sábado, 6 de junho de 2026

União Europeia reduz importações de combustíveis fósseis

 

Passaram 100 dias desde o início da guerra dos Estados Unidos da América (EUA) e de Israel contra o Irão, que atirou o Mundo para um dos maiores choques nos combustíveis fósseis da nossa época e, enquanto a União Europeia (UE) respondeu a esta crise dos combustíveis fósseis, restringindo as importações, três países agravaram a exposição, ao aumentá-las.

Liam Gilliver, em artigo intitulado “UE reduz importações de combustíveis fósseis, mas três países fogem à regra”, publicado pela Euronews, a 6 de junho, sustenta que o boom das fontes de energia renováveis, na Europa, “ajudou a proteger o continente da escalada de preços do petróleo e do gás – que continuam voláteis, devido ao controlo exercido pelo Irão sobre o Estreito de Ormuz” –, tendo só a energia solar poupado à Europa 12,8 mil milhões de euros, até 2 de junho.

É de referir que, em fins de março, uma análise da SolarPower Europe concluía que a capacidade solar da Europa pode permitir ao continente europeu poupar 67,5 mil milhões de euros, até ao final do ano, caso o preço do gás se mantenha elevado, o que dá a entender que a energia solar ajuda a livrar a Europa dos pesados custos das importações de combustíveis fósseis, quando a guerra contra o Irão faz disparar os preços do petróleo e do gás.

O relatório defendia que a capacidade de produção de energia solar já funcionava como um “importante amortecedor”, face ao choque energético provocado pela guerra.

Só nos primeiros 20 dias de março, a análise – baseada em dados de preços do gás da Rystad Energy – concluiu que a produção de eletricidade solar poupou à UE dois mil milhões de euros (100 milhões de euros, por dia) que, de outra forma, teriam sido gastos em importações de combustíveis fósseis.

Sustentam os analistas, a energia solar fez baixar, em quase, um terço o custo total de satisfazer as necessidades energéticas da UE. Apesar disso, pela primeira vez, em dez anos, o mercado solar europeu começou a encolher.

A 31 de março, o Brent, referência mundial para o preço do petróleo, tinha subido mais de 50 %, desde o início do conflito no Médio Oriente, tendo atingido 107 euros, por barril, na manhã daquele dia, e o preço do gás natural holandês TTF disparara cerca de 70 %. “É altura de tirar lições não de uma, mas de duas crises energéticas”, afirmava Walburga Hemetsberge, diretora-executiva da SolarPower Europe, lamentando que o crescimento da energia solar na Europa tenha estagnado, quando “os benefícios são maiores do que nunca”.

Convicta de que a tarefa urgente dos decisores políticos “é maximizar tudo o que a energia solar pode fazer pela Europa”, Hemetsberge pede aos governos que criem redes elétricas mais flexíveis, apostem mais no armazenamento de energia e aprofundem a eletrificação em toda a economia.

Apesar de enfrentarem uma “onda de desinformação”, as bombas de calor também permitiram poupar 20 mil milhões de euros, em 2025, e devem ter gerado poupanças de 5,3 mil milhões de euros, entre janeiro e abril deste ano.

Uma bomba de calor é um equipamento de climatização altamente eficiente que transfere calor do exterior para o interior de um espaço ou vice-versa, utilizando fontes de energia naturais, como o ar, a água ou o solo. Em vez de gerar calor, através da queima de combustíveis, move o calor já existente de um local para outro, utilizando uma pequena quantidade de eletricidade.

O seu funcionamento é semelhante ao de um frigorífico, mas ao contrário deste (que retira o calor de dentro e o liberta para o exterior), a bomba de calor faz o processo inverso.

O ciclo baseia-se num circuito fechado onde circula um fluido refrigerante, em quatro fases: captação, em que o fluido absorve a energia térmica disponível no ambiente, mesmo com temperaturas exteriores baixas; compressão, em que um compressor elétrico comprime o fluido, aumentando, drasticamente, a sua temperatura e a sua pressão; transferência, sendo o calor concentrado transferido, através de um permutador, para o sistema de aquecimento da casa ou para as águas quentes sanitárias (AQS); e expansão, pela qual o fluido arrefece e volta ao estado inicial, reiniciando o ciclo.

Vários países europeus já tinham demonstrado os benefícios de transformar os seus sistemas energéticos, apostando em tecnologia verde, antes da guerra contra o Irão. Por exemplo, a Espanha, desde 2019, duplicou a sua capacidade eólica e solar, acrescentando mais de 40 gigawatts (GW) ao seu mix energético. Repare-se que uma central com capacidade de um GW pode abastecer cerca de 876 mil agregados familiares, durante um ano, assumindo um consumo médio anual de 10 mil quilowatts, por hora (kWh) de eletricidade, por casa.

“O crescimento da energia eólica e solar, na Espanha, reduziu em 75 % a influência das centrais fósseis caras no preço da eletricidade, desde 2019”, afirmava o think tank energético Ember, num relatório publicado em 2025, relevando que “esta redução das horas em que o preço da eletricidade estava indexado ao custo da produção a gás foi mais rápida do que noutros países dependentes do gás, como Itália e Alemanha”.

Nos mercados elétricos europeus, é o produtor mais caro em funcionamento para satisfazer a procura – normalmente, uma central a combustíveis fósseis – que define o preço grossista horário da eletricidade. Porém, à medida que aumenta a produção a partir de tecnologias de baixo custo, como a eólica e a solar, são afastados o gás e o carvão e os combustíveis fósseis passam a determinar o preço com menos frequência.

Ventos recorde ajudaram o Reino Unido a bater novo máximo de produção renovável, apesar das alegações de “fantasia” de que o país precisa de perfurar o mar do Norte em busca de petróleo. A 26 de março, a produção de energia eólica britânica atingiu novo máximo de 23880 megawatts, energia suficiente para alimentar 23 milhões de casas. “Durante este período recorde, o vento forneceu mais de metade da eletricidade britânica, e é muito significativo que, mais cedo, no mesmo dia, a eólica e a solar de baixo custo tenham expulsado o gás caro do nosso sistema energético – a produção a gás caiu para o nível mais baixo em quase dois anos, representando apenas 2,3 % da nossa eletricidade”, afirmou Tara Singh, da RenewableUK, vincando: “É isto que a transição energética significa, na prática, e mostra por que precisamos de continuar a desenvolver uma carteira ambiciosa de novos projetos de energia limpa, agora e nos próximos anos.”

Em 2025, a energia eólica e a solar geraram, pela primeira vez, mais eletricidade na UE, do que os combustíveis fósseis, um “marco importante” na transição para energia limpa.

Um relatório da Ember concluiu que a energia eólica e a solar representaram um recorde de 30 % da eletricidade da UE, ultrapassando os combustíveis fósseis por um ponto percentual.

Em 2024, a Áustria era o país com a maior taxa de utilização de eletricidade verde (90 %), impulsionada, sobretudo, pelas suas 16 centrais hidroelétricas. A Suécia surgiu, logo a seguir, com 88 %, alimentada, sobretudo, por vento e por água, enquanto a Dinamarca ficou em terceiro lugar, com 80 % da energia a vir de fontes renováveis. Seguiram-se a Geórgia (68,4 %), Portugal (65,8 %), a Espanha (69,7 %) e a Croácia (58 %). Malta ficou em último lugar, com apenas 10,7 % de utilização de energia renovável.

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Contudo, segundo Liam Gilliver, a UE, que ainda gasta milhares de milhões de euros em importações de combustíveis fósseis e aumentou a sua dependência, face aos seus dois maiores fornecedores de gás natural liquefeito (GNL), os EUA e a Rússia.

Uma nova análise do Institute for Energy Economics and Financial Analysis (IEEFA) mostra que as importações de GNL da UE caíram 1,2 %, desde março até agora, e continuam a diminuir. No Reino Unido, as importações de GNL recuaram 20 % no mesmo período. Em conjunto, isto traduz-se numa redução de 3 %

Segundo a IEEFA, as importações de GNL, por país, em biliões de metros cúbicos, entre março e maio de 2025 e entre março e maio de 2026 (em termos homólogos) são, respetivamente:  a França – perto de 10 e perto de oito; a Espanha – mais de seis e muito perto de seis; os Países Baixos – muito perto de seis e mais perto de cinco; a Itália – cinco e perto de seis; a Bélgica – perto de quatro e quatro; a Alemanha – dois e três e meio; o Reino Unido – um pouco mais de três e meio e três; a Polónia, dois e perto de dois; Portugal – perto de um e um pouco mais de um; a Grécia – pouco mais de meio e um; a Lituânia – meio e quase um; a Croácia – perto de um e um; a Finlândia – meio e quase meio; e Malta – não chega a um meio, em nenhum dos períodos.  

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“A UE apercebeu-se de que a decisão de 2022 de reforçar as importações de GNL deixou de ser sustentável”, afirma a analista de energia da IEEFA, Ana Maria Jaller-Makarewicz, sublinhando que “as restrições na oferta levaram a uma redução das importações de GNL, o que evidencia a necessidade iminente de uma diminuição adicional da procura de gás, para não pôr em causa a segurança energética do bloco.”

De acordo com Jaller-Makarewicz, embora muitos estados-membros da UE tenham respondido a esta crise dos combustíveis fósseis, limitando as importações de GNL, outros “aprofundaram a sua exposição, ao aumentá-las”.

As importações de GNL da Alemanha dispararam 72 %, em termos homólogos entre março e maio de 2026, configurando o aumento mais acentuado entre todos os países da UE. A Itália – que corre o risco de falhar a sua meta de emissões para 2030 – e a Bélgica também aumentaram as importações de GNL, no último ano.

A análise da IEEFA conclui que a dependência do GNL dos EUA e da Rússia se manteve, nos primeiros 100 dias de guerra no Médio Oriente, e que, na sequência do fecho efetivo do Estreito de Ormuz, diminuíram as importações europeias de GNL do Qatar. Porém, entre março e maio deste ano, as importações de GNL da UE aumentaram, em termos homólogos, junto de todos os outros principais fornecedores: mais 4 %, dos EUA; 11 %, da Argélia; 25 %, da Rússia; e 84 %, da Noruega.  Os EUA representaram 60 % das importações de GNL da UE, neste período, face a 56 %, no período homólogo anterior.

A subida dos custos das importações de combustíveis fósseis, a par de mais de 210 medidas de emergência adotadas pelos seus estados-membros, deixou à UE uma fatura energética de 60 mil milhões de euros, em resultado da guerra. “Menos de 5 % (dois mil milhões de euros) desse montante foi dirigido a medidas de eletrificação, o único investimento estrutural que reduz a exposição hoje e constrói a resiliência energética de amanhã”, diz Alice Moscovici, investigadora do centro de reflexão europeu Instituto Jacques Delors.

As energias renováveis produzidas internamente são apontadas como a melhor forma de reduzir a dependência da UE dos combustíveis fósseis, pois, em 2025, ao reduzir as importações poluentes, a energia limpa poupou à UE 51 mil milhões de euros, com a energia solar e a eólica na linha da frente. E as famílias europeias também recorrem à eletrificação, para se protegerem da escalada dos preços da energia. As vendas de bombas de calor aumentaram 25 %, na França, na Alemanha e na Polónia, nos primeiros meses deste ano, enquanto a empresa energética britânica Octopus Energy viu as suas vendas subirem 51 %, nas três primeiras semanas de março, face ao mesmo período do mês anterior.

Várias plataformas de venda de automóveis em toda a Europa registaram o aumento do interesse em veículos elétricos, enquanto dados do governo britânico indicam que foram concluídas mais de 27 mil instalações solares em março de 2026, o valor mensal mais elevado desde 2012. “Acelerar a transição para transportes, aquecimento e indústria eletrificados é essencial para reduzir a dependência de combustíveis importados e reforçar a resiliência”, afirma Adrian Hiel, diretor da Electrification Alliance, sustentando que resultará, porque as famílias e as empresas pouparão “dezenas de mil milhões de euros todos os anos”.

Em muitos países da UE, o preço da eletricidade continua ligado aos voláteis combustíveis fósseis, devido ao princípio da ordem de mérito. Este mecanismo faz com que o preço da eletricidade seja determinado pela central elétrica mais cara ainda necessária para satisfazer a procura. Porém, o investimento em renováveis começa a romper este princípio, protegendo ainda mais os europeus dos choques nos combustíveis fósseis e mantendo as faturas de energia estáveis. “Nos primeiros cinco meses de 2026, os países com presença reduzida de combustíveis fósseis no seu mix de produção elétrica tiveram uma relação mais favorável entre os preços do gás e da eletricidade”, verifica Aneta Stefańczyk, especialista do European Climate Neutrality Observatory, explicando: “As diferenças são grandes: a relação entre o preço da eletricidade e o do gás é mais de duas vezes inferior, na Espanha, face a países mais dependentes de combustíveis fósseis, como a Itália ou a Polónia.”

Segundo o centro de estudos de energia Ember, 75 % da eletricidade, na Espanha, foi gerada a partir de fontes de baixo carbono, em 2025, acima da média da UE, de 71 %.

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Entretanto, após corte no financiamento verde, a França é acusada de negacionismo climático.

As temperaturas excecionalmente altas foram associadas a várias mortes, incluindo a de um corredor de 53 anos que morreu durante uma prova, em Paris, e infraestruturas, como o metro e a ferrovia, estiveram em risco, devido à subida das temperaturas. A este respeito, Friederike Otto, professora de Ciências do Clima no Imperial College London, diz que a ciência é muito clara: “As alterações climáticas tornam estas ondas de calor mais intensas, mais longas e muito mais frequentes. O clima em que vivemos hoje já não é aquele em que crescemos e os nossos edifícios e infraestruturas estão, lamentavelmente, despreparados para o que aí vem.”

A França prepara-se para ondas de calor extremas, há vários anos, sobretudo, em cidades como Paris, frequentemente, afetadas pelo efeito de ilha de calor urbana, em que infraestruturas, como o betão e o asfalto, absorvem calor, mantendo as temperaturas exteriores elevadas. E os esforços para retirar materiais que retêm o calor, como o asfalto e lugares de estacionamento, transformaram Paris, abrindo caminho a mais árvores e plantas que proporcionam sombra e ajudam a melhorar a qualidade do ar.

O Fundo Verde, que ajuda as comunidades a adaptarem-se às alterações climáticas, representa 4,5 mil milhões de euros em subsídios do Estado e abrange a renovação energética de edifícios públicos, a melhoria da qualidade do ar, a prevenção de cheias e a recuperação da Natureza. Porém, o seu orçamento baixou de 2,4 mil milhões de euros, em 2024, para 873 milhões, em 2026. Por isso, Marine Tondelier, líder do partido ecologista, acusa o governo de incompetência e de obstinação na direção errada, o que significa “negação climática”.

Em abril, a França anunciou o corte quatro mil milhões de euros, na despesa deste ano, para manter o controlo as finanças públicas, na sequência da guerra no Irão.

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Está a guerra a descontrolar a economia, as finanças públicas e a ação climática.

2026.06.06 – Louro de Carvalho

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