O
Dia Internacional dos Povos Indígenas do Mundo é celebrado a 9 de agosto,
anualmente, e pretende chamar a atenção para a existência de 370 milhões de
indígenas no Mundo.
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Originariamente,
indígenas eram os que habitavam um território, em contraposição com o invasor
ou colonizador (autointitulado de civilizador, mas que era explorador de
pessoas, que julgava inferiores, e de recursos). Porém, em muitos casos, houve
miscigenação e até assimilação, de modo que, na maior parte dos casos, é difícil
encontrar cidadãos de autoctonia pura. Há efetiva mistura de sangues e de
culturas. Portugal é exemplo disso.
Atualmente,
“indígenas” – ou aborígenes, originários, autóctones, nativos e, em alguns
lugares, índios – são pessoas que viviam e vivem numa área geográfica populacional,
desde antes da colonização por povos estrangeiros, ou pessoas que, após a
colonização da região em que ainda residem, não se identificam com o colonizador
e têm cultura própria diferenciada, mantendo um modo de vida ligado ao meio
ambiente natural em que vivem. Os povos indígenas incluem povos muito
diferentes espalhados por todo o Mundo, que têm, em comum, o facto de cada um
se identificar com uma comunidade específica, diferente da cultura colonizadora.
São
descritos como indígenas, se mantêm tradições e outros dados de cultura
primitiva associada a determinada região. Todavia, nem todos os povos indígenas
compartilham tal característica, pois muitos foram forçados a adotar elementos
substanciais da cultura colonizadora, como roupas, religião ou idioma. Os povos
indígenas podem ser assentados numa região (sedentários) ou exibir estilo de
vida nómada num grande território, mas estão, em geral, historicamente
associados a um território específico. Os povos indígenas vivem em todas as
zonas climáticas habitadas e continentes do Mundo, exceto na Antártida.
A
degradação do ambiente, as deslocações em resultado de conflitos e de
violência, a apropriação ilegal das suas terras e as catástrofes naturais,
fazem parte da realidade dos povos indígenas, que lutam, diariamente, pelo
reconhecimento dos seus direitos, dos territórios em que habitam, dos seus
recursos e da sua forma de vida, que é única.
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Em
2026, o tema do Dia Internacional dos Povos Indígenas do Mundo é “Homenagem às
parteiras indígenas: salvaguardar a vida e o bem-estar”, como oportunidade para
reconhecer o seu papel, enquanto detentoras de conhecimento e prestadoras de
cuidados, para reafirmar o valor duradouro dos sistemas de conhecimento
indígenas, na salvaguarda da vida, e para promover abordagens culturalmente
adequadas ao bem-estar das gerações futuras.
Este
Dia foi proclamado pela Resolução 49/214 adotada na Assembleia Geral da Organização
das Nações Unidas (ONU), a 23 de dezembro de 1994, e publicada a 17 de
fevereiro de 1995. A Assembleia Geral considerou, como um dos propósitos da ONU,
“a realização da cooperação internacional na solução de problemas
internacionais de caráter económico, social, cultural ou humanitário” e na
promoção do “respeito pelos direitos humanos e pelas liberdades fundamentais de
todos, sem distinção de raça, sexo, idioma ou religião”; reconheceu “o valor e
a diversidade das culturas e das formas de organização social dos povos
indígenas”, bem como a necessidade de melhorar a sua “situação económica,
social e cultural”, “com pleno respeito pela sua especificidade e pelas suas
próprias iniciativas”; e definiu o objetivo de fortalecer a cooperação
internacional para a solução de problemas dos povos indígenas, em áreas, como
direitos humanos, meio ambiente, desenvolvimento, educação e saúde”.
Percebeu
a importância da criação de um fórum permanente para os povos indígenas, no
âmbito do sistema das Nações Unidas”, e recordou que a Comissão de Direitos
Humanos, pela sua resolução 1994/28, de 4 de março de 1994, solicitou ao Grupo
de Trabalho que priorizasse a criação desse fórum permanente.
Frisou
a importância da consulta e da cooperação com os povos indígenas, no planeamento
e na implementação dos programas de atividades da ONU, e mostrou-se convicta de
que o desenvolvimento dos povos indígenas, nos respetivos países, contribuirá
para o progresso socioeconómico, cultural e ambiental de todos os países do Mundo,
visto que os povos indígenas podem e devem ter condições, por meio de
mecanismos apropriados, de dar as suas contribuições distintas à Humanidade, pelo que se torna imperioso o
reconhecimento e o fortalecimento do papel dos povos indígenas e das suas
comunidades.
Assim,
a fim de promover o exercício dos direitos dos povos indígenas e o
desenvolvimento das suas culturas e comunidades distintas, decidiu que o “Dia
Internacional dos Povos Indígenas do Mundo” seja celebrado, anualmente, na década
de 1995-2005, a 9 de agosto, e solicitou ao secretário-geral que apoiasse a
celebração do Dia, usando recursos orçamentários existentes, e incentivou os governos
a celebrarem o Dia a nível nacional.
Recomendou
atenção especial à melhoria da abrangência e da eficácia da participação dos
povos indígenas no planeamento e na implementação das atividades da década.
Solicitou
aos representantes das Nações Unidas nos países onde existam povos indígenas
que promovam, por meio de canais apropriados, uma maior participação desses
povos no planeamento e na implementação de projetos que os afetem.
Solicitou
ao Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos que levasse em conta
as preocupações específicas dos povos indígenas e as metas da década, no
desempenho das suas funções, e ao subsecretário-geral para os Direitos Humanos
que, tendo em mente a contribuição que os povos indígenas têm capacidade de
oferecer, estabeleça uma unidade no âmbito do Centro de Direitos Humanos do
Secretariado para apoiar as atividades conexas com os povos indígenas, em
particular, para planear, coordenar e implementar atividades para a década,
convidando-o a considerar a nomeação de um responsável pela captação de
recursos que possa desenvolver novas fontes de financiamento.
Convidou
as instituições financeiras e de desenvolvimento da ONU, os programas
operacionais e as agências especializadas: a darem maior prioridade e recursos
à melhoria das condições dos povos indígenas; a lançarem projetos especiais, em
colaboração com os povos indígenas, para fortalecerem as suas iniciativas, a nível
comunitário, e facilitando a troca de informações e de conhecimentos entre os
povos indígenas e especialistas relevantes; e a designarem pontos focais para a
coordenação com o Centro de Direitos Humanos.
Incentivou
os governos a apoiarem a década, por meio de: contribuições para o Fundo
Fiduciário da ONU para a década; elaboração de programas, de planos e de relatórios,
em consulta com os povos indígenas; busca de meios, em consulta com os povos
indígenas, dando-lhes maior responsabilidade nos seus assuntos e voz efetiva
nas decisões sobre questões que os afetam; e criação de comités nacionais ou de
outros mecanismos que envolvam os povos indígenas, para se garantir o alcance dos
objetivos e atividades, através de planeamento e de implementação com base em
parceria plena com os povos indígenas.
Apelou
os governos a considerarem contribuir para o Fundo para o Desenvolvimento dos
Povos Indígenas da América Latina e do Caribe, tal como apelou aos governos e
às organizações intergovernamentais e não governamentais para que apoiassem a década,
identificando recursos para atividades destinadas a implementar os objetivos,
em cooperação com os povos indígenas.
Por
fim, incluiu na agenda da 50.ª sessão o “Programa de atividades da Década
Internacional dos Povos Indígenas do Mundo”. E o dinamismo da década 1995-2005 persiste.
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Em
2007, a ONU aprovou a Declaração sobre os Direitos dos Povos Indígenas (UNDRIP),
para orientar as políticas dos estados-membros sobre os direitos dos povos
indígenas, incluindo cultura, identidade, idioma, emprego, saúde, qualidade de
vida, educação e recursos naturais, apesar de tais direitos serem constantemente
violados. A declaração não inclui uma definição de povos indígenas e considera
que a autoidentificação é o critério fundamental.
Não
obstante, para a convenção n.º
169 Organização Internacional do Trabalho (OIT), “as comunidades,
os povos e as nações indígenas são os que, contando com uma continuidade
histórica das sociedades anteriores à invasão e à colonização, desenvolvida nos
seus territórios, se consideram distintos de outros setores da sociedade e
estão decididos a conservar, a desenvolver e a transmitir às gerações futuras os
seus territórios ancestrais e a sua identidade étnica, como base da sua
existência continuada, como povos, em conformidade com os seus próprios padrões
culturais, as instituições sociais e os sistemas jurídicos.”
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Os
povos indígenas repartem-se por 90 países, constituindo 5% da população global
e 15% do total da população mais pobre, mas, culturalmente, muito rica.
Detêm linguagem e cultura próprias que os distinguem das sociedades ditas desenvolvidas.
Na
maior parte da Oceânia, superam os descendentes de colonos. As exceções incluem
a Austrália, a Nova Zelândia e o Havaí. Os Maoris da Nova Zelândia representam
14,9% da população total, e menos da metade (46,5%) dos residentes Maoris
identificam-se apenas como Maoris. São indígenas da Polinésia, que se
estabeleceram na Nova Zelândia, há relativamente pouco tempo, com migrações que
terão ocorrido no século XIII.
A
maioria da população da Papua Nova Guiné (PNG) é indígena, com mais de 700
etnias diferentes reconhecidas numa população total de oito milhões, que fala
cerca de 850 idiomas.
Na
Austrália, as populações indígenas são os povos aborígenes australianos (compreendendo
muitas sociedades diferentes) e os das ilhas do Estreito de Torres. Os
aborígenes australianos, assim como os grupos indígenas, são a população que
foi vítima de massacres pelos colonizadores e discriminados pelos ditos
civilizados. Os Ingleses foram os grandes responsáveis por esses massacres. Agora,
os aborígenes correspondem a 1% da população australiana.
Os
povos indígenas do continente americano são os grupos e os seus descendentes
que habitavam ali, antes da chegada dos colonizadores europeus. Procuram manter
modos de vida tradicionais e vivem desde o alto Ártico, ao Norte, até aos
extremos meridionais da Terra do Fogo. Durante a colonização, os nativos foram
escravizados e contaminados com novas doenças, implicando a diminuição significativa
da população indígena. Os impactos da contínua colonização europeia e das
Américas sobre os indígenas foram severos, estimando-se faixas de declínio
populacional significativo, sobretudo, devido a doenças, a roubo de terras e a violência.
Vários povos foram extintos ou quase extintos. Porém, há comunidades indígenas
prósperas e resilientes, face às perseguições dos Estados que ocupam os seus
territórios.
No
Brasil, os indígenas são reconhecidos como uma das comunidades tradicionais, e a
sua presença no território é de cerca de 12 mil anos anterior à ocupação
territorial pelos colonizadores que chegaram ao território, hoje chamado Brasil
(antes, denominado “Pindorama” ou “Terra das Palmeiras”, na língua tupi). A população
indígena variará entre três e cinco milhões de habitantes, com etnias de
diferentes filiações linguísticas, entre as quais se contam os Panos, os
Caribes, os Tupi-guaranis, os Jês e outros. O processo de união de negros e
indígenas num só espaço precarizado com objetivo eugenista, entre outros fenómenos
de apagamento cultural, levaram à favelização. No entanto, as Reservas
Indígenas são áreas federais reservadas aos indígenas para lhes servirem de
meio de subsistência e para a sua conservação cultural.
Na
Europa, a maioria dos grupos étnicos são nativos da região, no sentido de a terem
ocupado por muitos séculos ou milénios. Porém, as populações indígenas atuais são
poucas e estão confinadas, principalmente, ao Norte e ao Extremo Oriente. As populações
indígenas notáveis da Europa reconhecidas pela ONU incluem os Fino-úgricos, os
Nenets, os Samoiedos e os Cómis, no Norte da Rússia; os Circassianos, no Sul da
Rússia e no Norte do Cáucaso; os Tártaros da Crimeia; os Sámis do Norte da Noruega,
da Suécia e da Finlândia e do Noroeste da Rússia (na área conhecida por Sápmi);
e os Inuítes da Gronelândia.
A
conquista russa da Sibéria foi acompanhada de massacres. Alguns povos, como os Daur,
foram massacrados pelos Russos. Dos 20 mil habitantes de Kamchatka, sobreviveram
oito mil. Em 1864, ocorreu o genocídio circassiano, que matou entre um milhão e
1,5 milhão e deportou outro milhão. E, no século XX, ocorreram vários episódios
de genocídio de minorias indígenas, como parte de políticas de limpeza étnica.
O Império Otomano cometeu-o contra as minorias arménia, assíria e grega. Programas
de extermínio da Alemanha nazi atingiram Judeus, Ciganos e Polacos. A União
Soviética destruiu população indígena ucraniana, gizou políticas de transferência
populacional que afetaram as populações vainakh e deportou povos bálticos.
Na
África pós-colonial, o conceito de povos indígenas ganhou maior aceitação,
embora não sem controvérsia. Os numerosos grupos étnicos que constituem a
maioria dos Estados africanos independentes têm vários povos cujos status,
culturas e estilos de vida de pastoreio ou caçador-coletor são isolados das
estruturas políticas e económicas dominantes, mas, desde o final do século XX, têm
obtido, cada vez mais, o respeito pelos seus direitos.
Na
Ásia, o povo nivkh é um grupo étnico indígena Sakhalin, com falantes da língua
nivkh, mas a sua cultura pesqueira está em perigo, por causa do campo de
petróleo. Na Indonésia, entre 50 e 70 milhões de pessoas são classificadas como
povos indígenas, mas o governo não reconhece os povos indígenas. Nas Filipinas,
há 135 grupos etnolinguísticos, a maioria dos quais são considerados povos
indígenas pelos principais grupos étnicos indígenas do país. Os povos indígenas
da Cordilheira e do Vale Cagayan, nas Filipinas, são os Igorot. Os povos
indígenas de Mindanau são os povos Lumad e Moro, que também vivem no Arquipélago
de Sulu. Existem, igualmente, grupos de povos indígenas em Palawan, em Mindoro,
em Visayas e no resto do Centro e do Sul de Luzon. Em Mianmar, os povos
indígenas incluem os Shan, os Karen, os Rakhine, os Karenni, os Chin, os Kachin
e os mmon. Porém, há mais etnias consideradas indígenas, por exemplo, os Akha, os
Lisu, os Lahu ou os Mru, entre outros.
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O
9 de agosto, criado para celebrar a diversidade, é oportunidade para alertar
para os perigos que assombram essas comunidades, das mais vulneráveis. Na
África e na Ásia, a exploração de recursos e o roubo de terras são as grandes
ameaças aos povos indígenas, cujo maior desafio é a falta de segurança
jurídica e de proteção dos seus territórios, sobretudo, contra a exploração de
recursos. A América Latina é a região mais perigosa, para os defensores destes
povos e do direito à terra. Tendo o Brasil a população indígena mais expressiva
é dos países onde as ameaças a estas comunidades mais sobressaem. A maior parte
dos assassínios de lideranças indígenas resulta da violência de grupos que
invadem e exploram os seus territórios.
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Há
muito a fazer no respeito pela dignidade de todas as pessoas e povos.
2026.08.09
– Louro de Carvalho