sábado, 31 de janeiro de 2026

São João Bosco, fundador dos salesianos, Pai e Mestre da Juventude

 

A 31 de janeiro, celebrou-se a memória litúrgica de São João Bosco, o fundador da Congregação Salesiana (os salesianos), também conhecido como patrono e mestre da juventude e que escreveu, pouco antes da sua morte: “Um só é o meu desejo: que sejam felizes no tempo e na eternidade.”
João Melchior Bosco Occhiena nasceu, a 16 de agosto de 1815, na aldeia del Becchi, perto de Morialdo em Castelnuovo, no Norte da Itália, numa família humilde. Quando tinha dois anos, o pai morreu e a mãe, a serva de Deus Margarida Occhiena, analfabeta e pobre, foi responsável pela educação dos filhos.
Aos nove anos, João Bosco viu, num sonho, uma multidão de meninos que brigavam e blasfemavam. Tentou silenciá-los com os punhos. Então, apareceu Jesus Cristo e disse-lhe que devia ganhar os meninos com a mansidão e a caridade e que sua professora seria a Virgem Maria. A Mãe de Deus vaticinou: “A seu tempo compreenderá tudo.” Inicialmente, não conseguiu entender o sonho, mas foi-o esclarecendo, de diferentes maneiras, com o tempo.
João Bosco teve de estudar e trabalhar, ao mesmo tempo. Com o desejo de ser sacerdote, ingressou no seminário de Chieri e conheceu São José Cafasso, que lhe mostrou as prisões e os bairros onde havia jovens necessitados. Foi ordenado sacerdote em 1841.
Iniciou o oratório salesiano, no qual, em todos os domingos, se reunia com centenas de meninos. No começo, a obra não tinha lugar fixo, até que conseguiram estabelecer-se no bairro periférico de Valdocco. Depois de uma enfermidade que quase lhe custou a vida, prometeu trabalhar, até ao final, por Deus, através dos jovens. Assim, dedicou-se, inteiramente, a consolidar e a estender a sua obra. Deu alojamento a meninos abandonados, ofereceu oficinas de aprendizagem e, apesar de ser um sacerdote pobre, edificou uma igreja em honra de São Francisco de Sales.
Em 1859, fundou os salesianos, tomando como modelo São Francisco de Sales, padroeiros dos jornalistas e dos comunicadores Mais tarde, fundou as filhas de Maria Auxiliadora e os cooperadores salesianos. Além disso, construiu a basílica de Nossa Senhora Auxiliadora, em Turim, e a basílica do Sagrado Coração, em Roma, somente com doações.
A sua presença na cidade italiana de Génova está ligada a muitas histórias e a alguns milagres, por exemplo, o que foi relatado pelo sacerdote salesiano padre Mauricio Verlezza.
O padre Verlezza, responsável pela Obra de Dom Bosco em Sampierdarena (Génova), de onde saíram as primeiras expedições missionárias para a Argentina, contou que o santo sacerdote celebrou uma Missa em 1872, na qual participaram muitos benfeitores. No final da celebração e logo depois de escutar a sua catequese, todos passaram pela sacristia da catedral de ‘San Siro’, para receberem a bênção do fundador dos salesianos, que tinha o costume de entregar a cada pessoa uma medalhinha de Nossa Senhora Auxiliadora. “As medalhinhas que estavam numa pequena bolsa eram muito poucas e o milagre foi que todos puderam recebê-la, apesar de, realmente, haver pouquíssimas na bolsa que o secretário entregou a Dom Bosco”.
Em seguida, contou o sacerdote, “São João Bosco olhava os seus sonhos missionários num mapa do Mundo que estava no quarto onde descansava durante a sua permanência em Sampierdarena”. “O meu único desejo é que sejam felizes no tempo e na eternidade”, deixou escrito aos jovens Dom Bosco, que morreu no dia 31 de janeiro de 1888, depois de ter vivido aquela frase que disse ao seu aluno são Domingos Sávio: “Nesta casa fazemos consistir a santidade em estar sempre muito alegres.”
Foi beatificado, em 1929, e canonizado, em 1934.

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Em 26 de janeiro de 1854, com cerca de 39 anos, São João Bosco deu, pela primeira vez, o nome de “salesianos” – em homenagem a São Francisco de Sales – a um pequeno grupo de jovens desejosos de seguirem os seus passos.
“Na tarde de 26 de janeiro de 1854, começou ‘oficialmente’ a aventura carismática salesiana”, refere a Agenzia Info Salesiana (ANS), órgão de comunicação jornalística da Sociedade de Francisco de Sales, explicitando: “Naquela data, Dom Bosco deu, pela primeira vez, o nome de ‘salesianos’ a um pequeno grupo de jovens desejosos de seguirem os seus passos. O que aconteceu na noite de 26 de janeiro foi escrito por Miguel Rua, num caderno que hoje se encontra no Museu Casa Dom Bosco.”
O padre Miguel Rua, que era amigo de Dom Bosco e se tornou reitor-mor da Congregação Salesiana, entre 1888 e 1910, sendo o primeiro sucessor do fundador, escreveu num caderno: “Na tarde de 26 de janeiro de 1854, reunimo-nos no escritório do senhor Dom Bosco.”
Naquele dia, Dom Bosco chamou os seus colaboradores mais próximos ao segundo andar da casa, porque queria conversar com eles sobre algo. Esses quatro jovens eram: Miguel Rua, Juan Cagliero, Giuseppe Rocchietti e Giacomo Artiglia. “Foi-nos proposto fazermos, com a ajuda do Senhor e de são Francisco de Sales, uma prova de exercício prático da caridade para com o próximo, para fazermos, depois, uma promessa e, depois, se possível e conveniente, fazer um voto ao Senhor”, contou o padre Miguel Rua, vincando: “Desde aquela noite, foi dado o nome de salesianos a quem se propôs e se proporá tal exercício.”
Quando são João Bosco era diácono, 13 anos antes, já tinha escolhido são Francisco de Sales como modelo a seguir.
São Francisco de Sales, doutor da Igreja Universal, é conhecido como “o santo da amabilidade”. Como bispo, defendeu a Igreja Católica, com coragem e com amabilidade, numa época difícil e violenta de reformas, como a de João Calvino.
Ao longo do tempo, inspirou muitas obras e comunidades, como a Pia Sociedade de São Francisco de Sales, fundada pelo próprio Dom Bosco.
Em 1861, na cidade italiana de Mornese, Maria Domingas Mazzarello convida a amiga Petronilla para organizarem uma oficina de costura para meninas. Em 1863, a oficina começa a acolher meninas órfãs. O seu trabalho é supervisionado pelo padre Domingos Pestarino, que se havia associado aos Salesianos. Com o auxílio de Pestarino, Bosco propôs às jovens que se organizassem em congregação religiosa, com o nome de Filhas de Maria Auxiliadora e, a 5 de agosto de 1872, as primeiras salesianas emitiram os seus votos. Maria Mazzarello foi a primeira superiora da congregação.
De início, a proposta da Sociedade de São Francisco de Sales incluía, padres, irmãos e leigos externos, mas tal forma de organização não foi aprovada pela Igreja católica, que queria apenas padres e irmãos, como nas demais congregações. Sendo assim, Dom Bosco propôs a associação leiga dos Salesianos Cooperadores, que foi aprovada, em 1876, pelo papa Pio IX. O objetivo era o mesmo da Sociedade de São Francisco de Sales, a saber: o trabalho educativo e catequista junto dos meninos e dos jovens. Em sua forma de associação, tornou-se uma sociedade mista, com homens e mulheres leigos.

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Diz-se que são João Bosco era um santo alegre e que, mesmo quando tinha muitos problemas, demonstrava ainda mais alegria. Tudo era resultado da sua plena confiança na Providência Divina e em Nossa Senhora Auxiliadora. Do muito que Dom Bosco disse e escreveu, ressaltam sete máximas do santo, que podem ajudar a alcançar a felicidade.
1. “Alegria, Estudo, Piedade. Este é o grande programa. Se o seguirdes, podereis viver felizes e fazer muito bem às vossas almas.”
2. “Se quereis que a vossa vida seja sempre alegre e tranquila, procurai viver sempre na graça.”
3. “Quereis estar sempre satisfeitos e risonhos? É a obediência a que vos leva a essa alegria.”
4. “Com a comunhão frequente tornar-vos-eis muito queridos por Deus e pelos homens, e Maria Santíssima vos concederá a graça de receberdes os Santos Sacramentos no fim da vida.”
5. “Ser bom não consiste em não cometer falhas, mas na vontade de se corrigir.”
6. “Para trabalhardes com sucesso, tende caridade no coração e paciência na execução”.
7. “Faz o que podes, Deus fará o que não podemos fazer. Confia sempre em Jesus Sacramentado e em Nossa Senhora Auxiliadora e verás o que são milagres”.

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Nas “Memórias Biográficas”, coleção de 19 volumes sobre a vida de Dom Bosco, conta-se a história de Carlos, adolescente de 15 anos que participava no oratório de São Francisco de Sales, onde Dom Bosco jogava com os meninos e lhes dava educação humana e cristã.
Certo dia, Carlos adoeceu e o médico, ao vê-lo tão mal, aconselhou a família a procurar um padre para o confessar. O menino pediu que chamassem Dom Bosco, mas, quando foram procurar o santo, descobriram que estava fora da cidade e chamaram o pároco. Porém, Carlos insistia em ver Dom Bosco, até que, dia e meio depois, morreu. Quando Dom Bosco voltou, soube do acontecido com o seu amigo e foi vê-lo. Ao chegar aonde ele morava, encontrou um homem que trabalhava lá e lhe disse que tinha chegado tarde demais, porque o menino estava morto, há meio dia.
Dom Bosco sorriu, dizendo que, na verdade, estava a dormir e que queria ver o menino, no pranto dos familiares. Foi levado ao local em que estava a ser velado o cadáver, envolto num lençol costurado e com um véu a cobrir-lhe o rosto.
O santo pediu para ficar sozinho, fez profunda oração, deu a bênção e chamou, por duas vezes, o jovem, com uma voz de comando: “Carlos, Carlos, levanta-te!” O morto começou a mexer-se e Dom Bosco imediatamente desamarrou o lençol com as mãos e descobriu-lhe o rosto.
Carlos acordou como se tivesse saído de um sonho e perguntou por que estava naquele estado. Depois, olhando para Dom Bosco, reconheceu-o e encheu-se de alegria. Disse ao santo que estava à espera dele. O padre encorajou-o a contar-lhe tudo o que quisesse.
O menino explicou-lhe que, na sua última confissão, não havia dito nada sobre um pecado que havia cometido semanas antes. Depois, contou-lhe que havia tido um sonho terrível no qual se encontrava à beira de enorme fornalha, de onde tentava escapar de muitos demónios e, quando eles estavam prestes a agarrá-lo, apareceu uma senhora, que se colocou entre ele e os malignos, dizendo-lhes que esperassem, porque ele ainda não havia sido julgado. Então, ouviu a voz de Dom Bosco e acordou.
Carlos, arrependido, confessou-se com Dom Bosco e, quando o padre o absolvia, a mãe e toda a família entraram. O jovem olhou para a mãe e disse: “Dom Bosco salvou-me do inferno!” 
Carlos permaneceu lúcido, durante quase duas horas, movia-se e falava, mas o corpo continuava frio, e pediu a Dom Bosco que aconselhasse os rapazes a serem sinceros na confissão.
Finalmente, Dom Bosco perguntou-lhe: “Agora estás na graça de Deus: tens o céu aberto. Queres ir para cima ou ficar aqui connosco?” Carlos respondeu: “Quero ir para o céu.” E Dom Bosco disse-lhe: “Então, ver-nos-emos, de novo, no paraíso.” 
Carlos pôs a cabeça sobre o travesseiro, fechou os olhos e adormeceu na paz do Senhor.
É interessante o que Dom Bosco disse, pois o santo dos jovens vivia convencido de que iria para o céu. As suas últimas palavras, antes de morrer foram: “Amai-vos como irmãos... Fazei o bem a todos, e o mal a ninguém... Dizei aos meus meninos que os espero, a todos no Paraíso.”

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Dom Bosco morreu, como foi referido, a 31 de janeiro de 1888. Milhares de pessoas participaram no seu funeral. Logo depois, houve uma demanda popular pela sua canonização. A arquidiocese de Turim investigou e foram chamadas testemunhas para se determinar se Bosco era digno de ser declarado santo. Os salesianos, as filhas e os cooperadores deram testemunhos de apoio. Porém, muitos lembraram-se das controvérsias de Bosco, na década de 1870, com o arcebispo Dom Lourenço Gastaldi, que sucedeu ao arcebispo Dom Riccardi di Netro (falecido em 1870), e com outros da hierarquia da Igreja que o consideravam um canhão solto e um “negociante de rodas”.
Falecido Dom Gastaldi (25 de março de 1883), sucedeu-lhe na sede de Turim Dom Caetano Alimonda. E, no ano seguinte, Dom Bosco obteve o decreto de extensão dos privilégios concedidos pela Santa Sé aos Redentoristas, inclusive, o da isenção da jurisdição episcopal (18 de junho de 1884). A questão com Dom Lourenço Gastaldi tinha a ver com a sua excessiva intervenção nos assuntos da congregação dos Salesianos.
No processo de canonização, ouviram-se testemunhos de como recorreu a Gastaldi para ordenar alguns dos seus homens e sobre a falta de preparação académica e de decoro eclesiástico. Desenhos políticos a partir da década de 1860 mostraram-no a sacudir dinheiro dos bolsos de velhinhas ou a ir para a América com o mesmo objetivo. Esses desenhos não foram esquecidos. Os opositores de Bosco, incluindo alguns cardeais, estavam em posição de bloquear a sua canonização. Por volta de 1925, muitos salesianos temiam que tivessem sucesso.
O papa Pio XI conhecia-o e impulsionou a sua causa. Beatificou Bosco, a 2 de junho de 1929, e canonizou-o no domingo de Páscoa (1 de abril) de 1934, atribuindo-lhe o título de “Pai e Mestre da Juventude”.
Dom Bosco era conhecido, popularmente, como o santo padroeiro dos ilusionistas, pelo que, a 30 de janeiro de 2002, Silvio Mantelli solicitou ao papa São João Paulo II que o declarasse, formalmente, o patrono dos mágicos de palco. Mágicos católicos que praticam a magia do evangelho veneram Bosco, oferecendo espetáculos de mágica gratuitos para crianças carentes no dia da festa.
O trabalho de Dom Bosco foi continuado pelo seu primeiro aluno, colaborador e companheiro, Miguel Rua, que foi nomeado reitor-mor da Sociedade Salesiana pelo papa Leão XIII, em 1888.
Dom Bosco foi tema da cinebiografia “Don Bosco,” de 1935, dirigida por Goffredo Alessandrini, tendo sido interpretado pelo ator Gian Paolo Rosmino, e foi tema de um filme italiano de 2004, São João Bosco: Missão ao Amor” e também do filme de 1988, Don Bosco”, interpretado por Bem Gazzara.

2026.01.31 – Louro de Carvalho


Evocação do padre António Freire, teólogo, filósofo e humanista

 

 

O caderno “Fisgas” do jornal Público, de 31 de janeiro, preenche a secção “Elogio do vinho”, a cargo de Pedro Garcias, jornalista e produtor de vinho no Douro, com um texto sob o título “A Mesinha de S. Sebastião e o jesuíta que não ‘negava fogo’”, em que evoca o pregador e convidado especial da festa transmontana em referência, o jesuíta António Freire, de quem diz ser “uma celebridade mundial” em Filologia, em Literatura Grega e em Literatura Latina.
O jornalista relata o caso de o jesuíta ansianense ter ficado sozinho sentado à mesa, ainda por levantar, que fora lauta para todos os convivas, e “deu uma palestra inesquecível” a todos os circunstantes. “Explicou o significado da festa e proferiu, a seguir, um rasgado panegírico ao animal que os barrosões ‘tratam quase como um ser humano’: O cevado, o suíno, o porco, esse bicho tão sujo que até as unhas nos dá”, escreveu Pedro Garcias.
Conheci o padre Freire, em Moimenta da Beira, em cuja Escola Secundária, proferiu duas palestras, para alunos e professores, encantando pela profundidade e pela vastidão de conhecimento revelado e pelo sentido de humor com que salpicava o discurso.
Devo referir que foi pelas suas “Gramática Latina” e “Gramática Grega” que estudei as línguas latina e grega, cujas edições mais recentes ia adquirindo, nos tempos de docência.
Recordo-me de, em 1987, ter visitado a Editorial Franciscana, em Braga, para acertar a coedição do livro póstumo “Família, Energia Vital”, do cónego José Cardoso de Almeida, e o frade que me atendeu, no escritório da tipografia, desafiou-me: “Ainda não tem a 4.ª edição da “Gramática Latina”, de António Freire!” Respondi que “sim”, pois tinha comprado a última edição conhecida. Porém, o frade retorquiu: “Essa é terceira, que a quarta edição ainda não está em distribuição. Ó Fulano [não me recordo do nome do chefe da tipografia], veste o casaco a um dos exemplares prontos e dá a 4.ª edição da “Gramática Latina” a este senhor!” E assim fiquei com um livro grátis de um autor de renome e que já conhecia.    

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A 18 de novembro de 2019, por ocasião do centenário do nascimento de António Freire, Acílio Estanqueiro Rocha, seu conterrâneo, publicou, no Diário do Minho, uma extensa peça jornalística intitulada “Centenário do Padre António Jorge Freire Júnior de Lisboinha”, sobre a vida e obra do padre jesuíta conhecido pelo título abreviado de padre Freire.
O padre Freire nasceu em Lisboinha, freguesia de Pousaflores, concelho de Ansião, distrito de Leiria e diocese de Coimbra, e faleceu em Braga, a 18 de fevereiro de 1997, aos 77 anos.
Segundo a pena do jornalista, foi “mestre de sucessivas gerações de estudantes na Faculdade de Filosofia de Braga da Universidade Católica Portuguesa [UCP], para os quais as lições inigualáveis deste jesuíta de craveira excecional permanecerão inolvidáveis – tal a sabedoria e empatia que irradiava –, teve uma carreira fulgurante no campo das Humanidades, mormente, nos Estudos Clássicos (Grego e Latim) – domínios em que era uma das figuras mais proeminentes, tanto a nível nacional como internacional”.
Já na Escola Primária, se revelou especialmente dotado, pelo que o professor instou para que prosseguisse os estudos, tal como a mãe desejava. Porém, a falta de meios e a inexistência de escolas oficiais na região eram obstáculo intransponível. Foi o primo, João Mendes Lopes, quem tratou dos procedimentos necessários, tendo António Freire realizado os estudos liceais em Guimarães e em Macieira de Cambra. Ingressou no Noviciado da Companhia de Jesus, em Alpendurada, aos 17 anos de idade, em 1937. Poucos meses depois, transferiu-se para o mosteiro da Costa (hoje pousada), em Guimarães. Foi dispensado do ano de estudos de Ciências que precedia, em Braga, o curso trienal de Filosofia, para ficar, durante dois anos, em Guimarães, a ensinar Latim e Grego aos noviços. Após quatro anos de noviciado e a conclusão do curso de Filosofia (1942-1945), cumpriu dois anos de magistério, como professor de Latim e de Grego dos noviços, em Guimarães, no Juniorado, para iniciar, depois, os estudos de Teologia, em 1947, primeiro, em Oxford (entre 1947 e 1949) e, depois, em Granada (1949-1951).  Recebeu a ordenação presbiteral, a 15 de Julho de 1950, em Granada. Passou por Salamanca (1951-1952), regressou a Portugal e retomou a docência, lecionando disciplinas, no âmbito da Língua e Cultura Grega e Latina, na Faculdade de Filosofia de Braga, tendo sido, entre 1961 e 1964, professor de Literatura Grega e Latina no Centro de Estudos Humanísticos anexo à Universidade do Porto.
Concluída a “Terceira Provação”, em Salamanca, em 1951-1952, regressou a Portugal, lecionou, durante três anos, em Macieira de Cambra. E, emitidos  ali os últimos votos, a 2 de fevereiro de 1955, volta ao Juniorado, mas em Soutelo, Vila Verde.
Em 1967, foi convidado para a então Pontifícia Faculdade de Filosofia de Braga para lecionar no curso Filosófico-Humanístico e, posteriormente, também no de Humanidades, apresentando, nesse ano, a sua tese de doutoramento, de cariz filosófico-filológico, publicada em 1969, sob o título “O Conceito de Moira na Tragédia Grega”. 
Na tese de doutoramento, obteve a classificação de 19 valores, sendo já vulto de renome internacional em Filologia e em Literatura Grega e em Literatura Latina. As disciplinas prediletas eram História da Filosofia Antiga, Filologia e Literatura Latina e Grega, Cultura Clássica e Filologia Portuguesa. Nunca interrompeu a docência, nem nos dois anos sabáticos que passou na Alemanha, onde deu, por vezes, cinco aulas, por dia, num colégio alemão. Foi convidado para lecionar na Universidade de Lisboa e na de Saarbrücken, na Alemanha, mas recusou, por não ter substituto na Faculdade de Filosofia, onde lecionou desde 1967.
Era versado poliglota, outra marca do seu génio humanístico. Além de ter ensinado, em quase toda a vida, as línguas grega e latina, proferia discursos preparados ou improvisados nessas línguas. E, a par disso, especializou-se em Línguas Modernas, cuja aprendizagem aperfeiçoou com a estadia de dois anos, na Inglaterra e na Espanha, dois anos, na Alemanha, cinco anos, na Grécia, e várias estadias na França e na Itália. Ainda jovem, ensinou alemão a iniciados, enquanto seguia aulas mais adiantadas; na Inglaterra, após dois meses de estudo do Hebraico, o professor confiou-lhe metade da turma; em Granada, ensinou Inglês aos companheiros de Teologia, e, em Salamanca, ensinou Inglês aos estudantes jesuítas.
Empreendeu viagens de estudo por toda a Europa, pelos países escandinavos, pela Rússia e pelos demais países da então Cortina de Ferro, pelo Egito e por Israel, pelos Estados Unidos da América (EUA), pelo Brasil, pelo México e pelo Canadá. De quase todas as viagens resultaram livros, artigos e entrevistas em revistas e jornais. Participou em vários congressos internacionais, uns sobre “Latim Vivo” e outros sobre “Estudos Neolatinos”. No congresso de Bucareste (1970), foi ovacionado e denominado de “Cícero Redivivus”; e foi muito apreciado no Colóquio Internacional em São Paulo (Brasil), sobre “Metafísica cristã e ateísmo atual” (1981).
Deixou de lecionar, em 1992, passando a orientar mestrados, a publicar obras e a deslocar-se a escolas secundárias, a convite de antigos alunos seus, para incutir nos jovens o gosto pelo Português e pelas suas fontes greco-latinas. E, em 1994, aplicou-se um projeto antigo – elaboração do Dicionário Moderno Português-Latim –, mas a morte impediu-o de o concluir.
António Freire faleceu na comunidade dos padres Jesuítas, em Braga, a 18 de fevereiro de 1997, aos 77 anos de idade, deixando valiosa bibliografia.

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Acílio Rocha, recordou a entrevista que lhe fez, em fevereiro de 1971, para o jornal “Voz das Cinco Vilas”, donde extraiu o seguinte parágrafo: “A minha viagem do último verão foi a mais longa e variada que empreendi, até hoje: um mês e dois dias, quase a andar, de comboio e sozinho. Depois de transpor a Espanha, a França, a Bélgica e a Alemanha, subi à Suécia e regressei a Paris; dali atravessei a Suíça, a Itália, e enterrei-me nos países da Cortina de Ferro, a Jugoslávia, a Bulgária, a Roménia, a Hungria… Estive no Norte da Grécia, em Salónica, e no famoso Monte Atos, onde não é permitida a entrada a mulher nem a fêmea alguma (…).”
Era, segundo Acílio Rocha, “pessoa afável e generosa, um comunicador nato de tal ressalto que os alunos ansiavam pelas suas aulas, a que não faltavam e, como diziam em alta voz, não se cansavam, o mesmo ocorrendo com quem almejava ouvi-lo nas homilias”. Isso, posso-o testemunhar, por mim e pelos meus alunos da Escola Secundária de Moimenta da Beira de então, pois, comentávamos a posteriori as suas palestras, bem como alguns dos seus escritos. E lembro-me de António Rebelo, professor associado da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde leciona desde 1988, e investigador do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da mesma Universidade, numa das palestras que proferiu na dita Escola Secundária, ter chamado a António Freire “um mestre”.
Publicou mais de meia centena de livros e quase cem artigos, em revistas nacionais e estrangeiras, como a Brotéria – Revista Portuguesa de Filosofia, a Lumen, a Euphrosyne, a Humanitas, Les Études Classiques, na Bélgica, a Revista da Faculdade de Letras de Bucareste, na Roménia, a Latinitas, em Roma, a Vita Latina, na França, e o Orbis Latinus, na Argentina.
Vale a pena fazer breve referência a algumas das suas obras, pela profundidade de conhecimento revelada e pelo conteúdo inovador de alguns temas.  
Em “O Conceito de Moira na Tragédia Grega” (1969), que pretende responder à questão: “Fatalista, a tragédia grega?”, o autor responde com um “não” categórico e convicto, contra uma plêiade de contraditores, recorrendo a argumentos firmados em abundante documentação, numa linguagem rigorosa e em estilo primoroso, que prendem o leitor à leitura da obra. Elucida a origem da tragédia grega, a paternidade literária do “Prometeu Agrilhoado”, de Ésquilo, a peculiaridade do coro grego, o objetivo de Sófocles na composição do Édipo em Colono, os suicídios de Antígona e de Ájax, etc.
“O Pensamento de Platão” (1967) é, segundo Acílio Rocha, um dos mais importantes estudos publicados, em Portugal, sobre o pensamento do Mestre da Academia de Atenas. Nele, são analisadas as dimensões do pensamento do grande filósofo grego, desde o problema gnosiológico à conceção platónica do amor, às ideias estéticas de Platão, à conceção do Estado e à doutrina social, às ideias pedagógicas do Filósofo dos Diálogos.
“Humanismo Integral” (1993) aborda um conjunto de questões afins aos vários humanismos, desde a paidéia helénica, a Manuel Álvares e à repercussão da sua “Gramática Latina”, a Pedro da Fonseca, humanista e filósofo, ao legado homérico em Camilo Castelo Branco, bem como às obras de Aquilino Ribeiro, de Orlando Albuquerque e de Fernando Pessoa. Para António Freire, o conteúdo do termo “humanismo” não se esvaziou, antes se projeta numa semiótica que inquire os humanismos pagão e cristão, sobressaindo o sentido do verso terenciano: “Homo sum, humani nil a me alienum puto” (“sou um homem e nada do que é humano me é estranho”).
Em “Teísmo Helénico e Ateísmo Atual” (1983), ressalta uma panorâmica dos ateísmos antigo e atual, aprofundando da filosofia helénica (pré-socráticos, sofistas, Sócrates, Platão, Aristóteles e Plotino), centrada nos valores teísticos, culminando numa reflexão sobre a atualidade.
Em “Lendo Miguel Torga” (1990), António Freire entusiasma-se pela figura do escritor transmontano e conimbricense, incutindo à leitura das obras daquele que tem por “um dos expoentes do português atual”, pela robustez e clareza de estilo, pela pujança de imaginação, pela vernaculidade e pela  criatividade poética, só comparado com Vieira e com Camilo, e que fazem de Torga um poeta criador, mesmo quando escreve em prosa.
“Florbela Espanca, poetisa do amor” (1994) – apresentado como 2.ª edição de “O destino em Florbela Espanca” (1977) – é um acurado e palpitante estudo sobre a poetisa, refletindo sobre a sua vida e obra.
E muitos outros livros António Freire publicou, como “Humanismo Clássico” (1986), “Estudos de Literatura Grega” (1987), “O Teatro Grego” (1985), “Lições de Língua e Literatura Latinas” (1962), “Grécia Antiga e Grécia Moderna” (1965), “Israel Antigo e Moderno” (1967), etc. Enfim, cerca de seis dezenas, incluindo obras decorrentes da sua atividade pastoral, mormente, entre os jovens, de leitura aliciante.
Protagonizou uma série de programas televisivos na RTP, sobre “Questões da Língua Portuguesa”, um pouco na linha das “Charlas Linguísticas” do Dr. Raul Machado dos anos 60, instrutivos e elucidativos, que António Freire, como autor, incluiu na sua obra Lições de Filologia e Língua Portuguesa (1983). Porém, nesta, ao “Antelóquio”, segue-se uma parte teorética sobre a nossa língua materna e outra sobre Helenismos Portugueses, sendo a mais extensa a relativa às “Questões da Língua Portuguesa”. 
Falta considerar as publicações específicas, como a “Gramática Grega (1947), cuja 7.ª edição é de 1985; a “Gramática Latina” (1956), cuja última edição é de 1987; a “Seleta Grega” (1947) e Seleta Latina (1963, que chegou aos três volumes); e a Seleta Latina Suplementar (1963). Todas, com preciosas introduções e anotações. Além disso, publicou vários livros de exercícios e de aplicação de conhecimentos no atinente às línguas clássicas.

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António Freire, cujas obras adquiri, na sua maior parte, e cuja consulta assídua me é útil, é um exemplo do menino que não nasceu em berço de ouro, com todo o conforto que este Mundo pode oferecer às crianças e aos adolescentes, incluindo pais com cursos superiores e livros e revistas à disposição. Todavia, soube tirar o máximo rendimento dos seus talentos, sendo exímio em todas as atividades a que se aplicava – e tão diversificadas elas eram. Aplicou-se ao estudo (Línguas, Literaturas, Culturas, Filosofia, etc.), com interrupções para ensinar; fez carreira na docência; publicou livros e artigos; palestrou; viajou; falou a jovens, a professores; foi um padre dedicado à pastoral; apreciou vultos clássicos e contemporâneos; e, em tudo, foi brilhante. Contudo, não podemos olvidar atenção de que foi rodeado, na descoberta do seu talento incomum, desde logo, da parte do professor do ensino primário, da mãe e do primo e, obviamente, dos jesuítas, que dificilmente deixam perder talentos.  
Por tudo, honra ao homem e a todos aqueles que o souberam projetar na esfera do conhecimento e a partir dela! Como diria alguém, “só tenho pena de não saber metade do que ele sabia.”

2026.01.31 – Louro de Carvalho

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Donald Trump anuncia uma “armada maciça” a caminho do Irão

 

A vaga de protestos no Irão, que eclodiu a 28 de dezembro de 2025, devido ao colapso do rial e ao brutal aumento do custo de vida, levou o regime de Teerão a recear entre seis mil e 30 mil mortos. Porém, aumentou a repressão sobre os manifestantes, que acusa de terroristas ou de estarem ao serviço de países estrangeiros, nomeadamente,  os Estados Unidos da América (EUA) e Israel. Entretanto, a 26 de janeiro de 2026, o Canal 13 de Israel, fez constar que os EUA estavam a finalizar a constituição de forças navais, aéreas e terrestres para uma possível campanha contra o Irão.
Efetivamente, segundo altos funcionários norte-americanos as forças estariam mobilizadas em pontos estratégicos do Médio Oriente e da bacia do Mediterrâneo até ao dia 31, como parte dos preparativos para ataques que podem durar “várias semanas”. Todavia, como diziam os ditos responsáveis, ainda não tinha sido tomada uma decisão final sobre a investida.
De acordo com o Canal 13 de Israel, o porta-aviões USS Abraham Lincoln está no eixo do poder naval norte-americano. Com milhares de soldados a bordo, estão mobilizados cerca de 90 caças, incluindo caças F-35 e 10 helicópteros “Blackhawk”, perto do Mar da Arábia. A par do porta-aviões, há contratorpedeiros e submarinos equipados com mísseis de cruzeiro “Tomahawk”. Simultaneamente, para aumentar o poder aéreo, foram transferidos caças F-15 norte-americanos para várias bases da região, incluindo a Jordânia. Além disso, três contratorpedeiros foram implantados perto da costa espanhola e um submarino está no Sul da Grécia.  Essas forças podem chegar, rapidamente, ao alcance operacional contra o Irão, se necessário.
As defesas aéreas dos EUA foram reforçadas por navios de guerra que transportam o sistema de defesa antimísseis balísticos Aegis e os sistemas TODD (THAAD).
Eyal Zamir, chefe do Estado-Maior General do Exército israelita, encontrou-se, a 24 de janeiro, em Telavive, com Brad Cooper, comandante do quartel-general do Comando Central dos EUA (CENTCOM), encontro em que estiveram presentes o chefe da inteligência militar israelita Shlomi Binder, o líder da Direção de Operações Isaac Cohen e outros oficiais da defesa israelitas. De acordo com o Canal 13 de Israel, o objetivo era coordenar as operações na antecâmara de um possível ataque em solo iraniano.
Durante as conversações, como reporta a estação televisiva israelita, foi dito aos responsáveis de Israel que Donald Trump ainda não tinha tomado uma decisão final sobre a realização de um ataque, mas que, até ao final da semana, os EUA tinham concluído a preparação das ferramentas e os arranjos necessários para uma operação de contingência. Os oficiais das forças israelitas descreveram esta semana em campo como uma “semana chave”.
Altos funcionários israelitas também apresentaram, na reunião, o posicionamento do país sobre o possível ataque ao Irão. Segundo o Canal 13 de Israel, as autoridades israelitas disseram que, num primeiro golpe, os alvos militares deveriam ser incluídos ao lado dos alvos do governo. As instituições governamentais devem ser visadas, como defendeu o lado israelita, com vista a encorajar o povo iraniano a derrubar o regime dos aiatolas. Porém, os militares de Israel consideram que as aeronaves americanas também devem ter como alvo o arranjo de mísseis terra Terra do Irão, que representa uma ameaça direta contra Israel.
A 28 de janeiro, o presidente dos EUA afirmou que “uma enorme armada” se dirigia para o Irão e avisou Teerão de que deve negociar, no meio de ameaças de um possível ataque militar norte-americano ao país. “Está a mover-se rapidamente, com grande poder, entusiasmo e propósito”, escreveu Donald Trump, na plataforma Truth Social, sem dar pormenores sobre a missão, mas vincando: “Esperemos que o Irão venha, rapidamente, ‘para a mesa’ e negocie um acordo justo e equitativo, sem armas nucleares, que seja bom para todas as partes.”
Como dissemos, Washington deslocou para a região o USS Abraham Lincoln e vários destroyers de mísseis guiados, que podem ser utilizados para lançar ataques a partir do mar. Contudo, ainda não é claro o que Donald Trump decidirá sobre o uso da força, embora tenha estabelecido duas linhas vermelhas: a morte de manifestantes pacíficos e a possível execução em massa de detidos.
As autoridades iranianas lançaram uma repressão sangrenta sobre as manifestações, de acordo com organizações sem fins lucrativos e com outras fontes dentro do Irão.
No dia 25, a Agência de Notícias dos Ativistas dos Direitos Humanos, com sede nos EUA, afirmou que, pelo menos, 6221 pessoas foram mortas, incluindo 5858 manifestantes, 214 membros das forças governamentais, 103 crianças e 49 civis que não estavam a manifestar-se. E mais de 42300 pessoas foram presas.
O número de mortos continua impossível de verificar, e os meios de comunicação social estatais do Irão são a única fonte de notícias, já que Teerão cortou o acesso à Internet, há três semanas. Assim, o governo iraniano calculou o número de mortos em 3117, afirmando que 2427 eram civis e membros das forças de segurança, e classificou os restantes como “terroristas”. 
No passado, as autoridades iranianas subestimaram ou não comunicaram as mortes causadas pela agitação. Embora os protestos tenham sido interrompidos, durante semanas após, a repressão, as informações que chegam lentamente do Irão, pelas antenas parabólicas Starlink, estão a chegar aos ativistas e aos meios de comunicação social que tentam contabilizar as vítimas. E o número de mortos, que excede o de qualquer outra ronda de protestos ou de agitação, no Irão, em décadas, faz lembrar o caos que rodeou a Revolução Islâmica de 1979.
O Irão terá limitado a capacidade dos jornalistas locais para relatarem o rescaldo dos protestos. Em vez disso, transmitiu, repetidamente, na televisão estatal, afirmações que se referem aos manifestantes como “desordeiros” motivados pelos EUA e por Israel, sem apresentar provas que sustentem essa alegação.
O desafio de obter informações do Irão persiste, devido ao facto de as autoridades terem cortado o acesso à Internet, em 8 de janeiro, mesmo quando as tensões aumentam entre os EUA e o Irão, à medida que um grupo de porta-aviões americano se aproxima do Médio Oriente, força que o presidente dos EUA comparou a uma “armada”, em comentários a jornalistas.
O novo número de vítimas surge numa altura em que as tensões permanecem elevadas, devido ao facto de Donald Trump ter estabelecido as referidas duas linhas vermelhas, face aos protestos. Porém, o procurador-geral do Irão e outras pessoas apelidaram alguns dos detidos de “mohareb”, isto é, inimigos de Deus, acusação passível de pena de morte. Foi utilizada, com outras, para efetuar execuções em massa, em 1988, tendo liquidado, pelo menos, cinco mil pessoas.
Desta vez, os Iranianos ficaram zangados e ansiosos, ao verem imagens de manifestantes mortos a tiros, e estão preocupados com o que poderá acontecer a seguir, à medida que a economia do país se afunda cada vez mais. “Sinto que a minha geração não conseguiu dar uma melhor lição aos mais novos. O resultado de décadas de ensino dos meus colegas e meu levou à morte de milhares de pessoas e, talvez, a mais feridos e prisioneiros”, disse Mohammad Heidari, 59 anos, professor do ensino secundário em Teerão.

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Entretanto, no dia 25, pouco depois de Donald Trump ter anunciado que os EUA estavam a deslocar navios de guerra para a região, para o caso de querer agir, as autoridades iranianas fixaram um cartaz, numa praça central de Teerão, a avisar os EUA contra uma intervenção.
O cartaz na Praça Enghelab (Revolução) retrata um porta-aviões com caças danificados e a explodir no convés. Corpos e uma piscina de sangue cobrem o convés, com rastos de sangue, que se assemelham às riscas da bandeira americana, a correr atrás da frota. O grafismo é acompanhado por um slogan que diz: “Se semeares o vento, colherás o redemoinho.”
A Praça Enghelab é, normalmente, utilizada para reuniões organizadas pelo Estado, alterando as autoridades o seu mural, em função das ocasiões nacionais.
Já na semana anterior Donald Trump disse, a bordo do Air Force One, que os EUA estavam “a observar o Irão” e que estavam a deslocar os navios em direção ao país. “Temos uma frota enorme a ir nessa direção e talvez não tenhamos de a usar, veremos”, declarou no dia 22.
O inquilino da Casa Branca (naquele momento, inquilino do Air Force One) esclareceu que qualquer ação militar faria com que os ataques anteriores dos EUA, lançados contra as instalações nucleares iranianas,  em junho, “parecessem uma ninharia”. 
No dia 24, o comandante da Guarda Revolucionária paramilitar do Irão, poderosa força na teocracia do país, advertiu os EUA e Israel para “evitarem qualquer erro de cálculo” e que a força está “mais pronta do que nunca, com o dedo no gatilho”. 
Também o ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão emitiu um aviso contra os EUA, a ameaça mais direta de sempre, vincando que a República Islâmica irá “ripostar com tudo o que temos, se formos alvo de um novo ataque”. “Ao contrário da contenção que o Irão demonstrou em junho de 2025, as nossas poderosas forças armadas não hesitam em ripostar com tudo o que temos, se voltarmos a ser atacados”, escreveu Abbas Araghchi, num artigo de opinião publicado pelo The Wall Street Journal, referindo-se ao conflito de 12 dias com Israel, em junho: “Não se trata de uma ameaça, mas de uma realidade que sinto que devo transmitir explicitamente, porque, como diplomata e veterano, abomino a guerra.” 
O líder da Casa Branca também mencionou as várias rondas de conversações que os funcionários norte-americanos tiveram com o Irão sobre o seu programa nuclear, antes de Israel lançar um conflito de 12 dias contra a República Islâmica, em junho, que viu aviões de guerra dos EUA bombardearem instalações nucleares iranianas. E ameaçou, explicitamente, o Irão com uma ação militar que faria com que os anteriores ataques dos EUA contra as suas instalações de enriquecimento de urânio “parecessem amendoins”. “Deviam ter feito um acordo, antes de os atingirmos”, acrescentou.

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Em Portugal, como referiu, a 30 de janeiro, o jornalista Vítor Matos, no Expresso online, a 30 de janeiro, em artigo intitulado  “Governo autorizou escalas de F-35 nas Lajes, mas desconhece se o objetivo é atacar o Irão”, enquanto os EUA reforçam o dispositivo no Médio Oriente para um eventual ataque ao Irão, foi registada a passagem de vários caças F-35 pela Base das Lajes, com destino ao Médio Oriente. O governo autorizou tais escalas, ao abrigo dos acordos com os EUA, mas diz não conhecer a missão específica dos aviões de combate.
Tal postura governamental é, no mínimo, estranha, para não dizer hipócrita ou tímida. Na verdade, a Base das Lajes na Ilha Terceira, nos Açores, tem sido usada como ponto de passagem para os caças invisíveis F-35, em trânsito para o Médio Oriente, onde os EUA estão a concentrar significativa força militar para executarem um potencial ataque ao Irão.
O Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) confirma a passagem autorizada das aeronaves, mas sem informação sobre o objetivo da escala: “Os voos com destinos diversificados, entre os quais o Médio Oriente, foram autorizados no quadro do acordo com aquele parceiro da NATO [Organização do Tratado do Atlântico Norte], e não ao abrigo de qualquer operação militar específica.” 
As imagens de aviões de combate de 5.ª geração a descolar das Lajes foram registadas por “André Spotter” e partilhadas, na rede social X, por uma conta especializada em Defesa, OSINTtechnical, provenientes de Porto Rico e da Virgínia, com destino ao Médio Oriente.
A publicação especializada em defesa “The War Zone” noticia as mesmas escalas nas Lajes, com destino desconhecido – embora o governo admita que há destinos para o Médio Oriente – e refere a possibilidade de as aeronaves que viajam a partir de Porto Rico serem as que intervieram na captura do presidente venezuelano, Nicolás Maduro. Fontes militares chegaram a admitir, nessa ocasião, que, na captura do chefe do Estado venezuelano, algumas aeronaves norte-americanas que terão realizado voos de apoio a essa missão passaram pelas Lajes.
Quando o Expresso noticiou, em outubro, a passagem de F-35 para entrega a Israel, segundo Vítor Matos, o ministro dos Negócios Estrangeiros emitiu um comunicado a dizer que, “dada a sensibilidade da questão, esta comunicação deveria ter sido reportada ao gabinete do ministro, antes de esgotado o prazo de autorização”, anunciou o apuramento de responsabilidades (de cujas conclusões não foi dado conhecimento público) e a “modificação de procedimentos, de modo a evitar que tais falhas processuais voltem ocorrer, especialmente, em processos de autorização tácita”. O prazo curto para informar o gabinete, de forma a tomar uma decisão política, é de “24 horas”, após a autorização tácita, quando existe uma “autorização anual de sobrevoo e aterragem”.
No caso presente, o MNE não explicou se esta informação foi validada pelo gabinete de Paulo Rangel, que diz desconhecer o objetivo dos sobrevoo destas aeronaves, alegando que se enquadra nos acordos com os EUA.
Ora, nos últimos dias, a retórica da administração norte-americana contra o Irão endureceu, com o envio do porta-aviões USS Abraham Lincoln para a região. Fontes da CNN internacional sustentam que a administração norte-americana tenciona realizar ataques aéreos dirigidos aos líderes iranianos e a funcionários da segurança tidos como responsáveis pelas mortes nos protestos, assim como ataques a instalações nucleares e a instituições governamentais. E os F-35A, os caças mais sofisticados do Mundo, já tinham participado nos ataques ao Irão, em junho de 2025, na operação Midnight Hammer, desempenhando papel fundamental na eliminação das defesas aéreas iranianas, abrindo caminho, em segurança, aos bombardeiros B-2A.
Em outubro, o embaixador de Israel em Lisboa, Oren Rozenblat, admitiu, na CNN Portugal, que a cedência de F-35 a Israel e a sua passagem pelos Açores têm sido secretamente faladas com o governo, que negou tais asserções. Aliás, pelos vistos, o chefe da diplomacia assumiu que não foi informado da escala de três caças F-35 nas Lajes com destino a Israel e o executivo não disse o que faria, quanto à passagem de mais material militar para Telavive pelos Açores. 

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É criticável o facto de um aliado autorizar o quer que seja, sem saber em que termos e para que efeito. Isto é abdicar do exercício da soberania. Ou, então, não nos dizem a verdade. Estarão a funcionar regularmente as instituições democráticas, senhor Presidente da República?

2026.01.30 – Louro de Carvalho


Igualdade da Carta das Nações Unidas só foi parcialmente cumprida

 

Um novo relatório examina o acesso das mulheres a cargos de poder na Organização das Nações Unidas (ONU) e no sistema multilateral, desde 1945. Trata-se da 4.ª edição do Relatório Mulheres no Multilateralismo (WIM26), da GWL Voices, que apresenta, pela primeira vez, o histórico completo das candidaturas ao cargo de secretário-geral da ONU, desde 1945. Candidataram-se 48 homens e oito mulheres. Porém, nenhuma mulher eleita, em oito décadas.
A GWL Voices é uma organização de mulheres líderes de todas as regiões e origens, comprometidas com a construção de um sistema internacional, com igualdade de género, que responda, eficazmente, aos atuais desafios do desenvolvimento sustentável, da paz, da segurança e dos direitos humanos. Cofundada por Susana Malcorra e Irina Bokova, é presidida por Susana Malcorra, ex-ministra dos Negócios Estrangeiros da Argentina e ex-candidata à ONU.
Atualmente, as mulheres lideram 46% das organizações multilaterais analisadas, mas permanecem muito abaixo da paridade nos órgãos diretivos e nas representações permanentes da ONU, onde figuram apenas 23%.
Desde 1947, ocorreram 20 Assembleias Gerais da ONU, sem que uma mulher ocupasse o cargo de representante permanente, e 72 países nunca propuseram uma mulher para essa posição. Ora, em momento crítico para o futuro do multilateralismo, marcado pelo 80.º aniversário das Nações Unidas (ONU80) e pela próxima eleição do secretário-geral, o novo relatório da GWL Voices – apresentado a 29 de janeiro, na Real Academia de Belas Artes de San Fernando, em Madrid – fornece evidências históricas, sem precedentes, sobre quem teve acesso (ou não teve) aos mais altos cargos de poder, no sistema internacional.
O relatório WIM26 revela que, ao longo de 80 anos, 48 ​​homens e só oito mulheres foram candidatos oficiais, e que nenhuma mulher foi eleita. Nas primeiras seis décadas de existência da organização, nenhuma mulher sequer foi, formalmente, considerada para o cargo. E tais descobertas inserem-se numa análise mais ampla da representação de género no sistema multilateral. Com base em dados atualizados até 2025, o relatório examina 62 organizações internacionais, em quatro níveis principais: liderança executiva, alta administração, órgãos diretivos e representações permanentes junto da ONU.
As mulheres lideram, atualmente, 46% das organizações analisadas, mas há um padrão consistente: a presença feminina diminui, significativamente, nos espaços onde o poder de decisão está concentrado. Nos órgãos diretivos, as mulheres ocupam, em média, apenas 29% das cadeiras, e entre os representantes permanentes junto da ONU, em Nova Iorque, figuram apenas 23%. O relatório documenta ainda que 72 países nunca nomearam uma mulher como representante permanente junto da ONU e que, desde 1947, 20 Assembleias Gerais foram realizadas sem a participação de uma única mulher nesse cargo.
Segundo o relatório, tais disparidades não se devem à falta de mulheres qualificadas, mas a padrões estruturais de exclusão e a processos de seleção que não avaliaram o mérito em termos equitativos. “Este não é um debate entre género e mérito”, afirma Susana Malcorra, explicitando: “A questão é se o mérito foi definido e reconhecido de forma justa. Mulheres altamente qualificadas existem há décadas; o que tem faltado é um processo que as reconheça sem preconceitos.” 
Porém, a análise mostra que a mudança é possível, pois, onde houve progresso rumo à paridade, foi resultado de decisões deliberadas: metas claras, mensuração sistemática e mecanismos de responsabilização. “O progresso em alguns níveis do sistema multilateral não aconteceu por inércia. Foi resultado de decisões políticas concretas”, observa Malcorra.
As conclusões do WIM26 foram apresentadas, como dissemos, em Madrid, no âmbito do Diálogo GWL Voices 2026, “Mulheres Liderando a ONU do Século XXI”, inaugurado pelo Rei Felipe VI de Espanha. A sessão foi aberta com o discurso da presidente da Eslovénia, Natasa Pirc Musar. A apresentação foi feita por Nudhara Yusuf, copresidente da Coligação para a ONU de que Precisamos (C4UN), num encontro que reuniu líderes internacionais, em contexto de crescente questionamento da legitimidade e da eficácia do multilateralismo. Entre as participantes, contam-se Michelle Bachelet, Rebeca Grynspan, María Fernanda Espinosa, Noeleen Heyzer e Sigrid Kaag, juntamente com as cofundadoras do GWL Voices – Susana Malcorra, Helen Clark e Irina Bokova – antigas candidatas a secretária-geral da ONU.
Num cenário global de tensões geopolíticas e de crescente desconfiança nas instituições internacionais, o WIM26 argumenta que a legitimidade futura do multilateralismo dependerá da sua capacidade de refletir, verdadeiramente, a diversidade humana, a começar pelos seus mais altos escalões de liderança. E a questão não é se há mulheres qualificadas para ocupar esses cargos, mas o que continua a impedir o seu acesso.

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A este respeito, a Euronews, publicou, a 30 de janeiro, um artigo de Christina Thykjaer, sob o título “80 anos sem uma mulher à frente da ONU: ‘Não é por falta de escolha, é por falta de vontade’”, em que nos dá conta de declarações de Susana Malcorra, em entrevista à Euronews, a qual, em vésperas de nova eleição para secretário-geral da ONU, enfatiza que “nunca houve uma mulher à frente das Nações Unidas” e reflete sobre o género, sobre o poder e sobre a liderança no sistema multilateral.
Com efeito, nas suas palavras, fica evidente que “oito décadas após a fundação das Nações Unidas, o teto de vidro permanece intacto no mais alto cargo do sistema multilateral: o secretário-geral nunca foi uma mulher”. 
Em 2016, quando Susana Malcorra se candidatou ao cargo de secretária-geral da ONU, o contexto parecia favorável. A organização estava a celebrar o 70.º aniversário e, pela primeira vez, sete dos 13 candidatos (a maioria) eram mulheres, “um acontecimento sem precedentes”. E a antiga  ministra dos Negócios Estrangeiros da Argentina recorda que havia “convicção muito forte de que era altura de uma mulher”, dado que “a oferta feminina era vasta, diversificada e com antecedentes muito sólidos”. Porém, nenhuma foi escolhida.
Além da sua desilusão pessoal, Susana Malcorra sublinha a tristeza que sentiu, ao aperceber-se de que “nenhuma mulher era considerada suficientemente qualificada” para o cargo e ao verificar que “há espaços que continuam a ser muito restritivos”. Assim, concluiu que “a questão não é saber se há opções”, mas “se há vontade de dar essa oportunidade”. 
Com a nova eleição no horizonte, Susana Malcorra julga que as perspetivas são promissoras, pelo menos no papel. “Este ano, vamos ter uma lista de candidatos interessante. Não será por falta de mulheres qualificadas, se isso não se concretizar”, atira.
Efetivamente, por rotação geográfica não escrita, a América Latina e as Caraíbas deverão ter papel preponderante nas próximas eleições para secretário-geral, mas a decisão cabe ao Conselho de Segurança e, em especial, aos seus cinco membros permanentes: a China, a França, a Rússia, o Reino Unido e os Estados Unidos da América (EUA). E voltamos à questão essencial, que “não é saber se existem opções”, mas “se existe vontade de dar essa oportunidade”. 
A Carta das Nações Unidas oferece a chave: “Fala de ‘nós, os povos’. Não os homens. E os povos são homens e mulheres, e as mulheres estão em maioria”, discorre a antiga candidata, sustentando que, além do simbolismo, que reputa importante, em contexto de crise de confiança no sistema, “uma mulher à frente da ONU pode trazer uma forma diferente de liderança”, pois “as mulheres tendem a abrir portas, a construir pontes, a ouvir mais”. E isso pode ser valioso em maré de tensão.
É certo que nenhum secretário-geral, homem ou mulher, pode resolver tudo sozinho, mas, na ótica da entrevistada, “a chave é construir equipas fortes e chegar a um consenso com os governos”, sendo importante o modo como isso se faz.
A cofundadora do GWL Voices rejeita a ideia de que a falta de uma mulher à frente da ONU se deva à falta de experiência ou de liderança. Antes, considera que o problema reside em critérios implícitos que raramente são reconhecidos abertamente. “Uma avaliação diferente nunca será admitida, mas os preconceitos existem”, observa, explicando: “As mulheres são julgadas como demasiado duras ou [como] demasiado suaves, demasiado fortes ou demasiado suaves. Esse tipo de avaliação não se aplica normalmente aos homens da mesma forma.” 
Também questiona o argumento do mérito: “Partimos do princípio de que, durante 80 anos, quem liderou o secretariado-geral teve mérito. Não há razão para pensar que uma mulher com mérito e experiência não o possa fazer agora.” 
Se a ONU voltar a escolher um homem, a mensagem não será neutra. E Susana Malcorra entende que, falando-se de mudança, de reforma e de refundação, seria um sinal não positivo, uma vez que “os símbolos são importantes”. Porém, evita o maniqueísmo, não dizendo que a eleição de um homem seria um fracasso, mas sustenta que “seria uma oportunidade perdida”. 
Questionada sobre se se candidatará, respondeu que teve a sua oportunidade, em 2016, e que, havendo um tempo para tudo, o seu “já passou”. Agora, o seu trabalho é garantir que não faltam mulheres, quando chega a altura de decidir, através de iniciativas, como a GWL Voices, fundada com outras antigas candidatas a secretária-geral da ONU, cujo papel “é mostrar o caminho”. E alerta as mulheres que trabalham na diplomacia internacional e que aspiram aos mais altos cargos: “Nada disto é fácil. Os espaços de poder não se abrem sozinhos. É preciso ter convicção, determinação e sermos nós próprias. Os valores são importantes. E não devemos ceder nessa determinação.” 
O relatório conclui que a igualdade da Carta das Nações Unidas só foi parcialmente cumprida: apesar dos progressos em muitas áreas de liderança, as mulheres continuam sub-representadas nos espaços onde o poder está concentrado. A maior prova disto é o cargo de secretário-geral da ONU. Desde 1945, nunca foi ocupado por uma mulher e o registo de nomeações reflete exclusão sustentada: das mais de 40 candidaturas, em 80 anos, apenas oito foram de mulheres. Durante as primeiras seis décadas da organização não foram oficialmente consideradas candidaturas de mulheres. O primeiro marco só aconteceu em 2006, quando Vaira Vīķe-Freiberga, presidente da Letónia, foi a mulher candidata, num processo dominado por homens. Dez anos depois, em 2016, deu-se a grande viragem: com um processo mais transparente, houve 13 nomeações e sete delas eram mulheres, a maior presença de sempre de mulheres, nesta corrida. Contudo, o lugar foi para António Guterres.
A investigação foca também o principal estrangulamento do sistema: o Conselho de Segurança. Embora a Assembleia Geral eleja o secretário-geral, só o pode fazer por recomendação do Conselho, onde os cinco membros permanentes mantêm o direito de veto, uma barreira que condiciona qualquer candidatura, por maior apoio internacional que tenha.
Além do cargo de secretário-geral, os dados revelam progressos, mas desiguais. Nas 62 organizações multilaterais analisadas, 46% são, atualmente, chefiadas por uma mulher, um número que se aproxima da paridade e que aumentou, face aos 42% registados em 2023. Porém, os progressos surgiram a par de inércia persistente: 21 organizações nunca tiveram uma mulher à frente e outras 20 só elegeram uma mulher em toda a sua História.
No coração político e operacional do sistema, o Secretariado da ONU oferece uma imagem mais tangível da mudança. Em 14 entidades-chave examinadas, a percentagem histórica de mulheres líderes é de 26%, mas o número atual é de 50%, sendo, atualmente, sete instituições são dirigidas por mulheres. Todavia, três destas entidades nunca foram dirigidas por uma mulher, o que confirma que a paridade não progride ao mesmo ritmo, em todas as áreas.
Onde a estagnação é mais evidente é na representação do Estado, especialmente, na diplomacia mais visível. Em 2025, as mulheres representam 23% dos representantes permanentes da ONU, em Nova Iorque. A proporção melhora noutras sedes (34%, em Genebra, e 31%, em Viena), mas está longe de uma representação equilibrada. O relatório acrescenta outro facto revelador: 72 países nunca enviaram uma mulher como representante permanente a Nova Iorque e 63 só enviaram uma mulher uma vez.
O fosso agrava-se nos órgãos de decisão. Nos 32 órgãos de governo inquiridos, as mulheres representam, em média, 29% dos seus membros. No grupo de instituições que a GWL Voices monitoriza numa base comparável desde 2023, o número mal se move e permanece em torno de 28-30%, um indicador de que a mudança é mais lenta, precisamente, nos espaços onde os governos decidem as prioridades, supervisionam e nomeiam a liderança.
Enfim, o relatório apresenta um padrão: o sistema multilateral mostrou que a paridade pode ser abordada, quando priorizada e medida, mas a resistência persiste nos níveis mais altos do poder político. E a GWL Voices, conclui: “Os princípios de igualdade proclamados pela ONU permanecerão incompletos, enquanto os seus mais altos cargos não refletirem essa diversidade.”

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Há, muitos setores de desigualdade para as mulheres, desde o salário, as condições de trabalho, a entrada na política e a ocupação de cargos cimeiros nas empresas até à saúde.  
As mulheres perdem cerca de 75 milhões de anos de vida saudável, por ano, o que equivale a uma semana de vida saudável por mulher, anualmente.
Mulheres e raparigas representam 49% da população mundial e, embora vivam mais do que os homens, passam mais 25% da vida com saúde precária ou com deficiência. A saúde das mulheres recebe apenas 6% do investimento privado total em saúde, e as empresas exclusivamente focadas na saúde das mulheres atraem menos de 1%, segundo o novo relatório do Fórum Económico Mundial (WEF) e da Boston Consulting Group (BCG). “A igualdade de género progrediu, mas a diferença entre resultados de saúde de homens e mulheres continua substancial”, escreveram Trish Stroman, da BCG, e Shyam Bishen, do WEF, no relatório.
Na tecnologia de saúde, a diferença é maior: as empresas focadas na saúde das mulheres captaram apenas 2% dos 41,2 mil milhões de dólares de financiamento de capital de risco em tecnologia de saúde em 2023. Rastreios adequados e melhores cuidados para mulheres nos EUA, considerando quatro condições (menopausa, osteoporose, doença de Alzheimer e doenças cardiovasculares), podiam libertar mais de 100 mil milhões de dólares em valor de mercado. A questão não é só de défice de saúde pública, mas também de ineficiência de mercado em escala histórica.
Muitas doenças afetam as mulheres de forma única, diferente e desproporcionada.

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Estamos muito aquém da igualdade de género, no quadro da igualdade de oportunidades.

2026.01.30 – Louro de Carvalho


quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Portugal será o primeiro país da UE a ter um porta-drones

 

Trata-se do Navio da República Portuguesa (NRP) D. João II, assim batizado em homenagem ao “príncipe perfeito”, o cognome do rei português do século XV que investiu numa política de exploração e expansão marítima, fazendo do país uma potência global. O projeto resulta da ambição estratégica do almirante Henrique Gouveia e Melo, quando desempenhava o cargo de chefe do Estado-Maior da Armada (CEMA), e que se candidatou à Presidência da República, nas eleições deste ano de 2026, tendo sido eliminado na primeira volta, a 18 de janeiro. Não obstante, o eminente submarinista amadureceu o projeto, desde o final da última década para criar a chamada Plataforma Naval Multifuncional (PNM).
A informação vem detalhada em artigo do jornalista João Azevedo, intitulado  “´Revolucionário´: Portugal será o primeiro país da UE a ter um porta-drones”, publicado, a 29 de janeiro, pela Euronews e que vale a pena ler devagar,
O NRP D. João II, cuja entrega está prevista para o corrente ano e que pode alojar até 200 pessoas, lançará e recuperará drones aéreos e marítimos para investigação científica e para vigilância em missões de longa duração, reforçando, na ótica do jornalista, a capacidade de o país “controlar a sua vasta área marinha e de enfrentar ameaças híbridas”.
Com o custo de 132 milhões de euros, assegurado maioritariamente (94,5 milhões) por fundos europeus do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), lançado para apoiar os países da União Europeia (UE) no pós-covid, e correspondendo o restante (37,5 milhões) a investimento do Estado, o navio, com entrega aprazada para o 2.º semestre, está a ser construído pela neerlandesa Damen nos estaleiros da empresa em Galati, na Roménia, onde foi feito o corte da primeira chapa, em outubro de 2024.
Em novembro de 2023, na assinatura do contrato, em Lisboa, o CEMA anunciava “um ponto de não retorno para a modernidade”, falando de navio transformador, inserido na estratégia de uma “Marinha holística, tecnologicamente avançada, disruptiva e robotizada”. Porém, apesar de o conceito ter sido desenvolvido, na íntegra, pela nossa Marinha, esta não ficou com a patente, por isso implicar o investimento de milhões de euros, tendo a empresa vencedora do concurso para a construção do navio recebido manifestações de interesse de outros países europeus. Em novembro de 2025, em entrevista à Euronews, o almirante falava de algo “revolucionário”, que responde à “forma de estar e [de] atuar no ambiente militar do século XXI”. 
Incorporando os atributos de porta-drones, com condições para operar sistemas não tripulados aéreos e marítimos, incluindo à superfície da água e subaquáticos, o NRP D. João II apresenta grande facilidade para, em curto período, se adaptar a diferentes missões, podendo-se tirar muitos sistemas que estão implementados e trocá-los por outros, dando-lhe novas capacidades, segundo o engenheiro naval Barbosa Rodrigues. Isto, no dizer de Ricardo Sá Granja, porta-voz da Marinha, “permite que o navio mantenha elevada flexibilidade funcional, alternando entre diferentes perfis de missão sem compromissos estruturais significativos”, constituindo a embarcação “um marco significativo no percurso de modernização da instituição”, por “uma mudança estrutural na forma como são concebidas e empregues as capacidades navais”, num enquadramento “sustentado por um ecossistema de inovação já existente na Marinha”. 
Sublinha o jornalista que a dinâmica da segurança marítima tem sido “influenciada pelo desenvolvimento da tecnologia de drones”, que evoluíram de sistemas de reconhecimento para instrumentos de ataque, prevendo-se que se transformem em caças aéreos. Com estes sistemas, continua João Azevedo, “as forças militares de países de pequeno e médio porte, privadas do orçamento necessário para recorrer aos porta-aviões tradicionais” podem “alargar o seu alcance operacional a custos reduzidos”. E citando Michael Peck, especialista em Defesa, num artigo na 19FortyFive, um porta-aviões nuclear da classe Ford dos Estados Unidos da América (EUA), com 100 mil toneladas, “custa cerca de 13 mil milhões de dólares”. 
Além do aspeto financeiro, as soluções autónomas revelam-se mais ágeis: ao contrário dos porta-aviões, cujo destacamento implica enorme esforço logístico, os drones possibilitam concentração e projeção de força mais rápidas, com riscos menores para quem os opera,  podendo vir a tornar os porta-aviões obsoletos.

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O primeiro esboço documentado de um porta-drones de raiz foi o UXV Combatant, da empresa britânica BVT Surface Fleet, em 2007. Era um navio de guerra multifuncional, de oito mil toneladas, que corporizava o conceito de “nave-mãe” para sistemas não tripulados. Contudo, aspetos, como a autonomia da embarcação e a coordenação no lançamento de drones aéreos não estavam devidamente consolidados e o projeto não foi avante. Hoje, três marinhas (a da China, a do Irão e a da Turquia) adquiriram ou estão a desenvolver navios de convés plano para o transporte de sistemas aéreos autónomos. Na UE,  como diz o jornalista, Portugal, fazendo valer a experiência e o  conhecimento dos drones, é o primeiro país a dar este passo.
Com 107,6 metros de comprimento, o NRP D. João II atingirá a velocidade de 15,5 nós e contará com uma guarnição de 48 elementos, e terá espaço para transportar 42 especialistas, entre cientistas e operadores de sistemas não tripulados. Em caso de auxílio ou emergência, pode alojar mais 100 a 200 pessoas. O convés amplo e corrido, com cerca de 94 metros de comprimento, possibilita a aterragem e o lançamento de drones aéreos e está dotado de um hangar destinado à montagem, à preparação e à manutenção destes veículos. Para a operação dos drones de superfície e de subsuperfície, além de hangares, há sistemas e equipamentos, nomeadamente, a rampa à popa, para lançamento, recolha e posterior comunicação do posicionamento.
A PNM estará equipada com um convés de voo e correspondente hangar, para helicópteros médios (tipo NH90 ou SH60), conferindo-lhe a configuração desta estrutura capacidade para aterrar e para fazer descolar um helicóptero pesado baseado em terra (tipo EH-101). Será possível colocar, no navio, 18 contentores de 20 pés, incluindo câmaras hiperbáricas e estrutura hospitalar, 18 viaturas ligeiras, entre as quais ambulâncias, bem como dez embarcações, para além da sua dotação normal. Está ainda prevista a inclusão de uma grua “que põe 30 toneladas a 14 metros”, o que garante autossuficiência, e do ROV Luso, veículo de operação remota capaz de alcançar uma profundidade de seis mil metros.
O navio foi projetado para uma autonomia de até 45 dias, o que lhe permite, segundo Ricardo Sá Granja, “operar por longos períodos, sem necessidade de apoio logístico próximo”, o que, aliado à arquitetura modular, “amplia significativamente o raio de ação nacional e permite a execução contínua de um vasto conjunto de missões”. E foi concebido à luz de arquitetura “baseada em princípios de sistemas abertos”, o que facilita a “integração gradual e controlada de tecnologias emergentes”, como as aplicações de inteligência artificial (IA), valências que poderão, segundo Ricardo Sá Granja, ser aplicadas “no processamento e na análise de grandes volumes de dados, na navegação assistida ou autónoma, na fusão de informação proveniente de múltiplos sensores e no apoio à decisão”, mas ficando sempre salvaguardadas a “supervisão humana, [a] rastreabilidade dos processos e [a] conformidade com os requisitos éticos, legais e de segurança operacional”. 
Sá Granja sustenta que, além de uma “melhor compreensão do ambiente marítimo”, a informação obtida a partir de vários sensores, incluindo sistemas não tripulados, tornará possível “a identificação atempada de padrões ou atividades anómalas”.
As operações científicas contemplam a recolha, o processamento, o tratamento e a transmissão de dados em tempo real sobre o mar, bem como tarefas de observação e monitorização ambiental. Está prevista a instalação de laboratórios permanentes, na lógica de colaboração com as universidades e de “elevada interoperabilidade entre entidades civis e militares”. A segurança é outro eixo de atuação do navio, que levará a cabo operações de busca e de salvamento,  em articulação com a Proteção Civil. O navio estará ao serviço da proteção da soberania, ao proporcionar a vigilância, a inspeção e a fiscalização no mar português, bem como ao poder retirar cidadãos de zonas perigosas ou de conflito.
O navio está apto a operar múltiplos veículos não tripulados, em simultâneo, sendo os drones aéreos e de superfície acionados na monitorização ambiental, na vigilância marítima, assim como no apoio às comunicações e à recolha de dados oceanográficos.
Os veículos subaquáticos não tripulados servirão para atividades de inspeção, de deteção e de mapeamento do fundo marinho. O uso destes sistemas, segundo o porta-voz da Marinha, “assenta num conceito modular e escalável, permitindo diferentes combinações de meios, conforme a natureza científica, civil ou militar das missões atribuídas”. 
Refere o jornalista que o alcance dos drones varia consoante o tipo de veículo, a missão em causa e as condições operacionais, “sendo definido, caso a caso, de acordo com parâmetros técnicos, regulamentares e de segurança”. E os sistemas não tripulados a bordo da PNM serão, “sempre que possível, soluções de fabrico nacional”, tendo a Marinha estabelecido protocolos com empresas portuguesas que produzem veículos destes e as tecnologias associadas. Porém, não estão excluídas parcerias internacionais. Com efeito, no final de 2025, na sua primeira visita a Kiev como primeiro-ministro, Luís Montenegro participou na celebração de um acordo entre Portugal e a Ucrânia para a produção conjunta de drones subaquáticos.
Este tipo de cooperação, de acordo com o porta-voz da Marinha, pode constituir uma mais-valia técnica e concetual, “na medida em que permite a partilha de lições aprendidas, [de] boas práticas e [do] conhecimento acumulado sobre a operação de sistemas não tripulados em ambientes exigentes”, e coloca Portugal “entre os países europeus mais ativos” o lançamento, na recuperação e no emprego integrado de veículos não tripulados em ambiente marítimo”. 
Portugal beneficia de longa tradição naval e tem no mar um ativo estratégico. O espaço marítimo nacional abrange cerca de quatro milhões de quilómetros quadrados, o que dá ao país o estatuto de maior Estado costeiro da UE e um dos maiores do Mundo. Com a terceira maior Zona Económica Exclusiva (ZEE) da Europa, 18 vezes superior ao território continental, Portugal tem acrescidas responsabilidades no ecossistema azul. Por isso, o NRP D. João II “foi projetado para assegurar presença sustentada no mar”, com papel crucial na defesa da posição portuguesa, no Atlântico e noutras áreas estratégicas de interesse nacional.
Sá Granja Lembra que Portugal é “amplamente reconhecido, no contexto europeu e aliado, como interveniente relevante no domínio da experimentação, [da] validação e [da] integração operacional de sistemas não tripulados a partir de plataformas navais”. Para tanto, contribuiu o REPMUS, segundo a Marinha, o maior exercício de experimentação operacional de sistemas não tripulados do Mundo. Foi iniciado em 2010, na sequência de protocolo entre a Marinha e a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP), atraindo, anualmente, a solo nacional mais de mil pessoas e dezenas de instituições, entre empresas e universidades.

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A atividade naval da Rússia no Atlântico têm aumentado. A Marinha acompanhou 143 navios russos, ao longo da costa, entre 2022 e 2024; e, em 2025, foram detetados, pelo menos, oito em águas sob jurisdição de Portugal, nomeadamente, submarinos equipados com mísseis de longo alcance e navios-espiões capazes de destruir cabos submarinos. Ora, a recolha de dados, feita a bordo da PNM, será relevante para contrariar as “ameaças híbridas contemporâneas” identificadas pela Marinha, como a sabotagem de infraestruturas críticas submersas ou ações encobertas. O navio terá intervenção, a nível nacional e na UE, “reforçando a capacidade de resposta aos desafios comuns no domínio marítimo”, salienta o representante da Marinha.
O comando e o controlo de frotas dispersas de veículos não tripulados são tarefas difíceis e dependem de ligações de dados seguras que podem sofrer interferências. Para Sá Granja, trata-se de “desafio técnico exigente” e a Marinha vem desenvolvendo arquiteturas baseadas em princípios, como “a redundância de ligações de dados, a utilização de mecanismos robustos de encriptação, a segmentação de redes e a capacidade de operação degradada ou autónoma”, para garantir “a continuidade das missões dentro de parâmetros aceitáveis de risco e de controlo humano, mesmo em ambientes complexos”. Independentemente destas preocupações, os sistemas não tripulados no contexto marítimo trazem muitas vantagens, desde logo, por viabilizarem destacamentos simultâneos prolongados, com ganhos evidentes na capacidade de vigilância e na recolha de dados. Aliás, até as forças navais dos principais países do Mundo, que privilegiam os meios tradicionais mais pesados, estão a seguir este rumo.
A Marinha quer manter-se no rumo da tecnologia e, ante “o crescente peso do software, da automação e da gestão avançada de dados nas operações marítimas”, admite que o navio, em função da sua modularidade, pode atualizar os conceitos operacionais e integrar “novas valências ou capacidades”, se tal for decidido pelas autoridades, mas sem pôr em causa a vocação primordial da plataforma, enquanto navio multifunções.

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Também neste âmbito, Portugal está em linha com as necessidades da Europa. Em entrevista à Euronews, o general irlandês Seán Clancy, presidente do Comité Militar da UE (CEUMC), em dezembro de 2025, falou da preparação da Europa para lidar com ataques com drones e com cibernético, sustentando que a utilização de drones na guerra da Ucrânia e a violação do espaço aéreo da UE por essas aeronaves, exigem o realinhamento da estratégia de defesa, de acordo com o principal oficial militar da UE, devendo “todas as estruturas militares, políticas e económicas da UE estar preparadas e prontas para se defenderem”.
Para tal, a UE e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) têm de trabalhar em conjunto, de forma mais estreita e com coerência, eliminando, quanto possível, a duplicação de esforços. E a Iniciativa de Defesa contra Drones (IDCD) visa criar “maior coesão entre a sociedade civil, as forças armadas e os aliados na ótica do CEUMC.
O objetivo da IDCD passa por reforçar a resiliência da Europa contra ameaças militares e híbridas emergentes e por reforçar a autonomia estratégica e a prontidão operacional. estabelecendo uma rede multicamada capaz de detetar, de rastrear e de neutralizar drones hostis, bem como oferecer capacidades de ataque de precisão através de plataformas avançadas de drones. “Esta é questão pan-europeia. E as ameaças híbridas não têm fronteiras. […] A primeira e principal responsabilidade, claro, recai sobre cada Estado-membro”, advertiu Seán Clancy.

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Se o almirante, não tivesse almejado ser o príncipe perfeito, como Presidente da República, e continuasse CEMA, acompanharia o seu NRP e recebê-lo-ia como líder da Marinha.

2026.01.29 – Louro de Carvalho