quinta-feira, 16 de abril de 2026

Um ano depois do apagão, país continua vulnerável e Lisboa em risco

 

Desde janeiro de 2026, novas centrais hidroelétricas – as do Alqueva, no distrito de Évora, e do Baixo Sabor, no distrito de Bragança – juntaram-se à rede (liderada pelas centrais de Castelo de Bode, no distrito de Santarém, e da Tapada do Outeiro, no distrito do Porto) com capacidade de “blackstart” (isto é, capacidade para arrancar do zero, sem recorrer à rede elétrica externa), permitindo recuperação mais rápida, em caso de falha total do sistema elétrico.

Assim, um ano depois do apagão que deixou Portugal às escuras, durante cerca de 12 horas, a capacidade de resposta do país melhorou, mas está longe de garantir segurança total, sobretudo, na Grande Lisboa, devido à ausência de uma fonte próxima da capital.

A análise, avançada pela revista “Sábado”, a 15 de abril, mostra avanços, nomeadamente, no reforço de centrais de “blackstart”, mas também a persistência de fragilidades críticas em setores essenciais, como saúde, prisões, telecomunicações e abastecimento de água. E o engenheiro Gonçalo Aguiar, especialista que trabalhou nas Redes Nacionais de Energia (REN) e colaborou na realização de planos de contingência para momentos de crise, avisou que, “geograficamente, continuamos mais ou menos na mesma” e sublinhou que a capital poderá voltar a ser uma das últimas regiões a recuperar energia, num novo apagão.

Na área da saúde, algumas unidades reforçaram a capacidade dos geradores, como a Maternidade Alfredo da Costa (abrangida pela Unidade Local de Saúde de São José), que aumentou, quatro vezes, a sua autonomia, após ter estado perto do colapso, a 28 de abril de 2025.

No entanto, não existe um levantamento nacional claro e há centros de saúde que continuam sem geradores próprios, apesar do investimento de alguns municípios neste âmbito. O problema central, para os hospitais, são os geradores e o combustível. E os administradores, que admitem falhas, apontam a ausência de coordenação central como um dos maiores problemas.

O sistema prisional continua a apresentar fragilidades graves: seis estabelecimentos, em 49, não têm qualquer fonte alternativa de energia. Estão articulados com a Proteção Civil para a disponibilidade de equipamentos. Porém, em caso de falha elétrica, os sistemas de vigilância, os sistemas de telefones e de rádios, que não têm pilhas, ficam sem funcionar.  

Segundo Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos de Escolas Públicas (ANDAEP), não há geradores nas escolas, os quais não são bens supérfluos. Ora, “ se houvesse outro apagão, ficaríamos menos admirados, mas as escolas não estão mais bem preparadas, garante.   

Duarte Caldeira, presidente do Centro de Estudos e Intervenção em Proteção Civil, sustenta que “não basta classificar as estruturas críticas”, mas que “é preciso dotar o país destas redundâncias e ter, sobretudo, uma visão integrada da matéria”. Para o especialista, a palavra-chave é “fiscalização” e há muitas dúvidas sobre o reforço dos instrumentos de redundância, em hospitais, em escolas, em estações ferroviárias, etc.  

Num cenário de apagão, sistemas essenciais, como videovigilância e comunicações, ficam inoperacionais, levantando riscos de segurança.

O abastecimento de água tem sido objeto de investimentos, designadamente, pelo desenvolvimento de planos de reforço da capacidade de combustível e da testagem periódica, mas  continua sem autonomia prolongada e com investimentos estruturais ainda dependentes de autorizações governamentais.

Já nas telecomunicações, as operadoras reforçaram sistemas de backup, investindo em geradores e em baterias, mas admitem limitações. Em muitos casos, a autonomia varia entre poucas horas (entre quatro e 12 horas), ficando dependente do acesso a combustível para geradores.

Mantém-se um dos problemas mais visíveis: os semáforos. Em Lisboa, apenas 5% da rede está a ser testada com sistemas de energia de emergência e, mesmo assim, com autonomia de cerca de uma hora. A EMEL, empresa de mobilidade e estacionamento de Lisboa, responsável pelos semáforos, não se compromete com a extensão da solução aos restantes 95% da rede.

Também os sistemas de pagamento eletrónico e multibanco se mantêm vulneráveis, com falta de garantias sobre o funcionamento em caso de falha prolongada. A Sociedade Interbancária de Serviços (SIBS), à questão “se fosse hoje”, respondeu que os seus “serviços  estiveram sempre operacionais e a funcionar ininterruptamente, durante todo o dia” do apagão.

Outro setor prioritário numa crise energética é o das forças armadas. No entanto, as perguntas da “Sábado” ficaram sem resposta, por motivos de seguranças, de acordo com o porta-voz do Estado-Maior-General das Forças Armadas (EMGFA), mas há garantia de que os seus equipamentos estão todos a funcionar e são alvo de vistorias periódicas.

Em julho de 2025, o governo anunciou um pacote de 400 milhões de euros, após o apagão, incluindo investimento em baterias e em redundância energética. Apesar disso, especialistas consideram que o ritmo de execução é lento e que o país continua atrasado, o que é agravado por instabilidade política e por constantes mudanças de estratégia. Um ano depois, a conclusão é: Portugal está mais preparado do que em 2025, mas não o suficiente. A falta de coordenação, o investimento desigual e a ausência de fiscalização eficaz deixam o país exposto a novo apagão, com impactos potencialmente semelhantes.

As centrais de “blackstart” são ponto principal da resposta um apagão, mas, enquanto se tenta repor a energia, há uma série de setores a tentar sobreviver sem luz. Há mudanças, mas não são as mais animadoras.

Gonçalo Aguiar conhece projetos antiapagão (nomeadamente baterias) a avançar no terreno, mas sustenta que ficam aquém da potencialidade máxima destes instrumentos, pois estas baterias estão a ser usadas apenas com a função de gerador, quando já podem ter a função de “blackstart”, isto é, serem elas próprias minicentrais.

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A ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, a 15 de abril, na Assembleia da República (AR), na audição na Comissão de Ambiente e Energia, no âmbito do grupo de trabalho sobre o apagão de 28 de abril de 2025, disse que estão em cima da mesa “cerca de quatro mil milhões de euros para a rede”, entre investimento em distribuição, transmissão e reforços extraordinários após o apagão. E afirmou que tal montante corresponde ao esforço que o governo pretende autorizar, para reforçar a resiliência do sistema elétrico nacional e tornar menos provável nova falha de grande dimensão. “Nós vamos autorizar, o que está em cima da mesa, mas ainda não é decisão final, cerca de quatro mil milhões de euros para a rede, tanto [de] transmissão como [de] distribuição”, adiantou.

Segundo especificou, desse total, 3040 milhões de euros dizem respeito à distribuição, 497 milhões a projetos base à rede de transporte, 775 milhões a projetos complementares e 133 milhões a uma aprovação extraordinária já autorizada. Este esforço financeiro enquadra-se na resposta ao apagão, sendo o objetivo reforçar a robustez do sistema elétrico e acelerar a capacidade de recuperação, em caso de nova falha.

A governante esclareceu que, se voltar a acontecer um incidente, a prioridade é garantir uma recuperação mais rápida do sistema e maior autonomia das infraestruturas críticas, apontando para o reforço dos “blackstarts” e para a realização de mais testes. Porém, sustentou que “nenhum país está preparado” para eliminar, totalmente, o risco de um tal evento, mas defendeu que é possível reduzir a probabilidade e melhorar a resposta operacional. “Como vimos o que aconteceu nos Estados Unidos da América [EUA] ou na Itália, [um país] pode estar mais bem preparado, mas nenhum está completamente preparado”, afirmou.

No conjunto de medidas adotadas após o apagão, a ministra recordou que o governo anunciou, a 28 de junho, “31 medidas”, entre as quais o investimento de 137 milhões de euros para “melhorar a operação e o controlo da capacidade de rede elétrica”.

Outra das linhas de atuação passa pelo armazenamento com baterias. Segundo a governante, o concurso em curso foi prolongado até 23 de abril, após o reforço de verbas do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), passando o montante total disponível a 180 milhões de euros. “Nós temos, neste momento, do PRR, 180 milhões de euros para baterias”, observou.

A ministra referiu que o governo prevê destinar 25 milhões de euros, financiados pelo programa Sustentável 2030, a projetos-piloto com baterias e com energias renováveis para autoconsumo em infraestruturas críticas, como unidades de saúde, lares, bombeiros e outros serviços essenciais. Além disso, explicou que foi decidido manter quatro centrais com capacidade de “blackstart”, em vez de apenas duas, como estava previsto no processo conduzido pela REN.

Segundo explicou, antes do apagão, a REN já tinha lançado um concurso para substituir os dois “blackstarts” existentes por dois novos. Mas, após o incidente, o governo decidiu manter as quatro infraestruturas em simultâneo. Além da Tapada do Outeiro e de Castelo de Bode, houve o reforço com o Baixo Sabor e com o Alqueva.

A governante defendeu que o reforço dos “blackstarts”, a expansão do armazenamento e o investimento em rede devem ser vistos como um seguro de resiliência, mas admitiu que todas estas opções têm impacto económico e tarifário. E sublinhou que uma das prioridades é garantir, durante futuros incidentes, maior autonomia às infraestruturas críticas, nomeadamente, hospitais, centros de saúde, lares, bombeiros e estruturas de socorro e emergência.

A ministra do Ambiente e Energia assegurou que o governo não recebeu nenhum aviso prévio (nem era possível avisar: “Vai haver apagão!”) sobre o apagão de eletricidade e que está convicta de que “nem o governo espanhol estaria alertado para o perigo”.

Na audição, a governante reiterou que o relatório da ENTSO-E (Rede Europeia de Gestores de Redes de Transporte de Eletricidade) confirma que “o apagão teve origem em Espanha, e não em Portugal, e propagou-se a uma pequena região da França”.

Segundo Maria da Graça Carvalho, o incidente teve origem “numa sucessão de falhas técnicas iniciadas no território espanhol”, começando em Granada, depois, em Badajoz e, depois, em Sevilha, “associadas essencialmente ao controlo de tensão insuficiente”.

A governante detalhou que o primeiro incidente, em Espanha, ocorreu às 11:32:57; o ‘blackout’ geral, no país vizinho, às 11:33:17; e, em Portugal, às 11:33:23, sustentando que, “em seis segundos”, não era possível evitar os efeitos do apagão e que “os impactos sentidos no nosso país foram inevitáveis”. E, questionada sobre a comunicação entre Lisboa e Madrid, disse que Portugal não recebeu qualquer alerta prévio das autoridades espanholas. “Não fomos avisados”, afirmou, acrescentando tratar-se, agora, de matéria a avaliar à luz dos dados disponíveis.

Todavia, disse acreditar que o executivo espanhol não teria percecionado a gravidade da situação, antes do colapso. “Estou convencida que nem o governo espanhol estaria alertado para o perigo”, afirmou, sustentando que, se tivesse percebido o risco, “teriam feito qualquer coisa e teriam dito”.

Maria da Graça Carvalho disse que a resposta nacional ao apagão foi “imediata e feita em articulação entre o governo e as entidades competentes”, o que permitiu restaurar o normal funcionamento do sistema elétrico nacional, “em menos de 15 horas”. Além disso, considerou, na AR, que Portugal tem um “mecanismo de estabilidade e [de] proteção do sistema muito melhor [do] que Espanha” e defendeu que uma das conclusões mais importantes do relatório ENTSO-E é a de que Portugal tinha em funcionamento mecanismos de proteção que faltavam no sistema espanhol. “Ficou bem claro, nesse relatório, e é uma das recomendações, que temos um mecanismo de estabilidade e proteção do sistema muito melhor que em Espanha”, afirmou.

Como exemplo, a ministra disse que Portugal implementou, em 2020, a exigência de que todas as novas centrais eólicas e solares tenham “um mecanismo de controlo de tensão”, sistema que “a Espanha não tinha”. “Acho que este é um grande ponto de proteção nossa e foi uma falha de Espanha”, porque, “principalmente, no solar, não tinham este mecanismo de controlo de tensão nas centrais”, sustentou.

A ministra referiu, ainda, uma diferença nos limites de tensão aplicados nos dois países, dizendo que “o limite de tensão a nível europeu é, geralmente, 420 kV (quilovolts) e nós temos esse limite”, enquanto Espanha beneficiou de uma derrogação da Comissão Europeia que lhe permite operar até aos 435 kV. Como afirmou, esse trabalho no limite, somado à ausência de mecanismos de controlo de tensão em centrais solares, esteve na origem da falha que desencadeou o apagão. “Isto estava dito nas entrelinhas no relatório da ENTSO-E. Este foi o real motivo, na minha opinião, e que está lá no relatório”, declarou.

A tecnologia de 420 kV representa o nível de ultra-alta tensão utilizado em redes de transporte de energia, focado, atualmente, na substituição do SF6 (gás de efeito estufa) por alternativas ecológicas. Equipamentos como disjuntores e subestações isoladas a gás (GIS) de 420 kV são essenciais para a proteção da rede, com inovações da Hitachi Energy e Siemens Energy a permitir emissões reduzidas.

A governante acrescentou que esta é uma das 23 recomendações formuladas no relatório europeu e que, no caso português, 90% já estão implementadas ou em curso.

Entre as recomendações, ainda a reforçar, apontou a necessidade de mais partilha de dados, de atualização periódica dos planos de deslastre, de realização mais frequente de testes aos sistemas de “blackstart” e de maior cooperação com Espanha, na criação de cenários de reposição. E destacou uma recomendação relativa à autonomia dos sistemas críticos, vincando a necessidade de garantir, pelo menos, 24 horas de funcionamento autónomo em serviços essenciais.

Segundo disse, isso já foi sendo reforçado “nos hospitais”, embora tenha admitido que “pequenas unidades ainda faltam”, defendendo a mesma lógica para lares, para bombeiros e para outras estruturas de socorro e de emergência.

Na mesma audição, a ministra rejeitou que o apagão de abril possa ser explicado pela presença de produção renovável no sistema elétrico. “Esta questão não foi das renováveis, aliás, o problema foi em Espanha e Espanha tem centrais nucleares a funcionar”, declarou, mas reconheceu que a transformação do sistema elétrico europeu, com mais autoconsumo, comunidades de energia e produção distribuída, tornou a rede mais complexa e exigente, a nível da gestão.

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Segundo Gonçalo Aguiar, a governante vem fazendo “um bom jogo de cintura entre a energia e a parte ambiental”, mas “o processo energético não avança como a principal prioridade”. E penso que REN, E-REDES, produtoras energéticas e telefónicas, capturadas pelo setor privado têm em mira o lucro, em vez do serviço público, que incumbe ao Estado prestá-lo, diretamente, ou pagá-lo a quem o preste e fiscalizar tal prestação.

2026.04.16 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Donald Trump é comparável a Afonso de Albuquerque?

Há dias, num grupo de amigos, maioritariamente, reformados/aposentados, que se reúne, semanalmente, para convívio e para troca de impressões sobre matérias diversas, lembrei-me de atirar a ideia do paralelo entre o rei português D. Manuel I, que se intitulava praticamente como rei do Mundo inteiro, e o presidente dos Estados Unidos da América (EUA).

Efetivamente, o furor expansionista em busca das especiarias no Oriente e a ânsia de dominar os mares e os oceanos, sob a capa da difusão da civilização cristã, por parte de D. João II e de D. Manuel I, com que emparceiravam, dialeticamente, os reis católicos espanhóis, Fernando e Isabel, não parece tão distante do furor do atual líder norte-americano, em demanda do petróleo, das terras raras, no objetivo confessado de assegurar o domínio dos continentes e dos oceanos, em nome da segurança nacional e dos valores que diz defender, também com água benta cristã, embora não católica. Há, contudo, uma diferença: os reis portugueses ou os espanhóis davam orientações à distância, mas as estratégias eram definidas, a nível local, pelos governadores, alguns dos quais ganharam o estatuto de vice-rei. Hoje, Donald Trump, como não há distâncias, define as estratégias, a partir de Washington ou de qualquer lugar onde esteja.    

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Entretanto, a 15 de abril, atraiu-me a atenção o artigo da Euronews intitulado “Trump vs. Afonso de Albuquerque: duas ‘expedições’ militares com resultados muito diferentes?”, subscrito por Ema Gil Pires, que admite a possibilidade de comparar a operação militar dos EUA contra o Irão, com a investida de que resultou conquista de Ormuz pelos Portugueses, no século XVI.

Verificou a jornalista que circula, nas redes sociais, uma imagem que estabelece o paralelo entre consequências, meios e fundos empenhados pelos EUA na guerra com o Irão, e a conquista bem-sucedida, no século XVI, de Ormuz, por parte do Império Português.

Trata-se da operação comandada por Afonso de Albuquerque, o segundo governador português da Índia, no quadro do projeto expansionista de Portugal, quando o Estreito de Ormuz detinha, como agora, expressiva importância económica e geostratégica, nomeadamente, a nível das trocas comerciais, em suposto paralelo com a ambição dos EUA, face ao Irão.

As duas expedições contaram com mobilização de pessoal e de equipamento militares díspares: a investida portuguesa em 1515, era, supostamente, menos ambiciosa do que o destacamento ordenado por Washington para a região, que se retrata como mais dispendioso, do ponto de vista financeiro, do que a expedição lusa de há séculos, o que é discutível, tendo em conta a diferença dos meios disponíveis e dos custos, agora e naquele tempo, face aos diferentes níveis de vida. Todavia, enquanto Albuquerque, cerca de oito anos após a primeira tentativa de posse da ilha de Ormuz, acabou por a conquistar, com vantajosas consequências para o Império Português, as forças armadas, de que Trump é comandante supremo, terão atingido resultados que ficaram bastante aquém dos obtidos pelos Portugueses, apesar do empenhamento militar dito superior, e com impactos reconhecidamente nefastos para a economia global.  

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A presença portuguesa em Ormuz iniciou-se em 1507, mas só em 1515 é que Portugal “efetuou a conquista” e a ocupação “do Reino de Ormuz”, como sustenta Rui Manuel Loureiro, investigador do ISMAT - Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes. E, citando a obra Décadas da Ásia, de João de Barros, historiador e cronista do século XVI, o investigador confirma que a “expedição de Afonso de Albuquerque” envolveu 27 navios”, nomeadamente, “14 naus” e “sete caravelas”, acompanhadas de “seis embarcações asiáticas mais pequenas”. E, quanto ao número de homens envolvidos, diz o investigador que “eram 1500 portugueses e cerca de 600 ou 700 indianos, mas “não necessariamente malabares” (oriundos do Malabar, região na costa ocidental da Índia). Também estiveram envolvidas “tropas de outras regiões da Índia, que participavam sempre nestas embarcações pequenas, quer como marinheiros, quer como soldados”.

Mais complicada, segundo Rui Loureiro, é a análise dos custos associados à ação portuguesa que conduziu à posse de Ormuz, pois, hoje, é difícil saber, por exemplo, o valor de uma nau ou de uma caravela, mas pode dizer-se que “as perdas portuguesas foram praticamente insignificantes, nestes combates”. Já no atinente às consequências da vitória portuguesa referidas na publicação das redes sociais, o  historiador tem opinião diferente, já que o triunfo luso resultou na criação de “uma espécie de protetorado da coroa portuguesa”, em Ormuz, até 1622, ano em que uma “aliança entre os Persas e os Ingleses” desinstalou os Portugueses do local.

Albuquerque pretendia assegurar o controlo da ilha de Ormuz, entidade autónoma da Pérsia. Contudo, como diz Rui Loureiro, não havia a ideia de atacar a Pérsia, “estado continental enorme”, em contraste com a recente atuação dos EUA, face ao Irão. Efetivamente, a situação atual marcha ao contrário: há o ataque ao Irão e, por consequência, surge o problema de Ormuz, sobre o qual os estrategos norte-americanos não terão pensado com antecedência. Ao invés, na ótica do historiador, a ideia de Albuquerque era controlar uma ilha-chave nas rotas marítimas, o que se enquadrava numa estratégia meramente “oceânica”, com a preocupação de “manter o bom relacionamento com as potências continentais”. No entanto, o controlo dos Portugueses sobre a ilha permitiu assegurar a segurança de algumas rotas comerciais em que os Portugueses estavam interessados”, nomeadamente, no Mar Arábico.

Também é exagerada é a asserção de que o domínio português sobre o Golfo Pérsico durou cerca de 150 anos. Ora, tal domínio durou até 1622, o equivalente a cerca de 107 anos, mas abrangeu só a ínsula e “algumas das suas pequenas dependências dos dois lados do Golfo”, ou seja, não havia controlo total do Golfo Pérsico, pois continuava a navegação árabe e persa.

Sobre a “introdução de um sistema de portagem” por parte do Império Português, é de referir que, na ótica do investigador, “esse sistema já existia, funcionando, então, em benefício do Reino de Ormuz”. Porém, ocupado o território pelos Portugueses, estes “passaram a beneficiar desse sistema de portagem”. Assim, eram isentas de taxas as mercadorias trazidas para Ormuz pelos Portugueses, que beneficiavam de parte das receitas da alfândega de Ormuz.

Quanto ao alegado “monopólio comercial [de Portugal] entre a Arábia e a Índia”, Rui Loureiro sustenta que também isso “é uma coisa muito complicada de se dizer”, a propósito do que são “superfícies geográficas imensas”. Os Portugueses controlavam parte do comércio, através do sistema de alfândegas de Ormuz e através de outros sistemas, os cartazes, que eram autorizações emitidas pelas autoridades portuguesas da Índia e que permitiam a outros navios fazer essa rota. Contudo, na perspetiva do historiador, a vigilância não era total. Muitos navios escapavam ao controlo português, bastava dirigirem-se a cidades que os Portugueses não controlavam, na Índia. Portanto, não havia monopólio, mas interferência portuguesa, em grande parte, com sucesso.

E, no atinente à “fundação de um domínio europeu no Oceano Índico”, com a duração de cerca de 500 euros, considera o especialista que também é expressão “exagerada”, porque, devido ao número de pessoas e de navios (milhares e milhares), era impossível controlar todo o tráfego que atravessava o Oceano Índico, por uma série de rotas. E, assim como “os Portugueses controlavam alguns dos entrepostos e algum do movimento desses navios”, no Oceano Índico, depois, os Ingleses e, mais tarde, os Holandeses fizeram o mesmo.

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Os custos estimados da operação militar de Donald Trump, no Golfo Pérsico, juntamente com Israel, contra o Irão, segundo a publicação que circula nas redes sociais e com base nos dados referentes a março, ronda os 18 mil milhões de dólares. Porém, Bruno Cardoso Reis, especialista em História Contemporânea e Estudos de Segurança e Defesa, citou recente estimativa do Finantial Times, com base em indicadores do American Enterprise Institute, que aponta para gastos diários na ordem dos “500 milhões de dólares”, em consequência do equipamento militar dos EUA destruído no conflito. Contas feitas, prevê-se que “o custo da campanha tenha rondado os 22,3 a 31 mil milhões de dólares, nas cinco semanas, desde que Trump ordenou às forças norte-americanas o ataque, no final de fevereiro”.

Quanto a meios mobilizados, as alegações que circulam online falam de 30 navios, 120 aeronaves e 50 mil meios humanos mobilizados, em março. Porém, segundo dados tabelados pelo grupo de reflexão norte-americano Atlantic Council, referentes a 3 de abril, estimam-se pelo menos, 134 aeronaves (excluindo caças) e 18 navios, entre outros equipamentos militares, mobilizados no âmbito da guerra com o Irão. E, no respeitante ao número de soldados, uma notícia publicada, a 29 de março, no New York Times, aponta para 50 mil, após a “chegada de 2500 fuzileiros navais e de outros 2500 marinheiros”, em tempos recentes.

Para Bruno Reis, importa destacar a maior concentração de forças dos EUA, a nível naval e aéreo na região, desde 2003, ou seja, desde a intervenção contra o Iraque. Já o recente destacamento de meios humanos pode indicar que Washington estará a ponderar alguma operação terrestre, visando a ilha de Kharg ou algumas das da zona do Estreito de Ormuz.

Aa consequências da intervenção militar dos EUA no Médio Oriente têm feito manchetes, como “crise energética global”, “disrupção económica com riscos de recessão e de insegurança alimentar”, tensões diplomáticas entre os EUA e os aliados europeus e o “Irão a assinalar um potencial sistema de portagem no Estreito [de Ormuz]”. Todavia, na ótica do investigador em História Contemporânea, há outros efeitos a considerar: “a disrupção causada nos países aliados do Golfo”, com mortes e com destruição de infraestruturas críticas, como de produção de energia, de refinação, de liquefação de gás, etc. – o que  mina a perceção de que a zona é uma espécie de oásis de riqueza e de segurança, de enorme importância para o turismo, para os serviços e para setores que envolvem os “centros de dados e a inteligência artificial, que têm sido apostas destes países, para diversificarem um pouco a sua economia”.

E, apesar do acordo de cessar-fogo, mediado pelo Paquistão, o que permanece é a “situação de impasse”, no dizer de Bruno Reis, continuando em jogo as questões comerciais. Como a economia está muito globalizada, embora os EUA não tenham “de se preocupar com a segurança do abastecimento, pois têm produção própria de petróleo e de gás”, não quer dizer que não sintam “algum impacto nos preços”. Efetivamente, como observa o historiador, as interdependências levam as crises, sobretudo numa região tão importante para o mercado da energia e, por exemplo, para os fertilizantes, a terem “impacto global, imediato e também a prazo”.

É também de frisar que a hipótese de o Irão replicar o sistema que os Portugueses adotaram, com base na hegemonia naval, de cobrar taxa para permitir a passagem das embarcações é “ilegal, à luz da lei internacional”, tendo sido essa “uma das grandes mudanças da transição do século XVI para o século XVII”, com o surgimento de novas potências navais, como a Inglaterra e os Países Baixos, defensoras da liberdade de navegação. E o Irão não pode fazer tal reversão.

À ideia de impasse no conflito, como aponta Bruno Reis, acresce o facto de os EUA, não estando a atingir os objetivos, quererem bloquear o Estreito de Ormuz, bem como o facto de terem criado “um enorme problema”, ao nível do “impacto económico direto” e da abertura de “um precedente potencialmente muito perigoso”. Ora, se outros Estados fizerem o mesmo tipo intervenções militares noutros estreitos, como o Estreito de Adem ou o de Malaca, “o impacto na economia global, na segurança alimentar e na segurança energética será tremendo”.

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Sobre a possibilidade de comparar dois protagonistas de épocas tão diferentes, o especialista em História Contemporânea e Estudos de Segurança e Defesa, explicou, em entrevista à Euronews, que há “uma corrente entre os historiadores” que resiste à ideia das comparações e das lições da História. Paralelamente, outra, que se desenvolveu no mundo anglo-saxónico, sustenta que “toda a gente retira lições da História” e que “mais vale tentar aprender com os erros dos outros”.

Por sua vez, Bruno Reis ressalva que “a História não nos oferece lições no sentido de como é que se consegue, garantidamente, uma vitória numa guerra”. Porém, o investigador elege um ponto digno de apreciação: navios que queriam utilizar o Golfo Pérsico, no século XVI, por causa das especiarias ou dos cavalos, ou os que o pretendem fazer, agora, devido aos hidrocarbonetos, têm de passar pelo Estreito de Ormuz. Assim, o que Albuquerque entendeu, há cerca de 500 anos, foi que, pela presença militar permanente, numa zona facilmente defensável por uma potência naval e com uma esquadra ali permanentemente baseada, conseguia ter hegemonia sobre tudo o que por ali passava.

No entanto, para Bruno Cardoso Reis, “o problema de base” dos EUA é que, “ao contrário de Afonso de Albuquerque, o presidente norte-americano não avaliou bem a realidade geostratégica” e “exagerou o seu poder militar próprio”. Dito de outro modo, Donald Trump “subestimou o inimigo” e, em particular, “a questão do Estreito de Ormuz e da facilidade com que este pode ser usado”, para ameaçar a geografia, permitindo facilmente ao Irão “ameaçar a segurança da navegação naquela região”, e “confundir a superioridade militar esmagadora” dos EUA com “uma espécie de omnipotência”.

Por outro lado, o historiador julga necessário destacar que, à data das conquistas do Império Português na região, “a tecnologia favorecia, muito claramente, o controlo do Estreito [de Ormuz] pelas potências europeias”, que tinham “vantagem, ao nível da tecnologia militar” e, sobretudo, da “tecnologia naval”, o que “facilitou muito a conquista da Ilha [de Ormuz], a construção da Fortaleza [também em Ormuz] e, depois, esta hegemonia naval”. Hoje, a realidade é diferente: a tecnologia militar tem niveladores que tornam mais fácil a uma potência mais fraca criar este tipo de problemas que as forças dos EUA têm enfrentado.

E apesar da vantagem tecnológica dos EUA comparativamente com a de Teerão, a existência corrente de “tecnologias muito mais simples, muito mais baratas” dá ao Irão a possibilidade de, “com um nível de poderio militar muito inferior”, ser “eficaz militarmente”, pois, como apontou o investigador, “está disposto a assumir baixas e riscos muito maiores”.Parte superior do formulário

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É tentador fazer comparações entre períodos históricos com protagonistas semelhantes e é inegável que podemos e devemos extrair lições dos factos históricos, mas nunca na linha de transposição de situações, descurando a diferença de realidades. As lições históricas, nunca literais, permitem compreender o comportamento humano (a nível de atitudes, de tendências, de objetivos, de ações e de avaliações) e ajudar a hermenêutica das realidades contemporâneas. É também isso que se pode depreender da leitura de Norman Dixon, “ On the Psychology of Military Incompetence” (1976), New York: Basic Books.

2026.04.15 – Louro de Carvalho

terça-feira, 14 de abril de 2026

TEDH questiona o Estado português sobre o julgamento de Sócrates

 

No seguimento de queixa apresentada por José Sócrates ao Tribunal Europeu de Direitos Humanos (TEDH), em julho de 2025, esta instância judicial do Conselho da Europa enviou, a 13 de abril, questões ao Estado português sobre a Operação Marquês, de acordo com informação do ex-primeiro-ministro, numa conferência de imprensa, em Bruxelas.

O TEDH, em texto publicado também nesse dia, segundo a Agência Lusa, perguntou às partes envolvidas no processo se consideravam a duração do processo “compatível com as condições de um julgamento num ‘prazo razoável”, segundo a Convenção Europeia dos Direitos Humanos (CEDH), assim como questionou se houve violações da convenção, devido “à fuga de alguns elementos do processo de inquérito criminal para os meios de comunicação social”, e se o Estado português cumpriu as suas obrigações por forma a evitar as fugas de informação sobre a vida privada do ex-chefe do governo.

“Em particular, terá o Estado, no caso em apreço, cumprido as obrigações que lhe incumbiam a fim de evitar estas fugas de informação e garantir o direito do requerente ao respeito pela sua vida privada?”, pergunta o tribunal, como também questiona se Sócrates teve direito a “recurso efetivo para fazer valer as queixas que apresenta” junto do TEDH.

Na conferência de imprensa, Sócrates considerou a decisão do tribunal, “a todos os títulos, extraordinária” e uma “vitória judicial”, apesar de o tribunal não ter aceitado, formalmente, a queixa. Os motivos de festejo devem-se, segundo José Sócrates, a que “mais de 90% das queixas apresentadas junto deste tribunal costumam ser rejeitadas” e a que “13 anos de perseguição judicial” vão ser avaliados por um tribunal internacional. O interessado admitiu que não há decisão a seu favor, mas apenas a decisão do TEDH de aceitar analisar, em contraditório, o caso. Ora, como frisou, isso, para quem lida com o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, o guardião jurisdicional da CEDH, “claramente, é um passo da maior importância”.

A defesa de José Sócrates afirmou que o Estado português tem, agora, até 23 de julho para responder às questões TEDH, tendo Sócrates, depois, seis semanas para apresentar os seus contra-argumentos, voltando a haver posteriormente uma nova ronda do Estado.

O advogado Christophe Marchand, frisando que nunca tinha visto o TEDH pedir esclarecimentos a um Estado sobre processo ainda em curso, explicitou que, depois da resposta das partes visadas, há o início da “fase de negociação”, em que as partes podem chegar a acordo. Caso tal não aconteça, o advogado garante: “Vamos para o tribunal.” E, questionado sobre as reparações que José Sócrates pretende obter, neste caso, respondeu que “pôr fim ao processo criminal” é mesmo o “único remédio”.

“Agora abre-se um diálogo entre o senhor Sócrates, o tribunal e o Estado português, com o intuito de se encontrar um remédio. É como se o tribunal estivesse a mostrar o caminho às autoridades judiciais portuguesas, para pararem com esta perseguição e para concederem ao senhor Sócrates meios de reparação perante a violação dos seus direitos fundamentais”, referiu.

Durante este período, as duas partes podem negociar e chegar a acordo, mas, caso isso não aconteça, o TEDH irá, “depois, decidir, num prazo de um ano, talvez menos”, se arquiva ou não este caso, segundo indicou Christophe Marchand.

Marie-Laurence Hébert, que integra a equipa de defesa de José Sócrates, alegou que, quando o tribunal decide pedir esclarecimentos ao Estado, é “extremamente raro” que o caso seja, posteriormente, arquivado, dizendo que isso só acontece “em menos de 1% dos casos”.

***

Esta decisão do TEDH surge, como foi referido, depois de, em julho de 2025, Sócrates, o principal arguido no megaprocesso da Operação Marquês, ter apresentado queixa junto do TEDH, integrado no Conselho da Europa, por estar, alegadamente, a ser alvo de uma violação do princípio do direito a um julgamento equitativo, contrariando a CEDH.

Sob o título “Processo estava morto e foi trazido à vida. Sócrates apresenta queixa contra o Estado no Tribunal Europeu”, o Diário de Notícias online (DN) publicou, a 1 de julho de 2025, um artigo de Susete Henriques, a referir que antigo primeiro-ministro apresentou  queixa contra o Estado português, no TEDH, sobre a Operação Marquês, na qual é um dos arguidos, processo que se arrasta há mais de 10 anos.

Em conferência de imprensa, em Bruxelas, ladeado pelo advogado Christophe Marchand, alegou “lapso de escrita” que serviu para “manipulação de prazos” como uma das razões que o levou a apresentar a queixa contra o Estado português.

Recordou que, em 2021, o Tribunal de Instrução, numa decisão instrutória de sete mil páginas, considerou todas as alegações do processo Marquês como “fantasiosas, incongruentes e especulativas” e que “todos os crimes da acusação estavam prescritos”. “Quatro anos depois, um Tribunal da Relação, com três juízas do Tribunal da Relação inventaram um lapso de escrita, mudaram o crime da acusação e manipularam o prazo de prescrição”, acusou o arguido, vincando, ironicamente, que “o processo estava morto e foi trazido à vida por um lapso de escrita” – “uma artimanha que serviu apenas para manipular os prazos de prescrição e querer levar o caso a julgamento, como pretendem”. Foi, como acentuou, “a gota de água” que o levou a “decidir pôr uma queixa no Tribunal Europeu dos Direitos Humanos”.

Segundo Sócrates, o processo “teve três acusações diferentes, uma em 2017, de corrupção para ato licito” e, depois, em 2021, o “juiz Ivo Rosa fez uma pronúncia de corrupção sem ato, que foi julgada ilegal e ilegítima”. “Finalmente, em 2024, o Tribunal da Relação, com base num lapso de escrita, muda tudo para corrupção para ato ilícito. Com que objetivo? O de manipular o prazo de prescrição”, enfatizou.

O antigo chefe do governo recordou a CEDH, que “identifica os direitos que todos nós temos”: “Qualquer acusado tem o direito de ser informado no mais curto espaço de tempo da natureza e da causa contra ele formulada.” E concluiu que nunca teve tal direito, ou seja, não foi informado, “no mais curto espaço de tempo, da natureza e da causa” contra si formulada. Ao invés, como enfatizou, “demoraram quatro anos a mudar a natureza da causa, como se isso fosse aceitável e como se isso fosse possível e legal, o que não é”.

Sócrates fala em “mentira, a que se seguiu nova mentira”, e em “campanha de difamação”, no processo, e sustenta que, apesar de recusarem o seu recurso, “vão ter de o aceitar”.

Além do “lapso de escrita”, o ex-governante apontou mais razões para a queixa contra o Estado, em concreto, o direito que lhe foi sonegado de a sua conduta ser avaliada por um “tribunal previsto na lei”. Com efeito, segundo diz, em 2014, o “Tribunal de Instrução Criminal manipulou a distribuição do processo”, pois “não houve sorteio, nem a distribuição foi presidida por um juiz”. Tendo sido assim que o processo se iniciou, “com a falsificação da escolha do juiz Carlos Alexandre”. E, para o antigo secretário-geral do Partido Socialista (PS), “este foi o primeiro tribunal Ad hoc criado pelo Estado português”, manipulado para o perseguir e para não lhe garantir que o juiz estava acima das partes, mas ao lado da acusação. “Só as ditaduras escolhem juízes para processos”, disse, criticando o sorteio dos juízes neste processo.

O queixoso teceu ainda críticas ao Conselho Superior da Magistratura (CSM), por fazer o controlo administrativo do processo. “Nos últimos meses, decidiram criar um grupo de trabalho de acompanhamento do processo Marquês. Pela primeira vez, em Portugal, um processo criminal tem uma tutela administrativa que vigia o processo”, observou.

O último argumento que Sócrates utilizou para apresentar a queixa contra o Estado foi a dita “campanha de difamação” promovida por órgãos de comunicação social: “O jornalismo português nunca foi isento, neste caso”, vincou, denunciando que as autoridades, clandestinamente, forneciam “as informações e o jornalismo apresentava-as como factos”. Além disso, para as autoridades não há presunção de inocência, segundo Sócrates. Não obstante, sustentando que não tinha pronúncia, nem acusação, garantiu que estaria presente em tribunal, se o julgamento começasse, a 3 de julho, mas frisou que aquilo que o moveu a avançar com uma ação contra o Estado português é uma “violação do Estado de direito”.

Na ótica do antigo primeiro-ministro, o processo Operação Marquês, que se arrasta, há mais de 14 anos, “é um julgamento por lapso de escrita”. O Tribunal Central de Instrução Criminal (TCIC) determinou, a 11 de junho, a ida a julgamento de José Sócrates e de Carlos Santos Silva, por três crimes de branqueamento de capitais. Para o tribunal, “há consistentes indícios” que demonstram que Carlos Santos Silva foi a pessoa nomeada por José Sócrates”, para movimentar o dinheiro, entre 2011 e 2014, para as contas do antigo primeiro-ministro.

Este processo foi separado do processo principal da Operação Marquês, tendo a juíza de instrução entendido que, uma vez que os crimes em causa são praticados em coautoria com arguidos que estão no processo principal, o mesmo deve ser anexado ao julgamento que tinha data de início marcada para 3 julho.

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A 21 de novembro de 2024, o queixoso junto do TEDH, tinha fornecido ao DN a “Breve História do Processo Marquês escrita no dia em que faz 10 anos”, supostamente só com os factos, que se sintetiza, aqui, em poucas linhas.

O Estado começou por manipular a distribuição do processo e fraudar a escolha do juiz. Não fez o sorteio que a lei exige e transformou o inquérito num jogo viciado. Nomeado o juiz, iniciou-se o vendaval de violência e de abusos que durou quatro anos. O procurador ordenou a detenção no aeroporto, transmitida em direto nas televisões, e o juiz decretou prisão preventiva, alegando perigo de fuga, quando o visado estava a entrar no país. No despacho escreveu “Tal promoção [a de prisão preventiva], a pecar, não será por excesso.”

O sistema judicial ratificou, o jornalismo aplaudiu e a política calou-se, ante a barbaridade. Mentiram quanto ao “TGV”, nas “casas da Venezuela”, na “Parque Escolar”, na “OPA da Sonae”, em “Vale do Lobo”, quanto à “proximidade a Ricardo Salgado”, no “apartamento de Paris”, na “fortuna escondida”. Passados 10 anos, a decisão instrutória, (em vigor, embora sob recurso), considerou que nenhuma das acusações tinha mérito para ir a julgamento. Todas eram “fantasiosas” ou “especulativas” ou “incongruentes”. A decisão judicial não é atinente à ausência de provas, mas de indícios.

Em 10 anos, o Estado fez três acusações. A primeira acusação foi em setembro de 2017, com a alegação principal de corrupção para ato lícito. Quase quatro anos depois, a decisão instrutória destruiu toda a acusação, mas o juiz Ivo Rosa transformou o alegado testa de ferro em corruptor ativo e mudou o crime: não é corrupção para ato lícito, mas corrupção sem ato. Três anos depois, o Tribunal da Relação derrubou a segunda acusação, considerando-a ilegítima, ilegal e baseada na “alteração substancial de factos”. Porém, invocando “lapso de escrita”, considerou que a verdadeira acusação é de corrupção para ato ilícito. Assim, a crónica do processo é a da metamorfose da acusação. Vale tudo para salvar a face do Ministério Público (MP), para alargar os prazos de prescrição, para manter o processo vivo.

O fabrico da terceira acusação foi assim: em 2024, três juízas consideram que a acusação inicial (a de 2017) continha um “lapso de escrita”: as alegações que indicavam crimes de “corrupção para ato lícito” deviam ser lidas como “corrupção para ato ilícito”. Porém, o lapso nunca foi referido, na fase de instrução, nos interrogatórios, nem no debate instrutório. Nunca foi invocado pelo MP.  E, a 21 de novembro de 2018, a equipa de procuradores entregou ao tribunal um documento a corrigir “alguns lapsos de escrita”: 15 páginas de lapsos, mas não esse. Não houve lapso de escrita algum.

Foram 10 anos de prisão, na opinião pública, e em que o sistema criminal se comportou como na ditadura, prendendo e difamando, enquanto escolhia o juiz que melhor servisse o MP. Nem presunção de inocência, nem direito de defesa, nem igualdade de armas – prazos imperativos para o cidadão e prazos indicativos para o Estado. Os prazos de inquérito deixaram de indicar seja o que for, na medida em que deixaram de existir, não por vontade do Parlamento, mas por vontade do MP. Diferentemente do que se diz, a ameaça à separação de poderes vem da usurpação de funções do poder político pelo poder judicial. Entretanto, o jornalismo divulgou, justificou e branqueou: manobras dilatórias são as dos advogados, não as do Estado.

O adiamento dos prazos de inquérito ou dos prazos de instrução, o incumprimento de qualquer tipo de prazo pelo Estado é visto como procura da verdade material, como resposta à dificuldade em provar ou para ultrapassar a “falta de meios”. Há sempre um fim social que justifica a quebra das mais elementares garantias individuais. O Estado nunca demora, só a defesa, só o advogado, só o cidadão têm interesse no atraso. A queixa por ausência de justiça em tempo razoável, apresentada em 2017, nunca foi julgada, mas o jornalismo não referiu o facto.

Para o denunciante, o Processo Marquês nunca foi processo judicial, mas armação política. A sua razão de ser nada teve a ver com justiça, mas com política impedir a candidatura do interessado a Presidente da República e a evitar que o PS ganhasse as eleições legislativas de 2015. A única diferença, face ao Processo Influencer é que, há 10 anos, escolheram o juiz. Seja como for, no Processo Marquês, não há acusação (anulada em 2021), nem pronúncia (anulada em 2024), mas a perseguição continua. A operação de lawfare observa os procedimentos: escolha do juiz, fabrico de acusações falsas e estapafúrdias, incumprimento dos prazos e violação do segredo de justiça, para alimentar o jornalismo e o tornar o seu principal aliado.

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Detive-me em pormenores, não para defender ou acusar Sócrates, mas para dar voz à CEDH, que o visado cita com rigor, sendo pena que a sua razão não colha, pelo descrédito em que caiu na praça pública, sem ou com motivo, e pelo descrédito em que se lançou o sistema judicial. “Todos” usam expedientes dilatórios (os do Estado não são punidos), mas os prazos cedidos à defesa são curtos. Sócrates não tem de provar inocência, os tribunais é que têm de provar os factos configuradores de crime. O processo judicial é público, mas, se o inquérito precisa do segredo de justiça, este não pode ser violado por ninguém (e foi), como interrogatórios dessa fase não podem vir à praça pública. Detenção no aeroporto ou devassa a habitações ou a escritórios, transmitidas, em direto, pelas televisões, só favorecem o espetáculo e complementam outras devassas à vida privada, em contradição com a CEDH, que protege o bom nome, a vida privada e a presunção de inocência até decisão condenatória transitada em julgado.

É o erro dos megaprocessos, que poucos resultados dão: só mostram trabalho, mas de pouca valia. Que ditará o TEDH e o Estado Português, finalmente? E que diremos nós?!

2026.04.14 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Péter Magyar é o novo primeiro-ministro da Hungria

 

Nas eleições de 12 de abril, as mais participadas da História recente da Hungria e das que tiveram o mais rápido desfecho, o Tisza (Partido Respeito e Liberdade), liderado por Péter Magyar, foi o vencedor, com Viktor Orbán, líder do Fidesz (União Cívica Húngara), a reconhecer a derrota, ainda antes de a contagem dos votos ter chegado ao fim, e a dar os parabéns a Péter Magyar, que festejou a vitória com milhares de apoiantes que saíram às ruas.

Em conferência de imprensa, Viktor Orbán, primeiro-ministro em exercício, disse que o “resultado das eleições é doloroso, mas é inequívoco”. E o chefe do governo, durante 16 anos, garantiu, no discurso de derrota, que vai continuar a servir o país, mesmo “na oposição”. Já o presidente do Tisza, Péter Magyar, discursando perante os milhares de apoiantes que saíram às ruas, em Budapeste, celebrou a vitória, frisando que este é um “mandato sem precedentes”, pois o seu partido vai ter dois terços, no Parlamento.

O vencedor declarou que “o Tisza e a Hungria venceram esta eleição, não por pouco, mas por muito”, o que significa derrube do regime de Orbán e libertação da Hungria. É, na sua ótica, uma vitória que “é visível, não apenas da lua, mas de todas as janelas da Hungria”.

Às 6h00, os eleitores começaram a acorrer às urnas, que encerraram às 19h00, protagonizando um ato eleitoral seguido por toda a Europa, pelos Estados Unidos da América (EUA) e pela Rússia. As ramificações da União Europeia (UE), para Vladimir Putin, são muitas.

A participação dos húngaros nas eleições atingiu os 77,8% até às 18h30, segundo o balanço oficial divulgado meia hora antes da votação terminar. É um recorde de participação e um aumento significativo, face aos 62% na última eleição há quatro anos.

No site da Comissão Eleitoral, ao final da noite, o Tisza seguia à frente com mais de 90% dos votos contabilizados. Por conseguinte, o partido vencedor elegerá 138 deputados, em 199 (o que lhe garante a maioria absoluta no Parlamento que é de 100 deputados), enquanto o Fidesz de Viktor Orbán terá 55 parlamentares. O partido de extrema-direita Nossa Pátria deverá entrar com seis deputados. E a Coligação Democrática (DK), de esquerda, não deverá eleger ninguém.

A Hungria tem o sistema eleitoral de uma volta, em que o partido ou a coligação que obtiver o maior número de lugares deverá formar governo. Dos 199 lugares do Parlamento, 106 são eleitos em círculos eleitorais uninominais e os restantes 93 são atribuídos através de listas partidárias. Os cidadãos húngaros que vivem no estrangeiro também podem votar.

Não há sondagens à boca das urnas, apenas são divulgados resultados das últimas.

No Facebook, Magyar, informou que Orbán lhe ligou e lhe deu os parabéns pela vitória eleitoral. Depois de votar, o então líder da oposição disse que estava certo de que o Tisza venceria e que acreditava que haveria mudança no topo da política. Mais tarde, após o fecho das urnas, o então candidato da oposição falou aos apoiantes e aos jornalistas, mostrando-se otimista, face aos números, mas pediu calma. Não queria ganhar as sondagens, mas as eleições.

Após campanha de ataques pessoais, de assédio e de incidentes isolados de violência, as urnas abriram, para o que os analistas descrevem como referendo a 16 anos de governo.

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Viktor Orbán, que governava com supermaioria parlamentar, desde 2010, enfrentava, desta vez, o maior desafio da sua carreira política com o antigo aliado, Péter Magyar. E o analista político Szabolcs Dull, antes da votação, sustentava que esta era a primeira eleição em que havia verdadeiro risco, visto que Viktor Orbán, tendo ganho, consistentemente, por grandes margens, em grande parte, devido à fragmentação oposicionista, enfrentava, agora, um único adversário que, de acordo com as sondagens, era capaz de ganhar.

Sondagens recentes sugeriam forte vantagem para o Tisza, numa mudança histórica, e uma sondagem publicada, dias antes das eleições, pela empresa húngara Medián previa potencial maioria parlamentar de dois terços para a oposição. No entanto, fonte do partido de Orbán, o Fidesz, referiu à Euronews, sob anonimato, que o campo governamental estava confiante, aduzindo que os seus principais eleitores estão sub-representados nas sondagens.

Viktor Orbán é uma das figuras mais experientes da História política moderna da Hungria. Foi cofundador do Fidesz, aquando do colapso do comunismo, e ganhou proeminência, em 1989, após ter apelado à retirada das tropas soviéticas. E, com o regresso ao poder, em 2010, reformulou a Constituição, as instituições e o panorama mediático da Hungria.

Na cena europeia, emergiu como figura de proa da extrema-direita, conhecida pela sua posição sobre a “migração zero” e pelos frequentes confrontos com as instituições da UE. Já Péter Magyar rompeu com o governo, em 2024, na sequência do escândalo conexo com o perdão de um condenado num caso de abuso sexual de crianças, e fundou o partido Tisza, nesse ano, tendo obtido 30% dos votos nas eleições para o Parlamento Europeu (PE).

A campanha de Magyar centrou-se no trabalho de base, em especial, nas cidades mais pequenas e nas zonas rurais, onde o apoio ao seu movimento tem crescido. Prometeu mudança de governo e renovação da oposição. “A sua vantagem é que é o único adversário credível, consolidando um apoio que, anteriormente, estava dividido”, dizia Szabolcs Dull.

A votação foi acompanhada de perto em Bruxelas e noutras capitais europeias. Há muito que o governo de Orbán discorda da UE, recorrendo ao poder de veto. Em março, a Hungria bloqueou um pacote de empréstimos da UE, no valor de 90 mil milhões de euros para a Ucrânia, no âmbito da disputa sobre o gasoduto Druzhba, o que suscitou críticas de vários estados-membros. Por outro lado, Viktor Orbán tem mantido laços estreitos com o presidente russo.

Além da UE, a Hungria tornou-se ponto focal na disputa ideológica mais vasta entre forças nacionalistas e liberais democráticas. “Orbán promove o que descreve como ‘política patriótica’, posicionando-a em oposição à democracia liberal, diz Szabolcs Dull, vincando que a sua derrota será “revés simbólico para movimentos semelhantes, a nível internacional”.

Viktor Orbán tem recebido o apoio de várias figuras proeminentes da direita internacional, como o presidente dos EUA, Donald Trump. E o vice-presidente James David Vance, deslocou-se a Budapeste durante a campanha, juntamente com os líderes da extrema-direita Marine Le Pen, de França, e Matteo Salvini, de Itália.

Já Péter Magyar está alinhado com a esfera conservadora europeia, mesmo que não seja líder pró-europeu, no sentido liberal do termo. O Tisza integra o Partido Popular Europeu (PPE), o grupo de centro-direita no PE, e prometeu restaurar as relações da Hungria com a UE e com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO). E, embora nenhum líder estrangeiro o tenha apoiado, publicamente, recebeu o apoio de figuras de topo do PPE, incluindo o primeiro-ministro polaco, Donald Tusk, e o chanceler alemão, Friedrich Merz.

A campanha tem sido dominada por narrativas contrastantes. A oposição centrou-se nas preocupações internas, como os serviços públicos, o custo de vida e a corrupção. Ao invés, a campanha de Viktor Orbán centrou-se na política externa, em particular, na Ucrânia, advertindo que a sua adesão à UE traria riscos económicos e de segurança, e acusou a oposição de alinhamento com forças obscuras que procuram prolongar a guerra, com Péter Magyar a servir de líder fantoche de Bruxelas, asserções que o visado rejeita em absoluto.

O enquadramento de ambos os lados claro: Orbán apresenta a escolha entre a guerra e a paz; e Magyar aduz que a eleição é sobre a permanência de Orbán no poder.

Por outro lado, a campanha foi marcada por alegações de intimidação, de violência limitada e de alegações de interferência estrangeira. Em fevereiro, Magyar alegou que indivíduos ligados ao governo o tentaram comprometer com a armadilha de mel (a gravação, sem o seu conhecimento, de vídeo de cariz sexual com uma mulher), mas não foram apresentadas quaisquer provas. Pouco tempo depois, foram divulgadas gravações com o ministro dos Negócios Estrangeiros húngaro em conversações com o seu homólogo russo, sobre a possibilidade de exercer pressão na UE. E, de acordo com os analistas, vários serviços secretos podem ter tentado influenciar a campanha, através da divulgação de material prejudicial.

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“A Hungria quer voltar a ser um país europeu”, diz o novo primeiro-ministro da Hungria.

Com um discurso de menos de sete minutos, antes da queda do muro de Berlim, Viktor Orbán exigia a saída das tropas russas do país e a realização de eleições livres que restituíssem o país ao seu natural curso: a Europa. Desta feita, é Peter Magyar, de sobretudo azul estilo bocskai, como os membros da elite militar húngara do século XVIII, está a dizer quase o mesmo, ou seja, que é preciso fazer regressar a Hungria à sua posição ocidental, na NATO e na UE. E, a 12 de abril, pelo menos, três milhões e meio de húngaros acompanharam-no, nessa urgência. A derrota de Viktor Orbán é “dolorosa, mas inequívoca”, como ele a classificou.

No discurso de vitória, o líder do partido vencedor falou de milagre dos eleitores e do triunfo “sobre as mentiras”. Evocando John F. Kennedy, outro líder jovem que modificaria a definição de liderança democrática, em todo o Mundo, Péter Magyar disse que os Húngaros perguntaram não o que a Hungria podia fazer por eles, mas o que eles podiam fazer pela Hungria. “Perguntaram e deram a resposta”, vincou, bradando à multidão que se reuniu para o ouvir, em frente ao Parlamento: “Não temos medo! Não temos medo! Não temos medo!”.

Georgios Samaras, professor do King’s College de Londres, considera que a Hungria está “a deslocar-se num caminho mais pró-UE, potencialmente com uma maior convergência em partes da política externa, incluindo a Ucrânia”, mas que “não devemos esperar milagres”, já que, tendo o país passado por 16 anos de desenvolvimento autoritário, qualquer novo governo herdará esses instrumentos e os utilizará para arrancar o controlo ao Fidesz”. No entanto, “o reforço dos laços com a UE parece ser uma prioridade clara”, diz o especialista.

O documentário, “Tavaszi szél – Spring Wind” (“Ventos de Mudança”), que detalha a génese e a consolidação do Tisza (Partido Respeito e Liberdade e o nome de um rio húngaro), leva a perceber porque transbordou o Tisza. Logo na primeira manifestação que organizou, contra o indulto concedido pela então presidente, Katalin Éva Novac, ao cúmplice de um pedófilo, Magyar reuniu mais de 30 mil pessoas. Numa carrinha de caixa aberta pintada a spray, com as cores da bandeira húngara, iniciou uma campanha por todos os círculos eleitorais do país. Foi a primeira vez que alguém com a pretensão política de derrotar Orbán se aventurou num terreno conservador que lhe confiava o voto, pelo menos, desde 2010. Três anos bastaram para pôr fim a um partido e a um homem que já não consegue apaixonar os eleitores.

Com a maioria de dois terços confirmada, Magyar disse que o Tisza venceu a batalha de “David contra Golias”, porque o Fidesz “utilizou todos os meios ao seu alcance para tentar impedir” a vitória, e lembrou a polémica do início de abril, quando um polícia da brigada de investigação de cibercrime denunciou o plano do governo para prender membros da equipa de informática do Tisza por alegada suspeita da existência de pornografia infantil nos computadores.

A paralisia dos serviços públicos, a degradação de muitas infra estruturas do Estado, como hospitais e escolas, e a noção de que tudo era culpa de uma elite que ficava com boa parte dos fundos europeus foram as queixas mais ouvidas em conversa com eleitores.

O que Magyar sabe aprendeu-o com Orbán. Tinha um poster seu no quarto de adolescente. Em miúdo, via o canal parlamento com a avó. Quando casou com Judit Varga, em 2006, a mulher que havia de se tornar ministra da Justiça de Orbán, antes de cair, por ter assinado o referido indulto, com a presidente, passa para o Fidesz, que tratava bem os seus. E ter sido tão próximo do poder que derrotou, Magyar fez maior a sua vitória. Até a esquerda e o centro-esquerda, sem opções que pudessem derrotar Orbán, votou em massa em Péter Magyar.

Contudo, é difícil identificar o momento, a frase ou a promessa que levou os Húngaros a deixarem o homem que ensinou ao Mundo como controlar um país, mantendo eleições livres. E isso torna a vitória de Magyar tão significativa, servindo de prova de que é possível derrotar o iliberalismo, sistema de democracia híbrido com controlo do poder judicial, onde a quase totalidade dos meios de comunicação social é detida por uma fundação do Fidesz, os membros do Conselho para o Orçamento do Estado, que tem de o aprovar, são nomeados pelo executivo. Todavia, há oposição e os seus membros não são encarcerados por se manifestarem com folhas brancas na mão, como na Rússia, a quem Orbán se encostou demasiado.

Não obstante, o grito de revolta de 1956 – “Rússia, vai para casa!” – foi reiterado, nesta campanha, agora, dirigido a Orbán, bem como os “contracomícios” (inovação deste ano), em locais onde este ia falando, a mostrar onde os Húngaros não desejam estar.

A geopolítica alterou-se, mas Magyar, em vez dos temas externos, falava dos problemas das pessoas, como o preço da alimentação, as esperas nos hospitais, o estado das estradas e a corrupção, que suga recursos públicos e impede a melhoria das infraestruturas.

O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, foi constante presença na campanha eleitoral. Cartazes do Fidesz anunciavam que a Europa retira fundos à Hungria para os dar à Ucrânia e que Bruxelas estaria a preparar-se para deixar a Ucrânia entrar na UE, sem qualquer compensação aos países que mais poderiam sofrer com essa entrada. No entanto, apesar de referir que tenciona aproximar a Hungria da UE, a questão da Ucrânia não é tão simples.  Magyar opôs-se à aceleração do processo de adesão da Ucrânia à UE, rejeitou o envio de armas para Kiev e deu a entender que submeteria a referendo adesão à UE. O Tisza votou contra o empréstimo da UE à Ucrânia, no PE, apesar de a Hungria não ter de contribuir financeiramente. Os interesses de Budapeste devem estar em primeiro lugar e Magyar criticou a erosão dos direitos da minoria húngara, na Ucrânia.

Porém, Zelensky deu os parabéns a Magyar pela “vitória convincente” e espera uma “abordagem construtiva”.

Quanto à extrema-direita europeia, o declínio do Fidesz afeta o papel dos Patriotas pela Europa (partido europeu onde estão forças nacional-conservadoras da UE, como o Vox espanhol, o Chega português ou o Reagrupamento Nacional de França), pois esse grupo terá de apoiar-se, mais fortemente, noutras forças de relevo sem o Fidesz a governar.​​​​​​​​​​​​​

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A retumbante vitória do Tisza desferiu um golpe na ascensão da extrema-direita na Europa, mas resta saber qual a dimensão do golpe; representa opção clara pela UE, mas falta definir tal clareza; significa enfraquecimento da diplomacia dos EUA e da Rússia, mas convém verificar se não se trata de simples alfinetada. Enfim, resta saber se a esperança da recomposição física, social, moral, infraestrutural e política da Hungria será realidade e se as relações com os países de fronteira e com a UE (em prol do projeto europeu) conhecerão melhores dias.

2026.04.13 – Louro de Carvalho

“Misercordias Domini in aeternum cantabo”

 

O Papa São João Paulo II, no ano 2000, consagrou o termo da Oitava da Páscoa, o II domingo do tempo pascal – tradicionalmente designado por domingo in albis (em que os batizados na Vigília Pascal depunham a veste branca) e popularmente conhecido como domingo da pascoela – como “Domingo da Divina Misericórdia”. A liturgia deste domingo leva-nos a contemplar a comunidade de homens novos que nasce da cruz e da ressurreição de Jesus, a Igreja. No dia da ressurreição, Jesus ressuscitado, confia à sua comunidade a missão de testemunhar, no Mundo, o amor e a misericórdia de Deus.

Os primeiros discípulos contemplaram, no ressuscitado, as chagas da paixão (o ressuscitado é o mesmo que foi crucificado). A misericórdia do Senhor manifesta-se no cravejamento do Filho de Deus na cruz. E a ressurreição significa revolução da misericórdia ou Revolução dos Cravos. Os cravos desapareceram, mas os seus lugares puderam ser contemplados no corpo do ressuscitado.   

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O Evangelho (Jo 20,19-31) exibe a comunidade da Nova Aliança, nascida da ação criadora e vivificadora de Jesus e que se reúne à volta do ressuscitado, recebendo d’Ele Vida, sendo animada pelo Seu Espírito e testemunhando, no Mundo, a Vida nova de Deus. Quem quiser ver e tocar o ressuscitado, deve procurá-Lo na comunidade que d’Ele nasceu e que d’Ele vive.

Jesus foi crucificado na manhã de sexta-feira – dia da preparação da Páscoa – e morreu pelas três horas da tarde. Depois de morto, um soldado trespassou-lhe o coração com uma lança; e do coração aberto de Jesus saiu sangue e água. João vê, no sangue que sai do lado aberto, o sinal do seu amor dado até ao extremo: do amor do pastor que dá a vida pelas ovelhas, do amor do amigo que dá a vida pelos amigos; e vê, na água que sai do coração trespassado, o sinal do Espírito que Jesus entregou aos seus e que é fonte de Vida nova. Da água e do sangue, do batismo e da eucaristia, nasce a comunidade da Nova Aliança. Contudo, os discípulos que tinham subido com Jesus a Jerusalém e que seriam o embrião da comunidade da Nova Aliança, desapareceram, sem deixarem rasto. Estão ocultos, algures em Jerusalém, paralisados pelo medo.

No final da tarde de sexta-feira, o corpo morto de Jesus foi sepultado à pressa num túmulo novo, situado num horto ao lado do lugar onde se dera a crucifixão. Depois veio o sábado, o último dia da semana, o dia da celebração da Páscoa judaica, durante o qual o túmulo de Jesus continuou cerrado. Chegados ao “primeiro dia da semana”, o primeiro dia do tempo novo, da Humanidade nova, nascida da ação criadora e vivificadora de Jesus, tudo muda. “No primeiro dia da semana”, Maria Madalena, a mulher que representa a nova comunidade, vai ao túmulo e vem de lá confusa, porque o túmulo está vazio. Logo depois, ainda “no primeiro dia da semana”, Pedro e outro discípulo correm ao túmulo e verificam o que Maria Madalena afirmara: Jesus não está encerrado no domínio da morte. A comunidade de Jesus começa a despertar do letargo e a viver o tempo novo. “Ao entardecer do primeiro dia da semana” (ao concluir-se o primeiro dia da nova criação) a comunidade discípular experiencia o encontro com Jesus, vivo e ressuscitado.

O trecho em apreço divide-se em duas partes.

A primeira (vv. 19-23), narra o encontro de Jesus ressuscitado com os discípulos. João começa por descrever a situação em que estavam os discípulos, antes de Jesus lhes aparecer: o “anoitecer”, as “portas fechadas”, o “medo”, que traduzem a insegurança e o desamparo que sentem ante o mundo hostil que condenou Jesus à morte. Mas, de repente, o Jesus apresenta-Se “no meio deles”. O crucificado está vivo; a morte não o venceu. Os discípulos não estão órfãos, deixados à hostilidade do Mundo. Ao situar-Se no meio deles, Jesus ressuscitado assume-Se como referência, fator de unidade, fonte de Vida, videira na qual se enxertam os ramos. A comunidade centra-se em Jesus, o centro onde todos bebem a água da Vida eterna.

A esta comunidade Jesus transmite a paz. Não é só o usual cumprimento hebraico (“shalom”), mas é, sobretudo, a certeza de que Jesus venceu tudo o que assustava os discípulos: a morte, a opressão, a mentira, a violência, a hostilidade do Mundo. Doravante os discípulos não têm qualquer razão para viverem paralisados pelo medo. Possuem a paz desarmada e desarmante, no dizer do Papa Leão XIV.

Depois, Jesus mostra aos discípulos as mãos com a marca dos cravos e o lado que foi trespassado pela lança. Nesses sinais está a prova da sua vitória sobre a morte e sobre a maldade dos homens; e, sobretudo, o selo misericordioso da sua entrega até à morte, por obediência ao Pai e por amor aos homens. Neles está impressa a identidade de Jesus, ou seja, os sinais de amor e de doação que a comunidade reconhece em Jesus vivo e presente no seu meio. A permanência desses sinais indica a permanência do amor de Jesus: Ele é sempre o Messias que ama e do qual brotarão a água e o sangue que constituem e alimentam a comunidade. A esta apresentação de Jesus, os discípulos respondem com a alegria. Estão alegres, porque Ele está vivo e porque sabem que começou o tempo novo, em que a morte não assusta, o tempo do Homem Novo, do Homem livre, do Homem que se encontrou com a Vida definitiva.

Em seguida, Jesus convoca os discípulos para a missão, a que o Pai Lhe confiou: realizar, no Mundo, a obra de Deus. Os discípulos concretizá-la-ão conectados com Jesus (são ramos ligados à videira/Jesus), pois só assim darão fruto. E, para os discípulos poderem concretizá-la, Jesus realiza um gesto significativo: “soprou” sobre eles. O verbo utilizado é o do texto grego de Gn 2,7 (para dizer que Deus soprou sobre o homem de argila, infundindo-lhe a vida de Deus). Com aquele sopro, o homem tornou-se um ser vivente; com este sopro, Jesus transmite aos discípulos a Vida nova, o Espírito Santo, que fará deles Homens Novos e que os capacitará para viverem como testemunhas de Jesus ressuscitado. É, na verdade, uma nova Criação. Da ação de Jesus, do seu testemunho, do seu amor, do seu dom nasceu a nova Humanidade, capaz de amar até ao extremo, de dar a vida, de realizar a obra de Deus. É este Espírito que, a cada instante, constitui e anima a comunidade de Jesus. E é esta a comunidade da Nova Aliança, nascida da ação e do amor de Jesus.

Na segunda parte (vv. 24-31, o evangelista apresenta uma catequese sobre a modo de os discípulos de qualquer época chegarem à fé em Cristo ressuscitado. O historial de Tomé, o Dídimo (gémeo), pode ser o nosso. Também nós nem sempre nos contentamos com o testemunho dos primeiros discípulos: gostaríamos de ver, de tocar, de ter provas.

Jesus ressuscitado apresenta-Se aos discípulos “no primeiro dia da semana”, quando a comunidade está reunida. A comunidade é o lugar natural onde se manifesta e irradia o amor de Jesus, onde desponta a Vida nova. Por isso, é lá que se faz a experiência da presença de Jesus vivo. Mas Tomé “não estava com eles”. Estava fora da comunidade. E desafia: “Se eu não vir o sinal dos cravos nas suas mãos e não meter o meu dedo nesse sinal e a minha mão no seu lado, não acredito” – diz Tomé quando lhe disseram que viram o Senhor. Em vez de se integrar e de participar da experiência que os outros discípulos fizeram em comunidade, quer obter para si uma demonstração particular de Deus. Tomé representa os fechados em si (está fora), que não fazem caso do testemunho da comunidade, pelo que nem percebem os sinais de Vida nova que nela se manifestam.

Porém, “oito dias depois” (também “no primeiro dia da semana”), Tomé já está integrado na comunidade; e é aí que se encontra com o ressuscitado. Esta experiência é tão impactante que, do coração rendido de Tomé, brota uma extraordinária declaração de fé, uma das mais belas de toda a Bíblia: “Meu Senhor e meu Deus!”. Também nós, os chamados a acreditar sem termos visto, nem tocado, poderemos fazer a experiência que Tomé fez: é no encontro com o amor fraterno, com o perdão dos irmãos, com a Palavra proclamada em comunidade, com o pão de Jesus partilhado, que se descobre e se experimenta Jesus ressuscitado. Por isso, a comunidade de Jesus se reúne “no primeiro dia da semana”, no “dia do Senhor” (o domingo), o dia da ressurreição, o dia da Igreja. É o primeiro dia, que se torna também o oitavo, como na música, somos chamados à celebração da Páscoa de oitava em oitava, sem parar, até que o Senhor nos mande entrar na eternidade.

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A primeira leitura (At 2,42-47) é uma fotografia retocada da primeva comunidade cristã de Jerusalém. Lucas imprime nela os traços da comunidade ideal: unida e fraterna, onde os bens são partilhados e cada um está atento às necessidades dos irmãos. É uma comunidade empenhada em escutar a Boa Notícia de Jesus, em reunir-se para a “fração do pão” e para a oração comunitária. O estilo de vida desta família é contagiante e faz com que muitos outros homens e mulheres sintam vontade de integrar a Igreja de Jesus.

Depois de ter apresentado, na primeira parte (o “Evangelho de Jesus Cristo segundo Lucas”), o tempo de Jesus, Lucas completa a sua obra, apresentando o tempo da Igreja, em que a proposta de salvação de Deus é levada ao encontro do Mundo pela comunidade de Jesus (a Igreja), animada e guiada pelo Espírito Santo. Esta comunidade ideal, que nasce do Espírito e do testemunho dos apóstolos é a comunidade que consolida a sua experiência de vida em quatro pilares fundamentais: o ensino dos apóstolos, a comunhão fraterna, a fração do pão e a oração. Os apóstolos foram testemunhas oculares da salvação que Jesus apresentou, enquanto andava pelos caminhos da Galileia e da Judeia. Na pregação dessas testemunhas privilegiadas das palavras e dos gestos de Jesus ecoa, agora, a verdade do Reino de Deus.

A comunidade reúne-se à volta dos apóstolos, porque quer chegar a Jesus e à Boa Notícia que Ele trouxe. Pelo testemunho dos apóstolos quer conhecer a pessoa de Jesus, o seu plano, os seus valores, o seu estilo de vida, o seu amor até ao extremo, a sua entrega ao Pai e aos homens. A catequese recebida dos apóstolos aproxima de Jesus a comunidade e mostra-lhe como deve viver para se identificar com Jesus. Construindo a sua fé sobre o testemunho dos apóstolos, os cristãos estão livres da mentira, das doutrinas falsas e dos falsos profetas.

A comunidade de Jerusalém é também a comunidade que vive em comunhão fraterna. Os seus membros veem-se como irmãos e irmãs; são família em Cristo. Identificam-se com Cristo e são membros do Corpo de Cristo. Essa fraternidade não é algo abstrato, que se fica na teoria e ou na doutrina; mas é a fraternidade que se sente, se vê e se expressa na realidade da vida, nos gestos de todos os dias. Significava a renúncia à vida de egoísmo, de autossuficiência e de fechamento em si próprio. Implicava terem tudo em comum, partilharem os bens com os irmãos, cuidarem dos mais pobres e frágeis. É a comunidade que assume o verdadeiro compromisso com o amor, com a partilha, com o dom da vida. A caridade é a sua marca distintiva.

A comunidade cristã era assídua à “fração do pão”. Inicialmente, a expressão designava o gesto do chefe de família que, no início da refeição, partia o pão e o distribuía pelos convivas. Porém, na linguagem cristã, torna-se a expressão técnica designativa do memorial da ceia do Senhor, a eucaristia. Era a celebração que resumia toda a vida do Senhor Jesus, feita doação da vida e entrega até à morte. Acompanhada duma refeição fraterna, comportava orações, pregação e gestos de comunhão e de partilha entre os cristãos. Era momento de alegria, em que a comunidade celebrava a união a Jesus e a comunhão fraterna. Os crentes saíam da fração do pão mais identificados a Jesus e sentindo, fortemente, os laços que os uniam aos irmãos com quem tinham partilhado o mesmo pão, o pão dado por Jesus aos seus.

Temos, ainda, as orações. Os primeiros cristãos continuaram a frequentar o Templo (“todos os dias frequentavam o Templo”) e a participar da oração da comunidade judaica. Porém, bastante cedo, a comunidade cristã terá começado a sentir a necessidade de se encontrar para a oração tipicamente cristã, centrada na pessoa de Jesus; e é a esta oração comunitária cristã que Lucas se refere. A comunidade de Jesus é, pois, a comunidade que se junta para rezar, para louvar o seu Senhor; e a oração comum constitui um momento de comunhão, de aprofundamento dos laços que unem os membros da comunidade.

Lucas vinca o testemunho da comunidade cristã aos outros habitantes de Jerusalém. Os gestos realizados pelos apóstolos enchiam toda a gente de temor, isto é, infundiam em todos os que os testemunhavam a certeza da presença de Deus e dos seus dinamismos de salvação. Além disso, a piedade, o amor fraterno, a alegria e a simplicidade dos crentes concitavam a admiração e a simpatia de todo o povo; desafiavam os habitantes de Jerusalém; e faziam que aumentasse, todos os dias, o número dos que aderiam a Jesus e à comunidade da salvação.

A comunidade cristã de Jerusalém não seria, de facto, a comunidade ideal. Outros textos dos Atos falam-nos de tensões e de problemas – como em qualquer comunidade humana. Porém, a descrição lucana aponta para a meta a que a comunidade cristã deve aspirar, confiada na força do Espírito. Trata-se, pois, de uma descrição da comunidade ideal, que pretende servir de modelo à Igreja e às igrejas de todas as épocas.

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Na segunda leitura (1Pe 1,3-9) um catequista dos finais do século I lembra aos batizados em Cristo a condição de homens novos, felizes beneficiários da misericórdia de Deus. Cristo, o vencedor da morte, salvou-os e abriu-lhes as portas da vida definitiva. Certos da vida nova que os espera, os cristãos devem encarar a sua caminhada pela Terra com uma “esperança viva”, com uma “alegria inefável e gloriosa”, com um otimismo contagiante.

O trecho em referência apresenta-se na forma de hino de ação de graças, ao estilo das bênçãos judaicas. Nele, o autor louva a Deus pela sua obra salvadora em favor dos homens. É um “credo abreviado” do povo de Deus.

Foi Deus que tomou a iniciativa de dar ao homem a salvação. Fê-lo por meio de Jesus Cristo, o Filho que enviou ao encontro dos homens. A vitória de Jesus sobre a morte ocupa lugar central na História da Salvação que Deus quis escrever para nós. Os que aderem a Cristo e se identificam com Ele – isto é, os batizados – participam da ressurreição e renascem para uma vida nova. A vida que os anima é a vida do Ressuscitado. Abre-se para eles um novo horizonte, que a fragilidade e a morte não conseguirão manchar. A vida dos batizados é marcada “por uma esperança viva, por uma herança que não se corrompe, nem se mancha, nem desaparece”. Os que se identificam com Cristo e participam da sua ressurreição destinam-se à vida eterna, à “salvação que se vai revelar nos últimos tempos”. Cônscios de que estão destinados à salvação, caminham na alegria e na esperança: sabem que, aconteça o que acontecer, lhes está reservado o encontro com a vida plena. No seu horizonte de vida não há lugar ao pessimismo, nem ao desânimo.

Porém, a vida dos batizados não imune a obstáculos nem a crises. O caminho que os homens percorrem na Terra será sempre marcado por numerosas aflições e provações; e os que optaram por Jesus não estão isentos dessa experiência. No entanto, os sofrimentos e as perseguições são a prova em que a fé dos crentes é purificada, decantada de interesses mesquinhos, fortalecida; e, nesse processo, o crente vai sendo transformado pela ação do Espírito, até se identificar com Cristo e chegar à vida nova. O autor da carta lembra-nos que o próprio ouro tem de ser purificado pelo fogo, antes de aparecer em todo o seu esplendor. De qualquer modo, o percurso existencial dos crentes – cumprido, simultaneamente, na alegria e na dor – é sempre uma caminhada animada pela esperança da salvação.

O grande apelo que a primeira carta de Pedro nos deixa é que nos identifiquemos com Cristo, que amamos, sem O termos visto; que acreditemos n’Ele e que O sigamos incondicionalmente, mesmo que as suas indicações nos levem à cruz. Do lado de lá da cruz espera-nos a vida nova. Assim chegaremos à salvação e daremos sentido pleno à nossa vida.

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Por toda a misericórdia com que o Senhor olha para nós, é justo cantar com o salmista:  

“Dai graças ao Senhor, porque Ele é bom, / porque é eterna a sua misericórdia.”

“Diga a casa de Israel: / é eterna a sua misericórdia. / Diga a casa de Aarão: / é eterna a sua misericórdia. / Digam os que temem o Senhor: / é eterna a sua misericórdia.

“Empurraram me para cair, / mas o Senhor me amparou. / O Senhor é a minha fortaleza e a minha glória, / foi Ele o meu Salvador. / Gritos de júbilo e de vitória nas tendas dos justos: / a mão do Senhor fez prodígios.

“A pedra que os construtores rejeitaram / tornou se pedra angular. / Tudo isto veio do Senhor: / é admirável aos nossos olhos. / Este é o dia que o Senhor fez: / exultemos e cantemos de alegria.

“Senhor, salvai os vossos sevos, / Senhor, dai-nos a vitória. / Bendito O que vem em nome do Senhor / Da casa do Senhor nós vos bendizemos. / O Senhor é Deus / e fez brilhar sobre nós a sua luz.”

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“Aleluia. Aleluia. Disse o Senhor a Tomé: ‘Porque Me viste, acreditaste; felizes os que acreditam sem terem visto’.”

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No cristianismo, o “oitavo dia” simboliza a ressurreição de Jesus, um novo começo e a eternidade, superando a criação de sete dias. É o domingo, considerado o “Dia do Senhor” e o início da nova criação. Liturgicamente, refere-se também às “oitavas” (Natal/Páscoa), celebrando uma solenidade, com especial brilho, durante oito dias consecutivos. 

Após o sétimo dia (sábado de repouso), o domingo é o dia em que Cristo ressuscitou, marcando o início de um tempo novo e eterno. Embora seja o primeiro dia da semana, teologicamente é o oitavo, fora da contagem cronológica normal, simbolizando o século futuro e a eternidade.

O cristianismo primitivo associava o oitavo dia à circuncisão (antiga aliança) e, por extensão, ao batismo (nova e definitiva aliança), simbolizando a entrada numa nova vida e a purificação. Este conceito representa, portanto, a transição da Lei para o Evangelho e a esperança na vida eterna. 

Muitos batistérios antigos têm forma octogonal (oito lados) para refletir o simbolismo do oitavo dia como o dia do novo nascimento pelo batismo.

2026.04.12 – Louro de Carvalho