quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

ONU declarou 2026 Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores

 

A Organização das Nações Unidas (ONU) declarou 2026 o Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores, para salientar a importância das pastagens na criação de um ambiente sustentável, de crescimento económico e de meios de subsistência resilientes para as comunidades, em todo o Mundo. Assim, a iniciativa tem em vista sensibilizar para o valor das pastagens ​​e do pastoreio sustentável e promover esta atividade, bem como defender a necessidade de fortalecer mais a capacidade da pecuária pastoril e de aumentar o investimento responsável no setor.
Tal objetivo postula a adoção de práticas sustentáveis ​​de maneio da terra, a melhoria ou a restauração de ecossistemas, o acesso equitativo aos mercados e a saúde e a reprodução do gado. Como agência líder, a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) é responsável pela organização do Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores.
Por conseguinte, as celebrações da FAO mobilizarão ações e parcerias, a nível global, ao longo de 2026, para destacar dois dos pilares vitais dos sistemas agroalimentares: a gestão sustentável das pastagens e os contributos, muitas vezes invisíveis, das mulheres agricultoras. Com efeito, 2026 foi designado, por resoluções da Assembleia Geral da ONU, Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores (IYRP 2026) e Ano Internacional da Mulher Agricultora (AMIA 2026).
Teresa Silveira, em artigo intitulado “FAO declara 2026 o Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores e o ​​​​Ano Internacional da Mulher Agricultora”, publicado, a 3 de dezembro de 2025, na “Meteored Portugal”, referiu que a FAO agendara o início das duas comemorações das Nações Unidas para 2026, com eventos de lançamento de alto nível, na sua sede, nos dias 2 e 4 de dezembro de 2025, à margem do Conselho da FAO (1 a 5 de dezembro).
Durante o ano, a FAO quer mobilizar várias ações e parcerias, em múltiplos países, com vista a sublinhar os dois pilares vitais dos sistemas agroalimentares: a gestão sustentável das pastagens e os contributos, muitas vezes invisíveis, das mulheres agricultoras de todo o Mundo.
As pastagens cobrem, aproximadamente, metade da superfície terrestre e albergam uma biodiversidade única, assim como serviços de ecossistema, que são essenciais para milhões de famílias de pastores por todo o Mundo.
Os pastores gerem os recursos naturais, através da mobilidade, do conhecimento tradicional e de práticas adaptativas que promovem a coesão territorial e contribuem para a mitigação das alterações climáticas, para a fertilidade do solo e para a obtenção de meios de subsistência resilientes. Todavia, nem tudo funciona bem, no mundo rural. Por um lado, há pastagens de origem desastrosa, como as da floresta amazónica, por via dos incêndios, da desflorestação ao serviço dos grandes interesses privados e do aquecimento global. Por outro, a pastorícia enfrenta crescentes pressões decorrentes da conversão de terras, dos choques climáticos e da degradação ambiental, como relata a FAO, no comunicado que emitiu, ao anunciar 2026 como Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores.
Em Portugal, por exemplo, as pastagens são componente crucial da agricultura, ocupando cerca de 60% da superfície agrícola utilizada (SAU), sobretudo, com pastagens permanentes. E, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), de 2020, a área de pastagens permanentes, em Portugal, cresceu 14%, face ao último recenseamento agrícola (de 2009).
O evento de lançamento, pela FAO, do IYRP 2026 contou com o discurso de abertura, em 2 de dezembro, do diretor-Geral da FAO, QU Dongyu, seguido de declarações de alto nível, por parte de Khurelsukh Ukhnaa, presidente da Mongólia, e de Matías Carambula, vice-Ministro da pecuária, Agricultura e Pescas do Uruguai.
O programa incluiu dois painéis de debate com representantes de instituições de investigação, com organizações de pastores e com redes internacionais. Houve ainda uma exposição conjunta, que estará patente, durante quatro dias, no átrio da sede da FAO, em Roma (Itália).
No dia 4 de dezembro, a FAO promoveu a cerimónia de lançamento do Ano Internacional da Mulher Agricultora, que também é assinalado em 2026.
O evento, coorganizado pela Jordânia, pela Irlanda e pela FAO, incluiu o discurso de abertura do economista-chefe da FAO, Máximo Torero, declarações de alto nível de representantes do Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (FIDA) e do Programa Alimentar Mundial (PAM), um discurso da Princesa Basma bint Ali, embaixadora regional da Boa Vontade da FAO, e uma palestra de Sinéad McPhillips, secretária-geral do departamento de Agricultura, Alimentação e Marinha da Irlanda.
Tratou-se de um conjunto de palestras que pretendeu destacar as mulheres líderes de empresas rurais, de redes de agricultores e de órgãos parlamentares regionais. “As mulheres agricultoras são indispensáveis para os sistemas agroalimentares globais, contribuindo significativamente para a produção de alimentos, [para a] nutrição e [para as] economias rurais”, diz a FAO.
O evento inaugurou também uma exposição conjunta com o IYRP 2026, no átrio da FAO, em Roma, apresentando produtos, fotografias e performances de mulheres agricultoras e comunidades pastoris.
Para a FAO não há dúvidas: “As mulheres agricultoras são indispensáveis para os sistemas agroalimentares globais, contribuindo, significativamente, para a produção de alimentos, para a nutrição e para as economias rurais.” Apesar disso, a organização liderada por QU Dongyu sustenta que elas “continuam a enfrentar grandes barreiras no acesso à terra, ao financiamento, à tecnologia, à formação e aos espaços de decisão”.
O AMIA 2026 convoca, assim, os vários países do Mundo para ações transformadoras a fim de reduzir as desigualdades de género e de promover a liderança e o empoderamento das mulheres, em todos os sistemas agroalimentares.
Em Portugal, as mulheres estão a assumir um papel cada vez mais relevante na agricultura e na vitalidade das zonas rurais. Os dados divulgados pela Corteva Agriscience e pela Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), em novembro de 2025, dão conta que “33,3% das explorações agrícolas do país são, atualmente, geridas por mulheres”, uma proporção “um pouco acima da média europeia, que se situa nos 30,1%”.

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Como era de esperar, num país com forte apetência para o ruralismo, o ano em curso, ficará marcado por muitas iniciativas ligadas à Pastorícia e à Agropecuária. Destacam-se algumas.

O Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores será assinalado, em Castro Daire, com um conjunto de iniciativas dedicadas à valorização da transumância, das pastagens serranas e do modo de vida pastoril. Sob o tema “Nos Caminhos da Transumância, o Legado dos Pastores do Montemuro”, e no âmbito do evento “A Última Rota da Transumância”, o município promoverá, ao longo de 2026, atividades culturais, turísticas, gastronómicas e educativas, reforçando a ligação à Serra do Montemuro e às suas comunidades. Pretende, deste modo, valorizar os pastores, os produtos locais e o património imaterial, afirmando Castro Daire como um território autêntico, sustentável e profundamente ligado à sua identidade serrana.
De acordo com o comunicado oficial, o município já se tem afirmado como território de referência nacional, pela forma como preserva o seu património natural, cultural e imaterial, profundamente ligado à Serra do Montemuro e às comunidades que nela vivem e trabalham. Na verdade,  “aqui, a serra é mais do que paisagem – é identidade, tradição e memória coletiva, transmitida de geração em geração, através da sabedoria dos pastores e das práticas da vida rural.”
Em coerência com esta visão da realidade local e regional, o ano de 2026 constitui uma oportunidade para reforçar e para celebrar o caminho que o município de Castro Daire tem vindo a trilhar, ao longo dos últimos anos, na valorização da transumância, das pastagens serranas e do modo de vida pastoril. E, para tanto, foi gizado um vasto programa de atividades culturais, turísticas, gastronómicas e educativas alusivas ao tema, que unem o passado e o presente, a tradição e a inovação, a comunidade e o visitante.
Esta celebração, nos termos do referido comunicado, pretende dar voz aos protagonistas da serra, os pastores, valorizar os produtos locais, estimular o turismo sustentável e preservar o património imaterial que faz de Castro Daire um território autêntico e inspirador. Assim, o Montemuro será, novamente, “palco de histórias, [de] caminhos e [de encontros], num tributo vivo à identidade serrana e à força das suas gentes”.

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O PASTONATUR participou no primeiro evento realizado em Portugal  no âmbito do Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores, que reuniu, no dia 24 de janeiro, pastores de todo o Norte do país no Instituto Politécnico de Bragança (IPB).
O IPB é entidade de referência na investigação sobre o pastoreio e membro fundador do Centro de Competências do Pastoreio Extensivo (CCPE), o qual esteve representado, no encontro, pela Associação de Defesa do Património de Mértola (ADPM) – que tem desenvolvido projetos em Trás-os-Montes, em articulação com a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) –, membro do conselho executivo e uma das entidades parceiras do projeto internacional PASTONATUR.
O evento contou com a participação do Ministro da Agricultura e do Mar, José Manuel Fernandes, que reforçou o reconhecimento do governo pelo papel fundamental desempenhado  pelos pastores e a importância do seu trabalho para a coesão territorial. Na sua intervenção, anunciou um pacote de apoio de 30 milhões de euros destinado à pastorícia, com potencial para aumentar a atratividade da atividade e para promover a renovação geracional do setor.
O projeto PASTONATUR, financiado pelo programa Interreg Sudoe, foi apresentado, juntamente com outras iniciativas relevantes para a pastorícia, aos cerca de 130 pastores presentes no evento. A iniciativa pretendeu assinalar o início do AIP 2026, cujo objetivo é unir e valorizar o setor da pastorícia, bem como promover políticas públicas que assegurem a sustentabilidade das pastagens e dos pastores.
O objetivo PASTONATUR é conservar e restaurar a biodiversidade e mitigar as alterações climáticas, em sistemas agroflorestais de áreas protegidas do meio rural. Para tal, trabalha com a pecuária extensiva, tornando-a mais sustentável, bem como mais competitiva e rentável, através da valorização dos seus produtos e do apoio às suas empresas, para que possa perdurar e continuar a contribuir para a conservação dinâmica das áreas protegidas.
O IPB assinalou o arranque do AIP 2026) com a realização do “Jantar dos Pastores”, uma iniciativa de reconhecimento público da pastorícia e dos pastores do território transmontano. O evento, que decorreu na Escola Superior Agrária do IPB, em coorganização com CCPE, reuniu mais de 150 participantes, entre pastores, familiares, representantes institucionais e entidades regionais e nacionais, evidenciando o papel da pastorícia extensiva na identidade, na sustentabilidade e na coesão do território. 
Durante a sessão foram abordados temas centrais para o futuro da pastorícia, desde os desafios do exercício da atividade em territórios de montanha à renovação geracional e ao papel da investigação na valorização e sustentabilidade dos sistemas silvo-pastoris. José Manuel Fernandes felicitou o IPB pela organização do evento, ouviu as preocupações dos pastores e respondeu às questões colocadas pelos jornalistas. E, no final da sessão, juntou-se aos participantes no jantar, que decorreu na cantina dos Serviços de Ação Social do IPB. 
Satisfeito com a organização do evento que juntou, pela primeira vez em Bragança, pastores de vários pontos do país, Orlando Rodrigues, presidente do IPB realçou a importância simbólica de esta iniciativa decorrer na instituição que dirige e que, ao longo de décadas, tem desenvolvido trabalho científico próximo do território, em permanente diálogo com os pastores e atento às especificidades da sua atividade. 
A dimensão intergeracional da pastorícia e a necessidade de criar condições para o seu futuro ficaram patentes nas palavras de um jovem pastor de ovelhas do concelho de Vinhais, que partilhou as razões que o levaram a esta atividade, concilia a pastorícia com os estudos. Luís Miguel começou com o avô e gostou; teve sempre “amor” pelos animais; e, agora, sublinha a importância dos apoios públicos, como incentivo para que os jovens abracem esta profissão. 
Para o IPB, o momento reforçou o compromisso da instituição com o desenvolvimento sustentável das regiões de montanha, com a valorização do conhecimento tradicional, com a articulação entre ciência e prática e com o reconhecimento das comunidades que moldam o território. Integrado nas iniciativas nacionais que assinalaram o início do IYRP 2026, o “Jantar dos Pastores” – tradição entre os membros de um grupo privado na rede social Facebook, que conta com mais de sete mil inscritos – afirma Bragança e o IPB como espaços de referência na reflexão, na valorização e no futuro da pastorícia extensiva.

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A associação “Terra Maronesa” em parceria com outras entidades, nomeadamente o LIFE Maronesa, vai organizar um conjunto de atividades alusivas ao lançamento do Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores.

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Também a 17.ª edição das Jornadas Internacionais  Hospital Veterinário Muralha de Évora destaca como tema central, no âmbito da agropecuária, o Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores, efeméride proclamada pela ONU que reconhece o papel essencial dos ecossistemas de pastagem e dos sistemas de produção pastoril na segurança alimentar, na conservação da biodiversidade e na sustentabilidade dos recursos naturais. 

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Há pastores em todo o país. Contudo, há enormes extensões de território que estão, pura e simplesmente, abandonadas. O despovoamento do interior – acompanhado da área florestal ardida, da ausência de exploração agrícola e agropecuária, do encerramento de serviços públicos (ou que servem público) e da utilização, quase em exclusivo, de quintas para festas, nomeadamente, de casamento – oferece o panorama de um povo que vive, maioritariamente, da importação. Os dados do INE não traduzem uma percentagem sobre o território, mas apenas sobre a superfície agrícola utilizada (SAU), que é diminuta e mostra a crise agrícola.
Por isso, é urgente que os poderes públicos incentivem a pastorícia, a agricultura mecanizada, a produção agropecuária e a florestação ordenada, com a predominância de folhosas (por exemplo, castanheiros, carvalhos, sobreiros e azinheiras). A ocupação ativa do território é a melhor forma de defesa!

2026.02.04 – Louro de Carvalho

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Chefe da OCDE diz que os Europeus fariam bem em ouvir Mario Draghi

 

Mathias Cormann, secretário-geral da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) afirma que, apesar das tarifas aduaneiras, continua forte a apetência pelo comércio multilateral e que a Europa deve tomar nota das recomendações do antigo presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, para manter a “História de sucesso” da União Europeia (UE).
Na Cimeira Mundial dos Governos, no Dubai, Mario Draghi afirmou que a UE é uma “História de sucesso único”, mas que enfrenta desafios estruturais, num Mundo em mudança, onde o comércio multilateral e as regras internacionais estão a ser postos à prova.  
Na verdade, os dirigentes europeus e os representantes das empresas deslocaram-se ao Dubai, para uma das maiores reuniões mundiais, em que cerca de 150 governos e 500 ministros analisam a forma como os governos se podem adaptar e podem inovar, num Mundo em mudança.
Tanto o australiano Mathias Cormann como o italiano Mario Draghi foram convidados para a reunião e falaram com Maria Tadeo, editora de notícias da UE da Euronews, que também está no Dubai para esta ocasião.
De regresso à Bélgica, Mario Draghi lançou um alerta aos líderes europeus. A 2 de fevereiro, numa cerimónia na Universidade de Lovaina, o ex-presidente do BCE e ex-primeiro-ministro italiano disse que os países da UE não devem ter medo de se integrarem a diferentes velocidades, se isso for necessário para o bloco ganhar influência na cena mundial.
O líder da OCDE sustentou, em declarações ao programa matinal “Europe Today” da Euronews, que os líderes europeus (e toda a gente) devem “ouvir, com atenção”, as palavras de Mario Draghi – “um líder excecional”, que elaborou, em 2024, um relatório apelando à mudança radical no funcionamento da UE –, numa altura em que o continente procura uma nova receita, a fim de ultrapassar o impacto das tarifas aduaneiras na sua economia.
No dia 2, Mario Draghi reiterou o seu apelo, sugerindo que a UE deveria ser gerida no espírito de uma “verdadeira federação”, e não de um mosaico de países individuais. “A Europa é um continente de sucesso esmagador, mas está a enfrentar desafios. A UE tem de se posicionar da melhor forma possível face à evolução das circunstâncias”, vincou.
Numa entrevista à Euronews, em janeiro, o presidente do Conselho Europeu, António Costa, disse esperar que os líderes da UE deem “orientações políticas claras” para a implementação das recomendações apresentadas no relatório Draghi – influente, mas em grande parte não implementado – o qual apelava à UE para se transformar, radicalmente, sob pena de enfrentar uma “lenta agonia”, numa nova era de geopolítica agressiva.
Na sequência, o presidente do Conselho Europeu convidou os líderes da UE para um “retiro” informal, no dia 12 de fevereiro, na Bélgica, com a presença de Mario Draghi, que tem apelado, repetidamente, para que o bloco funcione como uma verdadeira união.
Além disso, Mario Draghi manifestou apoio à contração conjunta de empréstimos pelos estados-Membros da UE, para financiar projetos de interesse comum, como a segurança e a defesa, e apelou à integração dos mercados de capitais europeus para atrair e aumentar os investimentos.
Por seu turno, Mathias Cormann sugeriu que o comércio continua a ser uma força positiva nas relações globais e afirmou que a apetência pela cooperação internacional não diminuiu, apesar da introdução de direitos aduaneiros, a nível mundial, pelo governo dos Estados Unidos da América (EUA) e da utilização dos excedentes comerciais como armas.
O líder da OCDE referiu as preocupações “legítimas”, relativamente às distorções do mercado, apontando as práticas comerciais chinesas. A UE assinalou que Pequim tem de resolver o problema do crescente défice comercial e alertou para um segundo “choque chinês”, pois a segunda maior economia mundial inunda o Mundo com mercadorias que não consegue colocar no seu mercado interno. “Há áreas em que estamos preocupados com práticas de distorção do mercado e [com] níveis excessivos de subsídios estatais. Preferíamos que houvesse um maior alinhamento com as práticas baseadas no mercado”, afirmou Mathias Cormann.

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António Costa organizou uma série de reuniões informais que reunirão os 27 líderes da UE, para debaterem ideias, sem as formalidades de uma cimeira europeia. E, como dissemos, a primeira ocorrerá a 12 de fevereiro e nela participará Mario Draghi, a convite do próprio presidente do Conselho Europeu, que pretende acelerar a aplicação do relatório sobre a competitividade, pelo que o encontro de fevereiro se centrará na dinamização da economia europeia.
Também participará no encontro Enrico Letta, antigo primeiro-ministro italiano e presidente do Instituto Jacques Delors, que apresentou, 20 de abril de 2024, ao Conselho da União Europeia, em Bruxelas, o relatório de alto nível sobre o futuro do mercado único.
Algumas das questões fundamentais do relatório “Muito mais do que um Mercado”, incluem as questões energéticas, o reforço da segurança da UE e a promoção da criação de emprego e a facilidade em fazer negócios.
O também conhecido como Relatório Letta desdobra-se em cinco capítulos temáticos: uma 5.ª liberdade, para aumentar a Investigação, a Inovação e a Educação no Mercado Único; um Mercado Único para jogar grande: a escala é importante; um Mercado Único Sustentável para Todos; um Mercado Único para ir rápido e ir além; e um Mercado Único para além das suas fronteiras.
Já o Relatório Draghi resulta de incumbência da Comissão Europeia para a preparação de um relatório com a visão pessoal do ex-presidente do BCE – uma das grandes mentes económicas da Europa – sobre o futuro da competitividade europeia. Efetivamente, a desaceleração da produtividade, os desafios demográficos, o aumento dos custos de energia e a crescente concorrência global pressionam a prosperidade da Europa, a longo prazo. Ao mesmo tempo, as transições verde e digital postulam níveis sem precedentes de investimento e inovação. Para enfrentar tais desafios, em setembro de 2023, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, solicitou a Mario Draghi a elaboração de um relatório sobre o futuro da competitividade europeia. O objetivo era definir como a UE se pode adaptar a um Mundo em rápida transformação e garantir um crescimento sustentável, nas próximas décadas.
Assim, o relatório analisa os desafios enfrentados pela indústria e pelas empresas no Mercado Único, descreve como a Europa não poderá mais contar com muitos dos fatores que sustentaram o crescimento, no passado, e apresenta um diagnóstico claro, além de recomendações concretas para colocar a Europa numa trajetória diferente.
Em entrevista à Euronews a partir de Nova Deli, onde a UE assinou um importante acordo comercial com a Índia, António Costa disse que o retiro de fevereiro servirá para lançar um debate interinstitucional sobre a forma de reforçar a economia europeia e de implementar a agenda de reformas. “Convidei Mario Draghi e Enrico Letta a juntarem-se a nós, para fazermos um balanço do que fizemos, mas também para analisarmos o que temos de fazer”, afirmou.
Vincando que “precisamos de criar uma dinâmica renovada e dar um novo impulso” às reformas, o presidente do Conselho Europeu disse esperar que “os líderes deem uma orientação política clara à Comissão e ao Conselho, como fizeram no ano passado, em matéria de defesa e segurança”, mas, desta vez, sobre “o mercado único”. 
O formato de retiro, segundo António Costa, permite discussões mais abertas. Assim, em 2025, os líderes europeus reuniram-se com Mark Rutte, secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), e com Keir Starmer, primeiro-ministro do Reino Unido, para discussão sobre a segurança e a defesa europeias. Agora, espera-se restabelecer a dinâmica em torno das recomendações dos dois peritos, Letta e Draghi.
Em 2025, os esforços da Comissão Europeia centraram-se na redução da burocracia e da burocracia associada ao excesso de regulamentação da UE. Apesar da insistência na simplificação das regras existentes, os analistas sugerem que o executivo não está a fazer o suficiente para avançar com reformas reais, em conformidade com as recomendações dos relatórios. Um relatório do Conselho Europeu de Inovação Política, publicado em setembro de 2025, sugeria que só 11% das recomendações enumeradas no relatório Draghi tinham sido implementadas no seu primeiro ano, apesar de a Comissão o referir como a sua “bússola económica”.
A presença de Mario Draghi pode servir para aguçar os ânimos, visto que o antigo presidente do BCE é muito influente nos círculos diplomáticos, nas capitais europeias e nas instituições da UE, onde os seus discursos são acompanhados de perto. E apelou, repetidamente, a que o bloco trabalhasse como uma verdadeira união, tal como sugeriu uma abordagem “federalista pragmática”, num Mundo em mudança.
O perito manifestou o seu apoio à contração conjunta de empréstimos pelos estados-membros da UE, para financiar projetos de interesse comum, como a segurança e a defesa, e apelou à integração dos mercados de capitais europeus, para atrair e aumentar investimentos.

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Em novembro de 2025, levantava-se a questão se, depois dos referidos relatórios (Letta e Draghi) o mercado único e a competitividade melhoraram. Sobre esta matéria, pronunciaram-se várias personalidades, em especial, o antigo comissário britânico Lord Jonathan Hill e o chanceler alemão, Friedrich Merz.
O antigo comissário britânico sustenta que os estados-membros se sentiriam “muito mais confortáveis em ceder poderes a reguladores europeus supranacionais, se pensassem que estes são favoráveis ao crescimento”.
Por sua vez, o chanceler alemão defendeu a criação de uma bolsa de valores europeia única, frisando que a fragmentação em função das fronteiras nacionais continua a entravar o investimento na UE.
Pelo menos, de acordo com o antigo comissário Lord Jonathan Hill, embora uma proposta deste tipo não seja nova, a consolidação financeira está a tornar-se cada vez mais urgente. Com efeito,  na sua ótica, com a alteração das antigas alianças, “a urgência da necessidade de mudar tornou-se claramente maior”.
O político britânico, antigo comissário europeu para a União dos Mercados de Capitais, falando ao The Big Question, sobre a competitividade da Europa na cena mundial, considerou: “As mudanças geopolíticas são como uma grande campainha de alarme a soar. Os reguladores e supervisores na Europa ainda se comportam como se estivéssemos a operar no velho Mundo. Penso que esse Mundo desapareceu e não vai regressar. […] Os políticos europeus têm de assumir uma maior responsabilidade na argumentação a favor do crescimento.”
Desbloquear o investimento tornou-se fundamental para a UE, confrontada com uma série de desafios, como a agressão russa e as tarifas comerciais dos EUA.
Em termos de valor, o mercado bolsista norte-americano é quatro vezes superior ao valor total das empresas cotadas nas bolsas europeias e as ações norte-americanas são muito mais líquidas. Estas disparidades, combinadas com uma menor carga regulamentar nos EUA, significam que muitas empresas europeias migram para o outro lado do oceano, quando querem cotar as suas ações, ansiosas por avaliações mais elevadas. Outros fluxos de capitais, como os mercados de dívida e o investimento de risco, continuam fragmentados na UE. Isto significa menos dinheiro a fluir para as economias do bloco, menos empregos criados, menos oportunidades de investimento e perda de soberania, quando as tensões geopolíticas são elevadas.
Jonathan Hill diz que “o relatório Draghi e o anterior relatório Letta” o encorajaram bastante, no quadro das propostas da UE em matéria de competitividade. Todavia, passado um ano, pensa que “a Europa está a avançar mais lentamente do que o necessário”.
Os apelos de Bruxelas para melhorar a competitividade da UE centram-se também na União Bancária e no seu potencial para aumentar a capacidade de concessão de empréstimos. Criada para responder à crise da dívida da Zona Euro, a iniciativa pretende preparar os bancos para períodos de tensão financeira e reduzir a fragmentação regulamentar.
Desde o regresso de Donald Trump à Casa Branca, os bancos norte-americanos têm vindo a prever uma onda de desregulamentação financeira, porque a administração norte-americana se comprometeu a reduzir os requisitos de capital, podendo tais mudanças de política libertar biliões de dólares, visto que os bancos são obrigados a manter almofadas mais pequenas para os choques financeiros. Porém, enquanto os EUA são cautelosos, a UE avança mais lentamente. Alguns pensam que esta hesitação resulta da aprendizagem com os erros do passado, ao passo que outros sustentam que “esta abordagem é demasiado cautelosa no clima atual”. 
Segundo Jonathan Hill, o ocorrido em 2010 e nos anos seguintes foi reação humana natural a uma enorme crise e exigiu um trabalho enorme e muito importante para tornar o sistema mais seguro. Agora, o maior problema da Europa é a falta de crescimento, mas os juízos que se fazem tendem a ser os de há dez ou doze anos, quando a maior preocupação era a estabilidade financeira. Efetivamente, deviam fazer-se alguns julgamentos diferentes, porque os problemas são diferentes. Contudo, no quadro da regulamentação, “não querem ter essa discussão”. 
Um dos obstáculos a uma maior coesão da UE é a relutância de os estados-membros cederem o controlo da tomada de decisões a um organismo supranacional. E Jonathan Hill considera que “esta mentalidade tem, por exemplo, impedido o progresso de uma bolsa de valores europeia única”, pois, na sua perspetiva, “os estados-membros sentir-se-iam muito mais confortáveis em ceder poderes a reguladores europeus supranacionais, se achassem que estes são a favor do crescimento”.
Efetivamente, conclui o político britânico,  “se as pessoas se sentirem confiantes de que, no centro, haverá pessoas que compreendem a importância da competitividade, penso que o argumento da centralização se torna mais fácil de defender.”

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Têm razão o líder da OCDE e o presidente do Conselho Europeu, quanto à conveniência de a UE ouvir Mario Draghi e Enrico Letta, mas devem ser escutadas todas as personalidades cujo pensamento e ação contribuam para a Europa chegar a bom porto, em termos estratégicos, de desenvolvimento e de segurança. O Brexit não impede que se ouçam políticos como Lord Jonathan Hill, pois a sanidade do projeto da UE também interessa ao Reino Unido.

2026.02.03 – Louro de Carvalho

O Mundo pode estar a caminhar para uma crise sistémica como a de 2008

 

Após o seu painel na Web Summit Qatar, Yanis Varoufakis, antigo ministro das finanças grego, em declarações à Euronews, afirmou que o Mundo pode estar a caminhar para uma crise como a de 2008, impulsionada pela ascensão das stablecoins e das poderosas plataformas tecnológicas, e alertou para o estado da economia global.
Na ótica do ex-governante grego, o capitalismo já acabou (“e nem sequer nos apercebemos disso”) e o Mundo entrou na era de “tecnofeudalismo”, em que as grandes empresas tecnológicas exercem inédito poder sobre o comportamento humano. Com efeito, o crescimento das stablecoins está a remodelar, discretamente e de formas arriscadas, o sistema financeiro. “Donald Trump, com a Lei Genius, privatizou o dólar americano, manteve a Reserva Federal em baixo e transfere poderes para empresas privadas, essencialmente, com uma licença para imprimir dólares”, disse Varoufakis, advertindo que a situação – “uma receita para o próximo 2008” – cria um perigoso ciclo de retorno entre a dívida pública e a moeda privada, com milhares de milhões de dólares a poderem migrar para stablecoins, nos próximos meses, aumentando o risco sistémico.
As plataformas modernas não produzem bens, mas moldam comportamentos e simulam mercados. “Qualquer pessoa que detenha esse poder pode dirigir-nos, para nos treinar, a fim de ganhar a nossa confiança e de nos incutir desejos. Isto já não é capitalismo. Bem-vindos ao tecnofeudalismo!”, enfatizou o economista, sublinhando a desigualdade, que é cada vez mais impulsionada pela posse do que chama capital de nuvem, de tal forma que a questão “é saber a quem pertencem as máquinas que podem modificar o nosso comportamento”. 
Para reequilibrar o poder económico, Yanis Varoufakis apela à democratização dos bancos centrais. “Os bancos centrais devem ser democratizados. O JP Morgan e o Bank of America têm de ter conta no banco central. O dinheiro devia ser um bem comum, não um privilégio”, sustenta o economista grego, vincando que, apesar de haver tecnologia para o fazer, a resistência política é grande, porque tais reformas reduziriam a influência das instituições financeiras e das grandes empresas tecnológicas.

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No seu livro mais recente “Tecnofeudalismo – Ou o fim do capitalismo” (2023), Varoufakis, sustenta que as gigantes da tecnologia derrubaram o capitalismo, isto é, empresas, como a Apple e a Meta, tratam os usuários como servos modernos. Essa é a tese do ex-ministro das Finanças grego, famoso por defender dos credores alemães a Grécia endividada, e que, não tendo recuperado a notoriedade de 2015, é proeminente voz da esquerda. Após uma campanha fracassada para o Parlamento Europeu (PE), em 2019, planeava candidatar-se, de novo, em junho de 2024, sendo o seu adversário, dessa vez, não Berlim, nem a banca, mas as empresas de tecnologia, que distorcem a economia e incitam a população contra as pessoas.
O seu 17.º livro, escrito em forma de carta ao pai, entusiasta da tecnologia, dá conta da evolução do capitalismo, desde o “boom” da publicidade, na década de 1960, passando por Wall Street, na década de 1980, até à crise financeira de 2008 e à pandemia de covid-19. E considera  que a Apple, o Facebook e a Amazon transformaram a economia a ponto de ela se assemelhar ao sistema feudal da Europa medieval. Os gigantes da tecnologia tornaram-se “os senhores” e todos os outros são “camponeses” que trabalham a terra, em troca de muito pouco.
Assim, ao postar no X, trabalha-se, como o servo medieval, para Elon Musk, que não paga. É o trabalho gratuito do usuário que paga e aumenta o valor da empresa. No X, quanto mais usuários ativos, mais anúncios são exibidos e mais assinaturas vendidas. No Google Maps, os usuários melhoram o produto, alertando o sistema para congestionamentos nas suas rotas.
É certo que a aproximação ao feudalismo não é nova, mas o livro pretende levar a ideia a um público mais amplo. O seu lançamento nos Estados Unidos da América (EUA), um mês antes de os órgãos reguladores dos EUA e da União Europeia (UE)  iniciarem ações antitrust contra a Apple, teve um timing favorável.
No livro, o autor demonstra que dinâmicas tradicionais do capitalismo não governam mais a economia. O que destituiu esse sistema foi o próprio capital e as mudanças tecnológicas aceleradas das últimas duas décadas, que destruíram, como um vírus, o hospedeiro.
Os dois pilares que sustentavam o capitalismo foram substituídos: os mercados deram lugar às plataformas digitais, que são verdadeiros feudos das grandes tecnologias, e o lucro foi substituído pela pura extração de rendas. Ante esse cenário, Yanis Varoufakis diz que o tecnofeudalismo é o novo poder que está a remodelar a nossa vida e o Mundo, sendo, atualmente, a maior ameaça ao indivíduo liberal, aos esforços para evitar a catástrofe climática e à democracia.
Com referências que partem da mitologia grega até a cultura pop, Varoufakis explica essa transformação revolucionária: como ela escraviza a nossa mente, como reescreve as regras do poder global e, por fim, o que será necessário para a derrubar.

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Ianis Varoufakis, em entrevista a Morgan Meaker, da WIRED – revista  estadunidense, de publicação mensal, com sede em San Francisco, na Califórnia, que aborda questões de tecnologia, de ciência, de entretenimento, de design e de negócios, nos diferentes subtópicos, e da respetiva influência na sociedade, na cultura, na economia e na política – explicita a forma como as gigantes da tecnologia mudaram a economia e porque nos devemos importar com isso.
Começa por explicar o sentido do termo “tecnofeudalismo” e a relevância do sistema feudal nesse contexto. Enquanto o lucro impulsiona o capitalismo, a renda impulsionava o feudalismo. Agora, passou-se do capitalismo para o novo feudalismo, por via do capital superpoderoso, omnipresente e multifacetado, o capital da nuvem, ou algorítmico, a criar “novos feudos digitais”, como a Amazon.com e o Airbnb, em que a base da riqueza não é o lucro, mas a renda.
Ao criar um aplicativo da Apple Store, a Apple pode reter 30% dos lucros do usuário, através da taxa de comissão. É um arrendamento (ou aluguer), como se fosse de um terreno. A Apple Store é um “feudo na nuvem”, e a Apple extrai um aluguer, como no feudalismo. Nestes termos, não há regressão do capitalismo para o feudalismo, mas a progressão para um sistema novo com muitas das caraterísticas feudais, mas que está mais à frente do capitalismo. Por isso, Varoufakis adicionou a palavra “tecno” a “feudalismo”.
Ao falar-se de feudos digitais, a ideia entendível é a de plataformas, como a App Store da Apple ou a Amazon, que arrecadam uma percentagem das vendas. Porém, outras plataformas, como o Facebook, podem ser acusadas de operar tais feudos. Efetivamente, na perspetiva do economista grego, “o Facebook é um feudo na nuvem clássico”, pois cria capital na nuvem, atraente para as pessoas que se querem comunicar umas com as outras, para encontrar amigos, para publicar opiniões ou notícias sobre temas diversos. O usuário é atraído para esse feudo, e o próximo passo de Zuckerberg é atrair para ele editores e anunciantes, a fim de lhes vender a atenção dos usuários.
Em seguida, como Cory Doctorow descreve, através do conceito de “enshittificação”, o usuário é um editor, que se sente bem, porque as suas vendas aumentam por meio do Facebook, mas, de repente, descobre que foi rebaixado e que tem de pagar um aluguer mais alto na nuvem para ser atualizado, novamente, pagando por anúncios, por exemplo, para que os clientes encontrem o seu produto. Isso é típico capitalismo na nuvem, o tecnofeudalismo.
O tecnofeudalismo afeta três grupos de pessoas. Por exemplo, a empresa que produz as bicicletas elétricas vendidas no Alibaba ou na Amazon.com é uma capitalista vassala. A maior parte da sua margem de lucro é desviada por Jeff Bezos, fundador e presidente executivo da Amazon, na forma de aluguer de nuvem. Em segundo lugar, estão os proletários da nuvem, por exemplo, “os trabalhadores nos armazéns da Amazon, que são monitorados por algoritmos”. E o terceiro grupo somos nós, os servos da nuvem, que oferecemos “trabalho voluntário e gratuito”, não importando se gostamos  ou não.
Cada vez que alguém publica um vídeo no TikTok, no Facebook, no Instagram, aumenta o capital dessas empresas. Contribuímos, “diretamente, com o nosso trabalho, com o nosso movimento ou com a nossa existência”. Enfim, “somos servos, mas somos mais do que servos, somos servos da nuvem a produzir capital”, facto que “nunca aconteceu na História”. 
À objeção de que a Apple pode argumentar que, em vez de ser feudo, a App Store da Apple talvez se assemelhe a um shopping center, onde as empresas precisam de alugar espaços ao proprietário do prédio, o entrevistado assegura que a diferença é enorme. De facto, o aluguer de loja no shopping é fixo e proporcional às nossas vendas. Quanto mais dinheiro ganharmos, maior será a nossa margem de lucro, em relação ao aluguer. Ao invés, a Apple Store, fica com 30% de todas as vendas. É o equivalente ao arrendamento da terra que o senhor feudal cobrava aos vassalos.
Relativamente ao que torna o capitalismo em nuvem um sistema económico pior do que o capitalismo tradicional, Varoufakis observa que, primeiro, temos “a perspetiva macroeconómica”. Assim, na sua ótica, “quando uma quantia tão grande de dinheiro é extraída na forma de renda da nuvem, esse dinheiro desaparece do fluxo circular de renda”. Segundo os seus cálculos, entre 35% e 40% do produto interno bruto (PIB) é “desviado do fluxo circular de renda pela renda da nuvem, o que significa menos dinheiro na economia”. Por isso, sendo baixo o investimento, há “menos empregos bons e de qualidade”, na restante economia.
Depois, é de ter em conta que “esse capital virtual é projetado para se reproduzir por meio da nossa atenção e do nosso trabalho gratuito”. E, porque as plataformas descobriram que passamos mais tempo a produzir capital virtual gratuito para os donos desse capital, se estivermos com raiva, “os algoritmos estão programados para envenenarem as nossas conversas”, o que “é extremamente prejudicial às nossas democracias, porque o consenso é muito ruim para o capital virtual, que pretende que “estejamos com raiva e a gritar uns com os outros”.
Como professor, Varoufakis diz observar o efeito nos jovens universitários. Hoje, os estudantes, como “têm muito medo de conversas presenciais”, preferem espaços seguros. Não querem que sejam apresentadas, em sala de aula, ideias desafiadoras e protestam. Todavia, se lhes derem um telefone, tornam-se tóxicos e agressivos. Ora, não é essa a forma de se conduzir “uma democracia ou uma sociedade civilizada”, diz o economista grego.
O facto de as pessoas já terem expressado a sua insatisfação com o capitalismo em diversos movimentos de protesto leva Morgan Meaker a questionar o entrevistado por que motivo deveriam as pessoas importar-se  com a transição para um sistema algo diferente, dominado por um tipo de empresa um pouco diferente.
A este respeito, Varoufakis diz que as pessoas precisam de saber o que subjaz ao descontentamento. Dar-lhes explicação que faça sentido para elas, “é extremamente empoderador” e é “a base de qualquer possibilidade de democracia”. Com efeito, “para haver democracia, não basta poder votar, a cada quatro ou cinco anos”, mas “é preciso que as pessoas entendam o que está a acontecer, que estejam informadas das causas do seu descontentamento”. Na verdade, se não as entendem, facilmente se tornam vítimas da xenofobia, da misoginia ou do racismo, apegando-se  “a soluções simplistas, o que é o início do fascismo”.
À dupla questão se estamos no início do fascismo e, se em caso afirmativo, a culpa é do tecnofeudalismo, o economista opina que “o fascismo já está em ascensão” pois, na França, quase 45% da população apoia a neofascista Marine Le Pen, e a Itália tem uma primeira-ministra neofascista, Giorgia Meloni. Porém, isso não é obra do tecnofeudalismo, que veio depois. O que sucedeu foi que o descontentamento das pessoas aumentou, por causa da ascensão do capital em nuvem, da drenagem de dinheiro do fluxo circular de renda e dos “algoritmos que geram dinheiro e acumulam capital em nuvem, a tal ponto que nos odiamos uns aos outros”. Ora, na perspetiva de Varoufakis, “o ódio é o combustível do fascismo” (por isso é que o discurso do ódio campeia). Assim, misturando descontentamento, impossibilidade de a maioria das pessoas não conseguir pagar as contas e ódio reforçado pelos algoritmos, temos o fascismo.
Quanto ao que se deve fazer, em relação ao novo sistema, que alimenta o novo fascismo, o entrevistado, sugere “muitas coisas”. Desde logo, é preciso entender onde estamos, para não culparmos os estrangeiros, nem as mulheres, nem as pessoas trans.
Em termos económicos, urge a introdução imediata introdução de um imposto sobre a nuvem, por  exemplo, taxar a Amazon em 5%, por cada transação na sua plataforma. Em seguida, criar a possibilidade de cada um de possuir uma identidade digital, para não precisarmos do Google ou do Facebook para comprovar a nossa identidade na Internet. “Ter uma identidade digital emitida pelo Estado contribuirá para restaurar ou para garantir os direitos de propriedade sobre os nossos dados, pois, no momento, não somos donos deles”, observa Varoufakis.
Depois, há que introduzir interoperabilidade. E explica: “Estou na plataforma X. Não posso migrar para a Bluesky. Se Elon Musk decidir bloquear-me, porque disse algo de que ele não gostou, […] tenho mais de um milhão de seguidores na plataforma X e não posso sair, sem os perder. Se eu for para a Bluesky, tenho 10 seguidores. [Ora,]  interoperabilidade significará que, se eu migrar para outra plataforma, como a Bluesky, quando eu publicar algo na Bluesky, o meu milhão de seguidores na plataforma X poderá ver a publicação.
Apesar de a interoperabilidade ser uma das propostas da Lei dos Mercados Digitais da UE, que está, pelo menos, a tentar abordar alguns dos problemas descritos por Varoufakis, este pensa que “não vai longe o suficiente”. Há, ali, “algumas ideias interessantes”, como a interoperabilidade, mas ninguém, no governo, está a trabalhar nisso (esse é o problema), não por ser tarefa difícil, mas porque não se importam, pois estão a serviço dos grandes “tecnofeudas”. 
Por fim, à questão se crê que ninguém, no governo, faz nada, como é que avança, a partir dessa verificação, diz que a pergunta é oportuna e não sabe responder, mas é por isso que, ao arrepio das suas preferências, continua na política, “porque não há alternativa à política”.

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Gradualmente, o capital, que se globalizou, e as mudanças tecnológicas das últimas décadas produziram um capitalismo financeiro sem rosto, que redundou no esboroamento do capitalismo. Os mercados tradicionais deram lugar às plataformas digitais e o lucro vem da renda por espaço na nuvem. Com os nossos scrolls (rolagens) e cliques, este sistema económico consolida o poder das grandes tecnológicas e redesenha o mapa geopolítico. O clique postula seleção mental e ação direta, mas o scroll tornou-se o padrão de compromisso em dispositivo móvel e em rede social, gerando consumo de conteúdo fluido, sem interrupção, e aumentando o tempo de utilização. 

2026.02.02 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Governo tardou na ajuda às populações afetadas pela tempestade Kristin

 

A tempestade Kristin fustigou o país, sobretudo, a região Centro, de forma inédita, pelo menos, desde que há registos. No entanto, a falta de comparência de membros do governo no terreno, as declarações reticentes de governantes, o atraso de socorro sustentável, a lentidão em o executivo proceder à declaração de calamidade pública, a demora na tomada de medidas e o não acionamento do mecanismo europeu de proteção civil (MEPC) deixaram, juntamente com o lastro de destruição, desalojamento e morte, as populações afetadas e as suas autoridade locais em situação de clamoroso abandono.
Foi necessária a pressão de inúmeros autarcas para o governo proceder à declaração de calamidade pública, a qual se mantém até 8 de fevereiro. O ministro da Presidência proferiu declarações tão infelizes que “apagou” o vídeo que as registava. Espalhou-se a ideia de que a aparição de governantes no terreno dificultava as operações de ajuda e de reconstrução, como se se tratasse de incêndios florestais (em que a mudança de direção dos ventos é repentina e imprevisível) ou do pico de um furacão em que as pessoas podem ser inexoravelmente envolvidas. O próprio chefe de Estado, tão rápido a assomar, em circunstâncias destas, se conteve inexplicavelmente e, quando apareceu, foi mais importante o beijo deixado na mão de velhinhas.
A proteção civil, a princípio, requisitou apenas quatro militares das forças armadas, a seguir 24 (que tentou separar por grupos de dois?!), estando o número agora, em dois mil a três mil.
A este respeito, foram publicadas imagens que exibem militares a montar a tenda para receção ao ministro da Defesa Nacional, tenda que foi desmontada, logo que ele foi embora, depois de ter proferido algumas asserções inócuas.
A ministra da Administração Interna, que tardou em aparecer no terreno, fez declarações descabidas, que mostram que o fulgor das competências académicas nem sempre é suficiente carta de recomendação para a ação política e governativa. Por exemplo, ignorar que há um plano de contingência num caso grave como este, deslustra o desempenho político e a capacidade de liderança. Dizer e insistir, descabidamente, que estamos perante uma situação de aprendizagem coletiva (tempo de aflição não é propício à aprendizagem, mas exige ação e ação coordenada) faz-me lembrar o que me aconteceu, no ano que estive em Vila Nova de Foz-Coa: Atordoado por forte dor de dentes, a conselho de pessoas amigas, desloquei-me à cidade da Guarda para consulta ao estomatologista Dr. Pedro Taumaturgo de Brito, o qual, apesar da minha impaciência, perdeu cerca de um quarto de hora a ensinar-me a lavar os dentes, servindo-se de dentadura, de escova e de dentífrico. É claro que, naquele dia, não aprendi nada!
Depois, a governante em causa proferiu asserções que não atrasam nem adiantam. Por exemplo, disse que o governo não é responsável por não agir prontamente num facto normal, mas num caso que nunca ocorrera. Porém, nem isso está certo. Ninguém adivinhava a dimensão da tempestade, mas já se sabia da iminência da sua chegada, que Portugal é vulnerável a estas ocorrências e que os fenómenos extremos são cada vez mais frequentes e mais prolongados no tempo. E revelou o que todos sabíamos: nos ministérios se faz muito trabalho na invisibilidade. Aliá, esse trabalho não é invisível; pode não se ver, mas não é invisível. Os crentes pensam que invisível só Deus. Até a acumulação de gases (supostamente invisíveis) na atmosfera nos fazem ver o tom azulado do firmamento.
Uma presença a notar, que revela bom senso e experiência política foi a da ministra do Ambiente e Energia, a garantir que a E-Redes está a fazer o que pode para restabelecer a corrente elétrica.

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Entretanto, o governo anunciou um pacote de ajuda e o prolongamento do “estado de calamidade”, visto que o país continua na rota das depressões e se temem inundações.
Na verdade, depois de os candidatos à segunda volta das eleições presidenciais de 8 de fevereiro terem alterado a agenda da campanha eleitoral, para acorrerem aos concelhos assolados pela tempestade – um, de forma discreta, sem jornalistas e a pedir ao governo ação rápida e eficaz, porque o sofrimento não se compadece com demoras e com burocracias; o outro, de forma aparatosa, com profissionais de comunicação social e com agentes de partido, criticando o governo, mandando, explicitamente, às malvas as eleições e carregando, ostensivamente, materiais  de ajuda – e  depois das críticas dos partidos de oposição, com o Partido Socialista (PS) a acusar o executivo de silêncio e de falta de planeamento na resposta à intempérie, e com o Presidente da República a reconhecer a lentidão da resposta ao rasto de destruição, o governo anunciou, a 1 de fevereiro, que mantém em vigor a “situação de calamidade até 8 de fevereiro”. 
Após a reunião de emergência (cinco dias depois do pico da tempestade) do Conselho de Ministros, o primeiro-ministro (PM), Luís Montenegro, numa declaração ao país, em conferência de imprensa, no Palácio de S. Bento, em Lisboa, disse que “o governo decidiu consagrar apoios à reconstrução de habitação própria e permanente, com intervenções até 10 mil euros, para todas as famílias, sem necessidade de documentação, e para todos os casos cujos seguros não serão aplicáveis”. E esclareceu que “todas as situações relacionadas com a agricultura e a floresta também se enquadram neste apoio, com o mesmo montante”. 
O chefe do governo pediu o respeito às indicações das autoridades, de modo a facilitar os trabalhos de recuperação e de prevenção, e assegurou que ninguém ficará sem meios e instrumentos para normalizar a sua situação, referindo-se à colaboração com as seguradoras. E, para todas as famílias que estejam a perder rendimentos, neste período, o PM anunciou a atribuição de apoios sociais de entre 537 euros, por pessoa e até 1075 euros, por agregado familiar.
O governo decidiu atribuir 400 milhões de euros, para recuperar a ferrovia e as estradas, cerca de 500 milhões para empresas e 200 milhões para recuperar estruturas públicas. No total, o pacote de recuperação anunciado será de 2,5 mil milhões de euros.
Os apoios às famílias afetadas pela Kristin incluem subsídios, apoio à habitação, moratórias bancárias e alívio fiscal nos municípios em calamidade. O pacote global aprovado para responder aos danos provocados pela tempestade Kristin é  de 2,5 mil milhões de euros, com medidas dirigidas a famílias, a empresas, a Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS), a autarquias e a infraestruturas públicas.  Assim, existem apoios às famílias e para a habitação própria e permanente, destinados a situações de carência económica, de perda de rendimentos e de danos em casas que ficaram parcial ou totalmente inabitáveis. As medidas incluem apoios sociais diretos, apoio à reconstrução da habitação, moratórias no crédito e adiamentos fiscais.
No âmbito das medidas sociais, estão previstos apoios diretos da Segurança Social às famílias em situação de carência económica ou que tenham sofrido perda de rendimentos na sequência da Kristin. Tais apoios destinam-se a cobrir despesas essenciais e imediatas, necessárias à subsistência do agregado familiar ou à aquisição de bens urgentes e inadiáveis. Podem assumir a forma de apoio pecuniário ou em espécie, sendo atribuídos após avaliação individual da situação concreta de cada agregado.
De acordo com o comunicado oficial, “o valor do subsídio é de montante variável, a determinar, casuisticamente, em função da avaliação dos serviços competentes da segurança social, com o limite de 1074,26 euros (2 x IAS), por elemento do agregado familiar, e pago no máximo em 12 prestações mensais”. Porém, o chefe do governo explicou, na conferência de imprensa, que o apoio será de até 537 euros, individualmente, ou 1075 euros, por agregado familiar.
Um dos eixos centrais do pacote é o apoio à habitação própria e permanente. Assim, foi criado um apoio até 10 mil euros para encargos com obras e intervenções necessárias à reparação, reabilitação ou reconstrução de casas danificadas pela tempestade. Este apoio aplica-se a habitações situadas em concelhos abrangidos pela situação de calamidade e utilizadas como residência habitual do agregado familiar. O regime é semelhante ao aplicado em situações de incêndios, privilegiando a rapidez na resposta. O custo elegível é determinado com base em orçamento ou orçamentos do beneficiário, validados pela autarquia local e pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR), podendo ser utilizados referenciais de custos unitários por tipologia de obra, para acelerar o processo de validação.
Se os danos impedem a utilização da habitação, as despesas de realojamento temporário serão consideradas elegíveis, desde que justificadas. Esta medida destina-se a famílias que, por razões de segurança ou falta de condições mínimas, não conseguem permanecer na habitação afetada. O apoio cobre situações transitórias, enquanto decorrem as obras de recuperação ou reconstrução. A elegibilidade das despesas é avaliada pelas entidades competentes, no mesmo enquadramento dos restantes apoios à habitação própria e permanente.
O pacote inclui moratórias aos empréstimos bancários relativos à habitação própria e permanente, aplicáveis nos territórios abrangidos pela situação de calamidade. A moratória tem a duração de 90 dias, com início a 28 de janeiro de 2026. Durante este período, as famílias podem suspender o pagamento das prestações do crédito, tratando-se de medida temporária e de aplicação geral, justificada pela emergência. Contudo, o governo admite trabalhar, em fase posterior, um regime seletivo de moratórias até 12 meses para situações de danos mais profundos, em articulação com o Banco de Portugal (BdP) e com a Associação Portuguesa de Bancos (APB).
No âmbito das medidas fiscais, foi aprovada uma moratória no cumprimento de obrigações fiscais para contribuintes com sede ou residência nos municípios afetados. As obrigações cujo prazo decorra entre 28 de janeiro e 31 de março podem ser cumpridas até 30 de abril, sem penalizações. Este alargamento do prazo aplica-se também a contabilistas com sede nos municípios abrangidos. A medida visa aliviar a pressão financeira quando muitas famílias enfrentam despesas inesperadas associadas à recuperação de bens e habitação.
Para acelerar a recuperação, o governo aprovou o regime excecional de dispensa de controlos administrativos prévios nas obras públicas e privadas de reconstrução de infraestruturas, de equipamentos e de edifícios afetados. Tal regime abrange domínios urbanísticos, ambientais, de contratação pública e regras orçamentais, vigorando um modelo de controlo e responsabilização sucessivos. Na prática, esta simplificação permite avançar, rapidamente, com obras urgentes, incluindo intervenções em habitações, sem bloqueios administrativos iniciais.
O pacote é transversal e, além dos apoios para as famílias, inclui um conjunto alargado de medidas dirigidas a empresas, a IPSS, a autarquias e a infraestruturas públicas, para garantir a recuperação económica e social dos territórios afetados. Estas medidas complementam os apoios às pessoas singulares e visam assegurar a continuidade da atividade económica, a manutenção do emprego e a reposição de serviços essenciais.
No domínio do emprego, estão previstos apoios a conceder pelo Instituto do Emprego e da Formação Profissional IEFP, dirigidos a trabalhadores dependentes e independentes afetados. Entre essas medidas, contam-se incentivos financeiros extraordinários à manutenção dos postos de trabalho, apoios específicos aos trabalhadores independentes, prioridade no acesso a medidas ativas de emprego e um plano extraordinário de qualificação e formação profissional, para evitar despedimentos e apoiar a retoma da atividade nos territórios em calamidade.
As empresas afetadas podem beneficiar de isenções temporárias do pagamento de contribuições para a Segurança Social, totais ou parciais. A isenção total pode vigorar até seis meses, com possibilidade de prorrogação por igual período. No caso de isenção parcial, a redução pode atingir 50% da taxa contributiva, durante até um ano.
Está previsto um regime simplificado de redução ou de suspensão da atividade em situação de crise empresarial, permitindo às empresas recorrer a mecanismos semelhantes ao lay-off, com dispensa de obrigações legais, mediante validação pelas entidades competentes.
O pacote inclui a criação de linhas de crédito através do Banco Português de Fomento (BPF), destinadas a apoiar empresas e outras entidades afetadas. Assim, está prevista uma linha de crédito à tesouraria no valor de 500 milhões de euros, com maturidade de cinco anos e um período de carência de 12 meses, para responder a necessidades imediatas de liquidez. E existe uma linha de crédito ao investimento, no montante de mil milhões de euros, destinada à recuperação e à reconstrução, com maturidade de 10 anos e carência de 36 meses.
As IPSS e entidades equiparadas que atuam nos municípios afetados passam a dispor de apoios financeiros específicos, definidos após avaliação individual de cada caso. Estes apoios destinam-se a reforçar respostas sociais essenciais, nomeadamente junto de pessoas idosas, crianças, jovens, pessoas com deficiência, pessoas em situação de sem-abrigo e vítimas de violência doméstica, garantindo a continuidade dos serviços num contexto de emergência.
O pacote inclui uma transferência extraordinária de 200 milhões de euros para apoio financeiro às autarquias, através das CCDR, destinada à recuperação de equipamentos e infraestruturas municipais, com prioridade para escolas. Estão previstos 400 milhões de euros para a recuperação de estradas e de ferrovia e uma dotação de 20 milhões de euros para a recuperação de património cultural afetado. E, no setor agrícola e florestal, foi criado um apoio até 10 mil euros para reposição da capacidade produtiva das explorações atingidas.
Para garantir a articulação entre todas estas medidas, foi criada uma Estrutura de Missão para a Reconstrução, com sede em Leiria, responsável pelo acompanhamento, coordenação e apoio à execução das respostas nos territórios afetados, a qual trabalha em ligação com ministérios, autarquias, CCDR, setor social e empresas, assegurando que os apoios chegam ao terreno de forma mais rápida e coordenada.

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Após o pico da tempestade, os autarcas dos municípios afetados criticaram os políticos e as forças armadas, pela inação. Agora, políticos (há aproveitamento político) aparecem e forças armadas auxiliam na recuperação das infraestruturas. Porém, o centro do país continua com dificuldades nas comunicações e cerca de 167 mil habitações permaneciam sem energia, até às 12h00 do dia 1. A E-redes envia geradores para as zonas mais afetadas. Nas operações de limpeza e de recuperação de casas, houve feridos e mortos, tal como houve pessoas intoxicadas com o monóxido de carbono libertado por geradores e por lareiras. O candidato presidencial António José Seguro aplaude as medidas do governo, esperando que cheguem às pessoas, e critica a União Europeia (UE), por não alargar o prazo do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) e o PS insiste com o governo no MEPC.
Todavia, prevê-se a continuação das chuvas, mas sem a intensidade da Kristin.

2026.02.02 – Louro de Carvalho

domingo, 1 de fevereiro de 2026

As Bem-aventuranças ou a magna carta da Felicidade

 

O papa Leão XIV, antes da recitação do Angelus na Praça de São Pedro, a 1 de fevereiro, 4.º domingo do Tempo Comum no Ano A, comentou a “página esplêndida da Boa Nova que Jesus anuncia a toda a Humanidade: o Evangelho das Bem-aventuranças”, as quais “são luzes que o Senhor acende na penumbra da História”, revelando o desígnio de salvação que o Pai realiza pelo Filho, com o poder do Espírito Santo. Cristo dá aos discípulos a nova lei, não já a escrita em pedras, mas nos corações, uma lei que renova a nossa vida, tornando-a boa, mesmo quando ao Mundo parece fracassada. Só Deus pode chamar bem-aventurados (felizes, ditosos) os pobres e os aflitos, porque é o bem supremo que Se doa a todos com amor infinito. Só Ele sacia os que buscam paz e justiça, porque “é o justo juiz do Mundo, autor da paz eterna”. Só n’Ele os mansos, os misericordiosos e os puros de coração acham alegria, porque Ele é a realização da sua expectativa. Na perseguição, Deus é fonte de redenção; na mentira, âncora da verdade. Por isso, Jesus proclama: “Exultai e alegrai-vos.”
As Bem-aventuranças são paradoxo para os que pensam que Deus é diferente do modo como Cristo O revela. Quem espera que os prepotentes continuarão senhores da Terra, surpreende-se com a palavra do Senhor. Quem pensa que a felicidade pertence aos ricos, dirá que Jesus é um iludido. Mas a ilusão está na falta de fé em Cristo: “Ele é o pobre que partilha com todos a sua vida, o manso que persevera na dor, o construtor da paz perseguido até à morte na cruz”, acentua o Pontífice . É assim que Jesus ilumina o sentido da História: não a escrita pelos vencedores, mas a que Deus realiza, salvando os oprimidos. O Filho olha para o Mundo com o realismo do amor do Pai; do outro lado estão, como dizia o Papa Francisco, “os profissionais da ilusão”, que não devemos seguir, porque são incapazes de nos dar esperança, ao passo que Deus doa a esperança, primeiro, a quem o Mundo descarta como caso perdido.
As Bem-aventuranças tornam-se, para nós, prova de felicidade, levando-nos a perguntar-nos se a consideramos como conquista que se compra ou como dom que se partilha; se a depositamos em objetos que se consomem ou em relações que nos acompanham. É “por causa de Cristo” e graças a Ele que a amargura das provações se torna a alegria dos redimidos: Jesus não fala de consolação distante, mas de graça constante que nos sustenta, principalmente, na hora da aflição.
As Bem-aventuranças exaltam os humildes e dispersam os soberbos. Por isso, peçamos a intercessão da Virgem Maria, a serva do Senhor, que todas as gerações chamam ditosa.

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Na primeira leitura (Sf 2,3; 3,12-13), o profeta convida os coevos a viverem humildes e pobres. Os pobres são os que, não tendo bens materiais, nem seguranças humanas, depositam toda a confiança e esperança em Deus e encontram n’Ele refúgio, conforto e felicidade. São os preferidos de Deus, que deles cuida e os acompanha, em cada passo do trilho que percorrem.
Em 734 a.C. Acaz, rei de Judá, sentindo-se ameaçado pela coligação do rei de Damasco com o rei de Israel, pediu ajuda a Tiglat-Pileser III, rei da Assíria, que derrotou os dois aliados, pondo fim à ameaça contra Judá, mas Acaz tornou-se vassalo da Assíria e Judá abriu as portas às influências culturais e religiosas dos Assírios. A situação manteve-se no reinado de Manassés (698-643 a.C.), com o rei a reconstruir os lugares de culto aos deuses estrangeiros. Multiplicavam-se as injustiças sociais, as arbitrariedades, as violências que danificavam o tecido social e que oprimiam os pobres. Tudo isto configurava uma grave violação da Aliança. O povo vangloriava-se da relação especial com Javé, mas vivia à margem dos mandamentos. Quando em 639 a.C. o rei Josias (639-609 a.C.) subiu ao trono, Judá precisava de profunda reforma política, social e religiosa. E Josias lançou-se a essa tarefa.
Então, Sofonias começou o seu ministério profético. O profeta denuncia a idolatria cultual, as injustiças contra os mais pobres, o materialismo, a despreocupação religiosa, os abusos da autoridade. Cônscio de que Javé não pactua com o pecado de Judá, Sofonias avisa: “Se nada mudar, chegará o dia do Senhor, o dia da intervenção de Deus em que os maus serão castigados e a injustiça será banida da terra.” Contudo, escaparão, os humildes e os pobres, os que se mantiverem fiéis à Aliança. Porém, o escopo de Sofonias não é anunciar o castigo irrevogável, fruto da ira de Deus, mas provocar a conversão, passo fundamental para a salvação.
O trecho em apreço começa com uma exortação aos “humildes”. Convida-os a procurar o Senhor.
Os humildes a quem o profeta se dirige são os que confiam em Deus e se entregam nas suas mãos, que se seguem os caminhos de Deus, aceitam as suas propostas e não se põem contra Ele. São os que praticam a justiça, respeitam os direitos dos mais débeis, não cometem arbitrariedades, não assumem atitude de superioridade para com os irmãos e não tratam os outros com prepotência. Equivalem aos “pobres” das bem-aventuranças. Os que vivem assim não estão perdidos: encontrarão “proteção no dia da ira do Senhor”. 
Do outro lado estão os orgulhosos e autossuficientes, que não querem saber de Deus, que ignoram os mandamentos, que escolhem vias onde Deus não está. São os que praticam a injustiça, que vivem na mentira, que tratam os outros com arrogância, que não respeitam a dignidade dos irmãos. Esses, no “grande Dia do Senhor”, sofrerão as consequências da indignação de Deus.
Depois, temos o quadro “pós-intervenção de Deus”. Exterminados os orgulhosos, os arrogantes e os prepotentes, ficarão os pobres e os humildes: um “resto de Israel” que se entregará nas mãos do Senhor e Lhe obedecerá em tudo. Esse resto será viveiro para o reflorescimento da nação, de onde nascerá o povo novo, de coração transformado, capaz de viver na fidelidade a Deus.
Assim, a catequese de Israel falará dos pobres como os preferidos de Deus. A designação “pobres” já não indica só um grupo economicamente débil, mas atinge, sobretudo, as pessoas que assumem a atitude espiritual de abertura a Deus e aos irmãos. O verdadeiro crente – o pobre – é o humilde, o simples, o pacífico, o piedoso, que confia em Deus e se entrega nas suas mãos, o que obedece às propostas de Deus e é justo e solidário com os irmãos.

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Jesus (Mt 5,1-12) apresenta a magna carta do Reino de Deus. Recuperando a linguagem da tradição bíblica e judaica, apresenta oito bem-aventuranças, portas de entrada na comunidade do Reino de Deus, que definem o estilo de vida que os seus seguidores devem adotar, apontadores que mostram como construir uma vida feliz e com sentido. Em suma, Jesus oferece aos discípulos um resumo perfeito do seu Evangelho.
Depois de nos apresentar Jesus e de definir a sua missão, Mateus mostra como Jesus concretiza a missão que o Pai Lhe confiou, no centro da qual está o anúncio do Reino de Deus. As “bem-aventuranças”, proclamadas no  “sermão da montanha” (cf Mt 5-7) lugar central nesse anúncio.
O “sermão da montanha” reúne importante conjunto de palavras de Jesus que Mateus ordenou, para oferecer à sua comunidade as coordenadas fundamentais da proposta cristã, ou seja, um novo código ético, a nova Lei, que supera a antiga Lei dada por Deus.
A intervenção de Jesus no cimo de um monte transporta-nos à montanha da Lei (o Sinai), onde Deus outorgou a Lei a Israel. Agora, é Jesus que, na montanha, dá ao novo Povo de Deus a nova Lei que guia os interessados em aderir ao Reino de Deus. Porém, o evangelista sugere algumas diferenças. Antes de mais, no grupo que recebeu a Lei no Sinai, só havia Israelitas; no que sobe ao monte com Jesus, há uma multidão de diversas origens e etnias, conferindo à proposta de Jesus inquestionável nota de universalidade, pois a nova Lei destina-se a todos os povos. Também não há referência a fogo, a fumo, a trovões e a relâmpagos que geravam medo entre o povo, nem delimitação do terreno a impedir o povo de se aproximar do monte da revelação. Nesta montanha, os discípulos estão próximos de Jesus e escutam-No com tranquilidade. O novo Moisés abre as portas à nova realidade, à nova forma de comunhão e de relação entre Deus e o povo.
As bem-aventuranças que Mateus põe na boca de Jesus, são diferentes das que aparecem em Lucas. Mateus tem oito bem-aventuranças (e uma exortação final), enquanto Lucas apresenta quatro e prossegue com quatro “maldições”, ausentes do texto mateano. Outras caraterísticas da versão mateana são a espiritualização (os pobres de Lucas são, para Mateus, os “pobres em espírito”) e a aplicação dos ditos de Jesus à vida da comunidade e ao comportamento dos cristãos. É provável que o texto de Lucas seja mais fiel à tradição original e que o texto de Mateus tenha sido trabalhado e retocado pela catequese cristã.
As bem-aventuranças são fórmulas frequentes na tradição bíblica e judaica. Aparecem nos anúncios proféticos de alegria futura, nas ações de graças pela alegria presente, nas exortações à vida sábia, refletida e prudente, referindo-se à felicidade como dom de Deus.
As bem-aventuranças evangélicas devem ser entendidas no contexto da pregação do Reino de Deus. Jesus proclama bem-aventurados os que estão na situação de debilidade, de pobreza, de aflição (os pobres, os que choram, os que têm fome e sede de justiça, os perseguidos por causa da justiça), porque Deus está prestes a instaurar o Reino de Deus e a situação vai mudar radicalmente. Jesus proclama bem-aventurados os que testemunham os valores de Deus (mansos, misericordiosos, puros de coração, construtores da paz), porque podem fazer parte da comunidade do Reino de Deus e serão chamados filhos de Deus. As quatro primeiras bem-aventuranças de Mateus são conexas entre si. Dirigem-se aos pobres (a segunda, a terceira e a quarta são desenvolvimentos da primeira, que proclama: “Bem-aventurados os pobres em espírito”). Saúdam a felicidade dos que se entregam nas mãos de Deus e procuram fazer a vontade de Deus; dos que, de forma consciente, deixam de colocar a confiança e a esperança nos bens, no poder, no êxito, nos homens, para esperar e confiar em Deus; dos que renunciam ao egoísmo e se mantêm disponíveis para Deus e para os outros. Enfim, os pobres em espírito são os pequenos, os humildes, os que não possuem nada a não ser Deus; são os que se entregam nas mãos de Deus e que confiam totalmente n’Ele; são os que abraçam o projeto de Deus sem condições e estão sempre disponíveis para servir os seus irmãos.
Os que choram são os que vivem na aflição e no sofrimento; são os que não veem a luz ao fundo do túnel e derramam o seu desespero em lágrimas amaras. A chegada iminente do Reino de Deus muda a sua história, faz com que a tristeza se mude em consolação, alegria e esperança.
Os mansos (os humildes) são os que recusam a violência como forma de resolver diferenças e conflitos; são os pacíficos, os que têm paciência com os que erram, os que não respondem na mesma moeda, quando agredidos ou vítimas dos abusos e da prepotência dos injustos; são os que têm a coragem de quebrar a espiral de violência que suja de sangue a História do Mundo. A sua atitude pacífica e bondosa evoca a misericórdia e a bondade de Deus. A sua mansidão anuncia o Mundo edificado em moldes novos e fará deles membros de pleno direito do Reino.
Os "que têm fome e sede de justiça” são os que se mantêm fiéis a Deus, desejam cumprir a vontade de Deus e só desejam fazer o que Deus julga justo e bom. É a justiça no sentido bíblico, como fidelidade aos compromissos com Deus e com os outros homens. Essa fome e essa sede – essa preocupação nunca descurada em cumprir a vontade de Deus – será plenamente saciada para todos os que aderirem à comunidade do Reino de Deus e viverem do dinamismo de vida nova que Jesus lhes traz.
Um segundo grupo de bem-aventuranças está orientado para definir o comportamento cristão. Enquanto, no primeiro grupo, se verificam situações, neste, propõem-se atitudes que os discípulos devem assumir. Assim, os misericordiosos são os que têm coração capaz de se compadecer dos irmãos. É o sentimento de Jesus quando encara o sofrimento dos doentes e que leva Jesus a acolher, a perdoar, a abraçar os pecadores e os marginais. Os misericordiosos serão felizes, porque experimentarão a misericórdia de Deus.
Os puros de coração são os que se apresentam com as mãos inocentes e o coração limpo, que não erguem o espírito para  coisas vãs, nem juram pelo que é falso; não pactuam com qualquer forma de idolatria, não defraudam o semelhante, não cultivam a mentira, a duplicidade e o engano. Verão a Deus, isto é, terão sempre Deus a seu lado, ajudando-os no caminho.
Os “que promovem a paz” são os que lutam pela paz, pelo bem-estar de todos, pela harmonia a todos os níveis; os que se recusam que a violência e a lei do mais forte governem as relações humanas; os que procuram ser – mesmo com o risco da vida – instrumentos de reconciliação entre os homens. Serão felizes, porque o Deus do amor e da paz chamá-los-á seus filhos.
Os “que sofrem perseguição por amor da justiça” são os que, por causa da fidelidade a Deus, são perseguidos, maltratados e condenados; os que lutam pela instauração do Reino de Deus e que, por isso, são desautorizados, humilhados, agredidos, marginalizados. Jesus foi perseguido, condenado à morte e executado na cruz por causa da sua fidelidade ao projeto do Pai. Esses experimentam a tentação de suavizar o testemunho, de moderar a radicalidade, de abandonar a luta para não terem problemas, mas Jesus garante-lhes que o mal nunca os vencerá e que, no final do caminho, os espera o triunfo, a vida plena.
No final, Mateus põe na boca de Jesus uma exortação dirigida a todos os perseguidos por causa de Jesus e do Evangelho. Esta exortação – que é uma aplicação concreta da oitava bem-aventurança – insta os que fazem parte da comunidade do Reino de Deus a manterem-se fiéis, a resistirem ao sofrimento e à adversidade, pois receberão de Deus a recompensa que a sua fidelidade merece. De facto, as bem-aventuranças definem o modelo de vida para os seguidores de Jesus. São portas de entrada na comunidade de Deus. Elencam os valores fundamentais do projeto de Jesus. São mensagem de esperança e de alento para os pobres, os humildes, os sofredores. Anunciam que Deus os ama e que está do lado deles. Confirmam que a libertação está a chegar e que a situação vai mudar; asseguram que eles vivem já na dinâmica do Mundo que Jesus trouxe e que, aí, encontrarão a felicidade e a vida plena que esperam.

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Em 1Cor 1,26-31), o apóstolo pede aos cristãos de Corinto que não apostem na sabedoria humana como via para construir vida com sentido. Propõe-lhes, em contraponto, que acolham a loucura da cruz, optando por Jesus, vivendo ao seu estilo, abraçando os valores que Ele abraçou, trilhando com Ele a via do amor e recebendo o dom da vida. É aí que está a sabedoria, que leva à salvação.
A sabedoria humana (filosofia, raciocínios lógicos, discursos construídos com belas palavras) que os Coríntios procuram talvez ofereça satisfação intelectual, mas situa a vida do homem num horizonte limitado, terreno, ilusório, passageiro. Não proporciona a vida eterna, não dá sentido pleno à vida do homem, não é fonte de salvação. Quem estiver interessado em dar sentido pleno à sua vida, tem de descobrir e de acolher a lógica de Deus.
Ora, a lógica de Deus é estranha, humanamente falando. Em vez de apresentar um sistema filosófico sólido, fundado em raciocínios inatacáveis e convincentes, Deus propõe a linguagem da cruz. No centro dessa proposta, está o galileu pobre, condenado a morte infame (“escândalo para os judeus e loucura para os gentios”), que ofereceu a vida para trazer aos homens a salvação. Dando a vida até à última gota de sangue, amando até ao extremo, venceu a injustiça, a violência, a mentira, o ódio, a morte; e ofereceu a todos os que O seguem o que nenhuma filosofia assegura: a salvação, a vida eterna. É “a loucura da cruz”; mas “o que é loucura de Deus é mais sábio que os homens; e o que é fraqueza de Deus é mais forte do que os homens”.
A lógica de Deus confunde os homens, mas funciona perfeitamente. E o apóstolo apresenta o caso da comunidade cristã de Corinto: entre os Coríntios não abundam os ricos, os poderosos, os de boas famílias, os intelectuais, os aristocratas, Antes, a maior parte dos membros da comunidade são escravos, trabalhadores, simples e pobres. Todavia, Deus escolheu-os e chamou-os à fé; e a força de Deus manifesta-se, a cada passo, na comunidade de gente frágil, débil, desprezada aos olhos do Mundo. Enquanto os homens apostam nos ricos, nos fortes, nos intelectualmente bem preparados, nos que asseguram maiores hipóteses de êxito do ponto de vista humano para a concretização dos seus projetos, Deus chama os pobres, os débeis, os que o Mundo ignora ou despreza: enriquece-os com os seus dons, manifesta, através deles, o seu poder, faz deles suas testemunhas. Como os Coríntios veem, a força de Deus manifesta-se na fraqueza. Por isso, para a concretização do projeto de Deus, não contam os títulos, as qualidades, os méritos pessoais ou de classe, as capacidades intelectuais, a elegância da linguagem.
Cônscios disso, os Coríntios devem abster-se de pôr a sua esperança e a sua segurança em pessoas, por muito brilhantes e cheias de qualidades humanas que sejam. Também devem abster-se de correr atrás de esquemas humanos de sabedoria, por muito sedutores e fascinantes que pareçam. A sabedoria humana é incapaz, por si só, de salvar; e, ao produzir orgulho e autossuficiência, até pode afastar o homem de Deus e da salvação.
Assim, Paulo pede aos cristãos de Corinto que coloquem a sua esperança e segurança em Jesus Cristo, que na cruz deu a vida por amor. Para Paulo, a cruz manifesta a “sabedoria de Deus”; e é essa sabedoria que deve atrair o olhar dos Coríntios e apaixonar-lhes o coração.

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Por isso, é de proclamar com o Evangelho e com o salmista:

“Aleluia. Aleluia. Alegrai-vos e exultai, porque é grande nos Céus a vossa recompensa.” 
“Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos Céus.”
“O Senhor faz justiça aos oprimidos, / dá pão aos que têm fome / e a liberdade aos cativos.
“O Senhor ilumina os olhos dos cegos, / o Senhor levanta os abatidos, / o Senhor ama os justos.
“O Senhor protege os peregrinos, / ampara o órfão e a viúva / e entrava o caminho aos pecadores.
“O Senhor reina eternamente. / O teu Deus, ó Sião, / é Rei por todas as gerações.”

2026.02.01 – Louro de Carvalho