O
enunciado em epígrafe é o refrão do salmo responsorial (ou cântico de
meditação) subsequente à proclamação da primeira leitura da Eucaristia da Solenidade
da Santíssima Trindade, no Ano A, que ocorreu a 31 de maio, domingo.
Esta
solenidade não convida a decifrar o mistério que se esconde por detrás de um só
Deus em três pessoas”, mas a contemplar o Deus que é amor, que é família, que é
comunidade e que criou os homens para os fazer comungar nesse mistério de amor.
***
Na
primeira leitura (Ex 34,4b-6.8-9), o Deus da comunhão e da aliança,
apostado em estabelecer laços familiares com o homem, autoapresenta-se:
clemente e compassivo, lento para a ira e rico de misericórdia. É um trecho que
integra as “tradições sobre a aliança do Sinai”, de origem diversa, cujo
denominador comum é a reflexão sobre o compromisso (“berit”: “aliança”) que
Israel assumira com o Senhor (Javé).
Estamos
no deserto do Sinai, “em frente ao monte”. O texto bíblico não dá indicação
geográfica suficiente para identificarmos o “monte da aliança”. “Sinai” designa
a enorme península de forma triangular, com cerca de 420 quilómetros de
extensão Norte/Sul, que se estende entre o mar Mediterrâneo e o mar Vermelho
(no sentido Norte/Sul) e o golfo do Suez e o golfo da Áqaba (no sentido Oeste/Este).
É um deserto árido, de terreno acidentado e com várias montanhas que chegam a
atingir a altura de 2400 metros.
O
texto pode ter sido a primitiva versão javista da aliança do Sinai (século X
a.C.); mas, na versão final do Pentateuco (séculos V-IV a.C.), foi utilizado
para descrever a renovação da primeira aliança, rompida pelo pecado do Povo. No
estado atual do Pentateuco, o esquema é: Israel comprometeu-se com Javé; durante
a ausência de Moisés, que estava no cimo do monte, o Povo construiu um bezerro
de ouro, para representar Javé – o que era interdito pelos mandamentos da
aliança; Moisés intercedeu pelo Povo; e Deus renovou a aliança com Israel.
Obtido
o perdão de Deus para o Povo, Moisés subiu sozinho à presença de Javé, levando
as duas novas tábuas de pedra que havia talhado e sobre as quais seriam
gravados os mandamentos da aliança. E aqui o hagiógrafo insere a teofania (manifestação
de Deus): Deus aproxima-Se de Moisés na nuvem.
A
nuvem, que paira a meio caminho do Céu e da Terra, é, no Antigo Testamento,
símbolo privilegiado para exprimir a presença do Deus que vem ao encontro do
homem, mas, ao mesmo tempo, esconde e manifesta, sugerindo o mistério de Deus,
escondido e presente, cujo rosto o homem não pode ver, mas cuja presença
adivinha.
A
teofania continua com a autoapresentação de Javé. Nesta apresentação, Deus não
menciona a sua grandeza e omnipotência, o seu poder e majestade, mas releva as qualidades
que O tornam o parceiro ideal na aliança: Ele é o “Deus clemente e compassivo,
sem pressa para Se indignar e cheio de misericórdia e fidelidade”. Num
desenvolvimento que aparece no texto bíblico, mas que a leitura desta
solenidade não conservou, Javé fala da sua misericórdia, “até à milésima
geração”, ilimitada e desproporcional, se comparada com a sua ira, “até à
terceira e à quarta geração”. Os números não devem ser tomados à letra, porque
são uma forma de representar a desproporcional misericórdia de um Deus,
infinitamente mais inclinado para o perdão do que para o castigo. Por isso,
Israel é instado a descobrir Deus e a comprometer-se com o Deus que é sempre
fiel aos seus compromissos e solidário com todos aqueles que d’Ele necessitam.
Nisto,
o essencial é: Deus ama o seu Povo e cuida dele com bondade e ternura. A sua
misericórdia é ilimitada e, aconteça o que acontecer, triunfará sempre. Israel,
o Povo da aliança, pode estar confiante, pois Javé, o Deus do amor e da
misericórdia, garante a sua eterna fidelidade a esses atributos que caraterizam
o seu ser.
Moisés
responde a esta apresentação com as petições habituais: que Javé continue a
acompanhar o Povo em caminhada da terra da escravidão para a terra da
liberdade; que Javé entenda a dureza do coração do Povo e que lhe perdoe os
pecados; que Javé renove a eleição. E Deus, confirmando a autoapresentação
(Deus de amor e de bondade, lento para a ira e rico de misericórdia), perdoa ao
Povo e propõe-lhe a renovação da aliança.
***
Na
segunda leitura (2Cor 13,11-13), Paulo exprime – na fórmula litúrgica “a
graça do Senhor Jesus Cristo, o amor do Pai e a comunhão do Espírito Santo
estejam convosco” – o Deus que é comunhão, que é família e que pretende atrair
os homens para a dinâmica de amor.
A
Primeira Carta aos Coríntios, criticando alguns membros da comunidade, por
atitudes pouco condizentes com os valores cristãos, provocou reação extremada e
uma campanha organizada no sentido de desacreditar o apóstolo. Este, informado
de tudo, partiu, apressadamente, para Corinto e teve violento confronto com os detratores.
Depois, retirou-se para Éfeso. Tito, amigo de Paulo, fino negociador e hábil
diplomata, demandou Corinto, para tentar a reconciliação. Entretanto, Paulo partiu
para Tróade, onde reencontrou Tito, regressado de Corinto. As notícias trazidas
por Tito eram animadoras: o diferendo fora ultrapassado e os Coríntios estavam,
de novo, em comunhão com Paulo.
Reconfortado,
Paulo escreveu uma apologia do seu apostolado, com o apelo a uma coleta para os
pobres da Igreja de Jerusalém. Estamos nos anos 56/57.
O
trecho em apreço é a conclusão da Segunda Carta de Paulo aos Coríntios. Dizem
alguns que, se compararmos esta despedida com a da Primeira Carta, ficaremos
surpreendidos pela brevidade, pela frieza e pela impessoalidade, parecendo a
despedida entre partes que conservam certa tensão na relação. Não obstante, como
as cartas paulinas eram lidas às comunidades destinatárias no início da sua
reunião, na qual se celebrava a eucaristia, as palavras finais (vv.12-13)
já teriam o cunho litúrgico que ainda conservam. Por outro lado, fala-se da saudação
dos santos (os cristãos) e a saudação é no ósculo santo.
Paulo
começa por deixar algumas recomendações de caráter geral aos membros da
comunidade. Pede-lhes que sejam alegres; que procurem, sem desistir, chegar à
perfeição; e que, nas relações fraternas, se animem mutuamente, tenham os
mesmos sentimentos e vivam em paz. São conselhos que devem ser entendidos no contexto
das dificuldades e das tensões vividas recentemente pela comunidade, bem como
na perspetiva do futuro.
O
mais notável da carta é a fórmula final de saudação: “A graça do Senhor Jesus
Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam convosco”. Esta
fórmula – a mais claramente trinitária do Novo Testamento – é, certamente, de
origem litúrgica, provavelmente, a fórmula que os cristãos utilizavam, quando,
na celebração eucarística, trocavam a saudação da paz.
Esta
fórmula constitui uma confissão de fé no Deus trino e manifesta a fé dos
crentes no Deus que é amor e, portanto, que é família, que é comunidade. Ao
utilizarem esta fórmula, os crentes reconhecem-se como membros da família de
Deus e reconhecem que ser família de Deus é fazerem todos parte de uma única
família de irmãos. São, pois, convocados para viverem em unidade: na comunhão
com Deus e na união com todos os irmãos.
***
No
Evangelho (Jo 3,16-18), João convida-nos a contemplar o Deus cujo
amor pelos homens é tão grande, a ponto de enviar ao Mundo o seu Filho unigénito;
e Jesus, o Filho, cumprindo o plano do Pai, fez da sua vida um dom total, até à
morte na cruz, a fim de oferecer aos homens a vida definitiva. Nesta fantástica
história de amor (que vai até ao dom da vida do Filho unigénito e amado),
plasma-se a grandeza do coração de Deus.
O
trecho em causa integra a secção introdutória do Quarto Evangelho (Jo 1,19-3,36),
em que o evangelista apresenta Jesus e procura – com os contributos das personagens
que vão ocupando, sucessivamente, o centro do palco e recitando o seu texto –
dizer quem é Jesus. Assim, estamos perante um dos momentos da conversa entre
Jesus e Nicodemos, um “chefe dos judeus”, que foi visitar Jesus “de noite”,
supostamente, para não se comprometer e arriscar a posição destacada de que
gozava na estrutura religiosa judaica (perspetiva diferente da de Leão XIV,
como veremos adiante). Membro do Sinédrio, Nicodemos aparecerá, mais tarde, a
defender Jesus, perante os chefes dos fariseus, assim como estará presente na
altura em que Jesus for descido da cruz e colocado no túmulo.
A
conversa entre Jesus e Nicodemos apresenta três etapas ou fases. Na primeira (Jo
3,1-3), Nicodemos reconhece a autoridade de Jesus, graças às suas obras; mas
Jesus sustenta que não basta: o essencial é reconhecê-Lo como o enviado do Pai.
Na segunda (Jo 3,4-8), Jesus anuncia a Nicodemos que, para entender a
sua proposta, é preciso “nascer de Deus” e explica-lhe que esse novo nascimento
é o nascimento “da água e do Espírito”. Na terceira (Jo 3,9-21), Jesus
descreve a Nicodemos o plano de salvação de Deus: é iniciativa do Pai, tornada
presente no Mundo e na vida dos homens através do Filho e que se concretizará
pela cruz/exaltação de Jesus.
O
trecho proclamado nesta solenidade da Santíssima Trindade, está contido nesta
terceira parte.
Tendo
explicado que o Messias tem de “ser levantado ao alto”, como “Moisés levantou a
serpente” no deserto – evocando o episódio da caminhada pelo deserto em que os Hebreus,
mordidos pelas serpentes, olhavam a serpente de bronze levantada num estandarte
por Moisés e se curavam –, a fim de que “todo aquele que n’Ele acredita tenha
vida definitiva”, Jesus explicita como é que a cruz se insere no desígnio de
Deus. A explicação vem em três passos.
O
primeiro refere-se ao significado último da cruz. O homem que vai ser levantado
na cruz veio ao Mundo, incarnou na História, assumiu a nossa fragilidade,
partilhou a nossa humanidade; e, porque lutou contra as forças das trevas e da
morte que escravizavam os homens, foi preso, torturado e morto. A cruz é o
último ato da vida vivida no amor, na doação, na entrega. Esse Homem é o Filho unigénito
de Deus. A expressão evoca, provavelmente, o sacrifício de Isaac. Deus
comporta-Se como Abraão, que foi capaz de se desprender do próprio filho por
amor (no caso de Abraão, amor a Deus; no caso de Deus, amor aos homens). A cruz
é, portanto, a expressão suprema do amor de Deus pelos homens, a quem Ele quer
oferecer a salvação.
O
objetivo de Deus, ao enviar o seu Filho unigénito ao encontro dos homens, é
libertá-los do egoísmo, da escravidão, da alienação, da morte, e dar-lhes a
vida eterna. Com Jesus – o Filho que morreu na cruz –, os homens aprendem que a
vida definitiva está na obediência aos planos do Pai e no dom da vida aos
homens, por amor.
O
segundo passo deixa claro que a intenção de Deus, ao enviar ao Mundo o seu
Filho, não tem uma intenção negativa. Jesus veio ao Mundo, porque o Pai ama os
homens e quer salvá-los. O Messias não veio em missão judicial, nem veio
excluir ninguém da salvação. Ao invés, Ele veio oferecer aos homens – a todos –
a vida definitiva, ensinando-os a amar sem medida e dando-lhes o Espírito que
os transforma em Homens Novos. Deus não enviou o seu Filho ao encontro de
homens perfeitos e santos, mas de homens pecadores, egoístas, autossuficientes,
a fim de lhes apresentar um novo modo de vida. E foi o amor de Jesus – bem como
o Espírito que Jesus deixou – que transformou os homens egoístas, orgulhosos,
autossuficientes e os inseriu numa dinâmica de vida nova e plena.
O
terceiro passo explicita as duas atitudes que o homem pode tomar, ante a oferta
de salvação que Jesus faz: quem aceita Jesus, adere a Ele, recebe o Espírito,
vive no amor e na doação, escolhe a vida definitiva; e quem prefere continuar
escravo de esquemas de egoísmo e de autossuficiência, autoexclui-se da
salvação. A salvação ou a condenação não são prémio ou castigo de Deus ao homem
pelo bom ou mau comportamento, mas o resultado da escolha livre do homem, face
à oferta incondicional de salvação que Deus lhe faz. A responsabilidade pela
vida definitiva ou pela morte eterna não recai sobre Deus, mas sobre o homem.
Na
perspetiva joânica, também não existe um julgamento futuro, no final dos
tempos, no qual Deus pesa na sua balança os pecados dos homens, para ver se salva
ou condena: o juízo realiza-se aqui e agora e depende da atitude que o homem
assume ante a proposta de Jesus.
Em
suma: Porque ama a Humanidade, Deus enviou o seu Filho unigénito ao Mundo com
um projeto de salvação. Essa oferta, que nunca foi retirada, continua aberta e
à espera de resposta. Ante a oferta de Deus, o homem escolhe a vida eterna ou autoexclui-se
da salvação.
***
Leão
XIV, antes da recitação do Angelus com os peregrinos reunidos na Praça
de São Pedro, em Roma, comentou esta passagem evangélica.
Vincando
que se concluiu o Tempo Pascal com a solenidade do Pentecostes, explicitou que,
ao celebrarmos o Mistério do Deus Trindade, nos é oferecido o ensejo de
repensarmos o caminho percorrido, a partir do centro: a vida de Deus que nos
foi dada em Jesus Cristo, a qual “é uma comunhão dinâmica, inesgotável e
fecunda, que, agora, nos envolve: o Espírito que une o Pai e o Filho foi,
efetivamente, derramado nos nossos corações, de modo que, no Mundo, toma forma
a Igreja, sacramento de comunhão, espaço de encontro, de amor e de vida, onde o
Céu e a Terra já se tocam”.
Nicodemos,
importante personalidade de Israel, sentiu-se profundamente atraído por Jesus
e, na perspetiva do Pontífice, tanto assim é que foi ter com Ele – à noite,
para não ser visto –, ansioso por conhecer melhor este misterioso Mestre e para
lhe fazer perguntas. Recebendo-o, o Senhor deu importância à sua busca.
Surpreendeu-o, declarando-lhe que um adulto podia renascer e deixou-o intuir
que a vida de Deus poderia transformar a sua vida. Jesus falou-lhe sobre o
Espírito Santo, iluminou a sua noite com a verdade que, nesta solenidade, “ressoa
em todas as nossas igrejas: ‘Tanto amou Deus o Mundo, que lhe entregou o seu
Filho Unigénito, a fim de que todo o que nele crê não se perca, mas tenha a
vida eterna.’ E ainda: ‘Deus não enviou o seu Filho ao Mundo para condenar o Mundo,
mas para que o Mundo seja salvo por Ele’.”
Diz
Leão XIV que, “no Mistério de Deus, Pai, Filho e Espírito Santo, estamos em
casa, tal como Nicodemos se sentiu em casa, junto de Jesus”, e que a vida de
Deus, “maravilhosa e envolvente, traz paz ao nosso coração, muitas vezes tão
inquieto, e nos faz encontrar irmãos e irmãs, na alegria do Espírito”. Assim, na
ótica do Papa, “a Trindade leva-nos a amar tudo e todos”, pois “descobrimos que
cada criatura foi feita para a comunhão, para a relação, para o encontro”. Ao mesmo
tempo, compreendemos, por contraste, a razão por que “as divisões, as
polarizações e o desprezo pelas diversidades trazem ao Mundo destruição,
tristeza e aridez”.
Lembra
o Santo Padre que Nicodemos fazia parte do Sinédrio, o Conselho dos chefes de
Israel, e que, ao ouvir ali palavras de desprezo contra Jesus, instou-os a ouvirem-No,
antes de O condenarem. Com efeito, havia recebido de Deus, por Cristo, o
Espírito de comunhão, que abre o coração à nova verdade e à verdadeira
novidade. Quem não acolhe este Espírito, envelhece cedo, na lamentação;
encontra-se sozinho, nunca tem alegria no coração.
E
o Papa exclamou: “Hoje, porém, queridos irmãos e irmãs, é festa! A festa de
Deus é a nossa festa. Por isso, São Paulo escreve aos Coríntios: ‘Sede alegres,
tendei para a perfeição, confortai-vos uns aos outros, tende um mesmo sentir,
vivei em paz e o Deus do amor e da paz estará convosco’.”
Por
fim, exortou a que, pela oração do Angelus, nos dirigíssemos à
Virgem Maria, para que, “no seu ‘sim’ à Vontade divina floresça também o nosso ‘sim’
ao amor da Santíssima Trindade”.
***
É,
pois, justo e salutar cantar com o profeta Daniel:
“Digno
de louvor e de glória para sempre.”
***
E,
com toda a Igreja, bendizer a Santíssima Trindade:
“Aleluia.
Aleluia.”
“Glória
ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo, / ao Deus que é, que era e que há de
vir.”
2026.06.01
– Louro de Carvalho
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