segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Novas regras de transparência da UE sobre inteligência artificial

 

Com a entrada em vigor, em 2 de agosto, das amplas regras de transparência da União Europeia (UE) sobre inteligência artificial (IA), os deepfakes e outros conteúdos gerados por IA passam a ter de ser rotulados. Ou seja, empresas que criam ou utilizam conteúdos gerados por IA têm de os identificar, claramente. O objetivo é garantir que os europeus saibam, de imediato, se os conteúdos que veem online são reais ou falsos.

A lei abrangente da UE sobre IA entra em vigor por fases. A partir do dia 2, as empresas têm de garantir que sistemas, como chatbots, deixam claro aos utilizadores que são IA e que, quando uma imagem ou texto é criado com recurso a IA, existe indicação a dizê-lo. Isso pode ser reproduzido, através de marcas de água e de outros identificadores que permitem detetar, facilmente, conteúdos gerados por IA. As empresas arriscam coimas elevadas, se não cumprirem.

As orientações estipulam, ainda, que quem utiliza sistemas de IA tem de informar as pessoas quando estas são expostas a: ferramentas de reconhecimento de emoções e de categorização biométrica; a deepfakes; a publicações de textos sobre questões de interesse público sem revisão humana ou controlo editorial.

“A inteligência artificial generativa permite criar desinformação numa escala sem precedentes, adaptada a públicos específicos e difundida a uma velocidade impressionante”, afirmou um responsável da UE, o qual explicitou que, estando a IA a tornar “cada vez mais difícil, para todos nós, distinguir o que é real do que é sintético”, as regras da UE procuram “preservar a capacidade de os cidadãos confiarem no que veem, ouvem e leem”.

Motivo particular de preocupação, para a UE, são os deepfakes, textos, imagens, vídeos e sons que parecem reais, mas que são gerados ou manipulados por IA.

As regras abrangem conteúdos produzidos para fins profissionais, não sendo abrangidos, segundo a UE, particulares que utilizem IA apenas em contexto pessoal. Já textos que pretendam informar o público sobre temas de interesse geral também terão de ser rotulados, se forem criados com recurso a IA, sem supervisão editorial humana.

Os sistemas de IA já existentes têm até 2 de dezembro de 2026 para se adaptarem às novas regras, mas há exceções para trabalhos “artísticos, criativos, satíricos, ficcionais”.

A UE tem sido criticada por impor mais exigências às empresas e por estipular regras que, face ao uso crescente e generalizado da IA, na Europa, poderão acabar por obrigar a rotular, praticamente, todos os conteúdos. “Temos ouvido que vai ser muito, muito difícil de aplicar. Mas penso que isso é algo que ouvimos, muitas vezes, quando há novas obrigações de conformidade. E, no entanto, o Mundo continua a girar e acabamos por encontrar soluções”, afirmou Ashley Casovan, da International Association of Privacy Professionals.

Os gigantes tecnológicos mundiais já começaram a aplicar os seus próprios rótulos, antecipando-se às regras. Por exemplo, o TikTok exige, há vários anos, que os criadores de conteúdos identifiquem imagens, sons e vídeos gerados por IA, e afirma que mais de três mil milhões de conteúdos já estão rotulados, graças a ferramentas e a tecnologia de deteção.

Da mesma forma, a Meta introduziu a menção “AI Info” no Instagram e no Facebook, para publicações que recorrem à tecnologia.

A Google assinou o código de conduta da UE sobre transparência em IA e diz estar a trabalhar com empresas, como a Nvidia, a OpenAI e a Apple, em ferramentas de marcação digital. Todavia, Karen Massin, da Google, alerta que a complexidade regulamentar pode ser contraproducente e “corre o risco de confundir as pessoas que estas regras pretendem ajudar”. “Se os conteúdos online forem inundados de rótulos de IA sobrepostos e avisos legais, torna-se mais difícil para as pessoas obterem o contexto claro de que precisam”, adverte.

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Também Portugal tem vindo a preparar-se para acolher as novas regras, com a consciência dos riscos da IA. Com efeito, a IA facilita a vida em mil aspetos, mas, por trás dessa ajuda invisível, esconde-se o lado menos inocente, o nascimento dos deepfakes: falsificações tão realistas que transformam a mentira em verdade, diante dos nossos olhos.

Um estudo da iProov, realizado em 2025, revela que 74% das pessoas manifestou preocupação com o impacto social dos deepfakes; 22% dos inquiridos admitiu nunca ter ouvido falar do termo deepfake; e 49% afirmou sentir menos segurança nas redes sociais desde que soube da existência destes conteúdos falsos (perda de confiança).

O termo deepfake junta, por amálgama e por abreviação, dois termos e conceitos: deep learning (aprendizagem profunda, um ramo da IA) e fake (falso). Trata-se de conteúdos (vídeos, áudios ou imagens) criados ou manipulados com recurso à IA, de modo tão convincente que parecem autênticos. Este tipo de tecnologia tem duas faces. De um lado, há aplicações positivas, como no cinema ou na publicidade, que se usam para rejuvenescimento de atores ou para criação de efeitos especiais. Do outro, há o lado sombrio: manipulações feitas, para enganar, para difamar, para extorquir ou para espalhar desinformação.

Por trás dos deepfakes está um tipo de IA que “aprende” a imitar padrões humanos; analisa milhares de imagens ou de gravações reais, para perceber como alguém fala, se movimenta ou expressa emoções; e, depois, utiliza tal informação para gerar novas versões: falsas, mas incrivelmente realistas. Tal processo acontece, através de duas redes neurais que trabalham em conjunto: uma cria o conteúdo falso e a outra tenta detetá-lo. É o jogo constante entre criador e verificador, em que cada tentativa aperfeiçoa o resultado. Com o tempo, os vídeos tornam-se tão perfeitos que os especialistas têm dificuldade em distinguir o real do manipulado.

Os mais comuns são os deepfakes em vídeo, onde o rosto ou o corpo de uma pessoa é substituído pelo de outra. É o tipo de manipulação mais partilhado e o mais perigoso, porque combina imagem, voz e movimento. Porém, deepfakes de áudio clonam a voz de alguém, com base em pequenas amostras gravadas, bastando poucos segundos para reproduzirem timbre, ritmo e emoção, com espantosa precisão.

Por exemplo, quando uma voz familiar pede uma transferência urgente de dinheiro, a voz é igual, as expressões são as mesmas, mas pode não ser quem se pensa. Os deepfakes de voz e de vídeo reproduzem tons, pausas e emoções reais. Por isso, nestes casos, nunca se deve agir de imediato, mas fazer uma pausa, desligar e confirmar o pedido por outro canal, ligando, diretamente, à pessoa em causa ou enviar uma mensagem por um número que já se conhece. Se o pedido for legítimo, a pessoa compreenderá. Porém, se for um deepfake, evitou-se uma burla.

Há, ainda, os deepfakes de imagem, que fabricam rostos ou fotografias inteiras que nunca existiram. Muitas vezes, são usados, de forma abusiva, como no caso da pornografia não consensual ou na criação de perfis falsos nas redes sociais.

O impacto dos deepfakes vai muito além de vídeos manipulados. É fenómeno que mexe com a confiança. E, quando a confiança se quebra, tudo o resto fica em causa. Nas redes sociais, estas falsificações são terreno fértil para a desinformação. Um político pode ser apanhado a dizer algo que não disse, ou uma figura pública pode ser alvo de difamação. É a erosão da credibilidade das instituições e a criação de dúvidas sobre tudo o que se vê e ouve.

No mundo empresarial, o perigo é, igualmente, real. Em 2024, uma empresa britânica perdeu 25 milhões de dólares, após os funcionários terem sido enganados numa videochamada, onde todos os participantes (inclusive, o diretor financeiro) eram falsificações criadas por IA.

E há, ainda, a dimensão mais íntima: a utilização de deepfakes para criar pornografia sem consentimento. Rostos de pessoas (muitas vezes, mulheres e até menores) são sobrepostos a corpos alheios, em vídeos sexualmente explícitos que circulam na Internet sem controlo. Além do dano psicológico, as consequências legais e reputacionais são devastadoras.

Detetar um deepfake é como jogar um jogo de diferenças, cada vez mais difícil. Contudo, há pequenos sinais que denunciam o falso. Por conseguinte, há que abrandar, observar com calma e deixar que o cérebro faça o que a IA ainda não domina: reparar nos pormenores.

Algo bem feito engana, mas raramente é perfeito. Escapam alguns detalhes (e “o diabo está nos detalhes”), tais como: luz e sombras fora do sítio (rosto a parecer iluminado de modo diferente do fundo ou sombras a moverem-se de forma estranha); pele demasiado lisa ou com brilho artificial (texturas “plastificadas” ou a mudar, ligeiramente, entre frames, isto é, imagens fixas individuais que, juntas e em sequência rápida, criam a ilusão de movimento); expressões faciais pouco naturais (movimentos labiais, sobrancelhas ou olhos que não combinam com a emoção do momento); olhos que não piscam ou piscam de jeito estranha (foi o erro favorito das falsificações; as versões recentes piscam, mas, muitas vezes, de modo mecânico e repetitivo); e cortes bruscos ou falhas de continuidade (pequeno salto no vídeo, mudança súbita de ângulo ou transição demasiado perfeita).

Nenhum destes sinais é garantia absoluta, mas juntos ajudam a afinar o olhar para distinguir o real do fabricado.

As vozes clonadas são cada vez mais convincentes, mas têm falhas subtis. É de reparar em respirações e pausas pouco humanas (falta de fôlego, silêncios muito curtos ou ritmo quase robótico); entoação plana ou emocionalmente neutra (os deepfakes de voz captam, raramente, variações naturais, como hesitações, risos e suspiros); ruído de fundo incoerente (se o som ambiente não condiz com o local: por exemplo, voz de “gabinete” com eco de sala grande), algo estará errado); e respostas imediatas, sem tempo de reação (os deepfakes de voz gerados por IA respondem, quase instantaneamente: rapidez que soa mais a máquina do que a pessoa).

Em Portugal, não há lei específica sobre deepfakes, mas várias normas permitem agir: o Código Civil protege o direito à imagem; o Código Penal abrange crimes, como burla, difamação ou falsidade informática; e o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados RGPD trata a imagem e a voz como dados pessoais, o que torna ilegal a sua utilização, sem consentimento.

A nível europeu, o Regulamento da Inteligência Artificial (AI Act) exige que os conteúdos gerados por IA sejam claramente identificados; e o Regulamento de Serviços Digitais (DSA) obriga as plataformas a detetarem e removerem, rapidamente conteúdos falsos.

Até à entrada em vigor total do AI Act, o que já aconteceu, Portugal continua a aplicar aos casos de falsificação digital as leis civis, penais e de proteção de dados.

Não é preciso ser perito em tecnologia para se proteger. Basta algum sentido crítico, calma e curiosidade. E pequenas atitudes fazem a diferença: desconfiar do “urgente”; verificar a fonte; observar com calma; recorrer a ferramentas de verificação (plataformas, como o TrueMedia, o Deepware ou o DeepFake-o-Meter, analisando vídeos e calculando a probabilidade de manipulação, ajudam a confirmar suspeitas e a evitar partilhas precipitadas); proteger cada um a sua privacidade; e cultivar o olho crítico em casa.

Quanto menos fotos e vídeos pessoais estiverem disponíveis online, mais difícil será alguém usá-los para criar deepfakes. São, pois, de evitar publicar conteúdos íntimos, sobretudo de crianças, e rever as definições de privacidade nas redes sociais. A literacia digital é o escudo mais eficaz. Conversar com familiares sobre o tema e incentivar todos a fazerem perguntas simples, antes de acreditar em algo, são precauções acessíveis a toda a gente.

Em Portugal, quase metade das pessoas não sabe como denunciar um deepfake. Isso mostra que, além de tecnologia e das leis, é preciso reforçar a literacia digital. Por exemplo, se alguém for vítima, importa que aja, rapidamente: guardar provas (links, capturas de ecrã, datas e ficheiros) e apresentar queixa na Polícia Judiciária (PJ), através do portal qe.pj.pt; ou contactar a Linha Internet Segura (800219090) ou recorrer ao site Queixa Eletrónica.

Também as instituições financeiras têm papel relevante na proteção contra os deepfakes. Efetivamente, os deepfakes abriram a via a um novo tipo de fraude digital, mais sofisticada e mais difícil de detetar. Para enfrentar esta realidade, a banca está a combater a nova geração de burlas com a mesma arma que as origina, a tecnologia, ou seja, monitorizando transações com recurso a IA capaz de identificar padrões anómalos: valores fora do habitual, pedidos urgentes, horários invulgares ou destinatários recentes. Estes sistemas não substituem o olhar humano, mas acrescentam uma camada de proteção que funciona 24 horas, por dia.

Para reduzir o risco de burlas baseadas em deepfakes, a banca está a investir em tecnologias de verificação de “vivacidade”: mecanismos que distinguem uma pessoa real de uma imagem ou voz gerada por IA. E está a reforçar os processos de autenticação multifator, exigindo mais do que um simples código ou confirmação num clique, para validar operações sensíveis.

Além disso, promove a educação dos clientes sobre riscos digitais, por meio de campanhas de literacia digital e financeira, que alertam para esquemas de fraude, explicam como reconhecer pedidos suspeitos e incentivam à verificação por outro canal, aliás como indicado supra.

Nunca se devem partilhar dados e deve fazer-se confirmação, sempre, por outro canal. Pode parecer um pedido ou sugestão real, mas é conveniente verificar sinais suspeitos na imagem ou linguagem usados, pois pode ser falso. Porém, apesar da literacia pessoal, não é dispensável a consulta das entidades públicas ou privadas especialistas em cada matéria.

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Esta legislação, aprovada em 2024, atinge, agora, um marco crucial para garantir que os cidadãos sabem quando estão a interagir com tecnologias automatizadas, a ler textos e a ver imagens geradas por IA.

A lei já proíbe, desde 2025, práticas, como o uso da IA, para enganar ou manipular pessoas e para explorar vulnerabilidades associadas à idade ou a situações de deficiência, assim como veta o uso da tecnologia para reconhecimento de emoções, em escolas e no ambiente e trabalho, e impõe limitações estritas ao uso de dados biométricos. Doravante, as empresas de IA que operam na UE devem seguir obrigações específicas de divulgação para preservarem a confiança e a segurança dos utilizadores. O incumprimento dessas normas pode resultar em sanções severas, com multas que chegam a 3% da faturação global anual da empresa ou até 15 milhões de euros, prevalecendo o valor que for maior. Em casos graves, que envolvem os “riscos inaceitáveis”, a multa pode chegar a 7% da faturação anual.

O órgão europeu fiscalizador pode solicitar documentação técnica, realizar avaliações e inspeções diretas nos modelos de IA, exigir medidas corretivas às empresas e impor restrições à implantação de novos modelos de IA.

A UE exclui do seu principal regulamento civil, o AI Act, as aplicações militares de defesa e de segurança nacional, deixando a gestão sob a alçada soberana de cada estado-membro. Porém, o Parlamento Europeu (PE) defende diretrizes éticas restritas, exigindo supervisão humana e apelando à proibição internacional de sistemas de armas letais autónomas.

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Irá a IA, na Europa, doravante, caminhar sobre rodas?

2026.08.03 – Louro de Carvalho


domingo, 2 de agosto de 2026

Crise migratória em Ceuta está a ter consequências desproporcionadas

 

No dia 1 de agosto, segundo as autoridades espanholas, quase todos os cerca de 60 mil migrantes que entraram no exclave espanhol de Ceuta tinham regressado a Marrocos. “A situação está quase totalmente invertida”, declarou aos jornalistas o ministro do Interior de Espanha, Fernando Grande-Marlaska.

Sob a vigilância de militares e de policiais espanhóis, os jovens migrantes continuavam, na manhã daquele dia, a atravessar de volta a fronteira para Marrocos. Para entrarem em Ceuta, muitos tinham contornado, a nado, a pequena barreira fronteiriça que se estende para o Mediterrâneo. De acordo com o ministro do Interior de Espanha, pelo menos, 72 pessoas (o número subiu para 88) morreram na tentativa, entre as quais algumas se afogaram e outras perderam a vida em debandada para atravessarem uma barreira de quebra-mar.

Um pequeno grupo de migrantes exaustos que chegou, a nado, à praia urbana do Tarajal, em Ceuta, na manhã do dia 1, foi intercetado por militares que os acompanharam de volta, através da fronteira. “Os acontecimentos exigem uma avaliação, por parte de Espanha e de Marrocos. […] Mas foi a cooperação com os seus vizinhos que permitiu à Espanha “reverter a situação, em 24 horas”, observou Grande-Marlaska, sustentando que “Marrocos não é uma ameaça para Ceuta, nem para o resto de Espanha, mas um parceiro fiável”, e anunciou a instalação de uma barreira de contenção de 500 metros, na fronteira marítima entre Ceuta e Marrocos.

Ceuta, um território de 18,5 quilómetros quadrados, e o exclave vizinho de Melilha constituem as únicas fronteiras terrestres da Europa com a África. Ceuta fica a cerca de 25 quilómetros da costa da Espanha continental. Não é claro o que desencadeou este afluxo, mas, dias antes de começar, as redes sociais estavam cheias de publicações a encorajar marroquinos a tentarem entrar em Ceuta, segundo Myriam Cherti, investigadora sénior no Centro sobre Migração, Política e Sociedade da Universidade de Oxford.

As mensagens informavam sobre como atravessar a fronteira e o que os migrantes deveriam dizer para aumentarem a probabilidade de ficarem. E Myriam Cherti contou que alguns dos que entrevistou, no último ano, já perderam a conta às vezes que tentaram atravessar a fronteira. Fazem-no por desespero, porque já tentaram outras formas de construírem a vida e fracassaram e porque sentem a obrigação de ajudar as famílias e de as sustentar. “E isso é possível, se conseguirem chegar à Espanha, e não necessariamente possível, se ficarem em Marrocos”, frisou Myriam Cherti.

Um dos candidatos (de 42 anos) à travessia que ganha 10 euros, por dia, a trabalhar, em turnos de 12 horas, como segurança, disse que o motivava a possibilidade de visitar a mãe, doente, a viver em Madrid. Mesmo não havendo comida, nada de nada, aguenta, para ver a mãe. Dos restantes que tentam a travessia, afirmou: “Toda a gente quer subir na vida, quer um bom futuro, algo que não existe em Marrocos.”

Outras vagas de migração já ocorreram em períodos de tensão entre a Espanha e Marrocos, incluindo em 2021, quando mais de 10 mil migrantes entraram em Ceuta, em dois dias.

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O rei Felipe VI manifestou indignação com a chegada de dezenas de milhares de cidadãos marroquinos a Ceuta, a nado, nos últimos dias. A mensagem da Casa Real foi divulgada na imprensa que sublinhou que o rei exprimiu a sua “grande preocupação e indignação”.

Poucas horas depois de o governo ter dado o incidente por resolvido, com o envio de mais de 50 mil pessoas de nacionalidade marroquina para o seu país, o monarca emitiu um comunicado acerca dos “graves acontecimentos”, vincando que o Estado deve garantir a segurança das cidades com estatuto autónomo e impedir que se repitam incidentes como este.

Apesar de se encontrar em Palma (onde a sede do chefe de Estado está, agora, estabelecida), o rei esteve em contacto com os presidentes dos executivos dos territórios autónomos, com o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, e com o líder da oposição, Alberto Núñez Feijóo. A todos transmitiu “palavras de encorajamento e força”, segundo o jornal El País.

A partir de Palma, o chefe de Estado espanhol, que acompanha a situação, com a sua equipa, acredita ser “necessário adotar todas as medidas que transmitam, de forma unida, clara e decisiva às populações de Ceuta e de Melilla, o apoio e o carinho do resto da Espanha”.

De acordo com o jornal El Mundo, Felipe VI nunca, durante o seu reinado, visitou os enclaves espanhóis de Ceuta e de Melilla, à semelhança do pai, o rei Juan Carlos, que só as visitou após sua abdicação. E não terá contactado o rei Mohammed VI, de Marrocos, em nenhum momento, no curso desta controvérsia diplomática.

Os dados mais recentes do Ministério do Interior dão conta de mais de oito dezenas mortes de migrantes (88), em consequência da entrada em massa. E mais de 50 mil das quase 60 mil pessoas que chegaram de Marrocos já regressaram ao país africano.

Os ministros do Interior da União Europeia (UE) reunir-se-ão, por videoconferência, a 5 de agosto, para abordarem a crise migratória. Entretanto, as autoridades espanholas estão a pôr barreiras de contenção no quebra-mar de Tarajal, e as forças de segurança marroquinas bloquearam os recentes grupos que tentavam chegar a Ceuta provindos de Castillejos.

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A crise migratória em Ceuta desencadeou um caso político entre a Itália e a Espanha. Após a notícia da chegada de milhares de migrantes ao exclave espanhol, o governo de Giorgia Meloni anunciou o reforço dos controlos fronteiriços para chegadas, por mar e por via aérea, provenientes da Espanha. Para tanto, restabeleceu os controlos para cidadãos que chegam de Espanha, após o início da crise em Ceuta. E vários meios de comunicação falaram, a 31 de julho, de suspensão do Acordo de Schengen, por parte de Roma, em relação à Espanha, porque, em mensagem, no X, Giorgia Meloni escreveu que “o governo decidiu suspender, temporariamente, o regime de livre circulação previsto por Schengen, nas ligações marítimas e aéreas com a Espanha, reintroduzindo os controlos de fronteira”.

O Acordo de Schengen prevê o restabelecimento de controlos, em caso de ameaça grave para a ordem pública ou para a segurança interna, mecanismo que a Itália aplica, há mais de um ano, na fronteira com a Eslovénia, para cidadãos provenientes de países terceiros, o que o ministro do Interior, Matteo Piantedosi, considera “importante, mas de natureza cautelar”.

A Itália reintroduziu controlos de fronteira com a Espanha, em derrogação das regras de Schengen, já que nenhum país pode, unilateralmente, excluir outro da área de livre circulação. Porém, Matteo Piantedosi disse que se trata do restabelecimento, por um mês, dos controlos nas fronteiras marítimas e aéreas com a Espanha e que é ação “especialmente dirigida a verificar a regularidade da circulação de cidadãos de países terceiros na área Schengen”.

Desde a manhã do dia 1, a polícia aeroportuária realizou controlos aleatórios nos aeroportos de Roma Fiumicino, de Milão Malpensa e de Milão Linate. Aos cidadãos da UE bastou apresentar o documento de identificação, enquanto os de países terceiros tiveram de apresentar, além de um documento de identificação, a autorização de residência ou visto válido. Já para os cidadãos que partem da Itália para a Espanha, nada muda e são livres de entrar no país.

Esta decisão provocou fortes reações das autoridades espanholas. O chefe do governo espanhol, Pedro Sánchez, enviou carta ao presidente do Conselho Europeu, António Costa, e à presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, pedindo a intervenção de Bruxelas de apoio à Espanha e para voltar a alinhar os países da UE nas estratégias de contenção da crise migratória. Em paralelo, as primeiras-ministras italiana e a dinamarquesa (Mette Frederiksen) enviaram carta às autoridades europeias, coassinada por 22 líderes dos estados‑membros, a pedir uma reunião para discutirem medidas urgentes contra a imigração irregular.

Na tarde do dia 1, Ursula von der Leyen escreveu, nas redes sociais, que manteve conversações com os comissários Brunner e Šuica, para discutir a crise, em Ceuta, explicando que a maioria dos migrantes que chegaram, irregularmente, ao exclave já foi repatriada e que nenhum dos migrantes provindos de Marrocos chegou à Espanha continental, nem a outros países da UE. Por isso, reiterou a necessidade de reforçar a resiliência europeia e manifestou a disponibilidade para participar na videoconferência solicitada pelos líderes europeus, sob o presidente em exercício do Conselho da União Europeia, Micheál Martin, primeiro-ministro da Irlanda.

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Entretanto, a partir da sua residência oficial, o chefe do governo de Espanha partilhou, no Instagram e no TikTok, uma lista de 31 músicas para o verão, numa altura em que Ceuta continua a gerir a chegada de dezenas de milhares de migrantes. Sentado num sofá branco, com o telemóvel na mão, gravou um vídeo, em que anuncia a playlist que abrange géneros muito diferentes, do pop ao urbano, passando pelo rock indie. Entre os temas que destaca, pessoalmente, estão “El Baifo”, de Quevedo, um dos singles mais escutados do último trabalho do artista canário; “Spring Summer 26”, da britânica Charli XCX; e “Tantas Cosas”, da espanhola Melani.

A publicação gerou críticas, incluindo as de Dolors Montserrat, presidente Partido Popular Europeu (PPE), por surgir em altura delicada para Ceuta, pois, segundo o Ministério do Interior, dezenas de milhares de pessoas atravessaram a partir de Marrocos nos últimos dias, num dos maiores episódios de entrada irregular em território da UE.

O surto migratório ultrapassou a capacidade de acolhimento local, obrigou à deslocação de unidades do Exército, ao reforço da Guardia Civil e gerou tensões diplomáticas com parceiros europeus, como a Itália, que equacionou a suspensão de Schengen com a Espanha.

Horas antes da publicação do vídeo, Sánchez tinha visitado Ceuta (onde foi apupado) e classificado o que aconteceu como “um ataque à integridade de Espanha”, responsabilizando as redes de tráfico de pessoas, embora haja informação de avisos dos serviços de informação sobre este perigo. Contrasta o tom institucional dessa mensagem com o registo leve do vídeo musical, um dos aspetos mais destacados nas reações posteriores.

Os críticos da publicação questionaram a oportunidade do momento escolhido. A presidente do PPE foi muito dura nas suas declarações, garantindo sentir “vergonha como espanhola” por um presidente [Sánchez] que dedica tempo a recomendações musicais “na pior crise migratória da história”. Dolores Montserrat qualificou a atitude do chefe do executivo de “insensibilidade” e de “decadência moral”.

Não é inédito este tipo de conteúdo na estratégia de comunicação de Moncloa. Em ocasiões anteriores, coincidindo com momentos de tensão social ou de desgaste parlamentar, a conta oficial de Sánchez recorreu a publicações informais, comentando livros, séries ou tendências do TikTok, para projetar uma imagem próxima e para desviar a atenção da atualidade política mais complexa. Porém, não se sabe se a publicação resultou de infeliz coincidência na programação de conteúdos, nas redes sociais, ou se integra a estratégia de alimento da crispação. Porém, analistas de comunicação política assinalam que o padrão responde a uma estratégia deliberada de ligação a públicos jovens, embora o momento escolhido costume gerar polémica, o que se pode verificar nos comentários à publicação, tanto no Instagram como no TikTok.

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Por cima desta crise migratória, a 2 de agosto, o presidente dos Estados Unidos da América (EUA) reafirmou a posição do seu país de apoio à soberania de Marrocos sobre o Saara Ocidental, classificando qualquer via alternativa para resolver o conflito, que se arrasta há décadas, como inaceitável. Ao mesmo tempo, sublinhou a necessidade de pôr fim imediato ao conflito e garantiu que o seu país continua a apoiar os esforços para esse objetivo.

Donald Trump enviou uma mensagem ao monarca marroquino, o rei Mohammed VI, em que reiterou a firme posição pública de Washington, quanto ao reconhecimento da soberania de Marrocos sobre o território e ao apoio à proposta marroquina de autonomia, considerando-a “séria, realista e única capaz de pôr termo ao conflito, de forma justa e duradoura”. E sublinhou que a manutenção do status quo sem solução é “inaceitável” e que a concretização desta solução permitirá “alcançar prosperidade e reforçar a integração entre os países do continente africano”.

O início da mudança no rumo das relações marroquino-americanas remonta a dezembro de 2020, quando Trump declarou reconhecer a soberania de Marrocos sobre o território do Saara Ocidental. Esse reconhecimento integrou um acordo pelo qual Rabat aceitou normalizar as relações com Israel, juntando-se ao grupo de países signatários dos Acordos de Abraão.

Além da dimensão diplomática, a Casa Branca destacou o papel de Marrocos no reforço da segurança regional, classificando o reino como parceiro na luta contra o terrorismo e na resposta aos desafios da segurança internacional, e anunciou o alargamento da cooperação operacional entre os dois países no Noroeste de África, garantindo que Washington e Rabat trabalharão, em conjunto, com vista ao reforço da segurança no Sahel.

Continua o dossiê do Saara Ocidental, rico em recursos naturais, como fosfatos e recursos piscatórios, a ser questão delicada na cena diplomática do Norte de África e uma das fontes do diferendo com a vizinha Argélia, que apoia a Frente Polisário, na independência da antiga colónia espanhola. Marrocos pretende uma solução assente na atribuição ao território de amplas competências de autonomia, sob a soberania de Rabat, mas a Frente Polisário insiste na realização de referendo em que a população local decida sobre o seu futuro.

O conflito remonta a 1975, quando Espanha pôs termo à ocupação do território, após mais de nove décadas de controlo (1884-1975). Com a retirada das forças de Madrid, intensificaram-se as tensões e evoluíram para o conflito armado entre Marrocos e a Frente Polisário, até ao acordo de cessar-fogo, em 1991, sob a égide das Organização das Nações Unidas (ONU).

Rabat encara o Saara Ocidental como parte integrante do seu território nacional, invocando laços históricos com a região, incluindo relações de vassalagem que ligavam os chefes tribais saarauís à dinastia alauíta. E a Argélia apoia a Frente Polisário, que proclamou a criação da “República Saarauí”, em 1976, e considera a questão ligada ao princípio da autodeterminação e ao fim do que descreve como uma etapa colonial.

Em 2025, coincidindo com o 50.º aniversário da Marcha Verde, com cerca de 350 mil civis marroquinos a participarem, em 1975, na marcha de Agadir rumo à parte Sul do território sob controlo espanhol, o Conselho de Segurança da ONU aprovou uma resolução que julga a autonomia sob soberania marroquina “a base mais séria” para a solução do conflito. E o rei de Marrocos afirmou que o reino entrou numa “fase decisiva da sua História moderna”, acrescentando: “Chegou a hora de um Marrocos unido”.Parte inferior do formulário

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A extrema-direita europeia empola a situação gerada pelas máfias e pelo aventureirismo; Sanchez alterna sentido de Estado com diletantismo comunicacional; a Itália não tem moral para uma atitude unilateral, face a este surto, que a Espanha resolveu; e Trump foi oportunista, de novo. Porém, urge resolver esta crise humanitária, ambiental, de segurança e colonial.

2026.08.02 – Louro de Carvalho


A dádiva providente do Senhor é universal e não falha

 

A liturgia do 18.º domingo do Tempo Comum no Ano A mostra-nos o convite de Deus a que nos sentemos à mesa que Ele preparou e onde nos oferece, gratuitamente, o alimento que sacia a nossa fome de vida, de felicidade, de eternidade.

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Na primeira leitura (Is 55,1-3), Deus convida o Povo a sair da terra da escravidão para a terra da liberdade – a Jerusalém nova do encontro, da justiça, do amor e da paz. Aí, Deus saciará, em definitivo, a fome do Povo e oferecer-lhe-á, de graça, a vida em abundância.

Em 597 a.C., no reinado de Joaquin, os babilónios derrotaram os exércitos de Judá, conquistaram Jerusalém e deportaram para a Babilónia uma primeira leva de exilados, escolhidos de entre a classe dirigente de Judá. Porém, esse grupo acreditava que o Exílio não estava para durar e que, em breve, regressariam. Ao invés, o profeta Jeremias desfez essas falsas esperanças, anunciando que o desterro se prolongaria e convidou-os a refazerem a sua vida na Babilónia (“edificai casas e habitai-as; plantai pomares e comei os seus frutos. Casai, gerai filhos e filhas, casai os vossos filhos e filhas, para que tenham filhos e filhas. Multiplicai-vos, em vez de diminuirdes. Procurai o bem do país para onde vos exilei e rogai por ele ao Senhor, porque só tereis a lucrar com a sua prosperidade” – Jr 29,5-7). Os exilados adaptaram-se à situação e lançaram as bases para uma permanência prolongada na Babilónia.

Em 586 a.C., surgiu nova catástrofe: Jerusalém foi reconquistada pelos babilónios e arrasada completamente. Os que tinham escapado da deportação foram levados cativos para a Babilónia e juntaram-se aos seus irmãos exilados. Foram tempos de desolação e de sofrimento. A cidade santa, estava reduzida a um montão de ruínas; à frustração pela humilhação nacional, juntava-se a dúvida sobre se Javé seria o Deus libertador, como anunciava a teologia e a catequese de Israel. Para alguns dos exilados já nada importava, porque o quadro de referência que dava segurança ao Povo tinha sido subvertido. Enquanto alguns sonhavam com a libertação e com o regresso, muitos lançaram as bases materiais para se enraizarem na Babilónia.

O Exílio prolongou-se até 539 a.C., quando Ciro, rei dos Persas, tomou a Babilónia e deu aos exilados a possibilidade de retornarem à sua terra de origem. Todavia, é no contexto do Exílio que aparece o Deuteroisaías, profeta anónimo cuja mensagem nos é oferecida nos capítulos 40-55 do Livro de Isaías. O profeta esforça-se por consolar os exilados, anunciando a libertação, o regresso e a reconstrução de Jerusalém.

O trecho em referência apresenta-nos as últimas palavras do “livro da consolação”. Depois de um oráculo que anuncia a restauração de Jerusalém, o profeta procura dar aos exilados razões para regressarem à cidade santa. Assim, convida-o a cumprirem um novo êxodo, deixando a terra da escravidão e dirigindo-se ao encontro da terra da liberdade – a Jerusalém nova que Deus vai reconstruir e onde Judá redescobrirá o Deus libertador, que derrama sobre o seu Povo, gratuita e abundantemente, a justiça, a prosperidade, a abundância, a paz sem fim. O profeta representa esse quadro de salvação, através da imagem de um banquete: em Jerusalém, à volta da mesa de Deus, esse Povo sofredor, desolado, carente, faminto, encontrará trigo, “vinho”, “leite” e “manjares suculentos”. Não será fácil enfrentar uma terra devastada e começar tudo, de novo. Seguindo Jeremias, muitos construíram casas, refizeram as suas vidas, lançaram as suas raízes no solo babilónico e consolidaram existências tranquilas e cómodas. A referência ao gastar “o dinheiro no que não alimenta” e “o trabalho no que não sacia” sugere o facto de muitos exilados preferirem continuar na Babilónia a arriscar o regresso a uma terra desolada e sem futuro.

Porém, o profeta da consolação adverte que urge a coragem de arriscar, de se desinstalar, de partir ao encontro do sonho. A quem for capaz de sair dos seus esquemas e abrir o coração ao dom, Deus oferecerá, gratuita e incondicionalmente, a vida em abundância, a felicidade infinita. Aos dispostos a deixarem certezas e seguranças, para partirem ao encontro do seu chamamento, Deus oferecerá a aliança eterna, que nada nem ninguém pode romper. Quem aceitar o dom de Deus encontrará a água que mata a sede de vida e o alimento que sacia a fome de felicidade e viverá nova relação com Deus e integrará a comunidade do Povo de Deus.

***

O Evangelho (Mt 14,13-21) apresenta-nos Jesus, o novo Moisés, com a missão de realizar a libertação do seu Povo. Numa refeição, Jesus mostra aos discípulos que é preciso acolher o pão que Deus oferece e reparti-lo com todos os homens. Assim, os membros da comunidade do Reino fugirão da escravidão do egoísmo e alcançarão a liberdade do amor.

No capítulo 13 do Evangelho de Mateus, começa a secção da “instrução sobre o Reino” (cf. Mt 13,1-17,27). Na primeira parte (cf. Mt 13,1-52), Jesus apresentou, em parábolas, o Reino (como se viu nos domingos anteriores). A segunda parte (cf. Mt 13,53-17,27) responde à questão como é que os interlocutores de Jesus reagiram, frente a essa apresentação viva, popular, interpeladora. Em geral, a comunidade judaica responde, negativamente, ao desafio apresentado por Jesus. Ante a recusa, Jesus volta-Se, cada vez mais decisivamente, para o pequeno grupo dos seguidores – os discípulos – que se vai definindo, cada vez mais, como a comunidade do Messias, acolhendo as propostas de Jesus e aceitando o Reino. As multidões continuam a seguir Jesus; mas, cada vez mais, é aos discípulos que Jesus Se dirige e a quem destina a “instrução”.

O trecho em apreço situa-nos no âmbito de uma refeição, a seguir ao ensinamento de Jesus à multidão. O banquete é, para os semitas, o momento do encontro, da fraternidade, em que os convivas estabelecem entre si laços de familiaridade e de comunhão. É, portanto, símbolo do Mundo novo que há de vir e no qual todos os homens se sentarão à mesa de Deus, para celebrarem a fraternidade, a igualdade e a felicidade sem fim. Torna-se, pois, um símbolo privilegiado do Reino para o qual Jesus veio convidar os homens.

Na introdução ao episódio, o evangelista anota que Jesus Se retirou para o deserto, seguido por “grande multidão”; e que, impressionado pela fome de vida de toda essa gente, Se encheu “de compaixão e curou os seus doentes”. Contrariou, assim, pela sua enorme compaixão, a tendência para a indiferença, para o desinteresse generalizado (incluindo dos poderes políticos – a multidão “era como ovelhas sem pastor”), em relação aos que sofrem privações e doenças.

Mateus quer sugerir que Jesus é um novo Moisés, cuja missão é libertar o seu Povo da escravidão, a fim de o conduzir à terra da liberdade e da vida plena, pelo deserto da vida.

O deserto é, para Israel, o tempo e o espaço do encontro com Deus; aí, Israel aprendeu a despir-se da autossuficiência, das seguranças e das certezas humanas, para descobrir que cada passo em direção à liberdade, cada pedaço de pão caído do céu, cada gota de água que brota de um rochedo, é um “milagre” que é preciso agradecer ao amor de Deus. Tudo é dom de Deus, que o Povo deve acolher de coração agradecido. O deserto é também o lugar e o tempo da partilha, da igualdade, em que cada membro do Povo conta com a solidariedade do resto da comunidade, onde não há egoísmo, injustiça, prepotência, açambarcamento dos bens que pertencem a todos, e em que todos dão as mãos para superarem as dificuldades da caminhada (no deserto, quem é egoísta, autossuficiente e não aceita contar com os outros, está condenado à morte).

É esta experiência que Jesus vai convidar os discípulos a fazer. Vai ensinar-lhes que tudo é um dom e que os dons de Deus são para partilhar, para colocar ao serviço dos irmãos. É deste processo libertador – que leva do egoísmo ao amor – que nascerá a comunidade do Reino.

O episódio da multiplicação dos pães apresenta todas as caraterísticas de uma lição, destinada a mostrar como deve viver quem quer aderir ao Reino.

O primeiro momento deste processo pedagógico tem a ver com a constatação da fome do Mundo e com a responsabilização da comunidade do Reino nesse problema. Não se pode estar à espera de que sejam os outros a resolver os problemas, como ninguém se pode furtar a cooperar nessa tarefa, porque é responsabilidade de todos. E ninguém é tão pobre ou tão frágil que não tenha capacidade de cooperar, nem ninguém é tão rico ou tão poderoso que seja capaz de resolver tudo, sem a cooperação de ninguém.

Quando os discípulos pedem a Jesus que mande a multidão embora, para que encontre comida (lavando as mãos, face à situação de necessidade), Jesus indica: “Dai-lhes vós de comer.” Ensina, dessa forma, que têm inalienável responsabilidade, face ao desafio que o Mundo dos pobres, todos os dias, grita. O discípulo de Jesus nunca pode dizer que nada tem a ver com a fome, com a miséria, com as necessidades dos desfavorecidos. Qualquer necessitado – de pão, de alegria, de apoio, de esperança – é responsabilidade dos discípulos de Jesus. A dinâmica do Reino passa pela solidariedade que torna os cristãos responsáveis pelas necessidades dos pobres.

No segundo momento, Jesus ensina como dar resposta a este desafio. Começa por pedir aos discípulos que façam a listagem dos bens disponíveis; depois, perante a inibição por o alimento disponível parecer exíguo aos discípulos, toma os “cinco pães e dois peixes”, recita a bênção e manda repartir por todos os presentes. E todos (cinco mil, sem contar as mulheres e as crianças) comeram até ficarem saciados.

A lição é clara: ante o apelo dos pobres, a comunidade do Reino tem de aprender a partilhar. “Cinco pães e dois peixes” (alimentos diferentes) significam totalidade (“sete”): é na partilha da totalidade (e na diferença) do que se tem que se responde à carência dos irmãos. É uma totalidade fracionada e diversificada, mas que, posta ao serviço dos irmãos, sacia a fome do Mundo. A comunidade do Reino é, pois, não só a comunidade que se sente responsável pela fome dos irmãos, mas também a comunidade de coração aberto, disposta a repartir tudo o que tem. É a comunidade que venceu a escravidão do egoísmo, para fazer a experiência da partilha que sacia e que torna todos os homens irmãos. A multiplicação exige a divisão equitativa.

No terceiro momento, Jesus dá a razão para a partilha. “Tomou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos ao céu e recitou a bênção”. A “bênção” é uma fórmula de ação de graças, na qual se agradece a Deus pelos seus dons. Isso significa, em concreto, reconhecer que algo que se possui é dom de Deus, não para um único homem, nem para uma única família, mas para todos, porque Ele é o Pai de todos, que Se preocupa com todos e que a todos ama da mesma forma. Portanto, “pronunciar a bênção” é reconhecer que determinado dom veio de Deus e que pertence a todos os filhos de Deus. Aquele que recebeu esse dom não é o seu dono, mas apenas administrador a quem Deus o confiou, para que o ponha ao serviço dos irmãos com a mesma gratuitidade com que o recebeu. À comunidade do Reino é proposto que aprenda a considerar os bens postos à sua disposição como dons de Deus Pai, colocando-os, livremente, ao serviço de todos.

Por fim, o Mestre manda recolher as sobras. O dom de Deus não pode ser objeto de desperdício. O que sobra deve ser guardado para nova ocasião de fome ou de sede.

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Comentando este Evangelho, antes da recitação do Angelus com os fiéis reunidos na Praça de São Pedro, Leão XIV disse que “os sinais realizados por Jesus são gestos que manifestam a sua dedicação especial por nós, ou seja, a salvação que Ele traz ao Mundo”. Por isso, “é recordado como Aquele que dá sentido à vida, libertando-a do mal e do pecado”.

“Ao dar a visão aos cegos e a audição aos surdos, Cristo não se limita a realizar milagres, mas anuncia a todos que o Reino de Deus está próximo”, ou seja, os milagres são em função das pessoas e do Reino que Ele anuncia. Por isso, este Evangelho “testemunha que Jesus não se limita a restaurar os sentidos a quem deles carece, mas também dá sabor aos nossos sentidos”. A quem era surdo e ouve, o Senhor dirige a Boa Nova para ser ouvida; a quem era cego e vê, mostra a esplêndida obra da redenção que é realizada por Ele. Da mesma forma, Jesus dá aos que têm fome o alimento para comer: o episódio da multiplicação dos pães significa que o encontro com o Senhor é experiência nutritiva. No deserto, isto é, no lugar da nossa necessidade, “Cristo é o pão da vida”. Com Ele, o essencial é abundante: “Todos comeram e ficaram saciados”. E, com o que sobrou, “encheram doze cestos”. Este número realça que a dádiva do Senhor é universal e que a sua providência para connosco nunca falha.

Cristo sacia, verdadeiramente, a fome da Humanidade, a fome de verdade e de vida. E o seu gesto ensina que nada se desperdiça, quando é partilhado. Ao invés, a acumulação e o desperdício são duas faces do mal da ganância, a doença da alma que faz perder o juízo, porque embriaga de riquezas, ao ponto de ignorar os que choram de fome e clamam de sede. “Assim, ante a opulência das coisas que perecem, estão as mãos estendidas de quem não tem o que comer, as casas incendiadas de quem não tem paz”, sublinha o Pontífice.

No deserto da guerra e da arrogância, vemos a benevolência do Senhor que “ergueu os olhos ao céu”, “pronunciou a bênção”, “partiu os pães e deu-os” aos discípulos, para os distribuírem à multidão. No milagre da caridade, reconhecemos os gestos caraterísticos de Jesus, que têm o ápice na Última Ceia. Aí, o Filho de Deus entrega-nos a sua própria vida, como nosso irmão na humanidade. Por conseguinte, o Papa exorta: “Enquanto saboreamos a graça da Eucaristia, comprometamo-nos a testemunhar a sua beleza nos nossos gestos quotidianos, a começar pela bênção da mesa, quando partilhamos o pão em família e entre amigos. Na companhia de Jesus, também as férias podem tornar-se tempo de serenidade fraterna, envolvendo os que, ao nosso lado, se encontram em necessidade. Peçamos, portanto, à Virgem Maria, mãe atenciosa, que nos faça crescer na caridade, para que a ninguém falte o pão de cada dia.”

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O texto da segunda leitura (Rm 8,35.37-39), concluindo a reflexão paulina sobre a salvação, é um hino ao amor de Deus pelos homens. E esse amor – de que nenhum poder hostil nos pode afastar – explica porque Deus enviou ao Mundo o seu próprio Filho, a fim de nos convidar para o banquete da vida eterna.

Temos acompanhado as ideias de Paulo sobre a salvação: toda a Humanidade vive mergulhada na realidade de pecado, mas a bondade de Deus oferece a todos, de forma gratuita e incondicional, a salvação, que chega ao homem por Jesus Cristo. E Espírito Santo dá ao homem a força para acolher o dom, para renunciar à vida do egoísmo e do pecado (vida “segundo a carne”) e para ascender à situação de “filho de Deus” (vida “segundo o Espírito”).

Acolher a salvação, identificar-se com Jesus e percorrer com Ele a senda do amor a Deus e da entrega aos irmãos (vida “segundo o Espírito”) não é a via fácil, de triunfos e de êxitos humanos; mas é caminho a percorrer, tantas vezes na dor, no sofrimento e na renúncia, enfrentando as forças da morte, da opressão, do egoísmo e da injustiça. Apesar das barreiras a vencer, das nuvens ameaçadoras e dos inúmeros desafios que, dia a dia, se põem ao crente que segue o caminho de Jesus, o cristão pode e deve confiar no êxito final. E porquê?

O apóstolo dá a resposta à questão, perguntando: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” A verdade é que nada pode derrotar aquele que é objeto do amor imenso e imortal de Deus – amor manifestado no movimento que levou Cristo à entrega total da vida para nos pôr na rota da salvação e da vida plena. O crente tem de estar certo de que Deus o ama e que lhe reserva a vida em plenitude, a felicidade total, a comunhão plena com Ele. Assim, pode escolher, com tranquilidade e serenidade, o caminho de Jesus – caminho de dom, de entrega da vida, de amor até às últimas consequências. Pode, como Jesus, lutar contra o egoísmo, a injustiça, a opressão, o pecado; pode gastar a vida nesse combate, sem temer o aniquilamento ou o fracasso; pode enfrentar a perseguição, a angústia, os perigos, as armadilhas dos homens, certo de que nada o pode vencer ou destruir. E, no fim, espera-o a vida plena, que Deus oferece aos que aceitam a sua proposta de amor e caminham em consonância com ela.

Por último, o apóstolo enumera uma série de forças que, na época, se julgavam mais ou menos hostis ao homem. Devemos ver nessa lista, apenas uma forma retórica de sugerir que nada – nem sequer esses poderes que os antigos acreditavam que hostilizavam o homem – será capaz de separar o discípulo do amor de Deus, manifestado em Jesus Cristo.

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Portanto, devemos, com o salmista cantar a nossa gratidão a Deus, que sacia a nossa fome, e advertir que não só de pão vivemos, mas da Palavra de Deus:

“Abris, Senhor, as vossas mãos e saciais a nossa fome.”

“O Senhor é clemente e compassivo, / paciente e cheio de bondade. / O Senhor é bom para com todos / e a sua misericórdia se estende a todas as criaturas.

“Todos têm os olhos postos em Vós / e a seu tempo lhes dais o alimento. / Abris as vossas mãos / e todos saciais generosamente.

“O Senhor é justo em todos os seus caminhos / e perfeito em todas as suas obras. / O Senhor está perto de quantos O invocam, / de quantos O invocam em verdade.”

“Aleluia. Aleluia.”

“Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.”

2026.08.02 – Louro de Carvalho


sábado, 1 de agosto de 2026

A crise migratória de Ceuta e as políticas de migração

 

A 30 de julho, milhares de pessoas cruzaram a fronteira entre Marrocos e o enclave espanhol de Ceuta, no Norte de África Ceuta, contornando, a nado, o pequeno pontão que os separa, com outros milhares a aguardarem vez, para fazerem o mesmo, tendo morrido já, pelo menos, 67 pessoas. Isto aconteceu na sequência do que se passa, há muito tempo.

Nos últimos dez dias, entraram, ilegalmente, entre 1500 e duas mil pessoas naquele território autónomo espanholo, excedendo a capacidade de resposta das autoridades locais. De acordo com vários meios de comunicação social espanhóis, só a 26 de julho, pelo menos, 54 crianças e cerca de 30 adultos enfrentaram o nevoeiro e a agitação marítima e nadaram de Marrocos até Ceuta. E imagens do canal de televisão RTVE mostravam lanchas da Guarda Civil em tentativas de resgate, para salvarem alguns migrantes, enquanto outros nadavam até ao enclave.

As crianças, na maioria de nacionalidade marroquina, foram levadas para centros temporários, em Ceuta, tendo as autoridades pedido ajuda ao governo central, para enfrentarem a situação. E Jesús Vivas, presidente regional de Ceuta, descreveu toda esta situação como uma “emergência humanitária e social absoluta” e exigiu que o executivo espanhol acionasse o “estado de emergência nacional”.

O ministro do Interior, Fernando Grande-Marlaska, viajou para Ceuta, a 31 de julho, para acompanhar a situação, dizendo que Marrocos colabora, de modo “leal e permanente”, com a Espanha. Porém, o governo não pode decretar o estado de emergência, por não estar previsto para crises migratórias. “O governo espanhol está totalmente empenhado em dar resposta imediata à situação em Ceuta […] Estamos a mobilizar todos os recursos necessários, a trabalhar com as autoridades marroquinas e internacionais e a preparar as medidas necessárias para repor a normalidade, o mais rápido possível”, escreveu o primeiro-ministro, no X, frisando que “chegou a hora de construir soluções, com responsabilidade e cooperação”.

Como a Guardia Civil espanhola parecia incapaz de lidar com esta vaga migratória e apelava ao envio de militares para a zona, o governo mobilizou o exército.

O sindicato de polícias Jupol denunciou a “passividade absoluta das autoridades marroquinas”, acusando-as de permitirem que “centenas de pessoas chegassem, a nado, ao território espanhol, sem qualquer ação efetiva para impedir estas partidas”. O governo de Espanha anunciou que há acordo com Marrocos para agilizar os trâmites para deportar os ilegais, mas o Supremo Tribunal espanhol, em decisão proferida no início do mês, concluiu que a Lei da Imigração não permite a aplicação de devoluções a quente aos migrantes que entrem, a nado, em território espanhol, restringindo-as aos casos de intercetados a ultrapassar barreiras fronteiriças, como vedações. E não se sabe se a decisão teve impacto nesta crise.

O líder do Partido Popular (PP) e da oposição espanhola, Alberto Núñez Feijóo, falou em situação crítica causada pela “avalanche” de migrantes, lamentando que o governo não reconheça o “grave problema de segurança nacional”. E o líder do Vox, Santiago Abascal, denunciou uma “invasão”, considerando que o primeiro-ministro, Pedro Sánchez, “é o seu principal instigador e responsável por todas as suas consequências”.

Feijóo e Abascal atribuem a pressão migratória à política de regularização de imigrantes, em situação irregular, do governo, a qual inclui os que entraram na Espanha, antes de 1 de janeiro, comprovem, pelo menos, cinco meses de permanência contínua no país e não tenham registo criminal. Até junho, foi recebido mais de um milhão de candidaturas.

Por seu lado, o governo rejeitou a ligação entre a crise migratória, em Ceuta, e a recente visita de Sánchez à Argélia. “A relação com Marrocos é excelente e não é, de forma alguma, afetada pelas boas relações com a Argélia”, disseram fontes do Ministério dos Negócios Estrangeiros à Europa Press, frisando que a coordenação, em matéria de migração, é “muito intensa”.

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Esta crise representa o maior afluxo de chegadas irregulares, alguma vez registado, num só dia, em território da União Europeia (UE). Embora Ceuta se situe no Norte de África, o episódio suscitou fortes preocupações entre os governos europeus.

A primeira‑ministra italiana, Giorgia Meloni, afirmando que a Espanha devia ser suspensa da área Schengen, descreveu como “chocantes” as imagens da chegada de migrantes a Ceuta e pediu a adoção de “medidas extraordinárias”. “Na imigração ilegal, não cederemos um milímetro: defender as fronteiras, travar os traficantes de seres humanos e garantir repatriamentos eficazes continuarão a ser a linha deste governo”, escreveu Meloni, no X.

“As imagens que chegam de Ceuta mostram como é profundamente errada a decisão do governo de Madrid de conceder cidadania espanhola e, portanto, europeia, a mais de 500 mil imigrantes irregulares, e como isso incentiva o tráfico de seres humanos”, escreveu o ministro italiano dos Negócios Estrangeiros, Antonio Tajani, na rede X.

O partido de extrema-direita Fratelli d’Italia propôs a suspensão da aplicação de Schengen, em relação a Espanha, e anunciou medidas extraordinárias para defender a fronteira italiana.

Estas posições tiveram célere reação da Dinamarca e da Finlândia, que apoiam o pedido italiano, enquanto a França, Portugal e a Alemanha adotaram um tom moderado, apelando à “proteção das fronteiras da UE”. E a Espanha criticou a “demagogia” da Itália e chamou o embaixador italiano em Madrid, para apresentar um protesto diplomático.

A primeira‑ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, diz que “a UE deve tomar, de imediato, todas as medidas necessárias e ponderar todas as opções, incluindo uma suspensão da cooperação Schengen”. E, segundo a ministra finlandesa do Interior, Mari Rantanen, os países que não cumprem a obrigação de proteger a fronteira externa não podem integrar Schengen.

“Situação aterradora na fronteira espanhola. As imagens devastadoras são a consequência direta do efeito de atração de uma regularização em massa, somado à instrumentalização da migração ilegal”, escreveu, no X, Manfred Weber, líder alemão do Partido Popular Europeu (PPE).

“As autoridades espanholas registaram, até agora, 50 mil passagens ilegais de fronteira, em Ceuta, sendo a Alemanha, provavelmente, o destino da maioria destes migrantes”, escreveu, no X, Alice Weidel, líder do partido de extrema‑direita Alternativa para a Alemanha. “A Alemanha tem de se preparar: as fronteiras têm de ser reforçadas e as rejeições rigorosamente aplicadas.”

Jordan Bardella, líder da extrema-direita francesa e presidente do grupo Patriotas pela Europa no Parlamento Europeu (PE), enviou carta à presidente, Roberta Metsola, a pedir “um debate urgente sobre a evolução da situação em Ceuta e sobre o fracasso das políticas migratórias da UE”.

Para os políticos de esquerda, na Espanha e no estrangeiro, são ataques oportunistas. A crise em Ceuta limitou‑se a dar aos críticos pretexto para apontarem o dedo aos migrantes e apresentá‑los como ameaça. “Na Europa têm prevalecido as visões da direita que retratam os migrantes como uma ameaça”, afirmou o eurodeputado espanhol dos Socialistas e Democratas (S&D) Juan Fernando López Aguilar, antigo ministro da Justiça no governo de Zapatero.

“A posição de Itália é indigna de um parceiro europeu. […] Quando a migração é utilizada como arma, a Europa responde com solidariedade, não com egoísmo. Depois de mais de 700 mil chegadas, a partir da Líbia, a Itália recebeu apoio europeu, não lições. A solidariedade não é uma rua de sentido único”, escreveu, no X, o eurodeputado espanhol do S&D Javi López.

“Isto é propaganda da direita no seu pior”, afirmou a eurodeputada italiana do S&D Cecilia Strada, sustentando que, “perante uma emergência humanitária com dezenas de mortos e [com] um número desconhecido de desaparecidos, seria de esperar solidariedade europeia, e não ataques instrumentalizados com vista ao lucro político.”

Outros países optaram por não pedirem a suspensão da Espanha da zona de livre circulação da UE. A França reforçou os controlos fronteiriços com Espanha, mas recorda que Ceuta tem estatuto particular. “Ceuta não beneficia da livre circulação para o resto do espaço Schengen”, afirmou o presidente francês, Emmanuel Macron, mas lembrando que pediu ao ministro do Interior o reforço do controlo na fronteira com Espanha, “se tal se revelar necessário”, e que “foram mobilizadas quatro unidades móveis de polícia, bem como aviões e drones”.

Fonte diplomática francesa relevou que “a França acompanha, de perto, a situação em Ceuta [...] e continuará a coordenar‑se com todos os seus parceiros europeus, em primeiro lugar, com a Espanha, a quem expressa o seu apoio”.

O chanceler alemão, Friedrich Merz, reagiu à crise, pedindo a aplicação, “sem demora”, do Regulamento de Retorno da UE. “Proteger as fronteiras externas da UE é crucial para combater a migração ilegal”, escreveu o chanceler alemão, no X, declarando apoio à intenção de a Espanha não permitir a entrada de migrantes irregulares no continente europeu”.

Mais de 20 estados-membros da UE pedem reunião para analisar a crise migratória, em Ceuta, e definir resposta coordenada, diz a agência EFE, segundo a qual a Itália, a Alemanha e a Dinamarca são os promotores da iniciativa. E, de acordo com o site do Politico, também assinaram a carta os líderes da Áustria, da Bélgica, da Bulgária, da Croácia, de Chipre, da Chéquia, da Estónia, da Finlândia, da Grécia, da Hungria, da Letónia, da Lituânia, de Malta, dos Países Baixos, da Polónia, da Roménia, da Eslováquia, da Eslovénia e da Suécia.

O governo português reafirmou, sem pedir que a Espanha seja, temporariamente, afastada do espaço Schengen, que “a integridade do sistema Schengen depende de um controlo rigoroso das fronteiras e de uma luta determinada contra todas as formas de imigração ilegal”.

O ministro neerlandês dos Negócios Estrangeiros reagiu, envolvendo Marrocos, ao afirmar: “Contamos com a Espanha, para fazer o necessário para proteger as fronteiras externas da UE, e com Marrocos, para tomar, igualmente, as medidas necessárias.”

A presidente da Comissão Europeia classificou as cenas em Ceuta como “inaceitáveis” e indicou que o seu executivo está em contacto com Espanha e com Marrocos. E um responsável europeu afirmou que a UE compreende que “alguns governos estejam preocupados”, mas sublinhou que a prioridade é “garantir a segurança das nossas fronteiras externas”, rejeitando o apelo da Itália a suspender a Espanha da zona de livre circulação Schengen.

Bruxelas salientou que a atual crise diz respeito ao enclave de Ceuta, situado no continente africano, e que são necessários controlos adicionais para a entrada no continente europeu, onde, até agora, não foi detetado qualquer movimento. “Não se trata de estarem a chegar à Espanha e, a seguir, à França”, frisou o responsável, sob anonimato, para poder falar livremente.

O Presidente da República de Portugal afirmou, a 31 de julho, que a situação dos migrantes “está controlada”, não havendo “necessidade de outro tipo de decisões”, relativamente à crise, como aumentar o controlo de fronteiras ou, muito menos, suspender o acordo de Schengen. Tal “traria consequências negativas para a economia, [para] a vida das pessoas. Há muitas trocas comerciais entre Portugal e Espanha”, disse o chefe de Estado.

“Precisamos de regular a imigração, este deve ser um momento de união na Europa”, considerou António José Seguro, em declarações aos jornalistas, defendendo que “a defesa das nossas fronteiras não é incompatível com a dignidade humana”. No entanto, considerou que “precisamos de mão forte no combate à imigração ilegal”.

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O primeiro-ministro espanhol enviou carta, datada de 1 de agosto, à presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e ao presidente do Conselho Europeu, António Costa, na qual expõe o seu mal-estar com a forma como alguns governos responderam à crise migratória vivida em Ceuta, nos últimos dias. O texto, que surge, após o chefe do governo espanhol ter qualificado como “ataque” e como “violação da integridade territorial” a entrada irregular de milhares de pessoas provenientes de Marrocos, defende que a reação dos parceiros comunitários é “bastante desigual”. Enquanto a maioria apoia e oferece ajuda, outros criticam a Espanha e propõem a sua exclusão temporária do espaço Schengen.

Pedro Sánchez, não citando nomes, atribui tais posições a desconhecimento, a preconceitos, a boatos ou a cálculo político e considera-as egoístas, polarizadoras e contrárias à legalidade europeia. Recorda, com base em dados da Frontex, que a fronteira externa espanhola é das menos permeáveis da UE, com um número de entradas irregulares equivalente a metade do registado em Itália, entre 2021 e 2026. E rebatendo a ideia de que Ceuta representa falha do sistema fronteiriço espanhol, questiona a coerência de quem pede sanções para Espanha.

O presidente do governo de Espanha defende a atuação do executivo, durante a emergência, pois, em menos de 48 horas, foi possível restabelecer o controlo fronteiriço, prestar assistência humanitária às pessoas que atravessaram e proceder à devolução de, praticamente, todos os que entraram de forma irregular. E tudo se fez em coordenação com as autoridades marroquinas e com pouco apoio de outros países europeus, no quadro da política migratória que permitiu à Espanha reduzir, significativamente, as chegadas irregulares, nos últimos anos.

O texto sustenta que tal política permitiu colaborar com parceiros da UE, quando passaram por situações similares, como sucedeu com a crise fronteiriça entre a Bielorrússia e vários países da Europa de Leste, em 2021, e com a chegada massiva de migrantes a Lampedusa, em 2023. Aliás, para Sanches, a responsabilidade pelo ocorrido é de “máfias” organizadas.

Sanchez pede ao Conselho Europeu a convocação, quanto antes, de videoconferência com os ministros do Interior dos estados-membros da UE, para definir a resposta comum a episódios deste tipo e para deixar claro que a vigilância das fronteiras externas é responsabilidade partilhada por todos os países da União, e não apenas pelos que estão na primeira linha. E conclui, apelando à liderança de Ursula von der Leyen para que a UE reaja, rápida, eficaz e coordenadamente, ao que aconteceu em Ceuta.

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O maior movimento de migrantes, em tão pouco tempo, de Marrocos para Ceuta, levou a ajustes de contas políticos. O embaixador de Israel na Organização das Nações Unidas (ONU) devolveu as críticas da Espanha sobre Gaza: “Talvez antes de nos dar lições, seja altura de explicar ao Mundo por que ainda mantém enclaves coloniais em África.”

A Espanha não tem colónias em África. Já Marrocos, de onde provém o influxo de 50 mil a 70 mil pessoas, tem. Afirma-o, na expressão “território não autónomo”, a ONU, para o Saara Ocidental, desde 1963 (então e até 1975, administrado pela Espanha; e, após Madrid o ter deixado, Marrocos e a Mauritânia iam dividi-lo, mas houve forte oposição.

Ceuta manteve-se sob administração portuguesa, no tempo dos Filipes, mas, na restauração de 1640, não reconhecendo D. João IV, ficou sob domínio espanhol. Agora, pode ter iniciativa legislativa, solicitando ao governo de Espanha a adoção de um projeto de lei ou enviando proposta de lei às Cortes espanholas, mas não pode legislar.

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Enfim, a política não vale tudo: Israel não tem relação pacífica em Gaza, e os países da Europa do Sul, muito menos, a Itália, não têm moral para censurarem esta crise. E, por que há, ainda, países colonizantes?

2026.08.01 – Louro de Carvalho


sexta-feira, 31 de julho de 2026

A ambição do Reino de Deus e o apreço por aquilo que não perde valor


A liturgia do 17.º domingo do Tempo Comum, no Ano A, convida-nos a refletir nas prioridades, nos valores sobre os quais fundamentamos a nossa vida e sugere, especialmente, que o cristão deve pautar-se pelos valores indicados por Jesus e não julgar pelas aparências.

Recordo o que disse um pregador ao seu auditório, a 26 de julho. Um professor universitário interpelou os seus alunos nos seguintes termos: Pegando numa nota de 100 euros, perguntou quem a desejaria. E todos levantaram o braço, a sinalizar que a queriam. Para os experimentar, amassou a nota e interrogou-os, de novo, mas todos levantaram, novamente, o braço. Em seguida, pisou a nota e perguntou, de novo, quem é que a queria, e todos levantaram o braço. 

E concluía o orador: “Todos queriam a nota, em qualquer circunstância, porque, em bom estado, amassada ou pisada, não perdeu o valor original. Também assim acontece com o tesouro do Reino de Deus: oculto ou exposto, parecendo puro ou aparentando verdete, é sempre um tesouro cujo valor permanece inalterado. E assim acontece com a pessoa humana: nova ou idosa, sã ou doente, rica ou pobre, considerada ou desprezada, a sua dignidade é inviolável. E deve ser considerada pelo que é, não pelo que tem ou pelo que aparenta.

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A primeira leitura (1Rs 3,5.7-12) apresenta-nos o exemplo de Salomão, rei de Israel, o protótipo do homem sábio, que percebe e escolhe o que é importante e que não se deixa seduzir e alienar por valores efémeros.

O rei David morreu por volta de 972 a.C., após longo e fecundo reinado, com o empenho em alargar as fronteiras do reino, a consolidar a união entre as tribos do Norte e do Sul e a conquistar a paz e a tranquilidade para o Povo de Deus. Sucedeu-lhe o filho, Salomão, que desenvolveu trabalho meritório na estruturação do reino que o pai lhe legou. Organizou a divisão administrativa do território, dotou-o de grandes construções, a mais emblemática das quais é o Templo de Jerusalém), fortificou as cidades mais importantes, potenciou o intercâmbio cultural e comercial com os países envolventes e incentivou e apoiou a cultura e as artes.

Preocupado com a constituição de uma classe política preparada para a governação, recrutou sábios estrangeiros, sobretudo, egípcios, para a corte e rodeou-se de homens que se distinguiam pelo saber, pela justiça e pela prudência. Esses quadros, além de aconselharem o rei, tinham a tarefa de preparar os futuros funcionários para desempenharem funções no aparelho governativo montado por Salomão.

A corte tornou-se um viveiro de sabedoria. Os sábios de Salomão coligiram provérbios; redigiram máximas de caráter sapiencial; deram instruções sobre as virtudes a cultivar, com vista ao êxito e à felicidade; redigiram crónicas sobre os reinados anteriores; e publicaram textos sobre as tradições dos antepassados. Provavelmente, é nesta época que a escola javista dá à luz algumas das tradições que ocuparão um lugar fundamental no Pentateuco. Não admira, pois, que Salomão tenha ficado na memória de Israel como o protótipo do rei sábio, “cuja sabedoria excedia a todos os orientais e aos egípcios”.

Salomão é, historicamente, o primeiro rei que herda o trono. Até agora, os seus predecessores não chegaram ao trono por herança, mas receberam-no das mãos de Deus (segundo a visão religiosa dos catequistas bíblicos). Os teólogos de Israel esforçam-se por sacralizar o poder de Salomão e demonstrar que, se Salomão governou o Povo de Deus, não foi apenas por direito hereditário (sempre contestável), mas pela vontade de Deus.

O trecho em apreço supõe todo este enquadramento. O “sonho de Gabaon” é uma ficção literária montada pelos teólogos deuteronomistas (grupo que reflete a vida e a História, na linha das grandes ideias teológicas do Livro do Deuteronómio), com dupla finalidade: apresentar Salomão como o escolhido de Javé e justificar a sua proverbial sabedoria.

No Antigo Testamento, o sonho aparece, com frequência, como forma privilegiada de Deus comunicar com os homens e de lhes indicar os seus caminhos. Aqui, aparece um sonho que os catequistas deuteronomistas utilizam, como recurso literário para apresentarem Salomão como o escolhido de Deus, a quem revela o seu plano e confia a condução do seu Povo.

O sonho de Salomão está estruturado na forma de diálogo entre Deus e Salomão. Há uma interpelação de Deus (“que posso Eu dar-te?”); e a resposta de Salomão: cônscio da grandeza da sua tarefa e das suas próprias limitações, o jovem rei pede a Deus um coração sábio, para governar com justiça. A sua prece é atendida; Deus concede-lhe uma sabedoria inigualável; e acrescenta – o que o trecho em causa não apresenta – mais três dons: a riqueza, a glória e a longa vida.

Em termos religiosos, a mensagem que os autores deuteronomistas pretendem deixar, com esta ficção, é a seguinte:

* Em Israel, o rei é o instrumento de Deus, o intermediário entre Deus e o seu Povo. É através da pessoa do rei que Deus governa, intervém na vida do seu Povo e o guia pela História.

* Salomão não concebeu o seu papel como privilégio pessoal, que podia usar em benefício próprio, mas como um ministério que lhe foi confiado por Deus. Salomão tinha consciência de que a autoridade é um serviço que deve ser exercido com sabedoria e que o objetivo desse serviço é a realização do bem comum.

* Os autores deuteronomistas sublinham a qualidade da resposta de Salomão: não pede riqueza, nem glória, mas as aptidões necessárias e a capacidade para cumprir bem a missão que Deus lhe confiou. Salomão aparece, pois, como o modelo do homem que sabe escolher as coisas importantes e que não se deixa distrair por valores efémeros.

E, suma, dizer que a súplica de Salomão “agradou ao Senhor” é propor aos israelitas a opção pelos valores eternos, duradouros e essenciais.

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No Evangelho (Mt 13,44-52), em parábolas, Jesus recomenda aos seus seguidores que façam do Reino dos Céus (Reino de Deus) a prioridade fundamental. Todos os outros valores e interesses devem passar a segundo plano, face a este supremo tesouro. Estamos no fim do capítulo dedicado às “parábolas do Reino” (cf. Mt 13). Recorrendo a imagens e a comparações simples, sugestivas e questionantes, Jesus apresenta o Mundo novo de liberdade e de vida nova que veio apresentar aos homens e a que chama Reino de Deus.

O trecho em referência apresenta, no dizer de D. António Couto, bispo de Lamego, quatro parábolas, exclusivas de Mateus (nenhuma aparece nos outros evangelhos canónicos. No entanto, aparecem num texto não canónico – o Evangelho de Tomé –, embora com notáveis variantes, em relação à versão mateana): a parábola do tesouro, a parábola da pérola, a parábola da rede e dos peixes e a parábola do escriva e do seu tesouro.

Para se enquadrar melhor a mensagem de Mateus, importa atender à realidade da comunidade a quem destina o Evangelho. O entusiasmo inicial deu lugar à monotonia, à falta de empenho, à vivência morna e pouco comprometida. No horizonte das comunidades cristãs perfilam-se tempos difíceis de perseguição e de hostilidade. E Mateus sente que urge renovar o compromisso cristão e chamar a atenção dos crentes para o Reino, para as suas exigências e para os seus valores.

O trecho evangélico pode ser dividido em três partes. Em cada uma, há aspetos e questões que importa relevar e ter em conta. Na primeira parte, temos duas parábolas – a parábola do tesouro escondido no campo e a parábola da pérola preciosa (vv. 44-46). Ambas desenvolvem o mesmo tema e apresentam ensinamentos similares.

A questão principal é a descoberta do valor e da importância do Reino. Tanto a parábola do tesouro escondido como a parábola da pérola preciosa sugerem que o Reino oferecido por Jesus (de paz, de amor, de fraternidade, de serviço, de reconciliação) é um tesouro precioso, que os seguidores de Jesus devem abraçar, antes e acima de qualquer outro valor. Os cristãos são, antes de mais, aqueles que encontraram algo de único, de fundamental, de decisivo: o Reino. Ora, quando alguém encontra um tesouro como este, deve elegê-lo como a riqueza mais preciosa, o fim último da própria vida, o valor fundamental pelo qual se renuncia a tudo o mais e pelo qual se está disposto a pagar qualquer preço. Mateus sugere aos cristãos a quem destina o seu Evangelho (adormecidos na fé morna, inconsequente, pouco exigente) que é preciso redescobrir esse valor mais alto (e optar por ele, decisivamente) que deve dar sentido às suas vidas: o Reino. O cristão é confrontado, pari passu, com muitos valores e opções; mas deve perceber que o Reino é o valor mais importante.

Deve ser prudente, como o homem que topou o tesouro no campo. Não furtou o tesouro (seria acusado de crime), nem o quis comprar (revelaria o segredo), mas, querendo possuí-lo, comprou o campo e, sem o revelar, conseguiu adquirir o tesouro. E deve ter a ambiciosa vontade do negociante de pérolas, que, em face da descoberta de uma de grande valor, renuncia a todas as que já possuía (não as deita fora, mas vende-as, para ter com que comprar a mais preciosa) e compra, sem alarde, aquela que, providencialmente, encontrou. Enfim, o cristão deve ser como o homem do campo e como o negociante. Perante a descoberta do tesouro, não deve ficar pasmado, mas tomar a decisão justa e audaz. 

Na segunda parte, Mateus apresenta o Reino na imagem da rede que, lançada ao mar, apanha diversos tipos de peixes (vv. 47-50). Na versão apresentada por Mateus, a parábola apresenta um ensinamento semelhante ao da parábola do trigo e do joio (que se meditou no 16.º domingo): o Reino não é condomínio fechado, onde só há gente escolhida e santa, mas é a realidade onde o mal e o bem crescem, em simultâneo. Deus não tem pressa de condenar e de destruir. Não quer a morte do pecador. Por isso, dá ao homem o tempo necessário e suficiente para amadurecer as suas opções e para fazer as suas escolhas. A versão do Evangelho de Tomé conta a parábola de um pescador sábio que pesca vários peixes, mas fica só com o maior e lança os outros ao mar. Aí, portanto, a parábola da rede e dos peixes apresenta uma mensagem que vai na linha das parábolas do tesouro descoberto no campo e da pérola preciosa. Alguns pensam que a versão apresentada no Evangelho de Tomé constitui a versão primitiva da parábola da rede e dos peixes.

A referência que Mateus faz ao juízo final é uma forma de exortar a sua comunidade no sentido de escolher, decididamente, o Reino e de pôr em prática o ensinamento de Jesus.

Na terceira parte, o evangelista apresenta um breve diálogo entre Jesus e os discípulos (vv. 51-52), em que ressalta nova parábola a concluir o capítulo. Mateus sugere que o verdadeiro discípulo de Jesus é “aquele que compreende”. Ora, “compreender”, na teologia mateana, significa “prestar atenção” e comprometer-se com o ensinamento proposto. Os cristãos são, pois, convidados a descobrir a realidade do Reino, a entender as suas exigências, a comprometerem-se com os seus valores. A referência ao “escriba”, que é semelhante a um pai de família que “tira do seu tesouro coisas novas e velhas”, pode referir-se aos judeus, conhecedores do Antigo Testamento (o “velho”), convidados a refletirem as velhas promessas à luz da proposta de Jesus (o “novo”). É nessa dialética, exigente e questionante, que o verdadeiro discípulo encontra o caminho para o Reino; e, encontrado esse caminho, deve comprometer-se com ele, de forma decisiva, exigente e empenhada.

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A segunda leitura (Rm 8,28-30) – continuando a reflexão de Paulo sobre o projeto de salvação que Deus tem para oferecer aos homens – convida-nos a seguir Jesus e o seu o caminho, o valor mais alto, que deve sobrepor-se a todos os outros valores e propostas.

Na perspetiva paulina, todo o homem que chega a este Mundo mergulha no contexto de pecado que o condiciona e marca. Porém, Deus, na sua bondade, oferece, gratuitamente, ao homem pecador a sua graça e dá-lhe a possibilidade de chegar à salvação; e é em Jesus Cristo que o dom de Deus se comunica ao homem. É o Espírito Santo que permite ao homem acolher o dom e viver na fidelidade à graça que Deus oferece.

Depois de assegurar aos cristãos que o Espírito “vem em auxílio da nossa fraqueza” e “intercede por nós”, o apóstolo relembra que Deus tem um desígnio de amor que se traduz no oferecimento da salvação ao homem. Essa tradução não é acontecimento casual, mas algo que está, desde sempre, no plano de Deus, e que leva Deus a concorrer, em tudo, para o bem dos que O amam. A quem adere a esse projeto, Deus chama-o a identificar-se com o seu filho Jesus, liberta-o do egoísmo e do pecado e fá-lo chegar, com Jesus, à vida nova e plena (justificação). Neste contexto, Paulo fala “daqueles” que Deus “conheceu” de antemão, que “predestinou” para viverem à imagem de Jesus, que “chamou”, que “justificou” e que “glorificou”. Porém, isto não pode ser entendido no sentido de que a salvação que Deus oferece se destine apenas a um grupo de predestinados, que Deus escolheu de entre os homens de acordo com critérios que nos escapam. A teologia paulina é clara: o projeto salvador de Deus está aberto a todos aqueles que querem acolhê-lo. O que apóstolo sublinha é que se trata de um dom gratuito de Deus, que está previsto desde toda a eternidade.

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Referindo-se à Liturgia da Palavra da dominga em causa, Leão XIV, antes da recitação do Angelus, apontou que, no centro do ensinamento de Jesus, está o mistério do Reino de Deus, comparável a uma pérola e a um tesouro, dando as parábolas a entender “a surpresa de quem encontra algo que nem sequer podia esperar”, a tal ponto que vender ou deixar tudo não parece renúncia, mas ganho. Com efeito, os evangelistas “descrevem como irresistível o chamamento de Jesus a segui-Lo: “livre, certamente, mas urgente e capaz de suscitar resposta imediata e movida pelo desejo”. Este é um “importante aspeto do modo como Deus está próximo e Se deixa encontrar: o encontro com o Seu Reino é uma reviravolta que não restringe, mas alarga a vida; e, se algo tem, agora, de mudar, é para trazer mais possibilidades, não menos”.

A um outro aspeto Jesus dá muita importância: “Quem encontra o tesouro escondido no campo é, provavelmente, um agricultor; a pérola é reconhecida como de grande valor por um negociante, talvez um viajante”. Seguem-se mais duas parábolas (tem razão o bispo de Lamego), nas quais os protagonistas são pescadores e um escriba entendido em coisas velhas e novas. E há outras, ainda, em que o Reino se deixa vislumbrar na mulher que amassa a farinha, ou na que arruma a casa, no rei que prepara a guerra, no homem que projeta construir uma torre, em administradores que gerem pagamentos ou investimentos, em pastores e em agricultores. Em suma, no dizer do Papa, o Reino de Deus “revela a sua beleza inestimável de diversas formas, mas chama todos – homens e mulheres, jovens e idosos, pobres e ricos – a profunda renovação, e todos podem compreendê-lo e são atraídos por ele”.

Também a Igreja é “comunhão de pessoas diferentes, quanto à origem, à cultura, às competências e ao nível de responsabilidade, mas todas chamadas a reconhecerem-se como ‘um’ em Jesus”, pois “Ele o tesouro escondido, a pérola preciosa, a rede que recolhe os dispersos”. E, desde o princípio, Jesus chamou e reuniu em torno de Si pessoas que, de outro modo, nunca se teriam relacionado, demonstrando, assim, que “Deus não faz distinção de pessoas e que a sua eleição é predileção, especialmente, por quem é pequeno e rejeitado”.

Só nos resta pedir o mesmo dom que Salomão: “o dom de distinguir a pérola de grande valor, de saber reconhecer o tesouro pelo qual vale a pena vender tudo”. E, “enquanto a indústria do consumo nos altera o paladar, suscitando sempre novas necessidades para, depois, nos vender respostas que não saciam e, por vezes, envenenam o coração, temos de aprender a perceber o que realmente importa, o tesouro da relação com Deus, que nos abre à alegria e ajuda a viver da melhor maneira as relações entre nós”. “Que a intercessão de Maria, Sede da Sabedoria, oriente para Jesus o nosso desejo de vida, para que se realize em plenitude”, roga o Pontífice.

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É, pois, justo cantar com o salmista o valor e a eficácia da Lei de Deus:

“Quanto amo, Senhor, a vossa lei!”

“Senhor, eu disse: A minha herança / é cumprir as vossas palavras. / Para mim vale mais a lei da vossa boca / do que milhões em ouro e prata.

“Console-me a vossa bondade, / segundo a promessa feita ao vosso servo. / Desçam sobre mim as vossas misericórdias e viverei, / porque a vossa lei faz as minhas delícias.

“Por isso, eu amo os vossos mandamentos, / mais que o ouro, o ouro mais fino. / Por isso, eu sigo todos os vossos preceitos / e detesto todo o caminho da mentira.

“São admiráveis as vossas ordens, / por isso, a minha alma as observa.  / A manifestação das vossas palavras ilumina / e dá inteligência aos simples.”

E é bom louvar a grandeza desconcertante de Deus:

“Aleluia. Aleluia.”

“Bendito sejais, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, / porque revelastes aos pequeninos os mistérios do reino.”

2026.07.31 – Louro de Carvalho