Dez
anos após o Reino Unido ter votado a saída da União Europeia (UE), a discussão
sobre o legado do Brexit está longe de terminada. Os eurodeputados Barry
Andrews (Renew Europe) e Sander Smit (Conservadores e Reformistas Europeus) debatem
sobre se o Brexit enfraqueceu ou fortaleceu ou a UE e se o Reino
Unido poderá ou deverá regressar, um dia, à UE.
O
eurodeputado irlandês Barry Andrews defende que a saída da UE foi um erro e um “desastre
total” para o Reino Unido, apontando para anos de instabilidade política e de desafios
económicos, após o referendo de 2016. E Sustenta que o Brexit reforçou o
apoio ao projeto europeu, ao fazer perceber que “já ninguém procura sair da
União Europeia”.
Do
seu lado, o eurodeputado neerlandês Sander Smit, em perspetiva diferente, considera
que a UE continua a sentir falta da “voz crucial do Reino Unido, em matéria de
disciplina orçamental e financeira”, alerta para o risco de uma Europa mais
centralizada e afirma que “o nosso futuro passa por uma parceria mais forte”, de
modo que “que o Reino Unido e os países da UE deixem o passado para trás e
trabalhem, em conjunto, como aliados naturais e soberanos”.
***
A
23 de junho, em artigo intitulado “O referendo do Brexit, dez anos
depois”, publicado no Expresso online, o eurodeputado português Pedro da
Silva Pereira sustenta que a avaliação dos cidadãos britânicos é que “o Reino
Unido ficou pior, por ter saído”. Com efeito, recentes sondagens apresentam a
maioria, que oscila “entre 53 e 58%”, a reconhecer que “o Brexit foi um
erro” e que o mesmo afirma a larga maioria (68%) dos jovens dos 18 aos 34 anos.
Por isso, o eurodeputado aponta que “mais de 61% dos britânicos” apoiam “a
estratégia do governo do Labour no sentido de uma reaproximação à União
Europeia” – o “Brexit reset” –, cujo roteiro foi acordado na cimeira
entre a UE e o Reino Unido, de maio de 2025.
Efetivamente,
como escreve Silva Pereira, “o Brexit falhou o essencial das suas
promessas”, com “as suas ilusões desmentidas pela realidade”.
Desde
logo, emerge a instabilidade política. Uma democracia que se tinha por
musculada conheceu sete primeiros-ministros, em 10 anos. E, como releva o articulista,
“à instabilidade política juntam-se incertezas acrescidas sobre o futuro da
unidade do Reino Unido, já não apenas na Escócia, mas também na Irlanda do
Norte e no próprio País de Gales”.
Também
ao invés do prometido, “o crescimento da economia britânica tem sido
dececionante, ficando abaixo do da UE e das outras economias avançadas,
expostas às mesmas crises de origem externa”, considera Silva Pereira, vincando
que a demora de quatro anos para a concretização do Brexit, “agravou as
incertezas” e mostrou “como o Reino Unido embarcou nesta tremenda aventura, sem
a menor preparação”. Na verdade, o governo, como anota o eurodeputado “demorou nove
meses só para enviar a carta de notificação da intenção de sair da UE,
envolvendo-se, depois, numa arrastada negociação do Acordo de Saída”, pois os
partidários do Brexit não compreendiam que o Reino Unido “não podia sair”
da UE e “manter todos os benefícios, como se estivesse dentro”, e que a
fronteira externa da UE, entre a República da Irlanda e a Irlanda do Norte, “não
podia ser gerida como se o Brexit não tivesse acontecido”. Embora os
danos tenham sido limitados pelo Acordo de Comércio e Cooperação, que regula,
desde o início de 2021, as relações entre a UE e o Reino Unido, Silva Pereira sublinha
que “os agentes económicos sentiram, fortemente, as consequências da perda das
liberdades de circulação próprias do Mercado Único”, pelo que o governo
britânico estima em cerca de 8% o impacto negativo do Brexit no PIB [produto
interno bruto]”.
Ao
medíocre desempenho da economia juntaram-se erros de governação, como o “choque
fiscal” de Liz Truss, que se fez sentir “nas contas públicas, nas taxas de
juro, no investimento e na própria qualidade dos serviços públicos, incluindo o
Serviço Nacional de Saúde (NHS)”, para onde os corifeus do Brexit tinham
prometido transferir 350 milhões de Libras adicionais, por semana, graças às
“poupanças” que resultariam da saída da UE. Daí, como aponta o articulista,
resultou “o aumento do custo de vida, com especial incidência nos preços da
energia e da habitação”.
Depois,
a promessa do Brexit era que, saindo da União Aduaneira e ficando à
margem das negociações europeias, “o Reino Unido iria celebrar fantásticos
acordos comerciais em todo o Mundo, cumprindo a visão de uma Global Britain”.
Porém, como observa o articulista, “os acordos comerciais conseguidos foram
dececionantes, com pouco ou nenhum valor acrescentado, face aos negociados pelo
muito mais poderoso bloco europeu”.
Quanto
à imigração, ao invés do sugerido pelo slogan “take back
control”, a realidade dos números mostra o aumento líquido substancial da
imigração, com a particularidade de os fluxos migratórios antes provenientes da
UE terem sido substituídos por uma imigração oriunda de países terceiros, “tendencialmente
menos qualificada e mais problemática, do ponto de vista da integração cultural”.
E,
quando o Brexit previa uma atitude mais isolacionista de um Reino Unido ‘orgulhosamente
só”, como diz Silva Pereira, “a sucessão de graves crises internacionais –
pandemia, guerras, crises energéticas e guerra comercial – tornou evidente que
a resposta aos novos desafios geopolíticos e geoeconómicos exige mais
cooperação”, e “o Brexit ficou em contraciclo”.
Por
isso, embora seja prematuro colocar no centro do debate político britânico o
regresso à UE, na ótica do eurodeputado, “o caminho da reaproximação faz
sentido e já começou a ser trilhado”, porquanto “o Reino Unido regressou ao
programa europeu de investigação científica Horizonte Europa e,
a partir de 2027, estará de volta ao programa Erasmus+”. E Silva
Pereira anota: “A participação britânica no programa SAFE [Instrumento de Ação
para a Segurança da Europa] e noutras iniciativas europeias, no domínio da
defesa e segurança, estão também em desenvolvimento. A próxima cimeira UE-Reino
Unido, agendada para 22 de julho (mas cujo calendário pode ser prejudicado pela
crise política em Londres), dará, certamente, novos passos no sentido deste ‘Brexit
reset’, com o reforço da cooperação em matéria de defesa e segurança e […] um
novo esquema de vistos para a mobilidade juvenil e uma nova regulação do
comércio de produtos agroalimentares, entre outros assuntos.”
Em
suma, os últimos dez anos, desde o referendo, foram muito penosos, para o Reino
Unido, e a UE ressentiu-se “da perda de um dos seus estados-membros mais
poderosos”, mas, como defende Silva Perira, o “efeito dominó” do Brexit,
“não aconteceu”: “mais nenhum estado-membro quer sair”, e “há muitos países que
querem entrar”.
***
Segundo
um estudo publicado, em 2014, pela empresa Deloitte, 40% das multinacionais com
sede na Europa escolheram Londres para montarem a sua sede ou, simplesmente, para
abrirem um escritório, seguido por Paris (8%), Madrid (3%), Amesterdão e
Bruxelas (2,5% cada).
Com
o Brexit, a UE não apenas perdeu um membro, mas também a que era a sua
segunda economia mais importante, que representava cerca de 15% do seu PIB e
que contribuía para o seu orçamento com mais de 13 mil milhões de dólares, por
ano. E perdeu um país com assento permanente no Conselho de Segurança da
Organização das Nações Unidas (ONU) e, um estado cuja capital, Londres, é um
dos maiores centros financeiros do Mundo.
No
entanto, líderes continentais, como Edouard Philippe, primeiro-ministro
francês, de 15 de maio de 2017 a 3 de julho de 2020, viam o Reino Unido a
deixar a UE como ocasião para fortalecer a competitividade dos seus países e para
atrair empresas instaladas em Londres. “A França tem uma oportunidade única,
aproveitando o potencial do nosso centro financeiro, de fazer de Paris o
principal centro financeiro europeu após o Brexit”, disse Philippe, em
discurso na capital francesa, em 2017.
As
autoridades holandesas e alemãs expressaram desejos semelhantes, em relação a
Amesterdão e a Frankfurt, respetivamente.
Outra
vantagem do Brexit para os países da UE, era que, pelo medo de a
organização esfacelar, os seus líderes serem forçados a comunicar, mais
claramente, os objetivos aos seus cidadãos e definirem melhor as suas
prioridades, o que reforçaria o seu caráter democrático.
Porém,
os anos subsequentes mostraram que tudo foi dificultado pela ascensão do
populismo, no continente, com a crescente perda de consensos em matérias
relevantes, como a imigração, o apoio à Ucrânia na guerra com a Rússia, desde
24 de abril de 2022, o alargamento da UE, a ação climática e a transição energética.
Além disso, as sanções decretadas à Rússia não enfraqueceram, significativamente,
àquele país a economia, nem o poderio militar, mas trouxeram à UE um grande
surto inflacionista, com o inerente aumento do custo de vida, o que levou a
grave crise económica na Alemanha, a mais forte economia do bloco europeu.
Por
outro lado, nem a dependência energética da Rússia decresceu, como era de esperar,
nem novas dependências, como as dos Estados Unidos da América (EUA) ou dos
países do Médio Oriente se tornaram mais confortáveis, para o continente, até se
agravaram com as guerras entre Israel e o Hamas ou o Hezbollah e entre os EUA/Israel
e o Irão, bem como pela entrada dos Houthis nos conflitos regionais.
É
ainda de salientar que a junção do Reino Unido à UE, no apoio à Ucrânia,
perante a postura errática do presidente dos EUA, em relação ao conflito
Rússia-Ucrânia e à participação na Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO),
disfarçando a fragilidade do bloco europeu e uma certa divisão entre os seus líderes,
em alguns pontos.
***
A
24 de junho, em artigo do Diário de Notícias (DN) “‘Brexit’ não
representou nem colapso, nem renascimento para o Reino Unido”, a agência Lusa,
considera que o Reino Unido, continua “a destacar-se” na economia do
conhecimento, da tecnologia e da “energia limpa”, mas que se estima “um impacto
negativo de 2% a 4% no PIB.
Por
ocasião dos 10 anos do Brexit, o estudo “Ten Years After Brexit:
Resilience Without Revival”, da Allianz Trade, conclui que o resultado “tem
sido mais matizado do que muitos esperavam”, com indicadores a apontar para
pontos fortes e para pontos fracos da economia, nem todos conexos com o Brexit.
Estudos
independentes estimam que o PIB britânico teria sido 2 a 4% superior, sem a
instabilidade política e sem os atritos comerciais provocados pelo Brexit.
E sustentam que, desde 2016, as regiões que votaram a favor da saída apresentado,
de um modo geral, “um desempenho inferior ao do Reino Unido no seu conjunto”, e
59% da população dessas áreas viu as suas regiões ficarem ainda mais atrás da
média nacional do rendimento per capita. Além disso, o crescimento económico
tem dependido, cada vez mais, de trabalhadores estrangeiros, o que impulsionou
mais de metade da expansão do PIB.
O
estudo da Allianz Trade revela que o Brexit “aumentou os atritos e
reduziu os fluxos comerciais” apontando as estimativas estruturais que, embora
a UE continue a ser o maior parceiro comercial do Reino Unido, o comércio de
bens com o bloco europeu será cerca de 21% inferior ao que teria sido sem a
saída. Paralelamente, segundo a Lusa, “os novos acordos comerciais e as
cadeias de abastecimento diversificadas com os EUA, [com] a China e [com] os
países da Commonwealth” não igualam “a escala dos laços económicos
anteriormente mantidos no seio da UE”, por forma que “os ativos do Reino Unido
continuam a ser negociados com um desconto, em relação aos seus homólogos
internacionais”.
Em
termos positivos, os setores da economia do conhecimento, da tecnologia e da “energia
limpa” continuam a ser os grandes motores do país. Como enfatiza o estudo, as
exportações britânicas de TIC [tecnologias da informação e comunicação] para a
UE quase duplicaram, desde o Brexit, demonstrando a competitividade
contínua da economia do conhecimento britânica”.
Assim,
o Reino Unido, o segundo maior exportador mundial de serviços financeiros, com
21% das exportações globais, vem aprofundando a oferta de serviços financeiros
aos mercados da UE. E, nos mercados privados, atrai “mais financiamento de
capital de risco do que qualquer concorrente europeu: entre 2020 e 2026,
angariou cerca de 164 mil milhões de dólares”.
Salientando
que Londres “manteve grande parte da sua importância financeira global”, o
estudo da Allianz Trade releva que “o Reino Unido continua a representar quase
50% da negociação global de derivados de taxas de juro no mercado de balcão e
quase 38% do volume de negócios global em câmbios”. Na energia limpa, “emergiu
como líder na Europa”, com a produção eólica a aumentar 130%, desde 2016,
reduzindo a dependência dos combustíveis fósseis e permitindo a eliminação
gradual e bem-sucedida do carvão, em 2024. Nos mercados, “as ações britânicas
tiveram um desempenho inferior ao das norte-americanas e das europeias,
refletindo o maior prémio de risco, devido ao contexto de crescentes
desequilíbrios orçamentais”.
Enfim,
como salienta o estudo, a marca do Brexit é visível nos dois maiores
motores de capital privado do Reino Unido: “o capital de investimento e o
capital de risco”. Ao mesmo tempo, os investimentos no Reino Unido ficaram 12 a
18% abaixo do cenário sem Brexit, a partir de 2025.
E,
apesar dos “bons resultados”, em termos da criação de empresas, da flexibilidade
do mercado de trabalho, do ensino superior e da investigação, “face a outras
economias avançadas”, segundo a Allianz Trade, “os estrangulamentos internos –
expostos pelo Brexit, mas não causados por ele – estão na origem do
desempenho de crescimento dececionante do país”.
***
Quanto
à UE, é de referir que perdeu relevante peso económico e diplomático com o Brexit,
além de uma das suas maiores economias e potências militares. A saída do Reino
Unido gerou custos económicos amplos, mas serviu para consolidar a unidade (por
vezes, frágil) dos restantes 27 estados-membros, reduzindo o peso dos
movimentos eurocéticos, no continente.
Quanto
às principais perdas e desafios para o bloco europeu, são de destacar: o peso geopolítico
e militar, pois a saída o Reino Unido, membro permanente do Conselho de
Segurança da ONU e uma das principais potências nucleares da Europa, retirou à UE
capacidade de influência global; o potencial económico e financeiro, visto que
a saída de um mercado de cerca de 67 milhões de consumidores e de uma das
maiores economias mundiais causou interrupções nas cadeias de abastecimento e
exigiu nova burocracia comercial; a mudança do centro de serviços financeiros,
já que, sendo Londres a indiscutível capital financeira europeia, o Brexit
forçou a dispersão da atividade bancária e de investimentos para cidades, como
Paris, Frankfurt e Dublin; e a segurança e defesa, pois o Brexit tornou mais
complexa e sujeita a novos acordos a coordenação de informações de inteligência
e segurança policial entre o continente e as ilhas britânicas.
***
Qualquer
mudança comporta perdas e ganhos. Aqui, os ganhos foram parcos, para ambas as
partes; e as perdas, maiores. A aproximação é vantajosa, mas nada será como
antes: a UE terá de ser anglocética, pois o Reino Unido sempre esteve com um pé
dentro e outro fora. A sua opção era a talassocracia e um estatuto especial na UE.
2026.06.26
– Louro de Carvalho