sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Campanha da Fraternidade 2015

Tema: Fraternidade – Igreja e sociedade
Lema: “Eu vim para servir” (cf Mc 10,45)

Em cada ano, na quadra da Quaresma, a Igreja Católica no Brasil realiza a Campanha da Fraternidade, sob a coordenação da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), com o escopo de despertar a solidariedade dos fiéis e da sociedade para um problema em concreto que envolva a sociedade brasileira, num dinamismo de procura dos caminhos de solução.
A campanha de cada ano é marcada por um tema, que define a realidade concreta selecionada para ser transformada, e um lema, que explicita a direção de busca da transformação dessa realidade.
Para 2015, o tema e o lema são os referenciados acima. É, em face do tema e do lema selecionados, urgente estabelecer as bases sólidas da fraternidade na Igreja e na Sociedade, bem como na relação respeitosa, crítica e cooperante entre elas. E a certa direção deste basilar estabelecimento, manutenção e crescimento da fraternidade estriba-se no exemplo de Cristo: VIM PARA SERVIR.
Esta postura implica uma radical metanoia ou conversão. Quem não anseia na Igreja e na Sociedade pela conquista do prestígio que dê poder, riqueza, visibilidade e o condão de ser “adorado” e aplaudido?
O pano de fundo destas campanhas é constituído por dois balizamentos fundamentais: 
- Educar para o estilo de vida e vivência em fraternidade, com base na justiça e no amor, exigências fulcrais do Evangelho;
- Renovar a consciência da responsabilidade de todos pela ação da Igreja na evangelização e na promoção humana, com vista a uma sociedade justa e solidária.
Depois, a campanha é coroada por um gesto concreto e exigente, que se expressa na coleta da solidariedade, realizada no Domingo de Ramos, a nível nacional, em todas as comunidades cristãs católicas e outras que sentem a vocação ecuménica. A arrecadação das receitas constitui o FNS (Fundo Nacional de Solidariedade) e os FDS (Fundos Diocesanos de Solidariedade), sendo que 60% dos recursos se destinam ao apoio de projetos da própria diocese e 40% dos recursos revertem para o fortalecimento da solidariedade entre as diferentes regiões do país.
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As campanhas de solidariedade resultaram da iniciativa de três padres responsáveis pela Caritas Brasileira, em 1961, de realizar uma campanha de angariação de fundos para as atividades assistenciais, que denominaram de Campanha da Fraternidade, realizada pela primeira vez na Quaresma de 1962, na arquidiocese de Natal, no Rio Grande do Norte. No ano seguinte, dezasseis dioceses do Nordeste seguiram-lhes o exemplo.
Embora não coroadas de êxito financeiro, estas iniciativas serviram de embrião de um projeto anual dos organismos nacionais da CNBB e das Igrejas Locais do Brasil, incrementado e desenvolvido à luz e na perspetiva das Diretrizes Gerais da Ação Pastoral da Igreja no país.
Este projeto foi lançado, a nível nacional, no dia 26 de dezembro de 1962, sob o impulso renovador do Concílio Vaticano II, e realizado pela primeira vez na Quaresma de 1964. Era Presidente da Caritas Nacional Dom Eugénio de Araújo Sales, o administrador apostólico de Natal. O tema era a fraternidade; e o lema era Lembre-se: você também é Igreja.
Depois, em 20 de dezembro de 1964, os bispos aprovaram o fundamento inicial da campanha intitulado: Campanha da fraternidade – Pontos Fundamentais apreciados pelo episcopado em Roma. Era o tempo do Concílio, em que os bispos brasileiros se encontravam por largos períodos em Roma, alojados na mesma casa e a participar na aula conciliar, e que se tornou propício para a conceção e estruturação da Campanha da Fraternidade (CF), bem como para o Plano Pastoral de Emergência e o Plano Pastoral de Conjunto. A conjugação destes incipientes, mas pioneiros, instrumentos pastorais deu origem ao desencadeamento da Pastoral Orgânica e de outras ações de renovação eclesial.  
Em 1965, tanto a Caritas como a CF, que estavam vinculadas ao Secretariado Nacional de Ação Social, passaram a ficar diretamente vinculadas ao Secretariado Geral da CNBB, passando esta a assumir a CF. Com essa transição, foi estabelecida a estrutura básica da CF; e, em 1967, começou a organizar-se um subsídio maior que os anteriores para a organização anual da CF, tendo-se dado início aos encontros regionais das coordenações, regionais e nacional, da CF.
A partir de 1970, a CF ganhou um apoio especial e significativo: a mensagem papal. E a Campanha da Fraternidade tornou-se especial manifestação de evangelização libertadora, ao mesmo tempo que induz a renovação da vida da Igreja e a transformação da Sociedade, a partir de problemas específicos abordados à luz do Projeto de Deus.

Depois de ter conhecido duas fases anteriores – a 1.ª, em busca da Renovação Interna da Igreja (1964-1972); e a 2.ª, A Igreja preocupa-se com a realidade social do povo, denunciando o pecado social e promovendo a justiça (1973-1984) – a CF vive agora uma 3.ª fase: A Igreja volta-se para situações existenciais do povo Brasileiro (iniciada em 1985).

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Com o tema “Fraternidade: Igreja e Sociedade” e lema “Eu vim para servir” (cf. Mc 10,45), a Campanha da Fraternidade (CF) 2015 intentará recordar a vocação e a missão de todo o cristão e das comunidades de fé, a partir do diálogo e colaboração entre a Igreja e a Sociedade, propostos pelo Concílio Ecuménico Vaticano II.

A CNBB fez a abertura oficial da CF 2015 no passado dia 18 de fevereiro, Quarta-feira de Cinzas, em Brasília. O evento foi presidido pelo bispo auxiliar de Brasília e secretário-geral da CNBB, Dom Leonardo Ulrich Steiner, com a presença da secretária executiva do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs, de representantes do governo e de entidades da sociedade civil. A celebração foi transmitida ao vivo pelas emissoras de inspiração católica: Rede Vida, Nazaré, Aparecida, Evangelizar, Horizonte, Século 21 e Canção Nova. E foi divulgada a mensagem do Papa para a CF deste ano, dirigida aos fiéis brasileiros, datada de 2 de fevereiro de 2015, de que se respigam, a seguir, algumas ideias consideradas mais pertinentes.

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Francisco evoca a Quaresma como tempo de preparação para a Páscoa, com as notas de: penitência, oração e caridade – para renovação das nossas vidas, na identificação “com Jesus” através da entrega generosa aos irmãos, sobretudo aos mais necessitados. Ficam assim assinaladas a dimensão espiritual e a dimensão sociocomunitária deste tempo favorável à Salvação.

Referindo-se ao tema e ao lema da CF de 2015, o Papa entende que “a Igreja, enquanto comunidade congregada por aqueles que, crendo, voltam o seu olhar para Jesus, autor da salvação e princípio da unidade (cf Lumen Gentium 3), tem de estar atenta às necessidades dos que estão ao seu redor, já que as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo (cf Gaudium et Spes, 1).

Por isso, nestes dias em que Deus chama o povo à conversão, a Campanha da Fraternidade ajudará a aprofundar, à luz do Evangelho, o diálogo e a colaboração entre a Igreja e a Sociedade “como serviço de edificação do Reino de Deus, no coração e na vida do povo brasileiro”.

A Igreja – considera o Papa – tem de encontrar as formas concretas de “assumir evangelicamente e a partir da perspetiva do Reino de Deus as tarefas prioritárias que contribuem para a dignificação do ser humano e trabalhar com os demais cidadãos e instituições para o bem do mesmo”. E deve fazê-lo no respeito da laicidade do Estado e da autonomia das realidades terrenas.

Mais. Esta não é tarefa exclusiva das instituições, mas a cada um compete fazer a sua parte, começando pelos ambientes em que se insere: a família, o local de trabalho, as pessoas das suas relações. E tem de se encontrar um modo concreto de atuar, ajudando os que são mais pobres e necessitados, no pressuposto de que “cada cristão e cada comunidade são chamados a ser instrumentos de Deus ao serviço da libertação e promoção dos pobres, para que possam integrar-se plenamente na sociedade” – o que exige docilidade atenta “para ouvir o clamor do pobre e socorrê-lo” (cf EG, 187), sobretudo sabendo acolher.
Depois, é preciso examinar a consciência sobre “o compromisso concreto e efetivo de cada um na construção duma sociedade mais justa, fraterna e pacífica”.
Por fim, o lema da CF 2015 aponta a tarefa identitária do cristão: “amar servindo”. Por isso, importa que este caminho quaresmal, em campanha de fraternidade, “predisponha os corações para a vida nova que Cristo nos oferece, e que a força transformadora que brota da sua Ressurreição alcance a todos na sua dimensão pessoal, familiar, social e cultural e fortaleça em cada coração sentimentos de fraternidade e de viva cooperação”.
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Também o Hino da Campanha da Fraternidade 2015 parece ser a ressonância da voz de Cristo:
“Em meio às angústias, vitórias e lidas, / no palco do mundo, onde a história se faz, / sonhei uma Igreja a serviço da vida. /Eu fiz do meu povo os atores da paz!
Quero uma Igreja solidária, / servidora e missionária, / que anuncia e saiba ouvir. A lutar por dignidade, / por justiça e igualdade, / pois “Eu vim para servir”.
E finalmente: Vem! Calça as sandálias, assume a missão!
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E ainda se poderá dizer que o Brasil e a sua CNBB não tratam a sério as questões eclesiais?

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

A China durante a I Guerra Mundial e seu rescaldo

O Diário de Notícias (DN), do passado dia 16 de fevereiro, a páginas 34, na secção Artes, apresenta a recensão crítica do livro China na Grande Guerra, de Luís Cunha, sob as grandes parangonas “China não combateu na Grande Guerra, mas a Flandres está cheia de cemitérios chineses”.
É óbvio que o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando em meados de 1914 não chegou ao conhecimento dos 140 mil trabalhadores chineses que, tempos depois, vieram transportados para a Europa com o fim de participarem na produção de munições. Sendo assim, não será de somenos a importância conhecer as circunstâncias da entrada da China na I Grande Guerra.
Vamos tentá-lo com base no conteúdo do aludido artigo e noutras informações adrede colhidas.
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Antes do início formal da guerra, as principais potências europeias já tinham estabelecido alianças militares estratégicas: a Tríplice Aliança (formada pela Alemanha, Itália e Império Austro-Húngaro); e a Tríplice Entente (formada pela Inglaterra, França e Rússia). Ao integrar uma dessas alianças estratégicas, cada país membro comprometia-se a entrar em guerra caso um dos aliados estivesse envolvido nela.
Assim, quando a guerra começou, mercê do arquiduquicídio, de um lado estavam a Inglaterra e a França, a que se associou a Rússia; do outro, a Alemanha e o Império Austro-Húngaro. Porém, a Itália constituiu a exceção, pois, apesar de fazer parte da Tríplice Aliança, permaneceu neutra até maio de 1915, quando “trocou de time”, entrando na guerra ao lado dos países que formavam a Tríplice Entente. O que a fez mudar de posição, ou seja, sair da postura de neutralidade e passar a integrar o bloco contrário, foi a promessa dos seus novos aliados de que receberia o território de regiões fronteiriças da Áustria.
Em 1917, a Inglaterra e a França perderam a Rússia como aliada, mas, em compensação, ganharam outro aliado, os Estados Unidos. Naquele ano, a Rússia passara pela revolução bolchevista, que derrubou a monarquia imperial russa, e um novo governo acabou por assinar, pelo Tratado de Brest-Litovski, uma paz em separado com os alemães.
Os seus antigos aliados entenderam a saída da Rússia como uma traição. Os Estados Unidos, por seu turno, sentiram-se na necessidade de declarar guerra à Alemanha pelo facto de vários dos seus navios terem sido torpedeados por submarinos alemães. O torpedeamento dos navios norte-americanos resultou do propósito alemão de torpedear todos os navios que fossem encontrados em águas inimigas, mesmo que tais navios fossem de países neutros (também foram afundados navios brasileiros) e os Estados Unidos eram os principais fornecedores de matérias-primas para a Inglaterra.  
Um outro país que entrou na guerra foi o Japão com o objetivo se apoderar de colónias alemãs no Oriente: Tsingtao ou Shandong, na China, e as Ilhas Carolinas, Marshall e Marianas, localizadas no Oceano Pacífico. Conseguidos os seus intentos, retirou-se do conflito.
Os chineses, sobre os quais pairava a ameaça de guerra civil, declararam guerra à Alemanha, em agosto de 1917, com o fito de contar com a colaboração das potências coloniais no pós-guerra. Neste sentido, os líderes republicanos, que, até àquele ano, mantinham um estatuto de neutralidade (mas de cooperação com a Tríplice Entente), solicitavam especificamente: que as grandes potências abdicassem das suas esferas de influências na China; que fossem retiradas as tropas estrangeiras; que lhes fossem abolidas a jurisdição consular e os correios postais estrangeiros; e que lhes fossem devolvidas as concessões e territórios arrendados, bem como a restituição das alfândegas.
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O acima referido livro, da autoria daquele investigador do Instituto do Oriente, glosa o papel da China no primeiro conflito de repercussões mundiais e o modo como “o gigante asiático, apesar de estar ao lado da Grã-Bretanha e da França contra as potências” da Europa Central, “foi maltratado na conferência de Versalhes”, em que, a contrario, o império nipónico foi contemplado com todo o tipo de atenções por parte dos vencedores ocidentais.
A falta de mão de obra, devida ao envio de milhões de homens para as frentes de combate, levou a que tanto os ingleses como os franceses procedessem ao recrutamento de trabalhadores chineses, os coolies. Vinham de país aliado, mas não conheciam o terreno para integrarem as forças em combate. Todavia, foram de enorme utilidade no esforço de guerra, mormente no fabrico de munições e na preparação de equipamentos militares e logísticos, nomeadamente a reparação de carros blindados e canhões. E, apesar disso, não deixaram de passar por humilhações indizíveis. Os Estados Unidos viviam sob a síndrome do “perigo amarelo”, pelo que a imigração chinesa era de todo excluída. Assim, estes trabalhadores, depois de forçados a atravessar o Oceano Pacífico, eram encurralados em vagões fechados para cruzarem de comboio o Canadá até à Costa Atlântica e depois encaminhados para a Flandres. Esta forma de racismo persistia na Europa, ainda que menos ostensiva do lado dos franceses.
O investigador em causa, comentando esta postura racista contra quem vinha ajudar os europeus no principal palco dos confrontos bélicos, fossem tropas indianas (ao serviço da metrópole britânica), fossem os imigrados chineses para garantir a mão de obra do serviço de guerra, constata: “Por via da guerra, a população europeia teve um contacto de proximidade com quatro milhões de homens de diversas raças, oriundos de todos os cantos dos impérios coloniais”.
O que poderia constituir um normal encontro de culturas não passou de um afrontoso choque cultural cujos efeitos se fizeram sentir, em especial, sobre a força expedicionária chinesa. Os ingleses, no alinhamento com a tradição imperialista davam-lhes um tratamento rude ou mesmo desumano. Os franceses, mais humanos, propiciavam condições de vida e de trabalho mais aceitáveis e “tratamento mais afável”. Porém, facilmente os cediam aos norte-americanos, que se destacavam nos mais cruéis dos maus tratos sobre os imigrados chineses. Tanto assim foi que o autor, citando o sociólogo Max Weber, verifica que “os Aliados recorriam a bárbaros de todo o tamanho para destruir a Alemanha”. De todos os modos, os 140 mil chineses, que tanto prestavam apoio junto à linha da frente como ficavam na retaguarda nas indústrias úteis à guerra, eram efetivamente maltratados pelos aliados, mas também eram odiados pelos alemães que os viam como inimigos. Todavia, não seria possível a utilização dos carros blindados – “uma tecnologia militar pioneira à época – se não fosse o trabalho, aliás bem elogiado, de reparação e manutenção” da parte da mão de obra dos chineses.
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Finda a guerra com o armistício a 11 de novembro de 1918, foi necessária uma conferência para estabelecer as condições do pós-guerra. A isto vem o Tratado de Versalhes (também conhecido como Tratado de Paris), assinado a 28 de junho de 1919, que dita o fim oficial da I Guerra Mundial ou I Grande Guerra.
A negociação do tratado levou cerca de 6 meses contados a partir do armistício, que pusera fim aos combates propriamente ditos. O ponto principal do tratado estipulava que a Alemanha seria apontada como a responsável pelo início da guerra e, sendo assim, deveria cumprir uma série de reparações destinadas aos integrantes da Tríplice Entente, o nome da coligação adversária da Alemanha e seus aliados. Entre tais reparações, foi estipulada a obrigação de ceder partes do seu território aos países fronteiriços, perda do seu império colonial na África, na Ásia e no Pacífico, a ser dividido entre os vencedores do conflito, bem como a diminuição do exército, a cessão de exploração de recursos económicos de regiões estratégicas do país, além de uma soma absurda de indemnizações a pagar.
Porém, apesar do apoio do Presidente Wilson, dos Estados Unidos, as reivindicações chinesas, para pôr fim ao estatuto semicolonial em que aquele grande país se encontrava, não foram aceites, dado que a Inglaterra, a França e o Japão se negaram a acatá-las.
O povo chinês não perdoou a alegada incompetência dos diplomatas chineses na conferência de paz em Versalhes. E o fracasso chinês provocou enormes manifestações estudantis em Pequim, a 4 de maio de 1919, dirigidas não só contra a dominação estrangeira, mas também contra a impotência do governo nacional – o que levou à renúncia dos ministros filo-nipónicos. E a China não assinou o Tratado de Paz. Todavia, a situação não foi alterada em nada. No entanto, para muitos historiadores da China contemporânea, o “Movimento Quatro de Maio” constitui o marco da marcha no rumo da libertação nacional. A revolta estudantil e a operária subsequente rasgaram o caminho crítico contra o imobilismo social, votando ao declínio os antigos valores, e rumo à adoção de condições teóricas e culturais que ultrapassassem a mediocridade e a paralisia em que se encontrava a nação, além da vexante subordinação às potências estrangeiras.
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Mas voltando ao livro, o trabalho dos chineses na Europa não terminou com o Tratado de Paz. Os chineses continuavam a morrer e a ser sepultados na Flandres, pois lhes cabia a tarefa de limpeza dos campos de batalha, nomeadamente a destruição de munições perdidas não rebentadas e a regularização do terreno das trincheiras. E não houve o cuidado de repatriar os cadáveres.
A China foi pura e simplesmente desprezada na distribuição de dividendos pelo facto de não ter chegado a envolver tropas. Isto sucedeu “apesar do brilhante desempenho de diplomatas como Wellington Koo (então pouco apreciado na China), formado na América e que viria a ter uma carreira brilhante ao serviço da República da China, sendo um dos fundadores da SDN (Sociedade das Nações) e, mais tarde, da ONU (Organização das Nações Unidas). Os líderes europeus vencedores preferiram premiar o esforço nipónico, que se reduziu a pouco mais que a conquista de Shandong e o envio de uma frota para o Mediterrâneo para acolitar a proteção dos navios da Tríplice Entente. Mas, enquanto a China era considerada uma nação fraca (controlável pelos europeus), apesar do derrube da dinastia Qing, o Japão era tratado com temor como país que era preciso apaziguar. No entanto, este país, na II Guerra Mundial, esteve do outro lado, o dos alemães: ocupou a China e invadiu a Ásia, acabando por levar com duas bombas atómicas.
O atual regime chinês não apreciava sobremaneira o papel determinante do papel da China naquele período de redimensionamento do mundo e na construção identitária da China contemporânea. Agora, as autoridades querem, mudando de agulha, recuperar aquela memória histórica nacionalista e valorizar a ajuda que o seu país prestou à Europa.

Não é que eles querem penetrar na Europa para se descongestionarem como país e se afirmarem económica e estrategicamente?

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

A marcha da III Guerra Mundial?!

Está na ordem do dia a discussão sobre a guerra nas suas diversas vertentes: a militar, a informativa, a política e a económica. Pode dizer-se que não há verdadeira guerra que se circunscreva ao aspeto puramente militar. As motivações são habitualmente de outra ordem. É a delimitação territorial, a preocupação hegemónica, a religião ou os grandes negócios como o petróleo. Fala-se mesmo nos alvores da III Guerra Mundial.
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Na semana passada, celebrou-se em Minsk, na Ucrânia, um acordo de cessar-fogo entre as forças em conflito político e armado no país – guerra interna acicatada e apoiada de fora.
Em entrevista publicada, a 16 de fevereiro, no diário alemão Neuen Westfalische, de que o DN português se fez eco, o romancista alemão Günter Grass, de 87 anos, mostra-se cético em relação ao acordo, dizendo ter “sérias dúvidas” de que este possa levar a uma paz duradoura: “Não creio que vá levar a uma paz duradoura porque tenho a impressão de que nem a Ucrânia nem a Rússia têm o controlo pleno sobre as tropas que combatem” – constata com razão.
Este famoso prémio Nobel da Literatura refere que, às vezes, ultimamente se fala recorrente e insistentemente do perigo de acontecer uma guerra mundial e se questiona mesmo se a III Guerra Mundial não terá começado há muito, mas de forma distinta dos conflitos do século XX.
Na sua opinião, as formas de combate mudaram desde 1945, sendo a Internet atualmente um dos meios usados, pois “permite o bloqueio de sistemas completos”, que levam a guerras económicas. E, paralelamente a tudo isto ocorreram e ocorrem “conflitos bélicos como os que observamos na Ucrânia, Síria e outros países”.
Grass lamentou que na Europa não haja atualmente um grupo de líderes com capacidade suficiente para assegurar a paz no Continente, comparativamente àquele tempo em que “tínhamos Olof Plame na Suécia, Willy Brandt na Alemanha e Bruno Kreisky na Áustria, três políticos europeus que agiam como verdadeiros homens de Estado. Hoje faltam-nos políticos com esse calibre”.
O escritor criticou ainda a chanceler Angela Merkel por ignorar as iniciativas políticas de jovens escritores e não responder ao manifesto, dirigido a ela, sobre a espionagem dos Estados Unidos na Alemanha: “É um escândalo que a senhora Merkel não tenha dado uma resposta” – lamenta.  
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Por seu turno, o Papa Francisco já enunciou, pelo menos duas vezes, o espectro da marcha da III Guerra Mundial aos pedaços ou em fragmentos.
Após a sua visita de cinco dias à Coreia do Sul, o Papa fez, na viagem de regresso ao Vaticano, a 18 de agosto de 2014, as mais duras críticas aos confrontos mundiais, dizendo que “vivemos a Terceira Guerra Mundial, mas em fragmentos”.
Acentuando que as guerras regionais estão a atingir “um nível de crueldade espantoso”, Francisco defendeu a licitude de se “interromper uma agressão”, mas sem varrer tudo: “Quando há uma agressão injusta, posso dizer que é lícito parar o agressor. Mas ressalto o verbo ‘parar’, porque isso não significa bombardear ou fazer uma guerra” – afirmou comentando os ataques norte-americanos ao Iraque com o objetivo de destruir rebeldes jihadistas do Estado Islâmico (EI), que acabava de declarar a criação de um califado e começara a perseguir civis e cristãos.
Mais afirmou, referindo-se aos conflitos simultâneos que atingem o mundo – como as crises na Síria, no Iraque, na península coreana, no continente africano na Faixa de Gaza – que “a tortura se tornou quase um meio ordinário. Esses são os frutos da guerra. Estamos em guerra”.
Também a 13 de setembro de 2014, o Papa reafirmou, no cemitério militar de Fogliano Redipuglia, no norte de Itália, que se pode falar de uma terceira Guerra Mundial na atualidade, que se desenvolve “por partes” entre “crimes, massacres e destruições”. E apelou à paz para travar a “loucura bélica”.
A reiteração das suas afirmações sobre a Guerra ocorreu naquele lugar aonde o Papa Francisco se deslocou na manhã do predito dia para recordar os mortos da Primeira Guerra Mundial, quando se cumpriam 100 anos desde o seu início. Estavam presentes milhares de pessoas, com destaque para os cardeais de Viena, Christoph Schönborn, e de Zagreb, Josip Bozanic, e bispos da Eslovénia, Áustria, Hungria e Croácia.
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Uma leitura retrospetiva de recortes de imprensa levou-me ao site de um blogue “ordem natural” – http://ordem-natural.blogspot.pt/2012/06/3-guerra-ja-comecou.html, acedido hoje, 18 de fevereiro. De lá retiro algumas informações preciosas que parecem dar razão quer a Günter Grass quer ao Papa Francisco e que amalgamo com achegas minhas e a minha visão das coisas.
Lendo o panorama político do dealbar do século XX, é de reconhecer que factos muito importantes que indiciavam a situação da iminência de guerra “já agiam por baixo das relações diplomáticas. O crime de assassinato do Arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do Império Austro-Húngaro, perpetrado a 28 de junho de 1914, alegadamente atribuído a um elemento integrante da sociedade secreta Mão Negra, foi a gota de água para a eclosão do primeiro conflito “de proporções globais de toda História”, mas não o seu único fator determinante.
Situação semelhante se verifica aquando da Segunda Grande Guerra. A invasão da Polónia foi o facto detonador, mas o ambiente estava já criado por muitos fatores de que se destacam o antissemitismo hitleriano e o seu pangermanismo, a emergência dos sistemas totalitários – bolchevismo, nazismo, fascismo e imperialismo – e vários tipos de nacionalismo, além das não ultrapassadas sequelas da grande repressão.
Daí se infere que um conflito armado resulta de um complexo caótico de situações a ele conducentes, entre os quais emerge um facto que se torna pretexto de eclosão visível da guerra.
O mencionado bloguista faz o levantamento de hodiernas situações análogas às existentes nos alvores do século XX, salpicadas de factos “que de uma forma ou de outra colaboraram decisivamente para a eclosão da guerra: corrida armamentista; disputas de hegemonia política; e alianças frágeis – a que podemos acrescentar, nos dias de hoje, a emergência de manifestações organizadas de nacionalismos, xenofobias, extremismos (à esquerda e à direita) e populismos, o imperialismo do poder financeiro, a fragilidade desigual dos blocos geopolíticos (o peso relativo da China, a fragilidade da União Europeia, a falência da política e da estratégia militar norte-americana), o fosso cada vez mais profundo entre ricos e pobres e o descrédito generalizado da política – que se afasta dos cidadãos e se deixa manobrar pelos poderes económico e financeiro, que, no seu furor autofágico e heterofágico, não se importam de tudo desmantelar.
Olhando para o início deste Século XXI, é insofismável que os três fatores acima evidenciados pelo bloguista “se repetem pelo menos desde 2001” e também “é possível perceber alguns outros, frequentemente mais perniciosos e influentes”, bem como outros “cujos efeitos podemos apenas imaginar, já que são inéditos na História”: o potencial atómico do Irão; a guerra civil na Síria; a falência da economia mundial; a crise do dólar e do euro; a revolução islâmica, com a instituição do Estado Islâmico; o terrorismo que pode surpreender a todo o momento; o falhanço das revoltas contra as ditaduras dos países árabes da África a norte e a nordeste ou contra a ditadura iraquiana; a alastrante perseguição aos cristãos e, mesmo, a judeus e a muçulmanos; a dureza e a instabilidade na Coreia do Norte; a formação de um eixo totalitário na América Latina; a aproximação Russo-Chinesa; e, em resultado da crise dos países da Europa do sul, nomeadamente da Grécia, o possível desmantelamento da União Europeia. Há já quem fale na vertebração de três eixos: Atenas-Moscovo; Berlim-Paris; Londres-Madrid-Roma.
Para uma perceção mais clara e global da real situação geopolítica atual, devemos tomar em consideração que, além dos problemas pretensamente insolúveis que envolvem religião, política, comércio, cultura e outros elementos que separam os povos, “existem também aqueles cujos interesses estão diretamente ligados aos meios ou resultados necessários ou previstos para uma guerra”.  
Por outro lado, a indústria das armas, dos medicamentos, dos meios informáticos, das comunicações, das energias e dos combustíveis, além de outros, “obtém lucros fabulosos com revoluções, guerras, revoltas e conflitos armados de maneira geral”. E os céticos devem ficar persuadidos de que “a História já provou que, mesmo numa guerra mundial, sempre é possível a alguns alcançar lucros mágicos e abrigar-se em segurança enquanto muitos morrem em vão”.
Sendo certo e claro que o ambiente é propício e sabendo que interesses diabólicos estão a agir como nunca, nomeadamente através da espionagem, sobretudo a materializada em escutas de líderes de países soberanos, mesmo de grandes potências, e subsequente revelação ufanosamente exposta, “as chances de que os desdobramentos futuros levem o mundo a uma guerra são enormes”. Por isso, os amigos da paz não podem dormir nem desarmar.
Em suma, a III Guerra Mundial pode já ter efetivamente começado, faltando somente um facto agudo, aquele que possa ficar para a História como responsável pela eclosão do conflito.
Face à atual situação efervescente, o bloguista pergunta-se: O Irão usará sua bomba? Israel vai atacar preventivamente o Irão? A Síria vai tornar-se uma Líbia bem armada? Teremos (mais) algum assassinato? Surgirá um novo eixo geopolítico?
E conclui que “qualquer um destes factos pode se desdobrar e envolver muitas nações”, sendo possível “saber como começa uma guerra, mas nunca se sabe(ndo) como ela termina”.
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Terão razão o Papa e Günter Grass? Não deverão os dirigentes das nações e dos blocos geopolíticos ler os sinais dos tempos?

As Bem-aventuranças na rota da XXX Jornada da Mundial Juventude

A mensagem do Papa Francisco para a juventude vem datada de 31 de janeiro passado, dia da celebração da Memória Litúrgica de São João Bosco, educador da juventude pelas vias da orientação, liberdade, reforço das boas atitudes e pela presença e proximidade.
A novidade emblemática da mensagem é a assunção de São João Paulo II como padroeiro das jornadas mundiais da juventude (JMJ), que as instituiu há 30 anos, na sequência da proclamação do ano de 1985 como ano mundial da juventude por parte da ONU. Por outro lado, a jornada mundial da juventude deste ano conduz à última etapa do itinerário preparativo do próximo grande encontro mundial dos jovens, em 2016, na cidade de Cracóvia, de cuja arquidiocese João Paulo II fora arcebispo antes de ascender ao sumo pontificado.
O Papa escolheu, desde o ano passado, como guia da caminhada juvenil, as bem-aventuranças, constantes do sermão da montanha do Evangelho (cf Mt cap 5-7). E, nesse ano, propôs a reflexão em jeito sinodal (reflexão conjunta e caminhada conjunta à descoberta) sobre a pobreza em espírito (cf Mt 5,3) como o primeiro passo – programático corajoso e aventureiro – para a busca da felicidade ou bem-aventurança. Trata-se de uma postura revolucionária porque totalmente em contradição com os critérios do mundo – o ter, o poder, o aparecer…
A inserção da palavra “felizes” ou “bem-aventurados” nove vezes neste primeiro sermão de Jesus serve de tema ou refrão que evoca a chamada do Mestre a percorrer em conjunto a genuína estrada da felicidade, contra todos os obstáculos e respondendo a todos os desafios.
Para este ano de 2015, o Pontífice aponta a 6.ª bem-aventurança, Felizes os puros de coração, porque verão a Deus (Mt 5,8). Puros de coração são aqueles que olham o mundo com a inocência, a simplicidade e a sinceridade de criança. É um sentido mais amplo (embora o postule) que a castidade ou a perfeição moral.
Segue-se uma breve síntese e comentário do excelente documento.
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O Papa desenvolve a sua proposta em torno de três eixos: o desejo de felicidade; a pureza de coração; e a visão de Deus. E termina com uma palavra paranética sobre a ida a Cracóvia.
A busca da felicidade é comum a todas as pessoas de todos os tempos, lugares e idades, porque resulta do irreprimível desejo de felicidade inscrito por Deus no coração de cada ser humano.
Segundo os primeiros capítulos do livro do Génesis, a felicidade a que somos chamados consiste na “perfeita comunhão com Deus, com todos os irmãos, com a natureza e connosco próprios” – sem máscaras ou subterfúgios, mas com a pureza e transparência com que a luz divina, incidindo sobre o caminho do homem, o levava a aceder livremente a Deus, à sua intimidade e visão e permeava as relações humanas. 
Com a cedência do homem à tentação, quebra-se a relação de comunhão, o pecado entra na história humana, perde-se a bússola da referência da felicidade e a luz sofre a ofuscação das trevas. Homem e mulher deram-se conta da sua nudez, sentiram a necessidade de a cobrir e de esconder-se de Deus, começando a esconder-se uns dos outros e a enganar-se mutuamente.
Sobretudo nos salmos, encontra-se o clamor profundo da humanidade a pedir luz e a perguntar quem dará a felicidade (cf Sl 4,7). E Deus, na sua infinita bondade, após o envio dos patriarcas e profetas, enviou o seu filho Jesus, através de quem assume um rosto humano. E “com a sua encarnação, vida, morte e ressurreição, resgata-nos do pecado e abre-nos horizontes novos”, bem como a satisfação das nossas “expectativas tantas vezes desiludidas por falsas promessas humanas”. E Francisco cita palavras de João Paulo II, em 19 de agosto de 2000:
Ele é a beleza que tanto vos atrai; é ele quem vos provoca com aquela sede de radicalidade que não vos deixa ceder a compromissos; é Ele quem vos impele a depor as máscaras que tornam falsa a vida; é Ele quem vos lê no coração as decisões mais verdadeiras que outros quereriam sufocar. É Jesus que, suscita em vós o desejo de fazer da vossa vida algo grande (da Vigília de Oração em Tor Vergata).
A pureza de coração é a condição e via da felicidade. Para o homem bíblico, coração é “o centro dos sentimentos, pensamentos e intenções da pessoa humana” – recorda o Papa. E, “se a Bíblia ensina que Deus olha ao coração e não às aparências” (cf 1Sam 16,7), podemos concluir que é pelo coração que podemos ver a Deus. Além na noção bíblica de coração, o Papa apresenta igualmente o sentido da palavra “puro”. O vocábulo grego usado por Mateus é kátaros, a significar limpo, claro, livre de substâncias conspurcantes e epidémicas. Porém, Jesus quer desligar a pureza que preconiza da pureza meramente ritual e exterior, que proibia o contacto com as coisas e as pessoas consideradas impuras (incluindo os leprosos, mulheres e estrangeiros) e impunha a lavagem das mãos e dos copos. Assim, Ele afirma categoricamente:
Nada há fora do homem que, entrando nele, o possa tornar impuro. Mas o que sai do homem é que o faz impuro. (…) Porque é do interior do seu coração que saem os maus pensamentos, as prostituições, os roubos, os assassínios, os adultérios, as ambições, a perversidade, a má fé, a devassidão, a inveja, a maledicência, o orgulho, os desvarios (Mc 7,15.21-22).
Nestes termos, a questão da pureza de coração tem a ver sobretudo “com o campo das nossas relações”, devendo cada um “aprender a discernir aquilo que pode contaminar o seu coração, formando em si mesmo a consciência reta e sensível, capaz de discernir qual é a vontade de Deus: o que é bom, o que Lhe é agradável, o que é perfeito” (Rm 12,2). Impõe-se-nos – diz o Pontífice – uma salutar atenção para com a salvaguarda da criação, a pureza do ar, da água e dos alimentos, mas sobretudo é preciso “salvaguardar a pureza do que temos de mais precioso: os nossos corações e as nossas relações – uma ecologia humana que nos ajudará “a respirar o ar puro que provém das coisas belas, do amor verdadeiro, da santidade”.
Francisco constata que “ o período da juventude é aquele em que desabrocha a grande riqueza afetiva contida nos corações, o desejo profundo dum amor verdadeiro, belo e grande”. Por isso, pede que não permitam os jovens que “este valor precioso seja falsificado, destruído ou deturpado”, sobretudo com “a manipulação do próximo para objetivos egoístas, por vezes como mero objeto de prazer”, que acaba por ferir e entristecer o coração. Por outro lado, é preciso não ter medo do amor verdadeiro, como ensina o apóstolo Paulo. E o Papa Francisco apresenta aos jovens a mesma cartilha que apresentou aos novéis cardeais – o hino a caridade:
O amor é paciente e prestável; não é invejoso, arrogante ou orgulhoso; nada faz de inconveniente; não procura o próprio interesse; não se irrita nem guarda ressentimento. Não se alegra com a injustiça, mas rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor jamais passará. (1Cor 13,4-8).
E, paralelamente, convida-os a tomar posição contra a tendência generalizada da banalização do amor, redutível ao aspeto sexual, desnudando-o das caraterísticas essenciais da beleza e comunhão, fidelidade e responsabilidade, mercê da cultura do provisório e do medo instalado de fazer escolhas definitivas. Em suma, protestando a sua confiança nos jovens, pede-lhes que vão “contra a corrente e tenham a coragem de ser felizes”. E afiança que, se se lançarem à descoberta do rico ensinamento da Igreja, perceberão que o cristianismo não é um complexo de proibições asfixiantes dos desejos de felicidade, mas “um projeto de vida que pode fascinar os nossos corações”.
A visão de Deus é um imperativo do apelo divino inscrito no coração humano de procura do rosto de Deus (cf Sl 27/26,8). Mas, a cada momento, nos confrontamos com a condição de pecadores. Ora, para subir à montanha de Deus e penetrar no santuário, é preciso ter mãos limpas e coração puro (cf Sl 24/23,3-4). Não obstante, não há motivo para medo, pois Deus é quem dá o primeiro passo e nos purifica. Quando Isaías, chamado a falar em nome de Deus, se queixa da impureza de seus lábios, o Senhor o purifica por meio do anjo (cf Is 6,5.7). Pedro, vendo o milagre da pesca no lago de Genesaré, sentiu-se indigno, mas o Mestre o afoitou prometendo-lhe ser pescador de homens” (cf Lc 5,8.10). E hoje a visão de Deus opera-se em Cristo, pois, quando o discípulo Lhe pede a visão do Pai, Ele responde: “Quem Me vê, vê o Pai” (cf Jo 14,8.9).
Porém, há que pensar que o convite do Senhor se dirige a cada um e não apenas a alguns, bastando, apesar de todos sermos pecadores e precisarmos de purificação, “tomar a decisão de se deixar encontrar por Ele” e de O procurar incessantemente, sobretudo “no sacramento da Reconciliação, momento privilegiado de encontro com a misericórdia”, que purifica e recria.
E Francisco indica aos jovens a exemplaridade de Teresa de Ávila e do camponês de quem o cura d’Ars se abeirou. Teresa, nascida em Espanha há quinhentos anos, dizia já em criança que queria ver Deus, tendo depois descoberto o caminho da oração como relação íntima e amiga com Aquele que nos ama e nos faz sentir amados. Por sua vez, o referido camponês respondia: “quando estou em oração diante do sacrário, eu olho para Ele e Ele olha para mim”.
O encontro com Cristo realiza-se também através da leitura frequente da Sagrada Escritura, onde se descobre que se pode ver Deus também “no rosto dos irmãos, especialmente dos mais esquecidos – os pobres, os famintos, os sedentos, os forasteiros, os doentes, os presos” (cf Mt 25,31-46). E o Papa ensina que, “para ingressar na lógica do Reino de Deus é preciso reconhecer-se pobre com os pobres”, com um coração puro, que “é necessariamente também um coração despojado, que sabe abaixar-se e partilhar a sua vida com os mais necessitados”. Por outro lado, o encontro com Deus pela oração, pela leitura da Bíblia e pela vida fraterna facilita o melhor conhecimento de Deus e de nós mesmos, como aconteceu com os discípulos de Emaús, que se sentiram, inflamados pela voz de Jesus, que lhes abriu os corações para reconhecerem a sua presença e o seu projeto de amor (cf Lc 24,13-35).
Depois, o Papa contesta que a vocação ao matrimónio para constituir família esteja “fora de moda”, tanto assim que a “comunidade eclesial inteira” vive hoje um período especial de reflexão sobre “a vocação e a missão da família na Igreja e no mundo de hoje”. Ao mesmo tempo, apela a que os jovens tomem em consideração o chamamento à vida consagrada e ao sacerdócio (dar-se plenamente a Cristo e ao serviço da Igreja). Ou seja, cada um deve interrogar-se sobre a vontade de Deus a seu respeito e dizer-Lhe “sim”, na certeza de “a vontade de Deus é a nossa felicidade”.
Finalmente, em caminho para Cracóvia, há que refletir “quantas descobertas importantes – sobretudo as de Cristo como Caminho, Verdade e Vida (cf Jo 14,6) e a da Igreja com grande e acolhedora família” e quantas mudanças de vida e decisões vocacionais brotaram das jornadas mundiais.
***
Francisco, tal como julga “cardinal” o papel dos recentes purpurados, também assume a “cardinalidade” existencial dos jovens, a quem propõe o mesmo hino à caridade que propôs aos cardeais parafraseando Paulo no capítulo 13 da 1.ª carta aos Coríntios. Para tanto, importa que eles assumam esta cardinalidade na vida da família da sociedade e da Igreja. E o Papa não deixa de escalpelizar a tentação sexista, hedonista e manipuladora do próximo em que os jovens caem, por sua culpa ou por culpa do “sistema” por trás do qual se escondem as pessoas, sobretudo as adultas, por via do negócio lucrativo.
E Francisco contrapõe a via do amor como o Novo Testamento o apresenta e desafia todos e cada um à procura do encontro com Deus que ama e que purifica – na oração, na leitura assídua da Bíblia, na vida e partilha fraternas, no conhecimento de si, na visão do rosto de Deus em Cristo e na do rosto de Cristo nos irmãos (mormente os mais marginalizados), na procura da vontade de Deus, na resposta à vocação (matrimonial, consagrada ou sacerdotal) e na celebração da misericórdia através do sacramento da Reconciliação.

É que a felicidade é uma aventura acessível a todos e da qual ninguém pode ter medo. Basta procurá-la por caminhos adequados, embora nem sempre fáceis – e que sobressai a pureza de coração, que nos faz ver a Deus. E exemplos não faltam: Teresa de Ávila, Cura d’Ars e o dito camponês, João Bosco e João Paulo II… Espero que surjam também Paulo VI e Bento XVI.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Quando o saber se ajoelha à lógica do ter…

Soube-se hoje, dia 16 de fevereiro, pelo Jornal de Notícias (JN), que se demitiu das funções de diretor do Departamento de Eletrónica, Telecomunicações e Informática da Universidade de Aveiro (UA) o professor Arnaldo Martins e renunciou ao cargo de Presidente do Conselho Geral (cargo que ocupava desde 2009) daquela instituição do ensino superior o octogenário Alexandre Soares dos Santos, antigo líder do grupo Jerónimo Martins.
O motivo destes atos de demissão e renúncia prendem-se com incidentes ocorridos na sessão daquele órgão de conselho superior e de supervisão em sessão de dias antes do Natal. Arnaldo Martins foi apresentar ao conselho o balanço do seu mandato de diretor daquele departamento, que é uma das bandeiras da UA. O Presidente não gostou do que ouviu, irritou-se, interrompeu a apresentação e atacou duramente o apresentador, um homem com 58 anos de idade e 35 anos de carreira na UA.
A razão daquela postura de Soares dos Santos prende-se com a alegada falta de respeito para com o conselho geral presente naquela apresentação como com o facto de o presidente ter confessado que “não tinha percebido nada do que o departamento fazia”. O então diretor do departamento em causa mostrou-se surpreendido, alegou que fez a apresentação nos termos usuais e declarou-se desautorizado publicamente – pelo que apresentou de imediato o seu pedido de demissão, apesar de considerar positivo o seu mandato, “nas condições em que vivemos”. Mantém-se interinamente como diretor até à sua substituição.
Seis horas depois, o presidente, que já tinha caído em si e se sentira mal pela forma como reagira, terá sido abordado por outro dos conselheiros, o qual, em jeito de ajuste de contas, o confrontou duramente pela forma como atacara Arnaldo Martins. Por seu turno, Soares dos Santos, desagradado pela forma como foi enfrentado, optou pela renúncia ao cargo.
Segundo o que refere o JN, o conselho geral (CG) já tinha sido palco de episódios similares, que não chegaram a desfecho como o deste episódio, sobretudo no atinente a apresentações dos dirigentes dos respetivos departamentos. O presidente do CG parece que era useiro e vezeiro no alinhamento com “critérios empresariais de custo-benefício e de resultados de curto prazo, tidos por pouco adequados a alguns tipos de ciência e de investigação”, em especial para determinado setor da UA. Ora, todos sabemos que o tempo da aprendizagem é diferente do tempo do trabalho e também o tempo da empresa é diverso do tempo da investigação e da ciência.
Por sua vez, o reitor Manuel Assunção, que se escudou no enunciado de que “as renúncias devem ser explicitadas por quem as pediu” (“apresentou”, diria eu), desmentiu o que se afirma da postura habitual de Soares dos santos. Afiança que nada disso é verdade, pois o antigo líder do grupo Jerónimo Martins “teve a humildade de perceber que a cultura empresarial não é a do mundo académico”. Ademais, o seu relacionamento com os restantes membros do CG e com os outros académicos “sempre foi muito bom”. E concluiu que “foi uma enorme perda para a Universidade de Aveiro”.
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Sobre o episódio ou episódios, oferece-se-me tecer dois tipos de comentários: um ad casum; e outro de caráter genérico.
Comentando o sucedido, quero afirmar, em primeiro lugar, que o presidente de um órgão colegial de composição tão alargada e sem funções executivas tem fundamentalmente o papel de moderador, competindo-lhe: abrir as sessões, encerrá-las e suspendê-las (quando o julgar necessário ou conveniente); cumprir e fazer cumprir o regimento; introduzir neutralmente o debate; dar a palavra e retirar a palavra (quando o orador, depois de advertido, ultrapassou o seu tempo ou proferiu enunciados insultuosos); marcar o tempo de votações e proclamar resultados. Raramente, cabe ao presidente tecer comentários de caráter técnico-científico ou tomar posição própria a partir do lugar e da condição de que preside (se o pretende fazer, deve fazer substituir-se na mesa e ocupar o seu lugar de membro do colégio). Por outro lado, é consensual que, nestes órgãos colegiais de direção estratégica, quem lá vai fazer as suas presentações (projetos, relatórios, balanços…) costuma dispor do tempo adequado à explanação das peças que lhe cabe apresentar, sendo temerário urgir junto do apresentante o tempo, bem como ajuizar se está ou não a sair do tema, dada a normal complexidade das questões técnicas.
Pelas declarações de Soares dos Santos (às vezes, tão arrogantes quanto sensatas), duvido de que o senhor hoje disponha desta paciência e disciplina. Quem está habituado a mandar, quer mandar e tem a certeza de que sabe tudo e, quando dá conta de que não sabe, irrita-se, indispõe-se. É óbvio que Soares dos Santos, inteligente como é e dada a marca empresarial que não se lhe apaga, iria reconhecer o seu erro – o que não quer dizer que oferecesse condições de mudança de postura.
Acredito que o reitor fale com razão do bom relacionamento do “presidente” com os outros elementos do CG e com os académicos. Era o que faltava! Todavia, penso que não lhe é lícito branquear a situação, remetendo para outrem a explicitação das renúncias ou afiançando o alegado facto de o senhor empresário saber ou ter percebido a diferença entre a cultura académica e a empresarial. Por um lado, se o presidente do CG não tem de se explicar publicamente porque não representa a instituição, o mesmo não acontece com o reitor, que, representando a Universidade, deve explicações à comunidade científica e à sociedade civil. Por outro lado, o reitor deve atravessar-se pela sua universidade e pelos responsáveis dos seus departamentos.
Quanto aos critérios de custo-benefício, eles têm de ser cuidados em qualquer organização, quer se trate de uma empresa, quer se trate de uma escola ou de uma universidade. E não se devem hostilizar os critérios económicos. São mesmo bem-vindos. O que deve ser rejeitado em absoluto é o critério economicista e excessivamente financeiro, a que tudo tenha de subordinar-se. A previsão e afetação de recursos, também os financeiros, é inerente a qualquer programa ou projeto. Importa, contudo, ponderar a adequação da afetação de recursos ao respetivo projeto, programa ou ação; e aferir se é possível e plausível esperar resultados a curto prazo, a médio ou somente a longo, tendo em linha de conta a especificidade de cada projeto, programa, ou ação. O mal acontece quando queremos opinar sobre aquilo que nos escapa!
Em termos gerais, parece-me que se vem cometendo um erro de perspetiva. Sendo de saudar a interação escola/comunidade e universidade/malha empresarial e ou de serviços, é necessário do meu ponto de vista observar alguns princípios:
- A cooperação entre partes não pode implicar a anulação ou a submissão de qualquer uma, antes devendo cada uma posicionar-se num patamar de igualdade.
- Devem ser respeitadas as especificidades de cada uma, sem que uma possa invadir as competências da outra.
- A cooperação será válida se visar objetivos comuns, se dirigir ao bem comum e aceitar a mútua crítica construtiva, arredando-se toda e qualquer espécie de postura espezinhante, adulatória, destrutiva ou sistematicamente contestatária.
- Muito embora a sociedade tenha a expectativa de a escola e a universidade perceberem o devir social e responderem, quanto possível, às razoáveis aspirações e objetivos da sociedade, nem por isso se pode aceitar que a sociedade ou alguma (s) das suas empresas ou algum (uns) serviços dirijam superiormente a instituição escolar e/ou universitária ou as organizações em que estas se materializam.
- Tanto as escolas (e universidades) como as empresas e serviços podem assumir critérios e modus operandi importados de um lado ou de outro, mas não de forma acrítica e muito menos em jeito de cópia/colagem.
- Por isso, nunca percebi nem aceitei que um conselho geral de escola ou conselho geral de universidade, enquanto órgão superior e de supervisão ou de direção estratégica possa ter na sua composição a totalidade ou a maioria de elementos exteriores à escola/universidade, muito menos a presidência.
- Do meu ponto de vista, as entidades representativas da sociedade, do mundo empresarial ou dos serviços poderiam e deveriam ter assento num órgão consultivo, cuja composição poderiam integrar em maioria ou até na totalidade, reservando a presidência para o dirigente máximo da organização académica respetiva, que ali teria um papel moderador e de primeiro ouvinte.
- De resto, há tantas formas de escola/universidade e empresa e/ou serviço servirem em regime de igualdade, pelo lado das parcerias e dos acordos de prestação de serviços, com o clausulado de mútuas obrigações, direitos e contrapartidas.
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Finalmente, quando vejo um CG de universidade presidido por Fernando Ulrich ou Soares dos Santos, pergunto-me se um banco ou uma empresa aceitaria ser superiormente dirigida pelo reitor de uma universidade ou pelo diretor de uma escoa básica e secundária, a não ser por algum motivo de oportunidade e por tempo muito limitado. E, se cabe à malha empresarial trilhar as vias do crescimento e do desenvolvimento, compete ao poder político formular as opções estratégicas e cabe à escola, sobretudo à universidade, ser o leme ou o motor lúcido do desenvolvimento. Aqui, peço desculpa ao professor Marçal Grilo (que escutei no passado dia 14 na entrevista A propósito na SIC Notícias), mas sigo o professor Cavaco Silva (estou à vontade, pois, o tenho criticado bastante), que proferiu, no outro milénio, mais exatamente a 21 de novembro de 1992, um enunciado que contém uma frase sentenciosa que nunca mais esqueci: “Estamos numa escola. E a escola é o verdadeiro motor do desenvolvimento sustentável”. E é mesmo! Por isso, não é lícito desvirtuá-la.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Que esperar do novo cardeal Dom Manuel Clemente?

Dom Manuel José Macário do Nascimento Clemente, patriarca de Lisboa, ficou alçado, a partir do passado dia 14 de fevereiro, à dignidade de cardeal-presbítero, com o título de Santo António dos Portugueses in Campo Marzio. Com esta dignidade cardinalícia (não honorífica), o novo purpurado tem direito ao tratamento de “Eminência” e à precedência nas receções eclesiásticas em relação aos arcebispos, bispos, outros clérigos e demais fiéis.
Porém, esta dignidade não configura “um prémio, o ápice de uma carreira, uma dignidade de poder ou de distinção superior”, de acordo com a carta enviada por Francisco a cada um dos novos cardeais, mas “um serviço de ajuda, apoio e proximidade especial à pessoa do Papa e para o bem da Igreja”. Espera-se de Dom Manuel José (no patriarcado de Lisboa, Dom Manuel III) o seu “compromisso diário para manter longe aquelas considerações de poder e de distinção superior (em que, por vezes, se insinua “o espírito de mundanidade que embriaga mais do que o álcool em jejum, desorienta e separa da cruz de Cristo”) e, sobretudo, “para recordar que ser cardeal significa incardinar-se na diocese de Roma para dar testemunho da Ressurreição do Senhor e dá-lo totalmente, até ao sangue, se for necessário”. Esta doutrina vem compendiada na fórmula de juramento proferida por cada um dos novos cardeais, configurando o compromisso que assumiu e para o que impetrou a ajuda de Deus:
(…) Juro doravante e enquanto viver, ser constantemente fiel a Cristo e ao seu Evangelho, obediente à santa Igreja apostólica romana e ao bem-aventurado apóstolo Pedro na pessoa do Sumo Pontífice Francisco e seus sucessores canonicamente eleitos; conservar sempre, por palavras e pelo modo de proceder, a comunhão com a Igreja Católica; nunca divulgar notícias e aspetos secretos que me tenham sido confiados e cuja divulgação redunde em prejuízo ou inonorabilidade da Igreja; e cumprir com grande diligência e fidelidade as missões a que for chamado no meu serviço à Igreja, segundo o direito”.
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Por sua vez, o Papa na homilia da Celebração da Palavra que teve lugar no Consistório Ordinário Público para a criação de novos Cardeais e para algumas Causas de Canonização, apresentou o enfoque da espiritualidade e ação pastoral do cardinalato. O próprio nome “cardeal” – diz – evoca a “charneira”, a junção cardinal, principal. Não é algo de acessório, decorativo que faça pensar numa honorificência, mas num eixo (gonzo, dizia eu há dias) ou ponto de apoio de movimento essencial para a vida da comunidade. “Vós sois junções cardinais e estais incardinados na Igreja de Roma, que preside à universal assembleia da caridade – afirma o Bispo de Roma, citando a Lumen Gentium (13) e o prólogo da carta de Inácio de Antioquia aos Romanos. Se na Igreja toda a presidência deriva da caridade, também nela tem de ser exercida e deve-a ter como fim. Ora, tal como a Igreja de Roma preside na caridade, assim cada Igreja particular é chamada a presidir à caridade e na caridade.
Nestes termos, o Pontífice oferece como palavra orientadora daquela celebração e do ministério cardinalício o hino à caridade da 1.ª Carta de Paulo aos Coríntios (cap. 13). Depois, invoca a ajuda da Virgem Maria, nossa Mãe, que deu ao mundo Aquele que é o “caminho que ultrapassa todos os outros” (cf 1 Co 12,31): Jesus, Caridade encarnada. E, parafraseando Paulo, sublinha as caraterísticas da caridade, a começar pela magnanimidade e benevolência, para vincar que, ao ampliar-se mais a responsabilidade no serviço à Igreja, mais se deve ampliar o coração, à medida do coração de Cristo. E associa a magnanimidade à catolicidade, enquanto amor a todos, sem limites (amar o que é grande sem negligenciar o que é pequeno; amar as coisas pequenas no horizonte das grandes – ter a dimensão holística para agir localmente), mas simultaneamente na fidelidade “às situações particulares e com gestos concretos”. Por si, benevolência é a intenção firme e constante de querer sempre o bem e para todos, incluindo aqueles que não nos amam.
Também o Apóstolo diz que a caridade não é invejosa nem arrogante nem orgulhosa. Porém, os seres humanos (todos, e em todas as idades da vida) sentem-se inclinados à inveja e ao orgulho por via da nossa natureza ferida pelo pecado. “E as próprias dignidades eclesiásticas não estão imunes desta tentação” (confessa). Mas pode sobressair ainda mais em nós a força da caridade, que transforma o coração de tal modo que “já não és tu que vives, mas Cristo que vive em ti”.
Ademais, a caridade não falta ao respeito, não procura o seu próprio interesse. Ou seja, quem vive na caridade descentralizou-se de si mesmo, enquanto quem vive autocentralizado falta ao respeito, mesmo que não se dê conta disso, porque o respeito “é a capacidade de ter em conta o outro, a sua dignidade, a sua condição, as suas necessidades”. O autocentralizado procura o seu próprio interesse, parecendo-lhe isso normal e quase um dever.
A caridade, segundo Paulo, não se irrita, não leva em conta o mal recebido. E o Papa comenta:
Ao pastor que vive com as pessoas, não faltam ocasiões para se irritar. E o risco de se irritar é ainda maior nas relações entre nós, irmãos, embora tenhamos efetivamente menos desculpa. Também disto é a caridade, e só a caridade é que nos liberta. Liberta-nos do perigo de reagir impulsivamente, dizer e fazer coisas erradas; e sobretudo liberta-nos do risco mortal da ira retida, aninhada no interior, que leva a ter em conta os malefícios recebidos. Isto não é aceitável no homem de Igreja.
Também, na ótica do Apóstolo, a caridade não se alegra com a injustiça; rejubila com a verdade. “Quem é chamado na Igreja ao serviço da governação deve ter sentido tão forte da justiça que veja toda e qualquer injustiça como inaceitável, mesmo a que pareça vantajosa para si ou para a Igreja”. E rejubila com a verdade: bela expressão – considera Francisco, que ensina:
O homem de Deus é alguém que vive fascinado pela verdade e que a encontra plenamente na Palavra e na Carne de Jesus Cristo. Ele é a fonte inesgotável da nossa alegria. Possa o povo de Deus encontrar sempre em nós a denúncia firme da injustiça e o serviço jubiloso da verdade.
Por fim, a caridade tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. Eis, em quatro palavras, um programa de vida espiritual e pastoral:
O amor de Cristo, derramado em nossos corações pelo Espírito Santo, permite-nos viver e ser assim: pessoas capazes de perdoar sempre; de dar sempre confiança, porque cheias de fé em Deus; capazes de infundir sempre esperança, porque cheias de esperança em Deus; que sabem suportar com paciência todas as situações e cada irmão e irmã em união com Jesus, que suportou com amor o peso dos nossos pecados.
Como nada disto provém de nós, mas de Deus, que é amor e realiza tudo isto, se formos dóceis à ação do Santo Espírito, então os cardeais devem ser incardinados e dóceis. Quanto mais incardinados estiverem na Igreja de Roma, tanto mais dóceis ao Espírito se devem tornar, para que a caridade dê forma e sentido a tudo o que são e fazem. Incardinados na Igreja que preside na caridade, dóceis ao Espírito, que derrama nos nossos corações o amor de Deus (cf Rm 5,5).
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Na concelebração Eucarística de hoje com os cardeais, a partir da cura do leproso por Cristo, leu-lhes a cartilha da lógica de Jesus e do caminho da Igreja: não só acolher e integrar com coragem evangélica os que batem à nossa porta, mas sair, ir à procura, sem preconceitos nem medo, dos afastados revelando-lhes gratuitamente o que gratuitamente recebemos. E referiu que o nosso único título de honra e sinal distintivo é a disponibilidade total para servir os outros. E apontou como exemplo de fidelidade e de intercessão Maria, Mãe da Igreja, que sofreu a marginalização por via das calúnias (cf Jo 8,41) e do exílio (cf Mt 2,13-23). Que Ela nos ensine a não temer a ternura e a compaixão; que nos revista de paciência acompanhando-nos no seu caminho, sem buscar os triunfos dum sucesso mundano; e que nos mostre Jesus e faça caminhar como Ele – suplica o Papa. É preciso, com os olhos fixos em Jesus e em nossa Mãe, “servir a Igreja de modo que os cristãos – edificados pelo nosso testemunho – não se sintam tentados a estar com Jesus, sem quererem estar com os marginalizados”. E Francisco exorta a:
Servir Jesus crucificado em toda a pessoa marginalizada, seja qual for o motivo; a ver o Senhor em cada pessoa excluída que tem fome e sede, que não tem com que se cobrir; a ver o Senhor presente também naqueles que perderam a fé, que se afastaram da prática da sua fé ou que se declaram ateus; o Senhor, que está na cadeia, que está doente, que não tem trabalho, que é perseguido; o Senhor que está no leproso, no corpo ou na alma, que é discriminado. Não descobrimos o Senhor, se não acolhemos de maneira autêntica o marginalizado. Recordemos sempre a imagem de São Francisco, que não teve medo de abraçar o leproso e acolher aqueles que sofrem qualquer género de marginalização. Verdadeiramente, amados irmãos, é no evangelho dos marginalizados que se joga, descobre e revela a nossa credibilidade!
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Eis o que se espera de Dom Manuel Clemente. Não que seja o chefe da Igreja Católica em Portugal por ser patriarca ou agora também cardeal. Como patriarca de Lisboa, tem as funções próprias do bispo na sua diocese e as obrigações com as dioceses sufragâneas como qualquer arcebispo metropolita (Braga, Lisboa e Évora) – vigiar pela observância da fé e disciplina eclesiástica; supletivamente, promover a visita pastoral, no caso do bispo diocesano não cumprir de modo notório, mas mediante autorização da Santa Sé, e promover a eleição do administrador diocesano sede vacante, se o colégio dos consultores a não fizer ou a tiver feito sem a observância das normas; e ter constituído o tribunal de apelo das dioceses sufragâneas. No caso de Lisboa, as sufragâneas são: Angra do Heroísmo, Funchal, Guarda, Leiria, Portalegre-Castelo Branco, Santarém e Setúbal.
O patriarca é o presidente da Conferência Episcopal e, como tal detém (como já detinha) responsabilidades especiais na Igreja Portuguesa (no sentido de presidir às sessões plenárias e ao secretariado permanente, bem como no de ser o rosto da Igreja ante a opinião pública). Mas este cargo é de eleição que pode recair na personalidade doutro bispo, como tem já acontecido.
Todavia, Sua Eminência Reverendíssima reside na diocese principal do país, que não será um país periférico no sentido que o Papa assume. Porém, é a Lisboa, junto do poder central que chegam quase todas as informações sobre a situação real do país (fazendo o poder tantas vezes orelhas moucas, mesmo quando abanadas pela Comunicação Social). E esta tem sido e é, sobretudo nos últimos tempos, bem confrangedora. Por cá passam muitas das situações que o Romano Pontífice denuncia audazmente, nomeadamente a anemia económica, o desemprego, os jovens- nem-nem, as ruturas, o empobrecimento, a exploração, a política austeritária… – a tal ponto que os pobres não podem esperar. Por isso, se espera que o novel cardeal também em Portugal lidere, pela sua capacidade dinamizadora e lucidez prestigiada, todo a movimentação e todas as ações que sejam necessárias para acompanhamento e solução das nossas periferias, dos nossos mais desfavorecidos, dos nossos pobres (de recursos e de orientação); que lidere a voz profética que denuncie a injustiça, a desigualdade, a exploração, o crime organizado e anuncie as razões da nossa esperança que a fé incute nas pessoas e nas comunidades e que nos leve ao forte e constante compromisso com o querer de Deus e as necessidades dos homens; e que o bulício da cidade não cale a sua voz em tempo algum ou alguma vez a sedução da urbe ou do poder ofusque a beleza da Igreja que se envolve com quem mais precisa, o rosto do Cristo profeta, sacerdote e pastor.
E, em Roma, espera-se que, por Cristo e pela Igreja, não esmoreça na solicitude por todas as Igrejas e não desista de aconselhar o Papa em tudo o que a consciência de português teólogo, pastor e homem das humanidades o determine, bem como desempenhe proficuamente todas as missões de que for encarregado pela suprema autoridade da Igreja.