O governo dos Estados Unidos da América (EUA) emitiu uma diretiva em que ordena à Anthropic a suspensão do acesso aos modelos por parte de cidadãos estrangeiros. A empresa reagiu à proibição de cidadãos estrangeiros de utilizarem algumas das suas mais poderosas ferramentas de inteligência artificial (IA), afirmando que irá cumprir a ordem, mas que discorda da fundamentação avançada pelo governo.
Num texto publicado no seu blogue, na noite do dia 13 de junho, a Anthropic revelou ter recebido, às 17h21 (hora da costa Leste dos EUA), carta do governo a exigir a suspensão do acesso aos modelos de IA Fable 5 e Mythos 5, invocando motivos de segurança nacional.
Como explicou a empresa, a proibição abrange cidadãos estrangeiros dentro e fora dos EUA e inclui colaboradores da Anthropic que sejam estrangeiros. “O efeito prático desta ordem é termos de desativar, de forma abrupta, o Fable 5 e o Mythos 5, para todos os nossos clientes, para garantir o cumprimento”, lê-se no texto, que salvaguarda a não afetação do acesso aos restantes modelos da Anthropic, a qual pediu desculpa pelos transtornos causados aos utilizadores e porfiou estar a trabalhar para repor o acesso assim que possível.
Segundo a Anthropic, as autoridades terão identificado uma forma de fazer “jailbreak” ao Fable 5. “Jailbreak” é um método que contorna as restrições do fabricante ou do software num dispositivo ou plataforma permitindo que os usuários obtenham acesso root, removam as barreiras de gestão de direitos digitais (DRM) ou instalem aplicativos não autorizados e modificações personalizadas. “Jailbreak” de IA ocorre quando um hacker explora vulnerabilidades de um modelo, contornando as orientações éticas, para tentar ações restritas.
A empresa procurou relativizar o problema, afirmando que as vulnerabilidades são “relativamente simples” e que verificou que modelos disponíveis publicamente são capazes de as detetar. Reafirmou que, apesar de cumprir a diretiva, discorda de que “uma potencial forma de “jailbreak”, bastante limitada, deva ser motivo para retirar um modelo comercial disponibilizado a centenas de milhões de pessoas”. E sublinhou ter desenvolvido “robustas salvaguardas que reduzem, significativamente, a probabilidade de o Fable ser usado, de forma indevida, em tarefas relacionadas com a cibersegurança”.
Em reação à notícia, na rede X, Jordan Bardella, eurodeputado e presidente do partido francês de extrema-direita Rassemblement National (RN), considerou que esta decisão é lembrete claro de que a IA é “uma questão central de soberania nacional”. “As nações que não desenvolverem, rapidamente, os seus próprios modelos dependerão, cada vez mais, das escolhas de outras potências. A França deve acelerar o apoio à ‘joia’ Mistral AI [laboratório de IA de ponta, sediado em Paris, que desenvolve modelos fundacionais avançados, combinando abordagens de código aberto com foco na soberania digital] e a todo o ecossistema de IA”, explicou.
Não é a primeira vez que a Anthropic e a administração Trump entram em confronto. Já em fevereiro, Trump ordenou às agências federais dos EUA que deixassem, imediatamente, de utilizar a tecnologia da Anthropic, depois de o CEO, Dario Amodei, e a empresa se terem oposto ao uso das suas soluções para determinadas finalidades de defesa. “Não precisamos dela, não a queremos e não faremos mais negócios com eles!”, escreveu Trump no Truth Social, adiantando que haveria um “período de eliminação gradual” de seis meses.
Mais tarde, a Anthropic anunciou que avançaria com uma ação judicial contra o governo, após este ter classificado a empresa como “risco para a cadeia de abastecimento”.
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A Anthropic foi fundada em 2021 por sete ex-funcionários da OpenAI, incluindo os irmãos Daniela Amodei e Dario Amodei. Este era vice-presidente de pesquisa da OpenAI.
No verão de 2022, a Anthropic concluiu o desenvolvimento da primeira versão do Claude, mas não o lançou publicamente, alegando a necessidade de testes adicionais de segurança e o desejo de evitar o início de uma corrida potencialmente perigosa para o desenvolvimento de sistemas de IA cada vez mais poderosos.
Em 2024, atraiu funcionários de destaque da OpenAI, incluindo Jan Leike, John Schulman e Durk Kingma. Em março de 2025, a Databricks e a Anthropic anunciaram que o Claude seria integrado na Databricks Data Intelligence Platform. E, em maio, a empresa anunciou o Claude 4, apresentando o Claude Opus 4 e o Claude Sonnet 4 com capacidades aprimoradas de programação e outros novos recursos, tal como introduziu novas funcionalidades de API (interface de programação de aplicações), incluindo o conector do Model Context Protocol (MCP), e sediou a conferência inaugural para desenvolvedores.
Em maio desse ano, a Anthropic lançou uma API de pesquisa na web, que permite ao Claude aceder a informações da Internet em tempo real. O Claude Code, assistente de programação da Anthropic, passou da fase de pesquisa para disponibilidade geral, contando com integrações para o VS Code e ambientes da JetBrains, além de suporte para o GitHub Actions.
Em setembro de 2025, anunciou que deixaria de vender os seus produtos para grupos controlados, de forma maioritária, por entidades da China, da Rússia, do Irão ou Coreia do Norte, invocando preocupações de segurança nacional. Em outubro, revelou uma parceria de nuvem com o Google, que lhe garantiu acesso a até um milhão de unidades de processamento tensor (TPUs) personalizadas, aliança que fornecerá mais de um gigawatt de capacidade computacional para IA online, até 2026. Em novembro, a Nvidia, a MIcrosoft e a Anthropic anunciaram um acordo, segundo o qual a Nvidia e a Microsoft investiriam até 15 mil milhões de dólares na empresa, e a Anthropic adquiriria 30 mil milhões em capacidade computacional da plataforma Microsoft Azure, rodando em sistemas de IA da Nvidia.
Ainda em novembro, a Anthropic reportou que hackers financiados pelo governo chinês utilizaram o Claude para ataques cibernéticos automatizados contra cerca de 30 organizações globais. Os invasores enganaram a IA para que executasse subtarefas, fingindo testes defensivos. E, em dezembro de 2025, a Anthropic adquiriu o Bun, para melhorar a velocidade e a estabilidade do Claude Code, e assinou uma parceria, avaliada em 200 milhões de dólares, com a Snowflake Inc., para disponibilizar os modelos Claude na plataforma da Snowflake, como parte da expansão da implementação corporativa de agentes e ferramentas de IA.
Em fevereiro de 2026, a Anthropic exibiu dois comerciais, durante o Super Bowl LX, como parte de “A Time and a Place”, campanha de marketing mais ampla, que contou com quatro anúncios criados pela agência Mother. Cada peça mostrava assistentes de IA a mudar de assunto, repentinamente, numa conversa para promover produtos fictícios. A Anthropic reforçou que o Claude permanecerá sem anúncios, contrastando com a concorrente OpenAI, que passou a exibir anúncios na versão gratuita do ChatGPT. E, no início de abril, apresentou o Mythos, um dos seus modelos mais recentes.
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Políticos europeus lançaram o alerta sobre a IA soberana, depois de a empresa norte-americana Anthropic (acreditando que a administração norte-americana tinha tomado conhecimento de um método para contornar as proteções de segurança do Fable 5) ter anunciado que ia suspender o acesso a alguns dos seus principais modelos de IA, na sequência de uma diretiva de Trump. A notícia desencadeou uma vaga de reações, em toda a Europa, com muitos responsáveis políticos a dizerem que deve ser um sério teste de realidade para os governos e a apelarem a mais investimento em tecnologia própria.
Bruno Retailleau, ex-ministro do Interior francês e candidato às presidenciais de 2027, escreveu, no X: “A decisão de Washington de cortar o acesso aos modelos mais poderosos da Anthropic deve servir de sinal de alarme. Na corrida à IA, um país que depende de outros para a sua tecnologia é um país que pode ser desligado de um dia para o outro. […] A França tem, na Europa, trunfos únicos: eletricidade nuclear descarbonizada e soberana, engenheiros que estão entre os melhores do Mundo, bem como empresas, como a Mistral, a OVHcloud, a Scaleway e a ChapsVision, capazes de competir com os gigantes americanos. No entanto, é necessário pôr fim à ingenuidade e decidir, finalmente, reforçar o nosso poder tecnológico.”
Al Carns, deputado britânico e ex-ministro das Forças Armadas (demitiu-se, recentemente, devido a diferendo sobre a despesa em defesa), afirmou que o modelo de IA mais avançado do planeta foi desligado por um governo estrangeiro, quando investigadores britânicos o estudavam, empresas britânicas o testavam e hospitais britânicos o experimentavam. “Isto não é uma história sobre IA. É a história de todas as indústrias que antes liderávamos”, disse.
Geert Wilders, líder do partido holandês de extrema-direita, Partido pela Liberdade, apelou, no X, a que os Países Baixos desenvolvam os seus modelos: “Quero de volta o meu #Anthropic Claude Fable 5! […] A IA está cada vez mais ligada à soberania nacional.”
Benjamin Haddad, secretário de Estado francês dos Assuntos Europeus, escreveu: “A decisão da administração Trump de proibir os cidadãos estrangeiros de acederem ao mais recente modelo da Anthropic representa uma aceleração da batalha geopolítica pela IA. […] A Europa não se pode contentar com ser um mercado aberto dependente de tecnologias concebidas, financiadas e controladas noutros lugares. Tem de investir mais, apoiar os seus inovadores e dotar-se de meios para dominar as tecnologias que determinarão o poder no século XXI.”
Tom Tugendhat, deputado britânico e ex-ministro da Segurança, observou: “Desligar o Fable 5 e outros modelos para os estrangeiros não é um mal-entendido nem um erro, é o resultado inevitável de a tecnologia estar a moldar a guerra, de tal modo que a soberania passa a depender mais de código do que de canhões. […] Com custos de energia elevados e a ênfase na segurança, em vez da oportunidade, a resposta do Reino Unido tem sido construir o travão, cortando o país do futuro e amarrando-o ao passado. Não podemos continuar assim.”
Édouard Philippe, primeiro-ministro francês, entre 2017 e 2020, e presidente da câmara de Le Havre, considerou: “Ao restringir o acesso aos modelos mais poderosos da Anthropic para não norte-americanos, o governo dos EUA escolhe submeter o desenvolvimento da IA à sua lógica de poder. […] A IA é, hoje, uma infraestrutura crítica, tão essencial como a eletricidade ou a Internet. Uma infraestrutura cujos modelos e poder de computação não controlamos é uma infraestrutura que outros podem desligar.”
Também Jordan Bardella, presidente do RN, reagiu como referimos.
Por seu turno, a Comissão Europeia reagiu à exclusão europeia dos principais modelos de IA da Anthropic, denunciando que ordem só para americanos é discriminatória e alertando que o controlo de exportações da Anthropic não deve discriminar.
Por conseguinte, a decisão do governo dos EUA de impor controlo à exportação sobre os modelos de IA mais avançados da Anthropic está a merecer o escrutínio da Comissão Europeia, que avalia as implicações para os utilizadores da União Europeia (UE).
O Fable 5 e o Mythos 5 são considerados modelos de última geração. O acesso tinha sido, numa primeira fase, limitado a um grupo restrito de utilizadores, a fim de se avaliar o seu potencial para detetar e explorar vulnerabilidades em ciberataques. “Estamos a assistir à chegada ao mercado de uma nova geração de modelos de IA altamente capazes. Estes modelos oferecem benefícios significativos, nomeadamente, para a ciberdefesa, mas levantam sérias preocupações de cibersegurança que é preciso enfrentar”, afirmou, no dia 14, Thomas Regnier, porta-voz da Comissão Europeia para a soberania tecnológica, frisando tratar-se de desafio partilhado, e não de algo circunscrito a uma jurisdição ou empresa, pelo que “as medidas de contingência adotadas neste contexto não devem ser discriminatórias para com os parceiros”.
Para a Comissão, é mais um sinal de que a Europa deve reforçar a sua soberania tecnológica e de que as leis da UE em cibersegurança e em IA ajudarão o bloco a gerir estes riscos emergentes, nos seus próprios termos. “Estamos a analisar de perto as consequências práticas desta decisão para os utilizadores europeus destes serviços”, disse Regnier.
Está prevista a participação de Dario Amodei, CEO da Anthropic, num almoço, no dia 16, com os líderes do G7 e com os CEO de outras empresas de IA.
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No entanto, é de ter em conta que, a 5 de junho, o cofundador da Anthropic, Jack Clark disse que agentes de IA poderão, em breve, construir e treinar modelos sozinhos e que, se isso acontecer, os humanos poderão perder o controlo dos sistemas de IA. Por isso, pretende que o setor da IA pise o travão, antes de a tecnologia começar a desenvolver-se ainda mais por conta própria, sem intervenção humana.
Em declarações à BBC, Clark afirmou que 80% do trabalho de programação da Anthropic já é feito pela sua IA Claude, podendo chegar aos 100%, em alguns anos. Mas sublinhou que “é uma escolha” deixar que as empresas de IA permitam que se chegue tão longe, sem travar. “Achamos que este é um tema sobre o qual o Mundo devia falar mais”, disse Clark, vincando que a indústria da IA tem, no carro, o pedal de acelerador, mas não o pedal de travão, e “queremos fazer parte do trabalho necessário para construir esse pedal”.
Como explicou a Anthropic, num artigo publicado no seu blogue, na noite do dia 12, trata-se do processo de “autoaperfeiçoamento recursivo”, em que uma IA se melhora a si própria, sem intervenção humana. Num modelo recursivo, os agentes de IA, trabalhadores autónomos criados por um chatbot, podem vir a ser capazes de construírem e de treinarem eles próprios modelos, pelo que Claude “poderia ser continuamente melhorado por Claude”.
Embora uma IA recursiva benefície áreas, como a ciência e a saúde, pode aumentar “os riscos de os seres humanos perderem o controlo sobre sistemas de IA”. “Se os sistemas forem capazes de construir, totalmente, os seus sucessores, tornam-se muito mais importantes as formas como os protegemos, vigiamos e moldamos o seu comportamento”, lê-se no blogue.
Há sinais, no modelo, de que a recursividade pode chegar mais cedo do que tarde. A empresa destaca que as taxas de correção de código pela sua equipa têm diminuído, constantemente, no último ano, o que significa que há menos erros no que Claude produz. Claude consegue também realizar as suas próprias experiências de investigação, quando recebe uma pergunta em aberto, como “Um modelo mais fraco pode supervisionar um modelo mais forte?”, e encontrar soluções por iniciativa própria, sem intervenção humana. “As provas sugerem que o papel dos humanos está a encolher em cada etapa do processo de desenvolvimento de IA”, lê-se no blogue.
A Anthropic adiantou que o seu instituto realizará investigação para criar um sistema que verifique se os desenvolvedores estão a parar ou a abrandar o avanço para IA recursiva. Porém, alerta que o abrandamento real exige que “vários laboratórios bem financiados, na linha da frente ou perto dela, em vários países”, aceitem “parar nas mesmas condições”.
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Como a pessoa humana está por trás da IA, esta deve ser regulamentava pelo poder político, sob critérios científicos e humanistas, mas sem qualquer discriminação.
2026.06.15 – Louro de Carvalho
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