A
24 de março, o presidente da Assembleia da República (AR), José Pedro Aguiar-Branco,
convocou os deputados para a sessão solene comemorativa do cinquentenário da aprovação
e da promulgação da Constituição da República Portuguesa (CRP), que passa a 2
de abril, e convidou, além das entidades habituais, nestas sessões parlamentares
solenes, 95 deputados da Assembleia Constituinte (AC), que foi eleita a 25 de
abril de 1975, dia do primeiro aniversário da Revolução dos Cravos, o 25 de
Abril.
Segundo
fonte da AR, em resposta a perguntas da agência Lusa, foi enviado um
total de 460 convites. As figuras institucionais serão as habituais em sessões
solenes, ou seja, o Presidente da República, o governo, os deputados, os antigos
chefes de Estado e governantes, os ex-presidentes da AR, os presidentes do
Supremo Tribunal de Justiça (STJ) e do Tribunal Constitucional (TC), entre
outros. E, em sessões solenes passadas, como a que assinala, anualmente, o 25
de Abril de 1974, mas também a que assinalou os 200 anos da Constituição de
1822, intervieram os partidos, o presidente da Assembleia da República e o
Presidente da República.
Como
nas comemorações do 25 de Abril, o destaque vai, usualmente, para os “Capitães de
Abril”, esta cerimónia releva os antigos deputados à Assembleia Constituinte.
A
2 de abril de 1976, os 250 deputados da Assembleia Constituinte, fruto das
primeira eleições livres, após a ditadura, aprovaram a Constituição da
República Portuguesa (CRP), com apenas os votos contra do partido do Centro Democrático
Social (CDS) – mas que tem votado a favor, todas as leis de revisão –, tendo quebrado,
então, a desejável unanimidade dos votos favoráveis do Partido Socialista (PS),
do Partido Popular Democrático (PPD), atual Partido Social Democrata (PSD), do
Partido Comunista Português (PCP), do Movimento Democrático Português /
Comissão Democrática Eleitoral (MDP/CDE), da União Democrática Popular (UDP) e
da Associação para a Defesa dos Interesses de Macau (ADIM). E o Presidente da República,
general Francisco da Costa Gomes, promulgou-a, nesse mesmo dia, na última
sessão da Assembleia Constituinte, no hemiciclo.
A
CRP ou Lei Fundamental entrou em vigor a 25 de abril de 1976 e mantém-se até
hoje, tendo sido revista sete vezes. Com ela foram instaurados os princípios
basilares do regime democrático, como a separação e a interdependência de
poderes, o voto universal, assim como direitos fundamentais, como o direito à
vida, à integridade pessoal e ao nome, à liberdade de expressão, à habitação, ao
trabalho, à saúde, à educação, à cultura e à proteção social, entre muitos
outros, que não eram reconhecidos antes da Revolução dos Cravos.
A
sessão solene em causa ocorre numa data em que, irresponsavelmente, a AR não
terá resolvido, em definitivo, o impasse criado pela falta de atendimento dos líderes
partidários – nomeadamente, entre o PS e o partido do Chega, que o PSD não
soube moderar – sobre a escolha dos três elementos em falta no TC, órgão criado
pela Lei Constitucional n.º 1/82, de 30 de setembro, que procedeu à primeira revisão
da CRP. Entretanto, é do conhecimento público que a conferência de líderes parlamentares
marcou, para 17 de abril, a eleição para os três elementos do TC em falta, para
os seus representantes no Conselho de Estado e para o provedor de Justiça, devendo
as repetitivas listas ser entregues na AR, até 2 de abril.
***
Por
seu turno, o Presidente da República (PR), também a 24 de março, convocou o
Conselho de Estado, órgão de consulta do PR – criado pela Lei Constitucional
n.º 1/82, de 30 de setembro – para 17 de abril, pelas 15h00, no Palácio de
Belém. Segundo nota da Presidência da República, a reunião versará o tema “Segurança
e defesa”, num momento marcado por crescente instabilidade internacional e
reforço das preocupações europeias com a área militar.
Com
efeito, António José Seguro tinha anunciado, em campanha eleitoral, que pretendia
convocar o Conselho de Estado, mal chegasse a Belém, mas o impasse nas escolhas
pelos partidos atrasou a atualização da composição deste órgão consultivo do chefe
de Estado. Aliás, a informação saída de Belém aconteceu quando ainda não estavam
(nem estão) escolhidos os novos membros, nem da parte da AR, nem da parte do
PR, e no dia em que os líderes parlamentares discutiam novas datas para a
entrega de listas e para as eleições.
É
de recordar que o Conselho de Estado é o órgão político de consulta do PR e
integra, entre outros, o presidente da AR, o primeiro-ministro (PM), o
presidente do TC e cinco personalidades designadas pelo PR e cinco pela AR.
Ora, se a eleição pela AR voltar a derrapar, a reunião poderá realizar-se com
o órgão dotado das escolhas antigas da AR, mas o chefe de Estado pode
apresentar as suas escolhas. A AR continua sem eleger cinco representantes para
o Conselho de Estado, um processo sucessivamente adiado, por falta de acordo
entre os partidos para a eleição de dezenas de órgãos, incluindo os juízes do TC
e o Provedor de Justiça.
Entretanto,
a conferência de líderes na AR discutiu, a 25 de março, a data da eleição. Ora,
apesar de haver acordo sobre a nova data, tem de haver, ainda, audições para
alguns dos cargos, pelo que ainda demorará até à eleição, se for bem sucedida.
Contudo, apesar de o calendário ser apertado, há a possibilidade de os novos
membros – os cinco escolhidos pelo PR, que ainda não são conhecidos, os cinco
eleitos pela AR e o novo provedor de Justiça, se entretanto forem eleitos –
tomarem posse antes da reunião marcada por António José Seguro.
Se
a situação continuar bloqueada, o primeiro Conselho de Estado do novo PR arrancará
condicionado por um impasse político que se arrasta desde o início da
legislatura, o que não abona em prol do prestígio da AR, enquanto polícroma representante
do eleitorado.
Entende-se,
pois, que o chefe de Estado, ao convocar o Conselho de Estado para 17 de abril,
pressione os partidos para um entendimento, sendo expectável que o seu discurso sobre os 50 anos da CRP reflita o
acordo já alcançado ou a necessidade de ele acontecer, pois estão em causa,
pelo menos, três órgãos relevantes no sistema político-constitucional. E a AR
tem obrigação de decidir, em nome do regular funcionamento das instituições democráticas.
***
Se
António José Seguro dá peso ao lógos presidencial, teremos um mês de abril intenso.
Ainda antes do discurso na sessão solene do 25 de Abril, o PR dirigir-se-á ao
Parlamento na sessão solene comemorativa dos 50 anos da CRP, a 2 de abril. Ou
seja, o seu primeiro discurso solene será no dia em que se celebra a
Constituição democrática, no dia em que os partidos têm de entregar as listas
de nomes para os principais órgãos externos em que a AR tem representantes, o que
apenas farão, se tiverem um entendimento.
A
falta de entendimento tem levado a adiamentos sucessivos (já houve quatro, pelo
menos) da apresentação das listas e da consequente data da votação. Desta vez,
a votação dos nomes para os diferentes órgãos do Estado está marcada para 16 de
abril, véspera do Conselho de Estado. O timing não foi mera coincidência,
segundo alguns observadores, uma vez que o PR deu nota pública da convocatória,
momentos antes de a conferência de líderes se reunir, para acertar nova data da
votação. O PR terá de empossar os novos conselheiros no dia da primeira reunião,
ou seja, a 17 de abril. Cinco nomes terão de ser indicados pela AR. Porém, estão
em funções Pedro Nuno Santos, Carlos César, André Ventura, Carlos Moedas e
Francisco Pinto Balsemão, já falecido. O mandato destes conselheiros terminou
com o fim da legislatura, em maio de 2025, mas não foram ainda substituídos. Na
reunião do Conselho de Estado, em janeiro, durante a campanha presidencial,
Pedro Nuno Santos disse que não estava mandatado, mas, na posse do novo PR,
sentou-se na bancada dos conselheiros de Estado.
Outros
cinco nomes serão indicados pelo chefe do Estado, que o fará até ao dia da
posse, 17 de abril. E também Marcelo Rebelo de Sousa tem de ser empossado como
conselheiro de Estado, pois transita do lugar de PR para o lugar de
conselheiro, na qualidade de antigo Presidente. E ainda pode haver a posse do
provedor de Justiça, que é, por inerência, conselheiro de Estado e é outro dos
nomes com eleição pendente na AR. E tanto o PSD como o Chega admitiram que seja
o PS a indicar o nome do novo provedor, cargo que está por ocupar, desde junho,
quando Maria Lúcia Amaral o deixou para ser ministra da Administração Interna.
Ainda
antes do Conselho de Estado, o PR terá relevante presença na sua primeira
Presidência Aberta, na Região Centro afetada pelas tempestades, marcada para a
semana de 6 a 10 de abril. A convocatória do Conselho de Estado para a semana
seguinte a esse evento também não foi por mera coincidência. Como anunciou
em campanha, o PR quer que a sua primeira reunião daquele órgão restrito de
aconselhamento presidencial seja subordinada ao tema “Segurança e defesa”
incluindo as falhas do Estado verificadas em situações de calamidade, como
as que se sentiram durante o comboio de tempestades deste inverno.
A
intervenção de António José Seguro, na sessão solene dos 50 anos da CRP, ocorrerá
após os deputados únicos e os representantes dos grupos parlamentares
discursarem e após o presidente da AR usar da palavra. E o contexto do seu
discurso é o do impasse da AR em torno das indicações para os três lugares dos
juízes do TC que estão em falta, a par de dezenas de outras indicações para
entidades externas à AR, incluindo os cinco lugares de conselheiros de Estado. Tal
bloqueio resulta da nova configuração tripartida da AR, que faz com que,
pela primeira vez, na História da Democracia, o PS e o PSD deixem de ter a
maioria constitucional.
Efetivamente,
50 anos depois, a AR tem uma configuração diferente e desafiante, que tem levado
a impasses estruturais: o PSD, o Chega e a Iniciativa Liberal (IL) podem
acordar na indicação dos juízes em falta no TC, dispensando o PS de entrar na
equação. Até agora, vigorava o entendimento tácito entre o PS e o PSD para que
as 10 indicações da AR para o TC fossem repartidas, por igual, entre os dois
partidos. A nova configuração parlamentar está a levar a novos entendimentos. O
Chega divulgou o nome que propõe para o TC, o juiz Luís Brites Lameiras,
que é nome mais consensual, não se lhe conhecendo aproximações declarativas
ao partido populista de extrema-direita. O PS, no entanto, encara esta escolha
do PSD (preferir o Chega ao PS, que ainda tem quatro nomes da sua indicação no
TC), como momento definidor na relação de diálogo que tem mantido com
o executivo. Porém, era possível um acordo PSD-PS-Livre.
Nesta
circunstância, o PR tem mostrado preocupação com o impasse que se arrasta, há
meses, e que está a provocar vagas em órgãos de topo do Estado, e sugeriu um
guião entre a preservação dos equilíbrios de regime e o respeito pelo
novo quadro da AR, mas a competência das nomeações é da AR. A António José Seguro
apenas caberá dar posse aos eleitos.
Nas
reuniões com cada um dos líderes partidários, o PR manifestou preocupação com o
bloqueio institucional em torno da nomeação dos juízes do TC e de elementos de
outros órgãos do Estado. Aliás, já no seu discurso da tomada de posse, foi
claro, ao vincar que o país precisa do “contributo do maior número possível de
partidos políticos”, para que “seja viável”, e ao apelar à “maturidade
democrática”, sem que fossem apagadas “diferenças ideológicas”. E disse que
“tudo faria para incentivar entendimentos entre os diferentes responsáveis
políticos”, não “contra a democracia”, mas “pela democracia”.
Ora,
com o PSD a ameaçar resolver o impasse apenas com o Chega, cedendo-lhe a
indicação de um juiz do TC que outrora caberia ao PS, e com o PS a ameaçar pôr
fim ao diálogo com a Aliança Democrática (AD), se isso se consumasse, o
desfecho seria a rutura que o PR quer evitar, a todo o custo, em nome da
estabilidade. A vice-presidente do PSD, Leonor Beleza, saiu da reunião de Belém
a falar em “paciência democrática” para adaptação à nova realidade do sistema
político; José Luís Carneiro saiu com uma reunião marcada com o PM, para tentar
desatar o nó; e André Ventura saiu a queixar-se de que tinha acordo com o governo
(em que o Chega indicava um juiz e o PSD os outros dois em falta), até deixar
de o ter.
Há
três meses, ainda como candidato, Seguro disse, em entrevista ao Expresso,
que o regime democrático “ganhava”, se tivesse em conta o “equilíbrio” e o
“chão comum” em matérias sensíveis, como a Lei dos Estrangeiros ou a composição
do TC. E, questionado sobre se acharia suficiente o acordo PSD/Chega sobre os
juízes do TC, remeteu para a clara e reiterável afirmação dos seus princípios,
embora aceite as opções dos outros órgãos de soberania.
***
No
fim da reunião de líderes dos grupos parlamentares, o presidente da AR disse confiar
na “maturidade política” deles. Por sua vez, o deputado do Bloco de Esquerda
(BE), Fabian Figueiredo, criticou o impasse, sustentando que o país olha “atónito”
para esta indefinição, que tem como responsável o Chega, que insiste em fazer “braço
de ferro” com a AR, nesta matéria, pois o TC não é órgão de soberania de
tutela partidária, devendo ser escolhidos juízes de mérito e não extensões
de partidos. Assim, pediu ao PSD para não aceitar a indicação de elemento que
ponha em causa a democracia e ao PS para avaliar o seu posicionamento.
O
BE e o Livre entendem que está em curso um esforço para pressionar uma revisão
da CRP, em matéria social e económica, com apelos ao entendimento à
direita entre o PSD, o Chega e a IL. Por isso, convém que o PS faça autocrítica
e clarifique se quer viabilizar os orçamentos do Estado, ao mesmo tempo em que
a direita se entende sobre matérias centrais do regime democrático, sobretudo,
no atinente às liberdades individuais e coletivas.
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Os
acordos partidários tácitos ou os acordos de cavalheiros, se não revestirem a
forma de lei, não são convincentes. Por exemplo, as leis que regulamentam o funcionamento
dos órgãos autárquicos, estipulam que será presidente da junta de freguesia o cidadão
que encabeçar a lista do partido ou grupo independente mais votado para a respetiva
assembleia de freguesia, assim como será presidente da câmara municipal o cidadão
que encabeçar a lista do partido ou grupo independente mais votado para o executivo
municipal.
Já
por exemplo, as leis não estabelecem que ganha as eleições autárquicas o
partido que obtiver mais câmaras municipais, como não estabelece que do partido
mais votado resultará o chefe do governo. Por isso, o que vejo comentado sobre
um pacto entre o PS e o PSD, quanto à composição do TC, não tem consistência.
Porém, revela falta de bom senso democrático na opção do PSD, que poderia, em
nome da índole da CRP, deixar ao PS a indicação do novo juiz do TC; ou,
atendendo à composição tripartida da AR, ficar com a indicação de um juiz, dar
ao Chega a indicação de outro e ao PS a indicação de outro.
Na
verdade, há duas formas, pelo menos, de fazer a maioria constitucional (de dois
terços): AD e Chega; ou AD, PS e Livre. A opção está no PSD. Aliás, o PS (com
58 deputados) é a terceira força partidária parlamentar, mas não está tão
distante da segunda força, o Chega (com 60 deputados), como muitos analistas supõem.
Seja como for, o eleitorado merecia que a AR tivesse resolvido a questão com maior
rapidez: 11 meses em política são uma eternidade.
2026.03.25
– Louro de Carvalho