domingo, 6 de setembro de 2026

Responsabilidade dos cristãos, face aos irmãos e às irmãs que os rodeiam

 

A tendência é para interpretar, de forma errada, o dito evangélico: “E se [o teu irmão] também não der ouvidos à Igreja, considera-o como um pagão ou um publicano”. Ora, a liturgia do 23.º domingo do Tempo Comum, no Ano A, insta à reflexão sobre a responsabilidade cristã, face aos irmãos e irmãs. Ninguém pode ficar indiferente ante o que ameace a vida e a felicidade do próximo e todos somos responsáveis uns pelos outros, sem qualquer tipo de ostracismo.

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Na primeira leitura (Ez 33,7-9), surge a figura do profeta como sentinela a quem Deus confiou a vigilância da cidade dos homens. Atento ao desígnio de Deus e à realidade do Mundo, o profeta apercebe-se do que subverte o plano de Deus e impede a felicidade dos homens. E, como vigilante responsável alerta a comunidade para os perigos que a ameaçam.

Ezequiel é o profeta da esperança. Desterrado na Babilónia, desde 597 a.C. (no reinado de Joaquin, quando Nabucodonosor toma Jerusalém, pela primeira vez, e deporta para a Babilónia a classe dirigente do país), exerce aí o serviço profético entre os exilados judeus.

A primeira fase decorre entre 593 a.C. (data do chamamento) e 586 a.C. (data em que Jerusalém é arrasada pelas tropas de Nabucodonosor e uma segunda leva de exilados é encaminhada para a Babilónia). Nesta fase, Ezequiel tenta destruir falsas esperanças e anuncia que, ao invés do que pensam os exilados, o cativeiro durará. E os que ficaram em Jerusalém (a multiplicar pecados e infidelidades) farão companhia aos já desterrados na Babilónia. A segunda fase desenrola-se a partir de 586 a.C. e vai até cerca de 570 a.C. Instalados em terra estrangeira, privados do templo, do sacerdócio e do culto, os exilados desesperam e duvidam do amor de Deus. Então, Ezequiel alimenta a esperança dos exilados e transmite ao Povo a certeza de que o Deus libertador – o Deus que Israel descobriu na sua História – não os abandonou, nem esqueceu.

O teor do trecho em apreço não permite dizer, de forma clara, se pertence à primeira ou à segunda fase da atividade profética de Ezequiel. Todavia, define – pelo recurso à imagem da sentinela – a missão profética: o profeta é, entre os exilados, uma sentinela atenta, que escuta o apelo de Deus e avisa o Povo dos perigos que aparecem no horizonte da comunidade.

A imagem da sentinela aplicada ao profeta não é nova. Já Habacuc, Isaías, Jeremias e Oseias recorrem a esta figura para definir a missão profética. Como sentinela ou plantão, o profeta é o vigilante atento que, enquanto os outros descansam, perscruta o horizonte e procura detetar o perigo que ameaça cidade, os concidadãos, os camaradas de armas. E, ao pressentir o perigo, tem a obrigação de dar o alarme. Assim, a comunidade pode preparar-se para enfrentar o desafio que o inimigo lhe colocar. Se a sentinela não vigiar ou se não der o alarme, será responsável pela catástrofe que atingiu o seu Povo.

Conta-se que São Frei Bartolomeu dos Mártires, quando era arcebispo de Braga, no regresso da visita pastoral a uma das paróquias encontrou, na serrania, um zagal cujas ovelhas pastavam tranquilas sob forte vento e chuva, mas que estava de vigia em cima de um penedo. E, questionado pelo arcebispo por que motivo não se abrigava do vento e da chuva numa gruta rochosa que estava no perímetro da pastagem, respondeu que, se o lobo viesse e roubasse alguma das ovelhas, o pai, que era severo, ajustaria contas consigo, pois não bastava a ajuda do cão. Este não passava de um adjutor, ainda que importante.

Assim é o profeta, o guarda que Javé colocou no meio da comunidade do Povo de Deus, para perscrutar, atentamente, o horizonte da História e da vida do Povo e para dar o alarme, sempre que a comunidade corre riscos. Contudo, para ser uma sentinela eficiente, tem de ser, ao mesmo tempo, homem de Deus e um homem atento ao Mundo que o rodeia. O profeta é, antes de mais, o homem que Javé chamou ao seu serviço, pelo que vive em comunhão com Deus, e descobre, na intimidade que vai criando com Deus, a vontade de Deus e aprende a discernir o desígnio de Deus para os homens e para o Mundo. Também é o homem do seu tempo, imerso na realidade e nos desafios da sociedade em que se integra. Conhece, pois, o Mundo e é capaz de ler, em chave crítica, os problemas, os dramas e as infidelidades dos contemporâneos.

Ao contemplar os planos de Deus e a vida do Mundo, o profeta apercebe-se do desfasamento entre uma realidade e outra e de que a realidade da vida dos homens é muito diferente da realidade que Deus projetou. Perante isto, não alija a responsabilidade, dizendo que não é nada com ele, não se fecha na comodidade, não ignora as infidelidades dos homens ao desígnio de Deus, nem se demite das suas responsabilidades, não se incomodando com as opções erradas dos irmãos. Ao invés, porque recebeu mandato de Deus para alertar a comunidade para os perigos que a ameaçam, o profeta tem de dizer a todos – mesmo que os concidadãos não o compreendam ou não o queiram escutar – custe o que custar, doa a quem doer, que trilhar caminhos errados só pode conduzir à infelicidade, ao sofrimento, à morte.

O profeta/sentinela é mais um sinal vivo do amor de Javé pelo seu Povo. Deus chama-o, envia-o em missão, dá-lhe a coragem de testemunhar e apoia-o nos momentos de crise, de desilusão e de solidão. É, por conseguinte, a prova de que Deus continua, a cada dia, a oferecer ao seu Povo caminhos de salvação e de vida, demonstrando, sem margem para dúvidas, que Deus não quer a morte do pecador, mas que ele se converta e viva.

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O Evangelho (Mt 18,15-20) evidencia a nossa responsabilidade em ajudar cada irmão a tomar consciência dos seus erros. É dever que resulta do mandamento do amor. Porém, Jesus ensina que a via para atingir o objetivo não é a humilhação, nem a condenação de quem falhou, mas o diálogo fraterno, leal, amigo, que revela ao irmão que a nossa intervenção resulta do amor.

O capítulo 18 do Evangelho de Mateus é conhecido como o “discurso eclesial”, pois contém uma catequese de Jesus sobre a experiência de caminhada em comunidade. Mateus ampliou, de forma significativa, instruções apresentadas por Marcos sobre a vida comunitária e compôs, com esses materiais, um dos cinco grandes discursos que o seu Evangelho transcreve. Os destinatários desta instrução são os discípulos e, obviamente, a comunidade a que o Evangelho de Mateus se dirige. A comunidade de Mateus é uma comunidade normal, com tensões entre os diversos grupos e com problemas de convivência. Há os que se julgam superiores aos outros e que querem ocupar os primeiros lugares; os que, sendo prepotentes, escandalizam os pobres e os débeis; os que magoam e ofendem outros membros da comunidade; e os que têm dificuldade em perdoar as falhas e os erros dos outros. Em resposta a este cenário, a exortação mateana insta à simplicidade e à humildade, ao acolhimento dos pequenos, dos pobres e dos excluídos, ao perdão e ao amor; e desenha um modelo de comunidade para os cristãos de todos os tempos: a comunidade de Jesus tem de ser a família de irmãos, que vive em harmonia, que dá atenção aos pequenos e aos débeis, que escuta os apelos e os conselhos do Pai e que vive no amor.

O fragmento do discurso eclesial em causa refere-se, especialmente, ao modo de proceder para com o irmão que errou e que provocou conflitos na comunidade. Nesta situação os irmãos não devem condenar, nem marginalizar o infrator. Com efeito, neste cenário, as decisões radicais e fundamentalistas não são cristãs. É preciso bom senso, maturidade, equilíbrio, tolerância e, acima de tudo, amor. E Mateus propõe um caminho em várias etapas.

Em primeiro lugar, deve promover-se um encontro, em privado com o irmão infrator, falando com ele cara a cara, sobre o tema. Nada de dizer mal nas suas costas, de publicitar a falta, de criticar publicamente (ainda que nada se invente) e de, muito menos, de espalhar boatos, de caluniar, de difamar. O caminho correto é o confronto pessoal, leal, honesto, sereno, compreensivo e tolerante com o irmão. Se o encontro resulta, o problema acaba, ficando entre os dois.

No caso de o encontro a dois não resultar, Mateus propõe nova tentativa, que implica o recurso a outros irmãos (“toma contigo uma ou duas pessoas”) que, com serenidade, sensibilidade e bom senso, sejam capazes de fazer o infrator perceber o sem sentido do seu comportamento. Se esta tentativa resultou, o problema terminou, tendo ficado entre testemunhas.

Se também essa tentativa falhar, resta o recurso à comunidade. A comunidade será chamada a confrontar o infrator, a recordar-lhe as exigências do caminho cristão e a pedir-lhe uma decisão. Se o irmão aceder ao apelo eclesial, a Igreja “reganha” o irmão.

No entanto, se o infrator se obstinar no comportamento errado, a comunidade terá de reconhecer, com dor, a situação em que o irmão se colocou, tendo de aceitar que esse comportamento o pôs à margem da comunidade. Nos termos da interpretação de muita gente, a solução de marginalização dá tranquilidade, o que não é suposto, evangelicamente. Mateus esclarece que, nesse caso, o faltoso será considerado como “um pagão ou um cobrador de impostos”. Ora, os contemporâneos de Jesus olhavam, como notório desprezo, os pagãos (não têm a fé judaica, agora, a cristã), os cobradores de impostos e para os pecadores públicos, em geral, porque estavam, definitivamente, arredados da salvação. Não é este o entendimento de Jesus, que procurou publicanos (Mateus era-o), prostitutas, leprosos, coxos, surdos-mudos, cegos de nascença, doentes e pagãos, porque têm entrada no Reino de Deus, bastando que aceitem a chamada.  

Dizem alguns comentadores que isto não significa que os pagãos e os cobradores de impostos não têm lugar na comunidade de Mateus e douram a pílula, referindo que, ao usar este exemplo, o evangelista não se refere a indivíduos, mas a situações. Trata-se de imagens judaicas para falar de pessoas que estão instaladas em situações de erro, que se obstinam no mau proceder e que recusam todas as oportunidades de integrar a comunidade da salvação. Não obstante, é de vincar que as situações não entram no Céu, nem no Inferno, mas as pessoas. Por isso, não basta não condenar as pessoas infratoras, mas importa redobrar a atenção e procurar, calma e rapidamente, as oportunidades de “reapelo” à conversão. A comunidade não tem o direito de dormir descansada, enquanto houver pecadores e pagãos. Por isso, é insensata a postura de hierarcas que se refugiam, comodamente, na excomunhão, na interdição, na negação da absolvição, na admissão à comunhão eucarística e ao funeral cristão e noutras penalizações. E é antievangélica a exclusão e qualquer outra prática de ostracismo que tantos leigos praticam, em relação aos demais, não admitindo alguns nas agremiações cristãs. Há muito Evangelho a percorrer!

Mateus não sugere que a Igreja exclua da comunhão qualquer irmão que errou. Na realidade, a Igreja é realidade divina e humana, onde coexistem a santidade e o pecado. E Mateus sugere que a Igreja tem de tomar posição, quando algum dos seus membros, consciente e obstinadamente, recusa a proposta do Reino e realiza atos que estão contra as propostas de Cristo.

Depois da instrução sobre a correção fraterna, mais bem expresso, promoção fraterna, o evangelista transcreve três “ditos” de Jesus que seriam, originalmente, independentes da temática precedente, mas que Mateus encaixou neste contexto.

O primeiro refere-se ao poder, conferido à comunidade, de “ligar” e “desligar”. Entre os judeus, a expressão designava o poder de interpretar a Lei com autoridade, de declarar o que era ou não permitido e de excluir ou reintroduzir alguém na comunidade do Povo de Deus; aqui, significa que a comunidade (em Mt 16,19 – Jesus disse o mesmo a Pedro, que representava a totalidade da comunidade dos discípulos) tem o poder de interpretar as palavras de Jesus, de acolher os que aceitam as suas propostas e de excluir os que não estão dispostos a seguir o caminho que Jesus propôs. Alguns parecem ter gosto em fechar, vedar e excluir. Todavia, qualquer tipo de atitude exclusiva tem de assumir a marca da transitoriedade.

Não esqueço que o juiz de Barrelas condenou, humanamente, um arguido, à pena de morte, mas concedeu-lhe 100 anos de espera, a fim de que se arrependesse dos seus pecados.

O segundo dito sugere que as decisões graves para a vida da comunidade devem ser tomadas em clima de oração. Assegura aos discípulos, reunidos em oração em nome de Jesus, que o Pai os escutará. Às vezes, a Igreja funciona mais como clube jurídico ou como alfandega da fé, do que em espaço de oração ou em espaço de escuta do Espírito Santo.

O terceiro dito garante aos discípulos a presença de Jesus “no meio” da comunidade. Neste contexto, sugere-se que as tentativas de correção, de reconciliação e de promoção entre irmãos, no seio da comunidade, terão o apoio e a assistência de Jesus. Encantados – e bem – com a presença real de Jesus na Eucaristia, esquecemos a presença também real de Cristo na assembleia dos irmãos, mesmo que seja apenas para rezarem.

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Na segunda leitura (Rm 13,8-10), Paulo convida os cristãos de Roma (e de todos os lugares e tempos) a porem no centro da existência cristã o mandamento do amor. É uma dívida que temos para com todos os nossos irmãos, e que nunca estará completamente saldada.

O apóstolo mostra como devem viver os que Deus chama à salvação. Deus oferece a todos a salvação, cabendo acolher o dom de Deus. Porém, a adesão a Jesus, portador do dom, implica assumir, na prática diária, atitudes coerentes com a vida nova que o cristão acolheu no batismo.

No ano 49, o imperador Cláudio publicou o édito de expulsão de Roma dos judeus (e dos cristãos de origem judaica). Ora, em 57/58 (tempo da escrita da Carta aos Romanos), muitos judeus tinham voltado a Roma. Possivelmente, os cristãos de origem pagã, donos da comunidade ostentavam superioridade e desprezo pelos cristãos de origem judaica entretanto regressados a Roma, concitando divisão e falta de amor na comunidade de Roma. Nessas circunstâncias, Paulo teria escrito a carta de reconciliação, para unir a comunidade dividida.

Paulo exorta os crentes a construírem a sua vida sobre o amor. Cristianismo sem amor é mentira. Os cristãos não podem deixar de amar os irmãos. Contudo, é exigência que nunca estará completamente realizada. Uma dívida pode ser liquidada de uma vez, mas o amor não. É preciso amar e amar sempre mais. O cristão não pode dizer que já ama o suficiente ou que já amou tudo.

O amor está no centro de toda a experiência religiosa. O mandamento do amor resume toda a Lei e todos os preceitos, que não passam de especificações da exigência do amor. A ideia de que toda a Lei se resume no amor não é invenção de Paulo, mas a constante na tradição bíblica.

Mais: Paulo menciona como cumprimento da Lei o amor ao próximo, porque sabe que não há amor ao próximo (que lhe faltava até à estrada de Damasco), sem o amor a Deus.

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É bom ouvir a voz de Deus e promover a unidade e a reconciliação:

“Se hoje ouvirdes a voz do Senhor, / não fecheis os vossos corações.”

“Vinde, exultemos de alegria no Senhor, / aclamemos a Deus, nosso Salvador. / Vamos à sua presença e dêmos graças, /ao som de cânticos aclamemos o Senhor.

“Vinde, prostremo-nos em terra, / adoremos o Senhor que nos criou. / Pois Ele é o nosso Deus /
e nós o seu povo, as ovelhas do seu rebanho.

“Quem dera ouvísseis hoje a sua voz: ‘Não endureçais os vossos corações, / como em Meriba, no dia de Massa no deserto, / onde vossos pais Me tentaram e provocaram, / apesar de terem visto as minhas obras’.”

“Aleluia. Aleluia. Em Cristo, Deus reconcilia o mundo consigo / e confiou-nos a palavra da reconciliação.”

2026.09.06 – Louro de Carvalho


Bino Branco, a voz do “Fundo Baxo” e grande intérprete de funaná

 

Faleceu a 29 de agosto de 2026, nos Estados Unidos da América (EUA), onde se encontrava em tratamento, desde 2025, Bino Branco, vocalista e compositor cabo-verdiano cujo nome fica ligado, para sempre, ao funaná, género musical e dança tradicional cabo-verdiana, típico da ilha de Santiago, tendo o grupo Ferro Gaita, por ele cofundado, contribuído muito para a sua difusão, como anota Filinto Elísio – na sua crónica semanal, de 3 de setembro, no Programa “África em Clave Cultural: personagens e eventos” do podcast do Vaticano dedicado à cultura, à arte, às figuras públicas e aos acontecimentos relevantes ligados ao continente africano –, pondo em evidência a filosofia, a evolução e os maiores sucessos do grupo.

A cerimónia fúnebre do músico Carlos Alberto Pereira Lopes (nome de registo e de batismo), conhecido por Bino Branco, de 56 anos (faria 57, a 29 de dezembro), que enfrentava uma doença oncológica, ocorreu a 6 de setembro, na cidade da Praia.  Os seus restos mortais chegaram à cidade da Praia, a 5 de setembro, às 23h00, tendo-se seguindo o velório, às 23h40, na Casa Mortuária da Agência Funerária Estrela de Cabo Verde, em Achada, no município de São Filipe. No dia 6, às 9h00, a urna foi transportada para a residência do falecido, em Calabaceira, a cerimónia fúnebre tem lugar às 15h00, na Capela de Calabaceira, e seguiu, às 15h40, o cortejo para o Cemitério da Várzea, com passagem por Achadinha.

Na circular disponibilizada nas redes sociais pedia-se aos familiares, amigos e artistas que comparecessem vestidos de branco, em sinal de homenagem, respeitando a vontade do músico.

Conhecido pela sua energia em palco, Bino Branco tornou-se uma figura indissociável do ferrinho, instrumento que marcou a sonoridade do grupo e a sua identidade artística.

Em junho deste ano, o governo aprovou a atribuição de uma pensão de Estado no valor de 75 mil escudos mensais ao músico, em “reconhecimento pelo seu contributo para a cultura nacional”, numa altura em que enfrentava uma doença oncológica.

“Nascido em Cabo Verde, Bino Branco tornou-se conhecido pela sua voz marcante e pela execução do ferrinho (ou ferro), instrumento tradicional que, juntamente com a gaita (acordeão diatónico), constitui a base sonora do funaná. A sua imagem tornou-se tão associada ao instrumento que é, frequentemente, utilizada como referência quando se fala do ferrinho na música cabo-verdiana”, lê-se no Boletim Oficial que publicou a medida.

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Para Filinto Elísio, os funanás Ferro Gaita, uma das bandas mais emblemáticas e históricas de Cabo Verde, assumiram, em pleno o funaná, ritmo tradicional da ilha de Santiago.

Bino Branco, participou em diversos grupos musicais juvenis, sendo o mais conhecido o Grupo Djassy, onde era o vocalista principal, tendo, após a dissolução em 1991, ido viver na ilha Brava, onde era presença assídua nas noites cabo-verdianas.

Este músico (também compositor) passou a ser identificado pela voz marcante e pela execução do ferrinho ou ferro. A sua imagem tornou-se tão associada ao instrumento que é, frequentemente, utilizada como referência, quando se fala do ferrinho na música cabo-verdiana.

O conjunto Ferro Gaita foi fundado em 1996, por Bino Branco, Eduíno e Paulino Preto. O nome “Ferro Gaita” foram-no buscar a dois instrumentos tradicionais do arquipélago, verdadeiros pilares do funaná: respetivamente, um pedaço de metal tocado com uma faca e uma espécie de acordeão. A estes decidiram juntar as potencialidades da bateria e do baixo, construindo assim as bases da sua aventura musical. O grupo teve papel vital na revitalização da música tradicional da ilha de Santiago, injetando ritmos modernos numa herança secular, especialmente, o género musical funaná.

Em 1997, o lançamento do álbum de estreia Fundu Baxu (ou Fundo Baxo) gerou enorme impacto local, impulsionado pela icónica atuação no Festival da Gamboa, na cidade da Praia. Os dois anos seguintes levaram-nos a partilhar a festa com diversas plateias, em Cabo Verde, em Portugal, na França, na Alemanha, em Cuba, no Senegal, nos Países Baixos, e na Espanha, entre outros países. Desde então, Bino Branco tornou-se a voz marcante e a presença eletrizante no comando do ferrinho, deixando profundo legado na História moderna da música cabo-verdiana.

Em 1999, os Ferro Gaita cruzam o oceano para gravar o segundo álbum de originais – “Rei Di Tabanka” – nos EUA. Levando mais longe o seu talento, a sua vontade e capacidade de revisitarem estilos tradicionais, conferindo-lhes novas roupagens, sem os adulterarem, os Ferro Gaita aventuram-se pelos territórios do batuque, da tabanka, do finaçon. Introduzem na sua música novos instrumentos e convocam o talento de uma das lendas vivas da música cabo-verdiana, Nha Nácia, então com 75 anos de idade, para participar no disco. E um novo sucesso comercial, trá-los de volta aos palcos internacionais, com destaque para uma alargada tournée europeia, ao lado de grandes nomes da música cabo-verdiana, como Cesária Évora, Ildo Lobo, Luís Morais e Tito Paris, entre outros.

O disco sucessor, “Bandêra Liberdadi”, editado em finais de 2003, é o primeiro trabalho do grupo gravado em Cabo Verde, onde fica bem patente a maturidade do grupo e que ilustra na perfeição o sentimento – a “Nós Cultura” – de uma terra, de um povo, que tão bem sabe cantar a sua alma, inebriada pelos ritmos ou embalada pela saudade. Ao vivo, os espetáculos do grupo transbordam de emoção, de sensualidade e de visceralidade da música cabo-verdiana.

Porém, a banda explora outros géneros de raiz cabo-verdiana, tais como o batuque e a tabanka, que se tornaram presença habitual no circuito global dos festivais e fizerem concertos nos países de forte comunidade cabo-verdiana, inscrevendo a música cabo-verdiana nos palcos do Mundo. 

O batuque é um género musical, dança tradicional e manifestação cultural com raízes africanas, com maior destaque histórico e expressão em Cabo Verde e no Brasil. Já a tabanca, enquanto género musical, caracteriza-se por ter um andamento alegre e um compasso binário e por ser, tradicionalmente ser apenas melódico, estruturando-se no canto-resposta, em que um cantor entoa versos que são, de imediato, replicados em uníssono. Nasceu, como organização hierarquizada, na sociedade escravocrata como espaço de união, de refúgio e de resistência das classes mais desfavorecidas e escravizados. E o finaçon é um género musical tradicional, caraterizado por uma narrativa cantada, como crónica do quotidiano, conselho ou sátira social.

Bino Branco gravou sete álbuns originais com o grupo Ferro Gaita, participou em colaborações com diversos artistas cabo-verdianos, gravou um álbum a solo e teve papel fundamental na promoção da música de Cabo Verde. E, em 2007, os Ferro Gaita receberam a Medalha Nacional de Mérito Cultural. Em 2024, assinaram com o Ministério da Cultura um protocolo de apoio à preservação do funaná, enquanto património imaterial nacional. A Bino Branco, que em vida recusou sempre o título de embaixador do funaná, fica reservado esse lugar, incontestável, na memória do género que ajudou a manter vivo.

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A morte do célebre compositor, “ferrinhista” e cantor encerra uma carreira de cerca de 30 anos ligada aos Ferro Gaita. Ao lado de Eduíno e Paulino Preto, ajudou a construir, a partir de 1996, uma das formações de referência na interpretação e divulgação do funaná.

Mais do que a voz, Bino Branco tinha um estilo único de estar em palco. O ferrinho, a energia, a animação e a simplicidade faziam parte da sua presença. Para os admiradores e expectadores, ao longo dos anos, era difícil separá-lo da sonoridade dos Ferro Gaita. “Estamos todos consternados com esta perda”, disse à Inforpress Emanuel Tavares, conhecido por Manel di Tilinha, percussionista e voz de coro do grupo. Sabiam que o estado de saúde do colega era grave, mas a notícia da morte foi recebida com choque.

Manel di Tilinha fala de Bino como “um grande artista”, alguém que entregava à música “o que de melhor há no funaná”, mas também como um homem divertido, alegre e simples. “Os Ferro Gaita não perderam apenas um músico. Perderam um amigo e um irmão”.

Bino Branco cresceu, artisticamente, num período em que o funaná ganhava novas formas de chegar ao público. Nos Ferro Gaita encontrou um espaço onde a tradição podia dialogar com uma abordagem contemporânea, sem perder aquilo que lhe dava identidade.

O ferrinho, uma das imagens associadas à sua presença, acompanhava uma voz que ajudou a dar personalidade ao grupo. Ao longo de três décadas, tal combinação passou por diferentes palcos e contribuiu para que a música nacional chegasse cada vez mais longe. E foi nessa capacidade de levar as raízes consigo que se construiu parte importante do seu percurso.

O Ministério da Cultura, Indústrias Criativas, Juventude e Desporto reagiu à morte com uma nota de pesar, considerando Bino Branco uma figura de grande relevância para a música e para a cultura nacional. Na mensagem, destaca o contributo do artista para a valorização e divulgação da música e considera que o seu percurso permanecerá na memória de quem ama e valoriza a cultura do país. E o ministro, António Duarte, lamentando a morte do músico, declarou que o Estado acompanhava com preocupação o seu estado de saúde e já tinha conhecimento da gravidade da situação. “Foi com profunda consternação e imensa tristeza que tomei conhecimento do falecimento de Bino dos Ferro Gaita, figura de grande relevância para a música e para a cultura cabo-verdiana. […] Deu um contributo marcante à valorização e divulgação da nossa música, ajudando a preservar e a projetar a riqueza e a diversidade da identidade cultural cabo-verdiana.

[…] Perde-se mais um artista. A cultura perde parte da sua referência”, afirmou.

Em nome do governo e do Ministério da Cultura, António Duarte apresentou condolências à família, amigos, colegas e à comunidade artística e cultural cabo-verdiana. “Que a sua memória permaneça viva, através da sua música e do legado que deixa às presentes e futuras gerações”, declarou.

Para o governante, o percurso artístico de Bino Branco e o legado que deixa “permanecerão, seguramente, na memória de todos aqueles que amam e valorizam a nossa cultura, de todos os cabo-verdianos a nível global; os Ferro Gaita ficam mais pobres; e o funaná também perde uma das suas referências.

A doença de Bino já vinha obrigando os Ferro Gaita a preparar o futuro do grupo. Segundo o produtor e manager David Vieira, há cerca de um ano que estavam a ser criadas condições para a entrada de novos talentos. E Eduíno, líder da formação, vinha assumindo maior protagonismo nos espetáculos, enquanto músicos mais jovens começavam a integrar o projeto.

A intenção, explica David Vieira, nunca foi substituir Bino Branco. “Não há substituição, há uma adaptação, para não deixar o trabalho morrer”, afirmou à Inforpress.

A frase de David Vieira, agora, ganha outro peso. O grupo que Bino ajudou a fundar terá de continuar sem uma das suas figuras centrais, levando consigo uma história construída ao longo de 30 anos. David Vieira recorda o músico como alguém que se entregava por inteiro ao que fazia. No palco e fora dele, diz, dava sempre “cem por cento”. E é também essa entrega que fica na memória de quem acompanhou os Ferro Gaita, pois Bino tinha uma forma descontraída de estar, mas, quando entrava em palco, a música tomava conta. O ferrinho marcava o compasso, a voz conduzia e o funaná fazia o resto. Agora, o grupo prepara-se para continuar. A ideia é manter vivo o trabalho construído e chegar a mais lugares, apostando em novos intérpretes.

A morte de Bino Branco acontece num momento em que a música nacional continua a ser uma das principais formas de ligação entre quem vive nas ilhas e quem está fora delas. Ao longo da carreira, o músico fez parte dessa ligação. Cantou as raízes, levou o funaná a outros públicos e ajudou a manter vivo um som que, para muitos, é imediatamente reconhecível como sendo de casa. Por isso, a sua ausência será sentida não apenas pelos Ferro Gaita, mas por todos os que cresceram com a música do grupo e que reconheciam naquela voz e naquele ferrinho uma parte das suas próprias memórias.

Bino Branco parte, mas deixa uma obra que continuará a ser tocada. Deixa também uma geração de músicos que com ele partilhou estrada e palco e que, agora, terá a responsabilidade de continuar o caminho. Cada vez que o ferrinho voltar a soar e a voz de Bino surgir numa gravação dos Ferro Gaita, haverá quem reconheça ali mais do que uma canção. Reconhecerá uma época, um grupo e um modo de levar o funaná pelo Mundo, sem deixar as raízes para trás.

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Como género musical, o funaná carateriza-se pelo andamento alegre, mas variável, de vivace a andante, pelo compasso binário e pelo elemento meramente melódico Além do feru ou ferro (barra de ferro, também chamada de ferrinho, utilizada para produzir som com o apoio duma faca de mesa), o funaná está intimamente associado ao acórdão, mais precisamente ao acórdão diatónico, conhecido, em Cabo Verde, por gaita. Este facto influencia uma série de aspetos musicais que caraterizam o funaná, como o uso, na sua forma mais tradicional, de apenas escalas diatónicas, e não escalas cromáticas.

O acordeão diatónico, instrumento musical de palheta livre, com fole como agente ativador do som, cujas palhetas metálicas vibram através do fluxo e pressão de ar, quando pressionados botões, em função e proporção do movimento de expansão e compressão pelo instrumentista.

A estrutura da composição do funaná não é muito diferente da estrutura de outros géneros musicais, em Cabo Verde. Basicamente, a música estrutura-se num conjunto de estrofes principais que se alternam com um refrão. Só que, intercalando as estrofes e os refrãos, há um solo executado na gaita. As músicas são, geralmente, monotónicas. O acompanhamento é executado com a mão esquerda na gaita, dando os baixos e os acordes. O modelo rítmico é executado no ferrinho.

Como dança, o funaná é dançado aos pares, com os executantes com um braço a enlaçar o parceiro, enquanto com o outro braço mantêm as mãos dadas. A dança efeitua-se, imprimindo rápidas e fortes flexões alternadas de cada um dos joelhos, marcando os tempos do compasso. No modo de dançar mais rural, os corpos estão meio inclinados para frente (com contacto nos ombros), e os pés levantam-se do chão. No modo de dançar mais urbano, mais estilizado, os corpos estão na vertical (com contacto na zona peitoral), e os pés arrastam-se pelo chão.

O funaná é relativamente recente. Segundo a tradição oral, surgiu quando, na tentativa de aculturação, o acordeão teria sido introduzido na ilha de Santiago, no início do século XX, para que a população aprendesse géneros musicais portugueses.

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Enfim, uma justa homenagem a um artista, a uma bela expressão artística, a um povo e a um pouco da postura de Portugal, no passado e na atualidade.

2026.09.06 – Louro de Carvalho


sexta-feira, 4 de setembro de 2026

UE tenta reforçar o alargamento, após o voto negativo da Islândia

 

A 29 de agosto, os eleitores islandeses rejeitaram, por margem estreita, reabrir as negociações de adesão com Bruxelas, suspensas desde 2013, com 52,8% contra 47,2%, infligindo significativo golpe às ambições de alargamento da União Europeia (UE), particularmente, junto dos seus vizinhos mais ricos. Altos responsáveis da UE minimizam o impacto negativo do voto islandês, e os ministros dos Assuntos Europeus dos Estados-membros da UE e dos países candidatos reuniram-se, a 4 de setembro, num encontro informal, organizado pela presidência irlandesa do Conselho da UE, em Dublin, na Irlanda, para debate do processo de alargamento, pois Bruxelas visa manter e reforçar o seu impulso dos seus esforços para países candidatos.

Questionada se o resultado do referendo islandês significava que a UE se tornou menos atrativa, a comissária para o Alargamento, Marta Kos, negou, salientando que, nos últimos oito meses, se registaram mais progressos na adesão de novos membros do que nos 25 anos anteriores. “Esta dinâmica vai prolongar-se no outono. […] Lamento a decisão dos islandeses de não regressarem ao processo de adesão. Fazem parte do mercado único. Fazem parte de Schengen. Mas a nossa União Europeia é muito mais do que apenas essas duas coisas”, afirmou.

Disse ver a tendência para reduzir a UE a uma comunidade económica, o que está longe de ser a sua essência, até porque a Europa deve estar unida, face às crescentes ameaças de segurança vindas da Rússia. E caberá aos islandeses decidir se querem aderir à UE, em data posterior, mas Marta Kos recordou que, quando a Islândia negociava a adesão, em 2010, apenas 19% apoiava a entrada na UE, contra os 47% que votaram “sim” no referendo mais recente.

“O povo islandês votou como votou. Que podemos fazer? Tomaram a decisão”, declarou o ministro de Estado para os Assuntos Europeus e a Defesa da Irlanda, Thomas Byrne, vincando que “isso não tem qualquer impacto no que estamos a fazer, hoje, e [que] os países candidatos estão a trabalhar arduamente para continuar o processo de adesão”.

Falando aos jornalistas, à margem da reunião, Byrne desvalorizou o efeito da votação na Islândia nas perspetivas dos outros países candidatos, citando os progressos do Montenegro, da Albânia, da Moldávia e da Ucrânia. Lembrou que o caso islandês é marcado pela questão da sua indústria da pesca marítima, mas que o país continuará a fazer parte do Espaço Económico Europeu (EEE). E disse que, entretanto, a UE procura manter o ritmo do alargamento. O Montenegro está em vias de se tornar o 28.º membro do bloco, até 2028, a Albânia segue de perto e a Ucrânia e a Moldávia já abriram dois clusters de adesão, neste ano.

Questionado se receava que as eleições previstas para 2027 em vários estados-membros – incluindo a França, a Itália, a Espanha e a Polónia – pudessem pôr em causa o processo, Byrne rejeitou essa ideia.

Na França, a candidata da Rassemblement National (RN), de extrema-direita, Marine Le Pen, que surge como vencedora em todos os cenários de segunda volta, segundo as sondagens, é eurocética e, historicamente, opõe-se ao alargamento da UE. “As eleições são imprevisíveis. […] Não devemos tirar grandes conclusões das sondagens neste momento”, afirmou Byrne.

Por sua vez, a Comissão Europeia trabalha, desde julho, numa proposta de reforma de uma União alargada e de melhor integração dos países candidatos, a apresentar, no final de setembro, e a discutir, na próxima cimeira de líderes da UE, em 15 e 16 de outubro.

A reunião de Dublin também debateu salvaguardas, para evitar retrocessos democráticos e no Estado de direito em novos estados-membros – ideia avançada por cinco dos membros fundadores (a Alemanha, a França, os Países Baixos, a Bélgica e o Luxemburgo), que retiram lições do mandato de Viktor Orbán, ex-primeiro-ministro húngaro. “Desde o alargamento de 2004, nem sempre podemos ter a certeza de que, uma vez integrados, os novos membros respeitarão o Estado de direito e o princípio da cooperação leal”, afirmou a comissária Kos, rejeitando que as salvaguardas criem adesão de segunda classe, pois serão temporárias.

Petar Marković, chefe da missão do Montenegro junto da UE, disse que o seu país apoia salvaguardas mais rígidas, desde que assentem em critérios objetivos para avaliar violações sistemáticas das normas democráticas e do Estado de direito.

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A 25 de agosto, a responsável pelo alargamento da UE anunciou as linhas gerais da proposta da Comissão Europeia para reformar o processo de alargamento do bloco, com planos para integração gradual, para avaliação mais rigorosa dos candidatos e para nova metodologia, numa fase que descreve como um novo “Momento de Helsínquia”. São quatro os temas em debate: reformas internas, sem alterar os tratados, mais garantias democráticas, integração gradual e amplas medidas de transição.  “O Mundo mudou. E o alargamento tem de mudar com ele”, afirmou Marta kos, na Conferência dos Embaixadores da Croácia, em Zagreb.

No seu discurso, a comissária Kos enunciou os elementos da revisão das políticas pré-alargamento – iniciativa adiada, há muito, que analisa como será a UE com mais de 30 estados-membros. A Comissão recuperou a iniciativa, antes do debate entre líderes da UE, em outubro.

Para a comissária eslovena, a UE enfrenta um novo “Momento de Helsínquia”, numa referência ao encontro de líderes europeus na capital islandesa, que abriu caminho ao “alargamento em grande escala” do pós-Guerra Fria, quando 10 novos países aderiram ao bloco. E destacou, em particular, os rápidos progressos do Montenegro, visto como o principal candidato à adesão, os avanços da Albânia, no cumprimento de critérios-chave, em matéria de Estado de direito e os significativos progressos técnicos da Ucrânia e da Moldávia, assim como tentou o voto da Islândia, para retomar o seu processo de adesão.

Para a responsável pelo alargamento da UE, uma União mais ampla precisará de reformas significativas para agir e para se adaptar, rapidamente, em tempos de crise. Assim, defende que podem ser introduzidas alterações nos processos de tomada de decisão e na arquitetura institucional, sem rever os tratados, o que exigiria negociações prolongadas e um processo de ratificação imprevisível entre os estados-membros. “Devemos aproveitar isto para tornar a tomada de decisão mais simples e flexível. Isto pode implicar a redução do número de áreas em que um único estado-membro consegue bloquear todos os outros, como pode tornar as nossas instituições mais pequenas”, sustentou a comissária Kos.

Apontou para a cooperação reforçada, mecanismo jurídico que permite a um grupo mais pequeno de países da UE avançar com uma iniciativa, quando outros não estão prontos para o fazer. O mecanismo já foi utilizado em áreas, como o Espaço Schengen e o euro.

Outro elemento sublinhado pela comissária é o reforço das salvaguardas existentes para evitar que novos membros recuem nos padrões democráticos e no respeito pelo Estado de direito. “Temos de ir um passo mais longe. Temos de garantir que não deixamos entrar cavalos de Troia. Nem hoje, nem daqui a 10 ou 20 anos. A experiência recente mostrou que podem ser necessárias salvaguardas mais fortes para prevenir – e, se necessário, corrigir – violações dos princípios e valores fundamentais da nossa União”, afirmou.

Porém, esta proposta é controversa, porque pode ir contra o princípio central da UE de que todos os estados-membros devem ser tratados de forma igual, criando potencialmente membros de segunda linha. “Estas medidas são indispensáveis, não apenas desejáveis. São cruciais para criar confiança e unidade dentro da nossa União na aceitação de novos membros”, acrescentou Kos, sugerindo que salvaguardas mais fortes poderão facilitar o processo de ratificação.

Vários países da UE, em especial, a França e a Alemanha, defendem que o bloco deve rever a sua metodologia de alargamento, sobretudo, através de “integração gradual”, oferecendo benefícios concretos aos países candidatos numa fase mais precoce. “O alargamento da UE tem de evoluir para responder às realidades de hoje”, afirmou Kos, salientando que, enquanto o processo de adesão pode demorar décadas, os adversários da UE podem explorar essa incerteza e exercer pressão política para travar o processo.

Portanto, na ótica da comissária, é preciso abandonar a lógica do “tudo ou nada”, no alargamento, e fazer uma “abordagem mais estruturada, para preencher o tempo que já não temos”, o que pressupõe a procura de “formas mais ambiciosas de integração gradual”.

A urgência em repensar a metodologia de alargamento do bloco resulta, em grande medida, do início do processo de adesão da Ucrânia, numa altura em que as capitais da UE receiam que algum tipo de estatuto de membro e garantias de segurança tenham de integrar eventual acordo de paz com a Rússia, para ancorar Kiev, de forma firme, na Europa. Aí, Kos referiu que já existem alguns benefícios antecipados (passos positivos, mas insuficientes) de que os candidatos à adesão podem usufruir, como a entrada na Área Única de Pagamentos em Euros (SEPA) e a ligação à rede energética do bloco.

E responsável pelo alargamento da UE frisou que Bruxelas tem de compreender o impacto que os novos membros terão nos estados-membros atuais e de proteger os interesses do bloco contra potenciais riscos. “Temos experiência com medidas transitórias de grande alcance para garantir que a integração dos novos membros decorre sem sobressaltos. E temos de assegurar que o orçamento da UE continua a financiar as nossas prioridades”, explicitou.

Todavia, a forma como os novos estados-membros devem ser considerados no orçamento da UE diverge entre governos europeus, complicando ainda mais as tensas negociações sobre o próximo Quadro Financeiro Plurianual (QFP).

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A proposta conjunta dos referidos cinco dos países fundadores (a Itália não aderiu), em meados de junho, recomenda que os tratados de adesão dos futuros estados-membros sejam reforçados por cláusulas de salvaguarda, de modo a reprimir violações legais e a impor sanções rápidas, como a suspensão de fundos e de direitos de voto. Segundo o documento, os novos estados-membros devem ver o seu poder de veto limitado, por um período indefinido, a fim de evitar bloqueios súbitos em decisões de elevada prioridade. A política externa é uma das áreas em que a UE exige unanimidade permanente. “O alargamento não deve fazer-se em detrimento da nossa capacidade de agir”, disse um diplomata.

A iniciativa surge, em grande medida, como resposta à experiência da UE com Viktor Orbán, ex-primeiro-ministro húngaro. Os vetos, na UE, e as reformas, no seu país, com que fragilizou os equilíbrios institucionais, deram azo a numerosos processos judiciais e à suspensão de milhares de milhões de euros em fundos europeus. No início de 2026, o veto ao empréstimo de 90 mil milhões de euros à Ucrânia suscitou acusações de deslealdade e de chantagem.

De facto, a proposta enuncia uma salvaguarda nova dedicada ao princípio da cooperação leal. “Com base nas lições retiradas das anteriores rondas de alargamento, precisamos de uma nova abordagem aos tratados de adesão. Uma simples reprodução dos tratados de adesão anteriores não será suficiente”, afirmam os cinco países em causa.

A elaboração do documento foi calendarizada para influenciar as discussões em curso, garantindo que o tratado com o Montenegro sirva de modelo para os restantes candidatos, como a Ucrânia, a Moldova, a Albânia, a Macedónia do Norte e a Sérvia. E, embora nenhum candidato seja mencionado, explicitamente, referências no texto, como períodos transitórios “reforçados” para a Política Agrícola Comum (PAC) e para a política de coesão, parecem refletir preocupações em muitas capitais, quanto ao pedido de adesão da Ucrânia.

O documento defende transições adicionais, para atenuar perturbações que a livre circulação de trabalhadores cause no mercado de trabalho, nos níveis de vida e na habitação.

Todavia, o elemento central do documento é o Estado de direito. Nos últimos anos, a UE tem enfrentado dificuldades em deter retrocessos democráticos, em vários países que aderiram ao bloco em 2004, nomeadamente, a Hungria, a Polónia e a Eslováquia.

A crise expôs a influência limitada que Bruxelas conserva, após a conclusão do processo de adesão, que é caraterizado por critérios de entrada excecionalmente exigentes. E o texto visa criar uma margem de manobra nos anos seguintes à adesão, consagrando a “cláusula de não retrocesso” como “norma vinculativa” para os novos estados-membros. Caso ocorra um retrocesso, a UE ficará habilitada a adotar “medidas de proteção”, além dos instrumentos atualmente disponíveis, nomeadamente, os processos de infração e o congelamento de fundos.

Além disso, o documento propõe a simplificação do artigo 7.º dos Tratados da UE para lidar com violações graves dos valores fundamentais. Conhecido como “opção nuclear”, prevê dois passos processuais principais: a ativação, por maioria de quatro quintos dos estados-membros, e a suspensão dos direitos de voto por unanimidade (exceto o país visado). Em casos anteriores que envolviam a Hungria e a Polónia, a exigência de unanimidade para o segundo passo revelou-se impossível. Por isso, defende-se que a suspensão dos direitos de voto seja decidida por maioria de quatro quintos, para uma reação mais rápida, se um novo membro recuar.

Para a coligação dos cinco países fundadores, a inclusão de cláusulas de salvaguarda e de períodos transitórios nos futuros tratados de adesão ajudará a tranquilizar cidadãos reticentes, em relação ao alargamento do bloco. “Temos de aproveitar esta oportunidade e desenhar as melhorias necessárias para garantir que o alargamento reforça a UE e aumenta a segurança da sua vizinhança. […] Isto será fundamental para manter e reforçar o apoio político e público ao alargamento, o que, por sua vez, é determinante para a necessária ratificação dos tratados de adesão em todos os Estados-membros”, lê-se na introdução do documento.

A proposta surge numa altura em que se intensifica o debate sobre a forma de adaptar o processo de adesão (que dura, há décadas) ao novo contexto geopolítico e de o transformar de um conceito burocrático numa perspetiva tangível, ou seja, um processo mais simples.

A Alemanha e a França propõem a integração gradual dos países candidatos, permitindo que os futuros membros beneficiem mais cedo da adesão à UE, antes de alcançarem o estatuto de membro de pleno direito. E o chanceler alemão, Friedrich Merz, propôs a criação do estatuto de “membro associado” para alargar as garantias de segurança à Ucrânia.

Os cinco membros fundadores propõem sanções rápidas para violações jurídicas, incluindo a suspensão de fundos europeus e de direitos de voto nos processos de decisão institucional. E alguns países preveem eventual extensão dos períodos transitórios, derrogações limitadas à aplicação plena do direito da UE, bem como a restrição temporária o acesso ao mercado de trabalho a trabalhadores de novos estados-membros.

Outra ideia é tornar obrigatória, para os novos estados-membros, a participação na Procuradoria Europeia (EPPO). Atualmente, só a integram 24 estados-membros, embora a Irlanda e a Hungria já tenham manifestado interesse na integração.

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Enfim, a UE tem de aproveitar a experiência adquirida, para reforçar salvaguardas e gizar processos de reforma mais simples e ágeis.

2026.09.04 – Louro de Carvalho


quinta-feira, 3 de setembro de 2026

A Igreja não pode ser passiva nem indiferente ao que acontece no Mundo

 

A Audiência Geral, a 2 de setembro, voltou à Praça São Pedro, após ter sido realizada, em quatro semanas, na Basílica Vaticana. Ante cerca de 15 mil fiéis, Leão XIV introduziu o comentário ao documento do Concílio Vaticano II sobre a relação da Igreja com o Mundo Contemporâneo, a Constituição Pastoral Gaudium et spes. O texto, que procura “responder, de modo , em cada geração, às eternas perguntas dos homens acerca do sentido da vida”, aprofunda um tema fundamental, que é a relação da Igreja com o Mundo Contemporâneo, reconhecendo “uma nova ordem de relações humanas”, como definiu São João XXIII. 

A Constituição Conciliar Gaudium et spes começa por declarar que a Igreja sente como suas “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo, dos pobres e de todos os que sofrem” (GS 1). “Essa partilha com a Humanidade é o caminho que Cristo pede à Igreja”, afirmou o Papa, explicitando: “É a partilha que nos convida a sair da passividade e da indiferença, face aos acontecimentos, à História e à vida das pessoas, sobretudo, ante a mudança rápida e profunda que hoje vivemos. Não podemos ficar como espectadores desinteressados; ao invés, é preciso escutar com o coração, deixar-se interpelar, envolver-se.”

Os fiéis são, pois, chamados a assumir as dificuldades dos irmãos, “sobretudo, dos que são oprimidos pela injustiça, pela discriminação e pela violência”. Nesse sentido, frisou o Pontífice, a proximidade com a Humanidade abre caminho a uma leitura mais profunda dos acontecimentos e da Revelação e, nessa linha, a Gaudium et spes recorda o “dever de a Igreja investigar, a todo o momento, os sinais dos tempos e interpretá-los à luz do Evangelho” (GS 4).

Portanto, esta Constituição conciliar exorta a Igreja ao compromisso permanente de conversão e a desmascarar as contradições que caraterizam o Mundo Contemporâneo. Como exemplo, o Papa citou o progresso científico e tecnológico que oferece sempre novas possibilidades, mas apenas a alguns; ou a maior disponibilidade de riquezas desproporcionadamente distribuídas; ou ainda, diante de ações que ameaçam o futuro do planeta, a incapacidade de renunciar ao consumo egoísta e à ilusão de que a guerra é um caminho eficaz para construir a paz.

Assim, concluiu Leão XIV, numa época de profundas mudanças, “das quais decorrem desequilíbrios preocupantes, a Igreja é chamada a servir o ser humano, escutando e acolhendo as questões mais profundas do seu coração e os anseios que nele habitam, indicando em Cristo a chave, o centro e o fim de toda a história humana” (GS 10). E exortou a que a alegria e a esperança – gaudium et spes – sejam as caraterísticas distintivas da Igreja que anuncia e testemunha o Evangelho, aproximando-se das mulheres e dos homens do nosso tempo”.

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É neste sentido que se deve entender a publicação do documento “Cuidar da nossa Casa comum” pela Comissão Teológica Internacional (CTI), que insta à “resposta responsável e fraterna ao Deus trinitário” e que é uma questão de vida ou da sua negação, para a Humanidade. De facto, a questão ecológica é uma questão teológica, pois a forma como cuidamos da Criação revela e molda a relação com Deus. Ora, se a deterioração do meio ambiente é alarmante, é necessária uma ação urgente, em prol da sustentabilidade do planeta. Tudo está interligado: ouvir o clamor da Terra e dos pobres

Como responder, de uma perspetiva cristã, à “crise ecológica e social”, “míope e suicida”, na qual se encontra a Humanidade? Esta é a questão que está na base do novo documento da Comissão CTI, intitulado “Cuidar de nossa Casa comum – Resposta responsável e fraterna ao Deus trinitário” e publicado a 2 de setembro, sob autorização de Leão XIV. O texto é fruto de reflexões realizadas entre 2022 e 2025. O ponto de partida é a “tripla mutação” que levou, ao longo dos anos, à perda da perceção espontânea da Natureza como criação de Deus; ao surgimento de uma visão cada vez mais antropocêntrica e predatória, na relação entre o homem e a Criação; e à propagação de uma crise planetária.

No primeiro capítulo do documento – “A Casa Comum, obra do Deus trinitário” –, destaca-se “a marca não apenas divina, mas também trinitária” presente na Criação. Essa marca apresenta os traços da sacramentalidade, ou seja, é sinal de “uma realidade sagrada e oculta”, que tem a “máxima elevação” na Eucaristia e da inter-relação, pois o ser humano responde à sua vocação, desenvolvendo, corretamente, as relações com Deus, com os outros e com a Criação. “Nada nem ninguém é uma mónada – lê-se no documento – Tudo está interrelacionado” para formar “uma única comunidade de vida.” Ademais, esse capítulo desenvolve o diálogo com algumas visões científicas e filosóficas do cosmos, ilustrando como a fé no Deus criador oferece algo que a ciência não consegue proporcionar, embora indague, “legitimamente”, as primeiras fases do universo. Na verdade, se a cosmologia reflete sobre como surgiu, o Mundo a fé explica o porquê: Deus dá ao universo uma origem metafísica, não simplesmente física, e chama, livremente, à existência aquilo que, por si só, não existiria.

O segundo capítulo – “O ser humano na Casa comum” – começa com uma reflexão sobre o homem criado à “imagem e semelhança de Deus”, o que serve de ponto de partida para reafirmar que as diferenças de etnia, de género, de cultura, de status social ou económico não implicam, de forma alguma, uma hierarquia. Utilizá-las para discriminar ou para subjugar o outro afasta-se do desígnio de Deus. E a CTI resume alguns dados “muito alarmantes sobre a deterioração ecológica”: o desaparecimento da diversidade biológica; a poluição atmosférica; a piora da qualidade da água; a guerra que acelera, “brutalmente”, a destruição do meio ambiente; as repercussões “extremamente graves” de tudo isso sobre os mais pobres, explorados nos seus recursos naturais e forçados à migração. Daí o forte apelo: ante uma crise ecológica “sem precedentes”, são necessárias soluções científicas e técnicas, mas, sobretudo, “uma mudança nos valores culturais”, uma verdadeira conversão ecológica no modo de vida.

O documento propõe, ainda, falar de “pecado contra a Criação e contra o Criador”, uma formulação teológica que une o dano ambiental à rejeição do desígnio divino da criação, evitando tanto a linguagem puramente científica (como “ecocídio”) como a dispersão da responsabilidade. O momento histórico atual “exige de todos, a começar pelos responsáveis pela vida pública, uma ação urgente em favor da sustentabilidade do planeta e da habitabilidade da Casa Comum. Não se trata só de uma exigência ética, mas também teológica”.

O olhar da fé leva a rejeitar “dois extremos inaceitáveis”: o antropocentrismo predatório, que julga a Humanidade “dona absoluta de toda a criação”, e o biocentrismo ou ecocentrismo, que absolutiza a Natureza. E a proposta cristã é a de um “antropocentrismo situado” (expressão do Papa Francisco retomada por Leão XIV), que põe o ser humano como “administrador e servidor da Criação”. Essa dupla vocação encontra o seu ápice na Eucaristia, “escola ecológica”, graças à qual se promove “uma atitude positiva e proativa em relação à Natureza”.

O terceiro capítulo – “O cuidado da Casa comum” – oferece diretrizes operacionais, articuladas em torno de cinco relações fundamentais da pessoa. Da relação com Deus deriva a “lógica jubilar”: baseada na fraternidade, na solidariedade, na gratuidade e na humildade, ela conduz à justiça social. Da relação consigo mesmo brota “uma espiritualidade ecológica” que convida a um estilo de vida saudável, atento ao consumo (“cada ato de compra é um ato moral”) responsável.

Da relação com a Criação decorrem princípios como a reverência; a sustentabilidade; a escuta do “clamor comovente” da Terra, “tragicamente ligado ao clamor dos pobres”; o respeito pela vida (que permite ao homem utilizar os recursos naturais, mas com moderação e de acordo com as necessidades); a ascese e o jejum (resposta moral à superexploração dos recursos, especialmente, nos países ricos); e o compromisso diferenciado, de acordo com as responsabilidades das diversas nações.

Da relação com o próximo emergem a sacralidade da vida humana (direito incondicional e inalienável que os Estados devem proteger e promover, inclusive, pela rejeição da guerra); a destinação universal dos bens (a Casa comum deve ser cuidada também para as gerações futuras); a fraternidade (antídoto contra um individualismo “falso, egoísta, atroz e ávido”); a misericórdia; e a opção preferencial pelos pobres.

Como quinta e última relação, a CTI reflete sobre a oferecida contribuição das diversas religiões para o cuidado da Criação. Destacam-se, em particular, os elementos mais comuns: a interconexão entre tudo o que existe; o dever de respeitar todos os seres vivos; a responsabilidade do homem. Portanto, “do ponto de vista da fé cristã, as portas estão abertas para uma colaboração inter-religiosa na tarefa comum de cuidar, respeitosamente, de toda a Criação”.

Na conclusão do documento, a CTI reafirma que a questão ecológica é uma questão teológica: a maneira como nós cuidamos da Criação molda a relação com o próprio Deus. O texto convida a uma “viragem ecológica”, seguindo o exemplo de São Francisco de Assis, e encerra-se com uma nota de esperança: a crise ambiental, por mais grave que seja, não abala a confiança em Deus, que faz “novas todas as coisas”.

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Na Casina Pio IV, no Vaticano, o Centro Internacional de Estudos da Consciência (ICCS) promoveu, de 1 a 2 de setembro, o debate internacional sobre companheiros da inteligência artificial (IA), solidão, criatividade e consciência. Uma a cada seis pessoas no mundo sente solidão, enquanto na Itália, o uso da IA nas empresas dobrou, num ano. A questão não é o que as máquinas serão capazes de fazer, mas qual papel ocuparão nas nossas vidas.

Podemos apaixonar-nos por uma IA, sabendo que ela não é uma pessoa? Um companheiro da IA pode ser um antídoto para a solidão, ou corre o risco de substituir, gradualmente, as relações humanas? E se uma máquina é capaz de criar, lembrar o que lhe dizemos e aprender sobre nós, onde fica a linha divisória entre a IA a mente humana? Estas questões são cada vez menos teóricas. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), aproximadamente, uma em cada seis pessoas, no Mundo, sofre de solidão e, entre os adolescentes, o número chega a cerca de 21%. Ao mesmo tempo, a presença da IA ​​na economia cresce: de acordo com o ISTAT (Instituto Italiano de Estatística), 16,4% das empresas italianas com pelo menos 10 funcionários utilizou, em 2025, tecnologias de IA, o dobro dos 8,2% registados em 2024.

Neste contexto, filósofos, cientistas cognitivos, pesquisadores e especialistas em IA de diversos países debateram uma das fronteiras mais controversas abertas pela IA: a entrada das máquinas em territórios que sempre consideramos profundamente humanos, desde as relações à criatividade, da identidade à consciência.

O evento faz parte de “Criatividade: mentes e máquinas”, a terceira conferência internacional do ICCS, fundado por Dmitry Volkov, Pietro Perconti e Alessio Plebe para promover debates internacionais e interdisciplinares sobre as grandes questões que envolvem a mente e a consciência. Assim, a conferência tentou explorar como a evolução da IA ​​está a redefinir a relação entre humanos e máquinas.

Uma das áreas mais controversas é a dos companheiros da IA: sistemas projetados não só para responder a perguntas, mas para desenvolver interações contínuas com as pessoas. Lembram-se de conversas e de preferências, adaptam as respostas e podem construir uma relação cada vez mais personalizada, ao longo do tempo. Nesse contexto, Dmitry Volkov, filósofo, empreendedor de tecnologia e cofundador do ICCS, levanta uma das questões mais radicais: Pode existir uma IA digna de amor humano? Não se trata de imaginar a máquina que engane uma pessoa, fingindo ser humana, mas se, mesmo sabendo que está a lidar com uma máquina, um ser humano pode desenvolver um vínculo afetivo autêntico e significativo com ela. Este tema cruza-se com o da solidão. Se um sistema artificial consegue ouvir, lembrar e acompanhar uma pessoa. ao longo do tempo, pode ajudar a combater o isolamento? Ou corre o risco de tornar mais fácil abrir mão da complexidade das relações reais?

O que torna a relação com as máquinas ainda mais delicada é a bajulação, a tendência dos sistemas de IA de agradarem ao interlocutor e de produzirem respostas próximas do que acham que ele quer ouvir. No caso dos companheiros de IA, uma máquina que está sempre disponível e complacente pode tornar-se uma “câmara de eco algorítmica”, reforçando convicções e fraquezas em vez de as desafiar. Daí um paradoxo: para se assemelhar a uma relação autêntica, talvez a IA também tenha que aprender a dizer não.

Se uma máquina cria, quem é o autor? Outra grande fronteira da discussão é a criatividade artificial. Texto, imagens, música e vídeo, agora, podem ser gerados em segundos. Mas produzir algo novo significa ser criativo? E, quando uma obra surge da colaboração entre a pessoa e um sistema generativo, quem é o autor? A mudança é visível nos números: nos setores de produção de cinema, vídeo e televisão, e de gravação de música e som, segundo o ISTAT, a IA é utilizada por 49,5% das empresas (quase metade)

Em Roma, o debate explora a criatividade sintética, a sabedoria artificial, a capacidade de agir, a identidade pessoal e a consciência, reunindo filosofia, neurociência, ciência cognitiva e IA. Isto, porque o crescimento da IA ​​está a gerar um paradoxo: quanto mais as máquinas adquirem capacidades que, antes, considerávamos exclusivamente humanas, mais somos forçados a questionar-nos, não apenas sobre “o que a máquina pode fazer”, mas sobre o que significa criar e compreender; o que torna uma relação autêntica e o que significa ser consciente.

Nicholas Humphrey, psicólogo teórico britânico, entre os estudiosos internacionais de consciência mais críveis, recebeu o Prémio Dennett e fez a palestra “Consciência e a Alma: a realidade de uma ilusão”. E, aqui, surge, talvez, a questão mais radical. Elaborar informação, falar como ser humano ou produzir obras criativas não significa, necessariamente, ter experiência subjetiva do Mundo. Porém, se, no futuro, a máquina puder criar, lembrar-se do seu passado, construir uma identidade, discordar e estabelecer relações duradouras, ainda poderemos considerá-la apenas um instrumento? De facto, à medida que as máquinas se tornam cada vez mais capazes de imitar o que fazemos, há que redefinir o que significa ser humano.

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A terminar, é de vincar que a intenção de oração do Papa para setembro é reconhecer a água como dom de Deus e um direito “sem fronteiras”, quando 2,1 mil milhões de pessoas não têm acesso seguro à água potável – mas acesso intermitente, insuficiente, demasiado dispendioso ou a grande distância – e 106 milhões dependem de rios, de lagos ou de outras águas superficiais sem tratamento; 3,4 mil milhões de pessoas não dispõem de saneamento gerido de forma segura, 1,7 mil milhões de pessoas carece de serviços básicos de higiene, em casa; e 611 milhões não têm nenhuma instalação para lavar as mãos; e um milhão e 400 mil mortes, por ano, estão associadas à água insegura e à falta de saneamento.

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À luz do Evangelho e da Gaudium et spes, a Igreja (e cristãos) deve estar no grito do pobre (água, terra, teto e trabalho), no grito da Terra (esfacelada) e nas perplexidades humanas, como face à IA e ao seu uso para a guerra e noutras formas de desumanização. Uso, mas não abuso!

2026.09.03 – Louro de Carvalho


El Niño atingirá o pico no fim de dezembro, mas será intenso até fevereiro

 

A Organização Meteorológica Mundial (OMM), agência climática da Organização das Nações Unidas (ONU), a 3 de setembro, advertiu que El Niño deverá tornar-se “muito forte”, nos próximos meses, devendo atingir o pico perto do final deste ano, mas, como o calor acumulado nos oceanos passa mais lentamente para a atmosfera, elevará as temperaturas globais, em 2027, pelo menos, até fevereiro.

“El Niño está firmemente instalado e irá intensificar‑se até se tornar um evento muito forte nos próximos meses, com grandes impactos nos padrões de precipitação e de temperatura e riscos associados de cheias, seca e calor extremo”, indicou a OMM.

El Niño, que aquece as temperaturas da superfície no Pacífico equatorial central e oriental, provocando alterações globais nos padrões de vento, de pressão atmosférica e de precipitação, ocorre, em média, a cada dois a sete anos e costuma durar entre nove e 12 meses. Tende a atingir o auge no final do ano, mas o calor acumulado nos oceanos é libertado mais lentamente para a atmosfera, fazendo subir as temperaturas globais no ano seguinte. As condições oscilam entre El Niño e La Niña (fenómeno climático natural caraterizado pelo arrefecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico central e oriental), intercaladas por fases neutras.

El Niño é, pois, um fenómeno climático natural e não é provocado pelas alterações climáticas. Não obstante, os cientistas esperam que agrave o aquecimento de um planeta já mais quente, devido à queima de combustíveis de origem fóssil, intensificando, ao mesmo tempo, os fenómenos meteorológicos extremos.

Por seu turno, o secretário‑geral da ONU, António Guterres, sustenta que o fenómeno está a ser levado a escala gigantesca ante os nossos olhos. “A ciência não deixa margem para dúvidas: o planeta entrou em águas desconhecidas e essas águas estão a aquecer. As temperaturas da superfície do mar estão a subir, as temperaturas continuam a aumentar e o Mundo encontra‑se na zona de perigo do clima extremo”, discorreu, frisando que a corrida é entre o aumento do risco e o compromisso de agir pelo clima e pelas pessoas, tendo nós de vencer a corrida.

A diretora da OMM, Celeste Saulo, lembrando que o ano mais quente de que há registo é 2024, na sequência do último episódio de El Niño, alerta que “este El Niño excecional tem potencial para desferir um golpe massivo nas comunidades e nas economias, em todo o Mundo”, de tal modo que “estamos a assistir a perturbações e [a] destruição causadas por secas e [por] cheias e esperamos que estes impactos aumentem, à medida que o El Niño se intensifica”. Por isso, deixa aviso às autoridades de gestão de catástrofes e aos setores sensíveis ao clima, como a agricultura, a saúde, a energia e a água, vincando que “não há tempo a perder” na preparação. Com efeito, segundo a OMM, “impulsionado por condições oceânicas excecionalmente quentes, em todo o Pacífico tropical, El Niño deverá fortalecer‑se, ainda mais, nos próximos meses até uma intensidade muito forte”.

A agência da ONU em referência classifica os episódios de El Niño como fracos, moderados, fortes ou muito fortes, o que significa que o atual deverá atingir o nível mais elevado dos quatro níveis, havendo mesmo “probabilidade excecionalmente elevada, de quase 100%”, de El Niño continuar até fevereiro.

El Niño pode alterar padrões de tempo e de clima a milhares de quilómetros de distância do Pacífico tropical. Cada episódio é diferente, mas os grandes eventos tendem a seguir padrões conhecidos. Entre eles, contam‑se secas, em partes da Amazónia, da Indonésia e da Austrália, monções perturbadas, na Índia, e alterações da pluviosidade, em várias regiões tropicais. E, para o período de setembro a novembro, as previsões sugerem maior probabilidade de temperaturas acima do normal, em quase todas as áreas terrestres, acompanhadas de padrões de precipitação que revelam “resposta atmosférica marcada e clássica ao forte El Niño no Pacífico”.

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Um novo estudo publicado, a 27 de agosto, na revista “Science” – que recua cerca de 900 anos, na análise dos episódios de El Niño –, indica que este fenómeno natural de caos climático que surge, periodicamente, faz disparar as temperaturas globais e torna-se mais intenso, devido às alterações climáticas provocadas pelo homem, sendo os episódios de El Niño, hoje, mais de 36% mais fortes do que antes do início da era industrial, em meados do século XIX, com o salto de 16%, só nos últimos 40 anos, o que mostra que o aumento acelera.

As conclusões surgem numa altura em que forte episódio de El Niño, formado há alguns meses, deverá tornar-se o mais intenso de que há registo, nos próximos meses. Os fenómenos de El Niño, isto é, aquecimentos temporários de partes do Pacífico equatorial, alteram o estado do tempo, em todo o Mundo, e aumentam os eventos extremos, incluindo ondas de calor, cheias, em algumas regiões, e secas, noutras. Podem causar prejuízos de biliões de dólares.

“Isso é importante, porque episódios fortes de El Niño têm impactos muito mais marcados em riscos climáticos e extremos, em todo o Mundo”, afirma Julia Cole, autora principal do estudo, especialista em Paleoclima, na Universidade de Michigan, nos Estados Unidos da América (EUA), explicando: “Quando tentámos responder à questão de porque é que isto pode estar a acontecer, cruzámos os dados com o registo da temperatura global e verificámos que o aumento da intensidade dos episódios de El Niño acompanha, de perto, a subida da temperatura global, causada por fatores humanos, como a queima de combustíveis fósseis.”

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“El Niño é o aspeto mais violento da variabilidade climática, a nível mundial, com efeitos que vão desde o colapso de pescarias locais a mortandades generalizadas de coral, a secas severas e a falta de alimentos, em todo o Mundo”, afirma Boris Worm, especialista em ciências marinhas, da Universidade de Dalhousie, que não participou no estudo.

Worm cita o cientista do clima Wallace Broecker, que alertou: “O sistema climático é uma besta furiosa e estamos a espetar-lhe paus. […] As emissões humanas são o pau e El Niño é um dos surtos ‘furiosos’ que podem ser tão ameaçadores para a nossa segurança coletiva.”

A força de um episódio de El Niño é determinada medindo a temperatura da água, numa região do Pacífico central, em torno do equador, e comparando uma média de três meses com o normal. Se estiver graus Celsius (0,5º C) acima do valor habitual, considera-se um episódio de El Niño. O topo da escala é 2º C e é classificado como “muito forte”. E o valor semanal mais recente de El Niño é de 2,7º e continuará a subir, durante mais dois a quatro meses, segundo o sistema de monitorização de El Niño da Universidade de Columbia.

Os cientistas teorizam que, à medida que o planeta aquece, os episódios de El Niño se tornam mais fortes, porque se baseiam em diferenças de temperatura do oceano, face à média. Porém, como os registos observacionais só recuam cerca de 75 anos, os cientistas têm afirmado que os dados são demasiado escassos para se definir uma tendência. Assim, os investigadores têm procurado pistas que indiquem a presença de um episódio de El Niño, sem medirem, diretamente, a temperatura da água. Por exemplo, analisaram registos históricos de alterações do estado do tempo, em todo o Mundo, e identificaram episódios passados de El Niño – como o superepisódio de 1877 – através das mudanças que provocam, à escala global.

Cole fez uma abordagem inovadora, analisando o que sucedeu ao coral, ao longo dos séculos, funcionando como “uma máquina do tempo para olhar para o passado”, e verificou que as medições da proporção de cálcio e de estrôncio nos esqueletos de coral e dos diferentes isótopos de oxigénio produzem duas leituras independentes da água do mar em que o coral se formou. E a medição baseada em urânio e tório indica quando se formaram tais esqueletos.

Cole analisou 29 fósseis de coral das ilhas Gálapos – 14 anteriores à era industrial, 14 posteriores ao início da era moderna e mais um datado da fase em que a era industrial estava a começar. O mais antigo remonta, aproximadamente, ao ano 1100. E as temperaturas que obteve, a partir dos fósseis, ao longo de mais de 900 anos, são irregulares, com falhas, mas, quando representadas em gráfico, parecem-se com um taco de hóquei – a mesma descrição usada num estudo marcante dos anos 1990, sobre as temperaturas globais do passado.

Cole e outros cientistas afirmam que a situação só deverá piorar. “Levanta o espectro de um futuro em que episódios maiores de El Niño e de La Niña aceleram o ritmo e a gravidade dos extremos meteorológicos e climáticos”, afirma Kim Cobb, especialista em coral e clima na Universidade Brown, que não participou no estudo.

Especialistas externos dividem-se, quanto à investigação: uns consideram-na importante e fiável; outros não a aceitam, por entrar em choque com algumas observações recentes.

Para Cobb, “os corais são o padrão de ouro da reconstrução de episódios de El Niño” e “este estudo traz uma mina de ouro de novos dados”. Assim, na sua perspetiva, podemos esperar muitas décadas, até que o registo instrumental seja suficientemente longo, para detetar “mudança nas propriedades do El Niño”, ou “usar séculos de reconstruções de El Niño fornecidas pelos registos paleoclimáticos”. Ora, os dados paleoclimáticos disponíveis, apontam, consistentemente, no conjunto, para a intensificação dos episódios de El Niño com o aquecimento global.

Ao invés, o cientista do clima Michael Mann, da Universidade da Pensilvânia – autor do gráfico em “taco de hóquei” das temperaturas –, e o especialista em ciências marinhas John Bruno, da Universidade da Carolina do Norte, dizem que os dados de coral conflituam com observações recentes da temperatura da água nas Galápagos. Mann diz que os registos mostram “diminuição substancial, nas últimas décadas”, das variações associadas ao El Niño perto das Galápagos, no período em que os gases com efeito de estufa (GEE) mais fizeram subir as temperaturas. E Bruno considera que aquilo que está a ser refletido pelo coral não é tanto uma alteração do El Niño, mas o aquecimento causado pelos GEE.

Porém, segundo Cole, o enorme episódio de El Niño de 1997-1998, seguido de pequenos episódios até 2023-24, criou uma situação em que parece que El Niños não ganham força, porque as medições se baseiam em períodos de 20 anos e houve vários anos, entre superepisódios de El Niño, que distorceram os dados. Ora, a intensidade do El Niño varia muito e essa natureza irregular não desaparece só por o fenómeno responder a condições mais quentes.

Contudo, todos os cientistas concordam que as alterações climáticas são um problema, agravem-se ou não os episódios de El Niño. “É importante sublinhar isto como mais um motivo para deixarmos de depender de combustíveis fósseis”, afirma Cole, vincando que “não há uma solução milagrosa que vá abrandar os episódios de El Niño”.

O índice que mede as anomalias de temperatura da superfície do mar, no Pacífico equatorial centro‑oriental, intensificou‑se, a partir de uma média de 1,5º C acima do normal, entre maio e julho. Entre o final de julho e meados de agosto, os valores semanais variaram entre cerca de 2,2º C e 2,6º C acima da média, sinal de que o El Niño continua a intensificar‑se. E, em algumas zonas, as temperaturas subsuperficiais do oceano estiveram mais de 8º C acima da média, durante julho e o início de agosto.

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De acordo com os dados sobre alterações climáticas da União Europeia (UE), com El Niño em reforço, os oceanos do planeta atingiram a temperatura média diária mais alta de que há registo, com a temperatura global da superfície do mar a chegar aos 21,1 °C, em 22 de agosto – um novo máximo tanto mais significativo por ocorrer nesta altura do ano.

O valor, registado pelo Serviço de Alterações Climáticas Copernicus da UE, ultrapassou, por margem mínima o anterior recorde diário de 21,09 °C, de março de 2024.

Segundo o Copernicus, as temperaturas do oceano costumam atingir o pico global, em março e em abril, após o verão no Hemisfério Sul. O facto de este novo recorde ter sido alcançado em agosto, quando as temperaturas deveriam estar a descer, mostra o calor persistente que se espalha pelos oceanos do Mundo. Este novo valor também supera o anterior recorde de agosto, de 20,98 °C, registado em 2023. E, embora os banhistas apreciem oceanos mais quentes, as consequências são graves e de grande alcance para as pessoas e para os animais.

Este recorde surge num contexto de desenvolvimento de forte fenómeno El Niño. no Pacífico tropical, que acrescenta mais calor a um oceano já significativamente aquecido, ao longo de décadas pelas alterações climáticas provocadas pelo ser humano. A OMM prevê que El Niño se intensifique nos próximos meses, tornando-se um evento forte. E as previsões sazonais do Copernicus sugerem que poderá atingir níveis que não se observam, há décadas.

Porém, os cientistas alertam que não se deve olhar para El Niño como a única explicação deste recorde. “Este recorde é mais um sinal claro de um oceano sob pressão crescente. […] El Niño está a acrescentar calor ao sistema, mas fá-lo sobre décadas de aquecimento provocado pelo ser humano”, afirma Samantha Burgess, responsável estratégica para o clima, no Centro Europeu de Previsão do Tempo a Médio Prazo.

“Das águas atlânticas ao largo da Irlanda até ao mar Mediterrâneo, os mares europeus estão a registar um aumento preocupante das temperaturas […] A nossa investigação mostra, claramente, que isto é impulsionado pelas alterações climáticas, em particular, pela continuação da queima de combustíveis fósseis”, afirmou Thomas Frolicher, físico ambiental da Universidade de Berna, na Suíça, num estudo publicado na segunda quinzena de agosto.

As consequências de oceanos mais quentes vão dos ecossistemas marinhos às comunidades costeiras. Temperaturas mais elevadas do mar aumentam a probabilidade e a intensidade de ondas de calor marinhas, que podem danificar recifes de coral e pradarias de ervas marinhas e perturbar as redes alimentares marinhas. E também as pescas e a aquacultura podem ser afetadas, à medida que as espécies marinhas se deslocam, devido às condições em mudança.

Segundo o Copernicus, o oceano global já registou forte aumento das ondas de calor marinhas, com o número de dias de onda de calor marinha a mais do que triplicar, desde o início da década de 1990. E mares mais quentes contribuem para a subida do nível do mar, porque a água se expande, ao aquecer, e podem transferir mais calor e humidade para a atmosfera, o que pode aumentar a intensidade de alguns episódios de chuva e de sistemas de tempestade.

Outra preocupação é o oceano absorver grande parte do dióxido de carbono (CO2) emitido pelas atividades humanas e a água mais quente ser menos eficiente a captar CO2, podendo o aquecimento contínuo enfraquecer um dos principais sumidouros de carbono do planeta, na luta contra as alterações climáticas.

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Os cientistas acompanham a evolução do aquecimento das águas e dos efeitos de El Niño, para perceber se este último recorde será um pico temporário ou se integrará um período mais persistente de calor extremo nos oceanos. Já os decisores políticos, apesar de toda a propaganda, parecem não atar nem desatar. Ou as suas decisões surtem pouco efeito.

2026.09.03 – Louro de Carvalho