Está muito perto do seu termo o mandato de António Guterres
como secretário-geral (SG) da Organização das Nações Unidas (ONU), que deve
deixar o cargo a 31 de dezembro deste ano. Porém, os sucessivos vetos de membros
permanentes do Conselho de Segurança têm impedido a escolha do(a) seu/sua sucessor(a).
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Em
novembro de 2026, a ONU deu início formal ao processo de eleição do(a) próximo(a)
secretário(a)-geral da organização com 80 anos de História.
As
regras constam de carta conjunta da presidente da Assembleia Geral (AG) e do
presidente do Conselho a instar os estados-membros a indicarem candidatos(as). O(A)
eleito(a) assumirá o cargo a 1 de janeiro de 2027 e a sua ação poderá moldar a
diplomacia global, a resposta a crises, em todo o Mundo, e a direção do sistema
multilateral, na próxima década.
A
publicação do órgão deliberativo (a AG), com 193 membros, e do Conselho de
Segurança (CS), integrando 15 membros, abriu a apresentação de indicações, no
que marcou o início da corrida para substituir Guterres. O texto salienta que
se vem “observando, com pesar, que nenhuma mulher jamais ocupou o cargo de
secretária-geral e, na convicção da necessidade de garantir igualdade de
oportunidades para mulheres e homens no acesso a cargos de tomada de decisão de
alto nível, os estados-membros são encorajados a considerarem, seriamente, a
indicação de mulheres como candidatas”. Paralelamente, ressalta a “importância
da diversidade regional na seleção dos secretários-gerais.” Até ao momento, dos
nove SG da História da ONU quatro vieram da Europa, dois da Ásia, dois da
África e um da América Latina.
No
processo, o CS deverá recomendar, formalmente, o nome que será submetido à
eleição para liderar o Secretariado, após Guterres. Como é usual, a lista
incluirá diplomatas, primeiros-ministros, membros da ONU e figuras internacionais
de alto escalão.
Em
correspondência separada, a então presidente da AG, Annalena Baerbock, realçou
que a escolha do(a) próximo(a) secretário(a)-geral ocorre em momento crucial
para a ONU, pelo que se reveste de extraordinária importância. Com efeito, o
Mundo é palco de “conflitos crescentes”, atravessa “uma crise climática que se
agrava rapidamente”, sente “necessidades humanitárias cada vez maiores”, enfrenta
“obstáculos persistentes à implementação da Agenda 2030 e dos Objetivos de
Desenvolvimento Sustentável” (ODS) e encara “uma crescente resistência aos
direitos humanos”. Além disso a ONU precisa de novo elã.
Para
Baerbock, o sistema multilateral “está sob crescente pressão financeira e
política”, num momento em que o Mundo precisa, “mais do que nunca”, desta
organização, a única capaz de reunir todos os países do Mundo e de agir numa
escala verdadeiramente global, com legitimidade política e com autoridade moral,
em âmbito mundial.
Entre
os nomes que já tinham declarado a pré-candidatura, estavam a ex-presidente do
Chile, Michelle Bachelet, a ex-vice-presidente da Costa Rica, Rebeca Grynspan,
e o diplomata argentino Rafael Grossi. Grynspan e Grossi trabalham no sistema
da ONU, atualmente. Ela lidera a Agência da ONU sobre Comércio e
Desenvolvimento (UNCTAD), e ele é o diretor-geral da Agência Internacional de
Energia Atómica (AIEA). E Bachelet foi diretora-executiva da ONU Mulheres e
presidente do Chile, por duas vezes.
A 21 de abril de
2026, acorreram a fazer a sua apresentação Michelle Bachelet e Rafael Mariano
Grossi; no dia, 22, foi a vez de Rebeca Grynspan e de Macky Sall, o outro
candidato que, entretanto, se perfilou para o cargo e que foi presidente do
Senegal entre 2012 e 2024. Países-membros e integrantes da sociedade civil fazem
perguntas no diálogo interativo.
As
principais questões que compõem o processo em curso são: De que país virá o
próximo chefe da ONU? Uma mulher será escolhida para liderar a Organização pela
primeira vez em mais de 80 anos de história? Como os cinco membros permanentes
do Conselho de Segurança superarão suas diferenças políticas em um mundo cada
vez mais fragmentado? Qual é o papel do secretário-geral?
O
SG, como o cargo é, frequentemente, designado por pessoas ligadas à ONU, é o
principal oficial administrativo e diplomata da ONU, sendo responsável pelas
seguintes atribuições: liderar o Secretariado da ONU e as operações globais; levar
ao Conselho de Segurança da ONU questões que ameaçam a paz internacional; atuar
como mediador, defensor e porta-voz público, em crises globais; e implementar
as decisões dos estados-membros
Quatro
candidatos foram indicados para concorrer ao posto que será deixado pelo atual SG,
a 31 de dezembro: Michelle Bachelet, do Chile, Rafael Grossi, da Argentina,
Rebeca Grynspan, da Costa Rica, e Macky Sall, do Senegal.
São
estes(as) os(as) selecionados(as) para o diálogo interativo, prévio à escolha, entre
os oito nomeados(as) como próximo(a) SG da ONU: Ivonne A-Baki, do Equador,
Michelle Bachelet, do Chile, María Fernanda Espinosa, do Equador, Rafael Grossi,
da Argentina, Rebeca Grynspan, da Costa Rica, Olara Otunnu, do Uganda, Carolyn
Rodrigues Birkett, da Guiana, e Macky Sall, do Senegal.
Em
novembro de 2025, os estados-membros foram convidados a indicar candidatos até 1
de abril de 2026, mas este prazo era flexível e outros candidatos poderiam
entrar na corrida, mesmo após a primeira ronda de diálogos interativos. Os diálogos
interativos são televisionados na sala do Conselho de Tutela.
No
final de julho, o CS, composto por 15 membros, discutiu os candidatos, à porta
fechada, e deveria informar, publicamente, a escolha do nome a ser encaminhado
numa carta à AG para votação, o que não aconteceu, por veto de um dos seus
membros permanentes, o que levou a mais rondas de reuniões do CS, para que, no
final de 2026, a AG da ONU formalize a eleição.
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As
condições de nomeação de candidatos(as) são as seguintes: os(as) candidatos(as)
devem ser indicados(as) por, pelo menos, um estado-membro da ONU; os países
podem apresentar um candidato cada (individualmente ou em conjunto); a
autoindicação não é permitida; e os candidatos adicionais podem ser indicados
após o prazo de 1 de abril.
Há,
ainda, a seguinte regra informal: nacionais dos cinco membros permanentes do
Conselho de Segurança – a China, a França, a Rússia, o Reino Unido e os Estados
Unidos da América (EUA) –, conhecidos como P5, não são indicados. E não há, por
escrito, uma política oficial de rotação regional, em relação à origem do(a) SG,
mas alguns sustentam que é a vez da América Latina, o que pode explicar por que
três dos candidatos declarados são dessa região.
O(A)
SG é nomeado(a) pela AG, composta por 193 membros, mediante recomendação do CS
(conforme estabelecido no Artigo 97 da Carta da ONU). Embora o CS, composto por
15 membros, e, particularmente, os seus cinco membros permanentes, que podem
vetar qualquer candidato, desempenhe papel decisivo na formulação da
recomendação, a nomeação é feita, em última instância, pela AG.
Para
se tornar SG, um(a) candidato(a) deve: obter apoio da maioria no Conselho de
Segurança (pelo menos, nove votos favoráveis); evitar o veto de qualquer um dos
membros permanentes do Conselho de Segurança (P5).
São
realizadas votações informais entre os membros do Conselho para indicar se
apoiam, desencorajam ou não têm opinião específica sobre um(a) candidato(a). Essas
votações continuam até que haja um candidato majoritário sem nenhum veto de um
membro permanente do Conselho de Segurança (P5). Tem havido pressão no sentido de
ser eleita uma mulher, mas não há garantias, apesar de os estados-membros terem
sido incentivados a indicar mulheres.
Em
80 anos desde a fundação da ONU, houve nove secretários-gerais todos
homens. Nenhuma mulher ocupou o cargo, até agora. Todavia, género não é
um critério formal de seleção, embora seja encorajado em todos os editais de
postos de trabalho das Nações Unidas que incentiva o equilíbrio de género como
o Objetivo 5 de Desenvolvimento Sustentável.
A
decisão final ainda depende, em grande parte, de se os membros permanentes do
Conselho de Segurança (P5) conseguirão chegar a um consenso. A discordância
entre os membros permanentes do CS e o impasse no Conselho de Segurança sobre
as recentes crises em Gaza, na Ucrânia e, agora, no Irão mostram quão difícil a
tarefa pela frente pode ser.
O(A)
décimo(a) SG seguirá os passos de: Trygve Lie, da Noruega, de 1946 a 1952;
Dag Hammarskjöld, da Suécia, de 1953 a 1961; U Thant, da Birmânia (hoje,
Mianmar), de 1961 a 1971; Kurt Waldheim, da Áustria, de 1972 a 1981; Javier
Pérez de Cuéllar, do Peru, de 1982 a 1991; Boutros Boutros-Ghali, do Egito, de 1992
a 1996; de Kofi Annan, do Gana, de 1997 a 2006; Ban Ki-moon, da República da
Coreia, de 2007 a 2016; e António Guterres, de Portugal, que tomou posse em
janeiro de 2017 e que deixará o cargo neste ano.
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A
primeira votação informal no Conselho de Segurança terá ocorrido a 30 de julho,
com sete diplomatas a concorrer: Rebeca Grynspan, Carolyn
Rodrigues-Birkett, Rafael Grossi, Michelle
Bachelet, María Fernanda Espinosa, Olara Otunnu e Macky
Sall. Ficou para trás, Ivonne A-Baki, do Equador. A primeira votação deu
vantagem a Rebeca Grynspan, que reuniu o maior número de apoiantes (dez).
O segundo lugar, muito próximo do primeiro, coube a Carolyn
Rodrigues-Birkett, que alcançou nove apoios. Ambas as concorrentes registaram
quatro “sem opinião”. E Rafael Grossi era o terceiro favorito. Porém, surgiu
o veto de, pelo menos, um dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança.
Olara Otunnu,
pela fase tardia em que a candidatura foi apresentada, já não pôde participar
na apresentação de visões que os restantes candidatos fizeram. Por isso, a AG
sugeriu um diálogo interativo com os países-membros do Conselho, a 29 de
julho, mas o ugandense não teve disponibilidade.
A
19 de setembro, Michelle Bachelet anunciou ter retirado a candidatura ao cargo
de secretária-geral da ONU. Após três votações informais, a ex-presidente do
Chile ocupava um dos últimos lugares, entre os sete candidatos.
Em
videomensagem, agradeceu, particularmente, aos presidentes do Brasil, Lula da
Silva, e do México, Claudia Sheinbaum, por terem apoiado a sua candidatura, “desde
o primeiro dia, com generosidade e convicção”. “Alguns acreditarão que
este não era o tempo para uma candidatura como a que eu quis apresentar. Quando
os ventos sopram fortes contra alguns princípios, como o multilateralismo, o
direito internacional, que é permanentemente transgredido, contra a existência
das alterações climáticas, que alguns negam apesar da evidência científica”,
disse.
No
dia 18 daquele mês, foram conhecidos os resultados da terceira votação não
vinculativa do CS, em que Michelle Bachelet ficou em penúltimo lugar. Já a
costa-riquenha Rebeca Grynspan foi, de novo, a candidata mais votada, seguida
da guianense Carolyn Rodrigues-Birkett.
A
costarriquenha Rebeca Gryspan é a que tem recebido mais votos favoráveis, mas teve
seis contra na votação informal, a 7 de outubro. Especula-se que um deles terá
vindo dos EUA, o que pode inviabilizar a candidatura. O Politico
sustenta que o governo Trump se opôs a todos os candidatos, aduzindo que nenhum
está alinhado com a visão do Mundo do presidente Donald Trump ou com o seu
desejo de introduzir mudanças radicais na organização. E parece que a
expectativa de o próximo SG ser mulher não figura entre as prioridades de
Trump.
Além
de Gryspan, havia dois nomes ligeiramente mais fortes. Um deles era o argentino
Rafael Grossi, o preferido de Washington, mas tem a oposição da Rússia e talvez
também a do Reino Unido, por causa da reivindicação argentina das Malvinas, que
vem a ganhar força com o presidente Javier Milei.
Mais
recentemente, a 16 de outubro, todos os candidatos à sucessão de António
Guterres receberam votos contrários de, pelo menos, um dos cinco membros
permanentes do Conselho de Segurança, segundo uma fonte diplomática. Esta foi a
sexta votação informal e a primeira consulta informal anónima em que os cinco
membros permanentes usaram cédulas coloridas para indicarem os seus vetos. Os
outros dez integrantes do Conselho de Segurança continuaram a usar cédulas sem
essa distinção.
A
costarriquenha Rebeca Grynspan, que esteve entre os nomes mais bem colocados
nas cinco votações anteriores, recebeu, também desta vez, o maior número de
votos de apoio, mas teve cinco votos contrários, dois deles de membros
permanentes do P5. Segundo a imprensa americana, o governo de Donald Trump opõe-se
aos sete candidatos.
Nestes
termos, o processo suscita o surgimento de novas candidaturas. Um outro cenário
é tão insólito quanto ruim: não haver consenso em torno a nenhum nome, até à
saída de Guterres. Isso demonstraria quanto a ONU perdeu relevância – a cartada
vitoriosa do governo de Donald Trump. Neste caso, a eleição estender-se-á no
tempo e terá de se encontrar uma solução interina às Nações Unidas. Ora, o
melhor seria que os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança revissem
a sua birra e olhassem para o interesse mundial.
Questionado
sobre a informação, Mike Waltz, embaixador dos EUA na ONU, não comentou o
assunto, mas declarou: “Sempre dissemos que apenas precisamos da melhor pessoa.”
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Entretanto,
os meios de comunicação social internacionais e turcos noticiam que a Turquia
está a preparar um candidato ao cargo de SG da ONU, sobretudo se se verificar o
impasse na corrida à sucessão. Rebeca Grynspan continua a liderar o grupo de
sete candidatos, mas o seu apoio enfraqueceu ligeiramente, o que sugere que o
impasse poderá persistir, o que levará outras figuras de topo a entrar na
corrida. Resta saber se o Conselho de Segurança se uniria em torno do
embaixador Feridun Sinirlioglu, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros e
atual secretário-geral da Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa
(OSCE)?
Talvez
a Turquia esteja a contar com as suas relações amistosas com os EUA. Porém, os
diplomatas norte-americanos não excluíram a possibilidade de apoiar o diplomata
búlgaro Nickolay Mladenov, que dirige o Conselho da Paz criado por Trump. E a
Turquia enfrenta vários obstáculos: a França, tal como a Grécia (que está a
concluir o seu mandato como membro não permanente do Conselho de Segurança) mantém
relações más com a Turquia. A China, a Rússia e o Reino Unido também teriam de
ser convencidos. E a Turquia mantém relações extremamente tensas com Israel,
embora tenham sido atenuadas com o papel de Sinirlioglu como embaixador em Telavive.
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Seja
como for, é uma vergonha o facto de o CS não se entender na escolha de um SG
entre sete ou oito candidatos. O cancro original, que está a fazer metástases nesta
relevante organização mundial é o veto dos P5. Olham egoisticamente para o seu
umbigo, indiferentes aos problemas da Humanidade ou complacentes com eles. Mudar
é coragem e é dever.
2026.10.18
– Louro de Carvalho