sábado, 11 de julho de 2026

Incêndio na Andaluzia: “uma tragédia sem precedentes”

 

Um incêndio florestal na região espanhola de Los Gallardos, iniciado no Levante de Almeria, na comunidade autónoma da Andaluzia, no Sul da Espanha, destruiu áreas de floresta e de mato e causou, pelo menos, 12 mortos e oito feridos, quatro dos quais, em estado grave, como indicaram, a 10 de julho, as autoridades locais. E, de acordo com Juan Moreno, presidente do governo regional da Andaluzia, em declarações à rádio Canal Sur, há ainda, pelo menos, 23 pessoas dadas como desaparecidas (ou incontactáveis).

Segundo o jornal El País, o fogo propagou-se, depois, para Norte e para Noroeste e chegou ao município de Bédar, zona montanhosa com habitações isoladas, onde vivem, maioritariamente, estrangeiros.

Os feridos, que apresentam diferentes graus de gravidade, foram transferidos para centros hospitalares em localidades vizinhas.

Segundo as autoridades, quatro cidadãos britânicos “encurralados dentro de um veículo e sete pessoas morreram, ao tentarem fugir a pé”. Mais tarde, verificou-se a morte de mais uma pessoa. E a delegada do governo regional da província de Almeria, Patricia Navarro, afirmou que mil pessoas foram retiradas dos locais de residência, por precaução.

Uma “tragédia sem precedentes”, no dizer do conselheiro da Presidência, Saúde e Emergências da Andaluzia, Antonio Sanz, citado pelo jornal El Mundo. O conselheiro, sustentando que se trata do incêndio com “maiores consequências, até à data”, na região, comentou: “A dor é imensa. A Andaluzia está de luto e os nossos corações estão com Almería e todos os afetados.”

Depois, considerou que várias vítimas do incêndio mortal foram encontradas dentro de veículos carbonizados. “Procuravam uma saída alternativa à indicada e acabaram por cair numa armadilha”, disse, relevando que a mudança de rota para caminhos improvisados e não coordenados, no fumo, agravou a tragédia.

A maioria das vítimas foi encontrada numa aldeia do município de Bédar, Los Gallardos.

Antonio Sanz disse à agência de notícias EFE que tudo indica que “a maioria ou a totalidade” das vítimas mortais do incêndio florestal eram estrangeiras, aguardando-se a conclusão dos procedimentos de identificação. E adiantou que as vítimas tentaram escapar por conta própria, através do leito seco de um rio – “uma verdadeira armadilha” –, em vez de seguirem a ordem de permanência no local ou as rotas de evacuação indicadas pelas autoridades.

Entretanto, segundo a ministra da Defesa, Margarita Robles, a Unidade Militar de Emergência de Espanha (UME) mobilizou, 200 efetivos e 70 viaturas de diversos tipos para auxiliar no combate ao incêndio, que trabalham em coordenação com o Plano Infoca, bombeiros e outros serviços de emergência. No total, a operação mobilizou, aproximadamente, 700 profissionais no terreno, a combater as chamas e a procurar as vítimas.

Na verdade, o avanço do fogo obrigou à ativação do Nível 2 do Plano de Emergência para Incêndios Florestais da Andaluzia (INFOCA) – ativado às 22h37 do dia 9, bem como à evacuação preventiva de centenas de residentes de Bédar e das zonas próximas. Mais de uma centena de pessoas do INFOCA, da Guarda Civil, dos Bombeiros, da Defesa Civil e da UME estão a fazer trabalho direto na extinção do incêndio, que é de grande intensidade.

O incêndio que deflagrou na tarde do dia 9 e se agravou na tarde do dia 10, pode ter sido provocado pela queda de uma linha de transporte de energia, como apontou o presidente do governo regional da Andaluzia. “O incêndio começou numa vala, devido a um cabo partido entre dois pontos de energia”, afirmou o governante, citado pela imprensa espanhola, o qual referiu que, devido ao vento forte, o “fogo alastrou-se como um incêndio florestal, um dos mais rápidos e complexos dos últimos anos”. “Está tudo muito seco, devido às ondas de calor, o que cria o combustível perfeito, que, combinado com o vento, é uma bomba-relógio”, vincou Juan Moreno.

De acordo com a EFE, o fogo já consumiu cerca de 3150 hectares e continua a devastar o terreno. As autoridades regionais da Andaluzia afirmaram também que se trata do incêndio “mais mortífero já registado na região”.

A equipa de resposta a emergências continua a trabalhar, enquanto o incêndio se mantiver em fase de emergência; cinco núcleos populacionais em Los Gallardos e Bédar permanecem evacuados. Os residentes de Almocáizar, Fuente del Albarico, Los Pinos, La Serena e El Pinar de Bédar permanecem fora das suas casas, por precaução até que a situação permita garantir a sua segurança, segundo o jornal El Diario de Almería.

Jornalistas da agência AFP viram equipas de bombeiros a tentar dominar as chamas que avançavam pelo campo, projetando colunas de fumo branco no céu.

O Grupo de Intervenção Psicológica em Emergência e Catástrofe (GIPED) criou uma linha de ajuda para os afetados pelo fogo.

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Durante uma cerimónia na Base Aérea de San Javier, em Múrcia, o rei Filipe VI, a rainha Letizia e as duas filhas fizeram um minuto de silêncio em memória das vítimas mortais. O soberano, afirmando querer “transmitir o nosso pesar, o nosso carinho e o nosso apoio a quem perdeu os seus entes queridos”, expressou o seu apoio a todos os afetados e elogiou o trabalho dos serviços de emergência que combatem as chamas.

E o monarca, em sinal de respeito pelas vítimas da tragédia, encurtou a presença numa cerimónia que assinalava o fim da formação militar da filha mais velha, a princesa Leonor, nomeadamente, suspendendo a sua presença na receção prevista após a cerimónia, e apresentou, publicamente, condolências às pessoas afetadas pelo desastre em Almería.

Filipe VI manifestou, formalmente, profundo pesar pela tragédia do incêndio de Los Gallardos, Almeria, transmitindo as condolências às famílias das vítimas e aos afetados. “Expressamos a nossa tristeza e condolências às famílias e aos entes queridos dos falecidos, bem como a todos os afetados”, declarou a Casa Real, em mensagem divulgada pelas redes sociais.

Entretanto, o rei telefonou ao presidente do governo regional a exprimir as condolências pelas vítimas e a sua proximidade com os familiares. E Juan Moreno agradeceu o gesto do monarca, que descreveu como “muito preocupado e consternado”.

O primeiro-ministro, Pedro Sánchez (que anunciara, em maio, que a Espanha ia mobilizar o maior dispositivo de combate a incêndios florestais estivais de sempre), expressou as suas condolências, em mensagem publicada na rede social X: “Enorme tristeza e desolação pelas terríveis consequências do incêndio que atingiu a província de Almería. Quero transmitir as minhas condolências às famílias dos que morreram no incêndio florestal de Los Gallardos. Os meus votos de rápida recuperação aos feridos e a minha solidariedade a todos os residentes afetados.”

Também o presidente eleito da Andaluzia transmitiu condolências aos familiares das vítimas mortais, bem como os presidentes das comunidades autónomas e as universidades da Andaluzia.

O Presidente da República de Portugal, António José Seguro lamenta, profundamente, as vítimas mortais resultantes do grave incêndio florestal que deflagrou na noite do dia 9, na região de Almería, na comunidade da Andaluzia, como refere uma nota de Presidência da República, nos termos da qual “em seu nome pessoal e no do povo português, o Presidente da República solidariza-se com o Rei de Espanha, a quem dirigiu uma mensagem de condolências, e com todo o povo espanhol”. E “o Presidente da República apresenta sentidas condolências às famílias das vítimas deste incêndio e faz votos de rápida recuperação a todos os feridos”.

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As investigações preliminares indicam que grande parte da tragédia se deve a um fator concreto: o abandono da rota de evacuação prevista por algumas das vítimas. Antonio Sanz explicou que os técnicos trabalham com dois cenários distintos para explicar as mortes: quatro pessoas de nacionalidade britânica morreram dentro de uma viatura; e sete pessoas morreram quando seguiam a pé, depois de terem abandonado os carros, na tentativa de encontrarem uma saída diferente da indicada pelos serviços de emergência, acabando por atravessar uma ribeira onde as chamas, que avançavam a grande velocidade, as alcançaram. Trata-se um incêndio como um foco “muito complexo, de progressão muito rápida”.

O governo regional da Andaluzia indicou que os serviços de emergência receberam mais de 150 chamadas a alertar para o incêndio e que as chamas eram visíveis a partir de uma autoestrada que passa perto da aldeia. Com efeito, situada a cerca de 15 quilómetros da costa mediterrânica espanhola, Bedar é popular entre residentes estrangeiros e turistas que procuram uma alternativa mais tranquila aos resorts de praia próximos.

O presidente da Câmara de Bédar, Ángel Francisco Collado, tinha ordenado uma evacuação urgente do município e disse que pediu a alguns moradores para abandonarem as casas, “mesmo àqueles que não queriam sair”. Parte dos residentes conseguiu sair, seguindo o percurso definido; noutra zona, perante a proximidade do fogo, optou-se pelo confinamento, decisão que, segundo as autoridades regionais, evitou um número ainda maior de vítimas.

A muito má orografia da zona condicionou a evacuação e o combate às chamas. Bédar é um município de montanha, só com duas saídas por estrada e com uma rede de caminhos rurais em que muitas vias têm uma única entrada e saída, reduzindo, drasticamente, as alternativas de fuga, se o traçado principal ficar comprometido pelo fumo ou pelas chamas. A este problema junta-se o terreno abrupto, de difícil acesso, com ravinas onde a maquinaria pesada não entra. O flanco direito preocupa pelo risco de o fogo atingir novas áreas de cultivo, enquanto o esquerdo se mantém ativo e em grande parte inacessível às equipas de combate ao fogo.

Como medida de precaução, foi evacuado todo o município de Bédar. Entre mais de mil desalojados, segundo o jornal El País, contam-se cerca de 400 pessoas que estavam num parque de campismo, nas proximidades, e foram retiradas, antes de o fogo alcançar a zona.

O incêndio foi declarado às 16h35 do dia 9 e, segundo fontes da Guardia Civil, teve origem na queda de um cabo elétrico, na localidade de Almocaizar, o que Juan Moreno confirmou. A velocidade de propagação obrigou a ativar o Plano Infoca, em fase de emergência, situação operativa 2, e a cortar várias estradas, entre elas a autoestrada A-7, durante várias horas.

O balanço da tarde do dia 10, apontava para uma área ardida de cerca de 3150 hectares, com oito feridos, quatro em estado grave, a serem tratados nos hospitais Torrecárdenas e Virgen del Rocío. Mantinham-se evacuados, na tarde desse dia, os núcleos de Almocáizar, Fuente del Albarico, Los Pinos, La Serena e Pinar de Bédar, bem como os hóspedes do complexo turístico Miraflores.

Segundo a Autoridade de Emergência e Proteção Civil espanhola, há suspeitas de que os falecidos sejam cidadãos estrangeiros, de nacionalidades britânica “inferida pela posição dos volantes dos veículos em que circulavam” e belga, avançou o jornal El Mundo

A Espanha tem estado sob calor extremo, com temperaturas muito elevadas a motivar avisos meteorológicos laranja, o segundo nível mais alto, em partes da Andaluzia, criando condições de seca que favorecem a propagação de incêndios florestais. As autoridades alertaram que as condições podem agravar-se, se o vento mudar de direção. E a comunidade científica concorda que as alterações climáticas, provocadas pela queima de combustíveis fósseis, tornam mais prováveis e mais intensos fenómenos meteorológicos extremos, como ondas de calor.

Nos últimos anos, a Espanha tem registado ondas de calor cada vez mais frequentes e prolongadas, com temperaturas que ultrapassam, muitas vezes, os 40º C (Celsius), criando condições propícias a grandes incêndios. Os incêndios florestais devastaram quase quatro mil quilómetros quadrados de terreno, na Espanha, em 2025, o valor mais elevado registado para o país pelo Sistema Europeu de Informação sobre Incêndios Florestais.

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O incêndio de Los Gallardos está a ser comparado à tragédia de Pedrógão Grande, em Portugal, em 2017. Com efeito, em ambos os casos, várias vítimas morreram, enquanto fugiam das chamas, tendo optado por caminho alternativo aos recomendados pelas autoridades, o que leva a concluir que “fugir nem sempre é a opção mais segura”.

Domingos Xavier Viegas, diretor do Centro de Estudos de Incêndios Florestais, da Universidade de Coimbra, diz que a evacuação deve ser decidida com antecedência e que abandonar a zona ameaçada pelo fogo, à última hora, pode ser fatal.

Embora a área queimada, para já, não seja a maior da História recente da Espanha, em termos de vítimas mortais, este é o segundo o incêndio a matar pessoas, contra as 21 pessoas mortas no de Lloret del Mar, em 1979. Também o número de vítimas mortais é inferior ao das 66 do incêndio de Pedrógão. Porém, embora o número de mortos em Pedrógão tenha sido mais elevado, a forma como as vítimas foram apanhadas pelo fogo permite estabelecer semelhanças entre os dois casos. Tal como em Pedrógão Grande, as mortes no incêndio da Andaluzia aconteceram, enquanto as vítimas se deslocavam de carro, na tentativa de fugir às chamas; e a forma rápida como o fogo progrediu terá surpreendido os fugitivos, que acabaram cercados.

Em Pedrógão, foram apontadas, mais tarde, como fatores que contribuíram para a morte das pessoas, falhas na comunicação e na coordenação das evacuações de mais de seis dezenas de pessoas. Na Espanha, as autoridades ordenaram a evacuação de várias localidades em perigo e definiram trajetos considerados seguros para a evacuação. As vítimas terão tentado fugir de carro por percursos alternativos. E o presidente do governo regional da Andaluzia lamentou que alguns se tenham recusado a seguir as recomendações das autoridades. E, como ocorreu em Pedrógão, algumas das vítimas mortais foram encontradas fora das viaturas em que circulavam, indicando que se terão apercebido do cerco e terão tentado escapar a pé.

Domingos Xavier Viegas sustenta que tentamos subestimar o comportamento do fogo, que pensamos que há tempo para fugir e que desconhecemos o terreno, pelo que “é essencial acatar as ordens das autoridades”.

Segundo o especialista, “não há receitas infalíveis”, pois “as condições de propagação de incêndios florestais variam muito”. Por isso, uma evacuação só deve ser desencadeada, quando há tempo para retirar a população em segurança (“entre meia hora e uma hora antes da eventual chegada das chamas”). Tendo em conta o tipo de construção em Portugal, o mais seguro, na maioria dos casos, é deslocar as pessoas em risco para um local seguro, dentro do perímetro, como uma igreja ou capela. Já noutros países, como os Estados Unidos da América, isso não se aplica, visto que os edifícios são compostos por materiais mais inflamáveis.

Seja como for, importa que as telecomunicações funcionem, o que supõe que as infraestruturas sejam sólidas, que se obedeça às autoridades e se tenha feito a prevenção. Enfim, é preciso aprender com os fogos, com o vento, com o calor, com a Natureza.

2026.06.10 – Louro de Carvalho

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Europa diz-se pronta a assumir o controlo da sua defesa

 

Decorreu, na cidade de Ancara, na Turquia, nos dias 7 e 8 de julho, a 39.ª Cimeira da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), que parece ter marcado, segundo alguns analistas, o primeiro passo na europeização desta aliança transatlântica, estando o velho continente na via do afastamento do apoio militar dos Estados Unidos da América (EUA).

Não sei se é inteiramente verdade essa europeização ou autonomia defensiva da Europa, visto que se mantém como relevante a participação do Canadá e porque Donald Trump está a jogar com um pau de dois bicos, considerando a importância da NATO, mas passando à Europa – nomeadamente, à União Europeia (UE), que olha de soslaio – o ónus da sua defesa. Além disso, a Europa não será autónoma, enquanto não se reindustrializar de forma robusta.  

A Cimeira de Ancara de 2026 era, há muito, uma das mais aguardadas. Depois de quatro anos de guerra no continente e de ano e meio de tensão com a Casa Branca, era o momento de a Europa mostrar que leva a sério a sua defesa. Igualmente, foi a primeira a contar com a presença do chanceler alemão, Friedrich Merz, do primeiro ministro belga, Bart de Wever, do primeiro ministro búlgaro, Rumen Radev, e do primeiro ministro neerlandês Rob Jetten – líderes políticos que assumiram os cargos após a realização da cimeira anterior, ocorrida em Haia, nos Países Baixos, em 2025, na qual estiveram presentes os líderes dos países participantes.

Em maio deste ano, o presidente da Ucrânia, Volodomyr Zelenskyy tornou-se um dos primeiros líderes convidados a confirmar, publicamente, a sua presença na reunião. Além dele, o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, estendeu o convite de participação aos líderes da Austrália, da Coreia do Sul, do Japão e da Nova Zelândia, enfrentando a oposição do governo dos EUA, crítico da decisão de incluir países não membros nas discussões principais da cimeira.

No Fórum da Indústria de Defesa de 7 de julho, os aliados europeus anunciaram contratos de 50 mil milhões de dólares (43 mil milhões de euros) para produção e aquisição de armamento, incluindo submarinos, sistemas de defesa antimíssil Patriot, intercetores e munições, apresentados como prova de que a NATO está numa via credível para gastar 5% do seu produto interno bruto (PIB) em defesa, até 2035.

Destacaram-se a decisão da NATO de escolher a empresa sueca Saab para fabricar aviões de vigilância, para substituir o Sistema Aerotransportado de Alerta e Controlo (AWACS), atualmente, operado com aviões da norte-americana Boeing, o programa Drone Hedge da NATO, de 40 mil milhões de dólares (35 mil milhões de euros) em capacidades de combate a drones, nos próximos cinco anos, cobrindo todo o território da Aliança, e a priorização do recrutamento e da formação de pilotos, que será, totalmente, interoperável entre todos os aliados.

“Os drones alteraram, de forma fundamental, como todos sabemos, a natureza da guerra moderna. […] Tornaram-se um fator decisivo no campo de batalha. Isto é evidente pelo que vemos na Ucrânia, no Médio Oriente e em toda a Aliança”, frisou Mark Rutte.

De facto, as incursões de drones em território da NATO, sobretudo, nos países bálticos, tornam-se cada vez mais frequentes e a Aliança tem estado sob pressão para responder, de forma ágil e eficaz, em termos de custos. “O mais interessante é a quantidade de trabalho que os aliados europeus fizeram nos bastidores, em matéria de defesa e de contratos de armamento”, diz Daniel Fiott, do Instituto de Estudos de Segurança da UE, vincando que é preciso “trabalhar, em conjunto, nas diferentes vertentes da segurança”, tal como precisamos de “mais cooperação” e “em dose reforçada, exatamente, neste momento”.

Donald Trump pareceu aprovar a concessão de licenças dos sistemas de defesa Patriot norte-americanos à Ucrânia. Os Patriot têm-se revelado os melhores sistemas de interceção para responder a ataques com mísseis balísticos russos e Kiev vem reclamando o direito de produzir os seus próprios sistemas, mas não havia garantias do aval de Trump. “Vamos mostrar-lhes como se faz, é algo muito complexo. Mas vocês vão, rapidamente, perceber a complexidade”, disse o líder norte-americano ao líder ucraniano, antes da reunião.  

Max Bergmann, do Centre for Strategic and International Studies, afirmou que a abertura de Donald Trump (percebeu que não pode intimidar os ucranianos), neste dossiê, é sinal da força da Ucrânia, “seguiu em frente e está a interagir com Bruxelas”.

Contudo, o domínio dos EUA, na NATO, está longe de acabar, pois, como observa Nico Lange, analista da Rasmussen Global, não haverá europeização da Aliança, enquanto os seus membros não “substituírem as capacidades estratégicas essenciais da NATO por capacidades europeias”. Isso inclui, na ótica do analista, infraestruturas militares fundamentais para ligar militares e meios em toda a Aliança, como “códigos horários baseados em satélites, navegação, guerra eletrónica aerotransportada e ataques de precisão em profundidade”.

Embora haja o consenso de que a cimeira decorreu sem graves incidentes, a Europa tem de levar a sério as ameaças de Trump, em relação à Gronelândia, sem esquecer a volatilidade do seu caráter volátil, que o pode levar a uma opção com danos para a NATO.

Todavia, apesar de a Europa continuar a depender dos EUA para a sua defesa, durante algum tempo, o sentido de marcha do afastamento da dependência, em relação a Washington, é claro.

“É um sinal muito positivo que, pelo menos, no lado da produção de defesa, os europeus percebam a mensagem de que têm de gastar mais e de forma inteligente em capacidades”, foi esta a mensagem de Mark Rutte, na conferência de imprensa do dia 7, ao procurar apresentar a cimeira como um momento em que a Europa assume mais responsabilidades, mas sem prescindir da partilha da segurança com o Canadá.

Não obstante a UE ter dado um passo em frente e ser, agora, o principal financiador militar da Ucrânia”, no início da cimeira, Trump ignorou os esforços dos parceiros.

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Um presidente norte-americano visivelmente irritado chegou à cimeira da NATO, deixando claro que não tinha vontade de estar ali e dizendo aos aliados que só comparecia por respeito ao anfitrião, o presidente turco, Recep Tayyip Erdoğan.

Quase de imediato, começou a censurar os países europeus por, alegadamente, não apoiarem Washington, na guerra no Irão, mas o secretário-geral da NATO, num briefing, no dia 8, interveio, de forma discreta, para o corrigir, vincando que as recusas de alguns Estados em permitirem que os EUA utilizassem bases aéreas europeias como escala para a campanha aérea foram incidentes isolados, tendo, no auge do conflito, cinco mil aeronaves norte-americanas descolado de bases europeias, pelo que “a Europa continua a ser uma grande plataforma de projeção de poder” dos norte-americanos.

Noutro gesto que ameaçou abalar a cimeira, Donald Trump reiterou a ideia de que os EUA devem controlar a Gronelândia, território semiautónomo do aliado da NATO que é a Dinamarca, mas a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, levou a ameaça a sério. “A posição dos EUA é, infelizmente, muito clara sobre este tema”, afirmou, contrapondo: “A nossa posição é tão clara como sempre foi: a Gronelândia não está à venda. Espero que todos os aliados respeitem o direito do povo da Gronelândia à autodeterminação.”

Donald Trump atacou também a Espanha, cujo primeiro-ministro, Pedro Sánchez, tem criticado, abertamente, a guerra no Irão e resistido a avançar mais depressa para atingir a nova meta de despesa em defesa da NATO. “A Espanha é uma causa perdida. […] Já não queremos fazer qualquer negócio comercial com Espanha”, declarou.

Porém, no final da cimeira, no dia 8, não havia sinais de que tal política fosse aplicada. Em vez disso, o presidente dos EUA declarou, depois de participar numa reunião do Conselho do Atlântico Norte, o principal órgão de decisão da NATO: “Há uma palavra que resume o dia: ‘união’.” E chegou a classificar a reunião de “excelente”.

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Apesar da tensão entre o líder dos EUA e a Europa, protagonizada por Donald Trump, o anfitrião fez as honras da casa, ao pôr nas mãos de Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, e de António Costa, presidente do Conselho Europeu, um kit de pistolas personalizadas, com munições e utensílios de limpeza. Ambos agradeceram o gesto e procederam, logo, à inspeção da segurança das armas. Ursula von der Leyen, tenciona doá-la a um museu militar, enquanto António Costa pretende levá-la para Bruxelas e “armazená-la, de acordo com os requisitos de segurança impostos pelo Secretariado-Geral do Conselho”.

Segundo o jornal “Independent”, todos os líderes de países da NATO foram presenteados com este kit, com o respetivo nome gravado. Também Luís Montenegro, primeiro-ministro português, que, embora tenha estado no Dallas, nos EUA, a ver o jogo de Portugal com a Espanha, participou, integralmente, na cimeira, terá recebido a arma e respetivos adereços. É, porém, pouco provável que as armas possam ser mantidas, pessoalmente, pelos destinatários, devido aos limites aplicáveis a ofertas deste tipo. Aliás, houve quem se recusasse a transportar as pistolas, antes da desativação, como Keir Starmer e Rob Jetten, chefes do Governo britânico e neerlandês. Estes deixaram as armas na Turquia, pois, como disse Starmer, levar a prenda para o Reino Unido seria “ilegal”. E, convenhamos, o gesto de Erdoğan foi provocador.

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Como não podia deixar de ser, o primeiro-ministro português afirmou que a Cimeira da NATO, confirmou a unidade da Aliança Atlântica, reforçou a relação transatlântica e consolidou o compromisso dos aliados com o aumento do investimento em defesa, num contexto de crescente instabilidade internacional.

No final da reunião, Luís Montenegro considerou que a cimeira foi “bem-sucedida” (estando lá dois portugueses tinha de ser bem-sucedida), destacando e o compromisso comum dos parceiros europeus, do Canadá e dos EUA com o reforço do investimento em defesa, o que permitirá aumentar a capacidade da NATO para responder aos desafios de segurança.

Segundo o chefe do governo, este esforço conjunto permitirá reforçar a defesa coletiva e assegurar o apoio onde ele é mais necessário, no caso da realidade atual, “no apoio à Ucrânia”.

O primeiro-ministro reiterou a importância de a NATO manter uma visão de 360 graus da segurança, com especial atenção ao flanco Sul e à segurança marítima, incluindo a proteção das infraestruturas críticas, como os cabos submarinos que asseguram a ligação entre a Europa e a América do Norte. Salientou que a declaração final da cimeira reconhece a indústria de defesa como um eixo estratégico para todos os aliados, valorizando o papel das pequenas e médias empresas. E enfatizou que, na perspetiva de Portugal, “o reforço do investimento nesta área deve também contribuir para impulsionar a inovação, o desenvolvimento tecnológico, a criação de emprego qualificado e a competitividade da economia”.

Em meu entender, não o conseguirá com salários baixos, com sobrecarga de trabalhos, com ameaças de precariedade no emprego, sem direitos dos trabalhadores, sem trabalhadores (Portugal exporta trabalho, porque paga mal, e parece recusar importação de trabalho), sem organização e planeamento, sem dotar a administração pública de quadros suficientes, sem renunciar à reforma do Estado com desmantelamento de estruturas, sem abandonar a ótica reformista laboral que tem ou tinha em mente. Com efeito, a industrialização precisa de dinheiro para pagar materiais e para compensar a mais-valia que lhes dá o trabalho humano.    

Luís Montenegro revelou que Portugal recebeu um “comentário muito positivo”, do secretário-geral da NATO, relativamente à fiabilidade dos compromissos assumidos pelo país, e recordou que Portugal ultrapassou, em 2025, pela primeira vez, desde 2014, a meta de investir 2% do seu PIB em defesa, o que representou um aumento de 38%, face ao ano anterior.

O governo prevê elevar o investimento agregado para cerca de 3,1% do PIB, neste ano, incluindo a despesa em defesa e em investimentos com aplicação simultânea nas áreas civil e militar, mantendo a trajetória acordada com os aliados.

Portugal voltará a igualar, neste ano, o apoio militar e financeiro concedido à Ucrânia nos dois anos anteriores e participará no Programa de Apoio à Defesa Antiaérea daquele país, com a contribuição de cerca de 50 milhões de euros. Na verdade, para Luís Montenegro, o apoio à Ucrânia continua a ser essencial para a segurança coletiva e para a defesa dos valores democráticos partilhados pelos aliados.

É caso para perguntar se é legítimo um país ter passado a fazer a guerra com drones. A guerra de veículos não pilotados e de custo relativamente baixo faz lembrar o que chamavam terrorismo do mato, a guerrilha subversiva ou alguns tipos de operações especiais, segundo as lógicas do “esconde e mata”, do “mata e foge” e do “mata para que não morras”.   

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Portugal e mais onze países da NATO reforçaram, no dia 8, o compromisso de assumir “maior responsabilidade” pela “segurança marítima” no Atlântico Norte, no Mar Báltico e no Oceano Ártico, reforçando as suas capacidades na próxima década.

Uma nota do governo da Noruega refere que o “compromisso conjunto”, firmado na 39.ª Cimeira da NATO, inclui o Canadá, a Dinamarca, a Finlândia, a França, a Alemanha, a Islândia, os Países Baixos, a Noruega, Portugal, a Espanha, a Suécia e o Reino Unido”. “Os nossos países dispõem já de capacidades e plataformas marítimas modernas e têm planos para reforçarem, significativamente, essas capacidades, na próxima década, posicionando-nos como uma força coletiva apta a conduzir operações marítimas de elevada intensidade”, lê-se na nota.

Este conjunto de aliados compromete-se a reforçar “o treino, os exercícios e as operações, em todo o espetro das operações marítimas na região euro-atlântica”, e “as capacidades de comando e controlo marítimos e a dar prioridade a investimentos” que aumentem a sua “consciência situacional em todos os domínios”. Além disso, compromete-se a intensificar “a aposta na inovação para desenvolver capacidades e efeitos marítimos relevantes”.

Segundo a nota, os aliados europeus e o Canadá estão dispostos e são capazes de assumir a parte justa dos encargos, reforçando a unidade e a coesão da NATO. “Este compromisso demonstra uma Europa mais forte numa NATO mais forte, com a Europa e o Canadá a assumirem maior responsabilidade pela nossa segurança euro-atlântica comum, em estreita coordenação com os Estados Unidos [da América]. […] Perante um ambiente de segurança cada vez mais desafiante, este compromisso demonstra a nossa vontade e capacidade para dissuadir e defender-nos da ameaça de longo prazo representada pela Rússia”, lê-se no texto.

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Nestes termos, como é possível a UE falar de paz? Com armas, só a paz dos escombros e dos cemitérios!

2026.07.09 – Louro de Carvalho

EUA celebraram, em festa, os 250 anos da independência

 

Os Estados Unidos da América (EUA) celebraram, em festa, por todo o país, a 4 de julho (aliás, abrangeu o fim de semana), os 250 anos da sua independência.

Em Nova Iorque, realizou-se um festival de exibição aérea, onde também não faltaram relíquias da Marinha norte-americana no porto da cidade. Em Times Square (área formada na confluência e cruzamento de duas grandes avenidas da cidade), a bola que desce, habitualmente, na passagem de ano foi utilizada para assinalar a data. E, em Filadélfia, onde foi assinada a Declaração de Independência, a 4 de julho de 1776, foi encerrada uma cápsula do tempo com objetos, como um iPhone, uma garrafa de Coca-Cola e um osso de baleia-branca, que se crê estar extinta em 2276, quando forem assinalados os 500 anos.

Foi Nova Iorque, nas imediações do Monte Rushmore, onde, em meados do século XX, foram esculpidos os rostos dos quatro presidentes fundadores da República, que Donald Trump escolheu para passar com o avião oferecido pela família real do Qatar e para, depois, proferir um discurso divisivo dirigido à ala progressista do Partido Democrata.

Em reminiscência da invasão do Capitólio, em 2021, a comunicação social mostrou imagens de grupos radicais de extrema-direita, como a Frente Patriótica, a dirigirem-se ao local dos festejos principais, em Washington, onde Donald Trump discursou, no epicentro de uma celebração que, apesar dos alertas para o calor, incluiu concertos, desfiles e fogos de artifício.

Foi assinada há 250 anos, a 4 de julho, a Declaração da Independência. Os signatários, conhecidos como os “pais fundadores” (“founding fathers”), brindaram com vinho da Madeira, e Portugal foi um dos primeiros países (o quinto) a reconhecer a nova nação. Mais de dois séculos depois, a “terra das oportunidades” enfrenta outros desafios e está “altamente dividida”.

O documento fundador, que deu as primeiras linhas-guia da Constituição do país, ainda utilizada, “é um documento muito simples, muito reduzido ao essencial”, como explicou Raquel Abecassis, diretora de comunicação da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD), em declarações à Rádio Renascença. Porém, tal como Portugal teve a ironia da celebração dos 50 anos da implantação da democracia, sob o governo dito social-democrata condicionado por um partido da direita radical, também os EUA celebram a alvorada da nação, sob a égide de Donald Trump, senhor absoluto da nação e ambicioso dominador do Mundo.

“Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas: que todos os homens são criados iguais, que são dotados pelo seu Criador de certos inalienáveis, e que, entre estes, estão a vida, a liberdade e a procura da felicidade”, escreveu Thomas Jefferson, na primeira parte da Declaração da Independência. Porém, como esclareceu João Miguel Tavares (JMT), no jornal Público, a 4 de julho, a redação original de Jefferson, em vez da expressão “por si evidentes”, continha a expressão “sagradas e inegáveis” (“sacred undeniable”). Terá sido Benjamin Franklin, de acordo com JMT, quem sugeriu a substituição de “sagradas” por “evidentes”, “para que o espírito iluminista dos founding fathers não deixasse o território da razão demasiado exposto a uma fundamentação religiosa”.

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Entretanto, a 28 de junho, os EUA assinalaram o 250.º aniversário da independência, em Bruxelas no Parc du Cinquantenaire, situado junto das instituições da União Europeia (UE), apesar da atual complexidade do diálogo transatlântico. Contudo, o evento restrito a convidados reuniu cerca de 10 mil pessoas, incluindo o secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), Mark Rutte, e motivou protestos locais pelo encerramento do parque público, durante todo o fim de semana.

Os convidados desfrutaram de um dia de atividades e de atuações, coroado por um espetáculo de drones e de fogo de artifício, com a presença de muitos militares norte-americanos estacionados na capital belga. Sob o lema “250 anos de independência: construir o nosso futuro em conjunto”, a celebração incluiu várias “atividades americanas”, como jogos de basebol, um touro mecânico, danças em linha, música e uma passagem aérea cerimonial.

Bill White, embaixador dos EUA em Bruxelas, iniciou as comemorações ante uma audiência de alto nível, numa sessão de discursos de várias personalidades, entre elas o primeiro-ministro belga, Bart De Wever, o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, e a presidente do Parlamento Europeu (PE), Roberta Metsola.

Numa videomensagem, o presidente norte-americano agradeceu aos participantes, recordando que os povos da Bélgica e dos EUA “defenderam a nossa civilização comum, desde as trincheiras da I Guerra Mundial até às forças belgas livres que combateram ao lado dos americanos na II Guerra Mundial”. E disse que os 14 mil soldados norte-americanos que descansam, para sempre, em solo belga lembram “o que é preciso para preservar a liberdade que celebramos com alegria”.

O secretário-geral da NATO sublinhou que, para um neerlandês como ele e para tantos outros, os EUA, tal como Ronald Reagan os descreveu, são e serão sempre “a cidade luminosa sobre a colina, um farol e um guia”.

“Estamos aqui para celebrar uma relação e uma amizade transatlânticas que criaram alguns dos melhores momentos da História e se mantiveram firmes nos piores momentos”, afirmou a presidente do PE, elogiando o evento e lembrando o ditado americano: “Go big, or go home, e vós correspondestes plenamente”, disse, dirigindo-se a White.

Não obstante, o local escolhido foi polémico por o evento ser por convite, num parque público, o que gerou frustração entre muitos habitantes de Bruxelas. Com efeito, o Parc du Cinquantenaire esteve totalmente encerrado, desde a noite de sábado, dia 27 de junho, e manteve-se fechado até segunda-feira, dia 29, com controlo de identidade efetuado por uma empresa privada de segurança. Por conseguinte, moradores da zona manifestaram desagrado pela falta de informação sobre o evento e pelo encerramento de um dos maiores parques públicos da cidade, durante vários dias, com uma vaga de calor a atingir a Europa, havia mais de uma semana. Além disso, o evento deu azo a manifestações contra os EUA, organizadas por várias associações, que decorreram no lado oposto do parque e em ruas próximas, fora do perímetro de segurança. Por exemplo, Greenpeace estendeu uma enorme faixa na histórica praça Grand-Place. No pano, com 600 metros quadrados, lia-se: “Guerra. Ganância. Crise energética. O que há para celebrar?”

Em comunicado, a Greenpeace condenou a utilização da ocasião para “promover a agenda política e empresarial de Trump”. “A celebração, em Bruxelas, decorre num contexto de crescente instabilidade global alimentada pela Casa Branca”, frisou.

Também protestaram outros grupos, como o Extinction Rebellion, Indivisible Belgium e Rise for Climate. E Christopher Hunter, do Indivisible Belgium, considerou a iniciativa do embaixador um esquema para a Freedom 250, empresa privada criada por Trump e James D. Vance, captar dinheiro dos EUA, da Bélgica e de outras empresas europeias. E acusou: “Pegaram no aniversário dos EUA e transformaram-no em mais uma oportunidade de fazer dinheiro.”

Confrontado com os protestos e perturbações, White disse desconhecer os seus motivos concretos. E, quanto ao financiamento do evento, revelou ter recolhido mais de cinco milhões de dólares junto de mais de 220 doadores, com contribuições de empresas e particulares norte-americanos e belgas. Entre os patrocinadores, contam-se multinacionais norte-americanas como a Meta, a Microsoft, a Nike e o McDonald’s, bem como empresas belgas de referência, como a Leonidas, o Porto de Antuérpia-Bruges, a Sabena, a Van Moer Logistics e a Sibelco.

Questionado pelos jornalistas sobre a questão de saber se a dimensão do evento foi pensada para reparar as tensas relações transatlânticas, White rejeitou a ideia de conflito profundo e preferiu destacar a História partilhada entre os dois países. “Vamos ignorar algum do ruído mediático sobre a criação de conflitos ou sobre divisões maiores do que as que existem, de facto”, afirmou White, vincando a relação excelente, a preservar e a fazer perdurar.

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Enquanto os norte-americanos celebravam o 250.º aniversário da independência do país, o presidente dos EUA subiu ao palco, embora com bastante atraso, devido ao mau tempo, por volta das 23h00 (hora local) do da 4 de julho, para proferir um discurso de 40 minutos no National Mall, em Washington.

Durante o dia, as temperaturas ultrapassaram os 40 graus Celsius (40º C), mas, à noite, fortes tempestades obrigaram ao protelamento da intervenção presidencial. Os participantes foram afastados do National Mall por causa da chuva e, quando o tempo melhorou, regressaram à área controlada pelos serviços secretos. Trump exaltou o excecionalismo americano e recorreu à História, para celebrar o “marco mais importante” para o país. “O sonho americano está de volta”, bradou à multidão que o aclamava. E prosseguiu: “Nenhum povo fez mais o bem, demonstrou mais coragem, alcançou maiores progressos, corrigiu mais injustiças ou atingiu uma grandeza superior à vossa, povo americano. […] Durante 250 anos, os Estados Unidos da América têm sido a esperança, a promessa, a luz e a glória entre todas as nações do Mundo.”

Mais adiante referiu-se às intervenções militares de Washington no estrangeiro, entre as quais, a Venezuela, onde os EUA capturaram o ex-presidente Nicolás Maduro, em janeiro, e a guerra com o Irão, afirmando que os EUA “aniquilaram” as forças armadas de Teerão. E, na sequência do que afirmou, no Monte Rushmore, no dia 3, de que o comunismo é “ameaça mortal” à liberdade dos EUA, criticou os opositores, “um bando de comunistas”. “Os nossos guerreiros não combateram o comunismo nos campos de batalha de todo o Mundo, só para se ver essa ameaça reaparecer aqui mesmo, na América. É como um cancro. Tem de ser erradicado”, vincou.

Após o discurso presidencial, grande espetáculo de fogos de artifício, que terá custado 850 mil dólares, iluminou os céus da capital. “Os melhores fogos de artifício de sempre”, escreveu Trump, no Truth Social.

No resto do país, foram organizados concertos e eventos para celebrar a data. Em Nova Iorque, o presidente da câmara, Zohran Mamdani, iluminou o Empire State Building nas cores dos EUA. Porém, durante o espetáculo de fogo de artifício, na Ponte de Brooklyn, uma avaria provocou um breve incêndio, que os bombeiros extinguiram e de que não houve feridos. E, em Chicago, um avião da Delta Airlines, provindo de Atlanta, foi atingido por fogo de artifício, enquanto se preparava para aterrar. “Acabámos de ouvir o estrondo no avião”, disse o piloto à torre de controlo. Os meios de comunicação dos EUA falam de vários relatos deste tipo, devido aos fogos de artifício lançados em todo o país, nas celebrações.

Os líderes mundiais (incluindo o Papa Leão XIV), chefes de Estado e membros de casas reais enviaram mensagens de felicitações aos EUA, na antecipação da celebração do dia 4, pelo 250.º aniversário do país, entre os quais o presidente ucraniano, a presidente da Comissão Europeia e o soberano do Reino Unido, Carlos III.

Carlos III divulgou uma mensagem dirigida a Trump a classificar a relação entre o Reino Unido e os EUA como “relação de evolução extraordinária” e “uma das alianças mais estreitas e produtivas que o Mundo já viu”. “Nos domínios da defesa e da segurança, do comércio e dos investimentos, da ciência, da investigação, da educação, da cultura e das artes, os laços entre o Reino Unido e os Estados Unidos são únicos e de grande alcance”, explanou.

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Não obstante, as opiniões europeias sobre o país e sobre o seu líder não são festivas. Segundo um estudo do Pew Research Center, mais de oito cidadãos, em cada dez, da Suécia, dos Países Baixos, da França, da Alemanha e da Itália não confiam que Trump tome as decisões certas em assuntos internacionais. E os níveis de confiança nele caíram, significativamente, em oito países europeus, desde 2025, incluindo quedas de 15%, na Grécia e na Itália.

Em geral, o presidente dos EUA é mais popular entre europeus com opinião favorável sobre partidos populistas de direita. Contudo, também a confiança destes diminuiu. Por exemplo, o apoio a Trump entre os eleitores gregos do partido Solução Grega caiu 29%, entre 2025 e 2026. Dos italianos com opinião positiva sobre o partido Irmãos de Itália, 49 % confiava em Trump, em 2025, contra 30 %, neste ano. E, em média, 85 % dos inquiridos franceses, alemães, gregos, húngaros, italianos, neerlandeses, polacos, espanhóis, suecos e britânicos desaprova a forma como o inquilino da Casa Branca gere a questão da Gronelândia e a das tarifas.

Estas não são as únicas questões que os europeus pensam estar a ser mal geridas por Trump. De acordo com o estudo, 78 % dos participantes, nos dez países analisados, não aprova a forma como está a lidar com as guerras na Ucrânia e no Irão.

Os EUA não são vistos como fiáveis, em muitos países europeus. A Hungria e a Polónia são os únicos países onde a maioria considera os EUA parceiro fiável. Já noutros oito países, a proporção dos que julgam os EUA fiáveis caiu entre 28% e 52%, desde 2022.

Os europeus também estão menos inclinados a crer que os EUA têm em conta os interesses de outros países, ao definirem a política externa, tendência que se nota, especialmente, na Alemanha e no Reino Unido. Entre 2022 e 2026, esta perceção reduziu-se para metade no Reino Unido, na Alemanha, na Polónia, na Espanha e na França.

O estudo refere que, nos países onde se fez a pergunta, as atitudes assemelham-se às do início dos anos 2000, “outro período de tensões transatlânticas resultantes de uma guerra no Médio Oriente e de outras questões”.

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É lamentável os EUA terem chegado a esta situação, pois a génese da sua adultez foi de tenacidade na luta. Já foi penosa a desvinculação da Grã-Bretanha das iniciais 13 colónias. Depois veio a guerra civil e a luta contra a escravatura, até à consolidação do país com os atuais estados, numa História de copiosa efusão de sangue, que importa celebrar e não apagar.

O local da Batalha de Gettysburg continua terreno sagrado e palco de peregrinações. Mais de 50 mil americanos morreram ali, no início de julho de 1863, quase um século após a Declaração da Independência. Todavia, até naquele local surgem divisões sobre o passado e como se interpreta a História, devido à polarização entre a América pró e anti Trump. Uma casa no topo da colina é o centro do embate entre duas fações, como em 1863. Na altura, a Brian House (habitação e pequeno celeiro) pertencia a Abraham Brian, escravo que fugira do Sul, onde a dignidade humana era reservada aos brancos. Sem o saber, o 11.º Regimento de Infantaria do Mississípi, combatendo pela manutenção da escravatura, usou-a como referência, durante o avanço. Apesar disso, o valor simbólico da casa resistiu a polémicas. Agora, opondo-se às políticas de diversidade, de equidade e de inclusão, Trump recusa-se a financiar a sua preservação.

Discutir genocídio dos indígenas, escravatura, emancipação da mulher e movimento dos direitos cívicos lesa a narrativa de Trump, única e glorificadora. EUA são isto, hoje!

2026.07.09 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 8 de julho de 2026

A solução mais justa é a anulação destes exames nacionais

 

Já muito se falou e escreveu sobre o que se passou com a 1.ª fase dos exames nacionais do ensino secundário e com as provas finais do 3.º ciclo do ensino básico (no 9.º ano).

As provas do 9.º ano quase não foram referidas no caos que a plataforma de correção e classificação, supervisionadas, das provas, criou no sistema e na opinião pública, só porque não têm peso no acesso ao ensino superior e o seu dano na prossecução de estudos pode ser remediado, a curto prazo. Já não é assim com os exames do 11.º ano e do 12.º ano do ensino secundário, em que a classificação de exame tem o peso de 25% para a classificação final da respetiva disciplina do ensino secundário, contra o de 75% da classificação na sua avaliação interna, mas que pode ser determinante para o ingresso em alguns cursos do ensino superior.

De tudo o que a comunicação social disse ou escreveu sobre a matéria, devo salientar o teor das declarações da Federação Nacional dos Professores (FENPROF) a maior e mais representativa organização sindical de professores, em Portugal, a qual, embora elabore numa determinada linha política, não deixa de ter razão no essencial dos seus comentários; o artigo de Fabian Figueiredo, no site da Esquerda Net, a 4 de julho, sob o título “O caos nos exames tem um responsável: o ministro Fernando Alexandre. Explico porquê”, em que explicou o assunto, “passo a passo”; e o artigo de José Vieira Lourenço (conheci-o em 2000, quando o professor chefiava o CAE – Centro da Área Educativa do Centro), publicado no jornal digital “sinalAberto”, a 6 de julho, sob o título “Exames nacionais: apagão do bom senso ou amadorismo institucional?”, que reflete a verdade com a postura de quem sabe como funciona a máquina administrativa do Sistema Educativo.  

É óbvio que, perante as falhas da plataforma, que serão, mais adiante, elencadas, não fica bem ao responsável máximo do Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI) endossar as responsabilidades às escolas ou aos professores; minimizar as falhas; garantir que ninguém ficará prejudicado; e insistir na eficiência desta plataforma, que esteve suspensa, quase dias, porque foi detetado um problema de “segurança”, e ficou agendada nova suspensão, por um dia, para efeitos de “manutenção”.

Além disso, é temerário garantir que o caos se dissipa com o adiamento do prazo da correção e classificação das provas, com a possibilidade de todos os alunos acederem à prova corrigida e com o adiamento das provas da 2.ª fase. E é de difícil perceção, em termos de transparência, o MECI não ter querido revelar qual é a empresa responsável pela plataforma.

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Posto isto, assumo compreender a “profunda preocupação e indignação” dos pais e encarregados de educação (PEE), “perante as falhas graves e amplamente reconhecidas no processo de digitalização e classificação eletrónica das provas”, que os levou a “solicitar a intervenção urgente das entidades competentes”, alegando que o próprio MECI “reconheceu, publicamente, no comunicado de 3 de julho de 2026”, que ocorreram “dificuldades informáticas no processo de classificação eletrónica dos Exames Finais Nacionais do Ensino Secundário”, dificuldades que “pressionaram o cumprimento do calendário inicialmente previsto” e que geraram “indesejável imprevisibilidade num processo inovador e complexo”.

No fundo, a referida “intervenção urgente das entidades competentes” – de acordo com a oportuna petição online “Pedido de Anulação dos Exames Nacionais 2026 sem Prejuízo dos Alunos”, dirigida ao ministro da Educação, Ciência e Inovação, à inspetora-geral da Educação e Ciência / e à provedora de Justiça (e que, pelas 23h57 de 7 de julho, já contava com 7271 assinaturas) – pretende “a anulação dos Exames Nacionais 2026, sem qualquer prejuízo para os alunos”, como “a única solução justa, proporcional e juridicamente segura”. Isto, “se não for possível garantir, de forma imediata e inequívoca, a correção integral e rigorosa das provas”.

Ante os factos denunciados pelos PEE, pela FENPROF e pelos articulistas que mencionei, devo dizer que concordo com “a anulação dos Exames Nacionais 2026”. No entanto, já não é possível garantir que não há prejuízo para os alunos, a não ser que sejam todos contemplados com beneficiação que redunde em falta de equidade, como a assunção, como classificação final, da classificação interna das disciplinas em causa. Dessa medida discordo, por desproporcionada e injusta, pois, deveria aplicar-se também aos alunos que esperaram pela 2.ª fase, sob pena de criar desigualdade de oportunidades, mas criando-as também, porque estes não tiveram o ónus de se sujeitarem à 1.ª fase. Por outro lado, não se dá a oportunidade de possibilitar o exame a quem pretenda subida de classificação, relativamente à classificação interna. Além disso, terá de haver exames para os alunos que saíram do sistema, por anulação de matrícula.

Quanto à hipotética ou presumível garantia de imediata e inequívoca “correção integral e rigorosa das provas”, no momento em que escrevo, estou francamente cético (oxalá que me engane). Porém, é difícil os detentores do poder político desistirem de tomadas de decisão com resultados indesejáveis. Não sei que interesses estarão por trás de algumas teimosias.

Recordo-me de que, em 2004, a propósito do caos ocorrido na graduação profissional no concurso de professores e da consequente sua impossibilidade de colocação (por exemplo, havia professores que tinham nascido naquele ano e já tinham dezenas de ano de serviço docente), ainda na primavera, escrevi “carta ao diretor” que o jornal Público acolheu, em que fazia comentários à situação. Além de apontar falhas da plataforma, tinha como subjacente o problema que se prendia com a ambição inédita de juntar, ao mesmo o tempo e com o mesmo mecanismo, as candidaturas a concurso externo e a concurso interno de educadores de infância, de professores do 1.º ciclo e de professores do 2.º e 3.º ciclos e de professores do ensino secundário. Ora, isso requeria empresa informática com experiência na matéria e equipa de procedimentos do Ministério da Educação (ME) que desse as instruções legais e administrativas.

Entretanto, recebi uma chamada telefónica de alguém ligado a detentor de cargo político que tutelava a administração escolar que, alegando que nem sempre se escreve tudo o que se pensa (o que, no caso, era verdade), me perguntava se tinha uma ideia para a solução do caso. Respondi que, grosso modo, era necessário substituir as equipas do ME e as da empresa que montou a plataforma digital do concurso. Aí, foi-me dito que a solução tinha custos.

Fiquei na minha. O governo mudou e, no fim do verão, a nova ministra a Educação, depois de hesitar, substituiu a equipa de procedimentos do ME e contratou nova empresa informática, a qual, trabalhando sobre o que estava feito, resolveu o problema com relativa brevidade.

Na ocasião, ninguém exigiu ao ME, muito menos aos PEE, qualquer compensação pelos prejuízos causados aos alunos. E o ano letivo começou com atraso considerável.  

Aliás, no ME, as inovações são, frequentemente, caóticas. Quem não se lembra de que, no ano letivo de 1976-1977, os professores foram colocados por computador, numa inovação que pretendia superar erros de colocação no ano letivo anterior (o ME viu-se na contingência de garantir que o tempo de serviço seria contado, integralmente, para todos os efeitos legais, desde 1 de outubro de 1985, aos docentes que fossem colocados até 29 de fevereiro de 1976). Muitos caíram em escolas para que não tinham concorrido; outros, em disciplinas para que não possuíam qualquer tipo de preparação; e outros, em fase adiantada do ano letivo. E, face a reclamações, a resposta invariável era: “Foi o computador!” E os professores, com obediência democrática, resignaram-se e foram cumprindo.  

***

Voltando à petição dos PEE, eles dizem que a declaração oficial do MECI, de 3 de julho, “confirma que o sistema implementado não estava preparado, não foi devidamente testado e falhou em aspetos essenciais da avaliação externa”.

Sobre falhas comprometedoras da validade dos exames, os PEE, com base em testemunhos de professores corretores-classificadores e de reportagens de vários órgãos de comunicação social, elencam problemas como: digitalizações incompletas, ilegíveis ou com má qualidade; itens desaparecidos, duplicados ou atribuídos a classificadores errados; respostas trocadas entre disciplinas; classificadores a corrigir provas de matérias que não lecionam; folhas de continuação em falta; digitalizações que não correspondem à prova entregue pelo aluno; plataforma instável, com falhas de acesso e perda de progresso. E podiam falar de professores classificadores que receberam folhas em branco ou em preto, de professores classificadores que não receberam os códigos de acesso, os receberam tardiamente, ou os receberam, mas não conseguiam aceder à plataforma; de acessos intermitentes; da convocação de professores que se tinham aposentado; de professores que tinham mudado para outra escola e que foram chamados a corrigir por conta da escola anterior; e de, pelo menos, um caso de professor que morreu.

Os PEE citam uma professora classificadora que afirmou: “Modernizar é importante. Mas modernizar sem testar, sem corrigir e sem aprender com os erros acaba, muitas vezes, por criar mais problemas do que aqueles que pretendia resolver.” E sustentam: “Estas falhas não são pontuais: são estruturais e sistémicas. Comprometem a fiabilidade, a integridade, a transparência e a validade jurídica das classificações.”

No quadro das consequências graves para os alunos e famílias, a nível do “impacto emocional e psicológico”, os PEE alegam que os alunos vivem em “ansiedade extrema sobre a correção integral das provas”; com “medo de injustiças que podem alterar médias decisivas”; na “insegurança sobre a necessidade de pedir cópia ou reapreciação [da prova]”; num “desgaste emocional que afeta o bem-estar mental e a dinâmica familiar”.

Neste âmbito, estou em acordo total.

A nível do “impacto financeiro direto”, apontam que “as alterações súbitas ao calendário implicam perdas financeiras significativas”, como viagens de férias marcadas e pagas; bilhetes de avião não reembolsáveis; reservas de alojamento e serviços contratados; férias laborais organizadas em função do calendário escolar; despesas adicionais com deslocações e reorganização familiar. Dizem que tais perdas “não podem ser imputadas aos pais ou aos alunos”, o que é certo, mas omitem que não podem ser imputadas aos professores.

Concordo com a descrição das perdas financeiras, mas não a valorizo e rejeito a exigência de compensações. Se a educação é prioritária para as famílias, estas devem compreender que a escola e o sistema educativo podem ter problemas de gestão. É justo que o Estado compense prejuízos, mas as prioridades reivindicativas dos PEE devem ser outras.

Têm razão os PEE, quando aduzem questões legais que tornam o processo inválido: “violação do princípio da igualdade (artigo 13.º da Constituição); violação do direito à avaliação justa e rigorosa; violação do princípio da confiança legítima; responsabilidade objetiva do Estado por falhas técnicas; e potencial violação do direito de acesso ao ensino superior”.

Por tudo isto, pretendem a anulação dos Exames 2026, sem prejuízo dos alunos, atendendo à gravidade das falhas, à impossibilidade de garantir que todas as provas foram digitalizadas e classificadas corretamente, ao risco de injustiças irreversíveis, ao impacto emocional e financeiro nas famílias e à urgência de proteger os alunos.

Como disse, concordo com esta medida. Porém, mão concordo que seja acompanhada de: “validação das classificações internas como base para acesso ao ensino superior”; “garantia escrita de que nenhum aluno será prejudicado por esta decisão”; e mecanismos de compensação para famílias que sofreram perdas financeiras, devido às alterações súbitas do calendário. Com estas reivindicações não concordo, pelos motivos que apresentei. Houve erros tão graves como este e nunca se exigiram tais compensações. Apesar de não ter grande simpatia por este governo, entendo que não se lhe deve acrescentar este ónus. E a garantia de que nenhum aluno será prejudicado não passa de desejo poético.

Não obstante, concordo com a exigência de um relatório público sobre as falhas do sistema digital e do plano de correção; e com revisão profunda do modelo digital, garantindo que só será retomado, quando estiver totalmente testado e fiável.

Além disso, sou de opinião que os ministros da Reforma do Estado e da Educação, Ciência e Inovação devem tirar as respetivas consequências políticas, por terem intentado uma reforma que se limita a desmantelar estruturas e serviços com experiência no terreno e a substituí-los por outros que não têm experiência e parecem não querer acertar, visto que andam depressa, não testam, suficientemente, a nova máquina. E, sim, deve haver uma comissão parlamentar de inquérito (CPI), para apurar factos e responsabilidades. Uma reforma do Estado não se faz a modos de restruturação de uma empresa.

O exame de Filosofia, em 2025, foi usado como projeto-piloto exatamente desta correção digital. Entretanto, os exames desapareciam do sistema e surgiam folhas brancas e pretas, respostas cortadas a meio, respostas trocadas, folhas de resposta em branco. Todavia, o MECI classificou o processo como “muito positivo” e prometeu “as melhorias qualitativas necessárias” para 2026. E, agora, confrontado com a repetição desses erros, desta vez, em mais de 300 mil provas, e não em 23 mil, o ministro limitou-se a dizer que “os erros serviram para aprender”.

Enfim, a correção – classificação é digital, mas foram recrutadas, à pressa, pelo Centro de Digitalização, pessoas para separarem, manualmente, folhas e provas!

E é de questionar por que motivo a grande reforma começou pelo MECI, uma estrutura tão complexa que envolve, direta ou indiretamente, milhares e milhares de pessoas.   

É óbvio que os PEE “não contestam a modernização” (era o que faltava), mas a sua “implementação apressada, sem testes adequados, que colocou em risco um dos processos mais sensíveis da vida escolar.

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Posto isto, em minha opinião, as provas deviam ser anuladas (fazia-se justiça à questão da prova de Português, coincidente com a publicada num manual de preparação para exame); transformava-se a atual 2.ª fase em 1.ª fase; realizava-se a 2.ª fase na primeira quinzena de setembro; pagava-se um número proporcionado de horas extraordinárias aos professores envolvidos na correção e classificação (estiveram disponíveis, embora sem êxito); passava-se à correção manual; aproveitava-se o próximo ano letivo para a suficiente testagem do sistema digital (aliás, não vejo utilidade em fazer provas em papel e a correção ser por via eletrónica); pagava-se alguma compensação pecuniária a PEE que viessem a comprovar real prejuízo; e solicitava-se às instituições do ensino superior a compreensão pelo atraso.

Qualquer solução não anula o mal feito e temos de ser compreensivos, mas o MECI e o governo não podem deixar de aprender com os erros, devendo avaliar, com rigor, a capacidade das empresas que contratam.

2026.07.07 – Louro de Carvalho

terça-feira, 7 de julho de 2026

Os Alpes estão em processo de seca e de derretimento

 

O projeto Waterwise está a recolher uma quantidade, sem precedentes, de dados de todos os picos alpinos, com o objetivo de compreender melhor a vulnerabilidade das bacias hidrográficas daquelas importantes nascentes europeias.

A 6 de julho, a Euronews publicou um artigo do jornalista Cyril Fourneris, sob o título “Os Alpes estão a ficar mais secos: projeto da UE avalia a ‘torre de água’ da Europa”, o qual, citando o Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas (IPCC), sustenta que “o derretimento dos glaciares alpinos ameaça o abastecimento de água das comunidades montanhosas e dos milhões de pessoas que vivem a jusante”, estimando-se que “a maior cordilheira da Europa esteja a aquecer a um ritmo cerca de duas vezes superior à média global”.

Tal situação leva os especialistas a interrogarem-se se “os Alpes continuarão a ser a reserva de água inesgotável da Europa”. Para obter resposta a esta questão, o projeto transnacional Waterwise, que intenta modelar a forma como evoluirão os recursos hídricos alpinos, em diferentes cenários climáticos e sob as diversas pressões que afetarão estes ecossistemas no futuro, elegeu como um dos locais-piloto a Reserva Natural de Contamines-Montjoie, situada perto do lado francês do Monte Branco.

Neste âmbito, segundo o jornalista, o projeto visa colmatar o fosso entre os cientistas e as comunidades locais, e levá-los a desenvolverem, em conjunto, estratégias sustentáveis conexas com a água. “Só protegemos aquilo que conhecemos. Este projeto visa aumentar o conhecimento e, consequentemente, reforçar a proteção”, esclarece Geoffrey Garcel, o guarda da reserva, que subiu ao Plan Jovet, onde se encontram dois lagos junto a um glaciar que desapareceu. Esta é, tal como muitas bacias hidrográficas de nascente, “uma zona de difícil acesso, onde a recolha de dados sobre o estado da água pode revelar-se complicada”.

“Concentramo-nos nas bacias hidrográficas das nascentes dos rios, pois são áreas que se tornarão altamente vulneráveis, no contexto das alterações climáticas. E também, porque tudo o que acontece a montante irá afetar o que acontece a jusante”, explicou Solène Pignard, do Waterwise Research Officer, Réserves Naturelles de France.

Com um orçamento total de 2,69 milhões de euros, o projeto Waterwise é cofinanciado com 1,61 milhões de euros pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER) e congrega 12 parceiros da França, da Alemanha, da Suíça, da Áustria e da Eslovénia.

Para Cyril Fourneris, o Waterwise tem por objetivo reunir um vasto conjunto de informações existentes e identificar os dados em falta, através de levantamentos no terreno e da instalação de sensores leves, conhecidos como “smart rocks”, colocados no interior dos cursos de água, esperando-se que os dados recolhidos incluam informações sobre a quantidade de água, sobre o estado ecológico e sobre a temperatura – informações que “são cruzadas com dados socioeconómicos, tais como a agricultura, a produção de energia e o turismo”.

Por exemplo, a Reserva de Contamines-Montjoie é atravessada, todos os anos, por milhares de caminhantes que percorrem o “Tour du Mont Blanc”. No verão, manadas de vacas pastam ao longo dos ribeiros das montanhas. E a empresa francesa de energia EDF retira parte da água para abastecer uma central elétrica no vale vizinho, constituindo uma das pressões que levaram a reserva a adotar medidas de adaptação, nos últimos anos. “Se compararmos diferentes bacias hidrográficas, em diferentes países, talvez possamos identificar alguns padrões comuns e desenvolver soluções sustentáveis que possam depois ser aplicadas noutras regiões dos Alpes”, admite Markus Noack, professor de engenharia hidráulica e gestão de recursos hídricos na Universidade de Ciências Aplicadas de Karlsruhe.

Refere Cyril Fourneris que os dados recolhidos através do Waterwise serão também utilizados para alimentar uma “caixa de ferramentas digital” de acesso aberto, que ajudará os decisores e as comunidades alpinas a debater, em conjunto, as medidas de adaptação necessárias para garantir a resiliência dos seus territórios. Na verdade, aproveitar os conhecimentos das partes interessadas do território montanhoso é outra vertente importante do projeto transnacional.

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A preocupação com o destino desta cadeia montanhosa não é só de agora. Efetivamente, Aurora Velez, em artigo intitulado “Alpes, um espaço comum de desafios e soluções”, publicado pela Euronews, a 3 de agosto de 2020, aborda projetos de sete países da região alpina que já estavam a partilhar “soluções comuns para problemas de todos”.

Entre eles, sobressai o “Espaço Alpino”, programa europeu cujo objetivo é dar respostas para melhorar a qualidade de vida, nos Alpes, e em que se enquadra o “Atlas Europeu” – um dos cerca de 60 projetos no âmbito do programa – de que um dos objetivos é a preservação, em colaboração com os municípios e com arquitetos, do património edificado das Dolomitas italianas, onde há, como em toda a região, construções típicas de montanha e ricas em História.

Por exemplo, como referia a jornalista, Elmar Gruber e a família decidiram restaurar uma casa edificada, em 1819, nos Alpes, uma das primeiras construções civis a ter eletricidade. E os donos quiseram recuperá-la, preservando a identidade do edifício e torná-lo eficiente, do ponto de vista energético. “Queríamos preservar, tanto quanto possível, o caráter desta casa. Nas janelas, por exemplo, fizemos uma renovação energética, com o compromisso de não perder a identidade que tinha, e o resultado é muito bom. Tínhamos algumas dúvidas sobre algumas coisas, mas, depois, ficámos surpreendidos com o que podíamos fazer”, afirma Elmar.

Como recordava Aurora Velez, o “Atlas Europeu” – um dos mais antigos programas apoiados pela Política de Coesão da União Europeia (UE), que visa promover a cooperação entre sete países dos Alpes e melhorar a qualidade de vida na região – estabelece uma base de dados dos edifícios históricos a restaurar e fornece aos arquitetos um guia de soluções técnicas e de boas práticas. E Franziska Haas, coordenadora do projeto, revela que recolheram “exemplos, para mostrar que é possível renovar edifícios antigos e ter um conforto moderno”, além de manter a história e o velho encanto da casa e a identidade da aldeia, do município e da região.

Outro projeto do “Espaço Alpino” é o “AlpES”, que mapeia as áreas e os ecossistemas mais ameaçados e estabelece definições comuns, para os gerir em benefício de todos.

Embora a cooperação na região alpina exista, há décadas, o primeiro programa de cooperação transnacional da UE para os Alpes só foi lançado em 2000. Entre 2014 e 2020, o “Espaço Alpino” investiu 139 milhões de euros, com vista a encontrar soluções integradas e reforçar a cooperação entre os países envolvidos no projeto: a Áustria, a França, a Alemanha, a Eslovénia, a Itália, o Liechtenstein e a Suíça.

Para Lukas Egarter, ecologista de ecossistemas, é nossa responsabilidade manter estes ecossistemas saudáveis, para que possam servir também às gerações futuras. “Os ecossistemas de água doce são um dos ecossistemas mais cruciais da região alpina, aliás, estão na base de toda a vida no planeta”, diz o ecologista. 

O “AlpES” analisa, como observa a jornalista, os principais serviços, como o abastecimento de água, as zonas de relaxamento, a captura de dióxido de carbono (CO2) pelas florestas, ou os polinizadores, em mais de 70 mil municípios do espaço alpino, partindo da premissa de que “o bem-estar humano depende da saúde dos ecossistemas”.

Os projetos em referência pretendem contrariar ou, pelo menos, minimizar as ameaças à Natureza alpina, sendo as principais:

* a urbanização, com a expansão dos centros urbanos às zonas de planície alpina a levar os vales de fácil acesso e os grandes rios a perderem a maior parte da sua biodiversidade;

* o tráfego – uma das principais causas da fragmentação do habitat – com o grande impacto das grandes infraestruturas (densas redes rodoviárias e ferroviárias) no espaço natural, para cuja destruição se aliam às infraestruturas o ruído e a poluição atmosférica;

* a agricultura, a provocar a diminuição da biodiversidade, pela tendência do abandono das zonas agrícolas remotas e do sobrepovoamento das zonas mais atrativas;

* a destruição dos habitats de água doce, com a forte alteração dos cursos de água alpinos e com a separação entre os rios e as zonas ribeirinhas, que regulam as cheias, mas que foram separadas dos rios e convertidas em campos agrícolas ou em zonas urbanas;

* e as alterações climáticas, com o aquecimento global a causar o retrocesso de todos os glaciares alpinos, o que levou à migração crescente de plantas alpinas.

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A região alpina, a cordilheira maior e mais importante da Europa Ocidental, fica no Centro-Sul da Europa, abrange um território de, aproximadamente, 190700 km² (quilómetros quadrados) estende-se, em arco, por oito países europeus: a Áustria, a França, a Alemanha, a Itália, o Liechtenstein, o Mónaco, a Eslovénia e a Suíça. O lendário Mont Blanc, na fronteira entre a França e a Itália, é o ponto culminante da cordilheira, ficando a 4810 m (metros) acima do nível das águas do mar, e a altitude da cordilheira diminui de Oeste para Leste. A sua diversidade geográfica significa acesso a múltiplos destinos icónicos de neve, cada um de caraterísticas únicas e de particular charme.

A cordilheira pode ser dividida em três grandes secções: Alpes Orientais, Alpes Centrais e Alpes Ocidentais. Localizados, principalmente, na Áustria, mas também na Alemanha, na Itália e na Eslovénia, os Alpes Orientais também compreendem o Alpes Bávaros, os Alpes Cárnicos, os Alpes Dináricos, os Alpes Dolomitas e os Alpes Julianos. Os Alpes Centrais ocupam a área entre o Grande Passo de São Bernardo, na fronteira suíço-italiana, e o Passo do Brennero, na fronteira da Itália com a Áustria. Essa extensa região compreende os Alpes Berneses e Glanoreses, no lado Norte, e os Alpes Lepontinos, de Venoste, Valaisanos e Réticos, na parte Sul. E os Alpes Ocidentais concentram muitos destinos turísticos famosos e estendem-se dos Alpes Marítimos, perto da costa mediterrânea, ao Grande Passo de São Bernardo, abrangendo as fronteiras da França, da Itália e da Suíça. É composto pelos Alpes Cócios, Lígures e Graios, bem como o maciço do Mont Blanc e o Vale de Aosta, no Noroeste da Itália.

Além de serem um destino popular para os entusiastas dos desportos de inverno, os Alpes também são fundamentais para a hidrologia europeia, sendo a fonte de rios importantes como o Ródano, o Reno e o Pó. Por outro lado, são cruciais na História da Europa: têm sido a barreira natural e o palco de acontecimentos históricos, desde as campanhas de Aníbal Barca até à II Guerra Mundial; hoje, simbolizam a unidade e a diversidade da Europa, atraindo milhões de turistas, anualmente; e, ao mesmo tempo, funcionam como a “torre de água” do continente, pois o derretimento da neve e dos glaciares fornece a nascente de importantes rios que ligam toda a Europa.

Esta cadeia montanhosa é a fonte vital do continente em diversas frentes:

* hidrológica, por ser a nascente de grandes rios europeus, como o Reno, que desagua no Mar do Norte, o Ródano, que desagua no Mediterrâneo, o Pó, que atravessa a Itália, e o Danúbio;

* ecológica e energética, pois as suas bacias e albufeiras atuam como reguladores naturais de água e fornecem grande parte da energia hidroelétrica e potável aos países vizinhos;

* climática, ao bloquear as massas de ar, separando o clima ameno do Mediterrâneo do clima mais temperado do Norte e do Centro da Europa;

* e geológica, pois, nascidas da colisão das placas tectónicas Africana e Euroasiática, há cerca de 65 milhões de anos, constituem um laboratório natural para a geologia moderna.

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Cada país da região oferece caraterísticas únicas: os Alpes Franceses são famosos pelas maiores áreas de esqui; os Alpes Suíços, pelo luxo e pela tradição, os Alpes Italianos, pelas Dolomitas espetaculares (imponentes paredões de rocha clara – rica em magnésio – em tons avermelhados); e os Alpes Austríacos, pela hospitalidade. Os empresários do turismo têm resorts nos quatro principais países alpinos (a França, a Suíça, a Áustria e a Itália), possibilitando a escolha do destino que mais combina com o estilo de viagem e de estada do turista, o qual, seja qual for sua escolha, tem garantido – dizem – o mesmo padrão de qualidade e de conforto.

Nos Alpes, há uma variedade de atividades. Desportos de inverno, como o esqui e o snowboard, podem ser praticados nos maiores ski resorts do Mundo, mais especificamente, nos Alpes Franceses, nos Alpes Suíços, nos Alpes Italianos e nos Alpes Austríacos. Também são programas populares, na região, as caminhadas, o voo de parapente e o alpinismo. E, no inverno, os Alpes oferecem uma variedade de estações de esqui e pistas para todos os níveis de habilidade. Da maior área de esqui do Mundo, os três vales, nos Alpes Franceses, até à sofisticada St. Moritz, nos Alpes Suíços, há muitos destinos de neve perfeitos para uma aventura de esqui ou de snowboard, entre outros desportos de inverno.

Inventado e aperfeiçoado nos Alpes, o parapente é uma das melhores formas de admirar as montanhas cobertas de neve. É possível fazer um voo duplo e desfrutar de uma experiência contemplativa ou topar o chamado voo sensation, em que o instrutor leva o turista numa jornada cheia de adrenalina, enquanto realiza uma série de manobras.

Lar dos picos mais altos da Europa, os Alpes são um paraíso para os montanhistas experientes. Há uma série de rotas clássicas para escolher, incluindo escalar o Mont Blanc, explorar a Matterhorn ou caminhar no Monte Rosa. No inverno, a escalada no gelo também é uma atividade popular. Há muitos desafios, para experts, e cursos de escalada para quem quer aprender a modalidade. Porém, a melhor forma de explorar a paisagem alpina e respirar o ar puro das montanhas é a caminhar. Há muitos percursos que permitem descobrir belos cenários, como lagos, cascatas, florestas, glaciares e picos cobertos de neve. De curtas caminhadas com raquetes nos pés até aventuras de trekking de vários dias, há uma experiência perfeita para todos os fãs de caminhadas pela Natureza. E, obviamente, há estâncias de alojamento e de refeição, que dispõem de rica e diversificada gastronomia alpina.

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O turismo alpino é importante, sobretudo, para ricos. Todavia, se queremos preservar o futuro do planeta e das gerações vindouras, nunca será demasiado ter em conta que os Alpes estão a secar e a perder volume de gelo, a alarmante ritmo. A “torre de água” da Europa enfrenta recuo histórico dos glaciares (desde 1850, perderam mais de 60% do seu volume; e entre 2000 e 2020, desapareceram cerca de 40% dos seus glaciares) e drástica diminuição da cobertura de neve. Locais, inteiramente brancos, durante o ano, são, agora, rochas e vales expostos.

Dá que pensar e deveria dar que agir, nomeadamente, pela regulação e pela diminuição da atividade humana na paisagem alpina. O homem não é só o lobo do homem, mas é também o grande predador dos recursos naturais, o que os cientistas conseguem evitar, porque os poderes políticos e económicos não querem.  

2026.07.06 – Louro de Carvalho