quinta-feira, 3 de setembro de 2026

A Igreja não pode ser passiva nem indiferente ao que acontece no Mundo

 

A Audiência Geral, a 2 de setembro, voltou à Praça São Pedro, após ter sido realizada, em quatro semanas, na Basílica Vaticana. Ante cerca de 15 mil fiéis, Leão XIV introduziu o comentário ao documento do Concílio Vaticano II sobre a relação da Igreja com o Mundo Contemporâneo, a Constituição Pastoral Gaudium et spes. O texto, que procura “responder, de modo , em cada geração, às eternas perguntas dos homens acerca do sentido da vida”, aprofunda um tema fundamental, que é a relação da Igreja com o Mundo Contemporâneo, reconhecendo “uma nova ordem de relações humanas”, como definiu São João XXIII. 

A Constituição Conciliar Gaudium et spes começa por declarar que a Igreja sente como suas “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo, dos pobres e de todos os que sofrem” (GS 1). “Essa partilha com a Humanidade é o caminho que Cristo pede à Igreja”, afirmou o Papa, explicitando: “É a partilha que nos convida a sair da passividade e da indiferença, face aos acontecimentos, à História e à vida das pessoas, sobretudo, ante a mudança rápida e profunda que hoje vivemos. Não podemos ficar como espectadores desinteressados; ao invés, é preciso escutar com o coração, deixar-se interpelar, envolver-se.”

Os fiéis são, pois, chamados a assumir as dificuldades dos irmãos, “sobretudo, dos que são oprimidos pela injustiça, pela discriminação e pela violência”. Nesse sentido, frisou o Pontífice, a proximidade com a Humanidade abre caminho a uma leitura mais profunda dos acontecimentos e da Revelação e, nessa linha, a Gaudium et spes recorda o “dever de a Igreja investigar, a todo o momento, os sinais dos tempos e interpretá-los à luz do Evangelho” (GS 4).

Portanto, esta Constituição conciliar exorta a Igreja ao compromisso permanente de conversão e a desmascarar as contradições que caraterizam o Mundo Contemporâneo. Como exemplo, o Papa citou o progresso científico e tecnológico que oferece sempre novas possibilidades, mas apenas a alguns; ou a maior disponibilidade de riquezas desproporcionadamente distribuídas; ou ainda, diante de ações que ameaçam o futuro do planeta, a incapacidade de renunciar ao consumo egoísta e à ilusão de que a guerra é um caminho eficaz para construir a paz.

Assim, concluiu Leão XIV, numa época de profundas mudanças, “das quais decorrem desequilíbrios preocupantes, a Igreja é chamada a servir o ser humano, escutando e acolhendo as questões mais profundas do seu coração e os anseios que nele habitam, indicando em Cristo a chave, o centro e o fim de toda a história humana” (GS 10). E exortou a que a alegria e a esperança – gaudium et spes – sejam as caraterísticas distintivas da Igreja que anuncia e testemunha o Evangelho, aproximando-se das mulheres e dos homens do nosso tempo”.

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É neste sentido que se deve entender a publicação do documento “Cuidar da nossa Casa comum” pela Comissão Teológica Internacional (CTI), que insta à “resposta responsável e fraterna ao Deus trinitário” e que é uma questão de vida ou da sua negação, para a Humanidade. De facto, a questão ecológica é uma questão teológica, pois a forma como cuidamos da Criação revela e molda a relação com Deus. Ora, se a deterioração do meio ambiente é alarmante, é necessária uma ação urgente, em prol da sustentabilidade do planeta. Tudo está interligado: ouvir o clamor da Terra e dos pobres

Como responder, de uma perspetiva cristã, à “crise ecológica e social”, “míope e suicida”, na qual se encontra a Humanidade? Esta é a questão que está na base do novo documento da Comissão CTI, intitulado “Cuidar de nossa Casa comum – Resposta responsável e fraterna ao Deus trinitário” e publicado a 2 de setembro, sob autorização de Leão XIV. O texto é fruto de reflexões realizadas entre 2022 e 2025. O ponto de partida é a “tripla mutação” que levou, ao longo dos anos, à perda da perceção espontânea da Natureza como criação de Deus; ao surgimento de uma visão cada vez mais antropocêntrica e predatória, na relação entre o homem e a Criação; e à propagação de uma crise planetária.

No primeiro capítulo do documento – “A Casa Comum, obra do Deus trinitário” –, destaca-se “a marca não apenas divina, mas também trinitária” presente na Criação. Essa marca apresenta os traços da sacramentalidade, ou seja, é sinal de “uma realidade sagrada e oculta”, que tem a “máxima elevação” na Eucaristia e da inter-relação, pois o ser humano responde à sua vocação, desenvolvendo, corretamente, as relações com Deus, com os outros e com a Criação. “Nada nem ninguém é uma mónada – lê-se no documento – Tudo está interrelacionado” para formar “uma única comunidade de vida.” Ademais, esse capítulo desenvolve o diálogo com algumas visões científicas e filosóficas do cosmos, ilustrando como a fé no Deus criador oferece algo que a ciência não consegue proporcionar, embora indague, “legitimamente”, as primeiras fases do universo. Na verdade, se a cosmologia reflete sobre como surgiu, o Mundo a fé explica o porquê: Deus dá ao universo uma origem metafísica, não simplesmente física, e chama, livremente, à existência aquilo que, por si só, não existiria.

O segundo capítulo – “O ser humano na Casa comum” – começa com uma reflexão sobre o homem criado à “imagem e semelhança de Deus”, o que serve de ponto de partida para reafirmar que as diferenças de etnia, de género, de cultura, de status social ou económico não implicam, de forma alguma, uma hierarquia. Utilizá-las para discriminar ou para subjugar o outro afasta-se do desígnio de Deus. E a CTI resume alguns dados “muito alarmantes sobre a deterioração ecológica”: o desaparecimento da diversidade biológica; a poluição atmosférica; a piora da qualidade da água; a guerra que acelera, “brutalmente”, a destruição do meio ambiente; as repercussões “extremamente graves” de tudo isso sobre os mais pobres, explorados nos seus recursos naturais e forçados à migração. Daí o forte apelo: ante uma crise ecológica “sem precedentes”, são necessárias soluções científicas e técnicas, mas, sobretudo, “uma mudança nos valores culturais”, uma verdadeira conversão ecológica no modo de vida.

O documento propõe, ainda, falar de “pecado contra a Criação e contra o Criador”, uma formulação teológica que une o dano ambiental à rejeição do desígnio divino da criação, evitando tanto a linguagem puramente científica (como “ecocídio”) como a dispersão da responsabilidade. O momento histórico atual “exige de todos, a começar pelos responsáveis pela vida pública, uma ação urgente em favor da sustentabilidade do planeta e da habitabilidade da Casa Comum. Não se trata só de uma exigência ética, mas também teológica”.

O olhar da fé leva a rejeitar “dois extremos inaceitáveis”: o antropocentrismo predatório, que julga a Humanidade “dona absoluta de toda a criação”, e o biocentrismo ou ecocentrismo, que absolutiza a Natureza. E a proposta cristã é a de um “antropocentrismo situado” (expressão do Papa Francisco retomada por Leão XIV), que põe o ser humano como “administrador e servidor da Criação”. Essa dupla vocação encontra o seu ápice na Eucaristia, “escola ecológica”, graças à qual se promove “uma atitude positiva e proativa em relação à Natureza”.

O terceiro capítulo – “O cuidado da Casa comum” – oferece diretrizes operacionais, articuladas em torno de cinco relações fundamentais da pessoa. Da relação com Deus deriva a “lógica jubilar”: baseada na fraternidade, na solidariedade, na gratuidade e na humildade, ela conduz à justiça social. Da relação consigo mesmo brota “uma espiritualidade ecológica” que convida a um estilo de vida saudável, atento ao consumo (“cada ato de compra é um ato moral”) responsável.

Da relação com a Criação decorrem princípios como a reverência; a sustentabilidade; a escuta do “clamor comovente” da Terra, “tragicamente ligado ao clamor dos pobres”; o respeito pela vida (que permite ao homem utilizar os recursos naturais, mas com moderação e de acordo com as necessidades); a ascese e o jejum (resposta moral à superexploração dos recursos, especialmente, nos países ricos); e o compromisso diferenciado, de acordo com as responsabilidades das diversas nações.

Da relação com o próximo emergem a sacralidade da vida humana (direito incondicional e inalienável que os Estados devem proteger e promover, inclusive, pela rejeição da guerra); a destinação universal dos bens (a Casa comum deve ser cuidada também para as gerações futuras); a fraternidade (antídoto contra um individualismo “falso, egoísta, atroz e ávido”); a misericórdia; e a opção preferencial pelos pobres.

Como quinta e última relação, a CTI reflete sobre a oferecida contribuição das diversas religiões para o cuidado da Criação. Destacam-se, em particular, os elementos mais comuns: a interconexão entre tudo o que existe; o dever de respeitar todos os seres vivos; a responsabilidade do homem. Portanto, “do ponto de vista da fé cristã, as portas estão abertas para uma colaboração inter-religiosa na tarefa comum de cuidar, respeitosamente, de toda a Criação”.

Na conclusão do documento, a CTI reafirma que a questão ecológica é uma questão teológica: a maneira como nós cuidamos da Criação molda a relação com o próprio Deus. O texto convida a uma “viragem ecológica”, seguindo o exemplo de São Francisco de Assis, e encerra-se com uma nota de esperança: a crise ambiental, por mais grave que seja, não abala a confiança em Deus, que faz “novas todas as coisas”.

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Na Casina Pio IV, no Vaticano, o Centro Internacional de Estudos da Consciência (ICCS) promoveu, de 1 a 2 de setembro, o debate internacional sobre companheiros da inteligência artificial (IA), solidão, criatividade e consciência. Uma a cada seis pessoas no mundo sente solidão, enquanto na Itália, o uso da IA nas empresas dobrou, num ano. A questão não é o que as máquinas serão capazes de fazer, mas qual papel ocuparão nas nossas vidas.

Podemos apaixonar-nos por uma IA, sabendo que ela não é uma pessoa? Um companheiro da IA pode ser um antídoto para a solidão, ou corre o risco de substituir, gradualmente, as relações humanas? E se uma máquina é capaz de criar, lembrar o que lhe dizemos e aprender sobre nós, onde fica a linha divisória entre a IA a mente humana? Estas questões são cada vez menos teóricas. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), aproximadamente, uma em cada seis pessoas, no Mundo, sofre de solidão e, entre os adolescentes, o número chega a cerca de 21%. Ao mesmo tempo, a presença da IA ​​na economia cresce: de acordo com o ISTAT (Instituto Italiano de Estatística), 16,4% das empresas italianas com pelo menos 10 funcionários utilizou, em 2025, tecnologias de IA, o dobro dos 8,2% registados em 2024.

Neste contexto, filósofos, cientistas cognitivos, pesquisadores e especialistas em IA de diversos países debateram uma das fronteiras mais controversas abertas pela IA: a entrada das máquinas em territórios que sempre consideramos profundamente humanos, desde as relações à criatividade, da identidade à consciência.

O evento faz parte de “Criatividade: mentes e máquinas”, a terceira conferência internacional do ICCS, fundado por Dmitry Volkov, Pietro Perconti e Alessio Plebe para promover debates internacionais e interdisciplinares sobre as grandes questões que envolvem a mente e a consciência. Assim, a conferência tentou explorar como a evolução da IA ​​está a redefinir a relação entre humanos e máquinas.

Uma das áreas mais controversas é a dos companheiros da IA: sistemas projetados não só para responder a perguntas, mas para desenvolver interações contínuas com as pessoas. Lembram-se de conversas e de preferências, adaptam as respostas e podem construir uma relação cada vez mais personalizada, ao longo do tempo. Nesse contexto, Dmitry Volkov, filósofo, empreendedor de tecnologia e cofundador do ICCS, levanta uma das questões mais radicais: Pode existir uma IA digna de amor humano? Não se trata de imaginar a máquina que engane uma pessoa, fingindo ser humana, mas se, mesmo sabendo que está a lidar com uma máquina, um ser humano pode desenvolver um vínculo afetivo autêntico e significativo com ela. Este tema cruza-se com o da solidão. Se um sistema artificial consegue ouvir, lembrar e acompanhar uma pessoa. ao longo do tempo, pode ajudar a combater o isolamento? Ou corre o risco de tornar mais fácil abrir mão da complexidade das relações reais?

O que torna a relação com as máquinas ainda mais delicada é a bajulação, a tendência dos sistemas de IA de agradarem ao interlocutor e de produzirem respostas próximas do que acham que ele quer ouvir. No caso dos companheiros de IA, uma máquina que está sempre disponível e complacente pode tornar-se uma “câmara de eco algorítmica”, reforçando convicções e fraquezas em vez de as desafiar. Daí um paradoxo: para se assemelhar a uma relação autêntica, talvez a IA também tenha que aprender a dizer não.

Se uma máquina cria, quem é o autor? Outra grande fronteira da discussão é a criatividade artificial. Texto, imagens, música e vídeo, agora, podem ser gerados em segundos. Mas produzir algo novo significa ser criativo? E, quando uma obra surge da colaboração entre a pessoa e um sistema generativo, quem é o autor? A mudança é visível nos números: nos setores de produção de cinema, vídeo e televisão, e de gravação de música e som, segundo o ISTAT, a IA é utilizada por 49,5% das empresas (quase metade)

Em Roma, o debate explora a criatividade sintética, a sabedoria artificial, a capacidade de agir, a identidade pessoal e a consciência, reunindo filosofia, neurociência, ciência cognitiva e IA. Isto, porque o crescimento da IA ​​está a gerar um paradoxo: quanto mais as máquinas adquirem capacidades que, antes, considerávamos exclusivamente humanas, mais somos forçados a questionar-nos, não apenas sobre “o que a máquina pode fazer”, mas sobre o que significa criar e compreender; o que torna uma relação autêntica e o que significa ser consciente.

Nicholas Humphrey, psicólogo teórico britânico, entre os estudiosos internacionais de consciência mais críveis, recebeu o Prémio Dennett e fez a palestra “Consciência e a Alma: a realidade de uma ilusão”. E, aqui, surge, talvez, a questão mais radical. Elaborar informação, falar como ser humano ou produzir obras criativas não significa, necessariamente, ter experiência subjetiva do Mundo. Porém, se, no futuro, a máquina puder criar, lembrar-se do seu passado, construir uma identidade, discordar e estabelecer relações duradouras, ainda poderemos considerá-la apenas um instrumento? De facto, à medida que as máquinas se tornam cada vez mais capazes de imitar o que fazemos, há que redefinir o que significa ser humano.

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A terminar, é de vincar que a intenção de oração do Papa para setembro é reconhecer a água como dom de Deus e um direito “sem fronteiras”, quando 2,1 mil milhões de pessoas não têm acesso seguro à água potável – mas acesso intermitente, insuficiente, demasiado dispendioso ou a grande distância – e 106 milhões dependem de rios, de lagos ou de outras águas superficiais sem tratamento; 3,4 mil milhões de pessoas não dispõem de saneamento gerido de forma segura, 1,7 mil milhões de pessoas carece de serviços básicos de higiene, em casa; e 611 milhões não têm nenhuma instalação para lavar as mãos; e um milhão e 400 mil mortes, por ano, estão associadas à água insegura e à falta de saneamento.

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À luz do Evangelho e da Gaudium et spes, a Igreja (e cristãos) deve estar no grito do pobre (água, terra, teto e trabalho), no grito da Terra (esfacelada) e nas perplexidades humanas, como face à IA e ao seu uso para a guerra e noutras formas de desumanização. Uso, mas não abuso!

2026.09.03 – Louro de Carvalho


El Niño atingirá o pico no fim de dezembro, mas será intenso até fevereiro

 

A Organização Meteorológica Mundial (OMM), agência climática da Organização das Nações Unidas (ONU), a 3 de setembro, advertiu que El Niño deverá tornar-se “muito forte”, nos próximos meses, devendo atingir o pico perto do final deste ano, mas, como o calor acumulado nos oceanos passa mais lentamente para a atmosfera, elevará as temperaturas globais, em 2027, pelo menos, até fevereiro.

“El Niño está firmemente instalado e irá intensificar‑se até se tornar um evento muito forte nos próximos meses, com grandes impactos nos padrões de precipitação e de temperatura e riscos associados de cheias, seca e calor extremo”, indicou a OMM.

El Niño, que aquece as temperaturas da superfície no Pacífico equatorial central e oriental, provocando alterações globais nos padrões de vento, de pressão atmosférica e de precipitação, ocorre, em média, a cada dois a sete anos e costuma durar entre nove e 12 meses. Tende a atingir o auge no final do ano, mas o calor acumulado nos oceanos é libertado mais lentamente para a atmosfera, fazendo subir as temperaturas globais no ano seguinte. As condições oscilam entre El Niño e La Niña (fenómeno climático natural caraterizado pelo arrefecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico central e oriental), intercaladas por fases neutras.

El Niño é, pois, um fenómeno climático natural e não é provocado pelas alterações climáticas. Não obstante, os cientistas esperam que agrave o aquecimento de um planeta já mais quente, devido à queima de combustíveis de origem fóssil, intensificando, ao mesmo tempo, os fenómenos meteorológicos extremos.

Por seu turno, o secretário‑geral da ONU, António Guterres, sustenta que o fenómeno está a ser levado a escala gigantesca ante os nossos olhos. “A ciência não deixa margem para dúvidas: o planeta entrou em águas desconhecidas e essas águas estão a aquecer. As temperaturas da superfície do mar estão a subir, as temperaturas continuam a aumentar e o Mundo encontra‑se na zona de perigo do clima extremo”, discorreu, frisando que a corrida é entre o aumento do risco e o compromisso de agir pelo clima e pelas pessoas, tendo nós de vencer a corrida.

A diretora da OMM, Celeste Saulo, lembrando que o ano mais quente de que há registo é 2024, na sequência do último episódio de El Niño, alerta que “este El Niño excecional tem potencial para desferir um golpe massivo nas comunidades e nas economias, em todo o Mundo”, de tal modo que “estamos a assistir a perturbações e [a] destruição causadas por secas e [por] cheias e esperamos que estes impactos aumentem, à medida que o El Niño se intensifica”. Por isso, deixa aviso às autoridades de gestão de catástrofes e aos setores sensíveis ao clima, como a agricultura, a saúde, a energia e a água, vincando que “não há tempo a perder” na preparação. Com efeito, segundo a OMM, “impulsionado por condições oceânicas excecionalmente quentes, em todo o Pacífico tropical, El Niño deverá fortalecer‑se, ainda mais, nos próximos meses até uma intensidade muito forte”.

A agência da ONU em referência classifica os episódios de El Niño como fracos, moderados, fortes ou muito fortes, o que significa que o atual deverá atingir o nível mais elevado dos quatro níveis, havendo mesmo “probabilidade excecionalmente elevada, de quase 100%”, de El Niño continuar até fevereiro.

El Niño pode alterar padrões de tempo e de clima a milhares de quilómetros de distância do Pacífico tropical. Cada episódio é diferente, mas os grandes eventos tendem a seguir padrões conhecidos. Entre eles, contam‑se secas, em partes da Amazónia, da Indonésia e da Austrália, monções perturbadas, na Índia, e alterações da pluviosidade, em várias regiões tropicais. E, para o período de setembro a novembro, as previsões sugerem maior probabilidade de temperaturas acima do normal, em quase todas as áreas terrestres, acompanhadas de padrões de precipitação que revelam “resposta atmosférica marcada e clássica ao forte El Niño no Pacífico”.

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Um novo estudo publicado, a 27 de agosto, na revista “Science” – que recua cerca de 900 anos, na análise dos episódios de El Niño –, indica que este fenómeno natural de caos climático que surge, periodicamente, faz disparar as temperaturas globais e torna-se mais intenso, devido às alterações climáticas provocadas pelo homem, sendo os episódios de El Niño, hoje, mais de 36% mais fortes do que antes do início da era industrial, em meados do século XIX, com o salto de 16%, só nos últimos 40 anos, o que mostra que o aumento acelera.

As conclusões surgem numa altura em que forte episódio de El Niño, formado há alguns meses, deverá tornar-se o mais intenso de que há registo, nos próximos meses. Os fenómenos de El Niño, isto é, aquecimentos temporários de partes do Pacífico equatorial, alteram o estado do tempo, em todo o Mundo, e aumentam os eventos extremos, incluindo ondas de calor, cheias, em algumas regiões, e secas, noutras. Podem causar prejuízos de biliões de dólares.

“Isso é importante, porque episódios fortes de El Niño têm impactos muito mais marcados em riscos climáticos e extremos, em todo o Mundo”, afirma Julia Cole, autora principal do estudo, especialista em Paleoclima, na Universidade de Michigan, nos Estados Unidos da América (EUA), explicando: “Quando tentámos responder à questão de porque é que isto pode estar a acontecer, cruzámos os dados com o registo da temperatura global e verificámos que o aumento da intensidade dos episódios de El Niño acompanha, de perto, a subida da temperatura global, causada por fatores humanos, como a queima de combustíveis fósseis.”

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“El Niño é o aspeto mais violento da variabilidade climática, a nível mundial, com efeitos que vão desde o colapso de pescarias locais a mortandades generalizadas de coral, a secas severas e a falta de alimentos, em todo o Mundo”, afirma Boris Worm, especialista em ciências marinhas, da Universidade de Dalhousie, que não participou no estudo.

Worm cita o cientista do clima Wallace Broecker, que alertou: “O sistema climático é uma besta furiosa e estamos a espetar-lhe paus. […] As emissões humanas são o pau e El Niño é um dos surtos ‘furiosos’ que podem ser tão ameaçadores para a nossa segurança coletiva.”

A força de um episódio de El Niño é determinada medindo a temperatura da água, numa região do Pacífico central, em torno do equador, e comparando uma média de três meses com o normal. Se estiver graus Celsius (0,5º C) acima do valor habitual, considera-se um episódio de El Niño. O topo da escala é 2º C e é classificado como “muito forte”. E o valor semanal mais recente de El Niño é de 2,7º e continuará a subir, durante mais dois a quatro meses, segundo o sistema de monitorização de El Niño da Universidade de Columbia.

Os cientistas teorizam que, à medida que o planeta aquece, os episódios de El Niño se tornam mais fortes, porque se baseiam em diferenças de temperatura do oceano, face à média. Porém, como os registos observacionais só recuam cerca de 75 anos, os cientistas têm afirmado que os dados são demasiado escassos para se definir uma tendência. Assim, os investigadores têm procurado pistas que indiquem a presença de um episódio de El Niño, sem medirem, diretamente, a temperatura da água. Por exemplo, analisaram registos históricos de alterações do estado do tempo, em todo o Mundo, e identificaram episódios passados de El Niño – como o superepisódio de 1877 – através das mudanças que provocam, à escala global.

Cole fez uma abordagem inovadora, analisando o que sucedeu ao coral, ao longo dos séculos, funcionando como “uma máquina do tempo para olhar para o passado”, e verificou que as medições da proporção de cálcio e de estrôncio nos esqueletos de coral e dos diferentes isótopos de oxigénio produzem duas leituras independentes da água do mar em que o coral se formou. E a medição baseada em urânio e tório indica quando se formaram tais esqueletos.

Cole analisou 29 fósseis de coral das ilhas Gálapos – 14 anteriores à era industrial, 14 posteriores ao início da era moderna e mais um datado da fase em que a era industrial estava a começar. O mais antigo remonta, aproximadamente, ao ano 1100. E as temperaturas que obteve, a partir dos fósseis, ao longo de mais de 900 anos, são irregulares, com falhas, mas, quando representadas em gráfico, parecem-se com um taco de hóquei – a mesma descrição usada num estudo marcante dos anos 1990, sobre as temperaturas globais do passado.

Cole e outros cientistas afirmam que a situação só deverá piorar. “Levanta o espectro de um futuro em que episódios maiores de El Niño e de La Niña aceleram o ritmo e a gravidade dos extremos meteorológicos e climáticos”, afirma Kim Cobb, especialista em coral e clima na Universidade Brown, que não participou no estudo.

Especialistas externos dividem-se, quanto à investigação: uns consideram-na importante e fiável; outros não a aceitam, por entrar em choque com algumas observações recentes.

Para Cobb, “os corais são o padrão de ouro da reconstrução de episódios de El Niño” e “este estudo traz uma mina de ouro de novos dados”. Assim, na sua perspetiva, podemos esperar muitas décadas, até que o registo instrumental seja suficientemente longo, para detetar “mudança nas propriedades do El Niño”, ou “usar séculos de reconstruções de El Niño fornecidas pelos registos paleoclimáticos”. Ora, os dados paleoclimáticos disponíveis, apontam, consistentemente, no conjunto, para a intensificação dos episódios de El Niño com o aquecimento global.

Ao invés, o cientista do clima Michael Mann, da Universidade da Pensilvânia – autor do gráfico em “taco de hóquei” das temperaturas –, e o especialista em ciências marinhas John Bruno, da Universidade da Carolina do Norte, dizem que os dados de coral conflituam com observações recentes da temperatura da água nas Galápagos. Mann diz que os registos mostram “diminuição substancial, nas últimas décadas”, das variações associadas ao El Niño perto das Galápagos, no período em que os gases com efeito de estufa (GEE) mais fizeram subir as temperaturas. E Bruno considera que aquilo que está a ser refletido pelo coral não é tanto uma alteração do El Niño, mas o aquecimento causado pelos GEE.

Porém, segundo Cole, o enorme episódio de El Niño de 1997-1998, seguido de pequenos episódios até 2023-24, criou uma situação em que parece que El Niños não ganham força, porque as medições se baseiam em períodos de 20 anos e houve vários anos, entre superepisódios de El Niño, que distorceram os dados. Ora, a intensidade do El Niño varia muito e essa natureza irregular não desaparece só por o fenómeno responder a condições mais quentes.

Contudo, todos os cientistas concordam que as alterações climáticas são um problema, agravem-se ou não os episódios de El Niño. “É importante sublinhar isto como mais um motivo para deixarmos de depender de combustíveis fósseis”, afirma Cole, vincando que “não há uma solução milagrosa que vá abrandar os episódios de El Niño”.

O índice que mede as anomalias de temperatura da superfície do mar, no Pacífico equatorial centro‑oriental, intensificou‑se, a partir de uma média de 1,5º C acima do normal, entre maio e julho. Entre o final de julho e meados de agosto, os valores semanais variaram entre cerca de 2,2º C e 2,6º C acima da média, sinal de que o El Niño continua a intensificar‑se. E, em algumas zonas, as temperaturas subsuperficiais do oceano estiveram mais de 8º C acima da média, durante julho e o início de agosto.

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De acordo com os dados sobre alterações climáticas da União Europeia (UE), com El Niño em reforço, os oceanos do planeta atingiram a temperatura média diária mais alta de que há registo, com a temperatura global da superfície do mar a chegar aos 21,1 °C, em 22 de agosto – um novo máximo tanto mais significativo por ocorrer nesta altura do ano.

O valor, registado pelo Serviço de Alterações Climáticas Copernicus da UE, ultrapassou, por margem mínima o anterior recorde diário de 21,09 °C, de março de 2024.

Segundo o Copernicus, as temperaturas do oceano costumam atingir o pico global, em março e em abril, após o verão no Hemisfério Sul. O facto de este novo recorde ter sido alcançado em agosto, quando as temperaturas deveriam estar a descer, mostra o calor persistente que se espalha pelos oceanos do Mundo. Este novo valor também supera o anterior recorde de agosto, de 20,98 °C, registado em 2023. E, embora os banhistas apreciem oceanos mais quentes, as consequências são graves e de grande alcance para as pessoas e para os animais.

Este recorde surge num contexto de desenvolvimento de forte fenómeno El Niño. no Pacífico tropical, que acrescenta mais calor a um oceano já significativamente aquecido, ao longo de décadas pelas alterações climáticas provocadas pelo ser humano. A OMM prevê que El Niño se intensifique nos próximos meses, tornando-se um evento forte. E as previsões sazonais do Copernicus sugerem que poderá atingir níveis que não se observam, há décadas.

Porém, os cientistas alertam que não se deve olhar para El Niño como a única explicação deste recorde. “Este recorde é mais um sinal claro de um oceano sob pressão crescente. […] El Niño está a acrescentar calor ao sistema, mas fá-lo sobre décadas de aquecimento provocado pelo ser humano”, afirma Samantha Burgess, responsável estratégica para o clima, no Centro Europeu de Previsão do Tempo a Médio Prazo.

“Das águas atlânticas ao largo da Irlanda até ao mar Mediterrâneo, os mares europeus estão a registar um aumento preocupante das temperaturas […] A nossa investigação mostra, claramente, que isto é impulsionado pelas alterações climáticas, em particular, pela continuação da queima de combustíveis fósseis”, afirmou Thomas Frolicher, físico ambiental da Universidade de Berna, na Suíça, num estudo publicado na segunda quinzena de agosto.

As consequências de oceanos mais quentes vão dos ecossistemas marinhos às comunidades costeiras. Temperaturas mais elevadas do mar aumentam a probabilidade e a intensidade de ondas de calor marinhas, que podem danificar recifes de coral e pradarias de ervas marinhas e perturbar as redes alimentares marinhas. E também as pescas e a aquacultura podem ser afetadas, à medida que as espécies marinhas se deslocam, devido às condições em mudança.

Segundo o Copernicus, o oceano global já registou forte aumento das ondas de calor marinhas, com o número de dias de onda de calor marinha a mais do que triplicar, desde o início da década de 1990. E mares mais quentes contribuem para a subida do nível do mar, porque a água se expande, ao aquecer, e podem transferir mais calor e humidade para a atmosfera, o que pode aumentar a intensidade de alguns episódios de chuva e de sistemas de tempestade.

Outra preocupação é o oceano absorver grande parte do dióxido de carbono (CO2) emitido pelas atividades humanas e a água mais quente ser menos eficiente a captar CO2, podendo o aquecimento contínuo enfraquecer um dos principais sumidouros de carbono do planeta, na luta contra as alterações climáticas.

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Os cientistas acompanham a evolução do aquecimento das águas e dos efeitos de El Niño, para perceber se este último recorde será um pico temporário ou se integrará um período mais persistente de calor extremo nos oceanos. Já os decisores políticos, apesar de toda a propaganda, parecem não atar nem desatar. Ou as suas decisões surtem pouco efeito.

2026.09.03 – Louro de Carvalho


quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Europa unida perante aumento de ataques de guerra híbrida

 

Ursula von der Leyen e Mark Rutte, responsáveis da União Europeia (UE) e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), respetivamente, tiveram conversações, em Bruxelas, a 2 de setembro, em resposta a uma série de incidentes de guerra híbrida ocorridos na Europa, no verão, incluindo a tentativa de ataque, a 4 de agosto, com drones, no aeroporto de Leipzig, que o governo alemão atribuiu, formalmente, à Rússia e disse que tomou medidas firmes, deixando mensagem clara: “Os ataques híbridos não ficarão sem uma resposta clara.”

A Alemanha ordenou o encerramento do consulado russo, em Bona, e garantiu que a Casa da Rússia, em Berlim, também será encerrada.

Na verdade, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou, a 1 de setembro, que iria aproveitar a reunião, no dia 2, com o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, para discutir o incidente alemão, devendo os ministros dos Negócios Estrangeiros preparar sanções adicionais em próxima reunião. “Manteremos a UE unida, apesar destes atos graves e cada vez mais intensos”, afirmou, em declaração publicada na plataforma de redes sociais X.

A reunião bilateral de última hora foi confirmada por Paula Pinho, porta-voz principal da Comissão Europeia, que afirmou que o encontro se inscreveria também no contexto do reforço da cooperação em matéria de defesa entre a Europa e a NATO. E um responsável da NATO disse que a reunião se centraria, principalmente, na forma de aprofundar a coordenação contra as ameaças híbridas.

A esta preocupação juntam-se o Reino Unido, a Suíça e o Canadá, o que levou os respetivos líderes a garantirem que a Europa e o Canadá não cederão ao aumento de ataques híbridos da Rússia. Tal demonstração de unidade ocorreu na cimeira de ministros dos Negócios Estrangeiros da UE, em Wicklow, na Irlanda, também a 2 de setembro, com a presença de responsáveis daqueles três países e da Ucrânia, tendo-se mostrado os chefes da diplomacia do bloco europeu unidos e preparados para responder, com firmeza, ao aumento de ataques de guerra híbrida da Rússia, no continente, e os estados-membros da UE alinhados com a Alemanha.

O incidente no aeroporto de Leipzig, a 4 de agosto, levou as autoridades alemãs a intercetarem um drone que trazia explosivos de grau militar. Berlim foi inequívoca, ao atribuir a incursão ao Kremlin. “Os meios utilizados – como a configuração do drone, os componentes, os explosivos e os sistemas de detonação – são-nos familiares de outras operações híbridas da Rússia”, afirmou, a 1 de setembro, o ministro alemão dos Negócios Estrangeiros, Johann Wadephul, descrevendo o ataque como parte de uma longa série de tentativas de desestabilização, de desinformação, de ameaças, de sabotagem e de agressão dirigidas contra a Europa”.

Nas declarações em que condenou as atividades da Rússia, o ministro britânico dos Negócios Estrangeiros, Ed Miliband, recordou a experiência do seu país com ataques russos, nos últimos anos, como a tentativa de assassínio, com recurso a agentes químicos, do antigo agente do KGB russo Sergei Skripal, em Salisbury. “Estamos em plena solidariedade com a Alemanha e com a Ucrânia”, afirmou Miliband aos jornalistas, clarificando: “Sabemos, pela experiência de ataques russos, no nosso território, que estas tentativas de nos dividir não terão êxito; ainda assim, são um sinal perigoso de que a Rússia procura criar divisões e provocar um efeito intimidatório nos países europeus, relativamente à sua invasão da Ucrânia.”

Já o ministro lituano dos Negócios Estrangeiros, Kestutis Budrys, afirmou que a Rússia parece estar a intensificar o número de ataques híbridos que lança. “Vemos que estão a alargar e a quadruplicar os ataques contra nós, no último ano. […] O nosso objetivo é mostrar que estas atividades não nos vão intimidar, nem travar o nosso apoio à Ucrânia”, explicou.

Na agenda da reunião informal, conhecida como “Gymnich”, havia propostas para que a Comissão Europeia discutisse os ativos soberanos russos imobilizados para financiar a Ucrânia, ideia defendida pela Suécia, pela Espanha, pela Polónia e pelos Países Baixos. E a ministra finlandesa dos Negócios Estrangeiros, Elina Valtonen, disse que “a Europa precisa de apoiar a Ucrânia, antes do inverno”. “Esta é uma boa oportunidade para falar dos ativos congelados. […] Precisamos de explorar todas as opções em cima da mesa”, declarou, antes da cimeira.

Também na Irlanda, o ministro dos Negócios Estrangeiros português, Paulo Rangel, afirmou que Portugal convocaria, a 2 de setembro, o embaixador russo, após os ataques híbridos, no aeroporto de Leipzig, atribuídos a Moscovo pela Alemanha. “Iremos convocar o embaixador russo para dar explicações sobre este incidente. Fá-lo-emos, ainda durante a manhã [de 2 de setembro]. Portanto, é natural que, depois, nos próximos dias, ele venha ao Ministério dos Negócios Estrangeiros”, afirmou, salientando que, “evidentemente, algumas medidas serão tomadas”, nomeadamente, “de segurança, de segurança cibernética, do espaço aéreo”.

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Na sequência da atribuição formal pela Alemanha da responsabilidade pelo incidente com o drone de 4 de agosto à Rússia, Mark Rutte publicou uma declaração, no X, afirmando que a NATO se mantém em total solidariedade com Berlim e que são claras as provas de que a Rússia é a responsável. “A NATO continuará a reforçar a nossa capacidade de dissuadir e de defender todos os Aliados contra qualquer ameaça – incluindo ações maliciosas, como as observadas em Leipzig e noutros locais da Aliança”, enfatizou.

Também Ursula von der Leyen comentou o caso de Leipzig, depois de o ministro do Interior alemão, Alexander Dobrindt, ter declarado que os “meios utilizados [pela Rússia] para levar a cabo o ato” de um incidente de sabotagem com um drone ocorrido, em agosto, são “conhecidos por terem sido utilizados noutras operações híbridas conduzidas pela Rússia e na sua guerra contra a Ucrânia”. “O governo alemão conclui, portanto, que a Rússia é responsável pelo ataque híbrido em Leipzig, a 4 de agosto”, afirmou, perentoriamente.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros russo condenou, em comunicado, no final de agosto, a Europa por atribuir a culpa a Moscovo, salientando que as acusações foram feitas antes de a investigação ter sido concluída. E a embaixada russa em Berlim emitiu um comunicado a negar as alegações da Alemanha e a ameaçar com “consequências” pelas novas sanções. Porém, Kaja Kallas, responsável pela política externa da UE, afirmou que a Rússia está a atingir a Europa com crescente número de incidentes híbridos cinéticos, com o objetivo de “nos assustar”, para deixarmos de apoiar a Ucrânia. “Não vão conseguir”, afirmou, na sequência de reunião dos ministros da Defesa, também realizada em Wicklow, para discutir a criação de uma missão da UE no Líbano, salientando que os riscos decorrentes destes incidentes estão a aumentar e que “é evidente que não estamos a fazer o suficiente para impedir isto”.

O certo é que, a 4 de agosto, foi encontrado um drone na zona de segurança do Aeroporto de Leipzig/Halle, perto de um avião de carga ucraniano utilizado para transportar material militar. Mais tarde, um segundo veículo aéreo não tripulado colidiu com uma aeronave, impedindo-a de aterrar, pelo que o chanceler alemão, Friedrich Merz, já tinha prometido resposta aos incidentes, com ações coordenadas entre a UE e os aliados da NATO.

A ministra dos Negócios Estrangeiros da Irlanda, Helen McEntee, na conferência de imprensa, ao lado de Kallas, afirmou que o “apoio à Ucrânia e a pressão sobre a Rússia” continuam a ser fundamentais para a presidência semestral da Irlanda no Conselho da UE. “Estamos agora a começar a ver as ameaças a concretizarem-se, ainda nas últimas 24 horas, em que os nossos colegas da Roménia, da Letónia e da Estónia, e, claro, da Alemanha, falaram de incursões no seu próprio espaço aéreo, mas também no seu próprio território”, observou.

Tanto a Roménia como a Estónia relataram incursões de drones ocorridas a 1 de setembro. Vários engenhos explosivos improvisados foram encontrados perto de uma central elétrica a carvão na Alemanha, também nesse dia. Ao dirigir-se para as negociações, o ministro da Defesa da Estónia, Hanno Pevkur, afirmou que a Europa deve preparar-se para mais incidentes de guerra híbrida, por parte da Rússia. “Eles estão sempre a testar este limiar, onde está esta linha vermelha”, afirmou, vincando que a Europa deve manter a cabeça “muito fria”.

Por outro lado, o presidente francês, Emmanuel Macron e a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni manifestaram a sua solidariedade para com a Alemanha, na sequência do incidente em Leipzig. “AFrança está em total solidariedade com a Alemanha e apoia a adoção de novas sanções europeias contra a Rússia”, afirmou Macron, segundo um comunicado online.

Meloni assumiu tal asserção e acrescentou: “As tentativas de nos intimidar ou de criar divisões entre os aliados não terão sucesso: as ações híbridas contra qualquer um de nós são motivo de preocupação para todos nós e serão recebidas com uma resposta unida.”

O primeiro-ministro polaco, Donald Tusk, considerou que a Rússia está a agravar as tensões em toda a Europa, mas que o continente não se deixaria intimidar. “A Rússia não vai ganhar esta guerra”, afirmou.

O primeiro-ministro sueco, Ulf Kristersson, afirmou que a Rússia pretende intimidar a Europa e amedrontar os aliados da Ucrânia. “Isso não vai dar certo”, disse ele, acrescentando que iria presidir a uma reunião do Conselho de Segurança Nacional, na manhã do dia 2.

“As medidas firmes tomadas pelo governo alemão demonstram que qualquer ação híbrida contra qualquer um de nós será recebida com uma resposta clara. […] Quem nos atacar pagará um preço”, declarou o presidente lituano, Gitanas Nausėda, em separado.

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O conceito de “guerra híbrida”, evocado pelo governo alemão para lidar com incidentes como drones, ciberataques e terrorismo, abrange uma série de ameaças que têm em comum o anonimato. Um drone com explosivos surge num aeroporto da Alemanha. Não se sabe de onde vem, mas não é coincidência barata o facto de ficar ao lado de um avião Antonov ucraniano. Ciberataques em hospitais, apagões em instalações de governo, difusão de fake news para influenciar eleições, incêndios criminosos, drones e terrorismo, tudo isso, para as forças de segurança e de inteligência, são eventos misteriosos com o objetivo desestabilizar o ambiente político e causar pânico social. E o Ministério do Interior alemão entende que aumentaram os sinais de guerra híbrida, desde a invasão da Ucrânia pela Rússia.

Com sustenta Fábio Corrêa no DW Brasil, as origens do conceito remontam ao general James Norman Mattis, ex-secretário de Defesa dos Estados Unidos da América (EUA), no primeiro mandato de Donald Trump, tendo utilizado tal expressão, pela primeira vez, em 2005, enquanto comandante no Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA, para sintetizar a estratégia de segurança dos EUA desse ano, que citava uma gama de capacidades e de métodos “tradicionais, irregulares, catastróficos e disruptivos” como ameaça aos interesses de Washington. E, em 2007, Frank Hoffman, coronel da Marinha dos EUA, incorporou a “guerra híbrida” numa série de artigos e de livros académicos. Para ele, os ataques híbridos são, normalmente, coordenados, operacional e taticamente, por atores ligados ou não a um estado ou nação, e executados no espaço de batalha principal, para alcançar “efeitos sinérgicos nas dimensões física e psicológica do conflito”.

A Estratégia Nacional de Segurança da Alemanha, de 2023, cita estados impelidos por rivalidades sistémicas e por revisionismo contrários aos direitos humanos, julgando a participação democrática uma ameaça ao seu poder, pelo que recorrem a estratégias híbridas como ofensivas multifacetadas. Marcados pela conceção de rivalidade sistémica, alguns estados tentam minar a ordem e impor visões revisionistas nas suas áreas de influência.

A guerra híbrida é caraterizada por “táticas de dissimulação”, cujos atores agem anonimamente ou negam envolvimento em incidentes. Para tanto, agem de forma criativa e coordenada, sem ultrapassar o limiar que levaria a uma guerra oficial.

Entre as “ameaças híbridas”, conta-se o crime organizado, as atividades subversivas, o terrorismo jihadista, a pirataria e a criminalidade cibernética nos setores militar, económico e social. E a NATO, já em 2015, classificava este tipo de ofensiva como a maior ameaça atual no cenário de conflito internacional. No entanto, a variedade de frentes e o anonimato utilizados pelos atores da guerra híbrida aumenta, exponencialmente, a dificuldade em as autoridades se defenderem desses ataques. A imprevisibilidade é uma arma para levantar a dúvida se ainda estamos em paz ou já estamos em guerra.

O trânsito massivo recente de migrantes para a Lituânia foi considerado um indício de uma tentativa de desestabilização política na UE fomentada pela Bielorrússia, aliada da Rússia (túneis, construídos ou tolerados por Minsk, atestariam a suspeita). O Kremlin acusou a Europa e os EUA de guerra híbrida, por meio das sanções impostas à Rússia, desde a sua invasão da Ucrânia. E são guerra híbrida as ações de guerrilhas e de grupos de milícia armada, como o Hezbollah, no Líbano, ou as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) e algumas estratégias de guerrilha utilizadas pelos EUA no Vietname, bem como o seu apoio político e logístico às ditaduras latino-americanas no século XX.

As ameaças híbridas são, pois, adversários misteriosos, capazes de conduzir todos os tipos de guerra em simultâneo. Um estratego terá dificuldade em elaborar uma estratégia de guerra moderna, se prescindir do conceito de guerra híbrida.

Para o governo alemão, a solução é a segurança integrada, interna e externa. Por isso, investe em centros de monitorização de drones, no combate aos ciberataques e na reforma dos serviços de inteligência, dando-lhes poder de executar ações e de intervir em ameaças.

Uma das principais iniciativas, inaugurada em junho, é o Centro Conjunto de Defesa contra Ameaças Híbridas (GAZ), no serviço de inteligência doméstico, o Verfassungsschutz. É lá que os diversos órgãos de segurança podem reunir-se, em caso de ameaças do tipo para “reagir com rapidez”. Contudo, não ficou poupado a críticas. Por exemplo, o procurador-geral federal, Jens Rommel, advertiu que o país já possui, além do GAZ, o Centro Nacional de Defesa Cibernética (NCAZ), o Centro Conjunto de Defesa contra Drones (GDAZ) e o Centro Conjunto de Combate ao Extremismo e ao Terrorismo (GETZ). Ora, na sua ótica, a existência de muitos centros diferentes pode ser contraproducente, por tender a gerar perda de eficiência, devido à falta de coordenação. Porém, o ministro do Interior, discordando, garante que o GAZ, para lidar com a guerra híbrida, vai “aperfeiçoar um conceito que já deu provas”.

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Para terminar, é de referir que a Rússia tem Portugal como “um dos países mais hostis na Europa” e não há dúvida sobre forma como encara as relações com o Estado português. A asserção é Aleksei Chekmarev, adido de imprensa da Embaixada da Rússia em Lisboa, numa entrevista exclusiva à CNN Portugal, transmitida a 30 de agosto, ao ser questionado sobre se Portugal é considerado um país inimigo pelos russos. “Agora a Rússia considera Portugal como um dos países mais hostis na Europa, sobre isto não deve haver qualquer dúvida”, respondeu, frisando que Lisboa “segue as políticas antirrussas” da UE e da NATO.

2026.09.02 – Louro de Carvalho


terça-feira, 1 de setembro de 2026

Não é aceitável a petulância Luís Neves, nem a fúria de André Ventura

 

O ministro da Administração Interna (MAI) – denunciado pela comunicação social como tendo cometido irregularidades, enquanto foi diretor nacional da Polícia Judiciária (PJ), pelo que está sob inquérito por ordem do Ministério da Justiça (MJ), vai a julgamento no Tribunal de Contas (TdC) e está sob averiguação preventiva na Procuradoria Europeia – já prestou, a tempo e a destempo, várias declarações públicas que se sintetizam, basicamente, em ter cometido erros, mas não crimes, nem ilegalidades (no que pode ter razão ou não), talvez irregularidades e informalidades. Depois, garante que esteve sempre do lado do bem, que fez boa gestão e que nunca prejudicou o Estado, antes o favoreceu.

Nas declarações que fez a 1 de setembro, afirmou-se vítima de campanha populista, acusando, em especial, o presidente do partido do Chega que, alegadamente, pretende criar o caos para dominar a agenda política e condicionar a governação. E porfia que vai continuar a governar contra todas as formas de populismo.

Ora bem, do meu ponto de vista, o único argumento válido que permite dizer que irá continuar a governar é a confiança que, reiteradamente, vem recebendo do primeiro-ministro (PM), o qual, segundo parece, não terá acolhido alertas, em privado, do Presidente da República (PR), que não tem o desplante do antecessor de criticar, na praça pública, os governantes, respeita, em público, as opções do chefe do governo, mas vai puxando pelos deveres das instituições.

André Ventura, que prometeu, a 28 de agosto (e  reafirmou no dia 31) a apresentação de proposta da criação de uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) sobre o que se passou na PJ, durante a liderança do atual MAI, mudou de agulha, prometendo a apresentação de moção de censura contra o governo, pelo facto de o PM não forçar a demissão de Luís Neves (que, na ótica do Chega, atingiu um nível “grotesco” e “inaceitável”), antes, reafirmando-lhe a confiança política e elogiando o seu trabalho ministerial, designadamente, em matéria de incêndios estivais e na solução das esperas nos aeroportos. É deu um prazo: a moção de censura, que pode fazer cair o governo, seria apresentada, caso o governante em causa não se demita até 1 de setembro, o que, pelos vistos, não aconteceu e está longe de acontecer.

Fica por explicar o motivo por que o líder do Chega passou da CPI para a moção de censura, que é uma posição política mais drástica. Terá entendido que apenas significaria perda de tempo, pois o próprio MAI se afirmou confortável com esse mecanismo parlamentar? Terá querido experimentar a “coragem” ou a modorra do Partido Socialista (PS) na relação com caso Luís Neves? Uma vez que os dois partidos que apoiam o governo votarão contra a moção, para que ela tenha êxito, o Chega precisa do voto favorável do PS. Dificilmente, o PS passará da abstenção para o voto a favor, para não dizer que votará contra. Com efeito, se o governo cair, o PS perderá no eleitorado, porque será tido como responsável por novas eleições; o governo pode ficar fragilizado ou robustecido, a juízo do eleitorado; e o Chega crescerá na sua ânsia de governar ou de condicionar a governação.

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Luís Neves, respondendo ao repto do Chega, tinha prometido esclarecimentos sobre as polémicas que o envolvem e cumpriu. A 1 de setembro, a partir do Funchal e em reação à possível moção de censura que o Chega ameaçou apresentar contra o governo, o governante falou aos jornalistas, para garantir que não deixará o cargo no executivo. “Nada me vai afastar daquilo que me levou a aceitar este cargo”, afirmou, dizendo-se alvo de uma campanha de intimidação.

E prosseguiu: “Escolheram a única estratégia que conhecem: lançar suspeitas, atacar a honra e tentar intimidar. A mim não me intimidam, jamais me intimidarão. Nada disto me intimida ou condiciona, não me vai impedir de governar.”

Na declaração perante os jornalistas, reconheceu já ter errado, mas garante que nada pode colocar em causa o trabalho realizado e as ações tomadas. “Cometi um ou outro erro que já reconheci, mas que não põe em causa a minha ação. […] Há uma distância, que não permitirei que seja apagada, entre os erros que assumi e os crimes que não cometi”, confessou, mas enfatizando: “Nunca tomei uma decisão que pudesse prejudicar o Estado, nunca, jamais, em tempo algum.”

No início do discurso, lembrou o trabalho desenvolvido enquanto diretor nacional da PJ, frisando que investigou, “sempre com provas”, porque, “sem provas, não há acusação, há difamação”.

André Ventura indicou, a 31 de agosto, que iria reunir com a direção nacional e com a bancada parlamentar do Chega, para decidir sobre a apresentação de uma moção de censura, caso Luís Montenegro não resolvesse a situação de Luís Neves.

Por isso, o líder do Chega não ficou de fora das palavras do ministro atingido pelas críticas. “Não aceito que André Ventura transforme aquilo que assumi, naquilo que nunca fiz”, afirmou o governante, reforçando: “Quem vive apenas da espuma do caos, ignora a essência da governação. […] O que importa são as pessoas. É alarmante ver como alguns acabam contaminados pela agenda do caos. Quem vive apenas a espuma do caos ignora a essência da governação. Há quem precise do caos para crescer. A criação do caos dá jeito.”

Depois, afirmou-se determinado para continuar no cargo e para “derrotar o populismo”. “O populismo não quer instituições fortes, não quer uma política de segurança, quer uma política de receio e medo. Quem transforma segurança em espetáculo, não protege o país, está a explorar os seus receios”, afirmou Luís Neves, lamentando que André Ventura o tenha comparado a um “gangster”. E reforçou, ironicamente: “Só falta dizer que ando a vender droga na rua […] Podem continuar a gritar, eu vou continuar a governar. Podem continuar a insultar. Há quem precise do caos para crescer, nós trabalhamos para fortalecer Portugal.”

Luís Neves garantiu que “nada o envergonha” e diz estar totalmente disponível para responder às perguntas de André Ventura na Assembleia da República (AR). “No próximo dia 8, terei a audição regimental no Parlamento. Quero dizer ao doutor André Ventura que estou totalmente disponível para lhe responder a qualquer questão que ali seja colocada.”

Em reação ao discurso, André Ventura considerou a intervenção do ministro “inqualificável”. Numa publicação na rede social X, o presidente do Chega qualificou como “impressionante, inenarrável e inqualificável” o discurso de Luís Neves e questionou “o que saberá” o ministro sobre Luís Montenegro.

Todavia, o partido de Ventura ainda não decidiu a atitude a tomar, que ficou adiada par ao dia 2, porque pretende avistar-se, previamente, com o Presidente da República.

Também a presidente da Iniciativa Liberal (IL) defende que Luís Neves não tem condições para continuar como ministro da Administração Interna, considerando “absolutamente irresponsável” a sua continuidade no governo. “É absolutamente irresponsável deixar que Luís Neves continue no governo. Se o primeiro-ministro não tem coragem para o demitir, por razões que só ele saberá, Luís Neves deve colocar a nação à frente da sua lamentável circunstância pessoal e demitir-se”, escreve Mariana Leitão, na rede social X.

Mariana Leitão diz mesmo que a continuidade de Luís Neves no governo “não combate o populismo, pelo contrário, alimenta-o”. “Provoca uma crise grave nas instituições, destrói a imagem da PJ, arrasta o governo e impede-o de se concentrar em governar”, afirma.

Esta é a reação de Mariana Leitão às declarações do ministro da Administração Interna, que disse estar a ser alvo de mentiras e que “vai continuar a governar”.

A IL junta-se, assim, ao Chega, que classificou o discurso de Luís Neves como “impressionante, inenarrável e inqualificável”.

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A mais recente polémica a envolver o atual MAI é o facto de conduzir, em regime de comodato, um Volkswagen Golf GTD, viatura que pertence ao traficante de droga Rúben Oliveira, conhecido como “Xuxas”, que foi detido pela PJ, em 2022, e é considerado um dos maiores traficantes de droga em Portugal.

Nas declarações de 1 de setembro, Luís Neves sustenta que a legislação, que “reporta a 2007”, permite a utilização do veículo e que, enquanto diretor da PJ, deve ter feito a “afetação, ao serviço do Estado, de mais de 800 viaturas e outros bens”. “Parece que alguém, agora, está do lado de quem cometeu crimes. Porventura que fiquem com o património que utilizaram no crime, porventura que fiquem com o património branqueado do crime organizado”, discorreu.

O caso foi denunciado por investigação da TVI/CNN/Nascer do Sol. O Decreto-Lei n.º 11/2007, de 19 de janeiro, estabelece regras específicas para a utilização de bens apreendidos por órgãos de polícia criminal, prevendo a sua utilização provisória para fins operacionais. No entanto, o carro desportivo (como, aliás, outros bens apreendidos, como um televisor ou uma máquina de ginásio e outros objetos apreendidos) que efeito operacional tem na PJ ou no MAI?

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O ministro, que é a segunda vez no espaço de um mês que responde, publicamente, às polémicas de que tem sido alvo, salientou que tem “motivação adicional” para continuar na pasta. Disse que quer contribuir para derrotar, politicamente, o “populismo” e a ideia de que “vale tudo”, a normalização da mentira e a acusação sem provas, e impedir que “o pior que esta democracia produziu” destrua o que várias gerações construíram.

Todavia, o MAI – que tem razão, ao denunciar que o populismo “não quer respostas”, mas “suspeitas permanentes”, e que “precisa de repetir, até à exaustão, uma mentira, até que as pessoas deixem de perguntar se é verdadeiro, precisa de convencer os portugueses de que todos os políticos são corruptos, precisa de que ninguém confie em ninguém” – não pode acusar os órgãos de comunicação social de mentirem ou de terem orquestrado uma campanha de mentiras. Quando muito, pode acusar o Chega ou a IL de exagero ou de aproveitamento político-partidário.

Na verdade, os órgãos de comunicação social cumprem a sua função escrutinadora numa democracia destemida e adulta; e não constituem nenhuma forma de censura moderna. E há factos denunciados pelos media e pelas redes sociais em que não há mentira. Não se pode é dizer, com certeza, que constituam ilegalidade ou crime ou que tenha havido dolo. Só os tribunais o poderão afirmar ou negar, mediante processo adequado.

É óbvio que Luís Neves não é nenhum gangster, nem criou um “Estado dentro do Estado”. Porém, as suas justificações são quase sempre evasivas.

Por exemplo, disse não ter prestado declarações de rendimentos e de património, porque não fora notificado, como se isso fosse necessário. O gestor público sabe os seus deveres!

Quanto a notícias de que televisores, equipamentos de ginásio, cadeiras e sofás apreendidos numa operação tenham sido reclamados pela PJ para uso operacional (que uso?), ou da utilização pessoal de um carro apreendido a um traficante de droga, fugiu ao essencial da questão, ao alegar: “Nunca tomei uma decisão que pudesse prejudicar o Estado. Apliquei a lei, uma legislação que se reporta a 2007. Os bens do crime, sempre que a lei permite, devem ser colocados ao serviço de quem combata o crime. Não é ao fim de sete ou oito anos que iremos aproveitar o património de quem cometeu crimes que está afeto ao Estado. Farei sempre isso. Há quem veja nisso um escândalo, por ignorância ou por má fé.”

Lembrou que, enquanto diretor nacional da PJ, declarou, operacionalmente, feita a afetação ao serviço do Estado de mais de 800 viaturas e de outros bens, vincando que teve “a coragem de atacar o status quo”. Salientou que algumas das investigações jornalísticas em que tem sido visado se baseiam em invejas e falsidades de pessoas que foram afastadas por si, quando era diretor nacional da PJ. E lançou um repto aos inimigos: “Dizem que estou desaparecido em combate. Nunca estive tão presente onde verdadeiramente interessa: no combate por mais polícias na rua, ao crime organizado, ao tráfico de droga, na prevenção e [na] resposta aos incêndios.”

Há um mês, numa conferência de imprensa, o MAI tinha admitido alguns erros, mas garantiu que nunca cometera ilegalidades. Admitiu que, “se fosse hoje”, não voltaria a contratar o empreiteiro João Carvalho para as obras da sua propriedade, apesar de não ver nisso “conflito de interesses”. Falou também do atrelado apreendido numa operação antidroga e que foi encontrado num armazém da empresa de João Carvalho, em Barcelos, frisando: “Não foi desviado qualquer bem, não foi comprometida qualquer prova, não foi beneficiado quem quer que fosse e não há, aqui, qualquer ligação ao tráfico de droga.”

Disse que, na altura, concordou “com uma proposta de armazenamento” que lhe foi feita por um alto quadro da PJ que cuja “competência e integridade” mereciam, então, merecem, agora a sua total confiança. E assumiu: “É uma decisão minha e não dele. Voltaria hoje a tomá-la. Foi um ato de boa gestão.”

O MAI revelou que o atrelado estava em instalações da Marinha, porque não havia espaço nos armazéns da PJ, mas que a Marinha pediu a sua remoção urgente. O orçamento que havia para a destruição do material ascendia a quase 150 mil euros e a PJ não tinha cabimentação. Porém, soube-se, mais tarde, que havia quem se disponibilizasse por guardar o atrelado e os materiais por bem menos dinheiro e que as despesas não seriam da PJ, mas do MJ.

Por causa desta decisão, foi instaurado um inquérito-crime pelo Ministério Público (MP) em estão a ser investigados os crimes de abuso de poder e descaminho. Contudo, o ministro não viu “razões para ser constituído arguido”, apesar de admitir tal hipótese. Não disse se se demitiria se o MP o constituísse arguido, antes, garantiu: “Nunca pedi a demissão ao primeiro-ministro.”

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Depois de o governante ter reiterado a sua inocência e verberado o Chega, a presidente da IL, insiste que não há condições para Luís Neves se manter no cargo. Nisso, em vez de se juntar aos partidos do governo, junta-se ao partido de Ventura. Aliás, em agosto, a IL apresentou um requerimento, na AR, a pedir audição “urgente” de Luís Neves, tendo em conta que ficaram várias questões por responder sobre as polémicas que envolvem o ex-diretor da PJ, tal como solicitou que sejam ouvidos também, na AR, o dono da Construbarcelos e o atual diretor da PJ, que também é apontado como tendo, alegadamente, mentido em tribunal.

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Provavelmente, a novela continuará, porque a explicação do MAI não é satisfatória, parecendo sofrer de anarquia mental, e a ambição do partido de Ventura é ilimitada. De certo modo, espelha o que muitos insatisfeitos querem ouvir. Por outro lado, a postura do PS, no caso, é mal definida e até nebulosa. E é possível que o ex-diretor da PJ tenha criado anticorpos na corporação. Nem sempre pessoa vinda de dentro chefia melhor do que magistrados, como dantes. Conhece a instituição, mas dificilmente constrói o necessário distanciamento.

Por fim, enquanto se discutem estas questões, passam ao lado os grandes problemas do país.

2026.09.01 – Louro de Carvalho


segunda-feira, 31 de agosto de 2026

A Islândia rejeita adesão à UE: um recado a Bruxelas

A recusa da Islândia em retomar as negociações de adesão à União Europeia (UE) foi dada como certa, a 30 de agosto, pela televisão pública islandesa RÚV, face aos resultados conhecidos do referendo sobre a questão, realizado no dia 29. “A nação rejeita as negociações de adesão à UE”, noticiou a RÚV, citada pela Agência France-Presse (AFP).

Quando a contagem dos votos se aproximava do fim, o “não” ultrapassava o “sim”, em 5%, com 52,5% contra 47,5%, segundo a contagem em direto, faltando apenas contar parte dos boletins de um círculo eleitoral que já pendia para o “não”. É um duro golpe para a UE, que teria visto com bons olhos a candidatura da Islândia e parecia disponível a compromissos para que o país entrasse no bloco. Qualquer discussão sobre a adesão da rica ilha do Atlântico Norte ficará congelada, pelo menos, até 2028, segundo a AFP.

Os eleitores foram convidados a pronunciar-se sobre a seguinte pergunta: “A Islândia deve reabrir as negociações de adesão com a União Europeia?”

Em 2009, na sequência da crise financeira que devastou a economia islandesa, o país de quase 400 mil habitantes apresentou uma candidatura, mas as discussões foram congeladas, em 2013, com a chegada ao poder de um governo eurocético.

A Islândia está, estreitamente, associada à UE, nomeadamente, ao integrar o Espaço Económico Europeu (EEE) e o espaço Schengen, o que permanece inalterado. Não obstante, no contexto de crescentes tensões internacionais, o governo liderado pela social-democrata Kristrun Frostadottir quis auscultar os islandeses sobre a oportunidade de explorar uma integração mais aprofundada. É certo que o referendo tem valor consultivo, mas o governo comprometeu-se a respeitar o resultado, qualquer que ele fosse. Por conseguinte, o executivo convocou uma conferência de imprensa para o dia, às 13h00 locais, para abordar os passos seguintes.

A campanha centrou-se, sobretudo, em questões internas e económicas, mas a guerra na Ucrânia e as intenções de Donald Trump sobre a vizinha Gronelândia, que o presidente norte-americano confundiu, várias vezes, com a Islândia, deram à votação uma dimensão geopolítica. A consulta “permitiu reativar o debate sobre a União Europeia, sobre o lugar da Islândia no Mundo e, mais amplamente, sobre o seu posicionamento geopolítico”, declarou Frostadottir, vincando que “tudo correrá bem, também se o ‘não’ vencer”, afirmou, depois de ter votado “sim”, numa escola da capital, Reiquiavique, no dia 29.

Frostadottir alertou que, em caso de rejeição pelos eleitores, não vai relançar a ideia de uma adesão até ao fim do mandato, em 2028, e que o governo remeteria ao Parlamento a questão de uma eventual retirada formal da candidatura islandesa à UE.

Os politólogos consideram improvável a demissão da coligação, composta por três partidos com visões diferentes sobre a questão europeia, que sai, obviamente, fragilizada deste processo. Se o “sim” tivesse vencido, a Islândia retomaria as negociações com a UE, nomeadamente, sobre a questão da pesca, pilar económico do país e marca da identidade nacional, sobre a qual Reiquiavique quer manter o controlo. Depois, um eventual acordo entre as duas partes seria submetido a um segundo referendo.

Perante a hostilidade dos profissionais da pesca, com 90% das empresas do setor a opor-se à adesão, a UE tentou mostrar-se conciliadora. “As especificidades próprias da Islândia, em matéria de pesca e de agricultura, são bem conhecidas. Terão de ser examinadas com atenção”, disse Marta Kos, a comissária do Alargamento.

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A 30 de agosto, confirmaram-se as expectativas da vitória do “não”. Por uma margem estreita de 52,8% (ou seja, 118040 votos), contra 47,2% (ou seja, 105339 votos), os eleitores islandeses rejeitaram a ideia de retomar o processo de adesão à UE, suspenso em 2013, o que constitui doloroso revés para o bloco europeu. Porém, os islandeses sustentam que os custos da pertença à UE superam os benefícios.

Embora o referendo não tenha sido um voto direto sobre a adesão à UE, os eleitores fecharam a porta, pelo menos, num futuro previsível, privando o bloco de um potencial novo membro promissor, com um percurso de adesão relativamente simples. Mesmo estando a Islândia já profundamente ligada à UE, através do EEE e do Espaço de Schengen, a decisão de não reabrir as conversações surge numa altura frágil para o bloco. Com efeito, Bruxelas procura, com urgência, projetar força estratégica na região do Ártico, perante uma administração norte-americana beligerante, enquanto a estratégia de alargamento luta para produzir resultados concretos na Europa de Leste.

A leitura de resultado tão renhido sugere que a assertividade do inquilino da Casa Branca, em relação ao Ártico não aproximou os islandeses da UE. O interesse, reiteradamente manifestado em comprar a Gronelândia e comentários que, por vezes, esbateram a distinção entre aquele território dinamarquês e a Islândia sublinharam a importância crescente de uma região crucial para o equilíbrio de poder mundial. A posição estratégica da Islândia no Atlântico Norte ganhou, por isso, novo peso. Para os defensores da adesão à UE, a postura dos Estados Unidos da América (EUA) reforçou o argumento de que o país estaria mais seguro dentro da União. Porém, o referendo parece mostrar que, para a maioria da população da ilha, tal argumentação não superou as preocupações com a soberania e com o controlo nacional.

A campanha foi dominada por clivagens que moldam o debate islandês, sobre a adesão à UE: o controlo das pescas e da agricultura, a soberania e o modelo económico do país. Segundo alguns analistas, a perspetiva de negociar a gestão do setor das pescas no quadro da Política Comum das Pescas da UE assustou mais os islandeses do que as pretensões de Trump sobre a Gronelândia. E os defensores do “não” apoiaram-se também em avisos de que dar mais voz a Bruxelas, na política económica, implicaria perda de controlo nacional. E os promotores da retoma das negociações não convenceram a opinião pública de que os benefícios da integração política plena compensariam a perda de autonomia inerente à adesão, em parte, porque o apoio da coligação governamental foi bastante tímido.

A primeira-ministra apresentou o referendo, sobretudo, como oportunidade para decidir, em conjunto, o futuro do país, frisando, com cautela, que é impossível saber se os benefícios superam as desvantagens, antes de negociar efetivamente os termos da adesão.

Para Bruxelas, o significado político do voto é ainda mais negativo. A UE tenta reavivar o alargamento como projeto estratégico, sobretudo, desde a invasão, em grande escala, da Ucrânia pela Rússia, acelerando o processo para a Ucrânia e para a Moldávia e mantendo os países dos Balcãs Ocidentais por perto, através de investimentos e parcerias. E a entrada da Islândia, uma democracia estável e alinhada com as regras da UE, no grupo de países candidatos teria oferecido nova perspetiva para a estratégia de alargamento, mostrando que a adesão continua atrativa, para países ricos, e que a UE pode alargar em qualquer direção. Porém, ao invés, um possível caso de sucesso simples transformou-se num revés reputacional para Bruxelas: até um país alinhado pode encarar a adesão como um passo excessivo.

A derrota no referendo reaviva memórias de alguns dos episódios dolorosos da UE com referendos, tanto dentro como fora do bloco. Em 2005, eleitores franceses e neerlandeses rejeitaram o Tratado Constitucional proposto, desferindo duro golpe na tentativa da UE de dotar o projeto político de uma lei fundamental. A Irlanda deu outro sinal dos riscos políticos dos referendos, ao rejeitar o Tratado de Lisboa, que substituiu a Constituição Europeia, em 2008, antes de o aprovar, numa segunda votação, em 2009. E o caso mais próximo da decisão islandesa foi a recusa da Noruega em aderir à UE, por duas vezes, em 1972 e 1994. Em ambos os casos, as preocupações com a soberania e com o controlo dos recursos naturais – em especial das pescas – tiveram papel central, algo que terá pesado nos eleitores islandeses.

De forma semelhante, a Suíça rejeitou, reiteradamente, formas mais profundas de integração europeia, como a adesão ao EEE, mantendo, ao mesmo tempo, laços extensos económicos com o mercado único, através de acordos feitos à medida.

Tal como nos casos anteriores, o “não” à reabertura das negociações de adesão não significa, por si só, que os islandeses sejam antieuropeus, nem prejudicará a relação do país com a UE, mas lembra aos europeus que a crescente incerteza no Mundo parece tornar mais valioso o controlo nacional. De facto, Bruxelas manda em excesso e coordena muito pouco.

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Enquanto a primeira-ministra islandesa, Kristrún Frostadóttir, em termos pragmáticos, diz que o seu “governo não retomará as negociações de adesão, durante esta legislatura”, o presidente do Conselho Europeu, António Costa, refere que “a Islândia continua a ser um dos parceiros de maior confiança da UE, através do Espaço Económico Europeu”. 

Apesar de a Islândia estar associada à UE, como dissemos, através do EEE e do Espaço Schengen, o resultado da consulta popular, constitui um revés estratégico para a UE, pela aproximação do presidente dos EUA ao Atlântico Norte, com controlo das pescas e da agricultura, que pesam 40% das exportações, bem como o interesse em adquirir a Gronelândia. Efetivamente, o território autónomo dinamarquês vizinho da Islândia, ganhou importância, numa altura em que o Ártico é muito cobiçado, devido aos minerais raros e às novas rotas comerciais. As ameaças de Trump tiveram impacto muito particular na Islândia, cuja defesa é assegurada pelos EUA e pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO).

Assim, a UE, não ganha facilidades no aumento do poder político, da riqueza económica, da relevância estratégica, da capacidade de defesa e da capacidade diplomática; e perde credibilidade na sua ambição de alargamento do projeto europeu e perde o ensejo de participar na defesa do Ártico e de se enquadrar nas novas rotas comerciais e estratégicas, com os benefícios que daí poderiam advir, em riqueza e em ciências marinhas e geológicas.  

Os argumentos que, para os votantes do “sim”, demonstravam que, face à postura dos EUA, a Islândia estaria mais segura dentro da UE, foram contraditados com a vitória do “não”. E não será excessivo recordar que a Islândia tinha apresentado a candidatura de adesão à UE, na sequência da crise financeira global de 2008, que levou ao colapso do setor bancário do país, sobrecarregado pela dívida soberana, mas que, na altura, a questão não foi levada a referendo. Porém, após anos de negociações, com a chegada ao poder de uma coligação eurocética, Reiquiavique enviou, em 2015, carta a Bruxelas a informar que não tencionava aderir ao bloco comunitário.

Esta recusa da Islândia em integrar a UE congela o debate sobre a adesão islandesa, pelo menos, até 2028, ano em que termina a legislatura do governo de centro-esquerda da social-democrata, Kristrun Frostadottir. “Quero ser absolutamente clara: este governo não retomará as negociações de adesão, durante esta legislatura”, afirmou a primeira-ministra, em conferência de imprensa, citada pela AFP, após terem sido conhecidos os resultados da votação.

Porém, Kristrún Frostadóttir, considera que a recusa de retomar as negociações para aderir à UE foi “uma vitória para a democracia”, e não “um revés”, pois, antes da votação, havia realçado que os islandeses deviam olhar para o referendo como oportunidade, e não como decisão definitiva.

O presidente do Conselho Europeu, António Costa, sublinhou, através do seu porta-voz, citado pela Efe, que “a UE respeita, plenamente, a decisão democrática do povo islandês” e reiterou que a Islândia “continua a ser um dos parceiros mais próximos e de maior confiança da UE”, nomeadamente, através do EEE. Segundo o porta-voz, António Costa trocou mensagens com Kristrún Frostadóttir, tendo ambos manifestado “o desejo de continuar a reforçar as relações entre a UE e a Islândia”.

Também um representante da Comissão Europeia afirmou que este executivo europeu “toma nota do resultado do referendo realizado na Islândia [e] respeita a decisão do povo islandês”.

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A Comissão Europeia estava a ficar sem capacidade para gerir vários processos de adesão, em simultâneo, e o pior poderia ainda estar para vir, segundo alguns analistas, os quais referem que a Direção-Geral do executivo comunitário para o Alargamento e pela Vizinhança Oriental (DG ENEST) enfrenta um desafio crescente de capacidade.

Ironicamente, a pressão resulta do próprio impulso de alargamento: foram encerrados mais capítulos de negociação nos últimos seis meses do que em toda a última década.

Montenegro, o “frontrunner” do processo, está a ver ser redigido o seu tratado de adesão e pretende tornar-se o 28.º membro da UE, até 2028. A Albânia segue de perto, esperando iniciar a elaboração do seu tratado de adesão, no início de 2027.

A fase final dos trabalhos de adesão com Podgorica, com a criação de um grupo de trabalho dedicado, exigiu significativa redistribuição de recursos, em particular, de funcionários que trabalhavam com países dos Balcãs Ocidentais, sem progressos recentes. Não são apenas os países candidatos que têm dificuldade em acompanhar o trabalho exigido. A Comissão perdeu a memória institucional e a capacidade da última vaga de alargamento, em 2004.

Para complicar as coisas, a DG ENEST, como outros serviços da Comissão, depende, sobretudo, de contratos temporários e de reduzido número de funcionários permanentes, o que se traduz na elevada rotatividade e na falta de experiência no encerramento de negociações. O último país a aderir ao bloco foi a Croácia, em 2013.

Entretanto, a Islândia convocou um referendo, que decidiu pela não retoma do processo de adesão. Assim, alguns avançam que a Comissão terá de criar outro grupo de trabalho para o tratado de adesão e reforçar os recursos dedicados àquele país insular.

Outros pontos de pressão são a Ucrânia e a Moldávia, que abriram, recentemente, dois capítulos de negociação. Há vontade de abrir os quatro agrupamentos restantes, até ao final do ano. Porém, nenhum país abriu todos os agrupamentos de negociação, em simultâneo. A Albânia avançou a ritmo excecional, mas demorou mais de um ano a abrir, formalmente, todos.

Embora a Comissão tenha prosseguido o trabalho, enquanto o pedido de adesão de Kiev esteve bloqueado pela Hungria de Viktor Orbán, a ambição política de avançar, em vários agrupamentos em paralelo, pode confrontar-se com a realidade. Assim, a Ucrânia e a Moldávia estão a chegar ao limite e não tiveram de gerir negociações e integração jurídica com este grau de complexidade.

A Comissão não é a única instituição da UE a perder controlo sobre o processo de alargamento: o Conselho da UE e os estados-membros também estão a reforçar a sua capacidade.

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Ora, tendo feito do alargamento uma pedra angular da sua política externa, Bruxelas enfrenta o teste. Terá de demonstrar que dispõe de recursos adequados para acompanhar o compromisso político assumido e mostrar resultados. Caso contrário, perde-se enquanto vítima da sua ambição, da sua incapacidade e da sua avareza na alocação de meios necessários aos projetos que tenta protagonizar, no nomeadamente, o do alargamento.

2026.08.31 – Louro de Carvalho