sábado, 6 de junho de 2026

Na eucaristia está oculta a divindade e a humanidade de Cristo

 

Celebrou-se, a 4 de junho, quinta-feira, a solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, também conhecida, popularmente, em Portugal, como festa do Corpo de Deus, na qual os cristãos foram instados a aumentar a fé na Eucaristia – mistério do Corpo e Sangue de Cristo, disponível, para alimento dos crentes e para consolidação da unidade da Igreja, na sua diversidade, sob as espécies de pão e de vinho. Ao mesmo tempo, presentifica o sacrifício da cruz e antecipa a glória futura dos filhos de Deus.

Por outro lado, os crentes foram convidados e estimulados a festejar, nas ruas, a presença do Corpo e Sangue de Cristo e a mostrar ao Mundo a sua fé eucarística. Assim, desejava-se que a procissão constituísse uma pública profissão coletiva da fé e não uma simples manifestação de opas e de objetos sagrados ou, muito menos, uma criação espácio-temporal de ostentação e de desfile de vaidades, como sucede, por vezes. A graça divina não gosta de ser misturada com a ostentação humana, que despreza e até humilha os pobres e os fracos.       

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No Ano A, os textos bíblicos proclamados e meditados foram: Dt 8, 2-3.14b-16a; 1Cor 10, 16-17; e Jo 6, 51-58.

A primeira leitura, que é veterotestamentária, recorda-nos que os autores bíblicos pretenderam, com frequência, que o povo meditasse, demoradamente, os acontecimentos do Êxodo. Com efeito, nesses dias, Deus, que libertara o seu povo da terra da escravidão, salvou, no deserto, o mesmo povo faminto e sedento, dando-lhe o alimento que não tinham conhecido, o maná, e a água que fez brotar da rocha dura, por ação da vara de Moisés.

Assim, os antepassados do povo israelita fizeram uma experiência fundamental: no deserto, terra árida, de sede e sem água, sentiram a proteção de Deus, mas não sem antes ter sido posto à prova a sua fidelidade a Deus. Oscilaram entre a murmuração e rebeldia e a aceitação da generosidade divina, com a promessa do cumprimento das suas leis.  

Mais tarde, em tempo de prosperidade económica, em que o povo era tentado a esquecer-se de Deus, foi necessário lembrar a experiência do deserto e garantir que o homem não vive só de pão, mas precisa de se alimentar da palavra que sai da boca de Deus.

Por outro lado, o maná do deserto e a água da rocha prefiguram a Eucaristia, em que o pão e o vinho, tornados corpo e sangue de Cristo, saciam o povo peregrino da fome e da sede do divino e o preparam para a festa infinda no seio de Deus.

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Na segunda leitura, o apóstolo São Paulo garante que abençoamos a comunhão no cálice de bênção e no pão que partimos, que é o corpo de Cristo. E assegura que, porque há um só pão e porque participamos dele, embora sejamos muitos, formamos um só corpo.

Assim, a comunhão do Corpo e do Sangue de Cristo cria, nos crentes, uma união vital superior à comunhão de fé e de esperança, de que é sinal eficaz, mas de que são contrafação e antitestemunho as situações e os factos de quezília, de divisão e de luta entre grupos cristãos.

Pão vivo descido do Céu, verdadeiro maná, na caminhada da vida, a Eucaristia realiza a nossa incorporação em Cristo morto e ressuscitado e, por Ele, na Igreja, que é Corpo uno e diversificado de Cristo. O Pão Eucarístico não é, pois, mero sinal, mas alimento de unidade entre e os cristãos e destes com Deus.  

Assim, comungar o Corpo e do Sangue de Cristo é comungar o amor de Jesus pelo Pai e pelos homens. Por conseguinte, cada comunhão deve ser um compromisso de unidade, unidade que não deve manifestar-se apenas na assembleia litúrgica, mas que deve abranger a vida toda.

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O Evangelho mostra-nos o desconcerto da multidão e de muitos dos discípulos, quando, depois de encantados com o milagre da multiplicação dos pães e dos peixes, ouviram a Jesus dizer que Ele próprio é o pão vivo descido do Céu e que quem dele comer viverá eternamente. Mais ainda ficaram escandalizados, ao ouvirem dizer que, se não comerem a Carne do Filho do Homem (que Ele dará pela vida do Mundo) e não beberem o seu sangue, não terão a vida.

Por fim, depois de afirmar que, assim como Ele vive pelo Pai, que O enviou, e que Ele vive pelo Pai, também quem O come viverá por Ele, garantiu que o Pão que desceu do Céu não é como o que os antepassados dos Judeus comeram. Na verdade, o maná alimentou-os, mas eles morreram, ao passo que aqueles que comerem deste novo pão hão de viver para sempre.

Hoje, a Eucaristia também é desconcertante, a não ser que seja encarada como mero ritual um tanto estranho ou uma peça quase museológica da tradição religiosa.

Ora, é preciso que nos libertemos do mero tradicionalismo, bem como do desconcerto. Para tanto, é preciso assumir o testemunho da Ressurreição que os apóstolos nos deram, tendo relido, à luz do Ressuscitado, todos os discursos de Jesus.

Por fim, é de assinalar que aqueles, que na pobreza e na disponibilidade da fé, souberem acolher a Cristo, sob o sinal sacramental, receberão a sua graça, unir-se-ão à sua Morte e Ressurreição, penetrarão no seu mistério e receberão a Vida.   

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Um dos grandes teólogos que melhor ilustraram o mistério com doutrina orante foi Tomás de Aquino, no século XIII, com o hino “Adoro Te devote, Latens Deitas”, cuja tradução (poética) se transcreve da Capela Santo Isidro:

 

“Eu Te adoro com afeto, Deus oculto,

que Te escondes nestas aparências.

A Ti sujeita-se o meu coração por inteiro

e desfalece ao Te contemplar.

 

À vista, o tacto e o gosto não Te alcançam,

mas só com o ouvir-Te firmemente creio.

Creio em tudo o que disse o Filho de Deus,

nada mais verdadeiro do que esta Palavra da Verdade.

 

Na cruz estava oculta somente a tua divindade,

mas aqui se esconde também a humanidade.

Eu, porém, crendo e confessando ambas,

peço-Te o que pediu o ladrão arrependido.

 

Tal como Tomé, também eu não vejo as tuas chagas,

mas confesso, Senhor, que és o meu Deus;

faz-me crer sempre mais em Ti,

esperar em Ti, amar-Te.

 

Ó memorial da morte do Senhor,

Pão Vivo que dás vida ao homem,

faz que o meu pensamento sempre de Ti viva,

e que sempre lhe seja doce este saber.

 

Senhor Jesus, terno pelicano,

lava-me a mim, imundo, com teu sangue,

do qual uma só gota já pode

salvar o mundo de todos os pecados.

 

Jesus, a quem agora vejo sob véus,

peço-Te que se cumpra o que mais anseio:

que vendo o teu rosto descoberto,

seja eu feliz contemplando a tua glória.”

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Tomás de Aquino sublinha, devotamente, o que está oculto (“latitat”) nas aparências de pão e de vinho, mas que é a Palavra de Verdade. E, comparando o que se passa neste sacramento com o que se passou no Calvário, sustenta, pela fé, que, “na cruz estava oculta somente a divindade [deitas]”, ao passo que, na eucaristia, está oculta a divindade e a humanidade do Senhor.  

Por isso, sente que os sentidos todos falecem perante o mistério, só nos restando pedir o mesmo que pediu o ladrão arrependido, a entrada no Reino dos Céus.

Ainda, na referência à cruz e, obviamente, à Ceia com os discípulos, o teólogo poeta considera Jesus como o piedoso pelicano [“pius pelicanus’]” (a ave que alimenta os filhotes com o seu sangue, aliás como fazem as mães, quando a criança se desenvolve no ventre materno). Porém, basta uma simples gota do sangue de Cristo para salvar o Mundo dos pecados.

Finalmente, o piedoso teólogo poeta, deseja, como consequência da Eucaristia, fruto do amor misericordioso de Deus, a felicidade de contemplar para sempre, no fim dos tempos, o rosto de Cristo, o amor fontal do Pai, na comunhão do Espírito Santo.

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Nas suas catequeses sobre a Eucaristia, o Papa Francisco sublinhava que ela se insere no âmago da iniciação cristã, com o Batismo e com a Confirmação, constituindo a nascente da vida da Igreja, pois, do Sacramento, derivam todos os caminhos autênticos de fé, de comunhão e de testemunho. No centro do espaço da celebração, o altar, mesa coberta com uma toalha, faz-nos pensar num banquete. A cruz que está sobre a mesa releva que, no altar, se oferece o sacrifício de Cristo: “é Ele o alimento espiritual que ali recebemos, sob as espécies do pão e do vinho.” Ao lado da mesa encontra-se o ambão, de onde se proclama a Palavra de Deus: “e ele indica que ali nos reunimos para ouvir o Senhor que fala mediante as Sagradas Escrituras e, portanto, o alimento que recebemos é também a sua Palavra.

Na Missa, Palavra e Pão tornam-se uma coisa só, como na Última Ceia, quando todas as palavras de Jesus, todos os sinais que Ele tinha realizado, se condensaram no gesto de partir o pão e de oferecer o cálice, antecipação do sacrifício da cruz, e naquelas palavras: “Tomai e comei, isto é o meu corpo… Tomai e bebei, isto é o meu sangue.” O gesto de Jesus na Última Ceia é a extrema ação de graças ao Pai pelo seu amor, pela sua misericórdia. Em grego, “ação de graças” diz-se “eucaristia”. Portanto, o Sacramento chama-se Eucaristia, a suprema ação de graças ao Pai, que nos amou a tal ponto que nos ofereceu o seu Filho por amor.

Assim, a celebração eucarística é muito mais do que mero banquete: é o memorial da Páscoa de Jesus, o mistério fulcral da salvação. “Memorial” não significa apenas recordação, mas que, ao celebrarmos este Sacramento, participamos no mistério da paixão, morte e ressurreição de Cristo.

A Eucaristia, apogeu da obra de salvação de Deus, em que Jesus, fazendo-se pão partido para nós, derrama sobre nós toda a sua misericórdia e todo o seu amor, a ponto de renovar o nosso coração e o nosso modo de nos relacionarmos com Ele e com os irmãos.

Dizia o Pontífice argentino que há muitos sinais muito concretos para compreendermos como vivemos a Eucaristia. O primeiro indício é o nosso modo de ver e considerar os outros. Na Eucaristia Cristo oferece, sempre, de novo, o dom de si que já concedeu na Cruz. Toda a sua vida é gesto de partilha total de si mesmo por amor. Por isso, gostava de estar com os discípulos e com as pessoas que tinha o ensejo de conhecer. Isto significava partilhar os seus desejos, os seus problemas, o que agitava as suas almas e vidas. Assim, considerando que, ao participarmos na Missa, nos encontramos com homens e mulheres de todos os tipos – jovens, idosos e crianças; pobres e abastados; naturais do lugar e estrangeiros; acompanhados pelos familiares e pessoas sós… – é de nos questionarmos se a celebração nos leva a senti-los todos como irmãos e irmãs, se nos faz crescer na capacidade de nos alegrarmos com quem rejubila, de chorar com quem chora, se nos impele a ir ao encontro dos pobres, dos enfermos e dos marginalizados, reconhecendo neles o rosto de Jesus.

Um segundo indício é a graça de nos sentirmos perdoados e prontos a perdoar. Por vezes, alguém pergunta: “Por que deveríamos ir à igreja, visto que quem participa habitualmente na Santa Missa é pecador como os outros?” Na realidade, quem celebra a Eucaristia não o faz porque se considera melhor do que os outros, mas porque se reconhece necessitado de ser acolhido e regenerado pela misericórdia de Deus, que se fez carne em Jesus Cristo. Se não nos sentirmos necessitados da misericórdia de Deus, se não nos sentirmos pecadores, melhor seria não irmos à Missa. O “Confesso” que recitamos no início não é uma rotina, mas verdadeiro ato de penitência. “Sou pecador e confesso-o: assim começa a Missa! Nunca devemos esquecer que a Última Ceia de Jesus teve lugar ‘na noite em que Ele foi entregue’. Naquele pão e naquele vinho que oferecemos, e ao redor dos quais nos congregamos, renova-se de cada vez a dádiva do corpo e do sangue de Cristo, para a remissão dos nossos pecados”, ensinava Francisco, insistindo que vamos à Missa, porque somos pecadores.

Um último indício inestimável é-nos oferecido pela relação entre a celebração eucarística e a vida das comunidades cristãs. É preciso ter presente que a Eucaristia não é algo que nós fazemos; não é a nossa comemoração do que Jesus disse e fez. É ação de Cristo. É Cristo quem age sobre o altar. É dom de Cristo, que Se torna presente e nos reúne ao redor de Si, para nos alimentar com a sua Palavra e a sua vida. Isto significa que a missão e identidade da Igreja derivam da Eucaristia, e nela sempre adquirem forma. Uma celebração pode ser impecável do ponto de vista exterior, maravilhosa, mas, se não nos levar ao encontro com Jesus, corre o risco de não oferecer alimento ao nosso coração e à nossa vida. Ao invés, pela Eucaristia, Cristo quer entrar na nossa existência e permeá-la com a sua graça, de tal modo que, em cada comunidade cristã, haja coerência entre liturgia e vida.

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Por tudo isto, é bom cantar com o salmista:

“Jerusalém, louva o teu Senhor.”

“Glorifica, Jerusalém, o Senhor, louva, Sião, o teu Deus. / Ele reforçou as tuas portas / e abençoou os teus filhos.

“Estabeleceu a paz nas tuas fronteiras / e saciou-te com a flor da farinha. / Envia à terra a sua palavra, / corre veloz a sua mensagem.

“Revelou a sua palavra a Jacob, / suas leis e preceitos a Israel. / Não fez assim com nenhum outro povo, / a nenhum outro manifestou os seus juízos.”

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E é bom exultar na fé eucarística:

“Aleluia, aleluia.”

“Eu sou o pão vivo descido do Céu, diz o Senhor. / Quem comer deste pão viverá eternamente.”

2026.06.06 – Louro de Carvalho

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