Um
incêndio florestal na região espanhola de Los Gallardos, iniciado no Levante de
Almeria, na comunidade autónoma da Andaluzia, no Sul da Espanha, destruiu
áreas de floresta e de mato e causou, pelo menos, 12 mortos e oito feridos, quatro
dos quais, em estado grave, como indicaram, a 10 de julho, as autoridades
locais. E, de acordo com Juan Moreno, presidente do governo regional da
Andaluzia, em declarações à rádio Canal Sur, há ainda, pelo menos, 23
pessoas dadas como desaparecidas (ou incontactáveis).
Segundo
o jornal El País, o fogo propagou-se, depois, para Norte e para Noroeste
e chegou ao município de Bédar, zona montanhosa com habitações
isoladas, onde vivem, maioritariamente, estrangeiros.
Os
feridos, que apresentam diferentes graus de gravidade, foram transferidos para
centros hospitalares em localidades vizinhas.
Segundo
as autoridades, quatro cidadãos britânicos “encurralados dentro de um veículo e
sete pessoas morreram, ao tentarem fugir a pé”. Mais tarde, verificou-se a
morte de mais uma pessoa. E a delegada do governo regional da província de
Almeria, Patricia Navarro, afirmou que mil pessoas foram retiradas
dos locais de residência, por precaução.
Uma
“tragédia sem precedentes”, no dizer do conselheiro da Presidência, Saúde e
Emergências da Andaluzia, Antonio Sanz, citado pelo jornal El Mundo. O
conselheiro, sustentando que se trata do incêndio com “maiores consequências,
até à data”, na região, comentou: “A dor é imensa. A Andaluzia está de luto e
os nossos corações estão com Almería e todos os afetados.”
Depois,
considerou que várias vítimas do incêndio mortal foram encontradas dentro de
veículos carbonizados. “Procuravam uma saída alternativa à indicada e acabaram
por cair numa armadilha”, disse, relevando que a mudança de rota para caminhos
improvisados e não coordenados, no fumo, agravou a tragédia.
A
maioria das vítimas foi encontrada numa aldeia do município de Bédar, Los
Gallardos.
Antonio
Sanz disse à agência de notícias EFE que tudo indica que “a maioria ou a
totalidade” das vítimas mortais do incêndio florestal eram estrangeiras,
aguardando-se a conclusão dos procedimentos de identificação. E adiantou que as
vítimas tentaram escapar por conta própria, através do leito seco de um rio – “uma
verdadeira armadilha” –, em vez de seguirem a ordem de permanência no local ou
as rotas de evacuação indicadas pelas autoridades.
Entretanto,
segundo a ministra da Defesa, Margarita Robles, a Unidade Militar de
Emergência de Espanha (UME) mobilizou, 200 efetivos e 70 viaturas de diversos
tipos para auxiliar no combate ao incêndio, que trabalham em coordenação com o
Plano Infoca, bombeiros e outros serviços de emergência. No total, a operação
mobilizou, aproximadamente, 700 profissionais no terreno, a combater as chamas
e a procurar as vítimas.
Na
verdade, o avanço do fogo obrigou à ativação do Nível 2 do Plano de Emergência
para Incêndios Florestais da Andaluzia (INFOCA) – ativado às 22h37 do dia 9,
bem como à evacuação preventiva de centenas de residentes de Bédar e das zonas
próximas. Mais de uma centena de pessoas do INFOCA, da Guarda Civil, dos
Bombeiros, da Defesa Civil e da UME estão a fazer trabalho direto na extinção do
incêndio, que é de grande intensidade.
O
incêndio que deflagrou na tarde do dia 9 e se agravou na tarde do dia 10, pode
ter sido provocado pela queda de uma linha de transporte de energia, como apontou
o presidente do governo regional da Andaluzia. “O incêndio começou numa vala,
devido a um cabo partido entre dois pontos de energia”, afirmou o governante,
citado pela imprensa espanhola, o qual referiu que, devido ao vento forte, o
“fogo alastrou-se como um incêndio florestal, um dos mais rápidos e
complexos dos últimos anos”. “Está tudo muito seco, devido às ondas de calor, o
que cria o combustível perfeito, que, combinado com o vento, é uma
bomba-relógio”, vincou Juan Moreno.
De
acordo com a EFE, o fogo já consumiu cerca de 3150 hectares e
continua a devastar o terreno. As autoridades regionais da Andaluzia afirmaram
também que se trata do incêndio “mais mortífero já registado na região”.
A
equipa de resposta a emergências continua a trabalhar, enquanto o incêndio se
mantiver em fase de emergência; cinco núcleos populacionais em Los Gallardos e
Bédar permanecem evacuados. Os residentes de Almocáizar, Fuente del Albarico,
Los Pinos, La Serena e El Pinar de Bédar permanecem fora das suas casas, por
precaução até que a situação permita garantir a sua segurança, segundo o jornal
El Diario de Almería.
Jornalistas
da agência AFP viram equipas de bombeiros a tentar dominar as chamas que
avançavam pelo campo, projetando colunas de fumo branco no céu.
O
Grupo de Intervenção Psicológica em Emergência e Catástrofe (GIPED) criou uma
linha de ajuda para os afetados pelo fogo.
***
Durante
uma cerimónia na Base Aérea de San Javier, em Múrcia, o rei Filipe VI, a rainha
Letizia e as duas filhas fizeram um minuto de silêncio em memória das vítimas
mortais. O soberano, afirmando querer “transmitir o nosso pesar, o nosso
carinho e o nosso apoio a quem perdeu os seus entes queridos”, expressou o seu
apoio a todos os afetados e elogiou o trabalho dos serviços de emergência que
combatem as chamas.
E
o monarca, em sinal de respeito pelas vítimas da tragédia, encurtou a presença
numa cerimónia que assinalava o fim da formação militar da filha mais velha, a
princesa Leonor, nomeadamente, suspendendo a sua presença na receção prevista
após a cerimónia, e apresentou, publicamente, condolências às pessoas afetadas
pelo desastre em Almería.
Filipe
VI manifestou, formalmente, profundo pesar pela tragédia do incêndio de
Los Gallardos, Almeria, transmitindo as condolências às famílias das vítimas e
aos afetados. “Expressamos a nossa tristeza e condolências às famílias e aos
entes queridos dos falecidos, bem como a todos os afetados”, declarou a Casa
Real, em mensagem divulgada pelas redes sociais.
Entretanto,
o rei telefonou ao presidente do governo regional a exprimir as condolências pelas
vítimas e a sua proximidade com os familiares. E Juan Moreno agradeceu o gesto
do monarca, que descreveu como “muito preocupado e consternado”.
O
primeiro-ministro, Pedro Sánchez (que anunciara, em maio, que a Espanha ia
mobilizar o maior dispositivo de combate a incêndios florestais estivais de
sempre), expressou as suas condolências, em mensagem publicada na rede social X:
“Enorme tristeza e desolação pelas terríveis consequências do incêndio que
atingiu a província de Almería. Quero transmitir as minhas condolências às
famílias dos que morreram no incêndio florestal de Los Gallardos. Os meus votos
de rápida recuperação aos feridos e a minha solidariedade a todos os residentes
afetados.”
Também
o presidente eleito da Andaluzia transmitiu condolências aos familiares das
vítimas mortais, bem como os presidentes das comunidades autónomas e as
universidades da Andaluzia.
O
Presidente da República de Portugal, António José Seguro lamenta,
profundamente, as vítimas mortais resultantes do grave incêndio florestal que
deflagrou na noite do dia 9, na região de Almería, na comunidade da Andaluzia,
como refere uma nota de Presidência da República, nos termos da qual “em seu
nome pessoal e no do povo português, o Presidente da República solidariza-se
com o Rei de Espanha, a quem dirigiu uma mensagem de condolências, e com todo o
povo espanhol”. E “o Presidente da República apresenta sentidas condolências às
famílias das vítimas deste incêndio e faz votos de rápida recuperação a todos
os feridos”.
***
As
investigações preliminares indicam que grande parte da tragédia se deve a um
fator concreto: o abandono da rota de evacuação prevista por algumas das
vítimas. Antonio Sanz explicou que os técnicos trabalham com dois cenários
distintos para explicar as mortes: quatro pessoas de nacionalidade britânica
morreram dentro de uma viatura; e sete pessoas morreram quando seguiam a pé,
depois de terem abandonado os carros, na tentativa de encontrarem uma saída
diferente da indicada pelos serviços de emergência, acabando por atravessar uma
ribeira onde as chamas, que avançavam a grande velocidade, as alcançaram. Trata-se
um incêndio como um foco “muito complexo, de progressão muito rápida”.
O
governo regional da Andaluzia indicou que os serviços de emergência receberam
mais de 150 chamadas a alertar para o incêndio e que as chamas eram visíveis a
partir de uma autoestrada que passa perto da aldeia. Com efeito, situada a
cerca de 15 quilómetros da costa mediterrânica espanhola, Bedar é popular entre
residentes estrangeiros e turistas que procuram uma alternativa mais tranquila
aos resorts de praia próximos.
O
presidente da Câmara de Bédar, Ángel Francisco Collado, tinha ordenado uma
evacuação urgente do município e disse que pediu a alguns moradores para
abandonarem as casas, “mesmo àqueles que não queriam sair”. Parte dos
residentes conseguiu sair, seguindo o percurso definido; noutra zona, perante a
proximidade do fogo, optou-se pelo confinamento, decisão que, segundo as
autoridades regionais, evitou um número ainda maior de vítimas.
A
muito má orografia da zona condicionou a evacuação e o combate às chamas. Bédar
é um município de montanha, só com duas saídas por estrada e com uma rede de
caminhos rurais em que muitas vias têm uma única entrada e saída, reduzindo,
drasticamente, as alternativas de fuga, se o traçado principal ficar
comprometido pelo fumo ou pelas chamas. A este problema junta-se o terreno
abrupto, de difícil acesso, com ravinas onde a maquinaria pesada não entra. O
flanco direito preocupa pelo risco de o fogo atingir novas áreas de cultivo,
enquanto o esquerdo se mantém ativo e em grande parte inacessível às equipas de
combate ao fogo.
Como
medida de precaução, foi evacuado todo o município de Bédar. Entre mais de mil
desalojados, segundo o jornal El País, contam-se cerca de 400
pessoas que estavam num parque de campismo, nas proximidades, e foram
retiradas, antes de o fogo alcançar a zona.
O
incêndio foi declarado às 16h35 do dia 9 e, segundo fontes da Guardia Civil,
teve origem na queda de um cabo elétrico, na localidade de Almocaizar, o
que Juan Moreno confirmou. A velocidade de propagação obrigou a ativar o Plano
Infoca, em fase de emergência, situação operativa 2, e a cortar várias
estradas, entre elas a autoestrada A-7, durante várias horas.
O
balanço da tarde do dia 10, apontava para uma área ardida de cerca de 3150
hectares, com oito feridos, quatro em estado grave, a serem tratados nos
hospitais Torrecárdenas e Virgen del Rocío. Mantinham-se evacuados, na tarde desse
dia, os núcleos de Almocáizar, Fuente del Albarico, Los Pinos, La Serena e
Pinar de Bédar, bem como os hóspedes do complexo turístico Miraflores.
Segundo
a Autoridade de Emergência e Proteção Civil espanhola, há suspeitas de que
os falecidos sejam cidadãos estrangeiros, de nacionalidades britânica
“inferida pela posição dos volantes dos veículos em que circulavam” e belga,
avançou o jornal El Mundo.
A
Espanha tem estado sob calor extremo, com temperaturas muito elevadas a motivar
avisos meteorológicos laranja, o segundo nível mais alto, em partes da
Andaluzia, criando condições de seca que favorecem a propagação de incêndios
florestais. As autoridades alertaram que as condições podem agravar-se, se o
vento mudar de direção. E a comunidade científica concorda que as alterações
climáticas, provocadas pela queima de combustíveis fósseis, tornam mais
prováveis e mais intensos fenómenos meteorológicos extremos, como ondas de
calor.
Nos
últimos anos, a Espanha tem registado ondas de calor cada vez mais frequentes e
prolongadas, com temperaturas que ultrapassam, muitas vezes, os 40º C (Celsius),
criando condições propícias a grandes incêndios. Os incêndios florestais
devastaram quase quatro mil quilómetros quadrados de terreno, na Espanha, em
2025, o valor mais elevado registado para o país pelo Sistema Europeu de
Informação sobre Incêndios Florestais.
***
O
incêndio de Los Gallardos está a ser comparado à tragédia de Pedrógão Grande,
em Portugal, em 2017. Com efeito, em ambos os casos, várias vítimas morreram,
enquanto fugiam das chamas, tendo optado por caminho alternativo aos
recomendados pelas autoridades, o que leva a concluir que “fugir nem sempre é a
opção mais segura”.
Domingos
Xavier Viegas, diretor do Centro de Estudos de Incêndios Florestais, da
Universidade de Coimbra, diz que a evacuação deve ser decidida com antecedência
e que abandonar a zona ameaçada pelo fogo, à última hora, pode ser fatal.
Embora
a área queimada, para já, não seja a maior da História recente da Espanha, em
termos de vítimas mortais, este é o segundo o incêndio a matar pessoas, contra
as 21 pessoas mortas no de Lloret del Mar, em 1979. Também o número
de vítimas mortais é inferior ao das 66 do incêndio de Pedrógão. Porém, embora
o número de mortos em Pedrógão tenha sido mais elevado, a forma como as vítimas
foram apanhadas pelo fogo permite estabelecer semelhanças entre os dois casos. Tal
como em Pedrógão Grande, as mortes no incêndio da Andaluzia aconteceram,
enquanto as vítimas se deslocavam de carro, na tentativa de fugir às
chamas; e a forma rápida como o fogo progrediu terá surpreendido os fugitivos,
que acabaram cercados.
Em
Pedrógão, foram apontadas, mais tarde, como fatores que contribuíram para a
morte das pessoas, falhas na comunicação e na coordenação das evacuações
de mais de seis dezenas de pessoas. Na Espanha, as autoridades
ordenaram a evacuação de várias localidades em perigo e
definiram trajetos considerados seguros para a evacuação. As
vítimas terão tentado fugir de carro por percursos alternativos.
E o presidente do governo regional da Andaluzia lamentou que alguns se tenham
recusado a seguir as recomendações das autoridades. E, como ocorreu em
Pedrógão, algumas das vítimas mortais foram encontradas fora das viaturas
em que circulavam, indicando que se terão apercebido do cerco e terão tentado
escapar a pé.
Domingos
Xavier Viegas sustenta que tentamos subestimar o comportamento do fogo, que
pensamos que há tempo para fugir e que desconhecemos o terreno, pelo que “é essencial
acatar as ordens das autoridades”.
Segundo
o especialista, “não há receitas infalíveis”, pois “as condições de propagação
de incêndios florestais variam muito”. Por isso, uma evacuação só deve ser
desencadeada, quando há tempo para retirar a população em segurança (“entre
meia hora e uma hora antes da eventual chegada das chamas”). Tendo em conta o
tipo de construção em Portugal, o mais seguro, na maioria dos casos, é deslocar
as pessoas em risco para um local seguro, dentro do perímetro, como uma igreja
ou capela. Já noutros países, como os Estados Unidos da América, isso não se
aplica, visto que os edifícios são compostos por materiais mais inflamáveis.
Seja
como for, importa que as telecomunicações funcionem, o que supõe que as
infraestruturas sejam sólidas, que se obedeça às autoridades e se tenha feito a
prevenção. Enfim, é preciso aprender com os fogos, com o vento, com o calor,
com a Natureza.
2026.06.10
– Louro de Carvalho
Sem comentários:
Enviar um comentário