sexta-feira, 31 de julho de 2026

A ambição do Reino de Deus e o apreço por aquilo que não perde valor


A liturgia do 17.º domingo do Tempo Comum, no Ano A, convida-nos a refletir nas prioridades, nos valores sobre os quais fundamentamos a nossa vida e sugere, especialmente, que o cristão deve pautar-se pelos valores indicados por Jesus e não julgar pelas aparências.

Recordo o que disse um pregador ao seu auditório, a 26 de julho. Um professor universitário interpelou os seus alunos nos seguintes termos: Pegando numa nota de 100 euros, perguntou quem a desejaria. E todos levantaram o braço, a sinalizar que a queriam. Para os experimentar, amassou a nota e interrogou-os, de novo, mas todos levantaram, novamente, o braço. Em seguida, pisou a nota e perguntou, de novo, quem é que a queria, e todos levantaram o braço. 

E concluía o orador: “Todos queriam a nota, em qualquer circunstância, porque, em bom estado, amassada ou pisada, não perdeu o valor original. Também assim acontece com o tesouro do Reino de Deus: oculto ou exposto, parecendo puro ou aparentando verdete, é sempre um tesouro cujo valor permanece inalterado. E assim acontece com a pessoa humana: nova ou idosa, sã ou doente, rica ou pobre, considerada ou desprezada, a sua dignidade é inviolável. E deve ser considerada pelo que é, não pelo que tem ou pelo que aparenta.

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A primeira leitura (1Rs 3,5.7-12) apresenta-nos o exemplo de Salomão, rei de Israel, o protótipo do homem sábio, que percebe e escolhe o que é importante e que não se deixa seduzir e alienar por valores efémeros.

O rei David morreu por volta de 972 a.C., após longo e fecundo reinado, com o empenho em alargar as fronteiras do reino, a consolidar a união entre as tribos do Norte e do Sul e a conquistar a paz e a tranquilidade para o Povo de Deus. Sucedeu-lhe o filho, Salomão, que desenvolveu trabalho meritório na estruturação do reino que o pai lhe legou. Organizou a divisão administrativa do território, dotou-o de grandes construções, a mais emblemática das quais é o Templo de Jerusalém), fortificou as cidades mais importantes, potenciou o intercâmbio cultural e comercial com os países envolventes e incentivou e apoiou a cultura e as artes.

Preocupado com a constituição de uma classe política preparada para a governação, recrutou sábios estrangeiros, sobretudo, egípcios, para a corte e rodeou-se de homens que se distinguiam pelo saber, pela justiça e pela prudência. Esses quadros, além de aconselharem o rei, tinham a tarefa de preparar os futuros funcionários para desempenharem funções no aparelho governativo montado por Salomão.

A corte tornou-se um viveiro de sabedoria. Os sábios de Salomão coligiram provérbios; redigiram máximas de caráter sapiencial; deram instruções sobre as virtudes a cultivar, com vista ao êxito e à felicidade; redigiram crónicas sobre os reinados anteriores; e publicaram textos sobre as tradições dos antepassados. Provavelmente, é nesta época que a escola javista dá à luz algumas das tradições que ocuparão um lugar fundamental no Pentateuco. Não admira, pois, que Salomão tenha ficado na memória de Israel como o protótipo do rei sábio, “cuja sabedoria excedia a todos os orientais e aos egípcios”.

Salomão é, historicamente, o primeiro rei que herda o trono. Até agora, os seus predecessores não chegaram ao trono por herança, mas receberam-no das mãos de Deus (segundo a visão religiosa dos catequistas bíblicos). Os teólogos de Israel esforçam-se por sacralizar o poder de Salomão e demonstrar que, se Salomão governou o Povo de Deus, não foi apenas por direito hereditário (sempre contestável), mas pela vontade de Deus.

O trecho em apreço supõe todo este enquadramento. O “sonho de Gabaon” é uma ficção literária montada pelos teólogos deuteronomistas (grupo que reflete a vida e a História, na linha das grandes ideias teológicas do Livro do Deuteronómio), com dupla finalidade: apresentar Salomão como o escolhido de Javé e justificar a sua proverbial sabedoria.

No Antigo Testamento, o sonho aparece, com frequência, como forma privilegiada de Deus comunicar com os homens e de lhes indicar os seus caminhos. Aqui, aparece um sonho que os catequistas deuteronomistas utilizam, como recurso literário para apresentarem Salomão como o escolhido de Deus, a quem revela o seu plano e confia a condução do seu Povo.

O sonho de Salomão está estruturado na forma de diálogo entre Deus e Salomão. Há uma interpelação de Deus (“que posso Eu dar-te?”); e a resposta de Salomão: cônscio da grandeza da sua tarefa e das suas próprias limitações, o jovem rei pede a Deus um coração sábio, para governar com justiça. A sua prece é atendida; Deus concede-lhe uma sabedoria inigualável; e acrescenta – o que o trecho em causa não apresenta – mais três dons: a riqueza, a glória e a longa vida.

Em termos religiosos, a mensagem que os autores deuteronomistas pretendem deixar, com esta ficção, é a seguinte:

* Em Israel, o rei é o instrumento de Deus, o intermediário entre Deus e o seu Povo. É através da pessoa do rei que Deus governa, intervém na vida do seu Povo e o guia pela História.

* Salomão não concebeu o seu papel como privilégio pessoal, que podia usar em benefício próprio, mas como um ministério que lhe foi confiado por Deus. Salomão tinha consciência de que a autoridade é um serviço que deve ser exercido com sabedoria e que o objetivo desse serviço é a realização do bem comum.

* Os autores deuteronomistas sublinham a qualidade da resposta de Salomão: não pede riqueza, nem glória, mas as aptidões necessárias e a capacidade para cumprir bem a missão que Deus lhe confiou. Salomão aparece, pois, como o modelo do homem que sabe escolher as coisas importantes e que não se deixa distrair por valores efémeros.

E, suma, dizer que a súplica de Salomão “agradou ao Senhor” é propor aos israelitas a opção pelos valores eternos, duradouros e essenciais.

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No Evangelho (Mt 13,44-52), em parábolas, Jesus recomenda aos seus seguidores que façam do Reino dos Céus (Reino de Deus) a prioridade fundamental. Todos os outros valores e interesses devem passar a segundo plano, face a este supremo tesouro. Estamos no fim do capítulo dedicado às “parábolas do Reino” (cf. Mt 13). Recorrendo a imagens e a comparações simples, sugestivas e questionantes, Jesus apresenta o Mundo novo de liberdade e de vida nova que veio apresentar aos homens e a que chama Reino de Deus.

O trecho em referência apresenta, no dizer de D. António Couto, bispo de Lamego, quatro parábolas, exclusivas de Mateus (nenhuma aparece nos outros evangelhos canónicos. No entanto, aparecem num texto não canónico – o Evangelho de Tomé –, embora com notáveis variantes, em relação à versão mateana): a parábola do tesouro, a parábola da pérola, a parábola da rede e dos peixes e a parábola do escriva e do seu tesouro.

Para se enquadrar melhor a mensagem de Mateus, importa atender à realidade da comunidade a quem destina o Evangelho. O entusiasmo inicial deu lugar à monotonia, à falta de empenho, à vivência morna e pouco comprometida. No horizonte das comunidades cristãs perfilam-se tempos difíceis de perseguição e de hostilidade. E Mateus sente que urge renovar o compromisso cristão e chamar a atenção dos crentes para o Reino, para as suas exigências e para os seus valores.

O trecho evangélico pode ser dividido em três partes. Em cada uma, há aspetos e questões que importa relevar e ter em conta. Na primeira parte, temos duas parábolas – a parábola do tesouro escondido no campo e a parábola da pérola preciosa (vv. 44-46). Ambas desenvolvem o mesmo tema e apresentam ensinamentos similares.

A questão principal é a descoberta do valor e da importância do Reino. Tanto a parábola do tesouro escondido como a parábola da pérola preciosa sugerem que o Reino oferecido por Jesus (de paz, de amor, de fraternidade, de serviço, de reconciliação) é um tesouro precioso, que os seguidores de Jesus devem abraçar, antes e acima de qualquer outro valor. Os cristãos são, antes de mais, aqueles que encontraram algo de único, de fundamental, de decisivo: o Reino. Ora, quando alguém encontra um tesouro como este, deve elegê-lo como a riqueza mais preciosa, o fim último da própria vida, o valor fundamental pelo qual se renuncia a tudo o mais e pelo qual se está disposto a pagar qualquer preço. Mateus sugere aos cristãos a quem destina o seu Evangelho (adormecidos na fé morna, inconsequente, pouco exigente) que é preciso redescobrir esse valor mais alto (e optar por ele, decisivamente) que deve dar sentido às suas vidas: o Reino. O cristão é confrontado, pari passu, com muitos valores e opções; mas deve perceber que o Reino é o valor mais importante.

Deve ser prudente, como o homem que topou o tesouro no campo. Não furtou o tesouro (seria acusado de crime), nem o quis comprar (revelaria o segredo), mas, querendo possuí-lo, comprou o campo e, sem o revelar, conseguiu adquirir o tesouro. E deve ter a ambiciosa vontade do negociante de pérolas, que, em face da descoberta de uma de grande valor, renuncia a todas as que já possuía (não as deita fora, mas vende-as, para ter com que comprar a mais preciosa) e compra, sem alarde, aquela que, providencialmente, encontrou. Enfim, o cristão deve ser como o homem do campo e como o negociante. Perante a descoberta do tesouro, não deve ficar pasmado, mas tomar a decisão justa e audaz. 

Na segunda parte, Mateus apresenta o Reino na imagem da rede que, lançada ao mar, apanha diversos tipos de peixes (vv. 47-50). Na versão apresentada por Mateus, a parábola apresenta um ensinamento semelhante ao da parábola do trigo e do joio (que se meditou no 16.º domingo): o Reino não é condomínio fechado, onde só há gente escolhida e santa, mas é a realidade onde o mal e o bem crescem, em simultâneo. Deus não tem pressa de condenar e de destruir. Não quer a morte do pecador. Por isso, dá ao homem o tempo necessário e suficiente para amadurecer as suas opções e para fazer as suas escolhas. A versão do Evangelho de Tomé conta a parábola de um pescador sábio que pesca vários peixes, mas fica só com o maior e lança os outros ao mar. Aí, portanto, a parábola da rede e dos peixes apresenta uma mensagem que vai na linha das parábolas do tesouro descoberto no campo e da pérola preciosa. Alguns pensam que a versão apresentada no Evangelho de Tomé constitui a versão primitiva da parábola da rede e dos peixes.

A referência que Mateus faz ao juízo final é uma forma de exortar a sua comunidade no sentido de escolher, decididamente, o Reino e de pôr em prática o ensinamento de Jesus.

Na terceira parte, o evangelista apresenta um breve diálogo entre Jesus e os discípulos (vv. 51-52), em que ressalta nova parábola a concluir o capítulo. Mateus sugere que o verdadeiro discípulo de Jesus é “aquele que compreende”. Ora, “compreender”, na teologia mateana, significa “prestar atenção” e comprometer-se com o ensinamento proposto. Os cristãos são, pois, convidados a descobrir a realidade do Reino, a entender as suas exigências, a comprometerem-se com os seus valores. A referência ao “escriba”, que é semelhante a um pai de família que “tira do seu tesouro coisas novas e velhas”, pode referir-se aos judeus, conhecedores do Antigo Testamento (o “velho”), convidados a refletirem as velhas promessas à luz da proposta de Jesus (o “novo”). É nessa dialética, exigente e questionante, que o verdadeiro discípulo encontra o caminho para o Reino; e, encontrado esse caminho, deve comprometer-se com ele, de forma decisiva, exigente e empenhada.

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A segunda leitura (Rm 8,28-30) – continuando a reflexão de Paulo sobre o projeto de salvação que Deus tem para oferecer aos homens – convida-nos a seguir Jesus e o seu o caminho, o valor mais alto, que deve sobrepor-se a todos os outros valores e propostas.

Na perspetiva paulina, todo o homem que chega a este Mundo mergulha no contexto de pecado que o condiciona e marca. Porém, Deus, na sua bondade, oferece, gratuitamente, ao homem pecador a sua graça e dá-lhe a possibilidade de chegar à salvação; e é em Jesus Cristo que o dom de Deus se comunica ao homem. É o Espírito Santo que permite ao homem acolher o dom e viver na fidelidade à graça que Deus oferece.

Depois de assegurar aos cristãos que o Espírito “vem em auxílio da nossa fraqueza” e “intercede por nós”, o apóstolo relembra que Deus tem um desígnio de amor que se traduz no oferecimento da salvação ao homem. Essa tradução não é acontecimento casual, mas algo que está, desde sempre, no plano de Deus, e que leva Deus a concorrer, em tudo, para o bem dos que O amam. A quem adere a esse projeto, Deus chama-o a identificar-se com o seu filho Jesus, liberta-o do egoísmo e do pecado e fá-lo chegar, com Jesus, à vida nova e plena (justificação). Neste contexto, Paulo fala “daqueles” que Deus “conheceu” de antemão, que “predestinou” para viverem à imagem de Jesus, que “chamou”, que “justificou” e que “glorificou”. Porém, isto não pode ser entendido no sentido de que a salvação que Deus oferece se destine apenas a um grupo de predestinados, que Deus escolheu de entre os homens de acordo com critérios que nos escapam. A teologia paulina é clara: o projeto salvador de Deus está aberto a todos aqueles que querem acolhê-lo. O que apóstolo sublinha é que se trata de um dom gratuito de Deus, que está previsto desde toda a eternidade.

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Referindo-se à Liturgia da Palavra da dominga em causa, Leão XIV, antes da recitação do Angelus, apontou que, no centro do ensinamento de Jesus, está o mistério do Reino de Deus, comparável a uma pérola e a um tesouro, dando as parábolas a entender “a surpresa de quem encontra algo que nem sequer podia esperar”, a tal ponto que vender ou deixar tudo não parece renúncia, mas ganho. Com efeito, os evangelistas “descrevem como irresistível o chamamento de Jesus a segui-Lo: “livre, certamente, mas urgente e capaz de suscitar resposta imediata e movida pelo desejo”. Este é um “importante aspeto do modo como Deus está próximo e Se deixa encontrar: o encontro com o Seu Reino é uma reviravolta que não restringe, mas alarga a vida; e, se algo tem, agora, de mudar, é para trazer mais possibilidades, não menos”.

A um outro aspeto Jesus dá muita importância: “Quem encontra o tesouro escondido no campo é, provavelmente, um agricultor; a pérola é reconhecida como de grande valor por um negociante, talvez um viajante”. Seguem-se mais duas parábolas (tem razão o bispo de Lamego), nas quais os protagonistas são pescadores e um escriba entendido em coisas velhas e novas. E há outras, ainda, em que o Reino se deixa vislumbrar na mulher que amassa a farinha, ou na que arruma a casa, no rei que prepara a guerra, no homem que projeta construir uma torre, em administradores que gerem pagamentos ou investimentos, em pastores e em agricultores. Em suma, no dizer do Papa, o Reino de Deus “revela a sua beleza inestimável de diversas formas, mas chama todos – homens e mulheres, jovens e idosos, pobres e ricos – a profunda renovação, e todos podem compreendê-lo e são atraídos por ele”.

Também a Igreja é “comunhão de pessoas diferentes, quanto à origem, à cultura, às competências e ao nível de responsabilidade, mas todas chamadas a reconhecerem-se como ‘um’ em Jesus”, pois “Ele o tesouro escondido, a pérola preciosa, a rede que recolhe os dispersos”. E, desde o princípio, Jesus chamou e reuniu em torno de Si pessoas que, de outro modo, nunca se teriam relacionado, demonstrando, assim, que “Deus não faz distinção de pessoas e que a sua eleição é predileção, especialmente, por quem é pequeno e rejeitado”.

Só nos resta pedir o mesmo dom que Salomão: “o dom de distinguir a pérola de grande valor, de saber reconhecer o tesouro pelo qual vale a pena vender tudo”. E, “enquanto a indústria do consumo nos altera o paladar, suscitando sempre novas necessidades para, depois, nos vender respostas que não saciam e, por vezes, envenenam o coração, temos de aprender a perceber o que realmente importa, o tesouro da relação com Deus, que nos abre à alegria e ajuda a viver da melhor maneira as relações entre nós”. “Que a intercessão de Maria, Sede da Sabedoria, oriente para Jesus o nosso desejo de vida, para que se realize em plenitude”, roga o Pontífice.

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É, pois, justo cantar com o salmista o valor e a eficácia da Lei de Deus:

“Quanto amo, Senhor, a vossa lei!”

“Senhor, eu disse: A minha herança / é cumprir as vossas palavras. / Para mim vale mais a lei da vossa boca / do que milhões em ouro e prata.

“Console-me a vossa bondade, / segundo a promessa feita ao vosso servo. / Desçam sobre mim as vossas misericórdias e viverei, / porque a vossa lei faz as minhas delícias.

“Por isso, eu amo os vossos mandamentos, / mais que o ouro, o ouro mais fino. / Por isso, eu sigo todos os vossos preceitos / e detesto todo o caminho da mentira.

“São admiráveis as vossas ordens, / por isso, a minha alma as observa.  / A manifestação das vossas palavras ilumina / e dá inteligência aos simples.”

E é bom louvar a grandeza desconcertante de Deus:

“Aleluia. Aleluia.”

“Bendito sejais, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, / porque revelastes aos pequeninos os mistérios do reino.”

2026.07.31 – Louro de Carvalho


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