segunda-feira, 16 de março de 2026

É preciso que os crentes vivam na luz e da luz

 

A Liturgia da Palavra do 4.º domingo da Quaresma pretende que os cristãos abram os olhos para a luz e vejam quem é o seu Senhor e para onde Ele quer que dirijamos os nosso foco de atenção.

Muitas vezes, comportamo-nos como cegos ou olhamos às aparências, quando devíamos olhar com os olhos de Deus, que é a Luz, e com os olhos de Jesus Cristo, o Filho, que é a Luz no meio de nós. Enfim, porque somos chamados a ser a luz do Mundo como Jesus, temos de nos habituar a viver na luz e da luz.

***

A primeira leitura (1Sm 16,1b.6-7.10-13a) não se refere ao tema da luz, como o faz o Evangelho de João e a Carta de Paulo aos Efésios. Contudo, a escolha de David para rei de Israel e a sua unção constituem um rico pretexto para refletirmos sobre a unção que recebemos no dia do batismo e que nos constituiu testemunhas da luz de Deus no Mundo, ou fotóforos de Deus.

Na segunda metade do século XI a.C., os Filisteus eram séria ameaça para as tribos do Povo de Deus. Instalados na orla costeira, pressionavam os outros grupos que habitavam a terra de Canaã, nomeadamente, as tribos do Povo de Deus que ocupavam as montanhas do interior. A necessidade de liderança única e forte levou os anciãos a equacionarem a possibilidade da união política das tribos sob a autoridade de um rei, à imagem dos outros povos da zona.

A experiência monárquica com Saúl, que agrupava as tribos do centro e algumas do Norte, terminou de forma dramática: Saúl e seu filho Jónatas morreram na batalha de Gelboé, em luta contra os Filisteus, por volta do ano 1040 a.C. Por isso, havia que encontrar outro rei, capaz de gerar consensos entre tribos muito diferentes, de as juntar e de as conduzir ao combate vitorioso contra os inimigos. A escolha dos anciãos – tanto das tribos do Norte, como das tribos do Sul – recaiu no jovem David, que nasceu em Belém de Judá, no Sul do país.

O Primeiro Livro de Samuel apresenta três tradições sobre a entrada de David em cena. A primeira apresenta-o como admirável guerreiro, cuja valentia chamou a atenção de Saúl, sobretudo, após a sua vitória sobre Golias, o gigante filisteu. A segunda apresenta-o como um poeta, que vai para a corte de Saúl para cantar e tocar harpa, só conseguindo o rei reencontrar a calma e o bem-estar com a música de David. Aos poucos, o poeta/cantor David foi ganhando adeptos na corte, tornou-se amigo de Jónatas, filho de Saúl, e casou com Mical, a filha do rei. E a terceira tradição – a de maior importância teológica – apresenta a realeza de David como escolha de Javé. É esta a tradição que o trecho em apreço apresenta.

O hagiógrafo mostra que a lógica de Deus é diferente da lógica humana. Desde logo, David é apresentado como o eleito de Javé. É sempre Javé quem escolhe quem quer para lhe confiar uma missão. Nem ao seu enviado Samuel o Senhor deu prévia explicação.

Depois, impressiona a lógica da escolha. Samuel raciocina com a lógica humana e pretende ungir como rei o filho mais velho de Jessé de Belém, impressionado pelo seu belo aspeto e pela sua estatura, mas não era essa a escolha de Deus. Samuel acaba por entender que a escolha de Deus recai sobre David – o filho mais novo de Jessé – um jovem anónimo e desconhecido que andava a guardar o rebanho do pai. Há, aqui, o prenúncio do rei de Israel como rei pastor, que sabe apascentar as ovelhas e os cordeiros.

A eleição não resulta da iniciativa do homem, mas da iniciativa e da vontade livre de Deus. E a eleição de David evidencia a lógica de Deus, que escolhe sem ter em conta os méritos, o aspeto ou as qualidades humanas que impressionam os homens. Ao invés, Deus escolhe e chama, com frequência, os pequenos, os mais fracos, os que o Mundo marginaliza e considera insignificantes; e é através deles que age no Mundo. Fica, assim, clarividente que é Deus quem realiza a obra da salvação e que os homens são instrumentos com os quais Deus realiza a sua obra.

***

No Evangelho (Jo 9,1-41), Jesus apresenta-se como “a Luz do Mundo”; a sua missão é libertar os homens das trevas do egoísmo e da autossuficiência. Aderir à proposta de Jesus é enveredar por um caminho de liberdade e de realização que leva à vida plena. Da ação de Jesus nasce, assim, o Homem Novo – isto é, o Homem elevado às suas máximas potencialidades pela comunicação do Espírito de Jesus.

O Evangelho de João apresenta Jesus como o Messias, Filho de Deus, enviado pelo Pai para criar o Homem Novo; e, no “Livro dos Sinais” (Jo 4,1-11,56), o evangelista – recorrendo aos sinais da água, do pão, da luz, do pastor e da vida – formula um conjunto de catequeses sobre a ação criadora do Messias. Fazer lodo e colocá-lo nos olhos do cego de nascença é ação tão criadora como a de tirar o homem da terra húmida; e privilegiar os olhos significa o apreço especial pela vida como luz e nitidez.

O texto em causa compagina a terceira catequese, a da luz, do “Livro dos Sinais”: pelo sinal da luz, João descreve a ação criadora e vivificadora de Jesus. Esta catequese surge no contexto da “Festa de Sukkot” (festa das colheitas), em que um dos ritos mais populares era a iluminação dos quatro grandes candelabros do átrio das mulheres, no Templo de Jerusalém.

No centro do quadro aparecem-nos Jesus e um cego de nascença. Os cegos eram remetidos para a lista dos excluídos da sociedade palestiniana. As deficiências físicas eram tidas como resultado do pecado. Os rabbis discutiam de onde vinha o pecado de alguém que nascia deficiente: se o defeito resultara do pecado dos pais ou se resultara de pecado cometido pela criança no ventre da mãe. Segundo a conceção epocal, Deus castigava segundo a gravidade da culpa. A cegueira era resultado de pecado especialmente grave, pois doença que impedisse o homem de estudar a Lei era considerada maldição de Deus por excelência. Pela condição de impureza notória, os cegos não serviam de testemunhas no tribunal, nem participavam no culto no Templo.

O trecho sobre a cura do cego é a catequese que apresenta Jesus como a luz que veio iluminar o caminho dos homens. Aquele cego simboliza as pessoas que vivem na escuridão, privadas da luz, prisioneiras das cadeias que os impedem de chegarem à plenitude da vida.

Num primeiro quadro, Jesus apresenta-se como “a Luz do Mundo”. Jesus e os discípulos estão diante de um cego de nascença. De acordo com a teologia coeva, o sofrimento era resultado do pecado. Por isso, os discípulos estavam preocupados em saber se foi o cego que pecou ou se foram os pais. Jesus desmonta esta perspetiva e nega a relação entre pecado e sofrimento. Porém, aproveita o ensejo para mostrar que a missão que o Pai lhe confiou é ser “a Luz do Mundo” e encher de luz a vida dos que vivem nas trevas. E com Jesus também os discípulos são, na perspetiva mateana, Luz do Mundo e Sal da Terra.

Num segundo quadro, Jesus prepara-se para dar a luz ao cego. Cospe no chão, faz lodo com a saliva e unge com esse lodo os olhos do cego. O gesto de fazer lodo reproduz o gesto criador de Deus de Gn 2,7 (quando Deus amassou o barro e modelou o homem). A saliva transmitia, como se pensava, a própria força ou energia vital (equivale ao sopro de Deus, que deu vida a Adão – cf Gn 2,7). Assim, Jesus juntou ao barro a sua energia vital, repetindo o gesto criador de Deus. A missão de Jesus é criar um Homem Novo, animado pelo Espírito de Jesus.

Todavia, a cura não é imediata: requer a cooperação do enfermo. “Vai lavar-te na piscina de Siloé” – diz-lhe Jesus. A disponibilidade do cego em obedecer à ordem de Jesus é elemento essencial na cura e assinala a adesão a Jesus. A referência ao banho na piscina do enviado (o evangelista faz questão de lembrar que Siloé significa “enviado”) alude à água de Jesus (o enviado do Pai), que torna os homens novos, livres das trevas/escravidão. A comunidade joânica pretende fazer uma catequese sobre o batismo: quem quiser sair das trevas para viver na luz, como Homem Novo, aceita a água do batismo. Ou seja, opta por Jesus e acolhe a sua proposta de vida.

Depois, João põe em cena várias personagens, assumem vários papéis e atitudes diversas, ante a cura do cego.

Em primeiro, surgem os vizinhos e conhecidos. A imagem do cego, dependente e inválido, transformado em homem livre e independente, leva os concidadãos a interrogarem-se. Percebem que de Jesus vem o dom da vida e talvez anseiem pelo encontro com Ele, mas não ousam dar o passo definitivo (ir ao encontro de Jesus) para terem acesso à luz. Representam os que percebem a novidade da proposta de Jesus e sabem que ela é libertadora, mas vivem na inércia, no comodismo e não se dispõem a sair do seu canto, para irem ao encontro da luz.

O grupo seguinte é o dos fariseus. Sabem que Jesus oferece a luz, mas recusam-na, liminarmente. Interessa-lhes a continuidade das trevas. Representam os que têm conhecimento da novidade de Jesus, mas não se dispõem a acolhê-la. Confortáveis nos seus esquemas de escravidão e de autossuficiência, não renunciam às trevas, opõem-se, decididamente, à luz que Jesus oferece e não aceitam que alguém queira sair da escravidão para a liberdade. Ao verificarem que o homem curado por Jesus não está disposto a voltar atrás, expulsam-no da sinagoga: entre as trevas (que querem manter) e a luz (que Jesus oferece), não pode haver compromisso.

Depois, aparecem os pais do cego, que se limitam a verificar o acontecimento (o filho nasceu cego e agora vê), mas evitam comprometer-se. Na sua atitude, transparece o medo de quem é escravo e não tem coragem de passar das trevas para a luz. O narrador explica, inclusive, que “tinham medo de serem expulsos da sinagoga”. A “sinagoga” era o local do encontro da comunidade israelita e designava a comunidade do Povo de Deus. Ser expulso da sinagoga significava excomunhão, ser declarado herege e apóstata, perder os pontos de referência comunitários, cair na solidão, no ridículo, no descrédito e na marginalidade. Assim, os pais preferem a segurança da ordem estabelecida – injusta e opressora – aos riscos da vida livre. Representam os que, por medo, preferem continuar na escravidão, não provocar os dirigentes ou a opinião pública, a correr o risco de aceitar a proposta transformadora de Jesus.

Por último, atentemos no percurso do homem curado. Antes do encontro com Jesus, é homem prisioneiro das trevas, dependente e limitado; depois, encontra-se com Jesus e recebe a luz (do encontro com Jesus resulta sempre a proposta de vida nova). O relato descreve a progressiva transformação por que o homem passou. Logo a seguir à cura, não tem certezas (quando lhe perguntam por Jesus, responde: “Não sei”; e quando lhe perguntam quem é Jesus, ele responde: “É um profeta”). Porém, a luz que já brilha na sua vida vai-o amadurecendo. Confrontado com os dirigentes e intimado a renegar a luz e a liberdade, já é o homem das certezas, da convicção; argumenta com agilidade e inteligência, joga com a ironia, recusa-se a regressar à escravidão: mostra-se adulto, livre, sem medo. É isso que a luz de Jesus faz no homem.

Por fim, o texto descreve o estádio final dessa caminhada: a adesão plena a Jesus. Encontrando o ex-cego, Jesus convida-o a aderir ao Filho do Homem (“Acreditas no Filho do Homem?”); a resposta do ex-cego é a adesão total: “Creio, Senhor.” “Senhor” (“kýrios”) era o título com que a comunidade cristã primitiva designava Jesus, o Senhor glorioso. Diz, ainda, o texto, que o ex-cego se prostrou e adorou Jesus: adorar significa reconhecer Jesus como o projeto de Homem Novo que Deus apresenta aos homens, aderir a Ele e segui-lo.

É de anotar que Jesus revela a sua identidade messiânica a marginalizados: uma mulher e estrangeira; e um cego.

O percurso do cego representa o caminho do catecúmeno. O primeiro passo é o encontro com Jesus; depois, vem a adesão à luz e o amadurecimento da descoberta. Torna-se, progressivamente, homem livre e confiante; e esse caminho desemboca na adesão total a Jesus, no reconhecimento de que Ele é o Senhor que conduz a História e que tem uma proposta de vida para o homem. Assim, ao cristão nada mais interessa do que seguir Jesus.

A missão de Jesus é a criação do Homem Novo. Deus criou o homem para ser livre e feliz, mas o egoísmo e a autossuficiência dominaram-lhe o coração, prenderam-no num esquema de cegueira e frustraram o desígnio de Deus. A missão de Jesus consiste em destruir a cegueira, libertar o homem e fazê-lo viver na luz. É a nova criação. Enfim, da ação de Jesus nascerá o Homem Novo, liberto do egoísmo e do pecado, vivendo na liberdade, rumo à vida em plenitude.

***

Na segunda leitura  (Ef 5,8-14), Paulo propõe aos cristãos de Éfeso que recusem viver à margem de Deus (trevas) e que escolham a luz. Ou seja, o apóstolo ensina que viver na luz é praticar as obras de Deus: bondade, justiça e verdade.

A Carta aos Efésios é um dos exemplares de uma carta circular enviada a várias Igrejas da Ásia Menor, por volta dos anos 58/60, quando Paulo está na prisão. O portador é Tíquico.

Alguns veem na carta uma síntese da teologia paulina, quando o apóstolo sente ter terminado a sua missão apostólica na Ásia e não sabe o que o futuro próximo lhe reserva (estava, por esta altura, prisioneiro e não sabia como terminaria o cativeiro).

O tema da Carta aos Efésios é o que Paulo chama de “mistério”, isto é, desígnio ou projeto salvador de Deus, definido desde toda a eternidade, escondido, durante séculos. aos homens, revelado e concretizado, plenamente, em Jesus, comunicado aos apóstolos, desfraldado e dado a conhecer ao Mundo pela Igreja. O trecho em referência faz parte da “exortação aos batizados” que aparece na segunda parte. E, nessa exortação, Paulo retoma temas da catequese primitiva e convida os crentes a deixarem a antiga forma de viver, para assumirem a nova, revestindo-se de Cristo, imitando Deus e passando das trevas à luz.

A imagem da luz e das trevas aparecia, frequentemente, na catequese primitiva, como sugerem os textos neotestamentários, sobretudo, os de João e de Paulo. O símbolo “luz/trevas” aparece, também, nos escritos de Qûmran, para definir o mundo de Deus (luz) e o mundo que se Lhe opõe (trevas). Para Paulo, viver nas trevas é viver à margem de Deus, recusar a sua proposta, viver prisioneiro das paixões e dos falsos valores, na autossuficiência e no egoísmo. Ao contrário, viver na luz é acolher o dom da salvação que Deus oferece, aceitar a vida nova que Ele propõe, escolher a liberdade, tornar-se filho de Deus.

Os cristãos são aqueles que escolheram viver na luz. Paulo, dirigindo-se aos cristãos da parte ocidental da Ásia Menor, exorta-os a viverem na órbita de Deus, como Homens Novos, e a praticarem as obras adequadas à opção pela luz. Em concreto, Paulo pede-lhes que as suas vidas sejam marcadas pela bondade, pela justiça e pela verdade. A propósito, Paulo cita um velho hino cristão batismal, que convoca os crentes para viverem na luz.

Porém, o cristão não é só chamado a viver na luz; também deve desmascarar as trevas e denunciar as obras dos que escolhem viver nas trevas do egoísmo, da mentira, da escravidão e do pecado. Deve escolher a luz e desmascarar, de forma aberta e decidida, as obras das trevas.

***

O Papa Leão XIV sustenta que o relato evangélico da cura de um homem cego de nascença nos fala do mistério da salvação: “Enquanto estávamos na escuridão e a Humanidade caminhava nas trevas, Deus enviou o seu Filho como Luz do Mundo, para abrir os olhos dos cegos e para iluminar a nossa vida”.

“Os profetas tinham anunciado que o Messias abriria os olhos dos cegos. Jesus confirma a sua missão, mostrando que ‘os cegos veem’; e apresenta-se, dizendo: ‘Eu sou a Luz do Mundo.’ Todos podemos dizer que somos ‘cegos de nascença’, porque não conseguimos, por nós mesmos, ver em profundidade o mistério da vida. Por isso, Deus encarnou-Se em Jesus, para que o barro da nossa Humanidade, misturado com o sopro da sua graça, pudesse receber uma nova luz, capaz de nos fazer ver, finalmente, a nós próprios, aos outros e a Deus, na verdade.

“Chama a atenção que se tenha difundido, ao longo dos séculos, a opinião de que a fé seria um ‘salto no escuro’, renúncia ao pensamento, de modo que ter fé significaria acreditar ‘cegamente’. Ao invés, o Evangelho diz que, ao entrarem em contacto com Cristo, os olhos se abrem, a tal ponto que as autoridades religiosas perguntam com insistência ao cego curado: ‘Como foi que os teus olhos se abriram?’; e ainda: ‘Como é que te pôs a ver?’.

“Também nós, curados pelo amor de Cristo, somos chamados a viver um cristianismo “de olhos abertos”. A fé não é ato cego, renúncia à razão, refúgio em alguma certeza religiosa que nos faz desviar o olhar do Mundo. Em vez disso, ajuda a olhar ‘a partir da perspetiva de Jesus e com os seus olhos: é uma participação no seu modo de ver’. E, por isso, pede que abramos os olhos, como Ele fazia, sobretudo, para os sofrimentos dos outros e para as feridas do Mundo.

“Hoje, face às inúmeras questões que o coração humano se coloca e às dramáticas situações de injustiça, violência e sofrimento que marcam o nosso tempo, é necessária fé vigilante, atenta e profética, que nos abra os olhos para as trevas do Mundo e lhe traga a luz do Evangelho através de um comprometimento com a paz, com a justiça e com a solidariedade.

“Peçamos à Virgem Maria que interceda por nós, a fim de que a luz de Cristo abra os olhos do nosso coração e possamos dar testemunho d’Ele com simplicidade e coragem.”

***

É bom louvar o rei e pastor, dar glória Àquele que é a Luz do Mundo!

“O Senhor é meu pastor: nada me faltará.”

“O Senhor é meu pastor: nada me falta. / Leva-me a descansar em verdes prados, / conduz-me às águas refrescantes / e reconforta a minha alma.

“Ele me guia por sendas direitas por amor do seu nome. / Ainda que tenha de andar por vales tenebrosos, / não temerei nenhum mal, porque Vós estais comigo: / o vosso cajado e o vosso báculo me enchem de confiança.

“Para mim preparais a mesa / à vista dos meus adversários; / com óleo me perfumais a cabeça /
e meu cálice transborda.

“A bondade e a graça hão de acompanhar-me / todos os dias da minha vida, /

e habitarei na casa do Senhor / para todo o sempre.

***

“Louvor a Vós, Jesus Cristo, Rei da eterna glória.”

“Eu sou a luz do mundo, diz o Senhor: / quem Me segue terá a luz da vida.”

2026.03.15 – Louro de Carvalho


domingo, 15 de março de 2026

A IA pode chegar a decisões mais justas e imparciais do que as humanas?

 

Kristina Tikhonova, diretora-geral da Microsoft para a Europa do Sul (‘multi-country cluster’), participou no evento “Building the Future 2026” da Microsoft, que se realizou em Lisboa, nos dias 12 e 13 de março.

Em entrevista ao jornalista Ricardo Simões Ferreira, do Diário de Notícias (DN), publicada a 14 de março, analisou a viragem tecnológica do país e a estratégia para o transformar num “hub” digital de referência, vincando que “Portugal está a bater-se acima do seu peso” na inteligência artificial (IA) e, aludindo ao acordo ibérico para o digital, que avalia como “algo positivo”, observou que “o progresso não acontece em isolamento”.

Sublinha o jornalista que os dados do “Estudo de Impacto Económico e Social do Ecossistema Microsoft em Portugal”, da EY, “desenham o retrato de um país em plena aceleração”. Nestes termos, “o ecossistema da Microsoft gera, hoje, 7,3 mil milhões de euros para a economia nacional, um valor que deverá ascender aos nove mil milhões de euros, assim que o investimento em Sines – que arranca com a instalação de 12600 GPU [o GPU ou VPU, a unidade de processamento gráfico ou visual] – atingir a velocidade de cruzeiro. Com um retorno de 9,6 euros, por cada euro investido, e a sustentação de 35 mil postos de trabalho, Portugal afirma-se como um fast follower da tecnologia que está a revolucionar o Mundo, ao adotar IA a um ritmo superior à média mundial”, explicita Simões Ferreira, citando Kristina Tikhonova.

Da entrevista em apreço, selecionam-se os aspetos mais significativos.

Sobre o modo como a Microsoft, que sustenta 35 mil empregos, em Portugal,  garante a IA como capacitador dos trabalhadores e não como fator de exclusão, por falta de competências, a entrevistada defende que o impacto económico da IA, como tecnologia de uso geral, “virá da adoção e [da] difusão” da parte de pessoas e nações, não só dos inovadores. Assim, o Copilot [IA generativa da Microsoft integrada nos seus produtos e serviços] é a forma como se põe a IA no fluxo de trabalho, isto é, o “Work IQ” – uma interface de IA para cada pessoa, que representa “uma mudança de cultura”.

Do impulso a tal mudança, mormente, a nível das lideranças portuguesas, Kristina Tikhonova, diz que o valor da IA goza do reconhecimento geral. E, mudando “o foco da produtividade genérica para os KPI [Key Performance Indicators / indicadores-chave de desempenho] centrais do negócio – como receita, por vendedor, resolução de problemas à primeira ou ciclos de inovação – o valor torna-se evidente”. É, pois, “o momento de viragem para os líderes”.

Em relação ao que fazem as “Frontier Firms” de diferente, para lograrem o retorno de quase dez euros, por euro investido em soluções Microsoft, aponta a “distribuição de ROI [Return of Investment / retorno do investimento] muito variável”, de modo que, enquanto a média [global] é de 3,5 dólares, por cada dólar investido, em Portugal chega-se aos 9,6 dólares. E, como refere  a entrevistada, empresas com maior ROI têm padrões comuns: abandonaram os usos genéricos em prol de processos de negócio centrais e industriais; e “escalam a IA por, pelo menos, sete funções de negócio, desde o produto e inovação até ao serviço ao cliente”.

Considera que a IA generativa pode ser o “atalho” para a Europa do Sul fechar a lacuna histórica de produtividade. Com efeito, a Microsoft prevê, para a Europa, o “aumento líquido do PIB [produto interno bruto] de 2,5%. Para tanto, são necessários três pilares: “permissão social”, ou seja, confiança das pessoas “na segurança e [na] governação da tecnologia; “formação” (em Portugal, já se formaram 1,5 milhões de pessoas, mas precisa-se de “especialistas em cibersegurança e dados”); e os “dados”, “consistentes e preparados na nuvem”.

Questionada sobre se a infraestrutura e a nossa realidade estão preparadas para o salto, respondeu que “ainda há caminho a percorrer, mas há um bom impulso governamental”, sendo crucial “definir regras, como a política cloud-first em concursos públicos”. Assim, na sua ótica, “o governo deve servir de modelo, implementando a IA e definindo as normas para o mercado”. Contudo, Portugal é um “fast follower” (seguidor rápido), uma posição positiva. E, com a difusão de IA de 24,2%, supera a média mundial (16%).

Quanto à forma de convergência dos planos do “hub” de dados ibérico, acordados na Cimeira Ibérica no fim de semana anterior, com o investimento de 8,6 mil milhões de euros da Microsoft em Sines, a diretora-geral considera que “a IA define a competitividade nacional”; que o país “é um exportador líquido de TI [Tecnologias da Informação] e, ao juntar forças com Espanha”, se torna “ainda mais forte”; que Portugal tem os ingredientes ideais: “rede elétrica robusta, energia verde, conectividade submarina e talento”; e que, em seu entender, “está a bater-se acima do seu peso”. Assim, sustenta que o “investimento em Sines, que arranca com a instalação de 12600 GPU, vai amplificar este papel”. E conclui que “o progresso não acontece em isolamento”, mas na “colaboração”.

No atinente às estratégias de soberania digital da União Europeia (UE), sublinha a importância do equilíbrio o entendimento da soberania como “definição feita pelo cliente”. Nestes termos, a Microsoft oferece um “continuum” de soluções: “desde a nuvem pública com encriptação soberana até nuvens locais ou totalmente desligadas” e o cliente “decide o que é a soberania para si: privacidade de dados, cibersegurança ou inovação em ecossistema fechado”.

Confrontada com a questão se as regras europeias, como o AI Act, têm em conta este cenário, observa que isso está a moldar-se e explica: “O AI Act foca-se na regulação, mas a discussão sobre soberania continua ativa. O nosso papel é garantir que a soberania não signifique falta de escolha, oferecendo um leque completo de opções técnicas.”

Sobre as “Mulheres na Tecnologia” e se pode a IA mitigar o enviesamento que perpetua estereótipos de género, como revela um estudo recente, diz acreditar na possibilidade do uso da tecnologia “para chegar a decisões mais justas e imparciais do que as humanas”, pois o enviesamento não é “efeito secundário inevitável”, apenas reflete quem cria as soluções e os dados escolhidos.” Assim, com equipas e conjuntos de dados diversificados, mitiga-se o risco. “Temos princípios de diversidade ‘por design’ e ferramentas técnicas para verificar a segurança e imparcialidade das soluções. Investimos fortemente na formação de mulheres em IA porque acreditamos que podemos tornar o Mundo mais justo”, rematou.

***

A Agenda Nacional de Inteligência Artificial (ANIA) e o seu modelo de governação foram aprovados pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 2/2026, de 8 de janeiro, que surge  na sequência da aprovação da Estratégia Digital Nacional (EDN) pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 207/2024, de 30 de dezembro, que “estabeleceu a visão e os objetivos estratégicos para posicionar Portugal entre os países líderes em transformação digital na Europa, até 2030”.

A EDN definiu 16 iniciativas estruturantes, entre as quais ressalta a Iniciativa n.º 10, a Agenda Nacional de Inteligência Artificial (ANIA) – compromisso reforçado no Programa do XXV Governo Constitucional, para finalizar e implementar a ANIA.

A ANIA, que mais não é do que pôr a IA ao serviço da sociedade e da competitividade de Portugal,

enquadra-se na Ação #20 do Plano de Ação 2026-27 da EDN, assumindo-se como o principal instrumento para operacionalizar a ambição nacional em IA. E visa alavancar a IA, de forma ética e responsável, para aproximar o país da vanguarda da competitividade e da produtividade europeias, garantindo que este avanço tem impacto positivo na sociedade e em valor público – melhores salários, melhores serviços públicos e maior qualidade de vida.

No portal do governo, lê-se que a ANIA “é operacionalizada através de 32 iniciativas, envolvendo políticas públicas, ao longo de todo o ecossistema – universidades, centros de investigação, empresas (incluindo startups) e Administração Pública [AP]”.

A nível de infraestrutura e de dados, visa garantir que o país “desenvolve capacidade computacional estratégica e uma economia de dados robusta, reduzindo a dependência externa”.

Na  inovação e na adoção, há que “proteger a investigação fundamental de IA e acelerar a adoção de IA, em toda a economia”, particularmente, na AP e nas pequenas e médias empresas (PME).

No âmbito do talento e das competências, importa “garantir que Portugal forma, atrai, mobiliza e retém talento à escala necessária para sustentar a competitividade do país”.

Por fim, em termos de responsabilidade e de ética, pretende-se “promover o ecossistema de investigação e de desenvolvimento de IA responsável e um regime regulatório eficaz e eficiente, que protege os cidadãos e permite a inovação das empresas”.

***

A 8 de janeiro, o Expresso online publicou um artigo das jornalistas Juliana Simões e Elisabete Miranda intitulado “Governo lança Agenda Nacional de IA: ‘Acredito que teremos grandes ganhos de produtividade”, diz Gonçalo Matias’, em que explicam o alcance da ANIA.

Referem que ação é para desenvolver entre 2026 e 2030 e que a sua agenda “prevê um investimento de 400 milhões, através de fundos europeus e, combinada com a agenda digital e [com] o plano para as competências digitais, permitirá injetar na economia cerca de mil milhões de euros, nos próximos anos”, de forma que Gonçalo Matias, ministro de Estado e da Reforma do Estado, confia que estas medidas, conjugadas com outras políticas públicas, permitirão colocar “Portugal no mapa dos países relevantes na inteligência artificial” e aumentar a produtividade da economia portuguesa.

Uma das prioridades do plano de ação é o aumento da capacidade computacional do país, num contexto em que a procura por computação cresce, “a um ritmo sem precedentes, na ordem dos 41%, ao ano, para Portugal, e 21%, para a Europa”. No entanto, Portugal “enfrenta limitações na sua infraestrutura tecnológica e na capacidade de gerir e utilizar dados em escala”.

Para garantir que o país consegue desenvolver e aplicar sistemas avançados de IA sem depender excessivamente do exterior, o plano prevê o reforço do Deucalion, o supercomputador nacional de alto desempenho, com início no segundo semestre de 2025, de modo a “suportar o treino de modelos avançados de IA e projetos de investigação de grande escala”. Em paralelo, o governo vinca a intenção de atrair e de instalar uma gigafactory de IA, em Portugal, decisão que depende da candidatura a um projeto da Comissão Europeia

Outra prioridade é garantir que as empresas saltam para o comboio da IA, e não ficam para trás.

De facto, a adoção de IA no tecido empresarial é ainda reduzida, sobretudo, entre as PME: Só 9,4% das pequenas empresas utilizam IA, contra 18,2% das médias e 49,1% das grandes”, apesar de as PME representarem “67% do valor acrescentado e 76% do emprego”.

O plano contempla o financiamento de centros de IA organizados por setor, que juntam universidades, empresas e entidades públicas para desenvolver soluções concretas de IA, e a criação da plataforma PME.IA.

Com a procura por profissionais de IA a crescer mais de 20%, ao ano, uma das propostas do governo é a criação de um AI Fast Track – regime acelerado de vistos destinado a investigadores e a profissionais altamente qualificados em áreas de IA.

A estratégia inclui a expansão e o reconhecimento de microcredenciais e de cursos técnicos superiores profissionais orientados para carreiras em IA, a partir do primeiro semestre de 2026, criando percursos curtos e profissionalizantes. A estes instrumentos junta-se a expansão da iniciativa goPortugal, com parcerias internacionais destinadas a promover transferência de conhecimento e apoiar spin-offs deeptech (novas empresas criadas a partir de investigação científica ou tecnológica avançada) ligadas à IA.

Outro foco é o da AP. Gonçalo Matias lembra que “o excesso de burocracia, a lentidão dos processos e a lentidão da decisão têm afastado muito investimento”, e a IA é vista como um grande aliado neste processo, podendo gerar um ganho de produtividade de 1,2 mil milhões de euros, numa década. Assim, neste domínio, o plano prevê  a criação de um centro de excelência em IA na AP, com início previsto no primeiro semestre de 2026, e o lançamento de concursos nacionais de IA para a AP, também a partir do primeiro semestre de 2026.

Os estudos do governo indicam que a IA pode ter um impacto, na próxima década, entre 18 e 22 mil milhões no PIB, equivalente a 2,7% de contributo para o crescimento económico.

***

Em suma, a IA atravessa, em Portugal, um momento de aceleração estratégica. Os seus pilares são: os serviços públicos, em que urge implementar IA na AIMA (Agência para a Integração, Migrações e Asilo) e outros serviços, para automatizar tarefas e para acelerar processos de vistos e de nacionalidade; a infraestrutura, pela expansão da supercomputação nacional, reforçando o supercomputador Deucalion, para suportar o treino de modelos avançados de IA; e o apoio à formação, ressaltando a criação do programa ‘Cheque Formação + Digital’, que pode pagar até 750 euros a trabalhadores para cursos na área da IA. 

É de ter em conta o impacto nas empresas e na economia. Já cerca de 41% das empresas portuguesas utilizam IA nas suas operações; estima-se que a adoção plena da IA impulsione a economia nacional em 61 mil milhões de euros; a IA já está a ser usada, para reduzir desperdícios e para colmatar a falta de talento especializado, embora o país ainda enfrente o desafio de escalar estas soluções para todas as PME; e Portugal participa numa das primeiras “fábricas de IA” da Europa, visando atrair investimento tecnológico. 

A nível da promoção da literacia e IA na sociedade, é de considerar que, em 2025, os Portugueses superaram a média da UE, na utilização de ferramentas de IA generativa; que Portugal lidera, na Europa, no atinente à aprovação dos trabalhadores, com 90% a verem a tecnologia de forma positiva; e que o Banco de Portugal (BdP) lançou a ALYA, uma plataforma própria de IA para melhorar o serviço ao cidadão. 

Porém, apesar do entusiasmo, relatórios recentes alertam para o risco de Portugal “perder a vaga” se não acelerar a integração da IA em setores tradicionais, se não resolver a escassez de infraestruturas de grande escala (como gigafábricas de IA) e se não conseguir persuadir a Comissão europeia para a aprovação das candidaturas a projetos que dependam de Bruxelas. 

Será, desta vez, que a  AP se libertará da burocracia e da ineficiência, a economia crescerá quanto deve e a produtividade e a competitividade marcarão o país? Veremos.

Todavia, não é crível que as decisões de IA sejam mais justas e imparciais do que as dos humanos, pois as máquinas podem ter inteligência, mas não têm consciência (nem sentem) e são mais passíveis do reflexo condicionado. E será mau, se a IA provocar a dispensa do fator humano.  

2026.03.14 – Louro de Carvalho

sábado, 14 de março de 2026

O papel da UE na guerra dos EUA e de Israel contra o Irão

 

Numa altura em que a União Europeia (UE) é pressionada a intervir para atenuar o impacto económico da guerra no Médio Oriente sobre os consumidores, garantindo o abastecimento de energia, Bruxelas prepara-se para possíveis repercussões significativas da continuação do conflito com o Irão.

A este respeito, Mares Gwyn Jones, em artigo intitulado “Guerra no Irão: UE é uma mera espetadora ou uma agente diplomática?” publicado pela Euronews, a 13 de março, aborda a discussão entre eurodeputados no programa “The Ring” da Euronews, sobre a guerra no Irão e sobre a posição da UE, sustentando que, “além das preocupações imediatas, a guerra levanta questões existenciais sobre a política externa da UE e [sobre] o seu lugar num Mundo cada vez mais perigoso e caótico”.

Assim, Antonio López-Istúriz, do Partido Popular Europeu (PPE), de centro-direita, e Daniel Attard, da Aliança Progressista dos Socialistas e Democratas (S&D), de centro-esquerda, debateram, defendendo as suas posições quanto à resposta da UE ao conflito. Ambos se mostraram alinhados na condenação do regime de Teerão e consideram que a UE deve continuar a apoiar o povo iraniano, que reclama mudança.

Todavia, para López-Istúriz, a UE deve apoiar firmemente os seus aliados democráticos, incluindo os Estados Unidos da América (EUA) e Israel, e rejeitar a “narrativa” do primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, que condenou, de forma veemente, os ataques israelo-americanos ao Irão, por os considerar uma violação do direito internacional e dos valores adotados pela UE. Já Daniel Attar sustenta que as informações sobre navios iranianos que largam minas no estratégico estreito de Ormuz mostram que o regime está profundamente enfraquecido e enfrenta o seu momento de acerto de contas.

Isto quer dizer que, segundos os dois maiores grupos políticos do Parlamento Europeu (PE), o chefe do governo espanhol está isolado, em relação à posição europeia sobre o conflito, tudo valendo para aniquilar os líderes políticos indesejáveis, abater alvos militares e, “por engano”, alvos civis, incluindo escolas, em nome do direito internacional e dos direitos humanos, quando nunca a UE tomou, antes da guerra, qualquer atitude de condenação da onda repressiva do despótico poder iraniano contra as manifestações de rua, que davam conta, de forma clara, da alta do custo de vida, do ataque à liberdade de reunião e de expressão e da sonegação dos bens essenciais à esmagadora maioria da população.     

**

Entretanto, os dirigentes da UE solicitaram à Comissão Europeia que reveja os preços da eletricidade, a curto prazo, e o regime de comércio de licenças de emissão da UE, a fim de reduzir a volatilidade dos preços e de preservar os incentivos climáticos.

A medida reflete a crescente pressão política, em todo o bloco, para lidar com os persistentes altos preços da eletricidade e com os preços do petróleo a ultrapassar, a 9 de março, os 114 dólares (cerca de 98 euros), por barril, pela primeira vez, desde 2022, enquanto aumenta a tensão sobre a guerra do Irão, que colocou a produção e o transporte no Médio Oriente sob ameaça extrema. E, já antes de os EUA e Israel terem lançado os ataques ao Irão, os governos da UE temiam que os altos preços da energia e do carbono minassem a competitividade industrial, pelo que vinham pressionando o executivo da UE a tomar “medidas urgentes e ousadas”.

Por outro lado, de acordo com o documento, datado de 9 de março, que será discutido em reunião de líderes da UE, a 19 e 20 de março, os líderes da UE pediram à Comissão que apresentasse a revisão do mercado de carbono da UE, até julho de 2026, e o Regime de Comércio de Licenças de Emissão da União Europeia (RCLE-UE), que é o mecanismo do bloco para obrigar as empresas a pagar pela sua poluição, com objetivo de reduzir as emissões e de incentivar a indústria a investir em alternativas mais sustentáveis.

Apesar de vários países da UE terem apelado ao executivo comunitário para que não alterasse o atual sistema, após as pressões da indústria e de alguns países da UE, o Conselho pretende que o executivo comunitário reveja o mercado de carbono do bloco, para reduzir a volatilidade do preço do carbono e para limitar o seu impacto nas faturas de eletricidade. Contudo, a instituição que representa os chefes de Estado e de governo afirma que é crucial manter o papel central do RCLE na promoção do investimento e da inovação na transição energética.

Não é claro que medidas a UE adotará, mas as reformas do RCLE devem evitar enfraquecer o limite de emissões em declínio, se se quiser manter a sua relevância no clima. Na ótica de Alessandro Armenia, analista de energia da Kpler, empresa de informação comercial, em tempo real, “o preço do carbono está ancorado na devolução de créditos no final do ano”, pelo que, se algo acontecer e o mercado acreditar que é de curto prazo, “o efeito será avaliado no final do ano”. E “a melhor forma de eliminar os impactos políticos e regulamentares é mudar o sistema”, passando da limitação e do comércio para o incentivo aos que “estão dispostos a descarbonizar”. Dito de outro modo, “a UE está a agir como polícia, multando quem não reduz as emissões, quando deveria “pagar àqueles que querem descarbonizar”.

O Conselho insiste no rápido desenvolvimento das infraestruturas energéticas, especialmente, das infraestruturas de rede, fundamentais para que o aumento das energias renováveis produzidas na UE-27 possa fluir livremente, sem restrições ou congestionamentos.     

Nestes termos, os legisladores da UE são instados a chegar a acordo, em 2026, para expandir as redes elétricas e reforçar as interconexões transfronteiriças, sobretudo, pela aceleração dos procedimentos de licenciamento. De facto, os últimos aumentos dos preços dos combustíveis fósseis reforçaram o argumento de alguns responsáveis políticos de que a aceleração da transição energética é a via mais eficaz para a segurança energética e para a resiliência económica, a longo prazo. A ideia é que, ao expandir as fontes de energia renováveis e com baixo teor de carbono, a UE pode reduzir a sua dependência dos voláteis mercados mundiais de combustíveis e fornecer energia mais barata produzida internamente.

Os líderes da UE reconhecem que a transição deve ser gerida, cuidadosamente, a curto prazo para evitar o risco de perder indústrias com utilização intensiva de energia para regiões com custos de energia e de carbono mais baixos. “Enquanto a Europa depender da importação de combustíveis fósseis, continuaremos expostos à volatilidade mundial. É por esta razão que o reforço da nossa independência energética é essencial para a criação de um sistema energético mais limpo, mais seguro e mais acessível”, afirmou Dan Jørgensen, comissário da Energia, a 10 de março, após a apresentação pela Comissão de pequenos reatores modulares a instalar em toda a UE, até 2030.

Também os governos do bloco europeu e a Comissão foram instados, a 6 de março, a acelerar a expansão da eletrificação, mantendo os custos sob controlo, o que beneficiará da melhoria das infraestruturas da rede, bem como a considerar a possibilidade de rever os impostos, as taxas da rede elétrica e os custos do carbono associados aos preços da energia, como uma solução rápida para as indústrias em dificuldades.

***

Na sequência dos referidos pedidos dos dirigentes da UE, o comissário da Energia afirmou, em entrevista ao programa matinal da Euronews, a 11 de março, que o executivo pode fazer mais, para reduzir os preços, mas apelou aos estados-membros para que reduzam, imediatamente, os impostos sobre a eletricidade, como a forma mais rápida de diminuir as contas das famílias e de tornar “mais fácil para a indústria competir”.

Dan Jørgensen disse que “ainda há muito a fazer”, para atenuar o aumento dos preços da eletricidade e do gás resultante da instabilidade no Médio Oriente, quando Bruxelas está a ser pressionada para implementar uma solução a curto prazo.

As declarações de Dan Jørgensen surgem na sequência de uma semana turbulenta para o mercado global de energia, com o Irão a atacar os países do Golfo, fornecedores sistémicos e produtores de petróleo, com impacto no fluxo de carga ao longo do Estreito de Ormuz.

Donald Trump afirmou, a 10 de março, que, se o Irão avançasse com um plano para colocar minas no estreito, obstruindo o fluxo de navios, enfrentaria consequências militares “nunca antes vistas”, assim como apresentou planos para escoltar navios-tanque, em segurança, através do Estreito de Ormuz, mas os detalhes da operação permanecem pouco claros.

A Agência Internacional da Energia (AIE) está a preparar a libertação de reservas estratégicas de petróleo, na  ordem dos 300 a 400 milhões de barris. Esta seria a maior intervenção para estabilizar o mercado, desde a invasão da Ucrânia, que iniciou uma crise energética mundial.

Jørgensen, que participou numa reunião dos ministros da Energia do G7, no dia 10, disse que a libertação das reservas seria benéfica, se ajudasse a aliviar as preocupações a nível global, pois “ajudaria a manter os preços baixos”. Sustentando que a Europa ainda não tem problemas de segurança de abastecimento, frisou que “a questão dos preços é extremamente importante” para os cidadãos e para as empresas. E salientou que nunca a UE considerou a possibilidade de aliviar as sanções contra a energia russa, como os EUA estão a fazer, para fazer baixar os preços, e como a Hungria pediu à Comissão que fizesse, numa carta controversa. “Não queremos, de forma alguma a energia russa”, declarou, vincando: “Nós dissemos ‘chega’ e essa é uma posição que vamos manter.”

***

O porta-voz da Comissão Europeia para a Economia confirmou que a instituição vai “monitorizar, de perto”, o impacto orçamental do desconto no imposto sobre produtos petrolíferos e energéticos (ISP) do gasóleo, atribuído pelo governo português, o qual, em 2025, devido ao aumento do preço dos combustíveis, decidiu atribuir um desconto temporário no ISP. Neste sentido, aplicou a redução de 3,55 cêntimos, por litro de gasóleo. E, recentemente, prevendo o aumento significativo do gasóleo e da gasolina, decidiu descontar, temporariamente, 1,4 cêntimos, por litro de gasóleo, e 2,7 cêntimos, por litro de gasolina sem chumbo, devolvendo aos contribuintes a receita adicional do imposto sobre o valor acrescentado (IVA) que seria arrecadada com o aumento.

Em comunicado enviado à agência Lusa, o porta-voz da Comissão Europeia para a Economia, Balazs Ujvari, afirmou que Bruxelas irá monitorizará, de perto, “o impacto do desconto no ISP”.

Não é  novidade a atribuição de desconto neste imposto, nem a posição vigilante da Comissão sobre esta medida. E, agora, pretende perceber o impacto económico da medida, na sua avaliação no pacote da primavera do Semestre Europeu de 2026”, a apresentar no início de junho.

Portugal não está obrigado a anunciar à Comissão este tipo de decisões, mas, “tal como todos os outros estados-membros, terá de reportar, no relatório anual de progresso de 2026, as medidas de política orçamental, com impacto entre 2023 e 2026”.

Já em 2025, no âmbito das recomendações europeias para Portugal reduzir a dependência dos combustíveis fósseis, em particular, nos transportes, Bruxelas tinha sugerido a eliminação gradual dos subsídios aos combustíveis fósseis, adotados pelo governo de António Costa, em 2022, devido à pandemia de covid-19 e à invasão da Ucrânia. “Consideramos que é necessário que os estados-membros eliminem, gradualmente, essas medidas fiscais para melhorar a sustentabilidade orçamental”, referiu, na apresentação das Previsões Económicas de Outono de 2025, o comissário para a Economia e Produtividade, Valdis Dombrovskis.

A atual subida de preços deve-se à guerra no Médio Oriente que levou ao bloqueio do Estreito de Ormuz, por onde passa grande parte do comércio de petróleo e gás natural. Apesar de Portugal não importar petróleo ou gás natural do Médio Oriente, a guerra naquela região provocou um aumento dos preços. Os principais fornecedores de petróleo a Portugal são o Brasil e a Argélia, e os de gás natural são a Nigéria e os EUA. À partida, Portugal não teria nada a temer, mas os especialistas explicam que o aumento se deve à lei da oferta e da procura (esta lei preconiza que, se a procura é alta e a oferta é baixa, os preços tendem a subir; e, se a oferta supera a procura, tendem a cair”. Assim, os preços também aumentam, para Portugal, uma vez que a procura por combustível aumenta nos seus países abastecedores.

***

Os líderes da UE criticaram a decisão de Donald Trump de levantar as sanções contra o petróleo russo, que alimenta a guerra contra a Ucrânia, com Washington a tentar aliviar os preços da energia, após a segunda semana de conflitos no Médio Oriente. Com efeito, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, anunciou, a 12 de março, a autorização temporária que permite aos países comprarem petróleo russo retido no mar. A medida é importante, pois o aumento dos preços do petróleo em resultado da guerra significa que a Rússia pode ganhar dinheiro.

Esta licença permitirá aos importadores comprarem petróleo bruto e produtos petrolíferos russos carregados em navios, a partir de 12 de março, podendo desembarcar até 11 de abril.

Os EUA tentam lidar com as consequências da guerra contra o Irão, que fez disparar os preços do petróleo para mais de 100 dólares, por barril, uma vez que Teerão tem como alvo os produtores de petróleo dos países do Golfo e o estreito de Ormuz, de importância crítica para os navios de carga. As operações no estreito foram, efetivamente, interrompidas.

Em conferência de imprensa, a 13 de março, o chanceler alemão, Friedrich Merz, afirmou que aliviar as sanções, agora, é errado e que o apoio à Ucrânia não deve ser “distraído ou dissuadido” pela guerra no Médio Oriente, ao invés do que defende o chefe do governo húngaro que pretende que a UE também levante as suas sanções à Rússia.

António Costa, presidente do Conselho Europeu, diz que a decisão unilateral dos EUA de levantarem as sanções contra as exportações de petróleo russas “é muito preocupante, uma vez que afeta a segurança europeia”, pois “a Rússia é o único beneficiário da atual situação, que vê os cofres de Moscovo a lucrar com a guerra”.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, apelou, a 11 d março, à aplicação do limite máximo de preço ao petróleo russo e à manutenção das medidas restritivas, pois “este não é o momento de aliviar as sanções contra a Rússia”. E o presidente francês, Emmanuel Macron, reiterou estas observações, após ter presidido a uma reunião do G7, em que afirmou não se justificar qualquer recuo nas sanções contra a Rússia.

***

São de saudar todas as medidas da UE que beneficiem os cidadãos, as famílias e as empresas. E uma delas é a atinente à descida de impostos. Porém, dificilmente se entende como a Comissão Europeia pretende a redução de impostos e fiscaliza, de perto, a parca redução portuguesa do ISP.

Por outro lado, sente as dores resultantes da guerra no Médio Oriente e não as das sanções que decretou contra a Rússia, que encareceram, por ricochete, o custo de vidas dos povos europeus. Ora, as dores da guerra da Ucrânia não são mais suaves do que as do conflito com o Irão.

2026.03.13 – Louro de Carvalho

sexta-feira, 13 de março de 2026

A ciência está a olhar de outra forma para a escamas de peixe


As escamas de peixe acabam no caixote do lixo dos mercados e das nossas casas. Porém, nos laboratórios do Departamento de Histologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Granada (UGR), o Grupo de Engenharia de Tecidos examina, com novo olhar, estes resíduos, cujo resultado é o implante de córnea (queratoplastia) biocompatível, resistente e transparente, a partir das escamas da carpa e de outros peixes de consumo comum.

Segundo a equipa de investigação, os testes laboratoriais e em animais mostraram promissores resultados para reparo e regeneração da córnea. Os implantes de escamas de peixe são transparentes, duráveis e altamente compatíveis com tecido biológico.

A investigação foi financiada pelo Instituto de Saúde Carlos III, do Ministério da Ciência, Inovação e Universidades, através do projeto PI23/00335. O trabalho foi apresentado na presença do diretor do Hospital Clínico San Cecilio de Granada, Manuel Reyes, o que reflete o interesse do meio clínico no desenvolvimento desta linha de investigação.

A este respeito, o jornalista Jesus Maturana, em artigo intitulado “Transplantes de córnea feitos de escamas de peixe, a mais recente descoberta da medicina espanhola”, publicado pela Euronews, a 12 de março, dá-nos conta de que investigadores da UGR desenvolveram implantes de córnea, a partir de escamas de peixe”, uma descoberta que “abre uma via” à redução da “dependência dos transplantes”.

O jornalista lembra que “a córnea é a camada transparente que cobre a parte da frente do olho” e que tem “função ótica essencial”. Com efeito, quando fica gravemente doente, regenera-se mal e não recebe irrigação sanguínea direta, o que complica o tratamento, sendo o transplante de um dador, em muitos casos, a única saída. Porém, a dependência de dador e a limitação da disponibilidade de tecido saudável levam a que as listas de espera sejam longas. “É necessário desenvolver novos métodos eficazes de regeneração que não dependam da doação de órgãos”, afirma Miguel Alaminos, professor de Histologia da UGR.

O estudo, publicado na revista “Materials & Design”, explicita como a análise dos flocos permitiu obter um biomaterial com propriedades adequadas para ser utilizado na reparação da córnea. Os testes efetuados em condições laboratoriais e em animais experimentais deram bons resultados funcionais. E, para lá do interesse clínico, os investigadores destacam uma vantagem prática: a origem do material torna-o barato e fácil de obter, pois as escamas de peixe são um subproduto da indústria pesqueira que é, geralmente, descartado. A sua transformação em matéria-prima para implantes médicos abre um potencial de utilização que pode ter consequências económicas, no litoral e no interior dos países.

De acordo com a explicação de Ingrid Garzón, professora de Histologia da UGR e investigadora do Instituto de Investigação Biosanitária ibs.GRANADA, este produto é muito acessível, fácil de obter e barato, e poderia contribuir para impulsionar o setor da pesca, numa zona que está a ser afetada por numerosas restrições e condicionantes”.

Os resultados preliminares são suficientemente sólidos, para justificar a sua continuação. A fase laboratorial e os testes em animais passaram os primeiros filtros, mas, antes de este tipo de implante chegar à sala de operações, é preciso completar os ensaios clínicos em humanos, o que demora anos e postula regulamentação rigorosa.

Para já, a equipa da UGR conseguiu a demonstração de que o material funciona a nível biológico e estrutural. O facto de as escamas de carpa serem convertíveis numa córnea viável ainda não é realidade clínica, mas é hipótese fortemente apoiada por dados. Num domínio em que a escassez de dadores continua a ser problema, sem solução fácil, isso é bastante.

 

***

Sobre o mesmo tema, o jornal espanhol “El Mundo” publicou, também a 10 de março, um artigo intitulado “De um mercado em Granada para os seus olhos: desenvolvem uma córnea bioartificial à base de escamas de carpa”, em que a jornalista Rocío R. García-Abadillo refere que, embora os resultados da investigação sejam promissores, ainda temos de esperar de quatro a cinco anos, para que  tais córneas cheguem a um paciente.

A jornalista do “El Mundo” levanta a hipótese de ter sido, “enquanto faziam compras na peixaria, preparavam o jantar, em casa, ou assistiam a um documentário sobre a Natureza, numa tarde de domingo”, que surgiu o momento exato de “Êúrêka!” arquimediano que inspirou os pesquisadores “a considerarem as escamas de peixe como um material adequado para a criação de córneas artificiais”. Seja como for, testaram a ideia, que funcionou, pelo menos, nos modelos laboratoriais. E Miguel Alaminos revela que, um dia, “meio que por acaso”, começaram a pensar em escamas de peixe, que “são muito duras, mas flexíveis e transparentes”.

O investigador diz que é um processo em que a sorte desempenha relevante papel. Passaram o dia a procurar novos materiais, a tentar aprimorar os produtos que fabricavam. Às vezes, não funcionavam, mas, outras vezes, mostraram-se “muito biocompatíveis” e a funcionarem “muito bem”. Trata-se, pois, de processo de meses ou de anos, até se verem “as células proliferarem, os genes expressos serem os corretos, assim como as propriedades físicas...”

Como refere a articulista, o historial do grupos já se estende por mais de 25 anos, ou seja, desde a criação do Grupo de Engenharia de Tecidos no Departamento de Histologia da Faculdade de Medicina da UGR. Durante esse período, desenvolveram uma córnea artificial (o seu primeiro produto), uma pele artificial, que implantaram em mais de 25 pacientes, tal como desenvolveram um palato artificial, que foi implantado em cinco crianças.

O Grupo fabrica esses produtos e aprimora-os, continuamente, como fez, agora, com a córnea, na constante demanda por propriedades aprimoradas e por maiores benefícios para os pacientes. O problema, de acordo com Miguel Alaminos, é que, por serem terapias avançadas e regidas por legislação complexa, a nível europeu, levam tempo a chegar às aplicações clínicas, isto é, para serem usadas pelos pacientes; e cada avanço ou aprimoramento exige nova autorização da Agência Europeia de Medicamentos (EMA). É começar do zero. A primeira córnea levou 10 anos; a pele artificial; de seis a sete; e o palato artificial, cerca de cinco.

Para a córnea bioartificial (os materiais são biológicos) chegar ao olho de uma pessoa, ainda será de esperar quatro a cinco anos, na melhor das hipóteses.

Todavia, Miguel Alaminos revela o que fizeram, desde o momento em que surgiu a ideia. Começaram a investigação, compram os peixes no mercado e levam-nos para o laboratório, o mais rápido possível, porque, tal como na culinária,  produto fresco é sempre preferível. Inicialmente, procuravam as espécies de peixe mais comuns que viam nos mercados de Granada, onde investigam. Testaram salmão, sardinha, dourada e peixe-vermelho – peixes  utilizados comumente – e descobriram que todos são bastante adequados, pois, sendo produtos fornecidos pela Natureza, as suas células desenvolvem-se muito bem.

O plástico artificial, como observa o investigador, não é o mesmo que um produto natural. Todos funcionam muito bem, mas nota-se que “algumas escamas são um pouco mais transparentes, outras um pouco mais resistentes, outras um pouco mais biocompatíveis, e assim por diante”. Foram analisadas diversas espécies animais, mas concluíram, no final, que as escamas de carpa, de um peixe de água doce, oferecem as melhores propriedades gerais, entre todas as mencionadas, embora todas tenham os seus prós e contras.

E o cientista, pormenorizando, explicita que se retiram, com pinças, as escamas do tamanho certo e se processam, para remover o que não é necessário. Como as escamas de peixe contêm muitos componentes muito úteis, para nós, porque “não somos tão diferentes dos peixes, do ponto de vista evolutivo”, como se poderia pensar, há componentes da pele humana presentes nas escamas de peixe, o que postula que se mantenham. Em paralelo, há coisas que são muito diferentes, porque se passaram milhões de anos, desde a evolução, pelo que devem ser eliminadas. É, por exemplo, o caso das células de peixe presas à epiderme do peixe ou a camada fina de carbonato de cálcio  (CaCO3), que a maioria das escamas tem na sua superfície.

Para limpar as escamas, os investigadores usam um processo que vêm aprimorando, há “muitos meses, em laboratório”, e que “envolve a combinação de vários produtos”, mas, sobretudo, um “ácido que ajuda a eliminar todo o cálcio, as células e qualquer tecido epidérmico remanescente que não seja mais necessário”. Isso resulta num biomaterial que forma o núcleo da escama, utilizável em engenharia de tecidos. “A parte central contém colágeno e outros materiais muito úteis. Em seguida, lavamos bem e começamos a fixar células da córnea, que obtemos de culturas de células cultivadas em laboratório”, explica Alaminos.

O investigador diz que as células são depositadas na superfície, usando materiais e meios de cultura que permitem criar várias camadas de células sobre a escama, resultando em algo semelhante à córnea humana. E explica: “A córnea humana tem um material composto por muitas fibras paralelas transparentes e resistentes. E, sobre ele, há células. É mais ou menos isso que temos: material resistente e transparente com células da córnea sobrepostas. É semelhante a uma córnea artificial e, teoricamente, poderia ser implantada num paciente.”

Enquanto a pele forma cicatriz e se fecha bastante rapidamente, quando lesionada, a córnea cicatriza muito lentamente, por não ter vasos sanguíneos, resultando em capacidades limitadas de regeneração e de reparo. Por exemplo, trabalhadores rurais, às vezes, perfuram os olhos com galhos de árvore, causando buraco ou úlceras que duram semanas, meses ou anos. Assim, os primeiros pacientes serão os que têm danos graves na córnea e essas úlceras, tendo perdido a visão ou sentindo dores oculares terríveis. Há de ser possível remover a córnea danificada e substituí-la pela transparente criada, mas isso levará algum tempo, no dizer do cientista.

Outra vantagem inegável é não depender de doações: “Muitos desses pacientes com patologias corneanas graves só podem ser tratados por meio de transplante. Embora o transplante convencional ofereça, geralmente, bons resultados, é necessário desenvolver novos métodos eficazes de regeneração que não dependam da doação de órgãos, que está sujeita a listas de espera”, observa o investigador.

Miguel Alaminos relata que, há um ano, também analisaram a lula, mas os resultados não foram melhores do que os oferecidos pela córnea artificial e não prosseguiram com essa linha de investigação. Admite que será útil para outros produtos, como cartilagem, mas não para córneas. Agora, tentam aprimorar a córnea, incluindo fatores de crescimento, fatores bioativos encontrados no azeite de oliva, que, segundo descobriram, fazem as células proliferarem mais e se diferenciarem melhor. Tentam criar tecidos artificiais com esses produtos à base de azeite de oliva e aprimoram produtos com nanopartículas que podem conter fatores biológicos, fatores de crescimento, antibióticos, etc. – coisas de que o paciente precise. Enfim, aprimoram os produtos que fabricam, para benefício dos pacientes que os receberem, no futuro.

Por último, como dizem os investigadores, embora sejam necessários ensaios em humanos, antes de as córneas poderem ser usadas clinicamente, a inovação representa um passo promissor rumo a tratamentos “acessíveis e económicos”, para pacientes, em todo o Mundo, potencialmente aliviando a escassez global de tecido doador. Com efeito, esta opção não carece de doador, só bastando que haja peixes para pescar e que a União Europeia (UE) não imponha quotas de pesca para fins clínicos.

***

Trata-se de mais um avanço na oftalmologia e na cirurgia oftálmica.

É de lembrar que, em outubro de 2023, era notícia a criação do primeiro Banco de Córneas de Cultura, no Centro Hospitalar de Santo António, no Porto, a respeito do qual o então ministro da Saúde, Manuel Pizarro, no dia da inauguração, a 13 daquele mês, dizia que aquele investimento do Serviço Nacional de Saúde (SNS) era iniciativa que criava “valor, para as pessoas”, permitindo “fazer mais transplantes de córnea e reduzir o tempo de espera para a intervenção”. E salientava o “elevado humanismo” da nova resposta, considerando que tudo era feito “em nome das pessoas”, sendo o Banco de Córneas do Santo António “exemplo perfeito” de como “o SNS cumpre o desiderato humanista e essencial de democratizar o acesso à inovação tecnológica e científica, na área da Saúde”.

A criação do Banco de Córneas de Cultura – resultante da cooperação entre o Serviço de Oftalmologia, o Serviço de Anatomia Patológica (técnicos de citopatologia), o Centro Materno-Infantil Albino Aroso (biólogos do Banco de Gâmetas), o Centro de Transplantação e o Departamento da Qualidade – abriu caminho à duplicação do número de doentes transplantados, robustecendo o programa e permitindo a oferta de córneas a outros hospitais. O processamento laboratorial da córnea, em meio de cultura, ultrapassando a conservação a frio, permite alargar os critérios de colheita, o prazo de validade e a qualidade dos tecidos colhidos.

A escassez de tecidos, já então apontada, é o passo limitante do processo de transplantação de córneas. Até àquela data, o Santo António obtinha 150 a 200 córneas, por ano, aquém das potencialidades do programa de transplantação. Ora, é necessário, como sustentava Manuel Pizarro, “cooperar em rede, partilhar os recursos”, pois, “os cidadãos pedem serviços de qualidade”, mas “exigem rentabilização dos serviços e dos recursos públicos existentes”.  Por exemplo, sublinhava o governante, os centros hospitalares de São João e de Santo António partilham a urgência de oftalmologia, aplaudindo o aumento da capacidade de obter córneas, possibilitando partilha de tecidos entre hospitais e evitando importação estrangeira.

Neste contexto, o então ministro da Saúde agradeceu “a dedicação e empenho dos profissionais”, destacando que o novo Banco foi “uma iniciativa dos profissionais do Santo António, que mobilizaram a sua energia, em prol da dignidade das pessoas”.

Como a córnea é, no olho, a estrutura transparente que está à frente da íris, o desafio é devolver transparência, quando há patologia que põe em causa a passagem de luz. O Hospital de Santo António fez o primeiro transplante de córnea, em 1958, e foram, até 1980, efetuados 198, o que representava uma média de nove, por ano. Em 1980, o hospital criou o Banco de Olhos para córneas refrigeradas, o que permitiu a conservação das córneas, por alguns dias, possibilitando atividade mais regular. Com o banco de cultura, o número de potenciais dadores aumenta, bem como o tempo de preservação. A preservação vai até um mês, em vez de uma semana ou duas. Isto porque a preservação a frio permite a utilização das córneas até ao máximo de 14 dias, tratando-se de um método com outras limitações, porque exclui os dadores acima dos 80 anos de idade e as vítimas de septicemia. Já o “Banco de Córneas de Cultura” permite o processamento laboratorial em meio biológico, ultrapassando a conservação a frio, alargando os critérios de colheita, além do prazo de validade e a qualidade dos tecidos colhidos.

***

Nesta matéria, os países ibéricos são pioneiros.

2026.03.12 – Louro de Carvalho