O
Presidente da República (PR), a 1 de junho, por ocasião do Dia Mundial da
Criança, diz que, neste dia, “celebramos todas as crianças” e que somos
convocados para “refletir sobre o país que construímos, diariamente, para o
futuro das novas gerações”.
Referindo
que, “nas últimas semanas, fomos confrontados com estatísticas alarmantes sobre
a realidade das crianças, em Portugal”, releva a existência de “crianças que
passam fome”; de “crianças privadas de atividades escolares, culturais ou
desportivas, por falta de recursos”; de “crianças que crescem em contextos de
pobreza, negligência, violência ou exclusão”; e de crianças vítimas de abuso
sexual e de violência doméstica”.
Celebrar
é necessário e justo, mas ficar por aí é muito pouco, face à lancinante realidade
que nos convoca, pois, como salienta o chefe de Estado, “por detrás de cada um
destes casos há um rosto, uma infância que é forçada a enfrentar demasiado cedo
o peso da adversidade”, bem como “sonhos que se vão apagando, talentos que
ficam por revelar e caminhos que se estreitam quando deveriam abrir-se ao Mundo”.
Lembra
o PR que o modo de proteção das crianças constitui prova de humanidade e de
maturidade democrática, pois, se as circunstâncias de nascimento limitam o futuro
de uma criança, é o país que falha, “no dever de lhe garantir dignidade,
igualdade de oportunidades e esperança”.
Reconhecendo
que o país avançou na promoção dos direitos das crianças, António José Seguro
chamou a atenção para implementação, em curso, da Estratégia Única dos Direitos
das Crianças e Jovens 2025-2035, “instrumento importante para uma resposta
pública mais integrada e eficaz”. Porém, sustenta que “nenhuma estratégia
produzirá os resultados desejados nas políticas públicas, sem o compromisso
ativo de toda a sociedade”.
Por
conseguinte, na ótica presidencial, face ao “agravamento das desigualdades” e à
“crescente exposição das crianças a novos riscos”, precisamos, “de instituições
mais articuladas, de comunidades mais próximas, de escolas mais inclusivas, de
famílias mais acompanhadas e de uma sociedade mais consciente do dever coletivo
de proteger a infância”, bem como de “garantir a todas as crianças o direito de
continuarem a sonhar”, sem esquecermos as que vivem em “maior vulnerabilidade”,
ou seja, as crianças “em situação de pobreza, com deficiência ou doenças
crónicas, pertencentes a minorias ou expostas à violência, ao abandono e aos
riscos do ambiente digital”.
Com
efeito, como assegura o PR, proteger a infância não é só responder às
fragilidades do presente, mas garantir à criança “espaço para crescer livre, [para]
descobrir os seus talentos e [para] alimentar os sonhos que darão forma ao país
de amanhã”. E, enquanto damos o exemplo às crianças para que elas aprendam,
teremos também de saber reaprender com elas.
Por
fim, o chefe de Estado, considerando que “nenhuma criança nasce a odiar, a
discriminar ou a excluir”, mas que “todas nascem com a capacidade de acolher,
de respeitar e de acreditar”, faz votos por que as crianças nos inspirem, “a
olhar o outro com mais humanidade, a reconhecer na diferença uma riqueza e não
uma ameaça, e a construir uma sociedade mais justa, mais livre, mais humana e
mais solidária”.
***
Em
peça jornalística intitulada “Portugal é o segundo país da UE onde a população
infantil mais diminuiu nos últimos 50 anos”, publicado pela Euronews, a
1 de junho, Inês dos Santos Cardoso – citando a Fundação Francisco Manuel dos
Santos (FFS), que retratou, através da Pordata, a evolução da população
infantil da União Europeia (UE) – releva que “ Portugal é o segundo país que
perdeu mais crianças, nos últimos 50 anos”, tendo registado uma das
maiores quebras da população infantil, neste horizonte temporal..
Com
um milhão e 58 mil crianças a viver em Portugal, entre as 50,6 milhões da UE, o
país teve uma quebra de 12,1%, a segunda maior a seguir à Espanha. Em 1975,
Portugal era o segundo país com mais crianças (22%), enquanto, em 2025, era o
quarto país com menos (9,8%).
A
Itália é o país do bloco europeu com menor proporção de crianças (9,1%),
enquanto a Irlanda (14,2%), a Suécia (13,2%) e a França (12,8%) apresentam as
percentagens mais elevadas de população infantil.
Alguns
municípios portugueses contrariam a tendência, entre eles: Aljezur (+8,8%),
Lisboa (+9,2%), Montijo (+10,6%) e Vila Velha de Ródão (+6,6%). Nestas
localidades, a proporção de crianças até aos 10 anos aumentou. Já nos
municípios de Câmara de Lobos, Ribeira Grande e Porto Moniz, a quebra do número
de crianças foi maior.
Nos
308 municípios de Portugal, de acordo com dados de 2024, a percentagem de
crianças com menos de 10 anos varia entre 3,6% (Almeida) e 11,1% (Ribeira
Grande).
Os
dados indicam que, em Portugal, num total de 793 mil agregados familiares com,
pelo menos, uma criança menor de 12 anos, 69% das crianças vive com um casal (73%,
na UE); 20% vive em famílias com mais de dois adultos (15%, na UE); e 11% vive em
famílias monoparentais (12%, na UE). A Estónia é o país da UE onde mais
crianças vivem em famílias monoparentais, contrastando com a Suécia, que
apresenta a maior proporção de crianças a viver com um casal (85%).
As
crianças portuguesas estão entre as que passam mais horas, por semana, nos
estabelecimentos de educação e ensino. Entre os 6 e os 11 anos, as crianças
passam 38 horas, por semana, na escola, estando acima da média da UE, de 31,5
horas. Dos três aos seis anos (ou seja, até começar a escolaridade obrigatória),
as crianças passam nos estabelecimentos de educação e ensino 38,3 horas, quando
a média da UE é de 30,8 horas. Até aos três anos, o número de horas que as
crianças portuguesas passam nos estabelecimentos de educação e ensino é
ligeiramente mais baixo (36,7 horas), face à média da UE, de 30,5 horas.
A
Hungria é o único país do bloco em que as crianças têm uma carga horária média
superior a Portugal. Já a Alemanha, a Irlanda e os Países Baixos têm uma carga
horária média semanal inferior a 30 horas, em qualquer um dos grupos etários. Em
2025, quase 58% das crianças até aos três anos estava abrangido por algum tipo
de educação formal, em creches ou em amas certificadas. Este valor coloca
Portugal entre os países com maior cobertura na UE e acima da média europeia de
40,5%. Tal tendência também se verifica na educação pré-escolar: em 2024, 94,5%
das crianças entre os três anos e a idade de entrada na escola (100%, aos cinco
anos; 98,5%, aos quatro anos; e 88,9%, aos três anos) frequentavam este patamar
de educação, em Portugal, o que representa um aumento de 5,8%, face a 2013.
Os
dados da Pordata retratam os contextos socioeconómicos em que as crianças
portuguesas estão inseridas, com Portugal a integrar o grupo de sete países da
UE onde as taxas de risco de pobreza ou exclusão social das crianças com menos
de 12 anos são das mais baixas. Em 2025, 157 mil crianças menores de 12 anos
viviam nesta situação, em Portugal. Na verdade, nos últimos 10 anos verifica-se
uma melhoria significativa, com menos 103 mil crianças em risco de pobreza,
face ao ano de 2015, em que o número era 260 mil. Na UE, em 2015, estavam em risco
de pobreza 10,9 milhões de crianças, número que baixou para 9,4 milhões, em
2025.
No
total, existem cerca de 793 mil famílias com crianças até aos 12 anos, em
Portugal, o equivalente a 17% das famílias portuguesas, ligeiramente acima da
média da UE, que é de 16%, em 33 milhões de famílias.
***
Segundo
o relatório “Portugal, Balanço Social 2025”, o risco de pobreza, em Portugal,
caiu de 17%, em 2023, para 15,4%, em 2025, e o poder de compra das famílias
aumentou 25,2%, na última década, mas o país continua com desigualdades
profundas, sobretudo entre crianças, famílias vulneráveis e diferentes regiões
do território. Em 2024, 15% das famílias pobres não conseguiram garantir às
crianças uma alimentação saudável e nutritiva e uma em cada 20 crianças não
conseguiu comer por falta de recursos financeiros.
Os
dados do relatório, elaborado por investigadores da Nova SBE, com base em dados
do Instituto Nacional de Estatística (INE), mostram um país que melhorou, nos
últimos anos, mas onde persistem “fragilidades estruturais”.
Uma
das maiores preocupações é a pobreza infantil. Apesar da descida da taxa
de risco de pobreza em crianças, de 22,8%, em 2008, para 17,8%, em
2024, uma em cada seis crianças até aos cinco anos vive em situação de
pobreza. Há dois anos, 301 mil crianças eram pobres, em Portugal. Quase 30% das
crianças pobres vive em situação de privação material e social. Metade não
participa, regularmente, em atividades extracurriculares ou de lazer e muitas
enfrentam limitações básicas, como participar em visitas de estudo pagas.
As
privações também se fazem sentir ao nível da alimentação: 15% dos
agregados com crianças pobres não foram capazes de assegurar “uma alimentação
saudável e nutritiva”. Mesmo com fome, uma em cada 20 crianças não comeu,
por não ter recursos financeiros.
Cerca
de uma em cada dez crianças com idades até aos cinco anos não frequentou,
pelo menos, 30 horas semanais de educação pré-escolar ou creche. “Esta proporção
é quase o dobro em crianças que vivem em agregados em situação de pobreza
(18,5%) das crianças que vivem em agregados não pobres (9,8%)". Além
disso, três em cada dez viviam em alojamentos sobrelotados.
Em
suma, nascem menos crianças, fazem parte de famílias mais diversas, passam muito
tempo na escola e são menos pobres. Todavia, ainda há muitas crianças pobres. Apesar da melhoria na última década, o
risco de pobreza continua a marcar parte significativa das crianças.
O
risco também dependente do contexto. Por exemplo, quando os pais têm apenas o
ensino básico, a taxa de vulnerabilidade ultrapassa os 40%, ao passo que, se
têm o ensino superior, desce para valores próximos dos 5%.
***
As
atividades atinentes ao Dia Mundial da Criança multiplicaram-se, um pouco por
toda a parte. E é de destacar a ocorrida em Portugal, a 29 de maio. Turistas e residentes
locais que passavam na baixa lisboeta tiveram, por instantes, contacto com
a realidade devastadoras em Gaza, através de uma instalação artística
feita de brinquedos e de roupa infantil, com o objetivo de chamar a atenção
para os milhares de crianças mortas nos últimos meses do conflito.
A
ação foi organizada por grupos da sociedade civil para assinalar a efeméride a celebrar
a 1 de junho. Durante esse dia e os subsequentes, os organizadores
apelaram a doações de roupa e de brinquedos para crianças, para encher a Rua do
Carmo, uma das mais emblemáticas do centro histórico de Lisboa. E, por todo o
país, realizaram-se vários outros eventos, num apelar ao cessar-fogo imediato.
Na
verdade, a guerra em Gaza tem sido devastadora para as crianças. De acordo com
o Ministério da Saúde de Gaza, foram mortos mais de 54 mil Palestinianos, na
sua maioria mulheres e crianças. E muitas crianças mal sobrevivem ou não
sobrevivem à fome, à subnutrição e às infeções (algumas das quais em termos
epidémicos).
A
guerra começou quando o Hamas atacou Israel, a 7 de outubro de 2023, matando
cerca de 1200 pessoas, na sua maioria civis, e fazendo 250 reféns, alguns ainda
em cativeiro em Gaza.
Os
organizadores da ação que decorreu em Lisboa referiram o número anunciado pela
UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância), a agência da Organização das
Nações Unidas (ONU) segundo a qual mais de 50 mil crianças foram mortas ou
feridas, desde outubro de 2023.
É
de recordar que, no dia 27 de maio, centenas de Palestinianos invadiram um
armazém de alimentos da ONU no centro de Gaza, desesperados por ajuda, devido à
fome que assolava o território, após meses de encerramentos nas fronteiras. Multidões
empurraram e gritaram à entrada do armazém, com alguns a rasgarem as paredes de
metal para alcançarem os mantimentos. Muitos saíram carregando sacos de 25 kg
de farinha, navegando por entre as pessoas que ainda tentavam entrar. Duas
pessoas foram mortas e várias ficaram feridas.
A
luta por comida evidenciava uma crise crescente, com Gaza a aproximar-se de uma
situação de fome, após quase três meses de restrições israelitas. E as agências
de ajuda diziam que os sistemas não conseguiam atender às necessidades dos 2,3
milhões de habitantes de Gaza.
***
Também
é de assinalar que, em Portugal, o número de crianças vítimas de violência
doméstica, em casas de abrigo e em outros espaços de acolhimento de emergência,
foi, no primeiro trimestre do ano, pela primeira vez, mais elevado do que o
número de mulheres.
Segundo
os dados divulgados a 27 de maio, no Portal de Violência Doméstica, pela
Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG), nos primeiros três
meses deste ano, estavam na Rede Nacional de Apoio às Vítimas de Violência
Doméstica 1383 pessoas, entre elas 678 mulheres, 684 crianças e 21 homens.
Comparando
com o trimestre anterior, as casas de abrigo e outros espaços de acolhimento de
emergência acolheram mais 61 crianças, nos meses de janeiro, de fevereiro e de março
deste ano e menos 27 mulheres.
Nos
primeiros três meses do ano, morreram oito pessoas vítimas de violência
doméstica, seis mulheres e duas crianças, segundo os dados divulgados no Portal
da Violência Doméstica e que, neste caso, têm como base informações da Polícia
Judiciária (PJ).
O
número de ocorrências participadas à Polícia de Segurança Pública (PSP) e
à Guarda Nacional Republicana (GNR) também aumentou, em relação ao
último trimestre, com 6949 participações por violência doméstica, no primeiro
trimestre de 2026, mais 276 ocorrências. E os dados mostram que 6389 pessoas eram
abrangidas pela teleassistência, no primeiro trimestre, número também recorde e
com mais 289 pessoas abrangidas do que no trimestre anterior.
Em
contexto prisional, atingiu o recorde o número de presos por violência
doméstica, nos primeiros três meses do ano, com 1607 reclusos, 398 em
preventiva e 1209 a cumprir pena. De acordo com os dados reunidos pela CIG e
que têm como base os números da Direção-Geral de Reinserção e Serviços
Prisionais (DGRSP), no primeiro trimestre deste ano, estavam mais 25 pessoas a
cumprir pena de prisão e mais 22 em preventiva do que nos três meses anteriores
– outubro, novembro e dezembro de 2025.
Além
disso, os indicadores publicados mostram que, nos primeiros três meses do ano,
foi aplicada a medida de coação de pulseira eletrónica a 959 pessoas e 3168
pessoas frequentavam programas para agressores, sendo o número de presos nestes
programas muito inferior ao número de pessoas que os frequentam na comunidade,
211 e 2957, respetivamente, mas o número de agressores tem sido sempre acima
dos 2500 participantes, desde 2021.
***
Há, pois, muito que fazer em prol da dignidade das pessoas e, em especial, da criança, que precisa de um desenvolvimento harmonioso e tranquilo, embora com sentido de exigência.
2026.06.01
– Louro de Carvalho
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