segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Dom António Francisco dos Santos



O atual bispo de Aveiro, oriundo do clero da diocese de Lamego e depois de ter desempenhado o múnus de bispo auxiliar de Braga, foi nomeado bispo do Porto pela Santa Sé, no passado dia 21 de fevereiro. Esperada ou surpreendente, trata-se de uma provisão perfeitamente normal, pelo que se estranha quer a falsa prolação que, pelos vistos, dois jornais diários terão produzido pela quase certa designação de outro nome para antístite da diocese portuense, quer o reparo feito pelo semanário diocesano sediado na urbe visada em termos de espanto mal digerido, não sei se por causa do nome aventado, se pelo simples facto de a sua redação não haver sido contactada – diligência a que presumivelmente teria direito – ou ainda de pelo facto de, consultada a agência Ecclesia e o site do Vaticano, a respetiva redação nada ter encontrado no sentido da confirmação ou no do desmentido.
O certo é que a nomeação surgiu, foi divulgada e não se fizeram esperar nem os votos de congratulação da parte dos confrades na sucessão apostólica nem da estrutura diocesana que o vai acolher, bem como o elogio de autarcas e as saudações do bispo em transição da diocese de Aveiro, dedicada à Beata Joana e restaurada há 75 anos, para a vetusta diocese cuja cabeça é a cidade invicta ou a cidade da Virgem da Vandoma. Em tudo isto, é de anotar que um grupo de sacerdotes do clero aveirense terá ainda diligenciado no sentido de, à última hora, conseguir travar o intravável, o recuo tático da Santa Sé, mediante a Nunciatura Apostólica. A resposta “sacra” terá sido a da obediência ao Santo Padre, quando se sabe que o responsável material pela nomeação, evidentemente subscrita por Sua Santidade, é o Núncio Apostólico enquanto representante diplomático da Santa Sé junto da República Portuguesa (o papa Francisco não deixou de oportunamente fazer recomendações aos seus diplomatas sobre a escolha dos bispos, insistindo na adequação de perfil), ouvidas as entidades habituais, de que se destaca a Conferência Episcopal.
Ora, se o habitual processo de nomeação dos bispos merece reparos, nunca percebi qual o motivo por que o assunto, no quadro da colegialidade, não cai a sério e serenamente na mesa da discussão das conferências episcopais, do sínodo dos bispos, das agremiações do clero ou das associações laicais. Em contrapartida, o problema aflora, a meu ver, indevidamente em casos tão pontuais e quase sempre sobre o acontecimento. Lembro-me de que, quando um determinado sacerdote foi eleito bispo de Lamego, aliás administrador apostólico sede plena e bispo coadjutor, assumindo a diocese de pleno direito com o pedido de resignação do antecessor, se desenhou um ténue movimento de recusa, que não surtiu efeito. Alegava-se que se tratava de um sacerdote de gabinete, com uma certa idade e sem experiência pastoral. Fico a pensar que experiência pastoral detinha um recém-ordenado que era catapultado para uma paróquia logo a seguir aos estudos ou muitos dos que chegavam ao episcopado sem nunca terem sido párocos ou desempenhado funções congéneres e até João Batista Montini, o futuro papa Paulo VI, quando foi provido na arquidiocese de Milão (E como ele exerceu por lá o seu múnus episcopal!). Mas também um outro bispo, então auxiliar, depois residencial e agora emérito, em 1996, em Fátima, num encontro de sacerdotes, a partir a mesa a que presidia, ouviu uma crítica à forma como são designados os bispos. Por outro lado, quando o atual bispo da diocese de Viseu foi nomeado, também surgiram reparos públicos, porque era oriundo da respetiva diocese (como se fora o primeiro caso) e porque não passara antes como bispo auxiliar de outra diocese, como se fosse comparável ao vinho da madeira estragado que necessitasse de primeiro ir dar uma volta! 
É óbvio que recuso o facto de se contestar um processo de provimento, embora com boas razões, sobre o acontecimento e em torno de uma pessoa em concreto ou depois de tomada uma decisão, para mais já publicamente assumida. Depois, não aceito que a contestação a uma personalidade concreta, por mais legítima e razoável que seja, se escore em argumentos não sustentáveis.
Quanto a Dom António Francisco, se dúvidas tivesse havido sobre a sua capacidade de liderança pastoral, a sua passagem pela diocese de Aveiro tê-las ia dissipado. Se não, vejamos: é inatacável a cultura da proximidade que demonstrou, sobretudo acompanhando, vendo e ouvindo, venerando, acolhendo iniciativas, despertando outras; não se descuidou em proceder às visitas pastorais de forma arejada, eficaz e mobilizadora; tomou iniciativas emblemáticas como as tendas de praia, as cristotecas, a missão jubilar, a valorização das festas da padroeira diocesana; o espírito e atitude de fraternidade com que manteve a convivência assídua e possibilitou a palavra discreta e/ou pública aos antecessores; e encarou exemplarmente a dimensão da solicitude pastoral pelas outras Igrejas, não se fechando no seu mundo, mas comparecendo aonde era razoavelmente solicitado e desempenhando cabalmente as funções que lhe foram atribuídas nas diferentes comissões episcopais que integrou e/ou a que presidiu. Gostei de ouvir e reler o texto que pronunciou em saudação a Bento XVI, em Fátima a 12 de maio de 2010. Mais: continuou ou criou escola de lucidez na diocese. A título de exemplo, gosto de recordar que a pessoa que melhor avaliou analiticamente o pontificado de Bento XVI, do meu ponto de vista, terá sido a diretora do Secretariado Diocesano da Pastoral Juvenil e Vocacional de Aveiro, Ondina Matos.
De resto, que pode esperar a diocese do Porto do seu novo bispo? Não lhe bastará o seu eloquente e humilde propósito, não sei se antoniano se franciscano, contido nas suas palavras “Levo comigo o modo próximo de ser e de viver, a alegria convicta da fé e o desejo fraterno de a todos olhar com os olhos de Deus, para a todos servir como Deus quer e ama”? Medite-se ainda o desdobramento pragmático deste propósito: “
Quero dirigir uma palavra de muito afeto às crianças, aos jovens e às famílias. Serei irmão e presença junto dos doentes, dos pobres e dos que sofrem e com eles procurarei fazer caminho de bondade e de esperança na busca comum de um mundo melhor. Quero ser apóstolo das Bem-Aventuranças nestes tempos difíceis que vivemos. Sei que é grande a missão que agora me é confiada, mas vou com alegria e generosidade ao vosso encontro para amar a Deus e vos servir. (vd saudação à diocese do Porto).

Depois, não será de meditar a sua docilidade e abnegação em seguir o ditame profético – de escuta permanente da vox Dei, da cintilação da liderança solidária e da perceção do sensus ecclesiae – expresso na certeza por si enunciada “Sei que é ao Santo Padre, como Bispo de Roma e Pastor Universal da Igreja, que compete dar Pastores a todas as Igrejas. Lembrei nesse momento a Palavra de Deus ao Profeta Jeremias: “Irás aonde Eu te enviar” (Jer 1,7) – id et ib.
Finalmente, iremos encontrar neste bispo, que merece parabéns e que precisa da oração ardente da Igreja, da cooperação solidária e do aconselhamento leal, os predicados que Dom José Manuel Cordeiro topou em Dom Frei Bartolomeu dos Mártires, o tridentino beato arcebispo de Braga: em termos de perfil, “pureza de intenção, conversação santa e irrepreensível, humildade interior e sincera”; em termos de atitude, “coragem da esperança”; e em termos de programa, “a caridade, a sabedora, a retidão e a justiça” (cf Ecclesia, 2014/02/22).
Oxalá que ninguém nem nenhum facto desminta a disponibilidade que o diretor-adjunto do núcleo do Porto da Faculdade de Teologia manifestou em nome da comunidade: “Vamos recebê-lo como um sinal, uma dádiva, alguém que faz a ligação à Igreja Universal e quem vem certamente cheio de boa vontade para capacitar e potencializar as capacidades desta grande diocese que lhe compete governar agora”.
Assim seja – e que este homem santo reze e suscite oração, que este homem sabedor ensine e promova o conhecimento, que este homem prudente governe de modo que os conteúdos da oração da fé se tornem obra!


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