Assinalaram-se, a 11 de setembro, os 25 anos dos atentados que ensombraram Nova Iorque e Washington, aliás, os Estados Unidos da América (EUA) – atentados que que provocaram milhares de vítimas e desencadearam as duras guerras no Médio Oriente.
A 11 de setembro de 2001, a manhã solarenga de verão de Nova Iorque augurava um dia normal, mas um instante, que marcou a História, teve impacto na vida quotidiana de milhões de pessoas, nos EUA e no resto do Mundo. Às 08h46 (13h46, em Lisboa), surgiram os primeiros relatos: as televisões, como a CNN ou a CBS, interromperam a emissão e lançaram os alertas de última hora sobre “a colisão de um avião” com uma das torres do World Trade Center (WTC). A maior parte das testemunhas, ouvidas em dezenas de reportagens ou documentários, lembram que “ninguém sabia o que estava a acontecer”. Só entenderam que se tratava de um atentado, mais tarde, quando as televisões mostravam, em direto, ao Mundo o segundo avião a embater noutra torre do WTC. As Torres Gémeas foram destruídas.
Porém, o choque não se limitou a Nova Iorque. Outro avião, meia hora mais tarde, despenhou-se sobre o Pentágono. Das quatro aeronaves desviadas por terroristas, só uma não terá chegado ao destino. O voo 93 da United Airlines despenhou-se em Shanksville, no estado da Pensilvânia. Investigações subsequentes concluíram que os passageiros entraram em confronto com os terroristas a bordo. O avião teria por destino o Capitólio ou a Casa Branca. Das quase três mil pessoas que morreram, então, só pouco mais de 1600 foram identificadas.
No final dos anos 1980, Osama Bin Laden fundou o movimento extremista Al-Qaeda e, uma década mais tarde, a partir das cavernas do Afeganistão, declarou guerra aos EUA. Nascido em Riade, na Arábia Saudita, era filho de um empresário e investidor do ramo da construção civil. Criticava o apoio norte-americano a regimes do Médio Oriente, que classificava de “tirânicos” e “apóstatas”, como o próprio regime saudita, e sustentava que se tratava de “agressão ocidental contra os muçulmanos, em todo o Mundo”, segundo o The Guardian.
Nos anos 1990, houve vários atentados da autoria da Al-Qaeda contra embaixadas e bases dos EUA na África Oriental. A 26 de fevereiro de 1993, em território dos EUA, uma carrinha carregada de explosivos rebentou na garagem do WTC, causando a morte de seis pessoas. Mais de mil ficaram feridas. No início dos anos 2000, um ataque suicida quase afundou um navio de guerra norte-americano, ao largo do Iémen. E, mais tarde, o inquérito do Congresso destacou a incapacidade de altos responsáveis, incluindo o presidente George W. Bush, de agir, ante os avisos dos serviços de inteligência. E os documentos apontam falhas do FBI e da CIA na partilha de informações cruciais que impediriam a tragédia setembrina.
“Hoje, os nossos compatriotas, o nosso modo de vida, a nossa própria liberdade, foram atacados numa série de atos terroristas deliberados e mortíferos.” Foi com esta frase que o Presidente dos EUA, George W. Bush, iniciou o discurso que fez, a partir da sala oval, na Casa Branca, 12 horas após os atentados terroristas.
Nessa manhã, o então inquilino da Casa Branca estava de visita a uma escola primária na Florida. Sem compreender o que se passava, pediu para o manterem informado sobre o que estava a acontecer em Nova Iorque. Depois, desfizeram-se as dúvidas. O chefe de gabinete da Administração Bush foi dizer-lhe que um segundo avião colidiu com a segunda torre. E, pouco depois, percebeu que houve aviões desviados para Washington, obrigando-o a passar largas horas no ar, a bordo do Air Force One, antes de aterrar no Nebraska.
Três dias depois, Bush foi a Nova Iorque, ao local, hoje conhecido como “Ground Zero”. Ante milhares de trabalhadores, polícias e bombeiros, garantiu ao Mundo, no que foi muito aplaudido: “As pessoas que derrubaram estes edifícios vão ouvir-nos a todos, em breve.”
Menos de um mês após os atentados, surgiu a primeira resposta de Washington contra a Al-Qaeda. Sob as suas ordens, as forças dos EUA começaram a bombardear os campos de treino dos terroristas da Al-Qaeda e as instalações militares do regime talibã no Afeganistão. Estas ações, cuidadosamente direcionadas, como declarou o Presidente republicano, a 7 de outubro, tinham o objetivo de impedir que o Afeganistão fosse utilizado como base de operações terroristas e de enfraquecer a capacidade militar do regime talibã. E só ao fim de 20 anos, em 2022, é que os EUA saíram, definitivamente, do Afeganistão. Durante esse período, houve comparações “com o Vietname”, lembrando as consequências do conflito dos anos 1970.
Os analistas do Pentágono acreditavam que Osama Bin Laden estaria escondido nas montanhas afegãs, mas, só em 2011, foi localizado e morto numa operação das forças especiais norte-americanas no Paquistão.
Ao longo de duas décadas, foram milhares as vítimas – civis e militares – de uma guerra “sem fim”. E a Al-Qaeda ainda existe, lembra a BBC, sobretudo na África subsariana e, inclusive, com alguns membros no território afegão.
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Além dos milhares de norte‑americanos mortos no 11 de Setembro, dezenas de europeus perderam a vida e, 25 anos depois, alguns suspeitos não foram julgados. Porém, os atendados continuam enraizados na memória coletiva norte-americana, mais do que qualquer outra ocorrência dos últimos 25 anos. Uma sondagem da Ipsos refere que cerca de metade dos adultos nos EUA, cita o 11 de setembro entre os factos mais marcantes das suas vidas, à frente da pandemia de covid-19, das eleições de Barack Obama e de Donald Trump e do furacão Katrina, em 2005. E 90% sustenta que tais ataques mudaram o país “muito” ou “bastante”, com a maioria dos norte-americanos a lembrar-se de onde estava, quando recebeu a notícia.
Mesmo assim, apesar da ferida duradoura, apenas cerca de 1% tencionava assinalar, ativamente, o aniversário que se assinalou a 11 de setembro deste ano; e, entre os que o fizeram, um minuto de silêncio e o hastear da bandeira foram os gestos mais comuns.
A confiança na capacidade do governo para impedir um novo ataque também diminuiu, de forma constante, desde os níveis recorde registados nos dias que se seguiram a 2001.
As cerimónias decorreram nos três locais. Em Nova Iorque, familiares das vítimas reuniram-se na praça do Memorial para a leitura, em voz alta, dos nomes dos mortos, intercalada por sete momentos de silêncio, mais um do que em anos anteriores, acrescentado para homenagear os que, entretanto, morreram, devido a doenças associadas ao 11 de Setembro.
Quase três mil drones iluminaram o horizonte de Nova Iorque, durante um ensaio da instalação “Tribute in Light”, preparatória do 25.º aniversário dos atentados. Os aparelhos enchiam o céu noturno com formações em constante mudança sobre a cidade. E, no dia 11, foram utilizadas, ao todo, 2977 luzes, número que corresponde às pessoas mortas nos atentados. Os drones traçaram padrões sobre Nova Iorque, no âmbito do memorial anual.
Houve também cerimónias no Pentágono, em Arlington, e no Memorial Nacional do Voo 93, em Shanksville, na Pensilvânia.
Donald Trump não participou, desta vez, na cerimónia de Nova Iorque, preferindo discursar no Pentágono. Contudo, o vice-presidente James David Vance deslocou-se ao “Ground Zero”, área onde começaram as primeiras buscas de sobreviventes. Também os ex-presidentes Joe Biden, Barack Obama, Bill Clinton e George W. Bush foram à cerimónia de Nova Iorque.
Artistas que desenham a giz reuniram-se no Memorial Nacional do Voo 93, em Shanksville, na Pensilvânia, para criarem retratos dos 40 passageiros e membros da tripulação mortos a 11 de setembro. Cada desenho a constitui uma homenagem pessoal às vítimas do Voo 93 da United Airlines. Entre as obras está o retrato de um dos passageiros que participou na tentativa de recuperar o controlo do avião sequestrado. Outro artista desenhou a pessoa mais jovem a bordo do voo, dizendo que o trabalho tem forte significado pessoal. Os retratos são temporários e esbater-se-ão, gradualmente, enquanto estiverem expostos no memorial.
Também na Califórnia, quase três mil bandeiras dos EUA cobriram o relvado da Universidade Pepperdine, em Malibu, na comemoração anual “Wave of Flags” dos atentados, em homenagem às 2977 pessoas mortas. Os visitantes percorreram as filas de bandeiras, com mensagens de homenagem presas a alguns mastros. Efetivamente, cartões com a inscrição “We Remember” foram colocados entre as bandeiras, enquanto um expositor próximo convidava os visitantes a escreverem as suas próprias mensagens de tributo às vítimas.
Para alguns, a abreviatura “9/11” pode parecer estranha. A data foi o 11.º dia do 9.º mês, mas a convenção norte-americana de escrever as datas com o mês em primeiro lugar dá origem a “9/11”, o que coincide com o número de emergência 911 nos EUA.
Quase três mil norte-americanos (justamente, 2977) morreram nos atentados, mas, entre as vítimas, contavam-se centenas de cidadãos estrangeiros. As estimativas apontam para cerca de 372 vítimas não norte-americanas, oriundas de cerca de 60 países. O Reino Unido registou o maior número de mortos de qualquer país, além dos EUA, com 67 cidadãos mortos. A Alemanha, a Itália, a Irlanda e outros Estados europeus perderam igualmente cidadãos, muitos deles trabalhadores do setor financeiro que trabalhavam no WTC ou o visitavam.
A empresa norte-americana de serviços financeiros Cantor Fitzgerald ocupava os pisos 101 a 105 da Torre Norte do WTC, diretamente, acima da zona de impacto do voo 11 da American Airlines. Empregava vários europeus e, no total, 658 trabalhadores morreram nesse dia, a maior perda de vidas sofrida por uma só empresa.
O número de europeus mortos (131) nos atentados de 11 de setembro, por países, é: do Reino Unido – 67; da Alemanha – 11; da Itália – 10; da Irlanda – seis; da Polónia – seis; de Portugal – nove portugueses e lusodescendentes; da França – quatro; da Roménia – quatro; da então República Federal da Jugoslávia (a Sérvia e o Montenegro) – dois; da Suécia – dois; da Suíça – dois; da Bielorrússia, da Bélgica, da Lituânia, da Moldávia, dos Países Baixos, da Rússia, da Espanha e da Ucrânia – um, por país.
Durante os ataques, morreram os 19 sequestradores, sendo 15 cidadãos sauditas, dois dos Emirados Árabes Unidos (EAU), um do Egito e um do Líbano. Por detrás deles estava a mais ampla rede terrorista da al-Qaeda, que reivindicou, diretamente, a responsabilidade pelos atentados. O líder do grupo, Osama bin Laden, fugiu à captura, durante quase uma década, antes de ser morto por forças especiais dos EUA no Paquistão, em 2011. E o seu sucessor, Ayman al-Zawahiri, foi morto num ataque de drone em Cabul, em 2022.
Khalid Sheikh Mohammed, o “cérebro” do plano, foi capturado, no Paquistão, em 2003, e está detido na base de Guantánamo desde 2006, acusado de homicídio em primeiro grau de 2977 pessoas. Um juiz militar norte-americano marcou, agora, o início do julgamento, longamente adiado, para junho de 2028, juntamente com vários alegados coconspiradores, após ter falhado um acordo de confissão, em 2024, que previa que os arguidos admitissem culpa, em troca da retirada da pena de morte das opções de condenação.
O processo arrasta-se, marcado por disputas sobre provas obtidas mediante o recurso a tortura, incluindo simulações de afogamento, em locais secretos da CIA.
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À hora dos ataques, o jornalista Henrique Mano estava em Nova Jérsia, na redação jornal Luso-Americano, o mais antigo jornal de língua portuguesa em publicação contínua nos EUA.
Nova Iorque, onde dois aviões se despenharam contra as Torres Gémeas do WTC, ficava do outro lado do rio. As torres acabaram por colapsar. “Primeiro, durante umas horas, não se sabia bem o que se tinha passado, quantos aviões mais iriam cair. […] Foi uma sensação de insegurança também muito grande. De certa maneira, de perda e de não acreditar que um ataque terrorista daqueles pudesse acontecer com aquele requinte”, recorda o jornalista.
O resto do dia foi passado a refazer a edição do jornal que ia ser publicada no dia seguinte, uma edição ainda com mais perguntas do que respostas sobre o que estava a ocorrer. Todos os acessos a Nova Iorque estavam fechados. Henrique Mano só conseguiu pôr-se a caminho de casa no dia seguinte. Mas, antes, passou por uma comunidade portuguesa das zonas de Tribeca e Soho, a poucos minutos do WTC. Estavam aflitos, porque eram amigos de um casal que tinha um filho que trabalhava nas torres e do qual nada sabiam.
O jornal, que iniciou uma investigação de dois anos para identificar e escrever as histórias das vítimas portuguesas e luso-americanas, identificou nove pessoas, no total. Não foram encontrados os corpos de todas as vítimas. É esse, por exemplo, o caso de João Aguiar Júnior, de 30 anos, que trabalhava no setor financeiro e que salvou a vida de colegas. Percebeu que tinham de sair do prédio, andou pelo escritório a pedir a todos para saírem, aquelas pessoas com quem trabalhava saíram, ele assegurou-se de que elas chegaram ao elevador e elas sobreviveram. Porém, quando o segundo avião embateu no edifício onde se encontrava, a Torre Sul, ele ainda não tinha conseguido escapar.
A história de João Aguiar Júnior foi imortalizada num dos capítulos do livro “The Hidden Brain” (“O Cérebro Oculto”), de Shankar Vedantam.
Das nove vítimas identificadas pelo jornal, apenas uma, Christopher Mello, estava num dos aviões sequestrados. Viajava com um colega no AA11 da American Airlines, que embateu na Torre Norte. Estava numa viagem de trabalho a caminho de Los Angeles.
Henrique Mano também cobriu outras histórias do 11 de Setembro, com enfoque na comunidade luso-americana, desde os que escaparam à morte por acaso, salvos pela pausa para fumar ou por atraso a chegar ao emprego, até a pessoas envolvidas nas operações de salvamento e de remoção dos escombros. Aliás, a montanha de escombros e o cheiro que dali emanava foram o que mais o impressionou, nos primeiros dias.
No fim de setembro de 2001, a família de João Aguiar Júnior fez uma cerimónia de despedida, junto à praia, em Nova Jérsia. Alguns colegas de trabalho estiveram presentes e tinham quase um pouco de culpa de sobreviventes, porque eles estavam na cerimónia e ele não.
No 25.º aniversário, Henrique Mano voltou a escrever sobre as vítimas e testemunhas do 11 de Setembro no jornal Luso-Americano. Porém, tantos anos depois, vão surgindo histórias novas. “Agora surgiu o nome de uma mulher que estou a tentar investigar, tentar saber se ela é ou não de origem portuguesa. […] É sempre uma caixa de Pandora inacreditável”, diz, vincando a dificuldade de chegar aos familiares.
Se confirmada, esta será a 10.ª vítima portuguesa e a primeira mulher, numa tragédia que, no dizer do jornalista, “afetou tanta gente de formas tão diferentes que a gente nunca sabe”.
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Agora, o Mundo está polvilhado ameaças híbridas, de guerras, de guerrilhas, de terrorismo e de contraterrorismo, com as liberdades e a segurança/defesa em desequilíbrio.
2026.09.11 – Louro de Carvalho