segunda-feira, 13 de abril de 2026

Péter Magyar é o novo primeiro-ministro da Hungria

 

Nas eleições de 12 de abril, as mais participadas da História recente da Hungria e das que tiveram o mais rápido desfecho, o Tisza (Partido Respeito e Liberdade), liderado por Péter Magyar, foi o vencedor, com Viktor Orbán, líder do Fidesz (União Cívica Húngara), a reconhecer a derrota, ainda antes de a contagem dos votos ter chegado ao fim, e a dar os parabéns a Péter Magyar, que festejou a vitória com milhares de apoiantes que saíram às ruas.

Em conferência de imprensa, Viktor Orbán, primeiro-ministro em exercício, disse que o “resultado das eleições é doloroso, mas é inequívoco”. E o chefe do governo, durante 16 anos, garantiu, no discurso de derrota, que vai continuar a servir o país, mesmo “na oposição”. Já o presidente do Tisza, Péter Magyar, discursando perante os milhares de apoiantes que saíram às ruas, em Budapeste, celebrou a vitória, frisando que este é um “mandato sem precedentes”, pois o seu partido vai ter dois terços, no Parlamento.

O vencedor declarou que “o Tisza e a Hungria venceram esta eleição, não por pouco, mas por muito”, o que significa derrube do regime de Orbán e libertação da Hungria. É, na sua ótica, uma vitória que “é visível, não apenas da lua, mas de todas as janelas da Hungria”.

Às 6h00, os eleitores começaram a acorrer às urnas, que encerraram às 19h00, protagonizando um ato eleitoral seguido por toda a Europa, pelos Estados Unidos da América (EUA) e pela Rússia. As ramificações da União Europeia (UE), para Vladimir Putin, são muitas.

A participação dos húngaros nas eleições atingiu os 77,8% até às 18h30, segundo o balanço oficial divulgado meia hora antes da votação terminar. É um recorde de participação e um aumento significativo, face aos 62% na última eleição há quatro anos.

No site da Comissão Eleitoral, ao final da noite, o Tisza seguia à frente com mais de 90% dos votos contabilizados. Por conseguinte, o partido vencedor elegerá 138 deputados, em 199 (o que lhe garante a maioria absoluta no Parlamento que é de 100 deputados), enquanto o Fidesz de Viktor Orbán terá 55 parlamentares. O partido de extrema-direita Nossa Pátria deverá entrar com seis deputados. E a Coligação Democrática (DK), de esquerda, não deverá eleger ninguém.

A Hungria tem o sistema eleitoral de uma volta, em que o partido ou a coligação que obtiver o maior número de lugares deverá formar governo. Dos 199 lugares do Parlamento, 106 são eleitos em círculos eleitorais uninominais e os restantes 93 são atribuídos através de listas partidárias. Os cidadãos húngaros que vivem no estrangeiro também podem votar.

Não há sondagens à boca das urnas, apenas são divulgados resultados das últimas.

No Facebook, Magyar, informou que Orbán lhe ligou e lhe deu os parabéns pela vitória eleitoral. Depois de votar, o então líder da oposição disse que estava certo de que o Tisza venceria e que acreditava que haveria mudança no topo da política. Mais tarde, após o fecho das urnas, o então candidato da oposição falou aos apoiantes e aos jornalistas, mostrando-se otimista, face aos números, mas pediu calma. Não queria ganhar as sondagens, mas as eleições.

Após campanha de ataques pessoais, de assédio e de incidentes isolados de violência, as urnas abriram, para o que os analistas descrevem como referendo a 16 anos de governo.

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Viktor Orbán, que governava com supermaioria parlamentar, desde 2010, enfrentava, desta vez, o maior desafio da sua carreira política com o antigo aliado, Péter Magyar. E o analista político Szabolcs Dull, antes da votação, sustentava que esta era a primeira eleição em que havia verdadeiro risco, visto que Viktor Orbán, tendo ganho, consistentemente, por grandes margens, em grande parte, devido à fragmentação oposicionista, enfrentava, agora, um único adversário que, de acordo com as sondagens, era capaz de ganhar.

Sondagens recentes sugeriam forte vantagem para o Tisza, numa mudança histórica, e uma sondagem publicada, dias antes das eleições, pela empresa húngara Medián previa potencial maioria parlamentar de dois terços para a oposição. No entanto, fonte do partido de Orbán, o Fidesz, referiu à Euronews, sob anonimato, que o campo governamental estava confiante, aduzindo que os seus principais eleitores estão sub-representados nas sondagens.

Viktor Orbán é uma das figuras mais experientes da História política moderna da Hungria. Foi cofundador do Fidesz, aquando do colapso do comunismo, e ganhou proeminência, em 1989, após ter apelado à retirada das tropas soviéticas. E, com o regresso ao poder, em 2010, reformulou a Constituição, as instituições e o panorama mediático da Hungria.

Na cena europeia, emergiu como figura de proa da extrema-direita, conhecida pela sua posição sobre a “migração zero” e pelos frequentes confrontos com as instituições da UE. Já Péter Magyar rompeu com o governo, em 2024, na sequência do escândalo conexo com o perdão de um condenado num caso de abuso sexual de crianças, e fundou o partido Tisza, nesse ano, tendo obtido 30% dos votos nas eleições para o Parlamento Europeu (PE).

A campanha de Magyar centrou-se no trabalho de base, em especial, nas cidades mais pequenas e nas zonas rurais, onde o apoio ao seu movimento tem crescido. Prometeu mudança de governo e renovação da oposição. “A sua vantagem é que é o único adversário credível, consolidando um apoio que, anteriormente, estava dividido”, dizia Szabolcs Dull.

A votação foi acompanhada de perto em Bruxelas e noutras capitais europeias. Há muito que o governo de Orbán discorda da UE, recorrendo ao poder de veto. Em março, a Hungria bloqueou um pacote de empréstimos da UE, no valor de 90 mil milhões de euros para a Ucrânia, no âmbito da disputa sobre o gasoduto Druzhba, o que suscitou críticas de vários estados-membros. Por outro lado, Viktor Orbán tem mantido laços estreitos com o presidente russo.

Além da UE, a Hungria tornou-se ponto focal na disputa ideológica mais vasta entre forças nacionalistas e liberais democráticas. “Orbán promove o que descreve como ‘política patriótica’, posicionando-a em oposição à democracia liberal, diz Szabolcs Dull, vincando que a sua derrota será “revés simbólico para movimentos semelhantes, a nível internacional”.

Viktor Orbán tem recebido o apoio de várias figuras proeminentes da direita internacional, como o presidente dos EUA, Donald Trump. E o vice-presidente James David Vance, deslocou-se a Budapeste durante a campanha, juntamente com os líderes da extrema-direita Marine Le Pen, de França, e Matteo Salvini, de Itália.

Já Péter Magyar está alinhado com a esfera conservadora europeia, mesmo que não seja líder pró-europeu, no sentido liberal do termo. O Tisza integra o Partido Popular Europeu (PPE), o grupo de centro-direita no PE, e prometeu restaurar as relações da Hungria com a UE e com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO). E, embora nenhum líder estrangeiro o tenha apoiado, publicamente, recebeu o apoio de figuras de topo do PPE, incluindo o primeiro-ministro polaco, Donald Tusk, e o chanceler alemão, Friedrich Merz.

A campanha tem sido dominada por narrativas contrastantes. A oposição centrou-se nas preocupações internas, como os serviços públicos, o custo de vida e a corrupção. Ao invés, a campanha de Viktor Orbán centrou-se na política externa, em particular, na Ucrânia, advertindo que a sua adesão à UE traria riscos económicos e de segurança, e acusou a oposição de alinhamento com forças obscuras que procuram prolongar a guerra, com Péter Magyar a servir de líder fantoche de Bruxelas, asserções que o visado rejeita em absoluto.

O enquadramento de ambos os lados claro: Orbán apresenta a escolha entre a guerra e a paz; e Magyar aduz que a eleição é sobre a permanência de Orbán no poder.

Por outro lado, a campanha foi marcada por alegações de intimidação, de violência limitada e de alegações de interferência estrangeira. Em fevereiro, Magyar alegou que indivíduos ligados ao governo o tentaram comprometer com a armadilha de mel (a gravação, sem o seu conhecimento, de vídeo de cariz sexual com uma mulher), mas não foram apresentadas quaisquer provas. Pouco tempo depois, foram divulgadas gravações com o ministro dos Negócios Estrangeiros húngaro em conversações com o seu homólogo russo, sobre a possibilidade de exercer pressão na UE. E, de acordo com os analistas, vários serviços secretos podem ter tentado influenciar a campanha, através da divulgação de material prejudicial.

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“A Hungria quer voltar a ser um país europeu”, diz o novo primeiro-ministro da Hungria.

Com um discurso de menos de sete minutos, antes da queda do muro de Berlim, Viktor Orbán exigia a saída das tropas russas do país e a realização de eleições livres que restituíssem o país ao seu natural curso: a Europa. Desta feita, é Peter Magyar, de sobretudo azul estilo bocskai, como os membros da elite militar húngara do século XVIII, está a dizer quase o mesmo, ou seja, que é preciso fazer regressar a Hungria à sua posição ocidental, na NATO e na UE. E, a 12 de abril, pelo menos, três milhões e meio de húngaros acompanharam-no, nessa urgência. A derrota de Viktor Orbán é “dolorosa, mas inequívoca”, como ele a classificou.

No discurso de vitória, o líder do partido vencedor falou de milagre dos eleitores e do triunfo “sobre as mentiras”. Evocando John F. Kennedy, outro líder jovem que modificaria a definição de liderança democrática, em todo o Mundo, Péter Magyar disse que os Húngaros perguntaram não o que a Hungria podia fazer por eles, mas o que eles podiam fazer pela Hungria. “Perguntaram e deram a resposta”, vincou, bradando à multidão que se reuniu para o ouvir, em frente ao Parlamento: “Não temos medo! Não temos medo! Não temos medo!”.

Georgios Samaras, professor do King’s College de Londres, considera que a Hungria está “a deslocar-se num caminho mais pró-UE, potencialmente com uma maior convergência em partes da política externa, incluindo a Ucrânia”, mas que “não devemos esperar milagres”, já que, tendo o país passado por 16 anos de desenvolvimento autoritário, qualquer novo governo herdará esses instrumentos e os utilizará para arrancar o controlo ao Fidesz”. No entanto, “o reforço dos laços com a UE parece ser uma prioridade clara”, diz o especialista.

O documentário, “Tavaszi szél – Spring Wind” (“Ventos de Mudança”), que detalha a génese e a consolidação do Tisza (Partido Respeito e Liberdade e o nome de um rio húngaro), leva a perceber porque transbordou o Tisza. Logo na primeira manifestação que organizou, contra o indulto concedido pela então presidente, Katalin Éva Novac, ao cúmplice de um pedófilo, Magyar reuniu mais de 30 mil pessoas. Numa carrinha de caixa aberta pintada a spray, com as cores da bandeira húngara, iniciou uma campanha por todos os círculos eleitorais do país. Foi a primeira vez que alguém com a pretensão política de derrotar Orbán se aventurou num terreno conservador que lhe confiava o voto, pelo menos, desde 2010. Três anos bastaram para pôr fim a um partido e a um homem que já não consegue apaixonar os eleitores.

Com a maioria de dois terços confirmada, Magyar disse que o Tisza venceu a batalha de “David contra Golias”, porque o Fidesz “utilizou todos os meios ao seu alcance para tentar impedir” a vitória, e lembrou a polémica do início de abril, quando um polícia da brigada de investigação de cibercrime denunciou o plano do governo para prender membros da equipa de informática do Tisza por alegada suspeita da existência de pornografia infantil nos computadores.

A paralisia dos serviços públicos, a degradação de muitas infra estruturas do Estado, como hospitais e escolas, e a noção de que tudo era culpa de uma elite que ficava com boa parte dos fundos europeus foram as queixas mais ouvidas em conversa com eleitores.

O que Magyar sabe aprendeu-o com Orbán. Tinha um poster seu no quarto de adolescente. Em miúdo, via o canal parlamento com a avó. Quando casou com Judit Varga, em 2006, a mulher que havia de se tornar ministra da Justiça de Orbán, antes de cair, por ter assinado o referido indulto, com a presidente, passa para o Fidesz, que tratava bem os seus. E ter sido tão próximo do poder que derrotou, Magyar fez maior a sua vitória. Até a esquerda e o centro-esquerda, sem opções que pudessem derrotar Orbán, votou em massa em Péter Magyar.

Contudo, é difícil identificar o momento, a frase ou a promessa que levou os Húngaros a deixarem o homem que ensinou ao Mundo como controlar um país, mantendo eleições livres. E isso torna a vitória de Magyar tão significativa, servindo de prova de que é possível derrotar o iliberalismo, sistema de democracia híbrido com controlo do poder judicial, onde a quase totalidade dos meios de comunicação social é detida por uma fundação do Fidesz, os membros do Conselho para o Orçamento do Estado, que tem de o aprovar, são nomeados pelo executivo. Todavia, há oposição e os seus membros não são encarcerados por se manifestarem com folhas brancas na mão, como na Rússia, a quem Orbán se encostou demasiado.

Não obstante, o grito de revolta de 1956 – “Rússia, vai para casa!” – foi reiterado, nesta campanha, agora, dirigido a Orbán, bem como os “contracomícios” (inovação deste ano), em locais onde este ia falando, a mostrar onde os Húngaros não desejam estar.

A geopolítica alterou-se, mas Magyar, em vez dos temas externos, falava dos problemas das pessoas, como o preço da alimentação, as esperas nos hospitais, o estado das estradas e a corrupção, que suga recursos públicos e impede a melhoria das infraestruturas.

O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, foi constante presença na campanha eleitoral. Cartazes do Fidesz anunciavam que a Europa retira fundos à Hungria para os dar à Ucrânia e que Bruxelas estaria a preparar-se para deixar a Ucrânia entrar na UE, sem qualquer compensação aos países que mais poderiam sofrer com essa entrada. No entanto, apesar de referir que tenciona aproximar a Hungria da UE, a questão da Ucrânia não é tão simples.  Magyar opôs-se à aceleração do processo de adesão da Ucrânia à UE, rejeitou o envio de armas para Kiev e deu a entender que submeteria a referendo adesão à UE. O Tisza votou contra o empréstimo da UE à Ucrânia, no PE, apesar de a Hungria não ter de contribuir financeiramente. Os interesses de Budapeste devem estar em primeiro lugar e Magyar criticou a erosão dos direitos da minoria húngara, na Ucrânia.

Porém, Zelensky deu os parabéns a Magyar pela “vitória convincente” e espera uma “abordagem construtiva”.

Quanto à extrema-direita europeia, o declínio do Fidesz afeta o papel dos Patriotas pela Europa (partido europeu onde estão forças nacional-conservadoras da UE, como o Vox espanhol, o Chega português ou o Reagrupamento Nacional de França), pois esse grupo terá de apoiar-se, mais fortemente, noutras forças de relevo sem o Fidesz a governar.​​​​​​​​​​​​​

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A retumbante vitória do Tisza desferiu um golpe na ascensão da extrema-direita na Europa, mas resta saber qual a dimensão do golpe; representa opção clara pela UE, mas falta definir tal clareza; significa enfraquecimento da diplomacia dos EUA e da Rússia, mas convém verificar se não se trata de simples alfinetada. Enfim, resta saber se a esperança da recomposição física, social, moral, infraestrutural e política da Hungria será realidade e se as relações com os países de fronteira e com a UE (em prol do projeto europeu) conhecerão melhores dias.

2026.04.13 – Louro de Carvalho

“Misercordias Domini in aeternum cantabo”

 

O Papa São João Paulo II, no ano 2000, consagrou o termo da Oitava da Páscoa, o II domingo do tempo pascal – tradicionalmente designado por domingo in albis (em que os batizados na Vigília Pascal depunham a veste branca) e popularmente conhecido como domingo da pascoela – como “Domingo da Divina Misericórdia”. A liturgia deste domingo leva-nos a contemplar a comunidade de homens novos que nasce da cruz e da ressurreição de Jesus, a Igreja. No dia da ressurreição, Jesus ressuscitado, confia à sua comunidade a missão de testemunhar, no Mundo, o amor e a misericórdia de Deus.

Os primeiros discípulos contemplaram, no ressuscitado, as chagas da paixão (o ressuscitado é o mesmo que foi crucificado). A misericórdia do Senhor manifesta-se no cravejamento do Filho de Deus na cruz. E a ressurreição significa revolução da misericórdia ou Revolução dos Cravos. Os cravos desapareceram, mas os seus lugares puderam ser contemplados no corpo do ressuscitado.   

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O Evangelho (Jo 20,19-31) exibe a comunidade da Nova Aliança, nascida da ação criadora e vivificadora de Jesus e que se reúne à volta do ressuscitado, recebendo d’Ele Vida, sendo animada pelo Seu Espírito e testemunhando, no Mundo, a Vida nova de Deus. Quem quiser ver e tocar o ressuscitado, deve procurá-Lo na comunidade que d’Ele nasceu e que d’Ele vive.

Jesus foi crucificado na manhã de sexta-feira – dia da preparação da Páscoa – e morreu pelas três horas da tarde. Depois de morto, um soldado trespassou-lhe o coração com uma lança; e do coração aberto de Jesus saiu sangue e água. João vê, no sangue que sai do lado aberto, o sinal do seu amor dado até ao extremo: do amor do pastor que dá a vida pelas ovelhas, do amor do amigo que dá a vida pelos amigos; e vê, na água que sai do coração trespassado, o sinal do Espírito que Jesus entregou aos seus e que é fonte de Vida nova. Da água e do sangue, do batismo e da eucaristia, nasce a comunidade da Nova Aliança. Contudo, os discípulos que tinham subido com Jesus a Jerusalém e que seriam o embrião da comunidade da Nova Aliança, desapareceram, sem deixarem rasto. Estão ocultos, algures em Jerusalém, paralisados pelo medo.

No final da tarde de sexta-feira, o corpo morto de Jesus foi sepultado à pressa num túmulo novo, situado num horto ao lado do lugar onde se dera a crucifixão. Depois veio o sábado, o último dia da semana, o dia da celebração da Páscoa judaica, durante o qual o túmulo de Jesus continuou cerrado. Chegados ao “primeiro dia da semana”, o primeiro dia do tempo novo, da Humanidade nova, nascida da ação criadora e vivificadora de Jesus, tudo muda. “No primeiro dia da semana”, Maria Madalena, a mulher que representa a nova comunidade, vai ao túmulo e vem de lá confusa, porque o túmulo está vazio. Logo depois, ainda “no primeiro dia da semana”, Pedro e outro discípulo correm ao túmulo e verificam o que Maria Madalena afirmara: Jesus não está encerrado no domínio da morte. A comunidade de Jesus começa a despertar do letargo e a viver o tempo novo. “Ao entardecer do primeiro dia da semana” (ao concluir-se o primeiro dia da nova criação) a comunidade discípular experiencia o encontro com Jesus, vivo e ressuscitado.

O trecho em apreço divide-se em duas partes.

A primeira (vv. 19-23), narra o encontro de Jesus ressuscitado com os discípulos. João começa por descrever a situação em que estavam os discípulos, antes de Jesus lhes aparecer: o “anoitecer”, as “portas fechadas”, o “medo”, que traduzem a insegurança e o desamparo que sentem ante o mundo hostil que condenou Jesus à morte. Mas, de repente, o Jesus apresenta-Se “no meio deles”. O crucificado está vivo; a morte não o venceu. Os discípulos não estão órfãos, deixados à hostilidade do Mundo. Ao situar-Se no meio deles, Jesus ressuscitado assume-Se como referência, fator de unidade, fonte de Vida, videira na qual se enxertam os ramos. A comunidade centra-se em Jesus, o centro onde todos bebem a água da Vida eterna.

A esta comunidade Jesus transmite a paz. Não é só o usual cumprimento hebraico (“shalom”), mas é, sobretudo, a certeza de que Jesus venceu tudo o que assustava os discípulos: a morte, a opressão, a mentira, a violência, a hostilidade do Mundo. Doravante os discípulos não têm qualquer razão para viverem paralisados pelo medo. Possuem a paz desarmada e desarmante, no dizer do Papa Leão XIV.

Depois, Jesus mostra aos discípulos as mãos com a marca dos cravos e o lado que foi trespassado pela lança. Nesses sinais está a prova da sua vitória sobre a morte e sobre a maldade dos homens; e, sobretudo, o selo misericordioso da sua entrega até à morte, por obediência ao Pai e por amor aos homens. Neles está impressa a identidade de Jesus, ou seja, os sinais de amor e de doação que a comunidade reconhece em Jesus vivo e presente no seu meio. A permanência desses sinais indica a permanência do amor de Jesus: Ele é sempre o Messias que ama e do qual brotarão a água e o sangue que constituem e alimentam a comunidade. A esta apresentação de Jesus, os discípulos respondem com a alegria. Estão alegres, porque Ele está vivo e porque sabem que começou o tempo novo, em que a morte não assusta, o tempo do Homem Novo, do Homem livre, do Homem que se encontrou com a Vida definitiva.

Em seguida, Jesus convoca os discípulos para a missão, a que o Pai Lhe confiou: realizar, no Mundo, a obra de Deus. Os discípulos concretizá-la-ão conectados com Jesus (são ramos ligados à videira/Jesus), pois só assim darão fruto. E, para os discípulos poderem concretizá-la, Jesus realiza um gesto significativo: “soprou” sobre eles. O verbo utilizado é o do texto grego de Gn 2,7 (para dizer que Deus soprou sobre o homem de argila, infundindo-lhe a vida de Deus). Com aquele sopro, o homem tornou-se um ser vivente; com este sopro, Jesus transmite aos discípulos a Vida nova, o Espírito Santo, que fará deles Homens Novos e que os capacitará para viverem como testemunhas de Jesus ressuscitado. É, na verdade, uma nova Criação. Da ação de Jesus, do seu testemunho, do seu amor, do seu dom nasceu a nova Humanidade, capaz de amar até ao extremo, de dar a vida, de realizar a obra de Deus. É este Espírito que, a cada instante, constitui e anima a comunidade de Jesus. E é esta a comunidade da Nova Aliança, nascida da ação e do amor de Jesus.

Na segunda parte (vv. 24-31, o evangelista apresenta uma catequese sobre a modo de os discípulos de qualquer época chegarem à fé em Cristo ressuscitado. O historial de Tomé, o Dídimo (gémeo), pode ser o nosso. Também nós nem sempre nos contentamos com o testemunho dos primeiros discípulos: gostaríamos de ver, de tocar, de ter provas.

Jesus ressuscitado apresenta-Se aos discípulos “no primeiro dia da semana”, quando a comunidade está reunida. A comunidade é o lugar natural onde se manifesta e irradia o amor de Jesus, onde desponta a Vida nova. Por isso, é lá que se faz a experiência da presença de Jesus vivo. Mas Tomé “não estava com eles”. Estava fora da comunidade. E desafia: “Se eu não vir o sinal dos cravos nas suas mãos e não meter o meu dedo nesse sinal e a minha mão no seu lado, não acredito” – diz Tomé quando lhe disseram que viram o Senhor. Em vez de se integrar e de participar da experiência que os outros discípulos fizeram em comunidade, quer obter para si uma demonstração particular de Deus. Tomé representa os fechados em si (está fora), que não fazem caso do testemunho da comunidade, pelo que nem percebem os sinais de Vida nova que nela se manifestam.

Porém, “oito dias depois” (também “no primeiro dia da semana”), Tomé já está integrado na comunidade; e é aí que se encontra com o ressuscitado. Esta experiência é tão impactante que, do coração rendido de Tomé, brota uma extraordinária declaração de fé, uma das mais belas de toda a Bíblia: “Meu Senhor e meu Deus!”. Também nós, os chamados a acreditar sem termos visto, nem tocado, poderemos fazer a experiência que Tomé fez: é no encontro com o amor fraterno, com o perdão dos irmãos, com a Palavra proclamada em comunidade, com o pão de Jesus partilhado, que se descobre e se experimenta Jesus ressuscitado. Por isso, a comunidade de Jesus se reúne “no primeiro dia da semana”, no “dia do Senhor” (o domingo), o dia da ressurreição, o dia da Igreja. É o primeiro dia, que se torna também o oitavo, como na música, somos chamados à celebração da Páscoa de oitava em oitava, sem parar, até que o Senhor nos mande entrar na eternidade.

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A primeira leitura (At 2,42-47) é uma fotografia retocada da primeva comunidade cristã de Jerusalém. Lucas imprime nela os traços da comunidade ideal: unida e fraterna, onde os bens são partilhados e cada um está atento às necessidades dos irmãos. É uma comunidade empenhada em escutar a Boa Notícia de Jesus, em reunir-se para a “fração do pão” e para a oração comunitária. O estilo de vida desta família é contagiante e faz com que muitos outros homens e mulheres sintam vontade de integrar a Igreja de Jesus.

Depois de ter apresentado, na primeira parte (o “Evangelho de Jesus Cristo segundo Lucas”), o tempo de Jesus, Lucas completa a sua obra, apresentando o tempo da Igreja, em que a proposta de salvação de Deus é levada ao encontro do Mundo pela comunidade de Jesus (a Igreja), animada e guiada pelo Espírito Santo. Esta comunidade ideal, que nasce do Espírito e do testemunho dos apóstolos é a comunidade que consolida a sua experiência de vida em quatro pilares fundamentais: o ensino dos apóstolos, a comunhão fraterna, a fração do pão e a oração. Os apóstolos foram testemunhas oculares da salvação que Jesus apresentou, enquanto andava pelos caminhos da Galileia e da Judeia. Na pregação dessas testemunhas privilegiadas das palavras e dos gestos de Jesus ecoa, agora, a verdade do Reino de Deus.

A comunidade reúne-se à volta dos apóstolos, porque quer chegar a Jesus e à Boa Notícia que Ele trouxe. Pelo testemunho dos apóstolos quer conhecer a pessoa de Jesus, o seu plano, os seus valores, o seu estilo de vida, o seu amor até ao extremo, a sua entrega ao Pai e aos homens. A catequese recebida dos apóstolos aproxima de Jesus a comunidade e mostra-lhe como deve viver para se identificar com Jesus. Construindo a sua fé sobre o testemunho dos apóstolos, os cristãos estão livres da mentira, das doutrinas falsas e dos falsos profetas.

A comunidade de Jerusalém é também a comunidade que vive em comunhão fraterna. Os seus membros veem-se como irmãos e irmãs; são família em Cristo. Identificam-se com Cristo e são membros do Corpo de Cristo. Essa fraternidade não é algo abstrato, que se fica na teoria e ou na doutrina; mas é a fraternidade que se sente, se vê e se expressa na realidade da vida, nos gestos de todos os dias. Significava a renúncia à vida de egoísmo, de autossuficiência e de fechamento em si próprio. Implicava terem tudo em comum, partilharem os bens com os irmãos, cuidarem dos mais pobres e frágeis. É a comunidade que assume o verdadeiro compromisso com o amor, com a partilha, com o dom da vida. A caridade é a sua marca distintiva.

A comunidade cristã era assídua à “fração do pão”. Inicialmente, a expressão designava o gesto do chefe de família que, no início da refeição, partia o pão e o distribuía pelos convivas. Porém, na linguagem cristã, torna-se a expressão técnica designativa do memorial da ceia do Senhor, a eucaristia. Era a celebração que resumia toda a vida do Senhor Jesus, feita doação da vida e entrega até à morte. Acompanhada duma refeição fraterna, comportava orações, pregação e gestos de comunhão e de partilha entre os cristãos. Era momento de alegria, em que a comunidade celebrava a união a Jesus e a comunhão fraterna. Os crentes saíam da fração do pão mais identificados a Jesus e sentindo, fortemente, os laços que os uniam aos irmãos com quem tinham partilhado o mesmo pão, o pão dado por Jesus aos seus.

Temos, ainda, as orações. Os primeiros cristãos continuaram a frequentar o Templo (“todos os dias frequentavam o Templo”) e a participar da oração da comunidade judaica. Porém, bastante cedo, a comunidade cristã terá começado a sentir a necessidade de se encontrar para a oração tipicamente cristã, centrada na pessoa de Jesus; e é a esta oração comunitária cristã que Lucas se refere. A comunidade de Jesus é, pois, a comunidade que se junta para rezar, para louvar o seu Senhor; e a oração comum constitui um momento de comunhão, de aprofundamento dos laços que unem os membros da comunidade.

Lucas vinca o testemunho da comunidade cristã aos outros habitantes de Jerusalém. Os gestos realizados pelos apóstolos enchiam toda a gente de temor, isto é, infundiam em todos os que os testemunhavam a certeza da presença de Deus e dos seus dinamismos de salvação. Além disso, a piedade, o amor fraterno, a alegria e a simplicidade dos crentes concitavam a admiração e a simpatia de todo o povo; desafiavam os habitantes de Jerusalém; e faziam que aumentasse, todos os dias, o número dos que aderiam a Jesus e à comunidade da salvação.

A comunidade cristã de Jerusalém não seria, de facto, a comunidade ideal. Outros textos dos Atos falam-nos de tensões e de problemas – como em qualquer comunidade humana. Porém, a descrição lucana aponta para a meta a que a comunidade cristã deve aspirar, confiada na força do Espírito. Trata-se, pois, de uma descrição da comunidade ideal, que pretende servir de modelo à Igreja e às igrejas de todas as épocas.

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Na segunda leitura (1Pe 1,3-9) um catequista dos finais do século I lembra aos batizados em Cristo a condição de homens novos, felizes beneficiários da misericórdia de Deus. Cristo, o vencedor da morte, salvou-os e abriu-lhes as portas da vida definitiva. Certos da vida nova que os espera, os cristãos devem encarar a sua caminhada pela Terra com uma “esperança viva”, com uma “alegria inefável e gloriosa”, com um otimismo contagiante.

O trecho em referência apresenta-se na forma de hino de ação de graças, ao estilo das bênçãos judaicas. Nele, o autor louva a Deus pela sua obra salvadora em favor dos homens. É um “credo abreviado” do povo de Deus.

Foi Deus que tomou a iniciativa de dar ao homem a salvação. Fê-lo por meio de Jesus Cristo, o Filho que enviou ao encontro dos homens. A vitória de Jesus sobre a morte ocupa lugar central na História da Salvação que Deus quis escrever para nós. Os que aderem a Cristo e se identificam com Ele – isto é, os batizados – participam da ressurreição e renascem para uma vida nova. A vida que os anima é a vida do Ressuscitado. Abre-se para eles um novo horizonte, que a fragilidade e a morte não conseguirão manchar. A vida dos batizados é marcada “por uma esperança viva, por uma herança que não se corrompe, nem se mancha, nem desaparece”. Os que se identificam com Cristo e participam da sua ressurreição destinam-se à vida eterna, à “salvação que se vai revelar nos últimos tempos”. Cônscios de que estão destinados à salvação, caminham na alegria e na esperança: sabem que, aconteça o que acontecer, lhes está reservado o encontro com a vida plena. No seu horizonte de vida não há lugar ao pessimismo, nem ao desânimo.

Porém, a vida dos batizados não imune a obstáculos nem a crises. O caminho que os homens percorrem na Terra será sempre marcado por numerosas aflições e provações; e os que optaram por Jesus não estão isentos dessa experiência. No entanto, os sofrimentos e as perseguições são a prova em que a fé dos crentes é purificada, decantada de interesses mesquinhos, fortalecida; e, nesse processo, o crente vai sendo transformado pela ação do Espírito, até se identificar com Cristo e chegar à vida nova. O autor da carta lembra-nos que o próprio ouro tem de ser purificado pelo fogo, antes de aparecer em todo o seu esplendor. De qualquer modo, o percurso existencial dos crentes – cumprido, simultaneamente, na alegria e na dor – é sempre uma caminhada animada pela esperança da salvação.

O grande apelo que a primeira carta de Pedro nos deixa é que nos identifiquemos com Cristo, que amamos, sem O termos visto; que acreditemos n’Ele e que O sigamos incondicionalmente, mesmo que as suas indicações nos levem à cruz. Do lado de lá da cruz espera-nos a vida nova. Assim chegaremos à salvação e daremos sentido pleno à nossa vida.

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Por toda a misericórdia com que o Senhor olha para nós, é justo cantar com o salmista:  

“Dai graças ao Senhor, porque Ele é bom, / porque é eterna a sua misericórdia.”

“Diga a casa de Israel: / é eterna a sua misericórdia. / Diga a casa de Aarão: / é eterna a sua misericórdia. / Digam os que temem o Senhor: / é eterna a sua misericórdia.

“Empurraram me para cair, / mas o Senhor me amparou. / O Senhor é a minha fortaleza e a minha glória, / foi Ele o meu Salvador. / Gritos de júbilo e de vitória nas tendas dos justos: / a mão do Senhor fez prodígios.

“A pedra que os construtores rejeitaram / tornou se pedra angular. / Tudo isto veio do Senhor: / é admirável aos nossos olhos. / Este é o dia que o Senhor fez: / exultemos e cantemos de alegria.

“Senhor, salvai os vossos sevos, / Senhor, dai-nos a vitória. / Bendito O que vem em nome do Senhor / Da casa do Senhor nós vos bendizemos. / O Senhor é Deus / e fez brilhar sobre nós a sua luz.”

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“Aleluia. Aleluia. Disse o Senhor a Tomé: ‘Porque Me viste, acreditaste; felizes os que acreditam sem terem visto’.”

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No cristianismo, o “oitavo dia” simboliza a ressurreição de Jesus, um novo começo e a eternidade, superando a criação de sete dias. É o domingo, considerado o “Dia do Senhor” e o início da nova criação. Liturgicamente, refere-se também às “oitavas” (Natal/Páscoa), celebrando uma solenidade, com especial brilho, durante oito dias consecutivos. 

Após o sétimo dia (sábado de repouso), o domingo é o dia em que Cristo ressuscitou, marcando o início de um tempo novo e eterno. Embora seja o primeiro dia da semana, teologicamente é o oitavo, fora da contagem cronológica normal, simbolizando o século futuro e a eternidade.

O cristianismo primitivo associava o oitavo dia à circuncisão (antiga aliança) e, por extensão, ao batismo (nova e definitiva aliança), simbolizando a entrada numa nova vida e a purificação. Este conceito representa, portanto, a transição da Lei para o Evangelho e a esperança na vida eterna. 

Muitos batistérios antigos têm forma octogonal (oito lados) para refletir o simbolismo do oitavo dia como o dia do novo nascimento pelo batismo.

2026.04.12 – Louro de Carvalho

domingo, 12 de abril de 2026

Recuperada carga de navio bimilenar no lago Neuchâtel, na Suíça

 

 

Em artigo intitulado, “Achado sensacional: arqueólogos subaquáticos recuperam carga de navio com 2000 anos num lago na Suíça” publicado a 12 de abril, Kirste Ripper e a Euronews revelam que arqueólogos subaquáticos recuperaram, no lago Neuchâtel, na Suíça, “um carregamento de mais de mil artefactos de cerâmica” e de “espadas muito bem conservados, datados de 20 a 50 d.C.” e que, “para evitar pilhagens, a espetacular descoberta”, que aconteceu no final de novembro de 2024, “foi inicialmente mantida em segredo”.

Mergulhando no lago de Neuchâtel, Fabien Langenegger e Julien Pfyffer fizeram uma descoberta espetacular do Império Romano. No início, aproximaram-se, cautelosamente, de um monte de círculos, um suposto depósito de minas deixado para trás na II Guerra Mundial, mas, quando Julien Pfyffer ligou a luz da sua câmara, apareceu a cor caraterística da terracota. E, olhando para alguns pratos partidos, aperceberam-se ambos de que o achado era extraordinário.

Foi assim que Julien Pfyffer, em entrevista à Euronews, descreveu a descoberta de carga particularmente bem preservada de um navio que terá naufragado entre 20 e 50 d.C. Até os restos de comida encontrados nos recipientes de cerâmica estão agora a ser analisados.

O momento da descoberta foi impressionante para os dois arqueólogos. “Ficámos agarrados ao local por cima desta carga, durante vários minutos. Naquele momento, enquanto observava Fabien, apercebi-me de que estávamos numa situação muito especial.”

Foram as imagens de drone que mostravam uma mancha escura na água do Lago Neuchâtel, mais clara, há vários anos, que deram início ao mergulho, em busca por um naufrágio. Durante as campanhas de escavação – que duraram duas semanas, em 2025, e quase um mês, em 2026 – os arqueólogos subaquáticos da Fundação Octopus (fundação suíça dedicada à exploração marinha e ao conhecimento universal) desenterraram mais de mil objetos.

Presume-se que se trata da carga de um navio de carga que deveria levar utensílios de cozinha fabricados na Suíça para um acampamento romano. Um dos caixotes foi datado do ano 17 d.C. Os destroços do cargueiro ainda não foram encontrados no lago de Neuchâtel. Porém, nas últimas décadas, foram escavados navios romanos no Reno, na Alemanha, e no Ródano, na França.

Não obstante, foram encontrados objetos que pertenciam ao equipamento dos legionários, nomeadamente, duas espadas de gladiadores, um punhal, uma fivela de cinto e um perónio. De acordo com a equipa de arqueólogos, estes objetos sugerem que os legionários escoltavam o navio. Dada a quantidade de artefactos encontrados, a carga poderia ter sido destinada a uma legião de cerca de seis mil homens.

Foi também descoberto um cesto de vime que, segundo os arqueólogos, “foi milagrosamente preservado na giz do lago – ou craie lacustre, camada de sedimentos de calcário fino e solto que se deposita no fundo – e contém um grupo de seis objetos de cerâmica que diferem, no seu fabrico, do resto da carga”, dizem os arqueólogos, sustentando que se trata de louça e de alimentos menos elaborados dos marinheiros do navio. “Recuperámos da água todos os artefactos – pouco mais de mil – que estavam em risco de serem danificados por âncoras ou [por] redes ou roubados por saqueadores. Estes artefactos encontram-se, agora, na fase de limpeza e estão a ser processados pela equipa de restauro em terra. Uma vez concluída esta fase, os restauradores podem discutir com os arqueólogos o que observaram e o que nos escapa completamente durante a fase de escavação, uma vez que estamos muitas vezes no meio de uma nuvem de sedimentos”, explica Julien Pfyffer, explicitando que os restauradores poderão reconhecer pormenores (como selos de fabrico, vestígios de alimentos, elementos de proteção, como a palha entre os pratos), “que nos são muito difíceis de ver na água”.

A equipa Fundação Octopus está a preparar um livro e um documentário que serão publicados em 2027. Será realizada no Laténium, o maior museu arqueológico da Suíça, em Neuchâtel, uma exposição dos achados espetaculares, cuja data ainda não foi fixada. E ainda há muito para descobrir: segundo a equipa Octopus, há mais artefactos históricos nos oceanos do que em todos os museus do Mundo.

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De acordo com o artigo de Éric Moreira intitulado “Naufrágio romano raro de dois mil anos é descoberto em lago na Suíça”, publicado, a 26 de março, pela revista “Aventuras na História”, a descoberta é considerada de grande relevância arqueológica, pois o sítio submerso reúne um conjunto expressivo de artefactos e oferece novas perspetivas das rotas comerciais, da logística e da presença militar, no início do Império Romano.

Ainda de acordo com a mesma revista, o achado foi localizado em novembro de 2024, a partir de imagens aéreas utilizadas para monitorização do leito do lago, no âmbito de um projeto voltado à proteção do património subaquático. A identificação de uma anomalia levou à realização de mergulhos exploratórios, que confirmaram a presença de vestígios de uma embarcação. Embora a estrutura do barco não tenha resistido ao tempo, a carga permaneceu amplamente preservada, ao longo dos séculos.

As análises iniciais indicam que o naufrágio ocorreu entre os anos 20 e 50 d.C., período de transição entre o final da República e o início do Império Romano. Todavia, exames de datação por carbono-14, realizados em fragmentos de madeira, sugerem um intervalo mais amplo, entre 50 a.C. e 50 d.C., reforçando a antiguidade do conjunto, segundo o comunicado oficial do cantão de Neuchâtel. A escavação é conduzida pela Fundação Octopus em parceria com o Departamento de Arqueologia do Cantão de Neuchâtel.

O referido comunicado releva que, em novembro de 2024, no fundo do Lago Neuchâtel, foi descoberto um naufrágio excecional, cujo espólio era um tesouro milagrosamente preservado de cerâmica, de armas, de ferramentas e de peças de arreios relacionados com o transporte puxado por cavalos. E lança a hipótese de se, datando do início do Império Romano, essa carga poderia estar ligada ao destacamento das legiões romanas, ao longo do Reno, enfrentando a perigosa Germânia.

Mais refere que, no quadro do projeto “Naufrágios vulneráveis ​​do Lago Neuchâtel”, iniciado em 2018, o último deles foi descoberto por drone, em 21 de novembro de 2024, por Fabien Droz, colaborador externo do Departamento de Arqueologia do Cantão de Neuchâtel (OARC).

A primeira confirmação e a avaliação subaquática foi realizada, em 24 de novembro de 2024, pelo arqueólogo responsável pela área lacustre do cantão de Neuchâtel, Fabien Langenegger, e por Julien Pfyffer, presidente da Fundação Octopus.

Durante esse mergulho extraordinário, determinou-se que se tratava de vasta carga de cerâmica antiga. Diversas peças foram recolhidas para análise rápida por especialistas. Além disso, uma amostra de madeira da carga foi extraída para datação por carbono-14. Os resultados dessa análise estabeleceram um período entre 50 a.C. e 50 d.C. Essa descoberta inicial situa a carga no período entre o fim da República Romana e o início do Império Romano.

Graças à diversidade dos objetos e ao seu excecional estado de conservação, este conjunto representa um raro vislumbre da antiguidade, provavelmente, enterrado sob sedimentos, durante várias centenas de anos. Porém, na sequência de dois projetos de correção das águas do Jura (nos séculos XIX e XX), realizados para estabilizar os níveis do lago, foi erodida a camada de sedimentos que cobria estes vestígios. Estes artefactos, de inestimável valor histórico, encontravam-se expostos às correntes do lago e a potenciais saqueadores. Decidiu-se, pois, realizar escavações para proteger e para estabilizar estas peças, tornando-as acessíveis ao público.

O material recuperado chama atenção pela diversidade. Centenas de peças de cerâmica – entre pratos, tigelas, copos e travessas – compõem a maior parte da carga. Esses itens foram produzidos em oficinas do Planalto Suíço, indicando uma forte base produtiva local integrada a redes comerciais mais amplas, como repercute a “Revista Galileu”.

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Também a revista “Oeste Geral”, refere, a 11 de abril, que foi encontrada intacta “carga de navio romano naufragado, há dois mil anos, no lago de Neuchâtel”, com espadas, ânforas e rodas de madeira, que permaneceu submersa, durante cerca de dois mil anos, sem que ninguém soubesse da sua existência. A descoberta, anunciada oficialmente em março, é considerada única não apenas na Suíça, mas em toda a região de águas interiores ao Norte dos Alpes.

Também cita o comunicado oficial do cantão de Neuchâtel, para dizer que o achado começou em novembro de 2024, durante uma monitoração sanitária de rotina do leito do lago, e que uma fotografia aérea obtida pelo Serviço de Arqueologia Cantonal de Neuchâtel (OARC) revelou objetos anómalos no fundo das águas, levando ao acionamento imediato de mergulhadores.

A primeira campanha de escavação foi realizada em março de 2025, conduzida em parceria entre o OARC, a Fundação Octopus e o Serviço Arqueológico do Estado de Friburgo (SAEF). A urgência era real: erosão, embarcações de recreio e risco de pilhagem ameaçavam o sítio, a cada semana de espera.

Diz a “Oeste Geral” que a carga romana recuperada é combinação excecional de produtos regionais e de longa distância, preservados em estado raramente visto em sítios subaquáticos de água doce. Entre os itens identificados, contam-se: centenas de recipientes de cerâmica, entre pratos, travessas, xícaras e tigelas, produzidos em ateliês da planície suíça, preservados quase intactos; ânforas ibéricas importadas da Península Ibérica, contendo azeite de oliva e atestando a integração da região nas redes comerciais do Império Romano; utensílios e ferramentas ligados à vida quotidiana da tripulação; quatro rodas de madeira e de metal em estado de conservação extraordinário, os únicos exemplares romanos desse tipo encontrados na Suíça; e gladii (espadas curtas romanas), sugerindo que a embarcação mercante viajava com escolta armada.

A carga de navio romano reconstrói a rota comercial entre Yverdon e Vindonissa. Com efeito, a combinação de itens a bordo permitiu aos arqueólogos reconstruírem o trajeto provável da embarcação. As mercadorias iam de carroça até ao porto de Yverdon (a antiga Eburodunum), no extremo Sul do lago, onde eram embarcadas rumo ao Norte, em direção ao acampamento militar de Vindonissa, nas margens do rio Aare.

A presença simultânea de carga civil e de gladii indica que a embarcação não era um navio estritamente militar, mas um cargueiro comercial com proteção armada. Dada a quantidade de objetos, os pesquisadores avaliam que o carregamento pode ter sido destinado a uma legião de aproximadamente seis mil homens estacionada na fronteira do Reno.

Os motivos de as rodas de madeira serem o achado mais raro entre os itens do naufrágio têm a ver com o facto de a madeira raramente sobreviver a milénios e com o facto  de a sua preservação, em ambiente subaquático, depender de condições muito específicas: baixa oxigenação, sedimento fino e ausência de organismos que acelerem a decomposição. No lago de Neuchâtel, essas condições combinaram-se com a raridade suficiente para conservar algo que os arqueólogos nunca haviam visto, antes, em solo suíço.

As quatro rodas de madeira e de metal recuperadas são os únicos exemplares romanos desse tipo já encontrados na Suíça. Provavelmente, pertenciam às próprias carroças que transportaram a carga até Yverdon e foram embarcadas junto com os demais itens para o trecho aquático da rota.

Os itens recuperados serão objeto de tratamento de conservação antes de serem expostos no Laténium, o parque e museu de arqueologia de Neuchâtel. Materiais, como madeira e metal, que passaram séculos submersos deterioram-se, rapidamente, ao contacto com o ar, se não forem estabilizados com cuidado.

Prevê-se que estudos futuros avancem em, pelo menos, três frentes: identificação dos ateliês específicos que produziram a cerâmica regional encontrada no porão; mapeamento mais detalhado dos circuitos de distribuição de mercadorias romanas ao norte dos Alpes; e análise das ânforas ibéricas para determinar a origem precisa do azeite e os portos de embarque na Península Ibérica,

A datação do naufrágio, há dois mil anos entre os anos 20 e 50 da nossa era (ou entre 50 a.C. e 50 d.C.) situa o evento num momento em que o Império Romano firmava a sua presença na Helvécia, construindo estradas, acampamentos e rotas de abastecimento, numa região recém-incorporada. O que afundou no lago era, ao tempo, uma operação logística comum: era parte da engrenagem quotidiana do império, que precisava de alimentar e de armar legiões, a centenas de quilómetros de distância. Não era tesouro de general, nem carga de navio de Estado, mas registo de um dia de trabalho que não chegou ao destino, preservado no fundo frio do lago de Neuchâtel, enquanto o Império Romano nascia, se expandia e desaparecia acima da superfície da água.

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Enquanto prosseguem estes estudos, soube-se que a Ucrânia pediu, a 23 de dezembro, ao Ministério Público (MP) de Varsóvia a extradição do arqueólogo russo Oleksandr Butyagin, sob a acusação de ter participado em escavações ilegais na Crimeia, que fora detido na Polónia, 4 de dezembro, a pedido da Ucrânia, e colocado em prisão preventiva durante 40 dias.

Funcionário do Museu Estatal Hermitage, em que dirige o setor de arqueologia antiga da Costa Norte do Mar Negro, no departamento do Mundo Antigo, deslocara-se à capital da Polónia para dar uma conferência. Porém, na Ucrânia, Butyagin é conhecido como “o arqueólogo de Putin”. Em 2024, os serviços secretos ucranianos (SBU) recolheram provas, com a Polícia Nacional e com o MP, de que a sua expedição arqueológica danificara o património cultural no complexo arqueológico da Cidade Antiga de Mirmekiy, no distrito de Kerch, na Crimeia anexada.

Segundo o SBU, após as escavações ilegais, os invasores removeram a chamada camada cultural da península ucraniana até à profundidade de quase dois metros, danificaram um sítio histórico ucraniano e causaram danos no valor de mais de 200 milhões de hryvnias.

O arqueólogo foi acusado, ao abrigo do n.º 4 do artigo 298.º do Código Penal da Ucrânia, por operações de busca ilegais em sítio do património arqueológico, de destruição ou danificação de sítios do património cultural, feitas para procurar objetos móveis provenientes de sítios do património arqueológico. E, se for extraditado para a Ucrânia, poderá ser condenado a pena de prisão até cinco anos. A decisão de extradição cabe ao tribunal.

O porta-voz da presidência russa, Dmitry Peskov, classificou a detenção com “arbitrariedade jurídica”. E os colegas de Butyagin na Academia Russa de Ciências sustentam que a detenção é “absurda nas suas motivações”.

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A Arqueologia é uma poderosa ciência auxiliar da História e, como é óbvio, deve ser exercida na legalidade, mas esta não pode ser encarada por olhar político enviesado. É facto que a Crimeia foi anexada pela Rússia. Não se vê que um arqueólogo que ali trabalhe sofra a penalização que o invasor não sofre. A Ciência não conhece fronteiras, como reconhece a Confederação Helvética.

2026.04.12 – Louro de Carvalho

sábado, 11 de abril de 2026

Portugal é o país da Zona Euro em que mais subiu o preço das casas

 

 

Na União Europeia (UE), o preço das casas subiu, em média, 5,5%, no quarto trimestre de 2025, face ao mesmo período de 2024, mas vários países registaram aumentos bastante mais fortes, acima dos 10%, nomeadamente, em destinos turísticos, como Portugal, a Croácia e a Espanha. E, em geral, os especialistas do setor apontam a melhoria das condições de financiamento, em particular, das taxas de juro, como principal motor desta tendência.

A Hungria foi o país da UE que registou, segundo o Eurostat,  o maior aumento anual dos preços das casas, no quarto trimestre de 2025, com a subida de 21,2%. “Na Hungria, que lidera a tabela, foram promovidos, nos últimos anos, programas de aquisição de habitação subsidiada, que impulsionaram a procura, a par de forte atividade dos investidores”, observou Kate Everett-Allen, responsável pela investigação em habitação europeia na Knight Frank.

Na Zona Euro, Portugal e a Croácia registaram os mais fortes aumentos. Neste âmbito, cabe a Portugal a subida de 18,9%, vindo, a seguir, a  Croácia, com 16,1%, e a Espanha, com 12,9%. E

Everett-Allen afirmou que a forte procura internacional foi um fator decisivo nos três países. Com efeito, a migração, por razões de estilo de vida, a compra de casas de férias e o investimento externo (incluindo nómadas digitais, reformados e compradores estrangeiros) mantiveram-se robustos, apesar da subida dos custos de financiamento interno, sobretudo, nos mercados costeiros e urbanos.

Michael Polzler, CEO da empresa imobiliária REMAX Europe adiantou que as maiores subidas de preços, em Portugal, na Croácia e na Espanha ocorreram nas grandes áreas urbanas e costeiras, onde a procura é maior. “Em Portugal, a subida dos preços tem sido impulsionada por uma oferta muito limitada, sobretudo, em Lisboa, no Porto e nas zonas envolventes, mas também por medidas de apoio específicas do governo”, referiu, sustentando que foi importante motor da procura a criação do regime de garantia pública para jovens compradores de primeira habitação, que permite financiamento bancário, até 100% do valor, com o Estado a garantir até 15% do preço do imóvel.

Trata-se, na sua ótica, de mercado dominado pelos vendedores, e a escassez de oferta, combinada com esta política, permite manter forte poder de fixação de preços.

Para o líder da REMAX Europe, “a evolução dos preços, no final de 2025, foi marcada pela melhoria das condições de financiamento, que trouxe de volta a procura”; e, “com a estabilização das taxas de juro, compradores que tinham adiado a procura de casa voltaram ao mercado”.

Mikk Kalmet, da Global Property Guide, frisando a recuperação da procura, após as subidas das taxas de juro, em 2023 e em 2024, observou: “À medida que a Euribor e as taxas de juro bancárias, em geral, estabilizaram, o mercado recuperou, ligeiramente, porque quem hesitava em comprar numa fase de incerteza passou a sentir alguma previsibilidade a partir do final de 2024.”

Michael Polzler referiu que cidades, como Valência e Madrid, têm superado as médias nacionais, na Espanha, apoiadas pela procura interna e internacional. De facto, o investimento estrangeiro sustentado e a atratividade contínua dos mercados reforçam a subida dos preços.

Para Mikk Kalmet, a maior subida dos preços, em Portugal, na Croácia e na Espanha, resulta, sobretudo, da sua atratividade de destinos turísticos. Efetivamente, compradores internacionais, a procura de segundas residências e a expansão do alojamento de curta duração aumentaram a pressão sobre o mercado de habitação, sobretudo, nas zonas costeiras e urbanas.

Além dos países referidos, há outros que também registaram fortes subidas dos preços das casas, superiores a 10%: a Eslováquia, com 12,8% (menos 0,1% do que a Espanha), a Bulgária, com 12,6%, a Letónia, com 11%, a Lituânia, com 10,8%, e a Chéquia, com 10,4%.

Everett-Allen salientou que a Europa Central e de Leste, a par da Península Ibérica, se destacaram, nos últimos 12 a 18 meses, em linha com o crescimento do produto interno bruto (PIB) mais forte. “Estes mercados beneficiam também do investimento em infraestruturas e da entrada de capitais, tanto associados a escolhas de estilo de vida como às perspetivas económicas de longo prazo”, explicitou.

Por seu turno, Mikk Kalmet sustenta que os preços tendem a subir mais depressa, na Europa Central e de Leste, em parte, porque os rendimentos estão a aproximar‑se da média europeia e o ponto de partida do mercado da habitação era mais baixo.

As subidas dos preços das casas na Dinamarca (7,6%), na Irlanda (7%), na Roménia (6,7%), nos Países Baixos (6,2%), em Malta (6,1%), em Chipre (6%), na Eslovénia (5,8%) e na Noruega (5,7%) ficaram também acima da média da UE, embora por margem menor.

A Finlândia foi o único país, entre 29 mercados europeus, onde os preços das casas desceram, com uma queda anual de 3,1%.

Entre as quatro maiores economias da UE, a Espanha destacou‑se com a subida de 12,9% e a Itália registou a subida de 4,1%. Na Alemanha, os preços das casas aumentaram 3%, enquanto a França ficou na terceira posição mais baixa na Europa, com apenas 1% de subida. “A França ainda está a recuperar da forte correção do mercado, em 2023 e em 2024, quando a subida das taxas de juro do crédito à habitação e a inflação afetaram, de forma significativa, a procura, como explicou Michael Polzler, sustentando que “o mercado está a estabilizar, com movimentos de preços moderados e [com] compradores mais cautelosos”.

E, segundo Everett-Allen, o mercado residencial alemão esteve mais exposto ao peso do endividamento barato, ao fraco crescimento dos rendimentos e a um sistema de arrendamento que permite a retração rápida da procura e elevados custos regulatórios e de entrada.

O Luxemburgo ficou na segunda posição, com a subida de 0,1%; e, na quarta posição ficou a Suécia, com a subida de 1,2%.

Abaixo da média da UE (5,5%) e da média da Zona Euro (5,1%), ficaram ainda a Bélgica (3,5%), a Áustria (3,7%) e a Polónia (4,3%).

Também consta, abaixo das médias da UE e da Zona Euro, a Suíça, com a subida de 3,9%, e, acima destas médias, a Noruega, com a subida de 5,7% – países que não integram a UE.

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A aquisição de casa depende do rendimento real disponível para compra ou para arrendamento. E um dos fatores que dificultou o poder de compra ou de arrendamento de casa foi a crise surgida com a pandemia da covid-19. E, com o regresso ao normal, adveio a crise inflacionista provocada pela guerra na Ucrânia e pela situação em Gaza e no Irão. No entanto, na UE, o rendimento real dos agregados familiares, por pessoa, subiu cerca de 7%, face ao período pré-pandemia, mas a variação entre 2019 e 2024 difere muito de país para país. Os países nórdicos registaram ganhos modestos, enquanto muitos países da Europa de Leste e Central viram crescimentos mais fortes. Também a evolução, na última década, não foi uniforme no continente.

É importante saber como se alterou o rendimento real dos agregados familiares, por pessoa, na Europa, entre 2014 e 2024, como se compara com a pré-pandemia e que países apresentam o rendimento, por pessoa, mais elevado em standard de poder de compra (PPS).

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O PPS (Padrão de Poder de Compra:  Purchasing Power Standard), no contexto de rendimento por agregado familiar é a unidade monetária artificial da UE para comparar o poder de compra real entre diferentes países, eliminando as diferenças de nível de preços. A sua finalidade é comparar se um rendimento de, por exemplo, 20 mil euros anuais, permite comprar os mesmos bens e serviços, por exemplo, em Portugal ou na Alemanha, ajustando a inflação e o custo de vida local. Conexo com este, vem o rendimento líquido equivalente (RLE), por agregado familiar, calculando quanto dinheiro cada membro da família tem para gastar, após ajustar o custo de vida e a dimensão do agregado familiar.

Um PPS compra, em média, a mesma quantidade de bens e serviços, em cada país. Se um país tem um nível de preços elevado, são necessários mais euros para comprar um PPS do que num país com preços baixos. Assim, quando se analisa o rendimento por agregado familiar em PPS, olha-se o poder de compra real e não apenas para o valor nominal do salário. 

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No conjunto da UE, os rendimentos aumentaram 17%, entre 2014 e 2024. O crescimento travou, em 2020, devido à pandemia de covid-19, como aconteceu em muitos países, havendo alguns a registar quebras. Depois retomou, de forma gradual, entre 2019 e 2024, resultando num aumento de 7% face, aos níveis pré-pandemia.

O rendimento dos agregados familiares, por pessoa, calcula-se dividindo o rendimento disponível bruto ajustado dos agregados familiares pela população total. Ou seja, mostra-se o dinheiro disponível dos agregados familiares para gastarem ou para pouparem. Mede-se deduzindo os impostos sobre o rendimento e as contribuições para pensões. Inclui, como é óbvio, o valor de serviços, como educação e saúde, que os agregados recebem, gratuitamente, dos governos e de organizações sem fins lucrativos. E é rendimento real, pois é o valor nominal corrigido da inflação, usando o deflator da despesa final efetiva de consumo das famílias.

A Croácia registou o crescimento mais forte do rendimento real dos agregados familiares, nestes cinco anos, com 26%. Malta registou 24%, a Hungria 20%, a Roménia 19% e a Polónia 16%, colocando-se estes países entre os maiores incrementos, todos acima de 15%. Com exceção de Malta, estes países estão fora da Zona Euro e o crescimento reflete também alterações nas moedas nacionais. Não é o caso da Suécia e da Dinamarca.

Os três países nórdicos surgem no fim da tabela: a Suécia, com 1%, a Finlândia, com 2%, e a Dinamarca, com 3%, registaram crescimentos modestos. No auge da covid-19, segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), as taxas de desemprego subiram mais nos países nórdicos do que em outros países europeus; as quatro maiores economias da UE também ficam abaixo da média europeia. A França e a Espanha (6%, cada) estão abaixo da média da UE;  a Itália e a Alemanha (4%, cada) aproximam-se dos níveis nórdicos.

Em geral, os países fora da Zona Euro registaram crescimentos mais fortes, entre 2014 e 2024, com a Roménia a alcançar 76%. Entre os sete países com maior crescimento, Malta é o único membro da Zona Euro, com 55%. A Turquia (68%), a Hungria (55%), a Croácia (51%), a Bulgária (45%) e a Polónia (42%) também registaram aumentos significativos (a Croácia e a Bulgária aderiram, mais tarde, à Zona Euro). E o Eurostat assinala que o crescimento do produto interno bruto (PIB) real, na Zona Euro, foi mais fraco do que no conjunto da UE, nos últimos 10 anos.

A Suécia registou o crescimento mais baixo deste período. Os outros dois países nórdicos também ficam abaixo da média da UE, de 17%, com a Finlândia, nos 10%, e a Dinamarca, nos 14%. A Espanha está apenas dois pontos acima da média europeia, enquanto as outras três principais economias ficam abaixo deste patamar.

As taxas de crescimento são importantes, mas não mostram o nível efetivo de rendimento dos agregados familiares, em cada país. Para essa comparação, recorre-se ao rendimento disponível bruto ajustado dos agregados familiares por pessoa, em PPS. Em 2024, ano dos dados mais recentes, o Luxemburgo apresentou o rendimento, por pessoa, mais elevado, com 41,552 PPS, entre 32 países europeus. A Alemanha (37,098) a Áustria (34,443), os Países Baixos (34,406) e a Suíça (33,971) completam o top cinco. O rendimento, por pessoa, dos agregados familiares ultrapassa os 30,000 PPS na Bélgica, na França, na Islândia e na Noruega.

A Bulgária apresenta o rendimento por pessoa mais baixo, com 7,802 PPS, com base em dados de 2022. Países da Europa de Leste e dos Balcãs, incluindo candidatos à adesão à UE, registam, igualmente, rendimentos mais reduzidos, em termos de PPS.

A Sérvia situa-se nos 13,311 PPS, enquanto outros países, incluindo a Grécia, a Turquia, a Eslováquia, a Roménia e a Hungria se posicionam, sobretudo, entre 20,000 e 25,000 PPS.

Os três primeiros lugares no ranking em PPS mantiveram-se inalterados, em 2014, em 2019 e em 2024. Ao invés, a Grécia e a Suécia perderam posições, neste período, entre 30 países. A Suécia ocupava o sexto lugar, em 2014, o oitavo, em 2019l e o décimo, em 2024. A Grécia desceu do vigésimo terceiro para o  vigésimo oitavo lugar, na última década. Em contraponto, os Países Baixos subiram do sétimo para o quarto lugar. A Hungria passou do vigésimo sexto para o vigésimo segundo e a Roménia subiu do vigésimo nono para o vigésimo quatro.

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Para enfrentar a crise da habitação em Portugal, a OCDE (vincando que o nosso é um dos países onde o acesso à casa mais se degradou, na última década) lançou, em janeiro de 2026, o relatório “OECD Economic Survey: Portugal 2026”, com recomendações que focam, sobretudo a reforma fiscal e o aumento da oferta.

Em termos de reforma fiscal e de impostos, propõe o agravamento do imposto municipal sobre imóveis (IMI) para casas vazias, com aperto fiscal e com aplicação efetiva de taxas mais altas para os cerca de 730 mil imóveis desocupados ou subutilizados, especialmente, em zonas de elevada procura; preconiza a redução (ou a eliminação progressiva) do imposto municipal sobre as transmissões onerosas de imóveis (IMT), para facilitar a mobilidade residencial; recomenda a limitação de isenções do imposto sobre as mais-valias, na venda de residência própria, mesmo quando o valor é reinvestido, para evitar pressões inflacionárias no mercado; e sugere a atualização de avaliações, baseando o valor patrimonial dos imóveis em dados recentes de mercado, para tornar a tributação mais justa e eficiente. 

A nível do aumento da oferta e do investimento, sugere a simplificação de licenciamentos, acelerando os processos administrativos e eliminando barreiras regulatórias que travam a construção de novos edifícios; a expansão da habitação pública, reforçando o investimento no parque de habitação social e pública, para apoiar as famílias mais vulneráveis; e o arrendamento de longo prazo, equilibrando a regulamentação para incentivar os proprietários a porem casas no mercado de arrendamento de longa duração, com maior segurança jurídica. 

E, no âmbito de outras medidas estruturais, recomenda o alívio do imposto sobre o rendimento das pessoas singulares (IRS), sugerindo que o aumento da receita vinda de impostos imobiliários (como o IMI) se use para baixar os impostos sobre o trabalho, especialmente, para rendimentos mais baixos; e propõe  o apoio aos jovens, monitorizando o impacto das medidas de apoio a jovens compradores, para garantir que não levam à subida artificial de preços.

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Do exposto é legítimo questionar por que se apregoa a vantagem da pertença à Zona Euro, se, nos países que a integram, o aumento do rendimento é menor; e por que motivo a OCDE não sugere medidas de políticas públicas que obstem à especulação imobiliária e do arrendamento. Uma renda de 2300 euros mensais, em Portugal, em que os salários são muito baixos, não é moderada e o senhorio não merece apoio estatal.

2026.04.11 – Louro de Carvalho