Celebrado,
a 26 de julho, em Portugal e em vários outros países, o Dia dos Avós, instituído
pelo Papa Francisco, em 2021, tem origem na tradição cristã e ganhou maior
reconhecimento, graças à campanha da portuguesa Ana Elisa do Couto,
conhecida como Dona Aninhas.
Nesta
data, a Igreja Católica homenageia São Joaquim e Santa Ana, pais de Maria e
avós de Jesus. A celebração deste casal de santos foi reconhecida pelo Papa
Leão XIII, em 1879, e o Papa São Paulo VI fixou o dia 26 de julho para
esta homenagem litúrgica.
Ana
Elisa Couto nasceu em Penafiel, em 1926. Esposa de militar, mãe e avó, dedicou
parte da sua vida a ajudar os outros. Em 2003, sofreu um AVC (acidente vascular
cerebral), que deixou algumas sequelas, e morreu em 2007.
Dona
Aninhas acreditava que os avós não recebiam o reconhecimento que mereciam e, na
década de 1980, iniciou uma campanha para valorizar o seu papel na família e na
sociedade. Escreveu ao Papa a defender os seus objetivos e a explicar as suas
motivações. E viajou por países, como o Brasil, a França, os Estados Unidos da
América (EUA), a Alemanha, a Espanha, Angola, a Suíça, o Canadá e a África do
Sul, para divulgar a importância desta homenagem, defendendo que o Dia dos Avós
fosse celebrado a 26 de julho.
Vários
países assinalam o Dia dos Avós, a 26 de julho, nomeadamente, Portugal, o Brasil,
a Espanha, a Guatemala, o Panamá, o Paraguai e a República Dominicana. Nos EUA,
a celebração ocorre no primeiro domingo, após o Dia do Trabalho, conhecido
como Labor Day, que é celebrado, todos os anos, na primeira
segunda-feira de setembro. Na Itália, realiza-se a 2 de outubro e, na
Austrália, no primeiro domingo de novembro. Já no México, a homenagem é
celebrada a 28 de agosto. E há países que dedicam dias diferentes aos avôs e às
avós, como a Polónia e a França. Na Argentina, há três datas: 26 de julho,
para homenagear ambos; o segundo domingo de novembro, dedicado às avós; e o
terceiro domingo de agosto, reservado aos avôs.
Para
celebrar a data, muitas famílias visitam os avós, fazem reuniões familiares,
oferecem flores ou pequenos presentes e passam mais tempo com os familiares
mais velhos.
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Porém,
a nível eclesial, a celebração teve o cunho papal em 2021. Após a recitação do Angelus,
no domingo, 31 de janeiro, a partir da Biblioteca do Palácio Apostólico (era tempo
de pandemia de covid-19, pelo que não se apinhavam os fiéis na Praça de São
Pedro), Francisco, falou do 2 de fevereiro, da Festa da Apresentação de Jesus
no Templo, quando o velho Simeão e a profetiza Ana, ambos idosos, iluminados
pelo Espírito Santo, reconheceram Jesus como o Messias. E assegurou que o
Espírito Santo suscita pensamentos e palavras de sabedoria nos idosos, cuja voz
“é preciosa, porque canta os louvores de Deus e conserva as raízes dos povos”.
Os
idosos recordam-nos que a velhice é um dom e que os avós são a ligação entre as
gerações, transmitindo aos jovens a experiência da vida e da fé. “Os avós são,
muitas vezes, esquecidos e nós esquecemos esta riqueza de preservar as raízes e
de as transmitir”. Por isso, Francisco decidiu “instituir o Dia Mundial
dos Avós e dos Idosos, que terá lugar na Igreja inteira, todos os anos, no 4.º
domingo de julho, na proximidade da festa dos Santos Joaquim e Ana, os ‘avós’
de Jesus”. E enfatizou a importância de os avós e os netos se encontrarem,
porque – citou o profeta Joel – “os avós, diante dos netos, sonharão, terão
ilusões [grandes desejos], e os jovens, haurindo força dos avós, seguirão em
frente, profetizarão”. Por conseguinte, declarou que, a 2 de fevereiro, é a “festa
do encontro dos avós com os netos”.
A
31 de maio daquele ano, o Papa argentino enviou a mensagem para o primeiro Dia
Mundial dos Avós e dos Idosos, acentuando o sofrimento de muitos avós que
partiram, por causa da pandemia e dos muitos que sobreviveram, para garantir
que Deus está com os idosos, que a sua oração sustenta o Mundo, que, enquanto
raiz, memória e testemunho, são úteis à evangelização e que são necessários
para a construção da fraternidade e da amizade social no amanhã.
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A
relação entre avós e netos traz benefícios para ambas as gerações. Os mais
novos aprendem tradições, valores e histórias de família, fortalecem a
identidade familiar e encontram nos avós importante rede de apoio. E, para os
mais velhos, o convívio com os netos ajuda a combater o isolamento e contribui
para o bem-estar emocional.
A
Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego (ITE) defende que “celebrar
o Dia Mundial das Avós e dos Avôs é saber reconhecer o valor do elo de ligação
entre o passado e o presente”. E sabe que muitas avós e muitos avôs trabalham
fora de casa, se ocupam das “tarefas domésticas e cuidam de netas e [de] netos”
e que, “não raras as vezes, são suporte afetivo e financeiro das famílias e o
seu fundamental apoio, na conciliação entre a atividade profissional e a vida
familiar e pessoal”.
Um estudo
intitulado “Grandchild Care and Grandparents’ Health” (“Cuidado com os netos e
a saúde dos avós”, de Youji Lyu, da Universidade NanKai, no Japão, concluindo
que cuidar dos netos pode melhorar a saúde dos avós, em vários aspetos,
incluindo a perceção do estado de saúde, o bem-estar psicológico, a memória e a
função pulmonar, reforça esta ligação.
Trata-se
de tema de crescente relevância para as políticas públicas, com os países priorizarem
o envelhecimento saudável, implementando programas de promoção do bem-estar dos
idosos. Graças a fatores, como turnos de trabalho noturnos, que reduzem a
disponibilidade dos pais para cuidar dos filhos, os avós vêm assumindo, cada
vez mais, essa responsabilidade. Ora, face ao crescente envolvimento dos avós
na criação dos netos, era fundamental avaliar o impacto desse cuidado na saúde
das populações de meia-idade e dos idosos.
A
abordagem empírica do estudo utiliza o sexo do filho primogénito como variável
instrumental exógena para isolar a variação exógena na probabilidade de os avós
prestarem assistência no cuidado com os netos. E, utilizando um amplo conjunto de
indicadores de saúde, a partir de pesquisas representativas, encontraram-se
evidências robustas de que o cuidado com os netos impacta, positivamente, na
saúde dos avós, resultando em melhor autoavaliação do estado de saúde, em maior
bem-estar psicológico, em função pulmonar aprimorada e em melhor capacidade de
memória episódica. Igualmente, foram investigadas as variações nesses efeitos
sobre a saúde sob diferentes perspetivas.
A
nível regional, examinada a influência da disponibilidade de serviços formais
de cuidado infantil e da residência em áreas urbanas versus as rurais, verificou-se
que os avós de áreas rurais se percebem como mais saudáveis, após cuidarem
dos netos, enquanto os de áreas urbanas exibem melhorias objetivas e
mensuráveis na saúde. A nível individual, a associação positiva entre o
cuidado com os netos e a melhoria dos indicadores de saúde é mais acentuada em
avós do sexo feminino, em avós mais jovens e nos que não coabitam com os
filhos. E os resultados sugerem que os avós se beneficiam do cuidado com os
netos por meio de mecanismos, como redução da oferta de trabalho, acesso
limitado a recursos económicos, adoção de hábitos saudáveis, diminuição do
apoio financeiro recebido dos filhos e aumento do apoio emocional que recebem.
Do
estudo emergem implicações relevantes para a formulação de políticas.
Visto
que o cuidado com os netos melhora a saúde dos avós, em muitas dimensões –
incluindo a saúde autorreferida, o bem-estar psicológico, a função pulmonar e a
capacidade de memória –, os formuladores de políticas devem implementar
programas de apoio e de incentivo a essa prática, os quais devem ser adaptados
aos contextos regionais e considerar as disparidades individuais. Por exemplo,
as necessidades atinentes ao cuidado de crianças em áreas rurais e urbanas
devem ser abordadas de formas distintas, já que os residentes de áreas rurais
podem não apresentar melhorias tangíveis em indicadores objetivos de saúde,
enquanto os residentes de áreas urbanas podem observar menos melhorias em
indicadores de saúde autorreferida.
Para
potencializar os efeitos positivos do cuidado com os netos sobre a saúde, as
políticas devem concentrar-se em fortalecer os diversos canais pelos quais tal
atividade influencia o bem-estar dos avós. Assim, as políticas de proteção laboral
a trabalhadores mais velhos devem ser aprimoradas continuamente, devendo
promover-se um mercado de trabalho favorável ao envelhecimento, com apoio à
permanência dessas pessoas na força de trabalho. Por outro lado, devem ser
intensificadas a educação em saúde e a promoção de hábitos saudáveis, para
aumentar a conscientização dos idosos em questões de saúde. Além disso, é
preciso fomentar, na sociedade, a cultura de respeito e de cuidado com os
idosos, incentivando os filhos a oferecerem maior apoio intergeracional aos pais
em processo de envelhecimento.
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Na
sua primeira mensagem para a efeméride, o Papa Leão XIV cita o profeta Isaías, para
garantir o Senhor “nunca se esquecerá de nenhum de nós”, que “traz os nossos
rostos gravados nas palmas das mãos” e que “o seu amor é maior do que o de uma
mãe pelo seu filho”.
Estas
palavras “enchem de consolação e confiança” e respondem ao sentimento
angustiante que agita o coração: “O Senhor abandonou-me, o meu dono esqueceu-se
de mim” (Is 49,14). “Quantas vezes, na Sagrada Escritura, em particular
nos Salmos, a oração nasce do desamparo de quem tem a impressão de que a sua
vida não interessa a ninguém e é negligenciada! A dolorosa sensação de ser
esquecido é, infelizmente, comum a muitas pessoas e, entre elas, não poucas são
idosas”, verifica, em exclamação, o Pontífice.
Ao
invés, no dizer de Leão XIV, o amor de Deus, que não esquece ninguém, “oferece-se
como um ato de justiça e uma resposta ao anonimato, no qual, com demasiada
frequência, a vida humana acaba por perder-se”. Nestes termos, parece
estender-se sobre a existência de muitos idosos “um véu que esbate as feições
dos rostos e relega ao esquecimento”. Isso acontece nas casas “onde reina a
solidão” ou “onde a singularidade de cada pessoa corre o risco de ser reduzida
ao número da sua cama ou à sua patologia”.
Ora,
como afirma o Papa, esta “é uma oportunidade para redescobrir que a Igreja é
chamada a ser mãe de todos e que é sempre possível, em qualquer idade,
descobrir-se filhos e filhas de Deus”. Assim, este Dia deve estimular todos, em
particular, os mais jovens, “retomarem o bom hábito de visitar os seus avós, os
idosos da família e também os que não recebem nenhuma visita”. “Fazei com que
as palavras do profeta ‘Eu nunca te esquecerei’ assumam a forma de um encontro
terno e afetuoso”, recomenda Leão XIV. Com efeito, num tempo que tende a
acelerar e a fragmentar, “a carne humana continua a pedir para ser cuidada e
reconhecida por mãos capazes de ternura, por mentes atentas e por palavras
bondosas”. É certo que “a cultura digital multiplica as conexões e oferece
novas possibilidades de encontro”, mas “o coração humano conserva uma
necessidade inalienável de proximidade”.
Diz
o Papa que “a Igreja conhece o sofrimento dos seus filhos mais idosos”; sabe
que, demasiadas vezes, se olha para eles com preconceitos e como “um fardo”;
está ciente de que “uma economia centrada no lucro enfraquece os laços
familiares”; sabe que “muitos idosos são abandonados pelos filhos, obrigados a
migrar ou, nalguns casos, a combater na guerra”. Porém, alegra-se em anunciar a
promessa do Senhor: “Eu nunca te esquecerei!”
Para
muitos, a descoberta da ternura de Deus acontece na sua última etapa de vida. Ao
contrário do que acontecia no passado, “é possível chegar à velhice sem ter
tido uma verdadeira experiência de fé”. Neste caso, diz o Pontífice, a idade
avançada, a partir das questões que, nesta fase da vida, se colocam com maior
premência, “pode tornar-se o momento oportuno para iniciar ou para retomar a
vida espiritual”, podendo reconhecer-se que Deus, como diz Santo Agostinho, “é
mãe porque aquece, porque alimenta, porque amamenta, porque protege”.
Esta
é a consciência que ajuda a não sentir vergonha da fragilidade a compreender
que todos precisamos uns dos outros e que “somos mendigos de atenção e de cuidado”,
percebendo que “nunca é tarde de mais para a Ele [Deus] nos começarmos a
dirigir”.
Recordando
que o Papa Francisco se referiu aos idosos como um “novo povo”, visto que o
número de pessoas de idade avançada nunca foi tão elevado na história da Humanidade,
Leão XIV quis refletir, com este “novo povo”, sobre qual poderá ser “a nossa
vocação, quando a fragilidade, companheira do homem, desde o nascimento, parece
prevalecer”. E sentiu-se no dever de exortar: “Não tenhais medo da fragilidade!
É, justamente, esta fraqueza que esconde em si uma nova potencialidade que
ilumina também as outras idades da vida. Efetivamente, quando é aceite e
reconhecida, a fragilidade ‘abre o coração ao apoio mútuo e à invocação
d’Aquele que pode dar o que nenhum poder humano é capaz de garantir: a
reconciliação profunda dos corações e, com ela, a verdadeira paz’.”
E
concluiu: “Assim, podemos viver, como cristãos, o tempo da velhice: ‘frágeis’
e, simultaneamente, ‘chamados’. […] Pode-se renascer na velhice e reconhecer,
com o profeta: ‘A vossa salvação está na conversão e em terdes calma; a vossa
força está em terdes confiança’ (Is 30,15). Uma força que, para garantir
a convivência humana, pode tornar-se convite a não recorrer aos caminhos da
arrogância e do poder, mas aos caminhos da reconciliação e da verdadeira paz.
Neste tempo, marcado, de forma tão dura, pela violência bélica e social, muitos
questionam-se sobre como será o Mundo em que crescerão os seus netos.”
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No
âmbito desta efeméride, Rosa Parra, das Irmãzinhas dos Anciãos Desamparados,
defende que a atenção aos idosos não se restringe ao atendimento das
necessidades físicas, mas implica também acompanhá-los na dimensão espiritual,
reconhecer a sua dignidade e ajudá-los a viver essa etapa com fé e esperança. E
o Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida convida as comunidades
paroquiais e diocesanas a dedicarem-se a quem vive sozinho, a quem passa os
dias em centros de assistência e a quem não recebe visitas e propõe orientações
pastorais para as visitas a pessoas que estão sós: por exemplo, quem fizer as
visitas não permaneça apenas nas áreas comuns, mas aproxime-se dos quartos; que
os ministros extraordinários da Eucaristia prolonguem a visita habitual aos
idosos e dediquem um tempo mais tranquilo à escuta; e que as famílias visitem
os idosos solitários que moram no seu próprio prédio ou bairro.
O
carisma da Congregação da irmã Rosa Parra consiste em acompanhar os
idosos, atendendo às suas necessidades materiais e espirituais. O cuidado
integral expressa-se nas tarefas da vida quotidiana: alimentar, higienizar,
acompanhar, ouvir ou segurar a mão, bem como levar o idoso à Eucaristia, rezar
o terço e criar um ambiente no qual ele possa viver essa etapa a partir da fé. E
a religiosa alerta para o risco de reduzir a velhice à fragilidade física e à
deterioração. Por isso, convida todos, sobretudo, os jovens, a descobrirem a
riqueza da experiência e da sabedoria que os idosos – que devem ser os
protagonistas da ação – podem transmitir. “Todo o idoso, por mais limitado que
seja, nos dá uma lição”, afirma.
Na
sua perspetiva, a dignidade da pessoa não depende das capacidades nem do que obteve
na vida. Mesmo quando não consegue falar ou manter conversa, merece cuidado,
respeito e amor. Não é, pois, lícito descartar os que já não acompanham o ritmo
acelerado da vida. Até nos podem ajudar
para o benefício do pensamento lento. A dignidade humana postula o respeito, a
benevolência e a ação de todos.
2026.07.27
– Louro de Carvalho