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segunda-feira, 26 de agosto de 2019

A universalidade da salvação por vontade de Deus


O povo hebreu pensava que a salvação estava reservada única e exclusivamente para si, dado que Deus o escolhera como povo da conquista e da sua predileção. Esquecia-se de que Deus o escolhera para fazer a experiência visível de salvação, tendo-o como seu povo e o povo tendo-O como seu Deus, único, vivo e verdadeiro, pois os demais deuses eram falsos, mortos e plurais, ou seja, não eram deus nem deuses. Porém, tal experiência era exemplar para todas as nações
Contra esta mentalidade cerrada e exclusivista vem a Liturgia da Palavra deste 21.º domingo do Tempo Comum no Ano C. Deus, nosso Salvador, que não faz aceção de pessoas, quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade (cf At 10,34; Rm 2,11; 1Tm 2,4-5).
Começando pela célebre passagem do profeta Isaías (Is 66,18-21), é de acentuar que o hagiógrafo considera que todas as nações são chamadas a integrar o Povo de Deus. E, nessa ótica, intenta compor a visão escatológica que o texto patenteia: no mundo novo que vai chegar, são todos convocados por Deus para integrar o seu Povo. Na verdade, diz o Senhor: Eu virei reunir todas as nações e todas as línguas, para que venham contemplar a minha glória. Eu lhes darei um sinal e de entre eles enviarei sobreviventes às nações.”.
A predita visão escatológica compreende as seguintes etapas: primeiro, Deus virá para iniciar o processo de reunião das nações (v. 18); a seguir, dará um sinal e enviará missionários (escolhidos de entre os povos estrangeiros) para que anunciem a glória do Senhor, mesmo às nações mais distantes (v. 19); depois, as nações responderão ao sinal do Senhor e dirigir-se-ão ao monte santo de Jerusalém (Jerusalém é, na teologia judaica, o centro do mundo, o lugar onde Deus reside no meio do Povo e onde irromperá a salvação definitiva, o texto de Lucas prévio à Ascensão o assume), trazendo como oferenda ao Senhor os israelitas dispersos no meio das nações (v. 20); por fim, o Senhor escolherá de entre os que chegam (dos judeus regressados da Diáspora e dos pagãos que escutaram o convite do Senhor para integrar a comunidade da salvação) sacerdotes e levitas para O servirem (v. 21).
O contexto político que envolvia o povo não facilitava uma visão tolerante e acolhedora em relação às outras nações. Dizer que todos os povos são convocados por Deus, que a todos oferece a salvação era algo de escandaloso para os judeus; e era inaudito dizer que Jahwéh escolheria de entre eles missionários para os enviar ao encontro das nações e inconcebível dizer que Deus escolheria, de entre os pagãos, sacerdotes e levitas que entrassem no espaço sagrado e reservado do Templo (onde um pagão que entrasse era réu de morte) para o serviço do Senhor.
Assim, esta passagem bíblica proclama a universalidade da salvação, que reclama o espírito ecuménico, o afã missionário e a escolha de sacerdotes e levitas também de entre os missionados. É o paralelismo e a reciprocidade na missão universal. 
Depois, vem o texto da Carta aos Hebreus (Heb 12,5-7.11-13). Depois de apelar aos crentes a esforçarem-se, como atletas, para chegarem à vitória, a exemplo de Jesus Cristo (cf Heb 12,1-4), o emissor epistolar convida os cristãos, que são todos filhos de Deus, a aceitar as correções e repreensões de Deus, como atos pedagógicos do Pai preocupado com a felicidade dos filhos. A questão fundamental gravita em torno do sentido do sofrimento e das provas que os crentes têm de suportar (sobretudo incompreensões e perseguições). A mentalidade religiosa popular considerava o sofrimento como castigo de Deus para o pecado do homem (cf Jo 9,1-3); mas, segundo a Carta aos Hebreus, o sofrimento não é castigo, mas medicina, pedagogia, que Deus utiliza para nos amadurecer e ensinar. Deus serve-Se desses meios para nos mostrar o sem sentido de certos comportamentos; desse modo, demonstra a sua solicitude paternal. Os sofrimentos, como sinais do amor que Deus nos tem, são uma prova da nossa condição de “filhos de Deus”. De facto, além de nos mostrarem o amor de Deus, as provas aperfeiçoam-nos, transformam-nos, levam-nos a mudar a nossa vida. Por essa transformação, pouco a pouco nos tornamos interiormente capazes da santidade de Deus, aptos para recebê-la. Por isso, quando chegam, devem ser consideradas como parte do projeto salvador de Deus para todos nós, portadoras de paz e de salvação. E devem levar-nos ao agradecimento e à alegria.
A conclusão apresenta-se em forma de exortação. Citando Is 35,3, o autor da Carta aos Hebreus convida todos os crentes a confiar e a vencer o temor que desalenta e paralisa – o que se faz levantando as nossas mãos fatigadas e os nossos joelhos vacilantes e dirigindo os nossos passos por caminhos direitos.
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Por fim, o pequeno texto do Evangelho de Lucas (Lc 13,22-30) apresenta-nos Jesus a dirigir-Se para Jerusalém ensinando nas cidades e aldeias por onde passava. E, na perspetiva da catequese lucana, as palavras de Jesus, a partir da questão “Senhor, são poucos os que se salvam?”, posta na boca de alguém não identificado, constituem uma reflexão sobre a salvação (vd Am 5,3; Is 10,19-22). A pergunta pode ser um recurso estilístico de Lucas, que reconstruiu a seguinte secção sobretudo com base na fonte Q.
A salvação era, na realidade, uma questão muito debatida nos ambientes rabínicos. Para os fariseus da época de Jesus, a “salvação” era uma realidade reservada ao Povo eleito e só a ele; e, nos círculos apocalípticos, a visão era mais pessimista, sustentando que muito poucos estavam destinados à felicidade eterna. Porém, como Jesus falava de Deus como o Pai cheio de misericórdia, cuja bondade acolhia a todos, especialmente os pobres e os débeis, era legítimo tentar saber o que pensava Jesus sobre a matéria.
Jesus não responde diretamente à pergunta, pois, mais do que falar em números, como todos querem (e no nosso tempo são os números em absoluto ou em percentagens e em estatísticas que mandam), a propósito da “salvação”, é importante definir as condições de pertença ao “Reino” e estimular nos discípulos a decisão pelo “Reino”. Ora, na ótica de Jesus, entrar no “Reino” implica, em primeiro lugar, o esforço por “entrar pela porta estreita” (v. 24) – imagem sugestiva para significar a renúncia a uma série de fardos que “engordam” o homem e que o impedem de viver na lógica do “Reino”. Estão neste caso o egoísmo, o orgulho, a riqueza, a ambição, o desejo de poder e de domínio, enfim, tudo aquilo que impede o homem de embarcar numa lógica de serviço, de entrega, de amor, de partilha, de dom da vida, impede a adesão ao “Reino”.
Para significar aquele esforço, Lucas utiliza o verbo agônízomai, que implica luta, dispêndio de forças (cf Jo 18,36; 1Cor 9,25; 1Tm 4,10). Deus quer a salvação de todos e tomou a iniciativa de a conceder, mas não dispensa o que pode cada um fazer em prol dessa salvação, pois ninguém a tem por direito de nascimento ou por qualquer outro critério que não o da fé.
Para explicitar melhor o ensinamento acerca da entrada do “Reino”, Lucas põe na boca de Jesus uma parábola em que o “Reino” é descrito na linha da tradição judaica, como o banquete em que os eleitos estarão lado a lado com os patriarcas e os profetas (vv. 25-29). Quem se sentará à mesa do “Reino”? Todos aqueles que acolherem o convite de Jesus à salvação, aderirem ao seu projeto e aceitarem viver, no seguimento de Jesus, uma vida de doação, de amor e de serviço. Nenhum critério de raça, geografia, laços étnicos ou cultura barrará a alguém a entrada no banquete do “Reino”: a única coisa verdadeiramente decisiva é a adesão a Jesus. Os que não acolherem o convite ficarão, logicamente, fora do banquete do “Reino”, ainda que se considerem muito santos e tenham pertencido, institucionalmente, ao Povo eleito. Jesus está a falar para os judeus e a sugerir que não é pelo facto de pertencerem a Israel que têm a entrada no “Reino assegurada”. E a parábola aplica-se igualmente aos “discípulos” que, na vida real, não queiram despir-se do orgulho, do egoísmo, da ambição, para percorrerem, com Jesus, o caminho do amor e do dom da vida. Por isso, garante:
Hão de vir do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul, e sentar-se-ão à mesa do reino de Deus. Há últimos que serão dos primeiros e primeiros que serão dos últimos.”.
No atinente à universalidade da salvação é pertinente citar o apóstolo Paulo:
Recomendo, pois, antes de tudo, que se façam preces, orações, súplicas e ações de graças por todos os homens, pelos reis e por todos os que estão constituídos em autoridade, a fim de que levemos uma vida serena e tranquila, com toda a piedade e dignidade. Isto é bom e agradável diante de Deus, nosso Salvador, que quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade. (1Tm 2,1-4). Deus não faz aceção de pessoas. (Rm 2,11).
E Pedro declara:
Reconheço, na verdade, que Deus não faz aceção de pessoas, mas que, em qualquer povo, quem o teme e põe em prática a justiça, lhe é agradável (At 10,34-35).
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Na manhã deste domingo, dia 25, antes da Oração Mariana do Angelus, o Papa comentou o Evangelho do dia e convidou os cristãos a terem uma vida coerente: aproximar-se de Jesus e dos Sacramentos, como também ir à igreja. Isto, porque para entrar no Paraíso é preciso passar por uma ‘porta estreita’, a da fé, aberta a todos, mas que exige uma dedicação pelo bem e pelo próximo, contra o mal e a injustiça.
Os milhares de peregrinos que acompanharam a oração com Francisco na Praça São Pedro ou ao redor do mundo viram a preocupação do Pontífice em relação aos incêndios na Amazónia, mas também meditaram sobre o Evangelho (cf Lc13,22-30). 
O trecho de Lucas, como foi dito acima, “apresenta Jesus que passa ensinando pelas cidades e povoados, até Jerusalém, onde sabe que vai morrer na cruz para a salvação de todos os homens”. Nesse contexto, alguém perguntou a Ele se era verdade que poucos se salvariam, uma questão muito debatida naquele período, devido às diversas maneiras de interpretação das Escrituras. E Jesus respondeu, convidando “a usar bem o tempo presente” e fazendo “todo o esforço possível para entrar pela porta estreita”. E o Papa Francisco inferiu:
Com essas palavras, Jesus mostra que não é questão de número, não existe o ‘número fechado’ no Paraíso! Mas trata-se de atravessar, desde já, a passagem certa, e essa passagem certa é para todos, mas é estreita.”.
E o Santo Padre alarga-se no comentário:
Esse é o problema. Jesus não quer nos iludir, dizendo: ‘Sim, ficai tranquilos, é fácil, existe uma bonita estrada e, lá no final, um grande portão...’. Não diz isso: fala-nos da porta estreita. Diz-nos as coisas como são: a passagem é estreita. Em que sentido? No sentido de que, para se salvar, é preciso amar a Deus e ao próximo, e isso não é confortável! É uma ‘porta estreita’ porque é exigente, o amor é exigente sempre, requer empenho, ou melhor, ‘esforço’, isto é, uma vontade decidida e perseverante de viver segundo o Evangelho. São Paulo chama isso de ‘o bom combate da fé’ (1Tm 6,12). É preciso o esforço de todos os dias, de cada dia para mar Deus e o próximo."
Jesus usa uma parábola para se explicar melhor e para insistir em fazer o bem nesta vida, independentemente do título e do cargo que se exerce:
O Senhor vai-nos reconhecer não pelos nossos títulos. ‘Mas olha, Senhor, que eu participava daquela associação, que eu era amigo de tal monsenhor, de tal cardeal, de tal padre...’. Não, os títulos não contam, não contam. O Senhor vai-nos reconhecer somente por uma vida humilde, uma vida boa, uma vida de fé que se traduz nas obras.”.
O Papa, então, continua motivando-nos e conduzindo-nos para esse percurso diário.
Para nós, cristãos, isso significa que somos chamados a instaurar uma verdadeira comunhão com Jesus, rezando, indo à igreja, aproximando-nos dos Sacramentos e nutrindo-nos com a sua Palavra. Isso mantém-nos na fé, nutre a nossa esperança, reaviva a caridade. E, assim, com a graça de Deus, podemos e devemos dedicar a nossa vida pelo bem dos irmãos, lutar contra qualquer forma de mal e de injustiça.”.
Maria, Porta do céu
E, a finalizar, uma referência a Maria, Porta do Céu. O Papa diz que a primeira pessoa a ajudar- nos nessa dedicação pelo bem é a Nossa Senhora:
Ela atravessou a porta estreita que é Jesus, acolheu-O com todo o coração e seguiu-O todo todos os dias da sua vida, inclusive quando não entendia, inclusive quando uma espada perfurava a sua alma. Por isso, invocamo-La como ‘Porta do céu’: Maria, Porta do céu; uma porta que reflete exatamente a forma de Jesus: a porta do coração de Deus, coração exigente, mas aberto a todos nós.”.
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Também o Cardeal Dom António Marto, Bispo da diocese de Leiria-Fátima, que presidiu à eucaristia dominical no Recinto de Oração do Santuário de Fátima, disse que Deus não quer cristãos de etiqueta ou de fachada, para quem a fé é apenas um adorno”.
O purpurado convidou os peregrinos presentes a fazerem uma reflexão sobre a liturgia deste domingo e começou por lembrar a situação retratada no Evangelho, em que alguém no meio do povo coloca a questão: “São muitos ou poucos os que se salvam?”. E explicou:
Jesus desloca a questão de outra forma para não nos deixar distrair do essencial; e o mais importante não é saber se são muitos ou se são poucos os que se salvam, o mais importante é saber o caminho que conduz à salvação e à verdadeira vida, e como nós hoje e aqui recebemos este fruto da salvação”.
Jesus usa uma imagem “simples” para responder à questão: “procurai por entrar pela porta estreita que leva à vida” e prelado leiriense-fatimita questionou “Que porta é esta? Onde se encontra?”. E continuou aduzindo que a imagem da porta “evoca imediatamente a porta da nossa casa, do nosso lar, da nossa família, porque quando atravessamos essa porta entramos num ambiente familiar onde sentimos o calor do amor, da ternura e do acolhimento”. E disse:
É em casa, em família que sentimos segurança e proteção, e Jesus é a porta que nos introduz na família de Deus, onde sentimos o calor do amor e misericórdia de Deus muito próximo de nós”.
O Bispo de Leiria-Fátima disse que essa porta de Jesus “está sempre aberta a todos sem distinção e sem exclusão, e o Senhor espera-nos sempre à Sua porta, como um pai ou uma mãe que abre a porta da casa aos seus filhos”.
Na liturgia, a porta apresentada é estreita, porque requer que “deixemos de fora aquilo que nos impede de entrar por ela, os nossos egoísmos, comodismos, orgulhos, atitudes soberbas, ressentimentos, ódios, rancores que se acumularam no nosso coração, a nossa indiferença para com os outros, as injustiças, as omissões de atenção, amor e solidariedade”. “É uma porta de misericórdia, uma porta da conversão, mesmo daquelas falsas seguranças onde por vezes apoiamos a nossa vida, que pensamos que asseguram a nossa salvação” – reiterou.
Dom António Marto alertou os 10 grupos de peregrinos, que se anunciaram no Santuário, para o facto de que “Deus não quer cristãos de etiqueta ou de fachada, para quem a fé é apenas um adorno, como quem traz algo na lapela”; Deus apela à “vida, à relação fraterna, em casa, nas obras de misericórdia, na promoção da justiça e bem comum”.
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Enfim, tal como o profeta, os apóstolos, os evangelistas, também o Papa e o Bispo de Leiria-Fátima falam da universalidade da Salvação e do caminho de autenticidade que pela vontade de Deus e pelo esforço dos crentes leva à vida plena de cada homem e mulher e de todos, pois todos somos filhos do mesmo Deus, que nos quer fazer imergir na sua comunidade de amor.
2019.08.25 – Louro de Carvalho

terça-feira, 13 de agosto de 2019

Pela 79.ª vez, peregrinos ofereceram trigo ao Santuário de Fátima


Os peregrinos que estiveram hoje, dia 13 de agosto, no Santuário de Fátima ofereceram trigo e cumpriram esta tradição solidária pela 79.ª vez, durante o ofertório da Missa de encerramento da Peregrinação Internacional Aniversária de agosto, evocativa da 4.ª aparição de Nossa Senhora (a única que não aconteceu na Cova da Iria no dia 13, mas sim nos Valinhos, a 19) e que integrou a Peregrinação Nacional do Migrante e Refugiado, presidida pelo Prefeito da Congregação para os Bispos (Santa Sé), o Cardeal canadiano Marc Ouellet, e que se iniciou ontem, dia 12.
Com efeito, a Igreja Católica em Portugal está a viver a 47.ª Semana Nacional das Migrações, dinamizada pela OCPM (Obra Católica Portuguesa das Migrações), que termina com uma jornada de solidariedade a 18 de agosto.
O Santuário informou durante a celebração da Eucaristia de encerramento desta peregrinação, que foram, durante 2018, oferecidos 8215 quilos de trigo e 530 quilos de farinha, tendo-se consumido neste santuário mariano, naquele ano, aproximadamente 37700 hóstias, e 2 milhões e 90 mil partículas e foram celebradas 10561 Missas.
A oferta de trigo pelos peregrinos da Diocese de Leiria-Fátima e de outras dioceses de Portugal e do estrangeiro é um gesto da apresentação dos dons da Eucaristia da peregrinação aniversária de 13 de agosto, que recorda a 4.ª aparição de Nossa Senhora aos Santos Francisco e Jacinta Marto e à sua prima, a Irmã Lúcia – tradição que se cumpre desde 1940, quando um grupo de jovens da JAC (Juventude Agrária Católica), de 17 paróquias da Diocese de Leiria, ofereceu 30 alqueires de trigo destinados ao fabrico de hóstias para consumo no Santuário de Fátima.
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Na saudação a Nossa Senhora que inaugurou a Peregrinação, os Cardeais António Marto, Bispo de Leiria-Fátima e Marc Ouellet, Prefeito da Congregação para os Bispos e Presidente da  Pontifícia Comissão para a América Latina, lembraram os jovens e os migrantes.
Sobre os migrantes, afirmou Dom António Marto:
Não se trata apenas de migrantes, mas de irmãos e de irmãs que devem ser acolhidos, respeitados e amados onde quer que cheguem”.
Por sua vez, o Cardeal canadiano referiu:
As caravanas de migrantes nunca foram tão numerosas como neste nosso tempo perturbado por tantos males e ameaças”.
Na abertura desta peregrinação, que denominou de “de fé e de esperança”, disse:
Penso particularmente naqueles e naquelas que sofrem pela sua condição de migrante, que choram pelas suas famílias e amigos que deixaram nos seus países de origem, que ainda não encontraram uma situação conveniente no país de adoção”.
E, falando de Fátima e do seu pode carismático, concluiu:
Fátima é um lugar privilegiado de graça, de consolo e de esperança. Unimo-nos à oração da Virgem Maria, à oração das santas crianças mensageiras Francisco e Jacinta, e à do Santo Padre que não se cansa de chamar a atenção do mundo inteiro para o destino dos migrantes e dos refugiados.”.
Já Dom António Marto, que falara também dos migrantes, aproveitou o momento para invocar a intercessão de Nossa Senhora para a juventude portuguesa e mundial.
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Na homilia da Missa da Vigília, Dom Marc Ouellet, presidente da Peregrinação Internacional Aniversária olhou para o drama dos refugiados e apresentou a caridade cristã como “sinal de Deus em ação na história”. Estabeleceu um paralelo entre a génese da Igreja e o drama dos migrantes e refugiados, que definiu como “mensageiros de Deus” e alvo primeiro da caridade de todos batizados. E, ao evocar episódios da “história santa”, lembrou a origem peregrina da Igreja, um “povo a caminho, (…) tantas vezes fustigado e sofredor”, mas sempre “acompanhado” e “protegido” por Deus. Desta constatação e do Mistério da Encarnação, que evidencia um Deus que se faz próximo da humanidade, o insigne purpurado deduziu a “Aliança” de amor através da qual os batizados em Cristo são “levados a espalhar aos outros a caridade gratuita”, e exortou a esta ação caritativa em ordem aos que o Santo Padre apelida de “últimos”, que são os “enganados, abandonados, torturados, abusados e violentados”.
Definindo os migrantes e refugiados como “um povo de seres humanos vulneráveis, descartados, maltratados e desprezados, como o foi o Crucificado”, o prelado romano (de origem canadiana) pediu oração pela ação do Espírito Santo para que estes sejam “reconfortados, consolados, levantados” e que encontrem, nas “peripécias de viagem, () o testemunho da caridade dos cristãos e dos não-cristãos”. E, dirigindo-se à assembleia de peregrinos, vincou:
A vossa solidariedade para com todos eles, que manifestais através desta peregrinação, é um sinal dos tempos e um sinal de Deus em ação na história, Deus que revela através do seu povo a caminho a aspiração profunda da humanidade que ultrapassa, de facto, o horizonte terrestre”.
Na conclusão, Dom Marc Ouellet definiu os migrantes e refugiados como “mensageiros de Deus”, apresentando uma leitura escatológica a partir da realidade que vivem. E frisou:
Não sois apenas miseráveis expostos a todas a intempéries, sois mensageiros de Deus que, através de vós, recorda a todos o destino comum da humanidade a caminho até à cidade de Deus, a Jerusalém celeste prometida a todos os homens de boa vontade”.
Concelebrou a Missa como o Cardeal Ouellet o Cardeal Marto, bispo de Leiria-Fátima, três bispos e 72 sacerdotes. Na assembleia estiveram meia centena de grupos organizados de peregrinos, provenientes de Portugal, Espanha, Itália, Alemanha, Bélgica, Reino Unido, Irlanda, Malta, Brasil, Estados Unidos da América, Costa do Marfim, Senegal, Vietname e Malásia.
A Peregrinação prosseguiu com uma Vigília de Oração noturna, que terminou com a Procissão Eucarística, já de manhã. E, às 9 horas, procedeu-se à recitação do Terço, na Capelinha das Aparições, tendo, às 10 horas, começado a Missa Internacional, que integrou a tradicional oferta do trigo no momento da apresentação dos dons, como já foi referido, bem como a bênção aos doentes e ao povo e a Procissão do Adeus.
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Diante dos milhares de peregrinos que participaram nas celebrações deste dia 13, tendo concelebrado 99 sacerdotes, 4 bispos e 2 cardeais, o Cardeal Marc Ouellet lembrou que somos todos “peregrinos e mendigos da esperança” mas também “missionários”, “apóstolos ativos”, a quem se exige
Uma caridade mais fervorosa, mais paciente e criativa, para que encontremos a nossa alegria e a nossa salvação não apenas quando as nossas preces são atendidas, mas também na alegria de servir os nossos irmãos e irmãs”.
De olhos postos nos migrantes, o purpurado desafiou os peregrinos a serem “apóstolos ativos” da esperança e da paz diante “das nuvens carregadas que pairam sobre o planeta”. E observou:
A mensagem de Fátima permanece mais atual do que nunca, porque nuvens carregadas pairam sobre o planeta e nós não sabemos o que nos reserva o amanhã. Ainda que o Santo Padre venha multiplicando as iniciativas e assumindo a defesa dos mais vulneráveis na causa da paz, nomeadamente através da promoção de uma ecologia humana integral, muitos são os líderes políticos que se fecham cada vez mais ao diálogo, à compaixão e à paz.”.
A centenária mensagem de Fátima “é e continua a ser a Paz, a garantia da paz, da oração e da penitência para a paz do mundo”, precisou, acrescentando:
Sentimo-nos totalmente impotentes na conjuntura atual da história, mas estamos certos de que Nosso Senhor opera de forma singular na história desde que Sua mãe pronunciou o Fiat ao anúncio do Anjo”.
Sublimando na perspetiva cristã e eclesial a condição do migrante e peregrino, sublinhou:
Hoje, pensamos particularmente em todos os migrantes e refugiados que percorrem as estradas do nosso planeta à procura de uma pátria terrestre melhor, mas à procura também da pátria que Deus prepara para nós na Jerusalém Celeste, cujas portas Cristo escancarou a fim de aí acomodar toda a família humana resgatada pelo seu sangue”.
Alertando para o facto de o povo de Deus a caminho “levar consigo as suas alegrias e as suas tristezas” e ser “solidário com toda a humanidade em Cristo, Príncipe da Paz”, ensinou:
O nosso olhar sobre Maria e o olhar de Maria sobre nós, iluminados pelo Espírito Santo, fazem de nós novas criaturas, homens e mulheres de esperança, peregrinos que de repente sentem que o fardo é mais leve, pobres que repentinamente param de se queixar e começam a ter compaixão pelos que são mais vulneráveis e sofredores”.
Pedindo aos peregrinos que se inspirem no exemplo dos pastorinhos para retomarem o caminho com um espírito novo e novas energias  transformando os infortúnios em aventura missionária, ao jeito de Maria, o Cardeal exortou:
Caros amigos peregrinos, migrantes e refugiados, o que levaremos aos nossos irmãos e irmãs quando regressarmos desta peregrinação? Lembranças? Objetos que nos recordem a graça recebida neste lugar? Atitudes novas para com eles que resultam da transformação do nosso olhar através do olhar de Maria? Sim, haverá certamente lugar para tudo isto, mas também para nos decidirmos tornar apóstolos ativos ao serviço do Príncipe da Paz e da sua Mãe, a Rainha da Paz.”.
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Como foi dito já, esta Peregrinação integrou também a Peregrinação Nacional do Migrante e Refugiado, um dos pontos altos do programa da 47.ª Semana Nacional das Migrações, promovida pela Igreja Católica de 11 a 18 de agosto, cujo tema é “Não são apenas migrantes”. Agosto é um dos meses em que Fátima recebe mais migrantes, sobretudo da nossa diáspora. Além dos peregrinos lusófonos, acorreram grupos de fiéis de dezenas de países, como Vietname, Síria, Senegal, Suécia, Polónia, Malásia, França, Reino Unido, Sri Lanka, EUA, Malta, Bélgica, Brasil, Alemanha, Itália, Costa do Marfim, Irlanda, Indonésia e Espanha.
A diretora da OCPM (Obra Católica Portuguesa das Migrações) lamentou a subsistência de “uma sociedade que exclui” e onde mais do que meios falta a “boa vontade” de ajudar quem precisa de acolhimento. Efetivamente, na conferência de imprensa com os jornalistas, no início da Peregrinação, Eugénia Quaresma frisou a responsabilidade que recai sobre o poder político, de “colocar a questão das migrações na agenda”, mas também sobre “quem elege”, no sentido “de se combaterem os medos” e de se “mudar a narrativa” atual. E apontou que é preciso combater os medos, em vez de alimentar o populismo e a xenofobia, sustentando a necessidade de um trabalho conjunto, que envolva todos os países e governos.
E, em alusão à situação de Itália, um dos países onde a questão do acolhimento aos refugiados mais se tem colocado, indicou:
É importante que se entenda que a questão das migrações é de resolução conjunta e colaborativa, não pode ser só uma questão dos Estados do sul, tem que haver solidariedade na resolução das questões”.
Mais a diretora da OCPM disse que a Igreja Católica em Portugal “está a trabalhar para que as pessoas percebam que todos beneficiam com a diversidade e com o acolhimento, e com a capacidade de integrar o potencial que estas pessoas trazem”.
Eugénia Quaresma recordou ainda a importância de promover “canais seguros e regulares para as migrações”, no sentido de “combater também o tráfico de seres humanos”, e de “influenciar os Estados a serem mais abertos ou a funcionar de uma forma mais aberta”. E relevou o “desafio das crianças” migrantes e refugiadas, cada vez mais um problema presente em diversos países, crianças que chegam muitas vezes sozinhas, sem qualquer suporte – pois, “ao acolher estas crianças estamos não só a cuidar do nosso presente, mas mais a semear o nosso futuro”.
No atinente ao Programa de Recolocação e Reinstalação de Refugiados, desde o início desta crise humana a Europa já acolheu perto de 46 mil pessoas, sendo que para Portugal vieram 1674, e dentro destas 726 pessoas através da PAR (Plataforma de Apoio aos Refugiados) – um número que, para Eugénia Quaresma, vem desmistificar desde logo aquele “discurso de invasão” que muitas vezes tem caraterizado esta problemática.
E a responsável da OCPM, reforçando a necessidade de uma mudança de mentalidade diz:
726 pessoas é um número pequenino, se pensarmos que elas estão dispersas por diversas comunidades e regiões. É um número que não custa a aceitar, que não custa a acolher”, defendeu aquela responsável (…) Se não fosse a recusa de alguns países, a Europa tinha capacidade para acolher muito mais, é uma questão de boa vontade, não só de política e de condições, é uma questão de conseguirmos contar com todos para melhorar este mundo em que vivemos.”.
Por seu turno, Dom António Vitalino Fernandes Dantas, o Bispo que acompanha a OCPM, também presente na predita conferência de imprensa, disse que é preciso “promover a cultura do encontro, da comunicação e da comunhão”.
António Vitalino assinalou que o “mundo atual está marcado pela mobilidade”, algo que “não é novidade” para o cristão, que “sempre foi considerado um peregrino a caminho da terra prometida”, mas alertou para “as guerras, as perseguições, cataclismos e fome”.
Neste contexto, aludiu às alterações climáticas, recordando a realização do Sínodo especial para a Amazónia, “que tratará da Amazónia e do seu significado para o clima a nível mundial”, convocado pelo Papa Francisco para o mês de outubro.
O vogal da Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana explicou que os migrantes portugueses estão em “maior número nos países desenvolvidos” onde mantêm um “amor muito grande ao seu país, às suas famílias e tradições”, e destacou as peregrinações que participam em países como a França, a Suíça e a Alemanha. E, contextualizando o acompanhamento espiritual dos migrantes, disse que, “normalmente, as conferências episcopais se orientam para a nomeação pela Erga Migrantes Caritas Christi, de 2004”, que “fala em organização jurídica da nomeação de padres assistentes pastorais e delegados”, embora haja também os missionários avulsos, que enfrentam, por vezes, dificuldades tal como as induzem.
A peregrinação internacional aniversária de agosto releva a tragédia que afeta hoje milhões de pessoas que estão a ser obrigadas a deixar as suas casas devido a problemáticas como a pobreza, a guerra e a perseguição étnica e religiosa.
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Na despedida dos peregrinos, o Cardeal Marto elogiou e agradeceu a ação da GNR no Mediterrâneo ao resgatar mais duma centena de migrantes que tentavam chegar à Europa vindos da costa do Norte de África, deixou mensagem para os migrantes e refugiados e agradeceu testemunho de fé dos peregrinos. Sobre a ação da GNR, disse:
Neste dia não posso deixar de exprimir o louvor e gratidão pelo gesto da Guarda Nacional republicana nas águas do Mediterrâneo, que resgatou mais de uma centena de refugiados”. (…) É um gesto e um sinal muito belo de solidariedade e de coragem que honra a ação da GNR.”.
António Marto, dirigindo-se à assembleia, lembrou que esta peregrinação, “festa de família junto de Nossa Senhora”, serviu para “tomarmos consciência de que os migrantes e os refugiados não são objeto de mercadoria, nem bode de expiação para os males da sociedade”, mas “irmãos e irmãs que devem ser acolhidos e amados”. E, aludindo à situação laboral que atravessa o país, com a greve dos camionistas, nomeadamente os de transporte de matérias perigosas, agradeceu a todos os peregrinos presentes por terem vindo a Fátima, observando:
Viestes em grande número, em número significativo e nem sequer a greve vos desanimou. Aqui fica o meu agradecimento pelo vosso testemunho de fé corajosa, mesmo quando é posta à prova” (…) Fátima é um lugar privilegiado de graça, de consolo e de esperança.”.
***
E, sim, Fátima mantém-se na senda da evangelização que se inicia pelo acolhimento, pelo pregão e pelo testemunho orante e atento, importando que o reforce e diversifique e leve o Santuário e o sue dinamismo missionários às comunidades mais próximas e mais distantes.
2019.08.13 – Louro de Carvalho

domingo, 11 de agosto de 2019

A sabedoria é o reflexo da vontade e do desígnio de Deus



Na homilia da Missa do 19.º domingo do Tempo Comum no Ano C, o reitor do Santuário de Fátima a partir do Evangelho dominical (Lc 12,32-48), exortou a assembleia de peregrinos presentes no Recinto de Oração a viver a relação com Deus de um modo “vigilante e desinstalado”, a não “ceder ao comodismo” e a perseverar na fé. E alertou para o perigo de “secundarizar Deus” através do comodismo e da rotina.
O padre Carlos Cabecinhas falava aos participantes na celebração, na sua maioria,  peregrinos oriundos do território nacional e do estrangeiro, designadamente de: Espanha, França, Itália, Reino Unido, Alemanha, Bélgica, Polónia, Malta, Suécia, Brasil, Costa do Marfim, Síria, Vietname e Indonésia – com para um grupo da iniciativa do Santuário “Vem para o meio”, que oferece férias para pais de filhos com deficiência.
Baseado na “riqueza das imagens sugestivas” presentes na perícopa evangélica em referência, o presidente da celebração começou por esclarecer o significado da vigilância:
Estarmos preparados para acolher Deus não significa não deixarmos que a nossa fé se acomode numa atitude passiva de quem se limita a esperar que Ele Se revele; implica, antes, uma atitude ativa de conversão de coração e compromisso efetivo com a vontade de Deus, que nos permite reconhecer a Sua presença na nossa vida.”.
E alertou para o perigo dos “dos valores secundários” que nos impedem de assumir esta atitude de perseverança na fé e permanência na comunhão com Deus, explicitando:  
Com muita facilidade nos prendemos àquilo que é passageiro, por causa da rotina que se instala, pela sedução dos caminhos fáceis e das preocupações que nos desviam do essencial e nos levam, muitas vezes, a fazer com que Deus e os outros fiquem esquecidos e secundarizados”.
No final, com referência à fé, apresentada na carta aos Hebreus (Heb 11,1-2.8-19) como “garantia dos bens que se esperam e certeza de realidades que não se veem”, o presidente da celebração reforçou a importância da atenção e vigilância que a fé traz à relação com Deus, lembrando o convite que a Mensagem de Fátima faz à “descoberta de Deus como o tesouro que dá sentido pleno à vida”. E concluiu, reforçando o lado positivo da vigilância acima referido:
Estarmos vigilantes e atentos significa olhar com atenção a nossa vida, à luz de Deus e da sua Palavra, para percebermos o que pode ser obstáculo a acolher este Senhor que vem e a reconhecê-Lo presente em nós”.
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Entretanto, é de destacar a perícopa do Livro da Sabedoria (Sb 18,6-9) tomada para 1.ª leitura.
O texto proposto para proclamação e meditação pertence à 3.ª parte do livro (10,1-19,22). Aí, recorrendo a factos concretos e a exemplos de figuras históricas, o hagiógrafo exalta as maravilhas operadas pela “sabedoria” na história do Povo de Deus. Nos últimos capítulos desta 3.ª parte (16-19), passando do geral ao particular, o autor sagrado mostra como a natureza divinizada pelos ímpios se volta contra eles, enquanto essa natureza se torna salvação para o Povo de Deus. O cenário desta reflexão é a comparação entre o que um dia (no Êxodo) sucedeu aos egípcios e o que, em contraste, aconteceu ao Povo de Deus: as pragas de animais castigaram os egípcios, mas as codornizes alimentaram os israelitas (cf 16,1-4); moscas e gafanhotos atormentaram os egípcios, mas a serpente de bronze erguida por Moisés no deserto salvou o Povo de perecer (cf 16,5-15); chuvas e granizo destruíram as culturas egípcias, mas o maná alimentou o Povo de Deus (cf 16,15-29); as trevas cegaram os egípcios que perseguiam os israelitas, mas a coluna de fogo iluminou a caminhada do Povo de Deus para a liberdade (cf 17,1-18,4); os primogénitos dos egípcios foram mortos, mas Deus salvou a vida do seu Povo (cf 18,5-25); e assim por diante. O texto em causa evoca, em concreto, a noite em que foram mortos os primogénitos dos egípcios, à noite do êxodo (cf Ex 12,29-30).
O autor inspirado interpreta essa noite (cf Sb 18,5) como a resposta de Deus ao decreto do faraó que ordenava a matança das crianças hebreias do sexo masculino (cf Ex 1,22). Para os egípcios, foi uma noite trágica, de ruína, pesadelo, destruição, morte e luto; para os judeus, foi noite de salvação, glória e louvor do Deus libertador. Na perspetiva do hagiógrafo, Deus esteve na origem da libertação e, por Moisés, fez saber com antecedência aos hebreus os acontecimentos da noite pascal (cf Ex 12,21-28), para que ganhassem ânimo. Tudo isto foi entendido pelo Povo como ação de Deus. E, confrontado com a atuação de Deus em favor do seu Povo, Israel encontrou forma de responder a Jahwéh e de Lhe manifestar o seu louvor e agradecimento: os sacrifícios (alude-se ao sacrifício do cordeiro pascal, entendido como celebração da libertação operada por Deus) e a solidariedade (remonta ao momento do Êxodo das leis sobre a participação de todas as tribos na conquista – cf Nm 32,16-24 – e sobre a partilha igual dos despojos – cf Nm 31,27; Js 22,8), o cântico de hinos, alusão ao Hallel – Sl 113-118 – cantados todos os anos durante a ceia pascal) definem a resposta do Povo à ação de Deus. E é óbvia a conclusão: enquanto os egípcios (que divinizavam a natureza e que corriam atrás dos deuses falsos) se deixaram conduzir por esquemas de opressão e de injustiça e receberam de Jahwéh o justo castigo, os israelitas (fiéis a Jahwéh e à Lei, que sempre louvaram Deus e Lhe agradeceram seus dons e benefícios) viram Deus atuar em seu favor e encontraram a liberdade e a paz.
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O livro da Sabedoria (Sophía) situa-nos no fim do AT (Antigo Testamento), num tempo fundamental do diálogo entre o judaísmo e a o helenismo. É, neste sentido, um bom predecessor do NT (Novo Testamento). Por isso, a língua é o grego e pertence aos chamados livros Deuterocanónicos, por se encontrar só na Bíblia grega e, consequentemente, não entrar nem no Cânone judaico (da Bíblia hebraica) nem, mais tarde, no Cânone das igrejas protestantes.
É um dos livros sapienciais em que surge a sabedoria, mas neste vem a Sabedoria personificada e como protagonista. A redação e o vocabulário (culto e filosófico) elevam o livro acima do restante texto dos Setenta. Trata-se duma escrita expressiva e magnífica, que homenageia o estilo septuagintístico, através da opção por um discurso poético que não alinha com os padrões gregos clássicos, mas por aquele registo que tanto pode ser prosa poética como poesia em prosa (cf Frederico Lourenço, Bíblia, Vol IV, Tomo I, Quetzal,2018)  
O termo “sabedoria” é polissémico. Pode ser descrito como: aplicação da mente à aquisição de conhecimentos, a partir da experiência humana; habilidade prática no exercício duma atividade profissional ou na fuga a situações de perigo; prudência na linguagem e no comportamento; discernimento em ajuizar o que é bom ou mau para o ser humano; capacidade para detetar as formas de sedução e de engano…
A sabedoria bíblica é o conhecimento baseado na experiência acumulada ao longo da vida e enriquecida através das gerações, que se fixou gradualmente em máximas, sentenças e provérbios breves e ritmados, recheados de imagens ou comparações.
O povo de Deus apercebeu-se da importância da sabedoria para a vida, pois não era possível regulamentar todas as áreas da vida só pela lei de Moisés e pela palavra dos profetas. Havia espaços a preencher por opções e iniciativas pessoais, pelo que era preciso adquirir conhecimentos e capacidade crítica para avaliar pessoas e coisas, situações e acontecimentos.
Cotejado o conjunto da sabedoria de Israel com outros corpos literários do AT, não é difícil verificar que os Livros Sapienciais formam um mundo à parte, caraterizado pela fé na sabedoria divina que rege o universo e cada pessoa em particular.
Ah! A sabedoria bíblica remete para a sabedoria divina. Deus é a sabedoria por excelência, a Santa Sophia, a Sabedoria incriada. Porém, embora veicule o ponto de vista judeu, o livro da Sabedoria apresenta muitos pontos de contacto com a literatura greco-latina coeva, sobretudo ao nível do ideário. Frederico Lourenço considera-o herdeiro da poesia didática (de que é exemplo Fenómenos, de Arato), que descende de Teogonia e Trabalhos e Dias, de Hesíodo, e que estimulou, em Roma, a composição de poesia didática de relevo e de grande alcance filosófico, como o De Rerum Natura, de Lucrécio.
No âmbito sapiencial, o centro de interesse e de atenção desloca-se do povo, enquanto tal, para a pessoa indivídua; da História para o quotidiano; da situação peculiar de Israel para a condição humana universal; das vicissitudes históricas do povo da Aliança para a existência no mundo da criação; das intervenções prodigiosas de Deus para as relações entre causa e efeito; da esfera da Lei e do culto para o mundo das opções livres e da iniciativa pessoal; da autoridade de Deus para a esfera da experiência e da tradição humana; dos oráculos dos profetas, proclamados como palavra de Deus para o uso de todos os recursos da razão e da prudência, em ordem à orientação da própria vida; da imposição da Lei para a força persuasiva do conselho e da exortação; do castigo apresentado como sanção externa para a consequência negativa, resultante de uma escolha errada ou de um ato insensato, da morte não por culpa de Deus, mas como resultado do pecado. Assim, a sabedoria faz-se filosofia (enquanto gosto do saber, sabor do conhecimento), faz-se teologia, faz-se universalidade e interioridade, tira-nos do narcisismo coletivo, faz-nos assim como pessoas a mergulhar em Deus, tira-nos das fronteiras étnicas e geográficas para nos abrir ao mundo. E a sabedoria divina, cósmica (que esteve na criação do mundo e o rege), é o que em hebraico se chama “hokmah”; mas o seu conceito pode também ser expresso por “sedaqah” = “justiça”. Ao invés da palavra profética, a sabedoria exige o empenho de todas as capacidades e dons de que o ser humano dispõe (Sir 15,14-20; 17,1-14). Mais do que procedendo do alto, como a Lei, a Profecia e a própria História, a sabedoria surge e cresce a partir de baixo, da experiência humana. Sábio (ou sensato) é quem sabe adaptar-se ao sistema cósmico, descobre o seu mecanismo operativo e entra na sua essência. “Insensato” (ou mesmo “ímpio”) – o que não tem sabedoria e piedade – é quem não descortina as regras desse jogo ou não se interessa por elas.
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Atribuído a Salomão por algumas versões e manuscritos antigos, o livro é da responsabilidade de um autor anónimo bem distante de Salomão no tempo, que não pode situar-se para cá do ano 50 a.C. (entre 150 e 50 a.C.). Isso manifesta-se nos indícios literários e históricos. A atribuição do livro a Salomão, nos cap 6-9 (e só implicitamente) deve-se ao facto de a tradição bíblico-judaica situar este monarca na origem do género literário sapiencial, o que faz dele o Sábio (7,1-21; 8,14-16; 9; vd 1Rs 3,5-9; 5,9-14; 10,23-61). Provavel­­mente, a autoria humana é de um judeu de Alexandria, no Egito – onde residia uma forte comu­nidade judaica (um dos centros culturais mais importantes da Diáspora judaica) – que utilizou a pseudonímia. Como fruto dessa comuni­dade, o livro está marcado culturalmente por forte influência helenista. De facto, como diz Lourenço, a filosofia grega faz parte do horizonte do livro da Sabedoria através do vocabulário, que nos coloca em frente dum escritor que parece conhecer Platão (que valoriza a sophía na República) e o estoicismo.
Mas o autor conhece sobretudo a História do seu povo e a fé num Deus sem­pre presente e pronto a intervir nela; e sente a forte atração que as principais filosofias helenísticas e as diversas religiões exercem na vida dos seus irmãos de raça e de fé. Por isso, pretende estabelecer o diálogo entre fé e cultura gregas (6-8), de modo a sublinhar que a sabedoria que brota da fé e conduz a vida dos israelitas é superior à que inspira o modo de viver dos habitantes de Alexandria. Com o livro, o autor dirige-se a dois destinatários diferentes: os judeus de Alexandria, direta ou indiretamente perseguidos pelo paga­nismo do ambiente; e os pagãos, sobretudo os intelectuais helenis­tas, mais abertos à cultura hebraica, intentando convertê-los ao Deus único, vivo e verdadeiro. Dirigindo-se aos judeus (que vivem cercados por um ambiente de idolatria e imoralidade), o autor faz o elogio da “sabedoria” israelita, a fim de animar os israelitas fiéis e fazer voltar ao bom caminho os que tinham abandonado os valores da sua fé; dirigindo-se aos pagãos, o escritor (que se exprime em termos e conceções do mundo helénico, para que a sua mensagem chegue a todos) apresenta-lhes a superioridade da cultura e da religião israelitas, ridicularizando os ídolos e convidando, implicitamente, à adesão a uma fé mais pura, que é a fé judaica.
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Em termos de estrutura e conteúdo, a proposta de vida, assente na revela­ção de Deus, manifestada na História e no mundo criado, é desenvolvida em três partes: “I. A Sabedoria e o destino do homem (1,1-5,23), em que se descreve a sorte dos justos e dos ímpios, à luz da fé; sendo a justiça imortal (1,16) e reservando Deus a imortalidade aos justos; “II. Elogio da Sabedoria (6,1-9,18), com a origem, natureza, propriedades e dons que acompanham a sabedoria (7,22-8,1), como personificação de Deus (vd Pr 8; Sir 24) e o elogio da sabedoria, elevando-a acima dos valores mais apreciados neste mundo; e “III. A Sabedoria na História de Israel(10,1-19,22), em que se descreve a presença e a atividade da sabedoria em toda a História do povo de Israel com especial incidência no Êxodo (11,1-19,17), em forma de midrache e de contrastes, que caraterizam o estilo desta 3.ª parte (11,4-15,19; 16,1-4.5-14.15-29; 17,1-18,4; 18,5-25; 19,1-21). Todavia, o autor manifesta conhecimentos profundos de outros livros: Génesis, Provérbios, Ben Sirah e Isaías. Merece um relevo especial a brilhante polémica contra a idolatria. E o estilo da obra inclui recursos estilísticos hebraicos (paralelismo, parataxe, comentário midráchico, alusões a motivos do AT) e gregos (abundância de sinónimos, adjetivação rebuscada, aliterações, rimas e jogos de palavras). Tudo isto faz do livro um modelo do grego da Bíblia dos Setenta.
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No âmbito da teologia e leitura cristã do livro, ressalta que muitos judeus seriam tentados a seguir o caminho da impiedade e a renegar a fé, quer pela perseguição, quer pelo ridículo a que eram sujeitos por via das práticas da fé, quer pela vida moral fácil que os alexandrinos levavam, em contraste com as exigências apontadas pela Lei de Moisés (2,1-20). Mais que uma categoria de pessoas, os “ímpios” (o contraponto dos “justos” ao longo de todo o livro) personificam um estilo de vida oposto e hostil ao que deveria constituir o do judeu crente. Esta temática pode caraterizar-se pela ideia de justiça, nos três sentidos bíblicos: virtude da equidade, dando a cada um o que lhe pertence; cumprimento perfeito da vontade de Deus; e força ou ação de Deus, que nos livra de toda a espécie de mal. O hagiógrafo resolve o problema da felicidade dos justos e infelicidade dos ímpios com a retribuição ultra­ter­rena para os justos. Face a um ambiente religioso, filosófico e cultural, que apresentava um estilo de vida atraente, era imperioso dar razões fortes da fé em termos racionais e vitais, para que ela não aparecesse inferiorizada como proposta ou estilo de vida. Por isso, o livro mostra exce­cio­­nais conhecimentos de toda a Bíblia e da vida cultural helenística.
Uma segunda ideia teológica fundamental do livro é a personificação da Sabedoria divina. Enquanto, para os gregos, a sabedoria era meio para o conhecimento e contemplação divina, para o livro, é proposta de vida e alguém que está presente em toda a vida e que preside à vida toda, falando, estimulando e argumentando. A sabedoria é assim porque é o reflexo da vontade e do desígnio de Deus (9,13.17); partilha da própria vida de Deus e está associada a todas as suas obras (8,3-4); e tem a ver com o espírito de Deus (1,6; 7,7.22-23; 9,17). É ela que torna a religião judaica muito superior às religiões idólatras (cap. 13-15). Enfim, a sabedoria é um outro modo da revelação de Deus, isto é, o próprio Deus que age na História de Israel (cap. 11-12; 16-19) e no mundo criado. Ela prefigura o amor e a sabedoria de Deus que culmina em Jesus Cristo, também chamado “Sabedoria de Deus” (vd 1Cor 1,24.30). (cf Bíblia Sagrada, Difusora Bíblica, 2018).
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Deus nos dê a sua Sabedoria ou, melhor, nos refaça à sua imagem e semelhança e nos faça vez a sua vontade e o seu desígnio!
2019.08.11 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Não há umas vidas mais valiosas do que outras


Sabem-no aqueles e aquelas que apostam em preservar a vida e promover o reconhecimento do seu valor. Sabem-no todos os profissionais de saúde – médicos, paramédicos, enfermeiros, maqueiros, socorristas, farmacêuticos – os bombeiros, os nadadores-salvadores, os homens-rãs, os psicólogos, os gerontologistas, os cientistas que tentam encontrar e validar todos os apoios à vida e à vida de qualidade. Sabem-no, sentem-no e vivem-no sobretudo os que que fizeram o juramento de Hipócrates, os paladinos da Cruz Vermelha ou os do Crescente Vermelho, os sacerdotes, religiosos e missionários e todos aqueles e aquelas para quem a vida humana é o valor supremo pelo qual tudo vale a pena arriscar. Sabem-nos os verdadeiros pais, educadores e professores. E o Senhor da Vida deu a vida para que todos tenham a vida e a tenham em abundância (cf Jo 10,10).
A cada passo se ouvem ou leem notícias de atentados à vida humana ou à sua dignidade e respeitabilidade. É o tráfico de pessoas, a perseguição por motivos políticos, religiosos e étnicos; é a violação e violência sexual; é o assalto, o sequestro, o rapto; é o engano, o dolo, a trapacice; é o mexerico, a insídia, a cilada; é a mutilação, o assassinato, o genocídio; é a repressão, a exploração, o burnout laboral; é escravização, a servilização, a exploração, carnalização e comercialização do corpo humano; é a escravização, a violência doméstica, a violência conjugal, a violência no namoro; é a migração forçada, a guerra, a fome, a dependência da droga; é o tráfico de estupefacientes e de órgãos humanos; é o assédio sexual, o assédio moral, o assédio laboral, a chantagem; é o fanatismo religioso, político e desportivo. Tudo isto faz parecer que a perversidade humana e a falta  de respeito não têm fim.
É pouco dizer que é repugnante. É mais que repugnante ver, ouvir e ler sobre as condições a que seres humanos são forçados por pessoas que não entendem o valor da vida. Essas más pessoas não têm ideia de que cada um de nós tem o mesmo valor perante os olhos de Deus. Na verdade, Deus não tem um sistema de classes. Para Ele, os pobres que dormem em cima  de  papelões são iguais aos que dormem em realezas nos melhores colchões. Entretanto, há seres humanos com necessidade extrema, gente que dorme no chão, na selva, gente que dorme em celas minúsculas e sujas ou em esteiras exíguas e ásperas, pessoas enterradas em tumbas sem nome, mortas em cativeiros. Todas elas  deixaram de ter poder sobre a sua própria vida.  Encontram-se à mercê de quem lhes provoca mal-estar e até doenças, de quem exerce sobre elas poder iníquo tipo de poder prescrito sobre eles.  E, muitas vezes, as pessoas de quem  deviam receber ajuda são corruptas ou, pelo menos, servem-se da posição que têm para se governarem. A polícia e a justiça nem sempre funcionam com equidade, eficácia e brevidade.
O mundo não tem um recheio determinista. Há biliões de pessoas e Deus tem um amor pessoal por cada uma. Quer que prosperemos (Jr 29,11). Cada um de nós tem os fios dos seus cabelos contados (Mt 10,30). E os de uns não são mais bem monitorados que os da cabeça de outros.
Quem nasceu num mundo onde se sente seguro e amado, não pode deixar de se sentir responsável pelo sofrimento que os demais devem suportar, mas deve desinstalar-se e tentar fazer tudo o que pode para erradicar ou, ao mesmo, minorar esse sofrimento alheio. Alinhar na preocupação de Deus, que é amor (1Jo 4,8) e justo (Gn 18,25). Não podemos duvidar disso sob pena de estarmos a duvidar da nossa própria existência. Ora, quando vemos os muitos e imensos dramas humanos que se disseminam e engrossam pelo mundo, não podemos atribui-los a Deus, mas a fatores humanos pecaminosos e a estruturas políticas, sociais e económicas de pecado. Têm origem em pessoas impelidas pelo poder, prestígio e dinheiro, que tratam os outros como animais, levadas pelo egoísmo e pelo desamor. Deus não controla ninguém; cada ação nossa decorre da nossa própria vontade. As pessoas de rédeas soltas dão expressão às suas paixões e desejos, deixando-se guiar por Satanás para infligirem pesados sofrimentos aos inocentes.
Deus está mais consternado do que nós sobre o que acontece no mundo, e não vai deixar que essas condições continuem para sempre. Deu-nos a sua palavra em seu Filho Jesus para nos mostrar o modo de vivermos sem pecado, na justiça do Reino, na misericórdia, no amor. Através de Jesus e da Igreja, o pecado será completamente derrotado e o julgamento final mostrará como Satanás é o insidioso espírito do mal e pai da mentira. Será definitivamente cumprida a vontade de Deus. Deus destruirá o velho mundo e criará “um mundo outro”, completamente novo e livre de pecado. Ninguém pensará oprimir outrem e ninguém se lembrará da miséria e  do sofrimento.
Como podemos considerar uma pessoa menos valiosa do que nós, uma vida humana menos valiosa que a nossa?
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Miguel Duarte, voluntário português que participou, em 2016, em 4 missões de resgate de pessoas no mar Mediterrâneo (cerca de 3 semanas cada, num ano), a bordo do navio ‘Iuventa’ falou a Lígia Silveira, da agência Ecclesia, dos 84 dias que lhe mudaram a vida e que o levam a enfrentar 20 anos de prisão supostamente por auxílio à imigração ilegal, segundo a nova lei italiana. Não obstante, afirma-se um privilegiado porque, ao invés das 14 mil pessoas que ele e a tripulação conseguiram salvar, não esquece as pessoas anónimas às quais, diz, chegaram tarde.
Quanto a imagens sobre os refugiados, referiu que, em 2015 e 2016, quem na Europa lesse as notícias ficava completamente a par da situação e do sofrimento das pessoas nas fronteiras da Europa, tanto no Mediterrâneo como nos campos de refugiados. E, em termos pessoais, vincou:
O que senti na altura foi provavelmente indignação por viver num continente, numa União Europeia (UE) que pregava certos valores de direitos humanos e que nada parecia estar a fazer que efetivamente resultasse na preservação dos direitos destas pessoas. Víamos sofrimento que parecia não acabar e milhares e milhares de pessoas que tinham de seguir viagem para chegar à Europa”.
No atinente à autoperceção da responsabilidade pessoal, confessou:
Um jovem europeu, de certa forma privilegiado, sem grandes responsabilidades, sem filhos para cuidar, por aí adiante, tinha alguma responsabilidade de fazer alguma coisa, contribuir com o pouco que pudesse. E, portanto, foi nesse sentido. Foi com isso em mente que comecei à procura de projetos onde pudesse ser útil.”.
Já tinha participado em projetos sociais em Portugal, mas nada propriamente humanitário: integrou associação “Gambozinhos”, foi animador nos campos de férias, trabalho em que participou no trabalho ao longo do ano. Porém, a missão em setembro de 2016 mudou-lhe a vida. E ele explica:
Não há nada propriamente que nos prepare para o que vamos ver ali, para a emoção, para o sofrimento humano e para as situações que encontramos de facto quando nos vemos frente a frente com essas pessoas. Uma coisa é ver os vídeos e ler as notícias, outra é estar ali e ser propriamente a ponte que liga estas pessoas à vida. Para muita gente, infelizmente ou felizmente, depende do ponto de vista, nós fomos a única barreira entre eles e a morte, isso é uma responsabilidade enorme e penso que me mudou a vida pelo sentimento de utilidade que tive. Acho que foram as duas semanas, até aquele momento, mais úteis da minha vida. E, muito embora tenhamos perdido pessoas (houve pessoas para quem chegamos tarde), conseguimos de qualquer forma salvar muita gente e isso não tem preço.”.
E mais do que as pessoas que salvou, ficam-lhe na retina da memória as que perdeu, sem dúvida, pois fala alto o sentimento da responsabilidade no sentido de que “ficamos sempre a pensar que podíamos ter sido mais rápidos”, que, “podíamos ter feito mais”. E, mais do que a emoção, Miguel Duarte insiste na responsabilidade que reparte por várias entidades: Estados europeus, Governos nacionais e sociedade civil:
É uma responsabilidade moral dos europeus fazer alguma coisa em relação a isto. Primeiramente é uma responsabilidade dos Estados Europeus, tem de haver resgate marítimo. Resgate marítimo é uma responsabilidade legal dos Estados Europeus, e, portanto, a responsabilidade moral é primeiramente dos governos porque têm os meios para fazer isso. [E], perante a inação governamental, a responsabilidade recai sobre a sociedade civil, que tem de fazer alguma coisa e tem de se indignar pelo facto de os Estados não estarem a fazer anda.”.
E este cidadão do mundo, que não estabelece ordens de prioridades entre nacionais de vários países e continentes – porque “não há vidas mais valiosas do que outras”, sendo “isso que temos de ter em mente quando falamos de migrações” – sentiu que não podia, com a sua idade, experiência e oportunidades, calar o que sabe e que “o pouco que pudesse dar tinha de contribuir para que esta injustiça toda diminuísse ligeiramente”
Sobre a organização alemã que o acolheu para participar nas ações de resgate, revelou:
Há muitas coisas que nos ligam, mas a coisa mais abrangente e que liga toda a gente que ali está é um respeito enorme pela vida. Estamos ali porque damos um valor sem preço à vida humana, queremos salvar vida. Acaba por ser o primeiro e mais fundamental objetivo das pessoas que fazem o resgate marítimo ou qualquer tipo de trabalho humanitário. O objetivo é salvar pessoas. Depois, muitas outras coisas nos ligam, acabamos por viver situações muito tristes e situações muito felizes juntas, são situações de emoções muito fortes, são situações muito intensas, e inevitavelmente isso liga-nos.”.
Questionado se o número de 423 pessoas salvas em duas semanas significa uma esperança que se lhe renova interiormente, disse com simplicidade e realismo:
Nós resgatamos muitas pessoas ao longo desse ano, a tripulação do ‘Iuventa’ participou no resgate de 14 mil pessoas ao longo de um ano. Vejo esse número com mais indignação do que esperança, na verdade. Se uma equipa de 15 voluntários de cada vez consegue resgatar 14 mil pessoas ao longo de um ano alguma coisa está fundamentalmente errada no que está a ser feito para que estas pessoas não percam a vida.”.
Embora considere coisa muito boa o número de pessoas resgatadas, acha-o “sintomático de um problema fundamental que não está a ser abordado como devia”. E, ante uma geração a crescer com a crise dos refugiados, frisa o dever de encarar esta crise humanitária por parte de cada um de nós e de lutar para que ela seja debelada e não venha a repetir-se, desenvolvendo:
Esta crise humanitária é a crise da nossa geração. Se os nossos avós nos anos 70 tiveram de lutar pela liberdade, nós temos de lutar por isto. Sinto que é a grande crise, é isto que vai aparecer nos livros de História, estão neste momento a acontecer grandes acontecimentos que dependem da nossa inação ou da nossa ação. (…) Vamos ter de explicar aos nossos netos como é que deixamos morrer dezenas de milhares de pessoas ao longo de 5, 6 ou 7 anos e eu sei de que lado é que quero estar. E acho que é uma responsabilidade que cada um de nós tem de aceitar e cada um de nós tem de encontrar a melhor forma de contribuir pessoalmente para que isto não se volte a passar, que esta catástrofe tenha um fim.”.
No atinente à sua situação de porta-voz de tudo isto, esclarece-a pela urgência ditada injustiça da criminalização da ajuda humanitária e a atitude hostil por parte de vários governos da UE:
Nós queríamos fazer resgate marítimo, não queríamos fazer comunicação. O que sabemos fazer é tirar pessoas de dentro e água, é muito simples e foi isso que fizemos. As circunstâncias, esta injustiça da criminalização da ajuda humanitária e a atitude hostil por parte de vários governos da União Europeia, em relação à solidariedade demonstrada pela sociedade civil, é que nos [puseram] nesta situação em que somos obrigados a ser o porta-voz e temos que aprender a fazer este tipo de trabalho que é completamente diferente daquilo que fazíamos antigamente.”.
Preferiam continuar a fazer o que faziam em 2016 ou 2017, porque isso é preciso e importante: “é preciso tirar as pessoas de uma situação de perigo porque elas continuam a vir”. Mas, como estão impossibilitados de o fazer porque não têm navio, sente a responsabilidade pessoal de passar a palavra, de “ser um bocadinho mais uma voz a falar por estas pessoas”. E, sobre o caso legal da criminalização expressa na nova lei italiana, esclarece:
Quando nós falamos sobre este caso legal e esta injustiça, não estamos só a tentar garantir a nossa liberdade pessoal, mas a falar pelos verdadeiros desprivilegiados nesta situação. Estamos a falar de milhares que pessoas que morrem afogados no Mediterrâneo sem voz e que depois vão parar a listas anónimas de estatísticas de mortes no mediterrâneo.”.
Aquele mar traz-lhe muitas recordações e fá-lo sentir que ali viveu “o melhor e o pior da vida”:
[Es]tive muito em contacto com o desespero das pessoas, mas também com a esperança e entreajuda e vi atos de heroísmo que não pensei que fossem possíveis. Vi pessoas a pôr em risco a sua própria vida para salvar outras e isso já ninguém me tira.” – diz .
Relativamente ao que dizia às pessoas quando as puxava para o navio, narra:
O que tentávamos fazer era acalmá-las. Em geral as pessoas vêm numa situação de pânico, só querem segurança para si e para os seus filhos. E o que é preciso dizer nesse momento é: ‘está tudo bem, somos uma equipa de resgate e o nosso objetivo é tirar-vos desta situação e pôr-vos em segurança’. É esse o nosso papel, é ser a primeira plataforma onde as pessoas podem descansar numa situação de meses e meses, ou anos a fio, em tenção constante.”.
Em relação às críticas contra o local aonde faziam aportar as pessoas, responde com clareza:
Quando se resgatam pessoas em águas internacionais, para já somos obrigados por lei a resgatá-las e por lei a levá-las a um porto seguro. A Líbia, não é preciso argumentar, não é um porto seguro. Podia-se argumentar que se poderiam trazer as pessoas para a Tunísia, que não assinou a convenção de Genebra nos anos 50, em que se definia refugiado e, como se sabe, as pessoas que foram no passado entregues à Tunísia foram depois devolvidas pelas autoridades à Líbia. E isso constitui uma violação da lei internacional e não podemos deixar que isso aconteça. (…) Todo o nosso trabalho era feito em coordenação com as autoridades italianas e, na esmagadora maioria dos casos que atendemos, as pessoas eram passadas para bordo de navios italianos, que os levavam depois a terra italiana. Não éramos nós que fazíamos essa decisão, a decisão era das autoridades italianas que tinham a responsabilidade de coordenar o resgate marítimo.”.
Assim, a ação judicial de que é objeto foi uma surpresa. Com efeito, sabiam da existência de vozes influentes que não gostavam do que eles faziam e representavam, mas nunca pensaram na possibilidade da utilização de meios legais “para criminalizar a ajuda humanitária que é não só protegida por lei como é um direito fundamental das pessoas”.
Não sabendo o que se vai passar a seguir, adverte que “é muito importante que haja este tipo de resposta por parte da sociedade civil” (Portugal e o resto da Europa). E considera:
Em Portugal houve uma resposta muito consensual sobre este problema e isso é muito importante, ter tanta gente a proferir declarações de apoio, tão diretamente em relação a nós e ao nosso trabalho. Mas não pode ficar por aí. Já houve várias instituições governamentais, e não só, que declararam publicamente o apoio à nossa causa, isso é importante, mas é o mínimo que se espera de um estado democrático, que se espera de um pais que respeita da declaração universal dos direitos humanos, mas é preciso fazer mais.”.
E explana, quanto ao absurdo de pretenderem fazer regressar os migrantes à Líbia:
O problema está muito além de nós próprios, o problema das migrações e das mortes no mediterrâneo vai continuar a acontecer. As autoridades líbias, se é que podemos chamar de tal coisa, põem em risco a vida de milhares de pessoas, com a conivência e o apoio explícito da UE e dos estados membros e é contra isso que precisamos lutar. não podemos lutar pelas duas coisas. Dizer que respeitamos os direitos humanos e, por outro lado, apoiar quem viola os direitos humanos, quem acaba por intercetar estes barcos e levá-lo de volta à Líbia em condições horrorosas em que estas pessoas vivem nos campos de detenção.”.
Sobre uma hipotética intervenção da comunidade internacional nos países de origem com vista a uma estabilização para as pessoas não terem de fugir, diz que é “problema que está longe de ser simples”, não havendo “uma medida que resolva o problema”, mas sendo preciso um conjunto de medidas coordenadas. E indica medidas no momento e medidas a montante:
São precisos resgates marítimos, sistemas de acolhimento eficiente, mais humanitários que consigam trazer estas pessoas de forma segura para a Europa sem terem de se pôr em barcos sem condições nenhumas e pouca probabilidade de sobreviver, só para chegar à Europa e pedir asilo. O ideal é que não haja resgate marítimo, não haja necessidade de resgate, o ideal é que as pessoas não tenham de sair dos países; e aqui, se calhar, é mais urgente do que uma intervenção de estabilização de qualquer situação que se passe nos países de origem, eu diria que é preciso moderar alguma intervenção que os países ditos ocidentais têm tido. Os maiores exportadores de armas no mundo são os EUA e vários estados membros europeus.”.
Ora, antes das “ajudas para o desenvolvimento”, é preciso pôr em causa “a venda de armas em situações de conflito”, pois os migrantes “estão a fugir das bombas que são criadas em solo europeu”, pelo que não podemos “fechar-lhes as portas quando estão a fugir de armas produzidas por nós”. A este respeito e no atinente ao que se pode fazer em Portugal Miguel Duarte não deixa de dizer:
O que é preciso fazer neste momento, na minha opinião, é continuar a indignar-se, informar-se criticamente sobre esta situação, sobre as migrações. E não só. E é preciso fazer pressão sobre as entidades que têm poder para fazer alguma coisa em relação a isto. É preciso garantir que os nossos representantes sabem que estamos atentos e que a forma como a UE está a tratar os migrantes e refugiados não é aceitável, e nós não aceitamos isso num estado democrático.”.
Sobre o andamento do processo judicial em que está envolvido, referiu:
Fomos constituídos arguidos há um ano e estamos à espera de uma acusação formal ou que o caso seja arquivado. Qualquer um pode acontecer e neste momento não conseguimos prever.”.
Voltaria ao Mediterrâneo “amanhã se pudesse” e, sobre a sua atual ocupação, conta:
Neste momento, o trabalho que tenho feito é maioritariamente este trabalho de comunicação, de dar voz a este problema, trazer atenção para isto, nunca esquecendo que o foco é num problema muito maior, nunca esquecendo que nós, que enfrentamos uma possibilidade de 20 anos na prisão por ajuda humanitária, ainda conseguimos ser os privilegiados no meio desta situação, porque há pessoas que todos os dias arriscam a vida simplesmente à procura de segurança e é nessas pessoas e situação que temos de focar. E é com isso que temos de nos indignar mais.”.
Considerando que um processo judicial “mexe com vidas mas não com princípios”, clarifica:
O processo legal aumenta a nossa indignação, [mas] não nos faz questionar no que acreditamos. Acreditamos que a vida humana tem um valor incalculável e é isso que tentamos defender e vai ser isso que vamos continuar a defender. Se a nossa luta é a comunicação e não o resgate marítimo, então vamos lutar.”.
Por fim, o voluntário português diz sonhar “com uma Europa mais humana que permita que as pessoas vivam com dignidade, todas as pessoas, não só os europeus”.
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Esta é uma excelente forma de martírio, segundo o sentido originário das palavras gregas “martyría, as” (testemunho, depoimento duma testemunha), “mártys, ros” (testemunha, mártir) e “mártyros, ou” (testemunha, protetor). Ainda há muitos mártires “no bom sentido”, como disse o Arcebispo Primaz na homilia da missa da festa de São Torcato, no passado dia 7 de julho.
2019.07.09 – Louro de Carvalho