segunda-feira, 1 de junho de 2026

 

O enunciado em epígrafe é o refrão do salmo responsorial (ou cântico de meditação) subsequente à proclamação da primeira leitura da Eucaristia da Solenidade da Santíssima Trindade, no Ano A, que ocorreu a 31 de maio, domingo.

Esta solenidade não convida a decifrar o mistério que se esconde por detrás de um só Deus em três pessoas”, mas a contemplar o Deus que é amor, que é família, que é comunidade e que criou os homens para os fazer comungar nesse mistério de amor.

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Na primeira leitura (Ex 34,4b-6.8-9), o Deus da comunhão e da aliança, apostado em estabelecer laços familiares com o homem, autoapresenta-se: clemente e compassivo, lento para a ira e rico de misericórdia. É um trecho que integra as “tradições sobre a aliança do Sinai”, de origem diversa, cujo denominador comum é a reflexão sobre o compromisso (“berit”: “aliança”) que Israel assumira com o Senhor (Javé).

Estamos no deserto do Sinai, “em frente ao monte”. O texto bíblico não dá indicação geográfica suficiente para identificarmos o “monte da aliança”. “Sinai” designa a enorme península de forma triangular, com cerca de 420 quilómetros de extensão Norte/Sul, que se estende entre o mar Mediterrâneo e o mar Vermelho (no sentido Norte/Sul) e o golfo do Suez e o golfo da Áqaba (no sentido Oeste/Este). É um deserto árido, de terreno acidentado e com várias montanhas que chegam a atingir a altura de 2400 metros.

O texto pode ter sido a primitiva versão javista da aliança do Sinai (século X a.C.); mas, na versão final do Pentateuco (séculos V-IV a.C.), foi utilizado para descrever a renovação da primeira aliança, rompida pelo pecado do Povo. No estado atual do Pentateuco, o esquema é: Israel comprometeu-se com Javé; durante a ausência de Moisés, que estava no cimo do monte, o Povo construiu um bezerro de ouro, para representar Javé – o que era interdito pelos mandamentos da aliança; Moisés intercedeu pelo Povo; e Deus renovou a aliança com Israel.

Obtido o perdão de Deus para o Povo, Moisés subiu sozinho à presença de Javé, levando as duas novas tábuas de pedra que havia talhado e sobre as quais seriam gravados os mandamentos da aliança. E aqui o hagiógrafo insere a teofania (manifestação de Deus): Deus aproxima-Se de Moisés na nuvem.

A nuvem, que paira a meio caminho do Céu e da Terra, é, no Antigo Testamento, símbolo privilegiado para exprimir a presença do Deus que vem ao encontro do homem, mas, ao mesmo tempo, esconde e manifesta, sugerindo o mistério de Deus, escondido e presente, cujo rosto o homem não pode ver, mas cuja presença adivinha.

A teofania continua com a autoapresentação de Javé. Nesta apresentação, Deus não menciona a sua grandeza e omnipotência, o seu poder e majestade, mas releva as qualidades que O tornam o parceiro ideal na aliança: Ele é o “Deus clemente e compassivo, sem pressa para Se indignar e cheio de misericórdia e fidelidade”. Num desenvolvimento que aparece no texto bíblico, mas que a leitura desta solenidade não conservou, Javé fala da sua misericórdia, “até à milésima geração”, ilimitada e desproporcional, se comparada com a sua ira, “até à terceira e à quarta geração”. Os números não devem ser tomados à letra, porque são uma forma de representar a desproporcional misericórdia de um Deus, infinitamente mais inclinado para o perdão do que para o castigo. Por isso, Israel é instado a descobrir Deus e a comprometer-se com o Deus que é sempre fiel aos seus compromissos e solidário com todos aqueles que d’Ele necessitam.

Nisto, o essencial é: Deus ama o seu Povo e cuida dele com bondade e ternura. A sua misericórdia é ilimitada e, aconteça o que acontecer, triunfará sempre. Israel, o Povo da aliança, pode estar confiante, pois Javé, o Deus do amor e da misericórdia, garante a sua eterna fidelidade a esses atributos que caraterizam o seu ser.

Moisés responde a esta apresentação com as petições habituais: que Javé continue a acompanhar o Povo em caminhada da terra da escravidão para a terra da liberdade; que Javé entenda a dureza do coração do Povo e que lhe perdoe os pecados; que Javé renove a eleição. E Deus, confirmando a autoapresentação (Deus de amor e de bondade, lento para a ira e rico de misericórdia), perdoa ao Povo e propõe-lhe a renovação da aliança.

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Na segunda leitura (2Cor 13,11-13), Paulo exprime – na fórmula litúrgica “a graça do Senhor Jesus Cristo, o amor do Pai e a comunhão do Espírito Santo estejam convosco” – o Deus que é comunhão, que é família e que pretende atrair os homens para a dinâmica de amor.

A Primeira Carta aos Coríntios, criticando alguns membros da comunidade, por atitudes pouco condizentes com os valores cristãos, provocou reação extremada e uma campanha organizada no sentido de desacreditar o apóstolo. Este, informado de tudo, partiu, apressadamente, para Corinto e teve violento confronto com os detratores. Depois, retirou-se para Éfeso. Tito, amigo de Paulo, fino negociador e hábil diplomata, demandou Corinto, para tentar a reconciliação. Entretanto, Paulo partiu para Tróade, onde reencontrou Tito, regressado de Corinto. As notícias trazidas por Tito eram animadoras: o diferendo fora ultrapassado e os Coríntios estavam, de novo, em comunhão com Paulo.

Reconfortado, Paulo escreveu uma apologia do seu apostolado, com o apelo a uma coleta para os pobres da Igreja de Jerusalém. Estamos nos anos 56/57.

O trecho em apreço é a conclusão da Segunda Carta de Paulo aos Coríntios. Dizem alguns que, se compararmos esta despedida com a da Primeira Carta, ficaremos surpreendidos pela brevidade, pela frieza e pela impessoalidade, parecendo a despedida entre partes que conservam certa tensão na relação. Não obstante, como as cartas paulinas eram lidas às comunidades destinatárias no início da sua reunião, na qual se celebrava a eucaristia, as palavras finais (vv.12-13) já teriam o cunho litúrgico que ainda conservam. Por outro lado, fala-se da saudação dos santos (os cristãos) e a saudação é no ósculo santo.

Paulo começa por deixar algumas recomendações de caráter geral aos membros da comunidade. Pede-lhes que sejam alegres; que procurem, sem desistir, chegar à perfeição; e que, nas relações fraternas, se animem mutuamente, tenham os mesmos sentimentos e vivam em paz. São conselhos que devem ser entendidos no contexto das dificuldades e das tensões vividas recentemente pela comunidade, bem como na perspetiva do futuro.

O mais notável da carta é a fórmula final de saudação: “A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam convosco”. Esta fórmula – a mais claramente trinitária do Novo Testamento – é, certamente, de origem litúrgica, provavelmente, a fórmula que os cristãos utilizavam, quando, na celebração eucarística, trocavam a saudação da paz.

Esta fórmula constitui uma confissão de fé no Deus trino e manifesta a fé dos crentes no Deus que é amor e, portanto, que é família, que é comunidade. Ao utilizarem esta fórmula, os crentes reconhecem-se como membros da família de Deus e reconhecem que ser família de Deus é fazerem todos parte de uma única família de irmãos. São, pois, convocados para viverem em unidade: na comunhão com Deus e na união com todos os irmãos.

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No Evangelho (Jo 3,16-18), João convida-nos a contemplar o Deus cujo amor pelos homens é tão grande, a ponto de enviar ao Mundo o seu Filho unigénito; e Jesus, o Filho, cumprindo o plano do Pai, fez da sua vida um dom total, até à morte na cruz, a fim de oferecer aos homens a vida definitiva. Nesta fantástica história de amor (que vai até ao dom da vida do Filho unigénito e amado), plasma-se a grandeza do coração de Deus.

O trecho em causa integra a secção introdutória do Quarto Evangelho (Jo 1,19-3,36), em que o evangelista apresenta Jesus e procura – com os contributos das personagens que vão ocupando, sucessivamente, o centro do palco e recitando o seu texto – dizer quem é Jesus. Assim, estamos perante um dos momentos da conversa entre Jesus e Nicodemos, um “chefe dos judeus”, que foi visitar Jesus “de noite”, supostamente, para não se comprometer e arriscar a posição destacada de que gozava na estrutura religiosa judaica (perspetiva diferente da de Leão XIV, como veremos adiante). Membro do Sinédrio, Nicodemos aparecerá, mais tarde, a defender Jesus, perante os chefes dos fariseus, assim como estará presente na altura em que Jesus for descido da cruz e colocado no túmulo.

A conversa entre Jesus e Nicodemos apresenta três etapas ou fases. Na primeira (Jo 3,1-3), Nicodemos reconhece a autoridade de Jesus, graças às suas obras; mas Jesus sustenta que não basta: o essencial é reconhecê-Lo como o enviado do Pai. Na segunda (Jo 3,4-8), Jesus anuncia a Nicodemos que, para entender a sua proposta, é preciso “nascer de Deus” e explica-lhe que esse novo nascimento é o nascimento “da água e do Espírito”. Na terceira (Jo 3,9-21), Jesus descreve a Nicodemos o plano de salvação de Deus: é iniciativa do Pai, tornada presente no Mundo e na vida dos homens através do Filho e que se concretizará pela cruz/exaltação de Jesus.

O trecho proclamado nesta solenidade da Santíssima Trindade, está contido nesta terceira parte.

Tendo explicado que o Messias tem de “ser levantado ao alto”, como “Moisés levantou a serpente” no deserto – evocando o episódio da caminhada pelo deserto em que os Hebreus, mordidos pelas serpentes, olhavam a serpente de bronze levantada num estandarte por Moisés e se curavam –, a fim de que “todo aquele que n’Ele acredita tenha vida definitiva”, Jesus explicita como é que a cruz se insere no desígnio de Deus. A explicação vem em três passos.

O primeiro refere-se ao significado último da cruz. O homem que vai ser levantado na cruz veio ao Mundo, incarnou na História, assumiu a nossa fragilidade, partilhou a nossa humanidade; e, porque lutou contra as forças das trevas e da morte que escravizavam os homens, foi preso, torturado e morto. A cruz é o último ato da vida vivida no amor, na doação, na entrega. Esse Homem é o Filho unigénito de Deus. A expressão evoca, provavelmente, o sacrifício de Isaac. Deus comporta-Se como Abraão, que foi capaz de se desprender do próprio filho por amor (no caso de Abraão, amor a Deus; no caso de Deus, amor aos homens). A cruz é, portanto, a expressão suprema do amor de Deus pelos homens, a quem Ele quer oferecer a salvação.

O objetivo de Deus, ao enviar o seu Filho unigénito ao encontro dos homens, é libertá-los do egoísmo, da escravidão, da alienação, da morte, e dar-lhes a vida eterna. Com Jesus – o Filho que morreu na cruz –, os homens aprendem que a vida definitiva está na obediência aos planos do Pai e no dom da vida aos homens, por amor.

O segundo passo deixa claro que a intenção de Deus, ao enviar ao Mundo o seu Filho, não tem uma intenção negativa. Jesus veio ao Mundo, porque o Pai ama os homens e quer salvá-los. O Messias não veio em missão judicial, nem veio excluir ninguém da salvação. Ao invés, Ele veio oferecer aos homens – a todos – a vida definitiva, ensinando-os a amar sem medida e dando-lhes o Espírito que os transforma em Homens Novos. Deus não enviou o seu Filho ao encontro de homens perfeitos e santos, mas de homens pecadores, egoístas, autossuficientes, a fim de lhes apresentar um novo modo de vida. E foi o amor de Jesus – bem como o Espírito que Jesus deixou – que transformou os homens egoístas, orgulhosos, autossuficientes e os inseriu numa dinâmica de vida nova e plena.

O terceiro passo explicita as duas atitudes que o homem pode tomar, ante a oferta de salvação que Jesus faz: quem aceita Jesus, adere a Ele, recebe o Espírito, vive no amor e na doação, escolhe a vida definitiva; e quem prefere continuar escravo de esquemas de egoísmo e de autossuficiência, autoexclui-se da salvação. A salvação ou a condenação não são prémio ou castigo de Deus ao homem pelo bom ou mau comportamento, mas o resultado da escolha livre do homem, face à oferta incondicional de salvação que Deus lhe faz. A responsabilidade pela vida definitiva ou pela morte eterna não recai sobre Deus, mas sobre o homem.

Na perspetiva joânica, também não existe um julgamento futuro, no final dos tempos, no qual Deus pesa na sua balança os pecados dos homens, para ver se salva ou condena: o juízo realiza-se aqui e agora e depende da atitude que o homem assume ante a proposta de Jesus.

Em suma: Porque ama a Humanidade, Deus enviou o seu Filho unigénito ao Mundo com um projeto de salvação. Essa oferta, que nunca foi retirada, continua aberta e à espera de resposta. Ante a oferta de Deus, o homem escolhe a vida eterna ou autoexclui-se da salvação.

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Leão XIV, antes da recitação do Angelus com os peregrinos reunidos na Praça de São Pedro, em Roma, comentou esta passagem evangélica.

Vincando que se concluiu o Tempo Pascal com a solenidade do Pentecostes, explicitou que, ao celebrarmos o Mistério do Deus Trindade, nos é oferecido o ensejo de repensarmos o caminho percorrido, a partir do centro: a vida de Deus que nos foi dada em Jesus Cristo, a qual “é uma comunhão dinâmica, inesgotável e fecunda, que, agora, nos envolve: o Espírito que une o Pai e o Filho foi, efetivamente, derramado nos nossos corações, de modo que, no Mundo, toma forma a Igreja, sacramento de comunhão, espaço de encontro, de amor e de vida, onde o Céu e a Terra já se tocam”.

Nicodemos, importante personalidade de Israel, sentiu-se profundamente atraído por Jesus e, na perspetiva do Pontífice, tanto assim é que foi ter com Ele – à noite, para não ser visto –, ansioso por conhecer melhor este misterioso Mestre e para lhe fazer perguntas. Recebendo-o, o Senhor deu importância à sua busca. Surpreendeu-o, declarando-lhe que um adulto podia renascer e deixou-o intuir que a vida de Deus poderia transformar a sua vida. Jesus falou-lhe sobre o Espírito Santo, iluminou a sua noite com a verdade que, nesta solenidade, “ressoa em todas as nossas igrejas: ‘Tanto amou Deus o Mundo, que lhe entregou o seu Filho Unigénito, a fim de que todo o que nele crê não se perca, mas tenha a vida eterna.’ E ainda: ‘Deus não enviou o seu Filho ao Mundo para condenar o Mundo, mas para que o Mundo seja salvo por Ele’.”

Diz Leão XIV que, “no Mistério de Deus, Pai, Filho e Espírito Santo, estamos em casa, tal como Nicodemos se sentiu em casa, junto de Jesus”, e que a vida de Deus, “maravilhosa e envolvente, traz paz ao nosso coração, muitas vezes tão inquieto, e nos faz encontrar irmãos e irmãs, na alegria do Espírito”. Assim, na ótica do Papa, “a Trindade leva-nos a amar tudo e todos”, pois “descobrimos que cada criatura foi feita para a comunhão, para a relação, para o encontro”. Ao mesmo tempo, compreendemos, por contraste, a razão por que “as divisões, as polarizações e o desprezo pelas diversidades trazem ao Mundo destruição, tristeza e aridez”.

Lembra o Santo Padre que Nicodemos fazia parte do Sinédrio, o Conselho dos chefes de Israel, e que, ao ouvir ali palavras de desprezo contra Jesus, instou-os a ouvirem-No, antes de O condenarem. Com efeito, havia recebido de Deus, por Cristo, o Espírito de comunhão, que abre o coração à nova verdade e à verdadeira novidade. Quem não acolhe este Espírito, envelhece cedo, na lamentação; encontra-se sozinho, nunca tem alegria no coração.

E o Papa exclamou: “Hoje, porém, queridos irmãos e irmãs, é festa! A festa de Deus é a nossa festa. Por isso, São Paulo escreve aos Coríntios: ‘Sede alegres, tendei para a perfeição, confortai-vos uns aos outros, tende um mesmo sentir, vivei em paz e o Deus do amor e da paz estará convosco’.”

Por fim, exortou a que, pela oração do Angelus, nos dirigíssemos à Virgem Maria, para que, “no seu ‘sim’ à Vontade divina floresça também o nosso ‘sim’ ao amor da Santíssima Trindade”.

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É, pois, justo e salutar cantar com o profeta Daniel:

“Digno de louvor e de glória para sempre.”

“Bendito sejais, Senhor, Deus dos nossos pais: / digno de louvor e de glória para sempre.
“Bendito o vosso nome glorioso e santo: / digno de louvor e de glória para sempre.

“Bendito sejais no templo santo da vossa glória: / digno de louvor e de glória para sempre.
“Bendito sejais no trono da vossa realeza: / digno de louvor e de glória para sempre.

“Bendito sejais, vós que sondais os abismos / e estais sentados sobre os Querubins: / digno de louvor e de glória para sempre.
“Bendito sejais no firmamento dos céus: / digno de louvor e de glória para sempre.”

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E, com toda a Igreja, bendizer a Santíssima Trindade:

“Aleluia. Aleluia.”

“Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo, / ao Deus que é, que era e que há de vir.”

2026.06.01 – Louro de Carvalho

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