terça-feira, 13 de outubro de 2026

Em 2026, crescimento global de 3,1% e de 1,1%, na Zona Euro

 

O Fundo Monetário Internacional (FMI) aumentou, a 13 de outubro, a previsão de crescimento mundial, em 2026, para 3,1%, com base na resiliência das economias avançadas e com o aumento do investimento em inteligência artificial (IA). Porém, avisa que a energia cara, devido a conflitos, nomeadamente, entre a Rússia e a Ucrânia, os Estados Unidos da América (EUA) e o Irão, Israel e o Líbano, travará o crescimento, com a Zona Euro a crescer 1,1%.

Apesar da resiliência das economias avançadas e do investimento em IA, o crescimento deverá abrandar, face aos 3,5%, previstos para 2025, enquanto os preços elevados da energia, associados à guerra entre os EUA e o Irão, representam riscos significativos, sobretudo, para os países de baixo rendimento excluídos do boom de investimento impulsionado pela IA. E, Na Zona Euro, o crescimento deverá abrandar para 1,1%, neste ano, antes da ligeira aceleração, em 2027, devido a custos de energia elevados e à fraca confiança dos consumidores.

A projeção para 2026, no mais recente relatório – World Economic Outlook (WEO) – do FMI, apresenta ligeira revisão em alta de 0,2%, face ao relatório de julho, e sucede ao crescimento de 1,2%, em 2025. E, embora o crescimento do produto interno bruto (PIB) da Zona Euro tenha recuperado para 2,6%, no segundo trimestre, depois de crescimento nulo, nos primeiros três meses, o Fundo espera que os riscos de inflação persistam no próximo ano.

O conflito no Médio Oriente e a guerra da Rússia contra a Ucrânia fizeram disparar os custos do petróleo e do gás natural, em todo o Mundo, uma ameaça relevante para a Zona Euro e para outras economias que importam a maioria das suas necessidades energéticas. Assim, o FMI assinalou que “as reservas de gás continuam abaixo dos níveis sazonais, em várias partes da Europa, deixando as condições do mercado de gás vulneráveis a condições meteorológicas adversas, antes da época de ‘aquecimento’ de inverno”.

Prevê-se uma inflação de 3,1%, neste ano, e de 2,8%, no próximo, acima da meta de 2% do Banco Central Europeu (BCE), o que pode exigir taxas de juro do BCE que travem a despesa das famílias e o investimento, com o PIB da Zona Euro a subir apenas para 1,2%, em 2027. “A inflação subjacente deverá regressar aos 2% apenas, de forma gradual”, indicou o FMI, na Zona Euro, por volta de meados de 2028, e, no Reino Unido, até ao final de 2027.

Na Alemanha, a maior economia europeia, o crescimento deve atingir 1,3%, neste ano, enquanto o PIB da Espanha continuará robusto, com a expansão de 2,5%. Já a economia francesa deve crescer 0,4%, neste ano, muito abaixo dos 0,9% de 2025, com o desemprego a subir para 8,4%, face aos 7,7% de 2025. E, para o Reino Unido, o FMI elevou a previsão de crescimento, neste ano, para 1,3%, mais 0,3% do que em julho. Porém, o crescimento britânico deverá abrandar para 1,2%, em 2027, “à medida que os preços mais elevados da energia e as taxas de juro de longo prazo penalizam o consumo e o investimento”.

A guerra dos EUA contra o Irão mergulhou o Médio Oriente na violência e fez subir os preços da energia, a nível mundial, em resultado das ações de retaliação de Teerão. Assim, os preços dos produtos petrolíferos refinados continuam entre 70% e 95%, acima dos níveis anteriores à guerra, pressionando os países que dependem de importações de energia para a sua atividade económica. E, tendo a guerra entrado no 8.º mês, Silvana Tenreyro, conselheira económica e diretora do Departamento de Estudos do FMI, advertiu que “um conflito prolongado no Médio Oriente pode fazer pressão adicional na inflação e abrandar o crescimento”.

Os países importadores de energia que não beneficiam do boom da IA são os mais vulneráveis, criando o que o FMI descreveu, no WEO, como um “cenário dividido”, o qual sustenta que as duas forças económicas da guerra no Irão e do boom da tecnologia de IA criaram uma economia mundial fragmentada. “Ventos contrários decorrentes de uma guerra prolongada e de tensões geopolíticas persistentes podem reavivar pressões inflacionistas, agravar as posições orçamental e externa e atingir, com maior dureza, os países importadores de energia e de baixo rendimento […]. Ao mesmo tempo, o atual impulso tecnológico pode cessar abruptamente, se forem revistas as expectativas sobre lucros e ganhos de produtividade associados à IA, enfraquecendo o investimento e apertando as condições financeiras”, lê-se no documento.

Prevê-se que as economias avançadas do Mundo cresçam 2,1%, em 2026, com os países integrados na cadeia de fornecimento de IA, como Taiwan e a Coreia do Sul, a registarem valores bastante superiores. Já na China, a segunda maior economia mundial, o crescimento deverá abrandar 0,5%, para 4,5%, neste ano, sobretudo, devido à fraca procura interna. E a inflação global mantém-se em trajetória de aceleração, devendo atingir 4,7%, em 2026, alimentada pela guerra no Irão e pelo boom da IA, com efeitos a propagarem-se nas economias avançadas e nas economias em desenvolvimento.

Por isso, Tenreyro alertou que é necessária “ação urgente”, por parte de todos os países, perante os riscos descendentes. No plano orçamental, pediu aos governos que recorram apenas a medidas temporárias e direcionadas para aliviar o peso dos elevados custos da energia e de outras despesas sobre a população. E disse que “a política monetária deve manter-se firmemente focada na estabilidade de preços”, sendo apropriadas subidas das taxas de juro para conter a inflação elevada. “A economia tem mostrado resiliência, mas essa resiliência está a atingir os seus limites”, afirmou, vincando que se deve passar da gestão da crise à reconstrução, restaurando margem orçamental e reforçando a resiliência do lado da oferta.

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Dias antes, o Business Cycle Clock (Relógio de Ciclos) do Eurostat, que segue a evolução da economia, apontava forte desaceleração, na Zona Euro, com os mercados de dívida a exporem pressão orçamental francesa, com a inflação persistente e com subidas de juros do BCE.

Ao longo de grande parte do ano, o tema dominante nos mercados de obrigações europeus foi a inflação. Os preços sobem, o BCE foi aumentando as taxas de juro e os investidores exigiram remunerações cada vez mais altas, para emprestarem dinheiro aos Estados. Por conseguinte, o referido Business Cycle Clock sinalizou uma forte desaceleração na Zona Euro, no final do terceiro trimestre.

Alguns países, como a Itália, podem já ter entrado em recessão, enquanto a Alemanha e a França continuam a enfrentar uma fase de abrandamento. Nestes termos, poderá falar-se em contração económica e em recessão.

Quando os investidores antecipam tempos difíceis, fazem duas coisas: deslocam o dinheiro para o devedor mais seguro que encontram, que é, na Europa, a Alemanha; e apostam que o banco central irá, em breve, cortar taxas de juro para apoiar a economia. Os dois movimentos fazem descer o custo de financiamento da Alemanha. Se uma recessão estivesse a aproximar‑se, os rendimentos das obrigações alemãs estariam a cair, mas não caem.

O juro da obrigação alemã, a 10 anos, estava, a 8 de outubro, em 3,49%, acima dos cerca de 2,85% registados no início do ano. A 28 de setembro, chegou a 3,65%, o nível mais alto, em quase 17 anos. E o juro, a dois anos, que acompanha, de perto, as expectativas dos investidores, quanto ao BCE, está em 3,07%, bem superior à taxa de depósito do BCE, de 2,50%.

Em termos simples, os investidores continuam a esperar subida das taxas, não descida. “Os Bunds [títulos da dívida soberana alemã, considerados os ativos mais seguros da Zona Euro e a grande referência de refúgio financeiro na Europa] continuam a ser o referencial natural para os investidores, quando os mercados ficam nervosos. Por isso, algum alargamento, face à Alemanha, é exatamente o que se esperaria”, afirmou Ken Egan, responsável pelo crédito soberano europeu na agência de rating KBRA, mas frisando que “não parece uma fuga total para ativos de refúgio, porque os juros dos Bunds não caíram, de forma significativa”.

Segundo o Eurostat, a guerra no Médio Oriente fez subir os preços do petróleo e do gás. A inflação da Zona Euro aumentou para 3,8%, em setembro, face aos 3,2% de agosto, e os preços da energia estavam quase 19% acima dos de há um ano. O BCE subiu as taxas duas vezes, neste ano, em junho e em setembro. E os mercados monetários preveem um aumento até dezembro.

Se o mercado de obrigações não está a incorporar uma recessão, pergunta-se onde está a pressão. E a resposta mais evidente vem da França. O juro da obrigação francesa, a 10 anos, está em 4,88%, cerca de 1,39% acima do que paga a Alemanha. No início de setembro, a diferença rondava 0,87%. Esta diferença é conhecida como spread, o prémio adicional que os investidores exigem para emprestarem a um país, em vez de à Alemanha, e funciona como o termómetro da confiança no mercado de obrigações. Ora, a França, para se financiar, agora, paga mais do que a Itália, cuja obrigação, a dez anos, rende 4,60%, e paga cerca de 0,5% mais do que Atenas, o que teria parecido impensável, durante grande parte da História do Euro.

O défice orçamental francês deverá atingir 5,4% do seu PIB, neste ano, acima do limite de 3% fixado pela UE, há seis anos consecutivos. E o governo apresentou, a 1 de outubro, um pacote de poupanças de 43 mil milhões de euros, mas é-lhe difícil obter apoio parlamentar.

A revista The Economist estima que estabilizar a dívida francesa aos custos de financiamento atuais exigiria um aperto orçamental superior a 4% do PIB, cerca de dez vezes o montante das poupanças, atualmente, em discussão entre os deputados. Não é por acaso que a França está a ser palco de ruidosas manifestações e de protestos da população, com destaque para os jovens, nomeadamente, os estudantes (que têm a solidariedade ativa da ativista sueca Greta Thunberg), o que tem levado ao encerramento das atividades escolares.  

A França é, de facto, o epicentro da tensão, mas a pressão está a disseminar‑se, com países, como Portugal e a Espanha a terem as pessoas na rua a protestar contra o aumento do custo de vida e contra falta de vontade política em os governos resolverem a crise da habitação e em travarem o excesso dos preços nos setores alimentar e energético.

Desde o início de setembro, o spread da Itália, face à Alemanha, aumentou de cerca de 0,84% para 1,12%, e o juro da obrigação italiana, a 10 anos, tocou brevemente, a 8 de outubro, 4,75%, o nível mais alto num ano. O spread da Espanha, face aos Bunds, alargou-se, para cerca de 61 pontos base, numa altura em que o país se prepara para eleições legislativas antecipadas a 29 de novembro. Para Ken Egan, este movimento “parece um misto, e é difícil separar, exatamente, que parte lhe é específica da França”. “Grande parte da subida generalizada dos juros reflete o choque energético e as expectativas de uma política monetária mais restritiva, por parte do BCE, mas a França tem, claramente, um ‘prémio’ fiscal e político adicional”, sublinhou.

Um risco real de recessão deixaria sinais claros: o juro do Schatz, a dois anos, a cair abaixo da taxa de depósito de 2,50% do BCE, os rendimentos dos Bunds em queda, ao mesmo tempo que os spreads da França, da Itália e da Espanha se alargam em conjunto, e os mercados monetários a trocarem previsões de subidas de taxas, em 2027, por cortes. Ora, para Egan, “o sinal tradicional de alerta é uma curva de rendimentos invertida” e, quando “uma recessão começa a ser incorporada nos preços, a curva tenderia, normalmente, a inclinar‑se em alta, à medida que os mercados antecipam cortes de taxas”. Ou seja, os juros de curto prazo cairiam mais rapidamente do que os de longo prazo, à medida que os investidores apostam em cortes das taxas.

Egan acrescenta que os juros dos Bunds também cairiam, os spreads da periferia e do crédito se alargariam, de forma mais abrangente, e os inquéritos aos gestores de compras passariam “claramente para território de contração”. “Neste momento, essa combinação não está realmente presente”, afirmou, salientando que a probabilidade de recessão na área do euro, num ano, de 20%, segundo a Bloomberg, “aponta ainda para um risco elevado, mas não agudo”.

O que os mercados estão a incorporar nos preços parece aproximar‑se mais de uma estagflação, com a economia a perder dinamismo, enquanto a inflação continua a subir, cenário que deixaria o BCE sem boas opções, pois continuar a subir as taxas apertaria o cerco aos governos mais endividados e a uma economia em enfraquecimento; e parar demasiado cedo arriscaria cristalizar a inflação, podendo o inverno agravar a situação, antes de ela melhorar.

As reservas europeias de gás estavam cerca de 72% cheias, no início de outubro, segundo a Gas Infrastructure Europe, o valor mais baixo para esta altura do ano, desde o início dos registos, em 2011, e 15%, aproximadamente, abaixo da média dos últimos cinco anos. Um inverno rigoroso apertaria ainda mais um mercado energético já pressionado. “Para o BCE, a dificuldade é que a inflação voltou a ficar acima da meta sem que a economia dê sinais claros de sobreaquecimento”, referiu Egan, avisando que, “se os custos energéticos continuam a repercutir‑se, enquanto os juros de mercado e os custos de financiamento já são restritivos, a vítima poderá ser cada vez mais uma procura e um crescimento mais fracos”.

Até agora, os investidores têm vendido obrigações da periferia europeia por receio da inflação. E, se começarem a comprar Bunds, por medo de recessão, e a desfazer‑se da dívida francesa, o BCE enfrentará o dilema que passou a última década a tentar evitar.

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Por cá, o governo, no Orçamento do Estado para 2027 (OE2027), apesar dos riscos para o custo de vida, prevê o crescimento de 2,1%, o excedente de 0,1% no PIB e a inflação de 2,3%, em 2027, apostando nas “contas certas” (ou “contas no verde”), enquanto algumas instituições antecipam défice – saldo negativo de 0,2%, segundo o Conselho de Finanças Públicas (CFP).

Óscar Afonso, diretor da Faculdade de Economia e Gestão da Faculdade do Porto, escreveu, no Jornal de Notícias (JN), de 9 de outubro, que o OE se concentra nas “medidas imediatas”: quanto desce ou aumenta um imposto, quem recebe apoio ou quem fica de fora. É a preocupação com o saldo, e não com o rendimento das famílias.

“Contas certas” são importantes, mas não à custa da perda de valências cruciais: diminuição da despesa corrente, investimento e reforço da produtividade. Por isso, o académico – para quem “o saldo diz se as contas fecham”, mas não diz “se estão bem compostas” – opina que às “contas certas” se deve aliar a dimensão das “contas bem compostas”, isto é, não sacrificar o investimento (público que induz o privado), não degradar o capital público, nem estrangular a produtividade. Ao invés, para “investir mais, reduzir impostos e continuar a baixar a dívida”, diz Óscar Afonso, há que “libertar recursos dentro do Estado”, o que requer “melhor organização, digitalização, compras públicas eficientes, avaliação de políticas e eliminação de redundâncias”, enfim, “transformar melhor os recursos em serviços públicos, investimento e crescimento”, de modo a esbater, o mais possível, as desigualdades e cuidar dos cidadãos.  

A propósito, termino, lembrando que, sendo líder de grupo municipal oposicionista, numa assembleia municipal, questionei um vereador dessa formação partidária oposicionista pelo facto de ter votado a favor das contas, o qual me respondeu: “Estavam bem feitas!” “Era o que faltava. Os funcionários sabem aritmética!” – retorqui – "Mas verificou se cumpriam as opções definidas para o município?”

2026.10.13 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Estratégia para tornar inútil qualquer ataque à NATO será eficaz?

 

No Fórum de Segurança de Varsóvia, na Polónia 12 de outubro de 2026, Alexus Grynkewich, comandante supremo aliado da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) na Europa (SACEUR), advertiu a Rússia, de forma contundente, que as forças da Aliança Atlântica destruiriam “tudo e qualquer coisa” envolvida em qualquer ataque, caso Moscovo fosse “tolo o suficiente” para lançar um ataque em território aliado.

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O SACEUR (Supreme Allied Commander Europe ou Comandante Supremo Aliado na Europa) é o principal comandante militar do Comando da Operações Aliadas (ACO) da NATO e chefe do Quartel-General Supremo das Potências Aliadas na Europa (SHAPE), quartel que está localizado em Casteau, perto de Mons, na Bélgica.

É o segundo cargo militar mais alto da NATO, logo abaixo do presidente do Comité Militar da NATO. Tem sido ocupado, sempre, por um oficial general (ou um almirante) de quatro estrelas dos Estados Unidos da América (EUA), desde a sua criação, em 1950, tendo sido o primeiro titular o general Dwight D. Eisenhower. E esse oficial general acumula o cargo de comandante do Comando Europeu dos Estados Unidos (USEUCOM).

Desde 4 de julho de 2025, o SACEUR é Alexus Grynkewich; e o adjunto (DSACEUR) é, desde março deste ano, o marechal do Ar Sir Johnny Stringer, do Reino Unido.

Trata-se de um comando operacional ao qual incumbe o comando geral das operações militares da NATO, a condução do planeamento militar, a identificação as forças necessárias junto dos países membros e o reporte ao Comité Militar da NATO para as atividades do dia a dia.

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Alexus Grynkewich apresentou, no fórum, a nova estratégia de defesa destinada a garantir que qualquer ataque a um membro da Aliança se revele “totalmente inútil”, numa altura em que os países no flanco oriental da NATO enfrentam sabotagens, incêndios e incursões de drones. Por conseguinte, a nova estratégia procura negar aos adversários qualquer base de operações e desmantelar as suas capacidades de combate, uma vez que a NATO está pronta para bloquear, para conter e para derrotar qualquer ataque externo.

Falando no Fórum de Segurança de Varsóvia, Grynkewich afirmou que a estratégia, conhecida como ‘Teoria da Guerra’, foi concebida para negar aos adversários a capacidade de penetrarem em território da NATO e de sustentarem um ataque. “Se formos atacados, estamos prontos para combater já esta noite”, disse o SACEUR, com fortes aplausos, acrescentando. “Continuaremos a preparar-nos e a treinar, todos os dias, para estarmos mais preparados amanhã e ainda mais preparados depois de amanhã.”

Grynkewich explicou que a estratégia visa tanto tranquilizar os mil milhões de pessoas que vivem sob o guarda-chuva de segurança da NATO como deixar claro a adversários, como a Rússia, que a Aliança está disposta a responder a uma invasão. “As formações inimigas ficarão privadas de reforços. Os comandantes inimigos ficarão incapazes de controlar as suas forças. As forças inimigas e as capacidades de apoio serão reduzidas e destruídas. […] Em suma, vamos garantir que qualquer ataque, contra qualquer aliado, se revele totalmente inútil”, prometeu.

Aprovado pelos 32 membros da NATO, o plano estratégico de Grynkewich combina capacidades militares convencionais, incluindo forças terrestres e meios materiais, com tecnologias avançadas como drones, sistemas antidrone e inteligência artificial (IA).

A estratégia tira, igualmente, partido das lições dos conflitos modernos, em particular dos combates em terra e no ar sobre a Ucrânia. “Estamos a aprender imenso com os parceiros ucranianos”, disse Grynkewich ao fórum.

A estratégia assenta em três princípios, que se concretizam em três fases com a mesma designação – “bloquear”, “travar” e “destruir” – que o SACEUR descreveu como simples, mas centrais na abordagem da NATO. “Vamos bloquear o ataque inicial. Se o ataque persistir, vamos travá-lo e impedir qualquer avanço inimigo. E, se necessário, vamos destruir as forças do inimigo e o sistema operacional de guerra mobilizado contra nós”, explicou.

O bloqueio pretende impedir um avanço inicial das forças inimigas. Nestes termos, a primeira fase centra-se em impedir que forças hostis conquistem território aliado, com as forças terrestres da NATO a envolver as formações em avanço, contendo os seus movimentos e destruindo as forças que tentem penetrar em território da Aliança. “Vamos fixar as formações inimigas e impedir a tomada de território da Aliança. […] As forças baseadas em terra atacarão o inimigo e destruirão as suas forças em avanço”, explicitou Grynkewich.

Se o ataque inicial continuar, a NATO, em segunda fase, a do travar, recorrerá a um leque mais vasto de capacidades para perturbar e sobrecarregar as forças em avanço. Entre essas capacidades, contam-se sensores avançados e sistemas autónomos, capazes de identificar e de avaliar ameaças com pouca ou nenhuma intervenção direta humana.

Nesse sentido, segundo Grynkewich, a estratégia combinará capacidades em vários domínios operacionais, para impedir que as forças inimigas façam novos avanços.

A fase final, a do destruir, terá como alvo não só as tropas inimigas, mas também os sistemas que lhes permitem operar, incluindo estruturas de comando, redes de abastecimento e outra infraestrutura logística, recorrendo a capacidades como ataques de precisão de longo alcance e redes de sensores, para neutralizar toda a capacidade de combate do inimigo.

O objetivo, no dizer do SACEUR, é perturbar o conjunto das operações militares do adversário e deixar as suas forças incapazes de sustentar um ataque. “A abordagem tira também lições da guerra moderna na Ucrânia e no Médio Oriente”, esclareceu Grynkewich.

O comandante supremo aliado da Organização do Tratado do Atlântico Norte na Europa sublinhou que a estratégia da NATO é defensiva, ou seja, visa proteger o território aliado e não perseguir ambições territoriais. “Não temos planos, nem intenções, nem ambições, além da proteção das nossas populações e da defesa do nosso território”, disse.

Depois, referiu que a probabilidade de um ataque iminente contra a Aliança é baixa, mas advertiu que a NATO responderá, convenientemente, se um adversário decidir atacar. “Se alguém for suficientemente imprudente para nos atacar, vamos combater”, assegurou.

As declarações do SACEUR surgem em maré de crescentes preocupações de segurança entre os membros da NATO, sobretudo, no flanco oriental, onde as autoridades relatam incidentes que envolvem sabotagens, incêndios e incursões de drones, alguns com explosivos de uso militar. Além disso, é sabido que a Rússia controla o maior arsenal nuclear do Mundo, com cerca de 4400 ogivas armazenadas, incluindo 1796 estrategicamente posicionadas. E alteração da sua doutrina nuclear é a maior ameaça à NATO.

Grynkewich afirmou que o contexto de segurança cada vez mais exigente reforça a necessidade de a NATO demonstrar a sua prontidão para defender o território aliado. E questionado sobre se a estratégia continua viável numa altura em que alguns estados-membros manifestam dúvidas, quanto ao compromisso dos EUA para com a NATO, remeteu para a promessa de defesa coletiva da Aliança e lembrou que Washington acordou, na cimeira da NATO, em julho, uma declaração que reafirma o seu “compromisso inabalável com o Artigo 5.º”.

O Artigo 5.º é a pedra angular do princípio de defesa coletiva da NATO, segundo o qual um ataque armado contra um membro é considerado um ataque contra todos.

***Parte inferior do formulário

Os governos europeus vêm acusando Moscovo de intensificar uma campanha de sabotagem, incursões com drones e ataques cibernéticos contra eles; o próprio Reino Unido acusou recentemente, a Rússia de ter interferido no referendo de que resultou o Brexit, ou a saída do Reino Unido da União Europeia (UE); e a Rússia avisou, em setembro, que usaria armas nucleares, se a NATO tentasse isolar o seu enclave de Kaliningrado.

No seu discurso no Fórum de Segurança de Varsóvia, Grynkewich não mencionou a Rússia nominalmente, mas a sua mensagem era direcionada a Moscovo; e o Conceito Estratégico da NATO para 2022 elege a Rússia como a ameaça mais significativa à segurança da aliança. E, na sequência da perceção dessa ameaça, o SACEUR, prometeu luta defensiva: “Iremos deter o ataque e impedir que alcancem os seus objetivos, quaisquer que sejam. Em suma, garantiremos que qualquer ataque, contra qualquer aliado, se mostre completamente inútil.”

Grynkewich advertiu o Kremlin, sem o nomear, de que, se necessário, isso envolveria uma retaliação maciça, atingindo muito além das forças na área sob ataque. “Caso o adversário opte por prosseguir com o ataque ou por mobilizar suas reservas, romperemos o sistema de guerra empregado contra nós”, assegurou, explicitando que “isso inclui não apenas a força atacante em si, mas tudo aquilo que apoia, sustenta e controla essa força”.

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No entanto, a NATO vem mostrando bastantes fragilidades, desde logo, a posição de subserviência do secretário-geral, Mark Rutte, às arremetidas do presidente dos EUA ou de suas declarações que oscilam entre o reforço do valor da Aliança Atlântica e a alegação de que o modelo de funcionamento da aliança de 32 países “não é sustentável” (disse-o, a 1 de outubro, em entrevista à Euronews). E, embora sustente que os EUA manterão o envolvimento na Europa, no domínio nuclear e no convencional, defendeu que o problema não é o compromisso norte-americano, mas a falta de sustentabilidade da NATO, pois, em sua opinião, não é sustentável que um país “assuma uma responsabilidade excessiva pela defesa de 600 milhões de europeus”.

Nem é verdade que a defesa da Europa tenha sido garantida apenas pelos EUA, nem é verdade que a Europa não tenha procurado robustecer a sua defesa. Não obstante, a fragilidade da NATO está patente em episódios como o de 5 de outubro, em que o subsecretário da Defesa dos EUA, Elbridge Colby, reuniu, em Varsóvia, representantes de cinco aliados-chave da NATO para debater as capacidades militares e o futuro da Aliança, excluindo os outros aliados, o que pode gerar, segundo os críticos, uma divisão “tóxica”.

Conhecido como Grupo de Bergen, após a reunião inaugural, na Noruega, em 2025, o formato reúne a Suécia, a Finlândia, a Polónia, a Alemanha e os Países Baixos. Assim, o Reino Unido, a França e os países bálticos não foram convidados. “Em última análise, isto é muito tóxico, para uma aliança que assenta na atuação coletiva”, disse Fabrice Pothier, diretor executivo da consultora geopolítica Rasmussen Global, relevando que isto mostra que os EUA têm favoritos.

O grupo foi criado para discutir o futuro da NATO, numa fase em que a Aliança evolui para a NATO 3.0: modelo concebido nos EUA, no momento em que a Europa assume a liderança da defesa convencional do continente, a par da redução do papel tradicional norte‑americano, com a retirada de capacidades‑chave, como bombardeiros, submarinos e pessoal atualmente colocado ao serviço da Aliança.

Porém, um responsável da NATO, minimizando a importância deste subgrupo separado, liderado por Washington, diz que “não é invulgar que grupos de aliados se encontrem em formatos mais pequenos”. Trata-se de conversações rotineiras. Contudo, outras vozes defendem que o esquema separa os membros em categorias de “bons europeus” e “maus europeus”, ao mesmo tempo que reforça a influência de Washington em toda a Aliança.

Pothier reconhece que grupos mais pequenos podem fazer avançar novas ideias nas organizações, por exemplo, através da divulgação de ‘non‑papers’, e que os países convocados “oferecem uma massa crítica desejada – terrestre, aérea e marítima”, mas considera que Washington escolheu os países de Bergen por cumprirem critérios de defesa importantes.

E o também antigo diretor de planeamento político, Fabrice Pothier, diz que a divisão de partes da Aliança em subgrupos alimenta o receio de os EUA estarem dispostos a defender mais alguns aliados do que outros. “Introduz‑se a ideia de que os Estados Unidos favorecem certos aliados e tenderiam a defender esses aliados antes dos restantes”, afirmou, evocando o “ressentimento” do presidente norte‑americano, Donald Trump, face à recusa inicial do Reino Unido e da França em participarem na guerra com o Irão, juntamente com a aposta francesa na aquisição de equipamento militar europeu.

Porém, os diplomatas britânicos rejeitam a ideia de que o Reino Unido esteja a ser afastado, vincando que mantêm contactos regulares com os seus homólogos norte‑americanos.

No caso, é particularmente significativa a ausência dos Estados bálticos, os que mais investem em defesa, em proporção do produto interno bruto (PIB) e os que se situam na linha da frente da Aliança, face à Rússia. Além disso, a região tem sido alvo de repetidos ataques híbridos, incluindo incursões de drones, incêndios e atos de sabotagem, como já foi referido.

A exclusão surge na sequência da visita de Colby à sede da NATO, em Bruxelas, em agosto, quando, segundo fontes da organização, instou os responsáveis bálticos a adotarem um tom menos confrontacional, ante a agressão russa. E uma fonte referiu que Elbridge Colby invocou os renovados esforços norte‑americanos para pôr fim à guerra na Ucrânia, como motivo para moderar a retórica de que se está “em guerra” com a Rússia.

Washington convidou, igualmente, o presidente russo, Vladimir Putin, para a cimeira do G20 em Miami, em dezembro, num complexo de golfe que é propriedade de Trump. “É provavelmente a primeira vez, desde o alargamento da NATO, que se regista uma clivagem entre os Estados Unidos e os Bálticos”, disse Pothier, acrescentando: “Sabemos que esta administração norte‑americana se mostra muito menos incomodada com a agressão russa.”

A situação nos Bálticos continua tensa, devido às constantes incursões, com drones e com outras formas de guerra encoberta, o que leva governos, forças armadas e populações civis a manterem‑se em permanente estado de alerta. Por exemplo, a 3 de outubro, o aeroporto de Vilnius, a capital da Lituânia, foi obrigado a encerrar durante cerca de uma hora, levando ao descolar de dois caças da NATO em resposta à suspeita de intrusão de drones, a partir da Bielorrússia. E, face a esta situação, o governo lituano convidou Colby a visitar a região, para observar, de perto, as violações em curso do espaço aéreo. “Dizemos o que vemos”, disse um diplomata báltico à Euronews, ao defender a postura militar avançada da região, frisando que Moscovo precisa de perceber que o custo da sua guerra encoberta tem de ser “duro”.

E o comissário europeu da Defesa, Andrius Kubilius, antigo primeiro‑ministro lituano, apelou, igualmente, a resposta mais firme, na Cimeira da Euronews sobre Defesa e Espaço realizada a 30 de setembro, em Bruxelas. “Se formos atingidos por ataques híbridos russos, as nossas respostas devem ser tão dolorosas quanto esse ataque”, afirmou Kubilius.

Entretanto, uma fonte sediada em Washington disse que a reunião exclusiva de Varsóvia parece ser “manobra de provocação” por parte dos EUA, contribuindo para dividir a NATO.

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Enfim, a NATO precisa de estar unida e coesa. E, se julga que é benéfico o estudo em subgrupos, que o defina, a contento de todos, e não de forma sub-reptícia.

2026.10.12 – Louro de Carvalho


domingo, 11 de outubro de 2026

“O banquete está preparado; vinde sentar-vos comigo à mesa”

 

A Liturgia da Palavra do 28.º domingo do Tempo Comum, no Ano A, através da imagem do “banquete”, a cujo dinamismo se assemelha o Reino dos Céus, ou Reino de Deus, mostra-nos nos o desígnio de Deus para nós, a meta final da nossa existência, o nosso horizonte último, o “espaço” para onde Deus nos conduz. A palavra de ordem é: “O banquete está preparado; vinde sentar-vos comigo à mesa!” É o espaço do amor, da alegria, da felicidade e de vida infinda que Deus oferece a todos os seus filhos.

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O texto da primeira leitura (Is 25,6-10a) anuncia a festa que Deus oferece a todos os seus filhos e filhas, sem exceção. Homens e mulheres de todas as raças formarão uma só família, reunida à mesa de Deus, na fraternidade sem sombra, nem fratura. Sobre a mesa estarão “manjares suculentos”, “comida de boa gordura”, “vinhos deliciosos e puríssimos”, vida bela e abundante. Será o início da era de paz e de felicidade, do tempo em que a Humanidade estará livre de tudo o que a fere e a faz sofrer. O poema em que Isaías canta o cenário de eternidade feliz é um dos mais belos cânticos de esperança com que a Humanidade foi brindada.

Isaías profetizou em Jerusalém, no reino de Judá, desde 740/739 a.C., no reinado de Jotam, até ao reinado de Manassés, que se iniciou em 687 a.C., tendo passado pelos reinados de Acaz e de Ezequias. Foi nesse tempo que Judá foi invadida pelos assírios e que o rei Acaz se tornou vassalo da Assíria, ficando a pagar-lhe ruinoso tributo. Um apócrifo do século I d.C. (“Ascensão de Isaías”) conta que o profeta foi assassinado por ordem de Manassés.

É difícil dizer quando terá Isaías proferido o oráculo em referência. Alguns colocam-no na fase final da sua vida (final do século VIII ou início do século VII a.C.), quando Isaías, desiludido com a política dos reis de Judá, passou a sonhar uma intervenção de Deus que restabeleceria o direito e a justiça e inauguraria a nova era de felicidade e de paz para o povo de Deus. Contudo, há quem pense que o autor não terá sido o primeiro Isaías, mas autor posterior, pois a referência à superação da morte, das lágrimas e da vergonha, sugere a composição do texto em momento posterior ao Exílio na Babilónia, quando Judá já teria reconquistado a liberdade.

Em todo o caso, o oráculo constrói-se à volta da imagem do banquete, que é, no ambiente sociocultural bíblico, o momento da partilha, da comunhão, da constituição da comunidade de mesa, do estabelecimento de laços familiares entre os convivas. E, além de acontecimento social, o banquete tem dimensão religiosa. Os “banquetes sagrados” celebram e potenciam a comunhão do crente com Deus, o estabelecimento de laços familiares entre Deus e os fiéis. Por isso, na ótica dos catequistas que redigiram as tradições da Aliança do Sinai, o compromisso entre Javé e Israel era selado com uma refeição entre Deus e os representantes do Povo.

No âmbito religioso, são altamente significativos os “sacrifícios de comunhão” (“zebâh shelamim”) do ritual litúrgico israelita. Quando o crente queria oferecer a Deus um “sacrifício de comunhão”, levava ao Templo um animal e promovia a sua imolação. Depois, separava-se a gordura do animal imolado, que era queimada sobre o altar: era a parte reservada a Deus. O resto da carne era repartida pelo oferente e pelos sacerdotes. O oferente e a família comiam, no espaço sagrado do santuário, a parte que lhes cabia. Dessa forma, “sentavam-se à mesa” com Deus, celebravam a sua pertença ao círculo familiar de Deus e renovavam com Deus os laços de paz, de harmonia e de comunhão.

O profeta anuncia um “banquete”, a realizar num futuro sem data marcada. É Deus quem o promove e prepara e destina-se a “todos os povos”. É, portanto, iniciativa de Deus, que se dispõe a estabelecer laços de família com toda a Humanidade. O cenário é “este monte”, isto é, o monte do Templo, em Jerusalém, o lugar onde está a “casa de Javé”, a residência de Deus, o lugar onde Israel presta culto a Javé e se senta à mesa de Deus para comer os sacrifícios de comunhão, que Israel celebra no templo e que prefiguram e anunciam o maravilhoso banquete universal preparado por Deus: banquete pacífico de confraternização, onde todos os povos reconhecerão a magnífica soberania de Deus e a sua providência universal, e que fará de todas as raças e culturas uma só família, reunida à volta de Deus, o soberano de todos.

Os “manjares suculentos”, a “comida de boa gordura”, os “vinhos deliciosos” e “puríssimos”, que ali serão servidos, são metáfora poético-profética da abundância de vida, da eterna alegria, da festa total, da bem-aventurança sem fim. São expressões que deviam calar fundo no imaginário da gente de Israel, habituada a comer uma vez por dia e que, raramente, incluía carne ou vinho na sua dieta. O banquete onde se comia com abundância constituía, então, uma expressiva imagem da maravilhosa vida que Deus oferecerá aos seus convidados.

Os que aceitarem o convite entrarão na era de comunhão íntima com Deus e de vida infinda. O profeta/poeta usa uma sugestiva imagem para significar a comunhão total, sem limites, entre Deus e os homens: será removido “o véu que cobria todos os povos, o pano que envolvia todas as nações” e que impedia o contacto total com o Mundo de Deus. Será o início da nova era de paz e de felicidade, do tempo em que a Humanidade estará livre de tudo o que a limita, a fere, a faz sofrer (“o Senhor Deus enxugará as lágrimas de todas as faces e fará desaparecer da Terra inteira o opróbrio que pesa sobre o seu povo”).

O oráculo termina em cântico de ação de graças que evoca a fórmula da aclamação de um novo rei (“eis o nosso Deus, de quem esperávamos a salvação; é o Senhor, em quem pusemos a nossa confiança. Alegremo-nos e rejubilemos, porque nos salvou”. A catequese de Israel entenderá que esse rei é o Messias, que vem iniciar o reinado de Deus sobre toda a Terra. A partir daqui, a ideia do “banquete messiânico” tornou-se corrente no judaísmo. Jesus retomará a metáfora e falará do “banquete do Reino dos Céus”. Ao fazê-lo, refere-se à nova era de salvação, de comunhão plena com Deus, de alegria eterna, que Ele próprio veio inaugurar.

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No Evangelho (Mt 22,1-14), Jesus compara o reino de Deus à festa que um rei preparou para celebrar as núpcias do filho. Houve convidados que se recusaram a comparecer, mas a festa não foi cancelada: o rei abriu as portas da sala do banquete a todo o tipo de pessoas, a gente improvável, encontrada nas “encruzilhadas dos caminhos”, que teve o ensejo de se sentar à mesa do rei e de participar na inolvidável festa. No banquete do reino de Deus, há lugar para todos os dispostos a acolher o convite de Deus, mesmo à última hora.

Nos dias que antecedem a Páscoa, Jesus chega da Galileia, acompanhado dos discípulos. Alojado em Betânia (atual “al-Azariye”, povoação situada na encosta oriental do Monte das Oliveiras, a cerca de três quilómetros de Jerusalém), Jesus, em todas as manhãs, desce o Monte das Oliveiras e entra em Jerusalém pela Porta Dourada, situada a oriente. Dirige-se ao templo, onde fala do reino de Deus a todos os que se detêm a ouvi-Lo. Os dirigentes religiosos judaicos andam por lá a vigiá-Lo: confrontam-No, criticam-No e acusam-No. Instalados nas suas certezas, decidiram que a proposta de Jesus não vem de Deus, pelo que a rejeitam em absoluto.

A crítica do trecho em apreço mostra que Mateus juntou duas parábolas: a dos convidados para o banquete (comum a Mateus e a Lucas, embora as duas versões apresentem consideráveis diferenças), e a do convidado que se apresentou sem o traje adequado, que é exclusiva de Mateus. Ambas nos situam no cenário de um banquete.

Como dissemos, o banquete era, na cultura semita, o lugar do encontro, da comunhão, do estreitamento de laços familiares entre os convivas. À volta da mesa constituía-se a “comunidade de mesa” que ligava os convivas. O banquete era também espaço de afirmação e de reforço de uma identidade social: a participação no banquete confirmava a pertença da pessoa a um grupo social e dava-lhe o ensejo de estreitar laços e de cimentar relações. Ser convidado para uma refeição e sentar-se à mesa com um grupo confirmava o estatuto da pessoa, o seu lugar na escala social. A disposição à mesa, a ordem em que eram servidos, os lugares que ocupavam, tudo isso refletia a importância dos convidados na estrutura comunitária. E a rejeição de convite para um banquete era insulto à pessoa que convidava, por significar recusa a integrar o grupo social a que o anfitrião pertencia.

Em determinadas ocasiões, por exemplo, quando se celebrava um banquete de núpcias de um filho, a seleção dos convidados era muito cuidada. Convidavam-se pessoas importantes, pois a sua presença salientava, à comunidade, o estatuto e a honra da família, mas evitava-se a presença de gente desclassificada, por diminuir o estatuto do anfitrião e da família.

A primeira das parábolas em causa compara o reino dos céus a uma festa de núpcias. Jesus sabia o que a festa de casamento significava para as gentes da Galileia e da Judeia. Ele participou em algumas. Numa até mudou a água em vinho. Eram momentos inolvidáveis, nos quais se esquecia a dureza do trabalho e, em boa companhia, se cantava e dançava à volta da mesa abundante. Assim, Jesus recorre a esta imagem, para comunicar a sua experiência de um Deus bom, empenhado dar a todos os seus filhos vida plenamente ditosa.

Jesus fala de um rei que quis preparar uma festa para celebrar as núpcias do filho. Enviou às pessoas das suas relações – pessoas escolhidas, pessoas julgava dignas – os convites para a festa. Porém, quando os servos foram chamar os convidados, elas não quiseram comparecer. Umas recusaram o convite de forma cônscia e absoluta (“não quiseram vir”); outras mostraram-se indiferentes à festa e preferiram ir tratar de assuntos pessoais (“sem fazerem caso, um foi para o seu campo e outro para o seu negócio”); outras assumiram uma atitude de desafio, respondendo com violência (“apoderaram-se dos servos, trataram-nos mal e mataram-nos”). A recusa dos convidados parecia condenar a festa a um monumental fracasso.

O primeiro gesto do rei foi enviar as suas tropas para castigar os homicidas. Será uma alusão à destruição de Jerusalém pelos exércitos romanos de Tito, no ano 70, vista pela comunidade cristã como um castigo à nação judaica pela rejeição do Messias? Porém, apesar da desistência e da recusa dos convidados, o rei não desistiu do projeto. Outros participariam na festa que estava preparada. Portanto, mandou os servos “às encruzilhadas dos caminhos”, para trazerem para o banquete todos os que encontrassem. E foi assim que a sala do se encheu de convidados. Era gente improvável, que nunca se sentara à mesa de uma importante personalidade, mas disponível para participar no banquete. Será com eles – e não com a gente de classe, aprovada pelas convenções sociais – que celebrará a festa das núpcias do seu filho.

É óbvio que Deus é o rei que convidou Israel para o banquete messiânico, para a festa que inaugura os tempos messiânicos (as bodas do filho). O filho do rei é Jesus, que veio ao encontro dos homens para lhes propor a nova Aliança, dando-lhes a possibilidade de viverem a nova relação com Deus. Os primeiros convidados são os sacerdotes, os escribas, os doutores da Lei, que recusaram o convite e preferiram continuar nas suas certezas. Os convidados de última hora, os trazidos das “encruzilhadas dos caminhos”, são o “povo da terra” (“’am ha-aretz”: sem instrução religiosa que, devido à sua ignorância, era negligente na observância dos mandamentos), os pecadores, os malditos, todos os que, na linha da religião oficial, estavam arredados da comunhão com Deus e da comunidade da salvação.

Jesus terá contado a parábola em resposta aos que O acusavam de se dar com todo o tipo de desclassificados e de pecadores. A acusação não era descabida. A genuína tradição evangélica diz-nos que Jesus participava em banquetes onde havia gente duvidosa, a ponto de os inimigos lhe chamarem “comilão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e de pecadores”. Jesus participava nesses banquetes, com o risco de adquirir fama tão desagradável, porque era preciso cumprir o desígnio do Pai, custasse o que custasse.

A tradição profética referia-se aos tempos messiânicos recorrendo à imagem de um banquete preparado por Deus para todos os povos. Quando o Messias chegasse, sentaria todos os homens à mesa do banquete do reino de Deus. Ora, Jesus sabia que, com Ele, o tempo do reino de Deus tinha chegado. Convicto de que o convite de Deus para o banquete do reino se destinava a todos os filhos e filhas de Deus, sentava-se à mesa com toda a gente, mesmo com os que a sociedade e a religião condenavam e marginalizavam. Na sua perspetiva, para participar no banquete do reino de Deus só havia uma condição: estar disponível. Os líderes judaicos nunca manifestaram tal disponibilidade, mas os publicanos, as prostitutas e outros pecadores notórios mostraram-se disponíveis para integrar a comunidade da salvação. E a parábola original de Jesus traduz esta leitura da realidade.

Dezenas de anos depois, a comunidade mateana fará uma releitura da parábola. Face à adesão maciça à fé cristã de gente oriunda do paganismo, a comunidade cristã sentiu que era preciso explicar porque é que os pagãos acolheram a Boa Nova de Jesus melhor do que os judeus. Assim, os judeus, apesar de serem o povo da Aliança, recusaram corresponder ao convite de Deus, pelo que Deus resolveu chamar outros convidados – apanhados nas “encruzilhadas dos caminhos” – para se sentarem à mesa do banquete messiânico.

Chegado aqui, Mateus achou que o assunto não estava encerrado e que urgia um aviso final a todos os que aceitaram entrar na sala do banquete. E vem ao caso a segunda parábola. Um convidado apresentou-se na festa sem o traje nupcial (antes da entrada era distribuída a veste nupcial a cada convidado). O rei, ao verificar tal facto (era um convidado, ao invés do que dizem alguns), ordenou que ele fosse lançado fora da sala da festa.

Aliás, não fazia sentido esperar-se que um convidado recrutado, à última hora, “nas encruzilhadas dos caminhos” estivesse convenientemente vestido para uma festa de casamento. De facto, na cultura do Antigo Médio Oriente, era habitual o anfitrião de um banquete real oferecer a cada convidado o “traje de festa” a usar no banquete. Portanto, se um convidado se apresentasse na sala do banquete sem a roupa adequada, não seria porque não lhe fora entregue o traje apropriado, mas porque não aceitara vesti-lo. Nestes termos, a parábola constitui uma advertência aos que aceitaram o convite de Deus para a festa do Reino, aderiram à proposta de Jesus e receberam o Batismo. Na linguagem cristã, a vida nova do cristão (que começa no Batismo) é comparada ao traje novo, a veste branca que se enverga, nesse dia, para sempre.

Portanto, o evangelista, que escreve, no final do século I, quando muitos cristãos tinham esquecido o entusiasmo inicial e viviam instalados numa fé morna e pouco exigente, avisa que, além de querer entrar na sala do banquete, é preciso vestir um estilo de vida que ponha em prática o ensinamento de Jesus. Deus chama todos os homens e mulheres para participarem no banquete, mas só se sentarão com Ele os que se dispõem a vestir a vida de Deus.

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Na segunda leitura (Fl 4,12-14.19-20), o apóstolo apresenta-nos o exemplo de uma comunidade que aceitou o convite do Senhor e vive animada pelo dinamismo do reino de Deus: a comunidade cristã de Filipos, generosa e solidária, empenhada na vivência do amor e em dar testemunho do Evangelho diante de todos os homens.

Os filipenses enviaram a Paulo, através de Epafrodito, generosa quantia em dinheiro, que permite ao apóstolo manter-se durante o tempo em que estiver prisioneiro. E o apóstolo sente-se feliz pelo gesto dos filipenses, mas a sua alegria não resulta do facto de aquele gesto lhe resolver as suas necessidades materiais imediatas. Paulo nunca buscou vida regalada, situação confortável, abundância de bens materiais. Sabe “viver na pobreza” e “viver na abundância”, está preparado para “ter fartura” e para “passar fome”, é capaz de “viver desafogadamente” e de “padecer necessidade”. A liberdade interior que sente, face aos bens efémeros brota de Cristo: é Ele quem lhe dá forças para superar as privações, quem o anima nos momentos de dificuldades, quem lhe dá a coragem para enfrentar as necessidades que a vida apostólica impõe.

O gesto dos filipenses, no entanto, mostra generosidade, solicitude, cuidado, empatia, bondade, amizade, solidariedade; e expressa o compromisso dos filipenses com o anúncio do Evangelho; manifesta o seu apoio ao esforço missionário de Paulo. Tudo isso o conforta, o anima e lhe alegra o coração, pois mostra-lhe que os seus filhos de Filipos levam a sério o Evangelho e a vida nova que resulta da adesão a Cristo. De resto, a generosa oferta dos filipenses, mais do que ajuda a Paulo, é oferta a Deus, de quem o apóstolo é servidor. Paulo está seguro, portanto, de que tal gesto não será esquecido: Deus lhes pagar-lhes-á, generosamente, a boa ação que fizeram.

Por fim, a doxologia que encerra a perícopa (“glória a Deus, nosso Pai, pelos séculos dos séculos. Ámen”) é o agradecimento final de Paulo, não à comunidade cristã de Filipos, mas a Deus, aquele de quem procede todo o bem.

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É belo cantar a esperança de morar para sempre na casa de Deus, do Deus que nos trata com a solicitude que o pastor usa em prol do seu rebanho e de cada uma das suas ovelhas:

“Habitarei para sempre na casa do Senhor.”

“O Senhor é meu pastor: nada me falta. / Leva-me a descansar em verdes prados, / conduz-me às águas refrescantes / e reconforta a minha alma.

“Ele me guia por sendas direitas, por amor do seu nome. / Ainda que tenha de andar por vales tenebrosos, / não temerei nenhum mal, porque Vós estais comigo: / o vosso cajado e o vosso báculo me enchem de confiança.

“Para mim preparais a mesa, / à vista dos meus adversários; / com óleo me perfumais a cabeça, / e o meu cálice transborda.

“A bondade e a graça hão de acompanhar-me / todos os dias da minha vida, / e habitarei na casa do Senhor / para todo o sempre.”

“Aleluia. Aleluia. Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, ilumine os olhos do nosso coração,
para sabermos a que esperança fomos chamados.”

2026.10.11 – Louro de Carvalho

Protestos em Portugal pelo alto custo de vida e pela crise de habitação

 

O movimento “Não dá mais para viver assim”, que reúne cerca de 40 organizações da sociedade civil, convocou uma série de protestos para 10 de outubro, contra o aumento do custo de vida e a contra a crise na habitação, que se agrava em Portugal e que o governo não tem coragem política para solucionar de forma justa e adequada. As manifestações ocorreram em cinco cidades: Lisboa, Porto, Braga, Aveiro e Funchal.

“Vivemos a trabalhar e esgotamo-nos para fazer o salário esticar até ao final do mês, para enfrentar o aumento dos preços dos combustíveis, as despesas básicas e para não perder a casa”, escrevem os organizadores na sua conta do Instagram, considerando que o aumento do custo de vida e o crescente custo das rendas estão a tornar incomportável a vida dos portugueses, ou seja, “é impossível – dizem – viver num país onde a renda consome metade do salário e a outra metade é gasta em bens essenciais”.

De acordo com o jornal Correio da Manhã, o coletivo, composto por sindicatos e por associações de combate ao racismo, de igualdade de género, de defesa e de direito à habitação, de ação climática e de inclusão social, entre outras, critica a forma como o governo está a responder à crise na habitação, pede que haja “maior controlo dos preços dos bens essenciais e dos combustíveis” e exige “medidas que respondam à crise na habitação”.

Recentemente, a Assembleia da República (AR) aprovou, na generalidade, nova proposta de lei do arrendamento que, se avançar, permitirá, entre outras coisas, o aumento das rendas sem limite legalmente estabelecido, quando o travão, até agora, é de 2%, face ao valor da renda anterior. E a proposta do governo prevê, ainda, a antecipação da resolução dos contratos de arrendamento, por falta de pagamento de três para dois meses, e que as cauções possam deixar de ter limite. O diploma passou, sobretudo, pela abstenção do Chega, o maior partido da oposição.

“Já não aguentamos mais o aumento dos combustíveis, das rendas das casas e dos preços nos supermercados; é altura de irmos para a rua”, diz um internauta no Instagram, sustentando que “temos de fazer como está a acontecer na França, com estudantes e professores na rua, e como aqui ao lado, na Espanha, com os acampamentos”, por via da crise da habitação.

No dia 8, milhares de pessoas manifestaram-se em Madrid e noutras cidades do país, para afirmar a luta pelo direito a um lar e para render homenagem a Maricarmen Abascal, de 87 anos, que, duas semanas após ser despejada da casa onde vivia, há mais de sete décadas, abalou o debate político e social sobre o acesso a habitação digna, na Espanha, e morreu no hospital, quando apenas queria viver os últimos dias de vida no seu lar de mais de 70 anos. Assim, tornou-se um símbolo das reivindicações contra os despejos e pelo acesso à habitação acessível.

Os protestos em Portugal começaram pela cidade do Funchal, na Madeira, às 11h00 (hora local), seguiram-se Aveiro, às 15h30, o Porto, Braga e Lisboa, às 17h00. Os manifestantes entoavam slogans sobre salários e exibiam cartazes com mensagens, como “este salário não dá para viver”. E alguns erguiam cartazes com slogans poderosos, como: “Quero sair da casa dos meus pais antes dos 50 anos.”

Também esteve omnipresente o apoio à causa palestiniana, com muitas bandeiras palestinianas espalhadas pelo protesto, conhecida que foi a atribuição do Prémio Nobel da Paz à jurista sul-africana que denunciou os crimes de guerra, de genocídio e contra a Humanidade, perpetrados pelo governo israelita na Faixa de Gaza.

Uma participante na marcha de Lisboa disse à agência Lusa que se tinha inspirado em protestos recentes semelhantes na Espanha: “Vi, no Instagram, que este protesto ia acontecer, por isso vim. Já chega. Este país está a ficar cada vez pior e, agora, temos de sair de casa e ir para a rua para fazer ouvir as nossas vozes, tal como fizeram os espanhóis”, afirmou.

Um grupo no Porto – onde, segundo relatos, se reuniram cerca de 1500 manifestantes – posicionou-se junto a um cartaz com a mensagem: “Vamos fazer como fazem em Espanha.”

Porém, na Espanha, o caso de Maricarmen serviu de ponto de partida para novas manifestações contra a crise habitacional do país e aumentou a pressão sobre o governo do primeiro-ministro, Pedro Sánchez, cujo governo espanhol propôs legislação de emergência, em matéria de habitação à medida que a oposição crescia, mas esta não foi aprovada, o que levou Pedro Sánchez a convocar eleições gerais antecipadas para o final de novembro. Já em Portugal, o governo propôs medidas que, em vez de ajudarem a resolver a crise habitacional, a agravarão.

Na ótica do coletivo, a solução passa pelo controlo dos preços dos bens essenciais e dos combustíveis, por impostos sobre os lucros extraordinários das grandes empresas, como o setor bancário, o setor energético e o setor da distribuição, e por medidas que respondam à crise na habitação, tais como tetos nas rendas, limites ao aumento das prestações, mais habitação pública e fim dos benefícios fiscais para especulação financeira. Porém, como dizem, “as rendas e as prestações aumentam e o governo continua a aplicar medidas para que os preços subam”.

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Há quem defenda a manutenção da alta de preços dos combustíveis, como o gasóleo, a gasolina e o gás, porque se trata de produtos importados, sendo relevante que o consumidor os pague, o consumo diminua, o erário público aumente a receita, pela via dos impostos; e, como se trata de combustíveis de origem fóssil, temos de apressar a transição energética, o que é dificultado pela abundância de tais produtos.

Esta defesa, que parece ter uma lógica imbatível, esquece que a transição energética está em pausa, enquanto as grandes potências suscitarem e alimentarem as guerras, um pouco por toda a parte; que as instalações que sediam a inteligência artificial (IA) consumirão enormes quantidades de água e de eletricidade; que nem todos os meios de enriquecimento do erário público são legítimos; que as energias renováveis (hídrica, eólica, solar e resultante da biomassa) ainda são insuficientes e algumas levantam questões ambientais e ecológicas; que o acesso dos cidadãos aos transportes públicos, em condições razoáveis, é insuficiente, pois a rede não cobre todo o território, tem horários e unidades de transporte (veículos, carruagens) muito insuficientes; e que os que são obrigados a utilizar os combustíveis em causa é que têm de pagar a fatura. Não é, pois, sem razão que os protestos estão na rua. E é pena que se espere que a rua resolva os problemas que os governos, que têm mandato para tanto, não os queiram resolver, capturados que estão por interesses instalados mais poderosos do que o poder político.

Mais: a União Europeia (UE) está a mudar de agulha, em relação às orientações relativas à crise habitacional, mas o governo parece fazer orelhas moucas e preferir beneficiar a especulação imobiliária. É mais fácil governar sem criar ondas e atirar com uns rebuçados em sede do imposto sobre o rendimento das pessoas singulares (IRS), beneficiando, indiretamente quem tem mais possibilidades, e reduzir o imposto sobre o rendimento das pessoas coletivas (IRC), a quem melhor o pode pagar, como sucede com a banca, com as empresas de distribuição, com as do setor energético e com as de telecomunicações – algumas das quais pouco benefício trazem à economia, mas servem para “esmifrar” o consumidor.

É, por isso, natural, embora não desejável, que os manifestantes critiquem a forma como o executivo responde à crise e apelem a que “quem governa proteja a população, de uma vez por todas”. “Não pagamos mais esta crise, não pagamos mais os lucros recorde de uma mão cheia de empresas, não aguentamos mais ser ‘esmifrados’ e não compactuamos com um governo que não age para proteger quem faz o país andar para a frente”, dizem os mentores do protesto.

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Sobre a manifestação em Lisboa, o Expresso online, no dia 10, apontava a concentração de alguns milhares de pessoas no Largo do Intendente, onde continuavam a chegar manifestantes, num protesto contra o aumento do custo de vida e da habitação. Depois, referia que, que poucos minutos antes da hora, o Largo estava repleto de pessoas de todas as idades que decidiram aderir ao movimento, tendo os manifestantes ali chegado “em grupo ou solitários, com cartazes debaixo do braço com frases de revolta contra o custo de arrendar um apartamento, que os atira para muito longe da cidade ou os obriga a permanecer em casa dos pais, depois dos 30 anos”.

Uma das manifestantes contou que veio sozinha, por ter visto, no Instagram, que ia haver este protesto. “Este país está cada vez pior e, agora, é preciso sair de casa e ir para a rua gritar como fizeram os espanhóis”, defendeu, frisando que o desemprego lhe bateu à porta e foi obrigada a regressar a casa dos pais.

Outra manifestante, de 35 anos, relatou que vive num quarto alugado que lhe custa mais de metade do salário e que, por isso, se juntou aos milhares de pessoas que, em Lisboa, exigem mudanças ao Governo para baixar o custo de vida e criar rendas acessíveis. Mais referiu que nasceu em Cascais, estudou e achava que ia ter emprego, com bom ordenado, mas que, apesar de licenciada, recebe apenas o salário mínimo a trabalhar num ‘call center’. E, cansada de viver com os pais, começou à procura de casa e acabou num apartamento em Chelas, que descreve como uma zona “com bastante violência”, partilha casa com outros dois casais e paga 450 euros de renda, sem contrato, porque, “com contrato, ainda era mais caro”.

E jovens que participaram no protesto dizem contar com a ajuda da família, mas há muitos casos como o de um jovem, de 23 anos, que ficou órfão de pai e de mãe, no verão. “No último ano, estive a tratar deles e, agora, tenho o meu irmão a cargo, porque ele tem um problema de saúde”, contou o jovem, que fez um mestrado, mas teve de se despedir para tratar do irmão, porque “este país dá zero ajudas”. E, assim, veio manifestar-se, trazendo um cartaz que exibia a seguinte questão: “Se nós não podemos viver aqui, então governam para quem?”

Porém, estes relatos não são uma pequena amostra do país, que vê os grandes com enormes lucros e a maior parte das pessoas a contar os cêntimos. As histórias de quem não consegue arrendar casa ou de quem não tem dinheiro para o mês todo repetem-se. Não é por birra, nem por acaso que, pelas ruas de Lisboa, em direção ao Largo de São Domingos, os manifestantes entoavam frases, como “Ó Montenegro, eu quero ter um salário para a casa e para viver.”

Os manifestantes contaram com a solidariedade de partidos à esquerda. Por exemplo, José Manuel Pureza, coordenador do Bloco de Esquerda (BE), lembrou que “há cada vez mais pessoas que não conseguem pagar as contas, enquanto um pequeno grupo de pessoas tem lucros astronómicos”. E, sobre a proposta do Orçamento do Estado (OE) para 2027 entregue, nesta semana, na AR, considerou ser “um cheque em branco” para a continuação da situação (“por isso, não há abstenção”) e defendeu a necessidade de limitar o aumento das rendas.

Também Isabel Mendes Lopes, do Livre, criticou a proposta de OE e acusou o primeiro-ministro de “viver numa bolha” e de “estar a governar para as pessoas que são parecidas consigo e não para a generalidade dos portugueses”. “Achar que uma renda moderada pode ir até aos 2300 euros é de quem não vive no mundo real, nem no mundo onde a maior parte das pessoas vivem”, criticou a deputada, recordando que, em Portugal “os salários continuam a ser muito baixos e as pessoas têm dificuldades de pagar as suas contas ao fim do mês”.

Por sua vez, a SIC Notícias registou palavras de ordem e cânticos dirigidos ao governo, com vista à tomada de medidas que reduzam a pressão financeira sobre as famílias. E uma manifestante do Porto, em declarações a este canal de televisão, afirmou que “não dá mais para viver assim”, pois “o custo de vida é muito superior àquilo que auferimos como salário e muito superior às possibilidades”. “Um T2, no Porto, custa 1200 euros de renda. É impossível pagar. Trabalho de segunda a sexta-feira, ganho o ordenado mínimo, tenho de trabalhar ao fim de semana, fazer trabalhos extra e, mesmo assim, não dá”, disse outra manifestante.

A plataforma “Não dá mais para viver assim” acusa o governo de estar a radicalizar-se e de se aproximar do Chega, vincando que favorece os interesses das grandes empresas imobiliárias, em detrimento das condições de vida da população e da paz social.

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No Jornal de Notícias, de 9 de outubro, José Reis, professor catedrático jubilado da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, em artigo intitulado “Um OE que passa ao lado”, aponta três factos: “acentuada subida de preços, tendência para o aumento dos juros e desigualdades crescentes”. Não se trata, no caso do primeiro, de “aquecimento” da economia pela procura de bem-estar da parte de largos setores da população, mas do resultado de programação espoletada por “guerras sem nexo”. O segundo não resulta da normal “tensão inflacionista”, mas, ante a intensa circulação financeira, “é a disputa do crédito por empresas pouco ligadas à economia real”, que atinge o Mundo todo. E as desigualdades advêm de “formas iníquas de repartição do rendimento” e da “sujeição de cada vez mais trabalho a atividades de baixa criação de valor, de escassa capacidade empresarial e, portanto, de baixos salários”.

Face a tal situação, na ótica do académico, era de esperar proteção dos que precisam, mas continuam poderosos a engordar “com juros e com lucros excessivos” e não se tira “a uns para dar a outros”, na linha da “progressividade fiscal”; e o Estado deve ter mão para agir de modo que não se desgaste mais “o capital público”, nem “os serviços que servem a todos”. Contudo, como diz José Reis, não parecem ter lugar nobre, neste OE, “transferências diretas para os mais favorecidos, controlo de preços e investimento público suficiente”. Só há mão dura para desfazer “o que devia ser intocável”, como a “escola”, a “saúde”, a “segurança social” e as “relações laborais dignas”.

Efetivamente, a escola pública está em constante degradação, a saúde está a ser capturada por interesses privados, a segurança social corre o risco de ser diminuta, as relações laborais estiveram na iminência de descaraterização; e a precariedade, a sobrecarga de trabalho (a que, por vezes, se alia o assédio laboral) e os baixos salários são o cancro da ordem laboral.

Por outro lado, o professor de economia acusa a busca de popularidade visível em medidas como a descida do IRS, o qual “fica diminuído como grande instrumento de justiça social e de capacidade pública”. E considera que temos uma economia a crescer, mas “faminta de mão de obra” e que “usa abundantemente trabalho” que “assenta em atividades banais que poucos valores criam”. Assim, o crescimento é nominal, mas não real. E “o governo fará mais despesa onde sinta que tira proveitos eleitorais” e “nem o investimento nem a justiça social o preocuparão”, no dizer do académico.    

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No contexto de insatisfação social e laboral, é de referir que, no início de outubro, precisamente, a poucos dias da apresentação do OE2, uma greve de 24 horas dos trabalhadores da Administração Pública (AP) provocou perturbações em escolas, serviços de saúde e noutros serviços públicos; e que a Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses (CGTP) marcou uma manifestação nacional para 17 de outubro, em Lisboa, no Porto e em Coimbra, reivindicando o aumento geral dos salários de, pelo menos, 15%, com um mínimo de 150 euros, e a subida do salário mínimo nacional para 1100 euros, em 2027.

Porém, se um ministro das Finanças, em tempos, olhava o país através da folha Excel, agora, o OE é iluminado pela IA, nos gabinetes ministeriais, mas sem audição prévia aos partidos.

2026.10.11 – Louro de Carvalho

sábado, 10 de outubro de 2026

Navanethem (Navi) Pillay, de “firme compasso moral”, é Nobel da Paz

 

A 9 de outubro, em Oslo, o Comité Norueguês do Nobel, anunciou que o Prémio Nobel da Paz de 2026 foi atribuído a Navanethem Pillay, mais conhecida por Navi Pillay, de 85 anos jurista sul-africana de origem indiana, com larga carreira internacional, atual juíza do Tribunal Internacional de Justiça (TIJ), no caso em que Myanmar é acusado de genocídio, antiga Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH), de 2008 a 2014, e juíza do Tribunal Penal Internacional (TPI), de 2003 a 2008, tendo ocupado a Câmara de Recurso.

Foi a primeira mulher não branca a abrir escritório de advocacia, na África do Sul, e é, agora, a selecionada de entre os 287 candidatos nomeados para o prémio Nobel da Paz, neste ano: 208 indivíduos e 79 organizações. “Num Mundo cada vez mais conflituoso, não faltam candidatos cujo compromisso com base em princípios e em ação inovadora apontam para um futuro melhor”, indicou um comunicado da organização, em abril.

O galardão é atribuído desde 1901. Além do diploma simbólico e da medalha de ouro, o vencedor recebe 11 milhões de coroas suecas, o equivalente a um milhão de euros. A cerimónia de entrega decorrerá em Oslo, na Noruega, a 10 de dezembro, no aniversário da morte de Alfred Nobel. É o único prémio Nobel entregue fora da Suécia.

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Nascida em Durban, em 1941, numa família de ascendência tâmil, Pillay iniciou a sua carreira como advogada, na era do apartheid, militando contra a discriminação racial e defendendo Nelson Mandela (por cuja libertação lutou) e outros opositores do regime (sobretudo, os detidos na prisão de Robben Island), tendo conseguido, para eles, o direito a advogados, que lhes era negado, até aí. Foi a primeira mulher não branca a integrar o Supremo Tribunal da África do Sul e foi juíza no TPI, além de ter presidido ao TPI para o Ruanda. Em 2015, integrou a Comissão Internacional contra a Pena de Morte e, mais recentemente, presidiu à Comissão de Inquérito Independente da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre o Território Palestiniano Ocupado – incluindo Jerusalém Oriental – e Israel. Como presidente desta comissão, Pillay, em declaração divulgada, a 16 de setembro de 2025, pelo gabinete do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH), apresentou as conclusões do relatório onde se afirmava que as autoridades israelitas cometeram verdadeiros atos de genocídio e crimes contra a Humanidade, em relação à população palestiniana de Gaza, como refere o Vatican News, portal do Vaticano.

“O Prémio Nobel da Paz 2026 é atribuído a uma pessoa que, com uma coragem e integridade excecionais, abriu caminho para uma ordem jurídica global mais abrangente. A laureada deste ano desempenhou papel fundamental, ao assegurar o processamento de crimes de guerra, de crimes contra a Humanidade e de genocídio”, explicita o Comité Norueguês do Nobel, na extensa justificação que acompanha a atribuição do prémio a Navi Pillay, vincando que, “ao longo da sua carreira, manteve uma bússola moral firme e uma adesão inabalável aos princípios fundamentais de justiça, ajudando a fortalecer o papel e a eficácia do direito internacional”.

Em conferência de imprensa pós-anúncio, Jørgen Watne Frydnes, presidente do Comité Norueguês do Nobel, explicou que o Prémio da Paz atribuído a Navi Pillay é “uma mensagem aos que atacam e minam o sistema internacional e as suas instituições”. Quando os jornalistas perguntaram por que foi o prémio atribuído a uma pessoa, em vez de a um tribunal internacional ou a outro organismo, Frydnes reiterou que Pillay tem estado “na vanguarda do desenvolvimento do direito internacional, desde há décadas”, o que a torna a laureada ideal.

O presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, saudou a homenagem à “coragem, à integridade e ao compromisso de toda uma vida em prol da justiça” de Navi Pillay, que “serviu a Humanidade com princípios e com a convicção de que o Mundo pode e deve ser um lugar melhor”, pelo que se juntou, agora, aos anteriores galardoados sul-africanos com o Prémio Nobel da Paz

E Cyril Ramaphosa fala de uma distinção que realça “o impacto considerável dos sul-africanos na paz, na justiça e no progresso da Humanidade”.

O Comité descreveu a laureada como pessoa de “coragem e integridade excecionais”, com “firme compasso moral”, ao longo da sua carreira, que “abriu caminho para uma ordem jurídica global mais abrangente” e “desempenhou um papel fundamental para garantir que os crimes de guerra, os crimes contra a Humanidade e o genocídio são processados”.

Em tempos geopolíticos conturbados, a mensagem que a escolha pretende passar é clara: “O Comité Norueguês Nobel quer recordar o Mundo de que o estado de Direito – nacional e internacional – sustenta o sistema que criámos para garantir a paz e resolver conflitos não violentos. A paz requer justiça.” E O comité avalia que, em maré de desafios existenciais, “incluindo mais guerras e conflitos do que o Mundo viu, em muito tempo, o direito internacional não é apenas suplemento para a paz e segurança”, mas “necessidade absoluta”.

À jurista sul-africana de carreira internacional são apontadas qualidades, como “coragem, visão e determinação”, numa altura em que “o sistema de direito internacional está sob enorme pressão, e as suas instituições sob ataque”. “Navi Pillay responsabilizou Estados e líderes nacionais e trouxe esperança a vítimas de violência e conflito”, afirmou o Comité.

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Porém, como era de esperar, o ministério dos Negócios Estrangeiros de Israel criticou a decisão, na rede social X: “Atribuir a Pillay o Prémio Nobel da Paz não é reconhecimento de justiça. É grotesca instrumentalização de um prémio para legitimar ódio e preconceito anti-Israel”, acusou, vincando que se trata, não de um ato de justiça, mas da “instrumentalização grotesca de um prémio para legitimar o ódio e o preconceito contra Israel”.

“Se houvesse um prémio para mentiras, ódio e calúnias sanguinárias, Navi Pillay não seria apenas uma candidata; seria a preferida. O seu papel na implacável e politicamente motivada demonização de Israel, bem como na promoção da GenLie [jogo de palavras entre genocídio e ‘lie’, que significa mentira, em Inglês], diz muito. […] Agora, que o comité do Nobel premiou a maior mentira do século XXI, Joseph Goebbels está certamente a aplaudir do inferno”, acrescentou, numa referência ao ministro da Propaganda de Hitler.

Curiosamente, foi a partir de Nuremberga, cidade alemã onde foram julgados os principais líderes nazis, que a vencedora do Prémio Nobel da Paz reagiu ao galardão. “Talvez tenha sido o destino que quis que eu estivesse nesta histórica sala de audiências, n.º 600, onde decorreram os julgamentos de Nuremberga – que julgaram líderes nazis –, no momento em que o anúncio foi feito e fui informada sobre esta distinção”, declarou, citada pela agência Lusa.

Além de dedicar o galardão “a todos os sobreviventes de crimes internacionais”, Pillay denunciou os ataques de que o TPI vem sendo alvo. “Estamos a atravessar uma época em que o direito internacional e os direitos humanos são alvo de ataques políticos significativos”, declarou. E, dirigindo-se, diretamente, aos líderes internacionais, bradou: “A minha mensagem aos dirigentes e às autoridades políticas é a seguinte: ‘Estão sujeitos a uma obrigação jurídica. Quaisquer que sejam as outras obrigações morais que recaiam sobre vós, tendes a obrigação legal de proteger os direitos humanos e de vos absterdes de fazer a guerra’. […] Os vossos aplausos significam vitória, de verdade. Não queremos receber um prémio ou algo do género a não ser que o público concorde que merecemos. É assim que valorizo ​​os vossos aplausos, hoje”, afirmou.

A jurista referiu-se à decisão tomada enquanto presidente da Comissão Independente da ONU sobre o Território Palestiniano Ocupado, em que acusou Israel de genocídio. “Uma das principais reações a isso foi o elogio à minha coragem. E podem imaginar a minha surpresa. Por que razão seria preciso coragem para dizer a verdade? Interpreta-se a lei, analisam-se os factos, por isso trata-se de uma tomada de decisão imparcial”, explicou, sustentando que não vai parar, visto que não pode interromper o trabalho “em prol dos Princípios de Nuremberga, por causa das pessoas que encontramos aqui”.

Mais tarde, em declarações aos jornalistas, disse ainda estar “em choque”, mas “profundamente grata”, por receber o prémio, que dedicou a “todos os sobreviventes de crimes internacionais” e aos “praticantes e defensores” da justiça internacional. E reiterou que as tentativas de enfraquecer o direito internacional “correm o risco de nos levar de volta a um Mundo em que o poder, e não a lei, determina cujo sofrimento importa”.

A laureada tinha descrito as dificuldades enfrentadas na sua infância, numa entrevista divulgada pela ONU, em 2025, em que releva que o pai era condutor de autocarro e que era uma de sete filhos. “Todos nós éramos pobres e lutámos juntos”, afirmou, vincando que as dificuldades “valeram a pena, vale a pena a recompensa, quando se ajuda alguém que está desamparado”.

Nessa entrevista, criticou a ONU, nomeadamente, o poder de veto dos membros permanentes do Conselho de Segurança, mas manteve que o sistema da organização “é o melhor que temos, atualmente”. “Tudo o que temos em termos de proteção de direitos humanos não aconteceu, simplesmente, porque os Estados, um dia, acordaram. Vem da pressão da sociedade civil. É por isso que valorizo estas instituições”, discorreu a juíza.

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Donald Trump, em mensagem no Truth Social, reagiu com notória irritação, afirmando que ele “devia ter ganho oito Prémios Nobel da Paz”, por “ter acabado com oito guerras”, e desvalorizou a carreira de Pillay. “Não sei nada sobre esta mulher, e ninguém sabe! Aliás, tanto quanto sei, ninguém, alguma vez, ouviu falar dela, a não ser pelo facto de odiar, de forma muito evidente, Israel”, escreveu, acrescentando: “Não sei o que é que essa mulher fez.”

Considerou que, depois de ter “resolvido oito guerras”, em breve, vai “resolver, ou vencer, mais duas”, aludindo às guerras no Irão e na Ucrânia. E enumerou os conflitos que diz ter resolvido: Camboja e Tailândia, Kosovo e Sérvia, República Democrática do Congo e Ruanda, Paquistão e Índia, Israel e Irão, Egito e Etiópia, Arménia e Azerbaijão, e Israel e Hamas.

Cada vez mais irritado, continuou a detalhar o que julga serem os seus feitos, antes de retomar o ataque a Pillay, que descreveu como “uma liberal que trabalha nas Nações Unidas”. “O Prémio Nobel da ‘Paz’ ficou desacreditado para sempre por um punhado de ideólogos radicais, antidemocráticos e inimigos da civilização!”, concluiu.

A publicação surgiu depois de Trump haver criticado a decisão, num comício de campanha, em Syracuse, Nova Iorque, no dia 9, classificando-a de “vergonhosa e embaraçosa”.

Porém, ao saber que tinha ganho o Prémio da Paz, Pillay deixou uma alfinetada ao inquilino da Casa Branca. “Se aplaudirem um bocadinho mais, talvez partilhe este prémio com o Trump”, disse, aludindo à galardoada de 2025, Maria Corina Machado, líder da oposição venezuelana, que dedicou o prémio ao presidente norte-americano.

O episódio após o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, ter dito que os Estados Unidos da América (EUA) vão impor sanções ao TPI, que Washington acusa de “ações politizadas” e de “visar Israel”. “Vamos proibir transações com este tribunal à margem da lei, cortando-lhe os recursos e impedindo-o de atuar contra nós”, afirmou, em videomensagem, frisando que o seu país e o seu povo “não estão sujeitos à jurisdição deste falso TPI”.

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Além das reações mencionadas, são de valorizar outras. Por exemplo, o secretário-geral da ONU, António Guterres, considera o prémio “uma homenagem a todos aqueles que trabalham para defender e promover o direito internacional, o Estado de direito e os direitos humanos, e para garantir a paz, a justiça e a dignidade humana”.

A secretária-geral da Amnistia Internacional (AI), Agnes Callamard, disse que “esta não poderia ser uma melhor escolha”, em tempo de repetidos ataques contra a justiça internacional, pois denunciou o genocídio de Israel, enquanto muitos Estados protegem as ações daquele país, e tem um vasto currículo de luta pelos direitos humanos.

A presidente do TPI, Tomoko Akane, observou que, “numa época de profundos desafios à ordem jurídica internacional e ao Estado de direito, este reconhecimento tem um significado particular”, visto que “é um importante reconhecimento do papel vital que a justiça internacional desempenha como pedra angular de uma paz duradoura”.

Também o ACNUDH, Volker Türk, se congratulou com este Nobel da Paz. “Dizer que é mais do que merecido é pouco, sobretudo, quando os direitos humanos estão sob ataque em tantas frentes, incluindo por parte dos que detêm um enorme poder”, afirmou, enaltecendo o prémio como “homenagem a todos os que, em todo o Mundo, dedicam a vida à defesa dos direitos humanos, correndo, muitas vezes, grandes riscos para a sua própria segurança”.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, sustenta que “poucas pessoas dedicaram a vida à justiça, à paz e à dignidade humana”, pois, da violência do apartheid na África do Sul aos horrores do genocídio no Ruanda, enfrentou alguns dos capítulos mais sombrios da Humanidade, encarou a brutalidade da injustiça e nunca desviou o olhar”. “É a defensora dos perseguidos, dos vulneráveis, dos que não têm voz e dos excluídos. Defensora do Estado de Direito contra a lei do mais forte. Num Mundo que precisa de justiça, mais do que nunca, a sua coragem e clareza moral são uma bússola preciosa”, concluiu.

O presidente do Conselho Europeu, António Costa, também reagiu: “Uma honra verdadeiramente merecida, num momento muito oportuno, em que o direito internacional enfrenta crescentes pressões. […] O seu compromisso de uma vida com os direitos humanos, a justiça e o direito internacional recorda-nos que a paz só pode perdurar, quando a dignidade, a responsabilidade e o Estado de direito são respeitados. A UE defende firmemente estes valores”, escreveu.

E o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, escreveu, no X, que o seu governo se associa a “este reconhecimento, aplaude o seu trabalho e reitera, agora mais do que nunca, o seu apoio aos organismos internacionais encarregados de zelar pela paz”.

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Este é o quinto Nobel da Paz a distinguir cidadãos sul-africanos. O pioneiro foi Albert Lutuli, em 1960, distinguido pela liderança não violenta contra o regime do apartheid (foi o primeiro africano a receber o galardão).  Em 1984, o arcebispo Desmond Tutu foi reconhecido pelo seu papel crucial e pelo uso da sua voz religiosa na campanha internacional pelo fim do apartheid. E o culminar da transição democrática no país foi imortalizado em 1993, quando Nelson Mandela e Frederik Willem Klerk partilharam o prémio pelos esforços conjuntos no desmantelamento pacífico do regime e na criação das bases para a África do Sul livre.

E devo salientar a expressão “firme compasso moral” aplicada a Navi. Não é só a mulher de perfil moral relevante, mas, sobretudo, uma das condutoras da moralidade, compassando, qual regente de coro ou de orquestra, o andamento e o ritmo da sinfonia de vida pejada de melodias que só o talento humanista sabe enriquecer com a necessária harmonia, difícil de alcançar, numa sociedade de contrastes, de contradições e de desigualdades, a soldo de poderosos interesses.   

2026.10.10 – Louro de Carvalho