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domingo, 27 de outubro de 2019

A beleza de caminhar juntos para servir


Depois da missa de encerramento do Sínodo dos Bispos para a Região Pan-amazónica, o Papa recitou o Angelus com os fiéis e peregrinos apinhados na Praça de São Pedro e confidenciou-lhes, na alocução que antecedeu a oração mariana, que os participantes na assembleia sinodal sentiram “a beleza de caminharem juntos para servir”. E vincou que, tendo vindo da Amazónia “o grito dos pobres, junto ao grito da terra”, não podemos fazer de conta que não o ouvimos.
Com efeito, a Liturgia da palavra da Missa celebrada na Basílica de São Pedro de conclusão da Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos, no 30.º domingo do Tempo Comum do Ano C, recorda-nos, com a 1.ª Leitura (Sir 35,12-14.16-18), o ponto de partida desta caminhada sinodal: a oração do pobre que “atravessa as nuvens”, pois ‘Deus escuta a oração do oprimido’. O grito dos pobres, com o grito da terra, veio da Amazónia – disse o Pontífice – e com esse grito amazónico vieram as vozes de tantos outros dentro e fora da Assembleia sinodal, pastores, jovens e cientistas que “nos impelem a não permanecer indiferentes”. Na verdade a frase “Depois é tarde demais”, que ouvimos muitas vezes, não pode permanecer um “slogan”.
Sobre o que foi o Sínodo, disse o Santo Padre:
Foi, como diz a palavra, um caminhar juntos, revigorados pela coragem e pelo consolo que vem do Senhor. Caminhamos, olhando-nos nos olhos e ouvindo-nos, com sinceridade, sem esconder as dificuldades, experimentando a beleza de caminhar unidos, para servir.”.
E Francisco sublinhou que Paulo nos incentiva a isso. Com efeito, como se pode ver pela 2.ª Leitura (2Tm 4,6-8.16-18), num momento dramático para ele (pois sabe que está para ser oferecido em sacrifício, ou seja, justiçado, e que chegou o momento de deixar esta vida), escreve:
O Senhor esteve a meu lado e deu-me forças. Ele fez com que o Evangelho fosse anunciado por mim integralmente e ouvido por todas as nações.”.
Assim, o último desejo do Apóstolo é de “não algo para si ou para alguns dos seus, mas para o Evangelho, para que seja anunciado a todos os povos”, o que “vem antes de tudo e conta acima de tudo”. E Francisco, questionando-se se “cada um de nós já se perguntou muitas vezes o que fazer de bom para a própria vida”, disse que hoje é o momento de cada um se interrogar: “O que eu posso fazer de bom pelo Evangelho?”. E adiantou:
No Sínodo, fizemo-nos essa pergunta com o desejo de abrir novas estradas ao anúncio do Evangelho. Anuncia-se somente o que se vive. Para viver de Jesus, para viver do Evangelho, é preciso sair de si mesmo.”.
Depois, disse aos fiéis e peregrinos: 
Sentimo-nos, então, impelidos a descolar, a deixar as costas confortáveis de nossos portos seguros para penetrar nas águas profundas: não nas águas pantanosas das ideologias, mas no mar aberto, onde o Espírito nos convida a lançar as redes”.
Por fim, incitou a invocar a Virgem Maria, para o caminho que virá, “venerada e amada como Rainha da Amazónia”. E disse que Maria adquiriu esse título não como conquistadora, “mas inculturando-se” e, “com a coragem humilde de mãe, tornou-se a protetora de seus filhos, a defesa dos oprimidos”. E precisou:
Sempre indo à cultura dos povos: não há uma cultura padrão, não há uma cultura pura que purifique os outros. Existe o Evangelho, puro, que se incultura. A Ela, que cuidou de Jesus na casa pobre de Nazaré, confiamos os filhos mais pobres e da nossa Casa comum.”.
***
Antes, na homilia da Missa, o Sumo Pontífice afirmou que a ‘religião do eu’ continua hipócrita com os seus ritos e as suas ‘orações’, mas que “muitos são católicos, se confessam católicos e se esqueceram de ser cristãos e humanos”. Assim, podemos dizer que a sua justiça não é superior à dos escribas e fariseus. Por outro lado, frisou que “ouvir o grito dos pobres” conduz ao “grito de esperança da Igreja”. O Papa conduziu a sua reflexão homilética a partir de três exemplos de orantes que as leituras da Liturgia da Palavra contemplam: na parábola de Jesus (Lc 18,9-14), rezam o fariseu e o publicano; na primeira Leitura, fala-se da oração do pobre.
Na sua oração, diz o Pontífice, o fariseu vangloria-se de cumprir do melhor modo preceitos particulares, “mas esquece o maior: amar a Deus e ao próximo. Transbordando de confiança na sua capacidade de observar os mandamentos, nos seus méritos e virtudes, “aparece centrado apenas em si mesmo”. O seu drama é viver sem amor. E, como diz São Paulo, “sem amor, até as melhores coisas de nada serviam”. Ora, sem amor, o resultado é:
Em vez de rezar, [o fariseu] elogia-se a si mesmo. De facto, não pede nada ao Senhor, porque não se sente necessitado nem em dívida, mas com crédito. Está no templo de Deus, mas pratica outra religião, a religião do eu. Muitos grupos ilustres, cristãos católicos, vão por esta estrada.”.
Por outro lado, Francisco diz que, além de Deus, o fariseu esquece o próximo, despreza-o, ou seja, não lhe dá valor. Considera-se melhor que os outros designados por ele como ‘o resto, os restantes’. E o Pontífice verifica amarguradamente:
Em outras palavras, são ‘restos’, descartados dos quais manter-se à distância. Quantas vezes vemos acontecer esta dinâmica na vida e na história! Quantas vezes quem está à frente, como o fariseu relativamente ao publicano, levanta muros para aumentar as distâncias, tornando os outros ainda mais descartados. Ou então, considerando-os atrasados e de pouco valor, despreza as suas tradições, cancela as suas histórias, ocupa os seus territórios e usurpa os seus bens. Quanta superioridade presumida, que se transforma em opressão e exploração, ainda hoje!”.
E disse que se viu isso no Sínodo ao falar-se “sobre a exploração da Criação, das pessoas, dos habitantes da Amazónia, do tráfico de pessoas e do comércio de pessoas”.
Para o Bispo de Roma, “os erros do passado não foram suficientes para deixarmos de saquear os outros e causar ferimentos aos nossos irmãos e à nossa irmã terra: vimos isso no rosto desfigurado da Amazónia”. E, em conformidade com o que verificou, exorta:
Rezemos pedindo a graça de não nos considerarmos superiores, não nos julgarmos íntegros, nem nos tornarmos cínicos e escarnecedores. Peçamos a Jesus que nos cure de criticar e queixar dos outros, de desprezar seja quem for: são coisas que desagradam a Deus.”.
E relevou a cumplicidade de quem acompanhou esta Missa de encerramento do Sínodo:
Provavelmente, hoje acompanham-nos nesta Missa não apenas os indígenas da Amazónia: mas também os pobres das sociedades desenvolvidas, os irmãos e irmãs doentes da Comunità dell’Arche. Estão connosco.”.
Ao invés, a oração do publicano  ajuda-nos a compreender o que é agradável a Deus. Na verdade, “este não começa pelas suas virtudes, mas pelas suas faltas; não pela riqueza, mas pela sua pobreza: não uma pobreza económica” (os publicanos eram ricos e cobravam também injustamente às custas de seus compatriotas), mas uma pobreza de vida, porque no pecado nunca se vive bem”.
E Francisco, salientando que a oração do publicano nasce do coração, destaca:
Aquele homem reconhece-se pobre diante de Deus, e o Senhor ouve a sua oração, feita apenas de sete palavras, mas de atitudes verdadeiras. De facto, enquanto o fariseu estava à frente, de pé, o publicano mantém-se à distância e ‘nem sequer ousava levantar os olhos ao céu’, porque crê que o Céu está ali e é grande, enquanto ele se sente pequeno. E ‘batia no peito’, porque no peito está o coração.”.
Ora, porque a oração que nasce do coração é transparente, o publicano coloca diante de Deus o coração, não as aparências: deixa-se olhar dentro por Deus “sem simulações, sem desculpas, nem justificações”. E o Papa comenta, aproximando esta atitude com o ocorrido no Sínodo:
Muitas vezes fazem-nos rir, os arrependimentos cheios de justificativas. Mais do que arrependimento, parece uma causa própria de canonização. Porque, do diabo, vêm escuridão e falsidade; de Deus, luz e verdade. Foi bom, e agradeço-vos, queridos padres e irmãos sinodais, termos dialogado, nestas semanas, com o coração, com sinceridade e franqueza, colocando fadigas e esperanças diante de Deus e dos irmãos.”.
E sublinhou que, através do publicano, “descobrimos o ponto de onde recomeçar: do facto de nos considerarmos, todos, necessitados de salvação”. É o primeiro passo da religião de Deus, que é misericórdia com quem se reconhece miserável. Considerar-se justo é deixar Deus, o único justo, fora de casa”. A este respeito, Jesus confronta a atitude da pessoa mais piedosa de então, o fariseu, com a do pecador público por excelência, o publicano. E o Papa anota:
E a sentença final inverte as coisas: quem é bom, mas presunçoso, falha; quem é deplorável, mas humilde, acaba exaltado por Deus. Se olharmos para dentro de nós com sinceridade, vemos os dois em nós: o publicano e o fariseu. Somos um pouco publicanos, porque pecadores, e um pouco fariseus, porque presunçosos, capazes de nos sentirmos justos, campeões na arte de nos justificarmos! Isto, com os outros, muitas vezes dá certo; mas, com Deus, não.”.
Por isso, o Santo Padre exorta a que peçamos a Deus “a graça de nos sentirmos necessitados de misericórdia, pobres intimamente”, pois faz-nos bem frequentar os pobres, para nos lembrarmos de que somos pobres e de que “a salvação de Deus só age num clima de pobreza interior”.
Depois, comentando a passagem do Livro de Ben-Sirá (1.ª Leitura), sublinha que a oração do pobre ‘chegará até as nuvens’. E assinala o contraste:
Enquanto a oração de quem se considera justo fica por terra, esmagada pela força de gravidade do egoísmo, a do pobre sobe, direta, até Deus. O sentido da fé do Povo de Deus viu nos pobres ‘os porteiros do Céu’: aquele sensus fidei que faltava no Documento final. São eles que nos abrirão, ou não, as portas da vida eterna; eles que não se consideraram senhores nesta vida, que não se antepuseram aos outros, que tiveram só em Deus a sua própria riqueza. São ícones vivos da profecia cristã.”.
E o Papa argentino fala desta dimensão do Sínodo:  
Neste Sínodo, tivemos a graça de escutar as vozes dos pobres e refletir sobre a precariedade de suas vidas, ameaçadas por modelos de progresso predatórios. E, no entanto, precisamente nesta situação, muitos testemunharam-nos que é possível olhar a realidade de modo diferente, acolhendo-a de mãos abertas como uma dádiva, habitando na criação, não como meio a ser explorado, mas como casa a ser protegida, confiando em Deus. Ele é Pai e ‘ouvirá a oração do oprimido’. Quantas vezes, mesmo na Igreja, as vozes dos pobres não são ouvidas, acabando talvez desprezadas ou silenciadas porque incómodas.”.
Por fim, Francisco concluiu, exortando a que rezemos “pedindo a graça de saber ouvir o grito dos pobres: é o grito de esperança da Igreja”. Com efeito, “assumindo nós o seu grito, temos a certeza de que a nossa oração atravessará as nuvens”.
***
O Cardeal Cláudio Hummes, relator-geral do Sínodo e presidente da REPAM (Rede Eclesial Pan-amazónica), disse que do Sínodo surgiu um apelo à humanidade para salvar o planeta e confessou:
Acredito que o Sínodo conseguiu mostrar novos caminhos e fazer também uma reflexão sobre que tipo de novos caminhos é necessário neste momento”.
Em conversa com Silvonei José, no dia 24, a propósito do Documento final do Sínodo, frisou:
O Sínodo corre dentro dessa grande crise socioambiental que o mundo todo, que o planeta todo, está padecendo, está sofrendo, ou seja, uma crise climática, uma crise ecológica e junto disso, a crise  da pobreza no mundo, dos pobres. Tudo isso, nós chamamos de uma crise socioambiental.”.
Segundo Dom Cláudio, o Documento final “deve ser lido não como se fosse um livro escrito por um autor que tem uma linha de pensamento muito conectado, com uma fluência muito grande”. É um documento construído – e esse é o seu valor – por toda uma grande assembleia, construído por muitas mãos. O importante são os conteúdos, e não se é belo literariamente. É um Documento pastoral, profundamente pastoral” em que devemos ler os conteúdos.  
Realçou o que se afirma na introdução: 
Depois de um longo caminho sinodal de escuta do Povo de Deus na Igreja da Amazónia, inaugurado pelo Papa Francisco na sua visita à Amazónia, em 19 de janeiro de 2018, o Sínodo foi realizado em Roma, num encontro fraterno de 21 dias, em outubro de 2019. O clima foi de trocas abertas, livres e respeitosas entre bispos, pastores da Amazónia, missionários e missionárias, leigos e leigas, e representantes dos povos indígenas da Amazónia. Fomos testemunhas participantes de um evento eclesial marcado pela urgência do tema que conclama abrir novos caminhos para a Igreja no território. Compartilhou-se um trabalho sério num clima marcado pela convicção de escutar a voz presente do Espírito Santo.”.
Disse que o Sínodo foi realizado em clima de fraternidade e oração, tendo várias vezes as intervenções sido acompanhadas por aplausos, cantos e com intervalos de silêncio contemplativo. Por outro lado, fora da sala sinodal, houve uma presença notável de pessoas vindas do mundo amazónico que organizaram atos de apoio em diferentes atividades, procissões, como a abertura com cantos e danças acompanhando o Santo Padre, do túmulo de Pedro à sala sinodal, sendo de referir a Via Sacra dos mártires da Amazónia, bem como uma presença maciça dos média internacionais.
Salientou que todos os participantes expressaram uma profunda consciência da dramática situação de destruição que afeta a Amazónia, o que significa a possibilidade do desaparecimento do território e dos seus habitantes, especialmente dos povos indígenas. Na verdade, a floresta amazónica é um “coração biológico” numa terra cada vez mais ameaçada e em desenfreada corrida para a morte. Requerem-se mudanças radicais de suma urgência e um novo direcionamento que permita salvá-la, pois está cientificamente comprovado que o desaparecimento do bioma Amazónia trará um impacto catastrófico para o planeta.
Relatou o purpurado que o caminho sinodal do Povo de Deus na fase preparatória envolveu, em torno do documento de consulta que inspirou o Instrumentum Laboris, toda a Igreja no território, os Bispos, os missionários e missionárias, os membros das Igrejas de outras confissões cristãs, os leigos e leigas e muitos representantes dos povos indígenas. E enfatizou a importância de se escutar a voz da Amazónia, movida pelo sopro maior do Espírito Santo no grito da terra ferida e de seus habitantes.
Disse que foi registada a participação ativa de mais de 87.000 pessoas, de diferentes cidades e culturas, bem como de inúmeros grupos de outros setores eclesiais e as contribuições académicas e organizações da sociedade civil nos temas centrais específicos.
Por fim, sublinhou que a celebração do Sínodo conseguiu destacar a integração da voz da Amazónia com a voz e o sentimento dos pastores participantes”. E concluiu:
Foi uma nova experiência de escuta para discernir a voz do Espírito Santo que conduz a Igreja a novos caminhos de presença, evangelização e diálogo intercultural na Amazónia. A afirmação, que surgiu no processo preparatório, de que a Igreja era aliada do mundo amazónico, foi fortemente confirmada. A celebração termina com grande alegria e esperança de abraçar e praticar o novo paradigma da ecologia integral, o cuidado da ‘casa comum’ e a defesa da Amazónia.”.
***
O Sínodo foi um tempo de graça de que é preciso dar graças a Deus que inspira as pessoas que se reúnem no Espírito Santo e O querem escutar. Importa assumir e levar à prática as suas conclusões sem medo e com audácia no Senhor ao serviço dos irmãos. Prosit. Deus adiuvet!
2019.10.27 – Louro de Carvalho

sábado, 26 de outubro de 2019

Aprovação do documento final do Sínodo para a Amazónia


Foi aprovado hoje, dia 26 de outubro, por maioria de dois terços, o documento final do Sínodo dos Bispos de 2019, na 16.ª Congregação Geral, que admite a ordenação sacerdotal de diáconos casados, com vista à celebração dominical da Eucaristia nas regiões mais remotas da Amazónia.
O ponto 111, aprovado com 41 votos contra (o número mais alto nos 120 pontos do documento) e 128 a favor, propõe a “ordenação sacerdotal de homens idóneos e reconhecidos pela comunidade”, com “família legitimamente constituída e estável”, que tenham diaconado permanente fecundo e recebam formação adequada para o presbiterado, de modo a poderem sustentar a vida da comunidade cristã pela pregação da Palavra e pela celebração dos Sacramentos nas ditas zonas.
O sacerdócio está reservado, na Igreja Latina (que abrange a maioria das comunidades católicas no mundo, como em Portugal), a homens não casados, mas alguns ritos, em comunhão com Roma, admitem a ordenação presbiteral de homens casados. A este respeito, alguns pronunciaram-se em favor duma abordagem universal do tema, pois há “um direito da comunidade à celebração, que deriva da essência da Eucaristia e do seu lugar na economia da salvação”. Assim, embora os participantes falem do celibato como um “dom” na Igreja Católica, sublinham que se trata de uma opção da “disciplina” da Igreja latina, que é diferente no contexto da “pluralidade dos ritos e disciplinas existentes”.
Por outro lado, o Sínodo manifesta preocupação com a formação dos futuros sacerdotes e quer que seja dada mais atenção à realidade da Amazónia, à história dos seus povos e da missionação católica na região, além das preocupações ecológicas e culturais.
Ademais, o documento apela à criação de estruturas “sinodais” nas regiões da Amazónia, propondo um “fundo amazónico” para sustento da evangelização, a criação de universidades próprias e um “organismo episcopal que promova a sinodalidade entre as Igrejas da região”. E ainda aponta a criação dum rito amazónico, recordando que a Igreja Católica tem 23 ritos diferentes, procurando “inculturar os conteúdos da fé e da sua celebração”.
Na Igreja Católica existem os ritos latinos (tendo por base o rito romano e admitindo as variantes dos ritos ambrosiano, hispânico e outros, como o bracarense) e ritos orientais (especialmente o bizantino). Ora, o proposto “rito amazónico” deve manifestar o património litúrgico, teológico, disciplinar e espiritual” dos povos da região, no contexto de uma “descentralização e colegialidade que pode manifestar a catolicidade da Igreja”.
O documento final, publicado pela Sala de Imprensa da Santa Sé, acompanhado pelo resultado da votação, e entregue ao Papa, alerta para a destruição “dramática” da floresta e a exploração levada a cabo por interesses económicos que ameaçam a região e refere:
Isto implica o desaparecimento do território e dos seus habitantes, especialmente os povos indígenas. A selva amazónica é um ‘coração biológico’ para uma terra cada vez mais ameaçada, que se encontra numa corrida desenfreada para a morte.”.
Os participantes – bispos, missionários, indígenas e peritos convidados pelo Vaticano – falam num “bioma ameaçado de desaparecimento”, facto que teria “consequências tremendas” para todo o planeta, e propõem uma “ecologia integral”, em diálogo com os saberes dos povos indígenas, que defenda “os mais pobres e desfavorecidos da terra”.
Uma introdução, cinco capítulos e uma breve conclusão constituem este documento divulgado na noite deste dia 26 de outubro, por desejo do Papa. Entre os seus temas, contam-se: a missão, a inculturação, a ecologia integral, a defesa dos povos indígenas, o rito amazónico, o papel das mulheres e os novos ministérios, sobretudo nas áreas de difícil acesso à Eucaristia, a definição do “pecado ecológico”, definido como uma “ação ou omissão contra Deus, contra o próximo, a comunidade e o ambiente”. Sobre este último tema, aponta o documento, remetendo para o Catecismo da Igreja Católica (nn 340-344):  
É um pecado contra as futuras gerações e manifesta-se em atos e hábitos de contaminação e destruição da harmonia do ambiente, transgressões contra os princípios de interdependência e rutura das redes de solidariedade entre as criaturas”.
***
Em consonância com este documento e o desejo explicitado pelos Padres Sinodais, Francisco acaba de anunciar a intenção de reabrir a comissão que debateu a possibilidade de ordenação diaconal de mulheres. Falando no final dos trabalhos, disse o Pontífice, perante os bispos, missionários, religiosos e representantes de indígenas que participaram na assembleia sinodal:
Assumo o pedido de voltar a chamar a comissão ou talvez abri-la com novos membros, para estudar como existia, na Igreja primitiva, o diaconado feminino”.
Após a votação do documento, que aconteceu na tarde de hoje, o Papa disse que o Sínodo pediu “criatividade” para que seja possível encontrar “novos ministérios” para as comunidades católicas e indicou a vontade de trabalhar com a Congregação para a Doutrina da Fé, para “ver até onde se pode chegar”. Por outro lado, valorizado que foi o papel das lideranças femininas na “transmissão da fé e na preservação da cultura”, o Pontífice pediu que “não se fique apenas na parte funcional” e observou:
O papel da mulher da Igreja vai muito mais além da funcionalidade e é nisso que temos de continuar a trabalhar”.
E, na verdade, o número 103 do documento sublinha que “as múltiplas consultas realizadas no espaço amazónico” destacam o “papel fundamental das mulheres religiosas e leigas na Igreja da Amazónia”, com os seus múltiplos serviços. Mais se pode ler que “num grande número destas consultas, solicitou-se o diaconado permanente para a mulher”.
Ademais, apela-se à formação de mulheres em estudos teológicos e uma maior presença em papéis de liderança, dentro e fora da Igreja. Mais explicitamente é referido:
Nos novos contextos de evangelização e pastoral na Amazónia, onde a maioria das comunidades católicas são lideradas por mulheres, pedimos que seja criado o ministério instituído da ‘mulher dirigente da comunidade’ e reconhecer isto, dentro do serviço das exigências da mutação da evangelização e da atenção às comunidades”.
Os participantes pedem a oportunidade de partilhar “experiências e reflexões” com a Comissão de Estudo sobre o Diaconado das Mulheres.
A comissão para o estudo do diaconado feminino foi inconclusiva. A esse respeito, o Papa referira, em declarações aos jornalistas no voo de regresso desde a Macedónia do Norte:
Não há certeza de que a sua (das mulheres) fosse uma ordenação com a mesma forma e com o mesmo propósito que a ordenação masculina. Alguns dizem: há dúvidas. Vamos continuar a estudar. Mas até agora não se avança.”.
Segundo o Papa, não existem dúvidas de que havia diaconisas no começo do Cristianismo, mas a questão está em determinar se “era uma ordenação sacramental ou não”. Os estudos mostram que estas primeiras diaconisas assistiam na liturgia batismal de mulheres, que era por imersão, e eram chamadas para casos de disputa matrimonial para avaliar eventuais maus-tratos, uma situação limitada a uma área geográfica, especialmente a Síria.
Também há de considerar-se que a função diaconal masculina era diferente no princípio: o serviço das mesas, para os apóstolos poderem aplicar-se à oração e ao serviço da Palavra.
Recorde-se que o Concílio Vaticano II (1962-1965) restaurou o diaconado permanente, a que podem aceder homens casados (depois de terem completado 35 anos de idade), o que não acontece com o sacerdócio. O diaconado exercido por candidatos ao sacerdócio só é concedido a homens não casados (Prefiro a expressão não casados porque inclui os viúvos).
De origem grega, o termo ‘diácono’ pode traduzir-se por servidor e corresponde a alguém especialmente destinado na Igreja Católica às atividades caritativas, a anunciar a Palavra e a exercer funções litúrgicas, como assistir o Bispo e o Presbítero nas missas, administrar o Batismo, presidir ao matrimónio e às exéquias, entre outras funções.
Além do já referido, o discurso papal, depois da aprovação do documento apresentado ontem à 15.ª Congregação Sinodal, denunciou as violações aos direitos dos povos da região e visou as “injustiças, destruição, exploração de pessoas, a todos os níveis, e destruição da identidade cultural” que marcam a vida das comunidades indígenas.
Numa intervenção improvisada, em espanhol, perante todos os que participaram nas três semanas de trabalhos, o Pontífice prometeu uma exortação pós-sinodal até ao fim do ano, para deixar a sua própria palavra sobre a experiência que viveu. “Tudo depende do tempo que tenha para pensar”, gracejou, provocando um aplauso dos presentes.
Francisco disse que este Sínodo especial, iniciado a 6 de outubro, abordou quatro dimensões fundamentais, a começar pela inculturação e da valorização das culturas, “que está dentro da Tradição da Igreja”. A segunda foi a dimensão ecológica, em que se “joga o futuro” e que denuncia a “exploração selvagem” dos recursos naturais, como acontece na Amazónia. E, depois de falar da terceira – a dimensão social, com alertas para o “tráfico de pessoas”, declarou que a quarta dimensão, “a principal”, é a pastoral, mais ligada à ação das comunidades católicas na transmissão da fé. E apontou:
Urge o anúncio do Evangelho, mas que seja entendido, assimilado, compreendido por essas culturas”.
Francisco começou por agradecer a quantos “deram este testemunho de trabalho, de escuta, de busca”, procurando colocar em prática o “espírito sinodal”. “Estamos a entender o que significa discernir, escutar, incorporar a rica tradição da Igreja nos momentos conjunturais”, precisou.
O discurso deixou reparos a quem pensa que “a Tradição é um museu de coisas velhas” e indicou a necessidade de colocar a Igreja Católica a avançar “neste caminho da sinodalidade”.
Entre os temas debatidos, segundo Papa, está a necessidade de reformar a formação sacerdotal nalguns países de promover a “redistribuição do clero”. “Sejamos corajosos para fazer esta reforma”, exortou.
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Também merecerá atenção a reorganização do território eclesial amazónico, com ideias como a criação de “semiconferências episcopais” para várias zonas e, no Vaticano, a abertura de uma “secção amazónica” no Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral.
Os participantes pediram ao Papa que o percurso dos membros do corpo diplomático da Santa Sé inclua “um ano” ao serviço de uma diocese em território de missão
Em relação ao Rito Amazónico proposto, Francisco disse que irá solicitar à Congregação para o Culto Divino que faça “as propostas necessárias”, recordando as 23 igrejas com rito próprio, no mundo católico. E sustentou:
“Não é preciso ter medo das organizações que custodiam uma vida especial”.
O Papa agradeceu o trabalho dos média e desejou que estes pudessem ter acompanhado a votação, antes de deixar um pedido aos jornalistas:
 Parem, sobretudo, nos diagnósticos, que é a parte pesada, onde o Sínodo se expressou melhor”.
A este respeito, Francisco alertou para o que chamou de “cristãos de elite” ou “grupos seletivos” que se fixam em “pontos intraeclesiásticos” e procuram vencedores ou derrotados, nas votações.
Ganhamos todos com o diagnóstico que fizemos”, observou.
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Os participantes defendem a criação de “ministérios especiais” nas comunidades católicos para a defesa da “casa comum” e a promoção da ecologia integral, visando “o cuidado do território e da água”. Alertam outrossim para as consequências do “extrativismo predatório” e pede solidariedade internacional com a Amazónia, falando mesmo numa “dívida” de países desenvolvidos, que deveria ser paga através de um fundo de apoio às comunidades da região.
A Amazónia é hoje uma beleza ferida e deformada, um lugar de dor e violência. Os atentados contra a natureza têm consequências contra a vida dos povos” – consideram.
O documento final do Sínodo propõe um “novo paradigma de desenvolvimento sustentável”, que seja inclusivo, combinando “conhecimentos científicos e tradicionais”. E ali pode ler-se:
O futuro da Amazónia está nas mãos de todos nós, mas depende principalmente de abandonarmos imediatamente o modelo atual que destrói a floresta”.
Os participantes pedem uma menor dependência de combustíveis fósseis e do uso de plásticos, mudando também hábitos alimentares, como o excesso de consumo de carne ou peixe.
O Sínodo dos Bispos é definível, em termos gerais, como assembleia consultiva de representantes dos episcopados católicos, a que se juntam peritos e outros convidados, com a tarefa de ajudar o Papa no governo da Igreja. Esta assembleia especial foi anunciada pelo Papa a 15 de outubro de 2017, para refletir sobre o tema ‘Amazónia: Novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral’. E os Padres Sinodais fazem a seguinte declaração:  
Denunciamos a violação dos direitos humanos e a destruição extrativista. Assumimos e apoiamos as campanhas de desinvestimento em empresas extrativistas, ligadas aos danos socioecológicos na Amazónia, a começar pelas próprias instituições eclesiais e também em aliança com outras Igrejas. Apelamos a uma transição energética radical e à busca de alternativas.”.
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Porém, a atitude que o Sínodo exige é a conversão, conversão que tem diferentes significados: integral, pastoral, cultural, ecológica e sinodal. O texto é o resultado do “intercâmbio aberto, livre e respeitoso” desempenhado   durante as três semanas de trabalhos do Sínodo, para relatar os desafios e o potencial da Amazónia, o “coração biológico” do mundo, espalhado por 9 países e habitado por mais de 33 milhões pessoas, incluindo cerca de 2,5 milhões de indígenas. Porém, esta região, a segunda área mais vulnerável do mundo devido às mudanças climáticas provocadas pelo homem, está numa corrida frenética rumo à morte, o que exige urgentemente nova direção que permita que seja salva, sob pena de impacto catastrófico em todo o planeta.
***
Por fim, segue-se, em modo esquemático, a recolha dos conteúdos do documento, ou seja,os cinco capítulos, cada um com seu tema e subtemas:
Cap. I – Conversão integral: “As dores da Amazónia: o grito da terra e o grito dos pobres”; “O sacrifício dos missionários mártires”.
Cap. II – Conversão Pastoral: “Diálogo ecuménico e inter-religioso; “Urgência de uma pastoral indígena e de um ministério juvenil”; “Pastoral urbana e as famílias”.
Cap. III – Conversão Cultural: Defender a terra é defender a vida; “Teologia indígena e piedade popular”; “Criar uma Rede de Comunicação Eclesial Pan-amazónica”.
Cap. IV – Conversão Ecológica: “Ecologia integral, único caminho possível”; “Defesa dos direitos humanos, uma necessidade de fé”; “Igreja aliada das comunidades amazónicas”; “Defesa da vida”; “Pecado ecológico e direito à água potável”.     
Cap. V – Novos caminhos de conversão sinodal: “Sinodalidade, ministerialidade, papel ativo dos leigos e vida consagrada”;A hora da mulher”;Diaconado permanente”; “Formação dos sacerdotes”; Participação na Eucaristia e ordenações sacerdotais”; Organismo eclesial regional pós-sinodal e Universidade Amazónica”; “Rito amazónico”.         
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Falta passar à prática as propostas sinodais para termos uma Igreja de rosto local e a pulsar consciente e morosamente com a Igreja de Roma.
2019.10.25 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Propostas dos Círculos Menores do Sínodo da Amazónia


Durante a 13.ª Congregação Geral foram apresentados, na Sala do Sínodo, os relatórios dos Círculos Menores. Estavam presentes junto com o Papa 177 Padres Sinodais. As contribuições, entregues à Secretaria-Geral, não constituem um documento oficial, nem mesmo um texto de magistério, mas a síntese de uma discussão franca e livre entre os participantes da assembleia.
O Sínodo é um dom precioso do Espírito para a Amazónia e para toda a Igreja no aspeto teológico pastoral e pela inevitável tarefa do cuidado da Casa Comum. É um kairós (tempo de graça, ocasião propícia para a Igreja se reconciliar com a Amazónia). Este é ponto comum dos 12 relatórios dos círculos menores (4 em português, 2 em italiano, 5 em espanhol, um em francês e em inglês).
Os textos lidos publicamente exprimem a esperança de que se desenvolva um novo caminho sinodal na Amazónia e que desta assembleia resulte fervorosa paixão missionária de uma verdadeira Igreja em saída. O desejo é de que o “viver bem” amazónico se encontre com a experiência das bem-aventuranças, pois, à luz da Palavra de Deus, alcança a sua plena realização. As propostas concretas são muitas e variadas e provêm de vários círculos que fazem questão de esclarecer:
Este não é um Sínodo regional, mas universal, o que acontece na Amazónia refere-se a todo o mundo”.
As propostas foram apresentadas sob dimensões específicasdimensão pastoral/missionária, social, espiritual e ecológica. E, entre outras questões, tratam a possibilidade de ordenações de diaconisas e padres casados, os viri probatihomens casados, de fé comprovada, que se podem tornar padres (algo muito praticado no primeiro milénio, mas que depois foi sendo deixado de lado). Outros dos temas abordados foram: 
1) Formação dos leigos e dos missionários, o que pressupõe a formação “inculturada” de leigos indígenas, para que ali a Igreja “deixe de importar modelos” e assuma o seu próprio rosto;
2) Violência contra os povos, pessoas e natureza,  que postula o combate ao narcotráfico, violência institucionalizada, feminicídio, abuso e exploração sexual e o respeito plenos direitos dos povos originários – encarando as “ameaças constantes sobre os que defendem a verdade e a justiça sobre os direitos à terra”, dentro daquilo que chamam de “realidade de sangue”;
3) Culturas amazónicas e evangelização, o que requerdiálogo inter-religioso e ecuménico, o diálogo interinstitucional entre Igreja e Poder Público, a Ecologia Integral, a opção preferencial pelos pobres, a justa memória dos mártires amazónicos, a criação de comunidades eclesiais de base e uma pastoral urbana para acolhimento de imigrantes e refugiados;
4) Piedade popular: prevê o desenvolvimento de um rito amazónico com património teológico, disciplinar e espiritual que expresse a universalidade e catolicidade da Igreja na Amazónia;
5) Vida Consagrada na Amazónia, ligada à urgente necessidade de ministérios ordenados, como uma oportunidade de a Igreja se reconciliar com a Amazónia, diante da dívida acumulada durante longos anos de colonização;
6) Juventude e Ministérios: na corresponsabilidade e participação do povo e uma educação inculturada com elementos dos povos, favorecendo o protagonismo da região pela criação de escolas e universidade indígenas com linguística própria até para traduzir a Bíblia e o catecismo.
Por fim, os relatórios pedem uma ampla divulgação das conclusões do Sínodo
Fomentem a espiritualidade do encontro entre todos os rostos da Amazónia. Divulguem o que acontece na Amazónia, principalmente o que diz respeito ao que no projeto destrói a biodiversidade. Anunciem os valores dos povos originários que contribuem com a civilização do amor. Abram espaços para os indígenas. Em tempos fakenews, dar a conhecer ao mundo a verdade da Amazónia.”.
E os documentos ainda deixam um recado direto ao Santo Padre, em “portunhol”:
Querido Papa Francisco, os Rios da Amazónia transbordam, “tienen sus desbordes” e levam vida à floresta e aos povos da floresta. Rezamos para que este Sínodo, este Rio Sinodal transborde, “tenga sus desbordes” em novos caminhos para a evangelização e por uma ecologia integral. Que o Espírito nos guie, nos ajude, nos dê coragem, parresia e paz. Muito obrigado[s].”.
Propostas por círculo
Para o círculo italiano A (relator Padre Darío Bossi e moderador Dom Flavio Giovenale), é possível ordenar homens casados ​​na Amazónia devendo a discussão universal do tema ficar para um evento eclesial futuro.
O círculo italiano B (relator Dom Filippo Santoro e moderador Cardeal Luis Ladaria Ferrer, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé) propõe a criação de um “Rito amazónico” que permita “desenvolver sob o aspeto espiritual, teológico, litúrgico e disciplinar a riqueza única da Igreja Católica na Amazónia”. Abre-se discretamente à ordenação homens casados ​​e de diaconisas, embora não o mencione diretamente.
O círculo português A (relator Dom Neri J. Tondello e moderador Dom Jesús Cizaurre Berdonces) propõe abertamente o sacerdócio de homens casados ​​e a ordenação de diaconisas, precisando:
Além dos ministérios do leitor, acólito, diácono permanente, ministério da palavra, ministério do Batismo, entre outros, pedimos ao Santo Padre que admita para a região Pan-amazónica homens no ministério presbiteral e mulheres no diaconado, de preferência indígenas, respeitados (as) e reconhecidos (as) por sua comunidade, que já possuem uma família estável e estabelecida, a fim de garantir os sacramentos que acompanham e sustentam a vida cristã da comunidade”.
O círculo português B (relator Dom Evaristo P. Spengler e moderador Dom Pedro Brito Guimarães) também propõe abertamente a ordenação de homens casados ​​e diaconisas. E indicou:
A ordenação dos viri probati foi considerada como necessária para Pan-Amazónia. Os homens casados ​​candidatos à ordenação, após um diaconado frutífero, devem responder aos seguintes critérios, entre outros: vida de oração e amor à Palavra de Deus e à Igreja, vida eucarística que se reflete em uma vida de doação e serviço, vivência comunitária, espírito missionário. (…) Na implementação da ordenação dos viri probati, apresentamos dois caminhos para a região Pan-amazónica: 1) Delegar a implementação deste ministério às conferências episcopais presentes na Pan-Amazónia. 2) Confiar aos bispos a realização dessa experiência.”.
E apresentou a seguinte justificação:
Dada a presença decisiva das mulheres na história da salvação, como Maria na missão da Igreja, das santas, doutoras e conselheiras dos Papas, dado que a presença das mulheres é decisiva na vida e na missão da Igreja na Amazónia e que o Concílio Vaticano II restaurou o diaconado permanente para os homens – porque é bom e útil para a Igreja –, julgamos que o mesmo argumento é válido para criar o diaconado para as mulheres na Igreja na Amazónia”.
O círculo português C (relator Dom Vilson Basso e moderador Dom José B. da Silva) também solicita a ordenação de homens casados, precisando: 
Na dimensão pastoral missionária, destacamos a necessidade de conversão pessoal e pastoral, de recuperar a centralidade da Palavra e da Eucaristia, de aprofundar no tema da ministerialidade e as várias possibilidades em relação ao diaconado, viri probati, mulheres, sacerdotes casados, do protagonismo dos leigos, destacando as mulheres”.
O círculo português D (relator Dom Wilmar Santin e moderador Dom Alberto Taveira Correa) reafirma o valor do celibato e considera que o tema dos viri probati e diaconisas deve ser aprofundado:
Reafirmamos o valor do celibato e a necessidade de um maior compromisso na pastoral vocacional. Consideramos essencial a valorização dos ministérios existentes e as instituições de novos ministérios conforme as necessidades. (…) A escuta realizada previamente no Sínodo expressou o desejo de conferir a ordenação presbiteral aos viri probati, assim como o ministério do diaconado para as mulheres. Esses dois pontos pedem um posterior amadurecimento e aprofundamento.”.
O círculo espanhol A (relator Dom José Luis Azuaje Ayala e moderador o Arcebispo Primaz do México, Cardeal Carlos Aguiar Retes) não se pronuncia sobre os viri probati ou diaconisas, mas vinca:
É necessário que na Igreja Sinodal a mulher assuma responsabilidades pastorais e de direção, deve haver um reconhecimento da mulher na Igreja através da ministerialidade; portanto, propõe-se a realização de um Sínodo dedicado à identidade e serviço da mulher na Igreja, onde as mulheres tenham voz e voto”.
Por sua vez, o círculo espanhol B (relator Dom Francisco J. Múnera Correa e moderador Dom Edmundo Valenzuela) exprimiu o seu apoio à ordenação dos viri probati, declarando: 
A proposta visa pedir ao Santo Padre a possibilidade de conferir o presbiterado a homens casados ​​para a Amazónia, de forma excecional, em circunstâncias específicas e para alguns povos determinados, estabelecendo claramente as razões que o justificam. Não se trataria, de nenhuma forma, de presbíteros de 2.ª categoria. É preciso levar em consideração que são muitas as vozes que insistem para que este tema seja decidido para a Amazónia na atual Assembleia Sinodal. Outras vozes, pelo contrário, pensam que deveria ser estudado e definido em uma Assembleia Sinodal específica.”.
E, sobre a possibilidade do diaconado para as mulheres na Igreja, indicou:
Acolhendo e em sintonia com várias opiniões expressas na Sala Sinodal, este círculo incentiva um estudo mais aprofundado sobre esse assunto, olhando mais para as possibilidades futuras do que para a história passada”.
O círculo espanhol C (relator o Padre Roberto Jaramillo e moderador Dom Jonny E. Reyes Sequera) também falou a favor da ordenação de viri probati e de diaconisas, referindo:
Dada a tradição da Igreja, é possível reconhecer o acesso das mulheres aos ministérios instituídos do leitorado e do acolitado, assim como ao diaconado permanente. (…) Verificamos também que muitas das comunidades eclesiais do território Amazónico têm enormes dificuldades de acesso à Eucaristia. No entanto, o Espírito Santo continua agindo nessas comunidades e distribuindo dons e carismas, de tal maneira que também haja homens casados ​​de boa reputação, responsáveis, exemplo de virtudes cidadãs e bons líderes comunitários, que sentem a chamada para servir o povo de Deus como instrumentos da santificação do povo de Deus. Será importante discernir, por meio de consultas com o povo de Deus e do discernimento do ordinário do lugar, a conveniência de essas pessoas se prepararem adequadamente e serem posteriormente escolhidas para o serviço presbiteral.”.
O círculo espanhol D (relator Padre Alfredo Ferro Medina e moderador Dom Omar de Jesús Mejía Giraldo) manifestou-se a favor da ordenação dos viri probati, assinalando:
E, nesse sentido, afirmando que o celibato é um dom para a Igreja, solicita-se que das comunidades se promova a ordenação presbiteral de pessoas virtuosas, apresentadas por suas próprias comunidades e respeitadas pela mesma”.
E o círculo espanhol E (relator Dom José J. Travieso Martín e moderador o Cardeal Óscar Andrés Rodríguez Maradiaga) não propõe a ordenação de homens casados ​​e manifesta-se contra a ordenação de diaconisas, mas é a favor de alguma alternativa ministerial para as mulheres.
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Uma Igreja viva e missionária ao lado dos pobres e contra toda a forma de violência
É imperativo a Igreja escutar o grito dos povos e da terra, estar ao lado dos pobres e afirmar “chega de violência”. Na Amazónia a violência assume várias faces: violência em cárceres lotados, abuso e exploração sexual; violação dos direitos das populações indígenas; assassinato de defensores dos territórios; tráfico de droga e narco-business; extermínio da população jovem; tráfico de seres humanos, feminicídios e cultura machista; genocídio, biopirataria, etnocídio – males a combater porque matam a cultura e o espírito. É clara a condenação da violação extrativista e do desmatamento, bem como do abuso dos mais frágeis e do abuso da natureza. E, entre as emergências evidenciadas, foi dado muito espaço ao tema da crise climática. São os nativos quem paga o maior preço. Pagam com as suas vidas, porque não são apoiados nem protegidos nos seus territórios. Assim, vários círculos solicitaram a instituição de um Observatório Internacional dos Direitos Humanos, na certeza de que a defesa dos povos e da natureza é prerrogativa da ação pastoral e eclesial. Além disso, sugerem que as paróquias criem espaços seguros para as crianças, adolescentes e pessoas vulneráveis. Reiteram o direito à vida de todos desde a conceção até à morte natural.
A Igreja, segundo um dos relatórios, tem a tarefa de acompanhar a obra dos defensores dos direitos humanos muitas vezes criminalizados pelos poderes públicos. Porém, não pode agir como uma ONG. Este risco, acompanhado com o de se apresentar de forma exclusivamente ritualista, provoca muitas vezes o abandono de muitos fiéis que buscam respostas à sua sede de espiritualidade nas seitas religiosas ou noutras confissões. Portanto, os círculos pedem que se dê maior energia ao diálogo ecuménico e inter-religioso com a proposta de dois centros de confronto, um na Amazónia e outro em Roma, entre os teólogos do RELEP (Rede de estudos pentecostais latino-americanos) e os teólogos católicos.
Invocando um ministério de presença, que rejeite o clericalismo, encoraja-se um maior protagonismo dos leigos. De quase todos os círculos chega o pedido de aprofundar o significado de “Igreja ministerial”, uma Igreja onde possa coexistir corresponsabilidade e compromisso dos leigos. Um círculo pede um modo equilibrado de ministérios a homens e mulheres, mas afastando o risco de clericalizar os leigos. E, em geral propõe-se uma cuidadosa reflexão sobre os ministérios do leitorado e do acolitado também a mulheres, religiosas ou leigas.
O tema da mulher está presente em vários relatórios com o pedido de reconhecer, em papéis de maior responsabilidade e liderança, o valor da presença feminina no serviço específico à Igreja na Amazónia. Pede-se a garantia do respeito dos direitos das mulheres e a superação de todos os estereótipos. Vários círculos pediram atenção à questão do diaconado para as mulheres na perspetiva do Vaticano II, considerando que muitas das suas funções já são desempenhadas pelas mulheres na região. E foi sugerido dedicar ao tema um aprofundamento noutra assembleia dos bispos, na qual talvez se possa reconhecer às mulheres o direito ao voto.
Foi sugerido um sínodo Universal específico sobre o tema dos viri probati. Sobre esta temática as perspetivas diversificam-se entre os grupos. Ao evidenciar-se que o valor do celibato, dom a ser oferecido às comunidades indígenas, não está em discussão, um círculo alerta para o risco de este valor ser enfraquecido ou de a introdução dos viri probati  vir a desestimular o impulso missionário da Igreja Universal ao serviço das comunidades mais distantes. A maior parte dos relatórios, almejando uma Igreja “de presença” mais do que “de visita”, exprime-se a favor da conferição do presbiterado a homens casados, de boa reputação, preferencialmente indígenas escolhidos pelas comunidades de proveniência, mas em condições específicas. Especifica que estes não podem ser considerados de 2.ª ou 3.ª categoria, mas verdadeiras vocações sacerdotais. Não deve esquecer-se o drama de muitas populações da Amazónia que recebem os sacramentos só uma ou duas vezes por ano e pede-se às comunidades locais que reforcem a consciência de que não só a Eucaristia, mas também a Palavra representa um alimento espiritual para os fiéis.
Considerando a dimensão do território pan-amazónico e a escassez de ministros foi cogitada a criação dum fundo regional para a sustentabilidade da evangelização. Além disso, um dos círculos exprime “perplexidade” em relação à “falta de reflexão sobre as causas que levaram à proposta de superar de algum modo o celibato sacerdotal como foi expresso pelo Concílio Vaticano II e pelo magistério sucessivo”. Também se espera uma formação permanente para o ministério com o objetivo de configurar o sacerdote a Cristo e se exorta o envio à Amazónia de missionários que exercem o ministério sacerdotal no norte do mundo. Ante da crise vocacional, os círculos relevam a diminuição substancial da presença de religiosos na Amazónia e esperam a renovação da vida religiosa que seja promovida com novo fervor, sob impulso da CLAR (Confederação latino-americana dos religiosos), de modo especial no atinente à vida contemplativa. E foi focalizada a formação dos leigos, que seja integral - e não só doutrinal, mas também querigmática - fundada na doutrina social da Igreja e que leve à experiência e ao encontro com o Ressuscitado. Propõe-se o fortalecimento da formação dos sacerdotes, que não deve ser só académica, mas também realizada nos territórios amazónicos com experiências concretas de Igreja em saída, ao lado dos que sofrem nos cárceres ou nos hospitais. Foi pedida a constituição de seminários indígenas onde se possa estudar e aprofundar a teologia local.
Os círculos pedem a consolidação duma teologia e duma pastoral de rosto indígena, pois diálogo intercultural e inculturação não são entendidos como opostos. A tarefa da Igreja não é decidir pelo povo amazónico ou assumir uma posição de conquista, mas acompanhar, caminhar junto numa perspetiva sinodal de diálogo e escuta. A este respeito, foi proposta a introdução de um “Rito amazónico” que ajude a desenvolver, sob o aspeto espiritual, teológico, litúrgico e disciplinar, a riqueza singular da Igreja católica na região. Um dos relatórios explica:
Devem ser valorizados os símbolos e gestos das culturas locais na liturgia da Igreja na Amazónia, conservando a unidade substancial do rito romano, visto que a Igreja não quer impor uma uniformidade rígida no que não afeta a fé”.
Foi instada a promoção do conhecimento da Bíblia, favorecendo a tradução nas línguas locais. Nessa ótica, foi proposta a criação do Conselho Eclesial da Igreja Pan-amazónica, estrutura eclesiástica ligada ao CELAM, REPAM e Conferências Episcopais dos países amazónicos. E um dos relatórios discorre:
A cosmovisão amazónica tem muito para ensinar ao mundo Ocidental dominado pela tecnologia, muitas vezes a serviço da ‘idolatria do dinheiro’. Os povos amazónicos consideram o seu território sagrado. Portanto, deve ser incentivada uma reflexão sobre o valor espiritual do bioma, da biodiversidade e do direito à terra. Por outro lado, o anúncio do Evangelho e a originalidade da vitória de Cristo sobre a morte, respeitando a cultura dos povos, devem ser considerados um elemento essencial para abraçar e entender a cosmovisão amazónica.”.
O missionário é chamado a despojar-se da mentalidade colonialista, superar os preconceitos étnicos e respeitar os costumes, ritos e crenças. Por isso, devem ser apreciadas, acompanhadas e promovidas as manifestações com que os povos expressam a fé. Foi sugerida a criação de um Observatório Sócio-pastoral Pan-amazónico em coordenação com o CELAM, as comissões de Justiça e Paz das dioceses, a CLAR e a REPAM. Devem ser reconhecidas luzes e sombras na história da Igreja na Amazónia. Deve-se distinguir entre Igreja “indigenista”, que considera os indígenas destinatários passivos da pastoral, e Igreja “indígena”, que os vê como protagonistas da própria experiência de fé, segundo o princípio “Salvar a Amazónia com a Amazónia”. Neste sentido, é importante valorizar o exemplo brilhante de muitos missionários e mártires que deram a vida na Amazónia por amor ao Evangelho. E um dos círculos propôs a incentivação dos processos de beatificação dos mártires da Amazónia.   
Nos textos lidos na sala sinodal não faltaram os povos isolados voluntariamente e foi pedido que sejam acompanhados pelo trabalho de equipas missionárias itinerantes. Foi dado espaço ao tema da migração, sobretudo juvenil. Hoje, 80% da população da Amazónia encontra-se nas cidades – fenómeno de consequências negativas como a perda da identidade cultural, a marginalização social, a desintegração ou instabilidade familiar. É cada vez mais urgente a evangelização dos centros urbanos e a adequação da pastoral às circunstâncias sem esquecer favelas, periferias e realidades rurais. É urgente a renovação da pastoral juvenil. No âmbito pedagógico, pede-se à Igreja a promoção da educação intercultural bilingue e o incentivo uma aliança de redes de universidades especializadas na ciência da Amazónia e na instrução superior intercultural para as populações indígenas.
A dimensão ecológica é central nos relatórios dos círculos, que reiteram que a Criação é obra-prima de Deus, que toda a Criação está interligada. Pede-se que não se esqueça que “uma conversão ecológica verdadeira começa na família e passa por uma conversão pessoal, de encontro com Jesus”. A partir daí, importa abordar questões práticas como as  temperaturas elevadas ou combate às emissões de CO2 (dióxido de carbono). Incentiva-se o estilo de vida sóbrio e a proteção de bens preciosos incomparáveis, como a água – direito humano fundamental – que, privatizada ou contaminada, pode prejudicar a vida de comunidades inteiras. Deve ser relevado o valor das plantas medicinais e o desenvolvimento de projetos sustentáveis, através de cursos que levem ao conhecimento de segredos e da sacralidade da natureza e propõe-se o desenvolvimento de projetos de reflorestação nas escolas de formação em técnicas agrícolas.
Nessa ótica, insere-se a proposta de inserir o tema da ecologia integral nas diretrizes das Conferências Episcopais e incluir na Teologia Moral o respeito pela Casa Comum e os pecados ecológicos, bem como rever os manuais e rituais do Sacramento da Penitência. A humanidade está, de facto, a caminhar em direção ao reconhecimento da natureza como sujeito de direito. É de considerar obsoleta “a visão antropocêntrica utilitarista”, pois “o homem não pode mais submeter os recursos naturais a uma exploração ilimitada que coloca em perigo a humanidade”. É necessário contemplar o imenso conjunto de formas de vida no planeta em relação umas com as outras, promovendo um modelo de economia solidária e instituindo um ministério para o cuidado da Casa comum, como proposto por um dos círculos.
Por fim, alguns relatórios deram espaço ao tema dos meios de comunicação. E referiram que as redes católicas de comunicação devem ser incentivadas a colocar a Amazónia no centro da sua atenção com o escopo de difundir boas notícias, denunciar todas as agressões contra a terra-mãe e anunciar a verdade. Foi proposto o uso das redes sociais na Web Rádio, na Web TV e na comunicação rádio para difundir as conclusões do Sínodo. Deseja-se que o “rio” do Sínodo, com a força do “rio amazónico”, transborde dos muitos dons e sugestões oferecidos nas reflexões dos padres sinodais, na Sala do Sínodo, e que dessa experiência de caminhar juntos possam jorrar novos caminhos para a evangelização e a ecologia integral.
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Concluindo
Do exposto, é de relevar, como essencial no Sínodo, o escopo da Evangelização da Amazónia de olhos e ouvidos quer nos textos bíblicos quer na realidade amazónica, de modo que a Igreja ali viva, aja e se expanda de forma incarnada e inculturalizada. Este escopo poderá muito bem ser secundado pelo proposto “Rito Amazónico” assumido de forma holística e sustentando em sólida formulação teológico-pastoral. Esta postura impõe que se abra decididamente o caminho para a ordenação presbiteral dos preditos viri pobati (o que a teologia não impede, impediu-o a tradição eclesiástica pela via da omissão confundindo sacerdócio e celibato) e a conferição do diaconado também a mulheres religiosas e leigas, mesmo que o debate da aplicação destas prerrogativas amazónicas a toda a restante malha da Igreja Latina fique para ulterior evento eclesial. Mas a Amazónia, dada a sua especificidade, não pode esperar mais. Chegou o tempo da ousadia!
2019.10.21 – Louro de Carvalho