Os
seis pareceres entregues à comissão parlamentar do Trabalho, Segurança Social e
Inclusão são unânimes na contestação à Proposta de Lei que o governo apresentou
à Assembleia da República (AR), a 8 de junho, para autorizar a criação da
Prestação Social Única (PSU). Tais documentos, segundo o Expresso,
partilham as preocupações com o que chamam de “criminalização da pobreza” ou de
“estigmatização” dos beneficiários da PSU.
A
Ordem dos Assistentes Sociais (OAS) acusa a “narrativa de combate aos pobres e
não à pobreza”; a União das Mutualidades Portuguesas (UMP) aponta a falta de
“olhar humano” e risco de agravamento das situações de pobreza; o Movimento
Erradicar a Pobreza (MEP) sustenta que a criação do canal de denúncias – que não
fiscaliza situações de abuso ou de irregularidade de que o beneficiário seja
vítima – apenas confirma que “é sempre o pobre o suspeito”; o Observatório da
Deficiência e dos Direitos Humanos (ODDH) critica a ênfase na responsabilização
individual e na fiscalização, esquecendo o acompanhamento dos beneficiários e
dos seus agregados, “no sentido de os ajudar a sair da situação de pobreza em
que se encontram”; a Plataforma
Portuguesa para os Direitos das Mulheres (PPDM) vê a penalização
desproporcional das mulheres; e o parecer conjunto da Confederação Cooperativa
Portuguesa (CONFECOOP), Federação Nacional de Cooperativas de Solidariedade
Social (FENACRI) e das Cooperativas de Solidariedade Social (CSS) receia que a
simplificação administrativa do modelo se traduza na “simplificação da
diversidade das situações humanas”, por exemplo, confundindo prestações de
apoio às pessoas com deficiência com situações de pobreza.
Particularmente,
a proposta de trabalho social obrigatório é criticada por estar imbuída de uma
“leitura moralista” associável a um estigma ao trabalho solidário ou
comunitário, podendo estar em causa a substituição de postos de trabalho nesta
área.
Também
a associação Causa Pública diz que a proposta de PSU que o governo apresentou
“parte de um objetivo de simplificação do sistema”, mas que o concretiza “de
forma politicamente errada, socialmente regressiva e institucionalmente opaca”.
Segundo
a associação, o governo, ao não divulgar o valor de referência a adotar nesta
PSU, impede que se avalie o seu impacto nas várias prestações, alimentando a
suspeita de corte generalizado nos apoios sociais aos mais vulneráveis”. Além
disso, “desperdiça uma oportunidade” para reforçar o combate à pobreza, ao apresentá-la
“como um reforço do preconceito e da punição sobre quem mais precisa de
proteção” e ao ignorar, por completo, a Estratégia Nacional de Combate à
Pobreza.
“A
proposta assenta numa visão errada da inserção social: em vez de acompanhar, [de]
capacitar e [de] integrar, opta por vigiar, suspeitar e punir”, refere a Causa
Pública, vincando que “as únicas referências à capacidade organizativa dizem
respeito à fiscalização e à equipa destinada a gerir denúncias”, que transformam
os beneficiários “em pessoas sob suspeita permanente, vigiadas pelos seus
vizinhos, colegas ou empregadores”.
As
atividades de solidariedade social exigidas “mais não são do que uma forma
encapotada de contornar o princípio do trabalho com direitos” e “um instrumento
de coação”, sem qualquer objetivo de inclusão, diz a Causa Pública, recusando a
narrativa da alegada dependência prolongada do Estado como forma de “transferir
para os mais vulneráveis a culpa por uma falha coletiva”, num país onde um em
cada dez trabalhadores empregados é pobre.
“Precisamos
de uma sociedade que apoie, que acolha e que não afaste. A ação social não pode
ser convertida numa política de medo, de suspeição e de ressentimento. O que
está em causa não é apenas uma prestação, mas a ideia de comunidade política
que queremos sustentar”, defende a Causa Pública, propondo, em alternativa, uma
PSU “simples e transparente, justa e eficaz, orientada para a inserção e não
para a punição”.
***
Entretanto,
o Livre e o Bloco de Esquerda (BE) anunciaram a pretensão de retirar da proposta
de criação da PSU – discutida, na generalidade, a 12 de junho, tendo passado à
respetiva comissão, sem votação – os dois pontos mais polémicos da proposta: a
criação de um canal de denúncias e a obrigação de prestar trabalhos social. Também
coincidem na pretensão de garantir o acesso à PSU a todos os residentes legais
em Portugal, sem necessidade de estarem nessa situação há, pelo menos, um ano. E,
na sequência entregaram as suas propostas de alteração para o debate na
especialidade, agendado para a manhã de 24 de junho.
O
Partido Social Democrata (PSD) disse que estava mais próximo de aprovar a PSU
com o Chega, porque este partido “tem mais vontade”, como como afirmou o líder
da bancada laranja, Hugo Soares, no Congresso do PSD, onde o primeiro-ministro
deu por assegurada a aprovação desta autorização legislativa com o partido mais
à direita, com o qual terá chegado a acordo em seis pontos, ficando por aceitar
a não aplicação a imigrantes, em determinadas condições.
O
Partido Socialista (PS) tem mantido disponibilidade para negociar, mas queria retirar
a obrigação de trabalho social e a criação do canal de denúncias, bem como a
transformação de autorização legislativa em proposta de lei e toda a
regulamentação feita por decreto (não por portaria ou por despacho), como forma
a ter de passar pelo Presidente da República (para promulgação) e ser passível
de apreciação parlamentar.
Porém,
como as propostas de alteração do PS, do Chega e do próprio PSD, ainda não tinham
dado entrada, o partido do governo pediu o prolongamento do prazo para entrega
de propostas de alteração até ao meio-dia do dia 23, o que foi aceite. Entretanto,
as propostas de alteração puderam até ser entregues na manhã do da 24, no decurso
do debate em comissão. O processo de especialidade devia estar fechado no dia
22, mas o presidente da AR tinha permitido o alargamento do prazo, com a
condição de não ser alterada a data de votação, isto é, o dia 25.
O
Livre queria retirar da PSU a pensão de viuvez e a pensão de orfandade, que o BE
mantém na lista de prestações incluídas nesta medida. Ambos os partidos,
pretendem retirar o requisito de um ano de residência legal em Portugal para
ter acesso à PSU, bastando ser residente legal. Ao invés, o Chega, defende que
o acesso de estrangeiros a esta prestação dependa de já terem cinco anos de
descontos para a Segurança Social, mas o primeiro-ministro (PM), no debate
quinzenal do dia 18, recusou a introdução de obrigações contributivas.
A
esquerda recusa a obrigação de trabalho social, mantendo obrigação da “disponibilidade
para o trabalho e emprego conveniente ou formação profissional”, segundo a
legislação em vigor para as prestações sociais. Além disso, o Livre e o BE pretendem
baixar de 80% (constante da proposta de lei) para 60% o grau de incapacidade ou
deficiência a partir do qual os beneficiários estão libertados dessa obrigação.
E o Livre defende que a PSU não implique a criação de um canal de denúncias e
propõe medidas de acompanhamento e fiscalização.
Tanto
o Livre como o BE propuseram, ainda, várias alterações à condição de recursos
para acesso à prestação social, assim como apresentam propostas para o cálculo
do seu valor. O valor da PSU é uma das incógnitas a que o PM não deu resposta
no debate quinzenal.
***
Ainda
no dia 24, o PS e o governo entenderam-se antes da votação na especialidade, ao
passo que o Chega se pôs de fora das negociações. O acordo foi anunciado por
Eurico Brilhante Dias, líder parlamentar do PS, que afirmou que o seu partido
conseguiu fazer cair alguns dos pontos mais controversos, nomeadamente, o canal
de denúncias, e que o trabalho social terá de fazer parte do contrato de
inserção, como acontece com o rendimento social de inserção (RSI), deixando de
ser obrigatório.
Em
conferência de imprensa, antes da reunião da Comissão de Trabalho, Segurança
Social e Inclusão, que votaria a proposta na especialidade, onde viu luz verde
com os votos a favor do PS Brilhante Dias garantiu uma “alteração substantiva
da condição de recursos” que assegura o acesso à PSU “às pessoas mais
vulneráveis”, sem a restrição gizada pelo governo.
Porém,
Hugo Soares, do PSD, veio dizer, depois, que o trabalho social não tinha
passado a ser facultativo, mas “direcionado” para cada pessoa. “A atividade de
solidariedade social não deixa de ser obrigatória: essa atividade de três horas
por dia passa a estar integrada num plano de inserção, como já era nossa
intenção”, garantiu o líder parlamentar do PSD.
Segundo
o texto do acordo, citado pela CNN Portugal, o PS “assegurou o princípio
de que a PSU não será globalmente mais desfavorável do que o regime anterior,
para as pessoas em situação de maior vulnerabilidade”, bem como o princípio da
tendência de valorização progressiva e “a transparência na fixação dos valores
de referência do primeiro ano de vigência da PSU em decreto-lei”. E estabelece-se
que o beneficiário pode ter até 60 IAS (indexante dos apoios sociais) para património
mobiliário e 60 IAS adicionais para património imóvel.
O
IAS, a medida base usada pelo Estado português para calcular o valor dos apoios
sociais, tem, no ano corrente, o valor de 537,13 euros.
O
trabalho social, um dos pontos mais controversos que constava na versão inicial
do governo, deixa de ser automaticamente obrigatório, “devendo ser articulado
com outras dimensões, como a educação e formação, e ser, em qualquer caso,
integrado numa lógica de inserção e adequado às condições de cada beneficiário
e do seu agregado familiar”, de acordo com o texto citado pela CNN Portugal.
E, não avança, conforme foi referido, o polémico canal de denúncias contra
beneficiários da PSU, “sem prejuízo do rigor e fiscalização na atribuição das
prestações sociais”, ficando ainda a garantia de que despedimentos por razões
imputáveis ao trabalhador não ditam impedimentos de acesso à prestação.
Sobre
a proposta do PSD que previa um mínimo de dois anos de residência para os
imigrantes que quisessem receber PSU, o líder parlamentar do PS referiu que a
matéria não esteve em cima da mesa e que, portanto, se manterá o regime em
vigor, que estabelece o limite de um ano.
André
Ventura disse não ter chegado a entendimento com o governo, sendo a principal
divergência as condições de acesso às prestações sociais, por parte de cidadãos
estrangeiros. “Quem nunca contribuiu para o sistema de Segurança Social
português não deve receber subsídios em Portugal”, disse o presidente do Chega,
considerando que não foi possível chegar a acordo com o executivo noutros
pontos, como a imposição de limites ao período durante o qual uma pessoa apta
para trabalhar pode receber apoios sociais.
O
grupo parlamentar do PSD pedira, no dia 24, um “adiamento potestativo” para o
final do dia da discussão da PSU na Comissão de Trabalho, Segurança Social e
Inclusão, para tentar chegar a entendimento com os partidos da oposição. Com
efeito, a urgir a aprovação da proposta, invocou o risco de perda de 600
milhões de euros inscritos no Plano de Recuperação e Resiliência (PRR),
acordado com a Comissão Europeia, para insistir na aprovação, com brevidade da
PSU, que junta 13 prestações sociais não contributivas.
Assim,
em vez de receberem vários subsídios separados, os beneficiários da PSU terão
direito a uma única prestação que agrupa: o rendimento social de inserção
(RSI); os subsídios sociais no âmbito da parentalidade, designadamente, o
subsídio social parental inicial, o subsídio social parental por risco clínico
durante a gravidez, o subsídio social por interrupção da gravidez, o subsídio
social por riscos específicos, o subsídio social por adoção e o subsídio social
por necessidade de deslocação a unidade hospitalar localizada fora da ilha de
residência da grávida, para realização de parto e para acompanhamento; a pensão
social de velhice; a pensão social do regime especial de proteção na invalidez;
o complemento extraordinário de solidariedade (CES); a pensão de viuvez; a pensão
de orfandade; e o subsídio social de desemprego.
***
Após
um dia de azáfama, a PSU foi votada na especialidade. Após o PS e o PSD terem
chegado a acordo, a proposta do governo foi aprovada, na totalidade, com o voto
favorável dos socialistas, embora subsistam dúvidas, quanto à obrigatoriedade
do trabalho social.
Miguel
Cabrita, do PS, garantiu que a queda da obrigatoriedade do trabalho social
“não é questão semântica”, depois de Eurico Brilhante Dias e Hugo
Soares terem feito declarações divergentes. Na verdade, a realização destas
atividades já existe no ordenamento jurídico, sobretudo, no atinente ao RSI,
prevendo consequências, mas fica inserida nos contratos de inserção, que preveem
alternativas, como a inscrição nos centros de emprego.
Na
proposta consensualizada, as “atividades de solidariedade social” aparecem em
duas alíneas. A primeira estabelece que o direito à PSU depende” de várias
situações, como a inscrição em centro de emprego, a disponibilidade para
formação profissional ou educação, a disponibilidade para o trabalho em emprego
conveniente ou no exercício de atividades de solidariedade social, em
termos adaptados às condições do beneficiário e do agregado familiar. E a
outra alínea dispõe que a medida prevê “a participação dos beneficiários em
atividades de solidariedade social promovidas pela instituição gestora da prestação,
no âmbito dos planos individuais de inserção, em articulação com as políticas
ativas do mercado de trabalho vigentes e tendo em conta a realidade
de cada beneficiário e agregado familiar”. Neste ponto, não há referência
à obrigatoriedade. Contudo, o regime jurídico será desenhado pelo governo, por
decreto-lei, o que significa que pode vir a ser avaliado, primeiro, pelo
Presidente da República e, depois pela AR, se algum partido requerer a sua
apreciação.
Miguel
Cabrita, sublinhando que o resultado deste processo não é apenas uma
autorização legislativa, reiterou o compromisso do PS em continuar a acompanhar
e fiscalizar.
O
Chega diz que “o bloco central” se uniu “para ficar tudo na mesma”, ou
seja, “o PSD deixou a PSU nas mãos do PS”, pelo que “não vai haver nenhuma
reforma”. O governo aceitou acordo “por necessidade”, porque “precisava
desta reforma como de pão para a boca”. E a Iniciativa Liberal (IL)
criticou a condução do processo, uma vez que a autorização legislativa, apresentada
com caráter de urgência passou de 90 para 120 dias. Porém como disse, “o
Parlamento não está aqui para passar cheques em branco ao governo”.
À
esquerda do PS, repetiram-se as críticas ao diploma, nomeadamente, o facto de o
valor da PSU continuar desconhecido. Jorge Pinto criticou um processo que
foi “intempestivo relâmpago”. No final, o diploma é “menos mau” do
que a “coisa aberrante de um retrocesso tremendo” que o governo apresentou, mas
mantém “carências” que levaram o Livre a manter voto contra. O Partido Comunista
Português (PCP) acusou o PSD de tentar negociar com o Chega, para chegar a
“coisa pior”, e disse que o PS e o PSD deviam ter promovido “amplo debate”,
pelo que o resultado “é um bocadinho menos mau, mas é mesmo mau”. E o BE
lamentou a tentativa de legislar à pressa uma “mudança profunda no pilar não
contributivo” do Estado social.
***
O
PS dourou a pílula à PSU e anunciou acompanhamento e fiscalização, não sei se por "acordoscópio", se por "acordómetro", por "acordógrafo" ou por outro instrumento.
2026.06.25
– Louro de Carvalho