sábado, 12 de setembro de 2026

Governo aproveita debate de moção censura para ação de propaganda

 

A economia e o crescimento do emprego, em Portugal, mostram o melhor desempenho da Europa, segundo o primeiro-ministro (PM), Luís Montenegro. Tal declaração, proferida, na Assembleia da República (AR), a 8 de setembro, no contexto do debate parlamentar de uma moção de censura ao governo apresentada pelo partido do Chega, de extrema-direita – em parte, verdadeira e, em parte, incorreta – relança o debate sobre qual é o país da União Europeia (UE) com maior crescimento da economia e do emprego.

A moção surgiu depois de Luís Montenegro recusar demitir o ministro da Administração Interna, Luís Neves, na sequência de alegadas irregularidades cometidas, quando era diretor nacional da Polícia Judiciária (PJ), entre 2018 e 2026. Os outros partidos da oposição, pela abstenção ou pelo voto contra a moção, livraram da sua queda o executivo minoritário de centro-direita, em prol da estabilidade política (o país realizou três eleições legislativas, em pouco mais de três anos), porque entenderam que o objetivo deste instrumento parlamentar de fiscalização da ação governativa era desadequado, pois, em vez de pretender atingir o governo como um todo, visava a ação do ministro da Administração Interna, enquanto ex-diretor da PJ, que tinha, entretanto, sido ouvido na Comissão Parlamentar de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias e que está sob inquéritos vários, por parte das autoridades judiciárias.

Durante o debate, o PM anunciou dois brindes aos cidadãos: bónus nas pensões mais baixas, em condições a definir em Conselho de Ministros (200 euros, 150 euros e 100 euros, consoante o escalão), a processar em dezembro; e descida, neste ano, do imposto sobre o rendimento das pessoas singulares (IRS), até ao 6.º escalão, com efeitos retroativos a janeiro e com repercussão na retenção na fonte, em novembro. Paralelamente, declarou que Portugal tinha o melhor desempenho económico e a mais elevada taxa de crescimento do emprego, na Europa.

De acordo com os dados mais recentes do Eurostat, o crescimento do produto interno bruto (PIB) dos estados-membros da União Europeia (UE), no seu conjunto, aumentou 0,7%, no segundo trimestre de 2026, face ao trimestre anterior.

A Irlanda foi o principal motor desta subida, com, de longe, o maior salto no PIB, de +10,2%. Os analistas sustentam que este crescimento, uma revisão em alta acentuada, face às estimativas anteriores, resultou, em grande medida, de significativos aumentos da produção de empresas multinacionais, sobretudo, nas áreas da tecnologia e da indústria farmacêutica. Por isso, muitos economistas consideram este indicador pouco fiável. A Eslovénia e a Lituânia surgem em segundo e terceiro lugar, com crescimentos de 1,8% e 1,7%, respetivamente. Portugal surge em sétimo lugar ex aequo com Chipre, estando o PIB de ambos os países a crescer 0,8%.

Portanto, pode dizer-se que Portugal está entre os melhores dos 27 estados-membros da UE, mas não é o melhor e que está longe do melhor, de acordo com os dados do Eurostat.

A Áustria foi o único país a registar uma quebra, com o PIB a recuar 0,1%.

Segundo o Eurostat, a subida do PIB, na UE, foi de: 10,2%, na Irlanda; 1,8%, na Eslovénia; 1,7%, na Lituânia; 1,6%, na Suécia; 1,1%, em Malta; 1%, na Polónia; 0,8%, em Chipre e em Portugal; 0,7%, na Bulgária, na Espanha e na Letónia; 0,5%, na Hungria; 0,4%, na Chéquia, na Croácia, nos Países Baixos e na Finlândia; 0,3%, na Dinamarca, na Alemanha, na Estónia e na Grécia; 0,2%, na Itália e na Eslováquia; 0,0%, na França e na Roménia; e -0,1%, na Áustria (subida negativa). Há dois países cujos dados não são referidos.

O crescimento trimestral do PIB da UE é de 0,7% e o do PIB da Zona Euro é de 0,6%.

No atinente ao emprego, o mesmo conjunto de dados do Eurostat indica que o número de pessoas empregadas aumentou 0,1%, tanto na Zona Euro como na UE, no segundo trimestre de 2026. Nessa altura, havia cerca de 221,4 milhões de pessoas empregadas na UE.

Neste ponto, Luís Montenegro tem razão, pois, desagregando por estado-membro, Portugal surge em primeiro lugar, com um crescimento do emprego de 1%, no segundo trimestre de 2026, seguindo-se a Chéquia e Malta, ex aequo, no segundo lugar, com um aumento de 0,9%. Depois, vêm o Luxemburgo (0,6%), Chipre, a Espanha e a Estónia (0,5%), a Irlanda e a Itália (0,3%); a Hungria e a Dinamarca (0,2%), a Suécia, Eslováquia e a Bélgica (0,1%). A UE e a Zona Euro registam uma subida de 0,1%.

Vários países registaram uma queda do emprego, nomeadamente, a Finlândia (-0,8%), a Grécia (-0,4%), a Roménia, a Bulgária e a Polónia (-0,2%), a Alemanha, a Letónia, os Países Baixos e a Lituânia (-0,1%).

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É óbvio que os deputados que apoiam o governo não desmentiriam o PM. Contudo, os partidos da oposição deveriam ter deputados preparados para não deixarem passar qualquer imprecisão patente nas declarações do chefe do governo.

Porém, antes disso, diga-se que o debate da moção de censura, em si, foi paupérrimo. Da parte do partido proponente, cingiu-se à investida contra Luís Neves, a estranhar por que motivo ele ainda tinha a coragem de permanecer na bancada do governo, a criticar o Partido Socialista (PS) por não aprovar a moção de censura, à semelhança do que fez em 2025, colando-o ao governo, e a celebrar, inusitadamente, no fim da votação, a derrota, sob o pretexto da sua transformação em oportunidade, perante a complacência intranquila do presidente da AR e a indiferença dos demais deputados.

O governo reafirmou não ter parceiro privilegiado para a governação, considerou que o ministro Luís Neves é necessário ao país e que está a fazer um bom trabalho; tratou o Chega com excessiva brandura; e agradeceu ao PS a viabilização da permanência do executivo, mas criticou, duramente, a herança socialista.

Os partidos que, além dos que apoiam o governo, não votaram a favor da moção, pouco falaram de Luís Neves, mimaram o Chega com os epítetos de sempre, com razão, mas sem novidade. Por exemplo, não se referiram a casos concretos das suas contradições entre as atitudes e as palavras, nem às consequências da sua doutrina e da sua práxis, para o país, nomeadamente, à sua força discursiva anti-imigração, xenófoba, racista e apoiante da extrema-direita europeia mais refinada. Aliás, não se percebe a sua política europeia: se é contra a UE, se é eurocética, ou, sendo europeísta, em que sentido.

Nem o governo, nem os outros partidos questionaram o silêncio do Chega sobre o alegado assalto ao gabinete do seu grupo parlamentar. A ser verdade, este incidente, ocorrido na sede de um órgão de soberania (no caso vertente, a Casa da Democracia, em que estão representadas as principais correntes de opinião política e de propostas de governação) não pode compadecer-se com a inépcia, com a inércia, nem com o silêncio dos responsáveis. Não é legítimo perguntar-se: “Qual é a pressa para a investigação?” Não há um inquérito interno, porquê? Porque não foi solicitada a intervenção do Ministério Público (MP) com nota de urgência?

Sobre a situação económica do país, os partidos da oposição, não contrapuseram às promessas e às declarações do primeiro-ministro um discurso robusto. É certo que foram dizendo que o governo merece censura, mas por outros motivos, e que a melhoria da economia não se reflete na melhoria das condições de vida das famílias. Porém, esse discurso soube a pouco.

Já todos sabiam (ou deviam saber) que o Banco Central Europeu (BCE) ia proceder a mais uma subida das taxas de juro, embora a inflação não se tenha generalizado e até a Zona Euro acuse algum crescimento. Contudo, não se perguntou ao chefe do governo, como articula o bónus nas pensões e a descida do IRS com os efeitos da guerra nos países do Estreito de Ormuz, o que pode, a curto prazo, fazer disparar a inflação e tornar mais anémico (ou negativo) o crescimento.

Não aleguem – como uma alta figura do Estado o disse, a propósito da guerra da Rússia com a Ucrânia – que a guerra no Médio Oriente será uma oportunidade de crescimento da nossa economia e da boa saúde das nossas finanças. É óbvio que, se o preço da energia sobe, os impostos dela decorrentes enriquecem mais o erário público. Porém, ou o IRS já devia ter sido reduzido e as pensões aumentadas, ao longo do ano, ou deveria o aumento da carga fiscal ser encaminhado para o desenvolvimento de projetos necessários a um país que se limita a fazer reformas do “faz de conta”. Os brindes oferecidos pelo governo não tapam a cova de um dente.

E há mais. O cabaz alimentar, de 63 produtos, monitorizado pela DECO PROteste custou, na semana do debate e da rejeição da moção de censura, 255,26 euros, ou seja, mais 52 cêntimos do que na semana anterior. E, desde o início do ano, o mesmo conjunto de produtos está 13,34 euros mais caro, o equivalente a um aumento de 5,55%.

A diferença é maior, se comparada com o ano passado. Atualmente, o cabaz custa mais 14,61 euros, isto é, 6,07%, acima do valor, no mesmo período de 2025. E, face ao início da análise, a 5 de janeiro de 2022, antes da invasão da Ucrânia pela Rússia, o mesmo cabaz está, agora, em 255,26 euros, ou seja, 67,56 euros mais caro, uma subida de 35,99%.

Entre 2 e 9 de setembro, o carapau registou a maior subida percentual de preço, com o aumento de 23%, passando a custar 5,46 euros, por quilo. Seguiram-se a curgete, cujo preço aumentou 20%, para 2,15 euros, e o atum em posta em azeite, que ficou 17% mais caro, custando 2,21 euros. Na comparação com o mesmo período do ano passado, o carapau volta a destacar-se, com a subida de 43%, para 5,46 euros, por quilo. O robalo aumentou 30%, para 10,48 euros, por quilo, enquanto o bacalhau graúdo ficou 26% mais caro, atingindo 20,06 euros, por quilo. A carne de novilho para cozer apresenta a maior subida percentual, de 101%, custando, atualmente 11,72 euros, por quilo. Seguem-se o bacalhau graúdo, com um aumento de 89%, para 20,06 euros, por quilo, e a couve-coração, também com a subida de 89%, para 1,88 euros.

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De certo modo, estamos em crer que a insistente incidência do Chega no caso Luís Neves, embora tenha motivações partidárias (contradiz o partido, no atinente à supostamente necessária associação da criminalidade à imigração e a PJ, durante a sua gestão, terá investigado alguns dos seus militantes), sempre dará jeito ao executivo. E a prometida comissão parlamentar de inquérito (CPI) prometida pelo Chega vai nesse sentido.

Enquanto, discutimos Luís Neves e as suas informalidades, faltas de compliance, irregularidades e até ilegalidades (reparáveis ou puníveis por quem de direito), esquecemos, por exemplo, o que se passou nos exames nacionais, a incapacidade da Agência para a Gestão do Sistema Educativo (AGSE) para colocar nas escolas todos os alunos sujeitos à escolaridade obrigatória, o que está a motivar pais a contestar a sua inação e a levar aos tribunais a sua falta de reposta.

É certo que as escolas ganharam autonomia para matricular e distribuir os alunos, mas se não houver vaga, não sabem para onde os encaminhar. Ora, a Direção-Geral dos Estabelecimentos Escolares (DGEstE), conhecendo a rede de escolas, fazia bem esse trabalho.

Já ninguém fala do que se passa na Saúde, nomeadamente, no campo das urgências hospitalares, no que tem acontecido com o Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) e na falta crescente de médicos de família.

E Fernando Araújo, no jornal Público, de 12 de setembro, fala da evolução de três setores de cirurgias: as programadas, as convencionais e as de ambulatório, em dois períodos distintos: 2022-2024 e 2024-2026. No primeiro período, houve o aumento de 19%, no total de cirurgias programadas, de 11%, nas convencionais, e de 22%, nas de ambulatório. Ao invés, no segundo período, o impacto das medidas ditas transformadoras traduziu-se na redução em 1% das cirurgias programadas, de 7% das convencionais, embora com o crescimento marginal das cirurgias de ambulatório, mas com menos 0,5% de cirurgias urgentes. E, hoje, o Sistema Nacional de Saúde (SNS) opera menos 5% do que em 2024.

Ninguém questionou o PM sobre a regulamentação da Lei da Prestação Social Única (PSU), ou porque resolveu o governo atribuir aos vitivinicultores do Douro a verba de 12 milhões de euros, para deixarem as uvas nas cepas, quando a maior parte das vindimas está feita.

Os deputados não perguntaram ao governo porque e com que critérios privatizará a TAP ou como reaverá a ajuda em dinheiro público que lhe foi dada, em tempos. Não perguntaram por que motivo o Estado tem, agora, de participar no capital da Rede Energética Nacional (REN) com a quota de 13,4% e como condicionará o custo da energia, com tal participação.

O governo não foi questionado sobre a aquisição – e em que termos – de três fragatas à Itália, sobre os critérios de aquisição das aeronaves que substituirão os caças F-16, nem em que situação se encontra o NRP D. João II – conhecido por Plataforma Naval Multifuncional (PNM) – um projeto de um navio polivalente da Marinha Portuguesa. Enfim, ainda não se perguntou ao governo a causa por que o investimento, em curso, na defesa não foi presente à AR.

Por último, como se fala tanto de ilegalidades supostamente cometidas por Luís Neves, é de perguntar que diz o governo sobre uma informação veiculado pelo Expresso online, a 18 de julho, sobre o ministro das Infraestruturas e da Habitação, Miguel Pinto Luz, enquanto vice-presidente da Câmara Municipal de Cascais.

Referia o Expresso, então, que o MP, segundo notícia avançada pela RTP, solicitara a suspensão imediata das obras de construção do novo hotel Hilton e de 120 apartamentos na linha de Cascais, bem como a demolição dos edifícios que estão quase concluídos. Em concreto, o MP defende a demolição de, pelo menos, os últimos três pisos dos edifícios, embora a ordem para parar a obra ainda não tinha chegado ao terreno.

Além disso, a Procuradoria-Geral da República (PGR) pretende a suspensão das licenças e a declaração de nulidade das deliberações e dos despachos dos responsáveis políticos que autorizaram o empreendimento, a maior parte dos quais terão sido da pena do atual ministro.

O caso, que veio a público, através de uma reportagem da RTP, em janeiro de 2024, na sequência de queixa-crime da associação ambientalista SOS Quinta dos Ingleses, deu origem a um inquérito da PGR. Está em causa a venda, pela autarquia, de um terreno com cerca de 800 metros quadrados por menos de 313 mil euros, numa das zonas mais caras do país. Os edifícios já têm vidros nas portas e janelas e gradeamento nas varandas, referia a estação pública de televisão. No entanto, o MP considera-os condenados: defende que o local deve ser reposto no estado anterior ao início dos trabalhos, visto que as construções foram erguidas a menos de 500 metros do mar, mais altas do que as vizinhas, em terreno que integra a Reserva Ecológica Nacional (REN).

Por causa disto, nem o Chega, nem qualquer outro partido pretendem apresentar moção de censura, nem organizar uma CPI.

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Os nossos representantes na Casa da Democracia não se aplicam, estão ou parecem estar mal preparados ou o regimento da AR entala-os na disciplina partidária e de funcionamento (os tais semáforos parlamentares de tempo e de iniciativa). E a causa pública fica para trás.

2026.07.12 – Louro de Carvalho

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Tragédia do 11 de Setembro continua a marcar os EUA e o Mundo

 

Assinalaram-se, a 11 de setembro, os 25 anos dos atentados que ensombraram Nova Iorque e Washington, aliás, os Estados Unidos da América (EUA) – atentados que que provocaram milhares de vítimas e desencadearam as duras guerras no Médio Oriente.

A 11 de setembro de 2001, a manhã solarenga de verão de Nova Iorque augurava um dia normal, mas um instante, que marcou a História, teve impacto na vida quotidiana de milhões de pessoas, nos EUA e no resto do Mundo. Às 08h46 (13h46, em Lisboa), surgiram os primeiros relatos: as televisões, como a CNN ou a CBS, interromperam a emissão e lançaram os alertas de última hora sobre “a colisão de um avião” com uma das torres do World Trade Center (WTC). A maior parte das testemunhas, ouvidas em dezenas de reportagens ou documentários, lembram que “ninguém sabia o que estava a acontecer”. Só entenderam que se tratava de um atentado, mais tarde, quando as televisões mostravam, em direto, ao Mundo o segundo avião a embater noutra torre do WTC. As Torres Gémeas foram destruídas.

Porém, o choque não se limitou a Nova Iorque. Outro avião, meia hora mais tarde, despenhou-se sobre o Pentágono. Das quatro aeronaves desviadas por terroristas, só uma não terá chegado ao destino. O voo 93 da United Airlines despenhou-se em Shanksville, no estado da Pensilvânia. Investigações subsequentes concluíram que os passageiros entraram em confronto com os terroristas a bordo. O avião teria por destino o Capitólio ou a Casa Branca. Das quase três mil pessoas que morreram, então, só pouco mais de 1600 foram identificadas.

No final dos anos 1980, Osama Bin Laden fundou o movimento extremista Al-Qaeda e, uma década mais tarde, a partir das cavernas do Afeganistão, declarou guerra aos EUA. Nascido em Riade, na Arábia Saudita, era filho de um empresário e investidor do ramo da construção civil. Criticava o apoio norte-americano a regimes do Médio Oriente, que classificava de “tirânicos” e “apóstatas”, como o próprio regime saudita, e sustentava que se tratava de “agressão ocidental contra os muçulmanos, em todo o Mundo”, segundo o The Guardian.

Nos anos 1990, houve vários atentados da autoria da Al-Qaeda contra embaixadas e bases dos EUA na África Oriental. A 26 de fevereiro de 1993, em território dos EUA, uma carrinha carregada de explosivos rebentou na garagem do WTC, causando a morte de seis pessoas. Mais de mil ficaram feridas. No início dos anos 2000, um ataque suicida quase afundou um navio de guerra norte-americano, ao largo do Iémen. E, mais tarde, o inquérito do Congresso destacou a incapacidade de altos responsáveis, incluindo o presidente George W. Bush, de agir, ante os avisos dos serviços de inteligência. E os documentos apontam falhas do FBI e da CIA na partilha de informações cruciais que impediriam a tragédia setembrina.

“Hoje, os nossos compatriotas, o nosso modo de vida, a nossa própria liberdade, foram atacados numa série de atos terroristas deliberados e mortíferos.” Foi com esta frase que o Presidente dos EUA, George W. Bush, iniciou o discurso que fez, a partir da sala oval, na Casa Branca, 12 horas após os atentados terroristas.

Nessa manhã, o então inquilino da Casa Branca estava de visita a uma escola primária na Florida. Sem compreender o que se passava, pediu para o manterem informado sobre o que estava a acontecer em Nova Iorque. Depois, desfizeram-se as dúvidas. O chefe de gabinete da Administração Bush foi dizer-lhe que um segundo avião colidiu com a segunda torre. E, pouco depois, percebeu que houve aviões desviados para Washington, obrigando-o a passar largas horas no ar, a bordo do Air Force One, antes de aterrar no Nebraska.

Três dias depois, Bush foi a Nova Iorque, ao local, hoje conhecido como “Ground Zero”. Ante milhares de trabalhadores, polícias e bombeiros, garantiu ao Mundo, no que foi muito aplaudido: “As pessoas que derrubaram estes edifícios vão ouvir-nos a todos, em breve.”  

Menos de um mês após os atentados, surgiu a primeira resposta de Washington contra a Al-Qaeda. Sob as suas ordens, as forças dos EUA começaram a bombardear os campos de treino dos terroristas da Al-Qaeda e as instalações militares do regime talibã no Afeganistão. Estas ações, cuidadosamente direcionadas, como declarou o Presidente republicano, a 7 de outubro, tinham o objetivo de impedir que o Afeganistão fosse utilizado como base de operações terroristas e de enfraquecer a capacidade militar do regime talibã. E só ao fim de 20 anos, em 2022, é que os EUA saíram, definitivamente, do Afeganistão. Durante esse período, houve comparações “com o Vietname”, lembrando as consequências do conflito dos anos 1970.

Os analistas do Pentágono acreditavam que Osama Bin Laden estaria escondido nas montanhas afegãs, mas, só em 2011, foi localizado e morto numa operação das forças especiais norte-americanas no Paquistão.

Ao longo de duas décadas, foram milhares as vítimas – civis e militares – de uma guerra “sem fim”. E a Al-Qaeda ainda existe, lembra a BBC, sobretudo na África subsariana e, inclusive, com alguns membros no território afegão.

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Além dos milhares de norte‑americanos mortos no 11 de Setembro, dezenas de europeus perderam a vida e, 25 anos depois, alguns suspeitos não foram julgados. Porém, os atendados continuam enraizados na memória coletiva norte-americana, mais do que qualquer outra ocorrência dos últimos 25 anos. Uma sondagem da Ipsos refere que cerca de metade dos adultos nos EUA, cita o 11 de setembro entre os factos mais marcantes das suas vidas, à frente da pandemia de covid-19, das eleições de Barack Obama e de Donald Trump e do furacão Katrina, em 2005. E 90% sustenta que tais ataques mudaram o país “muito” ou “bastante”, com a maioria dos norte-americanos a lembrar-se de onde estava, quando recebeu a notícia.

Mesmo assim, apesar da ferida duradoura, apenas cerca de 1% tencionava assinalar, ativamente, o aniversário que se assinalou a 11 de setembro deste ano; e, entre os que o fizeram, um minuto de silêncio e o hastear da bandeira foram os gestos mais comuns.

A confiança na capacidade do governo para impedir um novo ataque também diminuiu, de forma constante, desde os níveis recorde registados nos dias que se seguiram a 2001.

As cerimónias decorreram nos três locais. Em Nova Iorque, familiares das vítimas reuniram-se na praça do Memorial para a leitura, em voz alta, dos nomes dos mortos, intercalada por sete momentos de silêncio, mais um do que em anos anteriores, acrescentado para homenagear os que, entretanto, morreram, devido a doenças associadas ao 11 de Setembro.

Quase três mil drones iluminaram o horizonte de Nova Iorque, durante um ensaio da instalação “Tribute in Light”, preparatória do 25.º aniversário dos atentados. Os aparelhos enchiam o céu noturno com formações em constante mudança sobre a cidade. E, no dia 11, foram utilizadas, ao todo, 2977 luzes, número que corresponde às pessoas mortas nos atentados. Os drones traçaram padrões sobre Nova Iorque, no âmbito do memorial anual.

Houve também cerimónias no Pentágono, em Arlington, e no Memorial Nacional do Voo 93, em Shanksville, na Pensilvânia.

Donald Trump não participou, desta vez, na cerimónia de Nova Iorque, preferindo discursar no Pentágono. Contudo, o vice-presidente James David Vance deslocou-se ao “Ground Zero”, área onde começaram as primeiras buscas de sobreviventes. Também os ex-presidentes Joe Biden, Barack Obama, Bill Clinton e George W. Bush foram à cerimónia de Nova Iorque.

Artistas que desenham a giz reuniram-se no Memorial Nacional do Voo 93, em Shanksville, na Pensilvânia, para criarem retratos dos 40 passageiros e membros da tripulação mortos a 11 de setembro. Cada desenho a constitui uma homenagem pessoal às vítimas do Voo 93 da United Airlines. Entre as obras está o retrato de um dos passageiros que participou na tentativa de recuperar o controlo do avião sequestrado. Outro artista desenhou a pessoa mais jovem a bordo do voo, dizendo que o trabalho tem forte significado pessoal. Os retratos são temporários e esbater-se-ão, gradualmente, enquanto estiverem expostos no memorial.

Também na Califórnia, quase três mil bandeiras dos EUA cobriram o relvado da Universidade Pepperdine, em Malibu, na comemoração anual “Wave of Flags” dos atentados, em homenagem às 2977 pessoas mortas. Os visitantes percorreram as filas de bandeiras, com mensagens de homenagem presas a alguns mastros. Efetivamente, cartões com a inscrição “We Remember” foram colocados entre as bandeiras, enquanto um expositor próximo convidava os visitantes a escreverem as suas próprias mensagens de tributo às vítimas.

Para alguns, a abreviatura “9/11” pode parecer estranha. A data foi o 11.º dia do 9.º mês, mas a convenção norte-americana de escrever as datas com o mês em primeiro lugar dá origem a “9/11”, o que coincide com o número de emergência 911 nos EUA.

Quase três mil norte-americanos (justamente, 2977) morreram nos atentados, mas, entre as vítimas, contavam-se centenas de cidadãos estrangeiros. As estimativas apontam para cerca de 372 vítimas não norte-americanas, oriundas de cerca de 60 países. O Reino Unido registou o maior número de mortos de qualquer país, além dos EUA, com 67 cidadãos mortos. A Alemanha, a Itália, a Irlanda e outros Estados europeus perderam igualmente cidadãos, muitos deles trabalhadores do setor financeiro que trabalhavam no WTC ou o visitavam.

A empresa norte-americana de serviços financeiros Cantor Fitzgerald ocupava os pisos 101 a 105 da Torre Norte do WTC, diretamente, acima da zona de impacto do voo 11 da American Airlines. Empregava vários europeus e, no total, 658 trabalhadores morreram nesse dia, a maior perda de vidas sofrida por uma só empresa.

O número de europeus mortos (131) nos atentados de 11 de setembro, por países, é: do Reino Unido – 67; da Alemanha – 11; da Itália – 10; da Irlanda – seis; da Polónia – seis; de Portugal – nove portugueses e lusodescendentes; da França – quatro; da Roménia – quatro; da então República Federal da Jugoslávia (a Sérvia e o Montenegro) – dois; da Suécia – dois; da Suíça – dois; da Bielorrússia, da Bélgica, da Lituânia, da Moldávia, dos Países Baixos, da Rússia, da Espanha e da Ucrânia – um, por país.

Durante os ataques, morreram os 19 sequestradores, sendo 15 cidadãos sauditas, dois dos Emirados Árabes Unidos (EAU), um do Egito e um do Líbano. Por detrás deles estava a mais ampla rede terrorista da al-Qaeda, que reivindicou, diretamente, a responsabilidade pelos atentados. O líder do grupo, Osama bin Laden, fugiu à captura, durante quase uma década, antes de ser morto por forças especiais dos EUA no Paquistão, em 2011. E o seu sucessor, Ayman al-Zawahiri, foi morto num ataque de drone em Cabul, em 2022.

Khalid Sheikh Mohammed, o “cérebro” do plano, foi capturado, no Paquistão, em 2003, e está detido na base de Guantánamo desde 2006, acusado de homicídio em primeiro grau de 2977 pessoas. Um juiz militar norte-americano marcou, agora, o início do julgamento, longamente adiado, para junho de 2028, juntamente com vários alegados coconspiradores, após ter falhado um acordo de confissão, em 2024, que previa que os arguidos admitissem culpa, em troca da retirada da pena de morte das opções de condenação.

O processo arrasta-se, marcado por disputas sobre provas obtidas mediante o recurso a tortura, incluindo simulações de afogamento, em locais secretos da CIA.

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À hora dos ataques, o jornalista Henrique Mano estava em Nova Jérsia, na redação jornal Luso-Americano, o mais antigo jornal de língua portuguesa em publicação contínua nos EUA.

Nova Iorque, onde dois aviões se despenharam contra as Torres Gémeas do WTC, ficava do outro lado do rio. As torres acabaram por colapsar. “Primeiro, durante umas horas, não se sabia bem o que se tinha passado, quantos aviões mais iriam cair. […] Foi uma sensação de insegurança também muito grande. De certa maneira, de perda e de não acreditar que um ataque terrorista daqueles pudesse acontecer com aquele requinte”, recorda o jornalista.

O resto do dia foi passado a refazer a edição do jornal que ia ser publicada no dia seguinte, uma edição ainda com mais perguntas do que respostas sobre o que estava a ocorrer. Todos os acessos a Nova Iorque estavam fechados. Henrique Mano só conseguiu pôr-se a caminho de casa no dia seguinte. Mas, antes, passou por uma comunidade portuguesa das zonas de Tribeca e Soho, a poucos minutos do WTC. Estavam aflitos, porque eram amigos de um casal que tinha um filho que trabalhava nas torres e do qual nada sabiam.

O jornal, que iniciou uma investigação de dois anos para identificar e escrever as histórias das vítimas portuguesas e luso-americanas, identificou nove pessoas, no total. Não foram encontrados os corpos de todas as vítimas. É esse, por exemplo, o caso de João Aguiar Júnior, de 30 anos, que trabalhava no setor financeiro e que salvou a vida de colegas. Percebeu que tinham de sair do prédio, andou pelo escritório a pedir a todos para saírem, aquelas pessoas com quem trabalhava saíram, ele assegurou-se de que elas chegaram ao elevador e elas sobreviveram.  Porém, quando o segundo avião embateu no edifício onde se encontrava, a Torre Sul, ele ainda não tinha conseguido escapar.

A história de João Aguiar Júnior foi imortalizada num dos capítulos do livro “The Hidden Brain” (“O Cérebro Oculto”), de Shankar Vedantam.

Das nove vítimas identificadas pelo jornal, apenas uma, Christopher Mello, estava num dos aviões sequestrados. Viajava com um colega no AA11 da American Airlines, que embateu na Torre Norte. Estava numa viagem de trabalho a caminho de Los Angeles.

Henrique Mano também cobriu outras histórias do 11 de Setembro, com enfoque na comunidade luso-americana, desde os que escaparam à morte por acaso, salvos pela pausa para fumar ou por atraso a chegar ao emprego, até a pessoas envolvidas nas operações de salvamento e de remoção dos escombros. Aliás, a montanha de escombros e o cheiro que dali emanava foram o que mais o impressionou, nos primeiros dias.

No fim de setembro de 2001, a família de João Aguiar Júnior fez uma cerimónia de despedida, junto à praia, em Nova Jérsia. Alguns colegas de trabalho estiveram presentes e tinham quase um pouco de culpa de sobreviventes, porque eles estavam na cerimónia e ele não.

No 25.º aniversário, Henrique Mano voltou a escrever sobre as vítimas e testemunhas do 11 de Setembro no jornal Luso-Americano. Porém, tantos anos depois, vão surgindo histórias novas. “Agora surgiu o nome de uma mulher que estou a tentar investigar, tentar saber se ela é ou não de origem portuguesa. […] É sempre uma caixa de Pandora inacreditável”, diz, vincando a dificuldade de chegar aos familiares.

Se confirmada, esta será a 10.ª vítima portuguesa e a primeira mulher, numa tragédia que, no dizer do jornalista, “afetou tanta gente de formas tão diferentes que a gente nunca sabe”.

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Agora, o Mundo está polvilhado ameaças híbridas, de guerras, de guerrilhas, de terrorismo e de contraterrorismo, com as liberdades e a segurança/defesa em desequilíbrio.

2026.09.11 – Louro de Carvalho

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Choque energético na Zona Euro faz BCE subir taxa de juro para 2,5%

 

O Conselho do Banco Central Europeu (BCE) anunciou, a 10 de setembro, o aumento da taxa da facilidade de depósito de 2,25% para 2,5%, aduzindo que o choque energético provocado pela guerra no Irão faz subir a inflação na Zona Euro, o que obrigou a um segundo aumento, em três meses. É o segundo aumento desde 11 de junho, data em que a autoridade de política tomou medidas de endurecimento, pela primeira vez, em três anos. No resto da economia, o cenário é mais calmo.

O BCE define a política monetária da zona euro, através de três taxas de juro de referência, sendo a taxa da facilidade de depósito o principal indicador de referência da sua política. No entanto, a taxa de refinanciamento principal também foi aumentada para 2,65% e a taxa da facilidade de crédito marginal para 2,9%.

No seu comunicado, o banco central observou que “o conflito no Médio Oriente continua a gerar pressões inflacionistas” e que “a inflação deverá permanecer bem acima da meta, durante um período prolongado”. Todavia, simultaneamente, garante que, “com a decisão de hoje, o Conselho do BCE continua bem posicionado para lidar com a incerteza causada pelo conflito”.

As projeções dos especialistas do BCE continuam a estimar que a inflação global se situará, em média, nos 3%, neste ano. No entanto, reviu em alta as expectativas de 2,5% e de 2,1%, para 2027 e para 2028, respetivamente, em comparação com junho.

Esta decisão segue-se à leitura da inflação de agosto, que se situou nos 3,3%, acima dos 2,9% registados em julho, correspondendo ao valor mais elevado, desde setembro de 2023.

Praticamente, os custos da energia explicam a subida, com a inflação energética a aumentar de 10,3% para 14,3%, à medida que os conflitos no estreito de Ormuz limitam a oferta de petróleo bruto. O problema persiste, dado que o Brent voltou a ultrapassar os 100 dólares, por barril, no dia 9, devido a novos confrontos entre os Estados Unidos da América (EUA) e o Irão.

A inflação subjacente, que exclui a energia, os alimentos, o álcool e o tabaco, desceu de 2,5% para 2,4%, em agosto, enquanto a inflação dos serviços, o componente mais sensível aos salários, recuou de 3,3% para 3%. Ainda não há sinais de que o encarecimento da energia esteja a espalhar-se pelo resto da economia.

Num estudo publicado no início deste mês, os economistas do BCE concluíram que os fatores adversos associados à oferta de energia explicam cerca de 90% da subida da inflação energética, entre janeiro e maio deste ano. “Desta vez, o choque na oferta de energia predomina, ao passo que a procura e o estímulo da política pública assumem um papel secundário”, escreveram os economistas, em contraste com a vaga de 2021-2022, que motivou resposta mais agressiva.

Em agosto, a inflação foi de 4,5%, na Espanha, de 2,9%, na Alemanha, e de 2,7%, na França – três economias que enfrentaram o mesmo choque energético, sob a mesma taxa de juro, mas com resultado diferente.

O bloco do euro tem resistido melhor do que o esperado, mas esta resiliência está longe de representar um sobreaquecimento e, mesmo, com uma taxa de 2,5%, a taxa de depósito permanece dentro da faixa considerada neutra pelo BCE. Ir mais longe significaria assumir que a política deve começar a travar, ativamente, a economia.

Christine Lagarde, líder da autoridade da política monetária da Zona Euro, já tinha anunciado esta possibilidade de aumento dos juros, em julho, quando o Conselho manteve as taxas, mas instruiu os serviços a simularem cenários para o petróleo e para o gás, antecipando-se a setembro. “A responsabilidade da prova está nos dados”, afirmou então Lagarde, vincando que “todo o impacto inflacionista do choque energético ainda está por sentir”.

A decisão do dia 10 é acompanhada por novas projeções dos serviços, embora a data de corte seja de cerca de duas semanas antes da reunião, o que significa que estão refletidos nela, nem a fase mais recente da subida do petróleo, nem o aumento dos rendimentos das obrigações soberanas europeias para máximos de 15 anos.

As atenções voltam-se, agora, para os bancos homólogos de Frankfurt. A Reserva Federal norte-americana (FED) divulgará a sua decisão a 16 de setembro e o Banco do Japão a 18, estando ambos a ponderar novas subidas. Ao invés, o Banco de Inglaterra, que decidirá no dia 17 de setembro, deverá manter as taxas, dado sustentar uma taxa diretora de 3,75%, muito mais elevada do que a dos restantes bancos centrais.

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A 9 de setembro, os mercados atribuíam à subida de 0,25% uma probabilidade quase certa, o que elevaria a taxa de depósito do BCE de 2,25% para 2,5%. O que tornava difícil esta decisão não era saber se o BCE ia agir, mas porquê e se a justificação resistiria ao confronto com os dados.

Até aqui, tudo tem acontecido de forma acelerada: o BCE aumentou as taxas, a 11 de junho, pela primeira vez, em três anos, elevando a taxa de depósito de 2% para 2,25%, em resposta ao choque energético da guerra com o Irão, e manteve‑as em julho. Porém, Christine Lagarde sinalizava setembro, num tom mais agressivo.

Os números da inflação de agosto dissiparam as dúvidas restantes, com a inflação da energia, na Zona Euro, a atingir um valor percentual bem mais alto do que em julho.

Porém, segundo o BCE, a inflação global não se generaliza, até se inverte o retrato. Tanto a inflação subjacente como a inflação nos serviços, o componente mais ligado aos salários e à procura interna, recuaram. Assim, continua a haver poucos sinais de que a energia cara esteja a repercutir‑se no resto da economia. É isso que os economistas entendem por “efeitos de segunda ordem” e a sua ausência é o argumento mais forte contra um aperto da política monetária.

Os estudos do BCE reforçam esta importante distinção. Num artigo publicado a 8 de setembro, economistas do BCE concluíram que os fatores adversos de oferta de energia, motivados por tensões geopolíticas, explicam cerca de 90% da subida da inflação da energia, entre janeiro e maio. “Desta vez, o choque na oferta de energia domina, enquanto a procura e os estímulos de política pública têm papéis secundários”, escreveram os economistas, acrescentando que “estas diferenças são essenciais para explicar porque é que as respostas de política monetária são diferentes”.

Já a vaga de 2021‑22 resultou de “uma combinação de fatores de oferta e de procura de dimensão elevada e sem precedentes”, razão pela qual o BCE então “aumentou as taxas de juro, de forma vigorosa e persistente”, em vez de o fazer gradualmente.

A divergência entre países da UE sublinha ainda mais quão desigual é esta situação. Como vimos, a Espanha, a Alemanha e a França são três economias sujeitas ao mesmo choque energético e, tendo resultados muito diferentes, todas são reguladas por uma única taxa de juro.

Também o crescimento económico é complicação. A Zona Euro mostrou‑se mais resiliente do que se previa, algo que o ING ((Internationale Nederlanden Groep)) atribui, em parte, à sorte, em parte, ao facto de os concorrentes asiáticos sofrerem mais com o encerramento do estreito de Ormuz e, em parte, ao estímulo orçamental. Porém, resiliência não significa que o crescimento não possa, ou não deva, acelerar.

O ING – instituição financeira multinacional, de origem neerlandesa, que oferece serviços bancários, a nível global – carateriza o movimento esperado para o dia 10 como “mais uma subida de taxas por prevenção” ou “uma subida de taxas dovish”, frisando que, mesmo a 2,5%, a taxa de depósito permanece dentro da faixa que o próprio BCE considera neutra.

Uma postura dovish indica que um banco central prefere reduzir ou manter as taxas de juros baixas, para estimular o emprego e o crescimento económico, tolerando um pouco mais de inflação, pois ir mais longe significa assumir que é necessária uma política restritiva, o que seria, no caso, uma decisão de natureza totalmente diferente.

O BCE não atua sozinho, o que é relevante para o euro. A FED reúne‑se a 15 e a 16 de setembro, depois de o presidente, Kevin Warsh, ter defendido, no seu primeiro discurso em Jackson Hole, que as condições financeiras não são restritivas e que a inflação subjacente não melhorou. E os investidores atribuíram, antes dessas declarações, uma probabilidade de cerca de um terço a uma subida nos EUA, mas apontam, agora, para 60% de hipótese de a FED elevar a banda alvo de 3,5%‑3,75% para 3,75%‑4%. E o Banco do Japão segue‑se a 17 e 18 de setembro, com os mercados a atribuírem entre 80% e 90% de probabilidade de um movimento para 1,25%.

Ao invés, o Banco de Inglaterra deverá manter as taxas em 3,75%, a 17 de setembro, porque, atualmente, sustenta uma taxa de juro muito superior à dos restantes bancos centrais.

Se a FED subir as taxas, enquanto o BCE as mantiver, o dólar reforçar‑se‑á, face ao euro, o que terá efeitos contraditórios para Frankfurt. Um euro mais fraco torna as exportações europeias mais competitivas, mas encarece as importações. E, como o petróleo e o gás são transacionados em dólares, acabaria por aumentar os custos de energia que estão na origem do problema de inflação.

No conjunto, é seguro presumir que a subida de taxas em setembro está, praticamente, garantida no BCE, mas também é provável que não resolva o dilema atual da instituição: aumentar os custos de financiamento, perante uma inflação que não consegue alcançar, e retirar, ao mesmo tempo, o apoio a uma economia que ainda poderia beneficiar dele.

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Depois de uma pausa de três anos, está retomado o ciclo de aperto da política monetária. Com efeito, o conflito no Médio Oriente continua a gerar pressões inflacionistas, devendo a inflação permanecer muito acima do objetivo, durante um período alargado.

O aumento era esperado pelos analistas e pelos economistas que acompanham as movimentações de política monetária da banca central, numa altura em que as taxas de inflação na Zona Euro, depois de um alívio momentâneo, dão mostras de estarem a ganhar balanço.

Em agosto, o Índice Harmonizado de Preços no Consumidor (IHPC), o indicador que permite a comparação dos níveis de preços entre os países da União Europeia (UE), aumentou 3,3%, face ao mês homólogo, uma aceleração, face aos 2,9% de julho.

Por sua vez, o BCE reiterou que “o Instrumento de Proteção da Transmissão” – que permite, sob determinadas condições, a compra de dívida, no caso de aumento da rendibilidade implícita das obrigações soberanas – “está disponível para contrariar dinâmicas de mercado desordenadas, injustificadas e passíveis de representarem uma ameaça grave para a transmissão da política monetária, em todos os países da área do euro, permitindo, assim, ao Conselho do BCE cumprir, mais eficazmente, o seu mandato de estabilidade de preços”, mensagem que os mercados terão em conta, numa altura de acentuada queda dos preços dos Títulos do Tesouro dos países, que se traduz, a curto prazo, num aumento da fatura com juros para as capitais europeias.

A subida dos preços, espoletada pela crise no Médio Oriente e pela sua repercussão nos preços dos combustíveis, é a razão direta para esta decisão tomada pelo BCE, segundo o qual “as perspetivas mantêm-se extremamente incertas, com riscos em alta para a inflação e em baixa para o crescimento económico”.

No atinente ao choque energético, os cenários atualizados preparados pelos especialistas ilustram o vasto leque de resultados para a evolução do crescimento e da inflação, com base em diferentes pressupostos sobre a intensidade e a duração do choque, bem como os seus efeitos indiretos e de segunda ordem.

Já no respeitante ao crescimento económico, as projeções de referência situam-se em 0,9%, para 2026, em 1,4%, para 2027, e em 1,5%, para 2028 – uma revisão em alta, relativamente a 2026 e a 2027, refletindo, sobretudo, uma resiliência da economia da área do euro maior do que o esperado. Recentemente, o Eurostat reviu em alta a taxa de crescimento na Zona Euro do segundo trimestre para os 0,6% em cadeia.

A resistência das economias europeias ao choque energético terá facilitado a decisão anunciada no dia 10; mas, ante a ameaça de inflação mais acelerada, os analistas mantinham, antes do anúncio, a perspetiva de novo aumento, apenas em dezembro. Numa análise divulgada, no dia 9, Michael Krautzberger, diretor de Investimento Global de Mercados Públicos da AllianzGI, sustentava que “a combinação de previsões de inflação em alta e uma função de reação vigilante sugere que a fasquia para novos aumentos, além de setembro, se mantém baixa” e que “é provável outro aumento de 0,25% em dezembro”.

Mark Wall, economista-chefe para a Europa do Deutsche Bank, considera, numa nota já depois do comunicado do BCE, que os riscos inflacionistas podem estar a aumentar e que é provável que aconteça uma nova subida das taxas em dezembro, mas o BCE ainda tem de avançar com cautela, pois a economia mostrou-se resiliente, nos últimos seis meses, mas a rápida subida dos preços do gás significa que o choque negativo, do lado da oferta, está a intensificar-se, acabando por prejudicar o crescimento. A questão é saber em que medida e quando.

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Em suma, o ambiente económico e monetário é marcado pela incerteza. A guerra das armas sepulta pessoas e bens nos escombros da destruição, do trauma e da morte, talvez mais violentamente do que as catástrofes naturais. As ameaças de guerra, a guerra comercial e a guerra da desinformação são fonte de danos económicos, morais e sociais. E com líderes políticos – por exemplo, Donald Trump, Vladimir Putin e Xi Jinping – que não olham a meios para tingirem os fins, tudo é incerto, mutável e inseguro.

É preciso ganhar resiliência, porque hoje não há guerra pura. Ela e feita de tudo: armas, guerrilha, sabotagem, ameaças, desinformação, chantagem, difamação, supostos erros, ataques cibernéticos, cortes de energia e de comunicações, apagões, destruição de infraestruturas – envolvendo militares, civis e militares que trajem à civil, bem como envolvendo Estados e grupos de mercenários. É a guerra mundial aos pedaços, mexendo com tudo e com todos.

No meio de tudo isto, é preciso alimentar a esperança e nunca atirar a tolha ao chão.

2026.09.10 – Louro de Carvalho