sábado, 30 de maio de 2026

WUF13: poderoso apelo à ação sobre a crise imobiliária global

 

A 13.ª sessão do Fórum Urbano Mundial (WUF13), que decorreu em Baku, no Azerbaijão, de 17 a 24 de maio, terminou com superlativos – e com um respingo – que ressaltou como o WUF cresceu ao longo de quase um quarto de século, de raízes humildes a um encontro que galvanizou um movimento global. E contou com uma participação recorde, sendo de destacar o empenho, sem precedentes, das partes interessadas. Com efeito, estiveram presentes mais de duas dúzias de líderes mundiais, entre 130 representantes de diversos países. Foi criado um prémio novo e foi proporcionado um mergulho no mar.

Os participantes continuaram a entrar no Estádio Olímpico de Baku, no dia do encerramento, elevando a participação total para mais de 57 mil participantes (incluindo, pelo menos, três mil online) de 176 países. Os números fazem do WUF13 o maior de sempre, na História de 24 anos do evento, superando até os números na conferência Habitat III, uma vez, por cada geração, em Quito, no Equador, em 2016. O Fórum deste ano também alcançou a paridade de género, com mais de 55% dos participantes identificados como mulheres e meninas.

“Nós reunimo-nos num momento em que a crise imobiliária global atingiu uma escala sem precedentes, afetando mil milhões de pessoas, através de pressões de acessibilidade, de deslocação, de informalidade, de vulnerabilidade climática e de condições de declínio de danos”, disse Anacláudia Rossbach, diretora-executiva da ONU-Habitat – agência da Organização das Nações Unidas (ONU) dedicada a promover o desenvolvimento urbano sustentável e o direito à habitação adequada –, que enfatizou: “As discussões, aqui, em Baku, reforçaram a mensagem clara: a habitação deve ser colocada no centro da política urbana integrada, ligando terra, infraestrutura, ação climática, finanças e governança.”

Paralelamente, o Azerbaijão declarou 2026 o “Ano de Planeamento e Arquitetura Urbana”. E, à medida que o WUF13 se aproximava do fim, tornava-se patente que o seu legado continuará vivo. O Prémio Baku Urban será o único prémio internacional oficialmente entregue dentro do quadro estrutural do Fórum Urbano Mundial. Homenageará iniciativas que promovam e concretizem soluções urbanas avançadas nos domínios do desenvolvimento urbano sustentável e da habitação adequada. Como o Fórum, pretende servir como um mecanismo internacional que apoie o avanço, a longo prazo, da agenda urbana global.

O arquiteto vencedor do Prémio Pritzker, Sir Richard Foster, que servirá no júri inaugural, declarou: “Resolver problemas globais, como mudanças climáticas e desigualdade depende diretamente das políticas implementadas dentro das cidades.”

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A este respeito, uma peça jornalística de Nadira Tudor, intitulada “A cruzada de Richard Gere e da esposa pelo direito à habitação”, publicada pela Euronews, a 30 de maio, dá conta de uma entrevista de Richard Gere a esta rede de estações televisivas de informação pan-europeia, vincando que o WUF13 não se centrou nas passadeiras vermelhas e nas estreias de filmes, mas na projeção de um documentário sobre os sem-abrigo, em que foi o protagonista Latyr Thioye (cidadão senegalês, ex-funcionário da Comissão Europeia, que superou quatro anos de sem-abrigo), antigo utilizador da HOGAR SÍ, programa criado pelo ícone de Hollywood, Richard Gere, e pela sua esposa, a filantropa Alejandra.

O casal está envolvido, há mais de 10 anos, na campanha para erradicar os sem-abrigo, na Espanha e noutros países, através da organização não governamental (ONG) “HOGAR SÍ”. E Richard Gere, falando com a Euronews à margem do Fórum Urbano Mundial, em Baku, no Azerbaijão, explicou porque é tão apaixonado por defender a ONU-Habitat e o seu envolvimento com o HOGAR SÍ. “A minha motivação para trabalhar com o HOGAR SÍ deriva de uma convicção pessoal: os sem-abrigo não são inevitáveis – são uma injustiça social que pode ser resolvida através de uma mudança profunda na compreensão e na abordagem”, declarou.

Os dois puderam acompanhar o desenvolvimento e o progresso da ONG e, em 2024, juntaram-se ao seu conselho de administração. E Richard Gere revelou que tomou conhecimento da organização, através da sua mulher, e observou que a HOGAR SÍ é “rigorosa e altamente empenhada, centrada no respeito pelos direitos humanos e pela dignidade, e orientada por soluções baseadas em provas”, mas que, ao mesmo tempo, aplica a metodologia “Housing First” (Habitação em primeiro lugar).

O entrevistado acredita, firmemente, que a habitação é a porta de entrada para todos os outros direitos. Sem casa segura, não há saúde, nem educação, nem emprego estável. E, como enfatiza, “quando essa porta se fecha, o ciclo de exclusão torna-se quase impossível de quebrar”. Por isso, o casal está determinado a chamar a atenção internacional para, na sua ótica, um dos principais desafios humanitários que as cidades modernas enfrentam: os sem-abrigo.

No WUF, 10 minutos do documentário de uma hora foram apresentados pela UN-Habitat, sob o tema “Habitar o Mundo: cidades e comunidades seguras e resilientes”.

O envolvimento com a ONU começou de forma bastante natural, porquanto Richard Gere já trabalhava em questões atinentes aos direitos humanos, à dignidade e ao desenvolvimento social, tendo percebido que a ONU “é um fórum fundamental para levar certas questões ao palco global e para influenciar as políticas públicas”, fazendo a diferença.

A estrela de Hollywood relevou que, desde o início, se sentiu alinhada com a abordagem multilateral da ONU e com a ideia de que grandes desafios, como a falta de habitação ou a desigualdade urbana, só podem ser enfrentados pela cooperação internacional e pela vontade política de mudar as coisas. Falou dos projetos da ONU em que trabalhou, que se destacam e que tiveram impacto real, e disse que as áreas atinentes à habitação, à coesão social e aos refugiados têm sido iniciativas de longo prazo centradas em dar maior visibilidade às comunidades marginalizadas. “Gostaria de destacar as iniciativas ligadas à UN-Habitat e à Agenda 2030, em que o enfoque nas cidades inclusivas permitiu a partilha de melhores práticas e demonstrou que é possível acabar com a situação de sem-abrigo, quando o acesso à habitação é priorizado como ponto de partida, e não como recompensa final”, sublinhou.

Richard Gere partilhou a sua opinião sobre Baku, a cidade anfitriã do WUF13, e sobre quão essencial é uma plataforma, como o WUF, para repensar o futuro das nossas cidades numa fase crítica. “A sua realização em Baku é uma oportunidade altamente significativa. As cidades são palco tanto dos maiores desafios sociais como das soluções mais inovadoras, e este fórum reúne vozes políticas, sociais e técnicas, em torno de um objetivo comum: criar ambientes urbanos mais justos, sustentáveis e inclusivos”, explicitou, sustentando que “é essencial que a situação dos sem-abrigo faça parte desta conversa, porque não pode haver cidades de sucesso, enquanto houver pessoas a viver nas ruas”.

Quanto ao significado da realização do WUF13 no Azerbaijão, considera que se trata de “um passo importante para uma perspetiva verdadeiramente global e diversificada dos desafios urbanos”, pois cada contexto traz realidades diferentes e lições valiosas, sendo a descentralização destes espaços de debate “fundamental para evitar perspetivas unilaterais”. Ao mesmo tempo, na sua ótica, a realização do fórum em Baku envia a mensagem clara de que “os direitos humanos, a habitação e a inclusão social não são uma questão regional, mas uma responsabilidade partilhada por toda a comunidade internacional”.

O seu envolvimento vem da Fundação Gere e da HOGAR SÍ, organização espanhola que trabalha para acabar com o problema dos sem-abrigo, através de soluções de habitação a longo prazo e de iniciativas sociais. E, como aponta a jornalista, isso tem desempenhado papel importante na sua vida, paralelamente à sua carreira de ator, que culminou em décadas de advocacia ligada aos direitos humanos, às comunidades vulneráveis e aos refugiados.

Também as suas experiências pessoais o levaram a comprometer-se com os sem-abrigo, pois, como recorda, há alguns anos, durante as filmagens do seu filme “Time Out of Mind”, fez o papel de um sem-abrigo. “Andei pelas ruas de Nova Iorque, sem que ninguém me reconhecesse. E senti algo que nunca tinha experimentado: indiferença, invisibilidade, isolamento. Essa experiência teve um efeito profundo em mim”, confessou, explicitando: “Ao longo dos anos, tive muitas conversas com pessoas que vivem nas ruas, até mesmo com alguém com quem trabalhei num filme, há alguns anos. Ao ouvir histórias de vidas marcadas pela perda, [pela] solidão, [pelo] desespero e [pela] doença, apercebi-me de que, se não tivermos uma rede de apoio forte (família ou amigos), qualquer um de nós pode acabar nessa situação.”

Nadira Tudor salienta que a longevidade da carreira de Richard Gere é impressionante, sendo poucas as pessoas que não conhecem o seu trabalho. Contudo, tem dedicado, posteriormente, considerável parte do seu tempo a causas humanitárias e a ajudar os mais necessitados. “Não houve um único momento decisivo, mas um percurso pessoal. […] Com o tempo, compreendi que o verdadeiro significado de uma vida humana reside em estar ao serviço daqueles que não podem ser vistos ou ouvidos”, explicou.

A Fundação Gere trabalha em colaboração com a UN-Habitat e no centro está a HOGAR SÍ – que defende que os sem-abrigo não devem ser status quo aceite ou condição social permanente e que as respostas temporárias de emergência não devem ser a única solução.

Voltando ao WUF, Richard Gere desempenhou um papel importante através de um documentário intitulado “What Nobody Wants To See” (“O que ninguém quer ver”), que fez parte do programa Urban Cinema, cuja premissa é explorar as tensões entre realidades da vida na cidade que são, frequentemente, ignoradas ou não vistas. A associação da Fundação Gere e a UN-Habitat reflete o crescendo entre ativismo, diplomacia global e cultura, em que as celebridades apoiam, há muito, causas humanitárias. No entanto, grandes eventos, como o WUF13, estão a utilizar, cada vez mais, figuras públicas para transmitir e para reforçar as suas mensagens.

Questionado sobre o futuro do HOGAR SÍ, Richard Gere disse olhar o futuro com “esperança e convicção”, porque “é uma organização forte, com uma estratégia clara e [com] a coragem de identificar e [de] exigir mudanças estruturais, mesmo quando essas mudanças não são fáceis ou incómodas”. Está convicto de que o HOGAR SÍ continuará a desempenhar papel fundamental na Espanha e a nível europeu. Acredita que isto mostra que “o problema dos sem-abrigo pode ser resolvido, se for abordado através de abordagens baseadas em provas, colaboração institucional e respeito pela dignidade humana”. E considera que “erradicar o problema dos sem-abrigo, na Espanha, nos próximos anos, é possível”, pois, como acentua, trata-se de “cerca de 37 mil pessoas, em todo o país, que precisam de uma nova oportunidade, de um lar”.

Como sublinha a jornalista, uma das mensagens da 13.ª edição WUF é a mesma de Gere: “A habitação não é só uma questão de tijolos e de argamassa. Tem a ver com a necessidade humana do sentimento de pertença e de ter um sítio seguro a que todos possam chamar casa.”

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A força dos números mostra a importância do WUF. De acordo com a ONU-Habitat, que apela à ação sobre a “crise global” da habitação, pelo menos, três mil milhões de pessoas não têm casa adequada e mais de mil milhões vivem em bairros de lata e em assentamentos informais (sobretudo, na Ásia e na África), podendo três mil milhões de pessoas passar a viver em bairros de lata, até 2050 (aumento de três vezes), se não os decisores não intervierem.

O WUF, realizado de dois em dois anos e organizado pela UN-Habitat, é uma das plataformas mais importantes para debater o futuro das cidades, a habitação e a resiliência urbana, tendo o tema de 2026 sido “Habitar o Mundo: Cidades e comunidades seguras e resilientes”.

Anna Soave, chefe do escritório nacional da ONU-Habitat no Azerbaijão, disse que, enquanto o WUF13 se preparava para receber delegados de todo o Mundo, a questão da habitação era “cada vez mais entendida como inseparável do futuro das nossas cidades, da resiliência climática, da prosperidade socioeconómica e da qualidade de vida”. E sublinhava a importância do evento, por oferecer uma plataforma “onde governos, autarcas, planeadores urbanos, universidades, empresas, sociedade civil e comunidades podem discutir e trocar soluções práticas sobre como construir cidades mais seguras, mais resilientes e mais inclusivas”, visto que a escala da crise habitacional é cada vez mais vista como económica, política e ambiental, e não apenas como uma situação humanitária.

Na verdade, o Mundo atingiu um ponto de viragem em 2009, quando os habitantes das cidades passaram a constituir a maioria da população mundial. Por conseguinte, as cidades têm vindo a enfrentar crescente pressão para melhor acomodarem o crescimento demográfico, a migração, as alterações climáticas e o aumento do custo de vida. Segundo as estimativas da ONU-Habitat, um em cada cinco agregados familiares, a nível mundial, gasta mais de 40% do seu rendimento em habitação, tendo os custos de habitação quadruplicado, desde 2010. Os números mostram que mais de 300 milhões de pessoas estão sem abrigo, no Mundo e que mais de 100 milhões de pessoas estão deslocadas, devido a conflitos, a instabilidade e a crises conexas com o clima. E a pandemia de covid-19 aumentou a pressão, levando à reformulação do pensamento nacional em torno da política de habitação e, mais uma vez, unindo os pontos entre saúde pública, a resiliência económica e a habitação.

A ONU respondeu a estes desafios colocando a habitação e o desenvolvimento urbano no centro da sua agenda de desenvolvimento sustentável – o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 11 visa tornar as cidades inclusivas, seguras, resilientes e sustentáveis. O Azerbaijão tem feito esforços significativos para promover o redesenvolvimento urbano e a modernização das infraestruturas como uma estratégia de longo prazo. E sediar o WUF13 em Baku foi o ensejo para o país se posicionar no diálogo internacional sobre reconstrução, sobre desenvolvimento urbano, sobre redesenvolvimento e sobre sustentabilidade no setor.

Criado pela Assembleia Geral da ONU em 2001, com a UN-Habitat, o WUF realiza-se em cidade diferente, de dois em dois anos. A 1.ª edição ocorreu em Nairobi (Quénia), em 2002, com cerca de 1200 participantes. As cidades anfitriãs seguintes foram Barcelona (Espanha), Vancouver (Canadá), Nanjing (China), Rio de Janeiro (Brasil), Nápoles (Itália), Medellín (Colômbia), Quito (Equador), Kuala Lumpur (Malásia), Abu Dhabi (Emirados Árabes Unidos), Katowice (Polónia) e Cairo (Egito).

Para os analistas, o foco na habitação, em 2026, reflete o reconhecimento crescente de que o acesso a uma habitação segura e a preços acessíveis está a tornar-se fundamental para a estabilidade económica e para a coesão social, a longo prazo.

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Contudo, em países ditos desenvolvidos, incluindo Portugal (que usa e abusa), a habitação, em vez de responder às necessidades da população, é objeto de mercantilização e de especulação imobiliária, como se fosse um objeto de luxo, acessível apenas a grandes bolsas. E muitas pessoas lutam ingloriamente por habitação adquirida ou arrendada. Até quando?

2026.05.30 – Louro de Carvalho

Portugueses trabalham mais 1h30, por semana, do que média da UE

 

O Eurostat divulgou, a 27 de maio, os dados do ano de 2025 relativos às horas trabalhadas nos vários estados-membros, concluindo que a média da União Europeia (UE) foi de 35,9 horas trabalhadas, por semana, no conjunto da economia e dos seus vários setores.

Este valor variou por toda a UE, desde 31,9 horas de trabalho efetivas, nos Países Baixos, até 39,6 horas, na Grécia. Entre os trabalhadores a tempo inteiro, na UE, os homens trabalhavam, em média, 39,4 horas, por semana, em comparação com 37,6 horas para as mulheres, com diferenças superiores a três horas na Irlanda, nos Países Baixos e na Grécia. A Bélgica apresentou a maior diferença na jornada de trabalho semanal habitual entre empregados (35,2 horas) e trabalhadores por conta própria (43,2 horas).

A análise considera trabalhadores a tempo inteiro e parcial, entre os 20 e os 64 anos, tendo por base o número de horas efetivamente trabalhadas no emprego principal, ao longo de 2025.

Os dados revelam a tendência gradual de redução da duração média do trabalho, na Europa, ao longo da última década, pois, em 2015, os trabalhadores europeus cumpriam, em média, mais uma hora semanal do que atualmente.

De acordo com a entidade responsável pelas estatísticas da UE, Portugal fica entre o grupo dos países que superam, claramente, a média comunitária, neste indicador, acumulando o valor médio de horas trabalhadas, por semana, de 37,4, para o conjunto da economia. Ou seja, os trabalhadores portugueses trabalharam, em 2025, mais 1h30, em média, do que a média da UE.

Estas estatísticas centram-se na população empregada entre os 20 e os 64 anos e revelam clara quebra do número de horas trabalhadas, desde 2015, no espaço da UE, dado que a média, em 2015, atingia as 36,9 horas, por semana (valor inferior às 37,4 horas, por semana, que se registaram em Portugal, dez anos depois).

Se Portugal tem problemas de produtividade, eles virão mais do excesso de horas de trabalho pouco produtivas (ou a produzir bens e serviços de valor inferior aos criados noutras paragens) do que da falta de disponibilidade para passar horas a trabalhar.

A Grécia atinge o não invejável recorde de maior número de horas trabalhadas, entre os 27, e é um dos 10 países que tem um registo de horas trabalhadas superior ao de Portugal: os trabalhadores gregos trabalham, em média, mais 2h12, por semana. A Bulgária e a Polónia surgem, logo a seguir, ambas com 38,7 horas, por semana.

No extremo oposto, surgem os Países Baixos, cuja semana, em média, exigiu 31,9 horas de trabalho de cada trabalhador – menos 5h30 do que para os trabalhadores portugueses –, quase um dia inteiro de trabalho de diferença. A Dinamarca e a Alemanha vêm, logo a seguir, com 33,9 horas, por semana.

Ana Rita Rebelo, na revista online RHmagazine, a 28 de maio, diz que a “Europa trabalha menos horas do que há 10 anos”. E, citando o Eurostat, regista que o primeiro lugar pertence à Grécia, cujos trabalhadores fizeram, em média, 39,6 horas de trabalho, por semana. Seguem-se a Bulgária e a Polónia, ambas com 38,7 horas, e a Lituânia, com 38,4 horas. “Em 2025, as horas de trabalho efetivamente trabalhadas, por semana, na UE, por trabalhadores a tempo inteiro e parcial (com idades dos 20 aos 64 anos) nos seus empregos principais, foram, em média, 35,9, abaixo das 36,9 horas de 2015”, refere o gabinete de estatísticas europeu, que a analista cita.

No extremo oposto da tabela, surgem os Países Baixos, que continuam a registar a semana de trabalho mais curta da UE. Também a Dinamarca e a Alemanha apresentam médias reduzidas, ambas com 33,9 horas semanais, seguidas da Áustria, com 34 horas.

Os trabalhadores portugueses continuam entre os que cumprem semanas de trabalho mais longas na UE. Contudo, embora Portugal permaneça acima da média europeia, continua relativamente distante dos países que lideram a tabela das maiores cargas horárias semanais. Nestes termos, com 37,4 horas semanais, o país coloca-se num patamar intermédio-alto dentro da UE, visto que mantém uma carga horária superior à média comunitária, mas, significativamente, abaixo dos valores registados nos países do topo da tabela.

O Eurostat destaca, para o total agregado da UE, como se distribuem as horas trabalhadas pelos vários setores da economia. Assim, as ocupações com a semana de trabalho mais longa, na UE, foram dos trabalhadores qualificados na agricultura, na silvicultura e nas pescas (42,0 horas de trabalho reais ou efetivas), dos gestores (40,6) e das forças armadas (39,4). Ao invés, as semanas de trabalho mais curtas foram dos trabalhadores do ensino fundamental (31,8), dos trabalhadores de apoio administrativo (34,0) e dos trabalhadores de serviços e de vendas (34,5).

As semanas de trabalho mais longas continuam associadas às áreas da agricultura, das florestas e das pescas, setores tradicionalmente marcados por maior sazonalidade, por maior intensidade operacional e por menor previsibilidade horária. Já com cargas horárias mais reduzidas surgem, por exemplo, além dos apontados, os trabalhadores da limpeza, refletindo a diversidade de modelos laborais existentes dentro do mercado europeu.

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Em 2015, informação de teor semelhante – ainda que compilada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE ou OECD), e não pelo Eurostat – que, então, remetia para dados de 2014, dava conta do número total de horas trabalhadas, por ano, e das posições relativas dos países, que não mudaram significativamente, e colocava a Alemanha e a Grécia nos extremos.

Nas quase 300 páginas do “OECD Employment Outlook 2025, um dos indicadores mais curiosos, ainda que não sendo verdadeiramente surpreendente, era o número médio de horas trabalhadas, por trabalhador, em cada país da OCDE. De entre os países da Zona Euro, a Alemanha destacava-se como o país com menor número médio de horas trabalhadas. Portugal ficava na metade mais “trabalhadora” da tabela, sendo superado pelos três países bálticos (a Estónia, a Letónia e a Lituânia), pela Grécia e pela Eslováquia. A Grécia era, assim, dos países que estava, há mais de uma década, no Euro, aquele onde o número médio de horas trabalhadas era mais elevado.

Por outro lado, a OCDE verificava que os empregos estavam a melhorar lentamente, mas que milhões de pessoas “estavam em risco de ficarem aprisionados no fundo do ascensor económico”.

Em 2014, na Europa, estava-se em tímida saída da crise económico-financeira, desencadeada nos Estados Unidos da América (EUA), a qual, tendo contaminado toda a Europa, teve consequências catastróficas, sobretudo, os países do Sul.

A capacidade de geração de valor acrescentado pelos setores dominantes da economia, em cada país (o tipo de especialização produtiva), e os diferentes impactos nas respetivas economias que os choques externos e internos à Zona Euro provocam e provocaram, em especial, desde a criação do Euro, deverão ser os melhores fatores para explicar a diferença na situação económica dos países do que o número de horas que cada trabalhador labora. A isto acrescem diferentes recursos naturais, diferentes percursos históricos, culturais e políticos. Mas, por este indicador, é evidente que nem os cidadãos gregos são mais pobres, por serem, alegadamente, preguiçosos, nem os cidadãos alemães são mais ricos, por trabalharem, supostamente, mais do que os outros.  O mesmo se aplica aos trabalhadores portugueses que, pelas horas trabalhadas, estão longe de corresponder ao preconceito popular, no Norte da Europa, da suposta dolce vita, no Sul, de férias, de feriados e de curtas jornadas, sobretudo, na despudorada versão de Jeroen Dijsselbloem.

Com efeito, a 21 de março de 2017, em entrevista ao jornal alemão Frankfurter Allgemeine, o ministro das Finanças dos Países Baixos, líder do Eurogrupo, disse que os países do Sul da Europa gastaram o seu dinheiro em “álcool e mulheres” e, depois, pediram ajuda.

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Os dados do Eurostat baseiam-se no Inquérito Europeu às Forças de Trabalho (EU-LFS), que destaca os principais aspetos da jornada de trabalho para diferentes grupos de trabalhadores (homens e mulheres, trabalhadores a tempo parcial e a tempo integral, empregados e trabalhadores por conta própria) e em diversas atividades económicas e ocupações. Mais especificamente, concentra-se no número médio de horas semanais de trabalho efetivas e habituais que os trabalhadores empregados dedicaram ao seu emprego principal, em 2025.

As profissões com a semana de trabalho mais longa, na UE, foram as de trabalhadores qualificados da agricultura, da silvicultura e da pesca (42,0 horas de trabalho efetivas), de gestores (40,6 horas) e de membros das forças armadas (39,4 horas). Por outro lado, as semanas de trabalho mais curtas ocorreram em profissões elementares (31,8 horas), em trabalhadores de apoio administrativo (34,0 horas) e em trabalhadores dos serviços e vendas (34,5 horas).

As horas semanais efetivas de trabalho referem-se ao número total de horas que uma pessoa dedicou a atividades laborais, na sua função principal. Isso engloba todas as horas trabalhadas, incluindo horas extra conexas com a função principal, independentemente da remuneração, sendo excluídos dessa mensuração períodos de ausência do trabalho, como baixa médica, férias e tempo de deslocação (que integram o cômputo das horas habituais). Os resultados são afetados pelas diferentes proporções de trabalhadores em tempo parcial, entre os países, além das diferenças nos marcos legais e na duração usual da semana de trabalho, em cada país.

Na UE, em 2025, os trabalhadores empregados relataram a seguinte média de horas de trabalho semanais, no seu emprego principal; 9,9% não trabalharam nele; 7,2% trabalharam entre 0,5 e 19,5 horas; 6,6% trabalharam entre 20 e 24,5 horas; 3,4% trabalharam entre 25 e 29,5 horas; 9,2% trabalharam entre 30 e 34,5 horas;16,4% trabalharam entre 35 e 39,5 horas; 37,6% trabalharam entre 40 e 44,5 horas; 4,0% trabalharam entre 45 e 49,5 horas; e 5,8% trabalhavam 50 horas ou mais. A faixa de 40,0 a 44,5 horas de trabalho efetivas, por semana, representou a maior parcela de pessoas empregadas na maioria dos países, com as maiores proporções registadas na Bulgária (82,8%), na Letónia (77,1%) e na Roménia (75,5%). Exceções foram observadas na Bélgica, na Dinamarca, na Finlândia, na França e na Irlanda, onde a maior parte dos empregados trabalhava, em média, entre 35,0 e 39,5 horas, por semana.

Em geral, há consistência entre as horas de trabalho reais e as habituais, embora o número de horas de trabalho reais tenda a ser inferior ao das habituais, o que é explicável pelo facto de as horas de trabalho habituais não serem afetadas por ausências, enquanto as horas de trabalho reais são afetadas por férias, por baixas médicas ou por outros tipos de ausências.

A comparação da distribuição das horas de trabalho reais e habituais no emprego principal, por tipo de vínculo no emprego, mostra que os trabalhadores autónomos estão mais fortemente representados nas categorias de maior jornada de trabalho (ou seja, 40,0-44,5 horas e 45,0 horas ou mais) do que os empregados. Entre os empregados, a maior parte trabalhava entre 40,0 e 44,5 horas, por semana (38,4%), enquanto só 6,4% trabalhavam 45,0 horas ou mais. Em contraponto, entre os trabalhadores autónomos, observou-se distribuição igual (32,2%), tanto para a categoria de 40,0 a 44,5 horas como para a categoria de 45,0 horas ou mais.

A média de horas de trabalho semanais para trabalhadores a tempo inteiro, na UE, diferia entre homens e mulheres em 2025: os homens trabalhavam em média 39,4 horas por semana, enquanto as mulheres trabalhavam 37,6 horas.

Para as mulheres, a semana de trabalho mais longa foi registada na Eslovénia (39,2 horas), seguida da Lituânia (39,1 horas) e da Letónia e da Polónia (ambas com 38,9 horas). As semanas de trabalho médias mais curtas para mulheres foram observadas nos Países Baixos (35,0 horas), na Finlândia (35,6 horas), na Irlanda (35,9 horas) e na Bélgica (36,4 horas). Para os homens, só quatro países da UE registaram uma semana de trabalho média de 40 horas ou mais, em 2025: a Grécia (41,8 horas), a Polónia (40,6 horas), a Eslovénia (40,2 horas) e Chipre (40,0 horas). Os homens com emprego a tempo inteiro trabalharam menos horas, por semana, na Finlândia e nos Países Baixos (ambos com 38,4 horas), seguidos pela Hungria e pela Suécia (ambos com 38,5 horas).

As maiores diferenças entre homens e mulheres (três horas ou mais, por semana) foram observadas na Irlanda, onde os homens trabalhavam 39,9 horas, por semana, em comparação com 35,9 horas para as mulheres, na Holanda (38,4 horas para os homens e 35,0 horas para as mulheres) e na Grécia (41,8 horas para os homens e 38,8 horas para as mulheres). Em contraponto, as menores diferenças entre homens e mulheres, de menos de 0,5 horas, por semana, foram registadas na Letónia e na Bulgária.

A nível da UE, em 2025, os trabalhadores independentes com empregados (os empregadores) registaram a semana de trabalho habitual média mais longa na sua atividade principal, com 46,4 horas, seguidos pelos trabalhadores por conta própria, com 39,7 horas. Já os empregados trabalhavam, em média, 36,6 horas habituais por semana.

As semanas de trabalho médias mais longas para os empregadores foram registadas na França (50,0 horas), na Bélgica (49,8 horas) e na Grécia (49,2 horas). A Bélgica também apresentou a maior diferença na jornada de trabalho semanal habitual entre empregados (35,2 horas) e trabalhadores por conta própria (43,2 horas). Em muitos países da UE, os trabalhadores por conta própria trabalharam mais horas semanais do que os empregados, em 2025. Porém, o padrão oposto ocorreu em Chipre, na Letónia, na Estónia, na Lituânia e na Roménia, onde os empregados trabalharam mais horas do que os trabalhadores por conta própria.

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Está visto que não é por se trabalhar mais horas, por semana, ou por haver mais feriados ou dias de férias que a encomia se robustece. Se as empresas encaram fortes custos de produção, por exemplo, devido ao elevado preço de energia elétrica, dos combustíveis ou da maquinaria, também não fazem crescer a economia, sobrecarregando, indevidamente, os trabalhadores, agravando-lhes as condições de trabalho, não lhes atribuindo remuneração condigna ou não lhes acenando com uma carreira valorizada e atraente.

O trabalho, dever do trabalhador, terá de constituir ocupação em que ele se sinta dignificado, reconhecido, valorizado e respeitado nos seus direitos e valores, de pessoa, de cidadão e de membro de uma família. Negando direitos aos trabalhadores, sobrecarregando-os, pagando-lhes mal, não os apoiando na saúde e não lhes dando espaço para a família e para a intervenção na vida pública, como querem os empresários e o Estado ter sucesso? Nesta matéria, o Estado deve assumir efetivo papel telemático, regulador e, se necessário, interventivo.

Por outro lado, falta, na administração pública e na malha empresarial, capacidade de organização, de planeamento, de gestão (justa, paciente, participativa e comunicacional) e de avaliação. Por exemplo, funciona, em avaliações e em promoções, o amiguismo, em detrimento do mérito; inicia-se uma obra particular ou pública, sem alocar, a tempo e horas, os elementos necessários; queixamo-nos da falta de trabalhadores, mas deixamos partir gente qualificada para o estrangeiro e, em vez de regularizarmos a imigração, espantamo-la. Assim, não!

2026.05.29 – Louro de Carvalho


quinta-feira, 28 de maio de 2026

Guerra no Médio Oriente avança entre ameaças, acordos e ações bélicas

 As Forças Armadas dos Estados Unidos América (EUA) informaram, na noite de 27 para 28 de maio, que realizaram novos “ataques defensivos” contra o Irão, depois de Donald Trump, ter afirmado que Teerão está “a negociar no limite”.

Segundo o Comando Central norte-americano (Centcom), foram atingidos quatro drones iranianos de ataque unidirecional, que representavam uma ameaça na zona do estreito de Ormuz e uma estação de controlo terrestre iraniana, em Bandar Abbas, que se preparava para lançar um quinto drone. Este novo ataque, o segundo em três dias, ocorre no contexto do cessar-fogo frágil, que dura há várias semanas, e de conversações para pôr termo à guerra, que dura há quase três meses, e para chegar a um acordo que permita reabrir o estreito de Ormuz.

Pormenores do ataque surgiram depois de o inquilino da Casa Branca, numa reunião de governo, ter manifestado confiança de que a sua administração está a fazer progressos para pôr fim à guerra, embora tenha avisado, mais tarde, que os EUA “terão de acabar o trabalho”, se as conversações falharem. “Eles querem muito chegar a um acordo. […] Até agora, ainda não chegaram lá. Não estamos satisfeitos, mas vamos ficar. Ou isso ou teremos, simplesmente, de acabar o trabalho”, prometeu o presidente dos EUA.

Os ataques de 27 para 28 de maio surgem também numa altura em que o líder norte-americano acelera a campanha, antes das eleições intercalares de novembro, nos EUA, e em que os republicanos receiam que o aumento dos custos e dos preços dos combustíveis esteja a deteriorar o estado de espírito do eleitorado. E alguns analistas sustentam que Trump procura um argumento credível para convencer o eleitorado de que foi suficientemente reduzida a capacidade nuclear do Irão e para declarar vitória, encerrando um conflito politicamente impopular. Todavia, como as coisas estão, o presidente dos EUA arrisca-se a descobrir que o desfecho da guerra que escolheu travar poderá ser pouco satisfatório.

Alguns pormenores do acordo em preparação já expuseram o presidente norte-americano a duras críticas, inclusive de alguns dos seus apoiantes, segundo as quais os dirigentes da chamada linha dura do Irão sairão do conflito abalados, mas fortalecidos.

Donald Trump rejeitou a ideia de que as próximas eleições possam moldar a sua estratégia para o Irão e declarou que não quer saber das eleições intercalares. Ao mesmo tempo, insiste que o acordo está ao alcance, apesar das aparentes diferenças significativas entre os EUA e o Irão, em várias questões-chave, entre as quais o destino das reservas iranianas de urânio e a guerra de Israel contra o Hezbollah, no Líbano, que Teerão quer ver terminada.

No âmbito do possível acordo, Teerão aceitaria abdicar das suas reservas de urânio altamente enriquecido – a exigência central de Trump – em troca de um alívio das sanções. O presidente dos EUA afirmou, no dia 27, que “não ficaria confortável”, se fosse a Rússia ou a China a receber as reservas iranianas de urânio altamente enriquecido. Porém, estes dois países mantêm as relações mais estreitas com Teerão e analistas nucleares têm defendido que poderiam ser um terceiro interveniente aceitável para a República Islâmica receber o urânio enriquecido, no quadro de um eventual acordo.

Segundo a Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), o Irão possui 440,9 quilos de urânio enriquecido até 60% de pureza, a um pequeno passo técnico dos níveis de 90% exigidos para armamento nuclear. E Teerão não se comprometeu, publicamente, a abdicar do seu urânio.

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Entretanto, um responsável da Marinha da Guarda Revolucionária do Irão ameaçou transformar “a zona entre Chabahar e Mahshahr num cemitério para agressores”, ou seja, transformar toda a costa iraniana do Golfo num campo de morte, se os EUA retomassem os ataques, embora mediadores digam que as partes estão mais perto de um acordo inicial do que em qualquer momento, desde o cessar-fogo de abril.

Chabahar e Mahshahr, entre as quais se situa o Estreito de Ormuz, são cidades portuárias iranianas em extremos opostos da longa linha costeira do país, que se estende por cerca de 1500 quilómetros, desde o golfo de Omã até ao fim do Golfo Pérsico.

“Os nossos combatentes trazem, hoje, no peito o desejo de travar combate corpo a corpo com o inimigo”, declarou, citado pela agência noticiosa Tasnim, o adjunto político da Marinha da Guarda Revolucionária, Mohammad Akbarzadeh, vincando que as forças armadas iranianas se encontram em plena prontidão e descrevendo como remota a possibilidade de uma nova guerra, atribuindo-a ao que qualificou de “fraqueza” do lado adversário, que sofreu, na ótica de Teerão, uma derrota estratégica no estreito de Ormuz.

“Afirmaram que conseguiriam reabrir o Estreito de Ormuz, mas, depois do encerramento desta via marítima, mesmo com todo o seu poder, não conseguiram fazer nada”, prosseguiu Mohammad Akbarzadeh, explicitando: “Os Americanos pensam que podem falar com a República Islâmica na linguagem da força, mas, ao que parece, ainda não aprenderam que não se deve falar com os Iranianos na linguagem das ameaças.”

Por sua vez, um responsável do Pentágono avaliou que o bloqueio naval norte-americano prejudicou receitas petrolíferas do Irão no valor de cerca de cinco mil milhões de dólares.

As negociações entre Teerão e Washington sobre um acordo preliminar estarão, agora, mais próximas de uma conclusão do que em qualquer outro momento, desde a entrada em vigor do cessar-fogo, a 8 de abril, embora o controlo do Estreito de Ormuz e a questão nuclear continuem a ser as duas áreas em que nenhum dos lados cedeu nas suas exigências.

A falar a partir de Moscovo, onde participou numa conferência sobre segurança, o secretário-adjunto do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irão, Ali Bagheri Kani, afirmou que as duas partes ainda não tinham chegado a acordo sobre o levantamento do bloqueio. E disse que as reservas de urânio enriquecido de Teerão não estavam em cima da mesa das negociações e confirmou que o Irão e Omã mantinham conversações separadas, sobre um novo procedimento de passagem de navios pelo Estreito de Ormuz.

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O presidente dos EUA diz estar insatisfeito com as propostas de Teerão, mas sem pressa, enquanto a Casa Branca qualificou como “pura invenção” uma notícia da televisão estatal iraniana sobre um rascunho de acordo.

Numa reunião com a administração na Casa Branca, Donald Trump frisou que não tem pressa em chegar a um entendimento para terminar a guerra no Irão, apesar de ter dito, a 23 de maio, que um acordo estava próximo e de continuar a fazer pressão.

O Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) reagiu mais cedo às ameaças de retomar as operações militares lançadas pelos EUA e por Israel a 28 de fevereiro e suspensas em abril, afirmando que transformaria a sua costa num “cemitério para os agressores”.

Donald Trump diz que o Irão está “a negociar já sem fôlego”. A televisão estatal iraniana referiu que o esboço de um memorando de entendimento com Washington inclui o compromisso de levantar o bloqueio naval ao Irão, de restabelecer o tráfego no Estreito de Ormuz e de retirar as forças norte-americanas do Golfo Pérsico, o que os EUA classificam de “pura invenção”.

Trump afirmou que “ninguém”, incluindo Teerão, controlará o Estreito de Ormuz e rejeitou notícias de que o Irão e o sultanato de Omã poderiam gerir um sistema de portagens para aquela via marítima estratégica.

O líder norte-americano, que faz 80 anos, em junho, chegou a dizer que “Omã vai portar-se como todos os outros ou teremos de os fazer explodir”, num comentário aparentemente dirigido ao Irão, e sugeriu que um eventual acordo com o Irão poderá ficar dependente da sua pressão para que a Arábia Saudita e outros países assinem os Acordos de Abraão, que normalizam relações com Israel. “Não sei se devemos fazer o acordo se eles não assinarem”, disse Trump.

Os Acordos de Abraão ou Pacto Abraâmico são acordos bilaterais sobre a normalização árabe-israelita, assinados entre Israel e os Emirados Árabes Unidos (EAU) e o Bahrein, a 15 de setembro de 2020. Mediado pelos EUA, o anúncio inicial de 13 de agosto de 2020 dizia respeito apenas a Israel e aos EAU, antes do anúncio de um acordo de acompanhamento entre Israel e o Bahrein, a 11 de setembro de 2020. O acordo inicial de Israel com os EAU marcou a primeira vez que Israel estabeleceu relações diplomáticas com um país árabe, desde 1994, quando entrou em vigor o Tratado de Paz Israel-Jordânia.

O inquilino da Casa Branca pretende que todos aqueles países integrem os Acordos de Abraão, porque devem isso aos EUA. 

É de lembrar que o presidente dos EUA tem repetido que lançou a guerra no Irão, para impedir Teerão de obter uma arma nuclear. Por outro lado, pareceu confirmar informações de que o acordo em discussão pode adiar a questão das reservas de urânio enriquecido do Irão, ao mesmo tempo que abre o Estreito de Ormuz, crucial para o tráfego de petróleo. “Sim, em parte aceitaria isso”, disse Trump, ao ser questionado se aceitaria, para já, um acordo que apenas preveja novas negociações sobre o urânio, “porque é um memorando de entendimento para acelerar o processo”.

O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, sentado ao lado de Trump, disse que houve “alguns progressos e algum interesse” nas conversações com o Irão. “Veremos, nas próximas horas e dias, se é possível avançar”, salientou.

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Outra frente da guerra norte-americana é Omã, aliada dos EUA, que Donald Trump ameaça fazer explodir Omã, caso este país se alie ao Irão, no controlo sobre Ormuz. É, efetivamente, desta forma que o líder norte-americano reage às negociações entre Mascate e Teerão por mecanismos regulatórios na via estratégica que escoa cerca de um quinto do petróleo global.

“Omã vai comportar-se como todos os outros, ou teremos de os explodir. Eles entendem. Eles vão ficar bem”, comentou Donalda Trump, nestes termos, durante uma reunião, na Casa Branca, a ação do governo omanense, acrescentando: “Ninguém vai controlar isso. Vamos ficar de olho nele. Vamos monitorar, mas ninguém vai controlar. Isso faz parte da negociação que temos. Eles gostariam de controlá-lo [o Estreito de Ormuz].”

O alerta veio após relatos de que Mascate e Teerão estavam a discutir a implementação de um sistema de taxas para embarcações que transitam pelo Estreito.

Embora inicialmente houvesse especulação de um erro verbal na mensagem de Trump contra Omã, o Departamento de Estado norte-americano compartilhou uma transcrição oficial, nas suas redes sociais, validando a referência ao país árabe.

Omã havia atuado anteriormente como mediador-chave entre Washington e Teerão, procurando uma solução para a guerra que começou em 28 de fevereiro, quando os EUA e Israel lançaram os seus ataques contra o Irão. Em resposta à ofensiva, Teerão fechou o Estreito de Ormuz e impôs controlos mais rigorosos, após o anúncio dos EUA de um bloqueio naval dos seus portos, uma medida que o Irão condenou por ilegal e por ser um ato de pirataria marítima.

Entretanto, uma análise do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) alerta que os EUA podem precisar de anos, para reconstruírem os seus arsenais de mísseis, esgotados durante a campanha militar de 40 dias contra o Irão, tendo essas carências criado uma “janela de vulnerabilidade”, ante um possível conflito no Pacífico Ocidental.

Segundo o estudo, reabastecer stocks-chave levará “meses e anos, dependendo do sistema de armas.” Estima-se que os mísseis de cruzeiro Tomahawk, cujos stocks só seriam recuperados no final de 2030 ou no início de 2031, foram implantados em mais de mil unidades, assim como, entre 190 e 290, intercetadores THAAD e, até 1430, mísseis Patriot foram usados, com entregas de substituição esperadas apenas em 2029.

O secretário da Defesa, Pete Hegseth, já havia anunciado essas preocupações. O CSIS enfatiza que “o problema, hoje, não é dinheiro, mas tempo”, devido à complexidade da expansão da capacidade produtiva e à demanda competitiva de aliados, como a Ucrânia, a Arábia Saudita e a Alemanha, que também complicam o reabastecimento.

Apenas sistemas, como o míssil PrSM e os mísseis ar-superfície JASSM, apresentariam uma recuperação mais rápida, no final de 2026 e em meados de 2027, respetivamente. Mísseis lançados a partir de navios, incluindo o SM-3 e o SM-6, poderiam ser recuperados até ao início de 2029, devido ao seu baixo uso, durante o conflito.

O fechamento do Estreito de Ormuz causou severas interrupções no fluxo global de energia e uma volatilidade significativa nos preços do petróleo bruto, afetando, diretamente, as economias ocidentais, incluindo os EUA, no meio de negociações que se arrastaram sem um resultado claro. A crise de munição enfrentada pelos EUA pode desempenhar um papel, na nova escalada das tensões entre os EUA e o Irão, com os dois novos ataques lançados pelas forças armadas norte-americanas a violar o cessar-fogo vigente.

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Sem meias medidas, o IRGC do Irão realizou, no dia 28, um ataque militar retaliatório contra posições estratégicas dos EUA, em resposta direta ao bombardeamento das forças norte-americanas contra o território iraniano, em nova escalada do conflito, durante as negociações, e teve como alvo uma base aérea dos EUA identificada como ponto de origem do ataque anterior de Washington à cidade de Bandar Abbas.

Segundo a emissora estatal iraniana IRIB, uma base norte-americana no Kuwait “serviu como fonte do ataque”. O exército do Kuwait confirmou que as suas defesas aéreas estavam a intercetar mísseis e drones, pouco antes das 6h00 da manhã, na cidade do Kuwait.

“Esta resposta constitui um aviso sério ao inimigo: nenhum ato de agressão ficará impune e, se for repetido, a nossa resposta será ainda mais contundente”, alertou o IRGC, em comunicado, citado pela agência Tasnim, sem maiores detalhes táticos sobre a operação.

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Em suma, a guerra no Médio Oriente prossegue ou faz pausa, de acordo com a vontade dos líderes de Washington e de Teerão, que parecem dar, nas negociações, um passo para a frente e dois para trás. Entre a esperança de êxito ou o ceticismo num acordo duradouro e as ações militares, sobressaem, como vimos, as ameaças de pulverização ou de mortandade. Aliás, Donald Trump chegou a prometer destruir, numa noite, toda uma civilização!

Entretanto, países ocidentais continuam a enviar armas para Israel, para a sua guerra com o Hezbollah, enquanto o acordo de pacificação de Israel com o Hamas está a marinar, sob a presença das tropas israelitas, que, de vez em quando, “dialogam” com o Hamas, em termos bélicos, sob acusações mútuas de quebra do acordo.

Está visto que os limites da guerra são demasiado ténues e as linhas vermelhas dificilmente são respeitadas. E parece que a multiplicação de negociações serve para distrair das ações bélicas.

2026.05.28 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Conselho de Paz não dispõe, oficialmente, de recursos financeiros

 

O Conselho de Paz (“Board of Peace”), criado por Donald Trump, alegadamente, com vista à reconstrução de Gaza – mas querendo suplantar a Organização das Nações Unidas (ONU), na promoção do desenvolvimento e na resolução de conflitos –, não dispõe de recursos financeiros, no seu fundo oficial para a reconstrução de Gaza, como revelou, a 27 de maio, à agência de notícias AFP uma fonte familiarizada com o Conselho, apesar de os países-membros terem prometido milhares de milhões de dólares.

O Conselho é liderado não só pelos Estados Unidos da América (EUA), mas também pelo próprio Donald Trump, que detém a palavra final e pode continuar no cargo, mesmo após o fim do seu mandato presidencial.

O inquilino da Casa Branca teve a ideia de criar o Conselho para coordenar a reconstrução de Gaza, depois de Israel e o Hamas terem chegado a um acordo sobre um cessar-fogo apoiado pelos EUA, em outubro, pondo fim a dois anos de guerra devastadora. Todavia, rapidamente causou espanto, ao enviar convites generalizados, incluindo ao presidente russo, Vladimir Putin, e a países muito distantes da diplomacia tradicional do Médio Oriente.

Desde que o Conselho foi criado, o seu fundo, administrado pelo Banco Mundial (BM) e apoiado pela ONU, não recebeu dinheiro dos doadores, porque foi concebido para a fase de reconstrução e de desenvolvimento, que ainda não foi alcançada. Além disso, as operações militares israelitas, em Gaza, continuaram a operar, após o cessar-fogo, tendo sido mortas, desde então, pelo menos, 910 pessoas, de acordo com o Ministério da Saúde do território. E Israel continua a controlar mais de 60% da Faixa de Gaza, incluindo todos os pontos de entrada e de saída, enquanto a população se concentra na costa.

A 27 de maio, o jornal Financial Times (FT), citando o porta-voz do Conselho, noticiou que o Conselho tinha recebido doações, diretamente, numa conta do JPMorgan, mas, como observou o FT, não há “requisitos de transparência independentes” em vigor, para a conta do JPMorgan.

As principais nações europeias têm evitado participar no Conselho, que é dominado por parceiros de longa data dos EUA, no Médio Oriente, aliados ideológicos de Donald Trump, e por países mais pequenos, ansiosos pela atenção do líder norte-americano.

Donald Trump tinha referido, anteriormente, que os EUA contribuiriam com 10 mil milhões de dólares para o Conselho, enquanto o Qatar, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos (EAU) prometeram, cada um, pelo menos, mil milhões de dólares.

De acordo com os estatutos do Conselho, os membros têm de pagar mil milhões de dólares, para obterem um lugar permanente. No entanto, uma avaliação da União Europeia (UE) e da ONU, publicada em abril, estimou que serão necessários mais de 71 mil milhões de dólares, na próxima década, para a reconstrução de Gaza, onde a ONU afirma que a situação humanitária é “crítica”.

Aliás, como anunciaram, a 27 de maio, as Forças de Defesa de Israel (FDI), Mohammed Odeh, o novo comandante da ala militar do Hamas foi morto, no Norte da Faixa de Gaza, num ataque contra a cidade de Gaza, após “meses de recolha de informações de inteligência e de seguimento operacional”.

Mohammed Odeh, que o gabinete do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, descreveu como um dos “arquitetos” dos ataques de 7 de outubro de 2023, chefiara, anteriormente, o quartel-general de informações do Hamas, mas assumiu a liderança da ala militar, após a morte do anterior responsável, Izz al-Din al-Haddad, no início de maio.

As FDI atacaram também um apartamento usado como esconderijo por um terrorista do Hamas que entrou em Israel, durante o massacre de 7 de outubro, e operava na rede de Odeh.

O anúncio surge numa altura em que Israel intensifica as operações militares no Líbano, onde as suas forças se confrontam com o grupo Hezbollah, apoiado pelo Irão, e contraria qualquer veleidade de paz ao cuidado da estrutura fundada por Donald Trump.

*** Parte inferior do formulário

A jornalista Catarina Maldonado Vasconcelos, em artigo intitulado “Fundo do Conselho de Paz de Donald Trump não recebeu um único dólar”, publicado no Expresso online, a 27 de março, sustenta que os doadores, dispostos apoiar a reconstrução de Gaza, retêm o dinheiro, com receio de que a estrutura seja politicamente frágil, pois, apesar de o seu criador a descrever como uma das “mais importantes” alguma vez fundadas, encontra-se num limbo jurídico e político.

Quando o projeto surgiu, Donald Trump adiantou que tinha pedido taxas de adesão vitalícia de mil milhões de dólares aos líderes mundiais que aceitaram integrar o Conselho. Os estados-membros comprometeram-se com sete mil milhões de dólares para o “pacote de ajuda” para Gaza, tendo Trump prometido mais de 10 mil milhões de dólares em financiamento dos EUA. Todavia, como observa a jornalista, “nenhum dólar foi depositado no fundo financeiro do Conselho de Paz”, estabelecido pelo BM, que exige requisitos independentes de transparência, ao invés da instituição bancária JP Morgan, que não os exige.

Salvador Santino Regilme, professor e coordenador do Programa de Relações Internacionais da Universidade de Leiden, para quem “o problema parece ter uma forma financeira e uma essência política”, considera que o financiamento da reconstrução envolve juízos de legitimidade, de fiabilidade institucional, de risco político e de durabilidade do acordo que está a ser financiado. Assim, na ótica do analista, haverá uma descrença generalizada, ou seja, “se os doadores prometem, publicamente, milhares de milhões, mas retêm as transferências para a conta oficial, estão a sinalizar cautela, quanto à credibilidade e à governação do Conselho”.

Apesar do apoio à reconstrução de Gaza, mantém-se a “desconfiança no veículo institucional específico que está a ser promovido”, segundo Regilme. Por um lado, o Conselho atrai a atenção e as promessas públicas, não a confiança. Neste caso, “a liquidez tornou-se uma medida de legitimidade”, diz o académico, vincando que o fundo vazio sugere que o plano é mais performativo do que operacional.

Um funcionário do Conselho revelou ao FT que foram estabelecidas várias opções para receber financiamento, tendo os estados aderentes preferido usar opções distintas da conta do BM, e garantiu que o Conselho apresentará os relatórios financeiros ao conselho executivo da estrutura, constituído por funcionários da administração Trump e por outros consultores.

Com 20 milhões de dólares em contribuições, Marrocos ajudou a financiar o gabinete de Nickolay Mladenov, o alto representante para Gaza, no pós-guerra, e os salários do comité tecnocrático palestiniano que o conselho formou para governar a Faixa de Gaza. E os EAU disponibilizaram 100 milhões de dólares, sendo essa verba (congelada) destinada ao programa de treino da nova força policial para Gaza, que ainda não foi iniciado.

Já o Departamento de Estado dos EUA tenciona mobilizar 1,2 mil milhões de dólares para projetos relacionados com a agenda do Conselho, mas não será gerido por este; e compromete-se a fornecer cerca de 50 milhões de dólares, diretamente, ao Conselho, para financiar as operações, mas nem este valor foi ainda transferido.

O Conselho iniciou um processo de concurso para os serviços de segurança e de reconstrução de Gaza, mas não foi atribuído qualquer contrato, até ao momento, por ainda não ser possível operar em Gaza, porque o Hamas ainda não foi desarmado. Porém, Bishara Bahbah, o empresário palestiniano-americano que ajudou a negociar com o Hamas, em nome da administração Trump, admitiu que o comité ainda não começou a trabalhar em Gaza, devido à “falta de financiamento para que possam executar qualquer coisa no terreno”.

Além dos receios de que a estrutura servisse para esvaziar a função e a razão da existência da ONU, alguns modelos futuristas para Gaza, apresentados pelo genro e conselheiro de Trump, Jared Kushner, geraram controvérsia. Os planos mostravam torres reluzentes e empreendimentos de luxo. A UE, a ONU e o BM estimaram que seriam necessários mais de 70 mil milhões de dólares para a reconstrução de Gaza, na próxima década. E Regilme lembra que um processo de reconstrução requer regras fiduciárias transparentes, a participação palestiniana, clareza jurídica, salvaguardas de aquisição e garantias contra a destruição renovada. Sem estes elementos, como diz, “o Conselho corre o risco de se tornar um espetáculo pós-guerra que invoca a reconstrução, evitando as políticas mais difíceis de justiça, [de] responsabilidade e [de] autodeterminação”.

Há também preocupações de congressistas norte-americanos, quanto à possibilidade de a reconstrução de Gaza começar sem um acordo político credível. Ora, a reabilitação de emergência deve começar, imediatamente, em especial, na água, na saúde, no abrigo, nos sistemas alimentares, no saneamento e nos serviços públicos básicos. Porém, na ótica do académico, a reconstrução em grande escala exige garantias políticas credíveis que protejam os Palestinianos de deslocações, de bloqueios, de bombardeamentos e de tutela externa.

Neste contexto, os doadores, como reconhece Regilme, “têm razão em questionar se estão a financiar uma recuperação duradoura ou a subsidiar outro ciclo de destruição”, pois o Conselho é politicamente moldado pelo controlo de Trump, o que traz custos de legitimidade.

Os doadores do Golfo, além dos EAU, estarão a hesitar, num momento em que a guerra contra o Irão e a ocupação do Sul do Líbano não chegaram ao fim. Com efeito, não querem pagar por infraestruturas que podem ser, novamente, destruídas, na ausência de acordo duradouro.

                                                                                                                                                                                                                                                                                        ***

Dada a escalada, sem precedentes, do bombardeamento aéreo na guerra contra o Irão – com centenas de aeronaves a operar na região e a realizar ataques aéreos –, os riscos têm-se elevado, estando o Conselho de Paz a perder a credibilidade, segundo alguns politólogos, que o veem como tentativa de legitimar a estratégia neorrealista de política externa de Trump.

Dos 26 Estados que aceitaram integrar o Conselho de Paz, pelo menos, sete – Israel, o Bahrein, a Jordânia, o Kuwait, o Qatar, a Arábia Saudita e os EAU – já foram atacados ou apanhados no fogo cruzado entre os EUA, Israel e o Irão.

Implantar uma estrutura de paz, enquanto Washington e os seus aliados são beligerantes ativos não é ilegítimo, já que são, frequentemente, negociados cessar-fogos sob ataques, mas gera-se um problema de conflito de papéis. Assim, quando um país é, ao mesmo tempo, beligerante e promotor da paz, a sua iniciativa é encarada como governação em tempo de guerra, por outros meios, uma perceção que, nas capitais europeias, contradiz a neutralidade processual e a representação inclusiva, que são a base da credibilidade.

A perda de três caças F-15 norte-americanos por fogo amigo no Kuwait, camuflado por atribuição errónea ao Irão, é reveladora, ao transformar o controlo em alegação testável, sustenta Regilme, frisando que fogo amigo “é, regra geral, uma cadeia de acontecimentos: sistemas de identificação, comunicações e decisões tomadas em frações de segundo, num campo de batalha congestionado”, o que “sinaliza risco de escalada, e não apenas uma falha técnica”.

Ora, erros visíveis reforçam as reservas entre os aliados e corroem o apoio público, prejudicando a diplomacia. Por outro lado, a escalada torna os erros mais frequentes e um promotor da paz não terá autoridade, se a guerra que acompanha estiver desorganizada.

Muitos países lamentam que as negociações entre os EUA e o Irão sobre o seu programa nuclear e capacidade de mísseis não tenham tido sucesso, antes de Washington e Israel iniciarem os bombardeamentos, bem como o facto de Washington não ter procurado a aprovação do Conselho de Segurança da ONU, como tentou para a guerra do Iraque, em 2003.

É de anotar que a impulsividade e incoerência de Trump, embora sejam resultado de decisões políticas, dificultam o impacto da diplomacia, a ponto de se duvidar de que o Conselho de Paz seja para levar a sério. No caso, o único verdadeiro aliado dos EUA será Israel.

O Irão atacou todos os países do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG). E, além dos ataques a bases militares dos EUA, em muitos destes países, atingiu locais civis, incluindo aeroportos, hotéis e importantes infraestruturas de petróleo e de gás natural. Em contraponto, as defesas aéreas do Golfo foram, em grande parte, eficazes contra os mísseis iranianos, evitando danos catastróficos, mas os drones iranianos revelaram-se mais difíceis de repelir.

Os países do Golfo acreditavam que a presença de bases militares dos EUA nos seus territórios se traduziria em apoio de segurança norte-americano, em especial, contra os ataques feitos ou apoiados pelo Irão. Como Washington quer reduzir a sua presença militar no Médio Oriente, os governos do Golfo temem que as forças dos EUA não os defendam em caso de necessidade.

O Conselho de Paz e a guerra contra o Irão, liderados pelo mesmo homem, são duas faces da estratégia regional de Trump, que pretende impor a paz pela força, acreditando que o seu projeto de paz de Trump não inclui o Irão na forma atual. Ou seja, na perspetiva de Trump, esta guerra não é incompatível com o seu plano de paz, que não visa a paz em si, mas a paz concebida para servir os interesses dos EUA (no quadro da sua estratégia de segurança nacional) e dos seus aliados, promovendo e alargando o comércio e o desenvolvimento económico.

Os países do Golfo, especialmente, após os ataques iranianos, têm dado a entender que alinham com Washington, na oposição ao Irão. Já as discordâncias, por parte dos países europeus, das políticas do inquilino da Casa Branca são substanciais, sobretudo, devido ao aumento dos preços da energia. Porém, as ações do Irão poderão arrastá-los para o conflito, obrigando-os a eventual aliança aos EUA e a Israel contra o Irão.

Entretanto, a diplomacia insiste nos apelos ao alívio das tensões regionais e ao debate sobre a legalidade e sobre os objetivos da campanha dos EUA e de Israel. Com efeito, numa guerra de alta intensidade, uma arquitetura de paz raramente interrompe os combates, mas reduz a margem para erros de cálculo catastróficos, protege o acesso humanitário e influencia as negociações sobre o que vem depois do bombardeamento.

O Kremlin manifestou dúvidas sobre como o Conselho de Paz vai trabalhar com o Conselho de Segurança da ONU. Na verdade, o presidente dos EUA pretende que a estrutura que erigiu sirva para gerir vários conflitos globais, tradicionalmente supervisionados pela ONU. Por outro lado, essa estrutura foi aprovada pelo Conselho de Segurança da ONU, com mandato limitado, para Gaza e até 2027. Nestes termos, tem legitimidade internacional, mas circunscrita.

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Face ao exposto, é de supor que o Conselho de Paz não passará de um nado morto. Não é viável um mesmo homem (intempestivo e errático) liderar, simultaneamente, a guerra e a estrutura pacificadora e fazer a guerra comercial em todas as direções, a par de ameaças belicistas, à mistura com acordos, no interesse pessoal e do do seu país. É, pois, legítimo o ceticismo, quanto à eficácia e à pureza de intenção com que foi criado um Conselho de Paz, que, afinal, desiste da paz. E não se percebe como os seus membros aceitaram a liderança de Trump, após o termo do seu mandato presidencial, quando a vigência do Conselho cessará em 2027.

2026.05.27 – Louro de Carvalho

Não foram apenas os EUA que reduziram o apoio à ajuda humanitária

 

A 16 de maio, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou emergência de saúde pública de âmbito internacional o surto grave de Ébola (causado pelo vírus Bundibugyo) cujo centro é a República Democrática do Congo (RDC) e que, tendo já provocado, de acordo com os dados mais recentes da OMS, 220 mortes suspeitas e mais de 900 casos suspeitos, testa a resposta de saúde, fragilizada pelos cortes na ajuda internacional e pelos conflitos armados.

Em artigo intitulado “Ajuda externa em 2025: que países mais cortam e quem lidera agora”, publicado pela Euronews, a 26 de maio, Marta Iraola Iribarren, observa que “países, em todo o Mundo, cortam nos orçamentos de ajuda humanitária, alterando a resposta global a emergências e [a] crises de saúde pública”.

Manenji Mangundu, diretor nacional da Oxfam na RDC, sustenta que o surto em causa “atinge um país já levado ao limite” e explica: “O conflito contínuo e anos de cortes na ajuda aprofundaram uma crise humanitária de proporções impressionantes: uma em cada quatro pessoas passa fome. Os cortes na ajuda deixaram a RDC praticamente exposta ao Ébola, enfraquecendo os sistemas de vigilância que deveriam ter detetado este surto, semanas antes.”

Por sua vez, o Comité Internacional de Resgate (IRC) advertiu que os cortes no financiamento deixaram a região perigosamente exposta. “Anos de subinvestimento e cortes recentes no financiamento deixaram muitas unidades de saúde sem equipamento de proteção adequado, capacidade de vigilância ou apoio de primeira linha necessário para responder, de forma rápida e segura”, afirmou Heather Reoch Kerr, diretora nacional do IRC na RDC, frisando que atividades anteriormente financiadas por doadores, incluindo o fornecimento de kits de equipamento de proteção individual (EPI) às unidades de saúde, foram significativamente reduzidas e muitas estruturas nas áreas afetadas funcionam sem material de proteção básico.

Refere Iraola Iribarren que, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), 239 milhões de pessoas carecem de assistência humanitária urgente, em 2026, depois de um 2025 marcado por cortes severos nas operações humanitárias e pelo número recorde de ataques mortais contra trabalhadores humanitários. É certo que, nos últimos 50 anos, a ajuda internacional tem aumentado, de forma constante, atingindo níveis recorde em 2023. Porém, como as necessidades cresceram, os cortes na ajuda externa afetam vários países e organizações de saúde.

Em 2023, a Ajuda Pública ao Desenvolvimento (APD) proveniente dos 33 países membros do Comité de Ajuda ao Desenvolvimento da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) ascendeu a 197 mil milhões de euros. Em 2024, este montante desceu para 185 mil milhões de euros, a primeira queda, após cinco anos de crescimento, e, em 2025, recuou ainda mais, para 142 mil milhões de euros.

A jornalista, vincando que, embora some milhares de milhões de euros, por ano, a ajuda humanitária, concentra-se num pequeno grupo de grandes doadores. E regista que os maiores doadores, em termos de volume, são a Alemanha, os Estados Unidos da América (EUA), o Reino Unido, o Japão e a França, enquanto um pequeno grupo de países do Norte da Europa continua a consagrar à causa as maiores parcelas do rendimento nacional.

Em 2025, aqueles cinco países foram responsáveis por 95,7% da diminuição total da APD, segundo a OCDE. Só os EUA representaram três quartos dessa queda (iniciada em 2023), com a sua ajuda a recuar 56,9%, face a 2024, a maior redução, em volume, registada por qualquer doador, num só ano. Apesar dos cortes, os mesmos cinco doadores continuaram a dominar o financiamento, em 2025, respondendo, em conjunto, pela grande maioria dos fluxos de ajuda. Contudo, os seus orçamentos reduzidos diminuíram, de forma significativa, os recursos globais disponíveis para os países de baixo e médio rendimento.

Em proporção do rendimento nacional bruto (RNB), a Noruega, o Luxemburgo, a Suécia, a Dinamarca e os Países Baixos contribuem com as maiores quotas.

Além dos contributos nacionais, a União Europeia (UE) e os seus 27 estados-membros também contribuem, através de mecanismos específicos. Aliás, em conjunto, a UE e os seus 27 estados-membros são os maiores doadores mundiais de ajuda humanitária, tendo representado 40% da assistência humanitária global em 2025.

O orçamento plurianual da UE para 2021-2027 inclui uma rubrica específica para ajuda humanitária, com 11,57 mil milhões de euros atribuídos para os sete anos, cerca de 1,65 mil milhões de euros, por ano. E o orçamento para 2028-2034 está em negociação.

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Os EUA reduziram, drasticamente, a ajuda humanitária, em 2025, tendo muitos países da UE seguido o exemplo, para redirecionarem os fundos para o mercado interno e para crises mais próximas, como a da Ucrânia.

O financiamento humanitário tem vindo a diminuir desde 2023, revelando quão vulnerável é aos caprichos políticos do momento. O maior golpe nas despesas externas ocorreu em 2025, quando o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, anunciou que 83% dos programas da USAID – a agência de desenvolvimento internacional do país – seria cancelado.

A situação é similar em todo o Mundo. Com efeito, segundo dados recentes do Financial Tracking Service (FTS), entre 2025 e 2026, o financiamento humanitário global total desceu, drasticamente, de cerca de 23,97 mil milhões de euros para, aproximadamente, 7,34 mil milhões de euros. Atualmente, a UE e os seus estados-membros são responsáveis por mais de 40% da ajuda ao desenvolvimento a nível mundial, enquanto os EUA representam 28,3%. A Suécia é o maior doador dos membros da UE, financiando 9,9% da quota global, seguida pela Alemanha, com 6,9%.

Entretanto, no final de 2025, a Alemanha anunciou que reduziria o orçamento para a ajuda humanitária para 10,06 mil milhões de euros, uma queda de 251 milhões de euros, em comparação com 2025, e um declínio de quase 20%, desde 2023. “Reduzir as próprias despesas para o nível mais baixo dos últimos 10 anos, nesta situação dramática, é simplesmente inaceitável”, disse, em comunicado, Åsa Månsson, diretora-geral da VENRO, a organização que agrupa as organizações não governamentais (ONG) de desenvolvimento, na Alemanha.

Também a Suécia anunciou um corte de cerca de 930 milhões de euros (10 mil milhões de coroas) no financiamento para o desenvolvimento, destinado a Moçambique, ao Zimbábue, à Libéria, à Tanzânia e à Bolívia, optando por reafetar os fundos à Ucrânia. Esta medida, como referem os serviços do governo sueco, insere-se no quadro de “uma estratégia cujos princípios orientadores são a rentabilidade, as novas abordagens transformadoras e a inovação”.

A situação é semelhante entre as organizações internacionais, que assistem à redução generalizada dos seus orçamentos para o desenvolvimento internacional. O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), o Programa Alimentar Mundial (PAM) e o Fundo Central de Resposta a Emergências (CERF) são as três principais organizações a receber mais fundos em 2026, mas os seus recursos diminuíram, em comparação com 2025.

Em todo o Mundo, a saúde e a segurança alimentar representam a maior parte do financiamento.

A maior parte da ajuda humanitária da Europa é enviada para a Ucrânia (607,7 milhões de dólares). Todavia, os números exatos poderão vir a sofrer alterações, à medida que a UE desenvolve as negociações sobre o seu orçamento para o período de 2028 a 2034, devendo aumentar 75% a parte do orçamento da UE dedicada ao desenvolvimento denominada “Europa Global”. Metade desta iniciativa orçamental será dedicada à Ucrânia, enquanto 43,2 mil milhões de euros serão destinados a outros países candidatos à adesão ao bloco.

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Os cortes na ajuda ao desenvolvimento podem ter efeitos catastróficos. Na verdade, cerca de 22,6 milhões de pessoas poderão morrer, até 2030, em 93 países de baixo e médio rendimento, caso se mantenham os cortes na ajuda internacional, incluindo 5,4 milhões de crianças com menos de cinco anos, de acordo com um estudo divulgado no início de março deste ano.

À medida que os maiores doadores mundiais continuam a cortar milhares de milhões de dólares na ajuda pública ao desenvolvimento (APD), o estudo do Instituto de Saúde Global de Barcelona (ISGlobal), financiado pela Fundação Rockefeller e publicado na revista The Lancet, estima mais 22,6 milhões de mortes, até 2030, se a tendência se mantiver. A análise centra-se em 93 países afetados pela redução dos financiamentos e onde vivem, no total, 6,3 mil milhões de pessoas – 75% da população mundial. Para quantificar as consequências, os investigadores recorreram a duas décadas de dados, entre 2002 e 2021, simulando resultados em diferentes cenários de financiamento. “Não queremos aceitar isto como a nova normalidade, não queremos aceitar esta situação, esta redução constante”, declarou Davide Rasella, do ISGlobal e coordenador do estudo.

Em 2023, o total da APD atingiu 250,3 mil milhões de dólares (212,3 mil milhões de euros) – o valor mais elevado de sempre –, com a França, a Alemanha, o Japão, o Reino Unido e os EUA a contribuírem, em conjunto, com cerca de 70% do montante. Todos estes grandes doadores, exceto o Japão, reduziram a sua contribuição para a APD, em 2024, pela primeira vez, em três décadas. No total, a ajuda internacional caiu, pela primeira vez, em seis anos.

Os EUA foram o primeiro país a desmantelar a sua agência de desenvolvimento internacional, a USAID, em 2025, mas seguiram-se cortes noutros países. Assim, o Fundo Global de Luta contra a síndrome da imunodeficiência adquirida (SIDA), a Tuberculose e a Malária, que organiza, de dois em dois anos, a reposição de fundos, para angariar financiamento, registou a forte quebra, no financiamento, de 15,7 mil milhões de dólares, em 2022, para 11,34 mil milhões, em 2025. Alguns doadores, como a UE, ainda não especificaram o montante que irão prometer. E Rasella adiantou que, se se restaurar o nível de financiamento, “milhões de pessoas vão mesmo morrer”, sendo o próximo desafio decidir como alocar o dinheiro que resta.

O estudo mostra que, entre 2002 e 2021, os programas de ajuda pública ao desenvolvimento contribuíram para reduzir em 39% a mortalidade infantil e para evitar 70% das mortes por VIH (vírus da imunodeficiência humana) / SIDA e diminuir em 56% as mortes, por malária e por carências nutricionais.

A equipa de investigação projetou dois cenários para analisar como as tendências de cortes no financiamento podem afetar a saúde e o desenvolvimento globais, até 2030. No cenário de retirada de financiamento moderado, com redução de 10,6% (média dos cortes dos dois últimos anos), os cortes podem traduzir-se em 9,4 milhões de mortes evitáveis, incluindo 2,5 milhões de crianças com menos de cinco anos. Porém, no cenário de retirada de financiamento severo, em que os cortes continuam a agravar-se, podem causar mais de 22,6 milhões de mortes adicionais, incluindo 5,4 milhões em crianças com menos de cinco anos. “Pelo menos, três em quatro pessoas, no planeta, vivem em países onde duas décadas de progressos no desenvolvimento podem ser revertidas, os avanços no combate às doenças desaparecem e podem ocorrer perdas de vidas que seriam evitáveis”, referem os investigadores, frisando que estas projeções não são previsões exatas da mortalidade, em 2030, mas comparações relativas entre trajetórias de financiamento, concebidas para isolar o impacto das alterações na APD.

Os cortes no financiamento, além de afetarem a prestação de cuidados de saúde, limitam o número de médicos no terreno e a troca de informação entre países.

Os investigadores defendem que muitos dos benefícios da APD chegam por vias menos visíveis. Há muitos aspetos a considerar, incluindo a vigilância epidemiológica e a preparação para epidemias e choques relacionados com o clima. “O estudo mostra que uma parte da razão pela qual fazemos isto [ajuda internacional] é porque salva vidas numa escala incrível, para o montante que está a ser gasto”, disse Eric Pelofsky, vice-presidente para a recuperação económica global na Fundação Rockefeller, acrescentando que investir no desenvolvimento traz estabilidade e prosperidade de que todo o Mundo pode beneficiar.

Segundo Pelofsky, uma parte importante do problema está na forma como a ajuda externa é enquadrada na política interna, muitas vezes, como escolha entre gastar dentro de portas e gastar em questões apresentadas como distantes do interesse nacional. “A verdade é que gastar dinheiro no estrangeiro é, muitas vezes, pensado para proteger as pessoas, no próprio país, ou para promover uma economia mundial ou uma estabilidade global, que são valiosas para essas mesmas pessoas”, explicou o perito.

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Não há vacinas, nem tratamentos disponíveis para o vírus Bundibugyo. No entanto, a UE está a contribuir com 7,4 milhões de euros para o desenvolvimento de vacinas e de tratamentos, em colaboração com a OMS, no âmbito de um plano de investigação e desenvolvimento, destinado a acelerar os ensaios clínicos. Ao mesmo tempo, a UE e a UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância) enviaram 100 toneladas de ajuda humanitária para a província de Ituri, na RDC, para apoiar a resposta ao surto de Ébola. O carregamento inclui medicamentos essenciais, material para a prevenção e controlo de infeções, equipamento de proteção individual, material para o tratamento da cólera e da malária, tendas de alta resistência e equipamento relacionado.

A ajuda, que partiu, a 25 de maio, de Liège, na Bélgica, deverá apoiar cerca de 100 mil pessoas afetadas pelo surto. E, segundo a comissária europeia para a Preparação e Gestão de Crises, Hadja Lahbib, a ajuda também beneficiará cinco milhões de pessoas que dependem, em grande medida, da ajuda humanitária, das quais um milhão são deslocados e “estão espalhados por cerca de 60 campos”.

A comissária Lahbib, a 17 de maio, afirmou que este surto representa um “perigo para a região, para o país e para os países vizinhos”.

Segundo a Comissão Europeia, a UE está a coordenar, na questão das vacinas, as suas abordagens em matéria de prevenção e preparação com os Centros Africanos de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC África), com a OMS e com os estados-membros da UE, através do Comité de Segurança Sanitária (HSC).

Desde o primeiro surto registado em 1976, a RDC registou 17 surtos de Ébola, nove dos quais nos últimos 16 anos. Ora, como a doença se propaga pelo contacto direto com os fluidos corporais de doentes sintomáticos, o Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC) afirma que a probabilidade de transmissão a pessoas que vivem na UE e no Espaço Económico Europeu (EEE) continua baixa.

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Os conflitos, em vez de desarmarem, multiplicam-se; a destruição, as epidemias, a fome e a morte não se fazem esperar; e as ONG não desistem. Porém, os governos e os ricos têm outras prioridades: lucro, prestígio, fama e poder.

2026.05.26 – Louro de Carvalho