segunda-feira, 14 de setembro de 2026

“O cristão não pode viver a fazer contabilidade do perdão”

 

A Palavra de Deus que a liturgia do 24.º domingo do Tempo Comum, no Ano A, marca a exigência do perdão, uma vez que Deus ama sem cálculos, sem limites e sem medida, pelo que, em coerência, nos convida a assumir uma atitude semelhante para com os irmãos que, dia a dia, caminham ao nosso lado.

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A primeira leitura (Sir 27,33-28,9) evidencia a iniquidade da ira e o do rancor, que impedem a felicidade e a realização do homem, e a índole ilógica da espera do perdão de Deus, quando recusamos perdoar ao irmão. Por conseguinte, não podemos estragar a nossa vida, na Terra, com sentimentos, que só geram infelicidade e sofrimento.

O livro de Ben Sirah (também chamado “Eclesiástico”) é um livro sapiencial que, como todos os livros sapienciais, concita a reflexão sobre a arte de bem viver e de ser feliz.

No início do século II a.C., o helenismo tinha começado o seu influxo pernicioso na cultura e nos valores de Israel. Jesus Ben Sirah, preocupado com a degradação dos valores do seu Povo e com as cedências que, sobretudo, os mais jovens, vão fazendo à cultura grega, procura dar uma síntese da religião tradicional e da sabedoria de Israel, evidenciando a grandeza dos valores judaicos e mostrando que a cultura judaica nada fica a dever à brilhante cultura grega.

O trecho em apreço integra uma secção onde Jesus Ben Sirah tenta mostrar que a “sabedoria” – criatura de Deus, oferecida a todos os homens piedosos – tem especial campo de ação em Israel, o Povo eleito de Deus.

Jesus Ben Sirah ensina que a verdadeira “sabedoria” está em não se deixar dominar pelo rancor, pela ira e pelos sentimentos de vingança. O sábio (o que almeja ter êxito e ser feliz) é aquele que é capaz de perdoar as ofensas e de ter compaixão pelo seu semelhante.

Pertinente e pré-evangélica é a relação que estabelece entre o perdão humano e o perdão divino: quem recusa perdoar ao irmão é incoerente, ao pedir o perdão de Deus. Está sem autoridade para isso. Ao invés, quem perdoa as ofensas dos outros, poderá pedir e esperar o perdão do Senhor para as suas próprias falhas.

A tornar mais sugestivo o seu apelo, Ben Sirah insta os concidadãos a lembrarem-se da morte: “Pensa no teu fim e deixa de ter ódio.” Ante a realidade final que nos espera, não fazem sentido os sentimentos de rancor, de ira, de vingança, que alimentamos, e não podemos, coerentemente, esperar o perdão de Deus, se a nossa vida é vivida na lógica de ódio e de vingança.

Está, pois, diante de nós o apelo à inversão da lógica do “olho por olho, dente por dente”, de forma a que as nossas relações com os irmãos sejam marcadas por sentimentos de perdão e de misericórdia, para podermos rogar a Deus o perdão para as nossas falhas.

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O Evangelho (Mt 18,21-35) fala-nos do Deus cheio de bondade e de misericórdia que derrama sobre os seus filhos – total, ilimitada e absolutamente – o perdão. Por isso, os crentes são convidados a descobrir a lógica de Deus e a deixarem que a mesma lógica de perdão e de misericórdia, sem limites e sem medida, marque a relação com os irmãos.

Continuamos com o “discurso eclesial”, que tem como ponto de partida instruções apresentadas por Marcos sobre a vida comunitária, mas que Mateus ampliou, de forma significativa. Por trás do trecho em referência, entrevemos a comunidade com tensões e com conflitos que degeneram em ofensas pessoais, que são muito difíceis de perdoar.

Como vimos, o mandamento do perdão não é novo. Os catequistas de Israel ensinavam a perdoar as ofensas e a não guardar rancor contra o irmão que tinha cometido qualquer falha. Porém, os mestres de Israel estavam de acordo em que a obrigação de perdoar existia só em relação aos membros do Povo de Deus, ficando os inimigos excluídos dessa dinâmica de amor e de misericórdia. E a grande discussão girava à volta do número limite de vezes em que se devia perdoar. Todos – desde os mais exigentes aos mais compassivos – sustentavam que o perdão tem limites e é contabilizável, pelo que não é impossível perdoar indefinidamente.

Pedro, o porta-voz da comunidade, lança Jesus no debate acerca dos limites do perdão. Sabendo que Jesus tem ideias radicais, talvez ironicamente, pergunta a Jesus se, na sua perspetiva, se deve perdoar sempre. A expressão “até sete vezes” quer dizer “sempre”, uma vez que o número sete, na cultura semita, indica totalidade”. E Jesus responde que não só se deve perdoar sempre, mas de forma ilimitada, total, absoluta (“setenta vezes sete”). Deve-se perdoar, sempre, a toda a gente, incluindo os inimigos, e sem qualquer reserva, sombra ou prevenção. Isto é, ninguém pode ser excluído do perdão, como ninguém pode ser excluído do amor fraterno.

Neste contexto Jesus propõe aos discípulos uma parábola, que se desenrola em três quadros. O primeiro coloca-nos ante uma cena de corte: um funcionário real, na hora de prestar contas ao seu senhor (provavelmente, de impostos recebidos e não entregues), revela-se incapaz de saldar a sua dívida de dez mil talentos. O senhor ordena que o funcionário e a família sejam vendidos como escravos. Porém, ante a humildade submissa do servo, enche-se de misericórdia e perdoa-lhe a dívida. O que mais impressiona é o montante astronómico da dívida: dez mil talentos. Um talento pesava cerca de 36 quilos, em ouro ou em prata. Dez mil talentos era, pois, soma incalculável. A hipérbole da dívida serve para relevar a misericórdia infinita do Senhor.

O segundo quadro mostra como o funcionário que experimentou a misericórdia do seu senhor recusou, logo a seguir, perdoar a um companheiro que lhe devia cem denários. Um denário equivalia a 12 gramas de prata e era o pagamento diário de operário não especializado ou de trabalhador rural. Cem denários correspondiam, portanto, a uma quantia insignificante para um alto funcionário do rei.

Quando estes dois quadros são postos em paralelo, sobressaem a desproporção entre as duas dívidas e a diferença de atitudes e de sentimentos entre o senhor, capaz de perdoar infinitamente, e o funcionário do rei, incapaz de se converter à lógica do perdão, mesmo depois de ter experimentado a alegria do perdão. É desta diferença que resulta o terceiro quadro. Os companheiros do funcionário real, chocados com a sua ingratidão, informaram o rei do sucedido; e o rei, escandalizado com o comportamento do funcionário, castigou-o duramente.

A parábola é uma catequese sobre a misericórdia de Deus. Mostra como, na ótica de Deus, o perdão é ilimitado, total e absoluto. Por conseguinte, temos o convite a que analisemos as nossas atitudes e comportamentos, face aos irmãos que erram. Com efeito, a nossa lógica está, tantas vezes, distante da lógica de Deus. Ante qualquer falha do irmão, por insignificante que seja, assumimos a pose de vítimas magoadas e atitudes de desforra e de vingança.

Finalmente, a parábola sugere a relação entre o perdão de Deus e o perdão humano. Porém, Mateus não sugere que o perdão de Deus é condicionado e que só se torna efetivo, se aprendermos a perdoar aos nossos irmãos. Diz, sobretudo, é que na comunidade cristã deve funcionar a lógica do perdão ilimitado: a lógica de Deus, que deve ser a nossa. Na verdade, se o nosso coração não bater segundo a lógica do perdão, não terá lugar para acolher a misericórdia, a bondade e o amor de Deus. Fazer a experiência do amor de Deus transforma-nos o coração e ensina-nos a amar os nossos irmãos, nomeadamente, os que nos ofenderam.

Deus não pagará na mesma moeda a quem não for capaz de viver segundo a lógica do perdão e da misericórdia, pois o revanchismo e a vingança não fazem parte dos métodos de Deus. Ao jeito semita, o evangelista usa imagens dramáticas para frisar que a lógica do perdão é urgente e que dela depende a construção da nova realidade de amor, de comunhão, de fraternidade – a realidade do Reino. E nós, ao rezarmos Pai-nosso, comprometemo-nos a perdoar a quem nos ofende, ao pedirmos a Deus que nos perdoe. Que “nos perdoe como nós perdoamos”. Por isso, os padres espirituais dizem que, não perdoando, estamos a pedir a nossa condenação.

O perdão é essencial ao amor do próximo, que é a síntese de toda a lei, mas só haverá próximo, se nós nos quisermos aproximar.

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Na segunda leitura (Rm 14,7-9) Paulo sugere aos cristãos de Roma que a comunidade cristã tem de ser o lugar do amor, do respeito pelo outro, da aceitação das diferenças, do perdão. Ninguém deve desprezar, julgar ou condenar irmãos que têm perspetivas diferentes, pois algo de fundamental une todos os seguidores de Jesus: o próprio o Senhor, Jesus Cristo. Tudo o resto não tem grande importância.

Os vv. 7-9 são o centro da perícopa. O apóstolo recorda a todos – aos fortes e aos débeis – que pertencem ao Senhor: “Quer vivamos quer morramos, é ao Senhor que pertencemos”. Isso é mais importante do que as opiniões particulares acerca do caminho a percorrer para atingir o objetivo. Os crentes, antes de se deixarem dividir e separar por questões secundárias (que tipo de alimentos se devem comer, que festas se devem celebrar, que jejuns se devem fazer), devem ter consciência do essencial da fé e do que os une: Cristo, que morreu e ressuscitou para a todos dar a vida. A comunidade eclesial é a família de irmãos, reunida à volta do mesmo Senhor.

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Leão XIV, antes da recitação do Angelus com os fiéis reunidos na Praça de São Pedro, no Vaticano, sublinhou o perdão como valor fundamental da vida cristã. Jesus ensinou-o e testemunhou-o até à cruz, onde rezou ao Pai pelos seus perseguidores com as palavras: “Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem.”

No Evangelho desta dominga, Pedro questiona o Mestre sobre o tema: “Senhor, se o meu irmão me ofender, quantas vezes lhe deverei perdoar? Até sete vezes?” Na ótica do Pontífice, a pergunta petrina revela um coração generoso, pois o número sete na Bíblia simboliza a plenitude, e “perdoar sete vezes” significa perdoar com grande generosidade. A resposta de Jesus, porém, vai além: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete.” Quer dizer, “além de qualquer limite, sem medida”.

E o Papa sintetiza a parábola, que referimos, do servo que tinha, para com o seu senhor, dívida tão grande que era praticamente impossível de saldar. “Tendo obtido a remissão, por pura misericórdia, não tinha demonstrado, no entanto, a mesma piedade para com um dos seus companheiros e, por isso, foi repreendido e severamente castigado.” Com isto, Jesus lembra que a dádiva e o perdão estão na base da nossa existência. “Tudo nos é dado por Deus, num ato de puro amor, e nenhum de nós pode dizer-se perfeito na forma como responde a tanta bondade. Por isso, a gratuitidade – a fonte da nossa própria vida – é a melhor regra para a nossa convivência. O perdão é indispensável e, se faltar, não se pode viver em paz: mais cedo ou mais tarde, no coração e entre as pessoas, surgem conflitos, acusações, rancores e vinganças que destroem as relações, dividem as famílias e desencadeiam guerras.”

“Só o perdão liberta e traz de volta a luz, mesmo onde a pobreza material e moral do homem, por um momento, tornou o horizonte sombrio e o caminho incerto. O perdão, como um vento favorável, afasta até as nuvens mais densas, até que o sol volte a brilhar. Pedro experimentou-o várias vezes, em particular quando, após ter negado e abandonado Jesus durante a Paixão, ao encontrá-Lo ressuscitado, à beira do lago, ouviu-Lhe ser dirigida uma pergunta: ‘Simão […], tu amas-me?’, acompanhada de um convite: ‘Segue-me!’ Tal como no início, no dia do seu primeiro encontro, como se quase nada tivesse acontecido. E esta caridade, que esquece e cura, marcará, para o primeiro dos Apóstolos, a confirmação da sua missão.”

Por isso, Leão XIV exorta a que peçamos “à Virgem Maria, Mãe da Misericórdia, que nos ajude a perdoar sempre”, mesmo sendo difícil dar o primeiro passo, “e a difundir, com coragem e perseverança, a luz serena e curativa do amor que vence o ódio e desarma todo o rancor”.

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Em Fátima, a 13 de setembro, na homilia da missa da Peregrinação Internacional Aniversária de setembro, celebrada no Recinto de Oração, o arcebispo de Saurimo e presidente da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé, D. José Manuel Imbamba, sustentou que o perdão “não é um sentimento”, mas “uma tomada de decisão” e defendeu que esta atitude é essencial para ultrapassar o ódio e o rancor e para construir a paz. Partindo do trecho evangélico em que Pedro pergunta a Jesus quantas vezes deve perdoar ao irmão, frisou que a resposta de Cristo – “não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete” – revela que o perdão não pode ser “uma conta aritmética de 490 vezes”. “O cristão não pode viver a fazer contabilidade do perdão. O amor não funciona com calculadora”, disse.

O prelado angolano alertou para as consequências das mágoas e de ressentimentos acumulados na relação familiar e social. “Quantas famílias estão desfeitas por causa de uma única palavra mal saída da boca? Quantos pais não falam com filhos, quantos irmãos cortaram relações e quantos casais vivem sob o mesmo teto como estranhos, porque não quiseram ultrapassar uma ou duas ofensas?”, questionou, para estender a mensagem à realidade internacional. Perante um Mundo marcado por conflitos e guerras, D. José Imbamba questionou quantos países permanecem em confronto, “por falta da disponibilidade ao diálogo e ao perdão”.

A propósito da parábola dos dois devedores, criticou os casos em que “alguns países poderosos sufocam e deprimem os países pequenos, através das dívidas injustas”. “Quem experimenta a imensidão do perdão de Deus não pode transformar o próprio coração num tribunal com o direito de julgar e de condenar os outros, sem piedade e sem hipótese de regeneração”, sustentou. Porém, distinguiu perdão de aceitação ou de negação da injustiça: “Perdoar não significa aprovar o erro ou dizer que a injustiça não existiu. Perdoar não é fingir amnésia nem apagar a verdade.”

O perdão impede, na lógica do arcebispo, que a dor determine a vida de quem sofreu. “Existe uma diferença fundamental entre lembrar uma ferida e viver em torno dela. Lembrar com a cicatriz curada é sabedoria; viver a sangrar a mesma ferida é escravidão”, sentenciou.

Nesse sentido, defendeu que o perdão é uma decisão e que cada um pode optar, já hoje, por não viver sob a opressão do ódio e do rancor. “O perdão não muda o passado, mas tem o poder de libertar e transformar o nosso presente e o futuro”, vincou.

A partir do ensinamento de Paulo aos Romanos, sublinhou que, “quando decidimos perdoar do fundo do coração – não apenas da boca para fora ou com um sorriso falso –, Deus começa em nós uma obra inteiramente nova”.

Reconhecendo que há ofensas que exigem “lágrimas, tempo, acompanhamento e muita oração”, D. José Imbamba afirmou que “o perdão de coração cura o que estava bloqueado e permite-nos caminhar de novo e levantar novos voos de realização”.

E, no contexto do tema do biénio do Santuário de Fátima, “Coração de Maria, caminho para ver a Deus”, o arcebispo confiou a Maria as famílias e um Mundo marcado pela divisão e pediu a sua intercessão pela paz. “Essa paz só pode nascer de corações reconciliados que sabem renunciar ao ciclo do ódio e da vingança”, concluiu.

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É, pois, bom reconhecer o perdão de Deus e não o recusar ao irmão, pois isso é essencial ao amor fraterno a que Jesus nos vinculou.

“O Senhor é clemente e compassivo, / paciente e cheio de bondade.”

“Bendiz, ó minha alma, o Senhor / e todo o meu ser bendiga o seu nome santo. / Bendiz, ó minha alma, o Senhor / e não esqueças nenhum dos seus benefícios.

“Ele perdoa todos os teus pecados / e cura as tuas enfermidades. Salva da morte a tua vida / e coroa-te de graça e misericórdia.

“Não está sempre a repreender, / nem guarda ressentimento. Não nos tratou segundo os nossos pecados, / nem nos castigou, segundo as nossas culpas.

“Como a distância da terra aos céus, / assim é grande a sua misericórdia para os que O temem. / Como o oriente dista do Ocidente, / assim Ele afasta de nós os nossos pecados.”

“Aleluia. Aleluia. Dou-vos um mandamento novo, diz o Senhor: amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei.”

2026.09.13 – Louro de Carvalho


domingo, 13 de setembro de 2026

Líder da AfD criticado por falar de armamento e de remigração

 

Ulrich Siegmund, líder da Alternativa para a Alemanha (AfD), chefe eleito do governo do estado alemão da Saxónia-Anhalt, desencadeou fortes críticas com declarações sobre a hipótese de recorrer a material de armamento, em futura ofensiva de remigração e de deportação. O contexto é o projeto de instalação de uma unidade de produção do grupo israelita de armamento, Elbit Systems, no distrito de Sangerhausen, da região em causa.

Em conferência de imprensa, a 12 de setembro, Siegmund estabeleceu conexão entre a produção de armamento, a segurança interna e a política migratória que a AfD pretende.

Nas palavras do seu líder regional, a AfD não descarta, em princípio, a produção de armamento, que pode ser relevante, entre outras coisas, para a segurança interna, para a estabilidade do país e para a defesa nacional. Porém, remete para os objetivos da sua formação em matéria de migração, embora sem diabolizar, em termos gerais, a produção de armamento, pois, em futuras “ofensivas de remigração e deportação” os meios adequados serão necessários.

Após as críticas, Siegmund dourou as suas declarações. Para o líder do partido de extrema-direita, a produção de armamento é campo vasto que não abrange apenas armas, mas também veículos, tecnologias de proteção e outros equipamentos de que dependem a Bundeswehr (forças armadas unificadas da Alemanha e a sua respetiva administração civil), a polícia e as autoridades de segurança. Na sua ótica, estes setores devem ser reforçados, também para fazerem cumprir a lei, para executarem deportações, de forma consequente, e para viabilizarem uma “verdadeira ofensiva de remigração”. Na perspetiva da AfD, uma instalação que sirva a defesa nacional, a segurança interna e o cumprimento da lei impõe-se como dever do Estado. E é curioso como promove uma expulsão de migrantes “protegida” por armamento!

Ao mesmo tempo, o líder do partido ganhador das eleições regionais frisou que o partido rejeita fornecer material de armamento para “guerras alheias”. E, havendo, como disse, grande diferença entre a Alemanha produzir esses bens para si própria ou entregá-los a conflitos no estrangeiro e, assim, participar neles, a AfD pretende analisar, com rigor, o que será produzido em Sangerhausen e em que condições.

A possível instalação da Elbit Systems em Sangerhausen gera controvérsia, há algum tempo. O projeto enfrenta protestos da população, apoiados pela BSW (Bündnis Sahra Wagenknecht – Vernunft und Gerechtigkeit, ou Aliança Sahra Wagenknecht – Razão e Justiça), fundada em janeiro de 2024. Trata-se de um grupo empresarial israelita de armamento com sede em Haifa, que desenvolve e produz, entre outros, drones, obuses, lançadores de foguetes e sistemas de comunicação e de autoproteção para aplicações militares. Entre os produtos mais conhecidos, contam-se os modelos de drone Hermes e Skylark. Na Alemanha, a sede principal da empresa fica em Ulm. E, segundo a Elbit, o grupo já trabalha para a Bundeswehr e fornece, entre outros, sistemas de autoproteção para aeronaves.

Para a sua instalação em Sangerhausen, está previsto um terreno industrial com cerca de 130 hectares. Torsten Schweiger, presidente da câmara de Sangerhausen, da União Democrata-Cristã (CDU), afirmou que ali não deverá haver montagem final de drones, nem de granadas, nem de munições. Ainda não foi tomada decisão definitiva sobre a instalação. E Siegmund explicou que o seu partido ainda não assumiu uma posição final. Para lá das questões de segurança e de política externa, é preciso ponderar os impactos económicos para a região.

Entretanto, as declarações do líder regional da AfD desencadearam fortes reações. Katja Pähle, líder da bancada do Partido Social-Democrata (SPD) no parlamento da Saxónia-Anhalt, classificou as afirmações de Siegmund como ameaça política. Em sua opinião, não se trata de formulação equívoca. “Quem, no contexto da anunciada expulsão em massa de pessoas, traz à colação material de armamento, fala de violência como instrumento da política”, afirmou Pähle, instando a BSW a pronunciar-se sobre as declarações daquele líder da AfD.

Também a BSW reagiu com críticas. Fabio de Masi, copresidente do partido, a nível federal, acusa a AfD de apoiar o rearmamento e de justificar a instalação do grupo israelita de armamento com o uso de tecnologia militar para a remigração. Isto mostra, segundo Masi, que a AfD não pretende governar e procura uma saída, com provocações.

As declarações são politicamente sensíveis também porque a BSW é, no novo parlamento da Saxónia-Anhalt, o único partido disposto a manter conversações com a AfD. Porém, não está decidida a cooperação. Após as eleições regionais, a BSW sinalizou disponibilidade para discutir uma colaboração baseada em projetos e temas específicos, ao passo que a CDU, o SPD, os Verdes e a Esquerda continuam a excluir qualquer cooperação com a AfD.

Nas eleições para o parlamento da Saxónia-Anhalt, a AfD tornou-se, de longe, a força mais votada. Obteve 43,8% dos votos, mas não a maioria absoluta. E Siegmund reiterou, de imediato, a intenção de formar governo, sem excluir um executivo com uma maioria muito estreita, porque o objetivo é “um governo tão estável quanto possível”.

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Logo a 10 de setembro, no Bundestag, parlamento federal da Alemanha, os deputados debateram a proposta de orçamento da Chancelaria para 2027. A intervenção mais aguardada era a do chanceler federal, Friedrich Merz, da CDU, por causa do revés que as eleições da Saxónia-Anhalt significaram para a sua formação partidária.

Não obstante, o debate abriu com a intervenção da copresidente da AfD, Alice Weidel, recebida com intensos aplausos da sua bancada, a maior da oposição. E Weidel, referindo-se à coligação governativa, declarou: “Preto-vermelho acabou.” E chamou ao orçamento do Chancelaria uma “declaração de capitulação” da coligação governativa, pois, apesar de “receitas fiscais recorde”, o governo não consegue “gerir, de forma responsável, o dinheiro dos cidadãos”. Como causas, Weidel aponta “os grilhões da ideologia verde, da migração em massa, promovida pela esquerda, e da redistribuição socialista”.

Na sua opinião, o governo federal está a empurrar a Alemanha para a “bancarrota do Estado”. Por isso, exige a expulsão de mais de um milhão de refugiados que vivem na Alemanha e “cujos pedidos de asilo já foram recusados mais do que uma vez”. Efetivamente, como enfatizou, “os cidadãos sofrem com as consequências da migração: têm de viver com ruas inseguras e [de] criminalidade crescente, com o aumento massivo de crimes sexuais e de violência e com mais de 750 violações coletivas por ano”.

A transição energética, na ótica de Weidel, está a arrastar a Alemanha para o “abismo” e é uma das principais razões para a economia enfraquecida do país. As centrais nucleares seguras e baratas foram desmanteladas e, por consequência, os preços da energia subiram.

Depois de Weidel, interveio o chanceler federal. Friedrich Merz afirmou que a AfD alcançou um “resultado eleitoral notável”, na Saxónia-Anhalt, mas que o objetivo do partido, a maioria dos mandatos, ficou por cumprir, visto que 56% dos eleitores regionais não votaram nesse partido. Insinuou que, pouco depois do encerramento das urnas, Weidel terá instado o cabeça de lista da AfD na Saxónia-Anhalt, Ulrich Siegmund, a cometer “fraude eleitoral”. Com efeito, antes da votação, a AfD tinha enfatizado que pretendia governar sozinha, mas, após as eleições, Siegmund anunciou que, afinal, iria procurar apoio noutras forças políticas.

E o chanceler, falando em nome do país, reiterou o apoio à Ucrânia, “porque também está a defender a nossa liberdade”, e acusou a AfD de se pôr ao lado da Rússia, tratando-se de defender a liberdade da Alemanha, e de apoiar campanhas russas de desinformação.

Depois, embora tenha admitido erros de governação, salientou o facto de o crescimento económico de 1,3% previsto para este ano mostrar que as reformas da coligação preto-vermelha estão a produzir efeitos, mas que são precisas novas reformas.

Disse que o governo federal trabalha numa estratégia para a utilização de inteligência artificial (IA), de modo que “todos serão afetados por esta quarta revolução industrial”. Assim, a Alemanha estará na linha da frente, razão pela qual estão a surgir centros de dados no país.

Merz enfatizou que o governo leva a sério as preocupações do setor artesanal, que, “todos os dias”, se trabalha para reduzir os elevados encargos que pesam sobre as empresas e que, no artesanato, trabalham muitas pessoas com origem migrante: uma em cada seis tem passaporte estrangeiro. Portanto, classificou a remigração exigida pela AfD como “limpeza étnica, em função da cor da pele e da origem”. O ambiente aqueceu no Bundestag e multiplicaram-se as interrupções vindas da bancada da AfD. Porém, Merz avisou que, se os planos da AfD fossem aplicados, faltariam trabalhadores no artesanato, na restauração e nos cuidados de saúde.

Face à divulgação do estudo PISA (Programme for International Student Assessment), com resultados desastrosos para a Alemanha, Merz propôs aos governos regionais novas reuniões para trabalharem numa solução para o sistema educativo. “Temos de dar à geração jovem uma resposta convincente sobre aquilo que o nosso país representa.”

O chanceler recordou que, poucos dias antes das eleições, Ulrich Siegmund disse à organização de juventude da AfD: “A Alemanha é um marginal preguiçoso que cheira a dope.” Dope é um sinónimo de marijuana. A citação mostra, para Merz, o que a AfD pensa.

E, sustentando que, após a II Guerra Mundial, três gerações confiaram na promessa de prosperidade alemã feita pelos partidos moderados, mas que a geração jovem duvida dessa promessa, disse que o governo federal tem de criar novas perspetivas e que as “reformas servem a coesão, o progresso e o desenvolvimento contínuo do país em liberdade e em paz”.

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É de recordar que, após o desaire da CDU nas regionais da Saxónia-Anhalt, o chanceler se apresentou aos jornalistas, com o cabeça-de-lista da CDU em Saxónia-Anhalt, Sven Schulze, a verificar que, “com o dia de ontem [o das eleições regionais], não mudou apenas alguma coisa em Saxónia-Anhalt, mas em toda a Alemanha”. Efetivamente, na ótica do chanceler, quase 60 % dos eleitores a votar em partidos que põem em causa a democracia infligiram a “derrota eleitoral mais dura” que a CDU sofreu em muitos anos. “Tudo isto terá de ter consequências”, afirmou o chanceler, mas sustentando que os valores da Lei Fundamental não estão em causa nas urnas, pois as instituições alemãs são resilientes e estáveis.

Apesar dos fracos índices de popularidade e da derrota eleitoral em Saxónia-Anhalt, Merz mantém a sua linha política. Reconhece que o principal motivo para o descontentamento é o facto de o governo federal não ter conseguido transmitir as suas propostas com suficiente carga emocional, mas pretende, no futuro, em conjunto com o SPD, construir uma “narrativa” mais eficaz para o conseguir. E, nas próximas semanas, Merz quer “dar resposta pessoal” ao resultado eleitoral, porque, vendo a sociedade uma “ânsia de disrupção” e de “mudança de fundo”, tem de ser mais enfatizada a necessidade de compromisso.

Garantiu que, em termos gerais, a AfD terá de se orientar, em grande medida, pela linha do governo federal, o que se aplica à política de estrangeiros e de migrações. Porém, o ministro-presidente eleito parece disposto a minar o Estado Federal, a partir de Magdeburgo.  

Também Sven Schulze afirmou querer tirar consequências dos resultados.

Nos últimos dias, multiplicaram-se os apelos à demissão de Schulze. A Juventude da União (JU) de Saxónia-Anhalt reclamou a saída de toda a liderança da CDU no estado.

Schulze sublinhou que o mandato para formar governo cabe, agora, à AfD, a qual declarou que, apesar de não ter maioria absoluta, quer formar mesmo um governo. E o ainda ministro-presidente considerou que não haverá deserções a partir da CDU e que membros da BSW ajudarão Siegmund a chegar ao cargo de ministro-presidente.

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O partido Rassemblement National (RN) reagiu à vitória da formação de extrema-direita alemã AfD com um silêncio evidente, gesto que traduz as relações complicadas com essa força política. De facto, Marine Le Pen e Jordan Bardella, que estão a fazer campanha, respetivamente, para serem a presidente e o primeiro-ministro de França, não fizeram qualquer referência à AfD

Já o Reconquête, ainda mais à direita do que o RN e integrado no mesmo grupo que a AfD no Parlamento Europeu (PE), saudou a vitória, espelhando as divergências políticas na extrema-direita francesa.

Bardella, quando jornalistas presentes no Fórum Ambrosetti – conferência económica e geopolítica anual realizada em Itália – o questionaram, sobre a possibilidade de o RN retomar laços com a AfD, disse que tal não estava “previsto”, mas frisou que “a pressão eleitoral exercida pela AfD na Alemanha contribuiu para alterar o cenário político no governo de Merz, já que o país repôs os controlos fronteiriços, há alguns meses”.

A divisão da extrema direita francesa, face à vitória da AfD, não é algo hipócrita. Se o RN, que sobe nas sondagens, precisa de ganhar as próximas eleições, não pode colar-se às ideias da AfD, pois o grosso do eleitorado francês não é radical. Contudo, o RN, enquanto partido que aspira à governação, não perfilha, na plenitude, as ideias da AfD, nomeadamente, as atinentes à remigração. É certo que os partidos tradicionais não têm procurado resolver problemas, como “imigração em massa, perda de identidade nacional e declínio social e industrial”, mas não são adequados meios, como, por exemplo, o uso desproporcionado de armamento.

Por outro lado, há membros da AfD com posições inaceitáveis sobre questões históricas e de memória, e há diferenças significativas noutros domínios, como a política externa.

O RN e a AfD integravam o grupo Identidade e Democracia, com a Liga italiana e o Partido da Liberdade da Áustria (FPÖ), entre outros. Porém, a situação agravou-se antes das eleições europeias de 2024, após uma série de polémicas envolvendo dirigentes da AfD, potencialmente colados à ideologia nazi.

O Grupo Identidade e Democracia votou, em maio de 2024, pela exclusão da AfD, poucas semanas antes das eleições para o PE. Após o escrutínio, a AfD participou na criação do novo grupo de extrema-direita, Europa das Nações Soberanas (ESN), constituído em julho.

Também outro eurodeputado do grupo Patriots for Europe considerou que “nada vai mudar, antes das eleições francesas”, pois “ninguém quer ser associado à AfD, apesar de termos alguns pontos em comum e [de] cooperarmos em muitos temas”.

O RN pode manter-se em silêncio, mas o partido Reconquête, que integra o mesmo grupo político, o ESN, que a AfD no PE, manifestou apoio aos seus resultados eleitorais.

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O ministro-presidente eleito não perdeu tempo em expor os seus propósitos, o que lhe pode sair caro, pois, se o voto foi mais de protesto do que de convicção, o eleitorado não quer ser enganado, nem destratado. Contudo, há que estar de sobreaviso, porque a AfD pode alastrar na Alemanha. O partido de Adolfo Hitler, quando obteve 43,9% dos votos, instaurou a ditadura.

2026.09.13 – Louro de Carvalho

sábado, 12 de setembro de 2026

Governo aproveita debate de moção censura para ação de propaganda

 

A economia e o crescimento do emprego, em Portugal, mostram o melhor desempenho da Europa, segundo o primeiro-ministro (PM), Luís Montenegro. Tal declaração, proferida, na Assembleia da República (AR), a 8 de setembro, no contexto do debate parlamentar de uma moção de censura ao governo apresentada pelo partido do Chega, de extrema-direita – em parte, verdadeira e, em parte, incorreta – relança o debate sobre qual é o país da União Europeia (UE) com maior crescimento da economia e do emprego.

A moção surgiu depois de Luís Montenegro recusar demitir o ministro da Administração Interna, Luís Neves, na sequência de alegadas irregularidades cometidas, quando era diretor nacional da Polícia Judiciária (PJ), entre 2018 e 2026. Os outros partidos da oposição, pela abstenção ou pelo voto contra a moção, livraram da sua queda o executivo minoritário de centro-direita, em prol da estabilidade política (o país realizou três eleições legislativas, em pouco mais de três anos), porque entenderam que o objetivo deste instrumento parlamentar de fiscalização da ação governativa era desadequado, pois, em vez de pretender atingir o governo como um todo, visava a ação do ministro da Administração Interna, enquanto ex-diretor da PJ, que tinha, entretanto, sido ouvido na Comissão Parlamentar de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias e que está sob inquéritos vários, por parte das autoridades judiciárias.

Durante o debate, o PM anunciou dois brindes aos cidadãos: bónus nas pensões mais baixas, em condições a definir em Conselho de Ministros (200 euros, 150 euros e 100 euros, consoante o escalão), a processar em dezembro; e descida, neste ano, do imposto sobre o rendimento das pessoas singulares (IRS), até ao 6.º escalão, com efeitos retroativos a janeiro e com repercussão na retenção na fonte, em novembro. Paralelamente, declarou que Portugal tinha o melhor desempenho económico e a mais elevada taxa de crescimento do emprego, na Europa.

De acordo com os dados mais recentes do Eurostat, o crescimento do produto interno bruto (PIB) dos estados-membros da União Europeia (UE), no seu conjunto, aumentou 0,7%, no segundo trimestre de 2026, face ao trimestre anterior.

A Irlanda foi o principal motor desta subida, com, de longe, o maior salto no PIB, de +10,2%. Os analistas sustentam que este crescimento, uma revisão em alta acentuada, face às estimativas anteriores, resultou, em grande medida, de significativos aumentos da produção de empresas multinacionais, sobretudo, nas áreas da tecnologia e da indústria farmacêutica. Por isso, muitos economistas consideram este indicador pouco fiável. A Eslovénia e a Lituânia surgem em segundo e terceiro lugar, com crescimentos de 1,8% e 1,7%, respetivamente. Portugal surge em sétimo lugar ex aequo com Chipre, estando o PIB de ambos os países a crescer 0,8%.

Portanto, pode dizer-se que Portugal está entre os melhores dos 27 estados-membros da UE, mas não é o melhor e que está longe do melhor, de acordo com os dados do Eurostat.

A Áustria foi o único país a registar uma quebra, com o PIB a recuar 0,1%.

Segundo o Eurostat, a subida do PIB, na UE, foi de: 10,2%, na Irlanda; 1,8%, na Eslovénia; 1,7%, na Lituânia; 1,6%, na Suécia; 1,1%, em Malta; 1%, na Polónia; 0,8%, em Chipre e em Portugal; 0,7%, na Bulgária, na Espanha e na Letónia; 0,5%, na Hungria; 0,4%, na Chéquia, na Croácia, nos Países Baixos e na Finlândia; 0,3%, na Dinamarca, na Alemanha, na Estónia e na Grécia; 0,2%, na Itália e na Eslováquia; 0,0%, na França e na Roménia; e -0,1%, na Áustria (subida negativa). Há dois países cujos dados não são referidos.

O crescimento trimestral do PIB da UE é de 0,7% e o do PIB da Zona Euro é de 0,6%.

No atinente ao emprego, o mesmo conjunto de dados do Eurostat indica que o número de pessoas empregadas aumentou 0,1%, tanto na Zona Euro como na UE, no segundo trimestre de 2026. Nessa altura, havia cerca de 221,4 milhões de pessoas empregadas na UE.

Neste ponto, Luís Montenegro tem razão, pois, desagregando por estado-membro, Portugal surge em primeiro lugar, com um crescimento do emprego de 1%, no segundo trimestre de 2026, seguindo-se a Chéquia e Malta, ex aequo, no segundo lugar, com um aumento de 0,9%. Depois, vêm o Luxemburgo (0,6%), Chipre, a Espanha e a Estónia (0,5%), a Irlanda e a Itália (0,3%); a Hungria e a Dinamarca (0,2%), a Suécia, Eslováquia e a Bélgica (0,1%). A UE e a Zona Euro registam uma subida de 0,1%.

Vários países registaram uma queda do emprego, nomeadamente, a Finlândia (-0,8%), a Grécia (-0,4%), a Roménia, a Bulgária e a Polónia (-0,2%), a Alemanha, a Letónia, os Países Baixos e a Lituânia (-0,1%).

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É óbvio que os deputados que apoiam o governo não desmentiriam o PM. Contudo, os partidos da oposição deveriam ter deputados preparados para não deixarem passar qualquer imprecisão patente nas declarações do chefe do governo.

Porém, antes disso, diga-se que o debate da moção de censura, em si, foi paupérrimo. Da parte do partido proponente, cingiu-se à investida contra Luís Neves, a estranhar por que motivo ele ainda tinha a coragem de permanecer na bancada do governo, a criticar o Partido Socialista (PS) por não aprovar a moção de censura, à semelhança do que fez em 2025, colando-o ao governo, e a celebrar, inusitadamente, no fim da votação, a derrota, sob o pretexto da sua transformação em oportunidade, perante a complacência intranquila do presidente da AR e a indiferença dos demais deputados.

O governo reafirmou não ter parceiro privilegiado para a governação, considerou que o ministro Luís Neves é necessário ao país e que está a fazer um bom trabalho; tratou o Chega com excessiva brandura; e agradeceu ao PS a viabilização da permanência do executivo, mas criticou, duramente, a herança socialista.

Os partidos que, além dos que apoiam o governo, não votaram a favor da moção, pouco falaram de Luís Neves, mimaram o Chega com os epítetos de sempre, com razão, mas sem novidade. Por exemplo, não se referiram a casos concretos das suas contradições entre as atitudes e as palavras, nem às consequências da sua doutrina e da sua práxis, para o país, nomeadamente, à sua força discursiva anti-imigração, xenófoba, racista e apoiante da extrema-direita europeia mais refinada. Aliás, não se percebe a sua política europeia: se é contra a UE, se é eurocética, ou, sendo europeísta, em que sentido.

Nem o governo, nem os outros partidos questionaram o silêncio do Chega sobre o alegado assalto ao gabinete do seu grupo parlamentar. A ser verdade, este incidente, ocorrido na sede de um órgão de soberania (no caso vertente, a Casa da Democracia, em que estão representadas as principais correntes de opinião política e de propostas de governação) não pode compadecer-se com a inépcia, com a inércia, nem com o silêncio dos responsáveis. Não é legítimo perguntar-se: “Qual é a pressa para a investigação?” Não há um inquérito interno, porquê? Porque não foi solicitada a intervenção do Ministério Público (MP) com nota de urgência?

Sobre a situação económica do país, os partidos da oposição, não contrapuseram às promessas e às declarações do primeiro-ministro um discurso robusto. É certo que foram dizendo que o governo merece censura, mas por outros motivos, e que a melhoria da economia não se reflete na melhoria das condições de vida das famílias. Porém, esse discurso soube a pouco.

Já todos sabiam (ou deviam saber) que o Banco Central Europeu (BCE) ia proceder a mais uma subida das taxas de juro, embora a inflação não se tenha generalizado e até a Zona Euro acuse algum crescimento. Contudo, não se perguntou ao chefe do governo, como articula o bónus nas pensões e a descida do IRS com os efeitos da guerra nos países do Estreito de Ormuz, o que pode, a curto prazo, fazer disparar a inflação e tornar mais anémico (ou negativo) o crescimento.

Não aleguem – como uma alta figura do Estado o disse, a propósito da guerra da Rússia com a Ucrânia – que a guerra no Médio Oriente será uma oportunidade de crescimento da nossa economia e da boa saúde das nossas finanças. É óbvio que, se o preço da energia sobe, os impostos dela decorrentes enriquecem mais o erário público. Porém, ou o IRS já devia ter sido reduzido e as pensões aumentadas, ao longo do ano, ou deveria o aumento da carga fiscal ser encaminhado para o desenvolvimento de projetos necessários a um país que se limita a fazer reformas do “faz de conta”. Os brindes oferecidos pelo governo não tapam a cova de um dente.

E há mais. O cabaz alimentar, de 63 produtos, monitorizado pela DECO PROteste custou, na semana do debate e da rejeição da moção de censura, 255,26 euros, ou seja, mais 52 cêntimos do que na semana anterior. E, desde o início do ano, o mesmo conjunto de produtos está 13,34 euros mais caro, o equivalente a um aumento de 5,55%.

A diferença é maior, se comparada com o ano passado. Atualmente, o cabaz custa mais 14,61 euros, isto é, 6,07%, acima do valor, no mesmo período de 2025. E, face ao início da análise, a 5 de janeiro de 2022, antes da invasão da Ucrânia pela Rússia, o mesmo cabaz está, agora, em 255,26 euros, ou seja, 67,56 euros mais caro, uma subida de 35,99%.

Entre 2 e 9 de setembro, o carapau registou a maior subida percentual de preço, com o aumento de 23%, passando a custar 5,46 euros, por quilo. Seguiram-se a curgete, cujo preço aumentou 20%, para 2,15 euros, e o atum em posta em azeite, que ficou 17% mais caro, custando 2,21 euros. Na comparação com o mesmo período do ano passado, o carapau volta a destacar-se, com a subida de 43%, para 5,46 euros, por quilo. O robalo aumentou 30%, para 10,48 euros, por quilo, enquanto o bacalhau graúdo ficou 26% mais caro, atingindo 20,06 euros, por quilo. A carne de novilho para cozer apresenta a maior subida percentual, de 101%, custando, atualmente 11,72 euros, por quilo. Seguem-se o bacalhau graúdo, com um aumento de 89%, para 20,06 euros, por quilo, e a couve-coração, também com a subida de 89%, para 1,88 euros.

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De certo modo, estamos em crer que a insistente incidência do Chega no caso Luís Neves, embora tenha motivações partidárias (contradiz o partido, no atinente à supostamente necessária associação da criminalidade à imigração e a PJ, durante a sua gestão, terá investigado alguns dos seus militantes), sempre dará jeito ao executivo. E a prometida comissão parlamentar de inquérito (CPI) prometida pelo Chega vai nesse sentido.

Enquanto, discutimos Luís Neves e as suas informalidades, faltas de compliance, irregularidades e até ilegalidades (reparáveis ou puníveis por quem de direito), esquecemos, por exemplo, o que se passou nos exames nacionais, a incapacidade da Agência para a Gestão do Sistema Educativo (AGSE) para colocar nas escolas todos os alunos sujeitos à escolaridade obrigatória, o que está a motivar pais a contestar a sua inação e a levar aos tribunais a sua falta de reposta.

É certo que as escolas ganharam autonomia para matricular e distribuir os alunos, mas se não houver vaga, não sabem para onde os encaminhar. Ora, a Direção-Geral dos Estabelecimentos Escolares (DGEstE), conhecendo a rede de escolas, fazia bem esse trabalho.

Já ninguém fala do que se passa na Saúde, nomeadamente, no campo das urgências hospitalares, no que tem acontecido com o Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) e na falta crescente de médicos de família.

E Fernando Araújo, no jornal Público, de 12 de setembro, fala da evolução de três setores de cirurgias: as programadas, as convencionais e as de ambulatório, em dois períodos distintos: 2022-2024 e 2024-2026. No primeiro período, houve o aumento de 19%, no total de cirurgias programadas, de 11%, nas convencionais, e de 22%, nas de ambulatório. Ao invés, no segundo período, o impacto das medidas ditas transformadoras traduziu-se na redução em 1% das cirurgias programadas, de 7% das convencionais, embora com o crescimento marginal das cirurgias de ambulatório, mas com menos 0,5% de cirurgias urgentes. E, hoje, o Sistema Nacional de Saúde (SNS) opera menos 5% do que em 2024.

Ninguém questionou o PM sobre a regulamentação da Lei da Prestação Social Única (PSU), ou porque resolveu o governo atribuir aos vitivinicultores do Douro a verba de 12 milhões de euros, para deixarem as uvas nas cepas, quando a maior parte das vindimas está feita.

Os deputados não perguntaram ao governo porque e com que critérios privatizará a TAP ou como reaverá a ajuda em dinheiro público que lhe foi dada, em tempos. Não perguntaram por que motivo o Estado tem, agora, de participar no capital da Rede Energética Nacional (REN) com a quota de 13,4% e como condicionará o custo da energia, com tal participação.

O governo não foi questionado sobre a aquisição – e em que termos – de três fragatas à Itália, sobre os critérios de aquisição das aeronaves que substituirão os caças F-16, nem em que situação se encontra o NRP D. João II – conhecido por Plataforma Naval Multifuncional (PNM) – um projeto de um navio polivalente da Marinha Portuguesa. Enfim, ainda não se perguntou ao governo a causa por que o investimento, em curso, na defesa não foi presente à AR.

Por último, como se fala tanto de ilegalidades supostamente cometidas por Luís Neves, é de perguntar que diz o governo sobre uma informação veiculado pelo Expresso online, a 18 de julho, sobre o ministro das Infraestruturas e da Habitação, Miguel Pinto Luz, enquanto vice-presidente da Câmara Municipal de Cascais.

Referia o Expresso, então, que o MP, segundo notícia avançada pela RTP, solicitara a suspensão imediata das obras de construção do novo hotel Hilton e de 120 apartamentos na linha de Cascais, bem como a demolição dos edifícios que estão quase concluídos. Em concreto, o MP defende a demolição de, pelo menos, os últimos três pisos dos edifícios, embora a ordem para parar a obra ainda não tinha chegado ao terreno.

Além disso, a Procuradoria-Geral da República (PGR) pretende a suspensão das licenças e a declaração de nulidade das deliberações e dos despachos dos responsáveis políticos que autorizaram o empreendimento, a maior parte dos quais terão sido da pena do atual ministro.

O caso, que veio a público, através de uma reportagem da RTP, em janeiro de 2024, na sequência de queixa-crime da associação ambientalista SOS Quinta dos Ingleses, deu origem a um inquérito da PGR. Está em causa a venda, pela autarquia, de um terreno com cerca de 800 metros quadrados por menos de 313 mil euros, numa das zonas mais caras do país. Os edifícios já têm vidros nas portas e janelas e gradeamento nas varandas, referia a estação pública de televisão. No entanto, o MP considera-os condenados: defende que o local deve ser reposto no estado anterior ao início dos trabalhos, visto que as construções foram erguidas a menos de 500 metros do mar, mais altas do que as vizinhas, em terreno que integra a Reserva Ecológica Nacional (REN).

Por causa disto, nem o Chega, nem qualquer outro partido pretendem apresentar moção de censura, nem organizar uma CPI.

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Os nossos representantes na Casa da Democracia não se aplicam, estão ou parecem estar mal preparados ou o regimento da AR entala-os na disciplina partidária e de funcionamento (os tais semáforos parlamentares de tempo e de iniciativa). E a causa pública fica para trás.

2026.07.12 – Louro de Carvalho

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Tragédia do 11 de Setembro continua a marcar os EUA e o Mundo

 

Assinalaram-se, a 11 de setembro, os 25 anos dos atentados que ensombraram Nova Iorque e Washington, aliás, os Estados Unidos da América (EUA) – atentados que que provocaram milhares de vítimas e desencadearam as duras guerras no Médio Oriente.

A 11 de setembro de 2001, a manhã solarenga de verão de Nova Iorque augurava um dia normal, mas um instante, que marcou a História, teve impacto na vida quotidiana de milhões de pessoas, nos EUA e no resto do Mundo. Às 08h46 (13h46, em Lisboa), surgiram os primeiros relatos: as televisões, como a CNN ou a CBS, interromperam a emissão e lançaram os alertas de última hora sobre “a colisão de um avião” com uma das torres do World Trade Center (WTC). A maior parte das testemunhas, ouvidas em dezenas de reportagens ou documentários, lembram que “ninguém sabia o que estava a acontecer”. Só entenderam que se tratava de um atentado, mais tarde, quando as televisões mostravam, em direto, ao Mundo o segundo avião a embater noutra torre do WTC. As Torres Gémeas foram destruídas.

Porém, o choque não se limitou a Nova Iorque. Outro avião, meia hora mais tarde, despenhou-se sobre o Pentágono. Das quatro aeronaves desviadas por terroristas, só uma não terá chegado ao destino. O voo 93 da United Airlines despenhou-se em Shanksville, no estado da Pensilvânia. Investigações subsequentes concluíram que os passageiros entraram em confronto com os terroristas a bordo. O avião teria por destino o Capitólio ou a Casa Branca. Das quase três mil pessoas que morreram, então, só pouco mais de 1600 foram identificadas.

No final dos anos 1980, Osama Bin Laden fundou o movimento extremista Al-Qaeda e, uma década mais tarde, a partir das cavernas do Afeganistão, declarou guerra aos EUA. Nascido em Riade, na Arábia Saudita, era filho de um empresário e investidor do ramo da construção civil. Criticava o apoio norte-americano a regimes do Médio Oriente, que classificava de “tirânicos” e “apóstatas”, como o próprio regime saudita, e sustentava que se tratava de “agressão ocidental contra os muçulmanos, em todo o Mundo”, segundo o The Guardian.

Nos anos 1990, houve vários atentados da autoria da Al-Qaeda contra embaixadas e bases dos EUA na África Oriental. A 26 de fevereiro de 1993, em território dos EUA, uma carrinha carregada de explosivos rebentou na garagem do WTC, causando a morte de seis pessoas. Mais de mil ficaram feridas. No início dos anos 2000, um ataque suicida quase afundou um navio de guerra norte-americano, ao largo do Iémen. E, mais tarde, o inquérito do Congresso destacou a incapacidade de altos responsáveis, incluindo o presidente George W. Bush, de agir, ante os avisos dos serviços de inteligência. E os documentos apontam falhas do FBI e da CIA na partilha de informações cruciais que impediriam a tragédia setembrina.

“Hoje, os nossos compatriotas, o nosso modo de vida, a nossa própria liberdade, foram atacados numa série de atos terroristas deliberados e mortíferos.” Foi com esta frase que o Presidente dos EUA, George W. Bush, iniciou o discurso que fez, a partir da sala oval, na Casa Branca, 12 horas após os atentados terroristas.

Nessa manhã, o então inquilino da Casa Branca estava de visita a uma escola primária na Florida. Sem compreender o que se passava, pediu para o manterem informado sobre o que estava a acontecer em Nova Iorque. Depois, desfizeram-se as dúvidas. O chefe de gabinete da Administração Bush foi dizer-lhe que um segundo avião colidiu com a segunda torre. E, pouco depois, percebeu que houve aviões desviados para Washington, obrigando-o a passar largas horas no ar, a bordo do Air Force One, antes de aterrar no Nebraska.

Três dias depois, Bush foi a Nova Iorque, ao local, hoje conhecido como “Ground Zero”. Ante milhares de trabalhadores, polícias e bombeiros, garantiu ao Mundo, no que foi muito aplaudido: “As pessoas que derrubaram estes edifícios vão ouvir-nos a todos, em breve.”  

Menos de um mês após os atentados, surgiu a primeira resposta de Washington contra a Al-Qaeda. Sob as suas ordens, as forças dos EUA começaram a bombardear os campos de treino dos terroristas da Al-Qaeda e as instalações militares do regime talibã no Afeganistão. Estas ações, cuidadosamente direcionadas, como declarou o Presidente republicano, a 7 de outubro, tinham o objetivo de impedir que o Afeganistão fosse utilizado como base de operações terroristas e de enfraquecer a capacidade militar do regime talibã. E só ao fim de 20 anos, em 2022, é que os EUA saíram, definitivamente, do Afeganistão. Durante esse período, houve comparações “com o Vietname”, lembrando as consequências do conflito dos anos 1970.

Os analistas do Pentágono acreditavam que Osama Bin Laden estaria escondido nas montanhas afegãs, mas, só em 2011, foi localizado e morto numa operação das forças especiais norte-americanas no Paquistão.

Ao longo de duas décadas, foram milhares as vítimas – civis e militares – de uma guerra “sem fim”. E a Al-Qaeda ainda existe, lembra a BBC, sobretudo na África subsariana e, inclusive, com alguns membros no território afegão.

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Além dos milhares de norte‑americanos mortos no 11 de Setembro, dezenas de europeus perderam a vida e, 25 anos depois, alguns suspeitos não foram julgados. Porém, os atendados continuam enraizados na memória coletiva norte-americana, mais do que qualquer outra ocorrência dos últimos 25 anos. Uma sondagem da Ipsos refere que cerca de metade dos adultos nos EUA, cita o 11 de setembro entre os factos mais marcantes das suas vidas, à frente da pandemia de covid-19, das eleições de Barack Obama e de Donald Trump e do furacão Katrina, em 2005. E 90% sustenta que tais ataques mudaram o país “muito” ou “bastante”, com a maioria dos norte-americanos a lembrar-se de onde estava, quando recebeu a notícia.

Mesmo assim, apesar da ferida duradoura, apenas cerca de 1% tencionava assinalar, ativamente, o aniversário que se assinalou a 11 de setembro deste ano; e, entre os que o fizeram, um minuto de silêncio e o hastear da bandeira foram os gestos mais comuns.

A confiança na capacidade do governo para impedir um novo ataque também diminuiu, de forma constante, desde os níveis recorde registados nos dias que se seguiram a 2001.

As cerimónias decorreram nos três locais. Em Nova Iorque, familiares das vítimas reuniram-se na praça do Memorial para a leitura, em voz alta, dos nomes dos mortos, intercalada por sete momentos de silêncio, mais um do que em anos anteriores, acrescentado para homenagear os que, entretanto, morreram, devido a doenças associadas ao 11 de Setembro.

Quase três mil drones iluminaram o horizonte de Nova Iorque, durante um ensaio da instalação “Tribute in Light”, preparatória do 25.º aniversário dos atentados. Os aparelhos enchiam o céu noturno com formações em constante mudança sobre a cidade. E, no dia 11, foram utilizadas, ao todo, 2977 luzes, número que corresponde às pessoas mortas nos atentados. Os drones traçaram padrões sobre Nova Iorque, no âmbito do memorial anual.

Houve também cerimónias no Pentágono, em Arlington, e no Memorial Nacional do Voo 93, em Shanksville, na Pensilvânia.

Donald Trump não participou, desta vez, na cerimónia de Nova Iorque, preferindo discursar no Pentágono. Contudo, o vice-presidente James David Vance deslocou-se ao “Ground Zero”, área onde começaram as primeiras buscas de sobreviventes. Também os ex-presidentes Joe Biden, Barack Obama, Bill Clinton e George W. Bush foram à cerimónia de Nova Iorque.

Artistas que desenham a giz reuniram-se no Memorial Nacional do Voo 93, em Shanksville, na Pensilvânia, para criarem retratos dos 40 passageiros e membros da tripulação mortos a 11 de setembro. Cada desenho a constitui uma homenagem pessoal às vítimas do Voo 93 da United Airlines. Entre as obras está o retrato de um dos passageiros que participou na tentativa de recuperar o controlo do avião sequestrado. Outro artista desenhou a pessoa mais jovem a bordo do voo, dizendo que o trabalho tem forte significado pessoal. Os retratos são temporários e esbater-se-ão, gradualmente, enquanto estiverem expostos no memorial.

Também na Califórnia, quase três mil bandeiras dos EUA cobriram o relvado da Universidade Pepperdine, em Malibu, na comemoração anual “Wave of Flags” dos atentados, em homenagem às 2977 pessoas mortas. Os visitantes percorreram as filas de bandeiras, com mensagens de homenagem presas a alguns mastros. Efetivamente, cartões com a inscrição “We Remember” foram colocados entre as bandeiras, enquanto um expositor próximo convidava os visitantes a escreverem as suas próprias mensagens de tributo às vítimas.

Para alguns, a abreviatura “9/11” pode parecer estranha. A data foi o 11.º dia do 9.º mês, mas a convenção norte-americana de escrever as datas com o mês em primeiro lugar dá origem a “9/11”, o que coincide com o número de emergência 911 nos EUA.

Quase três mil norte-americanos (justamente, 2977) morreram nos atentados, mas, entre as vítimas, contavam-se centenas de cidadãos estrangeiros. As estimativas apontam para cerca de 372 vítimas não norte-americanas, oriundas de cerca de 60 países. O Reino Unido registou o maior número de mortos de qualquer país, além dos EUA, com 67 cidadãos mortos. A Alemanha, a Itália, a Irlanda e outros Estados europeus perderam igualmente cidadãos, muitos deles trabalhadores do setor financeiro que trabalhavam no WTC ou o visitavam.

A empresa norte-americana de serviços financeiros Cantor Fitzgerald ocupava os pisos 101 a 105 da Torre Norte do WTC, diretamente, acima da zona de impacto do voo 11 da American Airlines. Empregava vários europeus e, no total, 658 trabalhadores morreram nesse dia, a maior perda de vidas sofrida por uma só empresa.

O número de europeus mortos (131) nos atentados de 11 de setembro, por países, é: do Reino Unido – 67; da Alemanha – 11; da Itália – 10; da Irlanda – seis; da Polónia – seis; de Portugal – nove portugueses e lusodescendentes; da França – quatro; da Roménia – quatro; da então República Federal da Jugoslávia (a Sérvia e o Montenegro) – dois; da Suécia – dois; da Suíça – dois; da Bielorrússia, da Bélgica, da Lituânia, da Moldávia, dos Países Baixos, da Rússia, da Espanha e da Ucrânia – um, por país.

Durante os ataques, morreram os 19 sequestradores, sendo 15 cidadãos sauditas, dois dos Emirados Árabes Unidos (EAU), um do Egito e um do Líbano. Por detrás deles estava a mais ampla rede terrorista da al-Qaeda, que reivindicou, diretamente, a responsabilidade pelos atentados. O líder do grupo, Osama bin Laden, fugiu à captura, durante quase uma década, antes de ser morto por forças especiais dos EUA no Paquistão, em 2011. E o seu sucessor, Ayman al-Zawahiri, foi morto num ataque de drone em Cabul, em 2022.

Khalid Sheikh Mohammed, o “cérebro” do plano, foi capturado, no Paquistão, em 2003, e está detido na base de Guantánamo desde 2006, acusado de homicídio em primeiro grau de 2977 pessoas. Um juiz militar norte-americano marcou, agora, o início do julgamento, longamente adiado, para junho de 2028, juntamente com vários alegados coconspiradores, após ter falhado um acordo de confissão, em 2024, que previa que os arguidos admitissem culpa, em troca da retirada da pena de morte das opções de condenação.

O processo arrasta-se, marcado por disputas sobre provas obtidas mediante o recurso a tortura, incluindo simulações de afogamento, em locais secretos da CIA.

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À hora dos ataques, o jornalista Henrique Mano estava em Nova Jérsia, na redação jornal Luso-Americano, o mais antigo jornal de língua portuguesa em publicação contínua nos EUA.

Nova Iorque, onde dois aviões se despenharam contra as Torres Gémeas do WTC, ficava do outro lado do rio. As torres acabaram por colapsar. “Primeiro, durante umas horas, não se sabia bem o que se tinha passado, quantos aviões mais iriam cair. […] Foi uma sensação de insegurança também muito grande. De certa maneira, de perda e de não acreditar que um ataque terrorista daqueles pudesse acontecer com aquele requinte”, recorda o jornalista.

O resto do dia foi passado a refazer a edição do jornal que ia ser publicada no dia seguinte, uma edição ainda com mais perguntas do que respostas sobre o que estava a ocorrer. Todos os acessos a Nova Iorque estavam fechados. Henrique Mano só conseguiu pôr-se a caminho de casa no dia seguinte. Mas, antes, passou por uma comunidade portuguesa das zonas de Tribeca e Soho, a poucos minutos do WTC. Estavam aflitos, porque eram amigos de um casal que tinha um filho que trabalhava nas torres e do qual nada sabiam.

O jornal, que iniciou uma investigação de dois anos para identificar e escrever as histórias das vítimas portuguesas e luso-americanas, identificou nove pessoas, no total. Não foram encontrados os corpos de todas as vítimas. É esse, por exemplo, o caso de João Aguiar Júnior, de 30 anos, que trabalhava no setor financeiro e que salvou a vida de colegas. Percebeu que tinham de sair do prédio, andou pelo escritório a pedir a todos para saírem, aquelas pessoas com quem trabalhava saíram, ele assegurou-se de que elas chegaram ao elevador e elas sobreviveram.  Porém, quando o segundo avião embateu no edifício onde se encontrava, a Torre Sul, ele ainda não tinha conseguido escapar.

A história de João Aguiar Júnior foi imortalizada num dos capítulos do livro “The Hidden Brain” (“O Cérebro Oculto”), de Shankar Vedantam.

Das nove vítimas identificadas pelo jornal, apenas uma, Christopher Mello, estava num dos aviões sequestrados. Viajava com um colega no AA11 da American Airlines, que embateu na Torre Norte. Estava numa viagem de trabalho a caminho de Los Angeles.

Henrique Mano também cobriu outras histórias do 11 de Setembro, com enfoque na comunidade luso-americana, desde os que escaparam à morte por acaso, salvos pela pausa para fumar ou por atraso a chegar ao emprego, até a pessoas envolvidas nas operações de salvamento e de remoção dos escombros. Aliás, a montanha de escombros e o cheiro que dali emanava foram o que mais o impressionou, nos primeiros dias.

No fim de setembro de 2001, a família de João Aguiar Júnior fez uma cerimónia de despedida, junto à praia, em Nova Jérsia. Alguns colegas de trabalho estiveram presentes e tinham quase um pouco de culpa de sobreviventes, porque eles estavam na cerimónia e ele não.

No 25.º aniversário, Henrique Mano voltou a escrever sobre as vítimas e testemunhas do 11 de Setembro no jornal Luso-Americano. Porém, tantos anos depois, vão surgindo histórias novas. “Agora surgiu o nome de uma mulher que estou a tentar investigar, tentar saber se ela é ou não de origem portuguesa. […] É sempre uma caixa de Pandora inacreditável”, diz, vincando a dificuldade de chegar aos familiares.

Se confirmada, esta será a 10.ª vítima portuguesa e a primeira mulher, numa tragédia que, no dizer do jornalista, “afetou tanta gente de formas tão diferentes que a gente nunca sabe”.

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Agora, o Mundo está polvilhado ameaças híbridas, de guerras, de guerrilhas, de terrorismo e de contraterrorismo, com as liberdades e a segurança/defesa em desequilíbrio.

2026.09.11 – Louro de Carvalho