Líderes
europeus reuniram-se em torno de Volodymyr Zelenskyy, em Kiev, a 24 de agosto, para
a celebração do 35.º aniversário da independência da Ucrânia, numa altura em
que este país europeu já vai no quinto ano da guerra com a Rússia a Ucrânia. É,
pois, este o quinto Dia da Independência, desde a invasão em grande escala da
Rússia, alegadamente, para desmilitarizar e para desnazificar o país invadido –
um marco que poucos esperavam quando as forças russas avançaram sobre a capital
ucraniana, em fevereiro de 2022.
Andy
Burnham, primeiro-ministro britânico, na sua primeira deslocação ao estrangeiro,
desde que tomou posse, juntou-se ao presidente do Conselho Europeu, António
Costa, e a outros altos responsáveis europeus, em Kiev, para as comemorações e
para encontros com o presidente ucraniano. Também os outros líderes europeus da
Coligação da Boa Vontade – nomeadamente, o presidente francês, Emmanuel Macron,
o chanceler alemão, Friedrich Merz, o primeiro-ministro irlandês, Micheal
Martin, e o primeiro-ministro do Luxemburgo, Luc Frieden – participaram, à distância,
num encontro com Zelenskyy.
Foi
notória a ausência de qualquer membro da administração norte-americana na cerimónia,
designadamente, Steve Witkoff, enviado especial dos Estados Unidos da América (EUA)
para o Médio Oriente, e Jared Kushner, conselheiro sénior, entre
2017 e 2021, no primeiro mandato do presidente dos EUA e, no atual
mandato, intermediário-chave nas negociações diplomáticas relativas à guerra
Israel-Hamas e à guerra Rússia-Ucrânia.
Apesar
da especulação de que o Dia da Independência poderia assinalar a sua primeira
visita à Ucrânia, os dois enviados especiais do inquilino da Casa Branca não
compareceram. Aliás, desde que assumiram papel de destaque nos esforços
diplomáticos da administração norte-americana, nenhum deles viajou para Kiev, embora
tenham participado em repetidos encontros com responsáveis russos e Witkoff tenha
feito oito visitas a Moscovo.
Não
obstante, é de assinalar que Mike Pence, antigo vice-presidente dos EUA, e
Keith Kellogg, antigo enviado especial de Donald Trump para a Ucrânia, bem como
os senadores Richard Blumenthal e James Lankford, se deslocaram-se a Kiev,
durante o fim de semana, e participaram em eventos associados ao 35.º aniversário.
E o anfitrião disse que os informou da contínua ameaça de mísseis balísticos da
Rússia e da necessidade de reforçar as defesas aéreas.
Kiev
aproveitou o ensejo para pressionar os aliados a ajudarem a Ucrânia a obter
mais mísseis de defesa aérea, antes do inverno.
Em
resposta, António Costa, falando ao lado de Zelenskyy e do primeiro-ministro
britânico, na cerimónia realizada na praça em frente da catedral de Santa Sofia,
prestou homenagem ao povo ucraniano pela “coragem e bravura” que, disse,
“inspiram o Mundo”.
“Continuaremos
a prestar todo o apoio necessário, durante o tempo que for preciso”, afirmou,
alargando esse compromisso para lá da guerra, até à futura adesão da Ucrânia à UE
[União Europeia]. […] O direito internacional tem de prevalecer. A Rússia não
irá prevalecer. […] A União Europeia não pode ser neutra, quando o direito
internacional está a ser violado. Não somos neutros. Estamos do lado da Ucrânia”,
afirmou o presidente do Conselho Europeu.
Por
seu turno, Andy Burnham comparou a resistência da Ucrânia à Rússia à luta do
Reino Unido contra a Alemanha nazi, dizendo aos ucranianos: “A minha nação
manteve viva, no século XX, a chama da liberdade europeia; vós mantendes essa
chama no século XXI.”
Depois,
comprometeu-se também a ajudar Kiev a reforçar a sua defesa aérea, antes do
inverno.
Também
o ministro da Defesa britânico, Luke Pollard, confirmou que Londres vai
partilhar tecnologia com a Ucrânia, para apoiar a produção interna do míssil de
longo alcance SCALP, afirmando: “Estaremos ao lado deles, durante o tempo que
for preciso.”
E
a UE, anunciou, neste dia, um novo pacote de 6,1 mil milhões de euros em ajuda
militar.
Num
discurso que assinalou o Dia da Independência, Volodymyr Zelenskyy disse aos
ucranianos e aos líderes internacionais que, há 35 anos, os serviços de
informações duvidavam de que a Ucrânia sobrevivesse como Estado independente,
sugerindo que voltaria a cair sob influência russa. “Mas os ucranianos
restauraram a independência do seu Estado e iremos, certamente, proteger a
independência da Ucrânia. Não há qualquer dúvida”, afirmou, aludindo às
avaliações dos serviços de informações ocidentais, antes da invasão em grande
escala da Rússia, de que a Ucrânia poderia cair em poucos dias ou semanas.
Quando
as forças russas avançaram, rapidamente, em direção a Kiev, a 24 de fevereiro
de 2022, poucos esperavam que a Ucrânia resistisse ao ataque. Seis meses
depois, o país assinalou o primeiro Dia da Independência, desde o início da
guerra em grande escala.
“Os
ucranianos não serão pedras de calçada, sob os pés de czares e de governantes.
Os ucranianos não se vão submeter. Os ucranianos não serão moeda de troca, em
disputas entre capitais. Os ucranianos não aceitarão aquilo em que não
acreditam. E, certamente, não abandonarão o seu próprio sonho – o sonho de
viver em liberdade e independência”, bradou o chefe de Estado do país invadido,
há mais de quatro anos.
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As
comemorações refletiram também o enorme custo de preservar a independência,
contra as repetidas tentativas da Rússia em desestabilizar e em “desfazer” o país.
Zelenskyy
e a primeira-dama, Olena Zelenska, começaram o dia a homenagear os combatentes
mortos, antes de o presidente entregar algumas das mais altas condecorações do
país a militares, homens e mulheres. As famílias dos soldados mortos na defesa
da Ucrânia receberam distinções atribuídas a título póstumo.
Não
houve o tradicional desfile militar no centro de Kiev. Em vez disso, a Ucrânia
exibiu drones de produção nacional e outras tecnologias de defesa que se
tornaram centrais no esforço de guerra.
A
cerimónia aconteceu após uma forte escalada dos ataques russos contra a
Ucrânia. Na verdade, Moscovo intensificou os ataques com mísseis balísticos e com
drones contra cidades ucranianas, elevando o número de vítimas civis aos níveis
mais altos desde os primeiros meses da invasão e revelando a crescente escassez
de mísseis intercetores avançados na Ucrânia.
Zelenskyy
afirmou que o envio de mísseis intercetores Patriot, diminuiu
significativamente, mesmo com o aumento dos ataques com mísseis russos. Por
isso, pretendendo obter, pelo menos, mais 330 mísseis intercetores, antes do
inverno, fez da defesa aérea um dos temas centrais das conversações com os seus
aliados europeus.
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A
deslocação do primeiro-ministro britânico à capital ucraniana surgiu após o
anúncio de que o Reino Unido vai apoiar Kiev na produção interna de mísseis de
longo alcance.
Segundo
o respetivo comunicado, o Reino Unido “acordou que a empresa de defesa MBDA
pode divulgar informação classificada sobre componentes de fabrico britânico do
míssil de longo alcance SCALP, para estabelecer linhas de montagem locais na
Ucrânia”. Ora, esta decisão de divulgar a informação classificada sobre o
míssil, que utiliza tecnologia britânica e francesa, permite à França e à
Ucrânia avançarem com a montagem do míssil em território ucraniano.
Além
disso, o comunicado acrescenta: “Complementa também o importante esforço
britânico para desenvolver, rapidamente, armas avançadas de ataque de longo
alcance e de baixo custo para a Ucrânia, através do projeto Brakestop”.
“No
35.º aniversário da independência da Ucrânia, o povo ucraniano não deve ter
dúvidas: o Reino Unido está convosco hoje e pelo tempo que for necessário”,
afirmou Andy Burnham em comunicado.
O
Reino Unido tem sido um dos principais apoiantes da Ucrânia desde a invasão em
grande escala da Rússia em 2022, comprometendo até agora cerca de 25 mil
milhões de libras (29,2 mil milhões de euros) em apoio, incluindo 16 mil
milhões de libras (18,7 mil milhões de euros) em ajuda militar.
Já
no dia 23, presidente ucraniano reuniu-se com líderes nórdicos e bálticos e
manteve conversações bilaterais centradas na cooperação em matéria de defesa.
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A
Comissão Europeia anunciou, no dia em que se celebra a Independência da
Ucrânia, 6,1 mil milhões de euros em novas aquisições de material de defesa
para o país. Este financiamento integra o Empréstimo de Apoio à Ucrânia, no
valor de 90 mil milhões de euros, e aconteceu num dia em que se realizou, em
Kiev, uma reunião da Coligação da Boa Vontade.
“No
Dia da Independência da Ucrânia, a Comissão Europeia aprovou 6,1 mil milhões de
euros em novas aquisições de material de defesa para a Ucrânia. Este
financiamento abrange sistemas de defesa aérea e antimíssil, mísseis, munições
e radares, reafirmando o compromisso da Europa em apoiar a defesa e a
resiliência da Ucrânia, perante a contínua agressão russa”, indica o executivo
comunitário, em comunicado.
Ursula
von der Leyen, realçou que esta iniciativa “demonstra que o apoio [da UE] é
inabalável e concreto” e que, perante a intensificação dos ataques russos, a UE
está a reforçar o apoio a Kiev, para “ajudar a Ucrânia a proteger a sua
população e a defender o seu espaço aéreo”. “A Europa está ao lado da Ucrânia e
iremos fornecer-lhe o que necessita, quando necessita”, garantiu no dia em que
a Coligação da boa vontade se reuniu, em Kiev, para celebrar o 35.º aniversário
da independência da Ucrânia.
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A
reunião teve um formato híbrido – não estiveram em Kiev alguns dirigentes, como
os já referidos e o ministro dos Negócios Estrangeiros português, que participou
por videoconferência. Paulo Rangel reafirmou, numa publicação nas redes sociais
o apoio de Portugal à soberania, integridade territorial e ao futuro europeu da
Ucrânia.
O
Presidente da República de Portugal enviou uma videomensagem ao homólogo
ucraniano, Volodymyr Zelensky, “e a todos os cidadãos ucranianos”, prestando
tributo àqueles “que defendem esta independência no terreno”.
De
acordo com uma nota divulgada pela Presidência da República, António José
Seguro frisou que “o apoio de Portugal à Ucrânia, à sua soberania e integridade
territorial e ao corajoso povo ucraniano continua e continuará a ser
incondicional, tal como tem sido desde o primeiro dia”. E, reiterando que
Portugal “continuará a prestar apoio político, humanitário, financeiro e
militar à Ucrânia, enquanto for necessário”, o chefe de Estado “formulou votos
muito sinceros para que as comemorações do 24 de agosto de 2027 decorram já em
tempo de paz”.
“O
35.º aniversário da independência da Ucrânia representa, hoje, volvidos quatro
anos desde o início de uma trágica guerra, uma dupla vitória: a vitória do
tempo, que consolidou a identidade nacional, e a vitória da vontade coletiva do
corajoso povo ucraniano, que se recusa a ceder perante a força”, destacou
Seguro, sustentando: “Hoje é dia para honrar aqueles que defendem esta
independência no terreno, é dia para reconhecer o sacrifício de tantas
famílias, é dia para reafirmar a capacidade de um povo de manter viva a
soberania, mesmo quando ela é, direta e reiteradamente, desafiada”.
“Estes
35 anos de independência são um testemunho vivo de que a identidade de um povo
não se mede pela ausência de adversidade, mas pela forma como a enfrenta”,
prosseguiu Seguro, completando que “a amizade entre Portugal e a Ucrânia é uma
amizade entre povos que partilham valores fundamentais e uma comum determinação
de defender a liberdade, a democracia e o respeito pelo Direito Internacional”.
Em
representação do presidente da Assembleia da República, José Pedro
Aguiar-Branco, estiveram em Kiev deputados do Grupo Parlamentar de Amizade
Portugal-Ucrânia, nomeadamente, o líder parlamentar do Partido Socialista (PS)
e presidente deste grupo parlamentar, Eurico Brilhante Dias, os seus vice-presidentes
Francisco Figueira, do Partido Social Democrata (PSD), e Rodrigo Saraiva, Rui
Tavares, do Livre, e Paulo Núncio, líder parlamentar do partido do Centro Democrático
Social (CDS).
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A
celebração do Dia da Independência e a aprovação do financiamento (já referido)
pela UE surgem numa altura em que a Rússia intensifica os ataques com mísseis
balísticos e drones. No entanto, numa mensagem divulgada nas redes sociais, o
presidente ucraniano garantiu que a Ucrânia não se renderá à Rússia. “A Ucrânia
quer a paz, sem dúvida, mas não está pronta para simplesmente se render”, disse
Volodymyr Zelensky, citado pela Reuters, vincando que a cedência à
exigência russa para abdicar da parte restante do Donbass não é suficiente para
pôr um ponto final na guerra e acusando Vladimir Putin de estar “preso ao
passado”.
Ao
mesmo tempo, solicitou à China que se manifeste contra as ameaças de Moscovo
sobre o uso de armas nucleares. “A China não pode continuar em silêncio”,
defendeu. “A China deve provar a ambição de ser um dos líderes mundiais, não só
nos campos económico e tecnológico, mas também no civilizacional, deixando
claro que nenhum ditador deve ameaçar o planeta com ogivas obsoletas”, afirmou,
elogiando “a força de espírito” do povo ucraniano.
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Desde
a sua independência, a Ucrânia apresentou várias mudanças, tendo Maryna Mykhailenko,
embaixadora
da Ucrânia em Portugal destacado (cf. Expresso online de 24 de agosto): ter
mostrado ao Mundo quem são os ucranianos, não como república pós-soviética ou na
esfera de influência da Rússia, mas como país e nação livres e independentes; ter
escolhido, de forma definitiva e irreversível, o caminho do desenvolvimento
democrático, após décadas de totalitarismo soviético, pois os ucranianos sempre
tiveram, pela sua própria mentalidade, uma forte predisposição para a
democracia, nomeadamente, graças às sólidas tradições históricas de
autogoverno; e ter optado pela adesão à UE.
E
a diplomata conclui que a
agressão armada da Rússia contra a Ucrânia não é “uma guerra por
territórios”, pelo que “quaisquer concessões territoriais não contribuirão para
uma paz duradoura”. Trata-se, antes, de “uma guerra existencial pelo direito do
povo ucraniano à existência, à liberdade, ao seu próprio Estado
e à sua escolha europeia”, bem como uma guerra que “é também
travada pela Rússia para preservar a sua capacidade de determinar a segurança
europeia e [de] ditar as suas condições à Europa”.
Com
efeito, na ótica da embaixadora, “a Rússia pretende limitar, drasticamente, a
soberania ucraniana e determinar a nossa política interna e externa”, tal como
pretende “uma Europa dependente dos seus recursos energéticos, intimidada pelo
seu exército e governada por aqueles que apoia – e não são forças políticas que
tenham os valores europeus no seu ADN”.
Sem
desmentir o entendimento da diplomata, é de referir que o “Ocidente” foi
ambicioso na subtração de áreas territoriais à influência da poderosa ex-União Soviética
e não soube libertar-se da sua dependência estratégica e económica. Agora,
torce a orelha.
2026.08.24
– Louro de Carvalho