Na
madrugada de 15 de outubro, manifestantes pelo direito à habitação e agentes da
Polícia de Segurança Pública (PSP) entraram em confronto na Praça D. João I no
Porto, depois de a polícia ter sido mobilizada para retirar as tendas do local,
bem como os que ali estavam acampados. O movimento que organizou os protestos
em modo de acampamento denuncia mais de 30 feridos e a PSP alega
“comportamentos de resistência à atuação policial”.
Os
momentos de maior tensão terão ocorrido por volta das 03h00 da madrugada,
depois de a polícia chegar ao local para desmobilizar os manifestantes, com o
Movimento pela Habitação a denunciar intervenção policial “desproporcional e
injustificada”. “O movimento denuncia, veementemente, o uso de força extrema,
desproporcional e injustificada, durante a intervenção policial na ‘acampada’,
que se manteve, desde o primeiro momento, pacífica, sem nunca incitar à
violência”, indicou, em comunicado, referindo a existência de 37 feridos, em
resultado da operação, incluindo dois com gravidade que foram levados para o
hospital.
Por
seu turno, o comandante dos Bombeiros Voluntários do Porto confirmou que oito
pessoas foram assistidas no seu quartel, localizado perto da Praça D. João I.
Em
declarações à CNN Portugal, Leonor Figueiredo, representante do
movimento, garantiu que os manifestantes estavam no local “de forma pacífica”, pelo
que não vê justificação para a intervenção policial, sobretudo, nos termos em
que ocorreu. “Pedro Duarte [presidente da Câmara Municipal do Porto] disse que
ia ser implacável e pronto, já vimos, já percebemos a mensagem”, afirmou Leonor
Figueiredo, aludindo às declarações do autarca, no dia 14, que garantiu que não
iria permitir qualquer acampamento na cidade.
Fonte
do Comando Metropolitano da PSP do Porto confirmou que “houve necessidade de
uma intervenção mais musculada” no local. Nestes termos, um comunicado da PSP
relata que foi desencadeada uma operação policial, durante a madrugada, “tendo
solicitado aos manifestantes que cessassem o ruído e recolhessem as tendas, o
que continuaram a não fazer”.
“Durante
a intervenção, alguns participantes adotaram comportamentos de resistência à
atuação policial, procurando impedir o exercício das funções dos polícias no
local”, lê-se no documento divulgado pela força policial, que revelou a
existência de um agente da polícia ferido, tendo sido transportado para o
hospital, e que a PSP tem conhecimento de “feridos entre os manifestantes, não
sendo ainda possível indicar o seu número”.
A
PSP indicou que, perante a operação, será lavrado o “respetivo auto de notícia,
a remeter ao Ministério Público [MP], ao qual será junto o registo videográfico
dos incidentes”.
Vários
manifestantes permaneciam, desde o dia 10, naquela praça, chegando muitos deles
a dormir ao relento, depois de as tendas montadas no protesto inicial terem
sido retiradas pela autarquia. Porém, no dia 14, após uma assembleia popular,
decidiram manter o protesto, devido à crise da habitação, e voltar a montar
tendas, durante a noite.
À
CNN Portugal, Pedro Manuel, porta-voz do movimento indicou que a
primeira tentativa de retirar os manifestantes aconteceu pelas 02h00 da manhã, “através
de carros de limpeza”, utilizados para dispersar as pessoas presentes, e
garantiu que não houve qualquer altercação com as autoridades. “Fizemos um
cordão humano, pacificamente, para que não nos retirassem as tendas. […] Esperaram
a retirada da comunicação social e foram embora com as viaturas. […] Por volta
das 03h00 da manhã voltaram, fizemos novamente o cordão, pacificamente, para
garantir o nosso direito à manifestação e manter as tendas”, especificou o
porta-voz, sustentando que terá sido então que a polícia começou a “hostilizar
os manifestantes com brutalidade”, numa ação que considerou “criminosa”.
E,
citado pela agência Lusa, garantiu que há “autorização para a
manifestação até dia 20”.
Em
reação aos incidentes da última madrugada, o presidente da Câmara Municipal do
Porto defendeu a atuação das forças de segurança, alegando que esta foi
justificada, ante a “atitude provocatória” dos manifestantes. “Parece-me
absolutamente claro que a polícia se viu forçada a fazê-lo. Não tenho dúvidas
quanto a isso. […] Uma coisa é o direito à manifestação, o direito até ao
protesto. Outra, bastante distinta, é o desrespeito e o incumprimento,
designadamente, quando ele é ostensivo da lei”, afirmou Pedro Duarte aos
jornalistas.
Antes
da intervenção policial, a Câmara Municipal já tinha avisado que iria impedir
qualquer tipo de acampamento na cidade. “É evidente que a Praça D. João I não é
um parque de campismo e não vai transformar-se num parque de campismo. Vamos
ser absolutamente implacáveis com qualquer tentativa de colocação de tendas
naquela zona”, declarou o líder da autarquia, à margem de uma conferência no
Porto, citado pela agência Lusa.
E
disse que o “direito à manifestação não está em causa”, mas “não pode chocar
com a liberdade de todos os outros da cidade”. “A lei de Portugal é muito
clara, e diz que as manifestações não podem ultrapassar um determinado período,
geralmente, as 00h30”, reforçou.
O
primeiro-ministro, Luís Montenegro, em Bruxelas, para participar na reunião do
Conselho Europeu, afastou um cenário de polémica e reforçou a confiança nas
forças policiais do país que “são extraordinariamente criteriosas e
respeitadoras”. “As autoridades devem atuar […] com base nos princípios da
necessidade, da adequação e da proporcionalidade. E sempre que for necessário,
para garantir a autoridade pública e do Estado, naturalmente, agir perante as
ofensas que alguns cidadãos possam fazer sobre isso”, afirmou, vincando que as
pessoas têm direito à manifestação, mas é preciso “garantir que esse direito
não colide com outros direitos”.
Depois
dos protestos pela crise da habitação, na Espanha, e com as atuais
manifestações e tumultos em França, o primeiro-ministro rejeita comparações,
garantindo que não há cenário de “turbulência” no país. “Nós não temos essa
instabilidade, nós não temos esse nível de conflitualidade e não podemos cair
no erro de considerar que escassas pessoas dão, agora, uma ideia de um país que
parece que está agora em turbulência. Não está”, garantiu.
***
Parece-me
extemporânea a asserção de que o ministro da Administração Interna não teve
intervenção na operação policial em causa. Era o que faltava a direção nacional
e o comando metropolitano necessitarem da intervenção do governante. Não se
tratou de um bloqueio do país parecido com o ocorrido, aquando do bloqueio da
Ponte 25 de Abril, em 1994. Em casos como esse, o ministro teria de fornecer
orientação às forças da ordem e promover os meios de remoção do bloqueio, dando
cobertura política a toda a atuação.
É
lógico, pois, que a atuação da PSP para a remoção das tendas, durante o
protesto pelo direito à habitação, tenha sido coordenada pelo seu diretor
nacional, Pedro Moura, e pelo comandante municipal da PSP do Porto, Vítor
Rodrigues.
Naturalmente,
a manifestação e a intervenção policial, que fez 37 feridos entre os
manifestantes e um entre os agentes, teve como base legal o decreto-lei n.º
406/74, de 29 de agosto, que “garante e regulamenta o direito de reunião” e em
que é referido que as reuniões e manifestações em lugares públicos não podem
prolongar-se para lá das 00h30. Com efeito, “os cortejos e desfiles só poderão
ter lugar aos domingos e feriados, aos sábados, depois das 12 horas, e nos
restantes dias, depois das 19 horas e 30 minutos” (artigo 4.º); e “as reuniões
de outros ajuntamentos objeto deste diploma não poderão prolongar-se para além
das 0,30 horas, salvo se realizadas em recinto fechado, em salas de espetáculos,
em edifícios sem moradores ou, em caso de terem moradores, se forem estes os
promotores ou tiverem dado o seu assentimento por escrito” (artigo 11.º).
Contudo,
é oportuno referir que “as autoridades só poderão interromper a realização de
reuniões, comícios, manifestações ou desfiles realizados em lugares públicos ou
abertos ao público, quando forem afastados da sua finalidade pela prática de atos
contrários à lei ou à moral ou que perturbem, grave e efetivamente, a ordem e a
tranquilidade públicas, o livre exercício dos direitos das pessoas ou infrinjam
o disposto no n.º 2 do artigo 1.º” (ou seja,
“ofendam
a honra e a consideração devidas aos órgãos de soberania e às Forças Armadas”) (artigo
5.º, n.º 1); “em tal caso, deverão as autoridades competentes lavrar auto em
que descreverão ‘os fundamentos’ da ordem de interrupção, entregando cópia
desse auto aos promotores” (artigo 5.º, n.º 2).
Atualmente,
pouco se tem em conta a prática de atos contrários à moral (fala-se mais em
ética), mas, por analogia, deve exigir-se que os manifestantes não ofendem a honra
de ninguém, incluindo os órgãos do poder local e regional.
E,
admitindo que a ‘acampada’ tenha infringido a letra da lei, é de advertir que
sempre deve ser tido em conta o artigo 8.º do Código Deontológico do Serviço
Policial, que estabelece: “1. Os membros das Forças de Segurança
usam os meios coercivos adequados à reposição da legalidade e da ordem,
segurança e tranquilidade públicas, só quando estes se mostrem indispensáveis,
necessários e suficientes ao bom cumprimento das suas funções e estejam
esgotados os meios de persuasão e de diálogo. 2. Os membros das Forças
de Segurança evitam recorrer ao uso da força, salvo nos casos expressamente
previstos na lei, quando este se revele legítimo, estritamente necessário,
adequado e proporcional ao objetivo visado. 3. Em especial, só
devem recorrer ao uso de armas de fogo, como medida extrema, quando tal se
afigure absolutamente necessário, adequado, exista, comprovadamente, perigo
para as suas vidas ou de terceiros e nos demais casos taxativamente previstos
na lei.”
Embora
o diploma que garante e regulamenta o direito de reunião não tenha previsto
situações com a ‘acampada’, elas têm ocorrido, sobretudo, em Lisboa, sem
incidentes de maior, por vezes, com a presença solidária de algumas personalidades.
Por outro lado, a crise da habitação tornou-se grave problema existencial,
porque o rendimento da maior parte das pessoas não acompanha o aumento colossal
do custo de vida (ironicamente, há muitos pobres com emprego e sem dinheiro
para a comida, para o vestuário, para a renda de casa, etc.). Portanto, a
solução não passa pelo levantamento de tendas, pela bastonada e pela discussão
sobre a lei de reunião.
Impõe-se
que os governos tomem medidas atinentes ao aumento da oferta de habitação (pública
e privada), sobretudo onde dela mais se carece, travem a especulação imobiliária,
façam reverter a degradação de prédios devolutos, apoiem as rendas dos que
precisam de auxílio e deem poderes aos reguladores bancários para instarem a banca
à moderação no custo do crédito à habitação. E, enquanto isso não é possível, devem tentar o
diálogo com os manifestantes, que não são terroristas, embora possam estar
apoiados por elementos que a crise não atinge.
Em
relação ao autarca portuense, talvez fosse útil comparecer, com escolta
policial, mas para ter uma palavra de conforto e de compreensão pelos que
sentem a agrura da crise.
O
diretor nacional da PSP lembrou que a manifestação estava autorizada até às
00h30 e que, após essa hora, já não era permitido continuar no local com
tendas. Como os manifestantes não retiraram as tendas, foi ativada a
intervenção policial “devidamente proporcional” (diz). Porém, confrontado com
as imagens de manifestantes feridos com as bastonadas da PSP, Pedro Moura
considerou que a atuação policial foi adequada ao que os manifestantes fizeram.
Vídeos
com imagens da intervenção mostram a força policial a afastar os manifestantes
da zona central da praça, para abrir caminho para os serviços de limpeza
retirarem as tendas e outros bens. Noutro momento, mostram uma carga policial
sobre alguns manifestantes dispersos.
Os
manifestantes protestam, há vários dias, naquele local, pelo direito à
habitação. E Margarida Ferreira, uma das advogadas que defende o movimento, disse
ao Expresso que “as pessoas não tinham despacho da Câmara a permitir
tendas”, apesar de a concentração estar autorizada, mas que foi “foi
deliberado, em assembleia, que as pessoas queriam lá ver tendas”, o que tornou
a situação “juridicamente mais fragilizada”.
Por
outro lado, refere conversas entre os advogados e os agentes da PSP, a fim de
“precaver as situações que, eventualmente, pudessem ocorrer”, porque havia,
entre os manifestantes, “pessoas sem-abrigo, pessoas com necessidades especiais
e com deficiência, ou seja, pessoas vulneráveis”, aos quais foi dito que, desde
que não houvesse ruído, poderiam permanecer com as tendas, mas a PSP acabou por
intervir, perto das 03h00 da manhã.
É
caso para questionar a Câmara se os sem-abrigo têm de sair da rua, de noite.
Para
um manifestante que não integra a organização, a intervenção foi “desproporcional”:
“As pessoas acataram o pedido inicial de retirada de tendas e, apesar disso, [os
agentes] avançaram, agrediram, atiraram objetos contra as pessoas e deitaram
bens e pertences ao lixo”, refere. E o comunicado do movimento relata que “foi
formado um cordão humano pacífico”, e que já havia pessoal “a obedecer à ordem
de retirada das tendas e a desmontá-las”.
***
Após
cinco noites de protesto no Porto, marcadas por duas intervenções policiais, o
movimento “Acampada pela Habitação” prepara-se para chegar à capital. A
primeira concentração está marcada para o dia 17, às 17h00, no Rossio, e a
intenção é, tal como na Invicta, permanecer até haver respostas do governo. E uma
página de Instagram dedicada à ‘Acampada Lisboa’ exibe cartaz com o
mesmo apelo: “Não consegues pagar a renda? Então monta a tua tenda!” E a intenção
não é ficar só uma noite. Adriana Lima, uma das organizadoras da iniciativa em
Lisboa diz que o primeiro passo será uma assembleia popular, aberta a todos os
que se juntarem à concentração, para decidir como decorrerá o protesto e para discutir
as reivindicações.
Além
disso, para o dia 18, às 15h00, está convocada uma Assembleia Popular da
Habitação, no Largo de São Domingos, pelo movimento Casa para Viver. Embora os
dois protestos partilhem reivindicações e possam até realizar-se em locais
próximos, são organizados separadamente. “Estamos juntos, na mesma causa, mas
não funcionamos completamente articulados”, esclarece um dos porta-vozes da
plataforma Casa para Viver, Nuno Ramos de Almeida.
Mariana
Guedes, uma das manifestantes que tem pernoitado na praça D. João I, no Porto,
diz que espera que os protestos de Lisboa sejam recebidos de forma diferente
dos do Porto, quando, na madrugada do dia 15, a PSP investiu sobre os
manifestantes, tendo dessa atuação resultado vários feridos. E garante: “Isto
não vai acabar.”
***
O
Presidente da República, ante os jornalistas, em Ljubljana, na Eslovénia, onde
participa na sua primeira reunião do Grupo de Arraiolos, disse compreender as
preocupações de quem se manifesta pelo direito à habitação. Lembrou que a
Constituição garante o direito à livre expressão, mas salientou que esse
direito tem de ser exercido dentro da lei e repetiu o apelo a entendimentos
entre os partidos, pois todos “os responsáveis políticos têm a obrigação de
colocarem em cima da mesa soluções para resolver o problema da habitação no
nosso país”.
Por
sua vez, os partidos à esquerda pedem “esclarecimentos” ao ministro da
Administração Interna sobre a atuação da PSP no Porto, na última madrugada. E José
Luís Carneiro vincou a importância de se perceber se a “intervenção foi feita
com proporcionalidade”.
Uma
coisa é certa: à bastonada não se constroem casas.
2026.10.15
– Louro de Carvalho