Mostrar mensagens com a etiqueta Amazónia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Amazónia. Mostrar todas as mensagens

sábado, 26 de outubro de 2019

Aprovação do documento final do Sínodo para a Amazónia


Foi aprovado hoje, dia 26 de outubro, por maioria de dois terços, o documento final do Sínodo dos Bispos de 2019, na 16.ª Congregação Geral, que admite a ordenação sacerdotal de diáconos casados, com vista à celebração dominical da Eucaristia nas regiões mais remotas da Amazónia.
O ponto 111, aprovado com 41 votos contra (o número mais alto nos 120 pontos do documento) e 128 a favor, propõe a “ordenação sacerdotal de homens idóneos e reconhecidos pela comunidade”, com “família legitimamente constituída e estável”, que tenham diaconado permanente fecundo e recebam formação adequada para o presbiterado, de modo a poderem sustentar a vida da comunidade cristã pela pregação da Palavra e pela celebração dos Sacramentos nas ditas zonas.
O sacerdócio está reservado, na Igreja Latina (que abrange a maioria das comunidades católicas no mundo, como em Portugal), a homens não casados, mas alguns ritos, em comunhão com Roma, admitem a ordenação presbiteral de homens casados. A este respeito, alguns pronunciaram-se em favor duma abordagem universal do tema, pois há “um direito da comunidade à celebração, que deriva da essência da Eucaristia e do seu lugar na economia da salvação”. Assim, embora os participantes falem do celibato como um “dom” na Igreja Católica, sublinham que se trata de uma opção da “disciplina” da Igreja latina, que é diferente no contexto da “pluralidade dos ritos e disciplinas existentes”.
Por outro lado, o Sínodo manifesta preocupação com a formação dos futuros sacerdotes e quer que seja dada mais atenção à realidade da Amazónia, à história dos seus povos e da missionação católica na região, além das preocupações ecológicas e culturais.
Ademais, o documento apela à criação de estruturas “sinodais” nas regiões da Amazónia, propondo um “fundo amazónico” para sustento da evangelização, a criação de universidades próprias e um “organismo episcopal que promova a sinodalidade entre as Igrejas da região”. E ainda aponta a criação dum rito amazónico, recordando que a Igreja Católica tem 23 ritos diferentes, procurando “inculturar os conteúdos da fé e da sua celebração”.
Na Igreja Católica existem os ritos latinos (tendo por base o rito romano e admitindo as variantes dos ritos ambrosiano, hispânico e outros, como o bracarense) e ritos orientais (especialmente o bizantino). Ora, o proposto “rito amazónico” deve manifestar o património litúrgico, teológico, disciplinar e espiritual” dos povos da região, no contexto de uma “descentralização e colegialidade que pode manifestar a catolicidade da Igreja”.
O documento final, publicado pela Sala de Imprensa da Santa Sé, acompanhado pelo resultado da votação, e entregue ao Papa, alerta para a destruição “dramática” da floresta e a exploração levada a cabo por interesses económicos que ameaçam a região e refere:
Isto implica o desaparecimento do território e dos seus habitantes, especialmente os povos indígenas. A selva amazónica é um ‘coração biológico’ para uma terra cada vez mais ameaçada, que se encontra numa corrida desenfreada para a morte.”.
Os participantes – bispos, missionários, indígenas e peritos convidados pelo Vaticano – falam num “bioma ameaçado de desaparecimento”, facto que teria “consequências tremendas” para todo o planeta, e propõem uma “ecologia integral”, em diálogo com os saberes dos povos indígenas, que defenda “os mais pobres e desfavorecidos da terra”.
Uma introdução, cinco capítulos e uma breve conclusão constituem este documento divulgado na noite deste dia 26 de outubro, por desejo do Papa. Entre os seus temas, contam-se: a missão, a inculturação, a ecologia integral, a defesa dos povos indígenas, o rito amazónico, o papel das mulheres e os novos ministérios, sobretudo nas áreas de difícil acesso à Eucaristia, a definição do “pecado ecológico”, definido como uma “ação ou omissão contra Deus, contra o próximo, a comunidade e o ambiente”. Sobre este último tema, aponta o documento, remetendo para o Catecismo da Igreja Católica (nn 340-344):  
É um pecado contra as futuras gerações e manifesta-se em atos e hábitos de contaminação e destruição da harmonia do ambiente, transgressões contra os princípios de interdependência e rutura das redes de solidariedade entre as criaturas”.
***
Em consonância com este documento e o desejo explicitado pelos Padres Sinodais, Francisco acaba de anunciar a intenção de reabrir a comissão que debateu a possibilidade de ordenação diaconal de mulheres. Falando no final dos trabalhos, disse o Pontífice, perante os bispos, missionários, religiosos e representantes de indígenas que participaram na assembleia sinodal:
Assumo o pedido de voltar a chamar a comissão ou talvez abri-la com novos membros, para estudar como existia, na Igreja primitiva, o diaconado feminino”.
Após a votação do documento, que aconteceu na tarde de hoje, o Papa disse que o Sínodo pediu “criatividade” para que seja possível encontrar “novos ministérios” para as comunidades católicas e indicou a vontade de trabalhar com a Congregação para a Doutrina da Fé, para “ver até onde se pode chegar”. Por outro lado, valorizado que foi o papel das lideranças femininas na “transmissão da fé e na preservação da cultura”, o Pontífice pediu que “não se fique apenas na parte funcional” e observou:
O papel da mulher da Igreja vai muito mais além da funcionalidade e é nisso que temos de continuar a trabalhar”.
E, na verdade, o número 103 do documento sublinha que “as múltiplas consultas realizadas no espaço amazónico” destacam o “papel fundamental das mulheres religiosas e leigas na Igreja da Amazónia”, com os seus múltiplos serviços. Mais se pode ler que “num grande número destas consultas, solicitou-se o diaconado permanente para a mulher”.
Ademais, apela-se à formação de mulheres em estudos teológicos e uma maior presença em papéis de liderança, dentro e fora da Igreja. Mais explicitamente é referido:
Nos novos contextos de evangelização e pastoral na Amazónia, onde a maioria das comunidades católicas são lideradas por mulheres, pedimos que seja criado o ministério instituído da ‘mulher dirigente da comunidade’ e reconhecer isto, dentro do serviço das exigências da mutação da evangelização e da atenção às comunidades”.
Os participantes pedem a oportunidade de partilhar “experiências e reflexões” com a Comissão de Estudo sobre o Diaconado das Mulheres.
A comissão para o estudo do diaconado feminino foi inconclusiva. A esse respeito, o Papa referira, em declarações aos jornalistas no voo de regresso desde a Macedónia do Norte:
Não há certeza de que a sua (das mulheres) fosse uma ordenação com a mesma forma e com o mesmo propósito que a ordenação masculina. Alguns dizem: há dúvidas. Vamos continuar a estudar. Mas até agora não se avança.”.
Segundo o Papa, não existem dúvidas de que havia diaconisas no começo do Cristianismo, mas a questão está em determinar se “era uma ordenação sacramental ou não”. Os estudos mostram que estas primeiras diaconisas assistiam na liturgia batismal de mulheres, que era por imersão, e eram chamadas para casos de disputa matrimonial para avaliar eventuais maus-tratos, uma situação limitada a uma área geográfica, especialmente a Síria.
Também há de considerar-se que a função diaconal masculina era diferente no princípio: o serviço das mesas, para os apóstolos poderem aplicar-se à oração e ao serviço da Palavra.
Recorde-se que o Concílio Vaticano II (1962-1965) restaurou o diaconado permanente, a que podem aceder homens casados (depois de terem completado 35 anos de idade), o que não acontece com o sacerdócio. O diaconado exercido por candidatos ao sacerdócio só é concedido a homens não casados (Prefiro a expressão não casados porque inclui os viúvos).
De origem grega, o termo ‘diácono’ pode traduzir-se por servidor e corresponde a alguém especialmente destinado na Igreja Católica às atividades caritativas, a anunciar a Palavra e a exercer funções litúrgicas, como assistir o Bispo e o Presbítero nas missas, administrar o Batismo, presidir ao matrimónio e às exéquias, entre outras funções.
Além do já referido, o discurso papal, depois da aprovação do documento apresentado ontem à 15.ª Congregação Sinodal, denunciou as violações aos direitos dos povos da região e visou as “injustiças, destruição, exploração de pessoas, a todos os níveis, e destruição da identidade cultural” que marcam a vida das comunidades indígenas.
Numa intervenção improvisada, em espanhol, perante todos os que participaram nas três semanas de trabalhos, o Pontífice prometeu uma exortação pós-sinodal até ao fim do ano, para deixar a sua própria palavra sobre a experiência que viveu. “Tudo depende do tempo que tenha para pensar”, gracejou, provocando um aplauso dos presentes.
Francisco disse que este Sínodo especial, iniciado a 6 de outubro, abordou quatro dimensões fundamentais, a começar pela inculturação e da valorização das culturas, “que está dentro da Tradição da Igreja”. A segunda foi a dimensão ecológica, em que se “joga o futuro” e que denuncia a “exploração selvagem” dos recursos naturais, como acontece na Amazónia. E, depois de falar da terceira – a dimensão social, com alertas para o “tráfico de pessoas”, declarou que a quarta dimensão, “a principal”, é a pastoral, mais ligada à ação das comunidades católicas na transmissão da fé. E apontou:
Urge o anúncio do Evangelho, mas que seja entendido, assimilado, compreendido por essas culturas”.
Francisco começou por agradecer a quantos “deram este testemunho de trabalho, de escuta, de busca”, procurando colocar em prática o “espírito sinodal”. “Estamos a entender o que significa discernir, escutar, incorporar a rica tradição da Igreja nos momentos conjunturais”, precisou.
O discurso deixou reparos a quem pensa que “a Tradição é um museu de coisas velhas” e indicou a necessidade de colocar a Igreja Católica a avançar “neste caminho da sinodalidade”.
Entre os temas debatidos, segundo Papa, está a necessidade de reformar a formação sacerdotal nalguns países de promover a “redistribuição do clero”. “Sejamos corajosos para fazer esta reforma”, exortou.
***
Também merecerá atenção a reorganização do território eclesial amazónico, com ideias como a criação de “semiconferências episcopais” para várias zonas e, no Vaticano, a abertura de uma “secção amazónica” no Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral.
Os participantes pediram ao Papa que o percurso dos membros do corpo diplomático da Santa Sé inclua “um ano” ao serviço de uma diocese em território de missão
Em relação ao Rito Amazónico proposto, Francisco disse que irá solicitar à Congregação para o Culto Divino que faça “as propostas necessárias”, recordando as 23 igrejas com rito próprio, no mundo católico. E sustentou:
“Não é preciso ter medo das organizações que custodiam uma vida especial”.
O Papa agradeceu o trabalho dos média e desejou que estes pudessem ter acompanhado a votação, antes de deixar um pedido aos jornalistas:
 Parem, sobretudo, nos diagnósticos, que é a parte pesada, onde o Sínodo se expressou melhor”.
A este respeito, Francisco alertou para o que chamou de “cristãos de elite” ou “grupos seletivos” que se fixam em “pontos intraeclesiásticos” e procuram vencedores ou derrotados, nas votações.
Ganhamos todos com o diagnóstico que fizemos”, observou.
***
Os participantes defendem a criação de “ministérios especiais” nas comunidades católicos para a defesa da “casa comum” e a promoção da ecologia integral, visando “o cuidado do território e da água”. Alertam outrossim para as consequências do “extrativismo predatório” e pede solidariedade internacional com a Amazónia, falando mesmo numa “dívida” de países desenvolvidos, que deveria ser paga através de um fundo de apoio às comunidades da região.
A Amazónia é hoje uma beleza ferida e deformada, um lugar de dor e violência. Os atentados contra a natureza têm consequências contra a vida dos povos” – consideram.
O documento final do Sínodo propõe um “novo paradigma de desenvolvimento sustentável”, que seja inclusivo, combinando “conhecimentos científicos e tradicionais”. E ali pode ler-se:
O futuro da Amazónia está nas mãos de todos nós, mas depende principalmente de abandonarmos imediatamente o modelo atual que destrói a floresta”.
Os participantes pedem uma menor dependência de combustíveis fósseis e do uso de plásticos, mudando também hábitos alimentares, como o excesso de consumo de carne ou peixe.
O Sínodo dos Bispos é definível, em termos gerais, como assembleia consultiva de representantes dos episcopados católicos, a que se juntam peritos e outros convidados, com a tarefa de ajudar o Papa no governo da Igreja. Esta assembleia especial foi anunciada pelo Papa a 15 de outubro de 2017, para refletir sobre o tema ‘Amazónia: Novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral’. E os Padres Sinodais fazem a seguinte declaração:  
Denunciamos a violação dos direitos humanos e a destruição extrativista. Assumimos e apoiamos as campanhas de desinvestimento em empresas extrativistas, ligadas aos danos socioecológicos na Amazónia, a começar pelas próprias instituições eclesiais e também em aliança com outras Igrejas. Apelamos a uma transição energética radical e à busca de alternativas.”.
***
Porém, a atitude que o Sínodo exige é a conversão, conversão que tem diferentes significados: integral, pastoral, cultural, ecológica e sinodal. O texto é o resultado do “intercâmbio aberto, livre e respeitoso” desempenhado   durante as três semanas de trabalhos do Sínodo, para relatar os desafios e o potencial da Amazónia, o “coração biológico” do mundo, espalhado por 9 países e habitado por mais de 33 milhões pessoas, incluindo cerca de 2,5 milhões de indígenas. Porém, esta região, a segunda área mais vulnerável do mundo devido às mudanças climáticas provocadas pelo homem, está numa corrida frenética rumo à morte, o que exige urgentemente nova direção que permita que seja salva, sob pena de impacto catastrófico em todo o planeta.
***
Por fim, segue-se, em modo esquemático, a recolha dos conteúdos do documento, ou seja,os cinco capítulos, cada um com seu tema e subtemas:
Cap. I – Conversão integral: “As dores da Amazónia: o grito da terra e o grito dos pobres”; “O sacrifício dos missionários mártires”.
Cap. II – Conversão Pastoral: “Diálogo ecuménico e inter-religioso; “Urgência de uma pastoral indígena e de um ministério juvenil”; “Pastoral urbana e as famílias”.
Cap. III – Conversão Cultural: Defender a terra é defender a vida; “Teologia indígena e piedade popular”; “Criar uma Rede de Comunicação Eclesial Pan-amazónica”.
Cap. IV – Conversão Ecológica: “Ecologia integral, único caminho possível”; “Defesa dos direitos humanos, uma necessidade de fé”; “Igreja aliada das comunidades amazónicas”; “Defesa da vida”; “Pecado ecológico e direito à água potável”.     
Cap. V – Novos caminhos de conversão sinodal: “Sinodalidade, ministerialidade, papel ativo dos leigos e vida consagrada”;A hora da mulher”;Diaconado permanente”; “Formação dos sacerdotes”; Participação na Eucaristia e ordenações sacerdotais”; Organismo eclesial regional pós-sinodal e Universidade Amazónica”; “Rito amazónico”.         
***
Falta passar à prática as propostas sinodais para termos uma Igreja de rosto local e a pulsar consciente e morosamente com a Igreja de Roma.
2019.10.25 – Louro de Carvalho

sábado, 5 de outubro de 2019

Sínodo dos Bispos é sinal de que toda a Igreja é solícita pela Amazónia


Com a Santa Missa deste 6 de outubro, pelas 10 horas de Roma, a que presidirá o Papa Francisco, inaugura-se o Sínodo para a Amazónia, cujo encerramento será a 27 deste mês. 
O Sínodo foi apresentado à imprensa no passado dia 3, a poucos dias da sua abertura, tendo a Sala de Imprensa da Santa Sé ficado lotada na manhã daquele dia para a conferência de imprensa de apresentação. Intervieram o Cardeal Lorenzo Baldisseri, secretário-geral, o Cardeal Cláudio Hummes, relator-geral, e Dom Fabio Fabene, subsecretário do Sínodo dos Bispos.
O Cardeal Baldisseri explicou a composição desta Assembleia, que, por ser “Especial” – isto é, diz respeito a uma área geográfica específica –, reúne todos os bispos da região pan-amazónica, que compreende 9 países. Portanto, os padres sinodais são 184. Entre estes, há também prelados de outras regiões, chefes de dicastérios, representantes de congregações religiosas e membros de nomeação pontifícia. Do Brasil, são 57. Entre os participantes, dos quais 35 mulheres, há também representantes de outras comunidades cristãs, de povos originários e especialistas. E disse o Cardeal:
É toda a Igreja que mostra a sua solicitude pela Amazónia: pelas dificuldades, os problemas, as preocupações e os desafios que encontra”.
Como curiosidade é de assinalar que, para limitar o uso de plástico utilizado no Sínodo, copos e outros materiais serão biodegradáveis. 
O secretário-geral destacou o foco deste Sínodo contido já no tema “Amazónia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”, advertindo que os padres sinodais se concentrarão em dois aspetos, que são duas faces da mesma moeda: a missão evangelizadora da Igreja na Amazónia, tendo no centro o anúncio da salvação em Jesus Cristo; e a temática ecológica.
Este segundo aspeto foi mais desenvolvido pelo relator-geral, que disse: socioambiental
O contexto amplo do sínodo é a grave e urgente crise socioambiental de que fala a Laudato si’: a) A crise climática, ou seja, o aquecimento global pelo efeito estufa; b) a crise ecológica em consequência da degradação, contaminação, depredação e devastação do planeta, em especial na Amazónia; c) e a crescente crise social de uma pobreza e miséria gritante que atinge grande parte dos seres humanos e, na Amazónia, especialmente os indígenas, os ribeirinhos, os pequenos agricultores e os que vivem nas periferias das cidades amazónicas e outros.”.
No fundo, segundo o cardeal brasileiro, trata-se de cuidar da vida e de a defender, tanto de todos os seres humanos, como da biodiversidade, pois Jesus disse: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo, 10,10).
Dom Cláudio Hummes citou mais de uma vez a Laudato si’ e o seu convite a uma conversão:
É importante o que o Papa Francisco chama de ‘ecologia integral’, para dizer que tudo está interligado, os seres humanos, a vida comunitária e social, e a natureza. O que se faz de mal à terra, acaba por fazer mal aos seres humanos e vice-versa. Há necessidade de uma conversão ecológica, inspirada em São Francisco de Assis.”.
Respondendo às perguntas dos jornalistas, o cardeal brasileiro ressaltou a “presença heroica” da Igreja no território amazónico há quatro séculos, vincando que “não se pode falar da Amazónia sem falar da história da Igreja na região” e reivindicando a bagagem eclesial acumulada no decorrer dos séculos. E, embora reconheça que a “Igreja não é competente em determinações técnicas”, assegurou que “apresentará princípios para orientar os que buscam essas soluções”.
O relator-geral falou das críticas recebidas do Governo, afirmando que “em parte foram superadas” depois de encontros com membros governamentais. E reiterou: “Para a Igreja, a soberania da Amazónia é intocável”.
Depois, referindo-se ao Instrumento de trabalho, que foi objeto de várias críticas, o Cardeal Hummes recordou que esse documento “não é do Sínodo, mas para o Sínodo”, “a voz do povo local”. Em sintonia, o Cardeal Baldisseri destacou que não se trata dum “documento pontifício”, mas de um levantamento das expressões do povo da Amazónia – “o ponto de partida para começar a trabalhar”.
Por seu turno, Dom Fabio Fabene, subsecretário do Sínodo dos Bispos, explicitou as fases de elaboração da Assembleia, com ênfase no andamento dos trabalhos durante o Sínodo, e disse que, tratando-se de uma Assembleia Especial, a metodologia foi parcialmente renovada em relação aos Sínodos precedentes.
O secretário-geral abrirá os trabalhos ilustrando o percurso sinodal. Depois, o relator apresentará os conteúdos que emergiram na fase preparatória e traçará os argumentos principais para a discussão na Sala e nos círculos menores. As intervenções na Aula Sinodal terão a duração de 4 minutos. E, nos dias de congregações gerais, haverá um tempo, no final, para pronunciamentos livres dos padres sinodais.
A comunicação do Sínodo será confiada ao Dicastério para a Comunicação. Diariamente, serão realizados briefings com a participação dos padres sinodais e de outros participantes. As redes sociais (Twitter, Facebook e Instagram) de Vatican News e da Secretaria Geral do Sínodo dos Bispos contribuirão para a difusão das notícias. Está ativa a mesma hashtag #SinodoAmazonico para todas as línguas para uma informação mais adequada sobre o Sínodo.
Os padres sinodais estarão disponíveis para entrevistas fora da Aula Sinodal. Como nos últimos Sínodos, as intervenções na Aula Sinodal não serão publicadas oficialmente no Boletim da Sala de Imprensa. Já os pronunciamentos dos círculos serão divulgados pela Sala de Imprensa.
***
Em razão da componente ecológica e da atenção à pobreza, o Papa consagrou o Sínodo para a Amazónia a São Francisco de Assis, o Irmão Universal, em cerimónia que decorreu nos Jardins Vaticanos, onde abriu “simbolicamente” o Sínodo reunindo representantes dos povos originários da Amazónia.
A cerimónia de 4 de outubro, dia da memória litúrgica do Pobrezinho de Assis, foi marcada por cânticos, reflexões, orações e gestos simbólicos. Foram convidados cardeais, bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas e representantes dos povos originários da Amazónia.
O relator-geral do Sínodo foi um dos participantes e fez uma reflexão sobre “O papel de São Francisco como modelo e santo padroeiro do Sínodo para a Amazónia”.
Dom Cláudio Hummes, acompanhado de dois representantes indígenas, ajudou o Papa Francisco a irrigar uma árvore nos Jardins Vaticanos – uma azinheira de Assis, como gesto visível de uma ecologia integral –, sob o som de uma versão cantada do Cântico das criaturas. O solo em que a árvore foi plantada foi enriquecido com a terra de lugares simbólicos para a preservação do meio ambiente.
Depois da fórmula de consagração, foi concluída a cerimónia com o Papa Francisco a rezar o Pai-Nosso com os presentes. 
A oração de consagração do Sínodo à intercessão de São Francisco visa que este processo constitua um passo fecundo para discernir novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral na Amazónia.
A celebração e o gesto simbólico da azinheira de Assis, plantada no coração da Igreja universal, foram uma oportunidade para “comunicar a importância do Templo da Criação”. É – dizem – o primeiro gesto visível de Francisco depois do seu convite à Igreja mundial para celebrar este “período com muita oração e ações em benefício da casa comum”, e para “comunicar a importância do sínodo amazónico e propor São Francisco como modelo e guia para o processo sinodal”.
No entanto, o novo Cardeal Português, Dom José Tolentino Mendonça, recordou hoje, dia 5, em artigo no Expresso:
Em 2015, por ocasião do Ano Santo da Misericórdia, o Papa Francisco fez um gesto inédito e que carregava consigo a visão do que pode ser o presente e o futuro do cristianismo. Oficialmente, esse ano jubilar teria início a 8 de dezembro, com a abertura da Porta Santa na Basílica de São Pedro, em Roma. Mas o Papa decidiu simbolicamente antecipá-lo, abrindo uma semana antes, numa geografia periférica e improvável, a primeira Porta Santa. Fê-lo em Bangui, a capital da República Centro-Africana, dizendo então: ‘Hoje Bangui torna-se a capital espiritual do mundo”. Francisco escolheu como protagonista uma região pobre, ferida pela guerra, alheia ao radar das grandes atenções, para dizer ao mundo que “todos precisamos de pedir paz, misericórdia e reconciliação”. Com o Sínodo para a Amazónia, que tem o seu arranque este domingo no Vaticano, ocorreu um facto semelhante. O quilómetro zero do Sínodo, e que lançou todo o seu percurso de preparação, foi Puerto Maldonado, a fronteira de ingresso na Amazónia peruana, que o Papa visitou no final de janeiro de 2018. Ele quis propositadamente sentar-se no meio dos chefes e dos anciãos dos diferentes povos indígenas para ver de perto o reflexo daquela terra.”.
Se calhar Puerto Maldonado foi mesmo o primeiro gesto de Francisco oferecido à Igreja e ao mundo sobre este Sínodo.
A cerimónia deste dia 4 de outubro, que teve a participação de líderes indígenas e da Igreja, foi uma iniciativa da Ordem dos Frades menores, da REPAM (Rede Eclesial Pan-amazónica) e do GCCM (Global Catholic Climate Movement).
***
Para que os trabalhos e a mensagem do Sínodo tenham o máximo de repercussão mundial, os Jornalistas que não estão em Roma têm a possibilidade de aceder à documentação para a imprensa, participar em ‘briefings’ e conferências de imprensa e fazer perguntas diretamente aos participantes do Sínodo.
Com efeito, por ocasião da Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos da Região Pan-Amazónica, a Sala de Imprensa da Santa Sé está a ativar um sistema telemático de credenciamento que oferece a jornalistas que não estão em Roma a possibilidade de aceder à dinâmica do Sínodo: é o CREDENCIAMENTO TEMPORÁRIO À DISTÂNCIA.
Jornalistas e operadores da mídia visual com este tipo de credenciamento receberão um número whatsapp ao qual enviarão as suas perguntas em texto, áudio ou vídeo, sempre que houver ‘briefings’ ou conferências de imprensa, até às 12 horas. Em todos os encontros com a imprensa haverá tradução simultânea em italiano, inglês, francês, espanhol, alemão e português. Os ‘briefings’ estão programados para 13,30 horas de Roma de segunda-feira a sábado, conforme calendário. 
Os pedidos de credenciamento TEMPORÁRIO À DISTÂNCIA devem ser feitos exclusivamente ao Setor Mídia e Credenciamento da Sala de Imprensa da Santa Sé. E, para mais informações sobre o processo de credenciamento, deve ser consultada a documentação logística do Sínodo publicada em: press.vatican.va/accreditations.
***
Entretanto, paralelamente decorrerá o desenvolvimento do projeto “Amazónia: Casa Comum”, iniciativa que irá promover uma centena de eventos que acompanharão o Sínodo Amazónico que começa no domingo, dia 6.
A abertura oficial dos trabalhos do projeto é marcada pela Vigília de Oração de preparação para o Sínodo Amazónico neste sábado, dia 5, a partir das 19,30 horas, na Igreja de Santa Maria em Traspontina, na Via della Conciliazione, rua que dá acesso ao Vaticano. O momento é animado pelos Jovens do Empenho Missionário (GIM) provenientes de várias cidades italianas: Milão, Pádua, Verona, Nápoles e Bari. Com mochilas e sacos de dormir, a viagem trouxe-os até Roma para apoiar com a oração os padres sinodais.
O Irmão Antonio Soffientini, comboniano, da secretaria executiva do projeto, disse que os jovens têm demonstrado uma grande sensibilidade ambiental e eclesial:  
Essa maneira de ser Igreja, de se mostrar próximo dos mais vulneráveis, interessa muito aos jovens, em especial, aos do GIM, que escolheram esse percurso de formação justamente para compartilhar com os seus coetâneos momentos de análise crítica da realidade e de empenho concreto”.
A Vigília de Oração também abriu espaço para um momento dedicado à lembrança dos mártires em defesa do povo e da floresta amazónica, como o Padre Ezequiel Ramin, a Irmã Dorothy Stang e Chico Mendes. Personalidades que serão recordadas também nos próximos eventos, como na conferência do dia 8 de outubro, intitulada “Igreja que dá a vida pela Amazónia”, e na “Peregrinação pela Amazónia”, prevista para a manhã do dia 19 de outubro.
Neste sábado, a Igreja de Santa Maria também está aberta à diversidade dos povos, aos elementos da natureza, à partilha e à escuta, graças aos momentos de espiritualidade amazónica, orientados pela Equipa Itinerante e por indígenas presentes na Vigília de Oração, como os representantes do grupo étnico Sateré Mawé, do Brasil. Também presentes, além de alguns padres sinodais, o Cardeal Pedro Ricardo Barreto Jimeno, Arcebispo de Huancayo e vice-presidente da Repam.
***
Que o Sínodo seja um momento em que a Igreja escuta verdadeiramente a Deus e ao povo excluído, a quem os decisores políticos e económicos querem tirar o seu território e pô-lo ao serviço da lógica do lucro, mesmo que o preço seja a degradação do planeta e o esbulho dos autóctones, que têm dignidade e direitos como qualquer ser humano.
2019.10.05 – Louro de Carvalho

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

“Se a Amazónia sofre, o mundo sofre”



Tem início no domingo, 1 de setembro, Dia Mundial de Oração pelo cuidado da Criação, a celebração ecuménica anual de oração e ação pela criaçãoO tempo da criação: cristãos unidos para defender a casa comum, que termina no dia 4 de outubro, festa de São Francisco de Assis. Milhares de pessoas estarão envolvidas na celebração e proteção do meio ambiente.
Mais de um mês para abraçar ecumenicamente e trabalhar para proteger a Criação, ameaçada pelo próprio homem. Renova-se, mais uma vez, “O tempo da Criação”, em que os cristãos do mundo inteiro e e diversas confissões se unem em oração e ação para cuidar da Casa Comum. É um comité diretivo ecuménico que sugere anualmente um tema para a celebração. O tema para 2019 é: “A rede da vida”. De facto, está a acelerar a perda de espécies. Um relatório recente das Nações Unidas estima que o estilo de vida atual ameaça extinguir um milhão de espécies.
Em carta de 23 de maio, Dia Mundial da Biodiversidade, o Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral convidava os bispos católicos a aderirem a esta iniciativa ecuménica. O documento foi distribuído por ocasião do 4.º aniversário da Encíclica do Papa Francisco Laudato si’, para encorajar os pastores a celebrarem este tempo, estendendo às comunidades católicas o convite do Dicastério vaticano, a que se uniram o Movimento Católico Mundial pelo Clima e a Rede Eclesial Pan-Amazónica (REPAM). Este encorajamento torna-se ainda mais significativo ante a Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazónica sobre o apelativo tema: “Amazónia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”.
Esta celebração começou sob os auspícios da Igreja Ortodoxa e tem sido acolhida por católicos, anglicanos, luteranos, evangélicos e outros membros da família cristã em todo o mundo. O site ecuménico SeasonOfCreation.org oferece subsídios e ideias para os cristãos participarem na celebração. Os eventos variam de encontros de adoração e oração à recolha de lixo, e pedidos de mudança política para limitar o aquecimento global a 1,5º Celsius. Outras iniciativas previstas são: em Quezon City, Filipinas, o Cardeal Luis Antonio Tagle, Arcebispo de Manila, presidirá uma missa, depois da qual serão plantadas árvores trazidas de áreas indígenas para a cidade; em Altamira, voluntários da Amazónia brasileira desenvolverão um projeto florestal num assentamento urbano; em Lukasa, Zâmbia, a Liga das Mulheres Católicas apresentará uma discussão sobre o meio ambiente na paróquia de São José Mukasa.
A este respeito, o Patriarca de Constantinopla Bartolomeu, na sua mensagem para o Dia de Oração pela Salvaguarda da Criação, escreveu:
A questão ecológica revela que o mundo é um só, que os problemas são globais e comuns. Para enfrentar os perigos é, portanto, necessária uma mobilização multilateral, uma convergência, uma colaboração, uma cooperação.”.
E pode ler-se ainda no seu texto:
É inconcebível que a humanidade esteja consciente da gravidade do problema e que continue a comportar-se como se não o conhecesse. Embora nas últimas décadas o principal modelo de desenvolvimento económico, no contexto da globalização sob a bandeira do fetichismo dos índices económicos e da maximização do lucro, tenha exacerbado os problemas ecológicos e sociais, continua a dominar amplamente a opinião de que ‘não há alternativa’ e que o não se conformar com o severo determinismo da economia levará a situações sociais e económicas incontroláveis. Desta forma, se ignoram e se desacreditam as formas alternativas de desenvolvimento e a força da solidariedade social e da justiça.”.
E Tomás Ínsua, diretor executivo do Movimento Católico Mundial pelo Clima, disse:
Só agindo em conjunto, à luz da nossa Igreja e do Espírito Santo, poderemos avançar. Nos últimos meses, incêndios violentos destruíram florestas na Amazónia, ondas de calor fizeram soar sinais de alarme em toda a Europa e a massa de gelo está a derreter-se num ritmo inimaginável, aumentando o nível do mar. Todos estes problemas partilham uma solução importante: devemos empreender a ‘conversão ecológica’ requerida por São João Paulo II, que o Papa Francisco expandiu para Laudato Si’.”.
***
Enquanto a Amazónia arde, o Presidente brasileiro entra com uma birra: escarnece a mulher de Macron, que não gostou da brejeirice, e exige um pedido de desculpa de Macron para aceitar a ajuda financeira da Europa para combater os fogos na grande floresta (São já milhões de hectares ardidos). Ora, começa a entrar no ouvido o estribilho curto, mas cheio de significado: “Se a Amazónia sofre, o mundo sofre.
Entretanto, a CEPSMH (Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana) da CEP (Conferência Episcopal Portuguesa), emite uma nota da sobre o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, que se assinala a 1 de setembro, estribada nas seguintes palavras do Papa Francisco:
Os pulmões do planeta repletos de biodiversidade que são a Amazónia e a bacia fluvial do Congo ou os grandes lençóis freáticos e os glaciares. Não se pode ignorar a importância destes lugares para o conjunto do planeta e para o futuro da humanidade. Os ecossistemas das florestas tropicais possuem uma biodiversidade de enorme complexidade, quase impossível de conhecer completamente, mas, quando estas florestas são queimadas ou derrubadas para desenvolver cultivos, em poucos anos perdem-se inúmeras espécies ou tais áreas transformam-se em áridos desertos. Todavia, ao falar sobre estes lugares, impõe-se um delicado equilíbrio, porque não é possível ignorar os enormes interesses económicos internacionais que, a pretexto de cuidar deles, podem atentar contra as soberanias nacionais. (Laudato si’, 38).
Diz a CEPSMH que, se tivesse que reduzir a nota a uma só palavra, essa palavra seria “Amazónia”, pois, como dizia ao Papa, a 25 de agosto, aos peregrinos reunidos na Praça de São Pedro, “estamos todos preocupados pelos vastos incêndios que deflagram na Amazónia”, pelo que incitou à oração para que, “com o compromisso de todos, sejam dominados o mais rapidamente possível”, uma vez que “este pulmão de florestas é vital para o nosso planeta”.
Na Nota de 2018, a Comissão citou o Documento preparatório para o Sínodo da Amazónia, a realizar no próximo mês de Outubro; agora, ao ler o Instrumentum laboris, ficou impressionada com a qualidade da reflexão que permitirá “ensaiar novos e corajosos passos do nosso ser Igreja que nos lancem para o futuro, guiados pelo Espírito Santo, na continuidade do Concílio Vaticano II”. A Nota coloca os Bispos portugueses em união com os Bispos do Brasil (CNBB) e de toda a América Latina (CELAM), afirmando com eles: “Se a Amazónia sofre, o mundo sofre”.
Também a CEPSMH salienta estarem bem patentes entre nós as preocupações pelas consequências das alterações climáticas. Com efeito, já em Abril de 2017 a CEP publicou a Nota Pastoral “Cuidar da casa comum, prevenir e evitar os incêndios” sobre esta realidade que todos os anos nos afeta, vincando que “a diminuição do caudal dos rios e o risco de seca que continua são suficientes para recomendar uma especial prudência no gasto da água”.
Assim, a CEPSMH “convida todas as comunidades cristãs a dar graças a Deus pela Criação e a pedir ao Criador a conversão dos nossos corações e a dos corações daqueles de quem dependem as efetivas mudanças nas políticas públicas que têm tido estas ‘dramáticas consequências da degradação ambiental na vida dos mais pobres do mundo’.” (LS, 13).
***
A agência Ecclesia lê a Nota da Comissão Episcopal de Pastoral Social e Mobilidade Humana, de 29 agosto, como sendo a manifestação da associação da Igreja Católica (e não só dos Bispos portugueses) aos alertas pela situação na Amazónia, afetada por incêndios em vários dos países que abrange e uma forte intenção para o próximo Dia Mundial de Oração pela Criação.
O texto da Nota evoca a preocupação manifestada pelo Papa, no último domingo, com os “vastos incêndios que deflagram na Amazónia”, considerada por Francisco (e não só) como um “pulmão de florestas” vital para o planeta.
“Estas palavras do Papa, na Praça de São Pedro, exprimem também o nosso apelo e o nosso sentir”, assinala a Comissão Episcopal de Pastoral Social e Mobilidade Humana.
O supradito organismo da CEP aponta ainda o próximo Sínodo especial sobre a Amazónia, convocado para o próximo mês de outubro, pelo Papa, elogiando o instrumento de trabalho:
Ficamos impressionados com a qualidade da reflexão que permitirá, estamos certos, ensaiar novos e corajosos passos do nosso ser Igreja que nos lancem para o futuro, guiados pelo Espírito Santo, na continuidade do Concílio Vaticano II”.
A Igreja Católica instituiu o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado pela Criação por decisão de Francisco em 2015, após a publicação da encíclica ‘Laudato si’, Sobre o cuidado pela Casa Comum’, em junho desse ano, associando-se às comunidades ortodoxas e outras Igrejas cristãs.
A CEPSMH assinala outrossim, na mensagem para a celebração de 2019, o alerta para as consequências “bem patentes” das alterações climáticas em Portugal, nos incêndios, na “diminuição do caudal dos rios e o risco de seca”, recomendando “uma especial prudência no gasto da água”. E convida todas as comunidades cristãs a “dar graças a Deus pela Criação e a pedir ao Criador a conversão dos corações” para efetivas mudanças em políticas públicas que têm tido “dramáticas consequências da degradação ambiental na vida dos mais pobres do mundo”.
Também a rede ‘Cuidar da Casa Comum’ vai promover iniciativas englobadas no Dia Mundial de Oração pelo Cuidado com a Criação, com textos de reflexão e o encontro ‘Também somos Terra’, que se realizará no dia 21 de setembro, entre as 11 horas e as 18, na casa das Irmãs Doroteias, no Linhó, perto de Sintra, que se encerra com uma celebração ecuménica. E a organização aponta que “Também somos Terra” é “um dia de festa, de ação de graças pelo dom da criação, de alegria e esperança, porque, apesar de tudo, o Criador é por nós”.
***
Na linha de preparação para o Sínodo para a Amazónia e no âmbito do alerta para os incêndios na grande região que abrange sete países, a Arquidiocese de Belém está a receber entre os dias 28 e 30 de agosto os bispos de toda a Amazónia Brasileira.
Na verdade, organizado pela CEA (Comissão Episcopal Especial para a Amazónia), com apoio da REPAM-Brasil (Rede Eclesial Pan-amazónica),  o encontro, realizado no Centro de Espiritualidade Monte Tabor, da Arquidiocese de Belém, visa estudar o Documento de Trabalho do Sínodo, bem como partilhar as experiências das escutas e da caminhada do processo sinodal nas dioceses e prelazias da Amazónia.
Participa neste encontro de estudo Dom Walmor Oliveira de Azevedo, Arcebispo de Belo Horizonte (Minas Gerais) e presidente da CNBB. E também estão presentes neste encontro  Dom David Martinez de Aguirre Guiné, bispo de Puerto Maldonado, no Peru, e o Padre Michael Czerny, subsecretário da Secção Migrantes e Refugiados para o Serviço de Desenvolvimento Integral Humano, nomeados secretários do Sínodo para a Amazónia, bem como Cristiane Murray, da secretaria do Sínodo e vice-diretora da Sala de Imprensa da Santa Sé. E Alfredo Ferro, de Letícia, na Colômbia, da equipa de assessores da REPAM internacional e assessores da REPAM-Brasil auxiliam na realização do encontro. Essa é a última atividade antes do Sínodo, em outubro, que reunirá todos os bispos da Amazónia brasileira, bispos de outros países cujo território integra o  bioma e bispos do mundo todo.
Sobre o Documento de Trabalho do Sínodo, que será objeto da reflexão dos bispos, Dom Walmor destacou que há uma leitura antropológica muito pertinente rumo à perspectiva da ecologia integral. Porém, o presidente da CNBB reforçou que o maior desafio, ainda nesta fase de preparação, é reforçar a leitura teológica, uma vez que a tarefa principal da Igreja é a evangelização e o anúncio de Jesus Cristo. E disse:
Enfrentaremos estes desafios e fá-lo-emos do melhor modo possível para que o Sínodo, atividade que está em profunda sintonia com o coração do papa Francisco, represente uma grande contribuição para a Amazónia, para a Igreja no Brasil e no mundo”.
Na abertura do encontro, na manhã do dia 28, Dom Walmor afirmou que a Conferência deve acompanhar a partir de agora o caminho sinodal com uma programação e um planeamento de comunicação para abrir mais o coração da nossa própria Igreja e também da sociedade civil, pois a importância do que se trata, do que aborda, daquilo que nós queremos e esperamos, precisa repercutir muito no coração da nossa Igreja e também no coração da sociedade. Para o prelado, a intenção da Igreja não é apenas realizar um evento, “mas dar passos novos”, incentivando o envolvimento nas ações que superem os vários ruídos e incompreensões que se têm apresentado em relação ao Sínodo ou os tratem de forma adequada. O importante é que haja “uma repercussão muito boa e importante de tudo aquilo que se trata e se tratará durante o Sínodo e daquilo que virá na exortação pós-sinodal”.
Dom Walmor reforçou ainda a importância deste sínodo para a Igreja, declarando: 
O Sínodo da Amazónia, buscando novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral, toca tudo o que a Igreja precisa para sair da inércia, ilumina todos os pontos onde existem sombras e dará a possibilidade de um impulso novo.
O Presidente da CNBB ainda refletiu sobre a questão de que a evangelização da Amazônia em debate no Sínodo não está relacionada com apenas um aspeto: 
Um Sínodo da Amazónia, já no seu instrumento de trabalho e naquilo que poderemos verificar, mostra o global da Amazónia. Refiro, por exemplo, que evangelização tem a ver com saúde, evangelização tem a ver com uma nova ordem social e política, evangelização tem a ver com espiritualidade profunda. E o Sínodo da Amazónia, de um modo muito singular e qualificado, dá-nos essa oportunidade.”.
Coordenado pelo cardeal Cláudio Hummes, presidente da CEA e da REPAM e relator do Sínodo para a Amazónia, o encontro conta com a participação de todos os bispos titulares e auxiliares das 56 dioceses e prelazias da Amazónia Brasileira. Participam também leigas, leigos e religiosos, lideranças dos 6 regionais da CNBB que compõem a região, para contribuir com as vozes das realidades e na interlocução com os bispos.
Recorde-se que o Sínodo para Amazónia, a realizar  no Vaticano entre os dias 6 e 27 de outubro próximo, é uma resposta do Papa Francisco à realidade da Pan-Amazónia. De acordo com Francisco, “o objetivo principal desta convocação é identificar novos caminhos para a evangelização daquela porção do Povo de Deus, especialmente dos indígenas, frequentemente esquecidos e sem perspetivas de um futuro sereno, também por causa da crise da Floresta Amazónica, pulmão de capital importância para o planeta”.
Que os novos Santos intercedam por este evento eclesial para que, no respeito da beleza da Criação, todos os povos da terra louvem a Deus, Senhor do universo, e por Ele iluminados, percorram caminhos de justiça e de paz.  
***
Enfim, a Igreja dos leigos e da hierarquia, a instituição e a entidade espiritual e dinâmica, toda ela zela pelo bem da Amazónia e do planeta em tempo emergente de desmatamento e incêndios e em todo o tempo, o tempo da estruturação, da preservação e da conquista dum novo modo de encarar o mundo, não o sacrificando aos interesses iconoclastas sem o sentido do homem e da sociedade.
2019.08.30 – Louro de Carvalho   

domingo, 25 de agosto de 2019

Posições recentes da Igreja Católica sobre a Amazónia


A Amazónia está em chamas e o próprio Presidente do Brasil já entendeu que devia fazer alguma coisa, aliás tudo o que deve, pela Amazónia. Reconhecendo a amplitude da crise, decidiu destacar militares para o combate ao fogo e assumiu a luta contra as queimadas.
A Igreja Católica, além de lançar o brado pela Amazónia reforça a sua posição sobre o território em nome da proteção dos indígenas e da salvação do planeta, que daí haure uma mui grande porção do oxigénio que alimenta a nossa respiração, como a dos demais seres vivos.    
***
Assim a urgência do cuidado da Casa Comum inspira os jesuítas do SJPAM (Serviço Jesuítico Pan-amazónico) a defender e promover a sustentabilidade ambiental e os direitos dos povos indígenas da Amazónia, através dos projetos sociais, educativos e pastorais que realizam no Brasil, Bolívia, Peru, Colômbia, Equador, Venezuela e Guiana.
Segundo o Vatican News, “Déjate abrazar” (“Deixa-te abraçar”) é o título da campanha lançada com um triplo objetivo: “aumentar a conscientização sobre os principais problemas do território, mostrar o trabalho realizado pelos jesuítas na região e expandir redes de solidariedade que permitam captar recursos para a sustentabilidade de seu trabalho”.
A campanha pretende concretizar a rejeição a todas as formas de indiferença diante do inadiável cuidado do bioma pan-amazónico e “deixar-nos abraçar pela Amazónia, para acolher assim a vida que nos doa e suas necessidades mais urgentes”.
À “Vida Nueva” Alfredo Ferro, responsável do SJPAM, comenta que “a Companhia de Jesus na América Latina, através da Conferência dos Provinciais, tem uma rede chamada Red Claver que arrecada fundos para as obras sociais”. E, para divulgar e participar na campanha, o SJPAM criou o site “dejateabrazar.org”.
Entretanto, o alcance da campanha ultrapassa as obras da Companhia de Jesus na Amazónia, conforme declarou o Padre Ferro:
Nós, como SJPAM, respondemos à prioridade regional para a Amazónia, motivo pelo qual se considerou importante unirmo-nos em prol das atividades que realizamos e mais especificamente no apoio que damos à REPAM”.
Que a Amazónia está em perigo revelam-no os números, que falam por si mesmos. Neste sentido, o site déjate abrazar” recorda que, segundo o World Wide Fund for Nature, nos últimos 50 anos a Amazónia perdeu quase 20% de sua extensão social. Segundo a FAO, 420 comunidades indígenas dependem diretamente dos seus recursos. E a ONG Global Witness revela que em 2017 foram assassinados 57 líderes indígenas brasileiros, por defenderem o meio ambiente. Por tudo isto, o SJPAM faz um apelo à solidariedade por meio de uma plataforma de doação on-line, para a dádiva de qualquer valor mensal em dólares ou soles peruanos, referindo o portal que a “sua doação ajudará a fortalecer a defesa da nossa Mãe Amazónia”.
***
Por sua vez, a Presidência do CELAM (Conselho Episcopal Latino-Americano) manifestou a 22 de agosto, a sua preocupação com os incêndios que ocorrem em diferentes partes do mundo, especialmente na Amazónia, cujos efeitos são de natureza global.
Fazendo eco das palavras do Papa, os representantes da Igreja na América Latina e no Caribe, em nota publicada pela presidência sob o título “Levantamos a voz pela Amazónia”, exortam os homens e as mulheres a serem guardiões da criação.
O texto é, segundo o Vatican News, assinado pelo presidente, Dom Miguel Cabrejos Vidarte, Arcebispo de Trujillo, Peru; pelo 1.º vice-presidente, Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo de São Paulo, Brasil; pelo 2.º vice-presidente, Cardeal Leopoldo José Brenes Solórzano, Arcebispo de Manágua, Nicarágua; pelo presidente do Conselho de Assuntos Económicos, Dom Rogelio Cabrera López, Arcebispo de Monterrey, México; e pelo secretário-geral, Dom Juan Carlos Cárdenas Toro, Bispo-auxiliar de Cali, Colômbia.
Considerando os terríveis incêndios que estão a consumir grande parte da flora e da fauna no Alasca, na Gronelândia, na Sibéria, nas Ilhas Canárias e, em particular, na Amazónia, os Bispos desejam manifestar a sua preocupação perante a gravidade desta tragédia, que não é apenas de impacto local ou mesmo regional, mas de proporções planetárias. E lê-se no seu texto:
A esperança pela proximidade do Sínodo Amazónico, convocado pelo Papa Francisco, está agora manchada pela dor desta tragédia natural. Aos irmãos povos indígenas que habitam este amado território, expressamos toda a nossa proximidade e unimos a nossa voz à sua para clamar ao mundo por solidariedade e chamar a atenção para acabar com esta devastação”.
E, citando a advertência profética do preâmbulo do Instrumentum laboris para o Sínodo da Amazónia, escreve a presidência do CELAM: 
Na selva amazónica, de vital importância para o planeta, desencadeou-se uma profunda crise por causa de uma prolongada intervenção humana, onde predomina uma ‘cultura do descarte’ (LS 16) e uma mentalidade extrativista. A Amazónia é uma região com uma rica biodiversidade, é multiétnica, pluricultural e plurirreligiosa, espelho de toda a humanidade que, em defesa da vida, exige mudanças estruturais e pessoais de todos os seres humanos, dos Estados e da Igreja. Esta realidade vai além do âmbito estritamente eclesial amazónico, porque se focaliza na Igreja presente em todo o mundo e também no futuro de todo o planeta.”.
Por conseguinte, a nota do CELAM exorta os governos dos países amazónicos (especialmente do Brasil e da Bolívia) as Nações Unidas e a comunidade internacional a tomarem medidas sérias para salvar o pulmão do mundo, pois, como afirmam os bispos, o que acontece com a Amazónia não é só uma questão local, mas global. Ou seja, “se a Amazónia sofre, o mundo sofre”. E, recordando as palavras de Francisco na Homilia no início do ministério Petrino, a 19 de março de 2013, diz o texto da presidência do CELAM:
Gostaríamos de “pedir, por favor, a todos aqueles que ocupam cargos de responsabilidade nos âmbitos económico, político e social, a todos os homens e mulheres de boa vontade: sejamos guardiães da criação, do projeto de Deus inscrito na natureza, guardiães do outro, do ambiente; não deixemos que os sinais de destruição e de morte acompanhem o caminho deste nosso mundo”.
***
Também a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) emitiu na tarde do passado dia 23, uma nota (também disponível em vídeo), sob o título “Levante a voz pela Amazónia”, sobre o recente quadro de aumento de queimadas na região amazónica de que resultaram os “absurdos incêndios” e outras criminosas depredações em curso na Amazónia, chamando a atenção para a exigência de posicionamentos adequados. Diz o documento, que é um lancinante apelo:
É urgente que os governos dos países amazónicos, especialmente o Brasil, adotem medidas sérias para salvar uma região determinante no equilíbrio ecológico do planeta – a Amazónia. Não é hora de delírios, desgraças e juízos e comentários.”.
No documento, a CNBB ressalta que Sínodo dos Bispos sobre a Amazónia, convocado pelo Santo Padre para outubro próximo – no cumprimento de sua tarefa missionária e da evangelização – é sinal de esperança e fonte de indicações importantes no dever de preservar a vida, a partir do respeito ao meio ambiente. 
E os Bispos da CNBB observam:
O povo brasileiro, os seus representantes e servidores têm a maior responsabilidade na defesa e preservação de toda a região amazónica. O Brasil possui significativa extensão desse precioso território, com o rico tesouro da sua fauna, flora e recursos hidrominerais. Os absurdos incêndios e outras criminosas depredações requerem, agora, posicionamentos adequados e providências urgentes. O meio ambiente precisa de ser tratado nos parâmetros da ecologia integral, em sintonia com o ensinamento do Papa Francisco, na sua Carta Encíclica Laudato Si’, sobre o cuidado com a casa comum.”.
O pregão “Levante a voz pela Amazónia” implica “um movimento, agora, indispensável, em contraposição aos entendimentos e escolhas equivocados”, pois “a gravidade da tragédia das queimadas e outras situações irracionais e gananciosas, com impactos de grandes proporções, locais e planetárias, requerem que, construtivamente, sensibilizando e corrigindo rumos, se levante a voz”. Por isso, não se estranha o teor da nota da CNBB ao clamar:
É hora de falar, escolher e agir com equilíbrio e responsabilidade, para que todos assumam a nobre missão de proteger a Amazónia, respeitando o meio ambiente, os povos tradicionais, os indígenas, de quem somos irmãos. Sem assumir esse compromisso, todos sofrerão com perdas irreparáveis.”.
E a nota conclui com o apelo “a construir juntos uma nova ordem social e política, à luz dos valores do Evangelho de Jesus, para o bem da humanidade, da Pan-Amazónia, da sociedade brasileira e sobretudo dos pobres desta terra”, pois torna-se indispensável promover e preservar a vida na Amazónia e em todos os outros lugares do Brasil, mediante diálogos e entendimentos lúcidos”.
***
Enfim, jesuítas, bispo do CELAM e bispos da CNBB estão apostados na salvação do planeta, que pode baquear pelo lado daquela região latino-americana. “Levantamos a voz” ou “Levante a voz pela Amazónia são clamores oportunos – e deviam ser importunos – pela preservação do planeta e pela ecoeconomia de rosto humano e de solidariedade com os mais desprotegidos.
O Sínodo dos Bispos para a Amazónia agendado para outubro próximo parece estar a ser toldado pela espessura das nuvens do fumo amazónico e chamuscado pelas labaredas ígneas, mas não deixa de ser luminoso “sinal de esperança e fonte de indicações importantes no dever de preservar a vida a partir do respeito ao meio ambiente”.
Também a comunidade internacional se tem manifestado em prol da Amazónia que, atualmente, é destaque na imprensa mundial pela emergência ambiental. O presidente francês, Emmanuel Macron, pediu uma reunião neste final de semana durante o encontro do G7. E a Amazónia tornou-se o tema central da cimeira do G7.
O aumento no número de focos de incêndio em florestas tem sido um dos assuntos mais repercutidos, inclusive nas redes sociais, com destaque para a #PrayForAmazonia (“Reze pela Amazónia”). A repercussão dos internautas e de chefes de Estado faz referência às imagens e aos dados do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) que mostram um aumento de 82% no número de focos de incêndio florestal entre janeiro e agosto de 2019, em comparação com o período homólogo de 2018. O Mato Grosso é o estado com mais ocorrências. A relação, segundo especialistas, é mais com o desmatamento e não tanto com uma seca mais forte.
Esse círculo vicioso de poluição ambiental, que o Papa Francisco denunciava na Laudato si’, convocando todos a uma verdadeira cruzada contra a poluição e em defesa da nossa Casa Comum, infelizmente é uma consciência que está longe ainda de chacoalhar (incomodar), de sacudir a consciência mesmo dos cristãos e católicos”.
Assim, a emergência ambiental na Amazónia implica o apelo a uma ética ecológica de desenvolvimento. A região tem sido afetada por aquela que, segundo especialistas, é a maior onda de incêndios florestais no Brasil em sete anos. A repercussão, a nível internacional, levou chefes de Estado e bispos brasileiros e bispo de toda a América Latina a posicionarem-se: é, de facto, necessária uma orientação ética ecológica na Amazónia, além da fiscalização séria por órgãos “que não podem, de forma alguma, ser desautorizados ou desacreditados”, como afirmou Dom Jaime Spengler, o vice-presidente da CNBB.
Por seu turno, Dom Dimas Lara Barbosa, Arcebispo metropolitano da Arquidiocese de Campo Grande/MS, relata a situação vivida localmente, como a atuação constante dos bombeiros para apagar focos de incêndio. A consciência para o alerta desse “círculo vicioso de poluição ambiental”, como comenta Dom Dimas, precisa de partir dos cristãos para uma “verdadeira cruzada em defesa da Casa Comum”. A este respeito, Dom Dimas declara:
É com tristeza que a sociedade brasileira e internacional constata esse permanente e crescente índice da utilização de queimadas como alternativa para limpeza, fins agrários, e isso em todos os campos do Brasil. Aqui em Campo Grande não é diferente. No nosso Estado, os bombeiros já tiveram, nos últimos meses, que apagar focos de incêndio em quase 300 lugares – mas certamente são ações localizadas. Quando essa mentalidade se espalha para o Brasil todo, a gente acaba ficando insensível diante, por exemplo, do que acontece na Amazónia.”.
E clarifica em prol duma ecologia integral na sequência da encíclica social do Papa Francisco e do que a CNBB vem defendendo de há muito tempo:
Afinal de contas, a Amazónia não é um património privado, nem é só do governo, ela é um património de todos os brasileiros. E esse círculo vicioso de poluição ambiental, que o Papa Francisco denunciava na Laudato si’, convocando todos a uma verdadeira cruzada contra a poluição e em defesa da nossa Casa Comum, infelizmente é uma consciência que está longe ainda de chacoalhar (incomodar), de sacudir a consciência mesmo dos cristãos e católicos. Precisamos, de novo, de resgatar a Laudato si’ e a história mesmo da Igreja no Brasil, que já promoveu várias Campanhas da Fraternidade em torno do tema ecológico. Eu lembro-me de que já em 1979 houve uma Campanha com o título ‘Preserve o que é de todos’. Então, a consciência ecológica é por uma ‘ecologia integral’ que precisa ser assimilada pelo nosso bom povo brasileiro e, particularmente, por aqueles que têm o ofício de cuidar do que é de todos.”.
Por outro lado, a CNBB pede fiscalização séria. As queimadas fora de controlo na Amazónia também “chamam a atenção e preocupam” a CNBB. O vice-presidente, Dom Jaime Spengler, afirma que é necessária uma fiscalização séria por órgãos “que não podem, de forma alguma, ser desautorizados ou desacreditados”, pois, “segundo especialistas, o fator que melhor explica o aumento no número de focos de calor naquela região é o desmatamento”, embora provavelmente haja “também outras situações que caraterizam crimes ambientais e que merecem atenção”. Ora, esses elementos apontam para a sempre necessária fiscalização séria.
E Dom Jaime discorre:
“Papel de destaque, nesse âmbito, possuem os órgãos de controlo que não podem, de forma alguma, ser desautorizados ou desacreditados. Há vozes, é verdade, que defendem o desenvolvimento da região através da exploração do subsolo, das florestas, do avanço da agricultura... Certamente tudo isso pode, sim, cooperar para o desenvolvimento da região, mas a que preço? Pode cooperar para o desenvolvimento da região desde que as iniciativas sejam orientadas por uma ética, digamos, ecológica; pela responsabilidade socioeconómica e ambiental. Além disso, não se pode esquecer a dignidade e a nobreza dos ecossistemas da região.
Depois, estribando-se na palavra do Papa Francisco e na de pesquisadores de renome, afirma:
Recordo-me de que o Papa Francisco, na Encíclica Laudato si’, fala do perverso sistema de propriedade e consumo atual. É impressionante essa expressão. Por isso, daí a necessidade de encontrar novos caminhos para a promoção da ‘ecologia integral’, no respeito pelo ambiente, pelos povos nativos e pela própria terra.
Pesquisadores renomados têm alertado com insistência sobre a urgência de cuidado sério para os diversos ecossistemas. Não se pode aceitar que expressões de impacto ou opiniões vagas sustentadas ou influenciadas por interesses nebulosos ou escusos interfiram na vida desse património extraordinário que é a região pan-amazónica.”.
***
Em suma, a promoção, a defesa e a preservação do património comum da humanidade deve mobilizar todos os cidadãos, instituições e organizações. E, se mais ninguém quiser campear esta mobilização urgente, deve a Igreja fazê-lo: é também parte do núcleo da sua missão de evangelizar. Cabe aos órgãos de soberania dos Estados travar o espírito iconoclasta sobre o meio ambiente e o afã do lucro por quaisquer meios. E a Igreja, obrigatoriamente perita em humanidade deve incentivar e acompanhar a luta por estas causas.
2019.08.25 – Louro de Carvalho