sexta-feira, 31 de julho de 2026

A ambição do Reino de Deus e o apreço pelo que não perde valor

 

A liturgia do 17.º domingo do Tempo Comum, no Ano A, convida-nos a refletir nas nossas prioridades, nos valores sobre os quais fundamentamos a nossa vida e sugere, especialmente, que o cristão deve pautar-se pelos valores indicados por Jesus.

***

A primeira leitura (1Rs 3,5.7-12) apresenta-nos o exemplo de Salomão, rei de Israel, o protótipo do homem sábio, que percebe e escolhe o que é importante e que não se deixa seduzir e alienar por valores efémeros.

O grande rei David morreu por volta de 972 a.C., após um reinado longo e fecundo, ocupado a expandir as fronteiras do reino, a consolidar a união entre as tribos do Norte e do Sul e a conquistar a paz e a tranquilidade para o Povo de Deus. Sucedeu-lhe no trono o filho, Salomão.
Salomão desenvolveu um trabalho meritório na estruturação do reino que o pai lhe legou. Organizou a divisão administrativa do território que herdou, dotou-o de grandes construções (das quais a mais emblemática é o Templo de Jerusalém), fortificou as cidades mais importantes, potenciou o intercâmbio cultural e comercial com os países da zona, incentivou e apoiou a cultura e as artes.

Preocupado com a constituição de uma classe política preparada para as tarefas da governação, Salomão recrutou “sábios” estrangeiros (sobretudo egípcios) para a sua corte e rodeou-se de homens que se distinguiam pelo seu “saber”, pela sua justiça e prudência. Esses “quadros”, além de aconselharem o rei, tinham também a tarefa de preparar os futuros “funcionários” para desempenharem funções no aparelho governativo montado por Salomão.

A corte de Salomão tornou-se um viveiro de “sabedoria”. Os sábios de Salomão coligiram provérbios, redigiram “máximas” de caráter sapiencial, deram “instruções” (sobre as virtudes que deviam ser cultivadas para ter êxito e para ser feliz), redigiram crónicas sobre os reinados anteriores e publicaram textos sobre as tradições dos antepassados (provavelmente, é nesta época que a “escola javista” dá à luz algumas das tradições que ocuparão um lugar fundamental no Pentateuco). Não admira, pois, que Salomão tenha ficado na memória de Israel como o protótipo do rei sábio, “cuja sabedoria excedia a todos os orientais e egípcios”.

Salomão, historicamente, o primeiro rei que herda o trono. Até agora, os seus predecessores não chegaram ao trono por herança, mas receberam-no das mãos de Deus (segundo a visão “religiosa” dos catequistas bíblicos). Os teólogos de Israel vão, pois, esforçar-se por sacralizar o poder de Salomão e demonstrar que, se Salomão chegou a governar o Povo de Deus, não foi apenas por um direito hereditário (sempre contestável), mas pela vontade de Deus.

O trecho em apreço supõe todo este enquadramento. O “sonho de Gabaon” é uma ficção literária montada pelos teólogos deuteronomistas (grupo que reflete a vida e a História na linha das grandes ideias teológicas do Livro do Deuteronómio) com dupla finalidade: apresentar Salomão como o escolhido de Javé e justificar a sua proverbial sabedoria.

No Antigo Testamento, o “sonho” aparece, com alguma frequência, como uma forma privilegiada de Deus comunicar com os homens e de lhes indicar os seus caminhos. No nosso texto, aparece-nos também um sonho: os catequistas deuteronomistas vão utilizar este recurso literário para apresentar Salomão como “o escolhido” de Deus, a quem Javé comunica os seus projetos e a quem confia a condução do seu Povo.

O “sonho” de Salomão está estruturado na forma de um diálogo entre Deus e Salomão. Há, em primeiro lugar, uma interpelação de Deus (“que posso Eu dar-te?”); e há, depois, uma resposta de Salomão: consciente da grandeza da sua tarefa e das suas próprias limitações, o jovem rei pede a Deus que lhe dê um coração “sábio” para governar com justiça. A prece do rei é atendida e Deus concede a Salomão uma “sabedoria” inigualável (na continuação – que, todavia, o nosso texto de hoje já não apresenta – Deus acrescenta ainda outros três dons: a riqueza, a glória e a longa vida.

Em termos religiosos, qual a mensagem que os autores deuteronomistas pretendem deixar com esta “ficção”?

Antes de mais, o nosso texto deixa claro que, em Israel, o rei é o “instrumento de Deus”, o intermediário entre Deus e o seu Povo. É através da pessoa do rei que Deus governa, que intervém na vida do seu Povo e o conduz pela história.

Depois, o texto mostra que Salomão não concebeu o seu papel como um privilégio pessoal que podia ser usado em benefício próprio, mas sim como um ministério que lhe foi confiado por Deus. Salomão tinha consciência de que a autoridade é um serviço que deve ser exercido com “sabedoria” e que o objetivo final desse serviço é a realização do bem comum.
Finalmente (e é talvez o aspeto mais significativo para o tema da liturgia deste domingo), os autores deuteronomistas sublinham a “qualidade” da resposta de Salomão: ele não pede riqueza nem glória, mas pede as aptidões necessárias e a capacidade para cumprir bem a missão que Deus lhe confiou. Salomão aparece aqui como o modelo do homem que sabe escolher as coisas importantes e que não se deixa distrair por valores efémeros.

Dizer que a súplica de Salomão “agradou ao Senhor” é propor aos israelitas que optem pelos valores eternos, duradouros e essenciais.

***

No Evangelho (Mt 13,44-52), pela linguagem das parábolas, Jesus recomenda aos seus seguidores que façam do Reino dos Céus (Reino de Deus) a prioridade fundamental. Todos os outros valores e interesses devem passar a segundo plano, face a esse tesouro supremo.

Estamos no fim do capítulo dedicado às “parábolas do Reino” (cf. Mt 13). Recorrendo a imagens e comparações simples, sugestivas e questionantes, Jesus apresenta o Mundo novo de liberdade e de vida nova que Ele veio apresentar aos homens e a que chama Reino de Deus.

O trecho em referência apresenta, no dizer de D. António Couto, bispo de Lamego, quatro parábolas, exclusivas de Mateus (nenhuma delas aparece nos outros evangelhos canónicos. No entanto, aparecem num texto não canónico – o Evangelho de Tomé –, embora com notáveis variantes, em relação à versão mateana): a parábola do tesouro, a parábola da pérola, a parábola da rede e dos peixes e a parábola do escriva e do seu tesouro.

Para se enquadrar melhor a mensagem de Mateus, importa atender à realidade da comunidade a quem o Evangelho se destina. O entusiasmo inicial deu lugar à monotonia, à falta de empenho, a uma vivência “morna”, pouco exigente e pouco comprometida. No horizonte das comunidades cristãs perfilam-se tempos difíceis de perseguição e de hostilidade. E Mateus sente que é preciso renovar o compromisso cristão e chamar a atenção dos crentes para o Reino, para as suas exigências e para os seus valores.

O trecho evangélico pode ser dividido em três partes. Em cada uma delas, há aspetos e questões que convém pôr em relevo e ter em conta. Na primeira parte, temos duas parábolas – a parábola do tesouro escondido no campo e a parábola da pérola preciosa (vv. 44-46). Ambas desenvolvem o mesmo tema e apresentam ensinamentos semelhantes.

A questão principal aqui abordada é a da descoberta do valor e da importância do Reino. Tanto a parábola do tesouro escondido como a parábola da pérola preciosa sugerem que o Reino oferecido por Jesus (de paz, de amor, de fraternidade, de serviço, de reconciliação) é um tesouro precioso, que os seguidores de Jesus devem abraçar, antes de qualquer outro valor. Os cristãos são, antes de mais, aqueles que encontraram algo de único, de fundamental, de decisivo: o Reino. Ora, quando alguém encontra um tesouro como este, deve elegê-lo como a riqueza mais preciosa, o fim último da própria vida, o valor fundamental pelo qual se renuncia a tudo o mais e pelo qual se está disposto a pagar qualquer preço. Mateus está a sugerir a esses cristãos a quem o seu Evangelho se destina (adormecidos na fé morna, inconsequente, pouco exigente) que é preciso redescobrir e optar, decisivamente, por esse valor mais alto, que deve dar sentido às suas vidas – o Reino. O cristão é confrontado, a par e passo, com muitos valores e opções; mas deve aperceber-se de que o Reino é o valor mais importante.

Deve ser prudente, como o homem que topou o tesouro no campo. Não furtou o tesouro (seria acusado de crime), nem o quis comprar (não iria revelar o segredo), mas, querendo possuí-lo, comprou o campo e, sem o revelar, conseguiu adquirir o tesouro. E deve ter a ambiciosa vontade do negociante de pérolas, que, em face da descoberta de uma de grande valor, renuncia a todas as que já possuía (não as deita fora, mas vende-as, para ter com que comprar a mais preciosa) e compra, sem alarde, aquela que, providencialmente, encontrou. O cristão deve ser como o homem do campo e como o negociante. Perante a descoberta do tesouro, não devem ficar pasmados, mas tomar a decisão justa e audaz.  

Na segunda parte, Mateus apresenta o Reino na imagem de uma rede que, lançada ao mar, apanha diversos tipos de peixes (vers. 47-50). Na versão apresentada por Mateus, a parábola apresenta um ensinamento semelhante ao da parábola do trigo e do joio (sobre a qual meditamos no passado domingo): o Reino não é um condomínio fechado, onde só há gente escolhida e santa, mas é uma realidade onde o mal e o bem crescem simultaneamente. Deus não tem pressa de condenar e destruir. Ele não quer a morte do pecador; por isso, dá ao homem o tempo necessário e suficiente para amadurecer as suas opções e para fazer as suas escolhas (no Evangelho de Tomé, a versão é diferente: conta a história de um pescador “sábio” que pesca vários peixes, mas fica só com o maior e lança os outros ao mar. Aí, portanto, a parábola da rede e dos peixes apresenta uma mensagem que vai na linha das parábolas do tesouro descoberto no campo e da pérola preciosa. Alguns autores pensam que a versão apresentada no Evangelho de Tomé constitui a versão primitiva da parábola da rede e dos peixes).

A referência que Mateus faz (mais uma vez) ao juízo final é uma forma de exortar os irmãos da sua comunidade no sentido de escolherem decididamente o Reino e porem em prática as propostas de Jesus.

Na terceira parte do Evangelho que nos é proposto, Mateus apresenta um breve diálogo entre Jesus e os discípulos (vers. 51-52).

Neste diálogo temos uma espécie de conclusão de todo o capítulo. Mateus sugere que o verdadeiro discípulo de Jesus é aquele que compreende”. Ora, “compreender”, na teologia mateana, significa “prestar atenção” e comprometer-se com o ensinamento proposto. Os cristãos são, pois, convidados a descobrir a realidade do Reino, a entender as suas exigências, a comprometerem-se com os seus valores. A referência ao “escriba”, que “tira do seu tesouro coisas novas e velhas”, pode referir-se aos judeus, conhecedores profundos do Antigo Testamento (o “velho”), convidados agora a refletirem essas velhas promessas à luz das propostas de Jesus (o “novo”). É nessa dialética sempre exigente e questionante que o verdadeiro discípulo encontra o caminho para o Reino; e, depois de encontrar esse caminho, deve comprometer-se com ele de forma decisiva, exigente, empenhada.

***

A segunda leitura (Rm 8,28-30) convida-nos a seguir o caminho e a proposta de Jesus. Esse é o valor mais alto, que deve sobrepor-se a todos os outros valores e propostas.

O texto que nos é proposto como segunda leitura continua a reflexão de Paulo sobre o projeto de salvação que Deus tem para oferecer aos homens.

Já vimos nos domingos anteriores que, na perspetiva de Paulo, todo o homem que chega a este mundo mergulha num contexto de pecado que o marca e condiciona (cf. Rom 1,18-3,20); no entanto, Deus, na sua bondade, oferece gratuitamente ao homem pecador a sua graça e dá-lhe a possibilidade de chegar à salvação (cf. Rom 3,21-4,25); e é em Jesus Cristo que esse dom de Deus se comunica ao homem (cf. Rom 5,1-7,25). É o Espírito Santo que permite ao homem acolher esse dom e viver na fidelidade à graça que Deus oferece (cf. Rom 8,1-39).
Depois de assegurar aos cristãos de Roma (e, através deles, aos cristãos de todas as épocas e lugares) que o Espírito “vem em auxílio da nossa fraqueza” e “intercede por nós” (cf. Rom 8,26-27), Paulo relembra – no texto que nos é proposto como segunda leitura – que Deus tem um projeto de amor que se traduz no oferecimento da salvação ao homem.

Esse projeto não é um acontecimento casual, mas algo que, desde sempre, está previsto nos planos de Deus.

Aos que aderem a esse projeto, Deus chama-os a identificarem-se com o seu filho Jesus, liberta-os do egoísmo e do pecado e fá-los, com Jesus, chegar à vida nova e plena (justificação).
Neste contexto, Paulo fala “daqueles” que Deus “conheceu” de antemão, que “predestinou” para viverem à imagem de Jesus, que “chamou”, que “justificou” e que “glorificou”. No entanto, estes versículos não devem ser entendidos no sentido de que a salvação que Deus oferece se destine apenas a um grupo de predestinados, que Deus escolheu de entre os homens de acordo com critérios que nos escapam… A teologia paulina é clara a este respeito: o projeto salvador de Deus está aberto a todos aqueles que querem acolhê-lo. O que Paulo sublinha aqui é que se trata de um dom gratuito de Deus e que esse dom está previsto desde toda a eternidade.

***

É, pois, justo cantar com o salmista o valor e a eficácia da Lei de Deus.

“Quanto amo, Senhor, a vossa lei!”

“Senhor, eu disse: A minha herança / é cumprir as vossas palavras. / Para mim vale mais a lei da vossa boca / do que milhões em ouro e prata.

“Console-me a vossa bondade, / segundo a promessa feita ao vosso servo. Desçam sobre mim as vossas misericórdias e viverei, / porque a vossa lei faz as minhas delícias.

“Por isso, eu amo os vossos mandamentos, / mais que o ouro, o ouro mais fino. Por isso, eu sigo todos os vossos preceitos / e detesto todo o caminho da mentira.

“São admiráveis as vossas ordens, / por isso, a minha alma as observa.  A manifestação das vossas palavras ilumina / e dá inteligência aos simples.”

E louvor a grandeza desconcertante de Deus.

“Aleluia. Aleluia.”

“Bendito sejais, ó Pai, Senhor do céu e da terra, / porque revelastes aos pequeninos os mistérios do reino.”

2026.07.31 – Louro de Carvalho

Sem comentários:

Enviar um comentário