quinta-feira, 16 de julho de 2026

Portugal: ascensão da extrema-direita e deterioração do espaço cívico

 

O capítulo dedicado a Portugal do “Relatório sobre o Espaço Cívico 2026” (“Civic Space Report), que foi apresentado, a 15 de julho, pela Academia Cidadã, parceira do Fórum Cívico Europeu (ECF), alerta para a ascensão da extrema-direita e para a crescente normalização de narrativas xenófobas e contrárias aos direitos humanos, tornando Portugal mais hostil.

A 16 de julho, a Euronews publicou um artigo intitulado “Relatório alerta para ascensão da extrema-direita e deterioração do espaço cívico em Portugal”, em que a jornalista Ana Filipa Palma, começa por esclarecer que o Fórum Cívico Europeu – um projeto cofinanciado pela União Europeia (UE), que monitoriza a evolução do espaço cívico e das liberdades fundamentais da sociedade civil, nos estados-membros – publica, anualmente, o seu “Relatório sobre o Espaço Cívico”, cuja última edição foi lançada em maio.

A seguir, observa que, embora o país continue classificado, pelo Monitor CIVICUS, como país com espaço cívico “aberto”, o relatório identifica a deterioração em várias áreas, entre as quais sobressaem as reformas atinentes à migração e à nacionalidade, consideradas mais restritivas; a insegurança no financiamento das organizações da sociedade civil, que lhes complica  a capacidade de cumprir as missões; a pressão imobiliária sobre espaços associativos e culturais; o uso desproporcionado da força policial e de sanções durante manifestações; e o crescimento da influência da extrema-direita, das campanhas de desinformação e dos crimes de ódio. “A ascensão da extrema-direita e a normalização de narrativas xenófobas e contrárias aos direitos humanos contribuem para o aumento dos crimes de ódio e para um ambiente hostil à defesa dos direitos humanos”, lê-se no documento.

Também o Diário de Notícias (DN) publicou um texto da jornalista Armanda Lima sob o título “Relatório europeu alerta para aumento da xenofobia e da violência contra imigrantes em Portugal”, frisando que é a primeira edição com um capítulo sobre Portugal.

O relatório alerta para a escalada de crimes de ódio e de ações neonazis, em Portugal, entre 2021 e 2024, coincidente com o crescimento da extrema-direita, que se reflete na ascensão do partido Chega, que passou de um deputado, em 2019, para 12 deputados, em 2022, para 50, em 2024, e para 60, em 2025, tornando-se a terceira força política no na Assembleia da República (AR). “A sua ascensão eleitoral foi acompanhada por uma retórica centrada na migração descontrolada, bem como por discursos xenófobos, racistas e homofóbicos difundidos online e, posteriormente, também no plenário da Assembleia da República”, defende o autor do capítulo sobre Portugal Jonni Lopes, diretor executivo da Academia Cidadã.

O relatório apresenta vários exemplos para sustentar esta análise, nomeadamente, a “descoberta de que um candidato do Chega esteve entre os maiores financiadores do grupo neonazi 1143”, liderado por Mário Machado. E sustenta que o crescimento do partido tornou o discurso extremista mais presente e passou a constituir “uma voz institucional com tempo de antena”, tendo “a normalização da retórica xenófoba” levado a episódios de violência organizada, com apelos explícitos à violência remunerada. Com efeito, a monitorização das redes sociais identificou vários casos, no final de 2025, de extremistas portugueses que “ofereciam incentivos financeiros para violência contra brasileiros”.

O relatório aponta outros episódios de violência atribuídos à extrema-direita, nos últimos dois anos, como a interrupção, pelo grupo neonazi Habeas Corpus, de uma sessão de leitura LGBTQI+, organizada pela ILGA; o espancamento de um ator por membros do grupo Reconquista, à porta do Teatro A Barraca; o “Churrasco do Porco”, organizado pelo partido Ergue-te e pelo movimento Habeas Corpus, a 25 de Abril, no Martim Moniz, que terminou em confrontos com manifestantes antifascistas e agentes da Polícia de Segurança Pública (PSP); e a  presença de elementos neonazis nas forças de segurança, como a PSP e a Guarda Nacional Republicana (GNR), e na Marinha, revelada por investigações da Polícia Judiciária (PJ), em junho de 2025, constituindo ameaça grave ao Estado de direito, pois mostra que pessoas associadas à violência racista e à subversão da ordem constitucional democrática se infiltraram nas polícias.

Avultaram as mensagens de ódio nas campanhas eleitorais de 2024 e 2025, sobretudo, através das redes sociais, que são terrenos férteis para tais narrativas. E são referidos episódios de violência verbal, incluindo insultos como “volta para a tua terra”.

O relatório estabelece ligação entre as alterações que tornaram a política migratória restritiva e o agravamento dos fenómenos xenófobos. “A combinação de políticas migratórias punitivas, atitudes racistas e xenófobas persistentes documentadas por mecanismos da ONU [Organização das Nações Unidas] e por inquéritos nacionais, bem como a hostilidade quotidiana baseada na linguagem, contribui para a redução do espaço cívico”, conclui, descrevendo as plataformas online como “campos de batalha cruciais para determinar se o espaço cívico, em Portugal, se manterá aberto, seguro e inclusivo para os migrantes e [para] comunidades racializadas, ou se continuará a restringir-se de formas que minam a igualdade democrática”.

Um dos casos mais mediáticos de 2025 foi o do menino brasileiro de nove anos, que redundou em mutilação. O relatório sustenta que incidentes como este, em instituições públicas, “revelam a crescente fragilidade do espaço cívico português”. “Fragilizam a confiança das crianças migrantes nas instituições públicas, enquanto garantias dos seus direitos, enfraquecendo as condições para que, mais tarde, possam exercer liberdade de expressão, participação e organização coletiva em igualdade com os seus pares”, refere o autor.

O autor destaca as 987 queixas, por discriminação, racismo, xenofobia e incitamento ao ódio recebidas pela PSP e pela GNR, bem como as 228 investigações abertas pela PJ, em 2024, e considera: “As taxas de condenação são ainda mais baixas, com apenas 13 condenações, por discriminação racial, em todo o país, entre 2017 e 2024. Isto representa uma taxa de condenação inferior a 1% das queixas apresentadas – um valor que sugere ou fragilidade sistemática da prova ou falta de vontade institucional para processar crimes de ódio.”

O documento critica a remoção, pelas autoridades, do capítulo “Extremismo e Ameaças Híbridas” do Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) e pede mais atenção à presença de neonazis nas forças de segurança, pois são “grave ameaça ao Estado de direito”.

Por fim, é recomendada a criação de um sistema de supervisão independente, para reforçar a responsabilização das forças de segurança, em casos de alegado racismo institucional ou de uso ilegal da força. E, para “combater a discriminação, os crimes de ódio e o racismo institucional, reforçando as respostas aos crimes de ódio”, é defendida a alocação de mais recursos e autonomia à Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial (CICDR).

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O relatório do Instituto para as Políticas Públicas e Sociais (IPPS), do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, coordenado por Pedro Adão e Silva, intitulado “O Estado da nação e as políticas públicas 2026” – considerando que o governo age por “obsessão com a imigração”, aponta falhas no combate à pobreza e prevê que a descida do imposto sobre o rendimento das pessoas Coletivas (IRC) tenha “impacto diminuto no crescimento”.

O relatório deste ano é dedicado ao tema “Governar com um parlamento fragmentado”, com 16 ensaios sobre várias áreas da governação. Uma delas é a imigração, uma bandeira dos dois últimos governos. E os académicos Cláudia Ferreira, José Leitão e Rui Pena Pires dizem que, apesar da perceção de que a imigração cresce “descontroladamente”, os dados relativizam essa ideia, frisando que “o que faz aumentar ou diminuir estes fluxos, em todo o Mundo, é a economia”, e não opções de “portas abertas” ou de “portas fechadas”.

Na ótica dos académicos, as alterações da lei de estrangeiros respondem mais à “obsessão com a imigração” do que a soluções da irregularidade migratória e da sua subida; a consolidação da extrema‑direita não é alheia à radicalidade das mudanças e do discurso que as acompanha. Por isso, defendem “nova política de vistos” e “melhor regulação efetiva do mercado de trabalho”, pois, “sem essas soluções, mecanismos como a manifestação de interesses, que devem sempre responder à exceção” podem transformar-me em regra, “deixando o funcionamento inicial do fluxo migratório aberto à intervenção das agências de contrabando de migrantes”.

Na proteção social, o relatório conclui que o aumento do valor do complemento solidário para idosos (CSI), entre 2023 e 2024, e do número de beneficiários não se traduziu em impacto no combate à pobreza. Por isso, questiona a eficácia de equiparar o CSI ao salário mínimo, concluindo que uma equiparação ao limiar de pobreza seria mais vantajosa.

Na Defesa, Pedro Seabra realça que, da verba reportada à Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) de 6,1 mil milhões de euros – 2% do produto interno bruto (PIB), só 4,1 mil milhões foram executados em despesa usualmente associada às Forças Armadas, com os outros dois mil milhões a ser executados por outras áreas governativas. E alerta que o empréstimo do Instrumento de Ação para a Segurança da Europa SAFE, apesar de ter de ser aplicado até 2030, “os seus encargos financeiros, operacionais e de manutenção prolongam‑se por décadas”. E, segundo o Conselho de Finanças Públicas (CFP), o aumento da despesa em Defesa para 3% do PIB, até 2030, resultaria no agravamento do saldo orçamental para cerca de 2% do PIB e no impacto de mais 3,1% no rácio de dívida pública. Além disso, “o reforço do investimento militar tende a competir com outras prioridades públicas, incluindo saúde, educação ou prestações sociais, com efeitos ao nível da opinião pública.

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Já em outubro de 2025, viralizou, na rede social Instagram, um vídeo de um artista brasileiro, que vivia em Portugal, há nove anos, em que enumera motivos que o levaram a sair. Entre eles, estão a culpabilização dos imigrantes por tudo, os movimentos de extrema-direita e o facto de não conseguir arrendar casa. Nos comentários, outros imigrantes manifestaram o mesmo sentimento e muitos portugueses deixaram comentários em que relatam cansaço do ambiente político e social do país. Cada vez mais pessoas falam do tema na Internet e abandonam o país. Os dados da Segurança Social, trabalhados pelo Banco de Portugal (BdP), confirmam que duplicou o número de trabalhadores imigrantes que sai do país, passando do ritmo mensal médio de 1,9 mil saídas, em 2022, para 3,8 mil, em 2024. Pessoas que saíram referiram pontos comuns que pesaram na decisão: dificuldades burocráticas na documentação, xenofobia, sentimento de “ambiente hostil”, elevado custo da habitação e mudanças nas leis.

Um casal (o marido é advogado) mudou-se para Portugal, ambos com visto de rendimentos próprios. Após ano e meio de planeamento, chegada e estabilidade profissional, o cenário alterou-se. tendo conseguido estabilizar e estabelecer-se, aconteceu a “mudança completa de ambiente, com incertezas, alterações constantes de entendimento e legislativas, aumento do discurso anti-imigração e um ambiente hostil”. O casal mudou-se para a Espanha, que já visitava, com frequência, onde identifica ambiente mais favorável e pode requerer a nacionalidade, ao fim de dois anos. E, verificando que a tendência é cada vez mais os imigrantes em Portugal se sentirem obrigados a deixar o país, alerta para os excessos burocráticos, mesmo para quem tem visto, e para limitações e restrições ao reagrupamento familiar.

Um outro casal denuncia o aumento do discurso xenófobo, um dos motivos para o regresso ao Brasil, assim como a mudança da lei e da política, o que leva os imigrantes a sentir no dia a dia, sobretudo, no trabalho, nas discussões que, antes, não existiam sobre partidos políticos e imigração, de que os imigrantes são inferiores. O racismo começou a acontecer, com coisas que, antes, eram mais difíceis de ver. A escola pública não é a mesma, os ambientes de rua não são os mesmos, bem como as cafetarias, os locais de trabalho e os locais de turismo.

Nas redes sociais, o aumento da xenofobia é discutido diariamente. No entanto, é difícil ter estatísticas oficiais do fenómeno: a xenofobia não é, efetivamente, um crime, em Portugal, logo não existem dados. Já a CICDR, que tinha relatórios anuais, na prática, não está ativa. O tema da xenofobia esteve na cimeira entre Brasil e Portugal em fevereiro de 2025, com a declaração final a citar um compromisso dos países em combater estes crimes.

Porém, não são apenas os imigrantes que estão, há vários anos, em Portugal, que decidem sair. As mudanças na legislação e nos procedimentos burocráticos afastam trabalhadores que chegam ao país com visto. Uma delas foi a alteração da regra para a obtenção do número de identificação da Segurança Social (NISS). Até ao verão de 2024, era possível fazer o pedido online. Agora, o governo exige a existência prévia de contrato de trabalho para a solicitação. Ora, para obter o NISS, é preciso ter contrato de trabalho e, para ter contrato de trabalho é preciso ter o NISS. É um quiasmo doloroso!

DN Brasil, que acompanha a situação, diz que o governo lhe respondeu que os empregadores podem solicitar o NISS para os seus trabalhadores e até fez apelos públicos neste sentido.  Porém, uma parte dos empresários recusa fazê-lo. Um casal de brasileiros que chegou a Portugal com visto de procura de trabalho, em julho de 2025, relatou, no Instagram, a impossibilidade de obter o NISS, que lhes paralisou a vida, em Portugal, pondo fim, em poucos meses, ao sonho de aqui viver. O casal diz ter perdido mais de 40 ofertas de emprego, devido à falta do NISS. E, apesar de reconhecerem que também são felizes com a experiência, concluíram que não é o momento certo para se mudarem para Portugal, mesmo com visto.

Voltando ao trabalho do BdP sobre dados da Segurança Social, olhando para cada mês, percebe-se o aumento do abandono do país, sobretudo, a partir de junho de 2024, quando o governo lançou o primeiro pacote de medidas para regular a imigração e acabar com o regime de “porta aberta”, expressão usada pelo ministro da Presidência, António Leitão Amaro.

É verdade que a falta de mão de obra preocupa o governo. Por isso, Luís Montenegro diz que os imigrantes continuarão a procurar Portugal, para trabalharem, mas de forma “regulada”, como é a atual política. Contudo, por causa da barreira de acesso ao NISS, mesmo quem chega com visto enfrenta dificuldades. O visto de procura de trabalho foi extinto nos moldes usuais e será para trabalhadores “altamente qualificados”, mas a lista destes profissionais, a definir por portaria, não foi publicada, embora tenha sido prometida para este ano.

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A operação “Portugal Sempre Seguro”, trimestral, foca-se na dissuasão de práticas ilícitas, com incidência na fiscalização de estabelecimentos de venda e consumo de bebidas alcoólicas, no combate à imigração ilegal e em fiscalização rodoviária. Entre 1 e 7 de junho, foram feitas 2527 fiscalizações de estrangeiros: 13406 pessoas, 8988 veículos, 69 embarcações e 854 estabelecimentos. O número de imigrantes abordados pelas autoridades mais do que triplicou, em comparação com a edição anterior, ocorrida entre 2 e 8 de março, em que as autoridades abordaram 779 estrangeiros. Apesar do aumento nas fiscalizações, o número de estrangeiros identificados em situação irregular não acompanhou tal crescimento.

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Criticar políticas de imigração não obsta à fiscalização e à correção de erros. Isso também é integração.

2026.07.16 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 15 de julho de 2026

A UE deve produzir energia limpa, armazená-la e recorrer a baterias

 

A Europa está a produzir mais eletricidade renovável do que nunca, mas parte dela não é usada, quando a procura é máxima. E, na União Europeia (UE), há excedentes de eletricidade produzida através de fontes renováveis que são desperdiçados, por não haver capacidade suficiente para os armazenar, até serem necessários. Por isso, as centrais elétricas a combustíveis fósseis continuam a ser necessárias, quando a produção renovável diminui.

Na verdade, a procura de eletricidade está a aumentar, graças ao crescente fabrico de veículos elétricos, de bombas de calor e de centros de dados baseados em inteligência artificial (IA). Por conseguinte, expandir o armazenamento de energia tornou-se mais importante para manter o sistema elétrico fiável e verde. Por isso, os governos da UE viram-se na necessidade de reforçar o armazenamento de energia, para tornar a eletricidade limpa fiável e para, assim, reduzir a dependência de combustíveis fósseis. E, enquanto a UE fixou a necessidade de, até 2030, produzir, pelo menos, 42,5% de energia renovável e de armazenar 200 gigawatts (GW), face aos 55 atuais, 22 estados-membros comprometeram-se a acrescentar 30 a 35 GW de armazenamento, até 2028, contribuindo, assim, para a concretização da meta da União, e acordaram em eliminar barreiras regulamentares e disponibilizar apoio financeiro para acelerar a construção de projetos de armazenamento. Espera-se que os outros estados-membros adiram até ao fim do ano.

O compromisso dos estados-membros inscreve-se no âmbito do acordo tripartido da UE assinado, a 26 de junho, pelos ministros europeus da Energia, visando o aumento da capacidade de armazenamento de energia do bloco e o reforço da segurança energética da Europa.

O acordo, que se insere no Plano de Energia Acessível da Comissão Europeia, junta instituições financeiras, produtores de energia limpa e indústrias intensivas em energia, para garantir procura estável, custos previsíveis, previsões anuais de armazenamento e financiamento. E a Comissão lidera a sua implementação e acompanha, anualmente, os progressos, até 2028.

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A 14 de julho, a Euronews publicou um artigo das jornalistas Leticia Batista e de Elisabeth Heinz, intitulado “União Europeia quer triplicar armazenamento de energia para travar desperdício de renováveis”, a relevar que o acordo “procura responder a um problema que se tornou urgente com a transição verde da Europa: como armazenar os crescentes excedentes de energia provenientes de fontes renováveis intermitentes, como a eólica e a solar”.

Embora a quota de energias renováveis esteja a crescer (23%, em 2020, para 25,2%, em 2024), a capacidade de armazenamento da UE é demasiado limitada para absorver toda essa energia. A Europa desperdiça excedentes de energia renovável gerados em picos sazonais, o que a torna dependente de combustíveis fósseis. E, o acordo aumenta, como observam as jornalistas, a capacidade de armazenamento da UE, permitindo conservar energia excedentária e garantir um abastecimento fiável, durante aumentos súbitos da procura, reduzir a dependência de combustíveis fósseis importados e estabilizar os preços da energia.

Nestes termos, os estados-membros, as instituições financeiras, os produtores de energia limpa e as indústrias consumidoras de energia são os principais intervenientes, responsáveis por garantir previsões anuais de armazenamento, procura de energia estável, custos previsíveis e acesso a financiamento. “Pela primeira vez, a UE definiu uma orientação política clara, transformando o armazenamento de uma tecnologia facilitadora numa prioridade de execução”, afirmou Walburga Hemetsberger, diretora-executiva da SolarPowerEurope.

As energias renováveis, como a solar e a eólica, geram eletricidade de acordo com os padrões meteorológicos, e não em função dos picos da procura humana. Ora, sem armazenamento otimizado, a UE continua dependente de gás fóssil importado para colmatar as falhas, quando o Sol se põe ou não brilha para a Terra e o vento abranda. Apesar de as renováveis fornecerem 44% da eletricidade da UE, o bloco importa cerca de 55% da energia total, incluindo petróleo e gás.

A procura de eletricidade está a aumentar, rapidamente. A Agência Internacional da Energia (AIE) prevê que o consumo de IA e de centros de dados duplique até 2030. Estas instalações já representam cerca de 3% do fornecimento de eletricidade e ultrapassarão 28 GW.

Os centros de dados precisam de fornecimento constante de eletricidade, 24 horas, por dia, e sete dias, por semana. Não podem suspender operações de IA, quando a produção renovável diminui. Sem armazenamento, os operadores têm de recorrer a centrais fósseis para garantir a fiabilidade, comprometendo o objetivo de neutralidade climática da UE. E o armazenamento permite que o excesso de energia solar gerado de dia alimente a infraestrutura digital de noite.

Paralelamente, a Europa está a eletrificar os transportes e o aquecimento, transferindo dois setores intensivos em carbono dos combustíveis fósseis para a rede elétrica. A UE pretende pôr mais de 30 milhões de veículos elétricos na estrada e instalar 50 milhões de bombas de calor, até 2030, o que postula soluções de armazenamento, em grande escala. “Creio que o maior problema será não tratar o armazenamento de energia como infraestrutura essencial”, afirmou Jacopo Tosoni, secretário-geral-adjunto da Energy Storage Europe, frisando que desperdiçamos a eletricidade renovável barata, enquanto a indústria paga preços elevados pela energia.

No início de 2026, a Europa registou períodos recorde de preços negativos da eletricidade, quando a produção solar e eólica excedeu a capacidade da rede. Só no primeiro trimestre, os mercados diários da UE contabilizaram 1223 horas de preços negativos, cerca do dobro dos níveis anteriores, com a Alemanha e a Espanha entre os países mais afetados.

Quando a oferta supera a procura, as redes têm de limitar a produção renovável, desperdiçando eletricidade limpa e reduzindo as receitas dos projetos. O armazenamento responde a este problema, ao absorver o excesso de energia, quando os preços são baixos, e ao devolvê-lo, quando a procura aumenta. “Já vivemos uma espécie de bloqueio da rede. Os preços negativos estão a tornar-se comuns, porque temos um excedente de renováveis e armazenamento insuficiente para utilizar essa energia, mais tarde”, observa Tosoni.

Como referem as jornalistas, o acordo aumenta a capacidade da Europa para armazenar e utilizar mais energia solar e eólica, em caso de aumentos súbitos da procura, e define como objetivo, entre 2026 e 2028, pelo menos, mais 20% (45 GW) de capacidade do que a instalada, anualmente, em 2025 (12 GW). As reservas de armazenamento deverão cobrir cerca de 10% da procura de ponta, face aos cerca de 5%, em 2025. Maior segurança energética ajuda a equilibrar a rede, a manter a sua estabilidade e a reduzir os preços da energia.

Maior capacidade de armazenamento permitirá à Europa depender cada vez mais da energia verde produzida, internamente, e aproximar-se da meta de, pelo menos, 42,5% de produção de energia renovável em 2030. Reduz a dependência de combustíveis fósseis importados, que a UE procura cortar, mas que continuam elevados. Em 2024, o petróleo e os derivados representavam 67% das importações de energia, segundo o Eurostat.

Segundo Hemetsberger, para chegar aos 200 GW, é necessária ambição e o acordo, que é um “passo muito positivo”, requer a implementação. Isto é, a UE tem de ampliar as infraestruturas de armazenamento, aumentando a flexibilidade dos mercados. E, embora seja importante desenvolver todos os tipos de armazenamento de energia, as baterias são o verdadeiro “game changer”. “Podem ser instaladas muito rapidamente, são altamente escaláveis e permitem cortar 55 mil milhões de euros, por ano, nos custos de operação do sistema elétrico, além de reduzirem as importações de gás e os preços da eletricidade”, explicitou Hemetsberger.

Os operadores de sistemas de armazenamento e os promotores de energias renováveis fornecerão estimativas anuais da nova capacidade de armazenamento. As indústrias intensivas em energia desenvolverão projetos de armazenamento nas suas instalações, acompanharão a procura de eletricidade e apresentarão previsões de longo prazo. As instituições financeiras, incluindo bancos nacionais e regionais, financiarão estas iniciativas e atrairão investimento. O Banco Europeu de Investimento (BEI) planeia ampliar o programa de compras de eletricidade por empresas, no valor de 500 milhões de euros, para soluções de armazenamento e para aumento do apoio de 1,5 mil milhões de euros à produção de equipamentos de rede, de forma a abranger novas tecnologias de armazenamento. E a Comissão acompanhará, anualmente, a execução do acordo, acelerará o financiamento de projetos e apoiará a descarbonização das indústrias intensivas em energia, através do BEI, para a descarbonização industrial.

Os países da UE decidem quanta nova capacidade de armazenamento construir, 22 assinaram o acordo e 17 apresentaram compromissos concretos. Como o acordo não é vinculativo, torna-se importante acompanhar de perto e registar os progressos. Os compromissos vão de cinco mil megawatts, na Áustria, 500, em Portugal, 11 mil, na Polónia, e 376, na Eslováquia. A Alemanha, os Países Baixos, a Grécia, a Finlândia e a Dinamarca deverão aderir até ao fim do ano. No conjunto, os países da UE, como dissemos, acrescentarão 30 a 35 GW de capacidade de armazenamento até 2028, elevando a capacidade do bloco para cerca de 65 GW. Este valor continua abaixo da meta da UE, para 2030. Por isso, os estados-membros terão de reforçar os projetos de armazenamento, acelerando os processos de licenciamento, abrindo novas fontes de receita, garantindo o enquadramento regulatório e a ligação rápida à infraestrutura de rede.

Os governos concordaram em facilitar a implantação de soluções de armazenamento, removendo barreiras regulamentares e acelerando a aprovação de projetos. Reverão as regras de tarifação, permitindo às autoridades nacionais definir tarifas de rede não discriminatórias.

Para os países da UE, o incumprimento das metas significa perda de competitividade, incluindo preços de energia mais baixos, num panorama de faturas de eletricidade elevadas e voláteis e de agregados familiares a pagar mais, de necessidade de mais centrais a gás, para cobrir períodos de baixa produção eólica ou solar, e de milhões de proprietários com painéis solares de pouco benefício pela eletricidade produzida, por a rede não absorver toda a energia.  

A energia renovável armazenada pode substituir a produção cara em centrais a gás, durante os períodos de pico da procura; baterias e tecnologias inteligentes permitirão aos consumidores tornarem-se participantes ativos, carregando veículos elétricos ou baterias domésticas, quando a eletricidade é barata, e vendendo de volta à rede, quando os preços sobem.

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Evi Kiorri, em artigo intitulado “Podem as baterias salvar a energia renovável desperdiçada na União Europeia?”, publicado pela Euronews, a 15 de julho sustenta que o acordo de 26 de junho põe as baterias no centro dos planos para aproveitar a energia solar e eólica.

A jornalista observa que, por trás dos números acima indicados, “está um problema que os reguladores já não conseguem ignorar”, isto é, “à medida que a produção solar e eólica dispara, multiplicam‑se as horas em que a eletricidade é barata, tem preço negativo ou é, simplesmente, desligada, porque a rede não a consegue absorver”. E, citando Hemetsberger, alerta que “isto tem um impacto muito negativo na viabilidade económica” das renováveis, pois, sem baterias para estabilizar o sistema, não serão atingidas as metas de renováveis, até 2030, e o armazenamento é “a única forma de baixarmos, estruturalmente, os preços, reforçarmos a resiliência e reduzirmos a dependência dos combustíveis fósseis”.

No dizer da jornalista, prevê‑se que o armazenamento em baterias nos segmentos comercial e industrial quase triplique, de nove gigawatts, por hora (GWh), em 2026, para 24 GWh, em 2028. Os acordos de compra de energia (PPA) com recurso a armazenamento crescerão de 1,5 GW para 4,5 GW, no mesmo período. E a economia começa a acompanhar esta ambição: os custos das baterias caíram cerca de 93%, entre 2010 e 2024. Só em 2024, a Europa instalou 21,9 GWh de novos sistemas de baterias, o 11.º ano consecutivo de recordes.

Para Jacopo Tosoni, as baterias deixaram de ser uma tecnologia de reserva para passarem a fazer parte da própria infraestrutura de rede. “Em 2030, estaremos a instalar cerca de 30 vezes mais do que instalávamos, há apenas cinco anos”, prevê.

Alguns países já começaram a tratar o armazenamento em conformidade. A Alemanha criou a categoria jurídica de “reforços de rede”, classificando as baterias como infraestruturas que melhoram a utilização da rede. E, nos países bálticos, o armazenamento funcionou como “rede de segurança”, durante a sincronização da região com a rede elétrica da Europa continental, após décadas de ligação à Rússia e à Bielorrússia.

Os estudos da Aurora/Amber preveem que o armazenamento substitua até 60% das importações de gás, até 2030, poupando cerca de nove mil milhões de euros em compras desta fonte energética. E o Centro Comum de Investigação estima que melhor implantação do armazenamento e sinais de mercado mais claros reduzam, em mais de 60% os custos de congestionamento da rede associados à integração das renováveis.

Todavia, o acordo reconhece que só reduzirá, parcialmente, as barreiras que travam as baterias. O desenho do mercado continua a ser o maior obstáculo. Em vários estados‑membros, as baterias pagam tarifas e encargos de rede, quando carregam e quando descarregam. Esta dupla contagem leva a que elas sejam tratadas como produtoras e consumidoras. Os mercados raramente remuneram todo o conjunto de serviços destas baterias: capacidade, equilíbrio do sistema e alívio de congestionamentos. E muitos projetos acabam dependentes de receitas voláteis e de muito curto prazo.

O armazenamento é, muitas vezes, integrado nos processos de planeamento centrados na produção convencional. A classificação pouco clara da produção por baterias, da carga ou de outros elementos significa que os projetos enfrentam filas de licenciamento e de ligação como as energias renováveis, sem serem considerados como ativos de flexibilidade. E a política industrial ténue é outra limitação. A UE montou uma arquitetura de apoio, mas o Tribunal de Contas Europeu concluiu que o bloco continua longe da indústria de baterias autossuficiente, apontando um défice comercial crescente e a dependência de células asiáticas.

Hemetsberger diz que o acordo não é suficiente para criar a cadeia de valor completa das baterias e que o futuro Industrial Accelerator Act (iniciativa legislativa para fortalecer a base industrial da UE e criar mercados líderes para tecnologias de baixo carbono) fará a diferença, se a definição de “Made in Europe” for suficientemente restrita para apoiar a produção na UE. Além disso, aponta que a UE tem autossuficiência quase nula em grafite e reduzida em lítio, em cobalto e em níquel. Por isso, terá de investir em projetos mineiros.

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A Europa desindustrializou-se, parou a exploração mineira, ficou dependente de matérias-primas. Entretanto, com infraestruturas velhas, renuncia aos combustíveis fósseis (de qua ainda precisa), quer bastar-se em energia renovável e garantir a sua defesa. A tecnologia não basta. Tem de se mobilizar em bloco e caminhar com segurança. Caso contrário, o milagre não acontecerá!

2026.07.15 – Louro de Carvalho

Metade dos incendiários padece de distúrbios psicológicos

 

Avelino Lima, que lidera a Diretoria do Centro da Polícia Judiciária (PJ), revela, em entrevista ao jornalista do Expresso Hugo Franco, publicada a edição online, a 9 de julho, que metade dos incendiários padece de distúrbios psicológicos e garante que, nas investigações da PJ, os inspetores não têm encontrado “relação entre a autoria dolosa dos incêndios e possíveis interesses económicos”.

A Diretoria do Centro da PJ centraliza as investigações aos incêndios florestais que assolam, em todos os anos, o país. E, para Avelino Lima, líder desta equipa, o perfil de incendiário que mais o preocupa é o do que padece de distúrbios psicológicos. “São pessoas que deviam estar a ser tratadas pela saúde mental. E que acabam por nos provocar enormes problemas”, adianta.

Confrontado com a questão se os diretos televisivos fazem subir o número de incêndios, considera que o espetáculo mediático provoca um “efeito muito grande” nos autores de incêndios florestais, pois muitos incendiários “gostam de ver a sua obra a ser publicitada nas televisões”. Porém, não arrisca dizer que as televisões são responsáveis pelos incêndios, mas sustenta que “este mediatismo não tem ajudado nada a conter algumas iniciativas deste tipo de pessoas” e acusa as televisões do crescendo de colheita e de exibição de “imagens da desgraça, o mais violentas possível, das pessoas que estão ali a ser objeto das chamas e da proximidade das chamas junto das habitações”, considerando que “isto é um negócio para as televisões, que passam horas e horas a dar as mesmas imagens”. Deduz-se, pois, que parece haver, em sua tácita opinião, certa cumplicidade, não propositada, entre as televisões e o incendiarismo.

Sobre o hipotético crescimento da sofisticação dos incendiários, pensa que, “historicamente, não temos tido grandes profissionais dos incêndios”. Contudo, menciona o caso, “fora do comum”, de um engenheiro da Zona Centro, que está a cumprir a pena mais elevada em Portugal, de 25 anos, agora, de 23, por decisão do Supremo Tribunal de Justiça (STJ). De resto, apontas “as franjas mais débeis da nossa sociedade”, como “pessoas do interior muito isolado, com fragilidades sociais, económicas e algumas debilidades mentais”. Depois, fala em episódios de “um ou outro indivíduo que tem uma tendência para atear fogos” e de “alguns indivíduos que já percebem um bocado da teoria do fogo: como se projeta, como se alastra, que usam retardantes para poderem ter tempo para se afastarem”.

Este último grupo é mais preocupante, na ótica de Lima, porque se trata de pessoas que não ateiam apenas um incêndio e, embora não sejam muitos casos, “têm crescido, nos últimos anos”.

Quanto à suposição de Luís Neves, ministro da Administração Interna e ex-diretor nacional da PJ, da existência de mão criminosa num incêndio de grandes proporções que terá sido ateado durante a noite, em Vouzela, o diretor do Centro da PJ, teceu o seguinte comentário: “Parece-me pacífico que alguma intervenção humana terá ocorrido, não acredito na espontaneidade do incêndio. A investigação está no terreno, para determinar as causas.”

Questionado pelo jornalista sobre se estes incendiários ateiam o fogo de noite, por ser mais difícil serem detetados, Avelino Lima desenvolve que tem havido “muitas combustões cujo alerta é dado à noite”, visto que, “por norma, é propício haver ventos”, “muito do calor que está ainda no subsolo pode extravasar por outras áreas e reinicia-se uma combustão”. Por isso, adverte que “nem sempre o facto de ser de noite significa que haja uma autoria intencional para prática do crime”. E, cautelosamente, observa que, “por vezes, de noite, também acontecem acidentes”, que já houve “incêndios que se iniciaram através de veículos, com a faísca de travagens, com peças sobreaquecidas que se soltam dos carros”, que “houve, recentemente, um incêndio em que a combustão começou com uma ave que foi carbonizada num poste de alta tensão” e que os maiores incêndios de 2025 se deram “por causas naturais”.

Quanto às investigações abertas, neste ano, pela PJ, por suspeita de crimes de incêndio florestal, referiu estarem abertos 316 inquéritos, mas que é difícil comparar com o período homólogo de anos anteriores”, pelo que “é preferível esperar com calma e ter os números completos”. E, no atinente aos perfis de suspeitos destes crimes, a PJ fala de “uma ferramenta com o número de pessoas que foram detidas e [com] o perfil psicológico do incendiário florestal, construída a partir de 2015”, sendo, no total, um número muito próximo de mil.

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Em 15 de agosto de 2024, Hugo Franco escrevia, no Expresso online, que a PJ tinha “uma lista com mais de 800 incendiários” (“um número recorde”) que foram constituídos arguidos ou detidos, o que permitia à PJ “perceber a evolução dos perfis dos suspeitos e as novas tendências deste crime, podendo até antecipar possíveis repetições de fogo posto”.

Dizia o jornalista que fonte policial revelara que “o perfil dos incendiários é hoje bem diferente do do passado recente”: “É cada vez mais raro o fogo ser ateado pelo ‘tolinho’ da aldeia, desinserido socialmente ou com problemas de alcoolismo, que nem se apercebia bem do que fazia.” Por outro lado, como escrevia Hugo Franco, “os casos tornaram-se mais complexos de investigar, porque o crime se tornou mais ‘sofisticado’, muitas vezes, envolvendo engenhos tecnológicos que permitem o retardamento da chama, que, quando deflagra, já o incendiário se encontra longe do local do crime, tornando-se mais difícil de o apanhar”.

Parece que o diretor do Centro da PJ não se cola muito a este discurso.

Entretanto, jornalista sustentava que A PJ se apercebeu de que “muitos destes fogos são espoletados por desavenças criadas e ampliadas nas redes sociais entre vizinhos ou ex-cônjuges e que os suspeitos agem motivados por ‘uma vingança fria’”, tendo a grande maioria dos incendiários “plena consciência do que vai fazer”, sendo “mais organizada, mais elaborada”, e atuando “por mera futilidade”.

Uma das dores de cabeça das autoridades é a repetição do crime de incêndio florestal por pessoas que foram alvo de pena de prisão. Segundo fontes judiciais, até à referida data de 2024, tinham sido detetados casos de fogo posto cometidos por “caras bem conhecidas das autoridades”. Vários estudos mostram que metade dos incendiários detidos é reincidente.

Desde o início de 2024, diz Hugo Franco, a PJ abriu cerca de 650 investigações por estes crimes. O número elevado é inferior ao de 2023. “Houve uma redução significativa das ignições, graças ao trabalho mais ágil e de partilha das informações entre as polícias, a proteção civil e Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas [ICN]”, resumia fonte da PJ.

Depois da pandemia, as autoridades têm intensificado o uso de tecnologia no combate às chamas. Nas zonas onde costumam ser ateados fogos, há câmaras de videovigilância (as autoridades dizem ‘videoproteção’), “para se evitarem repetições” e, todos os dias, são postos drones no ar com a missão de prevenir ou de, pelo menos, detetar, atempadamente, as primeiras chamas. Uma beata de cigarro que terá feito deflagrar um fogo florestal foi alvo de perícias biológicas com meios tecnológicos sofisticados, algo que, há poucos anos, não se fazia.

A investigação criminal considera o “ponto de início” como o momento-chave para se descobrir a autoria destes crimes. Os bombeiros têm, por exemplo, indicações de “não encharcarem de água” a área suspeita de início do incêndio para se preservarem possíveis provas do crime. O incêndio florestal não é “investigação fácil, por causa da erosão dos indícios”, dizia o jornalista, com base em informação policial.

Lembrava Hugo Franco que a Justiça estava a encarar estes crimes com maior dureza. Os serviços prisionais indicavam, em 2024, que havia 69 pessoas a cumprir pena efetiva e em prisão preventiva, ao passo que, em 2013, havia 21 pessoas a cumprir pena por atearem fogos na floresta. E, se no passado recente muitos dos suspeitos de incêndio saíam em liberdade, após o primeiro interrogatório, agora, as medidas de coação, como internamento compulsivo, pulseira eletrónica e prisão domiciliária, são “já cerca de metade” do total, sendo até superiores aos últimos anos, permitindo, segundo a PJ, “melhor qualidade na investigação aos fogos”.

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Voltando à entrevista, é de acentuar que Avelino Lima diz serem “as patologias” o que mais o preocupa, pois trata-se de “pessoas que deviam estar a ser tratadas pela saúde mental, porque muitas delas, não sendo inimputáveis, não deixam de ter um conjunto de patologias ou necessidades saúde, que, sendo graves, acabam por nos provocar enormes problemas”. ​Admite que alguns são pirómanos, pois, “no último ano, 49% dos detidos por crime de incêndio florestal tinha problemas psicológicos, 25% apresentava consumo excessivo de álcool e 6,3% pessoas têm as duas patologias associadas”.

Em relação ao facto de o primeiro-ministro ter apontado o dedo “aos interesses que sobrevoam” os incêndios, o diretor do Centro da PJ sustenta que “não foi muito clara a expressão”. É de recordar que, na noite de 17 de setembro de 2024, o chefe do governo surgiu a culpar “os criminosos” pelo atear dos fogos, a prometer pulso firme para os levar à Justiça e a anunciar a criação de uma “equipa especializada” para trabalhar em articulação com a Procuradoria-Geral da República e com o Ministério da Justiça. E foi taxativo: “Há coincidências a mais”, disse, considerado que há “criminosos” que têm “interesses” nos fogos florestais e é contra esses que o governo tem de ser implacável para os identificar e levar à Justiça.

Todavia, Avelino Lima contrapõe que, nas investigações, a PJ não tem encontrado associação ou relação entre a autoria dolosa dos incêndios e os interesses económicos, até porque “está mais do que documentado que a madeira queimada não tem o mesmo valor económico”.

Por outro lado, como sustenta, “dificilmente, agora, um juiz coloca um destes suspeitos sem estar privado de liberdade. Em 2025, das 94 detenções da autoria da PJ do Centro, cerca de 50 suspeitos ficaram privados de liberdade e 11 a 14 ficaram em prisão domiciliária. Isto é, cerca de 64% ficaram com medidas privativas de liberdade, o que, dificilmente, acontecerá com medidas de coação para suspeitos de outros crimes.

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Mais de 15 mil hectares arderam em Portugal nos primeiros dias de julho, tendo a área ardida duplicado entre os dias 1 e 5, como revelam dados do Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais (SGIFR), que é gerido pela Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais (AGIFR) e, segundo o qual, os 4592 incêndios florestais registados, neste ano, provocaram 30155 há (hectares) de área queimada. Em relação a igual período de 2025, embora tenha diminuído o incendiarismo, a área ardida quase quadruplicou, registando-se, neste ano, a maior desde 2017. O incêndio que deflagrou em Tourelhe, na União das Freguesias de Cambra e Carvalhal de Vermilhas no concelho de Vouzela, a 2 de julho, tornou-se o maior da Europa, neste ano, concentrando 70% de toda a área ardida no continente. Em três dias de calor extremo, o fogo na Beira Alta consumiu 14 mil hectares.

Passei, a 3 de julho, de manhã e à tarde, pela ampla e dispersa zona do incêndio: várias frentes de fogo e fumo, a ameaçar casas, pessoas, animais, culturas e estradas. Segundo os bombeiros, os estímulos eram: vento forte de nordeste (“ventos endiabrados”), temperaturas elevadas e vegetação extremamente seca. Temia-se o comportamento errático do fogo e a mudança do vento. Eram permanentes a incerteza e a vigilância e intenso o combate, com o apoio das populações. Porém, a orografia dificultava o combate ao fogo. E, face ao agravamento das condições meteorológicas, o governo declarou Situação de Alerta para o território continental até dia 6, restringindo a atividade suscetível de provocar incêndios.

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Os incêndios rurais (fenómenos de deflagração ou progressão do fogo, não planeada ou não controlada, em território rural) são um dos principais obstáculos à sustentabilidade da floresta e dos ecossistemas associados, causando a sua degradação e o desequilíbrio no prover de bens e serviços, quer de natureza económica e social, quer de natureza ambiental.

Segundo o ICN, a área total ardida, anualmente, apresenta grande variabilidade, conexa com a severidade meteorológica, tendo sido observados valores máximos, nos anos de 2017, de 2003 e de 2005. O número de ocorrências (fogachos e incêndios rurais) revela tendência de diminuição, desde 2006. A base de dados nacional de incêndios rurais, para 2024, regista 6255 incêndios rurais de que resultaram 137651 ha de área ardida, entre povoamentos florestais (82009 ha), matos e pastagens naturais (46089 ha) e áreas agrícolas (9553 ha).

O ano de 2024 registou o valor mais reduzido do número de incêndios e o 3.º valor mais elevado de área ardida da década 2014-2023. Observando a distribuição da área ardida, por tipo de ocupação do solo, verifica-se que, entre 1995 e 2024, os incêndios consumiram, maioritariamente, povoamentos florestais, áreas de matos e pastagens naturais. E, no decénio de 2015-2024, ocorreram, em média, 12183 incêndios rurais, por ano, com a área ardida média, por ano, de 123938 ha, sendo 67054 ha (54%) de povoamentos florestais, 47847 ha (39%) de matos e pastagens naturais e 9037 ha (7%) de áreas agrícolas.

O pinheiro-bravo e o eucalipto foram as espécies mais afetadas, correspondendo a 85% da área ardida. Esta situação contribuiu para a forte redução da área de pinheiro-bravo (menos 265 mil hectares do que entre 1995 e 2015) e para o aumento da área de matos.

Em 2024, os distritos que registaram maior número de incêndios, por ordem decrescente, foram o do Porto (1376), o de Braga (650) e o de Viana do Castelo (626). O mais afetado, no atinente à área ardida, foi o de Viseu, com 49931 ha, seguido do de Aveiro, com 27006 ha, e do do Porto, com 19703 ha, representando, respetivamente, 36%, 20% e 14% da área ardida.

Do total de 6255 incêndios rurais que ocorreram em 2024, foram investigados 6164 e têm o processo de averiguação de causas concluído (99% do número total de incêndios, responsáveis por 89% da área ardida). Destes, a investigação levou à atribuição de causa para 4354 incêndios (71% dos incêndios investigados, responsáveis por 80% da área ardida).

Em 2024, as causas de incêndio mais frequentes foram o “incendiarismo – imputáveis” (34%) e o “uso do fogo” (32%), sendo que nesta última se destacam as “queimadas de sobrantes florestais ou agrícolas” (13%). Os reacendimentos representam 9% do total das causas.

Em 2024, setembro foi o mês que registou maior número de incêndios rurais, com 1773 incêndios (28% do número total do ano), e o que apresentou a maior área ardida, com o total de 126839 ha, o que corresponde a 92% do total de área ardida registado no ano.

Tendo em conta a cartografia de áreas ardidas, de 2024, na Rede Nacional de Áreas Protegidas (RNAP) arderam 3572 ha de espaços rurais, o que corresponde a cerca de 0,5% da totalidade da RNAP. Destaca-se a Paisagem Protegida Regional Parque das Serras do Porto, pela maior extensão de área ardida, com 2011 há (56% da área total ardida na RNAP.

A área ardida média anual (75557 ha) ultrapassa os valores médios admissíveis para 2020-2030 (60 mil hectares); a percentagem de incêndios com mais de 500 ha (0,56%, em 2024) ultrapassa o valor estabelecido para a meta definida (0,3%); e a área ardida está a aumentar.

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São muitas as causas dos incêndios, mas não são descartáveis, à partida, questões atinentes a negócios, de forma explícita ou implícita. Há demasiadas coincidências. E uma investigação deve considerar todas as hipóteses.

2026.07.15 – Louro de Carvalho

terça-feira, 14 de julho de 2026

Fátima propõe uma inteligência do coração

 

A Academia de Estudos do Santuário de Fátima (AESF), que organiza os Cursos de Verão Santuário de Fátima, escolheu, para 11.ª edição, que se desenvolveu, de 1 a 3 de julho, no Centro Pastoral Paulo VI, o tema “Fátima depois de outubro de 1917: o ciclo cordimariano”.

Marco Daniel Duarte, diretor da AESF e coordenador do curso, na sinopse de apresentação, explica: “No ano em que se celebra o centenário das aparições de Pontevedra (1925 e 1926), o Santuário de Fátima […] dedica o Curso de Verão a aprofundar o conhecimento sobre esta temática. Com recurso a abordagens científicas multidisciplinares, asseguradas por investigadores de diferentes academias, será analisado o contexto histórico, espiritual e religioso contemporâneo, as devoções ao Sagrado Coração de Jesus e ao Imaculado Coração de Maria, a narrativa dos ciclos angélico, mariano e cordimariano e outros conteúdos da Mensagem de Fátima, como o Imaculado Coração e a devoção dos Cinco Primeiros Sábados. No curso estará ainda presente a dimensão artística relacionada com a iconografia do Imaculado Coração de Maria.”

Uma vista de olhos pelo programa, vê a agenda do dia 1 de julho, com os seguintes subtemas: “Portugal e o mundo no(s) século(s) de Fátima”, por Teresa Maria e Sousa Nunes, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FL-UL); “Espiritualidades quentes num mundo frio: os Corações de Jesus e de Maria”, por José Eduardo Franco, da Universidade Aberta (UA); “As mariofanias segundo o magistério da Igreja”, por Tiago Freitas, da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa (FT-UCP); “Ciclo angélico: as visões do Anjo da Paz, da Pátria e da Eucaristia”, pelo bispo D. Alexandre Palma, da FT-UCP; “Roteiro do Imaculado Coração de Maria no Santuário de Fátima”: visita guiada por Marco Daniel Duarte, do Museu do Santuário de Fátima; e Visita temática à exposição “Refúgio e Caminho: exposição comemorativa do centenário das aparições de Nossa Senhora de Fátima em Pontevedra”, na galeria de exposições temporárias do Museu do Santuário de Fátima (piso inferior da Basílica da Santíssima Trindade).

No dia 2, os temas em agenda eram: “Ciclo mariano: as visões da Senhora mais brilhante que o sol”, por Luís Miguel Ferraz, da AESF; “O Imaculado Coração de Maria nas aparições de Fátima, pelo padre Carlos Cabecinhas, reitor do Santuário de Fátima; “Lúcia no Instituto de Santa Doroteia (Porto, Pontevedra, Tui e Gaia)”, por Marco Daniel Duarte, da AESF; “Fontes e narrativa das aparições de Pontevedra (10 de dezembro de 1925 e 15 de fevereiro de 1926)”, por Sónia Vazão, da AESF; e Apresentação do livro “As Aparições de Fátima no jornal O Mensageiro (1917–1927): história e teologia do seu impacto para a revitalização do catolicismo no contexto da I República e da I Guerra Mundial”, da autoria de Luís Miguel Ferraz, por  Paulo Fontes, do Centro de Estudos de História Religiosa (CEHR) da UCP.

Para o dia 3, os temas em agenda eram:Iconografia do Imaculado Coração de Maria: tradução artística da espiritualidade cordial de Fátima”, por Marco Daniel Duarte, do Museu do Santuário de Fátima; “A reparação na Mensagem de Fátima”, por da Teresa Messias, FT-UCP; “A linguagem da pedagogia: os preceitos dos Cinco Primeiros Sábados [aula de campo na exposição Refúgio e Caminho], por Marco Daniel Duarte, já referido; e “A linguagem da pedagogia: as razões de serem cinco os Primeiros Sábados [aula de campo na exposição Refúgio e Caminho], por Marco Daniel Duarte, já referido.  

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A AESF propôs que a edição deste ano dos Curso de Verão, que juntou cerca da dezena de investigadores e mais da centena de participantes, decorresse sob a perspetiva de, em tempo de inteligência artificial (IA), se promover uma interpretação e um entendimento do Mundo à luz de uma “inteligência cordial”. O mote, lançado na sessão de abertura, dissipou as interrogações que o tema desta edição pudesse ter gerado. Afinal, do que se fala, quando o diálogo se desenrola em torno desta invulgar palavra: “cordimariano”?

A abrir os Cursos de Verão, que se realizaram com o tema “Fátima depois de outubro de 1917: o ciclo cordimariano”, Marco Daniel Duarte, coordenador da formação, colocou Fátima em diálogo direto com o presente. Na verdade, na ótica do orador, em tempos de IA, Fátima propõe uma inteligência cordial”, uma forma de ler o Mundo que não parte apenas da razão, mas, sobretudo, do coração. É essa “inteligência que vem do coração” que atravessou o programa do curso e ajudou a compreender por que razão o episódio de Fátima não se esgota nos acontecimentos de 1917, prolongando-se em ciclos sucessivos, com impacto nos dias de hoje.

Marco Daniel Duarte recordou que a ideia de “inteligência cordial” encontra reflexo nas recentes palavras do Papa Leão XIV, cuja primeira encíclica, a Magnifica Humanitas, repete, por dezenas de vezes, a palavra “coração”. Em particular, preocupa o Santo Padre que o crescimento da técnica leve a Humanidade a perder a sua beleza e que o Mundo deixe de reconhecer no coração humano “o lugar onde Deus deseja habitar”. E, na linha de Leão XIV, reiterou que também Fátima propõe essa inteligência, que nasce da afetividade, e não apenas da razão.

Esta linha de pensamento foi particularmente aprofundada pelo investigador José Eduardo Franco, ao trazer aos Cursos de Verão o tema “Espiritualidades quentes num mundo frio: os corações de Jesus e de Maria”. 

José Eduardo Franco defende que existem, ao longo da História do Cristianismo, duas correntes de espiritualidade: as frias, racionalistas e distanciadoras entre o Homem e Deus; e, em contraste, as quentes, afetivas e centradas na proximidade e na misericórdia divinas. É nesta segunda família que se inserem o que designa de “espiritualidades sinedocais”, na medida em que tomam uma parte pelo todo, ou seja, uma parte do corpo de Cristo para significar o todo do mistério cristão. É aqui que o historiador enquadra a devoção aos Sagrados Corações de Jesus e de Maria e, por extensão, mensagem de Fátima.

A espiritualidade “cordial” nasceu contra as correntes racionalistas e severas que emergiram a partir do Renascimento e da Reforma. O Calvinismo e o Jansenismo punham Deus numa posição distante e viam a religião pelo prisma de rigor moral e da desconfiança, face às emoções. Contra esse pano de fundo, autores, como Santo Agostinho, Santo Inácio de Loyola, São João Eudes, entre outros, foram, ao longo dos séculos, desenvolvendo a teologia do coração, como símbolo do amor, da interioridade e do encontro entre o Homem e Deus.

O historiador percorreu os marcos históricos que conduziram ao século XIX, “século do coração de Jesus”, até indicar Fátima como “ponto de chegada” do longo processo que associa a espiritualidade dos corações de Jesus e de Maria; o Santuário enquadra-se na História florescente da espiritualidade dos corações, que a legitima e lhe dá projeção mundial, no dealbar do século XX; e a espiritualidade cordimariana – devoção ao Coração de Maria – ganha, em Fátima, interiorização profunda e assume, definitivamente, dimensão eclesial e global.

Fátima não criou esta devoção, mas foi decisiva para a transformar numa espiritualidade de alcance universal. A ideia foi reforçada pelo reitor do Santuário de Fátima, padre Carlos Cabecinhas, que defendeu que, embora a devoção já existisse, foi em Fátima que adquiriu um protagonismo inédito e passou a ocupar um lugar central na vida da Igreja.

Recorrendo aos estudos e a citações dos mariólogos Joaquim Maria Alonso e Stefano De Fiores, o reitor lembrou que o Imaculado Coração de Maria constitui “a alma da mensagem de Fátima” e o seu “fio condutor”. Desde as aparições do Anjo, em que o coração de Maria vem associado ao Sagrado Coração de Jesus, até às aparições na Cova da Iria e na Galiza, surge a espiritualidade cordimariana como via privilegiada para conduzir os crentes até Deus.

Carlos Cabecinhas pôs em relevo o papel das aparições de Pontevedra, em 1925 e 1926, e de Tui, em 1929, só com Lúcia de Jesus, na concretização prática desta devoção, nomeadamente, através da ação reparadora dos primeiros sábados. E, recordando o testemunho de vida dos Pastorinhos, sublinhou que, mais do que elaborações teológicas, Francisco, Jacinta e Lúcia encarnaram esta devoção, de forma afetiva e existencial. Lúcia dedicou toda a sua vida religiosa à missão de dar a conhecer esta devoção e de a transmitir à hierarquia da Igreja: “Foi incansável no cumprimento desta missão, ao longo da sua vida, procurando, por todos os meios ao seu alcance, divulgar os pedidos do Céu”, lembrou.

O reitor salienta que a influência de Fátima ultrapassou o âmbito devocional, ao contribuir, de forma decisiva, para a integração da memória litúrgica do Imaculado Coração de Maria no calendário universal da Igreja. Segundo explicou, foi a projeção mundial da mensagem de Fátima que permitiu que a celebração, até então, circunscrita a determinadas dioceses e congregações religiosas, passasse a fazer parte da vida litúrgica de toda a Igreja. Em 1996, a celebração foi elevada à categoria de memória obrigatória, decisão para a qual, em seu entender, “as aparições de Fátima tiveram direta e clara influência”.

Sobre a promessa de Nossa Senhora, na segunda parte do segredo de Fátima, “por fim, o meu Imaculado Coração triunfará”, o padre Carlos Cabecinhas reconhece o caráter aparentemente contraditório da expressão. Habitualmente, o triunfo associa-se à vitória dos fortes, ao êxito dos vencedores, ao poder de quem se impõe aos outros. Ao invés, o coração remete para a fragilidade. Porém, considera que é, precisamente, aquela leitura que importa evitar. O triunfo do Imaculado Coração de Maria não corresponde à lógica dos vencedores da História. Não se trata da vitória do guerreiro, do chefe, do herói. Basta recordar a forma como Nossa Senhora apresenta o seu coração, em Fátima, cravado de espinhos, em sinal de dor e de sofrimento.

Ao mesmo tempo, a promessa interpela a liberdade de cada pessoa. O triunfo do Imaculado Coração realiza-se sempre que alguém escolhe o bem, acolhe a vontade de Deus e responde ao seu chamamento, seguindo o exemplo de Maria. Nesse sentido, não corresponde a acontecimento espetacular nem a demonstração de poder. É a manifestação silenciosa da ação de Deus na História e na vida das pessoas: “É um triunfo que não se mede pela lógica do domínio do poder, mas pela lógica do amor, do serviço e da oferta da própria vida”, concluiu, estabelecendo a ponte com a parte final da intervenção de José Eduardo Franco.

O investigador sustenta que o triunfo de que fala a mensagem de Fátima é um caminho alternativo que se apresenta ao “Homem líquido” ou “Homem espuma” – expressões usadas por diversos autores, para classificar os que esvaziaram a sua dimensão afetiva – e defende que a espiritualidade da misericórdia, o “movimento do coração” que abre o ser humano ao outro e ao transcendente, continua a oferecer uma alternativa. Num tempo marcado pela “hipertecnização” e pela IA, elogiou e defendeu o conceito de “inteligência cordial”, antes avançado por Marco Daniel Duarte e que voltou a estar em destaque na intervenção que o diretor da AESF dedicou à iconografia do Imaculado Coração de Maria, no último dia dos Cursos de Verão.

Nesse contexto, sublinhou o coordenador da formação, Fátima, não só inaugura uma nova forma de apresentar o coração de Maria, cercando-o de espinhos – as dores da Humanidade –, como também recorre a esse símbolo para exprimir o amor de Jesus Cristo.

A partir da definição bíblica de coração, centro da existência humana para o qual confluem a razão, a vontade e a sensibilidade, Marco Daniel Duarte reforçou que Fátima convida a uma inteligência cordial, a única capaz de trazer os Homens à reconciliação.

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Em pol do tema complementar “O coração que Deus tem e que o homem procura”, Frederico Lourenço, professor catedrático da Universidade de Coimbra, tradutor da Bíblia e especialista em Línguas e Literaturas Clássicas, na visita temática, de 1 de julho, à exposição temporária “Refúgio e Caminho”, mostrou que o coração pode ser dor, pureza, razão, memória ou humildade.

Face à pergunta “Que dizem os textos bíblicos sobre o coração?” Frederico Lourenço mostrou “o coração que Deus tem” e, olhando para o coração nas Escrituras, frisou que é nele que ocorre a verdadeira conversão.

À questão “Deus tem coração?” respondeu: “Tem, sim.” Com efeito, “inequívoca é a resposta da Bíblia”. A partir do Génesis, levou os 190 participantes da visita a ver as duas primeiras vezes em que surge a palavra “coração”: “uma fala do coração do homem; outra, do coração de Deus”. Citou dois versículos seguidos o Dilúvio (cf. Gn 6,5-6) e disse: “Deus viu a maldade dos homens, e o seu próprio coração sofreu amargamente”. Daí acentuou a asserção “o seu próprio coração sofreu”, referente ao coração de Deus, destacando-o como “lugar de encontro do homem com Deus”, “onde Deus Se revela ao homem”, e “lugar do chamamento de Deus”.

Dos manuscritos bizantinos de Lucas, Frederico Lourenço citou “uma versão de Isaías que não está nas edições modernas da Bíblia”: “o Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar o amor aos mendigos e para curar os despedaçados no coração”. “Cristo cura o nosso coração partido”, concluiu. A expressão “coração partido” é originária não do anglicismo heartbroken, mas do profeta Isaías, notou.

Entre as obras “Banquete” de Platão e “A Cidade de Deus” de Santo Agostinho, formulou a ideia de que a pureza de coração decorre da intenção antes da ação, pois “a beleza de coração exigida para vermos Deus tem a ver com aquilo que o coração sente”.

Em percurso reflexivo, Frederico Lourenço levou os participantes a observarem o coração nos Quatro Evangelhos: Mateus, Marcos, Lucas e João. Em Mateus, mostrou que “o coração compreende”, quando Jesus diz: “Os olhos servem para ver, os ouvidos servem para ouvir e o coração serve para compreender.” “Compreender com o coração” é converter-se. De Marcos, mencionou, de novo, a pureza de coração, quando Jesus disse: “Nada há fora do homem que, entrando nele, o possa contaminar; mas o que sai do homem, isso é o que o contamina.” De João, destacou o momento em que Jesus consolou os Apóstolos: “Não se agite o vosso coração.” A Lucas, referiu-o como “evangelista de Nossa Senhora”, atento ao coração de Maria. Porque, depois da Adoração dos Pastores, notou que “Maria conservava todas estas coisas, ponderando-as no seu coração”. E, no Magnificat, Maria afirmou que “o Senhor derrubou os poderosos dos seus tronos e exaltou os humildes”.

A concluir, relacionou o Coração Imaculado de Maria e o Sagrado Coração de Jesus. Salientou o substantivo “humildade”, o qual, no conjunto dos quatro evangelhos, ocorre só no Magnificat, no segmento: “porque pôs os olhos na humildade da sua serva”. Pela humildade relacionou o Coração de Maria com o Coração de Jesus, pois, no Novo Testamento, o Coração de Jesus tem “mansidão e humildade”, “duas qualidades raras”, pelas quais “todos ganhamos em imitar Cristo”, disse.

Terminou com um convite: “Sejamos, pois, mansos e humildes.”

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Fátima não se limita ao acolhimento, ao culto e à formação a ele atinente, mas procura a formação explícita em torno do conhecimento do homem e do mundo, servindo-se de estudos académicos e apostando na via da pulcritude, educação artística, cultural e lúdica.

2026.07.14 – Louro de Carvalho

“Só vem de Deus, aquilo que nos une, nunca aquilo que nos divide”

 

Celebrou-se, a 12 e 13 de julho, a terceira peregrinação internacional aniversária ao Santuário de Nossa Senhora do Rosário de Fátima (abreviadamente, Santuário de Fátima), sob a presidência do bispo de Portalegre-Castelo Branco, D. Pedro Alexandre Simões Gouveia Fernandes. Para esta peregrinação, inscreveram-se, nos serviços do Santuário de Fátima, 83 grupos de peregrinos, provenientes de 18 países. Além de Portugal, os países com mais peregrinos inscritos foram a Espanha e a Polónia.

Entretanto, como o dia 12 foi domingo, já na missa principal havia muitos peregrinos, que foram desafiados a deixar que a Palavra atinja e determine todos os aspetos e dimensões da vida. 

Para esta missa, inscreveram-se, nos serviços do Santuário de Fátima, 12 grupos de peregrinos, a maioria de origem portuguesa, mas também de países estrangeiros, nomeadamente, da Espanha, dos Estados Unidos da América (EUA), dos Camarões e da Costa do Marfim.

O reitor do Santuário de Fátima, padre Carlos Cabecinhas, que presidiu, no Recinto de Oração, à missa dominical, cujo tema fulcral era a semeadura da Palavra de Deus, desafiou os peregrinos a deixarem-se transformar pela Palavra divina, acolhendo-a por forma que ela determine todas as opções, atitudes e dimensões da vida. “Deixemo-nos transformar pela Palavra de Deus. Deixemos que ela atinja e determine todos os aspetos e dimensões da vida de cada um de nós”, exortou o presidente da celebração.

Carlos Cabecinhas iniciou a homilia com um diagnóstico das palavras que são ruídos do Mundo atual, alertando para o perigo de não permitirem distinguir o essencial do supérfluo. “Nós vivemos num Mundo cheio de palavras, de tal modo que muitas delas se tornam, para nós, apenas música de fundo, ruído a que se não presta atenção. Quantas vezes não se corre o risco de que a Palavra de Deus proclamada pertença a este grupo de ruído?”, lembrou o reitor, desafiando cada peregrino a interrogar-se se, ao fim da missa, saberia responder do que falavam as leituras.

A partir dos textos proclamados, em que o profeta Isaías vinca a eficácia e a ação transformadora da Palavra de Deus, Carlos Cabecinhas advertiu que, se a nossa vida não muda, a falha não é da Palavra, mas da nossa “desatenção” ou da “falta de disponibilidade interior” para a acolher. Neste sentido, elencou alguns obstáculos que impedem a Palavra de dar fruto: as preocupações do dia a dia, a inconstância do coração, o medo das incompreensões alheias e o erro de “não darmos a Deus o lugar que só a Deus é devido”, na nossa vida.

E, a concluir, apresentou Nossa Senhora como modelo de escuta e vivência da Palavra, descrevendo a Mãe de Deus como o “exemplo perfeito” de quem guarda a Palavra no coração e a leva à vida prática. “Foi com ela que os santos Pastorinhos de Fátima, Francisco e Jacinta, aprenderam a ser terreno fértil, onde a Palavra de Deus deu fruto abundante”, frisou o padre Carlos Cabecinhas, instando os peregrinos a entrarem nesta “Escola de Maria”, para aprenderem a arte da escuta da Palavra de Deus.

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O bispo de Portalegre-Castelo Branco deixou clara, na noite do dia 12, a que é, no seu entender, a missão urgente dos cristãos, no momento atual: “valorizar e propor valores mais altos e plenos, que ultrapassem o círculo estreito e mortífero da busca do simples poder, do simples ter e do simples prazer”.

Na Celebração da Palavra, o prelado alacrense e albicastrense lembrou os peregrinos que, no Mundo contemporâneo, tão marcado por projetos egoístas e parciais, “só Cristo pode trazer plenitude e consistência à vida”.

Dirigindo-se aos cerca de 10 mil peregrinos presentes no Recinto de Oração e aos que acompanharam a transmissão pelos canais televisivos e digitais, o presidente da peregrinação propôs que a vontade de Deus fosse o critério fundamental para orientar as relações humanas e os projetos de vida. Neste sentido, a partir da leitura do Evangelho de São Mateus, salientou que Cristo propõe um critério para a construção de relações que ultrapassa os laços de parentesco: “Quem faz a vontade de Deus” pertence verdadeiramente à sua família, ou seja, as relações humanas são “mais positivas e autênticas”, quando deixam de estar centradas nos próprios interesses e se tornam “integradoras da diferença, tolerantes e fraternas”, clarificou.

Na reflexão que partilhou com os peregrinos, o presidente da celebração apresentou Maria como modelo de quem “procura ver Jesus”, “sempre aberta a Deus, sempre disponível para se deixar iluminar por Ele e, desse modo, se tornar luminosa para os outros”. “A grandeza de Maria reside na pureza da sua relação com Deus, na sua disponibilidade à ação do Espírito Santo e na sua determinação em conduzir todos a Cristo”, Observou.

Neste contexto, D. Pedro Fernandes convidou cada peregrino a interrogar-se sobre as motivações que o trouxeram ao Santuário de Fátima, naquela noite, e sobre o projeto de vida que deseja construir. “Que me trouxe a Fátima, nesta peregrinação do aniversário de uma das aparições? A que projeto de vida me convida Maria?”, perguntou, enquanto incentivava os fiéis a descobrirem o desejo mais profundo inscrito por Deus na alma de cada um.

Por fim, lembrou que “só Cristo pode trazer plenitude e consistência à vida” e pediu a intercessão de Maria para que os fiéis permaneçam abertos à ação do Espírito Santo, deixando-se guiar por Deus na construção de uma sociedade mais fraterna e orientada para o bem comum.

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Na missa da peregrinação internacional aniversária – em que participaram, pelo menos, sete mil peregrinos e concelebraram, além de D. José Ornelas, bispo de Leiria-Fátima, o cardeal D. António Marto, bispo emérito de Leiria-Fátima, D. Augusto César, bispo emérito de Portalegre-Castelo Branco, 89 presbíteros e oito diáconos –, D. Pedro Fernandes convidou os peregrinos a serem construtores da justiça e da paz.

Na homilia proferida no Recinto de Oração, o bispo de Portalegre-Castelo Branco, recorreu à antítese metafórica bíblica luz-trevas, para refletir sobre os desafios da sociedade contemporânea, desde as guerras e dos discursos de ódio até às divisões que ameaçam a comunhão na Igreja. “Atravessamos, hoje, uma época de insegurança e desorientação”, referiu. “Povos invadindo povos, pessoas violentando pessoas, discursos de ódio e divisão que proliferam e tentam impor-se à comunidade humana”, sublinhou.

A partir do relato da Anunciação, D. Pedro Fernandes apresentou Maria como exemplo de humildade e de disponibilidade à ação de Deus. “A atitude de Maria não é de heroicidade conquistadora, é, antes, de disponibilidade humilde, de quem se coloca à escuta do que Deus quer, reconhecendo n’Aquele que é a fonte de toda a vida a única autoridade capaz de transformar as nossas trevas em luz e a nossa violência em mansidão”, afirmou.

Neste contexto, evocou a recente encíclica Magnifica Humanitas, do Papa Leão XIV, para alertar para a ambiguidade dos avanços tecnológicos. “Se os recursos da tecnologia e da inteligência artificial [IA] nos podem abrir as portas para um quase imediato acesso à informação e um fácil recurso a soluções complexas, podem também introduzir-nos num perigoso jogo em que verdade e falsidade se confundem”, lembrou.

Para D. Pedro Fernandes, tal confusão favorece discursos manipuladores e estratégias populistas que exploram o medo e a insegurança, dividindo pessoas e povos. “À tenebrosa estratégia populista do ‘dividir para reinar’ opõe-se a luminosa proposta da Palavra de Deus, que nos fala de ‘uma Paz sem fim’, alcançada pelo ‘direito e pela justiça’ e não pela força e pela arrogância”, discorreu, evocando os conflitos que destroem o Médio Oriente, a Ucrânia e outras regiões do Mundo, com as raízes da guerra e da violência a manifestarem-se, de modo subtil, nos corações e na forma como as pessoas criam relações pessoais, sociais, políticas e económicas.

No âmbito eclesial, o antístite do Sever e do Pônsul alertou para o perigo das atitudes sectárias e da arrogância espiritual. Ao relembrar o recente caso de uma comunidade que se pôs em situação de excomunhão, sustentou que a pretensão de um grupo se considerar mais próximo de Deus “gera divisão que não pode vir de Deus”. Assim, o bispo, instando os fiéis a regressarem à humildade de Maria e a prepararem o Reino de Cristo através de opções concretas de paz, reconciliação e perdão, deixou claro que “só vem de Deus, aquilo que nos une, nunca aquilo que nos divide”, e que a unidade da Igreja e a construção de uma sociedade baseada nos valores do Evangelho são da responsabilidade de todos os cristãos.

Por fim, implorou a intercessão de Maria, para que os peregrinos renovem a determinação de combater todas as formas de violência, de preconceito e de exclusão, através da oração, do discernimento, da solidariedade e do compromisso na construção da justiça e da paz.

Na palavra aos doentes, André Pereira, diretor do Departamento de Acolhimento e Pastoral do Santuário de Fátima, afirmou que a eucaristia congrega os fiéis como membros de um só corpo, transformando cada pessoa em sofrimento num “sacrário vivo” da presença de Jesus. “Na tua fragilidade, és constituído sua testemunha privilegiada e sacramento do seu amor: Jesus dá-te – e, em ti, a todos nós – a mais eficaz das curas, a única que verdadeiramente restabelece as forças, mesmo que o corpo permaneça fraco: a da oferta de tudo por amor, o amor que salva”, vincou.

Na saudação final, o bispo da Diocese de Leiria-Fátima, apelou à solidariedade global, evocando as populações em sofrimento, com destaque para a Venezuela, devastada por um sismo recente, e para as vítimas das ondas de calor na Europa e das guerras que espalham terror e morte (esqueceu o grande incêndio de Vouzela). E, a terminar, exortou os peregrinos a não deixarem que os “ventos de guerra” apaguem a chama da esperança e da paz, devendo cada peregrino regressar a casa como um “mensageiro e agente” de justiça, fraternidade e solidariedade no Mundo.

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Para facilitar o acesso ao Santuário de Fátima, foram estabelecidos os Caminhos de Fátima, isto é, uma rede de itinerários religiosos e culturais que partem de diversos locais e terminam no Santuário de Fátima.  

São eles: Caminho do Norte ao Centro – 364 Km (quilómetros): Valença-Fátima; Caminho da Nazaré (54 Km): Nazaré-Fátima; Caminho do Tejo (150 Km); Lisboa-Fátima; Rota Carmelita (111 Km): Coimbra-Fátima; Caminho do Médio Tejo: Rota de Tomar (31 Km), Rota da Sertã (98 Km) e Rota de Abrantes (91 Km); Caminho dos Candeeiros (63 Km): Rio Maior- Fátima; e Caminho do Centenário (212 Km): Vila Nova de Gaia-Fátima.

Desenvolvidos pelo Centro Nacional de Cultura CNC, desde 1996, em parceria com múltiplas instituições e em articulação com o Santuário de Fátima, criam condições seguras e aprazíveis, sobretudo, para peregrinos e caminhantes que se dirigem, a pé, ao Santuário de Fátima, evitando as estradas de grande circulação automóvel, em favor de caminhos de terra e de pequenas estradas rurais. Proporcionam verdadeira espiritualidade, em ligação com a Natureza e com as vivências religiosas e culturais. São itinerários que percorrem territórios variados, com grande interesse cultural e paisagístico e articulam-se com outros itinerários de âmbito nacional e internacional. 

Para facilitar a utilização destes itinerários, foram editados os Roteiros dos Caminhos de Fátima, que disponibilizam, de forma sistemática, informação completa sobre estes percursos, destacando a paisagem, o património, a cultura e as ambiências locais. 

Apresentam cartografia associada a cada um dos Caminhos, bem como conteúdos descritivos sobre os respetivos itinerários. No final de cada Roteiro, há um conjunto de informações sobre o Santuário de Fátima, com a descrição dos lugares mais emblemáticos, desde as Basílicas à Capelinha, evidenciando a História e a simbologia de cada um destes espaços. 

Estão disponíveis para consulta e download, nas plataformas caminhosdefatima.org e pathsoffaith.com, incluindo a cartografias no formato GPX e KML.

Estes itinerários de peregrinação são identificados pela marca “Caminhos de Fátima”, que incorpora elementos simbólicos: uma azinheira, local de aparição da virgem aos pastorinhos, árvore caraterística da paisagem onde se enquadra Fátima e espécie botânica protegida em Portugal (quercus ilex); e a cor azul, símbolo do azul celeste e da ambiência atmosférica que se experiencia, diretamente, no Santuário e no espaço envolvente.

A marca é propriedade do CNC e a sua utilização exige autorização.

O CNC é uma Associação Cultural de utilidade pública. Criado, a 13 de maio de 1945, por um grupo de monárquicos e católicos de oposição ao regime, foi concebido como um “clube de intelectuais” para debate de ideias. Registou os seus estatutos em 1952. 

Sempre com o objetivo da “defesa de uma cultura livre”, nos anos 60, sob a liderança de Sophia de Mello Breyner Andresen, Francisco Sousa Tavares, Gonçalo Ribeiro Telles, João Bénard da Costa e António Alçada Baptista, afirmou-se como um fórum democrático participado por intelectuais e criadores culturais.

Depois do 25 de Abril de 1974, sob o impulso da equipa liderada por Helena Vaz da Silva, iniciou uma nova fase, centrada na internacionalização e na valorização da cultura e do património, com atividades muito variadas e dirigidas a um público diversificado: “Passeios de Domingo”, ciclos de viagens culturais , cursos de formação e de divulgação, encontros internacionais, seminários, exposições, edições, concursos literários e artísticos, prémios e bolsas, atividades infantis, prestação de serviços culturais a escolas, a empresas e a grupos estrangeiros de visita a Portugal.

No século XXI, reforça a sua matriz identitária, valorizando a memória histórica, promovendo a criação contemporânea e fortalecendo o debate no plano da cultura e da cidadania ativa. Tem como grandes linhas de ação a defesa, divulgação e valorização do património cultural, com base numa noção integrada de território, de comunidade, de ambiente, de património e de turismo. No quotidiano, a sua ação pode resumir-se como uma política de “pôr em contacto”, de “articular”, de “fazer acontecer”. 

A partir do bairro do Chiado em Lisboa, onde tem as suas instalações, incluindo uma biblioteca e um café literário (Café no Chiado), desenvolve atividades e projetos. O CNC é membro de redes internacionais e assegura a representação oficial da Europa Nostra em Portugal. É a entidade titular do projeto Caminhos de Fátima e proprietária da respetiva marca.

2026.07.13 – Louro de Carvalho