A
União Europeia (UE) apregoa a aposta na energia verde e até definiu prazos para
a dispensa definitiva da energia criada a partir das fontes de energia de
origem fóssil ou com a sua ajuda. Não obstante, continua a precisar do gás
natural, do petróleo e dos seus derivados.
Com
a guerra da Rússia na Ucrânia, entendeu dar-se ao luxo de estabelecer vários
pacotes de sanções económicas ao país invasor, que incluem o embargo ao
petróleo e ao gás natural liquefeito (GNL) que importava daquele país do Leste
da Europa, mas estes continuam a ser descarregados em portos europeus ou a
circular por gasodutos, desdizendo a quebra da dependência energética daquele
Estado, como era assaz propalado.
É
certo que a UE se voltou para outros mercados, nomeadamente, para os Estados
Unidos da América (EUA), mas o regresso de Donald Trump à casa Branca tornou as
coisas mais complicadas para as causas do bloco europeu, nomeadamente, com a
imposição das tarifas recíprocas. E, apesar de o inquilino da Casa Branca ter
feito saber que o seu país tem tudo e de ter capturado o líder político
venezuelano, com vista ao fomento e ao controlo da exploração e da exportação
do petróleo daquele Estado sul-americano, o bloqueio do estreito de Ormuz, por
causa da guerra dos EUA e de Israel com o Irão agudizou a crise da circulação
dos combustíveis de origem fóssil que ainda comandam a economia mundial.
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A
9 de outubro, um relatório da Urgewald (organização alemã de direitos humanos e
ambiental) revela que a UE importou 12,18 milhões de toneladas de GNL
proveniente do projeto Yamal russo do Ártico, nos primeiros nove meses de 2026,
um aumento de 9,5%, em comparação com o mesmo período de 2025. Só no 3.º
trimestre de 2026, enquanto Washington se aproxima do prazo para rever as
sanções contra os navios que sustentam o comércio de gás da Rússia, a UE pagou
cerca de 1,92 mil milhões de euros por GNL proveniente do projeto Yamal, pois
os portos do bloco receberam 2,21 milhões de toneladas, nesse período. E, embora
o volume de importações no 3.º trimestre tenha sido 13,6% menor do que no
terceiro trimestre de 2025, a fatura estimada da UE, para os primeiros nove
meses atingiu 7,88 mil milhões de euros.
A
análise da Urgewald mostra que, entre janeiro e setembro, foram entregues, em
portos da UE, 167 cargas do projeto Yamal. A Europa recebeu 85% das entregas
registadas do projeto em volume, permanecendo de longe o seu maior mercado. O
aumento ocorreu mesmo com a queda de 1,3%, nas entregas globais de Yamal, tendo
a Europa absorvido mais GNL russo do Ártico e uma parcela maior da produção do
projeto. Essas entregas continuaram antes de uma possível decisão significativa
dos EUA sobre sanções. Com efeito, o governo trumpiano tem até 18 de outubro
para realizar sua primeira revisão sob a Lei Lindsey O. Graham de Sanções à
Rússia e ao Irão, que foi sancionada em 18 de setembro.
A
nova lei abrange a liderança da Yamal e embarcações estrangeiras que
transportam, conscientemente, GNL russo, bem como proprietários e operadores
portuários estrangeiros que permitem que embarcações sujeitas a sanções dos EUA
atraquem ou recebam serviços. A sua aplicação depende de determinações e de isenções
presidenciais. Assim, no máximo, até 18 de outubro, a UE dependerá de Trump, em
relação às entregas de GNL da Yamal.
O
projeto Arctic LNG 2 já está sujeito a sanções norte-americanas, o que levou a
que a China se tornasse a única compradora de cargas do ALNG2. Porém, a Yamal
depende de navios-tanque especializados da classe gelo Arc7 (que operam, autonomamente,
em condições de gelo severo) para manter o fluxo de gás pelas águas do Ártico.
E, como os portos europeus oferecem um mercado próximo, permitindo que os
navios descarreguem e retornem ao projeto, rapidamente, o fechamento dessa rota
e a restrição dos serviços de apoio à frota dificultariam a sustentabilidade do
comércio russo de GNL no Ártico.
Apesar
da proibição de contratos de curto prazo (em vigor, há vários meses, mas sem
efeitos notáveis), na UE, as entregas de setembro deste ano permanecem no nível
de 2025 (até foram ligeiramente superiores), 792440 toneladas, num valor
estimado de 818 milhões de euros. A França recebeu quase três quartos das
entregas da UE, em setembro, mês em que não se registaram entregas da Yamal, na
Espanha, nem no terminal de Zeebrugge, na Bélgica.
Nas
contas de Sebastien Rötters, ativista de sanções na Urgewald, “a UE importou
mais de 12 milhões de toneladas de GNL da Yamal, neste ano” (mais do que no
mesmo período de 2025), num valor estimado de 7,88 mil milhões de euros, o que
dá 44 mil toneladas, por dia, apesar da desaceleração do verão.
As
compras contínuas da Europa garantem à Rússia um mercado amplo e próximo para o
seu gás do Ártico e conferem aos governos europeus poder significativo sobre
esse comércio. Assim, esse fluxo expõe o impacto limitado das medidas adotadas,
até agora. Só a proibição total de importação, a partir de 2027, começará a
exercer pressão significativa sobre o GNL da Rússia. E cada mês adicional de
comércio de GNL praticamente ininterrupto, significa mais receita para a
Rússia, enquanto a Ucrânia sofre ataques diários com mísseis e com drones.
A
UE não deve esperar passivamente que o embargo de 2027 entre em vigor. O
próximo pacote de sanções deve eliminar as brechas restantes, sobretudo, as que
mantêm em operação a frota de navios-tanque de GNL Arc7. Entretanto, os EUA têm
o poder de sancionar esse comércio, a qualquer momento, antes disso. E a
proibição da UE às importações de GNL russo, ao abrigo de contratos de longo
prazo elegíveis, entra em vigor a 1 de janeiro de 2027, mas as restrições aos
contratos de GNL de curto prazo aplicam-se desde 25 de abril de 2026.
Em
suma, de janeiro a setembro de 2026, registam-se os seguintes dados: os pagamentos
estimados da UE foram de 7,88 mil milhões de euros; as estimativas trimestrais
são de 2,88 mil milhões de euros, no primeiro trimestre, de 3,08 mil milhões,
no segundo, e de 1,92 mil milhões, no terceiro; foram entregues aos portos da
UE 167 cargas e 12,18 milhões de toneladas; houve um aumento de 9,5% nos
volumes destinados à UE, em comparação com o período de janeiro a setembro de
2025; vieram para a Europa 85% das entregas registadas da Yamal; foram
entregues à UE, no terceiro trimestre, 2,21 milhões de toneladas; foram
entregues à UE, em setembro, 792440 toneladas, avaliadas em cerca de 818
milhões de euros; e a UE recebia uma carga de Yamal, aproximadamente, a cada
1,6 dias.
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Entretanto,
a proibição de novas perfurações de petróleo e de gás, no Ártico, mantém-se
como a posição oficial de Bruxelas, apesar da forte pressão da Noruega, rica em
petróleo, para que tal proibição seja abandonada.
A
revisão da estratégia para o Ártico da UE de 2021 será anunciada em 20 de
outubro, numa altura em que a região ganha crescente importância estratégica na
defesa do bloco e nas ambições climáticas. Para a Comissão Europeia, novos
projetos de combustíveis fósseis no Ártico são incompatíveis com as metas
climáticas. Manter a moratória vinca a determinação de Bruxelas em defender tal
posição, apesar do apelo da Agência Internacional da Energia (AIE) para a rever
e da pressão da Noruega, à medida que o bloco enfrenta uma crise energética.
Em
2021, a Alemanha, a Suécia e a Finlândia apoiaram amplamente a posição de
Bruxelas de que o novo petróleo e o gás devem ficar no subsolo. Já a Dinamarca
encontrou um difícil equilíbrio entre o apoio às ambições verdes da UE e a dificuldade
de as impor à Gronelândia, território autónomo que controla vastos recursos
minerais, incluindo importantes reservas de petróleo e de gás ainda por
descobrir. A Comissão propôs, inicialmente, a criação da obrigação jurídica
multilateral de proibir novas explorações de petróleo e de gás, no Ártico e nas
regiões envolventes. Contudo, a estratégia manteve-se como compromisso político
não vinculativo.
Questionada
sobre se a estratégia revista para o Ártico continuará a ser uma declaração
política simbólica, a Comissão afirmou que “o processo está em curso”. No
entanto, a proibição deverá permanecer não vinculativa, o que pode evitar um
confronto com a Noruega, numa altura em que a UE enfrenta preocupações, quanto
ao abastecimento energético.
Já
a Noruega julga a exploração de gás no Ártico como um seguro para a UE,
numa altura em que o bloco tenta lidar com a subida dos preços da energia, ao
mesmo tempo que o presidente francês, Emmanuel Macron, convocou uma reunião do
G7 sobre energia, onde foi discutida uma segunda utilização das reservas de
petróleo de emergência, de que resultou a libertação, de forma coordenada, de 100
milhões de barris de gasóleo e de petróleo, através da AIE
Ao
pressionar a UE para reavaliar a sua posição, o ministro norueguês da Energia,
Terje Aasland, afirmou que a continuação da atividade no mar de Barents serve
os interesses noruegueses e os europeus, face à perturbação nos mercados
energéticos globais, após a guerra no Médio Oriente, e garantiu que a Noruega
continuará a efetuar perfurações no Ártico, independentemente da posição da UE.
Nisso parece ter razão, visto que a Noruega está profundamente integrada na
arquitetura de segurança energética da UE e choques recentes, incluindo um
gasoduto danificado na Arábia Saudita, evidenciaram a rapidez com que a Europa
pode ficar vulnerável, quando os fornecimentos de outras regiões produtoras são
interrompidos. E, com o gás russo de gasoduto praticamente afastado do mercado
europeu, a Noruega tornou‑se o maior fornecedor de GNL da UE, representando
54,4% do total das importações europeias, entre janeiro e junho, acima dos
52,1% registados em 2025.
Todavia,
os ambientalistas defendem que o gás norueguês do Ártico representa apenas 1,4%
das importações de gás da UE e que dificilmente terá impacto significativo na
segurança energética, a curto prazo. O gás do novo Mar de Barents não entraria
em produção antes de 2045, demasiado tarde para responder às necessidades
imediatas da União, segundo a análise da WWF‑Noruega. “Novos fornecimentos
significativos do Ártico chegariam numa altura em que se espera que a procura
de gás na UE caia de forma acentuada”, afirmou a WWF‑Noruega, em comunicado,
citando análises que apontam para a diminuição da procura de gás fóssil na
União, de cerca de 329 mil milhões de metros cúbicos (bcm), em 2024, para 85
bcm, aproximadamente, em 2040, num trajeto alinhado com a redução de 90% das
emissões.
O
relatório não põe em causa a produção existente na Noruega, nem o papel do país
como fornecedor energético fiável. Porém, defende que a energia limpa, a
eletrificação e a eficiência energética reduzirão, mais rapidamente, a
dependência da UE de combustíveis fósseis importados do que novos projetos de
petróleo e de gás no Ártico. Paralelamente, o progresso da Noruega, na energia
limpa e na eletrificação, é terreno comum com Bruxelas, já que os veículos
elétricos, a bateria, representam cerca de 95% a 99% das vendas de automóveis
ligeiros, no país. E Paal Frisvold, coordenador da ONG Alliance to Preserve the
Moratorium on Oil Drilling in the Arctic, classificou a decisão da UE de manter
a proibição como vitória importante para o clima e afirmou que pode ajudar a
evitar uma rivalidade crescente no Grande Norte.
A
proibição da UE de novas explorações de petróleo e de gás, no Ártico, foi
debatida pelos líderes na Cimeira do Ártico organizada pela Finlândia, em
Rovaniemi, a 13 e 14 de setembro, no âmbito do debate sobre a “importância
estratégica” do Ártico. A Cimeira contou com a presença do primeiro‑ministro
norueguês, Jonas Gahr Støre, e com a participação de onze chefes de Estado e de
Governo – da Alemanha, da Dinamarca, da Estónia, da Letónia, da Lituânia, da Roménia,
da França, da Grécia, dos Países Baixos, da Polónia e da Suécia –, bem como do
presidente do Conselho Europeu, António Costa, da chefe da diplomacia europeia,
Kaja Kallas, e do comissário das Parcerias Internacionais, Jozef Síkela.
O
primeiro‑ministro finlandês, Petteri Orpo, afirmou que a Europa deve adotar uma
“abordagem abrangente” à segurança no Ártico, incluindo a energia, face à
intensificação da concorrência das grandes potências na região, citando o
aumento da atividade e do interesse da China, da Rússia e dos EUA. Com efeito,
não é claro se o acordo alcançado entre Washington, Copenhaga e Nuuk, a 18 de
setembro, abrange um projeto de exploração petrolífera na bacia de Jameson
Land, no Leste da Gronelândia, zona cobiçada por Donald Trump.
Petteri
Orpo saudou a Cimeira do Ártico como uma discussão de alto nível “muito
produtiva”, que “vai além da segurança militar”, porque diz respeito à
segurança económica, a minerais críticos, a energia, a infraestruturas e a logística,
a rotas comerciais, a segurança do abastecimento, a alterações climáticas e a desenvolvimento
sustentável. Fonte próxima das negociações sobre a política da UE para o Ártico
disse que as referências à energia na cimeira “podem dizer respeito a outras
potenciais fontes de energia, na região, incluindo solar, durante longos
períodos”. E Bruxelas anunciou, a 7 de setembro, investimentos de 200 milhões
de euros para a Gronelândia, incluindo financiamento à produção de energia com
baixas emissões de carbono, ao armazenamento e a tecnologias adequadas ao
Ártico e à resiliência dos sistemas.
***
A
Europa pode enfrentar uma escassez de gás entre 12% e 15% da procura, se uma
onda de frio intensa atingir o continente, no inverno. O alerta surge numa
altura em que a UE entra no inverno com as reservas de gás apenas 72% cheias a
1 de outubro, abaixo dos 83% registados na mesma altura de 2025, após o que o
relatório denomina de “época de injeção desafiante”.
As
perspetivas de abastecimento para o inverno, publicadas pela Rede Europeia de
Operadores de Sistemas de Transporte de Gás (ENTSOG), analisam cenários que
partem do pressuposto de ausência total de gás russo por gasoduto.
O
relatório, publicado em 8 de outubro, alerta que uma perturbação na maior
infraestrutura offshore de gás que abastece a Europa continental,
combinada com a interrupção completa das importações de gasoduto da Argélia,
representaria ameaça grave para a segurança energética do bloco. Por isso,
Bruxelas pediu aos países da UE a maximização das injeções nas reservas no
início do inverno e uma cooperação rigorosa, de forma a garantir uma repartição
equitativa de eventuais cortes na procura, assim como recomenda a redução do
consumo.
O
relatório sublinha a crescente dependência da Europa do volátil mercado mundial
de GNL, à medida que se afasta dos fornecimentos russos por gasoduto. Mesmo com
condições de inverno normais, a pressão sobre as disponibilidades de GNL pode
reduzir os níveis de armazenamento, na Europa, para 13%, em março de 2027,
obrigando, potencialmente, as indústrias intensivas em energia a reduzir a
produção. A Europa Ocidental beneficiou de novos terminais costeiros de GNL e
de acesso a gasodutos provenientes de países, como a Noruega; já os Estados da
Europa Central, Oriental e do Sudeste, sem saída para o mar, estão mais
expostos a perturbações no abastecimento. Ora, diminuindo as reservas, os
governos podem ser pressionados a dar prioridade aos consumidores nacionais, em
detrimento dos países vizinhos.
***
Por
último, é de referir que a energia nuclear é cara e suspeita; a rede elétrica
tem dificuldade em coordenar a cooperação das renováveis (picos e apagões); as
eólicas criam problemas ambientais; os povos obstam à produção de lítio; e o
hidrogénio verde ainda não se instalou.
***
Afinal,
para onde caminha a UE, que tanta dificuldade mostra em gizar o seu próximo
quadro orçamental?
2026.10.09
– Louro de Carvalho