sexta-feira, 4 de setembro de 2026

UE tenta reforçar o alargamento, após o voto negativo da Islândia

 

A 29 de agosto, os eleitores islandeses rejeitaram, por margem estreita, reabrir as negociações de adesão com Bruxelas, suspensas desde 2013, com 52,8% contra 47,2%, infligindo significativo golpe às ambições de alargamento da União Europeia (UE), particularmente, junto dos seus vizinhos mais ricos. Altos responsáveis da UE minimizam o impacto negativo do voto islandês, e os ministros dos Assuntos Europeus dos Estados-membros da UE e dos países candidatos reuniram-se, a 4 de setembro, num encontro informal, organizado pela presidência irlandesa do Conselho da UE, em Dublin, na Irlanda, para debate do processo de alargamento, pois Bruxelas visa manter e reforçar o seu impulso dos seus esforços para países candidatos.

Questionada se o resultado do referendo islandês significava que a UE se tornou menos atrativa, a comissária para o Alargamento, Marta Kos, negou, salientando que, nos últimos oito meses, se registaram mais progressos na adesão de novos membros do que nos 25 anos anteriores. “Esta dinâmica vai prolongar-se no outono. […] Lamento a decisão dos islandeses de não regressarem ao processo de adesão. Fazem parte do mercado único. Fazem parte de Schengen. Mas a nossa União Europeia é muito mais do que apenas essas duas coisas”, afirmou.

Disse ver a tendência para reduzir a UE a uma comunidade económica, o que está longe de ser a sua essência, até porque a Europa deve estar unida, face às crescentes ameaças de segurança vindas da Rússia. E caberá aos islandeses decidir se querem aderir à UE, em data posterior, mas Marta Kos recordou que, quando a Islândia negociava a adesão, em 2010, apenas 19% apoiava a entrada na UE, contra os 47% que votaram “sim” no referendo mais recente.

“O povo islandês votou como votou. Que podemos fazer? Tomaram a decisão”, declarou o ministro de Estado para os Assuntos Europeus e a Defesa da Irlanda, Thomas Byrne, vincando que “isso não tem qualquer impacto no que estamos a fazer, hoje, e [que] os países candidatos estão a trabalhar arduamente para continuar o processo de adesão”.

Falando aos jornalistas, à margem da reunião, Byrne desvalorizou o efeito da votação na Islândia nas perspetivas dos outros países candidatos, citando os progressos do Montenegro, da Albânia, da Moldávia e da Ucrânia. Lembrou que o caso islandês é marcado pela questão da sua indústria da pesca marítima, mas que o país continuará a fazer parte do Espaço Económico Europeu (EEE). E disse que, entretanto, a UE procura manter o ritmo do alargamento. O Montenegro está em vias de se tornar o 28.º membro do bloco, até 2028, a Albânia segue de perto e a Ucrânia e a Moldávia já abriram dois clusters de adesão, neste ano.

Questionado se receava que as eleições previstas para 2027 em vários estados-membros – incluindo a França, a Itália, a Espanha e a Polónia – pudessem pôr em causa o processo, Byrne rejeitou essa ideia.

Na França, a candidata da Rassemblement National (RN), de extrema-direita, Marine Le Pen, que surge como vencedora em todos os cenários de segunda volta, segundo as sondagens, é eurocética e, historicamente, opõe-se ao alargamento da UE. “As eleições são imprevisíveis. […] Não devemos tirar grandes conclusões das sondagens neste momento”, afirmou Byrne.

Por sua vez, a Comissão Europeia trabalha, desde julho, numa proposta de reforma de uma União alargada e de melhor integração dos países candidatos, a apresentar, no final de setembro, e a discutir, na próxima cimeira de líderes da UE, em 15 e 16 de outubro.

A reunião de Dublin também debateu salvaguardas, para evitar retrocessos democráticos e no Estado de direito em novos estados-membros – ideia avançada por cinco dos membros fundadores (a Alemanha, a França, os Países Baixos, a Bélgica e o Luxemburgo), que retiram lições do mandato de Viktor Orbán, ex-primeiro-ministro húngaro. “Desde o alargamento de 2004, nem sempre podemos ter a certeza de que, uma vez integrados, os novos membros respeitarão o Estado de direito e o princípio da cooperação leal”, afirmou a comissária Kos, rejeitando que as salvaguardas criem adesão de segunda classe, pois serão temporárias.

Petar Marković, chefe da missão do Montenegro junto da UE, disse que o seu país apoia salvaguardas mais rígidas, desde que assentem em critérios objetivos para avaliar violações sistemáticas das normas democráticas e do Estado de direito.

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A 25 de agosto, a responsável pelo alargamento da UE anunciou as linhas gerais da proposta da Comissão Europeia para reformar o processo de alargamento do bloco, com planos para integração gradual, para avaliação mais rigorosa dos candidatos e para nova metodologia, numa fase que descreve como um novo “Momento de Helsínquia”. São quatro os temas em debate: reformas internas, sem alterar os tratados, mais garantias democráticas, integração gradual e amplas medidas de transição.  “O Mundo mudou. E o alargamento tem de mudar com ele”, afirmou Marta kos, na Conferência dos Embaixadores da Croácia, em Zagreb.

No seu discurso, a comissária Kos enunciou os elementos da revisão das políticas pré-alargamento – iniciativa adiada, há muito, que analisa como será a UE com mais de 30 estados-membros. A Comissão recuperou a iniciativa, antes do debate entre líderes da UE, em outubro.

Para a comissária eslovena, a UE enfrenta um novo “Momento de Helsínquia”, numa referência ao encontro de líderes europeus na capital islandesa, que abriu caminho ao “alargamento em grande escala” do pós-Guerra Fria, quando 10 novos países aderiram ao bloco. E destacou, em particular, os rápidos progressos do Montenegro, visto como o principal candidato à adesão, os avanços da Albânia, no cumprimento de critérios-chave, em matéria de Estado de direito e os significativos progressos técnicos da Ucrânia e da Moldávia, assim como tentou o voto da Islândia, para retomar o seu processo de adesão.

Para a responsável pelo alargamento da UE, uma União mais ampla precisará de reformas significativas para agir e para se adaptar, rapidamente, em tempos de crise. Assim, defende que podem ser introduzidas alterações nos processos de tomada de decisão e na arquitetura institucional, sem rever os tratados, o que exigiria negociações prolongadas e um processo de ratificação imprevisível entre os estados-membros. “Devemos aproveitar isto para tornar a tomada de decisão mais simples e flexível. Isto pode implicar a redução do número de áreas em que um único estado-membro consegue bloquear todos os outros, como pode tornar as nossas instituições mais pequenas”, sustentou a comissária Kos.

Apontou para a cooperação reforçada, mecanismo jurídico que permite a um grupo mais pequeno de países da UE avançar com uma iniciativa, quando outros não estão prontos para o fazer. O mecanismo já foi utilizado em áreas, como o Espaço Schengen e o euro.

Outro elemento sublinhado pela comissária é o reforço das salvaguardas existentes para evitar que novos membros recuem nos padrões democráticos e no respeito pelo Estado de direito. “Temos de ir um passo mais longe. Temos de garantir que não deixamos entrar cavalos de Troia. Nem hoje, nem daqui a 10 ou 20 anos. A experiência recente mostrou que podem ser necessárias salvaguardas mais fortes para prevenir – e, se necessário, corrigir – violações dos princípios e valores fundamentais da nossa União”, afirmou.

Porém, esta proposta é controversa, porque pode ir contra o princípio central da UE de que todos os estados-membros devem ser tratados de forma igual, criando potencialmente membros de segunda linha. “Estas medidas são indispensáveis, não apenas desejáveis. São cruciais para criar confiança e unidade dentro da nossa União na aceitação de novos membros”, acrescentou Kos, sugerindo que salvaguardas mais fortes poderão facilitar o processo de ratificação.

Vários países da UE, em especial, a França e a Alemanha, defendem que o bloco deve rever a sua metodologia de alargamento, sobretudo, através de “integração gradual”, oferecendo benefícios concretos aos países candidatos numa fase mais precoce. “O alargamento da UE tem de evoluir para responder às realidades de hoje”, afirmou Kos, salientando que, enquanto o processo de adesão pode demorar décadas, os adversários da UE podem explorar essa incerteza e exercer pressão política para travar o processo.

Portanto, na ótica da comissária, é preciso abandonar a lógica do “tudo ou nada”, no alargamento, e fazer uma “abordagem mais estruturada, para preencher o tempo que já não temos”, o que pressupõe a procura de “formas mais ambiciosas de integração gradual”.

A urgência em repensar a metodologia de alargamento do bloco resulta, em grande medida, do início do processo de adesão da Ucrânia, numa altura em que as capitais da UE receiam que algum tipo de estatuto de membro e garantias de segurança tenham de integrar eventual acordo de paz com a Rússia, para ancorar Kiev, de forma firme, na Europa. Aí, Kos referiu que já existem alguns benefícios antecipados (passos positivos, mas insuficientes) de que os candidatos à adesão podem usufruir, como a entrada na Área Única de Pagamentos em Euros (SEPA) e a ligação à rede energética do bloco.

E responsável pelo alargamento da UE frisou que Bruxelas tem de compreender o impacto que os novos membros terão nos estados-membros atuais e de proteger os interesses do bloco contra potenciais riscos. “Temos experiência com medidas transitórias de grande alcance para garantir que a integração dos novos membros decorre sem sobressaltos. E temos de assegurar que o orçamento da UE continua a financiar as nossas prioridades”, explicitou.

Todavia, a forma como os novos estados-membros devem ser considerados no orçamento da UE diverge entre governos europeus, complicando ainda mais as tensas negociações sobre o próximo Quadro Financeiro Plurianual (QFP).

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A proposta conjunta dos referidos cinco dos países fundadores (a Itália não aderiu), em meados de junho, recomenda que os tratados de adesão dos futuros estados-membros sejam reforçados por cláusulas de salvaguarda, de modo a reprimir violações legais e a impor sanções rápidas, como a suspensão de fundos e de direitos de voto. Segundo o documento, os novos estados-membros devem ver o seu poder de veto limitado, por um período indefinido, a fim de evitar bloqueios súbitos em decisões de elevada prioridade. A política externa é uma das áreas em que a UE exige unanimidade permanente. “O alargamento não deve fazer-se em detrimento da nossa capacidade de agir”, disse um diplomata.

A iniciativa surge, em grande medida, como resposta à experiência da UE com Viktor Orbán, ex-primeiro-ministro húngaro. Os vetos, na UE, e as reformas, no seu país, com que fragilizou os equilíbrios institucionais, deram azo a numerosos processos judiciais e à suspensão de milhares de milhões de euros em fundos europeus. No início de 2026, o veto ao empréstimo de 90 mil milhões de euros à Ucrânia suscitou acusações de deslealdade e de chantagem.

De facto, a proposta enuncia uma salvaguarda nova dedicada ao princípio da cooperação leal. “Com base nas lições retiradas das anteriores rondas de alargamento, precisamos de uma nova abordagem aos tratados de adesão. Uma simples reprodução dos tratados de adesão anteriores não será suficiente”, afirmam os cinco países em causa.

A elaboração do documento foi calendarizada para influenciar as discussões em curso, garantindo que o tratado com o Montenegro sirva de modelo para os restantes candidatos, como a Ucrânia, a Moldova, a Albânia, a Macedónia do Norte e a Sérvia. E, embora nenhum candidato seja mencionado, explicitamente, referências no texto, como períodos transitórios “reforçados” para a Política Agrícola Comum (PAC) e para a política de coesão, parecem refletir preocupações em muitas capitais, quanto ao pedido de adesão da Ucrânia.

O documento defende transições adicionais, para atenuar perturbações que a livre circulação de trabalhadores cause no mercado de trabalho, nos níveis de vida e na habitação.

Todavia, o elemento central do documento é o Estado de direito. Nos últimos anos, a UE tem enfrentado dificuldades em deter retrocessos democráticos, em vários países que aderiram ao bloco em 2004, nomeadamente, a Hungria, a Polónia e a Eslováquia.

A crise expôs a influência limitada que Bruxelas conserva, após a conclusão do processo de adesão, que é caraterizado por critérios de entrada excecionalmente exigentes. E o texto visa criar uma margem de manobra nos anos seguintes à adesão, consagrando a “cláusula de não retrocesso” como “norma vinculativa” para os novos estados-membros. Caso ocorra um retrocesso, a UE ficará habilitada a adotar “medidas de proteção”, além dos instrumentos atualmente disponíveis, nomeadamente, os processos de infração e o congelamento de fundos.

Além disso, o documento propõe a simplificação do artigo 7.º dos Tratados da UE para lidar com violações graves dos valores fundamentais. Conhecido como “opção nuclear”, prevê dois passos processuais principais: a ativação, por maioria de quatro quintos dos estados-membros, e a suspensão dos direitos de voto por unanimidade (exceto o país visado). Em casos anteriores que envolviam a Hungria e a Polónia, a exigência de unanimidade para o segundo passo revelou-se impossível. Por isso, defende-se que a suspensão dos direitos de voto seja decidida por maioria de quatro quintos, para uma reação mais rápida, se um novo membro recuar.

Para a coligação dos cinco países fundadores, a inclusão de cláusulas de salvaguarda e de períodos transitórios nos futuros tratados de adesão ajudará a tranquilizar cidadãos reticentes, em relação ao alargamento do bloco. “Temos de aproveitar esta oportunidade e desenhar as melhorias necessárias para garantir que o alargamento reforça a UE e aumenta a segurança da sua vizinhança. […] Isto será fundamental para manter e reforçar o apoio político e público ao alargamento, o que, por sua vez, é determinante para a necessária ratificação dos tratados de adesão em todos os Estados-membros”, lê-se na introdução do documento.

A proposta surge numa altura em que se intensifica o debate sobre a forma de adaptar o processo de adesão (que dura, há décadas) ao novo contexto geopolítico e de o transformar de um conceito burocrático numa perspetiva tangível, ou seja, um processo mais simples.

A Alemanha e a França propõem a integração gradual dos países candidatos, permitindo que os futuros membros beneficiem mais cedo da adesão à UE, antes de alcançarem o estatuto de membro de pleno direito. E o chanceler alemão, Friedrich Merz, propôs a criação do estatuto de “membro associado” para alargar as garantias de segurança à Ucrânia.

Os cinco membros fundadores propõem sanções rápidas para violações jurídicas, incluindo a suspensão de fundos europeus e de direitos de voto nos processos de decisão institucional. E alguns países preveem eventual extensão dos períodos transitórios, derrogações limitadas à aplicação plena do direito da UE, bem como a restrição temporária o acesso ao mercado de trabalho a trabalhadores de novos estados-membros.

Outra ideia é tornar obrigatória, para os novos estados-membros, a participação na Procuradoria Europeia (EPPO). Atualmente, só a integram 24 estados-membros, embora a Irlanda e a Hungria já tenham manifestado interesse na integração.

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Enfim, a UE tem de aproveitar a experiência adquirida, para reforçar salvaguardas e gizar processos de reforma mais simples e ágeis.

2026.09.04 – Louro de Carvalho


quinta-feira, 3 de setembro de 2026

A Igreja não pode ser passiva nem indiferente ao que acontece no Mundo

 

A Audiência Geral, a 2 de setembro, voltou à Praça São Pedro, após ter sido realizada, em quatro semanas, na Basílica Vaticana. Ante cerca de 15 mil fiéis, Leão XIV introduziu o comentário ao documento do Concílio Vaticano II sobre a relação da Igreja com o Mundo Contemporâneo, a Constituição Pastoral Gaudium et spes. O texto, que procura “responder, de modo , em cada geração, às eternas perguntas dos homens acerca do sentido da vida”, aprofunda um tema fundamental, que é a relação da Igreja com o Mundo Contemporâneo, reconhecendo “uma nova ordem de relações humanas”, como definiu São João XXIII. 

A Constituição Conciliar Gaudium et spes começa por declarar que a Igreja sente como suas “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo, dos pobres e de todos os que sofrem” (GS 1). “Essa partilha com a Humanidade é o caminho que Cristo pede à Igreja”, afirmou o Papa, explicitando: “É a partilha que nos convida a sair da passividade e da indiferença, face aos acontecimentos, à História e à vida das pessoas, sobretudo, ante a mudança rápida e profunda que hoje vivemos. Não podemos ficar como espectadores desinteressados; ao invés, é preciso escutar com o coração, deixar-se interpelar, envolver-se.”

Os fiéis são, pois, chamados a assumir as dificuldades dos irmãos, “sobretudo, dos que são oprimidos pela injustiça, pela discriminação e pela violência”. Nesse sentido, frisou o Pontífice, a proximidade com a Humanidade abre caminho a uma leitura mais profunda dos acontecimentos e da Revelação e, nessa linha, a Gaudium et spes recorda o “dever de a Igreja investigar, a todo o momento, os sinais dos tempos e interpretá-los à luz do Evangelho” (GS 4).

Portanto, esta Constituição conciliar exorta a Igreja ao compromisso permanente de conversão e a desmascarar as contradições que caraterizam o Mundo Contemporâneo. Como exemplo, o Papa citou o progresso científico e tecnológico que oferece sempre novas possibilidades, mas apenas a alguns; ou a maior disponibilidade de riquezas desproporcionadamente distribuídas; ou ainda, diante de ações que ameaçam o futuro do planeta, a incapacidade de renunciar ao consumo egoísta e à ilusão de que a guerra é um caminho eficaz para construir a paz.

Assim, concluiu Leão XIV, numa época de profundas mudanças, “das quais decorrem desequilíbrios preocupantes, a Igreja é chamada a servir o ser humano, escutando e acolhendo as questões mais profundas do seu coração e os anseios que nele habitam, indicando em Cristo a chave, o centro e o fim de toda a história humana” (GS 10). E exortou a que a alegria e a esperança – gaudium et spes – sejam as caraterísticas distintivas da Igreja que anuncia e testemunha o Evangelho, aproximando-se das mulheres e dos homens do nosso tempo”.

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É neste sentido que se deve entender a publicação do documento “Cuidar da nossa Casa comum” pela Comissão Teológica Internacional (CTI), que insta à “resposta responsável e fraterna ao Deus trinitário” e que é uma questão de vida ou da sua negação, para a Humanidade. De facto, a questão ecológica é uma questão teológica, pois a forma como cuidamos da Criação revela e molda a relação com Deus. Ora, se a deterioração do meio ambiente é alarmante, é necessária uma ação urgente, em prol da sustentabilidade do planeta. Tudo está interligado: ouvir o clamor da Terra e dos pobres

Como responder, de uma perspetiva cristã, à “crise ecológica e social”, “míope e suicida”, na qual se encontra a Humanidade? Esta é a questão que está na base do novo documento da Comissão CTI, intitulado “Cuidar de nossa Casa comum – Resposta responsável e fraterna ao Deus trinitário” e publicado a 2 de setembro, sob autorização de Leão XIV. O texto é fruto de reflexões realizadas entre 2022 e 2025. O ponto de partida é a “tripla mutação” que levou, ao longo dos anos, à perda da perceção espontânea da Natureza como criação de Deus; ao surgimento de uma visão cada vez mais antropocêntrica e predatória, na relação entre o homem e a Criação; e à propagação de uma crise planetária.

No primeiro capítulo do documento – “A Casa Comum, obra do Deus trinitário” –, destaca-se “a marca não apenas divina, mas também trinitária” presente na Criação. Essa marca apresenta os traços da sacramentalidade, ou seja, é sinal de “uma realidade sagrada e oculta”, que tem a “máxima elevação” na Eucaristia e da inter-relação, pois o ser humano responde à sua vocação, desenvolvendo, corretamente, as relações com Deus, com os outros e com a Criação. “Nada nem ninguém é uma mónada – lê-se no documento – Tudo está interrelacionado” para formar “uma única comunidade de vida.” Ademais, esse capítulo desenvolve o diálogo com algumas visões científicas e filosóficas do cosmos, ilustrando como a fé no Deus criador oferece algo que a ciência não consegue proporcionar, embora indague, “legitimamente”, as primeiras fases do universo. Na verdade, se a cosmologia reflete sobre como surgiu, o Mundo a fé explica o porquê: Deus dá ao universo uma origem metafísica, não simplesmente física, e chama, livremente, à existência aquilo que, por si só, não existiria.

O segundo capítulo – “O ser humano na Casa comum” – começa com uma reflexão sobre o homem criado à “imagem e semelhança de Deus”, o que serve de ponto de partida para reafirmar que as diferenças de etnia, de género, de cultura, de status social ou económico não implicam, de forma alguma, uma hierarquia. Utilizá-las para discriminar ou para subjugar o outro afasta-se do desígnio de Deus. E a CTI resume alguns dados “muito alarmantes sobre a deterioração ecológica”: o desaparecimento da diversidade biológica; a poluição atmosférica; a piora da qualidade da água; a guerra que acelera, “brutalmente”, a destruição do meio ambiente; as repercussões “extremamente graves” de tudo isso sobre os mais pobres, explorados nos seus recursos naturais e forçados à migração. Daí o forte apelo: ante uma crise ecológica “sem precedentes”, são necessárias soluções científicas e técnicas, mas, sobretudo, “uma mudança nos valores culturais”, uma verdadeira conversão ecológica no modo de vida.

O documento propõe, ainda, falar de “pecado contra a Criação e contra o Criador”, uma formulação teológica que une o dano ambiental à rejeição do desígnio divino da criação, evitando tanto a linguagem puramente científica (como “ecocídio”) como a dispersão da responsabilidade. O momento histórico atual “exige de todos, a começar pelos responsáveis pela vida pública, uma ação urgente em favor da sustentabilidade do planeta e da habitabilidade da Casa Comum. Não se trata só de uma exigência ética, mas também teológica”.

O olhar da fé leva a rejeitar “dois extremos inaceitáveis”: o antropocentrismo predatório, que julga a Humanidade “dona absoluta de toda a criação”, e o biocentrismo ou ecocentrismo, que absolutiza a Natureza. E a proposta cristã é a de um “antropocentrismo situado” (expressão do Papa Francisco retomada por Leão XIV), que põe o ser humano como “administrador e servidor da Criação”. Essa dupla vocação encontra o seu ápice na Eucaristia, “escola ecológica”, graças à qual se promove “uma atitude positiva e proativa em relação à Natureza”.

O terceiro capítulo – “O cuidado da Casa comum” – oferece diretrizes operacionais, articuladas em torno de cinco relações fundamentais da pessoa. Da relação com Deus deriva a “lógica jubilar”: baseada na fraternidade, na solidariedade, na gratuidade e na humildade, ela conduz à justiça social. Da relação consigo mesmo brota “uma espiritualidade ecológica” que convida a um estilo de vida saudável, atento ao consumo (“cada ato de compra é um ato moral”) responsável.

Da relação com a Criação decorrem princípios como a reverência; a sustentabilidade; a escuta do “clamor comovente” da Terra, “tragicamente ligado ao clamor dos pobres”; o respeito pela vida (que permite ao homem utilizar os recursos naturais, mas com moderação e de acordo com as necessidades); a ascese e o jejum (resposta moral à superexploração dos recursos, especialmente, nos países ricos); e o compromisso diferenciado, de acordo com as responsabilidades das diversas nações.

Da relação com o próximo emergem a sacralidade da vida humana (direito incondicional e inalienável que os Estados devem proteger e promover, inclusive, pela rejeição da guerra); a destinação universal dos bens (a Casa comum deve ser cuidada também para as gerações futuras); a fraternidade (antídoto contra um individualismo “falso, egoísta, atroz e ávido”); a misericórdia; e a opção preferencial pelos pobres.

Como quinta e última relação, a CTI reflete sobre a oferecida contribuição das diversas religiões para o cuidado da Criação. Destacam-se, em particular, os elementos mais comuns: a interconexão entre tudo o que existe; o dever de respeitar todos os seres vivos; a responsabilidade do homem. Portanto, “do ponto de vista da fé cristã, as portas estão abertas para uma colaboração inter-religiosa na tarefa comum de cuidar, respeitosamente, de toda a Criação”.

Na conclusão do documento, a CTI reafirma que a questão ecológica é uma questão teológica: a maneira como nós cuidamos da Criação molda a relação com o próprio Deus. O texto convida a uma “viragem ecológica”, seguindo o exemplo de São Francisco de Assis, e encerra-se com uma nota de esperança: a crise ambiental, por mais grave que seja, não abala a confiança em Deus, que faz “novas todas as coisas”.

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Na Casina Pio IV, no Vaticano, o Centro Internacional de Estudos da Consciência (ICCS) promoveu, de 1 a 2 de setembro, o debate internacional sobre companheiros da inteligência artificial (IA), solidão, criatividade e consciência. Uma a cada seis pessoas no mundo sente solidão, enquanto na Itália, o uso da IA nas empresas dobrou, num ano. A questão não é o que as máquinas serão capazes de fazer, mas qual papel ocuparão nas nossas vidas.

Podemos apaixonar-nos por uma IA, sabendo que ela não é uma pessoa? Um companheiro da IA pode ser um antídoto para a solidão, ou corre o risco de substituir, gradualmente, as relações humanas? E se uma máquina é capaz de criar, lembrar o que lhe dizemos e aprender sobre nós, onde fica a linha divisória entre a IA a mente humana? Estas questões são cada vez menos teóricas. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), aproximadamente, uma em cada seis pessoas, no Mundo, sofre de solidão e, entre os adolescentes, o número chega a cerca de 21%. Ao mesmo tempo, a presença da IA ​​na economia cresce: de acordo com o ISTAT (Instituto Italiano de Estatística), 16,4% das empresas italianas com pelo menos 10 funcionários utilizou, em 2025, tecnologias de IA, o dobro dos 8,2% registados em 2024.

Neste contexto, filósofos, cientistas cognitivos, pesquisadores e especialistas em IA de diversos países debateram uma das fronteiras mais controversas abertas pela IA: a entrada das máquinas em territórios que sempre consideramos profundamente humanos, desde as relações à criatividade, da identidade à consciência.

O evento faz parte de “Criatividade: mentes e máquinas”, a terceira conferência internacional do ICCS, fundado por Dmitry Volkov, Pietro Perconti e Alessio Plebe para promover debates internacionais e interdisciplinares sobre as grandes questões que envolvem a mente e a consciência. Assim, a conferência tentou explorar como a evolução da IA ​​está a redefinir a relação entre humanos e máquinas.

Uma das áreas mais controversas é a dos companheiros da IA: sistemas projetados não só para responder a perguntas, mas para desenvolver interações contínuas com as pessoas. Lembram-se de conversas e de preferências, adaptam as respostas e podem construir uma relação cada vez mais personalizada, ao longo do tempo. Nesse contexto, Dmitry Volkov, filósofo, empreendedor de tecnologia e cofundador do ICCS, levanta uma das questões mais radicais: Pode existir uma IA digna de amor humano? Não se trata de imaginar a máquina que engane uma pessoa, fingindo ser humana, mas se, mesmo sabendo que está a lidar com uma máquina, um ser humano pode desenvolver um vínculo afetivo autêntico e significativo com ela. Este tema cruza-se com o da solidão. Se um sistema artificial consegue ouvir, lembrar e acompanhar uma pessoa. ao longo do tempo, pode ajudar a combater o isolamento? Ou corre o risco de tornar mais fácil abrir mão da complexidade das relações reais?

O que torna a relação com as máquinas ainda mais delicada é a bajulação, a tendência dos sistemas de IA de agradarem ao interlocutor e de produzirem respostas próximas do que acham que ele quer ouvir. No caso dos companheiros de IA, uma máquina que está sempre disponível e complacente pode tornar-se uma “câmara de eco algorítmica”, reforçando convicções e fraquezas em vez de as desafiar. Daí um paradoxo: para se assemelhar a uma relação autêntica, talvez a IA também tenha que aprender a dizer não.

Se uma máquina cria, quem é o autor? Outra grande fronteira da discussão é a criatividade artificial. Texto, imagens, música e vídeo, agora, podem ser gerados em segundos. Mas produzir algo novo significa ser criativo? E, quando uma obra surge da colaboração entre a pessoa e um sistema generativo, quem é o autor? A mudança é visível nos números: nos setores de produção de cinema, vídeo e televisão, e de gravação de música e som, segundo o ISTAT, a IA é utilizada por 49,5% das empresas (quase metade)

Em Roma, o debate explora a criatividade sintética, a sabedoria artificial, a capacidade de agir, a identidade pessoal e a consciência, reunindo filosofia, neurociência, ciência cognitiva e IA. Isto, porque o crescimento da IA ​​está a gerar um paradoxo: quanto mais as máquinas adquirem capacidades que, antes, considerávamos exclusivamente humanas, mais somos forçados a questionar-nos, não apenas sobre “o que a máquina pode fazer”, mas sobre o que significa criar e compreender; o que torna uma relação autêntica e o que significa ser consciente.

Nicholas Humphrey, psicólogo teórico britânico, entre os estudiosos internacionais de consciência mais críveis, recebeu o Prémio Dennett e fez a palestra “Consciência e a Alma: a realidade de uma ilusão”. E, aqui, surge, talvez, a questão mais radical. Elaborar informação, falar como ser humano ou produzir obras criativas não significa, necessariamente, ter experiência subjetiva do Mundo. Porém, se, no futuro, a máquina puder criar, lembrar-se do seu passado, construir uma identidade, discordar e estabelecer relações duradouras, ainda poderemos considerá-la apenas um instrumento? De facto, à medida que as máquinas se tornam cada vez mais capazes de imitar o que fazemos, há que redefinir o que significa ser humano.

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A terminar, é de vincar que a intenção de oração do Papa para setembro é reconhecer a água como dom de Deus e um direito “sem fronteiras”, quando 2,1 mil milhões de pessoas não têm acesso seguro à água potável – mas acesso intermitente, insuficiente, demasiado dispendioso ou a grande distância – e 106 milhões dependem de rios, de lagos ou de outras águas superficiais sem tratamento; 3,4 mil milhões de pessoas não dispõem de saneamento gerido de forma segura, 1,7 mil milhões de pessoas carece de serviços básicos de higiene, em casa; e 611 milhões não têm nenhuma instalação para lavar as mãos; e um milhão e 400 mil mortes, por ano, estão associadas à água insegura e à falta de saneamento.

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À luz do Evangelho e da Gaudium et spes, a Igreja (e cristãos) deve estar no grito do pobre (água, terra, teto e trabalho), no grito da Terra (esfacelada) e nas perplexidades humanas, como face à IA e ao seu uso para a guerra e noutras formas de desumanização. Uso, mas não abuso!

2026.09.03 – Louro de Carvalho


El Niño atingirá o pico no fim de dezembro, mas será intenso até fevereiro

 

A Organização Meteorológica Mundial (OMM), agência climática da Organização das Nações Unidas (ONU), a 3 de setembro, advertiu que El Niño deverá tornar-se “muito forte”, nos próximos meses, devendo atingir o pico perto do final deste ano, mas, como o calor acumulado nos oceanos passa mais lentamente para a atmosfera, elevará as temperaturas globais, em 2027, pelo menos, até fevereiro.

“El Niño está firmemente instalado e irá intensificar‑se até se tornar um evento muito forte nos próximos meses, com grandes impactos nos padrões de precipitação e de temperatura e riscos associados de cheias, seca e calor extremo”, indicou a OMM.

El Niño, que aquece as temperaturas da superfície no Pacífico equatorial central e oriental, provocando alterações globais nos padrões de vento, de pressão atmosférica e de precipitação, ocorre, em média, a cada dois a sete anos e costuma durar entre nove e 12 meses. Tende a atingir o auge no final do ano, mas o calor acumulado nos oceanos é libertado mais lentamente para a atmosfera, fazendo subir as temperaturas globais no ano seguinte. As condições oscilam entre El Niño e La Niña (fenómeno climático natural caraterizado pelo arrefecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico central e oriental), intercaladas por fases neutras.

El Niño é, pois, um fenómeno climático natural e não é provocado pelas alterações climáticas. Não obstante, os cientistas esperam que agrave o aquecimento de um planeta já mais quente, devido à queima de combustíveis de origem fóssil, intensificando, ao mesmo tempo, os fenómenos meteorológicos extremos.

Por seu turno, o secretário‑geral da ONU, António Guterres, sustenta que o fenómeno está a ser levado a escala gigantesca ante os nossos olhos. “A ciência não deixa margem para dúvidas: o planeta entrou em águas desconhecidas e essas águas estão a aquecer. As temperaturas da superfície do mar estão a subir, as temperaturas continuam a aumentar e o Mundo encontra‑se na zona de perigo do clima extremo”, discorreu, frisando que a corrida é entre o aumento do risco e o compromisso de agir pelo clima e pelas pessoas, tendo nós de vencer a corrida.

A diretora da OMM, Celeste Saulo, lembrando que o ano mais quente de que há registo é 2024, na sequência do último episódio de El Niño, alerta que “este El Niño excecional tem potencial para desferir um golpe massivo nas comunidades e nas economias, em todo o Mundo”, de tal modo que “estamos a assistir a perturbações e [a] destruição causadas por secas e [por] cheias e esperamos que estes impactos aumentem, à medida que o El Niño se intensifica”. Por isso, deixa aviso às autoridades de gestão de catástrofes e aos setores sensíveis ao clima, como a agricultura, a saúde, a energia e a água, vincando que “não há tempo a perder” na preparação. Com efeito, segundo a OMM, “impulsionado por condições oceânicas excecionalmente quentes, em todo o Pacífico tropical, El Niño deverá fortalecer‑se, ainda mais, nos próximos meses até uma intensidade muito forte”.

A agência da ONU em referência classifica os episódios de El Niño como fracos, moderados, fortes ou muito fortes, o que significa que o atual deverá atingir o nível mais elevado dos quatro níveis, havendo mesmo “probabilidade excecionalmente elevada, de quase 100%”, de El Niño continuar até fevereiro.

El Niño pode alterar padrões de tempo e de clima a milhares de quilómetros de distância do Pacífico tropical. Cada episódio é diferente, mas os grandes eventos tendem a seguir padrões conhecidos. Entre eles, contam‑se secas, em partes da Amazónia, da Indonésia e da Austrália, monções perturbadas, na Índia, e alterações da pluviosidade, em várias regiões tropicais. E, para o período de setembro a novembro, as previsões sugerem maior probabilidade de temperaturas acima do normal, em quase todas as áreas terrestres, acompanhadas de padrões de precipitação que revelam “resposta atmosférica marcada e clássica ao forte El Niño no Pacífico”.

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Um novo estudo publicado, a 27 de agosto, na revista “Science” – que recua cerca de 900 anos, na análise dos episódios de El Niño –, indica que este fenómeno natural de caos climático que surge, periodicamente, faz disparar as temperaturas globais e torna-se mais intenso, devido às alterações climáticas provocadas pelo homem, sendo os episódios de El Niño, hoje, mais de 36% mais fortes do que antes do início da era industrial, em meados do século XIX, com o salto de 16%, só nos últimos 40 anos, o que mostra que o aumento acelera.

As conclusões surgem numa altura em que forte episódio de El Niño, formado há alguns meses, deverá tornar-se o mais intenso de que há registo, nos próximos meses. Os fenómenos de El Niño, isto é, aquecimentos temporários de partes do Pacífico equatorial, alteram o estado do tempo, em todo o Mundo, e aumentam os eventos extremos, incluindo ondas de calor, cheias, em algumas regiões, e secas, noutras. Podem causar prejuízos de biliões de dólares.

“Isso é importante, porque episódios fortes de El Niño têm impactos muito mais marcados em riscos climáticos e extremos, em todo o Mundo”, afirma Julia Cole, autora principal do estudo, especialista em Paleoclima, na Universidade de Michigan, nos Estados Unidos da América (EUA), explicando: “Quando tentámos responder à questão de porque é que isto pode estar a acontecer, cruzámos os dados com o registo da temperatura global e verificámos que o aumento da intensidade dos episódios de El Niño acompanha, de perto, a subida da temperatura global, causada por fatores humanos, como a queima de combustíveis fósseis.”

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“El Niño é o aspeto mais violento da variabilidade climática, a nível mundial, com efeitos que vão desde o colapso de pescarias locais a mortandades generalizadas de coral, a secas severas e a falta de alimentos, em todo o Mundo”, afirma Boris Worm, especialista em ciências marinhas, da Universidade de Dalhousie, que não participou no estudo.

Worm cita o cientista do clima Wallace Broecker, que alertou: “O sistema climático é uma besta furiosa e estamos a espetar-lhe paus. […] As emissões humanas são o pau e El Niño é um dos surtos ‘furiosos’ que podem ser tão ameaçadores para a nossa segurança coletiva.”

A força de um episódio de El Niño é determinada medindo a temperatura da água, numa região do Pacífico central, em torno do equador, e comparando uma média de três meses com o normal. Se estiver graus Celsius (0,5º C) acima do valor habitual, considera-se um episódio de El Niño. O topo da escala é 2º C e é classificado como “muito forte”. E o valor semanal mais recente de El Niño é de 2,7º e continuará a subir, durante mais dois a quatro meses, segundo o sistema de monitorização de El Niño da Universidade de Columbia.

Os cientistas teorizam que, à medida que o planeta aquece, os episódios de El Niño se tornam mais fortes, porque se baseiam em diferenças de temperatura do oceano, face à média. Porém, como os registos observacionais só recuam cerca de 75 anos, os cientistas têm afirmado que os dados são demasiado escassos para se definir uma tendência. Assim, os investigadores têm procurado pistas que indiquem a presença de um episódio de El Niño, sem medirem, diretamente, a temperatura da água. Por exemplo, analisaram registos históricos de alterações do estado do tempo, em todo o Mundo, e identificaram episódios passados de El Niño – como o superepisódio de 1877 – através das mudanças que provocam, à escala global.

Cole fez uma abordagem inovadora, analisando o que sucedeu ao coral, ao longo dos séculos, funcionando como “uma máquina do tempo para olhar para o passado”, e verificou que as medições da proporção de cálcio e de estrôncio nos esqueletos de coral e dos diferentes isótopos de oxigénio produzem duas leituras independentes da água do mar em que o coral se formou. E a medição baseada em urânio e tório indica quando se formaram tais esqueletos.

Cole analisou 29 fósseis de coral das ilhas Gálapos – 14 anteriores à era industrial, 14 posteriores ao início da era moderna e mais um datado da fase em que a era industrial estava a começar. O mais antigo remonta, aproximadamente, ao ano 1100. E as temperaturas que obteve, a partir dos fósseis, ao longo de mais de 900 anos, são irregulares, com falhas, mas, quando representadas em gráfico, parecem-se com um taco de hóquei – a mesma descrição usada num estudo marcante dos anos 1990, sobre as temperaturas globais do passado.

Cole e outros cientistas afirmam que a situação só deverá piorar. “Levanta o espectro de um futuro em que episódios maiores de El Niño e de La Niña aceleram o ritmo e a gravidade dos extremos meteorológicos e climáticos”, afirma Kim Cobb, especialista em coral e clima na Universidade Brown, que não participou no estudo.

Especialistas externos dividem-se, quanto à investigação: uns consideram-na importante e fiável; outros não a aceitam, por entrar em choque com algumas observações recentes.

Para Cobb, “os corais são o padrão de ouro da reconstrução de episódios de El Niño” e “este estudo traz uma mina de ouro de novos dados”. Assim, na sua perspetiva, podemos esperar muitas décadas, até que o registo instrumental seja suficientemente longo, para detetar “mudança nas propriedades do El Niño”, ou “usar séculos de reconstruções de El Niño fornecidas pelos registos paleoclimáticos”. Ora, os dados paleoclimáticos disponíveis, apontam, consistentemente, no conjunto, para a intensificação dos episódios de El Niño com o aquecimento global.

Ao invés, o cientista do clima Michael Mann, da Universidade da Pensilvânia – autor do gráfico em “taco de hóquei” das temperaturas –, e o especialista em ciências marinhas John Bruno, da Universidade da Carolina do Norte, dizem que os dados de coral conflituam com observações recentes da temperatura da água nas Galápagos. Mann diz que os registos mostram “diminuição substancial, nas últimas décadas”, das variações associadas ao El Niño perto das Galápagos, no período em que os gases com efeito de estufa (GEE) mais fizeram subir as temperaturas. E Bruno considera que aquilo que está a ser refletido pelo coral não é tanto uma alteração do El Niño, mas o aquecimento causado pelos GEE.

Porém, segundo Cole, o enorme episódio de El Niño de 1997-1998, seguido de pequenos episódios até 2023-24, criou uma situação em que parece que El Niños não ganham força, porque as medições se baseiam em períodos de 20 anos e houve vários anos, entre superepisódios de El Niño, que distorceram os dados. Ora, a intensidade do El Niño varia muito e essa natureza irregular não desaparece só por o fenómeno responder a condições mais quentes.

Contudo, todos os cientistas concordam que as alterações climáticas são um problema, agravem-se ou não os episódios de El Niño. “É importante sublinhar isto como mais um motivo para deixarmos de depender de combustíveis fósseis”, afirma Cole, vincando que “não há uma solução milagrosa que vá abrandar os episódios de El Niño”.

O índice que mede as anomalias de temperatura da superfície do mar, no Pacífico equatorial centro‑oriental, intensificou‑se, a partir de uma média de 1,5º C acima do normal, entre maio e julho. Entre o final de julho e meados de agosto, os valores semanais variaram entre cerca de 2,2º C e 2,6º C acima da média, sinal de que o El Niño continua a intensificar‑se. E, em algumas zonas, as temperaturas subsuperficiais do oceano estiveram mais de 8º C acima da média, durante julho e o início de agosto.

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De acordo com os dados sobre alterações climáticas da União Europeia (UE), com El Niño em reforço, os oceanos do planeta atingiram a temperatura média diária mais alta de que há registo, com a temperatura global da superfície do mar a chegar aos 21,1 °C, em 22 de agosto – um novo máximo tanto mais significativo por ocorrer nesta altura do ano.

O valor, registado pelo Serviço de Alterações Climáticas Copernicus da UE, ultrapassou, por margem mínima o anterior recorde diário de 21,09 °C, de março de 2024.

Segundo o Copernicus, as temperaturas do oceano costumam atingir o pico global, em março e em abril, após o verão no Hemisfério Sul. O facto de este novo recorde ter sido alcançado em agosto, quando as temperaturas deveriam estar a descer, mostra o calor persistente que se espalha pelos oceanos do Mundo. Este novo valor também supera o anterior recorde de agosto, de 20,98 °C, registado em 2023. E, embora os banhistas apreciem oceanos mais quentes, as consequências são graves e de grande alcance para as pessoas e para os animais.

Este recorde surge num contexto de desenvolvimento de forte fenómeno El Niño. no Pacífico tropical, que acrescenta mais calor a um oceano já significativamente aquecido, ao longo de décadas pelas alterações climáticas provocadas pelo ser humano. A OMM prevê que El Niño se intensifique nos próximos meses, tornando-se um evento forte. E as previsões sazonais do Copernicus sugerem que poderá atingir níveis que não se observam, há décadas.

Porém, os cientistas alertam que não se deve olhar para El Niño como a única explicação deste recorde. “Este recorde é mais um sinal claro de um oceano sob pressão crescente. […] El Niño está a acrescentar calor ao sistema, mas fá-lo sobre décadas de aquecimento provocado pelo ser humano”, afirma Samantha Burgess, responsável estratégica para o clima, no Centro Europeu de Previsão do Tempo a Médio Prazo.

“Das águas atlânticas ao largo da Irlanda até ao mar Mediterrâneo, os mares europeus estão a registar um aumento preocupante das temperaturas […] A nossa investigação mostra, claramente, que isto é impulsionado pelas alterações climáticas, em particular, pela continuação da queima de combustíveis fósseis”, afirmou Thomas Frolicher, físico ambiental da Universidade de Berna, na Suíça, num estudo publicado na segunda quinzena de agosto.

As consequências de oceanos mais quentes vão dos ecossistemas marinhos às comunidades costeiras. Temperaturas mais elevadas do mar aumentam a probabilidade e a intensidade de ondas de calor marinhas, que podem danificar recifes de coral e pradarias de ervas marinhas e perturbar as redes alimentares marinhas. E também as pescas e a aquacultura podem ser afetadas, à medida que as espécies marinhas se deslocam, devido às condições em mudança.

Segundo o Copernicus, o oceano global já registou forte aumento das ondas de calor marinhas, com o número de dias de onda de calor marinha a mais do que triplicar, desde o início da década de 1990. E mares mais quentes contribuem para a subida do nível do mar, porque a água se expande, ao aquecer, e podem transferir mais calor e humidade para a atmosfera, o que pode aumentar a intensidade de alguns episódios de chuva e de sistemas de tempestade.

Outra preocupação é o oceano absorver grande parte do dióxido de carbono (CO2) emitido pelas atividades humanas e a água mais quente ser menos eficiente a captar CO2, podendo o aquecimento contínuo enfraquecer um dos principais sumidouros de carbono do planeta, na luta contra as alterações climáticas.

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Os cientistas acompanham a evolução do aquecimento das águas e dos efeitos de El Niño, para perceber se este último recorde será um pico temporário ou se integrará um período mais persistente de calor extremo nos oceanos. Já os decisores políticos, apesar de toda a propaganda, parecem não atar nem desatar. Ou as suas decisões surtem pouco efeito.

2026.09.03 – Louro de Carvalho


quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Europa unida perante aumento de ataques de guerra híbrida

 

Ursula von der Leyen e Mark Rutte, responsáveis da União Europeia (UE) e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), respetivamente, tiveram conversações, em Bruxelas, a 2 de setembro, em resposta a uma série de incidentes de guerra híbrida ocorridos na Europa, no verão, incluindo a tentativa de ataque, a 4 de agosto, com drones, no aeroporto de Leipzig, que o governo alemão atribuiu, formalmente, à Rússia e disse que tomou medidas firmes, deixando mensagem clara: “Os ataques híbridos não ficarão sem uma resposta clara.”

A Alemanha ordenou o encerramento do consulado russo, em Bona, e garantiu que a Casa da Rússia, em Berlim, também será encerrada.

Na verdade, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou, a 1 de setembro, que iria aproveitar a reunião, no dia 2, com o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, para discutir o incidente alemão, devendo os ministros dos Negócios Estrangeiros preparar sanções adicionais em próxima reunião. “Manteremos a UE unida, apesar destes atos graves e cada vez mais intensos”, afirmou, em declaração publicada na plataforma de redes sociais X.

A reunião bilateral de última hora foi confirmada por Paula Pinho, porta-voz principal da Comissão Europeia, que afirmou que o encontro se inscreveria também no contexto do reforço da cooperação em matéria de defesa entre a Europa e a NATO. E um responsável da NATO disse que a reunião se centraria, principalmente, na forma de aprofundar a coordenação contra as ameaças híbridas.

A esta preocupação juntam-se o Reino Unido, a Suíça e o Canadá, o que levou os respetivos líderes a garantirem que a Europa e o Canadá não cederão ao aumento de ataques híbridos da Rússia. Tal demonstração de unidade ocorreu na cimeira de ministros dos Negócios Estrangeiros da UE, em Wicklow, na Irlanda, também a 2 de setembro, com a presença de responsáveis daqueles três países e da Ucrânia, tendo-se mostrado os chefes da diplomacia do bloco europeu unidos e preparados para responder, com firmeza, ao aumento de ataques de guerra híbrida da Rússia, no continente, e os estados-membros da UE alinhados com a Alemanha.

O incidente no aeroporto de Leipzig, a 4 de agosto, levou as autoridades alemãs a intercetarem um drone que trazia explosivos de grau militar. Berlim foi inequívoca, ao atribuir a incursão ao Kremlin. “Os meios utilizados – como a configuração do drone, os componentes, os explosivos e os sistemas de detonação – são-nos familiares de outras operações híbridas da Rússia”, afirmou, a 1 de setembro, o ministro alemão dos Negócios Estrangeiros, Johann Wadephul, descrevendo o ataque como parte de uma longa série de tentativas de desestabilização, de desinformação, de ameaças, de sabotagem e de agressão dirigidas contra a Europa”.

Nas declarações em que condenou as atividades da Rússia, o ministro britânico dos Negócios Estrangeiros, Ed Miliband, recordou a experiência do seu país com ataques russos, nos últimos anos, como a tentativa de assassínio, com recurso a agentes químicos, do antigo agente do KGB russo Sergei Skripal, em Salisbury. “Estamos em plena solidariedade com a Alemanha e com a Ucrânia”, afirmou Miliband aos jornalistas, clarificando: “Sabemos, pela experiência de ataques russos, no nosso território, que estas tentativas de nos dividir não terão êxito; ainda assim, são um sinal perigoso de que a Rússia procura criar divisões e provocar um efeito intimidatório nos países europeus, relativamente à sua invasão da Ucrânia.”

Já o ministro lituano dos Negócios Estrangeiros, Kestutis Budrys, afirmou que a Rússia parece estar a intensificar o número de ataques híbridos que lança. “Vemos que estão a alargar e a quadruplicar os ataques contra nós, no último ano. […] O nosso objetivo é mostrar que estas atividades não nos vão intimidar, nem travar o nosso apoio à Ucrânia”, explicou.

Na agenda da reunião informal, conhecida como “Gymnich”, havia propostas para que a Comissão Europeia discutisse os ativos soberanos russos imobilizados para financiar a Ucrânia, ideia defendida pela Suécia, pela Espanha, pela Polónia e pelos Países Baixos. E a ministra finlandesa dos Negócios Estrangeiros, Elina Valtonen, disse que “a Europa precisa de apoiar a Ucrânia, antes do inverno”. “Esta é uma boa oportunidade para falar dos ativos congelados. […] Precisamos de explorar todas as opções em cima da mesa”, declarou, antes da cimeira.

Também na Irlanda, o ministro dos Negócios Estrangeiros português, Paulo Rangel, afirmou que Portugal convocaria, a 2 de setembro, o embaixador russo, após os ataques híbridos, no aeroporto de Leipzig, atribuídos a Moscovo pela Alemanha. “Iremos convocar o embaixador russo para dar explicações sobre este incidente. Fá-lo-emos, ainda durante a manhã [de 2 de setembro]. Portanto, é natural que, depois, nos próximos dias, ele venha ao Ministério dos Negócios Estrangeiros”, afirmou, salientando que, “evidentemente, algumas medidas serão tomadas”, nomeadamente, “de segurança, de segurança cibernética, do espaço aéreo”.

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Na sequência da atribuição formal pela Alemanha da responsabilidade pelo incidente com o drone de 4 de agosto à Rússia, Mark Rutte publicou uma declaração, no X, afirmando que a NATO se mantém em total solidariedade com Berlim e que são claras as provas de que a Rússia é a responsável. “A NATO continuará a reforçar a nossa capacidade de dissuadir e de defender todos os Aliados contra qualquer ameaça – incluindo ações maliciosas, como as observadas em Leipzig e noutros locais da Aliança”, enfatizou.

Também Ursula von der Leyen comentou o caso de Leipzig, depois de o ministro do Interior alemão, Alexander Dobrindt, ter declarado que os “meios utilizados [pela Rússia] para levar a cabo o ato” de um incidente de sabotagem com um drone ocorrido, em agosto, são “conhecidos por terem sido utilizados noutras operações híbridas conduzidas pela Rússia e na sua guerra contra a Ucrânia”. “O governo alemão conclui, portanto, que a Rússia é responsável pelo ataque híbrido em Leipzig, a 4 de agosto”, afirmou, perentoriamente.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros russo condenou, em comunicado, no final de agosto, a Europa por atribuir a culpa a Moscovo, salientando que as acusações foram feitas antes de a investigação ter sido concluída. E a embaixada russa em Berlim emitiu um comunicado a negar as alegações da Alemanha e a ameaçar com “consequências” pelas novas sanções. Porém, Kaja Kallas, responsável pela política externa da UE, afirmou que a Rússia está a atingir a Europa com crescente número de incidentes híbridos cinéticos, com o objetivo de “nos assustar”, para deixarmos de apoiar a Ucrânia. “Não vão conseguir”, afirmou, na sequência de reunião dos ministros da Defesa, também realizada em Wicklow, para discutir a criação de uma missão da UE no Líbano, salientando que os riscos decorrentes destes incidentes estão a aumentar e que “é evidente que não estamos a fazer o suficiente para impedir isto”.

O certo é que, a 4 de agosto, foi encontrado um drone na zona de segurança do Aeroporto de Leipzig/Halle, perto de um avião de carga ucraniano utilizado para transportar material militar. Mais tarde, um segundo veículo aéreo não tripulado colidiu com uma aeronave, impedindo-a de aterrar, pelo que o chanceler alemão, Friedrich Merz, já tinha prometido resposta aos incidentes, com ações coordenadas entre a UE e os aliados da NATO.

A ministra dos Negócios Estrangeiros da Irlanda, Helen McEntee, na conferência de imprensa, ao lado de Kallas, afirmou que o “apoio à Ucrânia e a pressão sobre a Rússia” continuam a ser fundamentais para a presidência semestral da Irlanda no Conselho da UE. “Estamos agora a começar a ver as ameaças a concretizarem-se, ainda nas últimas 24 horas, em que os nossos colegas da Roménia, da Letónia e da Estónia, e, claro, da Alemanha, falaram de incursões no seu próprio espaço aéreo, mas também no seu próprio território”, observou.

Tanto a Roménia como a Estónia relataram incursões de drones ocorridas a 1 de setembro. Vários engenhos explosivos improvisados foram encontrados perto de uma central elétrica a carvão na Alemanha, também nesse dia. Ao dirigir-se para as negociações, o ministro da Defesa da Estónia, Hanno Pevkur, afirmou que a Europa deve preparar-se para mais incidentes de guerra híbrida, por parte da Rússia. “Eles estão sempre a testar este limiar, onde está esta linha vermelha”, afirmou, vincando que a Europa deve manter a cabeça “muito fria”.

Por outro lado, o presidente francês, Emmanuel Macron e a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni manifestaram a sua solidariedade para com a Alemanha, na sequência do incidente em Leipzig. “AFrança está em total solidariedade com a Alemanha e apoia a adoção de novas sanções europeias contra a Rússia”, afirmou Macron, segundo um comunicado online.

Meloni assumiu tal asserção e acrescentou: “As tentativas de nos intimidar ou de criar divisões entre os aliados não terão sucesso: as ações híbridas contra qualquer um de nós são motivo de preocupação para todos nós e serão recebidas com uma resposta unida.”

O primeiro-ministro polaco, Donald Tusk, considerou que a Rússia está a agravar as tensões em toda a Europa, mas que o continente não se deixaria intimidar. “A Rússia não vai ganhar esta guerra”, afirmou.

O primeiro-ministro sueco, Ulf Kristersson, afirmou que a Rússia pretende intimidar a Europa e amedrontar os aliados da Ucrânia. “Isso não vai dar certo”, disse ele, acrescentando que iria presidir a uma reunião do Conselho de Segurança Nacional, na manhã do dia 2.

“As medidas firmes tomadas pelo governo alemão demonstram que qualquer ação híbrida contra qualquer um de nós será recebida com uma resposta clara. […] Quem nos atacar pagará um preço”, declarou o presidente lituano, Gitanas Nausėda, em separado.

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O conceito de “guerra híbrida”, evocado pelo governo alemão para lidar com incidentes como drones, ciberataques e terrorismo, abrange uma série de ameaças que têm em comum o anonimato. Um drone com explosivos surge num aeroporto da Alemanha. Não se sabe de onde vem, mas não é coincidência barata o facto de ficar ao lado de um avião Antonov ucraniano. Ciberataques em hospitais, apagões em instalações de governo, difusão de fake news para influenciar eleições, incêndios criminosos, drones e terrorismo, tudo isso, para as forças de segurança e de inteligência, são eventos misteriosos com o objetivo desestabilizar o ambiente político e causar pânico social. E o Ministério do Interior alemão entende que aumentaram os sinais de guerra híbrida, desde a invasão da Ucrânia pela Rússia.

Com sustenta Fábio Corrêa no DW Brasil, as origens do conceito remontam ao general James Norman Mattis, ex-secretário de Defesa dos Estados Unidos da América (EUA), no primeiro mandato de Donald Trump, tendo utilizado tal expressão, pela primeira vez, em 2005, enquanto comandante no Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA, para sintetizar a estratégia de segurança dos EUA desse ano, que citava uma gama de capacidades e de métodos “tradicionais, irregulares, catastróficos e disruptivos” como ameaça aos interesses de Washington. E, em 2007, Frank Hoffman, coronel da Marinha dos EUA, incorporou a “guerra híbrida” numa série de artigos e de livros académicos. Para ele, os ataques híbridos são, normalmente, coordenados, operacional e taticamente, por atores ligados ou não a um estado ou nação, e executados no espaço de batalha principal, para alcançar “efeitos sinérgicos nas dimensões física e psicológica do conflito”.

A Estratégia Nacional de Segurança da Alemanha, de 2023, cita estados impelidos por rivalidades sistémicas e por revisionismo contrários aos direitos humanos, julgando a participação democrática uma ameaça ao seu poder, pelo que recorrem a estratégias híbridas como ofensivas multifacetadas. Marcados pela conceção de rivalidade sistémica, alguns estados tentam minar a ordem e impor visões revisionistas nas suas áreas de influência.

A guerra híbrida é caraterizada por “táticas de dissimulação”, cujos atores agem anonimamente ou negam envolvimento em incidentes. Para tanto, agem de forma criativa e coordenada, sem ultrapassar o limiar que levaria a uma guerra oficial.

Entre as “ameaças híbridas”, conta-se o crime organizado, as atividades subversivas, o terrorismo jihadista, a pirataria e a criminalidade cibernética nos setores militar, económico e social. E a NATO, já em 2015, classificava este tipo de ofensiva como a maior ameaça atual no cenário de conflito internacional. No entanto, a variedade de frentes e o anonimato utilizados pelos atores da guerra híbrida aumenta, exponencialmente, a dificuldade em as autoridades se defenderem desses ataques. A imprevisibilidade é uma arma para levantar a dúvida se ainda estamos em paz ou já estamos em guerra.

O trânsito massivo recente de migrantes para a Lituânia foi considerado um indício de uma tentativa de desestabilização política na UE fomentada pela Bielorrússia, aliada da Rússia (túneis, construídos ou tolerados por Minsk, atestariam a suspeita). O Kremlin acusou a Europa e os EUA de guerra híbrida, por meio das sanções impostas à Rússia, desde a sua invasão da Ucrânia. E são guerra híbrida as ações de guerrilhas e de grupos de milícia armada, como o Hezbollah, no Líbano, ou as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) e algumas estratégias de guerrilha utilizadas pelos EUA no Vietname, bem como o seu apoio político e logístico às ditaduras latino-americanas no século XX.

As ameaças híbridas são, pois, adversários misteriosos, capazes de conduzir todos os tipos de guerra em simultâneo. Um estratego terá dificuldade em elaborar uma estratégia de guerra moderna, se prescindir do conceito de guerra híbrida.

Para o governo alemão, a solução é a segurança integrada, interna e externa. Por isso, investe em centros de monitorização de drones, no combate aos ciberataques e na reforma dos serviços de inteligência, dando-lhes poder de executar ações e de intervir em ameaças.

Uma das principais iniciativas, inaugurada em junho, é o Centro Conjunto de Defesa contra Ameaças Híbridas (GAZ), no serviço de inteligência doméstico, o Verfassungsschutz. É lá que os diversos órgãos de segurança podem reunir-se, em caso de ameaças do tipo para “reagir com rapidez”. Contudo, não ficou poupado a críticas. Por exemplo, o procurador-geral federal, Jens Rommel, advertiu que o país já possui, além do GAZ, o Centro Nacional de Defesa Cibernética (NCAZ), o Centro Conjunto de Defesa contra Drones (GDAZ) e o Centro Conjunto de Combate ao Extremismo e ao Terrorismo (GETZ). Ora, na sua ótica, a existência de muitos centros diferentes pode ser contraproducente, por tender a gerar perda de eficiência, devido à falta de coordenação. Porém, o ministro do Interior, discordando, garante que o GAZ, para lidar com a guerra híbrida, vai “aperfeiçoar um conceito que já deu provas”.

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Para terminar, é de referir que a Rússia tem Portugal como “um dos países mais hostis na Europa” e não há dúvida sobre forma como encara as relações com o Estado português. A asserção é Aleksei Chekmarev, adido de imprensa da Embaixada da Rússia em Lisboa, numa entrevista exclusiva à CNN Portugal, transmitida a 30 de agosto, ao ser questionado sobre se Portugal é considerado um país inimigo pelos russos. “Agora a Rússia considera Portugal como um dos países mais hostis na Europa, sobre isto não deve haver qualquer dúvida”, respondeu, frisando que Lisboa “segue as políticas antirrussas” da UE e da NATO.

2026.09.02 – Louro de Carvalho


terça-feira, 1 de setembro de 2026

Não é aceitável a petulância Luís Neves, nem a fúria de André Ventura

 

O ministro da Administração Interna (MAI) – denunciado pela comunicação social como tendo cometido irregularidades, enquanto foi diretor nacional da Polícia Judiciária (PJ), pelo que está sob inquérito por ordem do Ministério da Justiça (MJ), vai a julgamento no Tribunal de Contas (TdC) e está sob averiguação preventiva na Procuradoria Europeia – já prestou, a tempo e a destempo, várias declarações públicas que se sintetizam, basicamente, em ter cometido erros, mas não crimes, nem ilegalidades (no que pode ter razão ou não), talvez irregularidades e informalidades. Depois, garante que esteve sempre do lado do bem, que fez boa gestão e que nunca prejudicou o Estado, antes o favoreceu.

Nas declarações que fez a 1 de setembro, afirmou-se vítima de campanha populista, acusando, em especial, o presidente do partido do Chega que, alegadamente, pretende criar o caos para dominar a agenda política e condicionar a governação. E porfia que vai continuar a governar contra todas as formas de populismo.

Ora bem, do meu ponto de vista, o único argumento válido que permite dizer que irá continuar a governar é a confiança que, reiteradamente, vem recebendo do primeiro-ministro (PM), o qual, segundo parece, não terá acolhido alertas, em privado, do Presidente da República (PR), que não tem o desplante do antecessor de criticar, na praça pública, os governantes, respeita, em público, as opções do chefe do governo, mas vai puxando pelos deveres das instituições.

André Ventura, que prometeu, a 28 de agosto (e  reafirmou no dia 31) a apresentação de proposta da criação de uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) sobre o que se passou na PJ, durante a liderança do atual MAI, mudou de agulha, prometendo a apresentação de moção de censura contra o governo, pelo facto de o PM não forçar a demissão de Luís Neves (que, na ótica do Chega, atingiu um nível “grotesco” e “inaceitável”), antes, reafirmando-lhe a confiança política e elogiando o seu trabalho ministerial, designadamente, em matéria de incêndios estivais e na solução das esperas nos aeroportos. É deu um prazo: a moção de censura, que pode fazer cair o governo, seria apresentada, caso o governante em causa não se demita até 1 de setembro, o que, pelos vistos, não aconteceu e está longe de acontecer.

Fica por explicar o motivo por que o líder do Chega passou da CPI para a moção de censura, que é uma posição política mais drástica. Terá entendido que apenas significaria perda de tempo, pois o próprio MAI se afirmou confortável com esse mecanismo parlamentar? Terá querido experimentar a “coragem” ou a modorra do Partido Socialista (PS) na relação com caso Luís Neves? Uma vez que os dois partidos que apoiam o governo votarão contra a moção, para que ela tenha êxito, o Chega precisa do voto favorável do PS. Dificilmente, o PS passará da abstenção para o voto a favor, para não dizer que votará contra. Com efeito, se o governo cair, o PS perderá no eleitorado, porque será tido como responsável por novas eleições; o governo pode ficar fragilizado ou robustecido, a juízo do eleitorado; e o Chega crescerá na sua ânsia de governar ou de condicionar a governação.

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Luís Neves, respondendo ao repto do Chega, tinha prometido esclarecimentos sobre as polémicas que o envolvem e cumpriu. A 1 de setembro, a partir do Funchal e em reação à possível moção de censura que o Chega ameaçou apresentar contra o governo, o governante falou aos jornalistas, para garantir que não deixará o cargo no executivo. “Nada me vai afastar daquilo que me levou a aceitar este cargo”, afirmou, dizendo-se alvo de uma campanha de intimidação.

E prosseguiu: “Escolheram a única estratégia que conhecem: lançar suspeitas, atacar a honra e tentar intimidar. A mim não me intimidam, jamais me intimidarão. Nada disto me intimida ou condiciona, não me vai impedir de governar.”

Na declaração perante os jornalistas, reconheceu já ter errado, mas garante que nada pode colocar em causa o trabalho realizado e as ações tomadas. “Cometi um ou outro erro que já reconheci, mas que não põe em causa a minha ação. […] Há uma distância, que não permitirei que seja apagada, entre os erros que assumi e os crimes que não cometi”, confessou, mas enfatizando: “Nunca tomei uma decisão que pudesse prejudicar o Estado, nunca, jamais, em tempo algum.”

No início do discurso, lembrou o trabalho desenvolvido enquanto diretor nacional da PJ, frisando que investigou, “sempre com provas”, porque, “sem provas, não há acusação, há difamação”.

André Ventura indicou, a 31 de agosto, que iria reunir com a direção nacional e com a bancada parlamentar do Chega, para decidir sobre a apresentação de uma moção de censura, caso Luís Montenegro não resolvesse a situação de Luís Neves.

Por isso, o líder do Chega não ficou de fora das palavras do ministro atingido pelas críticas. “Não aceito que André Ventura transforme aquilo que assumi, naquilo que nunca fiz”, afirmou o governante, reforçando: “Quem vive apenas da espuma do caos, ignora a essência da governação. […] O que importa são as pessoas. É alarmante ver como alguns acabam contaminados pela agenda do caos. Quem vive apenas a espuma do caos ignora a essência da governação. Há quem precise do caos para crescer. A criação do caos dá jeito.”

Depois, afirmou-se determinado para continuar no cargo e para “derrotar o populismo”. “O populismo não quer instituições fortes, não quer uma política de segurança, quer uma política de receio e medo. Quem transforma segurança em espetáculo, não protege o país, está a explorar os seus receios”, afirmou Luís Neves, lamentando que André Ventura o tenha comparado a um “gangster”. E reforçou, ironicamente: “Só falta dizer que ando a vender droga na rua […] Podem continuar a gritar, eu vou continuar a governar. Podem continuar a insultar. Há quem precise do caos para crescer, nós trabalhamos para fortalecer Portugal.”

Luís Neves garantiu que “nada o envergonha” e diz estar totalmente disponível para responder às perguntas de André Ventura na Assembleia da República (AR). “No próximo dia 8, terei a audição regimental no Parlamento. Quero dizer ao doutor André Ventura que estou totalmente disponível para lhe responder a qualquer questão que ali seja colocada.”

Em reação ao discurso, André Ventura considerou a intervenção do ministro “inqualificável”. Numa publicação na rede social X, o presidente do Chega qualificou como “impressionante, inenarrável e inqualificável” o discurso de Luís Neves e questionou “o que saberá” o ministro sobre Luís Montenegro.

Todavia, o partido de Ventura ainda não decidiu a atitude a tomar, que ficou adiada par ao dia 2, porque pretende avistar-se, previamente, com o Presidente da República.

Também a presidente da Iniciativa Liberal (IL) defende que Luís Neves não tem condições para continuar como ministro da Administração Interna, considerando “absolutamente irresponsável” a sua continuidade no governo. “É absolutamente irresponsável deixar que Luís Neves continue no governo. Se o primeiro-ministro não tem coragem para o demitir, por razões que só ele saberá, Luís Neves deve colocar a nação à frente da sua lamentável circunstância pessoal e demitir-se”, escreve Mariana Leitão, na rede social X.

Mariana Leitão diz mesmo que a continuidade de Luís Neves no governo “não combate o populismo, pelo contrário, alimenta-o”. “Provoca uma crise grave nas instituições, destrói a imagem da PJ, arrasta o governo e impede-o de se concentrar em governar”, afirma.

Esta é a reação de Mariana Leitão às declarações do ministro da Administração Interna, que disse estar a ser alvo de mentiras e que “vai continuar a governar”.

A IL junta-se, assim, ao Chega, que classificou o discurso de Luís Neves como “impressionante, inenarrável e inqualificável”.

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A mais recente polémica a envolver o atual MAI é o facto de conduzir, em regime de comodato, um Volkswagen Golf GTD, viatura que pertence ao traficante de droga Rúben Oliveira, conhecido como “Xuxas”, que foi detido pela PJ, em 2022, e é considerado um dos maiores traficantes de droga em Portugal.

Nas declarações de 1 de setembro, Luís Neves sustenta que a legislação, que “reporta a 2007”, permite a utilização do veículo e que, enquanto diretor da PJ, deve ter feito a “afetação, ao serviço do Estado, de mais de 800 viaturas e outros bens”. “Parece que alguém, agora, está do lado de quem cometeu crimes. Porventura que fiquem com o património que utilizaram no crime, porventura que fiquem com o património branqueado do crime organizado”, discorreu.

O caso foi denunciado por investigação da TVI/CNN/Nascer do Sol. O Decreto-Lei n.º 11/2007, de 19 de janeiro, estabelece regras específicas para a utilização de bens apreendidos por órgãos de polícia criminal, prevendo a sua utilização provisória para fins operacionais. No entanto, o carro desportivo (como, aliás, outros bens apreendidos, como um televisor ou uma máquina de ginásio e outros objetos apreendidos) que efeito operacional tem na PJ ou no MAI?

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O ministro, que é a segunda vez no espaço de um mês que responde, publicamente, às polémicas de que tem sido alvo, salientou que tem “motivação adicional” para continuar na pasta. Disse que quer contribuir para derrotar, politicamente, o “populismo” e a ideia de que “vale tudo”, a normalização da mentira e a acusação sem provas, e impedir que “o pior que esta democracia produziu” destrua o que várias gerações construíram.

Todavia, o MAI – que tem razão, ao denunciar que o populismo “não quer respostas”, mas “suspeitas permanentes”, e que “precisa de repetir, até à exaustão, uma mentira, até que as pessoas deixem de perguntar se é verdadeiro, precisa de convencer os portugueses de que todos os políticos são corruptos, precisa de que ninguém confie em ninguém” – não pode acusar os órgãos de comunicação social de mentirem ou de terem orquestrado uma campanha de mentiras. Quando muito, pode acusar o Chega ou a IL de exagero ou de aproveitamento político-partidário.

Na verdade, os órgãos de comunicação social cumprem a sua função escrutinadora numa democracia destemida e adulta; e não constituem nenhuma forma de censura moderna. E há factos denunciados pelos media e pelas redes sociais em que não há mentira. Não se pode é dizer, com certeza, que constituam ilegalidade ou crime ou que tenha havido dolo. Só os tribunais o poderão afirmar ou negar, mediante processo adequado.

É óbvio que Luís Neves não é nenhum gangster, nem criou um “Estado dentro do Estado”. Porém, as suas justificações são quase sempre evasivas.

Por exemplo, disse não ter prestado declarações de rendimentos e de património, porque não fora notificado, como se isso fosse necessário. O gestor público sabe os seus deveres!

Quanto a notícias de que televisores, equipamentos de ginásio, cadeiras e sofás apreendidos numa operação tenham sido reclamados pela PJ para uso operacional (que uso?), ou da utilização pessoal de um carro apreendido a um traficante de droga, fugiu ao essencial da questão, ao alegar: “Nunca tomei uma decisão que pudesse prejudicar o Estado. Apliquei a lei, uma legislação que se reporta a 2007. Os bens do crime, sempre que a lei permite, devem ser colocados ao serviço de quem combata o crime. Não é ao fim de sete ou oito anos que iremos aproveitar o património de quem cometeu crimes que está afeto ao Estado. Farei sempre isso. Há quem veja nisso um escândalo, por ignorância ou por má fé.”

Lembrou que, enquanto diretor nacional da PJ, declarou, operacionalmente, feita a afetação ao serviço do Estado de mais de 800 viaturas e de outros bens, vincando que teve “a coragem de atacar o status quo”. Salientou que algumas das investigações jornalísticas em que tem sido visado se baseiam em invejas e falsidades de pessoas que foram afastadas por si, quando era diretor nacional da PJ. E lançou um repto aos inimigos: “Dizem que estou desaparecido em combate. Nunca estive tão presente onde verdadeiramente interessa: no combate por mais polícias na rua, ao crime organizado, ao tráfico de droga, na prevenção e [na] resposta aos incêndios.”

Há um mês, numa conferência de imprensa, o MAI tinha admitido alguns erros, mas garantiu que nunca cometera ilegalidades. Admitiu que, “se fosse hoje”, não voltaria a contratar o empreiteiro João Carvalho para as obras da sua propriedade, apesar de não ver nisso “conflito de interesses”. Falou também do atrelado apreendido numa operação antidroga e que foi encontrado num armazém da empresa de João Carvalho, em Barcelos, frisando: “Não foi desviado qualquer bem, não foi comprometida qualquer prova, não foi beneficiado quem quer que fosse e não há, aqui, qualquer ligação ao tráfico de droga.”

Disse que, na altura, concordou “com uma proposta de armazenamento” que lhe foi feita por um alto quadro da PJ que cuja “competência e integridade” mereciam, então, merecem, agora a sua total confiança. E assumiu: “É uma decisão minha e não dele. Voltaria hoje a tomá-la. Foi um ato de boa gestão.”

O MAI revelou que o atrelado estava em instalações da Marinha, porque não havia espaço nos armazéns da PJ, mas que a Marinha pediu a sua remoção urgente. O orçamento que havia para a destruição do material ascendia a quase 150 mil euros e a PJ não tinha cabimentação. Porém, soube-se, mais tarde, que havia quem se disponibilizasse por guardar o atrelado e os materiais por bem menos dinheiro e que as despesas não seriam da PJ, mas do MJ.

Por causa desta decisão, foi instaurado um inquérito-crime pelo Ministério Público (MP) em estão a ser investigados os crimes de abuso de poder e descaminho. Contudo, o ministro não viu “razões para ser constituído arguido”, apesar de admitir tal hipótese. Não disse se se demitiria se o MP o constituísse arguido, antes, garantiu: “Nunca pedi a demissão ao primeiro-ministro.”

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Depois de o governante ter reiterado a sua inocência e verberado o Chega, a presidente da IL, insiste que não há condições para Luís Neves se manter no cargo. Nisso, em vez de se juntar aos partidos do governo, junta-se ao partido de Ventura. Aliás, em agosto, a IL apresentou um requerimento, na AR, a pedir audição “urgente” de Luís Neves, tendo em conta que ficaram várias questões por responder sobre as polémicas que envolvem o ex-diretor da PJ, tal como solicitou que sejam ouvidos também, na AR, o dono da Construbarcelos e o atual diretor da PJ, que também é apontado como tendo, alegadamente, mentido em tribunal.

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Provavelmente, a novela continuará, porque a explicação do MAI não é satisfatória, parecendo sofrer de anarquia mental, e a ambição do partido de Ventura é ilimitada. De certo modo, espelha o que muitos insatisfeitos querem ouvir. Por outro lado, a postura do PS, no caso, é mal definida e até nebulosa. E é possível que o ex-diretor da PJ tenha criado anticorpos na corporação. Nem sempre pessoa vinda de dentro chefia melhor do que magistrados, como dantes. Conhece a instituição, mas dificilmente constrói o necessário distanciamento.

Por fim, enquanto se discutem estas questões, passam ao lado os grandes problemas do país.

2026.09.01 – Louro de Carvalho