terça-feira, 10 de março de 2026

Força Aérea Portuguesa vai substituir os antigos F-16

Em entrevista publicada pelo Diário de Notícias (DN), a 19 de dezembro de 2025, o general João Cartaxo Alves – então, chefe do Estado-Maior da Força Aérea (CEMFA) e, atualmente, chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas (CEMGFA) – confirmou que Lisboa planeia adquirir entre 14 e 28 caças de 5.ª geração, ao abrigo da Lei de Programação Militar (LPM), sinalizando o compromisso decisivo com capacidades avançadas de combate aéreo e com a interoperabilidade a longo prazo com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO).

O então CEMFA vincava o atraso do passado – “a substituição dos F-16 deveria ter sido um processo iniciado há cerca de vinte anos”, em sua opinião –, para afirmar que “estamos, agora, a entrar nos ritmos certos” e para se mostrar convicto de que, em 2026, “teremos novidades sobre a substituição dos F-16”.

A jornalista Diana Rosa Rodrigues, em artigo intitulado “Asas para Portugal: quais os aviões de combate prontos para ingressar na Força Aérea”, publicado pela Euronews, a 10 de março, refere que o processo ainda não arrancou, oficialmente, mas, há vários meses, que se fala da necessidade de o país renovar a sua frota de caças e passar o atestado oficial de reforma aos velhinhos F-16 da Força Aérea.

Na verdade, ainda não há decisão e aguarda-se a abertura formal do processo de compra dos novos caças para a Força Aérea Portuguesa (FAP), mas os candidatos ao fornecimento dos novos aviões de combate a Portugal multiplicam-se. Entre os principais modelos em causa, encontram-se o norte-americano F-35, da Lockheed Martin, o sueco Gripen E, da Saab, e o Typhoon, do consórcio europeu Eurofighter.

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Desenvolvido pela Lockheed Martin, o F-35 Lightning II é um caça de 5.ª geração e, atualmente, um dos aviões de combate mais avançados em operação. A empresa dos Estados Unidos da América (EUA) defende as “capacidades incomparáveis” do avião, que surge, aos olhos de alguns especialistas, como o aparentemente preferido e a opção incontestável, para substituir os F-16 da frota portuguesa.

O F-35 fortalece a segurança nacional, aprimora parcerias globais e impulsiona o crescimento económico. É o caça mais letal, com maior capacidade de sobrevivência e de conectividade do Mundo, proporcionando aos pilotos vantagem contra qualquer adversário e permitindo que executem as suas missões e retornem em segurança. E, à medida que os adversários avançam e as aeronaves legadas envelhecem, o F-35 torna-se crucial para manter a supremacia aérea, nas próximas décadas. Por isso, a equipa do F-35 está a fornecer recursos integrados de sustentação, para garantir que o F-35 esteja pronto para a missão, a qualquer hora e em qualquer lugar, pois, como cada minuto conta, os centros de operações 24 horas, por dia, sete dias, por semana, e os seus engenheiros de sustentação trabalham em estreita colaboração com os clientes, para solucionarem novos desafios e para atenderem às necessidades da linha de voo.

Entre as suas principais vantagens, contam-se a superioridade tecnológica, a furtividade e a integração plena com sistemas da NATO, tornando-o particularmente eficaz em cenários de guerra moderna, com defesa aérea avançada. É, pois, segundo alguns, o símbolo da tecnologia e da fiabilidade norte-americanas.

Porém, apesar das vantagens, este avião de combate representa, como observa a jornalista, uma opção cujo custo de aquisição e de operação é bastante elevado, além de a manutenção ser complexa e de depender muito da infraestrutura e do suporte técnico dos EUA, o que pode constituir outro problema. Por outro lado, a decisão de comprar ou não os F-35, além de técnica, é política, principalmente, num contexto internacional em que a orientação dos EUA pode variar, significativamente. Neste sentido, alguns decisores políticos europeus questionam até que ponto esta dependência pode limitar a autonomia estratégica dos aliados, tendo o ministro português da Defesa, Nuno Melo, questionado a previsibilidade da política externa norte-americana.

Efetivamente, como dizia o governante ao jornal “Público”, em março de 2025, a recente posição dos EUA, no contexto da NATO e no plano geoestratégico internacional, deve induzir as melhores opções, “porque a previsibilidade dos nossos aliados é um bem maior a ter em conta”.

O negócio que ainda nem começou já é alvo da atenção das altas esferas políticas, com o embaixador dos EUA em Portugal a defender que o país deveria optar pela compra dos caças norte-americanos. Aliás, o acordo comercial entre a União Europeia (UE) e os EUA, em que, pelo menos, na aparência, o bloco europeu se vergou ante Donald Trump priorizava a aquisição de compras aos EUA. Porém, o acordo ainda não ratificado pelos eurodeputados.

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Não obstante, apesar de aparentemente favoritos, os norte-americanos F-35 não são a única opção, até porque, face à imprevisibilidade e à necessidade de redução da dependência dos EUA, a solução “Made in Europe” parece ganhar fôlego.

A sueca Saab está a posicionar as suas peças no tabuleiro estratégico da Europa. Num encontro com a imprensa especializada, na sua sede, em Estocolmo, a fabricante do caça Gripen E reforçou que a OGMA (Indústria Aeronáutica de Portugal) possui “muito potencial” para se tornar um hub produtivo e de manutenção da aeronave, caso o governo opte pelo vetor sueco, para substituir sua frota de F-16AM/BM Fighting Falcon.

Daniel Boestad, vice-presidente de negócios Gripen na Saab, fez o paralelo com a bem-sucedida transferência de tecnologia (ToT) realizada no Brasil. A parceria com a Embraer, que detém o controlo acionário da OGMA, serve de “blueprint” para eventual oferta a Lisboa. Esta estratégia visa mitigar a pressão política dos EUA, que tentam emplacar o Lockheed Martin F-35 Lightning II como sucessor natural dos F-16 na FAP. Ao acenar com a produção local, a Saab foca o retorno industrial e a soberania tecnológica de Portugal. E um dos pontos altos da apresentação de Boestad foi a diferenciação da arquitetura de sistemas do Gripen E. E, em relação aos seus competidores, sobressaiu a agilidade de atualização do caça à de um smartphone.

Diferente das aeronaves, onde o software de missão e o software de voo (flight control) são intrinsecamente ligados, exigindo meses de testes de certificação para qualquer alteração mínima, o Gripen E utiliza uma arquitetura aberta. A agilidade no Ciclo de Atualização permite a rápida integração de novos armamentos e sensores, sem comprometer a segurança de voo, o que gera independência do operador, tendo Portugal maior autonomia para customizar os seus sistemas sem dependência total da OEM (Original Equipment Manufacturer).

O Gripen E, um caça multifunções, é um avião de geração 4.5 (geração 4 com sistemas de radar e sensores avançados e supercruzeiro), concebido com foco na eficiência operacional, de baixos custos de manutenção e de elevada flexibilidade. Este avião pode operar a partir de pistas curtas e de estradas preparadas, caraterísticas que integram a doutrina de defesa sueca.

A recente versão inclui radar AESA (Active Electronically Scanned Array), sistemas avançados de guerra eletrónica e grande compatibilidade com armamento ocidental. “Rede silenciosa e fusão total de sensores em toda uma unidade aérea tática, para cegar e confundir o inimigo”, explica a Saad, que reforçou o interesse em fazer o negócio com Portugal, propondo integrar o país na produção dos aviões, através da OGMA, criando retorno de parte do investimento. 

O Gripen apresenta um custo bastante mais baixo de operação e de manutenção, comparativamente com caças mais pesados ou de 5.ª geração, mas tem algumas limitações, visto que não tem furtividade comparável a outros caças de tecnologia mais avançada, transporta menos combustível e armamento e tem uma base de utilizadores relativamente pequena.

A redução drástica no tempo de upgrade, evita que a aeronave fique indisponível, por longos períodos em manutenção. E, para a Saab, o Gripen não é só vetor de defesa, mas plataforma de cooperação industrial que pode revitalizar o cluster aeronáutico de Alverca.

Porém, cabe ao governo seguir a padronização da NATO com o F-35 norte-americano ou apostar na autonomia industrial e na eficiência operacional do “Smartfighter” sueco. Entretanto, embora não haja processo de licitação formalmente aberto pelo Ministério da Defesa, a Saab utiliza referências de contratos recentes para balizar as expectativas.

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Do coração da Europa chega o Eurofighter Typhoon, um caça desenvolvido por um consórcio industrial que inclui as empresas Airbus, BAE Systems e a Leonardo, sendo operado por vários países europeus, como o Reino Unido, a Alemanha e a Itália.

É classificado como um caça de geração 4.5, originalmente concebido para a superioridade aérea, e destaca-se pela velocidade, pela manobrabilidade e pela capacidade de combate ar-ar. E, segundo o consórcio que o desenvolveu, o Typhoon, que oferece um nível invejável de flexibilidade e de eficiência, dispõe de armas suficientes e de poder de processamento suficiente para suportar, simultaneamente, atualizações de mísseis em voo e em bombardeios em voo, posicionando-se como “uma verdadeira aeronave de combate multifuncional”.

Em outubro, o grupo mostrou-se interessado na corrida do fornecimento dos caças ao Estado, com a Airbus, que integra o consórcio, a assinar um memorando de entendimento com o Cluster para as Indústrias da Aeronáutica, Espaço e Defesa (AED Cluster Portugal) – que contou com a presença do embaixador espanhol em Portugal, Juan Fernández Trigo –, “para identificar oportunidades de cooperação, antes da próxima substituição da frota de caças”.

Altos responsáveis presentes em Lisboa não especificaram o preço do caça europeu, mas prometeram bom preço. “Será uma jornada de dois a três anos. Gostaríamos de organizar todos os elementos básicos para fazer uma oferta atraente que abranja o aspeto militar, o aspeto político e a cooperação industrial”, frisava Ivan Gonzalez Exposito, diretor de vendas da Eurofigter, na cerimónia de assinatura do memorando. O objetivo, como explicou, era oferecer bom preço, o que é importante para um país como Portugal, onde o investimento do PIB (produto interno bruto) na defesa é muito baixo, como na Espanha” (era de pouco mais de 1%”), que é um dos parceiros europeus do Eurofigther e que já encomendou caças para o seu exército.

“É uma oferta convincente e penso que é muito atrativa”, defende Ivan Gonzalez, apontando como um dos fatores favoráveis a esta opção, a vizinhança com a Espanha, também acionista da Airbus, presente em Santo Tirso, em Lisboa e em Coimbra, produzindo, com 1660 funcionários, componentes para os A350. Com efeito, para o responsável da Eurofighter, o fator proximidade com a Espanha permite vislumbrar potenciais sinergias para treino e operações conjuntas”.

O programa Eurofighter é um projeto de cooperação multinacional europeu, criado para desenvolver e produzir o avião de combate Eurofighter Typhoon, sendo os seus parceiros originais o Reino Unido, a Alemanha, a Itália e a Espanha.

Ao abrigo do referido acordo, a Airbus e a AED estabeleceram as bases de início de um conjunto de pesquisas, a fim de se desenvolver uma proposta industrial de valor para a substituição da atual frota portuguesa, para uma solução europeia. E José Neves, presidente da AED, frisou que “a Airbus é um parceiro internacional de referência” de fornecedores portugueses, gerando receitas anuais, junto destes, no montante de 70 milhões de euros.

Os responsáveis da Airbus salientam a relevância de uma das maiores motivações da Europa, no âmbito de Rearm Europe, de comprar mais e de comprar em conjunto. E, apesar de haver outras alternativas europeias, para Portugal, no âmbito dos caças, o Eurofighter “é o verdadeiro programa de parceria” (dizem). “Num momento em que a soberania europeia e a autonomia industrial estão no centro da nossa estratégia, a Airbus acredita que o Eurofighter é a melhor opção para esta substituição”, diz José Luis de Miguel, diretor para a região europeia da Airbus Defence and Space, vincando: “A nossa ligação com Portugal baseia-se em décadas de cooperação, não apenas no setor civil, mas também no militar, através do programa C295 de Transporte Tático Médio, e a nossa intenção é continuar a fortalecer esta relação de confiança mútua.”

No entanto, o Typhoon tem desvantagens. Apresenta elevados custos operacionais, além da logística pesada, que envolve um consórcio multinacional e que pode tornar upgrades mais complexos. Além disso, não possui furtividade comparável à dos caças de 5.ª geração. Em cenários de guerra aérea altamente tecnológicos, pode depender mais de apoio externo ou de outras plataformas para competir com aeronaves furtivas.

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Falando em defesa, o tempo é de investimento. O governo revelou, em novembro, ter solicitado, “formalmente, ao mecanismo europeu de empréstimo para a defesa SAFE (Security Action for Europe) um montante de 5,8 mil milhões de euros”, que incluirá a aquisição de navios, de veículos blindados, de satélites, sistemas de artilharia e de defesa antiaérea, de munições de diversos calibres e de sistemas aéreos não tripulados e antidrone. Porém, os novos caças que Portugal poderá adquirir não constam dos custos planeados, apresentados a Bruxelas.

O montante do custo do negócio aos cofres portugueses dependerá do modelo escolhido, do número de unidades compradas e dos moldes completos do negócio. Ora, de acordo com o general João Cartaxo Alves, o número de caças oscilará entre os 14 e os 28 caças. E, no atinente aos custos, seja o F-35, seja qualquer outra capacidade, os valores são muito semelhantes: entre os três mil milhões e os 4,8 mil milhões de euros.

A decisão deve ter em conta os custos que a longevidade do aparelho acarretará. Operar um avião de combate custa muito dinheiro. Para comparar caças e o respetivo impacto financeiro, um dos indicadores a utilizar é o custo, por hora de voo (“cost per flight hour”), que inclui variáveis, como combustível, manutenção, peças e pessoal necessários para operar a aeronave.

O estudo “Fighter Aircraft Through Life Costs”, da Aviation Week Network, de 2023, que analisa estimativas da indústria, refere custos na ordem dos 46282 dólares, por hora de voo, para o F-35, 22174 dólares, para o Gripen E/F, e 28965 dólares para o Eurofighter Typhoon, no custo combinado entre operações e manutenção. Neste parâmetro, o Gripen surge em vantagem. Além disso, o Gripen E/F surge como o aparelho mais barato, em termos de preço de aquisição por unidade entre os três modelos neste artigo analisados.

*** Parte superior do formulário

Não se entende como é que, parecendo que a FAP estava inclinada para os caça F-35, a Airbus assinou um memorando de entendimento com a AED e o governo não definiu uma política que balize as opções. Além disso, adquirir 28 caças (no máximo), não constitui frota suficientemente dissuasora, em caso de grave necessidade de reforço da defesa do nosso território. E, já agora, porque é que a aquisição dos caças não consta dos nossos planos do SAFE?

2026.03.10 – Louro de Carvalho


segunda-feira, 9 de março de 2026

Mensagem política na posse do Presidente da República

 

A 9 de março, às 10h00, a Assembleia da República (AR) reuniu-se, em sessão solene, no Palácio de São Bento, com a presença dos deputados, dos membros do governo, de outras entidades oficiais e de convidados, para a tomada de posse do Presidente da República, António José Martins Seguro, eleito na sequência das eleições de 8 de fevereiro, o qual, após a prestação do juramento, nos termos do n.º 3 do artigo 127.º da Constituição da República Portuguesa (CRP), proferiu o esperado discurso protocolar e de tom programático.

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O empossado começou por saudar, na pessoa do presidente da AR, o Parlamento e porfiou o “respeito democrático pela expressão popular do povo português” ali “representada na sua pluralidade” e prometeu cooperação institucional, no respeito pela CRP.

Assumindo a “honra e a responsabilidade de servir Portugal como Presidente da República”, agradeceu a confiança em si depositada para servir como “Presidente de todos os Portugueses, vivam em Portugal ou no estrangeiro”. E, citando Jorge de Sena, no sentido de que “Portugal é feito dos que partem e dos que ficam”, revelou continuar, na linha do antecessor, a fazer as comemorações do Dia de Portugal, em território nacional e na diáspora.

De Marcelo Rebelo de Sousa, a quem decidiu condecorar com o Grande-Colar da Ordem da Liberdade, disse: “Qualquer que seja o balanço que cada um faz dos seus mandatos, ninguém pode negar-lhe o seu amor a Portugal.”

De modo análogo, mencionou os anteriores Presidentes da República vivos ou falecidos, eleitos em democracia, “que marcam, de forma indelével, a História da nossa vida democrática” e cujo legado “é um dos maiores ativos da nossa democracia”.

Na referência aos chefes de Estado estrangeiros presentes, destacou: os laços de amizade, de proximidade e de cooperação que unem Portugal e a Espanha, preferindo ambos os países “os caminhos às fronteiras” e “demonstrado que é possível construir convergências duradouras quando prevalece a vontade de um destino partilhado”; e “a força dos laços históricos, culturais e económicos” que unem os povos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e “reafirmam os valores da cooperação, da amizade e do diálogo que partilhamos”.

Relativamente à CPLP, o eminente orador observou que “a comunidade lusófona demonstra que uma língua comum pode ser também a partilha de uma ambição maior: um projeto de desenvolvimento e de afirmação conjunta, num Mundo que precisa, cada vez, mais de entendimento e de paz”. E, frisou que tal consciência leva Portugal a assumir “as suas responsabilidades no plano internacional, procurando que a sua presença nos principais fóruns multilaterais […], seja sempre um espaço de escuta e de representação das aspirações que partilhamos nesta comunidade de língua portuguesa”.

E, no campo das saudações, emergiu a referência aos “Capitães de Abril, homens de coragem que abriram as portas da esperança a Portugal e devolveram a liberdade ao povo português”.

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Em termos da situação presente, o chefe de Estado, salientou que, enquanto o Mundo caminhava “para uma ordem internacional mais cooperante, respeitadora da soberania dos Estados, baseada no direito e na força das instituições do multilateralismo”, se criaram “regras, organizações e estruturas de intermediação, mecanismos de solidariedade internacional, estabilidade nas relações entre Estados, trocas comerciais” e a crença de que o progresso significa “evolução permanente no caminho de um futuro mais digno para todos”. E isso criou estabilidade e prosperidade.

Hoje, como disse o Presidente da República, “a força da lei foi substituída pelo poder dos mais fortes”, de modo que, em demasiadas regiões do Mundo, “ganha corpo a metáfora do filósofo Thomas Hobbes, ‘o homem é o lobo do homem’”. Assim, a “guerra regressou à Europa”; as “cadeias económicas revelam fragilidades”; a “competição geopolítica intensifica-se”; a “paz é, hoje, mais frágil do que ontem”; a “transição energética e tecnológica transforma sociedades inteiras a uma velocidade sem precedentes” e, em alguns casos, são utilizadas “como arma ou chantagem”; e as “alterações climáticas impõem urgência e responsabilidade”. E avisou que nenhum país enfrentará, “sozinho, esta realidade brutal”.

De Portugal disse que “enfrenta desafios estruturais”, materializados no “crescimento económico insuficiente”, na economia de “baixos salários”, de “desigualdades persistentes”, de “pobreza constante”, no “envelhecimento demográfico”, na “morosidade na justiça”, nas “burocracias públicas”, no difícil “acesso à saúde e à habitação”, na “falta de mão de obra”, na “escassez de oportunidades para os mais jovens”, na “insegurança para os mais idosos” e na “desconfiança nas instituições e na política”. A estes desafios, na ótica de António José Seguro, acresce o esforço de reconstrução e recuperação de parte significativa do território nacional, devastado pelas catástrofes deste inverno, a cujas populações reexpressou solidariedade.

E, sustentando que “nenhum destes desafios se resolve com improvisação, com metas que se esgotam no imediato” e com visto a “um calendário eleitoral de egoísta conveniência”, garantiu fazer tudo “para estancar” o “frenesim eleitoral” de “ciclos eleitorais de dois anos”.

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Dirigindo-se aos partidos com assento parlamentar, afirmou que o país  necessita de “um compromisso político claro”, que garanta “estabilidade democrática, previsibilidade nas políticas públicas, capacidade governativa e foco nas respostas urgentes e nas reformas estruturais”. E, sustentando que é fácil encontrar “uma desculpa para justificar um erro”, pediu que se faça tudo, “para que não sejamos nós a desculpa”.

Abrindo-se um ciclo de três anos sem eleições nacionais, o Presidente julga que Portugal tem “uma oportunidade de ouro” para que os partidos, a AR e o governo “encontrem soluções duradouras para resolver os graves problemas que afetam a vida dos Portugueses”. Não se trata, na ótica do orador, de unanimismo, nem de anular diferenças, mas de maturidade que ponha “o interesse nacional acima da lógica de curto prazo e de interesses eleitorais”. Não é pressuposto contra a democracia, mas por ela, que “precisa de tempo para produzir resultados”, ganhando o país, quando os partidos convergem no essencial, isto é, “nas prioridades e nas políticas estruturais”. Por isso, o chefe de Estado prometeu a promoção do diálogo e do incentivo a “entendimentos entre os diferentes responsáveis políticos”.

Mais esclareceu que a rejeição da proposta de lei do Orçamento do Estado não implica, automaticamente, a dissolução da AR e que “as legislaturas são para cumprir, devendo todos (“governo e oposição”) “assumir essa responsabilidade”.

Quanto à melhoraria da qualidade de vida, uma das suas bandeiras, diz empenhar-se em que se garanta “aos Portugueses o acesso à saúde, a tempo e horas”. Para tanto, convidará os partidos para o início de trabalhos com vista a “dotar o país de um compromisso interpartidário para garantir o acesso à saúde” e a “salvaguardar a continuidade do Serviço Nacional de Saúde”.

O mesmo deve ser alcançado noutras áreas essenciais, como “o acesso à habitação, o rejuvenescimento da nossa população, criação de melhores oportunidades para os jovens, uma justiça mais célere, um Estado eficiente, um crescimento económico assente num modelo com melhores salários, com critérios de igualdade que ponham fim à inaceitável discriminação salarial das mulheres portuguesas”.

A seguir, sublinhou que “a estabilidade não é um fim”, nem “uma meta”, nem significa “estagnação e imobilismo”, mas “uma condição para a mudança”.

Verificando que “poucos estão a demolir um marco civilizacional resultado do contributo de muitos” e de muitos anos, porfiou a crença “na solidez das instituições e na resistência do nosso sistema de valores”, mas alertou que “esses pilares estão a ser desmoronados”. E, sabendo que o país não está imune a esse risco, estabeleceu, como linhas vermelhas, o “salutar confronto de ideias” e o “normal funcionamento dos contrapoderes instituídos”.

Depois, elencou desafios, a nível interno, que têm de ser superados, com determinação, tais como: criar mais riqueza, garantir a sustentabilidade do Estado social, combater desigualdades e reforçar a confiança entre cidadãos e o Estado. E, a nível externo, entre “os desafios que só podem ser enfrentados em conjunto com os nossos parceiros”, enumerou: “a segurança, a estabilidade económica, a sustentabilidade ambiental, a transição energética, a regulação das novas tecnologias, e a defesa dos direitos humanos e dos valores democráticos.

Tudo isto postula a não desistência “do multilateralismo e da resolução pacífica dos conflitos internacionais”, a prossecução de “todos os diálogos bilaterais” e o contributo para reforçar as organizações que integramos, como as Nações Unidas, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), a CPLP, a Organização dos Estados Ibero-americanos e a União Europeia (UE). E, como “país europeu, atlântico e lusófono”, Portugal detém  “responsabilidade acrescida no diálogo com África e com a América Latina”.

Encarando a Europa como “comunidade de valores – democracia , liberdade, dignidade humana, primado da lei e solidariedade entre povos” – que “estão a ser testados como nunca”, advertiu para a necessidade de os defendermos, devendo Portugal ter voz no “aprofundamento da construção europeia”, “com maior integração política, [com] decisões mais céleres, [com]  economia mais competitiva, [com]  convergência social, [com]  crescente autonomia estratégica na defesa e na energia, e [com]  capacidade para proteger os seus cidadãos”. E salientou os 40 anos da nossa integração na UE, para vincar que “Portugal precisa de melhor Europa” e “o Mundo precisa de mais Europa”. Isto, porque a Europa – António José Seguro citou Gonçalo M. Tavares – “é o humano  precisa de brilhar nas noites que estão mais escuras do que habitualmente”.

Acreditando que “a vontade nacional é essencial para o sucesso desta estratégia”, o Presidente disse empenhar-se na sua mobilização, tendo em conta as opiniões plurais dos Portugueses, e ouvir já “alguns jovens oriundos de todas as regiões do pais e da diáspora”.

Ao nível dos propósitos disse que será “um Presidente próximo das pessoas”, escutando e compreendendo “as suas preocupações”; agirá com respeito pela CRP; estará “atento às desigualdades e comprometido com a justiça social e [com] a dignidade humana”; será “exigente com as instituições e com os [seus] responsáveis”; exercerá “o cargo com equilíbrio, diálogo e cooperação leal e profícua com o governo”. Ao mesmo tempo, reiterou a sua liberdade e independência no exercício de funções, o que o levará, entre outros aspetos, a tratar “todos os partidos por igual”. E, mesmo que as suas decisões não agradem a todos, encontrará conforto na sua “consciência” e no seu “dever para com os Portugueses e para com Portugal”.

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Prometeu zelar pela legalidade, pela integridade e pela missão das Forças Armadas, num regime democrático, e agir “com reserva, sobriedade e sentido de Estado”, vendo os militares como “servidores da paz, da Constituição e do povo português”.

Saudou o poder local democrático e as autonomias regionais que celebram 50 anos de existência – “marco incontornável na consolidação da democracia portuguesa” e, “na aproximação das decisões políticas às populações, na valorização dos territórios e na promoção de um desenvolvimento mais participado”. Porém, sabe que Portugal apresenta “desequilíbrios regionais significativos”, em prejuízo do “interior abandonado e esquecido”, pelo que “merece reflexão e decisões futuras” o “caminho da descentralização e da valorização dos territórios”.

Face ao desalento resultante deste inverno, do verão passado e de sempre, bem como à indignação de muitos “com tantas injustiças e com o elevado custo de vida, proclamou “uma palavra de esperança”: “Acreditem em Portugal.”

Considerando que, na História, “Portugal enfrentou momentos difíceis” e os superou, defendeu que é necessária “cultura política que privilegie soluções, em vez de bloqueios, visão, em vez de curto-prazo, diálogo, em vez de trincheiras”, tal como “precisamos da ciência, da inovação e da cultura, como motores da transformação social e da emancipação do ser humano”, aliás, “de todos os seres humanos”. E o eminente orador falou de outras necessidades: mais  organização do que improviso; “mobilização do talento das universidades, dos cientistas, dos criadores culturais, dos empresários, dos trabalhadores, das instituições públicas, das nossas comunidades, no Mundo, de de todos os cidadãos que acreditam no potencial do país” e, sobretudo, da capacidade de definir o futuro, que “não está escrito”, que se constrói “com trabalho, com visão e com esperança”. E, como “este é o momento de vencermos o medo e [de] erguermos a esperança”, que “não é ingenuidade”, apelou a que acreditemos na “capacidade coletiva para resolver[mos] os nossos problemas” e que “avancemos juntos, com coragem para mudar, [com] sabedoria para decidir e [na] união para vencer.

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Antes do discurso do novo chefe Estado, tinha intervindo o presidente da AR.

Começou por uma referência ao Presidente da República cessante, Marcelo Rebelo de Sousa, que, desde os tempos de comentador, “foi mais amado pelo país real do que pelo país político”, mas que “foi sempre igual a si próprio”, de “previsível imprevisibilidade” e de “proximidade irrepetível”. Mais: “foi o Presidente de que os Portugueses precisaram, do primeiro ao último momento dos seus mandatos.”

Na referência ao novo Presidente, contrariou a ideia da crise da democracia com os cinco milhões 519 mil 808 cidadãos que saíram de casa para votar (“uma das maiores participações de sempre”), com o país a enfrentar “temporais sem precedentes” – o que mostra que os cidadãos acreditam no “regime democrático, construído ao longo de 50 anos” e confiam “nesta República, que a nossa Constituição protege”.

Ao debate político polarizado contrapôs os três milhões 505 mil e 846 pessoas (“a maior votação de sempre”), no candidato que defendeu “a necessidade de consensos e de acordos”. E à suposta fragmentação e ao  bloqueio da AR opôs os 269 diplomas aprovados na generalidade, desde junho de 2025, “com temas diferentes, que vão da mobilidade às finanças públicas” e “com diferentes geometrias de aprovação.

Assim, em vez de “polarização”, temos “debate”; em vez de “fragmentação”, vemos “participação” e, em vez de “crise”, há capacidade de “resultados”.

E, concluindo que “a democracia funciona”, a “ordem internacional nos traz novas exigências” e “o país conta com as suas instituições”, assegurou ao chefe de Estado “a lealdade institucional” da AR e a certeza de que todos estarão à altura desta “responsabilidade”.

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Em suma, há que saudar um novo ciclo de tranquilidade na incerteza. Teremos estabilidade para a mudança, diálogo e não trincheiras, linhas vermelhas na democracia e reflexão sobre o papel da Europa na guerra, descentralização e, por último, novo estilo no topo do Estado.

2026.03.09 – Louro de Carvalho

Por uma Igreja Samaritana, que acolhe a fé e a propaga

 

Não é fácil, nem isenta de obstáculos a rota de conversão e de renovação que, pelo deserto quaresmal, nos encaminha para a vida nova. A Palavra de Deus escutada no 3.º domingo da Quaresma, no Ano A, dá-nos uma indicação reconfortante: Deus acompanhar-nos-á em cada passo e nunca deixará de saciar a nossa sede de vida.

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A primeira leitura (Ex 17,3-7) lembra um dos momentos cruciais da caminhada dos Hebreus pelo deserto, após a libertação do Egito: o povo, apoquentado pela sede, questiona o desígnio de Deus e pergunta-se se Deus pretende salvá-lo ou perdê-lo. A esta dúvida Deus responde com um gesto extraordinário: faz brotar água de um rochedo e sacia a sede do povo. Não é caso isolado: o Deus salvador e libertador esteve, está e estará sempre empenhado em saciar a sede de vida do seu povo, enquanto este atravessa o deserto da História.

Há algum tempo que Israel, liberto da noite do Egito, deixou a escravidão e caminha em direção ao dia novo da liberdade. Ao longo desta difícil caminhada, Deus tem-no acompanhado pari passu e tem-lhe manifestado, de muitos modos, o seu cuidado, bondade e amor.

Nos episódios da passagem do mar, da água amarga transformada em água doce e do maná e das codornizes, Deus mostrou o indubitável empeno na salvação do povo. Depois dessas experiências, Israel devia estar seguro da bondade e da fidelidade de Deus e confiar totalmente em Deus e no projeto de vida que Ele concretizava em favor do povo. Contudo, apesar das provas que Deus deu, continua desconfiado e duvida da fidelidade de Deus. Qualquer obstáculo que lhe apareça no caminho é visto como traição de Deus. O episódio de Refidim é mais um momento nesta História de desconfiança e de ingratidão. O povo instala o acampamento, mas, não tendo água para saciar a sede, depois de discussão com Moisés, sugere que foi enganado por Deus, o libertou do Egito para o matar de sede em pleno deserto. Cego de ingratidão, o povo de vistas curtas e com mentalidade de escravo vê no projeto de vida que Deus iniciou em favor dele um projeto de morte. Acusa Deus de o enganar, de o arrastar para um beco sem saída.

Naquele lugar, Israel entrou em conflito com Deus e acusou-o de conduzir o povo em direção à morte (o nome “meribá” vem da raíz “rib” – “entrar em contencioso”);  “provocou” Deus e desafiou-O (o nome “massa” vem da raiz “nsh” – “tentar”, no sentido de “provocar”). Assim, o lugar ficou a chamar-se “Meribá” e “Massá”, devido à altercação dos filhos de Israel, que tentaram o Senhor, ao perguntarem: “O Senhor está ou não no meio de nós?” Enfim, após tantas provas, tanta bondade, tantos cuidados e gestos de amor por parte de Deus, Israel ainda não fez verdadeira experiência de fé: não confia em Deus, não se entrega nas suas mãos.

Com divina paciência, Deus responde com gestos concretos e oferece ao povo a água que dá vida. Provando, de novo, que está com o povo, faz brotar de um rochedo a água de que o povo carece para saciar a sede. Uma lenda rabínica assegurará que, a partir daqui, a rocha que proporciona a água que dá vida nunca mais cessou de acompanhar o povo de Deus ao longo da sua marcha pela História. O apóstolo Paulo sugerirá, mais tarde, que Cristo – o Filho de Deus, que veio ao encontro dos homens para lhes dar vida – é a rocha de onde brota a água que mata a nossa sede de vida. E a catequese de Israel garante a todos os crentes que o Senhor Deus saciará sempre a nossa sede de vida e assistirá o seu povo em cada passo do seu caminho pela História.

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No Evangelho (Jo 4,5-42 Jesus dialoga com uma mulher da Samaria (um escândalo falar com uma mulher e estrangeira), junto do poço de Jacob, e propõe-se oferecer-lhe a “água viva” que matará toda a sede e que se tornará “uma nascente que jorra para a vida eterna”. A mulher mostra-se disponível para acolher e beber a água que Jesus tem para lhe oferecer.

O poço de Jacob ocupa o centro da cena. À sua volta movem-se as personagens principais: Jesus e a samaritana. Portanto, a temática a abordar relaciona-se com um poço de água e com gente que procura água para matar a sede. Não se diz o nome da mulher, mas que é uma mulher e samaritana. O que faz ali é captar água para matar a sua sede e a da sua família. A mulher, sem nome próprio, representa a Samaria, povo de religião heterodoxa, desprezado pelos Judeus, que busca, desesperadamente, a água capaz de matar a sede de vida plena, bem como, no dizer de Santo Agostinho, a Igreja provinda do paganismo. Na verdade, também os Samaritanos sentiam sede e a água que Deus oferece a todos os seus filhos também é para os Samaritanos.

O poço que está à disposição dos Samaritanos é historicamente conhecido – o poço de Jacob. E, na narrativa joânica, representa a Lei, sistema religioso à volta do qual se consubstanciava a experiência religiosa samaritana. Era nesse poço (a Lei) que os Samaritanos buscavam a água de que precisavam para saciarem a sua sede de vida. Porém, a água daquele poço já não respondia às necessidades (à sede) da Samaria. Os Samaritanos reconheceram, há muito, a insuficiência do poço da Lei e procuraram a vida plena noutras propostas religiosas, noutras vias, noutros deuses. Jesus refere-se aos cinco maridos que a samaritana tivera, o que pode aludir aos cinco deuses que os Samaritanos chegaram a adorar, conforme dizia a tradição judaica.

Na Samaria havia um povo, desprezado pelos Judeus, devido ao seu sincretismo religioso, que sentia sede de vida e buscava, em sendas erradas, a água para saciar a sede. Procurou-a no poço de Jacob, símbolo da Lei, mas só encontrou água que não saciava: quem dela bebia voltava a ter sede. Também procurou essa água noutras fontes, noutros deuses, mas encontrou desilusão e desencanto: já tinha conhecido diversas soluções (cinco maridos) e continuava a ter a inapagável sede de vida verdadeira e eterna. Todavia, Os Samaritanos não estavam condenados a errar à sede, à procura da água que sempre lhes escapa.

O evangelista diz-nos que Jesus, vindo da Judeia para a Galileia, “tinha de atravessar a Samaria”, mas não tinha. Quem viajava entre a Galileia e a Judeia fazia todos os possíveis por não atravessar a Samaria, para evitar as montanhas da região e para não ser confrontado com a hostilidade dos Samaritanos. Por isso, a necessidade de Jesus passar pela Samaria é teológica. Isto é, para cumprir a missão que o Pai Lhe tinha confiado, Jesus tinha de passar na Samaria e oferecer-lhe a água de que ela carecia para saciar a sua sede de vida.

Portanto, por volta do meio dia, Jesus chega ao poço de Jacob e senta-se. Ao sentar-se, propõe-se tomar o lugar do poço. É Jesus o novo poço que oferece a água aos Samaritanos sedentos de vida. Entretanto, aproximou-se uma mulher samaritana, que vem buscar água.

O poço era, na cultura popular palestiniana, cenário de noivado (aliás, nas nossas aldeias, a fonte era lugar de namoro). É junto de um poço que se decide o noivado de Isaac com Rebeca ou o de Jacob com Raquel. É junto de um poço que Moisés descobre Séfora e se apaixona por ela. E João evoca o tema profético do noivado de Deus com o povo: Jesus é o noivo que vem ao encontro do povo para o desposar e fazer com ele a nova Aliança. Assim, junto daquele poço, Jesus é o noivo que desposa a noiva, a Samaria. Doravante, a Samaria não precisará de procurar outro marido. Jesus é capaz de saciar a sua sede de felicidade.

Entre Jesus e a samaritana estabelece-se um dos mais belos diálogos do Novo Testamento. Jesus pede-lhe: “Dá-me de beber”. Ele não precisa da água daquele poço, mas rebaixa-Se – contra as convenções sociais e religiosas – a dirigir-se à mulher pertencente a um povo impuro e desprezado, para introduzir, na equação, a água. Jesus, que se apresentou aos homens no presépio de Belém, nunca teve problema em Se rebaixar, para descer ao nível dos homens e para sentir as suas necessidades. E a água é bom tema: todos precisamos dela para viver.

Entretanto, a mulher (Samaria) descobre que Jesus lhe vem propor a água que lhe matará, em definitivo, a sede de vida eterna. Depois de descobrir isso, rende-se completamente a Jesus e pede: “Senhor, dá me dessa água!” Para João, a água de Jesus – o grande dom – é o Espírito. Na conversa com Nicodemos, Jesus já avisara que “quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus”; e, quando Jesus Se apresenta como a “água viva” que matará a sede do homem, João cuida de explicar que Ele se referia ao Espírito, que iam receber aqueles que acreditassem n’Ele. O Espírito, acolhido no coração do homem, transforma-o, renova-o e torna-o capaz de amar Deus e os irmãos. Sacia a sede de vida do homem e possibilita-lhe uma vida totalmente nova.

Em relação ao repto de Jesus, a mulher, inicialmente, fica confusa. Quer saciar a sua sede de vida, mas não sabe o que fazer para ter acesso à água do Espírito, à água de Jesus. Terá de renunciar à sua especificidade religiosa e de ceder às pretensões religiosas dos Judeus, para quem o verdadeiro encontro com Deus só ocorre no Templo de Jerusalém e na instituição religiosa judaica (“nossos pais adoraram neste monte, mas vós dizeis que é em Jerusalém que se deve adorar”)? Ora, Jesus esclarece que não se trata de escolher entre o caminho dos Judeus e o dos Samaritanos. Não é no Templo de pedra de Jerusalém ou no Templo de pedra do monte Garizim que Deus está. Quem quiser encontrar Deus e acolher o Espírito que sacia a sede de vida, deve aderir a Jesus, escutar as suas indicações, seguir os seus passos, ir atrás d’Ele no caminho do amor e da entrega. Da adesão a Jesus nascerá um povo novo, a comunidade que vive do Espírito.

Só então desaparecerão as barreiras que separavam os dois povos: os Judeus e os Samaritanos. O que passa a contar é a vida do Espírito e da verdade, que renovará e transformará o coração de todos, que a todos ensinará o amor a Deus e que fará de todos – sem distinção de raça ou de perspetiva religiosa – uma família de irmãos. É uma lição para os cristãos vindos dos judaísmo e do paganismo, uma lição que a Igreja de hoje precisa de reaprender.

A mulher responde a Jesus deixando o cântaro (tornado inútil) e corre a anunciar aos habitantes da cidade a proposta que Jesus, em nome de Deus, oferece à Samaria. E João enfatiza adesão entusiástica de todos os Samaritanos à mensagem de Jesus e a confissão da fé proclamada por toda a comunidade, que reconhece Jesus como “o Salvador do Mundo” – isto é, como Aquele que dá ao homem a vida plena e definitiva. Os samaritanos descobriram o novo poço onde poderão saciar a sua sede de felicidade e de vida eterna: Jesus.

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A segunda leitura (Rm 5,1-2.5-8) não evoca o tema da água, mas reafirma o empenho de Deus em oferecer vida e salvação ao povo. Garante que, sejam quais forem as nossas faltas, Deus “justifica-nos”. A sua misericórdia falará sempre mais alto do que o nosso pecado. Deus oferecer-nos-á sempre, gratuita e incondicionalmente, a salvação.

Paulo está seguro da realidade que o enche de alegria: todos – Judeus, Gregos ou Romanos – os que se encontraram com Jesus e O acolheram, estão destinados à salvação. Independentemente das suas origens, histórias de vida, pecados ou virtudes, foram justificados pela fé. A “justificação pela fé” é um conceito-chave na visão teológica de Paulo.

No mundo bíblico a “justiça”, mais do que um conceito jurídico reservado ao tribunal, é uma relação que define a fidelidade de alguém a si próprio, à sua essência, modo de ser, compromissos. Ora, sempre que se relacionou com os homens, Deus mostrou que a sua essência é amor, clemência, compaixão, bondade, misericórdia. A sua ira dura apenas um instante, ao passo que a sua benevolência permanece. Assim, dizer que Deus é justo não é dizer que responde na mesma moeda ao pecador ou que lhe pune as faltas quando ele infringe as regras, mas é dizer que a bondade e o amor de Deus falam sempre mais alto, mesmo quando o homem não procedeu bem. A bondade de Deus vem sempre ao de cima; e, mesmo que o homem o não mereça, emitirá o veredicto da graça, e o homem pecador alcança a salvação.

Ora, o amor de Deus e o seu veredicto de graça em favor do homem concretizaram-se em Jesus e através de Jesus. Nós, seres humanos limitados e pecadores, descobrimos e contemplamos o amor de Deus, quando olhamos para Jesus, para os seus gestos de partilha e de entrega, para a sua morte na cruz. Deus enviou-no-lo para nos mostrar o seu amor e para conhecermos o seu dom. Jesus mostrou-nos o caminho que conduz à vida e deixou-se matar para concretizar o projeto salvador de Deus. Na verdade, nós não merecíamos tanto amor; mas, apesar do nosso pecado, Jesus deixou-Se matar para nos apontar o caminho que leva à vida: “Deus prova assim o seu amor para connosco: Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores”.

O homem pecador – justificado pelo amor de Deus patente na cruz de Jesus – é nova criatura: é o homem ressuscitado para a vida nova, que vive do Espírito, que é filho de Deus e co-herdeiro com Cristo. E o apóstolo explica o que é que ganham os cristãos que se encontram com Cristo, que são “justificados” e que obtêm o acesso à salvação.

Ganham a paz, que não é a mera ausência de guerra ou a tranquila serenidade de quem se sente bem consigo, mas é a situação de quem embarca na relação positiva com Deus tendo, através d’Ele, acesso à vida verdadeira e definitiva. Ganham a esperança, o dom que nos permite superar as dificuldades e a dureza da caminhada, apontando a um futuro glorioso de vida em plenitude. A esperança não é um otimismo irresponsável, que nos permite evadirmo-nos do presente ou iludirmos a adversidade, mas é o que nos permite enfrentar, confiadamente, as vicissitudes da caminhada, cônscios de que as forças da morte não terão a última palavra e que as forças da vida triunfarão. E ganham o amor de Deus ao homem, pois o cristão não é um pobre diabo que se arrasta pela lama do Mundo alimentando sonhos irrealizáveis, mas é, alguém a quem Deus ama com amor verdadeiro. A prova está em Jesus de Nazaré, o Filho amado que Deus enviou ao Mundo e “entregou à morte por nós, quando ainda éramos pecadores”.

Estamos no âmago da teologia paulina. Na compreensão que o apóstolo tem da vida e da História, há uma realidade central, que ele testemunha com entusiasmo contagiante: Deus ama-nos com um amor sem limites e faz tudo para se encontrar connosco e para saciar a nossa sede de vida. Paulo, enquanto viver, não conseguirá calar esta “Boa Notícia”.

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É eloquente o comentário de Santo Agostinho ao episódio evangélico acima desenvolvido:

Veio uma mulher. Esta mulher é figura da Igreja, ainda não justificada, mas a caminho da justificação.  […] A mulher veio sem saber o que a esperava; encontrou Jesus, e Jesus dirigiu-lhe a palavra. Vejamos o facto e a razão por que veio uma mulher da Samaria para tirar água). “Os Samaritanos não pertenciam ao povo judeu; não eram do povo escolhido. Faz parte do simbolismo da narração que esta mulher, figura da Igreja, tenha vindo de povo estrangeiro; porque a Igreja viria dos pagãos, dos que não pertenciam à raça judaica.

“Ouçamos a nós mesmos nas palavras desta mulher, reconheçamo-nos nela e nela demos graças a Deus por nós. Ela era uma figura, não a realidade; começou por ser figura, e tornou-se realidade. Pois acreditou naquele que queria torná-la figura de nós mesmos. Veio, simplesmente, para tirar água, como costumam fazer os homens e as mulheres. Jesus disse-lhe: ‘Dá-me de beber.’ Os discípulos tinham ido à cidade para comprar alimentos. A mulher samaritana disse a Jesus: ‘Como é que tu, sendo judeu, pedes de beber a mim, que sou uma mulher samaritana?’ De facto, os Judeus não se dão com os Samaritanos. Estais a ver que são estrangeiros. Os Judeus de modo algum se serviam dos cântaros dos Samaritanos. Como a mulher trazia consigo um cântaro para tirar água, admirou-se de que um judeu lhe pedisse de beber, pois os Judeus não o costumavam fazer. Mas aquele que pedia de beber tinha sede da fé daquela mulher.

«Escuta agora quem pede de beber. Respondeu-lhe Jesus? ‘Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede: ‘Dá-me de beber’, tu mesma lhe pedirias a ele, e ele te daria água viva

“Pede de beber e promete dar de beber. Apresenta-se como necessitado que espera receber, mas possui em abundância para saciar os outros. ‘Se tu conhecesses o dom de Deus’, diz. O dom de Deus é o Espírito Santo. Jesus fala, veladamente, à mulher, mas vai entrando no seu coração, e vai-lhe ensinando. Que haverá de mais suave e bondoso do que esta exortação? Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede: ‘Dá-me de beber’, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva. Que água lhe daria ele, senão aquela da qual está escrito: ‘Em vós está a fonte da vida? Pois como podem ter sede os que vêm saciar-se na abundância de vossa morada?

“O Senhor prometia à mulher um alimento forte, prometia saciá-la com o Espírito Santo. Mas ela não compreendia. E, na sua incompreensão, que respondeu? Disse-lhe então a mulher: “Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede e nem tenha de vir aqui para tirá-la”. A necessidade obrigava-a a trabalhar, mas a sua fraqueza recusava o trabalho. Se, ao menos  ela tivesse ouvido aquelas palavras: ‘Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos e eu vos darei descanso!’ Jesus dizia-lhe tudo aquilo para que não se cansasse mais; ela, porém, ainda não compreendia.”

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É imperativo escutar a palavra de Deus e aclamar Cristo, o Senhor.

“Se hoje ouvirdes a voz do Senhor, / não fecheis os vossos corações.”

“Vinde, exultemos de alegria no Senhor, / aclamemos a Deus nosso salvador. / Vamos à sua presença e dêmos graças, / ao som de cânticos aclamemos o Senhor.

“Vinde, prostremo-nos em terra, / adoremos o Senhor que nos criou, / pois Ele é o nosso Deus / e nós o seu povo, as ovelhas do seu rebanho.

“Quem dera ouvísseis hoje a sua voz: «Não endureçais os vossos corações, / como em Meriba, como no dia de Massa no deserto, / onde vossos pais Me tentaram e provocaram, / apesar de terem visto as minhas obras.”

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“Louvor e glória a Vós, Jesus Cristo, Senhor.”

“Senhor, Vós sois o Salvador do mundo: / dai-nos a água viva, para não termos sede.”

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Só uma Igreja que acolhe e propaga a fé é capaz de ser samaritana como o bom samaritano que, ao invés do sacerdote e do levita, socorreu o homem ferido que jazia na berma da estrada (Lc 10,25-37). O grande bom samaritano é Cristo!

2026.03.08 – Louro de Carvalho


domingo, 8 de março de 2026

No Dia Internacional da Mulher de 2026, contrastes e preocupações

 

É celebrado, a 8 de março, o Dia Internacional da Mulher e, neste ano, é de salientar, como positivo, que os dados parecem mostrar que as mulheres estão, cada vez mais, a assumir posições de autoridade no mundo empresarial.

Com efeito, na maioria dos países da União Europeia (UE) aumentou o número de mulheres em cargos de gestão, entre 2014 e 2024, mas três países registaram uma diminuição. Na verdade, as estatísticas do Eurostat indicam que 35,2% de todos os cargos de gestão na UE, em 2024, eram ocupados por mulheres, contra 31,8%, em 2014.

A percentagem de cargos de gestão ocupados por mulheres diminui com a idade, com 34,4% das mulheres gestoras com idades entre os 40 e os 64 anos e 26,5% das mulheres com 65 anos ou mais. E a percentagem de jovens gestoras com idades entre os 15 e os 39 anos é mais elevada do que noutros grupos etários: quase 40% das gestoras deste grupo são mulheres.

Os números também variam consoante o país da UE: as maiores percentagens de mulheres em cargos de gestão ocorrem na Suécia (44,4%), na Letónia (43,4%) e na Polónia (41,8%). Ao invés, as taxas mais baixas ocorrem em Chipre (25,3%), na Croácia (27,6%) e na Itália (27,9%). Contudo, os números estão a aumentar na grande maioria dos países da UE, com o Luxemburgo a registar o maior aumento de mulheres gestoras, desde 2014, com 13,7%. Seguem-se Malta (10,1%) e Chipre (7,9%). Em contraponto, na Eslovénia (-3,8%), na Letónia (-0,7%) e na Lituânia (-0,2%) diminuiu o número de mulheres em cargos de gestão, nesse período.

O aumento do número de mulheres a gerirem empresas ocorre numa altura em que cada vez mais mulheres assumem funções em áreas tradicionalmente dominadas pelos homens na UE, como a ciência e a engenharia.

O aumento do número de mulheres gestoras vem também do esforço da UE para garantir maior equilíbrio de género nos conselhos de empresas cotadas em bolsa, nomeadamente, pela aplicação da diretiva relativa ao equilíbrio entre homens mulheres nos conselhos de administração das empresas, a qual estabelece como objetivo as empresas terem 40% do sexo sub-representado entre os administradores não executivos e 33% entre todos os administradores. E, embora o prazo para as empresas cumprirem este objetivo seja 30 de junho de 2026, o prazo para os membros da UE transporem a diretiva era dezembro de 2024, o que mostra que as empresas já faziam pressão para melhorar a diversidade na sua liderança, em conformidade com o Eurostat.

No entanto, independentemente dos cargos de chefia, continua a clara diferença de emprego entre homens e mulheres. Efetivamente, os dados do Eurostat mostram que 80,8% dos homens estavam empregados a tempo inteiro, em todo o bloco, em 2024, caindo para 70,8% das mulheres. Em contraponto, a percentagem de mulheres que trabalham a tempo parcial é muito mais elevada do que a dos homens (27,8% contra 7,7%) e, segundo o Eurostat, a diferença de emprego diminuiu 1,1%, em toda a UE, na última década, tendência registada em 22 países da UE.

Passando da gestão às ciências e às engenharias, é de salientar que as ciências constituem parte significativa dos postos de trabalho, na Europa: em 2024, mais de 73,8 milhões de pessoas com idades entre os 25 e os 64 anos estavam empregadas nos domínios da ciência e da tecnologia, na UE. E o número de mulheres cientistas e engenheiras, na UE, aumentou de 3,4 milhões, em 2008, para 7,9 milhões, em 2024, de acordo com o Eurostat. Porém, continuam as disparidades entre setores individuais. As mulheres investigadoras estão quase em paridade, no setor do ensino superior (44%) e no setor público (45%), mas estão sub-representadas no setor empresarial (22%), de acordo com o relatório da Comissão Europeia “She Figures 2024”. Além disso, as mulheres representam apenas 25% dos profissionais independentes, nos setores da ciência e da engenharia e das tecnologias de informação e comunicação (TIC).

O relatório “She Figures 2024” sustenta que “a segregação de género continua a ser um desafio no mercado de trabalho”, mas que há tendência gradual para inverter a situação, “o que indica um progresso lento, mas constante, no sentido da igualdade de género”.

Entre os países da UE, as percentagens mais elevadas de mulheres cientistas e engenheiras registaram-se na Letónia, com 50,9%, na Dinamarca, com 48,8%, e na Estónia, com 47,9%. Em contraponto, os níveis mais baixos de representação registaram-se na Finlândia, com 30,7%, na Hungria, com 31,7%, e no Luxemburgo, com 32,4%.

Não obstante, nalgumas regiões da Europa, as mulheres estão em percentagem mais elevada na ciência do que os homens. Segundo o Eurostat, há mais mulheres em 11 regiões da Espanha, de Portugal, da Polónia, da Bulgária, da Suécia e da Letónia. Por exemplo, as Canárias, na Espanha, têm a percentagem mais elevada de mulheres cientistas e engenheiras, com 58,8%. Seguem-se, em Portugal, os Açores e a Madeira, com 57,3% e 56,4%, respetivamente.

No outro extremo da escala, a menor proporção de mulheres cientistas e engenheiras foi registada na região húngara de Közép-Magyarország (30,0%), na região finlandesa de Manner-Suomi (30,7%) e em Sud, na Itália (31,1%).

As mulheres nascidas fora da UE têm menos probabilidades de trabalharem como cientistas e engenheiras (36%) do que as nascidas num país da UE (43%) e as nascidas no país da UE onde trabalham (42%). As proporções mais baixas de mulheres nascidas fora da UE a trabalhar como cientistas e engenheiras, na UE, registam-se no Luxemburgo (21%) e nos Países Baixos (26%).

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Porém, o Dia Internacional da Mulher, em 2026, deve fazer refletir os cidadãos portugueses, no que toca ao feminicídio, sobretudo, por violência doméstica. Com efeito, em 2025, pelo menos, 25 pessoas morreram vítimas de violência doméstica.

É certo, que apesar das ocorrências se manterem estáveis (29778), aumentou o número de reclusos por este crime (1560) e de pessoas em programas para agressores (3112). As medidas de apoio às vítimas registaram ligeiras diminuições no número de beneficiários. Porém, o número preocupa.

O número de vítimas de violência doméstica (25), num ano, torna 2025 o ano com mais homicídios, nesse contexto, desde 2022.

Segundo o Portal da Violência Doméstica, da Comissão para a Igualdade e Cidadania (GIG), 11 pessoas – 10 mulheres e uma criança – morreram, no último semestre do ano, somando-se às 11 mulheres, dois homens e uma criança que perderam a vida no primeiro semestre.

Em 2024 tinham morrido 22 pessoas vítimas de homicídio voluntário, em contexto de violência doméstica, o mesmo número registado em 2023. É, pois, 2025 o ano com mais homicídios voluntários por violência doméstica, desde 2022, ano em que ocorreram 28 mortes.

Ao longo de 2025, a Polícia de Segurança Pública (PSP) e a Guarda Nacional Republicana (GNR) registaram 29778 ocorrências conexas com violência doméstica, ligeiramente abaixo do ano anterior (29885). E, no final de 2025, havia 1560 reclusos nas prisões por violência doméstica, dos quais 1184 em prisão efetiva e 376 em prisão preventiva, acima dos números do final de 2024 (1358 reclusos, dos quais 1019 em prisão efetiva e 339 em prisão preventiva).

Havia, no final do ano passado, 1351 suspeitos com medidas de coação em vigor, no âmbito do crime de violência doméstica, mais do que os 1236 do ano anterior.

Também o número de pessoas integradas em programas para agressores aumentou de 2788, no final de 2024, para 3112, no final de 2025. E, no respeitante às medidas de apoio às vítimas de violência doméstica, havia 6100 pessoas com medida de teleassistência, no final de 2025, menos 424 do que no final do ano anterior. Na Rede Nacional de Apoio às Vítimas de Violência Doméstica, estavam acolhidas 1349 pessoas, no final do ano, entre as quais 705 mulheres, 623 crianças e 21 homens, ao passo que, no ano anterior eram 1420 pessoas no total, incluindo 727 mulheres, 669 crianças e 24 homens.

Em referência ao período de 2002 a 2025, o Observatório de Mulheres Assassinadas refere que, pelo menos, 709 mulheres foram assassinadas e 939 foram vítimas de tentativa de homicídio. Dito de outro modo, nos últimos 22 anos, foram mortas, em média, 32 mulheres, por ano, em Portugal, tendo a maioria destes crimes ocorrido na residência partilhada entre vítimas e agressores e com registo de violência prévia.

Desses 709 crimes, 539 foram cometidos por companheiros ou ex-companheiros das vítimas, em contexto em que a vítima tentava separar-se e os ofensor não aceitava a separação. E, de acordo com a estrutura da União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR), só em 2025 foram assassinadas 26 mulheres (número superior ao da CIG), em Portugal, e 57 foram vítimas de tentativa de homicídio. Destas mortes, 22 foram feminicídios, “mortes intencionais de mulheres motivadas por questões de género”, todos cometidos por homens.

Quanto às 57 tentativas de homicídio de mulheres, 45 foram no contexto de feminicídio. “Dos 22 feminicídios, 16 foram em contexto de intimidade e as vítimas tinham entre 36 e 56 anos. A maioria destes crimes ocorreu na residência partilhada entre vítimas e agressores”, salientou, citada pela Lusa, a coordenadora daquele observatório, Cátia Pontedeira, a qual chamou a atenção para que, “na maior parte dos crimes de feminicídio, há violência prévia e, em 80% dos casos, esta violência é conhecida por outras pessoas”.

Também é de anotar que, “em quase metade dos casos de homicídio de mulheres, houve uma tentativa de suicídio, por parte do agressor, com sete homens a perderem a vida”.

A presidente da UMAR, Liliana Rodrigues, também segundo a Lusa, frisou que os dados “mostram que a casa continua a ser o lugar mais inseguro para as mulheres”.

Os dados referentes a 2025 permitiram identificar igualmente que 27% das mulheres assassinadas não era de nacionalidade portuguesa, e que, em 23% dos casos, “houve uma tentativa de ocultar o crime” por parte do agressor.

O Observatório de Mulheres Assassinadas contabilizou, nos últimos 22 anos, uma média de 32 homicídios, por ano, o que, segundo Frederica Armada, uma das responsáveis pela estrutura, mostra que “a violência sobre as mulheres não é um fenómeno episódico”. E é durante a noite e madrugada, sobretudo, no verão, entre junho e setembro, que os feminicídios mais acontecem e que, em 55% dos casos de 2025, houve recurso a armas brancas para cometer o crime.

Para a presidente da UMAR, perante o facto de os números apontarem que na maior parte destes crimes há episódios de violência doméstica já denunciados, "é urgente que o sistema de justiça criminal deixe de minimizar o risco".

*** Parte superior do formulário

No Dia Internacional da Mulher, verificando que as mulheres sofrem mais com o clima e que políticas verdes querem mudá-lo, a Euronews Green destaca entidades políticas que lideram a luta constante contra as alterações climáticas, em todo o Mundo.

À cabeça, vem Hannah Spencer, canalizadora e estucadora, recém-eleita deputada do Partido Verde, no Norte de Inglaterra, caso inédito, que representa o tipo de eleitor que o partido – com a sua base de apoio da classe média, no Sul do Reino Unido – tem, há muito, dificuldade em alcançar. Quer tirar o lixo e as descargas ilegais das ruas. Ora, uma análise de 2019 concluiu que apenas 7% de todos os deputados britânicos tinham origem na “classe trabalhadora”.

Lena Scilling, que deixou a vida de ativista climática do movimento Friday for Future, para se tornar eurodeputada verde austríaca, em 2024, diz que “os insultos sexistas, os ataques pessoais e a perda de privacidade fazem, infelizmente, parte da realidade”, sendo peculiar a forma como a intersecção entre género e clima intensifica os ataques.

De facto, uma investigação norte-americana, publicada na revista “Climatix Change”, verificou a correlação consistente entre sexismo, negação das alterações climáticas e oposição às políticas climáticas, o que se explica pela “justificação do sistema”, ou seja, quando as pessoas lutam pela proteção da ordem socioeconómica existente. Grande parte deste assédio ocorre online, com os guerreiros de teclado a esconderem-se no anonimato e os algoritmos a amplificarem conteúdos divisivos. Um inquérito da HateAid e da Universidade Técnica de Munique, na Alemanha, concluiu que as mulheres são visadas, com mais frequência e de forma mais sexualizada, com cerca de dois terços a relatarem ataques sexistas ou misóginos.

O Partido Verde Europeu é um dos dois europartidos com quotas de género formais (o único com plena paridade de género) e, embora alguns as desvalorizem como discriminação positiva, um estudo, de 2024, do King’s College London concluiu que as quotas são o único método fiável para garantir a representação das mulheres nas direções partidárias.

Na cimeira climática da Nações Unidas COP30, de 2025, as mulheres representavam 40% dos membros das delegações nacionais, uma subida de apenas 9%, em 17 anos, e menos de um terço das delegações era liderado por uma mulher. Ora, os estudos mostram que as alterações climáticas atingem, com mais força, quem tem menos poder para lhes escapar. Assim, mulheres e crianças têm 14 vezes mais probabilidades de morrer do que os homens, na ocorrência de fenómenos meteorológicos extremos; e quatro quintos de pessoas deslocadas por força das alterações climáticas serão mulheres e raparigas.

Porém, quando as mulheres têm poder, os resultados melhoram, para todos. Um estudo que abrangeu 91 países concluiu que a presença feminina nos parlamentos nacionais estava associada a políticas climáticas mais exigentes e a menores emissões de carbono. Por conseguinte, a conclusão é óbvia: mulheres na política podem “mudar o futuro”.

Lena Schilling recorda que a sua motivação para a causa surgiu quando a ministra austríaca do Ambiente dos Verdes, Leonore Gewessler, lutou para salvar a Lei de Restauração da Natureza, mostrando que uma mulher, no lugar certo, pode tomar decisões que mudam o futuro. E adverte que a política não se faz apenas nos parlamentos, mas também nas ruas, nas organizações da sociedade civil, nas comunidades locais e nos movimentos.

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Por fim, cabe a palavra a António Guterres, secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), que propõe, no jornal Público (de 8 de março, pág. 16), “oito áreas de ação destinadas a promover os direitos das mulheres e a alcançar resultados concretos”: “corrigir os desequilíbrios de poder”, com vista à igualdade de género e à expansão da liberdade; “fazer da paridade uma prioridade”, contrariando a sub-representação das mulheres nas instituições; “apostar no investimento mais rentável” (pela educação, saúde e apoio social); “assegurar[-lhes] um lugar nas negociações de paz”; “acabar com a discriminação legal”; estipular a “tolerância zero para a violência de género” (bem como para os culpados); “eliminar distorções no setor tecnológico” (nomeadamente, a misoginia online); e “integrar a perspetiva de género na ação climática”.

“Se os líderes levarem a sério a igualdade de género e se se comprometerem com estas ações agora, mudaremos o Mundo”, diz António Guterres.

2026.03.08 – Louro de Carvalho