domingo, 7 de junho de 2026

O Evangelho da misericórdia abomina todo o tipo de hipocrisia

 A Palavra de Deus proclamada na liturgia do 10.º domingo do Tempo Comum, no Ano A insiste em que o Senhor prefere a misericórdia ao sacrifício de cabritos ou de novilhos. A misericórdia é atribuição divina que, espelhando-se no homem, configura a magnífica humanitas, tornando-o parecido com Deus. Aliás, pode dizer-se que Deus veio ao Mundo, por Jesus Cristo, para que o homem deixe de ser homem pervertido e passe a ser integralmente homem, porque parecido com Deus e seu aliado, na compaixão e na misericórdia.

Deus censura a oração e os sacrifícios cultuais, porque são hipócritas. Ou seja, são atos meramente exteriores, não significando pureza de intenção, nem oferta do coração a Deus; são ineficazes, porque não mudam a vida (mentalidade, valores, atitudes e comportamentos) de quem os oferece; e não constituem compromisso de empatia e de ajuda aos mais fracos (pobres, doentes, pecadores, estrangeiros, mulheres e crianças), antes convivem, desgraçadamente, com a soberba, o orgulho e a autossuficiência, a avareza e a ambição desmedida, a ira e o insulto, a exploração escravizante, a prepotência, a inveja, a luxúria (por pensamentos, desejos, palavras e ações).

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Na primeira leitura (Os 6,3-6), o profeta põe em causa a sinceridade da comunidade que procura controlar e manipular Deus, mas não está minimamente interessada em aderir, de coração sincero e verdadeiro, à aliança. Os atos de culto – mesmo faustosos e magnificentes – nada significam, se não há amor – amor a Deus e amor ao próximo (a outra face do amor a Deus).

Oseias exerceu o ministério profético no reino do Norte (Israel), a partir de 750 a.C., em época muito conturbada, marcada politicamente, pela insegurança, pela violência e pelo derramamento de sangue. Os reinados eram curtos e terminavam em revoluções, assassínios, massacres. O aventureirismo dos dirigentes e as alianças com as potências vizinhas causavam instabilidade e anunciavm a perda da independência, o que aconteceu em 721 a.C., quando a Samaria foi arrasada por Salamanasar V, da Assíria.

A nível religioso, reina a confusão. Exposto à influência cultural dos povos circunvizinhos, Israel acolhe deuses estrangeiros que coabitam com Javé no coração do Povo e nos centros religiosos. Mistura-se o Javismo com os cultos de Baal e de Astarte; embora Javé seja, oficialmente, o Deus nacional, é preterido em prol dos deuses cananeus. Além disso, as alianças políticas com os povos estrangeiros significam que Israel não confia em Deus e que põe a confiança e a esperança nos guerreiros, nos cavalos, nos carros de guerra das superpotências. Assim, a Assíria e o Egito deixam de ser realidades terrenas e humanas, para se tornarem deuses, capazes de salvar. O povo passa a confiar neles e a prescindir de Javé.

Oseias, sentindo o drama do sincretismo religioso, que faz perigar a fé do seu povo, apela a que Israel não se deixe dominar pela idolatria (a que chama “prostituição”: o povo é como a esposa que abandonou o marido, para correr atrás dos amantes) e convida-o a redescobrir o amor de Javé – sempre presente na História de Israel – e a responder-Lhe com a vontade sincera de viver em comunhão com Ele.

No início do capítulo 6, o profeta põe na boca do Povo uma fórmula de arrependimento, quiçá tomada da tradição cultual (“vinde, voltemos para o Senhor: Ele nos despedaçou, Ele nos curará; Ele fez a ferida, Ele nos porá o penso que cura” – Os 6,1). Todavia, o profeta olha para esta expressão com olhar irónico, porque duvida da sinceridade da conversão do povo.

Israel diz: “O Senhor é como a aurora, pontual e inevitável, como a chuva que empapa a terra. Sabemos como Ele funciona, pois Ele é previsível; se soubermos fazer bem as coisas, podemos controlá-Lo, pô-Lo do nosso lado e recuperar a vida que perdemos.” Isto é o resultado da atitude calculista de quem está convicto de que conhece Deus perfeitamente e é capaz de O manejar e manipular, e não o resultado de atitude coerente e sincera, de verdadeiro desejo de conversão.

Na reação de Deus, o profeta vê como que uma luta interior. “Que farei?” – pergunta Deus. Mas logo surge a resposta: Deus assume que não cederá, pois que a conversão de Israel é superficial, não passa de conversa fiada (“o vosso amor é como o nevoeiro da manhã, como o orvalho da madrugada que logo se evapora”). Israel não quer mudar o coração; só está disposto a controlar Deus, para readquirir a vida. Ora, não havendo transformação verdadeira do coração, o apregoado amor do povo por Deus não passa de piedosa declaração de boas intenções.

Israel não manifesta, no dia a dia, a Javé a sua vontade de “voltar para o Senhor”, através de vida coerente com os mandamentos e de amor que sai do fundo do coração e se expressa em gestos de bondade, de justiça, de misericórdia. Expressa o seu amor a Javé em ritos externos, em atos de culto. Porém, as orações que superabundam em palavras e os atos rituais (os sacrifícios) nada significam por si próprios; são apenas atos exteriores ao homem. Nada vale o culto – ainda que magnificente – que não resulte da atitude interior de amor e da vontade de comunhão com Deus (“conhecimento de Deus”). O culto não pode consistir em ritos desligados da vida, para aplacar Deus ou para comprar a sua benevolência, mas tem de ser expressão da vida voltada para Deus, vivida ao ritmo da aliança, no respeito por Deus e pelas suas leis.

Dizer que Deus quer “a misericórdia (“hesed”), e não os sacrifícios, o conhecimento de Deus (“daat Elohim”), mais do que os holocaustos”, significa que a Deus não agradam rituais externos – mesmo que ricos e espalhafatosos – que não exprimem os sentimentos que vão no coração; o que interessa a Deus é o coração que aceita viver em comunhão com Ele (“conhecimento de Deus”) e que é capaz de gestos de amor, de ternura, de bondade, de misericórdia (“hesed”) em favor dos irmãos. Deus amor, é comunhão e é misericórdia.

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Na segunda leitura (Rm 4,18-25), Paulo apresenta aos cristãos (aos que vêm do judaísmo, preocupados com o cumprimento da Lei de Moisés, e aos que vêm do paganismo) a única coisa essencial: a fé. A figura de Abraão é exemplar: o que o tornou o modelo para todos não foram as suas obras, mas a adesão total, incondicional e plena a Deus e ao seu plano.

Quando Paulo escreveu aos romanos, preocupava-o a ameaça de cisão da Igreja: os cristãos oriundos do judaísmo e os oriundos do paganismo tinham óticas diferentes da salvação e pareciam em rota de colisão. O problema seria também sentido em Roma. No ano 49, um édito do imperador Cláudio obrigara os judeus a deixar Roma; a comunidade cristã ficara entregue aos cristãos de origem pagã. Mas, em 57/58, muitos judeus regressaram e a comunidade cristã contava, de novo, com significativo grupo de judeo-cristãos. Estes, ao retornarem, encontraram a comunidade cristã com caraterísticas diferentes da que tinham deixado, dirigida por cristãos convertidos do paganismo e emancipada das tradições judaicas. Era de crer que os cristãos de origem judaica, não se sentido acolhidos, criticassem as novas orientações.

 Dirigindo-se aos romanos e à Igreja em geral, o apóstolo sublinha o que deve unir todos os crentes – judeus, gregos ou romanos. Apesar da universalidade do pecado (judeus e não judeus estão em pé de igualdade), Deus oferece a todos, gratuitamente, a salvação e de todos faz, em igualdade de circunstâncias, seus filhos. É por Cristo que a salvação é oferecida aos homens. O cumprimento da Lei não salva, porque a salvação é dom de Deus. Ao homem, resta-lhe acolher o dom na fé. A fé é adesão à salvação que, em Cristo, Deus oferece aos homens.

Como exemplo, Paulo apresenta Abraão (cf. Rm 4,1-12). O apóstolo demonstra que essa figura modelar para judeus e pagãos não foi salva pela Lei, nem pelas obras, mas pela fé.

Paulo, no trecho em apreço, deixa claro – com argumentação tirada da Escritura – porque foi Abraão o depositário da promessa e se tornou fonte de bênção para a sua descendência.
Abraão tornou-se referência fundamental para todos os crentes – judeus e não judeus – não por ter realizado obras meritórias ou por ter cumprido, estrita e escrupulosamente, a Lei. Tornou-se modelo para todos por ser o homem da fé, tendo acolhido o dom de Deus e tendo-Lhe respondido com entrega incondicional, com obediência radical, com ilimitada confiança.

Paulo descreve a grandeza e a profundidade da fé de Abraão. O exemplo mais conhecido e emblemático é que, apesar das avançadas idades de Abraão e de Sara, sua esposa, o patriarca não titubeou, não argumentou, não duvidou, quando Deus lhe anunciou o nascimento de Isaac. Isto significa a profundidade, a força, a heroicidade da fé do homem que fez da vida a entrega completa nas mãos de Deus, que confiou incondicionalmente em Deus, que esperou “contra toda a esperança”. Estas últimas palavras definem a atitude do homem que reconhece tudo dever a Deus e que se Lhe entrega incondicionalmente.

O apóstolo tem plena certeza de que não foram as obras de Abraão, mas a sua fé (entrega, obediência, confiança) que o tornaram o eleito de Deus e fonte de vida e de bênção para os seus descendentes. Portanto, não são as obras que fazemos que nos asseguram a salvação. Ao invés, o que nos assegura a vida plena e definitiva é a nossa fé – isto é, a adesão radical, confiante, ilimitada à salvação que, em Jesus, Deus nos faz. A salvação não é conquista do homem, mas dom de Deus, oferecido gratuitamente por amor, e que o homem é convidado a acolher com fé, com serenidade, com confiança.

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O Evangelho (Mt 9,9-13) é uma catequese sobre a resposta que devemos dar ao Deus que chama todos os homens, sem exceção. O exemplo de Mateus sugere que o decisivo é a resposta pronta ao seu convite de Deus para integrar a comunidade do Reino.

O trecho evangélico faz parte de uma longa secção, em que Mateus põe Jesus – com palavras e com ações – a anunciar o Reino (Mt 4,23 – 9,35). Na primeira parte (Mt 5-7), Mateus apresenta o sermão da montanha: num discurso magnífico, Jesus apresenta a lei e o programa do Reino que veio propor: é o anúncio do Reino por palavras. Na segunda parte (Mt 8-9), Mateus, apresentando o anúncio do Reino, pelas ações de Jesus, coloca-nos diante de três conjuntos de ações ou milagres de Jesus que tornam presente a realidade do Reino. E, entre cada um desses conjuntos aparecem reflexões sobre o significado dos gestos de Jesus e apelos ao seu seguimento. O trecho em causa, inserido neste esquema, apela ao seguimento de Jesus.

Em suma, nesta secção, temos o anúncio do Reino nas palavras e nos gestos de Jesus. As palavras anunciam a chegada do Mundo novo no qual os pobres e os débeis receberão a salvação de Deus; os gestos mostram a realidade desse tempo novo de felicidade, de alegria, de libertação para todos. Os discípulos, obviamente, são convidados a aderir ao Reino que Jesus propõe e a tornarem-se testemunhas desse Mundo novo.

Estamos perante dois episódios distintos. O primeiro refere o chamamento do publicano Mateus; o segundo descreve o banquete em casa de Mateus e a controvérsia com os fariseus.

Os publicanos (ou cobradores de impostos) eram rotulados de pecadores públicos notórios. Além de estarem ao serviço do opressor romano, tinham a fama (e o proveito) de explorarem os pobres. Por isso, a linguagem oficial associava-os aos marginais: ladrões, pagãos, assassinos e prostitutas. Os publicanos eram considerados pecadores públicos, permanentemente afetados de impureza, pelo que nem podiam fazer penitência, pois eram incapazes de reconhecer todos os que tinham defraudado. Os fariseus, muito ciosos da sua santidade, mudavam de passeio, quando, na rua, viam um publicano vir ao seu encontro. Eram, pois, gente desclassificada (apesar de rica), impura, considerada amaldiçoada por Deus e totalmente à margem da salvação.

Tudo isto nos permite perceber o inaudito da situação criada por Jesus. Não apenas chama o publicano para o grupo de discípulos, como aceita sentar-Se à mesa com ele, estabelecendo com ele laços de familiaridade, de fraternidade, de comunhão. O comportamento de Jesus é, não só atentatório da moral e dos bons costumes, como é verdadeira provocação.

O relato da vocação de Mateus não é substancialmente distinto do relato do chamamento de outros discípulos. Em qualquer dos casos, fala-se de homens que estão a trabalhar, a quem Jesus chama e que, deixando tudo, O seguem. Os chamados não são super-homens, seres perfeitos e santos, estranhos ao Mundo, pairando acima das nuvens, sem contacto com a vida e com os problemas e dramas dos outros homens e mulheres. Ao invés, são pessoas normais, que vivem vida normal, que trabalham, lutam, riem e choram. Porém, todos são chamados ao seguimento de Jesus. O verbo “akolouthéô”, utilizado na forma imperativa, traduz a ação de “ir atrás” e define a atitude do discípulo que aceita ligar-se a um mestre, escutar as suas lições e imitar o seu exemplo de vida. É isso que Jesus pede a Mateus. E Mateus, sem objeções nem pedidos de esclarecimento, deixa tudo e aceita ser discípulo, em adesão plena, total e radical a Jesus e à sua proposta de vida.

Mateus define aqui o caminho do verdadeiro discípulo: é o que, na vida normal, se encontra com Jesus, escuta o seu convite, o aceita sem discussão e segue Jesus de forma incondicional. A esta adesão ao chamamento de Deus chama-se fé.

Contudo, há um dado novo, em relação a outros relatos de vocação: o chamado é cobrador de impostos. Os cobradores de impostos eram gente desclassificada, excluída da vida social e religiosa do Povo de Deus. Jesus, contudo, pretende demonstrar que, na casa do Reino, há lugar para todos, até para os que o Mundo desclassifica e marginaliza. Deus tem uma proposta de salvação a apresentar a todos, sem exceção; e essa proposta não distingue entre bons e maus: destina-se a todos os que estiverem interessados em acolhê-la.

Depois, o evangelista coloca-nos ante uma controvérsia entre Jesus e os fariseus, porque Jesus – tendo convidado o publicano a integrar o grupo de discípulos (coisa inaudita, que nenhum mestre aceitaria) – desceu mais e aceitou sentar-Se à mesa com publicanos e pecadores.

O banquete era, na mentalidade judaica, o lugar do encontro, da fraternidade, onde os convivas criam laços de família e de comunhão. Sentar-se à mesa com alguém significava estabelecer laços profundos, íntimos, familiares, com essa pessoa. Por isso, o banquete é, para Jesus, o símbolo mais apropriado do Reino de fraternidade, de comunhão, de amor sem limites, que Ele veio propor aos homens. Ao sentar-Se à mesa com os publicanos e pecadores, Jesus diz, claramente, que veio apresentar a salvação para todos, sem exceção, e que, no Mundo novo, todos os homens e mulheres (independentemente das suas opções ou decisões erradas) têm lugar. A única condição que há para sentar-se à mesa do Reino é aceitar a proposta de Jesus.

Os fariseus (mais preocupados com as obras, com os comportamentos externos, com o cumprimento da Lei) não entendem isto. Jesus recordando-lhes que “não são os que têm saúde que precisam de médico, mas os doentes”, e cita a frase de Oseias: “Prefiro a misericórdia ao sacrifício.” Há, nas afirmações de Jesus, uma certa ironia: os fariseus julgavam-se justos e bons, porque cumpriam a Lei; mas, na perspetiva de Deus, os justos não são os que estão satisfeitos consigo próprios e vivem isolados na autossuficiência, mas todos quantos, não se conformando com a triste situação em que vivem, estão dispostos a acolher o dom de Deus e a aderir à salvação.

Para Deus, o que é decisivo não é o estrito cumprimento das regras, das leis e dos atos de culto, estar disposto a acolher a salvação que Ele oferece e a entregar-se, confiadamente, nas suas mãos. Todos quantos, na sua humildade e dependência, estão nesta atitude integram a comunidade do Reino e fazem parte da comunidade de Jesus, da comunidade da salvação.

Deus chama todos, sem exceção. Os que se consideram bons e justos, pensam que não precisam do dom de Deus, pois merecem, pelos seus atos, a salvação. Porém, a salvação é sempre um dom gratuito de Deus, não merecido pelo homem. O que Deus pede ao homem (seja bom ou mau, pecador ou santo, justo ou injusto) é que aceite o dom de Deus, escute o chamamento de Jesus e, sem objeções, com total confiança e disponibilidade, aceite seguir Jesus e seja seu discípulo, para integrar a comunidade do Reino.

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É salutar ouvir, como o salmista, a voz de Deus e segui-la em novo estilo de vida:

“A quem procede retamente farei ver a salvação de Deus.”

“Falou o Senhor, Deus soberano, / e convocou a Terra, do Oriente ao Ocidente: / «Não é pelos sacrifícios que Eu te repreendo: / os teus holocaustos estão sempre na minha presença.

“Se tivesse fome, não to diria, / porque meu é o Mundo e tudo o que nele existe. / Comerei porventura as carnes dos touros / ou beberei o sangue dos cabritos?

“Oferece a Deus sacrifícios de louvor / e cumpre os votos feitos ao Altíssimo. / Invoca-Me no dia da tribulação: / Eu te livrarei e tu Me darás glória».”

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Por fim, o imperativo da misericórdia é o discípulo aceitar, alegremente, ser apóstolo do Evangelho aos pobres e oprimidos:

“Aleluia. Aleluia.”

“O Senhor enviou-me a anunciar o evangelho aos pobres / e a liberdade aos oprimidos.”

2026.06.07 – Louro de Carvalho


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