As Forças Armadas dos Estados Unidos América (EUA) informaram, na noite de 27 para 28 de maio, que realizaram novos “ataques defensivos” contra o Irão, depois de Donald Trump, ter afirmado que Teerão está “a negociar no limite”.
Segundo
o Comando Central norte-americano (Centcom), foram atingidos quatro drones
iranianos de ataque unidirecional, que representavam uma ameaça na zona do
estreito de Ormuz e uma estação de controlo terrestre iraniana, em Bandar Abbas,
que se preparava para lançar um quinto drone. Este novo ataque, o segundo em
três dias, ocorre no contexto do cessar-fogo frágil, que dura há várias semanas,
e de conversações para pôr termo à guerra, que dura há quase três meses, e para
chegar a um acordo que permita reabrir o estreito de Ormuz.
Pormenores
do ataque surgiram depois de o inquilino da Casa Branca, numa reunião de
governo, ter manifestado confiança de que a sua administração está a fazer
progressos para pôr fim à guerra, embora tenha avisado, mais tarde, que os EUA “terão
de acabar o trabalho”, se as conversações falharem. “Eles querem muito chegar a
um acordo. […] Até agora, ainda não chegaram lá. Não estamos satisfeitos, mas
vamos ficar. Ou isso ou teremos, simplesmente, de acabar o trabalho”, prometeu
o presidente dos EUA.
Os
ataques de 27 para 28 de maio surgem também numa altura em que o líder
norte-americano acelera a campanha, antes das eleições intercalares de novembro,
nos EUA, e em que os republicanos receiam que o aumento dos custos e dos preços
dos combustíveis esteja a deteriorar o estado de espírito do eleitorado. E
alguns analistas sustentam que Trump procura um argumento credível para convencer
o eleitorado de que foi suficientemente reduzida a capacidade nuclear do Irão e
para declarar vitória, encerrando um conflito politicamente impopular. Todavia,
como as coisas estão, o presidente dos EUA arrisca-se a descobrir que o
desfecho da guerra que escolheu travar poderá ser pouco satisfatório.
Alguns
pormenores do acordo em preparação já expuseram o presidente norte-americano a
duras críticas, inclusive de alguns dos seus apoiantes, segundo as quais os
dirigentes da chamada linha dura do Irão sairão do conflito abalados, mas
fortalecidos.
Donald
Trump rejeitou a ideia de que as próximas eleições possam moldar a sua
estratégia para o Irão e declarou que não quer saber das eleições intercalares.
Ao mesmo tempo, insiste que o acordo está ao alcance, apesar das aparentes
diferenças significativas entre os EUA e o Irão, em várias questões-chave,
entre as quais o destino das reservas iranianas de urânio e a guerra de Israel
contra o Hezbollah, no Líbano, que Teerão quer ver terminada.
No
âmbito do possível acordo, Teerão aceitaria abdicar das suas reservas de urânio
altamente enriquecido – a exigência central de Trump – em troca de um alívio
das sanções. O presidente dos EUA afirmou, no dia 27, que “não ficaria
confortável”, se fosse a Rússia ou a China a receber as reservas iranianas de
urânio altamente enriquecido. Porém, estes dois países mantêm as relações mais
estreitas com Teerão e analistas nucleares têm defendido que poderiam ser um
terceiro interveniente aceitável para a República Islâmica receber o urânio
enriquecido, no quadro de um eventual acordo.
Segundo
a Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), o Irão possui 440,9 quilos
de urânio enriquecido até 60% de pureza, a um pequeno passo técnico dos níveis
de 90% exigidos para armamento nuclear. E Teerão não se comprometeu,
publicamente, a abdicar do seu urânio.
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Entretanto,
um responsável da Marinha da Guarda Revolucionária do Irão ameaçou transformar “a
zona entre Chabahar e Mahshahr num cemitério para agressores”, ou seja, transformar
toda a costa iraniana do Golfo num campo de morte, se os EUA retomassem os
ataques, embora mediadores digam que as partes estão mais perto de um acordo
inicial do que em qualquer momento, desde o cessar-fogo de abril.
Chabahar
e Mahshahr, entre as quais se situa o Estreito de Ormuz, são cidades portuárias
iranianas em extremos opostos da longa linha costeira do país, que se estende
por cerca de 1500 quilómetros, desde o golfo de Omã até ao fim do Golfo
Pérsico.
“Os
nossos combatentes trazem, hoje, no peito o desejo de travar combate corpo a
corpo com o inimigo”, declarou, citado pela agência noticiosa Tasnim, o
adjunto político da Marinha da Guarda Revolucionária, Mohammad Akbarzadeh,
vincando que as forças armadas iranianas se encontram em plena prontidão e
descrevendo como remota a possibilidade de uma nova guerra, atribuindo-a ao que
qualificou de “fraqueza” do lado adversário, que sofreu, na ótica de Teerão,
uma derrota estratégica no estreito de Ormuz.
“Afirmaram
que conseguiriam reabrir o Estreito de Ormuz, mas, depois do encerramento desta
via marítima, mesmo com todo o seu poder, não conseguiram fazer nada”, prosseguiu
Mohammad Akbarzadeh, explicitando: “Os Americanos pensam que podem falar com a
República Islâmica na linguagem da força, mas, ao que parece, ainda não
aprenderam que não se deve falar com os Iranianos na linguagem das ameaças.”
Por
sua vez, um responsável do Pentágono avaliou que o bloqueio naval
norte-americano prejudicou receitas petrolíferas do Irão no valor de cerca de cinco
mil milhões de dólares.
As
negociações entre Teerão e Washington sobre um acordo preliminar estarão, agora,
mais próximas de uma conclusão do que em qualquer outro momento, desde a
entrada em vigor do cessar-fogo, a 8 de abril, embora o controlo do Estreito de
Ormuz e a questão nuclear continuem a ser as duas áreas em que nenhum dos lados
cedeu nas suas exigências.
A
falar a partir de Moscovo, onde participou numa conferência sobre segurança, o
secretário-adjunto do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irão, Ali
Bagheri Kani, afirmou que as duas partes ainda não tinham chegado a acordo
sobre o levantamento do bloqueio. E disse que as reservas de urânio enriquecido
de Teerão não estavam em cima da mesa das negociações e confirmou que o Irão e
Omã mantinham conversações separadas, sobre um novo procedimento de passagem de
navios pelo Estreito de Ormuz.
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O
presidente dos EUA diz estar insatisfeito com as propostas de Teerão, mas sem
pressa, enquanto a Casa Branca qualificou como “pura invenção” uma notícia da
televisão estatal iraniana sobre um rascunho de acordo.
Numa
reunião com a administração na Casa Branca, Donald Trump frisou que não tem
pressa em chegar a um entendimento para terminar a guerra no Irão, apesar de
ter dito, a 23 de maio, que um acordo estava próximo e de continuar a fazer
pressão.
O
Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) reagiu mais cedo às ameaças de
retomar as operações militares lançadas pelos EUA e por Israel a 28 de
fevereiro e suspensas em abril, afirmando que transformaria a sua costa num
“cemitério para os agressores”.
Donald
Trump diz que o Irão está “a negociar já sem fôlego”. A televisão estatal
iraniana referiu que o esboço de um memorando de entendimento com Washington
inclui o compromisso de levantar o bloqueio naval ao Irão, de restabelecer o
tráfego no Estreito de Ormuz e de retirar as forças norte-americanas do Golfo
Pérsico, o que os EUA classificam de “pura invenção”.
Trump
afirmou que “ninguém”, incluindo Teerão, controlará o Estreito de Ormuz e
rejeitou notícias de que o Irão e o sultanato de Omã poderiam gerir um sistema
de portagens para aquela via marítima estratégica.
O
líder norte-americano, que faz 80 anos, em junho, chegou a dizer que “Omã vai
portar-se como todos os outros ou teremos de os fazer explodir”, num comentário
aparentemente dirigido ao Irão, e sugeriu que um eventual acordo com o Irão
poderá ficar dependente da sua pressão para que a Arábia Saudita e outros
países assinem os Acordos de Abraão, que normalizam relações com Israel. “Não
sei se devemos fazer o acordo se eles não assinarem”, disse Trump.
Os Acordos
de Abraão ou Pacto Abraâmico são acordos bilaterais sobre a
normalização árabe-israelita, assinados entre Israel e os Emirados Árabes
Unidos (EAU) e o Bahrein, a 15 de setembro de 2020. Mediado pelos EUA,
o anúncio inicial de 13 de agosto de 2020 dizia respeito apenas a Israel e aos
EAU, antes do anúncio de um acordo de acompanhamento entre Israel e o
Bahrein, a 11 de setembro de 2020. O acordo inicial de Israel com os EAU marcou
a primeira vez que Israel estabeleceu relações diplomáticas com um país árabe,
desde 1994, quando entrou em vigor o Tratado de Paz Israel-Jordânia.
O
inquilino da Casa Branca pretende que todos aqueles países integrem os Acordos
de Abraão, porque devem isso aos EUA.
É
de lembrar que o presidente dos EUA tem repetido que lançou a guerra no Irão,
para impedir Teerão de obter uma arma nuclear. Por outro lado, pareceu
confirmar informações de que o acordo em discussão pode adiar a questão das
reservas de urânio enriquecido do Irão, ao mesmo tempo que abre o Estreito de
Ormuz, crucial para o tráfego de petróleo. “Sim, em parte aceitaria isso”,
disse Trump, ao ser questionado se aceitaria, para já, um acordo que apenas
preveja novas negociações sobre o urânio, “porque é um memorando de
entendimento para acelerar o processo”.
O
secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, sentado ao lado de Trump,
disse que houve “alguns progressos e algum interesse” nas conversações com o
Irão. “Veremos, nas próximas horas e dias, se é possível avançar”, salientou.
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Outra
frente da guerra norte-americana é Omã, aliada dos EUA, que Donald Trump ameaça
fazer explodir Omã, caso este país se alie ao Irão, no controlo sobre Ormuz. É,
efetivamente, desta forma que o líder norte-americano reage às negociações
entre Mascate e Teerão por mecanismos regulatórios na via estratégica que escoa
cerca de um quinto do petróleo global.
“Omã
vai comportar-se como todos os outros, ou teremos de os explodir. Eles
entendem. Eles vão ficar bem”, comentou Donalda Trump, nestes termos, durante uma
reunião, na Casa Branca, a ação do governo omanense, acrescentando: “Ninguém
vai controlar isso. Vamos ficar de olho nele. Vamos monitorar, mas ninguém vai
controlar. Isso faz parte da negociação que temos. Eles gostariam de
controlá-lo [o Estreito de Ormuz].”
O
alerta veio após relatos de que Mascate e Teerão estavam a discutir a implementação
de um sistema de taxas para embarcações que transitam pelo Estreito.
Embora
inicialmente houvesse especulação de um erro verbal na mensagem de Trump contra
Omã, o Departamento de Estado norte-americano compartilhou uma transcrição
oficial, nas suas redes sociais, validando a referência ao país árabe.
Omã
havia atuado anteriormente como mediador-chave entre Washington e Teerão, procurando
uma solução para a guerra que começou em 28 de fevereiro, quando os EUA e
Israel lançaram os seus ataques contra o Irão. Em resposta à ofensiva, Teerão fechou
o Estreito de Ormuz e impôs controlos mais rigorosos, após o anúncio dos
EUA de um bloqueio naval dos seus portos, uma medida que o Irão condenou por ilegal
e por ser um ato de pirataria marítima.
Entretanto,
uma análise do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) alerta
que os EUA podem precisar de anos, para reconstruírem os seus arsenais de
mísseis, esgotados durante a campanha militar de 40 dias contra o Irão, tendo
essas carências criado uma “janela de vulnerabilidade”, ante um possível
conflito no Pacífico Ocidental.
Segundo
o estudo, reabastecer stocks-chave levará “meses e anos, dependendo do
sistema de armas.” Estima-se que os mísseis de cruzeiro Tomahawk, cujos stocks
só seriam recuperados no final de 2030 ou no início de 2031, foram implantados
em mais de mil unidades, assim como, entre 190 e 290, intercetadores THAAD e,
até 1430, mísseis Patriot foram usados, com entregas de substituição esperadas
apenas em 2029.
O
secretário da Defesa, Pete Hegseth, já havia anunciado essas preocupações. O
CSIS enfatiza que “o problema, hoje, não é dinheiro, mas tempo”, devido à
complexidade da expansão da capacidade produtiva e à demanda competitiva de
aliados, como a Ucrânia, a Arábia Saudita e a Alemanha, que também complicam o
reabastecimento.
Apenas
sistemas, como o míssil PrSM e os mísseis ar-superfície JASSM, apresentariam
uma recuperação mais rápida, no final de 2026 e em meados de 2027, respetivamente.
Mísseis lançados a partir de navios, incluindo o SM-3 e o SM-6, poderiam ser
recuperados até ao início de 2029, devido ao seu baixo uso, durante o conflito.
O
fechamento do Estreito de Ormuz causou severas interrupções no fluxo global de
energia e uma volatilidade significativa nos preços do petróleo bruto, afetando,
diretamente, as economias ocidentais, incluindo os EUA, no meio de negociações
que se arrastaram sem um resultado claro. A crise de munição enfrentada pelos EUA
pode desempenhar um papel, na nova escalada das tensões entre os EUA e o Irão, com
os dois novos ataques lançados pelas forças armadas norte-americanas a violar o
cessar-fogo vigente.
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Sem
meias medidas, o IRGC do Irão realizou, no dia 28, um ataque militar
retaliatório contra posições estratégicas dos EUA, em resposta direta ao bombardeamento
das forças norte-americanas contra o território iraniano, em nova escalada do
conflito, durante as negociações, e teve como alvo uma base aérea dos EUA
identificada como ponto de origem do ataque anterior de Washington à cidade de
Bandar Abbas.
Segundo
a emissora estatal iraniana IRIB, uma base norte-americana no
Kuwait “serviu como fonte do ataque”. O exército do Kuwait confirmou que as suas
defesas aéreas estavam a intercetar mísseis e drones, pouco antes das 6h00 da
manhã, na cidade do Kuwait.
“Esta
resposta constitui um aviso sério ao inimigo: nenhum ato de agressão ficará
impune e, se for repetido, a nossa resposta será ainda mais contundente”, alertou
o IRGC, em comunicado, citado pela agência Tasnim, sem maiores detalhes
táticos sobre a operação.
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Em
suma, a guerra no Médio Oriente prossegue ou faz pausa, de acordo com a vontade
dos líderes de Washington e de Teerão, que parecem dar, nas negociações, um
passo para a frente e dois para trás. Entre a esperança de êxito ou o ceticismo
num acordo duradouro e as ações militares, sobressaem, como vimos, as ameaças
de pulverização ou de mortandade. Aliás, Donald Trump chegou a prometer
destruir, numa noite, toda uma civilização!
Entretanto,
países ocidentais continuam a enviar armas para Israel, para a sua guerra com o
Hezbollah, enquanto o acordo de pacificação de Israel com o Hamas está a
marinar, sob a presença das tropas israelitas, que, de vez em quando, “dialogam”
com o Hamas, em termos bélicos, sob acusações mútuas de quebra do acordo.
Está
visto que os limites da guerra são demasiado ténues e as linhas vermelhas dificilmente
são respeitadas. E parece que a multiplicação de negociações serve para
distrair das ações bélicas.