quinta-feira, 23 de abril de 2026

Anulado o veto da Hungria, Bruxelas disponibiliza empréstimo a Kiev

 

A União Europeia (UE) deu a aprovação final ao empréstimo de 90 mil milhões de euros à Ucrânia, após a Hungria ter levantado o veto, pondo fim ao processo em que o primeiro-ministro Viktor Orbán, nos seus últimos dois meses de mandato, levou ao limite as normas internas do bloco, o que deixou Bruxelas num impasse, em relação ao apoio a Kiev. Além do levantamento do veto húngaro, é de registar que o avanço aconteceu dois dias depois de o presidente ucraniano, ter anunciado que o oleoduto Druzhba, que transporta petróleo russo para a Hungria e para a Eslováquia, tinha sido reparado e que podia voltar a funcionar.

O procedimento interno do avanço do empréstimo foi lançado pelos embaixadores, a 22 de abril, e finalizado no dia 23. Não foram levantadas objeções e foi aprovado o último regulamento pendente, que necessita de unanimidade para alterar o orçamento da UE.

A interrupção do fluxo de petróleo pelo Druzhba esteve no centro da decisão de Orbán de vetar o empréstimo de 90 mil milhões de euros, em fevereiro. Esse bloqueio indignou os outros líderes da UE, que o condenaram como tentativa inaceitável de chantagem. Efetivamente, o facto de o então primeiro-ministro da Hungria ter aprovado o empréstimo, em dezembro de 2025, mas com a garantia de não participação do seu país, foi problemático para os outros estados-membros, mas o veto, em fevereiro, levou um diplomata de alto nível a falar de ponto de viragem nas relações entre Bruxelas e Budapeste.

Viktor Orbán, que fez da sua disputa com Volodymyr Zelenskyy sobre o Druzhba tema recorrente na campanha para a reeleição, foi derrotado pelo líder da oposição, Péter Magyar, com a promessa de restabelecer o Estado de direito. Assim, a mudança do executivo húngaro, a primeira em 16 anos, abriu caminho para a quebra do impasse. E Chipre, que detém a presidência rotativa do Conselho da UE, aproveitou o ensejo e acrescentou o empréstimo à reunião de embaixadores, ainda antes de Zelenskyy anunciar a reparação de Druzhba.

A esta medida reagiu o presidente ucraniano, no X, vincando que o pacote reforçará o exército, tornará a Ucrânia mais resistente e permitir-lhe-á cumprir as suas obrigações sociais, tal como estabelecido na lei, sendo importante que a Ucrânia assegure este nível de segurança financeira, após mais de quatro anos de guerra. “Estamos a trabalhar para garantir que a primeira parcela deste pacote de apoio esteja disponível já em maio e junho”, porfiou.

A Comissão Europeia, que gere o esquema financeiro, afirma que o primeiro pagamento será efetuado o mais rapidamente possível, logo que os documentos legais e técnicos estejam prontos. “Enquanto a Rússia redobra a sua agressão, nós redobramos o nosso apoio à corajosa nação ucraniana, permitindo que Kiev se defenda e pressionando a economia de guerra russa”, afirmou a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.

Em 2026, a UE transferirá, gradualmente, 45 mil milhões de euros, dos quais 16,7 mil milhões de euros, para apoio financeiro, e 28,3 mil milhões de euros, para apoio militar. Os pagamentos serão efetuados sob reserva das reformas que Kiev aprovar. Qualquer retrocesso na luta contra a corrupção pode desencadear suspensão temporária da ajuda. A vertente militar do empréstimo tem disposições “Made in Europe” para garantir que o maior volume possível de financiamento seja atribuído a produtores nacionais e não a fabricantes norte-americanos. Os restantes 45 mil milhões serão mantidos até 2027 e cobrirão dois terços das necessidades de financiamento da Ucrânia. Espera-se que os aliados ocidentais cubram o último terço.

O empréstimo conjunto excluirá, como previsto, a Hungria, a Eslováquia e a Chéquia. Os outros 24 estados-membros pagarão cerca de três mil milhões de euros, em taxas de juro anuais. A Ucrânia será instada a devolver o empréstimo de 90 mil milhões de euros, se a Rússia concordar com reparações de guerra, o que Moscovo excluiu categoricamente. E o executivo europeu reitera que mantém o direito de utilizar os 210 mil milhões de euros em ativos imobilizados do Banco Central russo para compensar a falta de reparações.

Paralelamente, no dia 22, a UE decidiu o agravamento do 20.º pacote de sanções à Rússia.

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No dia 22 foi anunciado que o transporte de petróleo pelo oleoduto Druzhba tinha recomeçado, permitindo à UE desbloquear o empréstimo de 90 mil milhões de euros à Ucrânia. E o grupo petrolífero húngaro MOL confirmou ter sido informado de que a entrega de petróleo proveniente da Bielorrúsia recomeçara, pelo que esperava que o petróleo chegasse à Hungria, o mais tardar, no dia 23. Contudo, não é claro qual a quantidade de petróleo dos Urais que chegará à Hungria e se será utilizado para repor as reservas estratégicas utilizadas, durante a paragem de fornecimento ou se irá para Sazhalombatta, onde a refinação demorará, pelo menos, duas semanas. E, embora o primeiro-ministro eleito, tenha anunciado, anteriormente, que se manteria o preço protegido dos combustíveis, os peritos afirmam que as autoridades estão a monitorizar a possibilidade de levantar o preço máximo. O preço máximo tem efeito de distorção no mercado e afasta alguns importadores de petróleo do mercado húngaro.

O analista de mercados Kristóf Mohos diz que o resultado das eleições e as tendências do mercado petrolífero sugerem que o preço máximo pode ser levantado. “Graças ao fortalecimento do forint e ao colapso da margem do petróleo, estamos a ver os preços de mercado a aproximarem-se, significativamente, dos preços fixos, o que dá alguma esperança de que a eliminação gradual deste regime de preços protegidos não seja grande problema para o orçamento”, disse.

O primeiro-ministro cessante, Viktor Orbán, deixou claro, por várias vezes que, havendo petróleo russo a chegar até à Hungria, o governo húngaro daria o seu consentimento.

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Após meses de intrigas, a UE lançou o processo para desbloquear o empréstimo de 90 mil milhões de euros à Ucrânia e o 20.º pacote de sanções contra a Rússia, ficando o impasse entre Budapeste e Kiev mais perto do fim. O procedimento escrito teve início na tarde do dia 22, numa reunião de embaixadores em Bruxelas. Os estados-membros tinham até 24 horas para registar qualquer objeção. E Chipre, o país que detém a presidência rotativa do Conselho da UE, esperava que o procedimento estivesse concluído no dia 23, à tarde, altura em que poderia ser anunciada uma decisão final, tal como aconteceu. A Hungria ou a Eslováquia podiam impedir a adoção por unanimidade, se assim o entendessem, mas os diplomatas consideravam que era pouco provável que isso acontecesse, pois era a restauração do oleoduto Druzhba que estava no centro do veto da Hungria, aliás como da Eslováquia (deste pouco se falava).

Ora, o presidente ucraniano anunciou, no dia 21, que a infraestrutura da era soviética, danificada por drones russos, no final de janeiro, foi reparada e pode retomar as operações. Esperava-se, pois, que o fluxo se retomasse nas horas subsequentes. “A UE pediu à Ucrânia que reparasse o oleoduto Druzhba, que fora destruído pela Rússia. Já o reparámos. Esperamos que a UE cumpra também os compromissos acordados”, afirmou Zelenskyy, no seu discurso.

O empréstimo foi bloqueado, durante meses, pelo primeiro-ministro húngaro cessante, Viktor Orbán, que acusou Kiev de bloquear os fluxos por razões políticas. Todavia, Péter Magyar, vencedor das recentes eleições legislativas na Hungria, apesar das suas reservas, em relação à Ucrânia e à sua adesão à UE, levantou o veto, em nome da promessa de restaurar o Estado de direito, de melhorar os laços com a UE e de desbloquear o dinheiro da UE retido por Bruxelas, devido a violações da lei.

Também o 20.º pacote de sanções à Rússia foi bloqueado pela Hungria e pela Eslováquia, por causa do oleoduto Druzhba. Porém, Eslováquia declarou que retiraria o veto, quando o petróleo voltasse a circular. Viktor Orbán declarou a mesmo. As sanções incluem a proibição total dos serviços marítimos para os petroleiros russos, mas esta medida foi condicionada a um acordo, a nível do G7, depois de Malta e a Grécia, dois países costeiros, terem manifestado sérias preocupações. É pouco provável que o acordo do G7 se concretize, tendo em conta a decisão da Casa Branca de alargar o alívio das sanções ao petróleo russo, o que desanimou os Europeus. Na verdade, enquanto a UE insiste nas sanções à Rússia, os Estados Unidos da América (EUA) – grande e privilegiado aliado da UE – mantêm a suspensão das suas sanções.

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Péter Magyar, líder do partido Tisza, vencedor das recentes eleições legislativas da Hungria e, por consequência, futuro primeiro-ministro, deu uma conferência de imprensa, no dia 20, após a primeira reunião do grupo parlamentar do seu partido. Depois de ter nomeado sete ministros do futuro governo do país e de ter anunciado que este governo terá um total de 16 ministérios, também discutiu questões de política externa.

Recorde-se que Orbán convidou o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, alvo de mandato do Tribunal Penal Internacional (TPI), por crimes de guerra e por crimes contra a Humanidade, a visitar Budapeste, na semana anterior. O governo de Orbán iniciou, em 2025, o processo de saída da Hungria da organização, mas o primeiro-ministro eleito afirmou, na conferência de imprensa, que está determinado a manter a Hungria como membro do TPI e que suspenderá o processo de retirada. E o jornal Telex perguntou-lhe se tinha discutido o assunto com o primeiro-ministro israelita, ao que ele respondeu: “Não fiz nenhuma negociação. Se uma pessoa procurada entra na Hungria, tem de ser detida. Não preciso que me digam tudo ao telefone, presumo que todos os chefes de Estado e de governo conhecem estas leis.”

Questionado pelo Financial Times sobre a sugestão do presidente ucraniano de que repararia o Druzhba, permitindo o fornecimento de petróleo russo à Hungria, após receber um empréstimo da UE ou abrir determinados capítulos das negociações de adesão, o futuro chefe do governo húngaro declarou: “O que posso dizer ao presidente ucraniano […] é que isto não é um jogo. Se o Druzhba é adequado para o transporte de petróleo, então, por favor, abra-o como prometido, e pedimos aos Russos que o alimentem com petróleo, porque de outra forma ele não funcionará.”

Revelando que tinha informações de que isso podia acontecer, nos próximos dias, e que não vão fazer chantagem, observou: “Não aconselharia o presidente ucraniano a entrar nessa via, não é só a Hungria que não vai engolir isso, a Europa também não. Voltar atrás com algo que foi negociado não é a forma europeia de trabalhar.”

Viktor Orbán, através de quem o veto foi levantado, tinha dito, anteriormente, que as entregas através do oleoduto Druzhba poderiam ser retomadas no dia 20, mas isso não aconteceu, então, mas apenas no dia 23. E Péter Magyar falou sobre o desbloqueio dos fundos da UE e sobre as expetativas relativas a este assunto. Disse que muitas das condições já não podem ser cumpridas, pelo que têm de ser restabelecidas. Existem quatro áreas que podem ser cumpridas, incluindo a luta contra a corrupção, que inclui muitas coisas, incluindo a liberdade de imprensa. “Estes domínios incluem o que a Comissão Europeia espera”, acrescentou.

O novo primeiro-ministro disse acreditar que, em “três meses”, será feito o que o governo de Orbán não fez em “três anos” e pediu à Comissão Europeia que suspenda as multas que a Hungria herdou do regime de Orbán, relativamente à quota de refugiados: “Primeiro, abanaram a cabeça a dizer que não era possível, mas, depois, disseram que iriam tentar”, referiu.

Disse que o governo falará, diariamente, com a presidente da Comissão Europeia, se necessário, e que espera assinar um acordo político, entre 15 e 20 de maio, procedendo à alteração da legislação, até 31 de maio, que permita a Bruxelas transferir o dinheiro.

As autoridades ucranianas dizem que os danos foram causados por um ataque russo e que as reparações são difíceis, agravadas pelo facto de os engenheiros ucranianos só poderem trabalhar, durante o dia, devido aos ataques aéreos noturnos. Ao invés, a Hungria acusou Kiev de sabotagem e de atrasar a reparação dos danos. E a Comissão Europeia propôs uma missão de inspeção e de apuramento de factos sobre o incidente.

Viktor Orbán argumentava que o crude russo é essencial para a segurança energética do país e que a mudança de abastecimento aumentaria os custos e prejudicaria a eficiência. Porém, de acordo como o Centro de Estudos para a Democracia (CSD), embora a Hungria seja altamente dependente do petróleo russo (em 93%), ignorou os avisos para diversificar a forma como obtém a energia, tem acesso a rotas alternativas viáveis e a continuação da compra de crude russo não se traduziu na descida dos preços dos combustíveis para os Húngaros.

O principal operador de petróleo e gás da Hungria, a MOL, que refina e produz combustíveis para a Hungria e para a Eslováquia, é o grande comprador de crude russo na UE. E, após a repressão ucraniana dos fluxos dos oleodutos que visavam as entregas da russa Lukoil, a Hungria não seguiu a tendência da UE de abandonar o crude russo. Ao invés, em setembro de 2025, a MOL celebrou um acordo pelo qual tem a propriedade do petróleo, na fronteira entre a Bielorrússia e a Ucrânia e continua as entregas da Lukoil. Aumentou a dependência da Rússia de 61% para 93%.

A principal alternativa para a Hungria, citada pela Comissão Europeia, é o oleoduto Adria, explorado pela empresa pública croata Jadranski Naftovod (JANAF). As taxas de trânsito para o crude não russo importado através deste oleoduto são inferiores às aplicadas ao crude russo através do oleoduto Druzhba, uma diferença de 12 euros, por tonelada, através do oleoduto Adria contra 21 euros por tonelada através do oleoduto Druzhba. E a JANAF insiste que a infraestrutura tem capacidade para Obviar à procura da Hungria e da Eslováquia.

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Resta o problema da Alemanha, que se tornou praticamente não dependente da Rússia, em termos de petróleo e de gás. O ministro da Energia do Cazaquistão, Yerlan Akkenzhenov, anunciou, no dia 22, com base em fontes não oficiais, que não haverá trânsito do seu petróleo para a Alemanha, via Rússia, pelo oleoduto Druzhba, a partir de 1 de maio, devido a restrições técnicas, assumindo que tal está “relacionado com os recentes ataques às infraestruturas russas”. Porém, logo que a questão técnica se resolva, “o trânsito de petróleo do Cazaquistão será retomado”.

Akkenzhenov disse aos jornalistas, em Astana, que “não houve declarações oficiais do lado russo, mas sabemos, de fontes não oficiais”, que, “para o mês de maio, temos zero trânsito, através de Adral Samara, ao longo do oleoduto Druzhba e para a refinaria (alemã) Shved”.

O ministro da energia disse que “a parte russa, mais uma vez, de acordo com fontes não oficiais, afirma não ter capacidade técnica para bombear o petróleo do Cazaquistão”, o que, para o governante, estará relacionado com os recentes ataques às infraestruturas russas.

O Cazaquistão exporta até 200 mil barris, por dia, para as refinarias alemãs, através da rota em questão. E os meios de comunicação social cazaques referem que, de acordo com Akkenzhenov, os volumes não expedidos serão redirecionados para outras rotas.

O petróleo do Cazaquistão representa cerca de 20-30% do consumo da refinaria alemã de Shved e o trânsito pelo oleoduto Druzhba representa uma pequena proporção das exportações de petróleo do Cazaquistão. E o ministro da Energia afirmou que o Cazaquistão não tenciona reduzir a produção de petróleo, dada a situação atual.

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Estranhas guerras feitas através do bloqueio do petróleo e de sanções económicas!

2026.04.23 – Louro de Carvalho

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