António
José Seguro, antigo secretário-geral do Partido Socialista (PS) e apoiado,
oficialmente, pelo seu partido, tendo arrancado com um score de 6%,
segundo as sondagens, foi o candidato mais votado na 1.ª volta das eleições
presidenciais, a 18 de janeiro, tendo obtido 31,12% dos votos validamente
expressos (na eleição presidencial, os votos em branco não são considerados
validamente expressos, tal como os votos nulos), logo seguido de André Ventura,
apoiado pelo partido do Chega, de que é o presidente, com 23,51%.
Assim,
o primeiro obteve 1741935 votos; e o segundo, 1316003 votos.
Por
conseguinte, a 2.ª volta, a 8 de fevereiro, apareceu, aos olhos do eleitorado,
já não como a escolha entre as convencionais esquerda e direita, mas entre um
candidato moderado, com o propósito de respeitar e de melhorar o sistema
constitucional e político vigente, e um candidato que se apresentou como
radical, visando a subversão do sistema, desde logo, a partir de uma revisão
profunda da Constituição da República Portuguesa (CRP), que não é revista,
desde 2005.
Neste
contexto, em que os temas mais expostos na pantalha pública, foram a Saúde, a
Defesa e a Segurança, o Pacote Laboral, a Justiça e a Habitação, os partidos da
esquerda convencional foram rápidos a declarar apoio a António José Seguro.
Obviamente, o Chega não precisou de declarar apoio público ao seu candidato. Os
demais candidatos, embora reticentes, a princípio, acabaram por declarar apoio
ao ex-líder do PS, no que foram secundados por várias figuras públicas afetas
ao Partido Social Democrata (PSD) e ao partido do Centro Democrático Social
(CDS), é claro, com algumas exceções reveladoras de certa má disposição
política.
Contudo,
presumia-se que, sensivelmente, metade dos votos de Cotrim de Figueiredo
passariam para André Ventura, bem como alguns do CDS e até do PSD.
Em
todo o caso, o dia 8 de fevereiro deu estrondosa vitória a António José Seguro,
que não se perdeu, na primeira campanha eleitoral (para 18 de janeiro), em
ataques pessoais, como outros candidatos, nem o escrutínio da comunicação
social encontrou nada de grave para lhe apontar.
Por
outro lado, soube articular o mínimo de ações de campanha eleitoral para a 2.ª
volta (em respeito pelos apoiantes e pelo eleitorado) com a presença assídua
junto das populações (nomeadamente, junto dos seus autarcas) aflitas com os
efeitos da tempestade Kristin. Todavia, embora antecipando-se aos membros do
governo e ao Presidente da República, cingiu-se da discrição necessária que o
apresentou como não aproveitador político da situação, ao invés do adversário,
que surgiu, rodeado de jornalistas e a “videogravar” cenas de ajuda humanitária
minimalistas, mas ampliadas pela imagem do homem vergado ao peso do
bem-fazer.
E
ao invés de Ventura, que tentou o adiamento do ato eleitoral e mandou às malvas
as eleições, Seguro valorizou as eleições e apelou à mobilização, em
circunstâncias tão difíceis.
Assim,
contados os votos em todos os distritos do Continente e nas duas Regiões
Autónomas, em 97,4% dos concelhos (300, em 308), em 99,39% das freguesias (3239,
em 3259, faltando 20, porque as suas eleições foram transferidas para 15 de
fevereiro, por impossibilidade de realização no dia 8) e em 96% dos consulados
(faltando cinco, em 107), o candidato socialista foi proclamado vencedor e
assomou como o presidente eleito. E, inequivocamente, passou a ser o político
mais votado em Portugal.
Obteve
66,83% dos votos validamente expressos (3483837 votos), contra os 33,17% (1729533 votos) do adversário (informação de 12 de fevereiro). A vitória foi, pois, clarividente e estrondosa.
A
este respeito, comunicadores e comentadores perderam-se numa discussão que não
faz sentido. Fizeram o exercício de comparação com os resultados de Mário
Soares, mas em vez de compararem os resultados da 2.ª volta de 2026, com a de
1986, compararam-nos com os da eleição de Soares para o segundo mandato, em
1991. Assim, 66,82%, de 2026, são incomparáveis com 70,35%, de 1991. E, quando
se puseram a verificar os número de votos obtidos, caíram noutros dislate: em
1991, os emigrantes residentes do estrangeiro não votavam, em eleições presidenciais,
ao passo que, agora, votam, desde que se desloquem aos pontos de voto, ao invés
das legislativas em que podem votar por correspondência. Assim, não são
comparáveis os 3483837 votos, de 2026 (que são muitos), com os 3459521, de
1991.
Estavam
inscritos 10952714 votantes; votam 5484920; e a abstenção foi de 49,92%,
superior à da 1.ª volta (47,75%), sem contar as 20 freguesias e os cinco
consulados. Porém, é de referir que a percentagem de votos brancos quase
triplicou da 1.ª volta (1,06%) para a 2.ª volta (3,17%), assim como os votos
nulos (de 1,13% para 1,18%). Ora, apesar de abstenção ser das mais baixas, eleições
presidenciais, se lhes juntarmos os votos brancos e nulos (4,95%), é de
questionar os decisores políticos sobre esta tomada de posição dos eleitores.
Com efeito, alguns não foram votar, porque estavam impossibilitados, mas outros
não o quiseram fazer; outros votaram em branco, por não se reverem,
minimamente, em nenhum dos dois candidatos; e, dos que votaram nulo, nem todos
o fizeram por engano.
***
Na
noite de 18 de janeiro, André Ventura leu a sua votação como uma grande vitória,
por ter sido catapultado para a 2.ª volta, e guindou-se ao alto papel de líder
de todo o espaço não socialista e de líder da direita portuguesa. Por conseguinte,
apelou ao voto de todos os não socialistas, com vista à alteração do sistema e à
colocação dos Portugueses em primeiro lugar.
Já
na noite de 8 de fevereiro, reconheceu a vitória eleitoral do seu adversário, mas
secundarizou a derrota e explorou as ansas de vitória, nomeadamente, o facto de
ter agregado a si todo o espaço político não socialista. E salientou que a sua votação
foi maior do que a da Aliança Democrática (AD), nas últimas eleições
legislativas – só é verdade se não contar algumas alianças do PSD, em alguns círculos
eleitorais, com outros partidos que não o CDS (mas obteve menos votos) – e o crescimento
do Chega, pois, desta vez, Ventura (com o Chega) obteve uma votação superior à das
últimas legislativas (33,18%, contra 22,76%). Por isso, reafirmou-se como líder
da direita, considerou que está no caminho da governação e garantiu que, em
breve, governaria Portugal.
***
Por
sua vez, o primeiro-ministro (PM), Luís Montenegro, protagonizou duas
intervenções inadequadas e reveladoras da ambição de ultrapassar um certo
constrangimento.
No
dia 18 de janeiro, antecipou-se às declarações dos candidatos, sobretudo, dos
que passaram à 2.ª volta, a fim de, apesar de saudar a maturidade do eleitorado
e de vincar o respeito pelas escolhas dos Portugueses, lamentar o facto de a
sua área política já não estar representada no processo eleitoral. Neste
pressuposto, afirmou que se abstinha de declarar apoio a qualquer um dos dois
candidatos e que prosseguia com a atividade governativa.
Percebe-se
que o PM quisesse manter-se equidistante dos candidatos e mantivesse o rumo da governação,
mas é inadequado dizer que a sua área política deixou de estar representada no
processo eleitoral. Embora nenhum dos candidatos representasse o PSD e o CDS, é
verdade que os eleitores destes partidos, que haviam repartido os seus votos,
principalmente. por Marques Mendes e por Gouveia e Melo, continuaram no processo
eleitoral e os resultados mostram que estiveram bem presentes nas eleições de 8
de fevereiro. Por isso, mereciam uma outra atitude de respeito, por parte do
líder da AD.
Na
noite de 8 de fevereiro, Luís Montenegro também se antecipou às declarações dos
candidatos e dos porta-vozes dos diversos partidos, para vincar que “nada mudou
com esta eleição presidencial, os portugueses não querem saber se o governo é
de direita ou de esquerda”.
O
PM destacou “convergência” com o presidente eleito e insistiu que se abre um
período de “três anos e meio sem eleições nacionais”.
Sinalizando
a “grande maturidade cívica” dos cidadãos, patente no alto nível de
participação, deixou uma palavra para os que serviram nas mesas de voto e para os
autarcas, “inexcedíveis” a garantir as condições para o sufrágio”. Por outro
lado, o chefe do governo disse ter falado com o eleito a quem garantiu, “em
nome do governo”, “toda a disponibilidade para trabalhar em prol do futuro de
Portugal”. E, destacando o espírito “de convergência” com o novo Presidente da
República, prometeu “toda a cooperação” para servir o país, de “forma
construtiva e positiva”, neste período que se abre de “três anos e meio sem
eleições nacionais”.
No
âmbito da execução do programa do governo, o PM escolheu colocar, em primeiro
lugar, os serviços públicos de saúde, a grande prioridade elencada pelo, agora,
Presidente da República eleito, bem como a educação, habitação, mobilidade e o “fomento
do crescimento da nossa economia”. E, em recado aos partidos da oposição, afirmou
que é “a altura de todos poderem estar com o sentido de cumprirem as que foram
as garantias que deram ao povo português”.
Neste
sentido, Luís Montenegro frisou que “o governo encontra, na Assembleia da República
(AR) e no Presidente da República eleito, os parceiros para poder tratar
daquilo que é de todos, [para] alimentar essa esperança [e para] poder, com
ambição, com sentido de convergência e [com] responsabilidade, executar o seu
programa”. E, questionado sobre como perspetiva a relação com António José Seguro,
disse que o executivo continuará a fazer o que lhe compete e cooperará, de
forma construtiva, com o Presidente da República, salientando que não é a origem partidária que
importa nesta relação.
Sobre
o próximo Orçamento do Estado, Montenegro disse que, para não passar na AR,
será necessário que “os dois maiores partidos da oposição votem contra”; e o que
o governo fará é tentar que isso não aconteça”, mas, se isso não for possível com
os dois partidos, “pelo menos; que haja um que não o faça”.
Quanto
a eventual reforço de legitimidade de André Ventura com esta eleição, o PM afirmou
que “nada mudou com esta eleição presidencial”. “As eleições legislativas que
tivemos […] foram inequívocas, relativamente à vontade do povo português para
escolher o governo e o essencial do programa que quer ver executado, rematou,
notando que os cidadãos não querem saber se “o governo é de esquerda ou de
direita”, pois “o governo é de Portugal, é dos Portugueses, de todos os Portugueses”.
Questionado
sobre o pacote laboral, Luís Montenegro disse acreditar que, fruto do trabalho
de “aproximação na concertação social” e, posteriormente, na AR, será possível conseguir
uma “versão final” que venha a merecer a “promulgação do Presidente da
República”.
***
Não
é verdade que nada tenha mudado com estas eleições. O PM pode ter razão, se se
referir à correlação de forças, na AR, nem
quanto à continuação do governo, que nem sequer tem de colocar o seu lugar à
disposição do novo PR, nem o presidente pode interferir na condução da política
do País, que é exclusiva do executivo e pela qual responde perante a AR. Por
outro lado, António José Seguro já garantiu que, no que de si depender, não
haverá dissolução da AR. Ou seja, não porá em causa, sem forte motivo, a
subsistência do governo, como fez o antecessor, por duas vezes, com ameaça
prévia.
Porém,
uma vez que o executivo tomou medidas que não constavam nem dos programas eleitorais
dos partidos que o apoiam, nem do programa do governo, como mostram as leis sobre
a imigração, sobre a nacionalidade e sobre a legislação laboral, o eleitorado,
ao optar, por esmagadora maioria, pela moderação contra o radicalismo da
direita e contra a subversão constitucional, deixou forte aviso à navegação governativa.
Além
disso, como recorda o constitucionalista Vital Moreira, no blogue “Causa nossa”,
o PR, além do poder de dissolução da AR, dos poderes especiais, em situação de
emergência, e do “poder discreto de aconselhamento (que pode ser influente)”, “goza
de três poderes ‘ordinários’ que podem condicionar a ação governativa”,
sobretudo, em caso de governo minoritário: “(i) o poder de
veto legislativo, contra projetos governamentais mais agressivos”; “(ii) o
poder de veto na designação de certos cargos públicos
importantes, desde o PGR [procurador-geral da República] às chefias militares,
que pode travar a sua governamentalização”; (iii) o poder de
enviar mensagens à AR, sobre assuntos que, no seu entender, careçam de
intervenção parlamentar, o que pode contrariar situações de propositada inércia
governativa ou da sua base parlamentar”.
Na
verdade, como insiste Vital Moreira, o
PR “goza, constitucionalmente, de um efetivo ‘poder moderador’, que o
capacita, não somente, para velar pelo cumprimento da Constituição e pelo
regular funcionamento das instituições, mas também para moderar os excessos de
poder parlamentar-governamental”.
Também
as coisas têm de mudar, não só por força das eleições, mas também por força do
comboio de tempestades que vêm assolando o país, do que resulta a urgência de
uma reprogramação da ação governativa. E o governo não pode cerrar os ouvidos
ao clamor do povo, enquanto passeia sobre a desgraça da população sem
território ou enquanto faz trabalho na invisibilidade.
Em
contraponto ao PM, o presidente eleito declarou, no seu discurso de vitória: “Comigo,
não vai focar tido na mesma.”
Também
não é verdade que “os Portugueses não querem saber se o governo é de direita ou
de esquerda”. O eleitorado, em 2025, fez crescer o Chega, mas fez crescer,
ainda mais, a AD. Pôde, então, dizer-se que o país virou à direita, mas não
tanto como o governo concluiu.
Agora,
o eleitorado advertiu que, embora tenha rejeitado uma esquerda tradicional, bem
como um certo aventureirismo militar, não pactua, como diz o constitucionalista
Vital Moreira, “com o processo de ‘cheguização’ do governo, em várias
áreas, designadamente, na sensível questão da imigração, e como se pudessem
ignorar as inauditas propostas do governo flagrantemente contrárias aos
direitos e liberdades constitucionalmente garantidos, como a perda de
nacionalidade ou o cancelamento da proibição constitucional de despedimentos
sem justa causa...”
***
Por
fim, é de relevar, no discurso de vitória do Presidente da República eleito, a clara
priorização da solidariedade com as populações afetadas pelas tempestades e,
logo a seguir, o conhecimento da mobilização dos eleitores para a expressão da
cidadania em circunstâncias tão difíceis. Porém, não esquecemos o seu propósito
de criar estabilidade política, de garantir a persistência do sistema político-constitucional
e de catalisar a resolução dos grandes problemas que atravessam o país, ou qual
tem de passar de “surpreendido” a “preparado”.
O
eleitorado, que pôs o país no “Seguro”, está confiante, porque um beirão não costuma
falhar!
2026.02.12
– Louro de Carvalho