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sábado, 26 de outubro de 2019

Aprovação do documento final do Sínodo para a Amazónia


Foi aprovado hoje, dia 26 de outubro, por maioria de dois terços, o documento final do Sínodo dos Bispos de 2019, na 16.ª Congregação Geral, que admite a ordenação sacerdotal de diáconos casados, com vista à celebração dominical da Eucaristia nas regiões mais remotas da Amazónia.
O ponto 111, aprovado com 41 votos contra (o número mais alto nos 120 pontos do documento) e 128 a favor, propõe a “ordenação sacerdotal de homens idóneos e reconhecidos pela comunidade”, com “família legitimamente constituída e estável”, que tenham diaconado permanente fecundo e recebam formação adequada para o presbiterado, de modo a poderem sustentar a vida da comunidade cristã pela pregação da Palavra e pela celebração dos Sacramentos nas ditas zonas.
O sacerdócio está reservado, na Igreja Latina (que abrange a maioria das comunidades católicas no mundo, como em Portugal), a homens não casados, mas alguns ritos, em comunhão com Roma, admitem a ordenação presbiteral de homens casados. A este respeito, alguns pronunciaram-se em favor duma abordagem universal do tema, pois há “um direito da comunidade à celebração, que deriva da essência da Eucaristia e do seu lugar na economia da salvação”. Assim, embora os participantes falem do celibato como um “dom” na Igreja Católica, sublinham que se trata de uma opção da “disciplina” da Igreja latina, que é diferente no contexto da “pluralidade dos ritos e disciplinas existentes”.
Por outro lado, o Sínodo manifesta preocupação com a formação dos futuros sacerdotes e quer que seja dada mais atenção à realidade da Amazónia, à história dos seus povos e da missionação católica na região, além das preocupações ecológicas e culturais.
Ademais, o documento apela à criação de estruturas “sinodais” nas regiões da Amazónia, propondo um “fundo amazónico” para sustento da evangelização, a criação de universidades próprias e um “organismo episcopal que promova a sinodalidade entre as Igrejas da região”. E ainda aponta a criação dum rito amazónico, recordando que a Igreja Católica tem 23 ritos diferentes, procurando “inculturar os conteúdos da fé e da sua celebração”.
Na Igreja Católica existem os ritos latinos (tendo por base o rito romano e admitindo as variantes dos ritos ambrosiano, hispânico e outros, como o bracarense) e ritos orientais (especialmente o bizantino). Ora, o proposto “rito amazónico” deve manifestar o património litúrgico, teológico, disciplinar e espiritual” dos povos da região, no contexto de uma “descentralização e colegialidade que pode manifestar a catolicidade da Igreja”.
O documento final, publicado pela Sala de Imprensa da Santa Sé, acompanhado pelo resultado da votação, e entregue ao Papa, alerta para a destruição “dramática” da floresta e a exploração levada a cabo por interesses económicos que ameaçam a região e refere:
“Isto implica o desaparecimento do território e dos seus habitantes, especialmente os povos indígenas. A selva amazónica é um ‘coração biológico’ para uma terra cada vez mais ameaçada, que se encontra numa corrida desenfreada para a morte.”.
Os participantes – bispos, missionários, indígenas e peritos convidados pelo Vaticano – falam num “bioma ameaçado de desaparecimento”, facto que teria “consequências tremendas” para todo o planeta, e propõem uma “ecologia integral”, em diálogo com os saberes dos povos indígenas, que defenda “os mais pobres e desfavorecidos da terra”.
Uma introdução, cinco capítulos e uma breve conclusão constituem este documento divulgado na noite deste dia 26 de outubro, por desejo do Papa. Entre os seus temas, contam-se: a missão, a inculturação, a ecologia integral, a defesa dos povos indígenas, o rito amazónico, o papel das mulheres e os novos ministérios, sobretudo nas áreas de difícil acesso à Eucaristia, a definição do “pecado ecológico”, definido como uma “ação ou omissão contra Deus, contra o próximo, a comunidade e o ambiente”. Sobre este último tema, aponta o documento, remetendo para o Catecismo da Igreja Católica (nn 340-344):  
“É um pecado contra as futuras gerações e manifesta-se em atos e hábitos de contaminação e destruição da harmonia do ambiente, transgressões contra os princípios de interdependência e rutura das redes de solidariedade entre as criaturas”.
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Em consonância com este documento e o desejo explicitado pelos Padres Sinodais, Francisco acaba de anunciar a intenção de reabrir a comissão que debateu a possibilidade de ordenação diaconal de mulheres. Falando no final dos trabalhos, disse o Pontífice, perante os bispos, missionários, religiosos e representantes de indígenas que participaram na assembleia sinodal:
“Assumo o pedido de voltar a chamar a comissão ou talvez abri-la com novos membros, para estudar como existia, na Igreja primitiva, o diaconado feminino”.
Após a votação do documento, que aconteceu na tarde de hoje, o Papa disse que o Sínodo pediu “criatividade” para que seja possível encontrar “novos ministérios” para as comunidades católicas e indicou a vontade de trabalhar com a Congregação para a Doutrina da Fé, para “ver até onde se pode chegar”. Por outro lado, valorizado que foi o papel das lideranças femininas na “transmissão da fé e na preservação da cultura”, o Pontífice pediu que “não se fique apenas na parte funcional” e observou:
“O papel da mulher da Igreja vai muito mais além da funcionalidade e é nisso que temos de continuar a trabalhar”.
E, na verdade, o número 103 do documento sublinha que “as múltiplas consultas realizadas no espaço amazónico” destacam o “papel fundamental das mulheres religiosas e leigas na Igreja da Amazónia”, com os seus múltiplos serviços. Mais se pode ler que “num grande número destas consultas, solicitou-se o diaconado permanente para a mulher”.
Ademais, apela-se à formação de mulheres em estudos teológicos e uma maior presença em papéis de liderança, dentro e fora da Igreja. Mais explicitamente é referido:
“Nos novos contextos de evangelização e pastoral na Amazónia, onde a maioria das comunidades católicas são lideradas por mulheres, pedimos que seja criado o ministério instituído da ‘mulher dirigente da comunidade’ e reconhecer isto, dentro do serviço das exigências da mutação da evangelização e da atenção às comunidades”.
Os participantes pedem a oportunidade de partilhar “experiências e reflexões” com a Comissão de Estudo sobre o Diaconado das Mulheres.
A comissão para o estudo do diaconado feminino foi inconclusiva. A esse respeito, o Papa referira, em declarações aos jornalistas no voo de regresso desde a Macedónia do Norte:
“Não há certeza de que a sua (das mulheres) fosse uma ordenação com a mesma forma e com o mesmo propósito que a ordenação masculina. Alguns dizem: há dúvidas. Vamos continuar a estudar. Mas até agora não se avança.”.
Segundo o Papa, não existem dúvidas de que havia diaconisas no começo do Cristianismo, mas a questão está em determinar se “era uma ordenação sacramental ou não”. Os estudos mostram que estas primeiras diaconisas assistiam na liturgia batismal de mulheres, que era por imersão, e eram chamadas para casos de disputa matrimonial para avaliar eventuais maus-tratos, uma situação limitada a uma área geográfica, especialmente a Síria.
Também há de considerar-se que a função diaconal masculina era diferente no princípio: o serviço das mesas, para os apóstolos poderem aplicar-se à oração e ao serviço da Palavra.
Recorde-se que o Concílio Vaticano II (1962-1965) restaurou o diaconado permanente, a que podem aceder homens casados (depois de terem completado 35 anos de idade), o que não acontece com o sacerdócio. O diaconado exercido por candidatos ao sacerdócio só é concedido a homens não casados (Prefiro a expressão não casados porque inclui os viúvos).
De origem grega, o termo ‘diácono’ pode traduzir-se por servidor e corresponde a alguém especialmente destinado na Igreja Católica às atividades caritativas, a anunciar a Palavra e a exercer funções litúrgicas, como assistir o Bispo e o Presbítero nas missas, administrar o Batismo, presidir ao matrimónio e às exéquias, entre outras funções.
Além do já referido, o discurso papal, depois da aprovação do documento apresentado ontem à 15.ª Congregação Sinodal, denunciou as violações aos direitos dos povos da região e visou as “injustiças, destruição, exploração de pessoas, a todos os níveis, e destruição da identidade cultural” que marcam a vida das comunidades indígenas.
Numa intervenção improvisada, em espanhol, perante todos os que participaram nas três semanas de trabalhos, o Pontífice prometeu uma exortação pós-sinodal até ao fim do ano, para deixar a sua própria palavra sobre a experiência que viveu. “Tudo depende do tempo que tenha para pensar”, gracejou, provocando um aplauso dos presentes.
Francisco disse que este Sínodo especial, iniciado a 6 de outubro, abordou quatro dimensões fundamentais, a começar pela inculturação e da valorização das culturas, “que está dentro da Tradição da Igreja”. A segunda foi a dimensão ecológica, em que se “joga o futuro” e que denuncia a “exploração selvagem” dos recursos naturais, como acontece na Amazónia. E, depois de falar da terceira – a dimensão social, com alertas para o “tráfico de pessoas”, declarou que a quarta dimensão, “a principal”, é a pastoral, mais ligada à ação das comunidades católicas na transmissão da fé. E apontou:
“Urge o anúncio do Evangelho, mas que seja entendido, assimilado, compreendido por essas culturas”.
Francisco começou por agradecer a quantos “deram este testemunho de trabalho, de escuta, de busca”, procurando colocar em prática o “espírito sinodal”. “Estamos a entender o que significa discernir, escutar, incorporar a rica tradição da Igreja nos momentos conjunturais”, precisou.
O discurso deixou reparos a quem pensa que “a Tradição é um museu de coisas velhas” e indicou a necessidade de colocar a Igreja Católica a avançar “neste caminho da sinodalidade”.
Entre os temas debatidos, segundo Papa, está a necessidade de reformar a formação sacerdotal nalguns países de promover a “redistribuição do clero”. “Sejamos corajosos para fazer esta reforma”, exortou.
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Também merecerá atenção a reorganização do território eclesial amazónico, com ideias como a criação de “semiconferências episcopais” para várias zonas e, no Vaticano, a abertura de uma “secção amazónica” no Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral.
Os participantes pediram ao Papa que o percurso dos membros do corpo diplomático da Santa Sé inclua “um ano” ao serviço de uma diocese em território de missão
Em relação ao Rito Amazónico proposto, Francisco disse que irá solicitar à Congregação para o Culto Divino que faça “as propostas necessárias”, recordando as 23 igrejas com rito próprio, no mundo católico. E sustentou:
“Não é preciso ter medo das organizações que custodiam uma vida especial”.
O Papa agradeceu o trabalho dos média e desejou que estes pudessem ter acompanhado a votação, antes de deixar um pedido aos jornalistas:
 “Parem, sobretudo, nos diagnósticos, que é a parte pesada, onde o Sínodo se expressou melhor”.
A este respeito, Francisco alertou para o que chamou de “cristãos de elite” ou “grupos seletivos” que se fixam em “pontos intraeclesiásticos” e procuram vencedores ou derrotados, nas votações.
“Ganhamos todos com o diagnóstico que fizemos”, observou.
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Os participantes defendem a criação de “ministérios especiais” nas comunidades católicos para a defesa da “casa comum” e a promoção da ecologia integral, visando “o cuidado do território e da água”. Alertam outrossim para as consequências do “extrativismo predatório” e pede solidariedade internacional com a Amazónia, falando mesmo numa “dívida” de países desenvolvidos, que deveria ser paga através de um fundo de apoio às comunidades da região.
“A Amazónia é hoje uma beleza ferida e deformada, um lugar de dor e violência. Os atentados contra a natureza têm consequências contra a vida dos povos” – consideram.
O documento final do Sínodo propõe um “novo paradigma de desenvolvimento sustentável”, que seja inclusivo, combinando “conhecimentos científicos e tradicionais”. E ali pode ler-se:
“O futuro da Amazónia está nas mãos de todos nós, mas depende principalmente de abandonarmos imediatamente o modelo atual que destrói a floresta”.
Os participantes pedem uma menor dependência de combustíveis fósseis e do uso de plásticos, mudando também hábitos alimentares, como o excesso de consumo de carne ou peixe.
O Sínodo dos Bispos é definível, em termos gerais, como assembleia consultiva de representantes dos episcopados católicos, a que se juntam peritos e outros convidados, com a tarefa de ajudar o Papa no governo da Igreja. Esta assembleia especial foi anunciada pelo Papa a 15 de outubro de 2017, para refletir sobre o tema ‘Amazónia: Novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral’. E os Padres Sinodais fazem a seguinte declaração:  
“Denunciamos a violação dos direitos humanos e a destruição extrativista. Assumimos e apoiamos as campanhas de desinvestimento em empresas extrativistas, ligadas aos danos socioecológicos na Amazónia, a começar pelas próprias instituições eclesiais e também em aliança com outras Igrejas. Apelamos a uma transição energética radical e à busca de alternativas.”.
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Porém, a atitude que o Sínodo exige é a conversão, conversão que tem diferentes significados: integral, pastoral, cultural, ecológica e sinodal. O texto é o resultado do “intercâmbio aberto, livre e respeitoso” desempenhado   durante as três semanas de trabalhos do Sínodo, para relatar os desafios e o potencial da Amazónia, o “coração biológico” do mundo, espalhado por 9 países e habitado por mais de 33 milhões pessoas, incluindo cerca de 2,5 milhões de indígenas. Porém, esta região, a segunda área mais vulnerável do mundo devido às mudanças climáticas provocadas pelo homem, está numa corrida frenética rumo à morte, o que exige urgentemente nova direção que permita que seja salva, sob pena de impacto catastrófico em todo o planeta.
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Por fim, segue-se, em modo esquemático, a recolha dos conteúdos do documento, ou seja,os cinco capítulos, cada um com seu tema e subtemas:
Cap. I – Conversão integral: “As dores da Amazónia: o grito da terra e o grito dos pobres”; “O sacrifício dos missionários mártires”.
Cap. II – Conversão Pastoral: “Diálogo ecuménico e inter-religioso”; “Urgência de uma pastoral indígena e de um ministério juvenil”; “Pastoral urbana e as famílias”.
Cap. III – Conversão Cultural: “Defender a terra é defender a vida”; “Teologia indígena e piedade popular”; “Criar uma Rede de Comunicação Eclesial Pan-amazónica”.
Cap. IV – Conversão Ecológica: “Ecologia integral, único caminho possível”; “Defesa dos direitos humanos, uma necessidade de fé”; “Igreja aliada das comunidades amazónicas”; “Defesa da vida”; “Pecado ecológico e direito à água potável”.     
Cap. V – Novos caminhos de conversão sinodal: “Sinodalidade, ministerialidade, papel ativo dos leigos e vida consagrada”; “A hora da mulher”; “Diaconado permanente”; “Formação dos sacerdotes”; “Participação na Eucaristia e ordenações sacerdotais”; “Organismo eclesial regional pós-sinodal e Universidade Amazónica”; “Rito amazónico”.         
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Falta passar à prática as propostas sinodais para termos uma Igreja de rosto local e a pulsar consciente e morosamente com a Igreja de Roma.
2019.10.25 – Louro de Carvalho

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Vem aí uma nova Exortação Apostólica, a “Gaudete et Exsultate”


Na próxima segunda-feira, dia 9 de abril, será apresentada a nova Exortação Apostólica do Papa Francisco “Gaudete et Exsultate” sobre o chamamento à Santidade no mundo contemporâneo.
Em conformidade com o aviso de hoje, dia 5, da Sala de Imprensa da Santa Sé, os jornalistas acreditados no Vaticano foram informados de que, na próxima segunda-feira, dia 9 de abril, se realizará a Conferência de Imprensa, na referida Sala de Imprensa, na Via della Conciliazione 54, para a apresentação da Exortação Apostólica do Santo Padre Francisco “Gaudete et Exsultate”, sobre o chamamento à Santidade no mundo contemporâneo.
Intervirão: Mons. Angelo De Donatis, Vigário Geral de Sua Santidade para a Diocese de Roma; Gianni Valente, jornalista; e Paola Bignardi, da Ação Católica.
A Exortação Apostólica “Gaudete et Exsultate” deve considerar-se sob embargo absoluto até às 12 horas de segunda-feira, 9 de abril. Os jornalistas acreditados encontrarão o texto em formato pdf da Exortação Apostólica na área reservada da página web do Boletim da Sala de Imprensa a partir das 8 horas de segunda-feira, 9 de abril, em italiano, francês inglês, tedesco, espanhol, português, polaco e árabe. Além disso, encontrarão sempre na área reservada uma versão breve da mesma Exortação Apostólica. O texto em papel da Exortação (em italiano) estará à disposição dos jornalistas acreditados na Sala de Imprensa a partir das 9 horas de segunda-feira, 9 de abril.
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O Papa Francisco, em suas homilias, mensagens e documentos, vem reforçando a vocação de todos os cristãos à busca duma vida de santidade. Neste sentido, chegou a afirmar:
“Todos os cristãos, enquanto batizados, têm igual dignidade diante do Senhor e são unidos na mesma vocação que é a santidade. É um dom que oferece a todos, ninguém se exclui. Por isso, constitui o caráter definitivo de cada cristão. Para ser santo, não se precisa de ser bispo, padre ou religioso, todos somos chamados a ser santos.”.
É com este sentimento que o Papa deseja apresentar a nova exortação apostólica sobre a santidade no mundo contemporâneo. A apresentação oficial, como foi referido, dar-se-á primeiro aos jornalistas dos 5 continentes credenciados junto da Sala de Imprensa da Santa Sé; e, depois, a todo o mundo.
Convém recordar que Francisco, neste aspeto, vem alinhado com o capítulo V da Lumen Gentium (LG), a Constituição Dogmática sobre a Igreja, intitulado “A vocação de todos à santidade na Igreja”. Pela sua pertinência e atualidade transcreve-se o seu n.º 39, com o subtítulo “Proémio: chamamento universal à santidade”:
“A nossa fé crê que a Igreja, cujo mistério o sagrado Concílio expõe, é indefetivelmente santa. Com efeito, Cristo, Filho de Deus, que é com o Pai e o Espírito o único Santo, amou a Igreja como esposa, entregou-Se por ela para a santificar (cf Ef. 5,25-26) e uniu-a a Si como Seu corpo, cumulando-a com o dom do Espírito Santo, para glória de Deus. Por isso, todos na Igreja, quer pertençam à Hierarquia quer por ela sejam pastoreados, são chamados à santidade, segundo a palavra do Apóstolo: ‘esta é a vontade de Deus, a vossa santificação’ (1Ts. 4,3; cf Ef 1,4). Esta santidade da Igreja manifesta-se incessantemente, e deve manifestar-se, nos frutos da graça que o Espírito Santo produz nos fiéis; exprime-se de muitas maneiras em cada um daqueles que, no seu estado de vida, tendem à perfeição da caridade, com edificação do próximo; aparece dum modo especial na prática dos conselhos chamados evangélicos. A prática destes conselhos, abraçada sob a moção do Espírito Santo por muitos cristãos, quer privadamente quer nas condições ou estados aprovados pela Igreja, leva e deve levar ao mundo um admirável testemunho e exemplo desta santidade.”.
Depois, o capítulo avança com outros subtítulos: Jesus, mestre e modelo; a santidade nos diversos estados; a caridade, o martírio, os conselhos evangélicos, a santidade no próprio estado. Dá-se uma palavra sobre cada um destes tópicos.
Na verdade, quem nos ensina a fundo a santidade é Jesus, que é o modelo de santidade; os outros já percorreram o caminho à imitação e sob o impulso de Jesus.
Jesus pregou a santidade de vida, de que Ele é autor e consumador, a todos e a cada um dos discípulos, de qualquer condição, apelando: ‘sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito’ (Mt 5,48). Enviou a todos o Espírito Santo, que nos move interiormente a amarmos a Deus com todo o coração, com toda a alma, com todo o espírito e com todas as forças (cf Mc 12,30) e a amarmo-nos uns aos outros como Cristo nos amou (cf Jo 13,34; 15,12). Assim, os seguidores de Cristo, chamados por Deus e justificados no Senhor Jesus, não por mérito próprio, mas pela vontade e graça de Deus, são feitos, pelo Batismo da fé, verdadeiramente filhos e participantes da natureza divina e, por conseguinte, realmente santos. É necessário, pois, que, com o auxílio divino, conservem e aperfeiçoem, vivendo-a, esta santidade que receberam. (cf LG 40).
“Nos vários géneros e ocupações da vida, é sempre a mesma a santidade que é cultivada pelos que são conduzidos pelo Espírito de Deus e, obedientes à voz do Pai, adorando em espírito e verdade a Deus Pai, seguem a Cristo pobre, humilde, e levando a cruz, a fim de merecerem ser participantes da Sua glória. Cada um, segundo os próprios dons e funções, deve progredir sem desfalecimento pelo caminho da fé viva, que estimula a esperança e atua pela caridade.” (LG 41).
“Deus é caridade e quem permanece na caridade, permanece em Deus e Deus nele (1 Jo 4,16). Ora, Deus difundiu a sua caridade nos nossos corações, por meio do Espírito Santo, que nos foi dado (cf Rm 5,5). Sendo assim, o primeiro e mais necessário dom é a caridade, com que amamos a Deus sobre todas as coisas e ao próximo por amor d’Ele. […] O martírio, pelo qual o discípulo se torna semelhante ao mestre, que livremente aceitou a morte para salvação do mundo, e a Ele se conforma no derramamento do sangue, é considerado pela Igreja como um dom insigne e prova suprema de amor. […] A santidade da Igreja é também especialmente favorecida pelos múltiplos conselhos que o Senhor propõe no Evangelho aos Seus discípulos. […] Todos os cristãos são, pois, chamados e obrigados a tender à santidade e perfeição do próprio estado. Procurem, por isso, ordenar retamente os próprios afetos, para não serem impedidos de avançar na perfeição da caridade pelo uso das coisas terrenas e pelo apego às riquezas, em oposição ao espírito da pobreza evangélica, segundo o conselho do Apóstolo: os que usam o mundo façam-no como se dele não usassem, pois é transitório o cenário deste mundo (1Cor 7,31). (LG 42).
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Com o anúncio da publicação da Exortação do Papa “Gaudete et Exsultate” sobre o chamamento à santidade no mundo de hoje, o Vatican News propõe alguns pronunciamentos significativos do Pontífice sobre a santidade. E Alessandro Gisotti, fazendo um apanhado dos principais momentos discursivos de Francisco sobre a Santidade, sustenta que a Igreja precisa de Santos, não de super-heróis. E refere que o Pontífice, desde a eleição à Cátedra de Pedro deu grande importância à santidade na Igreja e, em várias ocasiões, falou sobre o que define o ser Santo, tal como indicou o que não é ser Santo. A 2 de outubro de 2013, numa das audiências gerais do seu 1.º ano de Pontificado, afirmou que a Igreja “oferece a todos a possibilidade de percorrer o caminho da santidade, que é o caminho do cristão”, para o encontro com Jesus. A Igreja “não rejeita os pecadores”, acolhe-os e convida-os a que se deixem “contagiar pela santidade de Deus”. No final dessa catequese, o Papa citou o escritor francês Léon Bloy que nos últimos momentos da sua vida, dizia: “só existe uma tristeza na vida, a de não ser santo”.
Os Santos não são super-heróis, mas amigos de Deus. De facto, a 1 de novembro de 2013, na 1.ª Solenidade de Todos os Santos como Papa, Francisco frisou que os Santos são “os amigos de Deus”, porque nas suas vidas, “viveram em comunhão profunda com Deus”. Portanto, o Santo Padre traça um perfil dos Santos, explicando que “não são super-heróis, nem nasceram perfeitos”. Para o Papa, os Santos “são como nós, como cada um de nós”, “viveram uma vida normal”, mas “conheceram o amor de Deus” e o “seguiram com todo o coração, sem condições e hipocrisias”. A santidade reconhece-se por este sinal: “os Santos são homens e mulheres que têm a alegria no coração e a transmitem aos outros”. A alegria é, pois, o que distingue os Santos, ao passo que a “cara de funeral” é caraterística dos que não vivem bem a sua fé. Outra caraterística dos Santos é a humildade. Na homilia em Santa Marta, a 9 de maio de 2014, Francisco observou que São João Paulo II, “o grande atleta de Deus”, acabou aniquilado pela doença, humilhado como Jesus”. O seu testemunho mostra que a regra da santidade “é diminuir a fim de que o Senhor cresça” e por isso é precisa “a nossa humilhação”. Portanto, bem longe da imagem de pessoas com “superpoderes”. “A diferença entre os heróis e os Santos – explicou nessa homilia – é o testemunho, a imitação de Jesus Cristo: percorrer o caminho de Jesus”.
Todos os cristãos são chamados à santidade, sem excluir ninguém. Para o Pontífice, alinhado com o cap. V da Lumen Gentim, há também outro tema muito importante, “a vocação universal à santidade” sobre o que falou na audiência geral de 19 de novembro de 2014. “Todos os cristãos, enquanto batizados – sublinhou – têm igual dignidade diante do Senhor e são irmanados pela mesma vocação que é a santidade”. “A santidade é um dom – continuou – oferecido a todos, sem excluir ninguém, por isso constitui o cunho distintivo de cada cristão”. E acrescentou: “para ser Santo, não é preciso ser bispo, sacerdote ou religioso”, “não, todos somos chamados a ser Santos”.
Os Santos também têm os seus pecados, mas sabem arrepender-se e pedir perdão. Neste sentido, o Pontífice alerta para a ideia dos Santos com “cara de santinho”. É algo muito mais profundo e alimentado por gestos, “muitos pequenos passos”, que cada um pode cumprir no lugar onde vive e trabalha. Segundo as suas palavras, “cada condição de vida leva à santidade, sempre!”. A 1 de novembro de 2015, na Missa celebrada no Cemitério de Verano, elegeu a santidade como “o caminho para chegar à verdadeira felicidade”. E observou que os santos são mansos e pacientes. É o caminho da mansidão e paciência, que foi percorrido por Jesus. Em 2016, voltou a falar sobre o tema nas missas em Santa Marta. A 19 de janeiro, falando de David, referiu que também na vida dos santos há tentações e pecados. A vida do rei de Israel é eloquente sobre isso: santo e pecador. Tinha pecados, “foi até um assassino”, mas, no fim, reconheceu-os e pediu perdão. Para Francisco “não existe algum santo sem passado, mas nem pecador sem futuro”. Na missa de 24 de maio, advertiu que “a santidade não se pode comprar e nem vender”. É um dom a acolher, um dom e um caminho. “A santidade – sublinhou Francisco – é um caminho na presença de Deus” e “não pode ser feita por alguém em meu nome”, “um caminho a percorrer com coragem, esperança e com a disponibilidade de receber esta graça”.
No Twitter, o Papa exorta a que não tenhamos o medo de ser Santos. Com efeito, os Santos são “testemunhas e companheiros de esperança”. São palavras papais na audiência geral de 21 de junho de 2017. Na ocasião, disse que para ser santo “não precisa de rezar o dia todo”. A santidade está também “na doença e no sofrimento”, no trabalho e na “proteção dos filhos”. “Que o Senhor nos dê a esperança de ser Santos – foi a sua invocação – e não pensemos que é algo difícil. Podemos ser Santos porque o Senhor nos ajuda”. O Papa falou de santidade também pelas redes sociais. No Twitter, a 1 de novembro de 2017 evidenciou que “o mundo precisa de santos e todos nós, sem exceção, somos chamados à santidade”. E não devemos “ter medo” de caminhar no caminho da santidade, que é dos humildes e não dos arrogantes.
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Por fim, é referir o Motu proprio sobre a oferta da vida, caminho de santidade, uma novidade de Francisco a acrescentar às clássicas vias de acesso à Santidade canonizada: o martírio e a heroicidade de virtude.
O documento constitui uma chamada de atenção e uma exortação que ressoou também nas 15 cerimónias de canonizações celebradas por Francisco, a partir de Madre Teresa, João XXIII e João Paulo II. Também na beatificação de Paulo VI, quando Francisco chamou a atenção principalmente para a sua humildade, virtude própria das testemunhas e não dos “super-homens”. De modo significativo Francisco abriu o caminho da beatificação, também aos que, levados pela caridade, ofereceram a própria vida pelo próximo. É a temática do Motu proprio intitulado Maiorem hac dilectionem, publicado em julho de 2017, que se inicia com as palavras de Jesus tiradas do Evangelho de João: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos seus amigos” (Jo 15,13).
Em suma, a visão de Francisco sobre a Santidade sintetiza-se no seguinte: ser amigos de Deus e do próximo até a dom da vida.
Aguardemos pela Exortação Apostólica para leitura e meditação.
2018.04.05 – Louro de Carvalho