Decorreu,
na cidade de Ancara, na Turquia, nos dias 7 e 8 de julho, a 39.ª Cimeira da
Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), que parece ter marcado,
segundo alguns analistas, o primeiro passo na europeização desta aliança transatlântica,
estando o velho continente na via do afastamento do apoio militar dos Estados
Unidos da América (EUA).
Não
sei se é inteiramente verdade essa europeização ou autonomia defensiva da
Europa, visto que se mantém como relevante a participação do Canadá e porque
Donald Trump está a jogar com um pau de dois bicos, considerando a importância
da NATO, mas passando à Europa – nomeadamente, à União Europeia (UE), que olha
de soslaio – o ónus da sua defesa. Além disso, a Europa não será autónoma,
enquanto não se reindustrializar de forma robusta.
A
Cimeira de Ancara de 2026 era, há muito, uma das mais aguardadas. Depois de quatro
anos de guerra no continente e de ano e meio de tensão com a Casa Branca, era o
momento de a Europa mostrar que leva a sério a sua defesa. Igualmente, foi a
primeira a contar com a presença do chanceler alemão, Friedrich Merz, do primeiro
ministro belga, Bart de Wever, do primeiro ministro búlgaro, Rumen Radev, e do primeiro
ministro neerlandês Rob Jetten – líderes políticos que assumiram os cargos após
a realização da cimeira anterior, ocorrida em Haia, nos Países Baixos, em 2025,
na qual estiveram presentes os líderes dos países participantes.
Em
maio deste ano, o presidente da Ucrânia, Volodomyr Zelenskyy tornou-se um dos
primeiros líderes convidados a confirmar, publicamente, a sua presença na
reunião. Além dele, o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, estendeu o convite
de participação aos líderes da Austrália, da Coreia do Sul, do Japão e da Nova
Zelândia, enfrentando a oposição do governo dos EUA, crítico da decisão de
incluir países não membros nas discussões principais da cimeira.
No
Fórum da Indústria de Defesa de 7 de julho, os aliados europeus anunciaram
contratos de 50 mil milhões de dólares (43 mil milhões de euros) para produção
e aquisição de armamento, incluindo submarinos, sistemas de defesa antimíssil Patriot,
intercetores e munições, apresentados como prova de que a NATO está numa via
credível para gastar 5% do seu produto interno bruto (PIB) em defesa, até 2035.
Destacaram-se
a decisão da NATO de escolher a empresa sueca Saab para fabricar aviões de
vigilância, para substituir o Sistema Aerotransportado de Alerta e Controlo
(AWACS), atualmente, operado com aviões da norte-americana Boeing, o programa
Drone Hedge da NATO, de 40 mil milhões de dólares (35 mil milhões de euros) em
capacidades de combate a drones, nos próximos cinco anos, cobrindo todo o
território da Aliança, e a priorização do recrutamento e da formação de pilotos,
que será, totalmente, interoperável entre todos os aliados.
“Os
drones alteraram, de forma fundamental, como todos sabemos, a natureza da
guerra moderna. […] Tornaram-se um fator decisivo no campo de batalha. Isto é
evidente pelo que vemos na Ucrânia, no Médio Oriente e em toda a Aliança”,
frisou Mark Rutte.
De
facto, as incursões de drones em território da NATO, sobretudo, nos países
bálticos, tornam-se cada vez mais frequentes e a Aliança tem estado sob pressão
para responder, de forma ágil e eficaz, em termos de custos. “O mais
interessante é a quantidade de trabalho que os aliados europeus fizeram nos
bastidores, em matéria de defesa e de contratos de armamento”, diz Daniel
Fiott, do Instituto de Estudos de Segurança da UE, vincando que é preciso “trabalhar,
em conjunto, nas diferentes vertentes da segurança”, tal como precisamos de “mais
cooperação” e “em dose reforçada, exatamente, neste momento”.
Donald
Trump pareceu aprovar a concessão de licenças dos sistemas de defesa
Patriot norte-americanos à Ucrânia. Os Patriot têm-se revelado os melhores
sistemas de interceção para responder a ataques com mísseis balísticos russos e
Kiev vem reclamando o direito de produzir os seus próprios sistemas, mas não
havia garantias do aval de Trump. “Vamos mostrar-lhes como se faz, é algo muito
complexo. Mas vocês vão, rapidamente, perceber a complexidade”, disse o líder
norte-americano ao líder ucraniano, antes da reunião.
Max
Bergmann, do Centre for Strategic and International Studies, afirmou que a
abertura de Donald Trump (percebeu que não pode intimidar os ucranianos), neste
dossiê, é sinal da força da Ucrânia, “seguiu em frente e está a interagir com
Bruxelas”.
Contudo,
o domínio dos EUA, na NATO, está longe de acabar, pois, como observa Nico
Lange, analista da Rasmussen Global, não haverá europeização da Aliança, enquanto
os seus membros não “substituírem as capacidades estratégicas essenciais da
NATO por capacidades europeias”. Isso inclui, na ótica do analista,
infraestruturas militares fundamentais para ligar militares e meios em toda a
Aliança, como “códigos horários baseados em satélites, navegação, guerra
eletrónica aerotransportada e ataques de precisão em profundidade”.
Embora
haja o consenso de que a cimeira decorreu sem graves incidentes, a Europa tem
de levar a sério as ameaças de Trump, em relação à Gronelândia, sem esquecer a
volatilidade do seu caráter volátil, que o pode levar a uma opção com danos
para a NATO.
Todavia,
apesar de a Europa continuar a depender dos EUA para a sua defesa, durante
algum tempo, o sentido de marcha do afastamento da dependência, em relação a
Washington, é claro.
“É
um sinal muito positivo que, pelo menos, no lado da produção de defesa, os
europeus percebam a mensagem de que têm de gastar mais e de forma inteligente
em capacidades”, foi esta a mensagem de Mark Rutte, na conferência de imprensa
do dia 7, ao procurar apresentar a cimeira como um momento em que a Europa
assume mais responsabilidades, mas sem prescindir da partilha da segurança com
o Canadá.
Não
obstante a UE ter dado um passo em frente e ser, agora, o principal financiador
militar da Ucrânia”, no início da cimeira, Trump ignorou os esforços dos
parceiros.
***
Um
presidente norte-americano visivelmente irritado chegou à cimeira da NATO,
deixando claro que não tinha vontade de estar ali e dizendo aos aliados que só
comparecia por respeito ao anfitrião, o presidente turco, Recep Tayyip Erdoğan.
Quase
de imediato, começou a censurar os países europeus por, alegadamente, não
apoiarem Washington, na guerra no Irão, mas o secretário-geral da NATO, num briefing,
no dia 8, interveio, de forma discreta, para o corrigir, vincando que as recusas
de alguns Estados em permitirem que os EUA utilizassem bases aéreas europeias
como escala para a campanha aérea foram incidentes isolados, tendo, no auge do
conflito, cinco mil aeronaves norte-americanas descolado de bases europeias, pelo
que “a Europa continua a ser uma grande plataforma de projeção de poder” dos
norte-americanos.
Noutro
gesto que ameaçou abalar a cimeira, Donald Trump reiterou a ideia de que
os EUA devem controlar a Gronelândia, território semiautónomo do aliado da NATO
que é a Dinamarca, mas a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen,
levou a ameaça a sério. “A posição dos EUA é, infelizmente, muito clara sobre
este tema”, afirmou, contrapondo: “A nossa posição é tão clara como sempre foi:
a Gronelândia não está à venda. Espero que todos os aliados respeitem o direito
do povo da Gronelândia à autodeterminação.”
Donald
Trump atacou também a Espanha, cujo primeiro-ministro, Pedro Sánchez, tem
criticado, abertamente, a guerra no Irão e resistido a avançar mais depressa
para atingir a nova meta de despesa em defesa da NATO. “A Espanha é uma causa
perdida. […] Já não queremos fazer qualquer negócio comercial com Espanha”, declarou.
Porém,
no final da cimeira, no dia 8, não havia sinais de que tal política fosse
aplicada. Em vez disso, o presidente dos EUA declarou, depois de participar
numa reunião do Conselho do Atlântico Norte, o principal órgão de decisão da
NATO: “Há uma palavra que resume o dia: ‘união’.” E chegou a classificar a reunião
de “excelente”.
***
Apesar
da tensão entre o líder dos EUA e a Europa, protagonizada por Donald Trump, o
anfitrião fez as honras da casa, ao pôr nas mãos de Ursula von der
Leyen, presidente da Comissão Europeia, e de António Costa, presidente do
Conselho Europeu, um kit de pistolas personalizadas, com
munições e utensílios de limpeza. Ambos agradeceram o gesto e procederam, logo,
à inspeção da segurança das armas. Ursula von der Leyen, tenciona doá-la a um
museu militar, enquanto António Costa pretende levá-la para Bruxelas e
“armazená-la, de acordo com os requisitos de segurança impostos pelo
Secretariado-Geral do Conselho”.
Segundo
o jornal “Independent”, todos os líderes de países da NATO foram presenteados
com este kit, com o respetivo nome gravado. Também Luís Montenegro,
primeiro-ministro português, que, embora tenha estado no Dallas, nos EUA, a ver
o jogo de Portugal com a Espanha, participou, integralmente, na cimeira, terá
recebido a arma e respetivos adereços. É, porém, pouco provável que as
armas possam ser mantidas, pessoalmente, pelos destinatários, devido aos
limites aplicáveis a ofertas deste tipo. Aliás, houve quem se recusasse a
transportar as pistolas, antes da desativação, como Keir Starmer e Rob Jetten,
chefes do Governo britânico e neerlandês. Estes deixaram as armas na Turquia,
pois, como disse Starmer, levar a prenda para o Reino Unido seria “ilegal”.
E, convenhamos, o gesto de Erdoğan foi provocador.
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Como
não podia deixar de ser, o primeiro-ministro português afirmou
que a Cimeira da NATO, confirmou a unidade da Aliança Atlântica, reforçou a
relação transatlântica e consolidou o compromisso dos aliados com o aumento do
investimento em defesa, num contexto de crescente instabilidade internacional.
No
final da reunião, Luís Montenegro considerou que a cimeira foi “bem-sucedida” (estando
lá dois portugueses tinha de ser bem-sucedida), destacando e o compromisso
comum dos parceiros europeus, do Canadá e dos EUA com o reforço do investimento
em defesa, o que permitirá aumentar a capacidade da NATO para responder aos
desafios de segurança.
Segundo
o chefe do governo, este esforço conjunto permitirá reforçar a defesa coletiva
e assegurar o apoio onde ele é mais necessário, no caso da realidade atual, “no
apoio à Ucrânia”.
O
primeiro-ministro reiterou a importância de a NATO manter uma visão de 360
graus da segurança, com especial atenção ao flanco Sul e à segurança marítima,
incluindo a proteção das infraestruturas críticas, como os cabos submarinos que
asseguram a ligação entre a Europa e a América do Norte. Salientou que a
declaração final da cimeira reconhece a indústria de defesa como um eixo
estratégico para todos os aliados, valorizando o papel das pequenas e médias
empresas. E enfatizou que, na perspetiva de Portugal, “o reforço do
investimento nesta área deve também contribuir para impulsionar a inovação, o
desenvolvimento tecnológico, a criação de emprego qualificado e a
competitividade da economia”.
Em
meu entender, não o conseguirá com salários baixos, com sobrecarga de trabalhos,
com ameaças de precariedade no emprego, sem direitos dos trabalhadores, sem
trabalhadores (Portugal exporta trabalho, porque paga mal, e parece recusar importação
de trabalho), sem organização e planeamento, sem dotar a administração pública
de quadros suficientes, sem renunciar à reforma do Estado com desmantelamento
de estruturas, sem abandonar a ótica reformista laboral que tem ou tinha em
mente. Com efeito, a industrialização precisa de dinheiro para pagar materiais
e para compensar a mais-valia que lhes dá o trabalho humano.
Luís
Montenegro revelou que Portugal recebeu um “comentário muito positivo”, do
secretário-geral da NATO, relativamente à fiabilidade dos compromissos
assumidos pelo país, e recordou que Portugal ultrapassou, em 2025, pela
primeira vez, desde 2014, a meta de investir 2% do seu PIB em defesa, o que
representou um aumento de 38%, face ao ano anterior.
O
governo prevê elevar o investimento agregado para cerca de 3,1% do PIB, neste
ano, incluindo a despesa em defesa e em investimentos com aplicação simultânea
nas áreas civil e militar, mantendo a trajetória acordada com os aliados.
Portugal
voltará a igualar, neste ano, o apoio militar e financeiro concedido à Ucrânia
nos dois anos anteriores e participará no Programa de Apoio à Defesa Antiaérea
daquele país, com a contribuição de cerca de 50 milhões de euros. Na verdade, para
Luís Montenegro, o apoio à Ucrânia continua a ser essencial para a segurança
coletiva e para a defesa dos valores democráticos partilhados pelos aliados.
É
caso para perguntar se é legítimo um país ter passado a fazer a guerra com drones.
A guerra de veículos não pilotados e de custo relativamente baixo faz lembrar o
que chamavam terrorismo do mato, a guerrilha subversiva ou alguns tipos de operações
especiais, segundo as lógicas do “esconde e mata”, do “mata e foge” e do “mata
para que não morras”.
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Portugal
e mais onze países da NATO reforçaram, no dia 8, o compromisso de assumir
“maior responsabilidade” pela “segurança marítima” no Atlântico Norte, no Mar
Báltico e no Oceano Ártico, reforçando as suas capacidades na próxima década.
Uma
nota do governo da Noruega refere que o “compromisso conjunto”, firmado na 39.ª
Cimeira da NATO, inclui o Canadá, a Dinamarca, a Finlândia, a França, a Alemanha,
a Islândia, os Países Baixos, a Noruega, Portugal, a Espanha, a Suécia e o
Reino Unido”. “Os nossos países dispõem já de capacidades e plataformas
marítimas modernas e têm planos para reforçarem, significativamente, essas
capacidades, na próxima década, posicionando-nos como uma força coletiva apta a
conduzir operações marítimas de elevada intensidade”, lê-se na nota.
Este
conjunto de aliados compromete-se a reforçar “o treino, os exercícios e as
operações, em todo o espetro das operações marítimas na região euro-atlântica”,
e “as capacidades de comando e controlo marítimos e a dar prioridade a
investimentos” que aumentem a sua “consciência situacional em todos os
domínios”. Além disso, compromete-se a intensificar “a aposta na inovação para
desenvolver capacidades e efeitos marítimos relevantes”.
Segundo
a nota, os aliados europeus e o Canadá estão dispostos e são capazes de assumir
a parte justa dos encargos, reforçando a unidade e a coesão da NATO. “Este
compromisso demonstra uma Europa mais forte numa NATO mais forte, com a Europa
e o Canadá a assumirem maior responsabilidade pela nossa segurança
euro-atlântica comum, em estreita coordenação com os Estados Unidos [da América].
[…] Perante um ambiente de segurança cada vez mais desafiante, este compromisso
demonstra a nossa vontade e capacidade para dissuadir e defender-nos da ameaça
de longo prazo representada pela Rússia”, lê-se no texto.
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Nestes
termos, como é possível a UE falar de paz? Com armas, só a paz dos escombros e
dos cemitérios!
2026.07.09
– Louro de Carvalho