domingo, 27 de setembro de 2026

Perda do Direito de Asilo na sequência da crise de Ceuta (?!)

 

 

Está em fase de apreciação a suspensão do direito de asilo na União Europeia (UE), mas a essa perspetiva já está a despertar o alarme entre alguns políticos de esquerda e entre os que estão na linha da frente do sistema de asilo europeu, que temem que a suspensão de um direito fundamental da UE seja uma medida sem precedentes e perigosa.

Na verdade, como admitiu, no final de julho, Ursula von der Leyen, a Comissão Europeia pode fazer um parêntesis no Direito ao Asilo, no quadro da crise desencadeada pela entrada, em massa, de migrantes no exclave espanhol de Ceuta. E, no início deste mês, prometeu inserir, no seu discurso sobre o Estado da União, a introdução de um quadro de emergência que pode abrir caminho à suspensão do direito de asilo, uma medida controversa e sem precedentes, a nível da UE, que algumas capitais já apoiaram.

A proposta desse quadro, que marcará, no caso de ser adotado, um afastamento radical da política de migração existente e provocará forte reação negativa, surgiu em resposta à crise de Ceuta, na sequência da entrada, em massa, de 82 mil migrantes irregulares provenientes de Marrocos, no final de julho, dos quais vários milhares ainda se encontram no exclave espanhol, no Norte de África, à espera de que os seus pedidos sejam avaliados. Assim, é de observar que o incidente de Ceuta ocorreu no contexto mais alargado de diminuição dos pedidos de asilo e de chegadas irregulares, à Europa, com ambos os números a registarem queda, desde 2023.

De acordo com as regras atuais, qualquer cidadão estrangeiro presente num país da UE tem o direito de solicitar asilo, independentemente da forma como entrou no bloco, sendo cada pedido avaliado, numa base individual. Ora, alterar o princípio do asilo resultaria na autorização de “repatriamentos coletivos”, enviando os migrantes de volta para fora da UE, independentemente da sua situação pessoal.

De acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), esta prática violaria o princípio da não-repulsão e os direitos fundamentais dos migrantes, visto que as pessoas poderiam ser devolvidas a um local onde enfrentariam tortura, tratamentos desumanos e ameaças à sua vida ou à sua liberdade. “Mesmo em momentos de pressão migratória, os Estados devem garantir que as pessoas que procuram asilo tenham acesso aos procedimentos de asilo e não podem desviar-se deste importante princípio do direito internacional”, afirmou o ACNUR, em comunicado.

Ursula von der Leyen afirmou que o quadro de emergência só seria acionado “ao abrigo de um conjunto de critérios estritamente definidos” e “permitiria uma flexibilidade limitada no tempo e estritamente definida nos procedimentos padrão”. E um responsável da Comissão disse que não há um calendário claro para a apresentação da proposta e que os pormenores continuam por esclarecer. O tema foi debatido, a 26 de setembro, numa Conferência sobre Migração, em Munique, com a presença de ministros e de representantes de 18 países europeus.

Entretanto, grupos da sociedade civil e eurodeputados já se opõem a qualquer mecanismo que permita aos governos contornar as salvaguardas de asilo existentes: “Isto significaria desmantelar mais um dos valores da UE”, sustenta a eurodeputada socialista italiana Cecilia Strada, voz proeminente em questões de migração, argumentando que as circunstâncias excecionais são mera desculpa para justificar os “repedidos”, que são ilegais ao abrigo da legislação da UE.

Em vários acórdãos, o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos (TEDH) condenou a Grécia, a Lituânia e a Polónia, por esta prática, a qual “expõe as pessoas ao risco de serem devolvidas a locais onde enfrentariam violência ou a morte”, segundo Michele LeVoy, diretora da Organização não governamental (ONG) PICUM (Plataforma para a Cooperação Internacional sobre Migrantes Indocumentados).

Porém, o afluxo maciço de migrantes irregulares a Ceuta desencadeou um debate mais alargado sobre o direito de asilo. À medida que a crise se desenrolava, vários países convocaram reuniões de emergência, enquanto a Itália reintroduziu controlos nas fronteiras aéreas e marítimas com a Espanha, durante um mês, perturbando a livre circulação no espaço Schengen. Isso não é novo, pois alguns países suspenderam o direito de asilo, no passado. Por exemplo, a Grécia suspendeu o tratamento dos pedidos de asilo, durante um mês, em março de 2020, e durante três meses, em julho de 2025, após um aumento repentino das chegadas, por via marítima, provenientes do Leste da Líbia. A Polónia impôs medida semelhante aos migrantes que atravessavam a sua fronteira vindos da Bielorrússia, em março de 2025, durante o pico da instrumentalização dos migrantes pela Rússia e pela Bielorrússia.

Nos casos da Grécia e da Polónia, os respetivos parlamentos aprovaram a suspensão temporária, sem contestação da UE. Quando a primeira suspensão ocorreu, Ursula von der Leyen não criticou a medida. Durante controversa visita à fronteira com a Turquia, chegou a descrever a Grécia como “o escudo da Europa”.

“Tendo em conta o seu historial, temos de contar com um mecanismo que permita aos estados-membros suspender o asilo, sempre que decidam que uma fronteira está sob pressão”, afirmou Iftach Cohen, codiretor da ONG Front-Lex.

A presidente da Comissão Europeia, no discurso da União, que a UE “respeitará sempre os seus valores e direitos fundamentais”, ao proteger as suas fronteiras externas. Contudo, outros eurodeputados continuam a não estar convencidos. Por exemplo, Mélissa Camara, eurodeputada francesa do grupo dos Verdes/Aliança Livre Europeia (EFA), sustenta que tal afirmação, “faz eco, mais uma vez, da retórica xenófoba e populista que os grupos políticos de extrema-direita têm vindo a utilizar, há anos”. E Damien Carême, eurodeputado francês da Esquerda, afirmou-se pronto para intentar uma ação judicial para fazer valer os direitos fundamentais, argumentando que Ursula von der Leyen “parece ter-se esquecido de que estes existem”.

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A legislação europeia garante o direito de asilo, com base na Convenção de Genebra (CG), de 1951, e nos Tratados da União Europeia (TUE) e no Tratado de Funcionamento da União Europeia (TFUE), nos termos dos quais a UE tem como objetivo proteger todas as pessoas que fogem de situações de perseguição ou de ofensa grave no país de origem.

As pessoas que, em todo o Mundo, são forçadas a fugir do seu país, devido a violações dos direitos humanos ou de perseguições, podem procurar asilo na UE. Ora, a CG estipula os critérios para o reconhecimento do estatuto de refugiado e os países da UE, como são partes nesta Convenção, têm a obrigação internacional de garantir proteção às pessoas elegíveis.

Por sua vez, a UE integrou as condições a cumprir, para se beneficiar de proteção internacional, na legislação. Além disso, para as pessoas que não têm direito ao estatuto de refugiado, mas continuam em situação de risco grave, a UE alargou o conceito de proteção, criando a “proteção subsidiária”, em que as pessoas são protegidas de serem retornadas aos países, onde correm riscos, como o perigo de morte, a tortura ou o tratamento desumano ou degradante.

O direito de asilo e o direito à proteção subsidiária são garantidos, respetivamente, pelos artigos 18.º e 19.º da Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia.

A UE oferece também uma proteção temporária, em caso de afluxo maciço de pessoas deslocadas provenientes de países não pertencentes à UE que não possam regressar ao seu país de origem. Esta disposição foi ativada quando a Rússia invadiu a Ucrânia, em fevereiro de 2022, para oferecer assistência rápida e eficaz às pessoas que fogem da guerra na Ucrânia.

Entretanto, os estados-membros da UE chegaram a acordo, quanto a uma política europeia comum de asilo, que foi atualizada com o Pacto em matéria de Migração e Asilo, adotado no início de 2024, para entrar em vigor em 2026, como resposta aos desafios associados à gestão da migração na UE. De acordo com tal política, os procedimentos para a concessão de asilo devem ser justos e efetivos, no território da União. E esta é a base do Sistema Europeu Comum de Asilo (SECA).

O SECA é composto por vários atos legislativos que abrangem todos os aspetos do processo de asilo, tais como:

* o “Regulamento relativo à Gestão do Asilo e da Migração”, que determina como os países da UE contribuem para a gestão dos pedidos de asilo, de acordo com o princípio da solidariedade e da partilha justa das responsabilidades;

* o novo “Regulamento Relativo aos Procedimentos de Asilo”, que estipula regras claras para os pedidos de asilo e garante que os direitos dos requerentes de asilo são protegidos;

* o novo “Regulamento Relativo à Triagem”, que ajuda a evidenciar as identidades, bem como os riscos para a segurança e a saúde das pessoas que entram na UE, sem cumprirem as condições de entrada, e que abre caminho a identificação mais rápida do procedimento mais correto a aplicar pelas autoridades;

* um “procedimento de asilo mais rápido nas fronteiras”, que poderá ser aplicado nas fronteiras externas da UE e que permitirá o exame dos pedidos de asilo, num período máximo de 12 semanas, e fornecerá assistência jurídica gratuita aos requerentes;

* uma “diretiva atualizada relativa às condições de acolhimento”, que estabelece normas comuns mínimas a respeitar, em matéria de condições de vida de requerentes de asilo, e que assegura o seu acesso à habitação, à alimentação, ao emprego e aos cuidados de saúde;

* um novo “regulamento relativo às condições exigidas”, que define as condições para ser considerado(a) refugiado(a) ou beneficiário(a) de proteção subsidiária e que prevê um conjunto de direitos para o(a)s beneficiário(a)s (autorização de residência, documentos de viagem, acesso ao emprego e educação, segurança social e cuidados de saúde).

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Não obstante, o caso de Ceuta merece atenção especial. Efetivamente, a 24 de agosto, os bombeiros foram alertados para um incêndio de pequena dimensão nos alicerces do edifício n.º 54. Porém, ao chegarem, depararam-se com um labirinto subterrâneo transformado num assentamento clandestino repleto de lixo, de colchões queimados, de restos de comida, de fezes, de roupas rasgadas e de urina.

Dezenas de imigrantes chegados a Ceuta, na entrada em massa, foram encontrados amontoados em apartamentos precários e escondidos em galerias subterrâneas da cidade. A Polícia Nacional deteve três pessoas acusadas de esconderem estas pessoas em habitações insalubres, enquanto os bombeiros tiveram de intervir para extinguir um incêndio num túnel, onde dezenas de imigrantes viviam em condições precárias, sem água nem eletricidade. Tal descoberta evidencia a proliferação de assentamentos clandestinos que escapam ao controlo das autoridades.

Este caso, o mais grave, veio a público, após alerta de moradores, por fumo nas galerias do Sarchal. Um telefonema mobilizou os serviços de emergência até ao complexo subterrâneo, para extinguir um fogo que destruiu grande parte do refúgio provisório. As imagens divulgadas pelo diário “El Faro de Ceuta” mostram o interior da galeria subterrânea localizada pelos bombeiros, onde se acumulam sacos de lixo, restos de alimentos e garrafas cheias de urina, evidenciando as precárias e insalubres condições em que as pessoas estavam escondidas.

O passadiço, que liga a linha de costa ao Campus Universitário de Ceuta, servia de esconderijo insalubre a dezenas de migrantes que sobreviviam na penumbra, para não serem detetados. Os ocupantes improvisaram um sistema precário de sobrevivência numa infraestrutura totalmente inabitável, canalizando, com baldes e com garrafas, a água que escorria das rochas. Entre os restos calcinados, surgiram botes insufláveis, uma prancha de surf e dezenas de colchões, ao lado de pequenos compartimentos adaptados como latrinas. O fogo, iniciado perto de uma despensa improvisada, revelou a verdadeira dimensão do refúgio.

A intervenção do Serviço de Extinção de Incêndios e Salvamento (SEIS) foi decisiva para desmantelar este assentamento clandestino, uma rede de galerias subterrâneas servia de esconderijo temporário a dezenas de migrantes, antes de surgirem à superfície, alimentando, assim, a hipótese popular sobre a existência de “túneis secretos”.

Durante semanas, pulularam em Ceuta, rumores sobre antigos passadiços do narcotráfico reativados para entrar na Cidade Autónoma. Ante a desconfiança da população, a Polícia Nacional e a Guardia Civil diziam que não havia registo de qualquer via subterrânea ativa, mas a descoberta destas galerias subterrâneas desmonta a hipótese dos túneis transfronteiriços e confirma que os migrantes se escondiam no próprio centro urbano. Ao reabrirem infraestruturas abandonadas que tinham sido muradas, criaram uma rede de refúgios invisíveis que explica as suas aparições repentinas na cidade e reabre o debate sobre a vigilância nas zonas degradadas.

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Entretanto, o presidente de Ceuta, Juan Jesús Vivas, acusou o governo de ignorar os alertas anteriores à crise migratória, exigiu responsabilidades ao Ministério do Interior e à Moncloa e pediu um acordo com Marrocos, para tratar a situação dos menores. Ao mesmo tempo, descreveu a situação atual como “o momento mais difícil” da História recente de Ceuta e afirmou que, entre os cidadãos ceutenses, existe uma sensação “justificada de abandono”. Além disso, considera que a resposta do governo não foi adequada, que a gestão posterior à chegada maciça de migrantes deixou a cidade numa situação limite e que, em sua opinião, é impossível as autoridades de Marrocos serem alheias a uma mobilização que, segundo as suas contas, terá envolvido cerca de 80 mil pessoas.

Por seu turno, Nasser Bourita, ministro dos Negócios Estrangeiros, da Cooperação Africana e dos Expatriados Marroquinos do Reino do Marrocos, após uma reunião com o homólogo espanhol, José Manuel Albares, no âmbito da Assembleia Geral das Nações Unidas, diz não se responsabilizar pelo repatriamento dos migrantes que ainda permanecem na Cidade Autónoma.

“Se os migrantes em situação irregular não regressaram, se os menores não regressaram, a pergunta não deve ser dirigida a Marrocos, mas a Espanha. […] Não é Marrocos que impede esse regresso: esse regresso está condicionado por polémicas, por obstáculos, por dificuldades da parte espanhola, mas, em nenhum caso, por falta de vontade das autoridades marroquinas, que a manifestaram, claramente”, afirmou Bourita, em francês.

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Ursula von der Leyen afirmou, no discurso do estado da União, estar com a Espanha, em Ceuta, sem dizer como. Todavia, parece que o mecanismo de solução é o repatriamento.

Seja qual for a solução, não é desumano que se use um parêntesis no Direito de Asilo. Porém, a UE oscila entre a justeza dos direitos humanos, a avalanche de refugiados e de migrantes e o egoísmo dos países europeus, atualmente semeados de agentes da xenofobia.

2025.09.27 – Louro de Carvalho


sábado, 26 de setembro de 2026

Ministro italiano preocupado com as saias das mulheres

 

 

A 26 de setembro, a Euronews publicou um artigo intitulado “Itália: frase das ‘saias compridas’ deixa Tajani alvo de memes e da imprensa”, em que o jornalista Fortunato Pinto, refere que o italiano Antonio Tajani, vice-primeiro-ministro e ministro das Relações Exteriores, vem sendo alvo de críticas, após dizer, num discurso proferido num evento político, em Formello, perto de Roma, na Itália, preferir mulheres “sérias” de saias compridas, pelo que senadoras da oposição protestaram de saia e memes se espalham além-fronteiras.

Apesar do pedido de desculpa, apresentado, a 21 de setembro, pelas palavras proferidas na semana anterior, e da tentativa de Giorgia Meloni, primeira-ministra, para pôr fim à polémica, as declarações do governante, sobre a escolha da companheira de vida, com base em critérios, como o comprimento da saia que deve usar, geram reações contra o ministro, fora das fronteiras de Itália, transformando-o em protagonista de memes que circulam nas redes sociais.

Numa entrevista no festival “Itaca”, em Formello (pelos vistos, não num discurso, como aponta Fortunato Pinto), Tajani disse que recomendaria a um homem (em concreto, ao seu filho) casar com mulheres sérias, que usam “saias mais compridas”. “Talvez menos vistosa, mas mais fiável, mais séria, alguém que será uma boa mãe de família, que manterá a fidelidade ao amor que sela com o casamento”, especificou o chefe da diplomacia italiana, frisando que escolhe “sempre a bonita, séria, credível, que sustenta a família, que está presente, de quem sabes que dá sempre respostas e que, quando a chamas, está lá”.

Depois de uma chuva de críticas, Tajani pediu desculpa. “Lamento muito que tenham sido mal interpretadas algumas das minhas afirmações, retiradas de um discurso muito mais amplo. Peço desculpa, se algumas pessoas se sentiram ofendidas pelo que disse, mas eu não pensei nunca em ofender as mulheres, nunca o fiz na minha vida, nem na esfera privada, nem na pública”, afirmou Tajani, à margem da visita que realizou a Nova Iorque para a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), mas não foi suficiente.

As declarações do governante foram duramente contestadas pelas forças da oposição, pelos sindicatos e pela Conferência Episcopal Italiana (CEI), embora o Vaticano não tenha tomado qualquer posição oficial.

Onze senadoras do Partido Democrático (PD), do partido Itália Viva, da Alleanza Verdi e Sinistra (AVS), do MoVimento 5 Stelle (M5S) e do grupo das Autonomias reuniram-se, a 22 de setembro, no Palazzo Madama, sede do Senado, vestidas com minissaia. “Este é um gesto de liberdade para dizer que somos livres de nos vestirmos como quisermos. Acreditamos que a liberdade das mulheres se mede por qualquer gesto de liberdade, incluindo o comprimento da saia ou por qualquer outro gesto que as mulheres queiram fazer, sem serem julgadas pelos homens”, afirmou a líder parlamentar da Itália Viva, Raffaella Paita, autora da iniciativa.

Para Simona Malpezzi, do PD, que divulgou a fotografia do grupo, “estas palavras são a demonstração de um patriarcado intrínseco e inconsciente, tanto que o ministro Tajani acabou por se justificar e por pedir desculpa, mas a sua justificação é ainda pior. Eles não se apercebem do que dizem porque o têm interiorizado. É preciso mostrar que estas frases não são aceitáveis.”

E outras figuras da política italiana também se manifestaram contra as asserções do governante. Por exemplo, a ex-prefeita de Turim e deputada, Chiara Appendino, fez uma publicação, nas suas redes sociais, usando uma minissaia, na qual questionou se ela, que é mãe, não seria uma mulher confiável pela roupa que está a usar. “A nossa confiabilidade não se mede em centímetros de tecido. Vamos sair da Idade Média”, concluiu.

A iniciativa surgiu também em resposta às palavras do líder de Futuro Nazionale, Roberto Vannacci, que, comentando as declarações de Tajani, discorreu: “Entre uma mulher de saia comprida e uma mulher de saia curta, eu prefiro sempre uma mulher sem saia. […] Não me preocupo com críticas tolas. Amo as mulheres, dádiva do universo.” Tais palavras foram repetidas pelo general, nas redes sociais, com a publicação das imagens das estátuas da Vénus de Milo e da Vénus de Candia, ambas semidespidas.

Muitas outras representantes da oposição publicaram fotografias de saia, mas também alguns homens, entre eles, o vereador de Florença do PD, Andrea Ciulli, que publicou uma imagem sua criada com inteligência artificial (IA), em que aparece de saia, acompanhada da legenda: “O comprimento de uma saia não mede o valor de uma mulher, mede a sua liberdade.”

“Tajani, neste momento, é um meme, já não é um ministro”, afirmou o antigo primeiro-ministro e líder de Itália Viva, Matteo Renzi, subindo o tom. Sobre o ministro foram difundidos memes que o retratam com roupa feminina, partilhados também por meios de comunicação internacionais, entre os quais a CNN e a BBC.

Também a Confederazione Generale Italiana del Lavoro (CGIL) – o maior e mais antigo sindicato da Itália, com mais de cinco milhões de inscritos, incluindo trabalhadores ativos, jovens e reformados – reagiu com dureza. “Contrapor a mulher ‘aparente’ à mulher ‘séria’, ‘fiável’ e ‘boa mãe de família’, chegando a invocar até o comprimento da saia, repõe um modelo antigo de sociedade, em que continuam a ser os homens a determinar como devem ser as mulheres para serem consideradas respeitáveis”, afirmou o sindicato, vincando: “As instituições têm uma responsabilidade: remover os estereótipos e os obstáculos à plena participação das mulheres, não reproduzir uns e enfraquecer as garantias contra os outros. A começar por tornar efetivo o pleno direito ao trabalho, ultrapassando as disparidades salariais e profissionais existentes. A qualidade da democracia mede-se também pelo poder que as mulheres podem realmente exercer.”

Como dissemos, também a CEI, pela voz do seu secretário, monsenhor Giuseppe Batur, ao responder a uma pergunta sobre as palavras de Tajani e de Vannacci, afirmou: “Cada palavra, cada olhar sobre a mulher deve estar carregado de respeito e de admiração; para nós, cristãos, o primeiro lugar em que o Verbo Se fez carne foi o ventre de uma mulher e, para quem tem fé, isso marca, para sempre, o olhar sobre as mulheres. […] Com o olhar, entramos em relação com os outros, homens, mulheres, crianças e idosos, e é preciso respeito; para com as mulheres, o máximo, na medida em que podem ser alvo de olhares superficiais.”

A secretária-geral do PD, Elly Schlein, pediu, nos últimos dias, um comentário da primeira-ministra e líder partido Fratelli d’Italia (FdI), que acabou por minimizar as palavras de Tajani, pedindo que não se “exagere”, porque se tratou de uma “frase infeliz”. “Já respondi, não exageraria e não me parece que devamos fazer disto o tema de discussão da semana da moda”, disse Meloni, ao participar num evento, durante a Fashion Week de Milão.

Tajani foi, depois, defendido por outros membros do governo, entre eles o ministro da Defesa, Guido Crosetto, que escreveu na plataforma X: “Tajani não disse às mulheres como se devem vestir, contou, como pai, que tipo de companheira aconselharia ao filho, com base na sua educação e nos seus valores. Quem se sentir ofendida, num caso ou noutro, é naturalmente livre de o dizer. Mas o facto de uma opinião incomodar alguém não significa, necessariamente, que limite a sua liberdade. Já decidir silenciar outra pessoa significa não respeitar a sua liberdade”.

“Falam da liberdade das mulheres, mas porque não travar a batalha por aquelas que estão prisioneiras dos maridos e não podem participar na vida do país? Por motivos religiosos, aceitam que existam escravas, na Itália, até da poligamia. A seriedade exigiria que viessem connosco combater a burca”, afirmou Stefania Pucciarelli, do partido Lega (formalmente conhecido como Lega per Salvini Premier e historicamente como Lega Nord).

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Andrea Giuli comentou as palavras de Tajani nos termos seguintes:

“As declarações de Antonio Tajani sobre as mulheres – especificamente, sobre ‘saias mais compridas’ e a ideia de que uma jovem menos chamativa é, de alguma forma, mais confiável – não são apenas uma brincadeira. Refletem uma visão da mulher que pertence a um passado que não queremos trazer de volta para o presente. Uma mulher não é mais séria, simplesmente, pela maneira como se veste. Não é mais confiável, por ser menos chamativa. Não tem mais valor, por se adequar a um padrão definido por outra pessoa.

“As mulheres devem ser livres para escolherem quem são, como se vestem, como amam, que trabalho realizam e que tipo de vida constroem.

“Como vereador e homem que exerce cargo público, acredito que não podemos dar um único passo atrás, nessa questão. A política deve servir para desconstruir estereótipos, não para reforçá-los. O comprimento da saia não mede o valor de uma mulher. A sua liberdade, sim.”

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Antonio Tajani, que nasceu, em Roma, a 4 de agosto de 1953 é político, jornalista e ex-oficial da Força Aérea Italiana. Atualmente, assume as funções no governo como vice-primeiro-ministro da Itália e ministro das Relações Exteriores, desde 22 de outubro de 2022. Foi presidente do Parlamento Europeu (PE), de 2017 a 2019, comissário europeu, de 2008 a 2014, e também um dos vice-presidentes da Comissão Europeia. Foi eurodeputado, de 1994 a 2008 e de 2014 a 2022, até ser eleito para a Câmara dos Deputados da Itália. Foi jornalista, durante dez anos, enviado especial no Líbano, na União Soviética e na Somália, no início dos anos 1980. E, entre 1987 e 1993, foi diretor do diário “Il Giornale”, em Roma.

Tem, pois, vasta experiência, sobretudo, em política europeia, pelo que nada lhe justifica certa informalidade (ou leviandade) discursiva que possa ofender alguém, em cerimónia pública ou numa entrevista. Aliás, as suas palavras são ambíguas, segundo o que relatou Vannacci, no programa “Start”, da Sky Tg24, em resposta às declarações de Antonio Tajani.  

O que Tajani disse terá sido: “Se eu tivesse de dar um conselho ao meu filho quando ele me perguntasse com qual rapariga deveria casar, eu sempre escolheria a bonita, séria e confiável. Tu preferes essa ou a séria, que talvez use saias um pouco mais compridas do que a outra?” 

Em minha opinião, o texto, mais do que afirmar, insinua, o que é mais grave. É a insinuação, enquanto asserção envergonhada, que provoca, geralmente e com razão, as piores reações.

Após a controvérsia em torno da declaração, o governante lamentou que algumas das suas declarações tenham sido mal interpretadas, extraídas de uma discussão muito mais complexa. É a desculpa conveniente!  

Admito que tenha sido sincero quando recordou: “Nomeei, e queria nomear, duas mulheres como embaixadora no Irão e embaixadora no Afeganistão, precisamente, para enviar um sinal muito claro de que os direitos das mulheres não podem ser desrespeitados, em todo o Mundo. Este é apenas um exemplo das minhas ações em defesa dos direitos das mulheres. […] Poderia fazer muito mais. Não quero gerar controvérsia nem alimentá-la.”

Depois, reiterou: “Quero apenas dizer que certas declarações não devem ser exploradas, pois nunca houve qualquer intenção, da minha parte, de ofender as mulheres. Repito, a minha atividade política, o meu trabalho como ministro e a minha vida pessoal demonstram isso.” 

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As declarações de Tajani em Formello, não são entendidas, isoladamente, nas redes sociais e na comunicação social. Com efeito, em passagem pelo Brasil, também contestou a italianidade de descendentes ítalo-brasileiros e repetiu críticas à cidadania iure sanguinis. E, por conseguinte, seja verdade ou não, o que ressalta é que a segunda figura do governo italiano disse, em Formello, que aconselharia o filho a preferir mulher “menos vistosa”, porém mais “confiável”, “séria” e capaz de ser “boa mãe de família”, em vez de mulher mais atraente que, segundo o exemplo que apresentou, poderia ter tido vários namorados ou ser mais propensa à infidelidade.

Antes da viagem para o Brasil, no atinente à italianidade, o próprio Tajani escreveu que cerca de 32 milhões de brasileiros têm origem italiana e descreveu tal contingente como “um património extraordinário” de vínculos familiares, culturais e afetivos. Em São Paulo, voltou a exaltar o papel dos italianos no exterior e dos descendentes como ponte com a Itália.

Porém, ao ser questionado, no Museu da Imigração, sobre a reforma de 2025, que restringiu a transmissão da cidadania italiana por descendência, descartou qualquer flexibilização e afirmou que a nova legislação serve para “defender a italianidade”. Por outro lado, em Miami, o governante italiano considerou que não seria “um bom sinal” obter o passaporte italiano, apenas para viajar ou para fazer compras naquela cidade norte-americana, questionou por que pessoas que se consideravam italianas não haviam buscado, antes, o reconhecimento e perguntou por que a “italianidade foi abandonada por gerações”.

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Em relação à retratação sobre as declarações em Formello, é de observar que o histórico de declarações de Tajani, seguidas de controvérsia não começou em 2026.

Em março de 2019, quando presidia ao PE, afirmou, numa entrevista, que Benito Mussolini havia realizado também “coisas positivas”, citando obras de infraestrutura do período fascista. A declaração provocou forte reação no próprio PE. E, no dia seguinte, Tajani pediu desculpas e afirmou que não pretendia justificar ou minimizar “um regime antidemocrático e totalitário”, reiterando que se considerava antifascista.

Não significa que uma frase isolada defina toda a atuação de um vice-primeiro-ministro e ministro das Relações Exteriores. Mas há um elemento comum documentado: as declarações de Tajani têm provocado, em diferentes momentos, repercussões que o obrigaram a voltar a público para explicar, para contextualizar ou para pedir desculpas. E, para um chefe da diplomacia, talvez seja esse o pormenor mais irónico, já que a diplomacia costuma ser a arte de escolher as palavras, antes que elas precisem de ser recolhidas.

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As palavras de Tajani não ficaram circunscritas à entrevista em Formello. Num vídeo, o político italiano disse que, se fosse aconselhar o seu filho entre ficar com uma mulher mais charmosa, que usasse roupas mais “chamativas”, ou com uma mulher mais séria, ele deveria escolher a segunda, pois a primeira não seria dedicada à família e teria tendência maior para trair. “A mais chamativa [referindo-se à mulher hipotética] pode ser boa, por um dia. […] Mas, se me perguntarem se eu prefiro ficar com ela ou com a mulher mais séria, que usa uma saia longa, eu aconselharia sempre escolher a mais confiável”, afirmou Tajani.

Foi a entrevista e o vídeo que desencadearam toda a reação.

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Um cidadão (ã) deve respeitar a liberdade do(a) outro(a). E, em princípio, as pessoas devem usar indumentária adequada às circunstâncias locais, temporais, sociais, religiosas (se forem religiosas ou se participarem em ato religiosos. E o vestuário, exceto em farda militar ou de corporações específicas, não deve estar sujeito a métricas milimétricas, como acontecia, por exemplo, durante o Estado Novo português, a par de outros condicionamentos, como o casamento de militares, de enfermeiras ou de professoras, bem como a medida milimétrica para o traje nas praias.

Porém, Tajani não era capaz de habitar no Éden de Adão e de Eva!

2026.09-26 – Louro de Carvalho


sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Reforma energética da UE prevê cortes seletivos e reduções de consumo

 

A Comissão Europeia está a preparar significativa reforma no sistema de segurança energética, para centralizar e para coordenar as regras das tarifas da rede elétrica, a nível comunitário, bem como para estipular ajustes obrigatórios no consumo de eletricidade e de gás, em tempos de crise, podendo ocorrer, em situações específicas, cortes seletivos de eletricidade e reduções obrigatórias de consumo, em algumas regiões.

A proposta do executivo da União Europeia (UE) visa unificar as regras de segurança energética dos estados-membros. O El Economista vinca a intenção de fortalecer a resposta conjunta a problemas, como crises de abastecimento, sabotagens e ciberataques. E o regulamento unificará normas anteriores da segurança de abastecimento de gás e da preparação para riscos elétricos, abordando a falta de coordenação entre sistemas interligados. De facto, o gás é crucial na flexibilidade na produção de eletricidade, que é vital para infraestruturas de gás.

Uma ferramenta essencial será o “EU Alert”, um alerta regional ou europeu que Bruxelas poderá ativar, face a riscos substanciais, no setor elétrico, mesmo sem necessidade imediata de medidas extraordinárias. E, após consulta ao Grupo de Coordenação da Eletricidade, a Comissão poderá implementar reduções obrigatórias de consumo (que não serão uniformes para todos os países), definindo a proporção, as áreas afetadas e a duração.

Bruxelas usa períodos equivalentes dos cinco anos anteriores como base, ajustando-se a aumentos significativos na eletrificação ou a padrões de consumo atípicos, devendo os estados-membros reportar dados mensais ao Eurostat e justificar as suas medidas.

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Entretanto, os governos dos estados-membros pretendem travar ou suavizar a proposta que daria a Bruxelas mais controlo sobre a rede elétrica do bloco, preferindo manter, nas suas mãos, a forma como as redes de eletricidade são financiadas e geridas.

Estão, pois, em curso, em Bruxelas, numa altura em que a eletricidade passa para o centro da estratégia económica europeia, decisões políticas sobre quem pagará a modernização da rede elétrica do bloco, uma etapa crucial para cumprir a meta de neutralidade climática da UE, em 2050. Efetivamente, a UE quer que famílias e empresas substituam os combustíveis fósseis por eletricidade, esperando que a indústria, os centros de dados, as bombas de calor e os veículos elétricos impulsionem a procura. Todavia, o custo de expandir e de operar as redes de energia reflete-se, cada vez mais, nas faturas de eletricidade.

Em conjunto, as tarifas e os impostos superam, muitas vezes, o preço da eletricidade consumida. Segundo dados da UE, os encargos de rede representam 27% das faturas de eletricidade das famílias e 21% das empresas, enquanto os impostos e taxas nacionais adicionam mais 24% às faturas domésticas e 16% às das empresas. Assim, as faturas de eletricidade em alta na Europa levaram a Comissão a propor, em julho, novas regras para reduzir os custos da energia numa crise crescente desencadeada pelo encerramento do estreito de Ormuz, e a gizar um plano de eletrificação que estabelece, para a UE, a meta de 46%, até 2040.

A presidência irlandesa – a presidência rotativa do Conselho da UE – mantém a ambição da Comissão de tornar a eletricidade mais barata e fácil de adotar e dá margem aos governos nacionais e aos reguladores para decidirem as regras de funcionamento, na prática.

Responsável por mediar as negociações entre a Comissão, o Conselho e o Parlamento Europeu (PE), a presidência irlandesa propõe ampla revisão das tarifas de rede, exigindo estruturas tarifárias que induzam os consumidores a reduzir a procura, nas horas de ponta, a deslocar consumos para outros períodos e a considerar a localização das novas ligações. Porém, as conversações preparatórias, de 23 de setembro, entre os embaixadores da UE, indicam que os governos resistem a transformar tais instrumentos em exigências uniformes para todos.

“As regras relativas à aplicação de uma metodologia de tarifa de referência para a eletricidade devem permitir que as autoridades reguladoras se afastem dessa metodologia de referência, em casos devidamente justificados”, reza um documento do Conselho.

A Polónia, a Itália, a Chéquia, o Luxemburgo, a Lituânia e a Letónia querem que os reguladores utilizem instrumentos, como eletricidade mais barata, fora das horas de ponta, ou incentivos para localizar novos projetos onde a rede tenha capacidade disponível, apenas quando for adequado ao sistema elétrico de cada país, em vez de impor tais regras a toda a UE. Por sua vez, a Espanha, os Países Baixos, a Suécia e Chipre levantaram reservas maiores, quanto à eficácia e às possíveis consequências sociais destes instrumentos e medidas.

Francesco Sassi, professor auxiliar na Universidade de Oslo, em declarações à Euronews, disse que o controlo centralizado por parte da Comissão poderia “contribuir para reduzir o isolamento da Península Ibérica ou [para] impulsionar mais investimentos em interligações de energia com baixas emissões de carbono, na Europa de Leste e no Sudeste europeu”. “Estes países mostram incómodo crescente em ceder poder a Bruxelas, numa segunda crise energética, sob a presidência de Ursula von der Leyen, e perante choques de mercado sucessivos que a Comissão Europeia parece incapaz de controlar”, vincou o professor.

Para a Comissão, regras comuns são uma forma de tornar mais transparente e eficiente o fragmentado mercado elétrico europeu. Contudo, os países da UE resistem a qualquer medida que os obrigue a redesenhar sistemas tarifários nacionais que refletem redes, estruturas industriais e perfis de consumo muito diferentes. O ponto de conflito mais claro é a disposição que permitiria à Comissão estabelecer uma estrutura comum e uma metodologia de referência para as tarifas de eletricidade, ao que a presidência irlandesa responde, frisando que tal serviria para “harmonizar a metodologia”, não as tarifas em si, e que os reguladores nacionais podiam afastar‑se da abordagem de referência, quando houvesse justificação. Porém, vários estados‑membros continuam insatisfeitos. Por exemplo, a França, a Alemanha, a Itália, a Polónia, a Finlândia, a Espanha e os Países Baixos querem que os poderes da Comissão sejam reduzidos ou eliminados, pois a preferência que está a emergir é por orientações, não por abordagem vinculativa.

A decisão dependerá de como são distribuídos os custos da transição energética da UE. “O grande tema que ninguém quer discutir, diretamente, preferindo debater a tecnoeconomia aplicada aos sistemas de rede, ao controlo da rede, às interligações e às tarifas, é que a natureza destas questões é intrinsecamente política e geopolítica”, observou Sassi.

A dimensão política torna‑se mais evidente, quando se trata de novas ligações à rede. A UE enfrenta filas cada vez maiores para acesso à rede, à medida que fábricas, projetos de energias renováveis, centros de dados e outros investimentos intensivos em eletricidade competem por uma capacidade limitada. As regras propostas permitirão que os países da UE estabeleçam prioridades, quando não houver espaço suficiente na rede. E o compromisso mais recente reforça o papel dos estados‑membros na definição da orientação política geral, deixando aos reguladores a liberdade de aplicar as regras.

Um grupo de países – que inclui a Alemanha, a França, a Espanha, Portugal, a Polónia, a Suécia, a Dinamarca, a Finlândia, a Bélgica, a Lituânia e a Letónia – apoia, em termos gerais, dar aos governos um papel mais forte. Estes países defendem que decidir que projetos que recebem capacidade de rede escassa não é apenas exercício técnico, mas implica escolhas políticas na competitividade industrial, na segurança energética e nas prioridades sociais. E a Comissão pensa que definir critérios técnicos e tarifas de rede é uma tarefa regulatória.

A Dinamarca anunciou uma lei de emergência sobre a rede que atribui aos centros de dados a prioridade mais baixa para ligações à rede, depois de Copenhaga ter sido obrigada a travar novas ligações, no início do ano, devido à vaga de pedidos de centros de dados. E vários países da UE receiam que a rápida expansão dos centros de dados, cuja capacidade Bruxelas quer triplicar, até 2035, como parte do esforço para reduzir a dependência dos gigantes tecnológicos e para desenvolver capacidades próprias de inteligência artificial (IA), na Europa, sobrecarregue as redes elétricas e faça subir os preços da energia para os consumidores.

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Para o diretor executivo da Agência Internacional da Energia (AIE), Fatih Birol, investir na eletrificação dos transportes e da indústria pesada é a estratégia energética adequada, se a UE quer preservar a sua soberania económica e reanimar setores industriais em dificuldades. “Podemos produzir eletricidade, a partir de renováveis, energia nuclear e talvez gás natural, e devemos eletrificar as nossas economias, tanto quanto possível, defende Birol, apelando a uma transição dos combustíveis fósseis para uma economia baseada na eletricidade.

Tais declarações surgiram, em fins de maio, quando a UE passou a enfrentar uma crise energética cada vez mais grave, agravada pelo conflito dos Estados Unidos da América (EUA) com o Irão e pelo encerramento do estreito de Ormuz, rota marítima crucial por onde transita cerca de 20% das exportações mundiais de petróleo e de gás. Tal perturbação fez disparar as faturas de energia das famílias e aumentou a pressão na indústria pesada, que já enfrentava altos preços da eletricidade e competitividade em queda. E os industriais avisam que a escalada dos custos de produção obrigará ao encerramento generalizado de unidades.

Em linha com as recomendações da AIE, os líderes da UE têm apoiado, cada vez mais, o investimento em veículos elétricos (VE), em bombas de calor e na substituição, na indústria pesada, dos altos-fornos alimentados a combustíveis fósseis por fornos de arco elétrico. O objetivo é reduzir a dependência dos combustíveis fósseis, que ainda representam quase 60% das importações de energia do bloco. Não obstante, a aguardada estratégia de eletrificação da Comissão Europeia, que deverá incluir metas para os estados-membros e para a indústria, já foi adiada, por duas vezes, e deveria ser publicada a 22 de julho.

Os críticos afirmam que a transição energética da UE avança mais depressa do que a infraestrutura e os consumidores conseguem acompanhar. Entre as preocupações, contam-se uma rede insuficiente de postos de carregamento para veículos elétricos, o armazenamento, os custos elevados da eletricidade e a congestão das redes elétricas.

Além dos desafios técnicos, a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, advertiu que os elevados custos da energia estão a agravar a pressão nas famílias e nas empresas, apelando a Bruxelas para flexibilizar as regras orçamentais de modo a ajudar a baixar os preços.

A França, cujo sistema energético assente na energia nuclear ajudou a protegê-la dos picos de preços, apresentou um roteiro de 22 pontos, para reduzir a dependência de combustíveis fósseis importados de quase 60% do consumo de energia para 30%, até 2035. E o presidente francês, Emmanuel Macron, apelou ao esforço nacional para acelerar a eletrificação e para reforçar o poder de compra, a competitividade e a soberania energética da França.

O construtor automóvel Stellantis tenciona investir mais de mil milhões de euros na fábrica de Mulhouse, para produzir veículos elétricos de nova geração, a partir de 2029. E o governo francês vai instalar mais 240 mil pontos de carregamento e lançar um programa de aluguer de bombas de calor, com subsídio para famílias de baixos rendimentos, que substituam sistemas de aquecimento a gasóleo e gás (os preços da eletricidade na Alemanha são quase o dobro dos praticados na França). “A França pode orgulhar-se de ser uma grande potência elétrica, no atual contexto geopolítico. […] É também por isso que as subidas dos preços da eletricidade têm sido mais limitadas em França do que noutros países”, afirmou o presidente francês.

Apesar dos obstáculos, recente relatório global de investimentos da AIE conclui que a despesa ligada à eletricidade já representa quase 60% do investimento energético mundial, tendência que se aproxima das ambições industriais e regulamentares europeias, e a “era da eletricidade” está a tornar-se um projeto europeu, mesmo com a China a continuar a ser o principal investidor mundial em eletrificação. “Os investimentos em renováveis, [em] energia nuclear, eletrificação e [em] eficiência, na última década, melhoraram, em concreto, a segurança energética, nas principais regiões importadoras de combustíveis, e reduziram as emissões”, sublinha o relatório, que destaca a UE, a par da China, do Japão e da Coreia do Sul.

De acordo com a AIE, na Europa, as vendas de veículos elétricos aumentaram 30% e as de bombas de calor subiram 17%, no primeiro trimestre de 2026, apesar dos cortes nas subvenções, em alguns países. Na Alemanha, as bombas de calor tornaram-se uma das tecnologias de aquecimento mais vendidas, segundo a agência de energia nacional (DENA). Quase metade dos novos sistemas de aquecimento vendidos, em 2025, eram bombas de calor. E 2025 foi o primeiro ano em que as suas vendas ultrapassaram as das caldeiras a gás.

Por fim, o relatório assinala o aumento do investimento europeu em redes elétricas e de armazenamento, focando um problema que Bruxelas vem subestimando: aumentar a produção de eletricidade, sem modernizar as redes de transporte cria novas vulnerabilidades.

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As alterações climáticas e a dependência energética crescente evidenciaram a determinação da UE em se tornar o primeiro continente do Mundo com impacto neutro no clima e em garantir a segurança, a competitividade, a produção local e a sustentabilidade da energia consumida. Por isso, o Pacto Ecológico Europeu (PEE) visa garantir que as políticas da UE nos domínios do clima, da energia, dos transportes e das medidas sejam adequadas para permitir uma redução das emissões líquidas de gases com efeito de estufa (GEE) de, pelo menos, 55 %, até 2030, em comparação com os níveis de 1990, com o objetivo de alcançar a neutralidade climática, até 2050, como obrigação vinculativa, conforme a Lei Europeia do Clima. Os objetivos energéticos são decisivos: produzir energia mais limpa graças, à investigação e à inovação tecnológica, e investir em edifícios renovados e energeticamente eficientes.

Tais objetivos baseiam-se na estratégia para a União da Energia, que, a par do Regulamento (UE) 2018/1999 relativo à governação da União da Energia, define as dimensões da política energética da UE: diversificar as fontes de energia da UE – combustíveis fósseis, energia nuclear e renováveis ​​(solar, eólica, biomassa, geotérmica, hidroelétrica e maremotriz) –, para garantir a segurança energética; realizar o mercado interno de energia totalmente integrado e eficiente, sem entraves técnicos ou regulamentares; melhorar a eficiência energética e a interconexão das redes energéticas e reduzir as emissões; transitar para a economia hipocarbónica, em consonância com os compromissos do Acordo de Paris; promover a investigação nas tecnologias hipocarbónicas e na energia limpa; e dar prioridade à investigação e à inovação, para transferir a transição energética e a cooperação para a competitividade.

O artigo 194.º do Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia (TFUE) introduz a base jurídica específica no domínio da energia, com base em competências partilhadas entre a UE e os estados-membros, conduzindo-os a uma política energética comum.

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A UE tem de atualizar a sua legislação, em conformidade com as necessidades, mas tem de ser mais ágil e de dar mais voz aos estados-membros e aos cidadãos.

2026.09.25 – Louro de Carvalho


quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Aquecimento global condiciona a vindima e a vinificação

 

Já Pedro Garcias, jornalista, enólogo e vitivinicultor, na sua rubrica “Elogio do vinho”, publicada, habitualmente, no caderno semanal de sábado “Fugas” do jornal Público, alertara para a necessidade de antecipar a vindima, pelo menos, de algumas vinhas ou de algumas castas, na região do Douro, mercê da intensidade do calor.

Agora, a 24 de setembro, num pequeno texto sob o título “Vindimas noturnas são resposta de herdade alentejana aos fenómenos de calor extremo”, publicado pela Euronews, Diana Rosa Rodrigues, com a AFP (Agence France-Presse), sustenta que “as ondas de calor, cada vez mais frequentes, estão a mudar a forma como os viticultores trabalham”. Assim, no Alentejo, numa das regiões mais quentes de Portugal, a Herdade das Servas implementou o regime de vindima noturna, a fim de melhorar as condições de trabalho.

Na noite cerrada, as uvas são iluminadas pela luz dos capacetes e dos tratores que se atravessam no terreno. Uma componente das dezenas de pessoas que trabalham na apanha de uva confirmou à AFP que a mudança não atrapalhou o processo e que, graças à luz que traz consigo, até “vê melhor as uvas do que à luz do dia”, pois, no seu modo de ver, “o corpo habitua-se a fazer do dia noite e da noite dia.

Naquela herdade, a apanha das uvas, durante a noite, começou em 2024, como teste, tendo sido implementada como prática oficial, desde 2025, em resposta ao calor intenso e aos eventos climáticos extremos, cada vez mais frequentes.  “Esta colheita noturna surgiu da necessidade de proporcionar melhores condições de trabalho às equipas, para trabalharem, porque o Alentejo tem um clima muito duro, no verão, explicou à AFP Renato Neves, viticultor e enólogo, para quem a vindima noturna não é opção, mas realidade inevitável para os viticultores da região.

Renato Neves considera que, “no futuro, vai ser inevitável”. Cada vez mais empresas adotarão esta prática, até porque será muito difícil as pessoas continuarem a vindimar a partir das 11h00 ou do meio-dia, sob temperaturas de 40º C (40 graus Celsius), 41º C ou 42º C.

O Alentejo é uma das regiões mais quentes e secas de Portugal continental, atingindo, facilmente, temperaturas máximas entre os 35º C e os 38º C, no verão, e picos superiores em vagas de calor, episódios cada vez mais comuns atribuídos às alterações climáticas.

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Também na Herdade da Fonte Santa, em Vimieiro, no concelho de Arraiolos, no distrito de Évora, os trabalhadores começaram, em 2025, a sua atividade vindimeira, à meia-noite, nos 20 hectares de vinhas, inteiramente cultivadas de forma biológica. Trabalhavam durante sete horas, em condições mais frescas e agradáveis, à luz lua e das estrelas, para evitarem o calor do dia. Além disso, o ar fresco noturno traz o aroma da fruta madura, enquanto os trabalhadores selecionam cada cacho, rindo em contraponto ao silêncio do amassar das folhas.

O murmúrio suave das conversas e o brilho suave dos faróis na vinha, a complementar a luz estelar e lunar, realçam a adaptabilidade e a resiliência dos cuidadores das videiras. Por volta das 3h00 da manhã, fazem a pequena pausa, para descansarem e para saborearem uma refeição leve, mas refrescante, a “bucha”.

O encarregado da herdade diz preferir colher à noite, por ser menos quente, embora haja algumas noites mais quentes, logo no início de agosto.

A colheita noturna é uma prática cuidadosa e tradicional na viticultura, já enraizada no desejo de preservar a frescura inata e os aromas cativantes das uvas. Ao contrário do método mais comum de colheita durante o dia, a apanha noturna envolve a recolha das uvas, à luz da lua, uma decisão que transforma não só o fruto, mas também os próprios vinhos resultantes. Na sua essência, a colheita noturna é uma escolha deliberada dos produtores de vinho, para protegerem as qualidades delicadas das suas vindimas e para facilitarem o trabalho.

Porém, objetivo principal é proteger as uvas dos efeitos adversos do calor diurno, da luz solar e da oxidação, que podem envelhecer, prematuramente, a fruta e diminuir a sua complexidade aromática. Ao colher à noite, os viticultores podem preservar os sabores vibrantes e o bouquet fresco que são as marcas distintivas de um vinho excecional.

“Como vindimamos à noite, as uvas permanecem sempre frescas, não há necessidade de refrigeração, dentro da adega ou nos tanques, nem durante o processo de pré-vindima para arrefecer as uvas. E o risco de oxidação também é menor”, explicou Barbara Monteiro, coproprietária e gerente da Herdade da Fonte Santa, para quem as uvas são, por natureza, incrivelmente sensíveis às flutuações de temperatura.

Durante o dia, especialmente, em climas mais quentes, como no Alentejo, onde a quinta está localizada, o sol pode aquecer as vinhas a temperaturas bem acima dos 40°C. Ora, este calor intenso acelera os processos metabólicos nas bagas de uva, aumentando a velocidade a que perdem acidez e compostos aromáticos voláteis. Além disso, o calor pode promover o início precoce da fermentação, visto que as leveduras selvagens e as bactérias se tornam mais ativas, arriscando sabores indesejados e deterioração.

À noite, as temperaturas descem, normalmente, por vezes, até 20° C ou mais. Este ambiente fresco retarda o metabolismo das uvas, permitindo-lhes reter a sua acidez natural, fator essencial para a frescura e para o equilíbrio do produto final. E a preservação dos compostos aromáticos é, igualmente, crucial, pois são as moléculas delicadas responsáveis pelas notas florais, frutadas e herbáceas que distinguem os grandes vinhos dos comuns.

Além dos benefícios imediatos na qualidade das uvas, a colheita noturna aborda desafios mais amplos enfrentados pelos produtores de vinho atualmente, particularmente, os causados pelas alterações climáticas, que surgiram, nas últimas décadas, como um enorme desafio para a agricultura, em todo o Mundo, não sendo exceção a arte de produzir vinho.

O aumento das temperaturas, os padrões climáticos imprevisíveis e as mudanças nas estações alteraram a própria natureza da viticultura. Face a estas mudanças, os produtores de vinho estão cada vez mais a recorrer a práticas inovadoras, para preservarem a qualidade e a sustentabilidade das uvas. E uma dessas práticas, a colheita noturna, tornou-se uma ferramenta poderosa na adaptação às realidades de um Mundo em aquecimento.

Segundo Bárbara Monteiro, as alterações climáticas influenciaram muito a colheita e o processo. Assim, em todos os anos, os viticultores adaptam processos, como a poda. Ou seja, fazem-na mais tarde, para tentarem atrasar o início da colheita, mas estão a colher mais cedo, a cada ano, pois “as alterações climáticas, claramente, têm um impacto significativo”.

Temperaturas mais quentes podem acelerar o amadurecimento, fazendo com que as uvas atinjam a maturidade açucarada, antes da maturidade fenólica e aromática, resultando em vinhos com maior teor alcoólico, mas com menor complexidade. Além disso, o calor extremo, a seca e os eventos climáticos imprevisíveis ameaçam tanto o rendimento como a qualidade.

À medida que a indústria vinícola lida com as suas responsabilidades ambientais, a colheita noturna surgiu como prática sustentável, porque há menores emissões de carbono, menor necessidade de intervenção química e conservação da água.

Além disso, o stresse na videira, causado por temperaturas muito altas para a maturação correta e pode queimar os cachos; a chuva fora de tempo faz apodrecer as uvas; e o granizo rasga ou perfura as bagas e destrói a folhagem, abrindo caminho a doenças   

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As alterações climáticas também são culpadas pela pior vindima dos últimos 65 anos. Em fins de abril de 2024, um relatório concluía que a produção global de vinho atingiu um mínimo histórico, em 2023, podendo as alterações climáticas ser as culpadas.

A Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV), organização intergovernamental com 50 estados-membros, representando 75% da área de vinha do Mundo, diz que a bebida atingiu o nível mais baixo, desde 1962. E os especialistas culpam as “condições ambientais extremas”, como secas e incêndios, que induzem a tendência de queda da produção.

Embora as alterações climáticas não sejam inteiramente culpadas, no dizer a OIV, estas condições são o maior desafio que a indústria enfrenta. As videiras são, frequentemente, cultivadas em áreas fortemente afetadas e incrivelmente vulneráveis às mudanças no clima. E estas condições conduziram a um declínio acentuado, com impacto nas principais regiões produtoras de vinho nos dois hemisférios: Norte e Sul.

Na União Europeia (UE), a produção de vinho diminuiu 10%, em 2023, o segundo menor volume de vinho registado desde o início do século. Alguns países viram a primavera chuvosa causar odor, inundações, danos e perdas nas vinhas. Outros, especialmente, os do Sul da Europa, sofreram a seca severa. E os especialistas alertam que secas regulares podem tornar-se o novo normal em todo o Mediterrâneo, em meados do século, se não agirmos, imediatamente, nas alterações climáticas.

Além disso, aqueda na produção vem a par da queda do consumo de vinho no seu nível mais baixo, desde 1996, devido aos aumentos de preços decorrentes da inflação e à quebra acentuada no consumo de vinho, na China, devido ao abrandamento económico.

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Ao mesmo tempo, as alterações climáticas estão a redesenhar o mapa global do vinho.

Bordéus poderá, em breve, ter concorrência para o título de região vinícola mais famosa do Mundo. Com efeito, à medida que as alterações climáticas afetam a pluviosidade e as temperaturas sobem, os especialistas preveem que regiões tão a norte, como Yorkshire, no Reino Unido, pode, tornar-se os principais produtores de vinho, até ao final do século.

De acordo com um relatório do Monitor do Mercado de Vinhos Finos e Restaurantes, Hull poderá ser conhecida pelo seu cabernet sauvignon, já em 2100, à medida que as alterações climáticas afetam Bordéus e transformam o Norte de Inglaterra em ponto de acesso à produção.

Na última década, surgiram colheitas de renome em locais tidos como improváveis. Os vinhos espumantes ingleses estão a ganhar reconhecimento mundial, enquanto os brancos suecos têm feito incursões surpreendentes na cena internacional. E zonas do Norte, como a Dinamarca, prosperarão com estações de crescimento mais longas e condições mais amenas.

Esta mudança também está a acontecer muito para lá da Europa. “Penso que vamos começar a ver mais vinho a sair de locais como a China, à medida que os produtores de vinho utilizam a amplitude das regiões onde o podem produzir, de Ningxia a Yunnan”, afirma Ottara Pyne, uma sommelier birmanesa-americana e a gestora do portfólio da Wine Garage, empresa de importação e distribuição sediada em Banguecoque, na Tailândia, que trabalha com adegas familiares e artesanais, em todo o Mundo.

Também nos Estados Unidos da América (EUA), há mais vinho sério a ser produzido em locais, como a Virgínia, Maryland e até no extremo de Long Island.

Enquanto surgem novas áreas, as capitais do vinho de longa data enfrentam desafios existenciais.

O relatório alerta para o facto de Bordéus poder em breve deixar de produzir, de forma fiável, os seus vinhos de assinatura, uma vez que a seca, o calor e os períodos de maturação mais curtos tornam o cultivo mais volátil. A famosa região francesa de Chablis registou perdas de até 60% em 2023, com geadas tardias, granizo e míldio a dizimarem as colheitas.

Agora, alguns produtores estão a vindimar mais cedo, a replantar com variedades mais resistentes ou a explorar novas técnicas. Outros apelam à reforma das regras de denominação, o que lhes daria mais flexibilidade, quanto às uvas que podem cultivar sob rótulos protegidos. E, mesmo em zonas tradicionalmente resistentes do Sul da Europa, os viticultores questionam a viabilidade, a longo prazo, das suas vinhas familiares.

Tal como a famosa mostarda Dijon, da Borgonha, e o queijo Gouda, dos Países Baixos enfrentam a extinção, devido às alterações climáticas, os vinhos emblemáticos poderão, em breve, estar em risco. Todavia, Pyne afirma que os efeitos das alterações climáticas não são tão simples como a deslocação das regiões vinícolas para norte ou para sul, ou o desaparecimento total de grandes vinhos de regiões famosas. “A Borgonha e o Vale de Napa estarão sempre presentes. Tentarão produzir grandes vinhos, aconteça o que acontecer”, diz, mas admitindo que podem não ser os habituais cabernet ou pinot noir.

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Já em 2020, as vindimas começaram a 5 de agosto, na França, algo nunca visto para um viticultor do vale de Agly, nos Pirenéus Orientais, o local de França onde a colheita das uvas é mais precoce. “Para as uvas pequenas Muscat, é muito cedo. Com certeza, é por causa do aquecimento global. Já nos outros anos, começámos por volta do dia 15 de agosto. Fizemos um ou dois dias antes do dia 15 e, depois, recomeçávamos a vindima”, relatava o viticultor Jean-Marie Dereu.

O Ministério da Transição Ecológica de França confirmava que, em média, as vindimas estavam a acontecer 18 dias antes, comparativamente com há 40 anos. Alguns produtores estavam a pensar em mudar as variedades das videiras, para que se adaptarem às alterações climáticas.

Em 2025, os viticultores franceses foram obrigados a antecipar a vindima, porque as temperaturas elevadas fizeram com que as uvas amadurecessem mais cedo do que na época tradicional da vindima, entre setembro e outubro. Na verdade, os vindimadores do Château Carbonnieu descobriram que as temperaturas próximas dos 40º C causaram tensão nos cachos de uvas para vinho branco. Sob condições de calor e de falta de água, os bagos amadureceram antes do previsto. Como resultado, os brancos do Château Carbonnieu têm assinatura muito mais mediterrânica do que atlântica. O impacto do calor faz com que as uvas tenham um teor de açúcar mais elevado (menor acidez e menor frescura), o que, pelo processo de fermentação, se traduz em vinhos com maior teor alcoólico. E as uvas utilizadas na produção de vinho branco, em particular, enfrentam um problema, porque as regras rigorosas da França, para os vinhos com denominação de origem protegida (DOC), estipulam o teor de açúcar permitido.

O enólogo Andrea Perrin é responsável pelo cumprimento destas novas exigências. O principal problema reside neste excesso de açúcar, que está a conduzir a colheita desta área de 45 hectares a níveis de álcool de cerca de 14%. E, além de entrarem em conflito com os regulamentos da DOC, os vinhos brancos com teor alcoólico tão elevado não são, geralmente, populares, entre os consumidores.

Porém, como não é área muito extensa, o enólogo contou com a colheita mais tardia nos “terroirs” preferidos para os vinhos brancos, sobretudo, os solos argilosos que preservam a água e a acidez. Tais uvas compensariam os elevados níveis de açúcar da primeira colheita, atingindo níveis de álcool de cerca de 12% ou talvez 13% no cuveé (mistura de diferentes uvas) final.

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Enfim, também o vinho, que alegra o coração do homem e à mulher não desagrada, sofre com as alterações climáticas.

2026.09.24 – Louro de Carvalho


quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Guterres despede-se da ONU, palco apetecível e odioso para Trump

 

António Guterres, o primeiro português na pele de secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), e Donald Trump, presidente dos Estados Unidos da América (EUA), o país económica e militarmente mais poderoso do Mundo, têm discursos opostos.

No seu último discurso à Assembleia Geral, em Nova Iorque, Guterres apelou a que, antes que seja tarde, os governantes mudem de rumo, face à ameaça climática (que Trump qualificou de “farsa”), a um caminho divergente para a inteligência artificial (IA) e às fissuras do Mundo, sobretudo, entre Estados que se estão a alargar.

Em tom belicista que confirma as inquietações do secretário-geral em fim de mandato, Trump declarou, ante a Assembleia Geral da ONU, ter uma decisão a tomar, em relação ao Irão: fechar um acordo com o regime de Teerão ou “aniquilar a República Islâmica”. Considerando-o “o rufia do Médio Oriente”, reiterou a possibilidade de levar o país “ao inferno, sem qualquer hipótese de sobrevivência”.

No púlpito daquele areópago mundial, em que os dirigentes mundiais proferem discursos de apelo à paz global, o inquilino da Casa Branca foi o segundo a usar da palavra. Contrariou qualquer mensagem pacifista. Celebrou a sua operação militar na Venezuela do início do ano, pela qual, segundo o orador, os EUA alargaram o acesso e o controlo sobre as vastas reservas de petróleo daquele país sul-americano.

Quase no fim de um mandato de guerras na Ucrânia, em Gaza, no Irão e noutros países, bem como por catástrofes naturais de grande escala, António Guterres defendeu que os acontecimentos deste ano, em particular, mostram que até as nações mais poderosas têm limites e que a construção de um futuro melhor “começa com o reconhecimento, especialmente, por parte das superpotências, de que o seu poder não é assim tão super”.

Trump discorda. Em declarações escritas, quando ainda não conhecia o discurso do secretário-geral, afirmou que os alertas sobre os perigos da IA para a Humanidade, surgidos de inúmeros programadores e especialistas de topo daquela área, provêm do “mesmo grupo de pessoas” que, alegadamente, estarão a promover a “farsa da Rússia”, numa alusão às suas ligações com Moscovo. E, frisando que a IA deveria chamar-se “superinteligência” (SI), numa demonstração do seu poder, garantiu que Washington rejeitará “qualquer tentativa de construir um esquema globalista para controlar” a IA.

Guterres, porém, falando de “outro caminho”, sustenta que “um Mundo interligado reconhece que nenhuma potência pode resolver os desafios atuais, sozinha”, e que a criação da ONU, após a II Guerra Mundial, foi ato de esperança e de desafio contra a História de guerras da Humanidade, de “países que sabem que os nossos futuros estão interligados”.

António Guterres, nos mandatos do líder norte-americano, teve de gerir a relação com pinças, devido à dependência da ONU dos fundos americanos. Não obstante, contra a posição trumpiana, defende que, apesar das suas fragilidades, a ONU é o único lugar onde quase todos os países têm assento. E, num Mundo mais fragmentado, isto pode tornar-se ainda mais importante. Ao invés, Trump vê a organização a perder relevância, retirou-se de agências suas e cortou o financiamento aos programas humanitários que esta gere.

Na verdade, os tempos não favorecem altos representantes como Guterres, pelo que a ONU terá de fazer menos com menos e contar cada cent ou penny.

Trump assumiu a responsabilidade pela crise orçamental da ONU, afirmando ter cortado o orçamento em cerca de 15%. Por isso, a organização teve de despedir quatro mil funcionários. Na mesma linha, apelou à demissão imediata de todos os membros do Tribunal Penal Internacional (TPI), considerando-o “instituição desonesta”. Aliás, o seu governo impôs sanções à sua presidente, a japonesa Tomoko Akane, ao procurador-chefe e a nove dos seus juízes, neste ano. Todavia, é um poderoso símbolo da ordem internacional baseada em regras, ordem que investigadores e politólogos acusam a administração Trump de minar.

Guterres, ao assumir que nunca renunciaria aos ideais da ONU, foi aclamado com longa salva de palmas. E Trump recebeu o mesmo tipo de aplauso, ao referir a preocupação da primeira-dama, Melania Trump, com as crianças ucranianas, e ao frisar que o Irão não pode ser capaz de desenvolver uma arma nuclear.

Guterres, que não é o presidente do Mundo, mostrou a sua limitação no cargo e a sua preocupação com o poder sobre a guerra e a paz, o poder que concentra a riqueza e impulsiona a desigualdade, o poder que alimenta o caos climático e a guerra contra a Natureza, e o poder desencadeado pela IA. Sobre guerra e paz, renovou o apelo a que os líderes mundiais adiram, na prática, à Carta da ONU, a defender o direito internacional, o multilateralismo e o respeito pelos direitos humanos. Os analistas acusam Trump de atacar os princípios do direito internacional, nomeadamente, em Cuba, pressionando-a a liberalizar a sua economia e a abri-la às empresas dos EUA, a comprar petróleo a Washington e a expulsar agentes dos serviços de informação russos e chineses. E as autoridades cubanas retiraram-se, após a declaração trumpiana de que Cuba é “um Estado absolutamente falhado” cujo governo “cairá”.

A investigadora Minh-Thu Pham, do Programa de Ordem e Instituições Globais do Carnegie Endowment for International Peace, lembra que “tendemos a pensar que o período que vivemos é pior do que o passado”, mas a Guerra Fria durou na maior parte da existência da ONU, e “talvez o período com menos atritos entre as grandes potências tenha sido a década de 1990, com outros momentos isolados”. Ora, “a razão da existência da ONU reside, precisamente, na frequência destas tensões”, vincou.

Secretários-gerais do passado enfrentaram intensa pressão. U Thant envolveu-se na Crise dos Mísseis de Cuba; e Kofi Annan sofreu a enorme pressão de Washington, com membros do Congresso a pedirem a sua demissão, mas continuou a usar a autoridade do cargo e a envolver-se em situações difíceis.

Hoje, o interesse dos EUA na ONU não é claro como dantes. As posições dos EUA são menos consistentes. Outros países estão mais dispostos a contactar, diretamente, o secretário-geral, para influenciarem as suas ações, e o mapa do poder económico e militar é diferente.

O facto de Trump fazer reuniões bilaterais à margem deste evento multilateral não indica que esteja empenhado em manter o multilateralismo. No entanto, em Nova Iorque concentram-se dezenas de líderes mundiais. O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, condenou Israel, a que atribui “mentalidade genocida”. Enquanto discursava, os delegados israelitas abandonaram o plenário. E, mais tarde, o xeque Tamim bin Hamad Al Thani, emir do Catar, classificou a situação em Gaza como “genocídio em todos os sentidos da palavra”.

Trump olha para a Assembleia-Geral da ONU como mais um local de reunião. Na semana do seu discurso, seguiram-se conversas bilaterais com o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, com os primeiros-ministros britânico, Andy Burnham, a japonesa, Sanae Takaichi, o iraquiano, Ali al-Zaidi, a dinamarquesa, Mette Frederiksen, e o gronelandês, Jens-Frederik Nielsen. E teve o primeiro encontro com Delcy Rodríguez, presidente da Venezuela.

Com o líder ucraniano conversou num momento em que ambos procuram propostas de alívio das hostilidades, em especial, um cessar-fogo energético entre Kiev e Moscovo, com Trump a dizer acreditar que a subida dos preços dos combustíveis se deve aos ataques ucranianos a refinarias e a terminais petrolíferos na Rússia. A Burnham, em reunião à margem da Assembleia Geral, disse acreditar que será alcançado um acordo com o Irão, tendo havido conversações, a 22 de setembro, entre o seu governo e o iraniano. E os dois líderes abordaram as migrações, o conflito com o Irão, a guerra na Ucrânia e outros temas.

Trump assinou um acordo de segurança sobre o futuro da Gronelândia, após meses de ameaças de comprar a ilha ou de a tomar militarmente. O acordo prolonga e modifica o tratado de 1951, mas mantém a soberania na Dinamarca. Os EUA planeiam construir duas bases militares na Gronelândia, o que poderiam ter feito, a qualquer momento, nos termos de um tratado de há mais de sete décadas.

O encontro que mais importa a Trump é com Xi Jinping, a 24 de setembro, em Washington, à margem da ONU. O líder chinês recebeu-o, há meses, em Pequim, com pompa e circunstância.

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Donald Trump, no seu discurso à Assembleia Geral da ONU, primeiro, ameaçou “aniquilar” o Irão, mas afirmou, depois, que responsáveis dos EUA e iranianos se tinham encontrado, horas mais tarde, à margem da sessão, no que é o primeiro contacto direto confirmado entre as duas partes, desde o início da guerra, em fevereiro. Depois de enaltecer a sua própria firmeza, em comparação com outros líderes, defendendo a decisão de iniciar uma guerra com o Irão, sugeriu que poderá ter pela frente “uma grande decisão” na guerra em curso com o Irão, ao apelar a Teerão que reabra, totalmente, o estreito de Ormuz e regresse à mesa das negociações para encontrar uma solução. “Ou devo aniquilar a República Islâmica, fazê-lo rapidamente, sem lhe dar oportunidade de voltar a matar e a destruir pessoas e países?”, questionou, voltando a descartar a ideia de que o Irão tenha demonstrado qualquer resiliência.

“O regime terrorista está a comportar-se mal, não porque seja forte e confiante, mas porque é fraco e está desesperado”, afirmou o presidente dos EUA, acusando Teerão de estar a ganhar tempo para fechar um acordo que permita reabrir, totalmente, Ormuz e para negociar um desfecho para a guerra, apenas depois das eleições intercalares norte-americanas, e garantindo que essa estratégia não vai alterar a sua abordagem ao conflito.

Apesar do tom inflamado do discurso e da defesa firme da guerra, o inquilino da Casa Branca revelou aos jornalistas a realização do encontro entre as duas partes, mas deu poucos detalhes. “Foi uma reunião muito boa”, afirmou.

Está, ainda, prevista uma reunião com líderes e altos responsáveis de países do Conselho de Cooperação do Golfo, como o Bahrain, o Kuwait, Omã, o Catar, os Emirados Árabes Unidos (EAU) e a Arábia Saudita, para discutirem a guerra com o Irão e a crescente preocupação com os ataques dos Houthis, apoiados por Teerão, contra a Arábia Saudita.

Donald Trump, que planeia ainda participar num evento sobre o Escudo das Américas, uma iniciativa lançada, neste ano, com países latino-americanos, centrada no combate aos cartéis violentos, garantiu que a nova guerra contra o Irão era necessária, para enfrentar a ameaça nuclear colocada por Teerão, e defendeu que o Mundo está melhor sob a sua liderança. “Enquanto presidente da nação mais extraordinária da História, não tenho interesse em deixar perigos a crescer por mais um dia”, observou.

A guerra tornou-se mais complexa, embora os ataques dos EUA e de Israel hajam liquidado grande parte da cúpula iraniana e destruído a força aérea e a marinha do país, enquanto o bloqueio norte-americano ao petróleo iraniano deixou Teerão em colapso económico. Está nervoso com a guerra o mercado energético, e os preços do petróleo voltaram a subir, depois de a Arábia Saudita ter encerrado um oleoduto crucial que era uma válvula de escape para o crude bloqueado no Golfo – decisão tomada após o ataque o oleoduto por militantes apoiados pelo Irão, no Iraque, em cena de troca de tiros com os rebeldes Houthis do Iémen.

Ao mesmo tempo, os avanços territoriais dos Houthis e o controlo do estreito de Bab el-Mandeb tornaram arriscada a passagem de petroleiros por essa rota marítima no mar Vermelho. No entanto, Donald Trump insistiu que a subida dos preços do petróleo é transitória e que desaparecerá quando a guerra terminar. “Os preços do petróleo vão cair em queda livre, ainda mais do que estavam no início do conflito”, garantiu.

O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, afirmou, no dia 22, que o presidente Donaldo Trump está disponível para se reunir com o presidente do Irão, Masoud Pezeshkian, enquanto este se encontra em Nova Iorque para a Assembleia Geral. “Este é um presidente que, na maioria dos casos, está disposto a reunir-se com qualquer pessoa, porque considera que o diálogo é importante, se quisermos resolver problemas […] Não significa que se vá acabar por concordar com essas pessoas, mas é importante”, disse Rubio à NBC.

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Relatos contraditórios surgiram de Teerão, no dia 22, sobre se o Irão terá oferecido, em privado, reabrir o estreito de Ormuz, no prazo de sete dias, depois de responsáveis iranianos não identificados terem dito à Reuters e à agência japonesa Kyodo que a proposta foi transmitida a Washington através de mediadores – versão que meios de comunicação iranianos próximos do Estado desmentiram. Segundo a Kyodo, a proposta visa pôr termo, de forma permanente, à guerra entre os dois países, pelo que o Irão receberia, com agrado, a retoma da diplomacia com os EUA, se Washington der passos em direção à paz. Contudo, a agência semioficial Fars negou as informações, pouco depois, classificando-as de pouco fiáveis e imprecisas.

Não é a primeira vez que Teerão transmite sinais contraditórios sobre um eventual acordo. Em junho de 2025, o presidente norte-americano anunciou um cessar-fogo entre o Irão e Israel, na sua plataforma Truth Social, antes de o ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, ter negado, publicamente, a existência de qualquer acordo. E, em junho deste ano, Trump afirmou que as condições para pôr fim à guerra tinham sido “aprovadas por escrito”, antes de os média estatais iranianos publicarem o que descreveu como condições fabricadas, em comunicados concorrentes que dificultam o progresso diplomático.

Entretanto, Marco Rubio, no mesmo dia, afirmou aos media dos EUA, que Washington está disponível para um encontro com o Irão na Assembleia Geral da ONU.

Por seu turno, ao partir para Nova Iorque, o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, prometeu “defender, firmemente”, as posições do país. “Saímos com a cabeça erguida e isso é uma fonte de dignidade e orgulho para todos nós. Por isso, defenderemos, com firmeza, as nossas posições nas instâncias internacionais”, declarou.

“Vamos aproveitar esta oportunidade, da melhor forma possível, para expor a situação do Irão à comunidade internacional. Diremos, com firmeza, aos nossos adversários que, apesar de todas as desigualdades e injustiças, o povo iraniano se manteve firme”, afirmou.

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Como nota de curiosidade, é de referir que o presidente francês, Emmanuel Macron, no dia 21, à noite, atravessou Manhattan a pé, a fim de se encontrar com o presidente dos EUA, na Trump Tower, antes da Assembleia Geral da ONU, para discutirem vários dossiês, incluindo a situação na Ucrânia. Acompanhado pelo ministro francês dos Negócios Estrangeiros, Jean-Noël Barrot, por elementos da segurança e por assessores, atravessou as ruas, passando por vários agentes da polícia e cumprimentando um deles com um aperto de mão.

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O Mundo, incerto e inseguro, devido à inépcia ou à maldade dos líderes, precisa de rumo.

2026.09.23 – Louro de Carvalho