Um
relatório solicitado pelos serviços secretos espanhóis, conhecido a 10 de
agosto denuncia uma “campanha organizada e divulgada”, com vista a facilitar a travessia
para Ceuta, a cargo de uma rede não hierárquica, mas com capacidade
organizativa e de dissimulação, que se encarregou de distribuir uma mistura de
mensagens replicadas por utilizadores anónimos, em diferentes canais, a fim de
gerar a travessia a nado que ocorreu em Ceuta.
A
startup de inteligência estratégica Golden Owl (Coruja Dourada),
sediada no Parque Científico da Universidade de Alicante, descartando que o
acontecimento tenha sido um movimento popular espontâneo ou contágio social
acidental – considera que uma operação sem hierarquia clara, mas “coordenada, pré-planeada
e publicitada”, através de cerca de 25 grupos do Facebook, com cerca de
um milhão de utilizadores, poderá estar por trás da travessia, a nado, de
centenas de milhares de pessoas, desde as localidades marroquinas de Fnideq e
Belyounech até à Cidade Autónoma de Ceuta. E aponta que a divulgação nas redes
sociais dos primeiros cruzamentos bem-sucedidos, na última quinzena de julho,
foi crucial para o evento de 30-31 de julho.
Já
se sabia – por testemunhos de migrantes que os meios de comunicação recolheram –
que os guardas marroquinos tinham permitido e incentivado a travessia, mas as
provas da existência de uma rede operacional coordenada, que sabia como ocultar
os seus passos (uma “segurança operacional treinada e em várias camadas”),
emergiam à medida que os dias passavam e se discutia o papel de Marrocos ou de
outros atores no sucedido.
A
Golden Owl frisa que o movimento não dá visibilidade a qualquer líder ou
organização, mas a um conjunto de lemas ou códigos partilhados (como o cansaço,
em relação ao governo marroquino, ou a inevitabilidade da migração para os
magrebinos), difundidos por vários grupos do Facebook que replicavam a
mensagem em plataformas, como o WhatsApp – uma estratégia de difusão
descentralizada já observada noutras organizações, como no recrutamento de “lobos
solitários” por células jihadistas, após a pandemia. E salienta que os corifeus
da campanha, para não serem localizados, utilizaram endereços de e-mail
operacionais dedicados, linhas telefónicas transfronteiriças e uma turca. “Quem
se dá a tanto trabalho, para ocultar a sua identidade, a sua localização
geográfica e a sua coordenação, não o faz por acaso. São pessoas que planearam
uma operação e esperavam ser investigadas”, diz o relatório.
Os
executores individuais – maioritariamente, marroquinos – são microrrecrutadores
sem saberem quem está por trás da ideia, mas que amplificaram a mensagem, para
monetizarem os utilizadores que recrutavam. Este facto dificulta o trabalho da
polícia, ao rastrear a origem da fonte, devido ao elevado número de células
auto-organizadas e a ausência de hierarquia. Ao milhão de utilizadores dos
grupos de Facebook soma-se mais 500 mil seguidores destes grupos
replicados no WhatsApp ou noutros canais. E a Golden Owl adverte
que a rede, pelas suas caraterísticas, pode voltar a ser ativada a qualquer
momento. Porque não há líder, mas uma marca e um mercado, a rede é perigosa e
resiliente, podendo voltar a surgir. De facto, chegou a programar nova
travessia em massa, para 15 de agosto, com 108 mil pessoas.
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Uma
investigação avançada de inteligência de código aberto (OSINT) do cruzamento massivo
de Ceuta do final de julho revelou a rede de marca própria do Facebook, os
administradores e recrutadores e evidências de ser operação organizada, e não ato
espontâneo.
Entre
24 e 30 de julho de 2026, uma campanha de mobilização online com a sua marca
– o “ataque de Karyaj a Ceuta” – transformou um público difuso de migração de
língua árabe em tentativa física na fronteira espanhol-marroquina de Ceuta,
organizada a partir de praias e de alturas arborizadas sobre Fnideq e sobre Belyounech.
A Golden Owl sustenta, com alta certeza, que não foi evento espontâneo,
mas “operação coordenada, pré-construída e divulgada”, executada como rede
distribuída, por um núcleo de coordenação fechado, uma superfície de divulgação
pública no Facebook, que excede o milhão de membros declarados e dezenas
de células de recrutamento automontadas. A descoberta estrutural mais relevante
é que não há líder, mas “uma marca e um mercado”. Ou seja, a campanha é
organizada horizontalmente, não hierarquicamente. Tem nome, vocabulário
codificado rotativo, identidade visual reconhecível e slogans compartilhados,
mas nenhum comando central, cuja remoção faria com que ela colapsasse. Por isso,
atingiu a escala verificada e é resiliente a prisões e a recalls de
conteúdo.
O
facto de ser operação deliberadamente organizada, montada com um propósito e
dirigida, e não um movimento popular espontâneo ou contágio social acidental,
não resulta de suposição, mas é testado pela evidência: o recrutamento foi
seletivo e baseado em cotas; um recrutador selecionou uma célula específica de “duas
meninas e seis meninos”; outro montou um “grupo grande”, feito de propósito; o OSINT
da Golden Owl trabalhou atores individuais; e foram recuperados e
criptografados endereços de e-mail e números de telefone.
Os
que se dão a tanto trabalho para esconderem a identidade, a geografia e a coordenação
não são um acidente, mas pessoas que planearam a operação e esperavam ser
investigadas. A rede agendou a sequência com antecedência.
A
operação estratificou-se em três camadas: núcleo de coordenação fechado e fora
da plataforma, que emitiu o apelo da marca e instruiu os seguidores a
reformulá-lo; superfície de transmissão pública do Facebook de cerca de 25
páginas de amplificadores vertidas em árabe; e camada baixa de microrrecrutadores
motivados individualmente, cada um montando a sua célula crossover e
movendo o rastreamento para mensagens privadas e de WhatsApp.
A
Golden Owl enviou 25 ativos do Facebook vinculados à campanha; o
núcleo operacional (recrutamento direto, coordenação e grupos de mercado) é de
cerca de 478 mil membros declarados; toda a área reúne, aproximadamente, um
milhão e 32 mil membros declarados; e as páginas de amplificadores fora do
grupo atingem mais de meio milhão de seguidores. Ser membro não equivale a ser
uma única pessoa – as mesmas contas são repetidas em muitos grupos –, mas a
exposição é muito grande.
Um
pequeno conjunto de administradores e de recrutadores identificáveis contribuiu
com a camada operacional, incluindo um recrutador de origem casablanquense e
residente em Istambul que montou a célula vazada de “duas meninas e seis
meninos” e publicou uma linha de WhatsApp turca (+90) como um ponto de
entrada; um cluster de marca gere o maior nó da rede; e um operador de
duas contas foi construído inteiramente na cadeia “haragaceuta”.
Vários
marcadores independentes de origem argelina aderem à infraestrutura da marca. A
Golden Owl valoriza-os como pista genuína e consistente sobre a origem
do conjunto de ativos, enquanto os comerciantes individuais se resolvem como
cidadãos marroquinos. É a pista estrutural mais forte e é exposta como
circunstancial, não conclusiva.
No
âmbito das crenças, não há ideologia, organização não governamental (ONG),
partido ou instituição registada em qualquer lugar da rede. Há, porém, três
correntes: o populismo marroquino antissistema, um quadro de “alfabetização
geopolítica” de tom elitista e um fatalismo apolítico do exílio. E aparecem, em
todos os lugares, dois marcadores transversais: uma empresa cultural, a Amazigh;
e um irredentismo ambiental de Ceuta ocupada.
Em
termos de escalada, a rede produziu o primeiro vetor de retaliação/violento, na
mesma janela: uma operação de hashtag, em 15 bairros do Norte, com o seu
próprio nome, que fechou com “vingança é um dever que deve ser cumprido”.
Trata-se de um risco para a ordem pública, de uma categoria diferente da do
recrutamento para cruzamento.
No
quadro da perspetiva, o modelo é barato, repetível e resiliente. Foi emitido, a
1 de agosto, um recurso para o dia 15, com um grupo de 108 mil membros, que
permanece ativo, e que a Golden Owl valoriza com elevada probabilidade
de recorrência.
Sobre
o que aconteceu, é de salientar que, ao longo de uma janela comprimida, no
final de julho, chamadas que circulavam nos media, há vários dias, em
árabe, foram transformadas numa avalanche física, no perímetro de Ceuta; as
multidões convergiram para Fnideq e para o Bab Sebta Pass; centenas tentaram
atravessar, em densa névoa, na noite de 27 a 28 de julho; e o movimento atingiu
o pico, por volta de 30 de julho – a Festa do Trono – sustentando a Golden
Owl que dezenas de milhares foram mobilizados, para ou através da
fronteira, e que uma parte significativa foi, posteriormente, restituída a
Marrocos.
A
travessia empregou dois métodos físicos em paralelo: o banho massivo, em torno
dos quebra-mares das praias de Fnideq / Belyounech, e as abordagens para a
cerca (“el-kriaj”), organizada a partir da floresta sobre a cidade. Informações
abertas e declarações oficiais colocam a rota para nadar em torno de 80% das
entradas terrestres, tornando a organização deliberada do método minoritário da
cerca – método que requer números, simultaneidade e dispersão em equipamentos –
numa das assinaturas mais operacionalmente significativas do caso.
Em
dimensão humana, o evento foi de uma ordem de magnitude maior do que o tráfego
de recrutamento, por si só, sugeriria, o que é, por si, a prova de que a camada
visível do Facebook se estabeleceu em algo coordenado noutro lugar.
Números oficiais espanhóis registaram a ordem de 50 mil inscrições (autoridades
locais citaram números mais altos), com cerca de 48300 retornados, voluntariamente,
a Marrocos, em questão de dias. O custo humano foi grave: pelo menos, 67
mortes, totalizando 72 (há quem diga 88), a maioria por afogamento, com dezenas
de corpos recuperados na costa de Ceuta, nos dias seguintes.
A
Golden Owl chama a atenção para um detalhe, fácil de perder entre os
totais: os próprios grupos da rede, dentro de 72 duas, simultaneamente,
emitiram chamadas para a travessia e espalharam avisos de pessoas desaparecidas
decorrentes das travessias (avisos de menores com nome e sobrenomes que haviam desaparecido
a nadar em direção ao enclave. A campanha fabricou as suas vítimas e, depois,
abrigou a sua busca.
A
janela de incitamento abre-se antes da avalanche e, o que é crítico, não se
fecha com ela: um apelo para 15 de agosto circulava antes de a poeira de julho
baixar. E duas notas distinguem o evento da pressão migratória comum: a
travessia foi precedida de explícito apelo de mobilização, com marca
reconhecida; e a bacia de recrutamento era nacional, não local, ou seja, as
forças de segurança fecharam estações de transporte público até ao Sul de Casablanca
e a Agadir, para os jovens não viajarem para o Norte, em resposta ao apelo, o
que revela que as pessoas estavam a mover-se para o evento, e não cruzaram só da
cidade adjacente.
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Fontes
do ministério marroquino do Interior disseram às agências internacionais que
Marrocos avisara o governo de Pedro Sánchez do desagrado, face à revisão da lei
de estrangeiros, de 13 de julho, somando indícios de que o CNI sabia do risco
de cruzamento massivo da fronteira, dias antes da travessia, a nado, de mais de
70 mil pessoas, daquele país magrebino à praia do Tarajal, em Ceuta. De facto,
a revisão do Supremo Tribunal espanhol, de índole garantística, publicada a 13
de julho, deu provimento parcial ao recurso interposto por várias associações
pró-migrantes, proibindo as devoluções a quente e rejeitando o artigo que
atenua a obrigação de as administrações prestarem assistência imediata a
menores estrangeiros não acompanhados, logo que se encontrem em território
espanhol.
Fontes
governamentais marroquinas asseguram que esta reforma do poder judicial
espanhol perturba a cooperação, em matéria migratória, entre os dois países, e
exprimiu a sua deceção com alguns responsáveis espanhóis pelas reações à crise,
apesar de a posição dominante nos membros do executivo ter vincado a
colaboração com o reino alauíta e de atribuir a crise a redes de tráfico de
migrantes ou à disseminação de falsidades nas redes sociais.
A
principal exceção, tanto no governo como na oposição, foi Juan Vivas,
presidente de Ceuta, que, numa entrevista ao jornal espanhol “El País”, criticou,
abertamente, o país vizinho. E ministra espanhola da Defesa, Margarita Robles,
foi quem foi mais longe, entre os colegas de partido, exigindo a Marrocos que
esclareça o que aconteceu. “As máfias ou quem tiver consentido ou tolerado isto
terão de assumir responsabilidades”, afirmou. E, questionada sobre se o CNI
alertou o Ministério do Interior para a possível chegada massiva de migrantes,
a governante evitou responder, diretamente, elogiando o trabalho daquele
organismo.
Marrocos
recorreu, anteriormente, aos afluxos migratórios, para manifestar o
descontentamento, em relação à Espanha. Numa crise similar, em 2021, entraram,
ilegalmente, em Ceuta cerca de 10 mil pessoas (menos de 20% do volume estimado
neste episódio), depois de se saber que Arancha González Laya, então ministra
dos Negócios Estrangeiros, acolhera, em território espanhol, o líder da Frente
Polisário, Brahim Gali, desencadeando uma crise diplomática com Marrocos, pela
posição de Madrid, em relação ao Saara Ocidental. Desta vez, contrariou a
narrativa do governo espanhol, a menos de 24 horas da cimeira dos ministros do
Interior europeus, em que Madrid voltou a defender uma posição comum, em
matéria de migração, e denunciou a falta de solidariedade pan-europeia, após as
críticas ao cruzamento coletivo na fronteira afro-europeia de Ceuta, com
exceção de países, como a França, Portugal ou a Irlanda, que não assinaram a
carta de rejeição liderada por Giorgia Meloni, primeira-ministra italiana.
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Rabat
quer os seus menores de volta. Assim, Abdellatif Ouahbi, ministro marroquino
da Justiça, a 10 de agosto, através do portal “Hespress”, exigiu à Espanha que
devolva”, por vias legais e políticas”, os menores marroquinos não acompanhados
que estão em território espanhol, após a entra massiva em Ceuta e atribui às
autoridades espanholas a responsabilidade pela situação deles. Porém, o governo
de Madrid invoca a Lei dos Estrangeiros, enquanto o Partido Popular (PP) requer
que o governo identifique todos os imigrantes que atravessaram a fronteira.
Marrocos
não abdica de nenhum dos seus menores: dos que chegaram na última vaga de
entradas, nem dos que se encontravam, há algum tempo, distribuídos por
diferentes centros de acolhimento em Espanha. E o governante marroquino apontou
o dedo à Espanha, pelas condições em que os menores vivem em território
espanhol, e exigiu solução imediata entre os dois países que resolva o
problema, sem prejudicar as relações bilaterais. Todavia, o governo espanhol comunicou
a Rabat que a Lei dos Estrangeiros obriga a tratar os menores estrangeiros
não acompanhados como grupo especialmente vulnerável, pelo que a decisão
sobre o seu futuro se rege pelo superior interesse da criança, e não com
repatriamento automático.
O
PP sabe que o executivo não pode repatriar os menores, como exige Marrocos, por
força da lei e do acordo bilateral, propõe alterações à lei que facilitem o
regresso, com garantias, e exige ao governo identificação e registo civil de
todos estes menores, antes da redistribuição. E Juan Vivas pretende que o
governo de Madrid crie centros de acolhimento em Ceuta.
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Não
é fácil articular a necessária postura humanitária com o controlo das migrações,
mas a maioria dos países da União Europeia (UE), por falta de imaginação política
e de sensibilidade à dor dos seres humanos, está a apostar numa política
retrógrada e desumana (Portugal está nessa via). Entretanto, o grito dos pobres
soa mais alto!
2026.08.11
– Louro de Carvalho