A
liturgia do 17.º domingo do Tempo Comum, no Ano A, convida-nos a refletir nas
nossas prioridades, nos valores sobre os quais fundamentamos a nossa vida e sugere,
especialmente, que o cristão deve pautar-se pelos valores indicados por Jesus.
***
A
primeira leitura (1Rs 3,5.7-12) apresenta-nos o exemplo de Salomão, rei
de Israel, o protótipo do homem sábio, que percebe e escolhe o que é importante
e que não se deixa seduzir e alienar por valores efémeros.
Preocupado
com a constituição de uma classe política preparada para as tarefas da
governação, Salomão recrutou “sábios” estrangeiros (sobretudo egípcios) para a
sua corte e rodeou-se de homens que se distinguiam pelo seu “saber”, pela sua
justiça e prudência. Esses “quadros”, além de aconselharem o rei, tinham também
a tarefa de preparar os futuros “funcionários” para desempenharem funções no
aparelho governativo montado por Salomão.
A
corte de Salomão tornou-se um viveiro de “sabedoria”. Os sábios de Salomão
coligiram provérbios, redigiram “máximas” de caráter sapiencial, deram
“instruções” (sobre as virtudes que deviam ser cultivadas para ter êxito e para
ser feliz), redigiram crónicas sobre os reinados anteriores e publicaram textos
sobre as tradições dos antepassados (provavelmente, é nesta época que a “escola
javista” dá à luz algumas das tradições que ocuparão um lugar fundamental no
Pentateuco). Não admira, pois, que Salomão tenha ficado na memória de Israel
como o protótipo do rei sábio, “cuja sabedoria excedia a todos os orientais e
egípcios”.
Salomão,
historicamente, o primeiro rei que herda o trono. Até agora, os seus
predecessores não chegaram ao trono por herança, mas receberam-no das mãos de
Deus (segundo a visão “religiosa” dos catequistas bíblicos). Os teólogos de
Israel vão, pois, esforçar-se por sacralizar o poder de Salomão e demonstrar
que, se Salomão chegou a governar o Povo de Deus, não foi apenas por um direito
hereditário (sempre contestável), mas pela vontade de Deus.
O
trecho em apreço supõe todo este enquadramento. O “sonho de Gabaon” é uma
ficção literária montada pelos teólogos deuteronomistas (grupo que reflete a
vida e a História na linha das grandes ideias teológicas do Livro do
Deuteronómio) com dupla finalidade: apresentar Salomão como o escolhido de
Javé e justificar a sua proverbial sabedoria.
No
Antigo Testamento, o “sonho” aparece, com alguma frequência, como uma forma
privilegiada de Deus comunicar com os homens e de lhes indicar os seus
caminhos. No nosso texto, aparece-nos também um sonho: os catequistas
deuteronomistas vão utilizar este recurso literário para apresentar Salomão
como “o escolhido” de Deus, a quem Javé comunica os seus projetos e a quem
confia a condução do seu Povo.
O
“sonho” de Salomão está estruturado na forma de um diálogo entre Deus e
Salomão. Há, em primeiro lugar, uma interpelação de Deus (“que posso Eu
dar-te?”); e há, depois, uma resposta de Salomão: consciente da grandeza da sua
tarefa e das suas próprias limitações, o jovem rei pede a Deus que lhe dê um
coração “sábio” para governar com justiça. A prece do rei é atendida e Deus
concede a Salomão uma “sabedoria” inigualável (na continuação – que, todavia, o
nosso texto de hoje já não apresenta – Deus acrescenta ainda outros três dons:
a riqueza, a glória e a longa vida.
Em
termos religiosos, qual a mensagem que os autores deuteronomistas pretendem
deixar com esta “ficção”?
Antes
de mais, o nosso texto deixa claro que, em Israel, o rei é o “instrumento de
Deus”, o intermediário entre Deus e o seu Povo. É através da pessoa do rei que
Deus governa, que intervém na vida do seu Povo e o conduz pela história.
Dizer
que a súplica de Salomão “agradou ao Senhor” é propor aos israelitas que optem
pelos valores eternos, duradouros e essenciais.
***
No
Evangelho (Mt 13,44-52), pela linguagem das parábolas, Jesus recomenda
aos seus seguidores que façam do Reino dos Céus (Reino de Deus) a prioridade
fundamental. Todos os outros valores e interesses devem passar a segundo plano,
face a esse tesouro supremo.
Estamos
no fim do capítulo dedicado às “parábolas do Reino” (cf. Mt 13). Recorrendo
a imagens e comparações simples, sugestivas e questionantes, Jesus apresenta o Mundo
novo de liberdade e de vida nova que Ele veio apresentar aos homens e a que chama
Reino de Deus.
O
trecho em referência apresenta, no dizer de D. António Couto, bispo de Lamego, quatro
parábolas, exclusivas de Mateus (nenhuma delas aparece nos outros evangelhos canónicos.
No entanto, aparecem num texto não canónico – o Evangelho de Tomé –, embora com
notáveis variantes, em relação à versão mateana): a parábola do tesouro, a
parábola da pérola, a parábola da rede e dos peixes e a parábola do escriva e
do seu tesouro.
Para
se enquadrar melhor a mensagem de Mateus, importa atender à realidade da
comunidade a quem o Evangelho se destina. O entusiasmo inicial deu lugar à
monotonia, à falta de empenho, a uma vivência “morna”, pouco exigente e pouco
comprometida. No horizonte das comunidades cristãs perfilam-se tempos difíceis
de perseguição e de hostilidade. E Mateus sente que é preciso renovar o
compromisso cristão e chamar a atenção dos crentes para o Reino, para as suas
exigências e para os seus valores.
O
trecho evangélico pode ser dividido em três partes. Em cada uma delas, há aspetos
e questões que convém pôr em relevo e ter em conta. Na primeira parte, temos
duas parábolas – a parábola do tesouro escondido no campo e a parábola da
pérola preciosa (vv. 44-46). Ambas desenvolvem o mesmo tema e apresentam
ensinamentos semelhantes.
A
questão principal aqui abordada é a da descoberta do valor e da importância do
Reino. Tanto a parábola do tesouro escondido como a parábola da pérola preciosa
sugerem que o Reino oferecido por Jesus (de paz, de amor, de fraternidade, de
serviço, de reconciliação) é um tesouro precioso, que os seguidores de Jesus
devem abraçar, antes de qualquer outro valor. Os cristãos são, antes de mais,
aqueles que encontraram algo de único, de fundamental, de decisivo: o Reino.
Ora, quando alguém encontra um tesouro como este, deve elegê-lo como a riqueza
mais preciosa, o fim último da própria vida, o valor fundamental pelo qual se
renuncia a tudo o mais e pelo qual se está disposto a pagar qualquer preço.
Mateus está a sugerir a esses cristãos a quem o seu Evangelho se destina
(adormecidos na fé morna, inconsequente, pouco exigente) que é preciso
redescobrir e optar, decisivamente, por esse valor mais alto, que deve dar
sentido às suas vidas – o Reino. O cristão é confrontado, a par e passo, com
muitos valores e opções; mas deve aperceber-se de que o Reino é o valor mais
importante.
Deve
ser prudente, como o homem que topou o tesouro no campo. Não furtou o tesouro (seria
acusado de crime), nem o quis comprar (não iria revelar o segredo), mas, querendo
possuí-lo, comprou o campo e, sem o revelar, conseguiu adquirir o tesouro. E
deve ter a ambiciosa vontade do negociante de pérolas, que, em face da
descoberta de uma de grande valor, renuncia a todas as que já possuía (não as
deita fora, mas vende-as, para ter com que comprar a mais preciosa) e compra,
sem alarde, aquela que, providencialmente, encontrou. O cristão deve ser como o
homem do campo e como o negociante. Perante a descoberta do tesouro, não devem
ficar pasmados, mas tomar a decisão justa e audaz.
Na
segunda parte, Mateus apresenta o Reino na imagem de uma rede que, lançada ao
mar, apanha diversos tipos de peixes (vers. 47-50). Na versão apresentada por
Mateus, a parábola apresenta um ensinamento semelhante ao da parábola do trigo
e do joio (sobre a qual meditamos no passado domingo): o Reino não é um
condomínio fechado, onde só há gente escolhida e santa, mas é uma realidade
onde o mal e o bem crescem simultaneamente. Deus não tem pressa de condenar e
destruir. Ele não quer a morte do pecador; por isso, dá ao homem o tempo
necessário e suficiente para amadurecer as suas opções e para fazer as suas
escolhas (no Evangelho de Tomé, a versão é diferente: conta a história de um
pescador “sábio” que pesca vários peixes, mas fica só com o maior e lança os
outros ao mar. Aí, portanto, a parábola da rede e dos peixes apresenta uma
mensagem que vai na linha das parábolas do tesouro descoberto no campo e da
pérola preciosa. Alguns autores pensam que a versão apresentada no Evangelho de
Tomé constitui a versão primitiva da parábola da rede e dos peixes).
A
referência que Mateus faz (mais uma vez) ao juízo final é uma forma de exortar
os irmãos da sua comunidade no sentido de escolherem decididamente o Reino e
porem em prática as propostas de Jesus.
Na
terceira parte do Evangelho que nos é proposto, Mateus apresenta um breve
diálogo entre Jesus e os discípulos (vers. 51-52).
Neste
diálogo temos uma espécie de conclusão de todo o capítulo. Mateus sugere que o
verdadeiro discípulo de Jesus é aquele que compreende”. Ora, “compreender”, na
teologia mateana, significa “prestar atenção” e comprometer-se com o
ensinamento proposto. Os cristãos são, pois, convidados a descobrir a realidade
do Reino, a entender as suas exigências, a comprometerem-se com os seus
valores. A referência ao “escriba”, que “tira do seu tesouro coisas novas e
velhas”, pode referir-se aos judeus, conhecedores profundos do Antigo
Testamento (o “velho”), convidados agora a refletirem essas velhas promessas à
luz das propostas de Jesus (o “novo”). É nessa dialética sempre exigente e
questionante que o verdadeiro discípulo encontra o caminho para o Reino; e,
depois de encontrar esse caminho, deve comprometer-se com ele de forma
decisiva, exigente, empenhada.
***
A
segunda leitura (Rm 8,28-30) convida-nos a seguir o caminho e a proposta
de Jesus. Esse é o valor mais alto, que deve sobrepor-se a todos os outros
valores e propostas.
O
texto que nos é proposto como segunda leitura continua a reflexão de Paulo
sobre o projeto de salvação que Deus tem para oferecer aos homens.
Esse
projeto não é um acontecimento casual, mas algo que, desde sempre, está
previsto nos planos de Deus.
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É, pois, justo cantar com o salmista o valor e a eficácia
da Lei de Deus.
“Quanto amo, Senhor, a vossa lei!”
“Senhor, eu disse: A minha herança / é cumprir as
vossas palavras. / Para mim vale mais a lei da vossa boca / do que milhões em
ouro e prata.
“Console-me a vossa bondade, / segundo a promessa
feita ao vosso servo. Desçam sobre mim as vossas misericórdias e viverei, / porque
a vossa lei faz as minhas delícias.
“Por isso, eu amo os vossos mandamentos, / mais que o
ouro, o ouro mais fino. Por isso, eu sigo todos os vossos preceitos / e detesto
todo o caminho da mentira.
“São admiráveis as vossas ordens, / por isso, a minha
alma as observa. A manifestação das
vossas palavras ilumina / e dá inteligência aos simples.”
E
louvor a grandeza desconcertante de Deus.
“Aleluia.
Aleluia.”
“Bendito
sejais, ó Pai, Senhor do céu e da terra, / porque revelastes aos pequeninos os
mistérios do reino.”
2026.07.31
– Louro de Carvalho
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