Papa
sugere que nos detenhamos a expressão “o que passa e o que permanece”.
Em algumas
circunstâncias da vida, ante uma crise ou fracasso, ou quando vemos a dor
causada pelas guerras, pelas violências, pelas calamidades naturais, temos a
sensação de que tudo caminha para o fim, sentindo que até “as coisas mais belas
passam”. Todavia, as crises e os fracassos, embora dolorosos, “são importantes,
porque nos ensinam a dar a devida importância a cada coisa, a não apegar o nosso
coração às realidades deste Mundo, porque estas passarão: estão destinadas a
ser passageiras”.
Ao invés,
algo permanece. As palavras de Jesus permanecem eternamente. Por isso, Ele “convida-nos
a confiar no Evangelho, que contém a promessa de salvação e de eternidade, e a
deixar de viver sob a angústia da morte”. Nele, encontraremos, um dia, as
coisas e as pessoas que passaram e nos acompanharam na existência terrena. À
luz da promessa de ressurreição, cada realidade adquire novo significado: tudo
morre e nós morreremos um dia, mas não perderemos nada do que construímos e
amámos, porque “a morte será o início de uma vida nova”.
Mesmo nas
tribulações, nas crises, nos fracassos, “o Evangelho convida-nos a olhar a vida
e a História sem medo de perder o que acaba, mas com alegria pelo que permanece”.
Na verdade, “Deus prepara para nós um futuro de vida e de alegria”. E a questão
que se nos levanta é se estamos apegados às coisas da terra, que passam, ou às
palavras do Senhor, que permanecem e nos guiam para a eternidade. A afeição às
coisas do Alto é uma atitude pascal.
Jesus tinha passado o dia no templo de Jerusalém. Fora
o dia dos ensinamentos e das polémicas com os líderes judaicos. No final dia,
Jesus dirigiu-se, novamente, a Betânia, com os discípulos. Detiveram-se no
Jardim das Oliveiras, a contemplar Jerusalém, que ficava defronte. Pouco antes,
em resposta à observação de um dos discípulos sobre a grandiosidade do templo e
das suas pedras, Jesus tinha dito que o templo seria destruído e que não
ficaria pedra sobre pedra. Agora, olhando a cidade, Pedro, André, Tiago e João
pedem explicação a Jesus acerca do que tinha dito sobre a destruição do templo.
E Jesus oferece-lhes um largo e enigmático ensinamento, o conhecido “discurso
escatológico” (cf Mt 13,4-37), texto que
emprega imagens e linguagens com alusões enigmáticas, ao jeito do género
literário apocalítico. Nele confluem elementos de caráter histórico – a
destruição de Jerusalém e do templo ocorrerá 40 anos depois, no ano 70, quando
as tropas romanas de Tito tomarem a cidade e a incendiarem – com reflexões de
caráter profético sobre o sentido da História humana. O objetivo do discurso
seria dar aos discípulos indicações acerca da atitude a tomar, face às
vicissitudes que marcarão a caminhada histórica da comunidade, até ao momento
em que Jesus vier instaurar, em definitivo, o novo céu e a nova terra.
Os quatro discípulos indicados no início do discurso
representam a comunidade cristã de todos os tempos. São os primeiros chamados
por Jesus e, como tal, convertem-se em representantes de todos os futuros discípulos.
O discurso não é uma mensagem privada a um grupo especial, mas uma mensagem pública
a toda a comunidade crente. No horizonte último da caminhada da comunidade, Jesus
põe o final da História e o reencontro definitivo dos discípulos com Ele.
O discurso escatológico divide-se em três partes,
antecedidas de a introdução. Na primeira parte, Jesus anuncia uma série de
vicissitudes que marcarão a História e que requerem dos discípulos adequada
atitude: vigilância e lucidez. Na segunda, Jesus anuncia a vinda definitiva do
Filho do Homem e o nascimento de um Mundo novo a partir das ruínas do velho. E,
na terceira, Jesus vinca a incerteza quanto ao tempo histórico dos eventos
anunciados e insiste com os discípulos para que estejam vigilantes e preparados
para acolherem o Senhor que vem.
O trecho em causa abrange a segunda parte e versículos
da terceira do discurso escatológico.
Depois de enumerar diversos acontecimentos que marcarão
o caminho histórico da comunidade dos discípulos (guerras, conflitos,
terramotos e todo o tipo de confusões; perseguições, traições e condenações; a
destruição de Jerusalém; o aparecimento de falsos messias e de falsos profetas),
Jesus refere-se à sua segunda-vinda e ao surgimento de um Mundo novo.
Jesus recorre a imagens expressivas, tiradas da
tradição profética e apocalítica, para descrever a queda do Mundo velho que se
opõe a Deus e que persegue os crentes: “o Sol escurecerá e a Lua não dará a sua
claridade; as estrelas cairão do céu e as forças que há nos céus serão abaladas”.
Em Is 13,10, o obscurecimento do Sol,
da Lua e das estrelas anuncia o dia da intervenção justiceira de Javé para
destruir o império babilónico e para libertar o Povo de Deus exilado numa terra
estrangeira; e, em Jl 2,10, estas
imagens são usadas para descrever os acontecimentos do “dia do Senhor”, em que
Javé intervirá, para castigar os opressores e para salvar os seus eleitos.
As velhas imagens, utilizadas pelos profetas para
descrever a queda dos impérios que oprimiam o Povo de Deus, mantêm atualidade
na época de Jesus. Os Gregos, por exemplo, adoravam, como deuses o Sol (“Élios”)
e a Lua (“Selénê”); e os Romanos identificavam o imperador como “o Sol” (Nero,
o primeiro perseguidor dos cristãos de Roma, fez erigir no palácio imperial uma
estátua de bronze com trinta metros de altura que o representava como o deus “Sol”).
Os leitores de Marcos entendiam que Jesus, ao falar do escurecimento do Sol e
da Lua ou da queda das estrelas, se referia à falência dos impérios que lutam
contra Deus e contra os seus santos. Assim, Jesus garante aos discípulos que acontecerá
uma viragem decisiva na História: a velha ordem religiosa e política, os
poderes que se opõem a Deus e que perseguem os santos serão derrubados, para
darem lugar a um Mundo novo, construído segundo o Coração de Deus (os seus
critérios e valores).
A queda do Mundo velho vem associada à vinda do Filho
do Homem. A imagem leva-nos a Dn 7,13-14,
onde se anuncia a vinda de um Filho do Homem sobre as nuvens do céu, para
afirmar a sua soberania sobre “todos os povos, todas as nações e todas as
línguas” e “para estabelecer um império eterno que não passará jamais”. Esse
“Filho do Homem, cheio de poder e de glória, que virá “reunir os seus eleitos”,
é Jesus. Com esta imagem, Marcos assegura o triunfo definitivo de Cristo sobre
os poderes opressores e a libertação dos que, apesar das perseguições,
percorrem com fidelidade os caminhos de Deus.
A mensagem é clara: os discípulos terão de percorrer
um caminho de sofrimento e de perseguição, mas não se devem deixar afundar no
desespero, porque Jesus vem para os libertar e salvar. Com a sua vinda gloriosa
(de ontem, de hoje, de amanhã), cessará a escravidão que os impede de conhecer
a vida em plenitude e nascerá um Mundo novo, de alegria e de felicidade.
Na segunda parte do trecho em causa, Jesus responde à
questão dos discípulos: “Diz-nos quando tudo isto acontecerá e qual o sinal de
que tudo está para acabar.”
Na ótica de Jesus, mais importante do que definir o
tempo exato é confiar na chegada do Mundo novo e estar atento aos sinais que o
anunciam. A figueira é a última árvore a ganhar folha, mas, quando os ramos
ficam tenros e aparecem folhas novas, o agricultor percebe que chegou o verão e
o tempo das colheitas. De igual modo, os crentes são convidados a esperar, com
paciência e confiança, a chegada do Mundo novo e a perceber, nos sinais de
desagregação do Mundo velho, o anúncio de que o tempo da libertação está a
chegar. Assim, os crentes podem preparar o seu coração para O acolherem, para
aceitarem os desafios que Ele traz.
Não há data marcada para o advento dessa realidade.
Porém, os crentes podem estar certos: as palavras de Jesus não são bela teoria
ou piedoso desejo, mas a garantia de que o Mundo novo, de vida plena e de
felicidade sem fim, surgirá. Essa garantia deve ser um capital de esperança que
anima e fortalece os discípulos.
***
A primeira
leitura (DN 12,1-3) anuncia
aos crentes perseguidos pelo rei selêucida Antíoco IV Epífanes, que Deus
interviria para lhes oferecer a salvação. A ação de Deus porá fim ao sofrimento
em que estão e abrir-lhes-á as portas dama vida nova, da vida eterna. Esta
esperança deve sustentar os justos na sua aflição e animá-los a permanecerem
fiéis a Deus.
Em 333 a.C., Alexandre da Macedónia derrotou Dario
III, rei dos Persas, na batalha de Issos (Síria). A Palestina, até aí sob o
domínio dos Persas, ficou integrada no império de Alexandre. Quando Alexandre
morreu, em 323 a.C., os seus generais disputaram a sucessão. A Palestina passou
a ser pomo de discórdia entre a família dos Ptolomeus, que governava o Egito, e
a família dos Selêucidas, que governava a Mesopotâmia e a Síria. Os Ptolomeus
asseguraram o domínio da Palestina e da Síria, mas o selêucida Antíoco III,
aliado com Filipe V da Macedónia, venceu-os (batalha das fontes do Jordão, no
ano 200 a.C.) e conquistou a Palestina. O período ptolomaico foi de relativa
benevolência para a cultura judaica, mas a situação mudou no reinado do
selêucida Antíoco IV Epífanes (174-164 a.C.), o qual, impor a cultura helénica
em todo o império, praticou uma política de intolerância, face à cultura e à
religião judaicas. Se muitos judeus renegaram a fé e assumiram os valores
helénicos, muitos outros resistiram, defenderam a sua identidade cultural e
religiosa, uns pela insurreição armada (caso de Judas Macabeu e seguidores), e
outros, enfrentando a prepotência dos reis helénicos com a palavra e os escritos.
Então, surge Livro de Daniel. O autor é judeu fiel à
cultura e valores religiosos dos antepassados. A pretexto de contar a história
de um tal Daniel, judeu exilado na Babilónia, que manteve a fé num ambiente
adverso, o autor do livro pede aos concidadãos que não se deixem vencer pela perseguição
e que se mantenham fiéis à religião e aos valores dos seus pais, garantindo que
Deus não abandonará o seu Povo e que recompensará todos os que se mantiveram
fiéis à Lei e aos mandamentos. Estamos na primeira metade do século II a.C.,
pouco antes da morte de Antíoco (que ocorreu em 164 a.C.).
No livro misturam-se géneros literários diversos. Os
capítulos 7 a 12 (que incluem o trecho em referência) pertencem ao género
apocalítico (“Apocalipse” significa “revelação”), que recorre, em abundância, a
símbolos (números, cores, animais, plantas…) e a linguagem cifrada (que os
destinatários conhecem e os perseguidores ignoram). O autor propõe-se comunicar
revelações sobre o desígnio de Deus, o protagonismo de Deus na História, a luta
de Deus contra o mal, a vitória de Deus sobre os impérios humanos. Em tempo de
perseguição e de crise, urge restaurar a esperança e assegurar ao Povo a
vitória de Deus e dos fiéis sobre os opressores.
Aos crentes perseguidos é anunciada a chegada do tempo
em que Deus intervirá para salvar o Povo fiel. Essa intervenção de Deus será
levada a cabo por Miguel, o chefe do exército celestial, cuja missão é castigar
os perseguidores e proteger os santos. No imaginário judaico, Miguel é um espírito
celeste (um anjo protetor) que vela pelo Povo de Deus e que, por mandato
divino, opera a libertação dos justos perseguidos. A ação de Miguel trará a
salvação aos membros fiéis do Povo de Deus, os inscritos no livro de Deus. A intervenção
de Deus porá fim ao Mundo velho da injustiça, da opressão, e iniciará o Mundo novo
de justiça, felicidade, paz e vida verdadeira.
Entretanto, os santos que, antes da intervenção de
Deus, foram perseguidos e mortos por causa da sua fidelidade a Deus não estão
condenados a ficar no “sheol”, o reino das sombras onde erram os mortos. E o livro
abre as portas a nova esperança: todos os que morreram antes da intervenção de
Deus a inaugurar a nova era ressuscitarão. Os maus (que tentaram destruir os
santos) ressuscitarão para “a vergonha e o horror eterno”; os santos (que se
mantiveram fiéis a Deus) ressuscitarão para “a vida eterna”. Pela primeira vez
aparece em textos veterotestamentários formulada a ideia da ressurreição dos
mortos. O texto não explica em que consiste a vida eterna, mas os símbolos
utilizados (“resplandecerão como a luz do firmamento”; “brilharão como estrelas
por toda a eternidade”) evocam a transfiguração dos ressuscitados. A vida que
os espera não será semelhante à do Mundo presente, mas luminosa e
transfigurada. É esta a esperança que sustenta os justos, chamados a
permanecerem fiéis a Deus, apesar da prova. A sua vida não é sem sentido e não
está condenada ao fracasso; mas a sua constância e fidelidade serão
recompensadas com a vida eterna. Embora sem dados concretos e claros, começa a
esboçar-se a teologia da ressurreição.
***
A segunda
leitura (Heb 10,11-14.18)
lembra que Jesus veio ao Mundo concretizar o desígnio de Deus: libertar o homem
do pecado e de inseri-lo na dinâmica de vida. Com a sua vida e seu testemunho,
Cristo ensinou-nos a vencer o egoísmo e o pecado e a fazer da vida dom de amor
a Deus e aos irmãos. É esse o caminho do mundo novo, o que conduz à vida
definitiva.
Os sumo-sacerdotes da Antiga Aliança ofereciam, cada
ano, no solene dia da Expiação (“Yom Kippur”), um sacrifício pelos seus pecados
e pelos do Povo. Além disso, todos os dias, ofereciam, no templo, diversos
sacrifícios de expiação (“hattâ’t) e de reparação (‘âshâm”), para manifestar o
arrependimento do pecador e obter de Deus o perdão para os pecados do oferente.
A obra desses sacerdotes nunca estará terminada: dia após dia, repetem os
mesmos rituais. Além disso, o autor está convicto de que tais sacrifícios não
são eficazes, já que não conseguem, de forma duradoura, restabelecer a corrente
de vida e de comunhão entre o Povo pecador e o Deus santo. São ritos externos e
superficiais, que não transformarão os corações duros e egoístas dos homens em
corações capazes de viverem no amor a Deus e aos irmãos.
Porém, Cristo ofereceu a Deus um único sacrifício pelo
pecado e “sentou-se, para sempre, à direita de Deus”. Sentou-se, porque a obra
estava concluída: não precisou de oferecer mais sacrifícios pois o seu
sacrifício perfeito foi totalmente eficaz. Obedecendo ao desígnio do Pai, apresentou-se
ante dos homens e mostrou-lhes – com palavras e gestos – como devem viver; com
a entrega da vida na cruz, mostrou aos homens o amor até ao extremo e convidou-os
fazerem da própria vida dom de amor a Deus e aos irmãos. Dessa forma, Jesus
venceu a lógica do egoísmo e do pecado e colocou, em definitivo, os homens no
caminho certo, preparados para integrarem a família de Deus. O sacrifício de
Jesus, oferecido de uma só vez, libertou os homens da dinâmica de egoísmo e de
pecado e permitiu-lhes aproximarem-se de Deus com renovado coração. Assim, “tornou
perfeitos, para sempre, os que são santificados”.
Terminada a tarefa de reconciliação dos homens com
Deus, Cristo foi entronizado à direita de Deus. Esta imagem de triunfo mostra
como o caminho percorrido por Cristo tem o aval de Deus e qual é a meta final
da caminhada do homem: a comunhão com Deus, a pertença à família de Deus. Se o
caminho da fidelidade ao desígnio de Deus e da entrega aos irmãos levou Jesus a
sentar-Se à direita do Pai, também os que seguem Jesus chegarão à mesma meta e
sentar-se-ão à direita de Deus. Assim, a Carta aos Hebreus exorta os cristãos a
viverem na fidelidade aos compromissos que assumiram com Cristo no Batismo.
Quem, apesar das crises, segue o caminho de Cristo, sentar-se-á à direita de
Deus e viverá, sempre, em comunhão com Deus.
***
Que Virgem
Santa, que se confiou totalmente à Palavra de Deus, interceda por nós.
2024.11.18 – Louro de Carvalho
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