A
liturgia do 17.º domingo do Tempo Comum, no Ano A, convida-nos a refletir nas prioridades,
nos valores sobre os quais fundamentamos a nossa vida e sugere, especialmente,
que o cristão deve pautar-se pelos valores indicados por Jesus e não julgar
pelas aparências.
Recordo
o que disse um pregador ao seu auditório, a 26 de julho. Um professor
universitário interpelou os seus alunos nos seguintes termos: Pegando numa nota
de 100 euros, perguntou quem a desejaria. E todos levantaram o braço, a
sinalizar que a queriam. Para os experimentar, amassou a nota e interrogou-os,
de novo, mas todos levantaram, novamente, o braço. Em seguida, pisou a nota e
perguntou, de novo, quem é que a queria, e todos levantaram o braço.
E
concluía o orador: “Todos queriam a nota, em qualquer circunstância, porque, em
bom estado, amassada ou pisada, não perdeu o valor original. Também assim
acontece com o tesouro do Reino de Deus: oculto ou exposto, parecendo puro ou aparentando
verdete, é sempre um tesouro cujo valor permanece inalterado. E assim acontece
com a pessoa humana: nova ou idosa, sã ou doente, rica ou pobre, considerada ou
desprezada, a sua dignidade é inviolável. E deve ser considerada pelo que é, não
pelo que tem ou pelo que aparenta.
***
A
primeira leitura (1Rs 3,5.7-12) apresenta-nos o exemplo de Salomão, rei
de Israel, o protótipo do homem sábio, que percebe e escolhe o que é importante
e que não se deixa seduzir e alienar por valores efémeros.
O
rei David morreu por volta de 972 a.C., após longo e fecundo reinado, com o
empenho em alargar as fronteiras do reino, a consolidar a união entre as tribos
do Norte e do Sul e a conquistar a paz e a tranquilidade para o Povo de Deus.
Sucedeu-lhe o filho, Salomão, que desenvolveu trabalho meritório na
estruturação do reino que o pai lhe legou. Organizou a divisão administrativa
do território, dotou-o de grandes construções, a mais emblemática das quais é o
Templo de Jerusalém), fortificou as cidades mais importantes, potenciou o
intercâmbio cultural e comercial com os países envolventes e incentivou e
apoiou a cultura e as artes.
Preocupado
com a constituição de uma classe política preparada para a governação, recrutou
sábios estrangeiros, sobretudo, egípcios, para a corte e rodeou-se de homens
que se distinguiam pelo saber, pela justiça e pela prudência. Esses quadros,
além de aconselharem o rei, tinham a tarefa de preparar os futuros funcionários
para desempenharem funções no aparelho governativo montado por Salomão.
A
corte tornou-se um viveiro de sabedoria. Os sábios de Salomão coligiram
provérbios; redigiram máximas de caráter sapiencial; deram instruções sobre as
virtudes a cultivar, com vista ao êxito e à felicidade; redigiram crónicas
sobre os reinados anteriores; e publicaram textos sobre as tradições dos
antepassados. Provavelmente, é nesta época que a escola javista dá à luz
algumas das tradições que ocuparão um lugar fundamental no Pentateuco. Não
admira, pois, que Salomão tenha ficado na memória de Israel como o protótipo do
rei sábio, “cuja sabedoria excedia a todos os orientais e aos egípcios”.
Salomão
é, historicamente, o primeiro rei que herda o trono. Até agora, os seus
predecessores não chegaram ao trono por herança, mas receberam-no das mãos de
Deus (segundo a visão religiosa dos catequistas bíblicos). Os teólogos de
Israel esforçam-se por sacralizar o poder de Salomão e demonstrar que, se
Salomão governou o Povo de Deus, não foi apenas por direito hereditário (sempre
contestável), mas pela vontade de Deus.
O
trecho em apreço supõe todo este enquadramento. O “sonho de Gabaon” é uma
ficção literária montada pelos teólogos deuteronomistas (grupo que reflete a
vida e a História, na linha das grandes ideias teológicas do Livro do
Deuteronómio), com dupla finalidade: apresentar Salomão como o escolhido de
Javé e justificar a sua proverbial sabedoria.
No
Antigo Testamento, o sonho aparece, com frequência, como forma privilegiada de
Deus comunicar com os homens e de lhes indicar os seus caminhos. Aqui, aparece
um sonho que os catequistas deuteronomistas utilizam, como recurso literário
para apresentarem Salomão como o escolhido de Deus, a quem revela o seu plano e
confia a condução do seu Povo.
O
sonho de Salomão está estruturado na forma de diálogo entre Deus e Salomão. Há uma
interpelação de Deus (“que posso Eu dar-te?”); e a resposta de Salomão: cônscio
da grandeza da sua tarefa e das suas próprias limitações, o jovem rei pede a
Deus um coração sábio, para governar com justiça. A sua prece é atendida; Deus
concede-lhe uma sabedoria inigualável; e acrescenta – o que o trecho em causa não
apresenta – mais três dons: a riqueza, a glória e a longa vida.
Em
termos religiosos, a mensagem que os autores deuteronomistas pretendem deixar,
com esta ficção, é a seguinte:
*
Em Israel, o rei é o instrumento de Deus, o intermediário entre Deus e o seu
Povo. É através da pessoa do rei que Deus governa, intervém na vida do seu Povo
e o guia pela História.
*
Salomão não concebeu o seu papel como privilégio pessoal, que podia usar em
benefício próprio, mas como um ministério que lhe foi confiado por Deus.
Salomão tinha consciência de que a autoridade é um serviço que deve ser
exercido com sabedoria e que o objetivo desse serviço é a realização do bem
comum.
*
Os autores deuteronomistas sublinham a qualidade da resposta de Salomão: não
pede riqueza, nem glória, mas as aptidões necessárias e a capacidade para
cumprir bem a missão que Deus lhe confiou. Salomão aparece, pois, como o modelo
do homem que sabe escolher as coisas importantes e que não se deixa distrair
por valores efémeros.
E,
suma, dizer que a súplica de Salomão “agradou ao Senhor” é propor aos
israelitas a opção pelos valores eternos, duradouros e essenciais.
***
No
Evangelho (Mt 13,44-52), em parábolas, Jesus recomenda aos seus
seguidores que façam do Reino dos Céus (Reino de Deus) a prioridade
fundamental. Todos os outros valores e interesses devem passar a segundo plano,
face a este supremo tesouro. Estamos no fim do capítulo dedicado às “parábolas
do Reino” (cf. Mt 13). Recorrendo a imagens e a comparações
simples, sugestivas e questionantes, Jesus apresenta o Mundo novo de liberdade
e de vida nova que veio apresentar aos homens e a que chama Reino de Deus.
O
trecho em referência apresenta, no dizer de D. António Couto, bispo de Lamego, quatro
parábolas, exclusivas de Mateus (nenhuma aparece nos outros evangelhos
canónicos. No entanto, aparecem num texto não canónico – o Evangelho de Tomé –,
embora com notáveis variantes, em relação à versão mateana): a parábola do
tesouro, a parábola da pérola, a parábola da rede e dos peixes e a parábola do
escriva e do seu tesouro.
Para
se enquadrar melhor a mensagem de Mateus, importa atender à realidade da
comunidade a quem destina o Evangelho. O entusiasmo inicial deu lugar à
monotonia, à falta de empenho, à vivência morna e pouco comprometida. No
horizonte das comunidades cristãs perfilam-se tempos difíceis de perseguição e
de hostilidade. E Mateus sente que urge renovar o compromisso cristão e chamar
a atenção dos crentes para o Reino, para as suas exigências e para os seus
valores.
O
trecho evangélico pode ser dividido em três partes. Em cada uma, há aspetos e
questões que importa relevar e ter em conta. Na primeira parte, temos duas
parábolas – a parábola do tesouro escondido no campo e a parábola da pérola
preciosa (vv. 44-46). Ambas desenvolvem o mesmo tema e apresentam
ensinamentos similares.
A
questão principal é a descoberta do valor e da importância do Reino. Tanto a
parábola do tesouro escondido como a parábola da pérola preciosa sugerem que o
Reino oferecido por Jesus (de paz, de amor, de fraternidade, de serviço, de
reconciliação) é um tesouro precioso, que os seguidores de Jesus devem abraçar,
antes e acima de qualquer outro valor. Os cristãos são, antes de mais, aqueles
que encontraram algo de único, de fundamental, de decisivo: o Reino. Ora,
quando alguém encontra um tesouro como este, deve elegê-lo como a riqueza mais
preciosa, o fim último da própria vida, o valor fundamental pelo qual se
renuncia a tudo o mais e pelo qual se está disposto a pagar qualquer preço.
Mateus sugere aos cristãos a quem destina o seu Evangelho (adormecidos na fé
morna, inconsequente, pouco exigente) que é preciso redescobrir esse valor mais
alto (e optar por ele, decisivamente) que deve dar sentido às suas vidas: o
Reino. O cristão é confrontado, pari passu, com muitos valores e opções;
mas deve perceber que o Reino é o valor mais importante.
Deve
ser prudente, como o homem que topou o tesouro no campo. Não furtou o tesouro
(seria acusado de crime), nem o quis comprar (revelaria o segredo), mas,
querendo possuí-lo, comprou o campo e, sem o revelar, conseguiu adquirir o
tesouro. E deve ter a ambiciosa vontade do negociante de pérolas, que, em face
da descoberta de uma de grande valor, renuncia a todas as que já possuía (não
as deita fora, mas vende-as, para ter com que comprar a mais preciosa) e
compra, sem alarde, aquela que, providencialmente, encontrou. Enfim, o cristão
deve ser como o homem do campo e como o negociante. Perante a descoberta do
tesouro, não deve ficar pasmado, mas tomar a decisão justa e audaz.
Na
segunda parte, Mateus apresenta o Reino na imagem da rede que, lançada ao mar,
apanha diversos tipos de peixes (vv. 47-50). Na versão apresentada por
Mateus, a parábola apresenta um ensinamento semelhante ao da parábola do trigo
e do joio (que se meditou no 16.º domingo): o Reino não é condomínio fechado,
onde só há gente escolhida e santa, mas é a realidade onde o mal e o bem
crescem, em simultâneo. Deus não tem pressa de condenar e de destruir. Não quer
a morte do pecador. Por isso, dá ao homem o tempo necessário e suficiente para
amadurecer as suas opções e para fazer as suas escolhas. A versão do Evangelho
de Tomé conta a parábola de um pescador sábio que pesca vários peixes, mas fica
só com o maior e lança os outros ao mar. Aí, portanto, a parábola da rede e dos
peixes apresenta uma mensagem que vai na linha das parábolas do tesouro
descoberto no campo e da pérola preciosa. Alguns pensam que a versão
apresentada no Evangelho de Tomé constitui a versão primitiva da parábola da
rede e dos peixes.
A
referência que Mateus faz ao juízo final é uma forma de exortar a sua
comunidade no sentido de escolher, decididamente, o Reino e de pôr em prática o
ensinamento de Jesus.
Na
terceira parte, o evangelista apresenta um breve diálogo entre Jesus e os
discípulos (vv. 51-52), em que ressalta nova parábola a concluir o
capítulo. Mateus sugere que o verdadeiro discípulo de Jesus é “aquele que compreende”.
Ora, “compreender”, na teologia mateana, significa “prestar atenção” e
comprometer-se com o ensinamento proposto. Os cristãos são, pois, convidados a
descobrir a realidade do Reino, a entender as suas exigências, a
comprometerem-se com os seus valores. A referência ao “escriba”, que é
semelhante a um pai de família que “tira do seu tesouro coisas novas e velhas”,
pode referir-se aos judeus, conhecedores do Antigo Testamento (o “velho”),
convidados a refletirem as velhas promessas à luz da proposta de Jesus (o
“novo”). É nessa dialética, exigente e questionante, que o verdadeiro discípulo
encontra o caminho para o Reino; e, encontrado esse caminho, deve
comprometer-se com ele, de forma decisiva, exigente e empenhada.
***
A
segunda leitura (Rm 8,28-30) – continuando a reflexão de Paulo sobre o
projeto de salvação que Deus tem para oferecer aos homens – convida-nos a
seguir Jesus e o seu o caminho, o valor mais alto, que deve sobrepor-se a todos
os outros valores e propostas.
Na
perspetiva paulina, todo o homem que chega a este Mundo mergulha no contexto de
pecado que o condiciona e marca. Porém, Deus, na sua bondade, oferece,
gratuitamente, ao homem pecador a sua graça e dá-lhe a possibilidade de chegar
à salvação; e é em Jesus Cristo que o dom de Deus se comunica ao homem. É o
Espírito Santo que permite ao homem acolher o dom e viver na fidelidade à graça
que Deus oferece.
Depois
de assegurar aos cristãos que o Espírito “vem em auxílio da nossa fraqueza” e
“intercede por nós”, o apóstolo relembra que Deus tem um desígnio de amor que
se traduz no oferecimento da salvação ao homem. Essa tradução não é
acontecimento casual, mas algo que está, desde sempre, no plano de Deus, e que
leva Deus a concorrer, em tudo, para o bem dos que O amam. A quem adere a esse
projeto, Deus chama-o a identificar-se com o seu filho Jesus, liberta-o do
egoísmo e do pecado e fá-lo chegar, com Jesus, à vida nova e plena
(justificação). Neste contexto, Paulo fala “daqueles” que Deus “conheceu” de
antemão, que “predestinou” para viverem à imagem de Jesus, que “chamou”, que
“justificou” e que “glorificou”. Porém, isto não pode ser entendido no sentido
de que a salvação que Deus oferece se destine apenas a um grupo de
predestinados, que Deus escolheu de entre os homens de acordo com critérios que
nos escapam. A teologia paulina é clara: o projeto salvador de Deus está aberto
a todos aqueles que querem acolhê-lo. O que apóstolo sublinha é que se trata de
um dom gratuito de Deus, que está previsto desde toda a eternidade.
***
Referindo-se
à Liturgia da Palavra da dominga em causa, Leão XIV, antes da recitação do Angelus,
apontou que, no centro do ensinamento de Jesus, está o mistério do Reino de
Deus, comparável a uma pérola e a um tesouro, dando as parábolas a entender “a
surpresa de quem encontra algo que nem sequer podia esperar”, a tal ponto que
vender ou deixar tudo não parece renúncia, mas ganho. Com efeito, os
evangelistas “descrevem como irresistível o chamamento de Jesus a segui-Lo: “livre,
certamente, mas urgente e capaz de suscitar resposta imediata e movida pelo
desejo”. Este é um “importante aspeto do modo como Deus está próximo e Se deixa
encontrar: o encontro com o Seu Reino é uma reviravolta que não restringe, mas
alarga a vida; e, se algo tem, agora, de mudar, é para trazer mais
possibilidades, não menos”.
A
um outro aspeto Jesus dá muita importância: “Quem encontra o tesouro escondido
no campo é, provavelmente, um agricultor; a pérola é reconhecida como de grande
valor por um negociante, talvez um viajante”. Seguem-se mais duas parábolas (tem
razão o bispo de Lamego), nas quais os protagonistas são pescadores e um
escriba entendido em coisas velhas e novas. E há outras, ainda, em que o Reino
se deixa vislumbrar na mulher que amassa a farinha, ou na que arruma a casa, no
rei que prepara a guerra, no homem que projeta construir uma torre, em
administradores que gerem pagamentos ou investimentos, em pastores e em agricultores.
Em suma, no dizer do Papa, o Reino de Deus “revela a sua beleza inestimável de
diversas formas, mas chama todos – homens e mulheres, jovens e idosos, pobres e
ricos – a profunda renovação, e todos podem compreendê-lo e são atraídos por
ele”.
Também
a Igreja é “comunhão de pessoas diferentes, quanto à origem, à cultura, às
competências e ao nível de responsabilidade, mas todas chamadas a
reconhecerem-se como ‘um’ em Jesus”, pois “Ele o tesouro escondido, a pérola
preciosa, a rede que recolhe os dispersos”. E, desde o princípio, Jesus chamou
e reuniu em torno de Si pessoas que, de outro modo, nunca se teriam relacionado,
demonstrando, assim, que “Deus não faz distinção de pessoas e que a sua eleição
é predileção, especialmente, por quem é pequeno e rejeitado”.
Só
nos resta pedir o mesmo dom que Salomão: “o dom de distinguir a pérola de
grande valor, de saber reconhecer o tesouro pelo qual vale a pena vender tudo”.
E, “enquanto a indústria do consumo nos altera o paladar, suscitando sempre
novas necessidades para, depois, nos vender respostas que não saciam e, por
vezes, envenenam o coração, temos de aprender a perceber o que realmente
importa, o tesouro da relação com Deus, que nos abre à alegria e ajuda a viver
da melhor maneira as relações entre nós”. “Que a intercessão de Maria, Sede da
Sabedoria, oriente para Jesus o nosso desejo de vida, para que se realize em
plenitude”, roga o Pontífice.
***
É, pois, justo cantar com o salmista o valor e a
eficácia da Lei de Deus:
“Quanto amo, Senhor, a vossa lei!”
“Senhor, eu disse: A minha herança / é cumprir as
vossas palavras. / Para mim vale mais a lei da vossa boca / do que milhões em
ouro e prata.
“Console-me a vossa bondade, / segundo a promessa
feita ao vosso servo. / Desçam sobre mim as vossas misericórdias e viverei, / porque
a vossa lei faz as minhas delícias.
“Por isso, eu amo os vossos mandamentos, / mais que o
ouro, o ouro mais fino. / Por isso, eu sigo todos os vossos preceitos / e
detesto todo o caminho da mentira.
“São admiráveis as vossas ordens, / por isso, a minha
alma as observa. / A manifestação das
vossas palavras ilumina / e dá inteligência aos simples.”
E
é bom louvar a grandeza desconcertante de Deus:
“Aleluia.
Aleluia.”
“Bendito
sejais, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, / porque revelastes aos pequeninos os
mistérios do reino.”
2026.07.31
– Louro de Carvalho