quarta-feira, 22 de abril de 2026

Arpão alargou “opções táticas” para combate subaquático no Ártico

 

O presidente dos Estados Unidos América (EUA), Donald Trump tem-se preocupado com a defesa e com a monitorização do Ártico, pelo que chegou a pretender o controlo político-estratégico do Canadá e a ocupação da Gronelândia (pela compra ou pela intervenção militar), a pretexto de que a Rússia estava a ultrapassar o Ocidente, nesta matéria, até porque possui várias dezenas de navios quebra-gelos, que facilitam a navegação naquele oceano.   

Entretanto, sabe-se que os quebra-gelos não são o único instrumento de defesa e de monitorização do Ártico, como o demonstra João Azevedo no artigo intitulado “Como Portugal moldou os novos submarinos do Canadá e afinou a defesa do Ártico”, publicado pela Euronews, a 22 de abril, frisando que “Portugal é o primeiro país, na História recente, a operar um submarino convencional sob o gelo do Ártico” e que o Canadá estuda as adaptações da Marinha a esta missão, devendo incorporá-las na sua nova frota.

De acordo com o Centro Nacional de Dados sobre Neve e Gelo (NSIDC) dos EUA, o gelo marinho do Ártico, que começou, em 1978, a ser monitorizado por satélites, vem recuando nas últimas décadas (mais de 12%, em cada década, 80 mil quilómetros quadrados, por ano). A 22 de março, findo o inverno, período de maior acumulação, terá sido atingida a extensão máxima para 2026, isto é, 14,33 milhões de quilómetros quadrados – “o pico mais baixo, desde que há registos”, o que se verifica pelo segundo ano consecutivo.

Com a região a sobreaquecer quase quatro vezes mais rápido do que o resto do planeta, abrem-se novas rotas marítimas e oportunidades de negócio para países que, há séculos, têm a mira no Extremo Norte da Terra, atraídos pelo isolamento do local, pelas condições climáticas, propícias à investigação científica, e pela riqueza natural aí depositada, do petróleo e gás aos minerais estratégicos. Recente relatório do Conselho do Ártico regista o aumento de 40% no número de navios únicos a operar nesta área, nos últimos 12 anos, tendo a distância percorrida disparado 95%, de 6,1 milhões para 11,9 milhões de milhas náuticas. Trata-se, sobretudo, de embarcações dos oito Estados árticos (os EUA, o Canadá, a Islândia, a Noruega, a Suécia, a Finlândia, a Dinamarca e a Rússia) e das que entram na zona delimitada por este Código Polar sob bandeira dos Estados Observadores do Conselho do Ártico.

Embora o degelo decorrente das alterações climáticas torne atrativa a incursão de navios militares, de carga e de cruzeiro, a navegação a altas latitudes não é fácil, nem pacífica.

Ekaterina Uryupova, investigadora no Instituto do Ártico, admite que “ir para o espaço é mais fácil do que pilotar e operar navios nas regiões polares”. Além dos desafios da intensificação do tráfego marítimo, o aquecimento global deixa o gelo mais fino, aumentando a fragmentação de glaciares e a formação de icebergs. No verão, acentua-se o derretimento, mercê das temperaturas elevadas. As placas de gelo à deriva na água, que são imprevisíveis, acumulam-se, quando colidem, empurradas por ventos e por correntes oceânicas, evoluindo para uma espécie de cadeias montanhosas à superfície (cristas) e debaixo de água (quilhas), atingindo as formações subaquáticas dezenas de metros. Este é um dos grandes perigos para as missões em submarino no Ártico. E no submersível convencional (com autonomia limitada em imersão), há maior risco, porque, em zonas de cobertura densa, será difícil ou impossível subir à superfície.

Além disso, pode haver inundações e incêndios. Eric Moreno, veterano da Marinha dos EUA e submarinista, entre 2001 e 2008, explicou ao The War Zone, website especializado em assuntos de defesa, que, quanto mais espaço tiver o submarino, “maior é a atmosfera disponível para ‘absorver’ um incêndio”, o que confere à tripulação “mais tempo para reagir adequadamente”. Ao invés, a margem de manobra é mais estreita num submarino tradicional, que tem propensão para mais rápida acumulação do calor e do fumo.

Dadas as condições extremas de operação, desde o final da década de 1950, a navegação sob o gelo no Ártico tem sido reservada a submersíveis nucleares, a maioria com mais de 100 metros de comprimento, de alta velocidade e com autonomia praticamente irrestrita. Contudo, a Marinha portuguesa venceu todos os receios, inclusive dos aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), e levou o NRP Arpão, entre abril e junho de 2024, às profundezas das águas glaciais, sendo a primeira a fazê-lo em submarino convencional na História recente.

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O NRP Arpão (S161) é um submarino convencional de ataque da Classe Tridente ao serviço da Marinha portuguesa, desde 2010, conhecido pela elevada capacidade de furtividade (baixa emissão de ruído), pela capacidade de transportar 16 torpedos e por ter sido o primeiro submarino português a navegar sob o gelo do Ártico e a cruzar a linha do Equador.

A guarnição, composta por 30 elementos e comandada pelo capitão de fragata Taveira Pinto, ficou sob a placa de gelo, na zona da Gronelândia, durante quatro dias, em missão inédita, pela mestria operacional e pelo esbatimento de fronteiras julgadas inultrapassáveis, o que levou Portugal a juntar-se aos EUA, ao Reino Unido e à Rússia, um leque restrito de países que operam sob a calota polar, mas dispondo de submarinos movidos por reatores nucleares.

O NRP Arpão largou da Base Naval de Lisboa, a 3 de abril de 2024, no âmbito da operação da NATO Brilliant Shield, para uma missão de 78 dias, apoiada pelas marinhas dos EUA, do Canadá e da Dinamarca, e incluiu várias etapas, com 1800 horas de navegação, das quais 1500 em imersão. Finalizada a primeira patrulha de 22 dias, de teste dos novos procedimentos e das alterações feitas, a embarcação atracou no porto de Nuuk, na Gronelândia, onde se reabasteceu de combustível e de comida. A viagem prosseguiu para Norte, passando o paralelo 66º33’N, que estabelece a fronteira do Círculo Polar Ártico, seguindo a bordo o então chefe do Estado-Maior da Armada (CEMA), almirante Gouveia e Melo que tinha idealizado a expedição, há mais de 10 anos. E, após 39 horas e 30 minutos em imersão profunda sob gelo, procedeu-se à exploração da placa, o que implicou fazer aberturas naturais, para hipotética subida de emergência e a monitorização da largura e da densidade da cobertura congelada.

Este feito foi suportado pela tecnologia de propulsão independente do ar ou AIP (Air Independent Propulsion) que o Arpão possui – um sistema de células de combustível, que, munido de depósitos de hidrogénio e de oxigénio, não exige ar fresco para o carregamento das baterias, assegurando a produção de energia debaixo de água, o que permite a estes submarinos diesel-elétricos ou convencionais ampliar o tempo de submersão, até duas a três semanas.

Segundo a Marinha portuguesa, a confiança para a missão partiu da “avaliação técnica rigorosa de que a plataforma tinha caraterísticas intrínsecas compatíveis com este tipo de ambiente”, mas não teria sucesso sem a “preparação exigente”, de sete meses, com o “estudo aprofundado da área” e de “adaptações materiais concretas”, após revisão dos sistemas do navio.

A guarnição encontrou montanhas de gelo que se prolongavam “90 metros para baixo” da superfície. Estes obstáculos são parte da “combinação complexa de desafios”, desde “gelo fixo, gelo solto, icebergs” às “condições acústicas muito diferentes das do mar aberto” e à “forte limitação das opções, em caso de ocorrência de uma emergência a bordo”.

Uma das medidas de mitigação de risco foi a instalação de um sonar de alta frequência, com apoio do Instituto Hidrográfico, e de sensores específicos, de forma a detetar gelo, a medir a sua espessura e a reforçar a segurança da navegação. Foram também montadas proteções na torre, para impedir que os mastros mais sensíveis, nomeadamente, o periscópio e o mastro optrónico, colidissem com placas de gelo.

A navegação em imersão, a profundidade que permite posicionar os mastros acima da linha de água (cota periscópica), na Marginal Ice Zone ou Zona de Gelo Marginal (MIZ), deixou vincados os méritos da missão portuguesa. Foi uma manobra que causou geral espanto entre os aliados, confessa o comandante Taveira Pinto, elegendo-a como o ponto alto da operação. A MIZ é a zona de confluência entre a placa de gelo rígida e as águas abertas, na qual, pela exposição a tempestades violentas e a ondas gigantes, os blocos de gelo se partem mais rapidamente e ganham trajetórias imprevisíveis.

Desde a II Guerra Mundial, nenhum submarino do Ocidente se atrevera a operar nesta área “altamente problemática” e de grande “incerteza”, onde a deteção e a manobra se tornam mais complexas, pelo “gelo fragmentado, pelas placas de dimensão variável, pelo ruído ambiental muito elevado e pela presença de vida marinha, que degrada a normal utilização do sonar como sensor principal de segurança”. O uso dos instrumentos, neste contexto caótico, é tarefa de especial sensibilidade, devido ao “risco físico associado”. As placas de gelo podem apresentar uma dimensão que provoque danos estruturais, se entrarem em contacto com a embarcação. “Foi por isso que a técnica desenvolvida pelo NRP Arpão para regressar à cota periscópica fez a diferença e permitiu transformar uma área tradicionalmente evitada num espaço onde passou a ser possível operar com segurança aceitável”, sustenta a Marinha, vincando que o exercício proporcionou liberdade de ação e flexibilizou as operações submarinos no Ártico.

O Arpão trouxe “inovação tática em ambiente real”, com “capacidade de adaptação” a “teatro em que o acesso, a sobrevivência e a discrição dependem de decisões muito finas”. Assim, Portugal “produziu conhecimento operacionalmente relevante para os aliados”, plasmado num manual de navegação no Ártico – uma base abrangente que facilita o trabalho de quem decidir lançar-se, no futuro, em incursões na região – e sistematizou saberes que são “ferramenta de doutrina”, que ilustra lições colhidas a partir da experiência real. São ensinamentos tidos em conta pelo Canadá, aliado de Portugal na NATO, para os ajustamentos necessários à sua nova frota de submarinos e para assegurar a aptidão dos mesmos para operações no Ártico canadiano, que ocupa 40% do território e mais de 70% da linha costeira do país.

A observação do Arpão em operações perto, por cima e debaixo do gelo, segundo o vice-comandante da Força Submarina do Canadá, ajudará Otava na modernização dos seus submersíveis, tanto mais que “um dos principais requisitos” do programa de aquisição em curso é a “capacidade de operar no ambiente do Ártico”. Este projeto foi lançado, em 2021, para estudar os ambientes operacionais e, depois, definir as caraterísticas e a tecnologia dos futuros submarinos da Marinha canadiana, substitutos da atual frota (quatro embarcações), pertencente à classe Victoria, adquirida ao Reino Unido, em segunda mão, em 1998, e programada para sair de serviço, no final da década de 2030.

O ex-primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, não excluiu a hipótese de propulsão nuclear, o que as autoridades de defesa do país rejeitaram, por causa do elevado custo. Porém, em agosto de 2025, o governo canadiano, liderado por Mark Carney, confirmou a intenção de comprar até 12 submarinos, “com alcance e autonomia alargados que proporcionarão discrição, persistência e letalidade como capacidades-chave”. Efetivamente, o Canadá, que tem a costa mais extensa do Mundo (mais de 202 mil quilómetros) precisa de condições de “detetar, rastrear, dissuadir e, se necessário, derrotar adversários” nos “três oceanos” do país.

Mesmo com submarinos convencionais, a aposta implica enorme despesa. Há quem aponte para 60 mil milhões de dólares, mas analistas do campo da defesa preveem um custo total na ordem dos 100 mil milhões de dólares, como reportou o jornal canadiano Ottawa Citizen, segundo o qual pode ser a maior aquisição militar de sempre na História do Canadá. O governo quer acelerar o processo e o contrato pode ser assinado neste ano, mas a Marinha canadiana estimou, em 2025, que o primeiro submarino só ficaria operacional em 2037.

Os novos submersíveis não possuirão todas as capacidades para navegação sob o gelo ártico, revelou Angus Topshee, vice-almirante da Marinha do Canadá, citado pelo jornal The Globe and Mail. É aqui que entra Portugal: as modificações e acrescentos do Arpão orientarão o trabalho de apetrechamento, a fazer após a entrega, a nível da estrutura e do equipamento especializado. A colocação de proteções para abrigar os mastros e aumentar a resistência das torres, uma das adaptações portuguesas, surge como exigência (a segurança é a prioridade) para evitar danos estruturais, acautelando eventual cenário de emergência que implique romper o gelo. E outro aspeto crucial é a eficácia, garantida, em grande parte, pelo sonar especializado no topo da torre, que foi útil para mapear o gelo, na parte de cima, e para detetar águas abertas.

A mistura de águas doces com águas salgadas também pode influir na transmissão e análise do som. As gravações dos Portugueses serão, pois, importante recurso de apoio, para que, por exemplo, haja noção dos ecos falsos próximos do gelo e seja aprimorada a deteção.

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De momento, não há planos para novas missões de submarinos portugueses no Ártico, em função de outras prioridades operacionais e estratégicas, mas Portugal continua atento ao que acontece na região, onde se intensifica a disputa geopolítica. De facto, o Ártico está cada vez mais militarizado. A Rússia tem, na península de Kola, que faz fronteira com a Noruega e com a Finlândia, uma das maiores concentrações de armas nucleares do Mundo, operando, aí, submarinos com capacidade para transportar dezenas de ogivas, cada um. E assiste-se ao aumento da presença submarina russa perto da passagem de GIUK, ponto estratégico no Atlântico Norte, entre a Gronelândia, a Islândia e o Reino Unido, de crucial importância para o acesso às águas atlânticas a partir do Ártico.

Por sua vez, a China, autoproclamou-se, em 2018, “Estado quase ártico” e continua a investir na “Rota da Seda Polar”, isto é, o plano de criação de percursos marítimos comerciais pelo oceano Ártico, para reduzir o tempo de viagem entre a Ásia e a Europa para 18 dias.

Perante esta escalada de cobiça, a Marinha portuguesa diz-se empenhada no esforço coletivo da estabilidade do Extremo Norte, mas realça que “a dissuasão e a defesa da área euroatlântica não se fazem de forma abstrata”. E o que a missão levada a cabo pelo Arpão também revela é que Portugal e outros países, apesar das restrições dos submarinos convencionais, têm potencial para desempenhar papel ativo no combate subaquático, inclusive sob o gelo.

Politicamente, Portugal provou ser ator credível na defesa da NATO, com um raio de atuação muito além da sua área imediata, em espaços geográficos distantes do seu território continental, mas ligados à segurança do Atlântico. E, num momento em que a NATO reforça a atenção ao High North, países que já provaram capacidade de operar nesse ambiente tornam-se parceiros valiosos. E a relevância estratégica de um país da dimensão de Portugal não reside só na escala de meios, mas também “na capacidade de oferecer competências diferenciadas e úteis à Aliança”. Por isso, a Marinha acompanhará os desenvolvimentos no Ártico e está preparada para contribuir em cenários semelhantes, especialmente, no âmbito da NATO.

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E, se o Ártico – de mais de 16 milhões de quilómetros quadrados –, não tiver gelo, no final do verão de 2027, como estará o clima, a navegação, as pessoas e os ursos polares?

2026.04.22 – Louro de Carvalho

terça-feira, 21 de abril de 2026

Criação de entidade para coordenar a segurança de cabos submarinos

 

De acordo com o Relatório Anual de Segurança Interna (RASI), conhecido e entregue, a31 de março na Assembleia da República (AR), em 2025, os crimes conexos com terrorismo caíram 29,4%, face a 2024. Tal descida refere-se a crimes de “organizações terroristas e terrorismo nacional” e de “organizações terroristas e terrorismo internacional”.

No atinente a ameaças externas, o terrorismo de matriz islamita e o risco de ataques da Rússia a cabos submarinos estiveram na mira das autoridades. No total, foram efetuadas 2441 comunicações pela Unidade de Coordenação Antiterrorismo (UCAT), integrada no Sistema de Segurança Interna (SSI), no âmbito da prevenção e combate ao terrorismo e da radicalização. Destas comunicações, houve “1841 respostas a entidades nacionais, 365 pedidos de entidades nacionais e estrangeiras e 235 partilhas de informações entre entidades nacionais e estrangeiras”.

Portugal não foi alvo de nenhum atentado, mas as autoridades estiveram atentas, não tendo detetado, em 2025, nenhum recrutamento de indivíduos para organizações terroristas, nem a preparação de nenhum ataque. Porém, foram “sinalizadas, acompanhadas e avaliadas as ligações a Portugal de indivíduos com perfil islamista, alguns dos quais sujeitos a medidas internacionais por suspeitas de ligações ao terrorismo”. Alguns planeavam viajar até Portugal e havia perfis que partilham conteúdos islamitas em língua portuguesa na Internet e jovens residentes em Portugal adeptos de “narrativas religiosas ultraortodoxas”.

Além do risco de terrorismo de células da Al-Qaeda e do Autoproclamado Estado Islâmico, o Ísis, as autoridades estiveram especialmente atentas, quanto a ameaças de Moscovo, nomeadamente, a atos de sabotagem a infraestruturas críticas, como os cabos submarinos de comunicações. Na verdade, Portugal constitui um ponto de passagem e de amarração de importantes estruturas deste tipo, pelo que foi ponderada a ameaça russa e adotado um esforço conjunto de prevenção da parte de várias autoridades nacionais, tendo a Marinha reforçado, a vigilância, em 2025, quando se tratava de embarcações russas a navegar em águas nacionais.

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Entretanto, a 13 de abril, John Joseph Arrigo, embaixador dos Estados Unidos da América (EUA) em Lisboa, disse que Portugal “não pode comprometer as infraestruturas de comunicações”, até porque estão em causa investimentos de gigantes tecnológicos e porque os cabos submarinos transportam 95% dos dados da Internet.

São longos esparguetes de tecnologia intercontinental, quase invisíveis, nas profundezas do oceano, mas as nossas socie­dades podem colapsar, se estas infraestruturas forem atacadas e se não houver sistemas redundantes fiáveis e garantias de soberania digital, pois um corte implica o fim da Internet, da comunicação de dados, de transferências bancárias, do funcionamento de mercados, de hospitais, etc. Por isso, o diplomata dos EUA deixou forte mensagem nesse sentido, na conferência organizada com a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD), em Lisboa: “Isto só funciona com uma infraestrutura segura e [com]uma segurança económica mais ampla. Enquanto Portugal investe em investigação de segurança, não pode comprometer as infraestruturas de comunicações”, afirmou, observando que o governo não definiu uma estratégia de proteção às infraestruturas críticas e aos cabos submarinos.

Para o sistema de cabos submarinos ser mais seguro e resiliente, há que “melhorar a coordenação governamental”, disse, na conferência, Kenny Huang, presidente da Taiwan Network Information Center, responsável pelos registos de domínio de Internet na Ásia-Pacífico e conselheiro do presidente de Taiwan, na área da segurança e da proteção de infraestruturas críticas, que tem a China como ameaça próxima. E a norte-americana Olivia Negus, do Information Technology Industry Council (ITI), com sede em Washington, que junta 80 grandes empresas tecnológicas, sustenta que, além da coordenação dentro dos governos, a política para os cabos submarinos exige cooperação internacional e forte colaboração do Estado com os privados.

O contra-almirante Nuno Bragança, coordenador do Centro do Atlântico, garantiu “Portugal está a investir e a aumentar a vigilância marítima”, referindo o acompanhamento da Marinha aos navios russos em águas territoriais e sob jurisdição portuguesa, bem como a Constelação do Atlântico, um projeto de satélites de alta definição que a Força Aérea está a desenvolver, que melhorará “o conhecimento e a informação” sobre as ameaças aos cabos submarinos. E explicitou como as condições naturais favorecem a segurança dos cabos que passam ou amarram em Portugal, onde “a profundidade média das águas territoriais é de 1200 metros”, em comparação aos 62 e aos 120 metros, no Mar Báltico e no Mar do Norte, respetivamente.  

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O RASI identifica as preocupações com a preparação de ações de sabotagem, particularmente, visando infraestruturas críticas, como os cabos submarinos. Não obstante, Portugal não aprovou a Estratégia Nacio­nal para a Resiliência das Infraestruturas Críticas, que devia ter entrado em vigor em janeiro, e cuja elaboração é da responsabilidade da Secretaria-Geral do SSI, que está na dependência do primeiro-ministro.

Os cabos submarinos que amarram em Portugal ou que passam por águas sob jurisdição portuguesa – vitais para as comunicações por transportarem 95% do tráfego de dados e da Internet – não estão classificados como “entidades críticas”. O gabinete da secretária-geral do SSI não assume o atraso, alegando que “a Estratégia Nacional para a Resiliência de Entidades Críticas é aprovada por Resolução do Conselho de Ministros” e cita a legislação publicada em março de 2025, que resulta da transposição de uma diretiva europeia com atraso de 17 meses, para dizer que as “entidades críticas” para a segurança nacional devem ser designadas até 17 de julho de 2026”. Porém, o diploma em causa, o Decreto-Lei n.º 22/2025, de 19 de março, apontou janeiro como data limite para a estratégia nacional ser aprovada.

Apesar dos atrasos, o SSI garante que estão em curso os procedimentos tendentes à identificação das infraestruturas críticas, cuja competência é do Conselho Nacional de Planeamento Civil de Emergência, outro organismo na dependência do primeiro-ministro. No anexo da legislação onde se apontam os setores e os subsetores que devem ser considerados “críticos”, os cabos submarinos não são mencionados, especificamente, por pertencerem ao subsetor identificado como das “infraestruturas de comunicações eletrónicas”. O SSI afirma que os cabos submarinos “são passíveis de vir a ser classificados com infraestrutura crítica” ou “entidade essencial” no prazo definido, ou seja, até 17 de julho. Com efeito, devido à posição geográfica de Portugal e à profundidade das águas, o país é um dos principais pontos para a amarração e passagem de cabos submarinos – 75% dos cabos atlânticos passam pelo mar português –, atraindo operadores mundiais, como a Google, a Meta ou a Amazon. A importância destas estruturas coloca Portugal no foco de países que dependem destas ligações com a Europa, como os EUA.

A crescente importância do país neste domínio leva à necessidade de aumentar a segurança destas infraestruturas, sobretudo desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, como o RASI dava nota: “Considerando que Portugal constitui um ponto de passagem e de amarração de importantes estruturas deste tipo, a amea­ça russa foi ponderada e, em resultado, foi adotado um esforço conjunto de prevenção por parte de várias autoridades nacionais. Salienta-se que foi dispensada especial atenção a atividades de reconhecimento no mar português, sobretudo quando levadas a cabo por navios russos.” E gabinete da secretária-geral do SSI informou que “os cabos submarinos de telecomunicações são, desde há alguns anos a esta parte, objeto de atenção no âmbito da segurança interna do Estado.”

Apesar de não haver estratégia nem classificação oficial, a Marinha tem intensificado as ações de monitorização de navios suspeitos. Entre eles, encontram-se submarinos e o navio de investigação científica “Yantar”, capaz de lançar na água os minissubmarinos “Gugi”, que operam a grande profundidade, até seis mil metros. O Reino Unido detetou dois destes submarinos, acompanhados por um submarino nuclear, suspeitos de estarem a mapear os cabos submarinos britânicos. E os especialistas militares estão cônscios de que a Rússia sabe onde estão os cabos e que os pode mapear ao milímetro, mas asseguram que a informação sobre o trânsito de navios suspeitos é objeto de partilha entre os países aliados, que vão monitorizando as embarcações e avisando as Marinhas amigas, para efeitos de vigilância contínua.

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Também o comunicado do primeiro Conselho de Estado do novo Presidente da República (PR), põe a tónica no reforço da proteção de infraestruturas críticas. “O Conselho sublinhou a importância de reforçar a preparação nacional, face a fenómenos atmosféricos severos, a ameaças híbridas e a riscos emergentes, bem como de assegurar a proteção eficaz de infraestruturas críticas e o regular funcionamento dos serviços essenciais”, lê-se no comunicado.

António José Seguro anunciou, na campanha eleitoral, que dedicaria o seu primeiro Conselho de Estado, logo em março, aos temas da segurança e defesa e às falhas do Estado em catástrofes. A reunião atrasou para abril, devido ao impasse na eleição dos conselheiros na AR, mas procedeu a “reflexão aprofundada sobre matérias relativas à segurança interna, à proteção civil, à cibersegurança, à proteção de infraestruturas críticas e à defesa nacional”. E foi destacada a “necessidade de continuar a promover a articulação entre as diferentes entidades com responsabilidades nestas áreas, reforçando a capacidade de prevenção, [de] resposta e [de] recuperação em situações de crise”.

A esse propósito, Seguro dedicou a sua primeira Presidência Aberta ao tema das tempestades e reuniu, no dia 16, um grupo de especialistas para apurar o que falhou e como pode o país preparar-se melhor para situações futuras. Daí sairá um relatório com algumas conclusões, que está a ser preparado pelo assessor económico da Casa Civil João Miguel Coelho.

Quanto à guerra com o Irão, o Conselho abordou o enquadramento geopolítico atual, vincando a relevância da cooperação internacional, do cumprimento dos compromissos de Portugal, no âmbito das suas alianças e do respeito pela Carta das Nações Unidas e do Direito Internacional”. Seguro, que não tem estado totalmente alinhado com a política do governo na relação com os EUA, marcou o 10 de junho para a ilha Terceira, onde se localiza a Base das Lajes, que Portugal tem autorizado os EUA a usar na guerra, e “reafirma a importância de garantir a estabilidade, a segurança e a confiança dos cidadãos”.

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Na sequência do desenvolvimento desta problemática, Observatório dos Ecossistemas e Infraestruturas Digitais (OEID) – que reúne entidades e pessoas do setor – vincou a “necessidade de existência duma entidade que efetue a coordenação de todas as entidades que, em espaço nacional, contribuem para a segurança das infraestruturas de telecomunicação (telecom) críticas, nas quais é premente a inclusão dos cabos submarinos.

A proteção, regulação e enquadramento dos cabos submarinos estão sob a responsabilidade de várias entidades públicas, como a Autoridade Nacional das Comunicações (ANACOM), a Infraestruturas de Portugal (IP), o SSI a Marinha e a Força Aérea, o Conselho Nacional de Planeamento Civil de Emergência, ou a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC), entre outros. Porém, o OEID, presidido por Luís Bernardino, diz que “o aumento da resiliência das redes submarinas é tarefa a ser participada por todos os países.

Para o OEID, a segurança dos cabos submarinos que atravessam as nossas águas (águas territoriais e ZEE – Zona Económica Exclusiva), amarrando ou não em Portugal, vem merecendo a atenção de variadas entidades públicas e autoridades nacionais. Porém, as atenções, não são exclusivas dos Portugueses. Assim, a 21 de abril, realizou-se, na AR, um workshp sobre “Cabos Submarinos – Conetividade Doméstica e Internacional”, com a participação de Luís Bernardino, do contra-almirante Nuno de Noronha Bragança e de outros especialistas.

A preocupação com os cabos que atravessam o mar português abrangem vários países aliados. E, frisando que é um setor em que a cooperação internacional entre Estados e privados é fundamental, o OEID sustenta que “o aumento da resiliência das redes submarinas ‘telecom’ é tarefa a ser participada por todos os países e por todas as partes interessadas do setor, pois o esforço isolado de um país ou de uma entidade, não garante a segurança de um cabo submarino. Por outro lado, refere que Portugal tem sido “pioneiro, em variadas situações”, chamando “a atenção para a importância dos cabos submarinos e para a necessidade de se prestar atenção à sua segurança”, já antes de 2022, e tem sido muito ativo, nos organismos e nas organizações internacionais que integra, “sejam elas de natureza civil, de natureza militar ou mesmo de natureza científica”.

No documento “Como aumentar a Resiliência dos Cabos Submarinos nas Águas Portuguesas”, de fevereiro de 2025, o OEID constata que “a interrupção dos cabos submarinos pode ter impactos económicos significativos, para Portugal e para o Mundo”, e faz 25 recomendações para melhorar a proteção e a resiliência dos cabos submarinos, como a realização de exercícios navais de proteção de cabos submarinos, envolvendo as Forças Armadas e demais agentes de proteção das infraestruturas críticas”, o reforço a formação técnica de equipas de reparação e, entre outras, o estabelecimento de parcerias com a Marinha, autoridades, academia e com a indústria dos cabos submarinos para a criação de um cluster R&D, para a inovação no desenvolvimento tecnológico para proteção de cabos submarinos”.

Está prevista “para o segundo semestre de 2027” a entrada em exploração do Anel CAM, cabo submarino que substituirá as atuais ligações entre o Continente, os Açores e a Madeira. A execução é da responsabilidade da Infraestruturas de Portugal e da Alcatel Submarine Networks. Trata-se de “um anel de telecomunicações que incorpora tecnologia ‘smart cable’, que é inovadora e está virada para a monitorização ambiental, oceânica e deteção precoce de sismos e tsunamis, sem prejuízo de outras funcionalidades”. Proporcionará maior capacidade e qualidade de serviço para acomodar o incremento de consumo de dados. O objetivo é ter o país preparado para a nova realidade “com a intensificação da utilização da inteligência artificial e crescente volume de dados”, suportando “conteúdos de maior complexidade e volume”.

Segundo o Ministério das Infraestruturas, a configuração em anel proporciona redundância, de modo que, falhando uma secção do cabo, o tráfego pode ser redirecionado e minimizará as interrupções do serviço. É infraestrutura crucial para a comunicação diária entre os cidadãos e o Estado, para as operações empresariais e para “a segurança e a gestão de emergências”.

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Em suma, porque o tema se reveste de especial melindre, o OEID, sem esquecer o trabalho feito e em projeto, pretende a criação de uma entidade que coordene todo o sistema, apoiada pelos vários países e pelos setores interessados e servida por um poderoso cluster de investigação e desenvolvimento.

2026.04.21 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Exposição “Florestas Submersas” deixa Oceanário de Lisboa

 

A exposição “Florestas Submersas by Takashi Amano” deixa o Oceanário de Lisboa, 11 anos após a inauguração. É o fim de um ciclo, para visitantes e para funcionários, que dizem adeus a inúmeras oportunidades de excecional fruição e conhecimento e a milhares de horas de trabalho debaixo de água, para manter intacta a visão do fotógrafo e designer japonês.

Pensada para três anos, a exposição temporária superou, largamente, o tempo estimado de vida. “Isto foi acontecendo, porque o aquário, ao longo do tempo, foi conseguindo sempre cumprir e manter o seu objetivo, que era criar algo nas pessoas”, explica Tiago Reis, aquarista e coordenador de espécies no Oceanário de Lisboa.

O planeamento para a criação da exposição foi iniciado em meados de 2013 e levou dois anos. Foi então que Hugo Batista, diretor de Biologia do Oceanário, e outros elementos da equipa do Oceanário passaram a trabalhar de perto com Takashi Amano, inclusive, com idas ao Japão. “Isto começou com uma ideia, um conceito, fomos claramente em busca da pessoa que mais visão tinha sobre este tipo de aquário, que era o Sr. Takashi Amano”, recorda Hugo Batista.

Um dos desafios, na origem do projeto, era a diferença de técnicas necessárias para a sua manutenção, sendo um equipamento que utiliza água doce. “Aprendemos todas as técnicas para manter este tipo de aquário, porque é completamente diferente do que fazemos, atualmente, na exposição que nós temos de procura de água salgada”, destaca Hugo Batista.

Apesar de ter já data para o fim, é possível ainda visitar a icónica exposição. Quem já a conhece, pode, no âmbito da redescoberta das “Florestas Submersas”, redescobrir a visão de Takashi Amano, de novas formas. Mediante marcação, é possível visitar os bastidores do aquário, onde durante cerca de 60 minutos, acompanhado por um educador marinho, o visitante poderá ficar a conhecer os cuidados diários e outras curiosidades sobre o aquário. “Temos visitas guiadas aos bastidores, onde é possível ver todas as ferramentas que usamos, as ferramentas que equipas japonesas também usaram, em colaboração com o Oceanário. Ver a nossa forma de trabalhar porque, realmente, mais ninguém, em todo o Mundo, nenhum outro aquário ousou fazer algo igual”, enfatiza Tiago Reis, segundo o qual, além disso, também se pode, em dias específicos, assistir às podas ao vivo, durante o horário de visita.

Ao fim de 11 anos e mais de dez milhões de visitantes, o ciclo de Takashi Amano no Oceanário chegou ao fim. “Acreditamos que, se estivéssemos a prolongar este aquário mais tempo, poderíamos estar a transgredir a visão do próprio autor, porque, ao longo do tempo, este aquário vai-se modificando e seria um pouco desrespeitoso, se nós quiséssemos estendê-lo por tempo indeterminado”, vinca Tiago Reis.

A partir de 30 de junho, a exposição deixará de estar disponível para o público: o fim de um ciclo, tal como Takashi Amano idealizou. “Aceitamos este encerramento, até porque há uma filosofia japonesa por trás da criação deste aquário, que é a filosofia wabi-sabi, que nos diz que nada é eterno. O próprio Takashi Amano dizia que o aquário teria um fim e nós teremos que aceitar, porque é o acontecimento natural deste ecossistema”, considera o coordenador de espécies no Oceanário de Lisboa.

Esta é uma exposição viva, que dará nova vida às espécies que ali se encontram. Estes animais serão “cedidos a outras instituições que cumpram os requisitos de bem-estar animal pelo qual o Oceanário se rege”, indica Tiago Reis, salientando que, após o encerramento, o aquário ficará, obviamente, a funcionar, até termos instituições dedicadas para os receber”.

No aquário habitam cerca de 40 espécies de peixes tropicais de água doce, 46 espécies de plantas aquáticas, totalizando mais de 10 mil organismos vivos. Segundo informação do Oceanário, o layout da estrutura integra 12 toneladas de areia, 25 toneladas de rocha vulcânica dos Açores e 78 troncos de árvores.

O trabalho requer precisão de régua e esquadro. Com detalhe e cuidado, uma aquarista do Oceanário de Lisboa alisa a areia existente no aquário da exposição “Florestas Submersas”. A função exige um mergulho prolongado. Alisar o fundo do aquário, eliminando os vestígios de qualquer disrupção ou presença humana naquele ambiente, é a última tarefa, depois da poda das plantas que o compõem. Cortes leves, mas precisos, desenham a vegetação presente neste aquário com 40 metros de comprimento, que leva, ao todo, 160 mil litros de água doce. Foi idealizado pelo japonês Takashi Amano, há mais de 13 anos.

Todos os dias, antes da abertura de portas, os aquaristas responsáveis pela estrutura mergulham para trabalhos de manutenção e limpeza. Desde 2015, quando foi inaugurada, a exposição contabiliza cerca de 11 mil horas de mergulho especializado. O objetivo passa por manter a visão do criador. “É algo quase impensável. Nenhum outro aquário tem esta quantidade de horas de trabalho dentro de água e ele é extremamente necessário, porque é um aquário de 40 metros [de comprimento], não nos podemos esquecer disso. […] É, ainda, o maior ‘nature aquarium’ do Mundo e, portanto, nós temos de o dividir por zonas. Temos uma escala de mergulho e temos cerca de três a quatro pessoas, todos os dias, a mergulhar para manter, exatamente, tudo como o criador, Takashi Amano, idealizou”, desenvolve Tiago Reis.

Fotógrafo de paisagem e um dos mais influentes aquariofilistas e aquapaisagistas do Mundo, Takashi Amano faleceu quatro meses após a inauguração da exposição. Idealizou este aquário que é considerado o maior “nature aquarium” do Mundo, um conceito que lhe é atribuído, e que consiste na recriação da estrutura de um ecossistema, em que as plantas e os organismos interagem e coexistem num aquário, inspirando-se nos métodos da Natureza.

Para guia e inspiração, Takashi Amano teve uma vida inteira na qual percorreu florestas, em vários continentes, trabalhando para promover uma maior consciência ambiental e a importância da preservação dos ecossistemas. O aquário é considerado uma das partes mais importantes do legado deixado pelo fotógrafo paisagista japonês.

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A 3 de abril, Caroline Ribeiro retrata, no Diário de Notícias (DN), um dia de trabalho no aquário.

Sem o glamour das luzes a emoldurar a experiência, sem a banda sonora, vê-se o que os visitantes nunca veem: o cuidado de toda a equipa com esta floresta. Dois mergulhadores trabalham, desde as 6h00, dentro do aquário, numa missão que é realizada, diariamente, desde a inauguração desta instalação, em abril de 2015, para garantia da qualidade da água e da segurança das espécies que a habitam. Como os caçadores, os mergulhadores usam vários equipamentos, sendo um semelhante a um aspirador de pó, com longos tubos ligados a caixas fora do aquário. Na ponta de cada tubo, funciona como bocal uma garrafa plástica cortada. Com movimentos delicados, os mergulhadores “sifonam”, a areia que é aspirada por aqueles bocais, para a remoção de quaisquer resíduos que possam tornar-se problema para o equilíbrio do aquário. Podem não ser objetos estranhos, pois nenhum visitante deita lixo na água, mas serão alguns tipos de algas e outras formações naturais que acabam por crescer e podem transformar-se em pragas.

Como explicou ao DN Hugo Batista, todos os dias, uma equipa começa a trabalhar às 6h00 da manhã, pois “o aquário é muito grande e tem muitos detalhes a que só conseguimos chegar através do mergulho”. Começam as verificações iniciais: ver se o sistema está todo a funcionar, ler os gráficos, verificar a qualidade da água. Depois, define-se o trabalho desenvolver, vê-se como estão as plantas e os animais. A partir daí, inicia-se a rotina: limpa-se o fundo do aquário, começa-se a sifonar (limpar os detritos que estão na areia) e limpam-se os acrílicos.

Hugo Batista retira, de uma das caixas para onde escoa o material “sifonado” do aquário, um tipo de novelo verde, que parece um bocadinho de relva enrolada. “Isto é um exemplo do que começa por se formar e pode acabar por roubar o oxigénio da água”, explicou.

Outra parte da manutenção faz os mergulhadores irem tronco a tronco e escová-los, com uma escova de dentes comum, para retirar pequeníssimas bolinhas, que são sinais de degradação. E Hugo Batista sublinha a criatividade dos profissionais para adaptarem materiais diversos às necessidades das funções. “É aquilo que ninguém vê”, enfatizou.

Um outro procedimento executado, diariamente, é um género de poda das plantas, uma das mais difíceis e importantes tarefas do aquário. “O corte desta poda [de uma plantinha de folhas castanhas] não descarta absolutamente nenhuma folha que seja aparada e garante que esta floresta submersa, mesmo passados 11 anos, desde a sua inauguração, tenha, ainda, as plantas originais”, diz ao DN o aquarista Tiago Reis, frisando a obrigação de fidelidade ao aquascaping que o criador deste aquário idealizou. “Portanto, ao longo do tempo, as plantas vão crescendo e nós vamos podando para fazer as formas. Mas chegamos a um ponto em que temos de remover, realmente, as plantas, para as plantarmos mais baixas e recomeçarmos de novo. Todas estas plantas são, exatamente, as mesmas, desde 2015, são as próprias plantas que Takashi Amano plantou. Nós vamos sempre replantando e, exatamente, todas no mesmo sítio, para sermos sempre fiéis ao que ele criou”, explicou o aquarista.

A exposição “Florestas Submersas” está contida num aquário que é considerado o maior nature aquarium do Mundo, ou seja, um aquário que recria um ecossistema completo da Natureza, com plantas, peixes e outros pequenos animais, além de micro-organismos. A obra foi idealizada como uma réplica submersa de um paraíso tropical. Possui 40 metros de comprimento, comporta 160 mil litros de água doce, quatro toneladas de areia e 25 toneladas de rocha vulcânica dos Açores. Há cerca de 78 troncos de árvores, provenientes da Escócia e da Malásia, a compor esta paisagem de floresta, que tem mais de 10 mil organismos vivos no seu ecossistema, entre eles cerca de 40 espécies de peixes tropicais e 46 espécies de plantas aquáticas.

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Takashi Amano mano, como fotógrafo, visitou três das principais florestas tropicais do Mundo, a Amazónia, a da Ilha Bornéu (no Sudeste Asiático) e a da zona ocidental da África. Além de fotógrafo, era designer e desenvolveu um gosto pessoal pelo aquariofilia, levando-o a fundar uma empresa para atuar na combinação destas duas paixões. Foi assim que começou os projetos de “nature aquarium” e que ganhou notoriedade pelas suas criações.

O aquário levou três meses para ser construído, trabalho que envolveu mais de 90 pessoas, de seis países diferentes. A exposição foi concebida para estar patente durante três anos, já lá vão 11, tornando-se um elemento emblemático do Oceanário de Lisboa, visto, até ao momento, por mais de dez milhões de pessoas.

Além do impacto local, “Florestas Submersas” foi a última criação de Takashi Amano, que morreu apenas três meses depois da sua inauguração. A decisão de encerrar esta obra, o que vai acontecer, no final de junho, também passa por preservar o legado do seu criador. “Isto é uma obra de arte viva e, portanto, segue o seu ciclo. Foi projetada para três ou quatro anos, porque é o tempo também que prevíamos [a] duração de algumas caraterísticas, por exemplo, os troncos que temos nesta exposição, a própria qualidade expositiva. Aliás, este não é só o maior ‘nature aquarium’ que existe, como é talvez o mais antigo que existe, sem ter sofrido grandes remodelações”, observa Hugo Batista, sublinhando: “Para mantermos a qualidade deste aquário, para o futuro, teríamos de o renovar. Ao fazermos isso, é como pegar numa tela, numa obra de arte, remover a tela e colocar [outra] na mesma moldura – já não tem a assinatura do seu criador – e iria acontecer isso. Portanto, não nos é correto fazê-lo.”

Este é, em meu entender, o aspeto mais controverso do encerramento da exposição. Se nenhum país – Portugal será o que tem maior responsabilidade na matéria – mantiver a obra do criador, renovando-a, porque não quer ou porque não tem dinheiro, como é que pode dizer-se que mantém e respeita o legado de Takashi Amano? Restarão fotos, vídeos, microfilmes? E por que não reconstituições físicas?

Sem dar mais pistas do que vai ocupar o recinto, em seguida, embora admita que o plano está em andamento, a equipa deixa o convite para um último “mergulho” dos visitantes. “Queremos encerrar esse ciclo por respeito também à criação que ele fez e deixar o legado e a imagem a quem nos visita. Convidamos a virem visitar-nos, para reverem, uma vez mais, esta exposição, enquanto ainda está aberta”, finaliza Hugo Batista.

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Floresta submersa é um ecossistema florestal inundado, por fenómenos naturais, como o aumento do nível do mar (por exemplo, o Lago Kaindy, no Cazaquistão), ou por inundações sazonais de rios, criando habitats aquáticos únicos. Também se aplica a designação a instalações artísticas, como o aquário natural de Takashi Amano, que replicam florestas tropicais debaixo de água. Também se designam por aquário natural (nature aquarium), paisagismo aquático (aquascaping), várzea (igapó, na Venezuela) ou ecossistema aquático. As mais incríveis do planeta são facilmente encontradas na costa da Grã-Bretanha e no Noroeste da Dinamarca, na Índia, na França, na Roménia e no Cazaquistão. Eis algumas:

* Com profundidade que pode ir a 30 metros, em alguns pontos, a floresta do Lago Kaindy, no Cazaquistão, possui árvores do tipo Spruce e Schrenk que surgem do fundo até à superfície do lago. No inverno, a floresta submersa ganha aspeto especial com o congelamento do lago, ao passo que, no verão, a água ganha coloração turquesa e sobe a temperatura. O que provocou a submersão da floresta foi grande deslizamento de terra calcária, criando a represa natural.

* Localizado na região da Transilvânia, na Roménia, o Lago Bezid tem uma floresta submersa e uma aldeia. Telhados de casas e de igrejas confundem-se com galhos retorcidos, criando incrível e sombrio cenário. Havia ali uma barreira para evitar o avanço da água, mas, após um grande desastre, a cidade toda foi inundada.

* Com a área total de 55 quilómetros quadrados, o lago Periyar, na Índia, é ótimo exemplo de floresta submersa. As águas chegam ali pelo rio Periyar e seguem para o Rio Vigai e Tamil Nadu, alimentando um ecossistema único que existe desde 1895. Há um reservatório natural onde a vida surgiu após a construção da barragem Mullaperiyar, porém já havia uma floresta, na região, antes da presença humana.

* É possível conferir exemplares de árvores da floresta que havia no reservatório Udawalawe, no Sri Lanka. O abastecimento fica a cargo do Rio Walawe e podem ser catalogados alguns animais, como elefantes, diversas espécies de aves aquáticas e incontáveis tipos de peixes.

* Com superfície maior do que qualquer outro reservatório no planeta, o Lago Volta surgiu após a construção da hidrelétrica Akosomba. Porém, ficam submersas árvores com madeiras tropicais de grande valor que sofrem a falta de oxigénio, devido à pela presença de água.

Também na Floresta Amazónica (Igapó/Várzea), áreas florestais que ficam, temporariamente, debaixo de água, durante as cheias, criando habitats altamente produtivos.

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Enfim, caprichos da Natureza e/ou da paciência humana!

2026.04.20 – Louro de Carvalho

domingo, 19 de abril de 2026

Foi preciso um desenho para os discípulos reconhecerem o Ressuscitado

 

No terceiro domingo de Páscoa, no Ano A, componente deste grande domingo que é o tempo pascal, continua a ressoar, em cada hora, a certeza da vitória de Jesus sobre a morte. Porém, a liturgia desta dominga lembra-nos, especificamente, que podemos experienciar a presença de Jesus, vivo e ressuscitado, nos caminhos que todos os dias percorremos, experiência que nos transforma, renova santifica e nos faz vivas testemunhas do Ressuscitado.

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A primeira leitura (At 2,14.22-33) é um extrato do discurso de Pedro na manhã de Pentecostes, em que anuncia aos habitantes de Jerusalém e ao Mundo que o Jesus assassinado pelas autoridades judaicas, derrotou a maldade, a injustiça, a violência e a morte. Com ousadia profética, Pedro garante: “Disso todos nós somos testemunhas”. É esta Boa Notícia que os discípulos de Jesus de todas as épocas anunciam ao Mundo.  

Invocado, o testemunho das Escrituras, Pedro expõe o “kérigma”, o núcleo fundamental da mensagem cristã: Jesus, creditado por Deus, veio ter com os homens e passou pelo Mundo realizando gestos poderosos que testemunham o amor de Deus e anunciam a sua salvação. A proposta de Jesus colidiu com a recusa do Mundo e Ele foi morto na cruz “pela mão de gente perversa”. Porém, Deus ficou do lado d’Ele, ressuscitou-O, fê-Lo triunfar sobre a injustiça, a mentira, a violência e a morte. Ao ressuscitar Jesus, Deus disse aos que recusaram escutá-Lo que Jesus estava certo, pois uma vida ao serviço do desígnio de Deus não pode terminar no fracasso, mas conduz à vida plena. Pedro é o porta-voz da comunidade que testemunhou a oferta de salvação que Jesus veio trazer, que acreditou nela e que recebeu de Jesus a missão de a propor aos homens de toda a Terra.

O anúncio petrino é dirigido a judeus que conhecem as Escrituras e as promessas de Deus. Por isso, Lucas põe na boca de Pedro argumentos tirados da própria Escritura para fundamentar o que pretende anunciar. Em concreto, Pedro refere o salmo 16,8-11, atribuído a David: “O Senhor está sempre na minha presença, com Ele a meu lado não vacilarei. Por isso o meu coração se alegra e a minha alma exulta e até o meu corpo descansa tranquilo. Tu não abandonarás a minha alma na mansão dos mortos, nem deixarás o teu Santo sofrer a corrupção. Deste-me a conhecer os caminhos da vida, a alegria plena em tua presença.”

É um dos raros textos do veterotestamentários onde se vislumbra a vitória da vida sobre a morte. O raciocínio do compositor deste discurso é: David refere, no salmo que a tradição lhe atribui, um “amigo de Deus” que haveria de vencer a morte; não se trata, de David pois, como todos sabem, morreu na primeira metade do século X a.C. (“o patriarca David morreu e foi sepultado e o seu túmulo encontra-se, ainda hoje, entre nós”). Sendo assim, o “amigo de Deus” de que David fala será, com certeza, o descendente de David que, segundo a promessa de Deus, haveria de herdar o trono do seu pai e estabelecer um reino eterno. Era a esse rei, da descendência de David, que os judeus chamavam Messias ou Cristo (“ungido”); era esse rei, da descendência de David, que alimentava a esperança de Israel e que era aguardado ansiosamente. Jesus é, pois, esse “amigo de Deus”, anunciado por David, que Deus não abandonou na habitação dos mortos e cuja carne não conheceu a corrupção do túmulo. Portanto, Jesus está vivo: uma vez ressuscitado dos mortos, foi elevado à glória pelo poder de Deus, recebeu o Espírito Santo e derramou-O sobre os discípulos que deixou na Terra para serem testemunhas do Evangelho da salvação. Resta que os habitantes de Jerusalém estejam disponíveis para O acolherem.

Temos, aqui, o testemunho da comunidade cristã sobre Jesus, o Messias, enviado ao Mundo para cumprir o plano de Deus. A vitória de Jesus sobre a morte e a sua exaltação atestam que Ele é o Messias enviado por Deus com a salvação. Os discípulos de Jesus são as testemunhas disto diante de todo o Mundo (“disso todos nós somos testemunhas”). Para já, o testemunho é dado em Jerusalém, mas Lucas descreverá, ao longo do livro dos Atos, a forma como o anúncio sobre Jesus irá conquistando o Mundo, até atingir Roma, o coração do império.

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No Evangelho (Lc 24,13-35), Lucas convida-nos a acompanhar dois discípulos que, abalados pela suposta falência do projeto de Jesus, desistem da comunidade e se põem a caminho de uma outra vida. Porém, Jesus, sem Se identificar, surge, acompanha-os no caminho, ajuda-os a encontrar respostas, incute-lhes a esperança. E eles, admirados por o suposto forasteiro não saber o que se passou em Jerusalém, só reconhecem Jesus quando, à mesa, Ele parte e reparte o pão. O relato – com sabor eucarístico – é a parábola dos nossos desencontros e encontros com Jesus ressuscitado: Ele nunca deixará de nos acompanhar no caminho, de nos explicar o sentido da vida e de nos alimentar com a sua Palavra e com o seu Pão.

No primeiro dia da semana – Lucas começa relato com a expressão “naquele mesmo dia”, o que nos remete para o relato anterior – em que descreve como, na manhã de Páscoa, algumas mulheres vão ao túmulo levando os perfumes que preparam para tratarem o corpo de Jesus e se deparam com “dois homens com vestes refulgentes” que lhes anunciam a ressurreição –, dois discípulos saem de Jerusalém e põem-se a caminho de um lugar chamado Emaús. Um deles é Cléofas; o outro não é identificado. Alguns identificam-no com Pedro, outros com Natanael, com Simão e até com a mulher de Cléofas. Lucas, ao não identificar esse discípulo, talvez sugira que podia ser “qualquer um” dos crentes que tomam conhecimento do relato.

Percebe-se, das palavras que os dois viajantes trocam enquanto caminham, o motivo por que se afastam de Jerusalém: desilusão, pois os seus sonhos de triunfo e de glória ao lado de Jesus ruíram aos pés da cruz. O poderoso Messias, capaz de derrotar os opressores, de restaurar o grandioso reino de David (“nós esperávamos que fosse Ele quem havia de libertar Israel”) e de distribuir benesses aos colaboradores revelou-se um rotundo fracasso. Em vez de triunfar, deixou-Se matar na cruz; e a sua morte é facto consumado, pois “é já o terceiro dia depois que isto aconteceu” (o “terceiro dia” após a morte é o dia da morte definitiva, do não regresso do túmulo). Portanto, os dois abandonam a comunidade – que já não parece fazer sentido – e afastam-se de Jerusalém, dispostos a esquecer o sonho, a pôr os pés na terra e a enfrentar uma vida dura e sem esperança. A discussão entre eles, a propósito de “tudo o que tinha acontecido”, deve entender-se neste enquadramento: é essa partilha solidária dos sonhos desfeitos que torna o desencanto menos doloroso.

Entretanto, o narrador introduz no quadro uma nova personagem: Jesus. Ele alcança Cléofas e o companheiro e põe-se a caminhar ao lado deles; mas eles, ocupados a lamber as feridas da desilusão, não O reconhecem, tal como sucedeu com Maria Madalena, quando, na manhã de Páscoa, confundiu Jesus ressuscitado com o jardineiro. Jesus, solícito, questiona-os sobre o que os inquieta tanto; e eles, estranhando que o viajante não conheça “o que se passou, nestes dias”, em Jerusalém, contam-lhe a saga do “profeta poderoso em obras e palavras” que os príncipes dos sacerdotes e os chefes entregaram para ser condenado à morte e o crucificaram”. Para eles, a História de Jesus terminou e ficou sepultada num túmulo, em Jerusalém, onde colocaram o Seu corpo morto. Falta-lhes a fé no Senhor ressuscitado, embora conheçam a tradição do túmulo vazio e o testemunho das mulheres.

Para sossegar os dois e para lhes mostrar que tudo se encaixa na lógica do plano de Deus, Jesus, “começando por Moisés e passando pelos profetas, explicou-lhes, em todas as Escrituras, o que Lhe dizia respeito”. Lucas não refere os textos veterotestamentários que Jesus terá citado, mas talvez pense em Dt 18,18 (“suscitar-lhes-ei um profeta como tu, de entre os seus irmãos; porei as minhas palavras na sua boca e ele lhes dirá tudo o que Eu ordenar”), nos cânticos do “Servo de Javé” e em alguns salmos que enquadram o sofrimento e a glorificação do justo no contexto do projeto salvador de Deus. Aqueles discípulos percebem que “o messias tinha de sofrer tudo isso para entrar na glória”. E Lucas parece sugerir aos discípulos de todas as épocas e lugares que é na escuta e na partilha da Palavra que o plano salvador de Deus ganha sentido e que, só pela Palavra de Deus – explicada, meditada e acolhida – o crente perceberá que o amor até às últimas consequências e o dom de si próprio não levam ao fracasso, mas geram vida nova.

Os três (Jesus, Cléofas e o discípulo não identificado) chegam a Emaús. Os discípulos ainda não reconhecem Jesus, mas oferecem-lhe hospitalidade: é de noite e não é seguro continuar a viagem. Aquele desconhecido encanta-os e eles não querem vê-lo partir. Jesus aceita o convite, entra com eles em casa e senta-se com eles à mesa. Enquanto comem, Jesus, assumindo o papel do dono da casa, “tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e entregou-lho”. As palavras usadas por Lucas referem os gestos que Jesus tinha feito na multiplicação dos pães e dos peixes e na inesquecível ceia de despedida que celebrou com os discípulos na véspera da Sua morte. E são as palavras que a Igreja primitiva repetia sempre que se reunia à volta da mesa eucarística. É então que os olhos dos dois discípulos se abrem e eles reconhecem, no companheiro de viagem, o próprio Jesus. Na linguagem brejeira de alguns grupos, “foi preciso Jesus fazer-lhes um desenho para O reconhecerem”, apesar de Ele ter desaparecido, entretanto.

A última cena do relato põe os discípulos a retomar o caminho, a regressar a Jerusalém e a apresentar-se, novamente, à comunidade que abandonaram horas antes. Não os inquieta a noite, a distância, nem a comida que ficou na mesa. O que lhes interessa é testemunhar que Jesus venceu a morte, está vivo e caminha, de novo, com os discípulos.

Por trás desta construção lucana, há forte intenção catequética. Quando Lucas escreve o seu Evangelho (década de 80 do século I), a comunidade cristã deparava-se com dificuldades. Tinham decorrido cerca de 50 anos depois da morte de Jesus, em Jerusalém. A catequese dizia que Ele estava vivo, mas o quotidiano da vida monótona e cansativa tornava difícil fazer essa experiência. As testemunhas oculares de Jesus tinham desaparecido e os acontecimentos da paixão, morte e ressurreição pareciam distantes, ilógicos e irreais. Os crentes das comunidades lucanas perguntavam se Jesus ressuscitou e está vivo, como pode ser encontrado, onde e como se pode fazer verdadeira experiência de encontro real com esse Jesus que a morte não conseguiu vencer e por que motivo não aparece de forma gloriosa e não instaura um reino de glória e de poder que faça triunfar sobre os nossos adversários e detratores.

É a isto que Lucas procura responder. A sua mensagem dirige-se aos crentes que caminham pela vida, desanimados e sem rumo, cujos sonhos parecem desfazer-se em contacto com a realidade monótona e difícil do dia a dia. Lucas garante que Jesus está vivo e caminha ao nosso lado, nos caminhos do Mundo. Às vezes, não conseguimos reconhecê-Lo, pois os nossos corações estão ocupados com as preocupações pessoais, com os interesses egoístas, com os preconceitos enraizados, com as visões estreitas. Ficamos incapazes de olhar mais longe e de compreender o desígnio de Deus. Contudo, Jesus faz-Se nosso companheiro de viagem, caminha connosco, alimenta a nossa caminhada com a esperança que brota da sua Palavra, faz-Se encontrar quando nos sentamos à mesa da comunidade para partilhar o pão eucarístico.

Na catequese lucana aparece a ideia de que é na celebração comunitária da Eucaristia que os crentes experienciam o encontro com Jesus vivo e ressuscitado. A narração sugere o esquema da celebração eucarística: a liturgia da Palavra (a “explicação das Escrituras”, que permite aos discípulos entenderem a lógica do plano de Deus em relação a Jesus) e o “partir do pão” (que faz com que os discípulos entrem em comunhão com Jesus, recebam d’Ele vida, O reconheçam nesses gestos que são o “memorial” da sua entrega até ao extremo por amor).

Por fim, Lucas, em modo de catequista, ensina que, depois de fazer a experiência do encontro com Cristo vivo e ressuscitado na celebração eucarística, o crente é impelido a voltar à estrada, a dirigir-se ao encontro dos irmãos e a testemunhar que Jesus está vivo e presente na História e na caminhada dos homens.

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Na segunda leitura (1Pe 1,17-21), um autor cristão do século I lembra aos batizados a vocação fundamental a que são chamados: a santidade. Para dar força ao apelo a uma vida santa, recorda-lhes que foram resgatados por um preço bem alto: pelo sangue precioso de Cristo. Ao ressuscitar e glorificar o seu Filho Jesus, Deus caucionou a proposta de vida que Ele oferece. Dirigindo-se aos batizados, o autor da carta exorta-os a viverem como filhos de Deus, ou seja, a abandonarem, por completo, os “desejos antigos” e optarem pela santidade. Citando a Escritura, lembra-lhes o pedido de Deus: “Sede santos, porque Eu sou santo”. Os chamados à santidade e que invocam a Deus como Pai devem, segundo a Carta, viver “com temor, durante o tempo de exílio neste Mundo”. O temor traduz, na linguagem veterotestamentária, a obediência, a confiança, a entrega a Deus, a total conformação com a vontade de Deus.

Para imprimir força à sua exortação, o epistológrafo lembra aos batizados que não têm o direito de voltar atrás, pois Deus pagou alto preço para os resgatar da antiga maneira de viver; e esse preço não foi pago com bens corruptíveis, como ouro ou prata, mas com algo precioso: o sangue de Cristo, derramado na cruz. Foi preço bem alto que Deus não hesitou em pagar, um enorme investimento de Deus que não pode ser malbaratado e desprezado pela ingratidão.

O verbo “resgatar” (“lytróô”), utilizado pelo epistológrafo para falar da ação salvífica de Deus em favor do homem, é usado no grego profano para designar a libertação de uma pessoa (nomeadamente, um escravo), mediante o pagamento de determinada quantia. Contudo, no Antigo Testamento, tem alcance eminentemente teológico e refere-se à atuação salvífica de Deus, que intervém para salvar o seu povo do cativeiro egípcio, do exílio babilónico ou do pecado. Em algumas passagens, o verbo inclui o sentido de “adquirir”: Javé resgata Israel para que ele passe a ser o povo de Deus, a tribo da sua herança, a comunidade que pertence a Deus e que está ao serviço de Deus. Dizer que Deus resgata quer dizer que Deus, no seu amor, liberta Israel da escravidão e do pecado, a fim de fazer dele um Povo consagrado ao seu serviço.

Será neste contexto que devemos entender a afirmação da Primeira Carta de Pedro. A referência a Cristo como “cordeiro sem defeito e sem mancha” leva-nos ao cordeiro pascal (“cordeiro pascal” em Ex 12,5, o cordeiro que os escravos hebreus sacrificaram e comeram na noite em que fugiram da escravidão) e, portanto, à tipologia do Êxodo. Assim como o “cordeiro pascal” marcou a libertação dos Hebreus da escravidão do Egito e marcou o nascimento de um povo dedicado ao serviço de Deus, também a morte de Cristo resgatou o homem da escravidão do pecado e fez nascer o povo novo e santo, cuja vocação é servir a Deus e Nele pôr a sua fé e esperança.

Os batizados são convidados a contemplar o plano de salvação que Deus quer concretizar em favor do homem, que passa pela entrega de Jesus (o “Cordeiro sem mancha nem defeito” na cruz. Constatando a grandeza do amor de Deus e a sua vontade salvífica, os batizados – apesar das dificuldades – aceitam comprometer-se com Deus e renascer para uma vida nova e santa. Dessa forma, nascerá um Povo novo, consagrado ao serviço de Deus.

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Por tudo, é salutar seguir o cantar do salmista e pedir ao Senhor a abertura do coração para entendermos as Escrituras.

“Mostrai me, Senhor, o caminho da vida.”

“Defendei me, Senhor; Vós sois o meu refúgio. / Digo ao Senhor: Vós sois o meu Deus. /
Senhor, porção da minha herança e do meu cálice, / está nas Vossas mãos o meu destino.

“Bendigo o Senhor por me ter aconselhado, / até de noite me inspira interiormente. / O Senhor está sempre na minha presença, / com Ele a meu lado não vacilarei.

“Por isso o meu coração se alegra e a minha alma exulta / e até o meu corpo descansa tranquilo. / Vós não abandonareis a minha alma na mansão dos mortos, / nem deixareis o vosso fiel conhecer a corrupção.

“Dar-me-eis a conhecer os caminhos da vida, / alegria plena em Vossa presença, / delícias eternas à Vossa direita.”

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“Aleluia. Aleluia. Senhor Jesus, abri-nos as Escrituras, falai-nos e inflamai o nosso coração.”

2026.03.19 – Louro de Carvalho


A ONU deve ser reformada para garantir a paz

 

Em resposta ao pedido do primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, e do presidente Brasileiro, Lula da Silva, vários líderes internacionais reuniram-se, ao longo de dois dias, em Barcelona, na IV Cimeira “Em defesa da democracia”. Entre outras decisões, sobressai a vontade de taxar os super-ricos e começar a proceder a uma reforma da Organização das Nações Unidas (ONU), para garantir a paz.

Na maior sala do auditório da Mobilização Global de Progressistas (GPM), José Luís Zapatero, ex-primeiro-ministro espanhol, interveio a dizer que esta é a “cimeira progressista internacional mais importante deste século” e foi o primeiro a classificar este encontro de progressistas em Barcelona como um “momento histórico”.

Também Pedro Sánchez e Lula da Silva quiseram começar, naquela cidade espanhola, uma nova História para a esquerda e para o centro-esquerda mundiais contra líderes de extrema-direita e da direita, como Donald Trump, Benjamim Netanyahu, abrangendo todos os que seguem os mesmos ideais: “É o começo de um movimento que tem de agir, todo o santo dia, durante toda a semana, todo o mês e durante 365 dias, por ano, para que restabeleça a democracia e o multilateralismo” no Mundo, afirmou Lula da Silva, no encerramento do encontro de dois dias.

O presidente brasileiro, de 80 anos, acompanhado da mulher, Janja da Silva que foi oradora num dos painéis, fez discurso mais emotivo e deixou a sala de cerca de 6500 pessoas a ouvir. Disse não haver entrado na política e viver na política para ver o Mundo como está e denunciou os verdadeiros culpados que “canalizaram a frustração das pessoas inventando mentiras e mais mentiras”. Numa altura em que a mulher do primeiro-ministro espanhol enfrenta uma acusação judicial, Lula da Silva saiu em defesa de Sánchez, concitando os aplausos da plateia.

“O nosso papel é apontar o dedo aos verdadeiros culpados: um punhado de milionários concentra a maior parte da riqueza mundial, quer que as pessoas acreditem que qualquer um pode chegar lá, alimentam a falácia da meritocracia, mas chutam a escada para que outro não tenha oportunidade de subir. Pagam menos impostos ou nada, exploram o trabalhador, manipulam algoritmos”, defendeu o presidente brasileiro.

Ao longo da conferência de dois dias, defender os impostos sobre os super-ricos foi uma das ideias mais evidentes, mesmo entre os democratas norte-americanos, e integra uma das conclusões da declaração final: “Nós defendemos economias onde todos contribuem uma parte justa. Uma taxa sobre bilionários é justa e um imperativo democrático”, lê-se.

Não é admissível que 1% da população mundial detenha dois terços ou mais da riqueza total e mais de metade da população tenha de se limitar a sobreviver. Não podemos tolerar a piada análoga, bem realista, plasmada no jornal Público, de 19 de abril, que infere que é importante que esses consigam sobreviver, porque “o 1% dos mais ricos precisa de quem os sirva”. Este enunciado trouxe-me à memória a defesa da existência de escravos por Aristóteles, para que nós possamos dedicar-nos à filosofia. De facto, ainda hoje, muita gente dita ilustrada prefere renunciar ao pensamento em favor do trabalho e os chefes que pensem. Aliás, ouvi isto de uma professora de Matemática: “A diretora pensa e nós trabalhamos.”

Na cimeira de líderes de esquerda e centro-esquerda “Em defesa da democracia”, Pedro Sánchez, considerado o líder antidireita, defendeu que devia partir-se para uma reforma da ONU e que esta organização mundial deveria ser liderada por uma mulher, depois de António Guterres terminar o mandato, no próximo ano. Na verdade, nunca a ONU foi liderada por uma mulher e muito poucas têm sido as candidatas ao cargo de secretário-geral.

Lula da Silva vincou a ineficácia da instituição no seu objetivo essencial: evitar a guerra e dirimir conflitos. O líder brasileiro, olhando para o que está a acontecer no Mundo, conclui que  “a querida ONU, criada depois da Segunda Guerra Mundial, se transformou nos cinco senhores de guerra”.

Efetivamente, o Conselho de Segurança integra, a nível permanente, cinco grandes potências que gozam, inexplicavelmente, do direito de veto: os Estados Unidos da América (EUA), a Rússia, a França, o Reino Unido e a China.  E o presidente brasileiro pediu a Donald Trump, a Vladimir Putin, a Emmanuel Macron, a Keir Starmer e a Xi Jin Ping que parem com as guerras. “Pelo amor de Deus, cumpram com as suas obrigações de garantir a paz no Mundo. Convoquem uma reunião e parem com essa loucura de guerra, porque o Mundo não comporta mais”, bradou.

É certo que muitas organizações criadas pela ONU ou com ela conexas têm funcionado. Lembro, por exemplo, os programas alimentares, o apoio aos refugiados, o apoio à agricultura e à alimentação, às crianças, à saúde, à ciência, educação e cultura e, obviamente, a ajuda humanitária diversificada em zonas de conflito. E a Assembleia Geral (AG) das Nações Unidas constitui um areópago onde são escalpelizados os vícios que infestam o orbe terrestre.

Não obstante, no atinente à paz e aos conflitos, António Guterres é parceiro dos papas a falar para surdos. E, quando o Conselho de Segurança é convocado para tomar posição num conflito armado, tudo vai por água abaixo, se um dos grandes opõe o veto.

Seguindo as notas dos conferencistas, a declaração final da cimeira defende que é essencial reformar a ONU, para reforçar o multilateralismo, para tornar a governação mundial mais justa e eficaz e para responder às crises modernas, como as crises climáticas, as pandemias e os conflitos. Não é admissível que a ONU se tenha reduzido, por culpa do Conselho de Segurança, a mero espectador de uma guerra mundial em pedaços, como é inacreditável que uma das potências mais poderosas tenha decidido cortar o financiamento à maior parte das organizações que têm levado por diante a consecução dos objetivos da ONU ou como Donald Trump foi capaz, com a ajuda de muitos, a constituir um Conselho da Paz, a princípio, para Gaza e que chegou a pretender substituir a ONU ou a subalternizá-la.

A importância da ONU acabou por ser um dos pilares da declaração final da cimeira, uma vez que a instituição, no âmbito do multilateralismo mundial e do respeito pelos direitos humanos e pela paz, está “sob ataque”. “Um movimento internacional reacionário quer substituí-la por um Mundo de divisões entre nações e pessoas; um Mundo guiado por relações transacionais, um Mundo em que o bem comum é destruído”, lê-se.

O primeiro passo foi dado em Barcelona. A próxima reunião será no México, em 2027.

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Como referimos, o primeiro-ministro espanhol aproveitou a intervenção na cimeira para defender uma ONU mais representativa e para sublinhar a liderança feminina como forma de reforçar a sua credibilidade. Não se trata de folclore, mas de questão de justiça, de equidade e de credibilidade. De facto, já passou o tempo da subalternização da mulher na sociedade e na política. O estabelecimento de quotas femininas nas leis, embora tenha sido necessário, é uma vergonha. “Sabemos que o sistema multilateral precisa de ser renovado, com urgência […] consideramos que chegou o momento de as Nações Unidas serem renovadas, reformadas e, porque não, claro que sim, dirigidas por uma mulher”, afirmou Sánchez na abertura da cimeira, que reuniu em Barcelona cerca de 20 de líderes progressistas de vários continentes.

Na sua intervenção, o chefe do executivo espanhol alertou para os “ataques ao sistema multilateral”, para as tentativas de “pôr em causa as regras do direito internacional” e para a “perigosa normalização do recurso à força”. Na sua ótica, o principal risco atual é que “a democracia se esvazie por dentro, enquanto é atacada desde fora”, pelo que frisou que a resposta não pode limitar-se a resistir. “A nossa resposta não pode ser meramente defensiva; não basta resistir. Temos de propor, liderar e mostrar que a democracia não só se defende, como se fortalece e melhora todos os dias”, disse.

Pedro Sánchez defendeu uma ONU adaptada às realidades do século XXI, capaz de liderar um multilateralismo “mais eficiente, transparente, democrático, inclusivo e representativo”. Reiterou a defesa de que uma mulher suceda a António Guterres à frente da organização, uma ideia que já tinha apresentado em anteriores fóruns internacionais.

O chefe do governo espanhol voltou a centrar atenções na governação digital e no impacto das redes sociais, alertando para os riscos de permitir que “a desinformação molde as nossas sociedades ou que os algoritmos premiem o ódio, a polarização ou as mensagens violentas”. “A tecnologia pode ser uma ferramenta de progresso, mas, sem regras, divide e torna-nos mais dependentes”, concluiu.

A cimeira abordou também a luta contra a desigualdade e a defesa do multilateralismo como eixos centrais para reforçar as democracias, face ao crescimento de discursos extremistas e à normalização da violência.

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O diálogo interativo com os quatros candidatos a secretário-geral da ONU arranca no dia 21 de abril, num processo que moldará o futuro do multilateralismo e que pode levar, pela primeira vez, à eleição de uma mulher. Cada candidato teve de ser oficialmente indicado por um Estado ou grupo de Estados, mas não necessariamente pelo seu país de origem. Todas as sessões de diálogo interativo serão transmitidas online e decorrerão na sala do Conselho de Tutela das Nações Unidas, um dos seis principais órgãos da organização, em Nova Iorque. Cada candidato apresentará a sua declaração de visão para a organização, responderá às perguntas dos estados-membros e interagirá com entidades da sociedade civil.

A sessão de cada candidato terá três horas de duração, período que será dividido, numa primeira fase, em torno das declarações de visão pessoal e das competências de gestão do candidato. Na segunda parte, serão abordados três pilares: a paz e a segurança, o desenvolvimento sustentável e o clima, e os direitos humanos.

Em consonância com a tradição de rotação geográfica, nem sempre observada, a posição de secretário-geral da ONU está a ser reivindicada pela América Latina, aduzindo que ignorar essa tradição quebraria o pacto informal que mantém o equilíbrio geográfico da ONU. Porém, muitas nações africanas sustentam que António Guterres (da Europa Ocidental) representou uma interrupção, em 2016 (informalmente, era a vez da Europa Oriental), ficando o ciclo quebrado, e alegam que o fardo da manutenção da paz de África confere ao continente o direito de liderar. E muitos países pretendem que uma mulher ocupe o cargo, desta vez.

Os 15 membros do Conselho de Segurança devem iniciar o processo de seleção até ao final de julho. É por recomendação do Conselho de Segurança (realizará votações secretas, até chegar a consenso) que a AG elegerá o secretário-geral para um período de cinco anos, renovável por mais um mandato. Os cinco membros do Conselho com poder de veto devem acordar num candidato. O Conselho adotará uma resolução (precisa de nove votos a favor e nenhum veto para ser aprovada), a portas fechadas, recomendando uma nomeação para a AG.

Embora se presuma que a resolução conterá o nome de um único candidato (por convenção, não escrita, de 1946), cresce o apelo para que o Conselho apresente à AG dois ou mais candidatos. A AG, assim como líderes mundiais através do Pacto para o Futuro, incentivou todos os Estados a considerarem a nomeação de candidatas mulheres.

A carta de competências exige que o próximo secretário-geral demonstre fortes capacidades de liderança, dedicação e eficácia, com experiência em estruturas de governação, assim como em relação à ONU e à gestão da instituição, à luz das reformas.

Embora a escolha do secretário-geral da ONU seja sempre momento de grande atenção no universo dos assuntos multilaterais, esta eleição surge em tempo de grave crise multidimensional da instituição, que tem em risco a sua influência e orçamento. E, apesar dos esforços do secretário-geral para convencer o Mundo de que a ONU é, hoje, mais vital do que nunca, tem a sua influência desacreditada e o seu pleno funcionamento em risco, devido aos cortes de financiamento de nações, como os EUA, país que acolhe a sede da instituição e o seu maior doador.

Duas mulheres e dois homens mantêm-se na disputa pelo cargo de secretário-geral da ONU e serão ouvidos, a partir do dia 21, pelos estados-membros, dando início a um processo que será histórico, se a liderança eleita resultar feminina.

A ex-presidente chilena Michelle Bachelet, médica de 74 anos, entrou na corrida à liderança da ONU, através da nomeação conjunta do Chile, do México e do Brasil, mas o seu país de origem desistiu de a apoiar, na sequência da eleição do governo de extrema-direita de José Antonio Kast. Foi a primeira mulher presidente do seu país e é a mais politicamente destacada dos quatros candidatos. Porém, tem dois adversários de peso, a China e os EUA.

O diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), Rafael Mariano Grossi, de 65 anos, é diplomata argentino com 40 anos de experiência em diversas áreas, incluindo paz e segurança, não proliferação e desarmamento, e desenvolvimento internacional. Chegou à corrida, através da nomeação da Argentina. E é um dos diplomatas argentinos mais respeitados, além de ser especialista em Relações Internacionais e em História e Política Internacional. Porém, recusou renunciar ao cargo na AIEA, enquanto concorre à liderança da ONU, contrariando a resolução da AG que pede aos funcionários da ONU que considerem suspender funções durante a campanha, para evitar conflitos de interesse.

A costa-riquenha Rebeca Grynspan, de 70 anos, suspendeu a liderança da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) quando se tornou candidata à sucessão de Guterres. Economista, a ex-vice-presidente da Costa Rica – país que a nomeou oficialmente – e a primeira mulher a liderar a UNCTAD, em 60 anos de História, é líder experiente em instituições internacionais. Na sua declaração de visão para a ONU, afirmou que a confiança nas Nações Unidas está a diminuir e que é necessária coragem para a mudar e para restaurar a crença na capacidade da organização de promover a paz e o desenvolvimento.

O ex-presidente senegalês Macky Sall, de 64 anos, entrou na corrida, após a nomeação do Burundi, sendo a candidatura mais polémica, a qual não foi apresentada pelo Senegal, porque Macky Sall é acusado pelos dirigentes do país de ter ocultado dados económicos importantes, como a dívida pública. E a União Africana (UA) recusou apoiar a candidatura, por ter sido rejeitada por 20 dos 55 estados-membros da organização. Porém, os apoiantes julgam-no capaz de conduzir negociações multilaterais em nome do continente, ao passo que os detratores criticam-no pela repressão aos protestos da oposição. A falta de apoio em África enfraquece a influência do continente no processo de seleção .

Na declaração de visão para o cargo, afirmou que a ONU precisa de ser reformada, simplificada e modernizada.

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Será, desta feita reformada a ONU? Caminharemos para mais democracia?