Celebrou-se,
a 4 de junho, quinta-feira, a solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo,
também conhecida, popularmente, em Portugal, como festa do Corpo de Deus, na qual
os cristãos foram instados a aumentar a fé na Eucaristia – mistério do Corpo e
Sangue de Cristo, disponível, para alimento dos crentes e para consolidação da
unidade da Igreja, na sua diversidade, sob as espécies de pão e de vinho. Ao
mesmo tempo, presentifica o sacrifício da cruz e antecipa a glória futura dos
filhos de Deus.
Por
outro lado, os crentes foram convidados e estimulados a festejar, nas ruas, a presença
do Corpo e Sangue de Cristo e a mostrar ao Mundo a sua fé eucarística. Assim,
desejava-se que a procissão constituísse uma pública profissão coletiva da fé e
não uma simples manifestação de opas e de objetos sagrados ou, muito menos, uma
criação espácio-temporal de ostentação e de desfile de vaidades, como sucede,
por vezes. A graça divina não gosta de ser misturada com a ostentação humana,
que despreza e até humilha os pobres e os fracos.
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No
Ano A, os textos bíblicos proclamados e meditados foram: Dt 8,
2-3.14b-16a; 1Cor 10, 16-17; e Jo 6, 51-58.
A
primeira leitura, que é veterotestamentária, recorda-nos que os autores bíblicos
pretenderam, com frequência, que o povo meditasse, demoradamente, os acontecimentos
do Êxodo. Com efeito, nesses dias, Deus, que libertara o seu povo da terra da escravidão,
salvou, no deserto, o mesmo povo faminto e sedento, dando-lhe o alimento que
não tinham conhecido, o maná, e a água que fez brotar da rocha dura, por ação
da vara de Moisés.
Assim,
os antepassados do povo israelita fizeram uma experiência fundamental: no deserto,
terra árida, de sede e sem água, sentiram a proteção de Deus, mas não sem antes
ter sido posto à prova a sua fidelidade a Deus. Oscilaram entre a murmuração e
rebeldia e a aceitação da generosidade divina, com a promessa do cumprimento
das suas leis.
Mais
tarde, em tempo de prosperidade económica, em que o povo era tentado a
esquecer-se de Deus, foi necessário lembrar a experiência do deserto e garantir
que o homem não vive só de pão, mas precisa de se alimentar da palavra que sai
da boca de Deus.
Por
outro lado, o maná do deserto e a água da rocha prefiguram a Eucaristia, em que
o pão e o vinho, tornados corpo e sangue de Cristo, saciam o povo peregrino da
fome e da sede do divino e o preparam para a festa infinda no seio de Deus.
***
Na
segunda leitura, o apóstolo São Paulo garante que abençoamos a comunhão no
cálice de bênção e no pão que partimos, que é o corpo de Cristo. E assegura que,
porque há um só pão e porque participamos dele, embora sejamos muitos, formamos
um só corpo.
Assim,
a comunhão do Corpo e do Sangue de Cristo cria, nos crentes, uma união vital
superior à comunhão de fé e de esperança, de que é sinal eficaz, mas de que são
contrafação e antitestemunho as situações e os factos de quezília, de divisão e
de luta entre grupos cristãos.
Pão
vivo descido do Céu, verdadeiro maná, na caminhada da vida, a Eucaristia
realiza a nossa incorporação em Cristo morto e ressuscitado e, por Ele, na
Igreja, que é Corpo uno e diversificado de Cristo. O Pão Eucarístico não é,
pois, mero sinal, mas alimento de unidade entre e os cristãos e destes com Deus.
Assim,
comungar o Corpo e do Sangue de Cristo é comungar o amor de Jesus pelo Pai e
pelos homens. Por conseguinte, cada comunhão deve ser um compromisso de
unidade, unidade que não deve manifestar-se apenas na assembleia litúrgica, mas
que deve abranger a vida toda.
***
O
Evangelho mostra-nos o desconcerto da multidão e de muitos dos discípulos,
quando, depois de encantados com o milagre da multiplicação dos pães e dos
peixes, ouviram a Jesus dizer que Ele próprio é o pão vivo descido do Céu e que
quem dele comer viverá eternamente. Mais ainda ficaram escandalizados, ao ouvirem
dizer que, se não comerem a Carne do Filho do Homem (que Ele dará pela vida do
Mundo) e não beberem o seu sangue, não terão a vida.
Por
fim, depois de afirmar que, assim como Ele vive pelo Pai, que O enviou, e que
Ele vive pelo Pai, também quem O come viverá por Ele, garantiu que o Pão que
desceu do Céu não é como o que os antepassados dos Judeus comeram. Na verdade,
o maná alimentou-os, mas eles morreram, ao passo que aqueles que comerem deste
novo pão hão de viver para sempre.
Hoje,
a Eucaristia também é desconcertante, a não ser que seja encarada como mero
ritual um tanto estranho ou uma peça quase museológica da tradição religiosa.
Ora,
é preciso que nos libertemos do mero tradicionalismo, bem como do desconcerto.
Para tanto, é preciso assumir o testemunho da Ressurreição que os apóstolos nos
deram, tendo relido, à luz do Ressuscitado, todos os discursos de Jesus.
Por
fim, é de assinalar que aqueles, que na pobreza e na disponibilidade da fé,
souberem acolher a Cristo, sob o sinal sacramental, receberão a sua graça,
unir-se-ão à sua Morte e Ressurreição, penetrarão no seu mistério e receberão a
Vida.
***
Um
dos grandes teólogos que melhor ilustraram o mistério com doutrina orante foi
Tomás de Aquino, no século XIII, com o hino “Adoro Te devote, Latens Deitas”, cuja tradução (poética) se transcreve da
Capela Santo Isidro:
“Eu Te adoro com afeto, Deus oculto,
que Te escondes nestas aparências.
A Ti sujeita-se o meu coração por inteiro
e desfalece ao Te contemplar.
À vista, o tacto e o gosto não Te alcançam,
mas só com o ouvir-Te firmemente creio.
Creio em tudo o que disse o Filho de Deus,
nada mais verdadeiro do que esta Palavra da
Verdade.
Na cruz estava oculta somente a tua divindade,
mas aqui se esconde também a humanidade.
Eu, porém, crendo e confessando ambas,
peço-Te o que pediu o ladrão arrependido.
Tal como Tomé, também eu não vejo as tuas chagas,
mas confesso, Senhor, que és o meu Deus;
faz-me crer sempre mais em Ti,
esperar em Ti, amar-Te.
Ó memorial da morte do Senhor,
Pão Vivo que dás vida ao homem,
faz que o meu pensamento sempre de Ti viva,
e que sempre lhe seja doce este saber.
Senhor Jesus, terno pelicano,
lava-me a mim, imundo, com teu sangue,
do qual uma só gota já pode
salvar o mundo de todos os pecados.
Jesus, a quem agora vejo sob véus,
peço-Te que se cumpra o que mais anseio:
que vendo o teu rosto descoberto,
seja eu feliz contemplando a tua glória.”
***
Tomás
de Aquino sublinha, devotamente, o que está oculto (“latitat”) nas aparências
de pão e de vinho, mas que é a Palavra de Verdade. E, comparando o que se passa
neste sacramento com o que se passou no Calvário, sustenta, pela fé, que, “na cruz estava oculta somente a divindade [deitas]”,
ao passo que, na eucaristia, está oculta a divindade e a humanidade do Senhor.
Por
isso, sente que os sentidos todos falecem perante o mistério, só nos restando
pedir o mesmo que pediu o ladrão arrependido, a entrada no Reino dos Céus.
Ainda,
na referência à cruz e, obviamente, à Ceia com os discípulos, o teólogo poeta
considera Jesus como o piedoso pelicano [“pius pelicanus’]” (a ave que alimenta os filhotes com o seu sangue,
aliás como fazem as mães, quando a criança se desenvolve no ventre materno).
Porém, basta uma simples gota do sangue de Cristo para salvar o Mundo dos
pecados.
Finalmente,
o piedoso teólogo poeta, deseja, como consequência da Eucaristia, fruto do amor
misericordioso de Deus, a felicidade de contemplar para sempre, no fim dos
tempos, o rosto de Cristo, o amor fontal do Pai, na comunhão do Espírito Santo.
***
Nas
suas catequeses sobre a Eucaristia, o Papa Francisco sublinhava que ela se
insere no âmago da iniciação cristã, com o Batismo e com a Confirmação,
constituindo a nascente da vida da Igreja, pois, do Sacramento, derivam todos
os caminhos autênticos de fé, de comunhão e de testemunho. No centro do espaço
da celebração, o altar, mesa coberta com uma toalha, faz-nos pensar num
banquete. A cruz que está sobre a mesa releva que, no altar, se oferece o
sacrifício de Cristo: “é Ele o alimento espiritual que ali recebemos, sob as
espécies do pão e do vinho.” Ao lado da mesa encontra-se o ambão, de onde se
proclama a Palavra de Deus: “e ele indica que ali nos reunimos para ouvir o
Senhor que fala mediante as Sagradas Escrituras e, portanto, o alimento que
recebemos é também a sua Palavra.
Na
Missa, Palavra e Pão tornam-se uma coisa só, como na Última Ceia, quando todas
as palavras de Jesus, todos os sinais que Ele tinha realizado, se condensaram
no gesto de partir o pão e de oferecer o cálice, antecipação do sacrifício da
cruz, e naquelas palavras: “Tomai e comei, isto é o meu corpo… Tomai e bebei,
isto é o meu sangue.” O gesto de Jesus na Última Ceia é a extrema ação de
graças ao Pai pelo seu amor, pela sua misericórdia. Em grego, “ação de graças”
diz-se “eucaristia”. Portanto, o Sacramento chama-se Eucaristia, a suprema ação
de graças ao Pai, que nos amou a tal ponto que nos ofereceu o seu Filho por
amor.
Assim,
a celebração eucarística é muito mais do que mero banquete: é o memorial da
Páscoa de Jesus, o mistério fulcral da salvação. “Memorial” não significa
apenas recordação, mas que, ao celebrarmos este Sacramento, participamos no
mistério da paixão, morte e ressurreição de Cristo.
A
Eucaristia, apogeu da obra de salvação de Deus, em que Jesus, fazendo-se pão
partido para nós, derrama sobre nós toda a sua misericórdia e todo o seu amor,
a ponto de renovar o nosso coração e o nosso modo de nos relacionarmos com Ele
e com os irmãos.
Dizia
o Pontífice argentino que há muitos sinais muito concretos para compreendermos
como vivemos a Eucaristia. O primeiro indício é o nosso modo de ver e
considerar os outros. Na Eucaristia Cristo oferece, sempre, de novo, o dom de
si que já concedeu na Cruz. Toda a sua vida é gesto de partilha total de si
mesmo por amor. Por isso, gostava de estar com os discípulos e com as pessoas
que tinha o ensejo de conhecer. Isto significava partilhar os seus desejos, os
seus problemas, o que agitava as suas almas e vidas. Assim, considerando que, ao
participarmos na Missa, nos encontramos com homens e mulheres de todos os tipos
– jovens, idosos e crianças; pobres e abastados; naturais do lugar e
estrangeiros; acompanhados pelos familiares e pessoas sós… – é de nos questionarmos
se a celebração nos leva a senti-los todos como irmãos e irmãs, se nos faz crescer
na capacidade de nos alegrarmos com quem rejubila, de chorar com quem chora, se
nos impele a ir ao encontro dos pobres, dos enfermos e dos marginalizados,
reconhecendo neles o rosto de Jesus.
Um
segundo indício é a graça de nos sentirmos perdoados e prontos a perdoar. Por
vezes, alguém pergunta: “Por que deveríamos ir à igreja, visto que quem
participa habitualmente na Santa Missa é pecador como os outros?” Na realidade,
quem celebra a Eucaristia não o faz porque se considera melhor do que os
outros, mas porque se reconhece necessitado de ser acolhido e regenerado pela
misericórdia de Deus, que se fez carne em Jesus Cristo. Se não nos sentirmos
necessitados da misericórdia de Deus, se não nos sentirmos pecadores, melhor
seria não irmos à Missa. O “Confesso” que recitamos no início não é uma rotina,
mas verdadeiro ato de penitência. “Sou pecador e confesso-o: assim começa a
Missa! Nunca devemos esquecer que a Última Ceia de Jesus teve lugar ‘na noite
em que Ele foi entregue’. Naquele pão e naquele vinho que oferecemos, e ao
redor dos quais nos congregamos, renova-se de cada vez a dádiva do corpo e do
sangue de Cristo, para a remissão dos nossos pecados”, ensinava Francisco, insistindo
que vamos à Missa, porque somos pecadores.
Um
último indício inestimável é-nos oferecido pela relação entre a celebração
eucarística e a vida das comunidades cristãs. É preciso ter presente que a
Eucaristia não é algo que nós fazemos; não é a nossa comemoração do que Jesus
disse e fez. É ação de Cristo. É Cristo quem age sobre o altar. É dom de
Cristo, que Se torna presente e nos reúne ao redor de Si, para nos alimentar
com a sua Palavra e a sua vida. Isto significa que a missão e identidade da
Igreja derivam da Eucaristia, e nela sempre adquirem forma. Uma celebração pode
ser impecável do ponto de vista exterior, maravilhosa, mas, se não nos levar ao
encontro com Jesus, corre o risco de não oferecer alimento ao nosso coração e à
nossa vida. Ao invés, pela Eucaristia, Cristo quer entrar na nossa existência e
permeá-la com a sua graça, de tal modo que, em cada comunidade cristã, haja
coerência entre liturgia e vida.
***
Por
tudo isto, é bom cantar com o salmista:
“Jerusalém,
louva o teu Senhor.”
“Glorifica,
Jerusalém, o Senhor, louva, Sião, o teu Deus. / Ele reforçou as tuas portas / e
abençoou os teus filhos.
“Estabeleceu
a paz nas tuas fronteiras / e saciou-te com a flor da farinha. / Envia à terra
a sua palavra, / corre veloz a sua mensagem.
“Revelou
a sua palavra a Jacob, / suas leis e preceitos a Israel. / Não fez assim com
nenhum outro povo, / a nenhum outro manifestou os seus juízos.”
***
E
é bom exultar na fé eucarística:
“Aleluia,
aleluia.”
“Eu
sou o pão vivo descido do Céu, diz o Senhor. / Quem comer deste pão viverá
eternamente.”
2026.06.06
– Louro de Carvalho
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