terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Na penúria e de estômagos vazios, não se vê a luz a brilhar

 

A Palavra de Deus do 5.º domingo do Tempo Comum no Ano A desafia-nos a ser a “luz” que brilha e que ilumina o Mundo com as cores de Deus, sendo deste modo que devemos marcar a nossa passagem pela Terra.

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Na primeira leitura (Is 58,7-10), um profeta do século VI a.C. insta os habitantes de Jerusalém a serem uma luz de Deus que ilumina a noite do Mundo. Para tanto, não podem oferecer a Deus o espetáculo de uma religião feita de rituais vazios e desligados da vida, porque ser luz de Deus requer a partilha do pão com os famintos, a proximidade com os injustiçados, o cuidado daqueles de que ninguém cuida, o testemunho da misericórdia e da bondade de Deus junto de quem sofre.

O jejum é, no universo veterotestamentário, um ato religioso. Pela sua prática, o crente exprime a Deus, a humildade, a entrega, o amor. Privar-se de alimento significa a disponibilidade do fiel para renunciar ao egoísmo, para se humilhar, para se purificar e converter a Deus, para Lhe obedecer, para se entregar-se nas suas mãos, para acolher a sua ação e o seu dom.

Os habitantes de Jerusalém esperavam, com repetidos jejuns, agradar a Deus e obter a intervenção de Deus para que tudo lhes corresse bem. Todavia, ante a falta de resposta de Deus, insurgiam-se e que perguntavam para que servia o jejum e a humilhação, se Deus não lhes prestava atenção.

Deus, através do profeta, explica-Se: “No dia do vosso jejum, só cuidais dos vossos negócios e oprimis todos os vossos empregados. Jejuais entre rixas e disputas, dando bofetadas, sem dó nem piedade. Não jejueis como tendes feito até hoje, se quereis que a vossa voz seja ouvida no alto.”

Isto significa que o jejum, misturado com a exploração dos pobres e com violências, se torna um mero ato exterior sem significado, uma farsa que proclama o que não se sente, nem se vive. Tal jejum não agrada a Deus, não chega ao céu, ao coração de Deus, porque é uma mentira.

O jejum que Deus aceita e que Lhe agrada é o cumprimento dos deveres morais e humanos, para a libertação dos oprimidos, para a eliminação da injustiça, da violência e dos gestos de ameaça.

O trecho em apreço, que define o jejum autêntico, o que agrada a Deis, postula que se reparta o pão com os pobres e que se elimine a opressão, a injustiça, a violência, os gestos de ameaça. Trata-se de viver segundo os compromissos do âmbito da Aliança, obedecendo aos mandamentos de Deus. Só então o culto fará sentido e será expressão de amor a Deus e Deus voltará o coração e o rosto para o povo, virá ao encontro de Judá e caminhará com o povo (“então, se chamares, o Senhor responderá, se o invocares, dir-te-á: ‘aqui estou’.”). Vivendo de acordo com as indicações de Deus, Judá será uma luz que brilha no meio do Mundo; e as feridas do Exílio e do pecado ficarão definitivamente curadas.

Deus não está interessado numa religião feita de liturgias solenes, de gestos teatrais vazios de significado. Javé chamou Israel, libertou-o da escravidão, fez com ele uma Aliança, enviou-lhe os profetas para que fosse luz de Deus a brilhar entre as nações. Ora, com gestos concretos, sinceros, justos, compassivos, saídos do coração que ama Deus e obedecem aos seus mandamentos, que o povo de Deus testemunhará, no Mundo a bondade, a misericórdia e o amor de Deus. Porém, na penúria e de estômago vazio, não se vê qualquer luz.

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No Evangelho (Mt 5,13-16), Jesus recorre a duas metáforas para definir os contornos da missão a confiar aos discípulos. Os que integram a comunidade do Reino de Deus devem ser “sal da Terra” e “luz do Mundo”. Com as suas boas obras, devem dar sabor à vida e fazer desaparecer as sombras que trazem sofrimento à vida dos irmãos.

O grupo dos discípulos, gente pobre e pouco influente, que aceita viver o espírito das bem-aventuranças não se irá diluindo, irremediavelmente, no meio do vasto império romano, sem conseguir contagiar o Mundo com a proposta que recebeu de Jesus. Jesus acredita que, apesar da grandeza da tarefa e da hostilidade do Mundo, os membros da comunidade do Reino farão a diferença. Di-lo através de duas metáforas simples, audazes e surpreendentes: “Vós sois o sal da Terra”, “vós sois a luz do Mundo”.

O sal tornou-se, para nós, elemento tão normal que não o valorizamos convenientemente. Até o dispensamos por fazer mal à saúde. Porém, na Antiguidade, era algo bem precioso, de tal modo que os soldados romanos chegavam a receber o seu soldo pago em sal (o “salário”). Servia para dar sabor aos alimentos, transformando alimentos insípidos em alimentos saborosos, e era usado para a conservação dos alimentos, assegurando-lhes incorruptibilidade. Nesse sentido, usava-se a imagem do sal para significar o valor durável de um contrato: “aliança de sal” queria dizer “contrato duradouro”, imperecível, não afetado pela corrupção dos elementos. Também era habitual colocar-se uma placa de sal nos fornos de terra, como substância capaz de catalisar o calor. Com o tempo, a placa ia perdendo a capacidade catalisadora, ficando esse sal inutilizado. Jesus estaria a referir-se a isto, quando falou do sal que se desvirtua e deixa de ser utilizado para o fim em vista, mas também à perda da capacidade de salgar, por via da saturação pela acumulação de alimentos, ao longo do tempo. Era por isso que tinha de se substituir o sal de vez em quando. Já os discípulos não são substituíveis, devendo ser fiéis até ao fim.

Com a imagem do sal, Jesus queria dizer que os discípulos são chamados a trazer ao Mundo algo que este não tem e que dá sabor à vida humana; e pretendia dizer que, da fidelidade ao programa das bem-aventuranças, depende a perenidade da Aliança entre Deus e os homens e a permanência do desígnio salvador e libertador de Deus no Mundo, e que os discípulos têm como missão iluminar e aquecer o Mundo com a verdade do Evangelho.

Se, porém, os discípulos se recusarem a ser sal, demitindo-se das suas responsabilidades, o Mundo ficará privado dos dons de Deus, continuará a conduzir-se por critérios de egoísmo, de injustiça, de violência, de perversidade, e estará cada vez mais distante da realidade do Reino que Jesus veio inaugurar. Então, os discípulos, com o seu desleixo, com a sua preguiça, com a sua recusa em cumprir a missão que lhes foi confiada, terão defraudado, gravemente, o desígnio de Deus e as esperanças dos homens.

Por seu turno, a metáfora da luz era notória no judaísmo. Jesus explicita-a em duas imagens.

A imagem da cidade situada sobre um monte, que não se pode ocultar, leva-nos a Is 60,1-3, onde se fala da luz de Deus que devia brilhar sobre Jerusalém e, a partir de lá, iluminar todos os povos. A interpretação judaica do segmento textual “as nações caminharão à tua luz, e os reis ao esplendor da tua aurora” aplicava a frase a Israel, o Povo de Deus que devia ser o reflexo da luz libertadora e salvadora de Javé diante de todos os povos da Terra. A imagem da lâmpada colocada sobre o candelabro, para alumiar a todos os que estão em casa, repete e explicita a mensagem da primeira, mas sublinha que esconder a luz de Deus priva o Mundo da referência de que os homens precisam. Teremos uma alusão ao “Servo de Javé” de Is 42,6 e 49,6, cuja missão consiste em ser, com a sua entrega e com o seu testemunho, a “luz das nações”.

No Evangelho de João, quem é apresentado como “a luz” é Jesus (“Eu sou a luz do Mundo. Quem Me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida”). Então, os discípulos – os que aderem a Jesus e são iluminados pela luz de Jesus – participam da missão de Jesus. Os que vivem o espírito das bem-aventuranças e aderem ao Reino de Deus são, como Jesus, luz que ilumina o Mundo e aponta caminhos aos homens. De acordo com Mateus, a luz recebida de Jesus deve manifestar-se, não só em belas palavras, mas também nas boas obras que praticam e que testemunham o amor, a bondade, a ternura, a misericórdia de Deus. Essas boas obras são as que Mateus apresenta na segunda parte das bem-aventuranças: a misericórdia, a pureza de coração, a construção da paz, a luta pela justiça.

Dessa forma, a comunidade do Reino, o novo povo de Deus, será a “nova Jerusalém”, a “cidade santa”, a partir da qual a luz de Deus brilha sobre as nações, elimina as sombras do Mundo e faz irradiar sobre todos os povos a salvação de Deus. Contudo, a visibilidade que Jesus pede aos discípulos não postula que procurem lugares privilegiados, onde podem exibir-se ante o Mundo e concitar aplausos, benefícios e recompensas; significa, apenas, que devem desempenhar a sua missão profética sem interrupção, deixando, a cada momento, ao Mundo e aos homens as interpelações e os desafios de Deus. De resto, a vida de Deus manifesta-se na fraqueza, na humildade, na simplicidade, na pequenez.

Vivendo como “sal da Terra” e “luz do Mundo”, os discípulos de Jesus serão fermento da nova Humanidade. Com as boas obras, anunciarão o Mundo que há de vir, o Mundo de Deus, novo de vida e de felicidade sem fim, que espera todos os que acolhem a salvação.

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Na segunda leitura (1Cor 2,1-5), o apóstolo convida os Coríntios a agarrarem-se à “sabedoria de Deus” e a prescindirem da “sabedoria do Mundo”. A salvação não vem de belas palavras, de sistemas filosóficos bem elaborados ou de qualidades humanas dos arautos da mensagem salvífica, mas do amor de Deus, expresso na cruz onde o Filho de Deus ofereceu a vida e nos deixou a lição do amor até ao extremo. Paulo é testemunha privilegiada dessa mensagem: viver a partir da loucura da cruz dá pleno sentido à vida do homem.

Paulo foi enviado por Deus a anunciar o Evangelho de Jesus na cidade de Corinto. Porém, seja como evangelizador, seja como ser humano, desenvolveu a missão que lhe foi confiada, apoiando-se apenas em Deus, sabendo que não podia contar muito com as suas próprias forças e com as suas poucas qualidades. Como evangelizador, não se apresentou com palavras grandiosas, com discursos sublimes, com filosofias elaboradas e coerentes, mas com toda a simplicidade para anunciar o paradoxo de um Deus frágil, que morreu numa cruz, rejeitado por todos. Ora, apesar das poucas qualidades humanas do evangelizador, em Corinto nasceu uma comunidade cristã motivada e comprometida, cheia de força e de fé. E, como homem, apresentou-se cônscio da sua fraqueza, assustado e cheio de temor.

Não foi pela sedução da sua personalidade arrebatadora, pelas suas brilhantes qualidades de orador, nem pelo brilho e coerência da sua exposição ou do seu pensamento que os Coríntios se sentiram atraídos por Jesus e pelo Evangelho. Abraçaram a fé – difícil de digerir, visto que se baseia no estranho caso de um Deus que morre na cruz para dar vida aos homens – porque a força de Deus se impõe, muito além dos limites do homem que apresenta a proposta ou do ouvinte que a escuta. O Espírito de Deus está presente e age no coração dos crentes, de modo que eles não se fiquem pelos esquemas da sabedoria humana, mas se deixem tocar pela sabedoria de Deus.

Os Coríntios devem ter claro que a salvação não vem da sabedoria do homem, das palavras bonitas do homem, ou das qualidades do homem; a salvação vem de Deus, vem do amor de Deus mostrado aos homens na cruz onde Jesus ofereceu a vida. A loucura da cruz manifesta a “sabedoria de Deus”. É nessa loucura e nessa sabedoria que os Coríntios devem apostar, pois é aí que está a chave da salvação e da plena realização do ser humano.

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Também Leão XIV comentou esta Liturgia da Palavra, nos ternos seguintes:

“Proclamadas as bem-aventuranças, Jesus dirige-se aos que as vivem, dizendo que, graças a eles, a Terra já não é a mesma e o Mundo já não está na escuridão. ‘Vós sois o sal da Terra. […] Vós sois a luz do Mundo’ (Mt 5,13-14). É a verdadeira alegria que dá sabor à vida e traz à luz o que antes não existia. Esta alegria irradia de um estilo de vida, de um modo de habitar a Terra e de as pessoas viverem juntas que deve ser desejado e escolhido. É a vida que resplandece em Jesus, o novo sabor dos seus gestos e das suas palavras. Tendo-o encontrado, ‘parece insípido e opaco’ tudo o que se afasta da sua pobreza de espírito, da sua mansidão e simplicidade de coração, da sua fome e sede de justiça, que despertam misericórdia e paz como dinâmicas de transformação e reconciliação.

“O profeta apresenta uma lista de gestos concretos que põem fim à injustiça: partilhar o pão com o faminto, acolher em casa os miseráveis, os sem-abrigo, vestir quem vemos nu, sem esquecer os vizinhos e as pessoas da nossa casa. ‘Então – continua o profeta – a tua luz surgirá como a aurora, e as tuas feridas não tardarão a cicatrizar-se’. E vemos a luz, a que não se pode esconder, porque é grande como o sol que todas as manhãs afugenta as trevas; e uma ferida que, antes, ardia e, agora, está a cicatrizar.

“É doloroso perder o sabor e renunciar à alegria, mas é possível ter esta ferida no coração. Jesus parece avisar quem O escuta, que não renuncie à alegria. O sal que perdeu o sabor, diz ele, ‘não serve para mais nada, senão para ser lançado fora e ser pisado pelos homens’. Quantas pessoas – e talvez já tenha acontecido também connosco – se sentem descartáveis, imperfeitas. É como se a sua luz tivesse sido escondida. Jesus, porém, anuncia-nos um Deus que nunca nos descartará, um Pai que guarda o nosso nome, a nossa singularidade. Qualquer ferida será curada ao acolhermos a palavra das Bem-aventuranças e ao voltarmos a caminhar pela via do Evangelho.

“São os gestos de abertura aos outros e de atenção que reacendem a alegria. Com certeza que, na sua simplicidade, colocam-nos em contracorrente. O próprio Jesus, no deserto, foi tentado por outros caminhos: afirmar a sua identidade, exibi-la, ter o Mundo a seus pés. Todavia, rejeitou os caminhos em que perderia o verdadeiro sabor, o qual encontramos todos os domingos no Pão partido: a vida doada, o amor que não faz barulho.

“Deixemo-nos alimentar e iluminar pela comunhão com Jesus. Sem qualquer tipo de ostentação, seremos como a cidade no monte, visível, convidativa e hospitaleira: a cidade de Deus, onde todos desejam habitar e encontrar a paz. A Maria, Porta do Céu, dirijamos o nosso olhar e oração, para que nos ajude a tornarmo-nos e a permanecermos discípulos do seu Filho.”

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Por tudo, é bom louvar com o salmista e proclamar com o evangelista:

“Para o homem reto nascerá uma luz no meio das trevas.”

“Brilha aos homens retos, como luz nas trevas, / o homem misericordioso, compassivo e justo. / Ditoso o homem que se compadece e empresta / e dispõe das suas coisas com justiça.

“Este jamais será abalado; / o justo deixará memória eterna. / Ele não receia más notícias: /seu coração está firme, confiado no Senhor.

“O seu coração é inabalável, nada teme; / reparte com largueza pelos pobres, / a sua generosidade permanece para sempre / e pode levantar a cabeça com altivez.”

“Aleluia. Aleluia.”

“Eu sou a luz do mundo, diz o Senhor: quem Me segue terá a luz da vida.”

2026.02.09 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Novo chefe de Estado terá maiores dificuldades do que os antecessores

 

Na manhã de 16 de janeiro, o atual Presidente da República (PR), Marcelo Rebelo de Sousa, abordou questões internacionais, reafirmando as posições portuguesas sobre a Venezuela e a Gronelândia, e antecipou que o próximo chefe de Estado “terá uma tarefa mais difícil” do que a que ele próprio enfrentou, num Mundo que julga cada vez mais “imprevisível”.
“O presidente próximo encontra o Mundo e a Europa numa situação mais complicada do que eu encontrei. Há que fazer essa justiça”, declarou o PR aos jornalistas, no Beato, onde participou num fórum empresarial com o Presidente da Estónia, Alar Karis, classificando a situação global como “de imprevisibilidade enorme, que não havia, há 10 anos, ou não havia, há 15 anos”. 
E prosseguiu: “O Mundo está mais imprevisível, a Europa está mais imprevisível. Isso torna a política mais difícil, torna as decisões económicas e sociais mais difíceis. Obriga as pessoas, elas próprias, ao pensar[em] na sua vida, a terem preocupações maiores do que tinham antigamente.” 
Marcelo Rebelo de Sousa realçou ainda a importância do dia de reflexão, que se realizaria a 17 de janeiro, na véspera das eleições presidenciais, cuja primeira volta decorreu no dia 18, tendo passado à segunda volta dois candidatos. “As campanhas estão a ser cada vez mais intensas, com um debate muito aceso. As campanhas chegam ao fim, de forma muito emocional, e a vantagem do dia de reflexão é permitir que aqueles que viveram a campanha intensamente possam respirar e pensar noutras coisas das suas vidas”, discorreu o PR, sublinhando o valor deste momento numa fase de grande polarização política.
Questionado sobre um comentário recente em que disse que “os últimos seriam os primeiros”, o chefe de Estado assegurou que tal asserção nada tinha a ver com as sondagens dos últimos dias, mas com a visita de Estado do Presidente da Estónia a Portugal.
Também, a 8 de fevereiro, dia da segunda volta destas eleições, Marcelo Rebelo de Sousa, apelou à participação no ato eleitoral, porque votar no seu sucessor, que “terá uma tarefa difícil, é importante”, sobretudo, porque o país está a viver uma calamidade. Estamos a viver um momento difícil, numa parte do país, a calamidade; e, nessas ocasiões os portugueses, mais do que ainda noutras, não falham e percebem que o voto é mais importante. É mais importante quando há mais problemas, quando há problemas mais urgentes, mais graves”, declarou.
Na freguesia de Molares, em Celorico de Basto, no distrito de Braga, onde votou, na segunda volta destas eleições, o chefe de Estado reiterou que o sucessor terá uma tarefa mais difícil do que a sua, devido ao momento atual do país e do Mundo. “O presidente eleito hoje tem uma tarefa difícil, mais difícil do que aquela que eu tive, ao longo destes mandatos, e quanto maior for a participação, maior é a força que é dada àquele que vier a ser eleito presidente”, disse.

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Por este diapasão afinou Ramalho Eanes, o primeiro Presidente da República eleito em democracia, não escondendo preocupação, pois, em sua opinião, “o próximo presidente vai ter dificuldades que nenhum outro teve depois de Abril”.
Afirmando, a 8 de fevereiro, que estas eleições são “verdadeiramente especiais”, mostrou-se preocupado com a abstenção e com os desafios que o próximo presidente vai enfrentar. “Não escondo uma certa preocupação, porque este Presidente da República vai ter dificuldades que nunca nenhum Presidente da República teve depois de Abril”, afirmou o general.
“É evidente que o presidente tem competências e funções extremamente importantes, sempre, qualquer que seja a situação, mas a situação é uma situação, enfim, não quero dramatizar, mas má, muito má”, considerou, exemplificando com o problema das cheias, que implicará enormes custos financeiros; a “fragmentação partidária excessiva, que prejudica o encontro de consensos que permitem responder melhor às diferentes situações graves que se põem”; e “a situação política europeia e mundial”. 
Por fim, apelou a que todos votassem, apesar das circunstâncias difíceis que afetam muitos Portugueses, por causa do mau tempo: “Os Portugueses não podem ficar em casa, nunca podem, mas, neste caso, não devem, porque as eleições são verdadeiramente excecionais.” 
Também no mesmo dia, o chefe do executivo madeirense, Miguel Albuquerque, se manifestou “preocupado”, face aos desafios que o futuro Presidente da República terá de enfrentar, em relação ao posicionamento de Portugal, a nível internacional. “Estamos perante uma ordem internacional nova. Portugal tem de redefinir o seu papel no quadro da defesa e da segurança”, afirmou, vincando que o Presidente da República é o comandante supremo das Forças Armadas e que “importa saber qual vai ser a estratégia de Portugal no quadro geopolítico”. 
“Não vou dizer qual é o meu sentido de voto, mas o que eu espero é que esta eleição decorra da melhor maneira, dada a tragédia [mau tempo] que assolou o país. Acho que é importante continuarmos a exercer o nosso direito de sufrágio”, declarou o também presidente do Partido Social Democrata da Madeira (PSD/Madeira).
O chefe do executivo madeirense considerou que o futuro Presidência da República terá “papel muito difícil”, a nível nacional e a nível internacional. “Eu estou mais preocupado, porque Portugal tem desafios, pela frente, muito difíceis”, disse, alertando para a “situação de guerrilha” e de “entretenimento” permanentes no país, com um “conjunto de personagens que vão para a televisão, falam de tudo, sobre tudo, mas não se discute o essencial”.

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A este respeito, o economista Hélder Ribau, em artigo intitulado “Os desafios do próximo Presidente”, publicado pelo diário online “Campeão das Províncias”, a 30 de janeiro, considera que o próximo chefe de Estado “não herdará apenas um cargo”, mas também “um tempo […] o tempo que já chegou, [que] é mais exigente do que aquele para o qual a arquitetura política portuguesa foi sendo preparada”.
Na ótica do economista, já não existe o tempo em que “a função presidencial pôde ser exercida como magistratura de equilíbrio, num Mundo relativamente previsível”, porque “o desafio deixou de ser gerir a mudança”, mas “compreender que a mudança já aconteceu – e continuará a acontecer, a uma velocidade para a qual a política raramente está preparada”. 
Hélder Ribau especifica as fragilidades que o país apresenta, neste novo ciclo: “fragmentação política, erosão da confiança institucional, pressão sobre serviços públicos estruturantes e dificuldade em reter talento jovem”. E, considerando que “o presidente não governa, mas influencia; não legisla, mas enquadra; não executa, mas simboliza”, sustenta que ele “deve ser produtor de sentido estratégico, capaz de devolver profundidade ao debate público e [de] proteger a democracia de simplificações perigosas”. Por outro lado, defende que “a política nacional já não pode ser pensada, apenas como alternância partidária”, mas está integrada na disputa sobre “o valor da própria democracia representativa”. 
Lembra o articulista que, “no plano europeu, o cenário também mudou”, pois  a União Europeia (UE) voltou a ser “território de tensão geopolítica”, de “rearmamento progressivo”, de “competição tecnológica” e de “transição energética”. Ora, apesar da sua pequenez, em dimensão, Portugal “não é irrelevante em influência, se souber posicionar-se”. 
Por conseguinte, o próximo presidente terá de “compreender os novos equilíbrios, a centralidade da defesa comum, a fragilidade das cadeias de abastecimento e o impacto social das transições digital e climática”; e a Presidência da República constituirá “um ativo diplomático maior”, em que a sua voz e o seu silêncio contam”. Contudo, observa o economista que “a mutação é mais profunda” no plano internacional, já que “vivemos num Mundo crescentemente polarizado: economicamente, com blocos rivais, e, militarmente, com a normalização do conflito”. 
Neste contexto, na ótica de Hélder Ribau, “o controlo dos dados, das plataformas e da perceção pública tornou-se arma estratégica” e a desinformação “passou a ser método”, sendo plausível que a polarização informacional “sustente as restantes, moldando vontades e legitimando decisões”. E isto, postula “resposta política”, não só “técnica ou diplomática”, mas de “visão”, de “linguagem comum”, de “construção de legitimidade”. 
Este quadro, no dizer do economista e analista político, o próximo chefe de Estado “terá de reunir leitura lúcida do presente, projeção do futuro e autoridade moral, para falar para dentro e para fora do país, com credibilidade”; e, quase antecipando a vitória eleitoral de António José Seguro e tendo em conta que “há trajetórias que se distinguem pela densidade democrática, [pela] experiência institucional e [pela] cultura de responsabilidade”, entende que o então candidato “construiu um perfil assente na estabilidade, no respeito pelas instituições e na compreensão profunda dos equilíbrios do regime”, o que “é um ativo estratégico”. 
O analista político salienta que “a previsibilidade responsável, a contenção ponderada e a fidelidade ao quadro constitucional podem valer tanto como o carisma”, constituindo “a última linha de defesa da confiança coletiva”. E, considerando que “Portugal nunca foi refém da sua geografia” e que Fernando Pessoa escreveu que o homem “é do tamanho do seu sonho”, sentencia: “Um país não se mede pelos seus quilómetros. Mede-se pela qualidade das suas instituições, pela lucidez das suas escolhas e pela coragem com que enfrenta o Mundo tal como ele é. O próximo presidente não entrará num palco estável. Entrará numa travessia. E, desta vez, não basta manter o leme direito. É preciso saber para onde se navega.”

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Também Ana Bacelar Begonha, no artigo intitulado “Estabilidade, crise climática ou pacote laboral: os desafios do próximo Presidente”, publicado, a 8 de fevereiro, pelo jornal “Público”, considera que o candidato eleito “terá vários desafios pela frente”, como responder a fenómenos climáticos, de que são exemplo as tempestades, ou como decidir sobre as alterações às leis laborais. Porém, o artigo não se sustém em generalidades, antes especifica nove itens:
* “Garantir a estabilidade política”, seja, “evitar os pequenos ciclos políticos”. Neste sentido, o candidato apoiado pelo Partido Socialista (PS), entendendo que a rejeição da proposta governamental do Orçamento do Estado não justifica a dissolução do Parlamento, garante que tudo fará para evitar tal prerrogativa presidencial. Resta saber se, consideradas as matérias em que terá de puxar pelo governo, conseguirá sucesso pela via da negociação. Além disso, estabilidade governativa está longe de ser estabilidade política.
* “Lidar com polarização e [com] radicalismos”. Há, de facto, muitas situações de divergência radical dentro do Parlamento, incluindo linguagem insultuosa e a aproximação dos partidos que apoiam o governo a posições radicalistas do partido do Chega. E, fora do Parlamento, também estão a crescer estes radicalismos, a vários níveis, nomeadamente, contra supostos “socialistas” e contra imigrantes. Urge, pois que o chefe de Estado, seja capaz de apaziguar e de pontificar.
* “Responder à crise climática”. No país assolado por incêndios devastadores e por tempestades fortes e demoradas, o PR terá de agir no sentido de Portugal deixar de ser país surpreendido e passar a ser país preparado. Não sei se o inquilino do Palácio de Belém porá o governo a gastar somas astronómicas na substituição ou no reforço de infraestruturas e de edificações e na respetiva fiscalização.     
* “Promulgar ou vetar leis”. Está em causa o famigerado pacote laboral, que, a manter-se como está, os dois candidatos prometeram vetar. Porém, haverá situações igualmente penosas, podendo o Parlamento confirmar um diploma vetado. É de questionar o que fará o chefe de Estado, na iminência de tal acontecer ou se a maioria parlamentar de dois terços proceder a revisão constitucional de que resulte um texto diametralmente oposto ao atual, em matérias sensíveis.  
* Combater desigualdades”. Estas são múltiplas e a vários níveis: pobreza e pessoas sem-abrigo (duas chagas que o atual PR pretendeu combater, mas com exíguo sucesso); desigualdades para com as mulheres, nomeadamente, a nível salarial e de condições de trabalho; diferente acesso a educação de qualidade, a saúde, a tempo e horas, e a justiça, célere, equitativa e eficaz; e a habitação condigna. Terá António José Seguro mais sorte do que Marcelo Rebelo de Sousa?    
* “Áreas em crise: saúde, justiça e habitação”. É difícil o acesso ao Serviço Nacional de Saúde (SNS), designadamente, a consultas e a cirurgias; a justiça funciona a duas velocidades (célere, para uns; lenta, para outros), demasiado cara e, às vezes, a denotar agenda política; a habitação tornou-se mercadoria de luxo, por forma que nem a gente da classe média tem possibilidade de comprar ou de arrendar casa. Terá o candidato vencedor coragem e habilidade para inverter a situação, o que o governo, dotado de instrumentos legais e logísticos não pode ou não quer fazer?
* “Defesa e os empréstimos do SAFE [Instrumento de Ação para a Segurança da Europa]”. Dada a conjuntura internacional, é preciso investir mais na defesa. Porém, o novo PR, como aponta a colunista, “terá de posicionar-se sobre o investimento inédito de 5,8 mil milhões de euros” que o país realizará através de empréstimos do SAFE, “sem concurso público em sem o envolvimento do Parlamento”.
* A relação com o governo”. A cooperação institucional é importante, mas difícil, sobretudo, quando o PR e o primeiro-ministro são de famílias políticas divergentes. Segundo o atual inquilino do Palácio de Belém, Luís Montenegro é sigiloso e surpreendente. Assim, o presidente eleito terá de saber lidar com esta personalidade tão vincada (que tem sempre razão) e com ministros/as complicados, como o  ministro da Presidência (ou da Propaganda) e as ministras da Saúde e da Administração Interna.
* “Encontrar um estilo próprio”. É difícil suceder ao PR da proximidade e das selfies, mas que pôs em causa, publicamente, governantes, antecipou anúncios de dissoluções parlamentares e negociou, sem discrição, diplomas com o governo. Ora, o presidente eleito não deverá perder a proximidade de Marcelo Rebelo de Sousa, mas sem banalizar tal proximidade e a palavra pública, falando ao sair de qualquer esquina, de forma que a palavra presidencial tenha profundidade e eco, sobretudo em tempo de crise.  

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Acho interessante tais preocupações com os novos (?) desafios presidenciais, os quais, mutatis mutandis, se colocaram a todos os outros presidentes. Ramalho Eanes dissolveu o Parlamento, por três vezes; Mário Soares viveu com duas maiorias absolutas de um só partido que não morria de amores por ele e dissolveu o Parlamento contra a sua vontade; Jorge Sampaio viu dois governos caírem, por fuga dos respetivos líderes, e dissolveu o Parlamento em que havia maioria; Cavaco Silva enfrentou a maioria socrática e a troika; e Marcelo Rebelo de Sousa enfrentou a pandemia, o surto inflacionário e as sucessivas tempestades. E, em todos os mandatos, a situação internacional era de conflito.
Mesmo assim, os desafios são reais e pesarão na análise de António José Seguro.  

2026.03.08 – Louro de Carvalho


sábado, 7 de fevereiro de 2026

Haverá efeitos psicológicos decorrentes das tempestades em curso?

 

Depois das críticas generalizadas (sobretudo, da parte de autarcas) ao governo, à Autoridade Nacional de Proteção e Emergência Civil (ANEPC) e às operadoras de telecomunicações, o governo e o Presidente da República vieram para o terreno, não sem, antes, essa investida positiva junto das populações ter sido protagonizada pelos dois candidatos presidenciais, embora em estilos e em tons diferentes.
O primeiro-ministro, ao ver as populações deslocadas com a tempestade ‘Kristin’, resolveu convocar, de emergência, a 1 de fevereiro, ainda que tardiamente, o Conselho de Ministros e resolveu percorrer as zonas afetadas, tarefa em que tem persistido no contexto dos efeitos da tempestade ‘Leonardo’ e da tempestade ‘Marta’.
É óbvio que o chefe do governo tenta eclipsar as omissões e as inépcias dos seus ministros e fazer passar a mensagem de que o governo vem atuando como deve e como pode.
O Presidente da República, ao invés do que dissera, no início (que o governo agira a tempo), passou a dizer que o executivo chegou atrasado na resposta à crise, no que não teve resposta, e criticou as operadoras de telecomunicações, que reagiram, de imediato, sustentando que as críticas presidenciais são infundadas e injustas, assim  como revelam falta de sensibilidade ao trabalho em curso, muitas vezes, em circunstâncias penosas. Ao mesmo tempo, sugeriu a criação de uma comissão independente para avaliar as causas e a dimensão do flagelo, bem para formular conclusões que permitam ocasionar a ajustada aprendizagem com os acontecimentos.
Entretanto, a sociedade civil desencadeou uma enorme vaga de solidariedade em prol das populações que vivem nas zonas afetadas pelo temporal devastador.
O Conselho de Ministros, em reunião extraordinária de 1 de fevereiro, tomou as primeiras medidas necessárias para obviar à situação:
Aprovou a Resolução do Conselho de Ministros (RCM) que alargou, temporal e territorialmente, a situação de calamidade, declarada pela RCM n.º 15-B/2026, prolongando-a até às 23h59 de 8 de fevereiro; declarou a situação de calamidade para mais nove municípios; e mantém em vigor os efeitos, apoios e medidas previstos na RCM n.º 15-B/2026 e na Lei.
No âmbito da resposta à tempestade ‘Kristin’,
Aprovou o decreto-lei que estabelece as seguintes medidas excecionais e temporárias de apoio social às pessoas afetadas pelos danos, como subsídios de caráter eventual, de concessão única ou de manutenção, designadamente, subsídios eventuais ou excecionais de caráter pecuniário ou em espécie; apoios às instituições particulares de solidariedade social (IPSS) e equiparadas que tenham, designadamente, “a valência de residência para pessoas idosas, para crianças, para jovens, para pessoas com deficiência institucionalizadas, para pessoas sem-abrigo e para vítimas de violência doméstica; o regime temporário de isenção, total ou parcial, do pagamento de contribuições à segurança social (SS), não cumulável com outras medidas extraordinárias que assegurem o mesmo fim; o regime simplificado de redução ou suspensão de atividade em situação de crise empresarial; e apoios no domínio do emprego e da formação profissional aos trabalhadores dependentes e independentes, a conceder pelo Instituto do Emprego e da Formação Profissional, I P (IEFP, IP).
Aprovou a RCM que, ao abrigo da Lei de Bases da Proteção Civil, estabelece um significativo conjunto de medidas de apoio a pessoas, a empresas e a outras pessoas coletivas, e de recuperação dos danos gerados pela tempestade, nos concelhos em situação de calamidade.
Aprovou o decreto-lei que estabelece moratórias aos empréstimos bancários relativos a habitação própria e permanente e a empresas e a outras pessoas coletivas na área, em situação de calamidade.
Aprovou a RCM, que determina a criação de linhas de crédito pessoas e empresas afetadas pelos danos causados pela tempestade, a estabelecer no âmbito do Banco Português de Fomento.
Aprovou a criação do regime excecional de dispensa de controlos administrativos prévios das obras públicas e privadas de reconstrução de infraestruturas, de equipamentos e de edifícios afetados pela situação de calamidade.
Aprovou a criação da Estrutura de Missão para Reconstrução da região Centro do País, responsável pelo acompanhamento e pelo apoio à coordenação dos esforços de apoio às populações, empresas e autarquias afetadas pela tempestade, que ficará sediada em Leiria, para iniciar funções a 2 de fevereiro, sob coordenação do Eng.º Paulo Fernandes.

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Além da perda de vidas humanas, os efeitos da depressão ‘Kristin’ são, por enquanto, difíceis de contabilizar, mas vão dos estragos nas casas e em infraestruturas públicas ao impacto nas empresas, nos vencimentos dos trabalhadores e na quase anulação das colheitas, passando pelo abalo psicológico.
E o abalo psicológico, exceto nos casos de abalo imediato, ficará evidenciado mais tarde. Com efeito, atordoada pela destruição difundida pela comunicação social e pela Internet dos civis, a população que escapou à ‘Kristin’ tem-se desdobrado em ações de solidariedade, de donativos e de voluntariado, passando pela entrega de todo o tipo de bens. E o lado psicológico, por enquanto, a não ser em casos circunscritos, atinge as pessoas que estão em luto.
O pior será quando as pessoas começarem a sentir o isolamento: sem familiares, sem alguns vizinhos, sem os seus animais, sem os seus terrenos e com as suas casas “remendadas”. Neste sentido, Sofia Ramalho, bastonária da Ordem dos Psicólogos, sustenta que os próximos três meses serão “críticos”, pois, “só quando tudo estiver mais calmo, é que surgem os sintomas depressivos e o stresse pós-traumático”. A obviar à crise, anunciou a promessa da Ordem de disponibilizar profissionais especializados, para prestarem apoio na próxima fase.
A este respeito, penso na conveniência da releitura da entrevista da bastonária à jornalista do Expresso, Joana Pereira Bastos, publicada a 3 de fevereiro.
Sofia Ramalho diz, efetivamente, que “os próximos três meses são críticos”, no atinente à saúde mental das populações mais afetadas, pois, só quando a normalidade começar a ser reposta, surgirão os típico “sintomas depressivos e o stresse pós-traumático”. Por isso, a Ordem tem uma bolsa de profissionais especializados neste tipo de intervenção que será acionada pela Proteção Civil, para dar apoio psicológico, na próxima fase, que será a “mais delicada”.
Considera que, nesta fase, as pessoas estão concentradas na salvaguarda da integridade física, na proteção e na segurança dos bens, como foco na resposta à catástrofe, em conjunto com a comunidade, para reporem “níveis mínimos de normalidade nas suas vidas”. Todavia, algumas podem ter reações mais agudas de stresse e de ansiedade, que precisam de intervenção imediata.
Na ótica da bastonária, a ansiedade gera sintomas físicos, como palpitações, taquicardias, dificuldades no sono e visualização de imagens traumáticas dos últimos dias, o que pode colocar em causa a estabilidade da pessoa, tornando-a “mais inativa e sem reação”.
Isto afeta, principalmente, idosos e crianças. Os primeiros, porque não sentem capacidade física para estarem junto da população e das autoridades a intervir, sendo colocados, não raro, em segurança em espaços próprios; e as crianças sentem os pais ou cuidadores mais focados na proteção e na segurança das famílias e dos bens, recebendo elas “pouca informação e pouco suporte emocional, para poderem lidar com esta situação”. 
Sofia Ramalho diz que está disponível “uma resposta para intervenção psicológica de emergência na comunidade”, incluindo o Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM). E a Ordem dos Psicólogos tem uma bolsa com cerca de 2500 psicólogos com formação específica, para intervir em situação de catástrofe, disponível para a aplicação de primeiros socorros psicológicos, apoiando vítimas, familiares e profissionais que estão no terreno.
No entanto, a sua ativação depende da solicitação da ANEPC, em função das necessidades manifestadas pelas autarquias. É acionada quando os recursos da comunidade já não são suficientes e é preciso reforço especializado. Até aqui, o trabalho tem sido feito pelos psicólogos que integram as equipas de apoio psicossocial dos municípios.
Nos próximos três meses, pode emergir mais sintomatologia e stresse pós-traumático. No contexto de catástrofe, muitas pessoas viveram situações-limite, achando que iam morrer ou que perderiam as pessoas mais queridas. Agora, estão focadas na resposta às necessidades imediatas, mas, reposto um mínimo de normalidade, surgirão as consequências de médio e de longo prazo, ao confrontarem-se com o rescaldo da situação e com as perdas que foram vividas. Então, faz-se sentir “todo o desgaste emocional” e “a fadiga da compaixão”, que é o sofrimento que advém do que se viveu e do sofrimento de outras pessoas da comunidade, porque, nas zonas afetadas, todos conhecem “alguém que foi afetado de forma mais dramática”.
A bastonária também especificou o que nunca se deve fazer, ao apoiar, psicologicamente, uma vítima, nesta fase. Desde logo, nunca se deve dizer à pessoa em stresse agudo para ter calma, porque “isso gera ainda mais ansiedade”. Esta pessoa precisa de espaço para que possa “viver essa ansiedade e exteriorizar” o que sente. Ao dizer “tenha calma”, damos um sinal “contraditório, face à experiência de sofrimento da pessoa, que assim se sente incompreendida”. Ao invés, devemos estar presentes, para a escutarmos, para percebemos o que sente e para avaliarmos se precisa de “intervenção mais aprofundada”.
Sobre o que ajuda a recuperação emocional das pessoas e o desenvolvimento da sua resiliência, Sofia Ramalho, salienta o papel das redes de apoio, porque “a saúde psicológica da pessoa não se consegue assegurar, isoladamente. É fundamental trabalhar a literacia em saúde psicológica para que as pessoa perceba quando apresenta sinais de alarme que requerem ajuda psicológica, bem como é preciso garantir às populações informação clara sobre o que vai acontecer, as ajudas disponíveis, os prazos para o restabelecimento da normalidade, etc. Por outro lado, na ótica da bastonária, “é importante que as intervenções não sejam apenas pontuais, mas que a resposta seja organizada e continuada no tempo.
Por fim, Sofia Ramalho julga que é possível preparar, psicologicamente, populações que vivem em zonas de risco para futuras catástrofes, trabalhando a sua capacidade de resiliência. Para tanto, importa ajudá-las a desenvolver “competências sociais e emocionais, em programas desenvolvidos, desde a escola, sobretudo, nas populações que vivem em zonas de maior risco e que são habitualmente mais fustigadas”.

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Na vigência da tempestade ‘Leonardo’ e na iminência do surgimento da tempestade ‘Marta’, o Conselho de Ministros, em reunião ordinária de 5 de fevereiro, tomou medidas consentâneas com a situação de cheias, de vendavais, de saturação de solos e de mais destruição.
Assim, aprovou a RCM que prorroga a declaração de calamidade até às 23h59 de 15 de fevereiro de 2026, decorrente da tempestade ‘Kristin’.
E, na sequência dos efeitos dessa tempestade e dos fenómenos hidrológicos subsequentes, com danos extensos em habitações, em infraestruturas públicas e privadas, em equipamentos coletivos e no património natural e cultural, e com perturbações significativas na normalidade da vida e nas atividades económicas das populações afetadas, impõe-se a criação de um regime jurídico temporário, que permita apoiar as famílias, as empresas e as instituições da economia social, assegurando a recuperação e a revitalização das áreas atingidas. Assim, foram aprovados os seguintes diplomas:
A proposta de lei que define o regime jurídico excecional de simplificação administrativa e financeira, para viabilizar a reconstrução, a reabilitação e a reposição da normalidade, nas áreas afetadas;
O decreto-lei que estabelece medidas extraordinárias, para acelerar e para simplificar procedimentos administrativos, bem como para viabilizar intervenções urgentes, nos domínios do urbanismo, do ambiente e do ordenamento do território;
A proposta de lei que aprova o regime excecional de aplicação do regime das férias judiciais, com consequente suspensão de prazos, à prática de atos no âmbito dos processos que tramitam nos tribunais e equiparados e nos serviços do Ministério Público (MP), localizados nas zonas abrangidas pela declaração de situação calamidade; 
O decreto-lei que estabelece o regime excecional de isenção do pagamento de taxas de portagens para os veículos cuja circulação tenha como origem ou destino alguns nós de autoestrada;
A RCM que ratifica a deliberação da Assembleia Municipal de Leiria que aprovou a criação da Polícia Municipal de Leiria e o respetivo Regulamento;
O decreto-lei que reforça e alarga o âmbito de intervenção do Fundo de Contragarantia Mútuo (FCGM), permitindo a sua utilização em operações de maior relevância estratégica e o apoio a um conjunto mais amplo de entidades;
E a RCM que aprova o Plano Nacional de Qualificações do Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais (PNQ_SGIFR) para o período 2025-2030.

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Agora, que a furibunda tempestade ‘Marta’ está a agravar a situação, a ponto de se consolidar a ideia de que o país carece de verdadeira reconstrução global, parece que o governo anda mais ativo, como é seu dever. O Presidente da República, em dia de reflexão pré-eleitoral, falou ao país a mostrar compreensão e proximidade junto das pessoas que sofrem os efeitos gravosos da severa e continuada intempérie, a agradecer-lhes a coragem e a resiliência, a agradecer o trabalho solidário e as ajudas materiais e imateriais de todos. Ao mesmo tempo, lançou veemente apelo à comparência do eleitorado nas urnas, a 8 de fevereiro, comparando com o tempo de pandemia (em 2021, em estado de emergência), em que também houve eleições. E justificou, dizendo que votar é resiliência, liberdade, edificação do futuro, democracia, Portugal.     
Entretanto, não esquecemos que dois governantes responsáveis pela pasta da Administração Interna, no pico da crise, quando se contabilizavam as primeiras vítimas mortais, estiveram numa cerimónia protocolar de entrega de espadas a militares da Guarda Nacional Republicana (GNR), no Quartel do Carmo, e um dos governantes não se esqueceu de se apresentar aos militantes do seu partido como candidato à presidência de uma das suas distritais.   
Por outro lado, a intempérie prossegue, as eleições foram adiadas em várias freguesias e a vida tem de continuar. A comunidade não pode parar, nem estiolar. Tem de vencer a crise.  
Não obstante, pergunto: Da  crise não resultarão efeitos psicológicos para governados e até para governantes (alguns parece que nem sabem onde se hão de meter)?

2026.03.07 – Louro de Carvalho

Répteis congelados caem do “céu” na Florida, neste inverno

 

Atualmente, em consequência de um dos invernos mais rigorosos, algumas regiões da Florida, um estado norte-americano da Florida normalmente ensolarado, apresentam temperaturas apenas um pouco acima de zero, descendo as temperaturas locais abaixo de zero, durante a noite. Situação tão excecional permitiu ver, em Tampa Bay, flocos de neve, pela primeira vez, em mais de uma década.
Efetivamente, a Florida está a passar por períodos de temperaturas muito baixas, tão frias que o “Sunshine State” (estado ensolarado) nem faz jus ao seu nome, o que tem forte impacto sobre as iguanas que migraram para lá, em especial, as numerosas iguanas verdes da Florida. Estes répteis tropicais, porque não geram o seu próprio calor corporal, dependem do calor do exterior. Logo que o termómetro desce abaixo dos dez graus Celsius (10º C), ficam letárgicos. Se a temperatura desce abaixo dos 5º C a 7º C, entram em estado de rigidez. Se ficarem neste estado sobre as árvores, perdem aderência e caem no chão. Vários meios de comunicação social exibiram animais caídos, imóveis, em ruas, em passeios e em jardins.
Houve pessoas feridas por iguanas caídas de árvores, mas a Florida não contabiliza números oficiais. Estes lagartos verdes crescem até dois metros de comprimento e pesam até nove quilos.
As iguanas verdes, originárias da América Central e do Sul, tornaram-se, desde os anos 60, espécie invasora nos subúrbios de Miami, de Fort Lauderdale e de Palm Beach, estimando-se que o tenha aumentado o número, até atingir um milhão de animais. Reconhecidas como um problema na Florida, constam na lista de espécies invasoras particularmente nocivas, ocupando barragens e margens de rios, destruindo jardins e infraestruturas e causando cortes de energia.
A Florida Fish and Wildlife Conservation Commission (FWC), autoridade de proteção ambiental, recomenda aos Texanos que, por segurança, removam as iguanas mortas das suas propriedades com equipamento de proteção adequado e que levem os animais em sacos respiráveis a pontos de recolha oficialmente estabelecidos, para serem abatidos, “com humanidade”, por especialistas. Contudo, há quem prefira comê-los ao almoço. De facto, nas Caraíbas, onde as iguanas também são nativas, chamam-lhes “pollos de los árboles”, isto é, “galinhas das árvores”.
Enfim, as iguanas não caem do céu, mas de árvores ou de estruturas aéreas.

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Já em junho de 2025, os especialistas viam a possibilidade de ondas de frio ártico, podendo um vórtice (movimento rápido, intenso e circular) polar mais fraco do que o normal trazer um inverno muito rigoroso para a Alemanha, com as temperaturas muito baixas, após o Natal.
A última vez que um padrão climático meridional levou a um inverno do século, na Alemanha, foi em 1978/79, com as pessoas a sofrerem fortes nevascas, tempestades de neve e temperaturas excecionalmente baixas. Os modelos meteorológicos indicavam um cenário, geralmente ameno, para os dias próximos ado Natal, mas com significativas exceções.
O modelo de longo prazo do Centro Meteorológico Europeu também indicava um arrefecimento, mas apenas após os feriados de inverno. Apenas o Centro de Previsão Climática da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos da América (NOAA) previa temperaturas médias bastante mais altas. Porém, essa média era fortemente influenciada pelas duas semanas subsequentes, o que não contradizia um possível arrefecimento.
A situação era indefinida. Para janeiro, os especialistas apontavam para tendências variáveis ​​e relativamente amenas, com pouco inverno e com muito cinza. O modelo da NOAA seguia a mesma trajetória, embora os seus cálculos oscilassem, nos últimos tempos. E os modelos do Sistema Europeu de Informação sobre Incêndios Florestais (EFFIS) previam um janeiro ligeiramente mais frio e seco do que as médias de longo prazo.
Efetivamente, o verão e o início do outono foram extremamente quentes e os incêndios assolaram a Europa do Sul, mas o inverno foi muito frio, ventoso, chuvoso, com neve e com granizo. Neste sentido, os meteorologistas parece terem-se enganado. Não obstante, como as condições meteorológicas observáveis indicavam alta pressão estável sobre a Europa Central, admitiam que a alta pressão, em janeiro, fosse enganosa: durante o dia, tudo tranquilo, mas o nevoeiro e o resfriamento levariam ao rápido congelamento do permafrost e à formação de geadas. E é de considerar o fator do vórtice polar, sobretudo, no auge do inverno, quando tende a causar perturbações que direcionam o ar frio do Ártico para a Europa. Embora nenhum modelo mostre colapso iminente do vórtice polar, as tendências de alta pressão concordam com esse cenário.
O Centro da NOAA também confirmou, para 2025 e para 2026, a presença do fenómeno La Niña, com previsão de persistência até dezembro de 2025 – fevereiro de 2026. Ora, La Niña, que provoca temperaturas mais baixas do que o normal, na Europa Ocidental, faz parte de um ciclo climático natural e ocorre quando as temperaturas da superfície do mar, no Pacífico central e oriental, caem abaixo da média. Porém, assim como El Niño, pode causar eventos climáticos extremos em todo o Mundo, mas é o oposto da fase quente do El Niño.
Tanto La Niña como El Niño podem ter efeitos de longo alcance nos padrões climáticos globais, inclusive na Europa, mas quanto mais distante um local estiver do Oceano Pacífico, mais fortes podem ser esses efeitos. E, em geral, La Niña também traz condições mais húmidas e frias para os Alpes, o que pode resultar em nevascas mais frequentes e intensas, o que seria uma boa notícia para os esquiadores.

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Em três dias da primeira semana inteira de janeiro, milhares de turistas ficaram retidos no Norte da Finlândia, após os voos, no aeroporto de Kittilä, terem sido cancelados, devido ao frio extremo.
Ora, este país nórdico, muito conhecido pela experiência a lidar com o clima de inverno, regista perturbações no tráfego aéreo muito menos frequentes do que outras nações europeias mais a Sul, sustentando os seus especialistas em aviação que deixar aviões em terra é mais complexo do que limpar uma pista coberta de neve e gelo. Assim, na Finlândia, as quedas de temperatura e a neve intensa são rotina, no inverno, pelo que os seus aeroportos têm programas de manutenção bem definidos. Por exemplo, o aeroporto de Helsínquia faz manutenção diária e remoção direcionada de neve.
De acordo com Anssi Väisänen, gestor de operações de plataforma da Finavia, no aeroporto da capital finlandesa, a expressão “remoção direcionada de neve” refere-se ao modelo operacional para dias de queda anormal de neve nas plataformas de estacionamento das aeronaves. O plano de estacionamento é elaborado, cerca de 12 horas antes, de modo a haver várias posições de estacionamento vagas na plataforma, lado a lado, o que, na perspetiva do referido gestor, permite às equipas de manutenção concentrarem recursos e limparem a área com as máquinas, podendo, a seguir, iniciar-se o processo de escala das aeronaves.
As posições de estacionamento de aeronaves são libertadas por secções para as equipas de manutenção varrerem e limparem, de uma só vez, a maior área possível.
Também têm de ficar livres de neve as pistas e as vias de circulação. No aeroporto de Helsínquia, está pronta para limpar as três pistas uma frota de 200 veículos e máquinas, dos limpa-neves aos pulverizadores de químicos. Os gigantes desta frota são os varredores-sopradores Vammas PSB 5500, máquinas de 31 toneladas que limpam uma faixa de 5,5 metros de pista em 11 minutos, graças à combinação de funcionalidades de remoção de neve.
Os varredores-sopradores limpam neve, até durante 800 horas, no inverno, segundo Pyry Pennanen, responsável pela manutenção do aeródromo da Finavia no aeroporto de Helsínquia. A maquinaria é operada por 135 técnicos de manutenção qualificados e formados, dos quais 75 são recrutados apenas para trabalharem na época de inverno.
Em Helsínquia, a janela para limpar as pistas, de 3500 metros de comprimento por 60 de largura, é de 13 minutos. Porém, o tempo de limpeza das pistas pode ser reduzido para 11 minutos, com a ajuda de agentes anticongelantes e de padrões de varrimento cuidadosamente planeados e ensaiados para a remoção de neve. E, enquanto uma das três pistas é limpa, as outras duas mantêm-se operacionais.
Também aeroportos mais a Norte, para lá do Círculo Polar Ártico, raramente fecham, por causa do tempo de inverno. No aeroporto de Ivalo, o episódio mais recente de temperaturas extremas, em 2023, levou o termómetro aos 35º C negativos. Mesmo assim, o aeroporto cancelou apenas um voo, mantendo todas as restantes operações normais. E, no aeroporto de Kittilä, a temperatura desceu aos 37 º C negativos, a 11 de janeiro, após vários dias de frio semelhante. Todavia, as operações ficaram muito mais gravemente afetadas do que em Ivalo.
Efetivamente, quando neve e gelo chegam em simultâneo, os recursos são levados ao limite. O maior problema, no dia do cancelamento, foi a camada de gelo no exterior das aeronaves, capaz de congelar componentes mecânicos e os flaps das asas.
Os flaps são dispositivos de alta sustentação usados para reduzirem a velocidade de estol da asa da aeronave (aumento excessivo do ângulo de ataque, ou seja, inclinação da asa, em relação ao vento relativo) para um determinado peso. São, geralmente, montados nas bordas de fuga das asas de aeronaves de asa fixa e são usados ​​para reduzirem a distância de descolagem da distância de pouso. Todavia, como causam aumento no arrasto, são recolhidos, quando não são necessários.
Ora, como referiu ao jornal neerlandês “De Telegraaf” Joris Melkert, docente de engenharia aeroespacial na Universidade de Tecnologia de Delft, “é extremamente perigoso voar com gelo nas asas”, pois o fluxo de ar em redor da asa é perturbado” e leva o avião a entrar em perda e a cair. Para evitar isto, primeiro, é necessário removido o gelo com água quente e, depois, a aeronave tem de ser pulverizada com uma camada de anticongelante, o que demora entre 10 e 30 minutos. Contudo, em geadas severas, mas secas, pode não ser necessário o degelo, pois, quando há humidade no ar, é que a necessidade de degelo aumenta, disse um porta-voz da Finavia, que gere a rede de aeroportos da Finlândia.
Assim, de acordo com a mesma fonte, “devido às condições extremamente desafiantes, as companhias foram obrigadas a cancelar voos para Kittilä na sexta-feira, no sábado e no domingo”. E a Finavia disse à emissora pública Yle que conectores de equipamento de apoio em terra e portinholas de veículos congelaram durante o abastecimento, impossibilitando o degelo.
Em contraponto com Helsínquia, no início de janeiro, o aeroporto de Schiphol, em Amesterdão, nos Países Baixos, cancelou mais de três mil voos, com a chegada do frio extremo. Nevascas intensas, temperaturas negativas e ventos fortes provocaram a interrupção de operações, naquele aeroporto internacional, mas foi o degelo das aeronaves que bloqueou as operações.
O fator do cancelamento de voos foi a drástica redução dos estoques de anticongelante utilizado no degelo de asas e nas fuselagens antes da descolagem. O produto, composto por água aquecida e glicol, é essencial para operações seguras em condições de neve de gelo. Segundo o “De Telegraaf”, Schiphol não procedeu a instalações de degelo, em todas as pistas, devido ao custo, obrigando os aviões a taxiar por mais tempo e criando estrangulamentos, em caso de mau tempo.
Não é, pois, só Portugal a poupar na farinha para gastar no farelo.
Por outro lado, as prolongadas condições de gelo pressionaram a operadora KLM Royal Dutch Airlines, a companhia aérea nacional dos Países Baixos, com sede na cidade de Amstelveen. Cem funcionários e 25 camiões estão dedicados às operações de degelo, e todos foram mobilizados, durante a semana de temperaturas extremas.
Ao fim de alguns dias de uso contínuo, o stock de fluido de degelo começou a escassear, disse a companhia neerlandesa, obrigando ao cancelamento de mais voos.
A KLM enviou funcionários à Alemanha para recolher stock adicional (mais de cem mil litros de fluido), o que permitiu retomar gradualmente as operações após alguns dias. “Este efeito dominó faz Schipol parar, por completo, em dias como estes, com neve. Somos alvo de gozo na Europa”, disse ao “De Telegraaf” um funcionário da KLM, sob anonimato.

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Devido ao Ártico em aquecimento, os EUA e a Europa de Leste enfrentaram, em janeiro, frio excecional. Os meteorologistas atribuem essa perigosa onda de frio invernal a um vórtice polar alongado, à humidade e à falta de gelo marinho.
Águas quentes do Ártico e a terra continental fria conjugam-se a alongar o vórtice polar, de modo a trazer a grande parte dos EUA uma dose devastadora de tempo invernal. O país sofreu faixas de temperaturas muito abaixo de zero, neve intensa e gelo que derrubou linhas elétricas. Com efeito, os dois terços orientais do país estão ameaçados por uma tempestade de inverno que pode rivalizar, em danos, com um grande furacão e tem parte da sua origem num Ártico a aquecer, devido às alterações climáticas. Os meteorologistas alertavam que o frio extremo se prolongaria pelo resto de janeiro e pelo início de fevereiro, demorando a derreter a neve e o gelo acumulados. “Creio que as pessoas estão a subestimar o quão grave isto vai ser”, disse Ryan Maue, ex-cientista-chefe da NOAA e, agora, meteorologista independente.
O vórtice polar, bolsa de ar muito frio que fica, muitas vezes, retida no Norte do Canadá e no Alasca, é alongado por uma ondulação na alta atmosfera que remonta a uma zona  ártica, relativamente sem gelo. Quando as temperaturas gélidas atravessam os EUA, encontram humidade ao largo da Califórnia e do Golfo do México, criando gelo e neve paralisantes, em muitas zonas. A origem do sistema está no Ártico, onde temperaturas mais quentes acrescentam energia ao vórtice polar e empurram o ar frio para Sul. Da Europa de Leste à Sibéria, a massa terrestre está muito fria. Todo o hemisfério entrou numa vaga de frio extremo.
Já em outubro de 2025, alterações no Ártico e a baixa extensão de gelo marinho criavam condições para o tipo de vórtice polar alongado que inverno severo aos EUA e à Europa do Norte e à Europa de Leste. E quedas de neve intensas, na Sibéria, acrescentaram-se ao jogo de forças meteorológicas que deforma a forma do padrão de ar normalmente quase circular. Tais condições viciaram o jogo a favor do alongamento do vórtice polar. Ora, a muito baixa cobertura de gelo marinho, nos mares de Barents e de Kara, no Ártico, ajuda a configurar um padrão de ondas que provoca surtos de frio nos EUA. Um Ártico mais quente está a fazer o gelo marinho nessa região encolher mais depressa do que noutras.

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Há potencial para acumulações de gelo com impacto, que pode provocar cortes significativos ou generalizados de eletricidade e danos relevantes em árvores. Não havendo gelo, pode haver outra faixa significativa de neve intensa. Na Península Ibérica, além de fortes e prolongados nevões, os ventos, as chuvas fortes e o granizo deixam um generalizado lastro de destruição, panorama que se espera que cesse e que seja remediado.

2026.02.06 – Louro de Carvalho


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

UE insta setor espacial a acelerar medidas de segurança e de resiliência


Realizou-se, a 27 e 28 de janeiro, no Centro de Convenções Square, em Bruxelas, a 18.ª Conferência Europeia do Espaço, focada na autonomia, na segurança, na defesa e na competitividade do setor espacial europeu, que reuniu líderes da Agência Espacial Europeia (ESA), a Comissão Europeia, estados-membros, a indústria, atores da defesa, inovadores e investidores, para debaterem orçamentos recorde, a constelação IRIS2 e novas estratégias.

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É de recordar que a Comissão Europeia celebrou, a 16 de dezembro de 2024, o contrato de concessão para a Infraestrutura para Resiliência, Interconectividade e Segurança por Satélite (IRIS²), constelação multiorbital de 290 satélites, com o consórcio SpaceRISE, devendo esta parceria-público-privada desenvolver, implantar e operar o novo sistema da União Europeia (UE). Trata-se de significativo passo, rumo à soberania e à conectividade segura da Europa, pois, com o desenvolvimento de um sistema de conectividade de última geração, a Europa oferecerá capacidades de comunicação aprimoradas, para usuários governamentais e empresariais.
O sistema dará suporte a ampla variedade de aplicações governamentais, principalmente, nas áreas de vigilância, como a vigilância de fronteiras e marítima; na gestão de crises, como pela ajuda humanitária; na conexão e na proteção de infraestruturas essenciais, como pelas comunicações seguras para embaixadas da UE; e na segurança e na defesa, como emergências marítimas, mobilização de forças, ações externas da UE, intervenções policiais. O sistema viabilizará também grande número de aplicações comerciais, como no setor de transportes (marítimo, ferroviário, aéreo e automotivo), na gestão inteligente de redes de energia, no setor bancário, nas atividades industriais no exterior, na telemedicina e na conectividade rural (retrotransporte de dados), assim como possibilitará aplicações para o mercado de massa, incluindo o acesso, via satélite, de banda larga móvel e fixa, o roteamento, via satélite, para serviços B2B, o acesso, via satélite, para transporte, as redes reforçadas por satélite e os serviços de banda larga e nuvem, via satélite.
Com tecnologias disruptivas, incluindo os padrões 5G, o sistema de conectividade segura multiorbital da UE garantirá a disponibilidade, a longo prazo, de serviços de conectividade, via satélite, confiáveis, seguros e economicamente viáveis, ​​à escala global, permitindo o desenvolvimento de banda larga de alta velocidade e a conectividade contínua em toda a UE, eliminando zonas sem conectividade e aumentando a coesão entre os estados-membros, além de possibilitar a conectividade em áreas geográficas de interesse estratégico fora da União, como o Ártico e a África. Isso incentivará a implantação de tecnologias inovadoras e disruptivas e novos modelos de negócios, aproveitando, em particular, o ecossistema do “Novo Espaço”. 
À medida que a conectividade global, via satélite, se torna, rapidamente, um ativo estratégico para a segurança, para a proteção e para a resiliência, urge a necessidade de a UE agir para assegurar o acesso irrestrito e sem dependência de terceiros.
À implementação do IRIS 2  seguiu-se uma abordagem incremental, com os serviços governamentais iniciais fornecidos por meio da capacidade de satélite existente, pertença dos estados-membros, reunida e compartilhada, já em 2025, através do Governmental Satellite Communications (GOVSATCOM), componente do Programa Espacial da UE que fornece serviços de comunicações, via satélite, seguros, fiáveis e rendíveis a organismos governamentais, a forças de segurança e a missões críticas. E os serviços completos de conectividade, via satélite, do IRIS², baseados em infraestrutura de propriedade da UE, serão entregues até 2030. 
Espera-se papel importante do setor privado. O contrato de concessão oferece uma otimização de custos e o compartilhamento dos riscos de projeto, de desenvolvimento e de implantação, assim como garante a disponibilidade de serviços governamentais, cria ambiente favorável ao desenvolvimento de soluções inovadoras, principalmente, por meio do envolvimento de atores do ecossistema do “Novo Espaço”. 
A Comissão assegura rigorosas supervisão e prática do contrato, baseando-se no papel e na missão dos parceiros de confiança: a ESA, para as atividades de desenvolvimento e de implementação, e a Agência da União Europeia para o Programa Espacial (EUPSA), para a prestação de serviços governamentais. Tal supervisão é realizada por uma equipa integrada do programa, composta, principalmente, por especialistas da Comissão e da ESA.
O projeto IRIS 2  apoia o crescimento económico e social da UE e promove a coesão social, através da redução da exclusão digital. Apoiando-se em padrões 5G compatíveis com a sua evolução futura e em criptografia e em cibersegurança de nível governamental, através de uma abordagem de segurança integrada na infraestrutura, o sistema proporcionará aos usuários um nível de segurança sem precedentes. E, integrando tecnologias inovadoras, derivadas de empresas consolidadas da indústria espacial, com tecnologia comprovada, e do ecossistema disruptivo do “Novo Espaço”, oferecerá capacidade de escalabilidade para necessidades futuras, graças a uma abordagem multiorbital (baixa e média).
Por fim, espera-se que as cargas úteis dedicadas a bordo do sistema melhorem e expandam as capacidades e os serviços de outros componentes do Programa Espacial da UE.

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Voltando à 18.ª Conferência Europeia do Espaço, sob o lema “Concretizando a ambição espacial da Europa: soberania, segurança e transformação industrial”, é de salientar que a edição deste ano marcou um ponto de viragem para o ecossistema espacial da UE. Com a presença ainda mais forte de ministros e de agências nacionais, juntamente com as instituições da UE, a conferência demonstrou a capacidade de a Europa se unir, de alinhar prioridades e de alcançar resultados. Através de discussões sobre competitividade, sobre segurança, sobre sustentabilidade, sobre inovação e sobre investimento, ficou claro que a Europa está a entrar num momento estratégico novo, que moldará as suas capacidades para a próxima década. Por conseguinte, olhando o futuro, a UE continuará a aproveitar o impulso, através de novas atividades lançadas no âmbito do Centro Europeu da Conferência Espacial, criando mais oportunidades para a comunidade espacial europeia se conectar, colaborar e avançar em conjunto.
A este respeito, Jeremy Wilks, em artigo intitulado “UE insta setor espacial a acelerar medidas de segurança: 5 pontos da Conferência Europeia do Espaço”, publicado pela Euronews, a 28 de janeiro, explica tudo, desde logo, a categórica declaração dos líderes na Conferência Espacial Europeia: Acabou a retórica ambiciosa: 2026 tem de ser o ano em que a Europa cumpre, finalmente, as promessas espaciais.” 
Depois, o colunista aborda as cinco principais mensagens da conferência: destaque para a segurança; prazos apertados para o IRIS2; coligação de gigantes espaciais no Projeto Bromo; antecipação de tempestades, antes de elas chegarem; e espaço que se mantém inspirador,
As operações espaciais civis foram evitando os laços com o domínio militar, o que já não é o caso. Assim, o comissário europeu para a Defesa e o Espaço, Andrius Kubilius, alertou, no discurso de abertura, que os conflitos na Europa e as tensões geopolíticas levam “os estados-membros a  recear que a guerra esteja a caminho” e que só a unidade pode defender a UE e dissuadir. 
Apontou o novo serviço de navegação cifrada e segura dos satélites Galileo da UE e o lançamento, na semana anterior, do GOVSATCOM, um sistema soberano de comunicações por satélite que recorre a equipamento espacial europeu já existente.
Para muitos profissionais do espaço, falar de dupla utilização é reflexo bem-vindo da realidade do setor. O CEO da Arianespace, David Cavaillolès, refere que a maioria dos satélites lançados é de dupla utilização, quer no atinente a telecomunicações e a observação da Terra, quer no atinente a posicionamento, podendo ter usos civis e militares.
O diretor-geral ESA, Josef Aschbacher, criticou os estados europeus que atuam, isoladamente, na segurança espacial, o que os enfraquece. Ora,  a ESA promove a European Resilience from Space (ERS) que permite, na ótica de Josef Aschbacher, “aos estados-membros manterem o controlo e a propriedade plenos dos seus ativos nacionais, agrupar e partilhar com outros e, assim, permitir que a Europa beneficie de um sistema de sistemas integrado”.
Nem todos confiam nas perspetivas do setor, apesar do afluxo recorde de financiamento público ao espaço, por parte de governos e de instituições europeias, no último ano. Por isso, precisa-se de mais contratos públicos e de melhor visibilidade de longo prazo. E novos protagonistas, como a búlgara Endurosat, continuam dependentes de capital de risco norte-americano para crescerem.
A nova constelação de conectividade segura RIS2 da Europa avança em ritmo acelerado. E Andrius Kubilius pediu a todos os parceiros que “reforçassem e acelerassem”, com 2029, agora, apontado para serviços iniciais, embora alguns suspeitem de deslize para 2030.
Membros do consórcio Space Consortium for a Resilient, Interconnected and Secure Europe (SpaceRise), encarregado de construir e de operar esta frota de 290 satélites, têm dúvidas sobre o projeto, admitindo que, por vezes, há “demasiados cozinheiros na cozinha”. Fabricar terminais terrestres e assegurar componentes críticos dos satélites continua no topo das preocupações. Não obstante, segundo Jeremy Wilks, a construção pode arrancar, neste ano, admitindo os responsáveis que os primeiros satélites IRIS2 poderão ser lançados com capacidades limitadas e receber melhorias iterativas, ao longo da década de 2030.
Embora os clientes na Comissão Europeia estejam empenhados no IRIS2, foi questionado o racional comercial, com operadores de telecomunicações a dizerem, na conferência, que comprarão largura de banda a concorrentes como a Starlink, serviço de Internet, via satélite, de alta velocidade e baixa latência, desenvolvido pela SpaceX, de Elon Musk. Por outro lado, o projeto enfrenta a concorrência da recém-anunciada constelação TeraWave da Blue Origin, que visa os mesmos clientes institucionais e empresariais. Contudo, o CEO da Hispasat, Luis Mayo, e o CEO da SES, Adel Al-Saleh, veem no desenho multiórbita semelhante do concorrente norte-americano uma validação da sua abordagem. 
O Projeto Bromo, nome de código para a fusão dos pesos pesados Airbus Defence and Space, Thales Alenia Space e Leonardo, recebeu acolhimento positivo na conferência. Na verdade, esta “bromance”, no dizer do articulista, “faz sentido empresarial”, se a Europa quer competir com os Estados Unidos da América (EUA) e com a China.
O diretor do European Space Policy Insitute, Hermann Ludwig Moeller, acha normal “consolidar, tentar otimizar horizontalmente, ser mais eficaz, talvez organizar melhor a força de trabalho” mas admite que o Projeto Bromo pode travar a vontade do setor de criar start-ups e de incentivar pequenas e médias empresas (PME).
Já o vice-presidente da finlandesa IceEye, Joost Elstak, considera “globalmente positivo”, do ponto de vista europeu, que a UE se torne mais competitiva e garanta que a indústria consegue competir à escala global.
Também a previsão de tempestades intensas e violentas poderá tornar-se mais precisa, já neste ano, à medida que os serviços meteorológicos integrem imagens do novo satélite MTG-S1 da Organização Europeia para a Exploração de Satélites Meteorológico (EUMETSAT), organização intergovernamental baseada em Darmstadt, na Alemanha, responsável pelo desenvolvimento, pela operação e pelo fornecimento de dados de satélites meteorológicos a 30 estados-membros. Monitoriza o tempo, clima e ambiente 24/7 (24 horas por dia, em 7 dias, por semana), apoiando previsões meteorológicas essenciais. 
Foram reveladas, em Bruxelas, as primeiras imagens desta pioneira sonda de infravermelhos, que mostram como a temperatura, a humidade e a composição da atmosfera evoluem a diferentes altitudes. O instrumento observa, em simultâneo, quase dois mil comprimentos de onda, em todo o espectro do infravermelho.
O diretor-geral da EUMETSAT, Phil Evans, enfatiza que “o que a imagem fornecerá é informação, em quatro dimensões, sobre a atmosfera”, isto é, disponibiliza informação ao longo do perfil da atmosfera, à medida que evolui no tempo. É uma estreia europeia. A primeira imagem foi captada em novembro de 2025, a partir de uma órbita geoestacionária, 36 mil quilómetros acima do equador, mostrando faixas de vapor de água a atravessar o Atlântico, variações acentuadas de temperatura no Saara, topos de trovoadas e plumas de fontes de poluição, como fábricas de fertilizantes.
Finalmente, é de frisar que a Conferência  concluiu que, apesar do foco na segurança e na competitividade europeia, as missões espaciais continuam a inspirar quem trabalha no setor. Assim, Joost Elstak, da IceEye, lembra reuniões com engenheiros da missão JUICE da ESA às luas geladas de Júpiter, “a falar sobre como a transferência de Vénus para Júpiter era a menor das preocupações”, vindo a concluir que “isso é bastante impressionante”. 
A diretora de Observação da Terra da ESA, Simonetta Cheli, disse ter ficado deslumbrada, no início do ano, quando foi posto em serviço o satélite Biomass, que olha para a absorção de CO2 [dióxido de Carbono] pelas florestas tropicais, uma missão de alterações climáticas, com tecnologia incrível: um radar de banda P, nunca voado”.
Jean-François Clervov, astronauta da ESA admitiu continuar fascinado pela procura de vida para lá do planeta, pelo que recomenda a continuidade da exploração.
Clervoy esteve na Conferência Espacial Europeia como embaixador da Venturi Space, do Mónaco, pré-selecionada pela NASA para produzir componentes para um futuro rover lunar do programa Artemis. Se for escolhida, as primeiras rodas na Lua do século poderão ser fabricadas na Suíça, alimentadas por baterias produzidas no Mónaco, com um sistema de controlo de França.
A 9 de fevereiro, a próxima missão Artemis II deverá levar astronautas em volta da Lua, pela primeira vez, desde 1972, com a nave Orion a depender do European Service Module, fabricado na Alemanha, para o ar, para a água e para a propulsão. E, provavelmente, a 11 de fevereiro, Sophie Adenot, astronauta francesa da ESA partirá, na missão Épsilon, para a Estação Espacial Internacional, com seus colegas da Crew-12 a bordo de uma cápsula Dragon da SpaceX, com lançamento previsto para a Florida, nos EUA.

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Há, pois, muito que esperar da gestão espacial europeia. Na verdade, a UE pode e deve afirmar a sua autonomia em todas as áreas. Para tanto, tem de mobilizar cientistas, técnicos, investidores e, sobretudo, decisores políticos que saibam olhar a realidade e arquitetar o futuro.

2026.02.05 – Louro de Carvalho