Kristina
Tikhonova, diretora-geral da Microsoft para a Europa do Sul (‘multi-country
cluster’), participou no evento “Building the Future 2026” da Microsoft,
que se realizou em Lisboa, nos dias 12 e 13 de março.
Em
entrevista ao jornalista Ricardo Simões Ferreira, do Diário de Notícias
(DN), publicada a 14 de março, analisou a viragem tecnológica do país e
a estratégia para o transformar num “hub” digital de referência, vincando que “Portugal
está a bater-se acima do seu peso” na inteligência artificial (IA) e, aludindo
ao acordo ibérico para o digital, que avalia como “algo positivo”, observou que
“o progresso não acontece em isolamento”.
Sublinha
o jornalista que os dados do “Estudo de Impacto Económico e Social do
Ecossistema Microsoft em Portugal”, da EY, “desenham o retrato de um país em
plena aceleração”. Nestes termos, “o ecossistema da Microsoft gera, hoje, 7,3
mil milhões de euros para a economia nacional, um valor que deverá ascender aos
nove mil milhões de euros, assim que o investimento em Sines – que arranca com
a instalação de 12600 GPU [o GPU ou VPU, a unidade de processamento gráfico ou
visual] – atingir a velocidade de cruzeiro. Com um retorno de 9,6 euros, por
cada euro investido, e a sustentação de 35 mil postos de trabalho, Portugal
afirma-se como um fast follower da tecnologia que está a
revolucionar o Mundo, ao adotar IA a um ritmo superior à média mundial”,
explicita Simões Ferreira, citando Kristina Tikhonova.
Da
entrevista em apreço, selecionam-se os aspetos mais significativos.
Sobre
o modo como a Microsoft, que sustenta 35 mil empregos, em Portugal, garante a IA como capacitador dos
trabalhadores e não como fator de exclusão, por falta de competências, a
entrevistada defende que o impacto económico da IA, como tecnologia de uso
geral, “virá da adoção e [da] difusão” da parte de pessoas e nações, não só dos
inovadores. Assim, o Copilot [IA generativa da Microsoft integrada nos seus
produtos e serviços] é a forma como se põe a IA no fluxo de trabalho, isto é, o
“Work IQ” – uma interface de IA para cada pessoa, que representa “uma mudança
de cultura”.
Do
impulso a tal mudança, mormente, a nível das lideranças portuguesas, Kristina
Tikhonova, diz que o valor da IA goza do reconhecimento geral. E, mudando “o
foco da produtividade genérica para os KPI [Key Performance Indicators /
indicadores-chave de desempenho] centrais do negócio – como receita, por
vendedor, resolução de problemas à primeira ou ciclos de inovação – o valor
torna-se evidente”. É, pois, “o momento de viragem para os líderes”.
Em
relação ao que fazem as “Frontier Firms” de diferente, para lograrem o retorno
de quase dez euros, por euro investido em soluções Microsoft, aponta a “distribuição
de ROI [Return of Investment / retorno do investimento] muito
variável”, de modo que, enquanto a média [global] é de 3,5 dólares, por cada
dólar investido, em Portugal chega-se aos 9,6 dólares. E, como refere a entrevistada, empresas com maior ROI têm
padrões comuns: abandonaram os usos genéricos em prol de processos de negócio
centrais e industriais; e “escalam a IA por, pelo menos, sete funções de
negócio, desde o produto e inovação até ao serviço ao cliente”.
Considera
que a IA generativa pode ser o “atalho” para a Europa do Sul fechar a lacuna
histórica de produtividade. Com efeito, a Microsoft prevê, para a Europa, o “aumento
líquido do PIB [produto interno bruto] de 2,5%. Para tanto, são necessários
três pilares: “permissão social”, ou seja, confiança das pessoas “na segurança
e [na] governação da tecnologia; “formação” (em Portugal, já se formaram 1,5
milhões de pessoas, mas precisa-se de “especialistas em cibersegurança e dados”);
e os “dados”, “consistentes e preparados na nuvem”.
Questionada
sobre se a infraestrutura e a nossa realidade estão preparadas para o salto,
respondeu que “ainda há caminho a percorrer, mas há um bom impulso
governamental”, sendo crucial “definir regras, como a política cloud-first em
concursos públicos”. Assim, na sua ótica, “o governo deve servir de modelo,
implementando a IA e definindo as normas para o mercado”. Contudo, Portugal é
um “fast follower” (seguidor rápido), uma posição positiva. E, com a difusão de
IA de 24,2%, supera a média mundial (16%).
Quanto
à forma de convergência dos planos do “hub” de dados ibérico, acordados na
Cimeira Ibérica no fim de semana anterior, com o investimento de 8,6 mil
milhões de euros da Microsoft em Sines, a diretora-geral considera que “a IA
define a competitividade nacional”; que o país “é um exportador líquido de TI
[Tecnologias da Informação] e, ao juntar forças com Espanha”, se torna “ainda
mais forte”; que Portugal tem os ingredientes ideais: “rede elétrica robusta,
energia verde, conectividade submarina e talento”; e que, em seu entender, “está
a bater-se acima do seu peso”. Assim, sustenta que o “investimento em Sines,
que arranca com a instalação de 12600 GPU, vai amplificar este papel”. E
conclui que “o progresso não acontece em isolamento”, mas na “colaboração”.
No
atinente às estratégias de soberania digital da União Europeia (UE), sublinha a
importância do equilíbrio o entendimento da soberania como “definição feita
pelo cliente”. Nestes termos, a Microsoft oferece um “continuum” de soluções: “desde
a nuvem pública com encriptação soberana até nuvens locais ou totalmente
desligadas” e o cliente “decide o que é a soberania para si: privacidade de
dados, cibersegurança ou inovação em ecossistema fechado”.
Confrontada
com a questão se as regras europeias, como o AI Act, têm em conta este cenário,
observa que isso está a moldar-se e explica: “O AI Act foca-se na regulação,
mas a discussão sobre soberania continua ativa. O nosso papel é garantir que a
soberania não signifique falta de escolha, oferecendo um leque completo de
opções técnicas.”
Sobre
as “Mulheres na Tecnologia” e se pode a IA mitigar o enviesamento que perpetua
estereótipos de género, como revela um estudo recente, diz acreditar na
possibilidade do uso da tecnologia “para chegar a decisões mais justas e
imparciais do que as humanas”, pois o enviesamento não é “efeito secundário
inevitável”, apenas reflete quem cria as soluções e os dados escolhidos.” Assim,
com equipas e conjuntos de dados diversificados, mitiga-se o risco. “Temos
princípios de diversidade ‘por design’ e ferramentas técnicas para verificar a
segurança e imparcialidade das soluções. Investimos fortemente na formação de
mulheres em IA porque acreditamos que podemos tornar o Mundo mais justo”,
rematou.
***
A
Agenda Nacional de Inteligência Artificial (ANIA) e o seu modelo de governação
foram aprovados pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 2/2026, de 8
de janeiro, que surge na sequência da
aprovação da Estratégia Digital Nacional (EDN) pela Resolução do Conselho de
Ministros n.º 207/2024, de 30 de dezembro, que “estabeleceu a visão e os
objetivos estratégicos para posicionar Portugal entre os países líderes em
transformação digital na Europa, até 2030”.
A
EDN definiu 16 iniciativas estruturantes, entre as quais ressalta a Iniciativa
n.º 10, a Agenda Nacional de Inteligência Artificial (ANIA) – compromisso reforçado
no Programa do XXV Governo Constitucional, para finalizar e implementar a ANIA.
A
ANIA, que mais não é do que pôr a IA ao serviço da sociedade e da
competitividade de Portugal,
enquadra-se
na Ação #20 do Plano de Ação 2026-27 da EDN, assumindo-se como o principal
instrumento para operacionalizar a ambição nacional em IA. E visa alavancar a
IA, de forma ética e responsável, para aproximar o país da vanguarda da
competitividade e da produtividade europeias, garantindo que este avanço tem
impacto positivo na sociedade e em valor público – melhores salários, melhores
serviços públicos e maior qualidade de vida.
No
portal do governo, lê-se que a ANIA “é operacionalizada através de 32
iniciativas, envolvendo políticas públicas, ao longo de todo o ecossistema –
universidades, centros de investigação, empresas (incluindo startups) e
Administração Pública [AP]”.
A
nível de infraestrutura e de dados, visa garantir que o país “desenvolve
capacidade computacional estratégica e uma economia de dados robusta, reduzindo
a dependência externa”.
Na
inovação e na adoção, há que “proteger a
investigação fundamental de IA e acelerar a adoção de IA, em toda a economia”,
particularmente, na AP e nas pequenas e médias empresas (PME).
No
âmbito do talento e das competências, importa “garantir que Portugal forma,
atrai, mobiliza e retém talento à escala necessária para sustentar a
competitividade do país”.
Por
fim, em termos de responsabilidade e de ética, pretende-se “promover o
ecossistema de investigação e de desenvolvimento de IA responsável e um regime
regulatório eficaz e eficiente, que protege os cidadãos e permite a inovação
das empresas”.
***
A
8 de janeiro, o Expresso online publicou um artigo das jornalistas
Juliana Simões e Elisabete Miranda intitulado “Governo lança Agenda Nacional de
IA: ‘Acredito que teremos grandes ganhos de produtividade”, diz Gonçalo Matias’,
em que explicam o alcance da ANIA.
Referem
que ação é para desenvolver entre 2026 e 2030 e que a sua agenda “prevê um
investimento de 400 milhões, através de fundos europeus e, combinada com a
agenda digital e [com] o plano para as competências digitais, permitirá injetar
na economia cerca de mil milhões de euros, nos próximos anos”, de forma que Gonçalo
Matias, ministro de Estado e da Reforma do Estado, confia que estas medidas,
conjugadas com outras políticas públicas, permitirão colocar “Portugal no
mapa dos países relevantes na inteligência artificial” e aumentar a
produtividade da economia portuguesa.
Uma
das prioridades do plano de ação é o aumento da capacidade computacional
do país, num contexto em que a procura por computação cresce, “a um ritmo sem
precedentes, na ordem dos 41%, ao ano, para Portugal, e 21%, para a Europa”. No
entanto, Portugal “enfrenta limitações na sua infraestrutura tecnológica e na
capacidade de gerir e utilizar dados em escala”.
Para
garantir que o país consegue desenvolver e aplicar sistemas avançados de IA sem
depender excessivamente do exterior, o plano prevê o reforço do Deucalion, o
supercomputador nacional de alto desempenho, com início no segundo semestre de
2025, de modo a “suportar o treino de modelos avançados de IA e projetos de
investigação de grande escala”. Em paralelo, o governo vinca a intenção de
atrair e de instalar uma gigafactory de IA, em Portugal, decisão que
depende da candidatura a um projeto da Comissão Europeia
Outra
prioridade é garantir que as empresas saltam para o comboio da IA, e não ficam
para trás.
De
facto, a adoção de IA no tecido empresarial é ainda reduzida, sobretudo, entre
as PME: Só 9,4% das pequenas empresas utilizam IA, contra 18,2% das médias e
49,1% das grandes”, apesar de as PME representarem “67% do valor acrescentado e
76% do emprego”.
O
plano contempla o financiamento de centros de IA organizados por setor,
que juntam universidades, empresas e entidades públicas para desenvolver
soluções concretas de IA, e a criação da plataforma PME.IA.
Com
a procura por profissionais de IA a crescer mais de 20%, ao ano, uma das
propostas do governo é a criação de um AI Fast Track – regime acelerado de
vistos destinado a investigadores e a profissionais altamente qualificados em
áreas de IA.
A
estratégia inclui a expansão e o reconhecimento de microcredenciais e de cursos
técnicos superiores profissionais orientados para carreiras em IA, a partir do
primeiro semestre de 2026, criando percursos curtos e profissionalizantes. A
estes instrumentos junta-se a expansão da iniciativa goPortugal, com parcerias
internacionais destinadas a promover transferência de conhecimento e apoiar
spin-offs deeptech (novas empresas criadas a partir de investigação científica
ou tecnológica avançada) ligadas à IA.
Outro
foco é o da AP. Gonçalo Matias lembra que “o excesso de burocracia, a lentidão
dos processos e a lentidão da decisão têm afastado muito investimento”, e a IA
é vista como um grande aliado neste processo, podendo gerar um ganho de
produtividade de 1,2 mil milhões de euros, numa década. Assim, neste domínio, o
plano prevê a criação de um centro
de excelência em IA na AP, com início previsto no primeiro semestre de
2026, e o lançamento de concursos nacionais de IA para a AP, também a
partir do primeiro semestre de 2026.
Os
estudos do governo indicam que a IA pode ter um impacto, na próxima década,
entre 18 e 22 mil milhões no PIB, equivalente a 2,7% de contributo para o
crescimento económico.
***
Em
suma, a IA atravessa, em Portugal, um momento de aceleração estratégica. Os seus
pilares são: os serviços públicos, em que urge implementar IA na AIMA (Agência
para a Integração, Migrações e Asilo) e outros serviços, para automatizar
tarefas e para acelerar processos de vistos e de nacionalidade; a
infraestrutura, pela expansão da supercomputação nacional, reforçando o
supercomputador Deucalion, para suportar o treino de modelos
avançados de IA; e o apoio à formação, ressaltando a criação do
programa ‘Cheque Formação + Digital’, que pode pagar até 750 euros a
trabalhadores para cursos na área da IA.
É
de ter em conta o impacto nas empresas e na economia. Já cerca de 41% das
empresas portuguesas utilizam IA nas suas operações; estima-se que a
adoção plena da IA impulsione a economia nacional em 61 mil milhões de
euros; a IA já está a ser usada, para reduzir desperdícios e para colmatar a
falta de talento especializado, embora o país ainda enfrente o desafio de
escalar estas soluções para todas as PME; e Portugal participa numa das
primeiras “fábricas de IA” da Europa, visando atrair investimento
tecnológico.
A
nível da promoção da literacia e IA na sociedade, é de considerar que, em 2025,
os Portugueses superaram a média da UE, na utilização de ferramentas de IA
generativa; que Portugal lidera, na Europa, no atinente à aprovação dos
trabalhadores, com 90% a verem a tecnologia de forma positiva; e que
o Banco de Portugal (BdP) lançou a ALYA, uma plataforma própria de IA
para melhorar o serviço ao cidadão.
Porém,
apesar do entusiasmo, relatórios recentes alertam para o risco de Portugal “perder
a vaga” se não acelerar a integração da IA em setores tradicionais, se não
resolver a escassez de infraestruturas de grande escala (como gigafábricas de
IA) e se não conseguir persuadir a Comissão europeia para a aprovação das candidaturas
a projetos que dependam de Bruxelas.
Será,
desta vez, que a AP se libertará da
burocracia e da ineficiência, a economia crescerá quanto deve e a produtividade
e a competitividade marcarão o país? Veremos.
Todavia,
não é crível que as decisões de IA sejam mais justas e imparciais do que as dos
humanos, pois as máquinas podem ter inteligência, mas não têm consciência (nem
sentem) e são mais passíveis do reflexo condicionado. E será mau, se a IA
provocar a dispensa do fator humano.
2026.03.14
– Louro de Carvalho