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quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

A COP25 em Madrid: “é tempo de mudar”


Decorre em Madrid, de 2 a 13 de dezembro, a 25.ª Cimeira da ONU ou 25.ª Conferência das Partes (COP25) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, com a participação de milhares de especialistas e decisores políticos, de que se destacam 50 líderes mundiais, incluindo o Primeiro-Ministro português, António Costa.
Durante a COP25 estão presentes delegações de 196 países, bem como os mais altos representantes da UE (União Europeia) e várias instituições internacionais, o que pressupõe “a totalidade dos países do mundo”. Pedro Sánchez, chefe do governo espanhol, acompanhado pelo secretário-geral das Nações Unidas, o português António Guterres, presidiram, no dia 2, à sessão de abertura da cimeira, que tem como lema “É tempo de atuar”.
A realização desta cimeira estava prevista para o Chile, mas no final de outubro o Governo chileno cancelou o evento alegando não ter condições devido a um movimento de contestação interna e de agitação civil. E o Governo espanhol avançou com a proposta de organizar a grande conferência anual sobre Alterações Climáticas e conseguiu ter tudo pronto para a sua inauguração, em Madrid, apesar de a presidência da reunião continuar a pertencer ao Chile.
As contribuições dos países para o Fundo Verde Climático de assistência aos países em desenvolvimento e a criação dum mecanismo de compensação às nações que sofram danos por causa de fenómenos climáticos extremos são alguns dos compromissos a que praticamente todos os países do mundo aderiram, mas que demoram a ser cumpridos 4 anos após a assinatura do Acordo de Paris. É uma cimeira decisiva a que acontece a praticamente um mês da entrada em vigor do Acordo de Paris, marcada para 2020, ano em que os países signatários devem apresentar medidas concretas para limitar o aumento da temperatura global e estabelecer novas metas para conter as suas emissões carbónicas.
Uma das questões centrais e que exigirá grandes negociações é a criação de um mercado global de licenças de emissões carbónicas, que não existe e que atualmente é uma manta regional fragmentada de venda e troca de licenças para poluir. Do lado da ciência, o sentido de emergência é claro: os mais recentes relatórios do IPCC (Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas) apontam um cenário já irreversível de subida da temperatura global, subida dos níveis dos oceanos e uma cascata de efeitos combinados que significam catástrofes ambientais nas próximas décadas. Por isso, António Guterres, secretário-geral da ONU pede aos decisores que atuem em consonância com a ciência
Para cumprir o objetivo definido em Paris, em 2015, de limitar o aumento da temperatura global face aos níveis pré-industriais até 2100, será necessária uma redução anual de 7,6% das emissões de dióxido de carbono, segundo os últimos dados das Nações Unidas.
A par da COP25, organizações não governamentais e da sociedade civil promovem uma agenda paralela de atividades, nas quais pontua a presença da ativista sueca Greta Thunberg, o rosto de um movimento mundial protagonizado por muitos estudantes – em greves às aulas pelo clima – de contestação e exigência de respostas aos líderes mundiais. Convém referir, entre parêntesis, que as faltas às aulas por esta razão já são excessivas e que não devem os fãs de Thunberg, a consciência crítica dos poderes, idolatrá-la precisamente por aquilo que não deve ser, o abandono precoce da escolaridade. Recorde-se que a predita ativista sueca, de 16 anos, tem dado brado no mundo, pelos gestos e pelos discursos. E partiu, a 13 de novembro passado, do porto norte-americano Salt Ponds, no Estado de Virgínia, num catamarã, tendo chegado a Lisboa (embora com atraso considerável) e sido recebida no Parlamento português, a caminho de Madrid, no dia 3 deste mês.
João Pedro Matos Fernandes, Ministro do Ambiente e da Ação Climática, acompanhou o Primeiro-Ministro no início da COP25, mas só voltará a falar perante o plenário na segunda fase das declarações nacionais, que começa no dia 10.
No próximo dia 6, a discursar na COP25, estará Greta Thunberg, um “bom exemplo de um ativismo jovem, informado e capaz de mobilizar outros jovens”.
Ana Patrícia Fonseca, mais adiante referenciada, diz, a este respeito:
A sua passagem por Lisboa é circunstancial, mas é simbólica, mobilizadora e inspiradora para os tantos jovens que em Portugal se reveem nos apelos que faz. É uma feliz coincidência; os jovens receberam-na de forma tão calorosa, precisamente porque ela é um exemplo de uma jovem ativista, informada capaz de mobilizar e informar outros jovens.”.
E, sublinhando a importância de se formar uma sociedade civil, sustenta:
Toda a mobilização da sociedade civil traz pressão. É de preferir uma sociedade civil informada e mobilizada e que pressione a uma sociedade civil inoperante. Acredito muito no poder da sociedade civil capaz de informar e passar mensagens positivas e que apelam a uma ação forte e urgente.”.
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O Papa desafiou os participantes na COP25 a tomar medidas concretas para a implementação do Acordo de Paris, considerando que ainda se está “longe” desses objetivos. A mensagem papal, lida na capital espanhola pelo Secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin, vinca:
Infelizmente, após quatro anos, temos de admitir que esta consciência ainda é fraca, incapaz de responder de forma adequada ao forte sentido de urgência para uma ação rápida, exigida pelos dados científicos ao nosso dispor”.
E o Sumo Pontífice questiona se “temos de perguntar-nos seriamente se há vontade política para oferecer – com honestidade, responsabilidade e coragem – mais recursos humanos, financeiros e tecnológicos para mitigar os efeitos negativos da mudança climática”. Destacando a relevância do Acordo de Paris, assumido na COP21, com uma “consciência crescente” na comunidade internacional da necessidade de trabalhar em conjunto na defesa da natureza, exigindo que se passe das palavras a “ações concretas”, refere:
Atualmente, há um acordo cada vez maior sobre a necessidade de promover processos de transição e de transformação do nosso modelo de desenvolvimento, encorajando a solidariedade”.
E, alertando para a ligação entre alterações climáticas e pobreza, Francisco realça que vários estudos mostram que é “possível limitar o aquecimento global”, o que exige uma “forte vontade política” e uma redefinição do investimento público, dando prioridade às áreas que permitem manter um “planeta saudável para hoje e amanhã”.
A mensagem fala numa “mudança de civilização”, em favor do bem comum, face aos desafios das “emergências climáticas”, e observa:  
Tudo isto exige que reflitamos com consciência sobre o significado dos nossos modelos de consumo e de produção, bem como sobre o processo de educação e consciencialização, para os tornar consistentes com a dignidade humana”.
E, elogiando o compromisso das novas gerações, pede que os responsáveis políticos não passem aos jovens o “fardo” de resolver os problemas causados pela sua ação. A seguir, previne:
Há uma janela de oportunidade, mas não podemos deixar que se feche. Precisamos de aproveitar esta ocasião, através de ações responsáveis nos campos económico, tecnológico, social e educacional.”.
Na verdade, o Papa Francisco é uma das vozes que a nível mundial mais tem alertado a comunidade internacional para este problema e a sua encíclica ‘Laudato Si’ é um grande exemplo da sua voz nesta matéria.
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Também deveria merecer a nossa atenção, nesta matéria, Ana Patrícia Fonseca, representante da Plataforma Portuguesa das ONGD e responsável pelo departamento de educação para o desenvolvimento e Advocacia Social da ONGD Fundação Fé e Cooperação (FEC), que participa na COP25, conferência que tem a pretensão de pressionar países emissores a encontrar “balizas políticas e mecanismos” sustentáveis. Ana Patrícia, referindo que se vivem, em Madrid, dias de “grande expectativa” e de “apelo da urgência na ação”, explanou:
Ouve-se, nas conversas de corredor, que esta é uma COP preparatória do próximo ano, da COP 26, onde, aí sim, se vão pedir a todos os países que atualizem as suas contribuições determinadas a nível nacional. Mas a verdade é que esta COP é mais do que preparatória, porque é aqui que se vão definir as balizas políticas, regras, mecanismos e instrumentos.”.
A predita participante dá conta de que os 196 países chegam à COP “com todas as evidências científicas, com as soluções técnicas para resolver o problema e com caminhos dados pelos povos indígenas que nos mostram como viver com as alterações climáticas”. Por isso, afirma que “é agora o tempo de agir”. Com efeito, todos sabemos já “o que temos de fazer: a sociedade civil, os governos, as empresas todas sabem qual o seu papel, resta agora agir”, sublinha a ativista que, juntamente com Maria Marques, da FEC, representam a Plataforma Portuguesa das ONGD, na delegação portuguesa a participar na COP25. 
A grande a expectativa desta cimeira em torno dos países do G20 tem a ver com o facto de se esperar “um contributo mais ambicioso, sobretudo dos países que não estão a cumprir os compromissos que assumiram na redução do défice das emissões de carbono”. Na verdade, com a entrada em vigor do Acordo de Paris, marcada para 2020, que vai reger as medidas de redução de emissão de gases estufa para controlar o aquecimento global abaixo de 2.ºC, “espera-se que sejam sinalizadas as regras concretas da sua implementação”.
Ana Patrícia destaca também a necessidade de serem “reforçados e simplificados os mecanismos de financiamento do combate às alterações climáticas, nomeadamente, as regras relativas aos mercados de carbono”.
Por fim, emerge a expectativa de uma “revisão e operacionalização do mecanismo de Varsóvia que prevê o cálculo das perdas e danos para compensar as pessoas afetadas pelos desastres climáticos”.
A participante portuguesa explica que o “maior apelo” é o que está evidenciado no desafio do Papa Francisco deixado na mensagem que enviou aos participantes na COP25, questionando a vontade política para cumprir os acordos. Com efeito, a assinatura do Acordo de Paris implica a tomada de consciência da mudança climática e a identificação das melhores maneiras de implementar o Acordo mostraram uma crescente conscientização por parte dos vários atores da comunidade internacional sobre a importância e a necessidade de “trabalhar juntos na construção da Casa comum”. Porém, passados 4 anos – diz o Papa – “devemos admitir que essa consciência ainda é bastante fraca e incapaz de responder adequadamente a esse forte sentido de urgência com ações rápidas solicitadas pelos dados científicos à nossa disposição”, como os descritos nos recentes Relatórios Especiais do IPCC. Trata-se de estudos que mostram que “os atuais compromissos assumidos pelos Estados para mitigarem as mudanças climáticas e se adaptarem a elas estão longe dos realmente necessários para alcançar as metas estabelecidas no Acordo de Paris”. Demonstram bem “a que distância estão as palavras de ações concretas”!
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Falai menos, políticos, e trabalhai mais.

domingo, 1 de dezembro de 2019

Não importa como montar o presépio, mas, sim, que fale à nossa vida



É esta a grande asserção da visita papal de hoje, dia 1 de dezembro e 1.º domingo do Advento, à cidade de Greccio, a 100 quilómetros a norte de Roma, onde Francisco assinou, como prometera, a 27 de novembro, uma carta apostólica sobre o significado e valor do Presépio.
O título do predito documento é “Admirabile Signum”, “Admirável Sinal”. E com ele o Pontífice propõe-se “apoiar a tradição bonita das nossas famílias de prepararem o Presépio, nos dias que antecedem o Natal, e também o costume de o armarem nos lugares de trabalho, nas escolas, nos hospitais, nos estabelecimentos prisionais, nas praças…”.
O texto é dirigido a todo o povo de Deus, mas sobretudo ao núcleo familiar, como uma forma de valorizar a transmissão da fé entre avós, pais, filhos e netos.
O Papa Francisco diz que se trata de um “exercício de imaginação criativa” e faz votos de que esta prática “nunca desapareça” e de que, “onde porventura tenha caído em desuso, se possa redescobrir e revitalizar”.
Organizado em 10 pontos, o texto da Carta Apostólica “Admirabile Signum” recorda a origem do presépio com São Francisco de Assis, a sua obra de evangelização, as figuras e o simbolismo que o compõem.
O termo “presépio” provém do latim “praesepium”, que significa “manjedoura”, tendo passado, depois, a significar todo o cenário presepial. As Fontes Franciscanas narram de forma detalhada o que aconteceu na cidade de Greccio, que fica no Vale de Rieti, onde o “Poverello” de Assis se deteve, quando vinha de Roma onde recebera, do Papa Honório III, a aprovação da sua Regra, em 29 de novembro de 1223. E põe a Carta Apostólica a hipótese de aquelas grutas, após a viagem do “Poverello à Terra Santa, lhe terem feito “lembrar de modo particular a paisagem de Belém” e de, em Roma,” ele ter ficado encantado “com os mosaicos, na Basílica de Santa Maria Maior, que representam a natividade de Jesus e se encontram perto do lugar onde, segundo uma antiga tradição, se conservam precisamente as tábuas da manjedoura”.
Efetivamente, 15 dias antes do Natal daquele ano, Francisco de Assis chamou João, um homem daquela terra, e pediu-lhe ajuda para concretizar um desejo: “representar o Menino nascido em Belém, para de algum modo ver com os olhos do corpo os incómodos que Ele padeceu”.
E assim foi: no dia 25 de dezembro de 1223, chegaram a Greccio muitos frades e também homens e mulheres das casas da região, com flores e tochas para adornar e iluminar aquela noite santa num lugar designado. Francisco, ao chegar, encontrou a manjedoura com palha, o boi e o burro. “Assim nasce a nossa tradição: todos à volta da gruta e repletos de alegria, sem qualquer distância entre o acontecimento que se realiza e as pessoas que participam no mistério” – escreve o Papa, que assegura:
Com a simplicidade daquele sinal, São Francisco realizou uma grande obra de evangelização”.
Como é bom de ver, a origem do Presépio fica-se a dever a alguns poucos pormenores do nascimento de Jesus em Belém, referidos no Evangelho. O resto é mais fruto da imaginação e da lógica, bem como do ambiente que possa condizer com o significado presepial. O evangelista Lucas limita-se a dizer que, tendo-se completado os dias de Maria dar à luz, “teve o seu filho primogénito, que envolveu em panos e recostou numa manjedoura, por não haver lugar para eles na hospedaria” (Lc 2,7). Mas isto foi o sinal que o Anjo deu aos pastores para encontrarem o Messias Senhor que ele lhes anunciou e que seria de alegria para eles e para todo o povo.
Na verdade, ao entrar neste mundo, o Filho de Deus encontra lugar no sítio aonde os animais vão comer. A palha torna-se a primeira enxerga para Aquele que se há de revelar como ‘o pão vivo, o que desceu do Céu’ (Jo 6,51) – simbologia que Santo Agostinho, a par doutros Padres da Igreja, entrevira quando escreveu: “Deitado numa manjedoura, torna-se nosso alimento”. Assim, o Presépio inclui, de certo modo, vários mistérios da vida de Jesus, fazendo-os aparecer familiares à nossa vida diária.
Para o Papa Francisco, armar o Presépio em nossas casas ajuda a reviver a história que aconteceu em Belém. Imaginando as cenas, estimulam-se os afetos e sentimo-nos envolvidos na história da salvação. De facto, “o Presépio é um convite a ‘sentir’, a ‘tocar’ a pobreza que escolheu, para Si mesmo, o Filho de Deus na sua encarnação, tornando-se assim, implicitamente, um apelo para O seguirmos pelo caminho da humildade, da pobreza, do despojamento”.
E o Papa comenta o simbolismo presente nos vários elementos que compõem o presépio: a escuridão da noite, a paisagem e as personagens. As ruínas e os pobres ali representados recordam que eles são os privilegiados deste mistério. A mensagem do despojamento que surge do presépio é clara: “não podemos deixar-nos iludir pela riqueza e por tantas propostas efémeras de felicidade” – refere o Pontífice, que observa: “Jesus nasceu pobre, levou uma vida simples, para nos ensinar a identificar e a viver do essencial”.
Nascendo no presépio – escreve o Papa – Deus dá início à única verdadeira revolução: a revolução do amor e da ternura, através da “força meiga” de um menino. Na verdade, da manjedoura belemita, tornada humilde, mas eloquente, púlpito do Presépio, “Jesus proclama o apelo à partilha com os últimos como estrada para um mundo mais humano e fraterno, onde ninguém seja excluído e marginalizado”. Deste modo, o presépio torna-se para os fiéis um convite a se tornar discípulos de Cristo, a refletir sobre a responsabilidade de evangelizar e ser portador da Boa Nova com ações concretas de misericórdia.
Por outras palavras, Francisco diz-nos que não é importante como armar o presépio: “O que conta é que fale à nossa vida”. E conclui:
Queridos irmãos e irmãs, o Presépio faz parte do suave e exigente processo de transmissão da fé. (…) E educa para sentir que nisto está a felicidade. Na escola de São Francisco, abramos o coração a esta graça simples, deixemos que do encanto nasça uma prece humilde: o nosso ‘obrigado’ a Deus, que tudo quis partilhar connosco para nunca nos deixar sozinhos.”.
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Na homilia da Missa que celebrou, pela manhã, no Altar da Cátedra para a comunidade congolesa de Roma, em comemoração dos 25 de instituição desta capelania católica em Roma, Francisco salientou que o Senhor veio, que o Senhor vem e que o Senhor virá. No entanto, garantiu que hoje o verbo “vir” tem de ser conjugado, não apenas por Deus como sujeito, mas também por todos e por cada um de nós. Com efeito, São Mateus diz: “virá o Filho do Homem” (Mt 24,44). E Isaías profetiza:
Virão muitos povos e dirão: ‘Vinde, subamos ao monte do Senhor”.
Enquanto o mal na terra deriva do facto de cada um seguir o seu caminho sem os outros, o profeta oferece a visão maravilhosa em que todos vêm em conjunto ao monte do Senhor, onde está a casa de Deus, que é para todos. Ora, se, como o presépio mostra, Jesus vem, é imperativo que nos decidamos a ir ao seu encontro, esteja Ele no presépio, na cruz, no altar, à mesa, esteja Ele no rosto do pobre. Vem aí o Natal e o Natal cristão é principalmente dos pobres!
2019.12.01 – Louro de Carvalho  

sábado, 23 de novembro de 2019

Papa chega ao Japão como “missionário” que cumpre sonho antigo


Depois de, na Tailândia, ter desafiado os jovens católicos a prosseguir a magnífica história de evangelização, iniciada pelos missionários dominicanos portugueses Frei Jerónimo da Cruz e Frei Sebastião do Canto, ter pedido o combate ao turismo e exploração sexuais, ter instado com as diversas religiões a que se unam contra a exploração de seres humanos e haver exortado a que o anúncio do Evangelho deixe de lado qualquer “roupagem estrangeira”, Francisco chegou ao Japão hoje, dia 23, com mensagens em favor do desarmamento nuclear e de homenagem aos mártires da minoria católica.
Já na tradicional videomensagem enviada antes da visita, o Pontífice condenava o uso de armas nucleares, que considerou “imoral”.
A viagem inclui, este domingo, dia 24, passagens pelos locais atingidos por bombas atómicas durante a II Guerra Mundial, Nagasáqui e Hiroxima; e, no dia 25, em Tóquio, decorrerá um encontro com as vítimas do chamado “triplo desastre” de 2011 – terramoto, tsunami e acidente nuclear em Fucuxima.Ao invés do que tem sido em outras visitas apostólicas, o primeiro ato oficial não é o Encontro com as Autoridades e o Corpo Diplomático, que ocorrerá no dia 25 no edifício governamental “Kantei”, em Tóquio, mas o encontro com os Bispos católicos na Nunciatura Apostólica, às 18,50 horas do primeiro dia da visita.Saudou os Bispos e, nesta saudação, incluiu todas e cada uma das comunidades, fiéis leigos, catequistas, sacerdotes, religiosos, pessoas consagradas, seminaristas. E desejou estender o seu abraço e orações a todos os japoneses neste período marcado pela entronização do novo Imperador e o início da era Reiwa.
Revelou que, desde jovem, sentiu simpatia e estima por estas terras, sendo que, “passados muitos anos desde aquele impulso missionário, cuja realização se fez esperar”, considera que esta foi a oportunidade que o Senhor lhe deu de estar ali como peregrino missionário seguindo os passos de grandes testemunhas da fé. Frisou a passagem dos 470 anos da chegada de São Francisco Xavier ao Japão, que marcou o início da propagação do cristianismo naquela terra. Disse unir-se aos Bispos para dar graças ao Senhor por quantos, “ao longo dos séculos, se dedicaram a semear o Evangelho e a servir o povo japonês com grande unção e amor”, conferindo peculiar fisionomia à Igreja japonesa. Evocou os mártires São Paulo Miki e companheiros e o Beato Justo Takayama Ukon, considerando “esta oferta de si mesmos para manter viva a fé no meio da perseguição” uma ajuda ao crescimento, consolidação e frutificação da pequena comunidade cristã. E pediu um pensamento nos “cristãos escondidos” da região de Nagasáqui, “que mantiveram a fé durante várias gerações graças ao Batismo, à oração e à catequese” – autênticas Igrejas domésticas que resplandeciam nesta terra “como espelhos da Família de Nazaré”.
***
É de recordar que, após uma vaga de perseguições nos séculos XVI e XVII, o Cristianismo foi oficialmente banido do Japão e os que se mantiveram cristãos tiveram de praticar a sua fé em segredo durante mais de dois séculos. E Francisco disse aos Bispos:

O ADN das vossas comunidades está marcado por este testemunho, antídoto contra todo o desespero, que nos indica a estrada para onde encaminhar-se. Sois uma Igreja que se manteve viva pronunciando o Nome do Senhor e contemplando como Ele vos guiava no meio da perseguição.”.

E, considerando “a sementeira confiante, o testemunho dos mártires, a espera paciente dos frutos que o Senhor concede” e a modalidade apostólica com que souberam acompanhar a cultura japonesa, observou:
Plasmastes ao longo dos anos um rosto eclesial, geralmente muito apreciado pela sociedade japonesa, graças às vossas variadas contribuições para o bem comum. Este importante capítulo da história do país e da Igreja universal foi agora reconhecido com a designação das igrejas e cidades de Nagasáqui e Amacuça como lugares do Património Cultural Mundial; mas sobretudo como memória viva da alma das vossas comunidades, esperança fecunda de toda a evangelização.”.
Em torno do lema da viagem apostólica “Proteger toda a vida”, disse que este pode simbolizar o ministério episcopal. Com efeito, “o Bispo é uma pessoa que o Senhor chamou do meio do seu povo, para lho devolver como pastor capaz de proteger toda a vida”.
Reconhecendo na busca de inculturação e diálogo e na formação de modalidades independentes das europeias, espelhadas nos escritos, teatro, música e todo o género de meios, na sua maioria em língua japonesa, o amor que os primeiros missionários sentiam por estas terras, adiantou:
Proteger toda a vida significa (…) ter um olhar contemplativo capaz de amar a vida de todo o povo que vos está confiado, para reconhecerdes nele, antes de mais nada, um dom do Senhor. Porque só o que se ama pode ser salvo. Só o que se abraça pode ser transformado. É o princípio da encarnação, capaz de nos ajudar (…) a olhar cada vida como um dom gratuito. Proteger todas as vidas e anunciar o Evangelho não são duas coisas separadas nem contrapostas, mas uma reclama e exige a outra. Ambas significam estar atentos e vigilantes relativamente a tudo aquilo que hoje possa impedir, nestas terras, o desenvolvimento integral das pessoas confiadas à luz do Evangelho de Jesus.”.


O Papa sabe que a Igreja no Japão é pequena e que os católicos são uma minoria, o que não desmerece o compromisso com a evangelização, sendo que a palavra mais forte a oferecer é a do “testemunho humilde, diário, aberto ao diálogo com as outras tradições religiosas”. E a hospitalidade e cuidado a prestar aos trabalhadores estrangeiros (são mais de metade dos católicos do Japão) servem como testemunho do Evangelho na sociedade japonesa e atestam a universalidade da Igreja, mostrando que “a nossa união com Cristo é mais forte do que qualquer outro vínculo ou identidade e é capaz de atingir e envolver todas as realidades”. De facto, “uma Igreja de mártires – diz o Santo Padre – pode falar com maior liberdade, especialmente quando aborda questões urgentes como a paz e a justiça no nosso mundo”.
Disse que a visita a Nagasáqui e Hiroxima, onde rezará pelas vítimas do bombardeamento atómico, dará voz aos apelos proféticos dos Bispos em prol do desarmamento nuclear e constituirá ensejo para encontrar os que sofrem ainda as feridas daquele trágico episódio da história humana – sofrimento que “é uma advertência eloquente para o nosso dever humano e cristão de ajudar a quantos sofrem no corpo e no espírito e de oferecer a todos a mensagem evangélica de esperança, cura e reconciliação”. E, este respeito, alertou e exortou:
O mal não faz aceção de pessoas nem pergunta pela sua filiação; simplesmente irrompe com a sua força destruidora, como aconteceu recentemente com o furação devastador que causou tantas vítimas e danos materiais. Encomendemos à misericórdia do Senhor os que morreram, os seus familiares e todos os que perderam a casa e bens materiais. Não tenhamos medo de realizar sempre, aqui e em todo o mundo, a missão de levantar a voz e defender toda a vida como dom precioso do Senhor.”.
Encorajando os esforços dos Bispos por garantir que a comunidade católica, no Japão, ofereça um testemunho claro do Evangelho no meio de toda a sociedade, frisou que o apostolado educacional da Igreja “constitui um grande recurso para a evangelização e demonstra o compromisso com as mais amplas correntes intelectuais e culturais”, pois “a qualidade da sua contribuição dependerá naturalmente da promoção da sua identidade e missão”.
Depois, apontou os flagelos que ameaçam a vida de algumas pessoas daquelas comunidades atingidas pela solidão, desespero e isolamento, o aumento do número de suicídios nas cidades, o bullying (ijime) e várias formas de consumo geradoras de novos tipos de alienação e desorientação espiritual – com especial incidência nos jovens. Por isso, convidou os Bispos à atenção especial às necessidades as pessoas, criando “espaços onde a cultura da eficiência, do rendimento e do sucesso possa abrir-se à cultura dum amor gratuito e altruísta, capaz de oferecer a todos” possibilidades duma vida feliz e realizada.
Francisco, sabendo da grandeza da messe e da grande escassez de operários, exortou “a buscar, desenvolver e fazer crescer uma missão capaz de envolver as famílias e promover uma formação capaz de atingir as pessoas onde quer que estejam, tendo sempre em conta a realidade, situando-se “o ponto de partida para todo o apostolado” onde as pessoas se encontram com os seus hábitos e ocupações, Aí devemos alcançar a alma das cidades, dos lugares de trabalho, das universidades, acompanhando os fiéis com o Evangelho da compaixão e da misericórdia.
Por fim, garantiu que “Pedro quer confirmar-vos na fé, mas Pedro vem também para tocar e deixar-se renovar nos passos de tantos mártires testemunhas da fé”. É um dar e receber. E o Bispo de Roma pede oração para que o Senhor lhe dê a graça de receber a força do testemunho dos mártires, bem como o de todos aqueles obreiros da evangelização, culto e caridade, e de confirmar os irmãos na fé.

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Queira Deus que a viagem papal por Tailândia e Japão produza os desejados frutos naquelas paragens e constitua um estímulo forte para o rejuvenescimento da Igreja e da Sociedade na Europa cansada, velha e alheada dos valores do são humanismo.
2019.11.23 – Louro de Carvalho

sábado, 16 de novembro de 2019

Tesouros da Igreja da Igreja e mestres em humanidade


Celebra-se no dia 17 de novembro, 33.º domingo do Tempo Comum, o III Dia Mundial dos Pobres, que o Papa dedicou ao tema “A esperança dos pobres jamais se frustrará”.
Recorde-se que o Dia Mundial dos Pobres, que Francisco instituiu, é fruto do Jubileu Extraordinário da Misericórdia e se realiza no domingo anterior ao da Solenidade de Cristo Rei.
O Sumo Pontífice, na sua mensagem para este dia, mostra-nos, a partir da Oração do Salmo 9, a via do nosso compromisso como sinal concreto na realização da Esperança Cristã. E os instrumentos da Esperança são postos principalmente na consolação que exprime a proximidade de toda a pessoa a quem se encontra em situação de pobreza. Com efeito, o Salmo 9 é um ato pessoal de agradecimento dirigido a Deus, protetor dos pobres e humildes, apresentado como protetor do salmista pobre e oprimido, a quem a justiça de Deus dá coragem para enfrentar o mundo de pagãos, iníquos, ímpios, inimigos, opressores… E, no Salmo 10 (também um ato pessoal de ação de graças: os Salmos 9 e 10 devem ter constituído inicialmente um só), a proteção do Senhor estende-se aos indefesos, infelizes, inocentes, miseráveis, vítimas de toda a espécie de prepotências.
A mensagem papal, difundida a 13 de junho, desenrola-se em duas vertentes principais: a evocação das novas formas de pobreza que patentes diariamente aos nossos olhos; e a ação concreta dos que podem oferecer esperança através do seu testemunho. Ora,  porque o pobre não será esquecido eternamente, nem para sempre se há de perder a esperança dos infelizes, o salmista pede ao Senhor que julgue as nações na sua divina presença, faça com que os homens O temam e lhes faça saber que são simples mortais (cf Sl 9,20-21). E o Santo Padre faz o paralelo entre a sorte do pobre no tempo do salmista e a atual e, notando que pouco mudou, diz:
Passam os séculos, mas permanece imutável a condição de ricos e pobres, como se a experiência da história não ensinasse nada. Assim, as palavras do salmo não dizem respeito ao passado, mas ao nosso presente submetido ao juízo de Deus.”.
Menciona as “muitas formas de novas escravidões”, como: famílias obrigadas a deixar a sua terra; órfãos que perderam os pais; jovens em busca de realização profissional; vítimas de tantas formas de violência, da prostituição à droga; milhões de migrantes instrumentalizados para uso político. E fala das periferias das cidades, repletas de pessoas que vagueiam pelas ruas em busca de alimento, tornadas elas próprias parte duma lixeira humana e sendo tratadas como lixo, “sem que isto provoque qualquer sentido de culpa em quantos são cúmplices”, se não autores deste escândalo. Não obstante a descrição de injustiça e sofrimento no salmo, há uma definição do pobre: é quem “confia no Senhor” (cf 9, 11), pois tem a certeza de que nunca será abandonado.
Por isso, segundo o Sumo Pontífice, “o grito dos pobres torna-se mais forte a cada dia”, mas “a cada dia é menos ouvido, porque abafado pelo barulho de poucos ricos, que são sempre menos e sempre mais ricos”. Porém, como “na Escritura, o pobre é o homem da confiança”, como escreve o Papa, “é precisamente esta confiança no Senhor, esta certeza de não ser abandonado, que convida o pobre à esperança”, pois “sabe que Deus não o pode abandonar”.
Por ocasião deste Dia Mundial, Francisco não pede só iniciativas de assistência, mas faz votos de que aumente em cada um a atenção plena que é devida a toda a pessoa que se encontra em dificuldade. E, enaltecendo o trabalho de inúmeros voluntários pelo mundo, recorda que os pobres não precisam somente duma “sopa quente ou duma sanduíche”. Precisam das nossas mãos para se reerguerem, dos nossos corações para sentirem de novo o calor do afeto, da nossa presença para superar a solidão. “Precisam simplesmente de amor...”.
Agora, numa mensagem enviada, a 15 de novembro, aos peregrinos da associação “Fratello” reunidos no Santuário de Lourdes (França), por ocasião do III Dia Mundial dos Pobres, Francisco diz que precisa deles, de cada um deles, garantindo:
Vós que estais aos pés da cruz, talvez sozinhos, isolados, abandonados, sem abrigo, forçados a abandonar a vossa família ou o vosso país, vítimas do álcool, da prostituição, da doença, ficai cientes de que Deus vos ama. Deus escuta em particular a vossa oração. O mundo sofre e a vossa oração comove o Senhor.”.
Numa ação concreta, nesta semana de preparação para o Dia Mundial do Pobre, como já ocorreu no ano passado, voltou à Praça São Pedro o Posto de Saúde para atender os pobres e necessitados. Foram disponibilizadas consultas médicas com especialistas, cuidados especiais, análises clínicas e outros exames específicos – tudo gratuito e oferecido a pessoas que têm normalmente dificuldade de acesso a este tipo de serviço. O Posto fica aberto domingo, dia 17, quando o Papa celebra a Santa Missa na Basílica vaticana.
Na homilia da Missa do ano passado, Francisco lembrou que “o grito dos pobres se torna mais forte a cada dia e a cada dia é menos ouvido, porque abafado pelo barulho de poucos ricos que são sempre menos e sempre mais ricos”. Desta vez, na sua mensagem aos peregrinos reunidos em Lourdes, disse que são “pequenos, pobres, frágeis”, mas “são o tesouro da Igreja”: estão no coração do Papa, no coração de Maria, no coração de Deus. E porfiou:
O amor salva o mundo e Deus quer passar através de nós para salvar o mundo. Dizei ao mundo qual é o vosso tesouro, ‘Jesus’. O Papa ama-vos e confia em vós.”.
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O mau tempo de Roma, na tarde do dia 15, não impediu Francisco de se deslocar à Praça de São Pedro. Chegou de surpresa ao Posto de Saúde instalado no local desde o início da semana, que atende gratuitamente os pobres e mais necessitados. Quem estava em exames naquele momento sentiu-se privilegiado por encontrar o Papa que, em seguida, inaugurou um novo Centro de Acolhimento diurno e noturno para moradores de rua.
Desde o início da semana, 8 ambulatórios atendem gratuitamente no local os pobres e mais necessitados, por ocasião do III Dia Mundial dos Pobres.
A visita-surpresa (no âmbito das Sextas-Feiras da Misericórdia do Papa Francisco) a este “hospital temporâneo” foi emocionante sobretudo para quem estava no local na hora em que o Pontífice chegou (pouco depois das 16 horas), acolhido com calorosos aplausos e querendo todos saudá-lo e abraça-lo. O Papa estava acompanhado de Dom Rino Fisichella, presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização, que apresentou ao Pontífice os médicos, enfermeiros e voluntários que trabalham nos 8 ambulatórios. Francisco ficou muito satisfeito com a estrutura montada para oferecer um verdadeiro serviço de emergência. Recebeu palavras de agradecimento da parte dos profissionais sanitários que realizam um trabalho voluntário, inclusive alguns que decidiram antecipar o gozo de dias de férias para poderem compartilhar a experiência em prol de tantos necessitados. Fez uma breve oração, saudou todos os presentes e concluiu a visita-surpresa no meio de muita gratidão e alegria dentro do Posto de Saúde.
Centenas de pobres estão efetivamente a usufruir todos os dias dos serviços especializados, disponíveis aos pobres até domingo, no seguimento da orientação da Associação Nacional dos Médicos Genéricos, com o auxílio das enfermeiras da Cruz Vermelha.
Depois de visitar o Posto de Saúde, o Papa inaugurou o Centro de Acolhimento para moradores de rua que vai atender tanto de dia como de noite no Palácio Migliori. O edifício do Vaticano de 4 andares, dotado dum elevador para facilitar o acesso de idosos e pessoas com algum tipo de deficiência, foi construído em 1800 e fica a poucos metros da Colunata da Praça de São Pedro. O local, confiado à Elemosineria Apostólica, tem capacidade para receber 50 pessoas e será administrado pela Comunidade de Santo Egídio, uma organização italiana não-governamental.
Francisco foi acolhido pelo cardeal Konrad Krajewski, esmoleiro do Papa, que o conduziu a uma breve visita ao local, inclusive à capela do Centro de Acolhimento dedicada a São Jorge. “A beleza cura” – exclamou Francisco ao contemplar os ambientes bem decorados. Depois, visitou os andares dedicados aos quartos e ao refeitório, onde aproveitou para fazer um lanche com algumas pessoas que vivem no local e também com voluntários – entre eles, alguns que moravam pela estrada e que agora encontraram um trabalho e uma renda estável e se empenham como voluntários na estrutura.
Durante o breve encontro com eles, o Papa falou da cultura do descarte e da necessidade de recuperar um sentido de responsabilidade pelos pobres. Escutou a história de vida dos voluntários, que há muitos anos levam o jantar a quem vive pela estrada, e as dificuldades enfrentadas para organizar os funerais deles. E lembrou que, quando era jovem, tinha o hábito de deixar um prato pronto durante as refeições, especialmente nos dias de festa, para quem precisasse. Dessa forma, o Pontífice mostrava a necessidade de “educar os jovens à compaixão”.
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O Papa insiste em chamar aos pobres o tesouro da Igreja e em dizer que conta com eles. Está na linha do diácono São Lourenço, que intimado por ordem do Imperador, devido à calúnia de que os cristãos eram um grupo social muito rico, a apresentar todos os tesouros da Igreja, apresentou uma caterva de pobres. Mas Francisco, além de professar a convicção numa Igreja que só o será se for predominantemente e preferencialmente dos pobres, quererá contar com a voz e o protagonismo dos pobres para imprimir a constante reforma da sociedade, obnubilando os esforços contra dos detratores. Dito de outro modo, o Pontífice não considera o encargo eclesial com os pobres uma despesa, um fardo, mas um investimento. E um investimento nos pobres tem sempre retorno. Quando não for outro, o retorno será a recuperação da dignidade humana refeita e reconhecida e a certeza da utilidade social da pessoa humana para a ação comunitária, bem como a disponibilidade para a cooperação nas grandes causas.  
E não posso deixar de fazer breve referência à crónica de Tolentino Mendonça na Revista do Expresso de hoje, em que chama aos pobres “mestres de humanidade”, em discreto alinhamento com o Papa. Fala sobretudo dos sem-abrigo, que entram na rua por diversas razões de desconstrução e que regressam só quando alguém lhes desperta a chama da confiança em si mesmos, pois “os pobres não são dados estatísticas nem abstrações”, mas “seres humanos que precisam de outros seres humanos”. Vinca a obrigação do Estado, como a nossa (pessoal) e a da comunidade, podemos aprender muito com os voluntários que tratam deles e que os pobres têm direito a ocupar o espaço público contra uma arquitetura hostil que quer desembaraçar-se deles. Censura que os cúmplices de situações de miséria ou quaisquer outros os tratem como ameaçadores, incapazes ou lixo. E diz que, “se abrirmos os olhos e o coração, os pobres tornam-se nossos mestres de humanidade”. E nada como um exemplo pessoal: olhando do seu apartamento para uma praça que lhe parecia “um lugar desarrumado, anódino, cheio de entraves”, demorou-se a falar com um romeno que dorme numa das arcadas. Ao perguntar-lhe o que achava da Praça, ouviu: “Esta praça é a minha família”. E o homem nomeou, um por um, os seus residentes. Num mundo cujos moradores não se conhecem nem se saúdam, boa lição!  
2019.11.16 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

“Igreja em saída” não é uma expressão de moda que o Papa inventou


É Francisco quem o assegura no livro-entrevista de Gianni Valente, publicado pela LEV (Livraria Editora Vaticana) e Edições São Paulo, que está nas livrarias desde 5 de novembro e que pretende assinalar a conclusão do mês missionário extraordinário. Aí o Pontífice aponta formulações essenciais do ser cristão, do ser e estar em Igreja, tais como:Sem Jesus não podemos fazer nada”; e “A Igreja ou é anúncio ou não é Igreja”.
Recorda-nos o autor a Exortação Apostólica Evangelii gaudium, que este Papa mandou publicar 8 meses depois o Conclave que o elegeu Sucessor de Pedro, e que se inicia com a afirmação de que “a alegria do Evangelho enche o coração e a vida daqueles que se encontram com Jesus”. Com efeito, este documento programático do pontificado incitava à ressintonização, por parte de todos, de cada ato, reflexão e iniciativa eclesial “sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual”. Passados quase 6 anos, Francisco anunciou o Mês Missionário Extraordinário e a Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos dedicada à Região Amazónica para sugerir novas rotas de anúncio do Evangelho no “pulmão verde”, martirizado pelo sofrimento predatório que violenta e fere os irmãos e também a nossa irmã terra.
Entretanto, o magistério papal vem disseminando insistentemente referências à natureza da missão da Igreja no mundo. Assim, vem repetindo que anunciar o Evangelho não é “proselitismo”, que a Igreja cresce “por atração” e por “testemunhos” – expressões que sugerem qual há de ser o dinamismo para cada obra apostólica e qual pode ser a sua fonte.
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Com base na antecipação de textos que a Agência Fides apresentou pode fazer-se ideia do conteúdo do livro-entrevista.
Uma curiosidade é que Bergoglio, quando era jovem, queria ser missionário no Japão, mas não sabe responder à pergunta provocatória se “é um missionário não completo”. Diz ter entrado para os jesuítas por o impressionar a vocação missionária deles e por “sempre procurarem novas fronteiras”. E, embora na época não pudesse ir ao Japão, sempre sentiu que “anunciar Jesus e o seu Evangelho quer dizer sair e colocar-se a caminho.
Quanto à possibilidade de a expressão Igreja em saída”, tantas vezes relançada, se tornar um slogan de que abusam os que passam o tempo a dar lições à Igreja sobre como deveria ser ou não ser, Francisco diz com humilde determinação, citando o Evangelho de Marcos:
Igreja em saída não é uma expressão de moda que eu inventei. É um mandamento de Jesus, que no Evangelho de Marcos (Mc 16,15) pede aos seus discípulos que vão pelo mundo inteiro e anunciem o Evangelho a ‘toda criatura’. A Igreja ou é em saída ou não é Igreja. Ou é em anúncio ou não é Igreja. Se a Igreja não sai corrompe-se, perde a sua natureza. Torna-se outra coisa.”.
E discorre chamando-lhe, no caso de não ser em saída e de não ser anúncio, uma associação espiritual, uma multinacional para lançar iniciativas e mensagens de conteúdo ético-religioso. E, embora não seja coisa má, contudo, não é a Igreja. E, ao mesmo tempo, adverte que é um risco de qualquer organização estática na Igreja, terminando por “domesticar Cristo”: 
Não se dá mais testemunho da ação de Cristo, mas fala-se de uma certa ideia de Cristo. Uma ideia possuída e adomesticada por você mesmo. Você organiza as coisas, torna-se um pequeno empresário da vida eclesial, onde tudo acontece segundo o programa pré-estabelecido, isto, é, seguindo apenas as instruções. Mas o encontro com Cristo não se repete mais. Não se repete o encontro que tinha tocado o seu coração no início.”.
Todavia, o Papa avisa que “a missão, a ‘Igreja em saída’, não são um programa, uma intenção para a ser realizada por boa vontade”. Ao invés, “é Cristo que faz a Igreja sair de si mesma”, pois, na missão de anunciar o Evangelho, movemo-nos porque o Espírito Santo nos impele e leva. E quando nós chegamos, damo-nos conta de que Ele chegou antes e está à nossa espera. Ele previne, também para preparar o nosso caminho, e já está em ação.
O autor entrevistador sublinha que o Pontífice sugeriu num encontro com as Pontifícias Obras Missionárias a leitura dos Atos dos Apóstolos e não a dum manual de estratégia missionária moderna. E a resposta não se fez esperar, surgindo com a frescura do Espírito:
O protagonista dos Atos dos Apóstolos não são os apóstolos. O protagonista é o Espírito Santo. Os Apóstolos são os primeiros que o reconhecem e o confirmam. Quando comunicam aos irmãos de Antioquia as indicações estabelecidas pelo Concílio de Jerusalém, escrevem: ‘Decidimos, o Espírito Santo e nós’. Eles reconheciam com realismo o facto de que era o Senhor que adicionava todos dias à comunidade ‘os que estavam salvos’, e não os esforços de persuasão dos homens.”.
No atinente à diferença entre aquela época e a nossa, Francisco aponta que “a experiência dos Apóstolos é como um paradigma que vale para sempre”. Assim, nos Atos dos Apóstolos, as coisas sucedem gratuitamente, sem artifícios, porque “os discípulos chegam sempre depois do Espírito Santo que age por primeiro”. É Ele que “prepara e trabalha os corações”. E, “quando chegam os problemas e as perseguições, o Espírito Santo trabalha ali também, de maneira ainda mais surpreendente, com o seu conforto, o seu consolo”. E o Papa desenvolve:
Inicia-se [após o martírio de Estêvão] um tempo de perseguição, e muitos discípulos fogem de Jerusalém, vão para a Judeia e Samaria. E ali, enquanto estão espalhados e fugitivos, começam a anunciar o Evangelho, mesmo se estão sozinhos e sem os Apóstolos, que ficaram em Jerusalém. São batizados, e o Espírito Santo lhes dá a coragem apostólica. Ali se vê pela primeira vez que o batismo é suficiente para se tornarem anunciadores do Evangelho. (…) Precisa apenas de se pedir que se faça novamente em nós a experiência para que possamos dizer: decidimos, o Espírito Santo e nós.”.
E, se não houver esta experiência, sem o Espírito, a missão torna-se “um projeto de conquista, pretensão de uma conquista feita por nós, uma conquista religiosa, ou talvez ideológica, talvez feita com boas intenções, mas é uma outra coisa”.
Instado a explicar o sentido da afirmação de que a Igreja cresce por atração, responde que são palavras de Jesus no Evangelho de João: “Quando eu for levantado da terra, atrairei todos a mim” (Jo 12,32); e “Ninguém vem a mim, se não for atraído pelo Pai que me mandou” (Jo 6,44). Assim, a Igreja sempre viu nesta a forma de todo o lema que aproxima a Jesus e ao Evangelho, não na convicção, raciocínio, tomada de consciência, pressão ou constrição. Já o profeta Jeremias rezava: “Tu me seduziste e eu me deixei seduzir” (Jr 20,7). Isto vale para os apóstolos e missionários. E o Santo Padre não deixa de insistir, observando:  
O mandato do Senhor de sair e anunciar o Evangelho vem de dentro, por paixão, por atração amorosa. Não se segue Jesus e muito menos se torna anunciador d’Ele e do seu Evangelho por uma decisão prática, uma militância autoinduzida. O próprio impulso missionário só pode ser fecundo se acontece dentro desta atração e que se transmite aos outros.”.
Por consequência, ao invés, quem pensa ser protagonista ou empresário da missão, com todos os bons propósitos e declarações de intenção muitas vezes termina por não atrair ninguém.
Com efeito, prossegue o Pontífice, a missão não é um projeto empresarial bem organizado, nem um espetáculo organizado com a contabilização dos participantes mercê da nossa propaganda. “O Espírito Santo age como quer, quando e onde quiser”. E o cume da liberdade repousa “neste deixar-se levar pelo Espírito, renunciado a calcular e controlar tudo”. Nisto “imitamos o próprio Cristo, que no mistério da sua Ressurreição aprendeu a repousar na ternura dos braços do Pai”. Assim, a fecundidade da missão não consiste nas nossas intenções, métodos, lançamentos e iniciativas, mas repousa “na vertigem que se adverte diante das palavras de Jesus, quando diz Sem mim nada podeis fazer” (Jo 15,5). Depois, a atração para Cristo e para o Evangelho faz-se testemunho em nós. Ora, a testemunha comprova o que a obra de Cristo e do seu Espírito realizaram na sua vida. Mais: após a Ressurreição, o próprio Cristo nos torna visível aos apóstolos. É ele a sua testemunha. E o testemunho não é um desempenho próprio, pois mostra as obras do Senhor.
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O autor entrevistador estranha que o Papa fale tanto em chave negativa: a Igreja não cresce por proselitismo e a missão da Igreja não é fazer proselitismo. E pergunta se “é para manter as boas relações com as outras Igrejas e o diálogo com as tradições religiosas”. Mas Francisco esclarece que o problema do proselitismo não é só contradizer o caminho ecuménico e o diálogo inter-religioso, mas ser uma tentação recorrente e explana:
Há proselitismo em todos os lugares, há a ideia de fazer com que a Igreja cresça deixando de lado a atração de Cristo e da obra do Espírito, apostando tudo nos chamados ‘discursos sábios’. (…) O proselitismo tira o próprio Cristo e o Espírito Santo da missão, mesmo quando quer agir em nome de Cristo, de maneira nominalista. O proselitismo é sempre violento pela sua natureza, mesmo quando é dissimulado ou feito ‘com luvas de pelica’. Não suporta a liberdade e a gratuitidade com que a fé se pode transmitir, pela graça, de pessoa a pessoa. Por isso o proselitismo não é apenas o do passado, dos tempos do antigo colonialismo, ou das conversões forçadas ou compradas com a promessa de vantagens materiais. Hoje também pode haver proselitismo, nas paróquias, nas comunidades, nos movimentos, nas congregações religiosas.”.
Ao invés, o anúncio do Evangelho consiste em entregar com palavras sóbrias e claras o próprio testemunho de Cristo como fizeram os apóstolos. O anúncio do Evangelho, que até pode ser sussurrado, passa sempre pela força arrebatadora do escândalo da cruz e segue o caminho indicado na 1.ª Carta de Pedro, que consiste em dar razão aos outros da própria esperança (cf 1Pe 3,15), “esperança que permanece escândalo e tolice aos olhos do mundo” (1Cor 1,23).
Nestes termos, é caraterístico do missionar cristão o ser facilitador e não controlador da fé. É preciso tornar fácil (e não lhe pôr obstáculos) o desejo de Jesus de abraçar, curar e salvar a todos, sem seleções e sem “triagens pastorais”, não fazendo parte dos que se põem à porta para controlar se os que se aproximam têm requisitos para entrar. E o Papa argentino conta:
Recordo os párocos e as comunidades que em Buenos Aires tinham colocado em campo várias iniciativas para facilitar o acesso ao Batismo. Deram-se conta de que, nos últimos anos, estava a aumentar o número dos que não eram batizados por vários motivos, mesmo sociológicos, e queriam recordar a todos que ser batizado é uma coisa simples, que todos podem pedir para si e para seus próprios filhos. O caminho que os párocos e aquelas comunidades tomaram era um só: não complicar, não pretender nada, eliminar todas as dificuldades de caráter cultural, psicológico ou prático que poderiam levar as pessoas a adiar ou perder a intenção de batizar os seus próprios filhos.”.
Relativamente à discussão dos missionários, na América, no início da evangelização, sobre quem seria “digno” de receber o Batismo, Francisco recorda que o Papa Paulo III recusou a teoria que sustentava serem os índios por natureza “incapazes” de acolher o Evangelho e confirmou a escolha dos que lhes facilitavam o Batismo. E comenta: 
Parecem coisas passadas, mas ainda hoje há círculos e setores que se apresentam como ‘ilustrados’, iluminados, e sequestram o anúncio do Evangelho nas suas lógicas distorcidas que dividem o mundo entre ‘civilização’ e ‘barbárie’. A ideia de que o Senhor tenha entre os seus preferidos muitas ‘cabecitas negras’ irrita-os, deixa-os de mau humor. Consideram boa parte da família humana como se fosse uma entidade de classe inferior, inadequada a alcançar, segundo os seus padrões, níveis decentes de vida espiritual e intelectual.”.
Ora, neste contexto antropossocial, pode-se desenvolver um desprezo pelos povos considerados de segundo nível. E este tema veio à tona por ocasião do Sínodo dos Bispos para a Amazónia.
Quanto à tendência hodierna de colocar em alternativa dialética o anúncio claro da fé e as obras sociais, não sendo alegadamente preciso fazer missão para sustentar as obras sociais, Francisco sublinha que “tudo o que está dentro do horizonte das Bem-Aventuranças e das obras de misericórdia está de acordo com a missão, já é anúncio, já é missão”. E reitera o que tantas vezes proclama aos quatro ventos:  
A Igreja não é uma ONG, a Igreja é uma outra coisa. Mas a Igreja é também um hospital de campo, onde se acolhe todos, assim como são, cuidando das feridas de todos. E isso faz parte da sua missão. Tudo depende do amor que move o coração dos que atuam. Se um missionário ajuda a escavar um poço em Moçambique, porque se deu conta de que é fundamental para os que ele batizou e aos quais prega o Evangelho, como se pode dizer que a obra é separada do anúncio?”.
E, sobre as novas atenções e sensibilidades a exercer nos processos destinados a tornar fecundo o anúncio do Evangelho, nos vários contextos sociais e culturais, frisa que “o cristianismo não dispõe de um único modelo cultural”. E citando São João Paulo II, vinca:
Permanecendo plenamente si mesmo, na total fidelidade ao anúncio evangélico e à tradição eclesial, o cristianismo carregará também o rosto das várias culturas e dos vários povos nos quais foi acolhido e enraizado”.
Com efeito, na conjugação da diversidade com a unidade, “o Espírito Santo embeleza a Igreja, com as expressões novas das pessoas e das comunidades que abraçam o Evangelho”, pelo que “a Igreja, assumindo os valores das várias culturas, torna-se sponsa ornata monilibus suis(“a esposa ornada de suas joias”), de que fala o profeta Isaías (cf Is 61,10). Ora, se algumas culturas foram construídas em estreito liame com a pregação do Evangelho e com o desenvolvimento de um pensamento cristão, também hoje “se torna ainda mais urgente considerar que a mensagem revelada não se identifica com nenhuma cultura”. Por outro lado, “no encontro com novas culturas ou com culturas que não acolheram a pregação cristã, não se deve tentar impor uma determinada forma cultural junto com a proposta evangélica”. E sugere o Papa que hoje, “na obra missionária convém mais do que nunca, não carregar bagagem pesada”.
Por fim, surge uma palavra reflexiva quanto à relação entre a missão e o martírio. E Francisco aponta que o martírio e a proclamação do Evangelho a todos têm a mesma origem: o amor de Deus derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo a doar força, coragem e consolação. E diz que “o martírio é a máxima expressão do reconhecimento e do testemunho feito a Cristo, que representam o cumprimento da missão, da obra apostólica”. Exemplifica com os coptas trucidados na Líbia a pronunciar em voz baixa o nome de Jesus ao serem degolados ou com as Irmãs de Santa Madre Teresa que, no Iémen, ao serem mortas enquanto cuidavam dos pacientes muçulmanos duma casa de idosos com deficiências, estavam com o avental de trabalho sobre o hábito religioso. E conclui que “são todos vencedores, não vítimas”, e que “o seu martírio, até ao derramamento de sangue, ilumina o martírio que todos podem sofrer na vida todos os dias, com o testemunho dado a Cristo todos os dias”, o que se pode ver na visita a asilos de idosos missionários, por vezes debilitados pela vida que levaram, a ponto de alguns perderem a memória, não recordando nada do bem que fizeram. Porém, como dizia um missionário, “disso o Senhor se recorda muito bem”.
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Um livro cuja leitura será útil para oportuna e pertinente reflexão sobre o ser da Igreja, entendido à luz da Palavra de Deus, e a forma genuína de encarar a missão e o testemunho, quer no martírio extremo, quer no martírio paulatino do quotidiano – na certeza de que o Espírito previne, guia e ajuda, embora peça a nossa devotada cooperação, no entusiasmo da Boa Nova, mas no respeito pela liberdade do outro, que merece, não o tempo da desistência ou do anátema, mas a bondade do diálogo, o tempo e a paciência da espera e a força da esperança.  
2019.11.06 – Louro de Carvalho

sábado, 26 de outubro de 2019

Aprovação do documento final do Sínodo para a Amazónia


Foi aprovado hoje, dia 26 de outubro, por maioria de dois terços, o documento final do Sínodo dos Bispos de 2019, na 16.ª Congregação Geral, que admite a ordenação sacerdotal de diáconos casados, com vista à celebração dominical da Eucaristia nas regiões mais remotas da Amazónia.
O ponto 111, aprovado com 41 votos contra (o número mais alto nos 120 pontos do documento) e 128 a favor, propõe a “ordenação sacerdotal de homens idóneos e reconhecidos pela comunidade”, com “família legitimamente constituída e estável”, que tenham diaconado permanente fecundo e recebam formação adequada para o presbiterado, de modo a poderem sustentar a vida da comunidade cristã pela pregação da Palavra e pela celebração dos Sacramentos nas ditas zonas.
O sacerdócio está reservado, na Igreja Latina (que abrange a maioria das comunidades católicas no mundo, como em Portugal), a homens não casados, mas alguns ritos, em comunhão com Roma, admitem a ordenação presbiteral de homens casados. A este respeito, alguns pronunciaram-se em favor duma abordagem universal do tema, pois há “um direito da comunidade à celebração, que deriva da essência da Eucaristia e do seu lugar na economia da salvação”. Assim, embora os participantes falem do celibato como um “dom” na Igreja Católica, sublinham que se trata de uma opção da “disciplina” da Igreja latina, que é diferente no contexto da “pluralidade dos ritos e disciplinas existentes”.
Por outro lado, o Sínodo manifesta preocupação com a formação dos futuros sacerdotes e quer que seja dada mais atenção à realidade da Amazónia, à história dos seus povos e da missionação católica na região, além das preocupações ecológicas e culturais.
Ademais, o documento apela à criação de estruturas “sinodais” nas regiões da Amazónia, propondo um “fundo amazónico” para sustento da evangelização, a criação de universidades próprias e um “organismo episcopal que promova a sinodalidade entre as Igrejas da região”. E ainda aponta a criação dum rito amazónico, recordando que a Igreja Católica tem 23 ritos diferentes, procurando “inculturar os conteúdos da fé e da sua celebração”.
Na Igreja Católica existem os ritos latinos (tendo por base o rito romano e admitindo as variantes dos ritos ambrosiano, hispânico e outros, como o bracarense) e ritos orientais (especialmente o bizantino). Ora, o proposto “rito amazónico” deve manifestar o património litúrgico, teológico, disciplinar e espiritual” dos povos da região, no contexto de uma “descentralização e colegialidade que pode manifestar a catolicidade da Igreja”.
O documento final, publicado pela Sala de Imprensa da Santa Sé, acompanhado pelo resultado da votação, e entregue ao Papa, alerta para a destruição “dramática” da floresta e a exploração levada a cabo por interesses económicos que ameaçam a região e refere:
Isto implica o desaparecimento do território e dos seus habitantes, especialmente os povos indígenas. A selva amazónica é um ‘coração biológico’ para uma terra cada vez mais ameaçada, que se encontra numa corrida desenfreada para a morte.”.
Os participantes – bispos, missionários, indígenas e peritos convidados pelo Vaticano – falam num “bioma ameaçado de desaparecimento”, facto que teria “consequências tremendas” para todo o planeta, e propõem uma “ecologia integral”, em diálogo com os saberes dos povos indígenas, que defenda “os mais pobres e desfavorecidos da terra”.
Uma introdução, cinco capítulos e uma breve conclusão constituem este documento divulgado na noite deste dia 26 de outubro, por desejo do Papa. Entre os seus temas, contam-se: a missão, a inculturação, a ecologia integral, a defesa dos povos indígenas, o rito amazónico, o papel das mulheres e os novos ministérios, sobretudo nas áreas de difícil acesso à Eucaristia, a definição do “pecado ecológico”, definido como uma “ação ou omissão contra Deus, contra o próximo, a comunidade e o ambiente”. Sobre este último tema, aponta o documento, remetendo para o Catecismo da Igreja Católica (nn 340-344):  
É um pecado contra as futuras gerações e manifesta-se em atos e hábitos de contaminação e destruição da harmonia do ambiente, transgressões contra os princípios de interdependência e rutura das redes de solidariedade entre as criaturas”.
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Em consonância com este documento e o desejo explicitado pelos Padres Sinodais, Francisco acaba de anunciar a intenção de reabrir a comissão que debateu a possibilidade de ordenação diaconal de mulheres. Falando no final dos trabalhos, disse o Pontífice, perante os bispos, missionários, religiosos e representantes de indígenas que participaram na assembleia sinodal:
Assumo o pedido de voltar a chamar a comissão ou talvez abri-la com novos membros, para estudar como existia, na Igreja primitiva, o diaconado feminino”.
Após a votação do documento, que aconteceu na tarde de hoje, o Papa disse que o Sínodo pediu “criatividade” para que seja possível encontrar “novos ministérios” para as comunidades católicas e indicou a vontade de trabalhar com a Congregação para a Doutrina da Fé, para “ver até onde se pode chegar”. Por outro lado, valorizado que foi o papel das lideranças femininas na “transmissão da fé e na preservação da cultura”, o Pontífice pediu que “não se fique apenas na parte funcional” e observou:
O papel da mulher da Igreja vai muito mais além da funcionalidade e é nisso que temos de continuar a trabalhar”.
E, na verdade, o número 103 do documento sublinha que “as múltiplas consultas realizadas no espaço amazónico” destacam o “papel fundamental das mulheres religiosas e leigas na Igreja da Amazónia”, com os seus múltiplos serviços. Mais se pode ler que “num grande número destas consultas, solicitou-se o diaconado permanente para a mulher”.
Ademais, apela-se à formação de mulheres em estudos teológicos e uma maior presença em papéis de liderança, dentro e fora da Igreja. Mais explicitamente é referido:
Nos novos contextos de evangelização e pastoral na Amazónia, onde a maioria das comunidades católicas são lideradas por mulheres, pedimos que seja criado o ministério instituído da ‘mulher dirigente da comunidade’ e reconhecer isto, dentro do serviço das exigências da mutação da evangelização e da atenção às comunidades”.
Os participantes pedem a oportunidade de partilhar “experiências e reflexões” com a Comissão de Estudo sobre o Diaconado das Mulheres.
A comissão para o estudo do diaconado feminino foi inconclusiva. A esse respeito, o Papa referira, em declarações aos jornalistas no voo de regresso desde a Macedónia do Norte:
Não há certeza de que a sua (das mulheres) fosse uma ordenação com a mesma forma e com o mesmo propósito que a ordenação masculina. Alguns dizem: há dúvidas. Vamos continuar a estudar. Mas até agora não se avança.”.
Segundo o Papa, não existem dúvidas de que havia diaconisas no começo do Cristianismo, mas a questão está em determinar se “era uma ordenação sacramental ou não”. Os estudos mostram que estas primeiras diaconisas assistiam na liturgia batismal de mulheres, que era por imersão, e eram chamadas para casos de disputa matrimonial para avaliar eventuais maus-tratos, uma situação limitada a uma área geográfica, especialmente a Síria.
Também há de considerar-se que a função diaconal masculina era diferente no princípio: o serviço das mesas, para os apóstolos poderem aplicar-se à oração e ao serviço da Palavra.
Recorde-se que o Concílio Vaticano II (1962-1965) restaurou o diaconado permanente, a que podem aceder homens casados (depois de terem completado 35 anos de idade), o que não acontece com o sacerdócio. O diaconado exercido por candidatos ao sacerdócio só é concedido a homens não casados (Prefiro a expressão não casados porque inclui os viúvos).
De origem grega, o termo ‘diácono’ pode traduzir-se por servidor e corresponde a alguém especialmente destinado na Igreja Católica às atividades caritativas, a anunciar a Palavra e a exercer funções litúrgicas, como assistir o Bispo e o Presbítero nas missas, administrar o Batismo, presidir ao matrimónio e às exéquias, entre outras funções.
Além do já referido, o discurso papal, depois da aprovação do documento apresentado ontem à 15.ª Congregação Sinodal, denunciou as violações aos direitos dos povos da região e visou as “injustiças, destruição, exploração de pessoas, a todos os níveis, e destruição da identidade cultural” que marcam a vida das comunidades indígenas.
Numa intervenção improvisada, em espanhol, perante todos os que participaram nas três semanas de trabalhos, o Pontífice prometeu uma exortação pós-sinodal até ao fim do ano, para deixar a sua própria palavra sobre a experiência que viveu. “Tudo depende do tempo que tenha para pensar”, gracejou, provocando um aplauso dos presentes.
Francisco disse que este Sínodo especial, iniciado a 6 de outubro, abordou quatro dimensões fundamentais, a começar pela inculturação e da valorização das culturas, “que está dentro da Tradição da Igreja”. A segunda foi a dimensão ecológica, em que se “joga o futuro” e que denuncia a “exploração selvagem” dos recursos naturais, como acontece na Amazónia. E, depois de falar da terceira – a dimensão social, com alertas para o “tráfico de pessoas”, declarou que a quarta dimensão, “a principal”, é a pastoral, mais ligada à ação das comunidades católicas na transmissão da fé. E apontou:
Urge o anúncio do Evangelho, mas que seja entendido, assimilado, compreendido por essas culturas”.
Francisco começou por agradecer a quantos “deram este testemunho de trabalho, de escuta, de busca”, procurando colocar em prática o “espírito sinodal”. “Estamos a entender o que significa discernir, escutar, incorporar a rica tradição da Igreja nos momentos conjunturais”, precisou.
O discurso deixou reparos a quem pensa que “a Tradição é um museu de coisas velhas” e indicou a necessidade de colocar a Igreja Católica a avançar “neste caminho da sinodalidade”.
Entre os temas debatidos, segundo Papa, está a necessidade de reformar a formação sacerdotal nalguns países de promover a “redistribuição do clero”. “Sejamos corajosos para fazer esta reforma”, exortou.
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Também merecerá atenção a reorganização do território eclesial amazónico, com ideias como a criação de “semiconferências episcopais” para várias zonas e, no Vaticano, a abertura de uma “secção amazónica” no Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral.
Os participantes pediram ao Papa que o percurso dos membros do corpo diplomático da Santa Sé inclua “um ano” ao serviço de uma diocese em território de missão
Em relação ao Rito Amazónico proposto, Francisco disse que irá solicitar à Congregação para o Culto Divino que faça “as propostas necessárias”, recordando as 23 igrejas com rito próprio, no mundo católico. E sustentou:
“Não é preciso ter medo das organizações que custodiam uma vida especial”.
O Papa agradeceu o trabalho dos média e desejou que estes pudessem ter acompanhado a votação, antes de deixar um pedido aos jornalistas:
 Parem, sobretudo, nos diagnósticos, que é a parte pesada, onde o Sínodo se expressou melhor”.
A este respeito, Francisco alertou para o que chamou de “cristãos de elite” ou “grupos seletivos” que se fixam em “pontos intraeclesiásticos” e procuram vencedores ou derrotados, nas votações.
Ganhamos todos com o diagnóstico que fizemos”, observou.
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Os participantes defendem a criação de “ministérios especiais” nas comunidades católicos para a defesa da “casa comum” e a promoção da ecologia integral, visando “o cuidado do território e da água”. Alertam outrossim para as consequências do “extrativismo predatório” e pede solidariedade internacional com a Amazónia, falando mesmo numa “dívida” de países desenvolvidos, que deveria ser paga através de um fundo de apoio às comunidades da região.
A Amazónia é hoje uma beleza ferida e deformada, um lugar de dor e violência. Os atentados contra a natureza têm consequências contra a vida dos povos” – consideram.
O documento final do Sínodo propõe um “novo paradigma de desenvolvimento sustentável”, que seja inclusivo, combinando “conhecimentos científicos e tradicionais”. E ali pode ler-se:
O futuro da Amazónia está nas mãos de todos nós, mas depende principalmente de abandonarmos imediatamente o modelo atual que destrói a floresta”.
Os participantes pedem uma menor dependência de combustíveis fósseis e do uso de plásticos, mudando também hábitos alimentares, como o excesso de consumo de carne ou peixe.
O Sínodo dos Bispos é definível, em termos gerais, como assembleia consultiva de representantes dos episcopados católicos, a que se juntam peritos e outros convidados, com a tarefa de ajudar o Papa no governo da Igreja. Esta assembleia especial foi anunciada pelo Papa a 15 de outubro de 2017, para refletir sobre o tema ‘Amazónia: Novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral’. E os Padres Sinodais fazem a seguinte declaração:  
Denunciamos a violação dos direitos humanos e a destruição extrativista. Assumimos e apoiamos as campanhas de desinvestimento em empresas extrativistas, ligadas aos danos socioecológicos na Amazónia, a começar pelas próprias instituições eclesiais e também em aliança com outras Igrejas. Apelamos a uma transição energética radical e à busca de alternativas.”.
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Porém, a atitude que o Sínodo exige é a conversão, conversão que tem diferentes significados: integral, pastoral, cultural, ecológica e sinodal. O texto é o resultado do “intercâmbio aberto, livre e respeitoso” desempenhado   durante as três semanas de trabalhos do Sínodo, para relatar os desafios e o potencial da Amazónia, o “coração biológico” do mundo, espalhado por 9 países e habitado por mais de 33 milhões pessoas, incluindo cerca de 2,5 milhões de indígenas. Porém, esta região, a segunda área mais vulnerável do mundo devido às mudanças climáticas provocadas pelo homem, está numa corrida frenética rumo à morte, o que exige urgentemente nova direção que permita que seja salva, sob pena de impacto catastrófico em todo o planeta.
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Por fim, segue-se, em modo esquemático, a recolha dos conteúdos do documento, ou seja,os cinco capítulos, cada um com seu tema e subtemas:
Cap. I – Conversão integral: “As dores da Amazónia: o grito da terra e o grito dos pobres”; “O sacrifício dos missionários mártires”.
Cap. II – Conversão Pastoral: “Diálogo ecuménico e inter-religioso; “Urgência de uma pastoral indígena e de um ministério juvenil”; “Pastoral urbana e as famílias”.
Cap. III – Conversão Cultural: Defender a terra é defender a vida; “Teologia indígena e piedade popular”; “Criar uma Rede de Comunicação Eclesial Pan-amazónica”.
Cap. IV – Conversão Ecológica: “Ecologia integral, único caminho possível”; “Defesa dos direitos humanos, uma necessidade de fé”; “Igreja aliada das comunidades amazónicas”; “Defesa da vida”; “Pecado ecológico e direito à água potável”.     
Cap. V – Novos caminhos de conversão sinodal: “Sinodalidade, ministerialidade, papel ativo dos leigos e vida consagrada”;A hora da mulher”;Diaconado permanente”; “Formação dos sacerdotes”; Participação na Eucaristia e ordenações sacerdotais”; Organismo eclesial regional pós-sinodal e Universidade Amazónica”; “Rito amazónico”.         
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Falta passar à prática as propostas sinodais para termos uma Igreja de rosto local e a pulsar consciente e morosamente com a Igreja de Roma.
2019.10.25 – Louro de Carvalho