Uma
equipa do Instituto de Estudos Sociais Avançados (IESA-CSIC) e de várias universidades
espanholas, portuguesas e britânicas concluiu que o coelho-europeu reúne duas
espécies distintas, separadas há dois milhões de anos, uma delas em declínio e
própria de Portugal e de Espanha. Todavia, segundo os cientistas, reconhecer
esta diversidade “não significa descobrir um animal novo e desconhecido, mas
classificar, corretamente, uma linhagem já identificada, concedendo-lhe o
estatuto apropriado, para travar a sua extinção por substituição”.
A
este respeito, o jornalista Jesús Maturana, em artigo publicado, a 18 de julho,
pela Euronews, intitulado “Cientistas concluem: Portugal e Espanha têm
uma espécie própria de coelho”, revela que um estudo publicado na revista Biological
Conservation vem pôr em causa a ideia, assumida pela comunidade científica,
durante mais de um século, de que, na Península Ibérica, existia só uma espécie
de coelho, com, no máximo, duas variantes regionais. Agora, com
base na teoria das espécies crípticas, descobriu-se que falar do coelho, na Península
Ibérica, é tratar de “duas espécies com histórias evolutivas distintas:
duas linhagens, uma única designação”.
Espécies
crípticas são duas ou mais espécies distintas que são tão semelhantes na
aparência que são classificadas, erroneamente, como uma única espécie. Embora
morfologicamente idênticas, apresentam diferenças genéticas, comportamentais,
ecológicas ou reprodutivas e pertencem a linhagens evolutivas separadas.
O
fenómeno ocorre porque populações da espécie original se separam (geralmente,
por barreiras geográficas) e evoluem, de forma independente, ao longo de
milhares de anos. Embora acumulem diferenças no ADN (ácido desoxirribonucleico),
no canto de acasalamento ou na fisiologia, a aparência física não muda, ou muda
tão pouco que passa despercebida a olho nu.
A
sua identificação exige o uso de técnicas avançadas de taxonomia, destacando-se
o uso de marcadores genéticos e a análise molecular do Código de Barras de ADN.
Exemplos conhecidos incluem certos anfíbios, insetos e até mamíferos cujas
diferenças são detetadas pela análise acústica ou por estudos de filogenia.
O
estudo “When taxonomy lags behind evolution: Consevation implications of
cryptic diversity in the Iberian rabbit”, coordenado por Rafael Villafuerte e
Miguel Delibes-Mateos, em colaboração com investigadores do grupo TRAMAS,
distingue coelho ibérico “Oryctolagus algirus” (O. algirus) de coelho
europeu “Oryctolagus cuniculus” (O. cuniculus). O primeiro ocorre,
naturalmente, em Portugal e no Oeste de Espanha; o segundo domina o Leste da
Península e está na origem das populações introduzidas na Europa, na Oceânia e
na América, onde se comporta, muitas vezes, como espécie invasora.
Diz
Jesús Maturana que ambos os animais divergiram, há aproximadamente dois milhões
de anos, quando ficaram isolados em refúgios distintos, durante os períodos
glaciais: um, no vale do Ebro, e outro, no golfo de Cádis, quase não se tendo voltado
a cruzar, de forma significativa, apesar de, à primeira vista, serem muito
semelhantes.
As
diferenças não se limitam ao genoma, pois o O. algirus é mais pequeno, tem
pelame mais escuro, orelhas e patas traseiras mais curtas, ninhadas menos
numerosas e maturação sexual mais precoce do que o O. Cuniculus. E diferem
no microbioma intestinal, na composição da carne e nas comunidades de parasitas
que hospedam. Nas palavras de Villafuerte, “as duas espécies sempre estiveram
aí, o que mudou foi o nosso conhecimento sobre elas”.
Os
próprios autores citam precedentes: “Algo semelhante aconteceu com as
girafas, agrupadas numa única espécie, até que a genómica revelou que eram
afinal quatro, ou com os elefantes-africanos, hoje divididos em espécie de
savana e espécie de floresta.”
Segundo
os investigadores, esta descoberta é importante, pois, enquanto o coelho
europeu mantém populações estáveis ou em crescimento, em grande parte da sua
área de distribuição, chegando a provocar prejuízos agrícolas, em algumas
regiões, o coelho ibérico atravessa um declínio acentuado (em mais de 50%)
em Portugal e no Sudoeste de Espanha. Ora, gerir ambos como se fossem uma única
espécie tem ocultado a gravidade dessa queda.
As
repovoações cinegéticas costumam introduzir exemplares de coelho europeu, mais
abundante e prolífico, em áreas onde antes só existia o coelho ibérico, o que acelera
a sua substituição, pela competição e pela hibridação. E Delibes-Mateos adverte:
“Não podemos continuar a gerir como uma só espécie dois coelhos que evoluíram
separadamente, durante quase dois milhões de anos.”
A
questão vai para lá do próprio animal. O coelho é presa de até 40 espécies
de predadores, entre eles, o lince ibérico e a águia imperial, pelo
que o seu estado de conservação condiciona o de grande parte da fauna
mediterrânica.
Reconhecer,
formalmente, as duas espécies permitiria, segundo os investigadores, criar
programas de monitorização, planos de recuperação e normas de caça
específicas para cada linhagem, em vez de aplicar critérios concebidos
para apenas uma delas.
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Observam
os investigadores que “a delimitação de espécies baseada na morfologia
tradicional subestima, frequentemente, a biodiversidade”, pois “muitas espécies
nominais compreendem táxons crípticos distinguíveis, apenas, por evidências
genéticas ou por outras evidências não morfológicas”. Ora, “avanços na genética
molecular, filogenómica, bioacústica, morfometria geométrica e modelagem de
nicho ecológico transformaram a compreensão da biodiversidade e da especiação”,
mostrando que “uma divergência evolutiva substancial se pode acumular com pouca
diferenciação morfológica evidente”. Por conseguinte, as espécies crípticas são
cada vez mais reconhecidas como resultados comuns da diversificação evolutiva
em sistemas terrestres, de água doce e marinhos.
O
estudo sustenta que “os lagomorfos (coelhos e lebres) oferecem exemplos
particularmente esclarecedores de diversificação críptica, visto que “várias
linhagens morfologicamente conservadoras passaram por uma divergência evolutiva
substancial, durante as oscilações climáticas do Pleistoceno e em períodos de
isolamento geográfico”. Estudos moleculares revelaram uma diversidade
anteriormente não reconhecida tanto em Lepus (lebre-ibérica) como em Sylvilagus
(coelho-de-cauda-de-algodão), sugerindo que a taxonomia tradicional subestimou
a distinção evolutiva do grupo.
Os
lagomorfos constituem uma ordem de pequenos mamíferos herbívoros, que inclui os
coelhos, lebres e ocotonídeos, na qual se incluem duas famílias: Leporidae e
Ochotonidae. Os lagomorfos diferenciam-se dos roedores por terem quatro
incisivos na mandíbula superior, ao contrário dos roedores que têm apenas dois.
O
Oryctolagus cuniculus constitui um exemplo particularmente notável entre os
lagomorfos. Na Península Ibérica, a espécie divide-se, atualmente, em duas
subespécies: O. algirus e O. cuniculus. A domesticação originou-se,
exclusivamente, a partir de O. cuniculus, cujos descendentes assilvestrados
foram, depois, introduzidos em diversos continentes e em mais de 800 ilhas,
onde, não raro, se comportaram como pragas invasoras. Em contraponto, O.
algirus permanece restrito ao Sudoeste da Península Ibérica, com introduções
limitadas na Madeira e nos Açores.
Segundo
os investigadores, evidências genéticas e biogeográficas acumuladas nas últimas
três décadas indicam que essas linhagens divergiram, há aproximadamente dois
milhões de anos, e andam, desde então, isoladas, do ponto de vista reprodutivo.
Durante os ciclos glaciais do Pleistoceno, persistiram em refúgios distintos,
antes de se expandirem para uma estreita zona de contacto que, atualmente,
divide a Península a meio. Esse padrão é consistente com o papel da Península
Ibérica como um dos principais refúgios europeus do Quaternário, onde o
isolamento prolongado promoveu a diversificação em muitos grupos de vertebrados.
Por isso, utilizar os coelhos da Península Ibérica como estudo de caso e
examinar como o reconhecimento tardio da diversidade crítica pode distorcer
avaliações de conservação, desviar ações de manejo e, ambientalmente, acelerar
a perda de biodiversidade.
Em
conclusão, os investigadores consideram que as espécies crípticas são,
frequentemente, identificadas, principalmente, por meio da divergência
molecular. Porém, as duas linhagens de coelhos na Península Ibérica diferem não
apenas geneticamente, mas também em morfologia, na reprodução, no comportamento,
na ecologia e nas trajetórias demográficas. Essas múltiplas e independentes
linhas de evidência corroboram, fortemente, o reconhecimento do coelho-ibérico,
O. algirus, como espécie distinta do coelho-europeu, O. cuniculus, apesar da semelhança
morfológica. Por consequência, propõem o reconhecimento formal de O. algirus
para a linhagem ibérica, mantendo O. cuniculus para a linhagem do
coelho-europeu distribuída pelo Nordeste da Península Ibérica, pelo Sul da
França e em populações introduzidas em todo o Mundo. E sugerem que seja priorizada
uma reavaliação taxonómica formal.
Além
disso, sustentam que, em contexto mais amplo, “o caso desses coelhos reflete um
desafio maior na biologia da conservação”. Com efeito, “avanços na genómica
estão revelando uma diversidade oculta substancial em muitos táxons, enquanto
as estruturas de conservação baseadas na taxonomia histórica, muitas vezes, não
acompanham esse ritmo”. Em resultado disso, podem linhagens crípticas permanecer
não reconhecidas, levando as avaliações de conservação a superestimar a
viabilidade populacional, a extensão da distribuição geográfica e a resiliência
genética. Reconhecer e conservar a diversidade críptica tem implicações importantes,
pois a delimitação de espécies fundamenta as avaliações para a Lista Vermelha, para
a legislação sobre vida selvagem, para o planeamento de áreas protegidas, para a
restauração ecológica e para o financiamento da conservação.
“Portanto,
a incerteza taxonómica não deve justificar a inação na conservação”, advertem.
E,
considerando que, mesmo quando os limites das espécies estão em debate, o
princípio da precaução apoia a proteção de linhagens evolutivas diferenciadas,
sempre que múltiplas linhas de evidência indicam divergência a longo prazo,
advertem que “enfrentar esse desafio exigirá uma integração mais sólida entre
taxonomia, biologia evolutiva e conservação aplicada”. Por conseguinte, “as
instituições de conservação precisam de responder melhor às evidências genómicas,
adotando estruturas de avaliação dinâmicas, monitoramento específico por
linhagem e estratégias de manejo que preservem a integridade genómica e a
adaptação local”.
Em
última análise, na ótica dos investigadores, “o coelho-ibérico ilustra um risco
de conservação mais amplo na era genómica: a biodiversidade pode ser perdida
não apenas pela destruição de habitats, superexploração ou mudanças climáticas,
mas também por atrasos no reconhecimento e na proteção da própria diversidade
evolutiva”. Por isso, “conservar espécies crípticas, antes que desapareçam,
será essencial para salvaguardar o património evolutivo e a resiliência
ecológica da biodiversidade”.
***
Também
o WWF Espanha – que integra a rede WWF (World Wide Fund for Nature - Fundo
Mundial para a Natureza), a maior organização independente do Mundo
dedicada à proteção da Natureza e do meio ambiente – insta as autoridades
a considerarem as evidências científicas que justificam o reconhecimento
do coelho-ibérico (Oryctolagus algirus) como espécie distinta
do coelho-europeu (Oryctolagus cuniculus). Este avanço científico deve
traduzir-se em medidas urgentes para melhorar a sua conservação e para
evitar o desaparecimento de uma das espécies-chave dos ecossistemas
mediterrânicos.
Ambas
as populações eram consideradas uma única espécie, diferenciada em duas
subespécies. Porém, décadas de pesquisa mostram que se trata de duas
linhagens evolutivas independentes. Evidências genéticas, morfológicas,
ecológicas e biológicas corroboram o reconhecimento do coelho ibérico como
uma espécie distinta.
A
análise do genoma mostra que as duas linhagens divergiram, há
aproximadamente dois milhões de anos. O grau de diferenciação genética é
comparável ao encontrado em outras espécies reconhecidas,
como girafas ou elefantes africanos.
Além
disso, as duas espécies apresentam diferenças visíveis e funcionais.
O coelho ibérico é menor, tem orelhas e patas traseiras mais curtas e
pelagem mais escura do que o coelho europeu. Também possui biologia
reprodutiva diferente, com ninhadas menores, maturidade sexual precoce e
período reprodutivo mais curto. Tais diferenças são acentuadas por variações no
microbioma intestinal e pela resistência a doenças, refletindo as suas
distintas histórias evolutivas. Contudo, apesar das diferenças, ambas as
espécies têm sido geridas, até agora, como um único grupo, situação que mascarou
o grave declínio sofrido pelo coelho ibérico.
Enquanto
as populações de coelhos europeus no Leste e no Nordeste da Espanha
permanecem estáveis ou até aumentam – causando danos significativos à
agricultura e infraestrutura –, o coelho ibérico enfrenta uma
situação crítica em Portugal no Sudoeste da Espanha. De facto, algumas de suas
populações diminuíram em mais de 50%, na última década.
Acredita
a WWF Espanha que esta descoberta tem implicações importantes na conservação,
pelo que insta as autoridades a adaptarem as práticas de gestão às necessidades
específicas de cada espécie, a aumentarem a atenção política e social ao
coelho-ibérico e a tomarem medidas urgentes para travar o seu declínio.
Também
alerta que a falta de reconhecimento taxonómico incentiva práticas
que podem agravar mais a situação. Já o reconhecimento do coelho-ibérico como
espécie distinta permite a avaliação adequada do seu estado de conservação,
o desenvolvimento de planos específicos de recuperação, a adaptação
das normas de caça e a prevenção de ações que comprometam o seu
futuro. Tratando-se de espécie fundamental nos ecossistemas mediterrâneos e
da principal presa de numerosas espécies ameaçadas, como o lince-ibérico e a
águia-imperial-ibérica, a sua conservação é essencial para garantir o
equilíbrio ecológico de grande parte da nossa riqueza natural. Por isso, a WWF
Espanha pretende que as autoridades a incorporem, rapidamente, os avanços
científicos nas políticas de conservação e adaptem os quadros
legais e os sistemas de avaliação às evidências científicas. Efetivamente,
não se pode permitir que a burocracia taxonómica se torne obstáculo a
impedir o desaparecimento de espécie única do património natural ibérico.
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O
estudo postula a revisão urgente das decisões relativas à gestão da fauna na
Península Ibérica e, em particular, em Portugal, nomeadamente, o
ajuste dos períodos e das quotas de caça, pois a dinâmica demográfica mais
lenta do coelho ibérico torna-o vulnerável à sobre-exploração. E apela à sensibilização
das comunidades de caçadores, dos gestores ambientais e dos decisores políticos
para a urgência de planos específicos de recuperação do coelho ibérico.
2026.07.18
– Louro de Carvalho