O
comboio de tempestades que assolou, em janeiro e em fevereiro, alguns países,
com especial relevo para Portugal e para a Espanha, fez saltar para as diversas
agendas (meteorológica, ambiental, agrícola, energética, autárquica, etc.) a
designação de “rio atmosférico”.
Embora
se use o termo “rio”, para o fenómeno, trata-se apenas de uma analogia.
Porém, este campo está longe ser o único a adotar analogias. Veja-se, por
exemplo, o transporte de conceitos que passaram da navegação (marítima) para o
caminho de ferro (todos embarcamos, não em comboiamos; temos a gare ou o cais
de embarque) e, para a navegação (outra analogia) aérea, temos o aeroporto, a
aerogare, a aeronave e o embarque. Os computadores têm, por exemplo, o rato, a
memória e todos navegamos na Internet. A estratégia passou da área
militar, para a economia, para a gestão e para a pedagogia (por exemplo, ao
aluno com necessidades educativas especiais, aplicamos-lhe uma solução militar:
definimos “objetivos” e preparamos a “estratégia” de remediação; e, se não
houve sucesso, foi porque a estratégia falhou).
Os rios
atmosféricos, também ditos rios no céu, rios voadores, rios aéreos,
consistem em fluxos atmosféricos concentrados de vapor de água, em médios e
altos níveis da atmosfera. São invisíveis e não têm margens claramente
definidas, ao invés dos rios terrestres. Têm um papel preponderante no ciclo
hidrológico global, respondendo, todos os dias, por mais de 90% do transporte
global de vapor de água no sentido meridional (Norte-Sul). Todavia, a sua
atuação cobre menos de 10% da circunferência da Terra.
São
a principal causa de eventos de precipitação extrema, que provocam inundações severas
e deslizamentos de encostas, sobretudo, nos setores costeiros
ocidentais, incluindo as costas Oeste da América do Norte, Sudeste
da América do Sul, da Europa ocidental, as costas
Oeste do Norte da África, a Península Ibérica, o Irão e a Nova Zelândia.
Igualmente, a ausência de rios atmosféricos, em certos períodos, tem sido
atribuída à ocorrência de secas em várias partes do Mundo,
incluindo a África do Sul, o Brasil, a Espanha e Portugal.
Na América
do
Sul, o fenómeno de rios atmosféricos inicia-se a partir de certas regiões
da Amazónia. Estes fluxos de ar saturado com vapor de água são
alimentados pela humidade fornecida pela floresta, transportando humidade e vapor
de água advindos da evapotranspiração das árvores para outras
regiões.
A
humidade evaporada a partir do Oceano Atlântico perto linha do
equador é levada pelos ventos alísios – ventos constantes e regulares que
sopram, em todo o ano, dos trópicos (altas pressões) para o Equador (baixas
pressões) –, formando nuvens capazes de gerar muita precipitação.
Ao pairarem sobre a floresta amazónica, essas nuvens geram chuvas.
Posteriormente, as árvores que absorveram essa água sofrem evapotranspiração
e devolvem, na forma de vapor de água, à atmosfera a humidade absorvida. Assim,
o mecanismo é retroalimentado e o ar continua a ser transportado até outros setores
do subcontinente. Porém, a Cordilheira dos Andes impede estas massas de ar de
continuarem no rumo em que seguiam (Oeste), pelo que derivam para Sul e avançam
sobre o Leste da Bolívia e do Paraguai e, a seguir, para alguns estados do
Brasil.
Ao
longo deste processo, essas massas de ar causam precipitações significativas em
trechos da porção oriental dos Andes centrais, originando diversos rios da
bacia amazónica. A vazão destes rios flutuantes equivale à dos rios amazónicos,
lançando cerca de 200 mil metros cúbicos, por segundo (m3/s). Na
verdade, uma árvore bombeia para a atmosfera mais de 300 litros de água, num
dia, podendo uma árvore maior, evapotranspirar mais de mil litros, por dia. E,
na Amazónia, há cerca de 600 mil milhões de árvores.
A
humidade levada para o Sudeste e Centro-Oeste brasileiro garante à região
capacidade de não se tornar deserto, quando outras na mesma faixa subtropical
são desertos, como o Australiano, o Kalahari, o da Namíbia e o do Atacama, localizados
nas regiões próximas da latitude de 30° Sul.
***
Irina
Gorodetskaya, investigadora do Departamento de Física e do CESAM – Centro de
Estudos do Ambiente e do Mar da Universidade de Aveiro (UA),
especialista em Clima e Meteorologia Polar e coordenadora do Projeto
ATLACE sobre rios atmosféricos e seu impacto na Antártida e em Portugal, e Carla
Gama, investigadora do Departamento de Ambiente e Ordenamento e do CESAM,
especialista em modelação de aerossóis e da qualidade do ar, e investigadora do
mesmo projeto, em 15 de julho de 2021, na rubrica “Pergunte a um cientista do
CESAM – rios atmosféricos”, começavam por relevar que “um rio atmosférico pode
transportar mais água do que o rio Amazonas”. A seguir definiam rios atmosféricos
como “corredores longos e estreitos, na atmosfera, que transportam grandes
quantidades de água no estado gasoso”, podendo também ser chamados “rios no
céu”.
Segundo
as investigadoras, “estes rios ocorrem, normalmente, na zona frontal de
ciclones extratropicais, e têm extensões de várias centenas de quilómetros de
largura e vários milhares de quilómetros de comprimento”, mas, ao invés dos
rios terrestres, “são formados por vapor de água invisível”. No entanto, os
seus impactos, que são muito visíveis, estão associados à formação de nuvens e
a fenómenos de precipitação intensa. E, como referem as especialistas, “além de
grandes quantidades de humidade, os rios atmosféricos transportam calor, uma
vez que têm, normalmente, origem sobre os oceanos nas regiões subtropicais,
mais quentes, e se deslocam em direção às regiões de médias latitudes e
polares, mais frias”.
Quando
atingem a costa, estes rios, no dizer de Irina Gorodetskaya e de Carla Gama, “causam,
habitualmente, fenómenos de precipitação intensa, incluindo chuva ou neve”, sendo
mais afetadas as regiões das costas Oeste.
Observavam
as investigadoras que, em Portugal, estes rios são conhecidos pelas
precipitações extremas, especialmente, no inverno, e por terem causado
inundações fluviais graves, no passado. “Com menos frequência, mas com grandes
impactos, os rios atmosféricos podem também atingir o Ártico e a Antártida.
Nestas regiões polares, os rios atmosféricos podem originar duas situações
distintas: tanto podem causar eventos extremos de queda de neve, como grandes
eventos de derretimento de gelo, associados ao aumento da temperatura do
ar. Ocorrem, ainda, rios atmosféricos com origens surpreendentes, sobre os
continentes, como os rios atmosféricos com origem sobre a Sibéria ou sobre
o Norte da América, que transportam calor e humidade, em direção ao Ártico, ou
os rios atmosféricos com origem sobre a Amazónia, que se deslocam em direção ao
Sul do continente Africano”, especificavam as especialistas.
***
A
4 de fevereiro, em entrevista a Andrea Cunha Freitas, da equipa do “Azul” do jornal
Público, a seguir à passagem da tempestade Leonardo, sucessora da
tempestade Kristin, Ricardo Trigo, geofísico, professor de Climatologia da
Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e especialista em fenómenos
extremos climáticos, falando das tempestades, do que está por trás delas, da sua
relação com as alterações climáticas e do papel destas na intensidade dos
fenómenos, avisava: “Vem aí mais um rio atmosférico. Num território
fragilizado, pode causar mais danos.”
Admitindo
que, naqueles dias, houve conjugação de fatores com brutal força destruidora, o
geofísico vincava que não há evidência de que tais fenómenos sejam mais
frequentes, mas que serão “mais intensos”, e que “a perceção pública é moldada
pelos episódios mais extremos”.
Sobre
a resposta das autoridades, sublinhou que houve falha geral, mas destacou as
falhas da comunicação, da preparação e das infraestruturas que “não podem
falhar”, sendo esquisito terem ficado bombeiros sem telhado e ter falhado o
SIRESP [Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal].
Sobre
a hipotética normalidade destas tempestades sucessivas, num curto período, o
especialista defende que não há um “normal”, nestas coisas, pois já houve
sequências similares. Por exemplo, há cerca de 15 anos, “três tempestades, no
Norte da Europa, causaram centenas de milhões de euros em danos”. No desenrolar
normal da atmosfera, segundo o climatólogo, “não há nada de extraordinário no
facto de ocorrerem várias tempestades seguidas”.
A
sequência das tempestades, em si, tem pouca relação com as alterações climáticas.
O que está ligado estas é a intensidade. E Ricardo Trigo especifica: “Temperaturas
mais altas no mar e na atmosfera aumentam a evaporação e a capacidade de o ar
reter humidade”, pois “cada grau de aquecimento pode traduzir‑se em 6 a 7% mais
precipitação”, de modo que, “se em vez de chover 50 milímetros, chover 60 ou
70, o impacto é muito maior”.
Quanto
à ciclogénese explosiva (bomba meteorológica ou ciclone-bomba), que é o agravamento
rápido de uma área de baixa pressão, em latitudes médias, a situação é semelhante
à das chuvas: como “não há mais tempestades”, mas “mais intensas”, também, na
ótica do especialista, “não vemos mais eventos”, mas “eventos mais intensos”,
porque “a pressão no centro das depressões desce mais rapidamente e mais
profundamente”, o que “aumenta a força dos ventos”.
Questionado
sobre se não é invulgar, num curto espaço de tempo, termos um rio atmosférico, um
ciclone-bomba e um sting jet –
pequena área de ventos muito intensos, frequentemente, com velocidades de 160 quilómetros,
por hora (Km/h), ou mais –, observou que “os rios atmosféricos são os mais
comuns”. Há três anos, Lisboa teve cinco, num só mês. Já “a ciclogénese
explosiva é mais rara e o sting jet ainda [é] mais raro”, explicitou.
Ainda
quanto à influência das alterações
climáticas nestes fenómenos, sustenta que estas podem influenciar em dois deles:
“o transporte de maior humidade de rios atmosféricos”, devendo haver “mais rios
atmosféricos com as alterações climáticas em toda a fachada europeia, mesmo em
sítios onde pode vir a chover menos”; e “a ciclogénese explosiva”.
Esclareceu
que não é incorreto o uso do termo “ciclone-bomba” (“vem do Inglês”), que não é
“exagero ou alarmista”, mas “uma classificação técnica”. E comparou: “”Quando
falamos em rios atmosféricos, não é por ser mais bonito ou poético. Aliás, o
que vem aí, agora, é mais um rio atmosférico.” Estava a falar a 4 de fevereiro,
na iminência da tempestade Marta.
Também
o especialista definiu rio atmosférico como “uma faixa muito longa – pelo menos,
dois mil quilómetros –, com grande concentração de humidade transportada dos
trópicos para as latitudes médias”, quando a humidade se combina com ventos
fortes associados a uma depressão, começando, normalmente, perto das Caraíbas.
É fenómeno muito relevante, para Portugal, para a Galiza, para a Normandia, para
o Reino Unido e para a Noruega.
No
dizer do climatólogo, o facto de a temperatura do oceano estar acima do normal
ajuda a que, no processo de chegada do rio atmosférico à Europa, haja mais
evaporação do que precipitação, porque vai precipitando a meio. Porém, como a
temperatura está relativamente elevada, continua a evaporar e chega depois, impactando
nas zonas costeiras.
Antecipando
que, nos dias subsequentes, ia haver “muita precipitação, alternando entre
Norte e Sul, e vento mais forte no Sul”, mas sem a magnitude da semana anterior,
admitia que, dada a grande fragilização do território, os fenómenos moderados
podiam “causar danos maiores”. Assim, um vento de 100 km/h, que não causaria, normalmente,
grandes danos, podia, então, provocar estragos significativos, podendo ocorrer
mais pequenas inundações, quedas de árvores, deslizamentos e cedência de muros.
Admitia
que era
possível alguma preparação, como “retirar pessoas e bens de zonas baixas,
identificar estruturas instáveis”, pois há danos inevitáveis em semanas de
chuva intensa.
Referia
que as alterações climáticas podem aumentar a ocorrência de rios
atmosféricos e intensificar depressões, sobretudo, na fachada atlântica
europeia, mesmo em regiões onde a precipitação total pode diminuir. Quanto ao sting
jet, disse que havia poucos casos, mas apontou a falta de estatísticas sobre
este fenómeno.
Insistiu
em apontar que o número total de eventos pode não aumentar, mas sim o
número de fenómenos muito fortes. Concordou que, em muito pouco tempo, tivemos muitas
tempestades seguidas, mas que, “há dois ou três anos, no meio de secas
prolongadas, a perceção seria outra”. Advertiu que, no clima, “é preciso olhar
para décadas, não para semanas”. Depois, considerou que sabemos, com certeza,
que “as alterações climáticas aumentam a intensidade dos extremos, tanto de
precipitação como de temperatura”, e que “não temos mais furacões, mas temos
mais furacões de categoria 3, 4 e 5”, o que “molda a perceção pública”.
Sobre
a maior frequência e intensidade das ondas de calor, concorda que há mais calor
e que está a aumentar, a nível médio e dos extremos, como está a aumentar a intensidade
da precipitação. Porém, alerta para o engano da perceção de aumento da
frequência: “O que aumenta é a intensidade dos extremos. A água é limitada. O
que muda é a forma como circula – evapora mais e precipita mais.”
Por
fim, questionado sobre a resposta do Estado e das autarquias a este tipo de
fenómenos, frisou ser dos que só falam do que sabem e do que dominam. Contudo,
destacou evidências, como terem ficarem bombeiros sem telhado e ter falhado o
SIRESP. “São infraestruturas que não podem falhar. Outras, como preparar torres
de telecomunicações para ventos de 200 km/h, seriam muito caras – todos
pagaríamos mais impostos. Um vento de 200 km/h tem quatro vezes mais energia do
que um vento de 100 km/h”, discorreu.
No
atinente a melhor preparação, referiu o grande investimento após os incêndios
de 2017, em prevenção, esperando que suceda o mesmo com tempestades e com comunicações
de emergência. Lamentou que o SIRESP continue a falhar, “nas alturas cruciais”,
e que haja planos municipais de adaptação climática aprovados, em muitos
concelhos, mas que não saíram do papel.
Disse
que uma coisa é obrigar as linhas de alta tensão a resistir a ventos de 200 Km/h
e outra “é ter uma forma de evitar aquela razia do Pinhal de Leiria, em toda a
zona”. E sugeriu que se devia já debater o drama dos incêndios, para não
andarmos “sempre a correr atrás do prejuízo”.
Com
efeito, em seu entender, comunicações de emergência dos bombeiros e da proteção
civil deviam ser matéria mais preparada,
“para não ficar colapsada logo à primeira hora”. Todavia não acredita que os
municípios e as pessoas tenham proteções
que aguentem o próximo sting jet.
Frisou
que, em relação aos incêndios florestais, os especialistas foram ouvidos
pelo governo. Já em relação a grandes tempestades, disse que não sabia, mas admitiu
que, na sequência do que foi feito para os incêndios, também venha a ser feita
alguma comissão. Porém, uma coisa é certa, em sua opinião: “As autoridades não
perceberam a magnitude do problema nos primeiros três dias, muito por falta de
comunicações.” E não sabe se aprendemos a lição. O tempo o dirá.
Falar
em rios no céu é relevante para percebermos os caprichos climáticos e da
Natureza.
Entretanto,
os decisores políticos acordaram numa Estrutura de Missão, num PTRR de recuperação
e de resiliência, na criação do fundo de catástrofe, põem em hipótese um orçamento
retificativo e a criação de uma Secretaria de Estado, além de vários estudos.
2026.02.26 – Louro de Carvalho