terça-feira, 2 de junho de 2026

Previsões macroeconómicas estão a ser revistas em alta

 

De acordo com informação do portal “Economia e Finanças” de 30 de maio, a Comissão Europeia (CE) coloca previsão para a inflação nos 3,0%, em 2026, no novo cenário macroeconómico para a União Europeia (UE), que divulgou no seu “European Economic Forecast Spring 29026”.

Assim, com a previsão anterior da mesma instituição era de 2,0%, verifica-se uma subida de um ponto percentual, em poucos meses, pelo que temos uma revisão de 100 pontos base.

O valor previsto para Portugal cai em cima da previsão para média da Zona Euro (21 países) e fica uma décima abaixo do previsto para o total da UE, que é de 3,1%

Para 2027, a expectativa é de que a inflação desacelere para 2,3%, em Portugal e na Zona Euro. Mais três décimas, ou seja, mais 30 pontos base do que na previsão anterior. E, na UE, prevê-se que desacelere para 2,4%.

A instabilidade no mercado da energia provocada pelo conflito no Médio Oriente e no Golfo Pérsico, em especial, após o ataque dos EUA e Israel ao Irão, que pôs o trânsito marítimo no Estreito de Ormuz em suspenso, estará entre as principais causas para esta revisão.

No final de março, o Banco de Portugal (BdP) atualizou as suas projeções macroeconómicas para Portugal e tinha antecipado, para 2026, o novo valor de 2,8%, para inflação, um valor, ainda assim inferior ao agora projetado, em maio, pela CE.

Porém, nem só a inflação é impactada pelas revisões. A previsão para o produto interno bruto (PIB) real é, agora, das mais modestas: 1,7%, em 2026 (quando na previsão anterior era de 2,2%), e 1,8%, em 2027, quando na previsão anterior da CE, era de 2,1%. Na zona Euro, a média é de 0,9%, e na UE, é de 1,1%.

A taxa de desemprego resiste a este cenário global menos favorável. A previsão de primavera da CE, para 2026, é igual à que havia feito nas previsões de inverno: 5,9%. E, para 2027, a expectativa é até melhor 5,8% versus 6,1%. Na zona Euro, a média é de 6,4%, e na UE, é de 6,0%.

Com evolução favorável face às previsões anteriores surge o saldo orçamental. A CE continua a prever o regresso dos défices, em 2026 e em 2027, de 0,1% e 0,4%, respetivamente, mas traça uma expectativa melhor do que a avançada há cerca de meio ano, que apontava para um défice superior tanto em 2026 (0,3%) como em 2027 (0,5%).

No entanto, é de lembrar que se trata de previsões cuja volatilidade está patente na magnitude das mudanças que muitos dos indicadores sofreram em menos de meio ano.

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Também Patrícia Abreu, a 2 de junho, em artigo intitulado “Inflação na Zona Euro supera 3%, pela primeira vez, desde 2023”, publicado no jornal ECO online, focando-se na situação macroeconómica recente, considera que a “inflação acelerou para 3,2%, em maio, sobretudo, devido ao aumento dos preços da energia, por causa da guerra no Médio Oriente, num momento em que se espera que BCE [Banco Central Europeu] suba juros, a 11 de junho.

A jornalista precisa que a taxa de inflação homóloga na Zona Euro acelerou para 3,2%, em maio, acima dos 3% registados em abril e o valor mais elevado desde setembro de 2023, segundo mostra a estimativa rápida divulgada pelo Eurostat, a 2 de junho (dados ligeiramente diferentes dos apontados pela CE, note-se). A puxar pelos preços está a energia, devido aos efeitos provocados pela guerra no Irão, num momento em que o mercado aguarda uma subida de juros por parte do BCE, na próxima reunião do seu Conselho (11 de junho).

Observa Patrícia Abreu que a taxa de inflação, medida pela variação do Índice Harmonizado de Preços no Consumidor (IHPC), manteve a tendência de aceleração registada desde o início do conflito, que levou os preços da energia a disparar, por causa do ao encerramento do Estreito de Ormuz, por onde passava cerca de 20% do petróleo consumido, diariamente, a nível global. E é a energia que continua a puxar pelo IHPC. Segundo o gabinete de estatísticas europeu (o Eurostat), a componente da energia deverá ter registado uma evolução homóloga de 10,9%, ligeiramente acima dos 10,8% fixados em abril, seguida pelos serviços, com a taxa de 3,5%, face a 3%, em abril. Já a inflação dos alimentos, álcool e tabaco contrariou a tendência de subida e desacelerou para 2%, face a 2,4%, em abril, enquanto a dos bens industriais não energéticos se fixou em 0,9%, contra 0,8%, em abril.

A divulgação destes números confirma a tese que o BCE deverá anunciar, no final da reunião de 11 de junho, a primeira subida de juros, desde que iniciou o atual ciclo de descidas. “Uma semana antes da próxima reunião do BCE, esta é a subida esperada da inflação que levará o banco central a decidir por uma subida de juros de caráter preventivo”, afirma Carsten Brzeski, responsável global de macroeconomia do ING [ING Group ou ING Bank, sediado nos Países Baixos], mas reforçando que a situação é diferente de 2022, em que a entidade mexeu nos juros, pela primeira vez, em julho, com a inflação acima dos 8%, sendo a taxa de juro negativa: -0,5%.

Porém, apesar de os especialistas lembrarem que a situação macroeconómica é distinta, pois o BCE parte com uma taxa de juro de 2%, é preciso acautelar o futuro. Nestes termos, “mesmo que a guerra no Médio Oriente terminasse amanhã, o estrago na inflação já está feito”, explica Brzeski, frisando que vai continuar a afetar a economia europeia.

Por conseguinte, o economista sustenta que, “tendo em conta a experiência de 2022, é provável que o BCE opte por uma subida das taxas de juro por precaução”, ou seja, não por a subida vir a ter “um efeito significativo nas expectativas de inflação”, mas por constituir “um gesto simbólico” a sublinhar “a determinação do BCE em agir”.

Por fim, Patrícia Abreu observa que, em Portugal, a inflação medida pelo IHPC abrandou para 3,1%, abaixo dos 3,3% registados em abril.

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Na mesma linha, Piero Cingari, em artigo intitulado “Inflação atinge 3,2%, máximo desde 2023: subida das taxas do BCE é inevitável?”, publicado, a 2 de junho, pela Euronews, sustenta que “a inflação, na Zona Euro, subiu para 3,2%, em maio, máximo desde 2023, impulsionada pela energia e pelos serviços”, pelo que “os mercados dão como certa subida a de juros do BCE, na próxima semana [11 de junho]”.

Segundo o Eurostat, a taxa de facilidade de depósito do BCE, em março, era de 2%, enquanto a taxa de inflação na Zona Euro era de 2,5%.

Também este analista financeiro vê como causa desta subida da inflação, na Zona Euro (aliás, num valor alinhado com as previsões dos economistas), as perturbações provocadas pelo bloqueio no Estreito de Ormuz a propagarem-se pelos mercados de energia, o que levou a inflação ao nível mais alto, em quase três anos, e reforçou as expectativas de iminente subida das taxas de juro do BCE.

Precisa o analista que, ao sinalizarmos a subida da inflação, na Zona Euro, para 3,2%, em maio, face a 3,0%, em abril (a mais elevada, desde setembro de 2023), falamos de previsão da inflação anual, não de inflação de abril ou de maio.

Piero Cingari observa que a energia continua a ser o principal motor da subida, com os preços, neste segmento, 10,9% acima dos de há um ano, praticamente inalterados, face aos 10,8% de abril. Ao mesmo tempo, entende que, para a autoridade da política monetária, mais preocupante foi o comportamento da inflação nos serviços, o indicador que o Conselho do BCE acompanha mais de perto, para detetar sinais de pressões internas sobre os preços.

Este indicador, diz o analista financeiro, acelerou para 3,5%, a partir de 3,0%, um salto que preocupa muito mais Frankfurt do que o valor global, por sugerir que o choque energético começa a infiltrar-se no resto da economia. Com efeito, a inflação subjacente, que exclui a energia, subiu de 2,2% para 2,4%.

A evolução foi desigual entre os estados-membros. A Espanha registou o ritmo mais rápido, entre as maiores economias, com 3,6%, seguida de Itália, com 3,3%, onde a inflação acelerou, de forma marcada, face aos 2,8% de há um mês. A França situou-se em 2,8% e a Alemanha, maior economia do bloco, em 2,7%. E Portugal foi um dos poucos países a registar uma desaceleração, descendo para 3,1%, face aos 3,3% de abril.

As taxas de inflação anual nos estados-membros da Zona Euro, maio de 2026, mostra-nos onde a inflação está a subir mais rapidamente na Europa.

Assim, na Bulgária, a taxa de inflação anual, prevista em maio, era 6,3%; na Lituânia, 5,1%; na Grécia, 5%; na Croácia, 4,9%; no Luxemburgo, 4,5%; na Bélgica, 4,1%; na Estónia e na Eslováquia, 4%; na Eslovénia, 3,8%; na Áustria e em Chipre, 3,%; na Espanha, 3,6%; na Irlanda, 3,5%; na Letónia e nos Países Baixos, 3,4%; na Itália, 3,3%; em Portugal, 3,1%; na Finlândia 3%; na França, 2,8%, na Alemanha, 2,7%; e em Malta, 2,1%.

No topo da inflação, está a Bulgária e, no patamar inferior, está Malta.

Estes dados do Eurostat surgem acompanhados de novos sinais de que as famílias se preparam para uma continuação das subidas de preços.

De acordo com o Inquérito às Expectativas dos Consumidores do BCE para abril, divulgado a 1 de junho, a mediana das expectativas para a inflação nos próximos 12 meses manteve-se em 4,0%, o dobro da meta do banco central, enquanto a taxa de inflação percebida para o último ano subiu de 3,5% para 4,0%.

Todavia, as expectativas de mais longo prazo permanecem relativamente bem ancoradas. Na verdade, as expectativas de inflação, a três anos, recuaram ligeiramente para 2,9%, enquanto as de cinco anos permaneceram estáveis, em 2,4%. Mesmo assim, o BCE assinala que a incerteza em torno destas expectativas continua elevada.

O inquérito destaca também a deterioração das perspetivas económicas. Efetivamente, os consumidores tornaram-se mais pessimistas, quanto ao crescimento no próximo ano, enquanto as expectativas de aumento da despesa subiram, o que sugere que as famílias antecipam nova pressão sobre o custo de vida. E, nos mercados financeiros, cresce a convicção de que o BCE tem pouca margem para evitar um novo aperto da política monetária.

O mercado de previsões Polymarket atribui a probabilidade de 97% a um aumento de 25 pontos base na taxa de depósito do BCE, na próxima reunião do seu Conselho.

É uma leitura partilhada por vários economistas. Bill Diviney, economista sénior do ABN AMRO (um dos maiores bancos comerciais e de investimento dos Países Baixos, com sede em Amesterdão), antecipa duas subidas consecutivas nas próximas duas reuniões. “Para uma instituição que se afastou da orientação prévia, isto é o mais próximo de um sinal de subida de juros que se pode ter”, afirmou, referindo-se aos comentários recentes de Christine Lagarde, presidente do BCE.

Carsten Brzeski, já citado, considera que a reunião de junho se assemelha cada vez mais a uma subida preventiva, destinada a impedir que as expectativas de inflação se desancorem.

Para Joe Nellis, conselheiro económico na firma de consultoria e auditoria MHA (anteriormente conhecida como MHA MacIntyre Hudson), o BCE enfrenta um compromisso cada vez mais difícil. “Com esta subida da inflação, é cada vez mais provável que o BCE aumente as taxas de juro em 0,25 pontos percentuais, na próxima semana”, afirmou.

E, como os custos de financiamento mais elevados podem vir a pesar ainda mais no investimento das empresas, o consumo das famílias e os governos mais endividados, o conselheiro económico explica: “O BCE enfrenta um exercício de equilíbrio complexo. Taxas de juro mais altas vão acrescentar pressão sobre empresas que já adiam investimentos e sobre famílias confrontadas com prestações de crédito à habitação em alta e [com] orçamentos apertados.”

Ruben Segura-Cayuela, economista do Bank of America, continua a antecipar duas subidas de um quarto de ponto, em junho e em julho, levando a taxa de depósito para 2,5%, embora dados económicos mais fracos possam adiar a segunda decisão para setembro.

Nos mercados cambiais, Enrique Díaz-Alvarez, economista-chefe da empresa de serviços financeiros Ebury, considera que os responsáveis do BCE sinalizaram, de forma suficientemente clara, um movimento, em junho, para que pouco possa agora travá-lo, vendo, ao mesmo tempo, pouca margem para novo aperto, assim que os preços da energia recuem e à medida que os Estados Unidos da América (EUA) e o Irão se aproximam de um acordo para reabrir Ormuz. E sustenta que o euro não valorizou tanto quanto o recuo dos preços da energia poderia sugerir, travado pela fraca confiança das empresas espelhada nos índices PMI.

O PMI (Purchasing Managers’ Index ou Índice de Gestores de Compras) é indicador económico essencial que mede a “temperatura” da atividade do setor privado (indústria, serviços e construção), com base em inquéritos mensais a gestores de compras empresariais.

O debate central passa por saber se o choque energético se esbate como episódio transitório ou se as perturbações nas cadeias de abastecimento geram o tipo de efeitos de segunda ordem, que o BCE mais teme. Na verdade, para o BCE, a decisão de 11 de junho parece fechada. A questão mais difícil é saber quanto tempo dura o aperto, uma vez que o choque de oferta que o motivou dá mostras de começar a dissipar-se.

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A confirmar-se a subida de 25 pontos base, levando a taxa de facilidade permanente de depósito do BCE a subir de 2% para 2,25%, valor que encostará no atual valor das Euribor a três meses.

Neste momento, as Euribor a três, a seis e a 12 meses registam valores crescentes com o prazo, com intervalos correspondentes a sensivelmente uma subida de 25 pontos entre cada prazo (ver tabela em baixo), o que indicia que a expectativa dos mercados é a de que as taxas diretoras continuarão a subir nos próximos seis e 12 meses, antecipando uma subida global de cerca de 75 pontos base no espaço de um ano.

Assim, agora, o cenário mais provável será o de a Euribor a três meses ir crescendo para próximo do atual valor da Euribor a seis meses e a Euribor a seis meses para o atual valor da Euribor a 12 meses e assim sucessivamente. A confirmar-se este percurso mais provável, estaremos perante um encarecimento do preço do dinheiro com impactos garantidos em todos os créditos indexados às Euribor, nomeadamente, o crédito à habitação.

Do lado da poupança, destacam-se os certificados de aforro, por terem embutido a indexação à Euribor a três meses, uma relação que se mantém até esta atingir os 2,5% (Certificados de Aforro Série F), valor a partir do qual os certificados de aforro atingem o máximo de remuneração (além dos prémios de permanência). Já os depósitos a prazo têm vindo, progressivamente a subir as taxas médias para novos depósitos e é natural que esse movimento se mantenha até haver uma inversão do atual ciclo, patrocinado pela inflação largamente importada, devido aos eventos em curso no Golfo Pérsico e no Médio Oriente.

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Enfim, um futuro próximo cheio de incerteza para as famílias modestas e para o investimento!

2026.06.02 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 1 de junho de 2026

 

O enunciado em epígrafe é o refrão do salmo responsorial (ou cântico de meditação) subsequente à proclamação da primeira leitura da Eucaristia da Solenidade da Santíssima Trindade, no Ano A, que ocorreu a 31 de maio, domingo.

Esta solenidade não convida a decifrar o mistério que se esconde por detrás de um só Deus em três pessoas”, mas a contemplar o Deus que é amor, que é família, que é comunidade e que criou os homens para os fazer comungar nesse mistério de amor.

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Na primeira leitura (Ex 34,4b-6.8-9), o Deus da comunhão e da aliança, apostado em estabelecer laços familiares com o homem, autoapresenta-se: clemente e compassivo, lento para a ira e rico de misericórdia. É um trecho que integra as “tradições sobre a aliança do Sinai”, de origem diversa, cujo denominador comum é a reflexão sobre o compromisso (“berit”: “aliança”) que Israel assumira com o Senhor (Javé).

Estamos no deserto do Sinai, “em frente ao monte”. O texto bíblico não dá indicação geográfica suficiente para identificarmos o “monte da aliança”. “Sinai” designa a enorme península de forma triangular, com cerca de 420 quilómetros de extensão Norte/Sul, que se estende entre o mar Mediterrâneo e o mar Vermelho (no sentido Norte/Sul) e o golfo do Suez e o golfo da Áqaba (no sentido Oeste/Este). É um deserto árido, de terreno acidentado e com várias montanhas que chegam a atingir a altura de 2400 metros.

O texto pode ter sido a primitiva versão javista da aliança do Sinai (século X a.C.); mas, na versão final do Pentateuco (séculos V-IV a.C.), foi utilizado para descrever a renovação da primeira aliança, rompida pelo pecado do Povo. No estado atual do Pentateuco, o esquema é: Israel comprometeu-se com Javé; durante a ausência de Moisés, que estava no cimo do monte, o Povo construiu um bezerro de ouro, para representar Javé – o que era interdito pelos mandamentos da aliança; Moisés intercedeu pelo Povo; e Deus renovou a aliança com Israel.

Obtido o perdão de Deus para o Povo, Moisés subiu sozinho à presença de Javé, levando as duas novas tábuas de pedra que havia talhado e sobre as quais seriam gravados os mandamentos da aliança. E aqui o hagiógrafo insere a teofania (manifestação de Deus): Deus aproxima-Se de Moisés na nuvem.

A nuvem, que paira a meio caminho do Céu e da Terra, é, no Antigo Testamento, símbolo privilegiado para exprimir a presença do Deus que vem ao encontro do homem, mas, ao mesmo tempo, esconde e manifesta, sugerindo o mistério de Deus, escondido e presente, cujo rosto o homem não pode ver, mas cuja presença adivinha.

A teofania continua com a autoapresentação de Javé. Nesta apresentação, Deus não menciona a sua grandeza e omnipotência, o seu poder e majestade, mas releva as qualidades que O tornam o parceiro ideal na aliança: Ele é o “Deus clemente e compassivo, sem pressa para Se indignar e cheio de misericórdia e fidelidade”. Num desenvolvimento que aparece no texto bíblico, mas que a leitura desta solenidade não conservou, Javé fala da sua misericórdia, “até à milésima geração”, ilimitada e desproporcional, se comparada com a sua ira, “até à terceira e à quarta geração”. Os números não devem ser tomados à letra, porque são uma forma de representar a desproporcional misericórdia de um Deus, infinitamente mais inclinado para o perdão do que para o castigo. Por isso, Israel é instado a descobrir Deus e a comprometer-se com o Deus que é sempre fiel aos seus compromissos e solidário com todos aqueles que d’Ele necessitam.

Nisto, o essencial é: Deus ama o seu Povo e cuida dele com bondade e ternura. A sua misericórdia é ilimitada e, aconteça o que acontecer, triunfará sempre. Israel, o Povo da aliança, pode estar confiante, pois Javé, o Deus do amor e da misericórdia, garante a sua eterna fidelidade a esses atributos que caraterizam o seu ser.

Moisés responde a esta apresentação com as petições habituais: que Javé continue a acompanhar o Povo em caminhada da terra da escravidão para a terra da liberdade; que Javé entenda a dureza do coração do Povo e que lhe perdoe os pecados; que Javé renove a eleição. E Deus, confirmando a autoapresentação (Deus de amor e de bondade, lento para a ira e rico de misericórdia), perdoa ao Povo e propõe-lhe a renovação da aliança.

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Na segunda leitura (2Cor 13,11-13), Paulo exprime – na fórmula litúrgica “a graça do Senhor Jesus Cristo, o amor do Pai e a comunhão do Espírito Santo estejam convosco” – o Deus que é comunhão, que é família e que pretende atrair os homens para a dinâmica de amor.

A Primeira Carta aos Coríntios, criticando alguns membros da comunidade, por atitudes pouco condizentes com os valores cristãos, provocou reação extremada e uma campanha organizada no sentido de desacreditar o apóstolo. Este, informado de tudo, partiu, apressadamente, para Corinto e teve violento confronto com os detratores. Depois, retirou-se para Éfeso. Tito, amigo de Paulo, fino negociador e hábil diplomata, demandou Corinto, para tentar a reconciliação. Entretanto, Paulo partiu para Tróade, onde reencontrou Tito, regressado de Corinto. As notícias trazidas por Tito eram animadoras: o diferendo fora ultrapassado e os Coríntios estavam, de novo, em comunhão com Paulo.

Reconfortado, Paulo escreveu uma apologia do seu apostolado, com o apelo a uma coleta para os pobres da Igreja de Jerusalém. Estamos nos anos 56/57.

O trecho em apreço é a conclusão da Segunda Carta de Paulo aos Coríntios. Dizem alguns que, se compararmos esta despedida com a da Primeira Carta, ficaremos surpreendidos pela brevidade, pela frieza e pela impessoalidade, parecendo a despedida entre partes que conservam certa tensão na relação. Não obstante, como as cartas paulinas eram lidas às comunidades destinatárias no início da sua reunião, na qual se celebrava a eucaristia, as palavras finais (vv.12-13) já teriam o cunho litúrgico que ainda conservam. Por outro lado, fala-se da saudação dos santos (os cristãos) e a saudação é no ósculo santo.

Paulo começa por deixar algumas recomendações de caráter geral aos membros da comunidade. Pede-lhes que sejam alegres; que procurem, sem desistir, chegar à perfeição; e que, nas relações fraternas, se animem mutuamente, tenham os mesmos sentimentos e vivam em paz. São conselhos que devem ser entendidos no contexto das dificuldades e das tensões vividas recentemente pela comunidade, bem como na perspetiva do futuro.

O mais notável da carta é a fórmula final de saudação: “A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam convosco”. Esta fórmula – a mais claramente trinitária do Novo Testamento – é, certamente, de origem litúrgica, provavelmente, a fórmula que os cristãos utilizavam, quando, na celebração eucarística, trocavam a saudação da paz.

Esta fórmula constitui uma confissão de fé no Deus trino e manifesta a fé dos crentes no Deus que é amor e, portanto, que é família, que é comunidade. Ao utilizarem esta fórmula, os crentes reconhecem-se como membros da família de Deus e reconhecem que ser família de Deus é fazerem todos parte de uma única família de irmãos. São, pois, convocados para viverem em unidade: na comunhão com Deus e na união com todos os irmãos.

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No Evangelho (Jo 3,16-18), João convida-nos a contemplar o Deus cujo amor pelos homens é tão grande, a ponto de enviar ao Mundo o seu Filho unigénito; e Jesus, o Filho, cumprindo o plano do Pai, fez da sua vida um dom total, até à morte na cruz, a fim de oferecer aos homens a vida definitiva. Nesta fantástica história de amor (que vai até ao dom da vida do Filho unigénito e amado), plasma-se a grandeza do coração de Deus.

O trecho em causa integra a secção introdutória do Quarto Evangelho (Jo 1,19-3,36), em que o evangelista apresenta Jesus e procura – com os contributos das personagens que vão ocupando, sucessivamente, o centro do palco e recitando o seu texto – dizer quem é Jesus. Assim, estamos perante um dos momentos da conversa entre Jesus e Nicodemos, um “chefe dos judeus”, que foi visitar Jesus “de noite”, supostamente, para não se comprometer e arriscar a posição destacada de que gozava na estrutura religiosa judaica (perspetiva diferente da de Leão XIV, como veremos adiante). Membro do Sinédrio, Nicodemos aparecerá, mais tarde, a defender Jesus, perante os chefes dos fariseus, assim como estará presente na altura em que Jesus for descido da cruz e colocado no túmulo.

A conversa entre Jesus e Nicodemos apresenta três etapas ou fases. Na primeira (Jo 3,1-3), Nicodemos reconhece a autoridade de Jesus, graças às suas obras; mas Jesus sustenta que não basta: o essencial é reconhecê-Lo como o enviado do Pai. Na segunda (Jo 3,4-8), Jesus anuncia a Nicodemos que, para entender a sua proposta, é preciso “nascer de Deus” e explica-lhe que esse novo nascimento é o nascimento “da água e do Espírito”. Na terceira (Jo 3,9-21), Jesus descreve a Nicodemos o plano de salvação de Deus: é iniciativa do Pai, tornada presente no Mundo e na vida dos homens através do Filho e que se concretizará pela cruz/exaltação de Jesus.

O trecho proclamado nesta solenidade da Santíssima Trindade, está contido nesta terceira parte.

Tendo explicado que o Messias tem de “ser levantado ao alto”, como “Moisés levantou a serpente” no deserto – evocando o episódio da caminhada pelo deserto em que os Hebreus, mordidos pelas serpentes, olhavam a serpente de bronze levantada num estandarte por Moisés e se curavam –, a fim de que “todo aquele que n’Ele acredita tenha vida definitiva”, Jesus explicita como é que a cruz se insere no desígnio de Deus. A explicação vem em três passos.

O primeiro refere-se ao significado último da cruz. O homem que vai ser levantado na cruz veio ao Mundo, incarnou na História, assumiu a nossa fragilidade, partilhou a nossa humanidade; e, porque lutou contra as forças das trevas e da morte que escravizavam os homens, foi preso, torturado e morto. A cruz é o último ato da vida vivida no amor, na doação, na entrega. Esse Homem é o Filho unigénito de Deus. A expressão evoca, provavelmente, o sacrifício de Isaac. Deus comporta-Se como Abraão, que foi capaz de se desprender do próprio filho por amor (no caso de Abraão, amor a Deus; no caso de Deus, amor aos homens). A cruz é, portanto, a expressão suprema do amor de Deus pelos homens, a quem Ele quer oferecer a salvação.

O objetivo de Deus, ao enviar o seu Filho unigénito ao encontro dos homens, é libertá-los do egoísmo, da escravidão, da alienação, da morte, e dar-lhes a vida eterna. Com Jesus – o Filho que morreu na cruz –, os homens aprendem que a vida definitiva está na obediência aos planos do Pai e no dom da vida aos homens, por amor.

O segundo passo deixa claro que a intenção de Deus, ao enviar ao Mundo o seu Filho, não tem uma intenção negativa. Jesus veio ao Mundo, porque o Pai ama os homens e quer salvá-los. O Messias não veio em missão judicial, nem veio excluir ninguém da salvação. Ao invés, Ele veio oferecer aos homens – a todos – a vida definitiva, ensinando-os a amar sem medida e dando-lhes o Espírito que os transforma em Homens Novos. Deus não enviou o seu Filho ao encontro de homens perfeitos e santos, mas de homens pecadores, egoístas, autossuficientes, a fim de lhes apresentar um novo modo de vida. E foi o amor de Jesus – bem como o Espírito que Jesus deixou – que transformou os homens egoístas, orgulhosos, autossuficientes e os inseriu numa dinâmica de vida nova e plena.

O terceiro passo explicita as duas atitudes que o homem pode tomar, ante a oferta de salvação que Jesus faz: quem aceita Jesus, adere a Ele, recebe o Espírito, vive no amor e na doação, escolhe a vida definitiva; e quem prefere continuar escravo de esquemas de egoísmo e de autossuficiência, autoexclui-se da salvação. A salvação ou a condenação não são prémio ou castigo de Deus ao homem pelo bom ou mau comportamento, mas o resultado da escolha livre do homem, face à oferta incondicional de salvação que Deus lhe faz. A responsabilidade pela vida definitiva ou pela morte eterna não recai sobre Deus, mas sobre o homem.

Na perspetiva joânica, também não existe um julgamento futuro, no final dos tempos, no qual Deus pesa na sua balança os pecados dos homens, para ver se salva ou condena: o juízo realiza-se aqui e agora e depende da atitude que o homem assume ante a proposta de Jesus.

Em suma: Porque ama a Humanidade, Deus enviou o seu Filho unigénito ao Mundo com um projeto de salvação. Essa oferta, que nunca foi retirada, continua aberta e à espera de resposta. Ante a oferta de Deus, o homem escolhe a vida eterna ou autoexclui-se da salvação.

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Leão XIV, antes da recitação do Angelus com os peregrinos reunidos na Praça de São Pedro, em Roma, comentou esta passagem evangélica.

Vincando que se concluiu o Tempo Pascal com a solenidade do Pentecostes, explicitou que, ao celebrarmos o Mistério do Deus Trindade, nos é oferecido o ensejo de repensarmos o caminho percorrido, a partir do centro: a vida de Deus que nos foi dada em Jesus Cristo, a qual “é uma comunhão dinâmica, inesgotável e fecunda, que, agora, nos envolve: o Espírito que une o Pai e o Filho foi, efetivamente, derramado nos nossos corações, de modo que, no Mundo, toma forma a Igreja, sacramento de comunhão, espaço de encontro, de amor e de vida, onde o Céu e a Terra já se tocam”.

Nicodemos, importante personalidade de Israel, sentiu-se profundamente atraído por Jesus e, na perspetiva do Pontífice, tanto assim é que foi ter com Ele – à noite, para não ser visto –, ansioso por conhecer melhor este misterioso Mestre e para lhe fazer perguntas. Recebendo-o, o Senhor deu importância à sua busca. Surpreendeu-o, declarando-lhe que um adulto podia renascer e deixou-o intuir que a vida de Deus poderia transformar a sua vida. Jesus falou-lhe sobre o Espírito Santo, iluminou a sua noite com a verdade que, nesta solenidade, “ressoa em todas as nossas igrejas: ‘Tanto amou Deus o Mundo, que lhe entregou o seu Filho Unigénito, a fim de que todo o que nele crê não se perca, mas tenha a vida eterna.’ E ainda: ‘Deus não enviou o seu Filho ao Mundo para condenar o Mundo, mas para que o Mundo seja salvo por Ele’.”

Diz Leão XIV que, “no Mistério de Deus, Pai, Filho e Espírito Santo, estamos em casa, tal como Nicodemos se sentiu em casa, junto de Jesus”, e que a vida de Deus, “maravilhosa e envolvente, traz paz ao nosso coração, muitas vezes tão inquieto, e nos faz encontrar irmãos e irmãs, na alegria do Espírito”. Assim, na ótica do Papa, “a Trindade leva-nos a amar tudo e todos”, pois “descobrimos que cada criatura foi feita para a comunhão, para a relação, para o encontro”. Ao mesmo tempo, compreendemos, por contraste, a razão por que “as divisões, as polarizações e o desprezo pelas diversidades trazem ao Mundo destruição, tristeza e aridez”.

Lembra o Santo Padre que Nicodemos fazia parte do Sinédrio, o Conselho dos chefes de Israel, e que, ao ouvir ali palavras de desprezo contra Jesus, instou-os a ouvirem-No, antes de O condenarem. Com efeito, havia recebido de Deus, por Cristo, o Espírito de comunhão, que abre o coração à nova verdade e à verdadeira novidade. Quem não acolhe este Espírito, envelhece cedo, na lamentação; encontra-se sozinho, nunca tem alegria no coração.

E o Papa exclamou: “Hoje, porém, queridos irmãos e irmãs, é festa! A festa de Deus é a nossa festa. Por isso, São Paulo escreve aos Coríntios: ‘Sede alegres, tendei para a perfeição, confortai-vos uns aos outros, tende um mesmo sentir, vivei em paz e o Deus do amor e da paz estará convosco’.”

Por fim, exortou a que, pela oração do Angelus, nos dirigíssemos à Virgem Maria, para que, “no seu ‘sim’ à Vontade divina floresça também o nosso ‘sim’ ao amor da Santíssima Trindade”.

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É, pois, justo e salutar cantar com o profeta Daniel:

“Digno de louvor e de glória para sempre.”

“Bendito sejais, Senhor, Deus dos nossos pais: / digno de louvor e de glória para sempre.
“Bendito o vosso nome glorioso e santo: / digno de louvor e de glória para sempre.

“Bendito sejais no templo santo da vossa glória: / digno de louvor e de glória para sempre.
“Bendito sejais no trono da vossa realeza: / digno de louvor e de glória para sempre.

“Bendito sejais, vós que sondais os abismos / e estais sentados sobre os Querubins: / digno de louvor e de glória para sempre.
“Bendito sejais no firmamento dos céus: / digno de louvor e de glória para sempre.”

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E, com toda a Igreja, bendizer a Santíssima Trindade:

“Aleluia. Aleluia.”

“Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo, / ao Deus que é, que era e que há de vir.”

2026.06.01 – Louro de Carvalho

Celebrar as crianças e saber porque não as há ou porque são maltratadas

 

O Presidente da República (PR), a 1 de junho, por ocasião do Dia Mundial da Criança, diz que, neste dia, “celebramos todas as crianças” e que somos convocados para “refletir sobre o país que construímos, diariamente, para o futuro das novas gerações”.

Referindo que, “nas últimas semanas, fomos confrontados com estatísticas alarmantes sobre a realidade das crianças, em Portugal”, releva a existência de “crianças que passam fome”; de “crianças privadas de atividades escolares, culturais ou desportivas, por falta de recursos”; de “crianças que crescem em contextos de pobreza, negligência, violência ou exclusão”; e de crianças vítimas de abuso sexual e de violência doméstica”.

Celebrar é necessário e justo, mas ficar por aí é muito pouco, face à lancinante realidade que nos convoca, pois, como salienta o chefe de Estado, “por detrás de cada um destes casos há um rosto, uma infância que é forçada a enfrentar demasiado cedo o peso da adversidade”, bem como “sonhos que se vão apagando, talentos que ficam por revelar e caminhos que se estreitam quando deveriam abrir-se ao Mundo”.

Lembra o PR que o modo de proteção das crianças constitui prova de humanidade e de maturidade democrática, pois, se as circunstâncias de nascimento limitam o futuro de uma criança, é o país que falha, “no dever de lhe garantir dignidade, igualdade de oportunidades e esperança”.

Reconhecendo que o país avançou na promoção dos direitos das crianças, António José Seguro chamou a atenção para implementação, em curso, da Estratégia Única dos Direitos das Crianças e Jovens 2025-2035, “instrumento importante para uma resposta pública mais integrada e eficaz”. Porém, sustenta que “nenhuma estratégia produzirá os resultados desejados nas políticas públicas, sem o compromisso ativo de toda a sociedade”.

Por conseguinte, na ótica presidencial, face ao “agravamento das desigualdades” e à “crescente exposição das crianças a novos riscos”, precisamos, “de instituições mais articuladas, de comunidades mais próximas, de escolas mais inclusivas, de famílias mais acompanhadas e de uma sociedade mais consciente do dever coletivo de proteger a infância”, bem como de “garantir a todas as crianças o direito de continuarem a sonhar”, sem esquecermos as que vivem em “maior vulnerabilidade”, ou seja, as crianças “em situação de pobreza, com deficiência ou doenças crónicas, pertencentes a minorias ou expostas à violência, ao abandono e aos riscos do ambiente digital”.

Com efeito, como assegura o PR, proteger a infância não é só responder às fragilidades do presente, mas garantir à criança “espaço para crescer livre, [para] descobrir os seus talentos e [para] alimentar os sonhos que darão forma ao país de amanhã”. E, enquanto damos o exemplo às crianças para que elas aprendam, teremos também de saber reaprender com elas.

Por fim, o chefe de Estado, considerando que “nenhuma criança nasce a odiar, a discriminar ou a excluir”, mas que “todas nascem com a capacidade de acolher, de respeitar e de acreditar”, faz votos por que as crianças nos inspirem, “a olhar o outro com mais humanidade, a reconhecer na diferença uma riqueza e não uma ameaça, e a construir uma sociedade mais justa, mais livre, mais humana e mais solidária”.

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Em peça jornalística intitulada “Portugal é o segundo país da UE onde a população infantil mais diminuiu nos últimos 50 anos”, publicado pela Euronews, a 1 de junho, Inês dos Santos Cardoso – citando a Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFS), que retratou, através da Pordata, a evolução da população infantil da União Europeia (UE) – releva que “ Portugal é o segundo país que perdeu mais crianças, nos últimos 50 anos”, tendo registado uma das maiores quebras da população infantil, neste horizonte temporal..

Com um milhão e 58 mil crianças a viver em Portugal, entre as 50,6 milhões da UE, o país teve uma quebra de 12,1%, a segunda maior a seguir à Espanha. Em 1975, Portugal era o segundo país com mais crianças (22%), enquanto, em 2025, era o quarto país com menos (9,8%).

A Itália é o país do bloco europeu com menor proporção de crianças (9,1%), enquanto a Irlanda (14,2%), a Suécia (13,2%) e a França (12,8%) apresentam as percentagens mais elevadas de população infantil.

Alguns municípios portugueses contrariam a tendência, entre eles: Aljezur (+8,8%), Lisboa (+9,2%), Montijo (+10,6%) e Vila Velha de Ródão (+6,6%). Nestas localidades, a proporção de crianças até aos 10 anos aumentou. Já nos municípios de Câmara de Lobos, Ribeira Grande e Porto Moniz, a quebra do número de crianças foi maior.

Nos 308 municípios de Portugal, de acordo com dados de 2024, a percentagem de crianças com menos de 10 anos varia entre 3,6% (Almeida) e 11,1% (Ribeira Grande).

Os dados indicam que, em Portugal, num total de 793 mil agregados familiares com, pelo menos, uma criança menor de 12 anos, 69% das crianças vive com um casal (73%, na UE); 20% vive em famílias com mais de dois adultos (15%, na UE); e 11% vive em famílias monoparentais (12%, na UE). A Estónia é o país da UE onde mais crianças vivem em famílias monoparentais, contrastando com a Suécia, que apresenta a maior proporção de crianças a viver com um casal (85%).

As crianças portuguesas estão entre as que passam mais horas, por semana, nos estabelecimentos de educação e ensino. Entre os 6 e os 11 anos, as crianças passam 38 horas, por semana, na escola, estando acima da média da UE, de 31,5 horas. Dos três aos seis anos (ou seja, até começar a escolaridade obrigatória), as crianças passam nos estabelecimentos de educação e ensino 38,3 horas, quando a média da UE é de 30,8 horas. Até aos três anos, o número de horas que as crianças portuguesas passam nos estabelecimentos de educação e ensino é ligeiramente mais baixo (36,7 horas), face à média da UE, de 30,5 horas.

A Hungria é o único país do bloco em que as crianças têm uma carga horária média superior a Portugal. Já a Alemanha, a Irlanda e os Países Baixos têm uma carga horária média semanal inferior a 30 horas, em qualquer um dos grupos etários. Em 2025, quase 58% das crianças até aos três anos estava abrangido por algum tipo de educação formal, em creches ou em amas certificadas. Este valor coloca Portugal entre os países com maior cobertura na UE e acima da média europeia de 40,5%. Tal tendência também se verifica na educação pré-escolar: em 2024, 94,5% das crianças entre os três anos e a idade de entrada na escola (100%, aos cinco anos; 98,5%, aos quatro anos; e 88,9%, aos três anos) frequentavam este patamar de educação, em Portugal, o que representa um aumento de 5,8%, face a 2013.

Os dados da Pordata retratam os contextos socioeconómicos em que as crianças portuguesas estão inseridas, com Portugal a integrar o grupo de sete países da UE onde as taxas de risco de pobreza ou exclusão social das crianças com menos de 12 anos são das mais baixas. Em 2025, 157 mil crianças menores de 12 anos viviam nesta situação, em Portugal. Na verdade, nos últimos 10 anos verifica-se uma melhoria significativa, com menos 103 mil crianças em risco de pobreza, face ao ano de 2015, em que o número era 260 mil. Na UE, em 2015, estavam em risco de pobreza 10,9 milhões de crianças, número que baixou para 9,4 milhões, em 2025.

No total, existem cerca de 793 mil famílias com crianças até aos 12 anos, em Portugal, o equivalente a 17% das famílias portuguesas, ligeiramente acima da média da UE, que é de 16%, em 33 milhões de famílias.

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Segundo o relatório “Portugal, Balanço Social 2025”, o risco de pobreza, em Portugal, caiu de 17%, em 2023, para 15,4%, em 2025, e o poder de compra das famílias aumentou 25,2%, na última década, mas o país continua com desigualdades profundas, sobretudo entre crianças, famílias vulneráveis e diferentes regiões do território. Em 2024, 15% das famílias pobres não conseguiram garantir às crianças uma alimentação saudável e nutritiva e uma em cada 20 crianças não conseguiu comer por falta de recursos financeiros.

Os dados do relatório, elaborado por investigadores da Nova SBE, com base em dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), mostram um país que melhorou, nos últimos anos, mas onde persistem “fragilidades estruturais”.

Uma das maiores preocupações é a pobreza infantil. Apesar da descida da taxa de risco de pobreza em crianças, de 22,8%, em 2008, para 17,8%, em 2024, uma em cada seis crianças até aos cinco anos vive em situação de pobreza. Há dois anos, 301 mil crianças eram pobres, em Portugal. Quase 30% das crianças pobres vive em situação de privação material e social. Metade não participa, regularmente, em atividades extracurriculares ou de lazer e muitas enfrentam limitações básicas, como participar em visitas de estudo pagas.

As privações também se fazem sentir ao nível da alimentação: 15% dos agregados com crianças pobres não foram capazes de assegurar “uma alimentação saudável e nutritiva”. Mesmo com fome, uma em cada 20 crianças não comeu, por não ter recursos financeiros.

Cerca de uma em cada dez crianças com idades até aos cinco anos não frequentou, pelo menos, 30 horas semanais de educação pré-escolar ou creche. “Esta proporção é quase o dobro em crianças que vivem em agregados em situação de pobreza (18,5%) das crianças que vivem em agregados não pobres (9,8%)". Além disso, três em cada dez viviam em alojamentos sobrelotados.

Em suma, nascem menos crianças, fazem parte de famílias mais diversas, passam muito tempo na escola e são menos pobres. Todavia, ainda há muitas crianças pobres. Apesar da melhoria na última década, o risco de pobreza continua a marcar parte significativa das crianças.

O risco também dependente do contexto. Por exemplo, quando os pais têm apenas o ensino básico, a taxa de vulnerabilidade ultrapassa os 40%, ao passo que, se têm o ensino superior, desce para valores próximos dos 5%.

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As atividades atinentes ao Dia Mundial da Criança multiplicaram-se, um pouco por toda a parte. E é de destacar a ocorrida em Portugal, a 29 de maio. Turistas e residentes locais que passavam na baixa lisboeta tiveram, por instantes, contacto com a realidade devastadoras em Gaza, através de uma instalação artística feita de brinquedos e de roupa infantil, com o objetivo de chamar a atenção para os milhares de crianças mortas nos últimos meses do conflito.

A ação foi organizada por grupos da sociedade civil para assinalar a efeméride a celebrar a 1 de junho. Durante esse dia e os subsequentes, os organizadores apelaram a doações de roupa e de brinquedos para crianças, para encher a Rua do Carmo, uma das mais emblemáticas do centro histórico de Lisboa. E, por todo o país, realizaram-se vários outros eventos, num apelar ao cessar-fogo imediato.

Na verdade, a guerra em Gaza tem sido devastadora para as crianças. De acordo com o Ministério da Saúde de Gaza, foram mortos mais de 54 mil Palestinianos, na sua maioria mulheres e crianças. E muitas crianças mal sobrevivem ou não sobrevivem à fome, à subnutrição e às infeções (algumas das quais em termos epidémicos).

A guerra começou quando o Hamas atacou Israel, a 7 de outubro de 2023, matando cerca de 1200 pessoas, na sua maioria civis, e fazendo 250 reféns, alguns ainda em cativeiro em Gaza.

Os organizadores da ação que decorreu em Lisboa referiram o número anunciado pela UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância), a agência da Organização das Nações Unidas (ONU) segundo a qual mais de 50 mil crianças foram mortas ou feridas, desde outubro de 2023.

É de recordar que, no dia 27 de maio, centenas de Palestinianos invadiram um armazém de alimentos da ONU no centro de Gaza, desesperados por ajuda, devido à fome que assolava o território, após meses de encerramentos nas fronteiras. Multidões empurraram e gritaram à entrada do armazém, com alguns a rasgarem as paredes de metal para alcançarem os mantimentos. Muitos saíram carregando sacos de 25 kg de farinha, navegando por entre as pessoas que ainda tentavam entrar. Duas pessoas foram mortas e várias ficaram feridas.

A luta por comida evidenciava uma crise crescente, com Gaza a aproximar-se de uma situação de fome, após quase três meses de restrições israelitas. E as agências de ajuda diziam que os sistemas não conseguiam atender às necessidades dos 2,3 milhões de habitantes de Gaza.

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Também é de assinalar que, em Portugal, o número de crianças vítimas de violência doméstica, em casas de abrigo e em outros espaços de acolhimento de emergência, foi, no primeiro trimestre do ano, pela primeira vez, mais elevado do que o número de mulheres.

Segundo os dados divulgados a 27 de maio, no Portal de Violência Doméstica, pela Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG), nos primeiros três meses deste ano, estavam na Rede Nacional de Apoio às Vítimas de Violência Doméstica 1383 pessoas, entre elas 678 mulheres, 684 crianças e 21 homens.

Comparando com o trimestre anterior, as casas de abrigo e outros espaços de acolhimento de emergência acolheram mais 61 crianças, nos meses de janeiro, de fevereiro e de março deste ano e menos 27 mulheres.

Nos primeiros três meses do ano, morreram oito pessoas vítimas de violência doméstica, seis mulheres e duas crianças, segundo os dados divulgados no Portal da Violência Doméstica e que, neste caso, têm como base informações da Polícia Judiciária (PJ).

O número de ocorrências participadas à Polícia de Segurança Pública (PSP) e à Guarda Nacional Republicana (GNR) também aumentou, em relação ao último trimestre, com 6949 participações por violência doméstica, no primeiro trimestre de 2026, mais 276 ocorrências. E os dados mostram que 6389 pessoas eram abrangidas pela teleassistência, no primeiro trimestre, número também recorde e com mais 289 pessoas abrangidas do que no trimestre anterior.

Em contexto prisional, atingiu o recorde o número de presos por violência doméstica, nos primeiros três meses do ano, com 1607 reclusos, 398 em preventiva e 1209 a cumprir pena. De acordo com os dados reunidos pela CIG e que têm como base os números da Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais (DGRSP), no primeiro trimestre deste ano, estavam mais 25 pessoas a cumprir pena de prisão e mais 22 em preventiva do que nos três meses anteriores – outubro, novembro e dezembro de 2025.

Além disso, os indicadores publicados mostram que, nos primeiros três meses do ano, foi aplicada a medida de coação de pulseira eletrónica a 959 pessoas e 3168 pessoas frequentavam programas para agressores, sendo o número de presos nestes programas muito inferior ao número de pessoas que os frequentam na comunidade, 211 e 2957, respetivamente, mas o número de agressores tem sido sempre acima dos 2500 participantes, desde 2021.

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Há, pois, muito que fazer em prol da dignidade das pessoas e, em especial, da criança, que precisa de um desenvolvimento harmonioso e tranquilo, embora com sentido de exigência.

2026.06.01 – Louro de Carvalho