No
11.º domingo do Tempo Comum no Ano A, a Palavra de Deus recorda a constante presença
de Deus no Mundo e a vontade que Ele tem de oferecer aos homens, a cada passo,
a vida e a salvação. Porém, concretiza a sua intervenção na História humana
através daqueles que chama e envia, como sinais vivos do seu amor e como testemunhas
da sua bondade.
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A
primeira leitura (Ex 19,2-6a) apresenta-nos o Deus da aliança, que elege
um povo para com ele estabelecer laços de comunhão e de familiaridade, confiando-lhe
a missão sacerdotal, que torna Israel o povo reservado para o serviço de Javé,
isto é, para ser sinal de Deus, ante as outras nações. O trecho em apreço,
insere-se nas tradições da aliança do Sinai – tradições de origem diversa, cujo
denominador comum é a reflexão sobre o compromisso (“berit” – “aliança”) que
Israel assumiu com Javé.
Estamos
no deserto do Sinai, “em frente do monte”. O texto bíblico não dá indicações
geográficas suficientes de identificação do “monte da aliança”. “Sinai”, em si,
não designa um monte, mas a enorme península triangular, com cerca de 420
quilómetros de extensão Norte/Sul, estendendo-se entre os mares Mediterrâneo e
Vermelho (no sentido Norte/Sul) e os golfos do Suez e o da Áqaba (no sentido
oeste/este). É um deserto árido, escassamente povoado, de terreno acidentado e
com várias montanhas que chegam a atingir 2400 metros de altura. Uma tradição
cristã do século IV d.C. identifica o monte da aliança com o “Gebel Musah” (monte
de Moisés), de 2244 metros de altitude, situado a Sul da península sinaítica.
Embora a identificação do monte da aliança com este lugar levante problemas, o
“Gebel Musah” é lugar de peregrinação para judeus e cristãos.
Foi,
pois, diante de um monte que Javé e Israel se comprometeram numa aliança. O
termo hebraico “berit” define um pacto entre duas partes, que implica direitos
e obrigações recíprocos. A “berit”, raramente escrita, tinha sempre valor
jurídico. Habitualmente, era selada por um ritual, consagrado pelo uso, que
incluía o juramento e a imolação de animais em sacrifício. Foi no quadro deste
esquema jurídico que Israel representou o seu compromisso com Javé.
É
de anotar que a iniciativa da aliança é de Deus: Ele convoca Moisés – o
intermediário entre Deus e o Povo – para a montanha e propõe, através dele, uma
aliança à casa de Jacob. A iniciativa de estabelecer laços de comunhão e de
familiaridade com o povo é sempre de Deus. Depois, é de atentar em que a aliança
que Deus propõe é realidade que envolve toda a História do povo. As palavras de
proposição da aliança aparecem em segmentos textuais, abarcando, cada um, um
tempo – passado, presente e futuro –, na relação que aponta à totalidade da
caminhada do povo de Deus.
O
primeiro (v. 4) refere-se ao passado, com referência à libertação da
escravidão do Egito (“vistes o que Eu fiz no Egito”), à presença e assistência
amorosa de Deus, ao longo do deserto (“como vos transportei sobre asas de
águia”) e ao chamamento à comunhão com Deus (“e vos trouxe até Mim”). Tudo isso
resulta do compromisso que Deus assumiu com Israel, ainda antes da aliança do
Sinai.
O
segundo (v. 5a) refere-se ao presente. Javé insta Israel a aceitar
estabelecer com Ele laços privilegiados de comunhão e de familiaridade. Para tanto,
Deus pede a Israel que escute a sua voz e guarde a aliança: os mandamentos são os
quesitos de compromisso do povo.
O
terceiro (vv. 5b-6) refere-se ao futuro. Se Israel se comprometer com
Deus numa aliança, Ele oferecerá ao povo uma relação que o tornará o povo
eleito de Deus, um reino de sacerdotes e uma nação santa. Entre todos os povos
da Terra, Israel passará a ser o povo que Deus escolheu entre todos os povos da
Terra para uma relação única. Será um reino de sacerdotes, ou seja, um povo
cuja missão é testemunhar Deus e torná-Lo presente no Mundo. Será nação santa,
isto é, povo à parte, separado do convívio dos outros, para se dedicar apenas
ao serviço de Javé.
A
aliança faz parte integrante do desígnio de salvação que Deus tem para os
homens. Israel é convidado por Deus a desempenhar um papel primordial no
processo: se aceitar fazer parte da comunidade de Deus e percorrer o caminho
dos mandamentos), será o povo escolhido por Deus para o seu serviço e para ser
sinal de Javé à vista de todos os outros povos. Esta eleição não é privilégio,
mas serviço, que se concretiza na missão profética de ser sinal vivo de Deus. É
este o sentido fundamental do Êxodo: a libertação do Egito não se reduz a fazer
sair povo da escravidão para a liberdade: a caminhada que Javé começou com o povo,
no Egito, aponta para o compromisso com Deus e com os homens e para a
construção de um povo que ganha a liberdade e se torna testemunha, sinal e
sacerdote de Deus no Mundo.
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O
Evangelho (Mt 9,36-10,8) traz o discurso da missão, com Mateus a apresentar
a catequese da escolha, do chamamento e do envio de doze discípulos (que
representam a totalidade do Povo de Deus) a anunciar o Reino. Os Doze são os
continuadores da missão de Jesus, que devem levar a toda a Terra a salvação e a
libertação que Deus dá aos homens em Jesus.
Depois
de ter apresentado Jesus e de O mostrado a anunciar o Reino, em palavras e em
obras, o evangelista narra o envio dos discípulos em missão. Os discípulos são os
que Jesus chamou, que responderam ao chamamento e seguiram Jesus. E, na caminhada
com Jesus, escutaram os seus ensinamentos e testemunharam os seus sinais.
Formados por Ele na escola do Reino, podem ser enviados ao Mundo, a anunciar a
todos a chegada do Reino dos Céus.
Os
estudiosos do Evangelho de Mateus chamam ao texto que vai de 9,36 a 11,1, o
“discurso da missão”: Jesus envia os discípulos e define a missão deles –
anunciar a vinda do Reino. Este discurso consta de várias partes: introdução (Mt
9,36-38); chamamento e envio dos discípulos (Mt 10,1-15); instrução
sobre o caminho que os discípulos têm de percorrer (Mt 10,16-42); e
conclusão (Mt 11,1). É um discurso composto pelo evangelista, a partir
de diversos materiais, combinando relatos de envio, ditos de Jesus acerca dos Doze
e várias sentenças de Jesus que, originalmente, não terão sido proferidas neste
contexto.
Mateus
escreve na década de 80. Dirige o Evangelho a uma comunidade viva e entusiasta,
empenhada na atividade missionária (será a comunidade cristã de Antioquia da
Síria). Porém, as dificuldades encontradas no anúncio do Evangelho e a
perseguição traziam a comunidade perturbada. Por isso, Mateus compôs um manual
do missionário, que enraíza a missão em Cristo, elenca os conteúdos do anúncio
que os discípulos são chamados a proclamar e as atitudes fundamentais que os
missionários devem assumir. O trecho em causa inclui a introdução e uma parte do
relato do chamamento e do envio dos discípulos.
É
de considerar, na introdução (Mt 9,36-38), a atitude de Jesus: olhou e
viu a multidão, semelhante a ovelhas sem pastor, pelo que Se condoeu em compaixão.
Assim, Mateus explica que essa missão a que Jesus chama os discípulos é
expressão da solicitude de Deus, que oferece ao seu povo a salvação. Mateus –
que escreve para uma comunidade onde havia significativo número de crentes de
origem judaica – usa, para transmitir esta mensagem, imagens retiradas do
Antigo Testamento e muito familiares para os judeus.
Nas
palavras de Jesus, Israel é comunidade abatida e desnorteada, cujos pastores
(os líderes religiosos) se demitiram das suas responsabilidades. São os maus pastores
de que falam os profetas. Ao invés, o coração de Deus está cheio de compaixão pelo
rebanho abatido e desanimado. Por isso, Deus assume as suas responsabilidades e
conduz o seu povo às pastagens onde há vida. E, como Jesus, os discípulos devem
olhar, condoer-se e agir.
A
referência à “messe” indica que a missão é urgente, não havendo muito tempo
para a levar a cabo. Nos profetas, a messe vem ligada à imagem do juízo
iminente de Deus; a referência ao “pedido” que deve ser feito ao Senhor da messe
é o apelo a que a comunidade contemple a missão como obra de Deus a levar a
cabo com os critérios de Deus. Por isso, a comunidade deve rezar, para se
aperceber do desígnio, da perspetiva e dos critérios de Deus, antes de
empreender a tarefa de anunciar o Evangelho.
Vem,
depois, o chamamento dos discípulos (Mt 10,1-4). Mateus deixa claro que
a iniciativa é de Jesus: “chamou-os”. Não há explicação dos critérios que
levaram à escolha: falar de vocação e de eleição é falar de mistério
insondável, que depende de Deus e que o homem nem sempre consegue compreender e
explicar.
A
seguir, o evangelista aponta o número dos discípulos: “doze”. Doze é número
simbólico que lembra as doze tribos que formavam o antigo povo de Deus. Assim,
estes doze, cujos nomes são referidos, representam a totalidade do povo de
Deus, do novo povo de Deus.
Depois,
Mateus define a missão que Jesus lhes confiou (“deu-lhes poder de expulsar os
espíritos impuros e de curar todas as doenças e enfermidades”). Os espíritos
impuros, as doenças e as enfermidades representam tudo o que escraviza o homem
e o impede de chegar à vida em plenitude. A missão dos discípulos é, pois,
lutar contra tudo aquilo – de caráter físico ou de caráter espiritual – que
destrói a vida e a felicidade do homem. Ou seja, a missão dos discípulos é
lutar contra o pecado.
E
Mateus aponta os nomes dos Doze: Simão Pedro; André; Tiago, filho de Zebedeu;
João; Filipe; Bartolomeu; Tomé; Mateus; Tiago, filho de Alfeu; Tadeu; Simão, o
cananeu; e Judas Iscariotes). As listas apresentadas pelos evangelistas
apresentam diferenças, seja na ordem dos nomes, seja nos próprios nomes (por
exemplo, Tadeu é, em Lucas, Judas). Seja como for, Pedro encabeça a lista e
Judas Iscariotes fecha-a. Estes dois são as duas personagens mais fortes e que,
ao longo da caminhada com Jesus, terão assumido algum protagonismo no grupo.
O
último passo é o envio dos discípulos, antecedido das instruções para a missão
(Mt 10,5-8). Primeiro, Jesus define os destinatários da missão: numa
primeira fase, são “as ovelhas perdidas da casa de Israel”. Esta interpretação restritiva
da missão explica-se pelo modo da expansão do cristianismo, em termos
geográficos: começou na Palestina e, só depois, ultrapassou as fronteiras da
Palestina. Também terá a ver com as tensões na comunidade mateana, onde alguns
judeo-cristãos tinham dificuldade em aceitar que o Evangelho fosse anunciado
aos pagãos. Mais tarde, Mateus deixará claro que o anúncio se destina também
aos pagãos e que a “casa de Israel” rejeitou Jesus e a sua proposta do Reino.
A
seguir, o evangelista aponta os sinais que devem acompanhar o anúncio da
chegada do Reino: cura dos doentes, ressurreição dos mortos, expulsão dos
demónios. Não deve constar só de palavras, mas também de gestos que sejam sinal
vivo da libertação que o Reino traz.
Por
fim, aparece o apelo à gratuitidade: os discípulos não podem partir em missão a
pensar em dividendos pessoais ou na satisfação de interesses egoístas. O
mandato “recebestes de graça, dai de graça” insta a fazer da vida dom gratuito
ao Reino, sem esperar recompensa.
A
missão dos discípulos surge como prolongamento da missão de Jesus. O anúncio
confiado aos discípulos é o que Jesus fazia: o Reino; os gestos que os
discípulos são convidados a fazer para anunciar o Reino são os de Jesus; os
destinatários da mensagem que Jesus apresentou são os da mensagem a que os
discípulos se dirigem. Ao apresentar a missão dos discípulos em paralelo e em continuidade
com a missão de Jesus, Jesus convida a Igreja (os discípulos) a continuar, na
História, a obra libertadora que Ele iniciou em prol do homem.
***
A
segunda leitura (Rm 5,6-11) sugere que a comunidade dos discípulos é
comunidade de pessoas a quem Deus ama. A sua missão no Mundo é testemunhar o
amor de Deus pelos homens – amor eterno, inquebrável, gratuito e único.
A
Carta aos Romanos, texto sereno e amadurecido, escrito por Paulo, por volta do
ano 57/58, apresenta uma síntese da sua mensagem e da sua pregação. O pretexto
é o projeto de passagem por Roma, a caminho de Espanha. Paulo, sentindo terminada
a sua missão no Oriente, quer anunciar o Evangelho no Ocidente. Contudo, os
estudiosos sustentam que o apóstolo se serve do pretexto para lembrar aos
cristãos vindos do judaísmo (para quem a salvação dependia da prática da Lei de
Moisés) e aos cristãos vindos do paganismo (para quem a Lei de Moisés era
empecilho) o essencial da mensagem cristã. E Paulo insiste no facto de a
salvação não ser conquista do homem, mas dom do amor de Deus. De facto, todos vivemos
mergulhados no pecado, pois o pecado é realidade universal, mas Deus, na sua
bondade, a todos justifica e salva; e a salvação é oferecida por Deus ao homem,
por Jesus Cristo, cabendo ao homem aderir à salvação, na fé.
O
trecho em referência é a parte final da perícopa que começa em Rm 5,1, com
Paulo a explicar o que brota da justificação que Deus nos ofereceu: a paz, que
é a plenitude dos bens; e a esperança, que nos permite caminhar por este Mundo
de cabeça levantada, de olhos postos no futuro glorioso da vida em plenitude.
Sermos
justificados, isto é, recebermos, de forma totalmente gratuita, uma salvação
não merecida, postula descobrir quanto Deus nos ama. O amor de Deus pelos
homens é algo que nunca deixará de espantar; e é esse espanto que Paulo quer
transmitir aos cristãos. Com efeito, a História da Salvação é uma indizível
história de amor.
Como
o homem, se contar só com as suas forças, não supera a situação de escravidão,
de egoísmo e de pecado para que descambou, Deus enviou o seu Filho ao Mundo.
Ele ofereceu toda a sua vida – até à cruz – para que os homens percebam que o
egoísmo gera morte e sofrimento e que só o amor gera felicidade e vida sem fim.
Desse modo, salvou os homens da escravidão do egoísmo e do pecado e
ofereceu-lhes, de forma totalmente gratuita, a salvação. Porém, o mais indizível
é que tudo aconteceu “quando éramos, ainda, pecadores”. É algo incompreensível,
humanamente, que subverte a lógica dos homens. Talvez aceitássemos morrer por
alguém a quem amamos muito, mas não estaríamos dispostos a dar a vida por
alguém egoísta, orgulhoso e autossuficiente. Porém, Deus ama de tal modo os
homens todos que aceitou que o próprio Filho morresse pelos ímpios.
O
amor de Deus é indizível, ilógico, inexplicável. Soa a absoluto, a eternidade.
Nada nem ninguém o consegue vencer, derrotar, eliminar. Mais: se Deus nos amou
desta forma, quando éramos pecadores, com muito mais razão nos amará, agora,
que nos reconciliámos com Ele. Este amor inapagável e impagável é penhor de
vida em plenitude.
***
Por
tudo isto, no dizer de Santo Atanásio, “o Senhor faz cantar aos redimidos um
hino de vitória”, e o salmista canta a alegria de quem entra no templo:
“Nós
somos o povo de Deus, as ovelhas do seu rebanho.”
“Aclamai
o Senhor, Terra inteira, /servi o Senhor com alegria, /vinde a Ele com cânticos
de júbilo.
“Sabei
que o Senhor é Deus, / Ele nos fez, a Ele pertencemos, / somos o seu povo, as
ovelhas do seu rebanho.
“Porque
o Senhor é bom, / eterna é a sua misericórdia, / a sua fidelidade estende-se de
geração em geração.”
“Aleluia,
aleluia!”
“Está
próximo o Reino de Deus. / Arrependei-vos e acreditai no Evangelho.”
2026.06.15
– Louro de Carvalho