quinta-feira, 21 de maio de 2026

Governo admite suspender novo sistema de controlo nos aeroportos

 

 

O novo Sistema de Entrada/Saída (EES) das fronteiras da União Europeia (UE) foi implementado de forma faseada, na UE, e estava previsto, para abril deste ano, o seu funcionamento, a 100%, em todo o território comunitário. Todavia, em Portugal, não está a funcionar.

O EES é um sistema digital para registar, eletronicamente, a entrada e saída de cidadãos de países terceiros no espaço de livre circulação Schengen – que é o destino mais visitado do Mundo, com 40% das viagens internacionais globais a atravessarem as suas fronteiras externas –, substituindo os carimbos manuais por registos biométricos e digitais. Contudo, está previsto que, em caso de falhas técnicas do sistema, os estados-membros possam recorrer, temporariamente, a procedimentos alternativos, incluindo registo manual e carimbos no passaporte, até à reposição do funcionamento normal.

O sistema entrou em funcionamento, a 12 de outubro de 2025, em Portugal e nos restantes países do Espaço Schengen; e, desde então, os tempos de espera nas fronteiras aéreas agravaram-se, principalmente, no Aeroporto Humberto Delgado (AHD), em Lisboa, com os passageiros a terem de esperar, por vezes, várias horas. Por isso, em dezembro de 2025, a Comissão Europeia, numa inspeção surpresa às fronteiras aéreas e marítimas de Portugal, detetou “graves deficiências” no controlo de fronteiras, particularmente, no AHD, tendo o relatório final apontado 14 falhas críticas relacionadas com recursos humanos, com falta de equipamentos e com a simplificação sistemática de procedimentos de segurança.

E, no final de dezembro de 2025, o governo anunciou medidas de contingência no AHD, em Lisboa, para reduzir os tempos de espera na zona das chegadas, nomeadamente, a suspensão por três meses do EES, que voltou, entretanto, a funcionar.

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A 16 de maio, o controlo de fronteiras nas partidas do AHD estava a registar atrasos, devido a “dificuldades técnicas/informáticas”, com o tempo de espera a ultrapassar uma hora, segundo a Polícia de Segurança Pública (PSP) e a ANA-Aeroportos, tendo esta passado a recomendar que passageiros com voos para fora do Espaço Schengen cheguem mais cedo ao aeroporto.

“A ANA - Aeroportos de Portugal confirma os tempos de espera elevados hoje no controlo de fronteira, superiores a uma hora, na área das partidas do Aeroporto Humberto Delgado”, avançou, então, fonte oficial da ANA, contactada pela agência Lusa, na sequência de relatos indicando a existência de longas filas.

No entanto, a gestora aeroportuária dizia que a situação estava a melhorar, embora ainda se mantivessem constrangimentos, pelo que os passageiros com voos para fora do Espaço Schengen deviam chegar mais cedo ao aeroporto.

Por sua vez, o porta-voz da PSP, Sérgio Soares, referia que, no atinente à zona das partidas e devido a dificuldades técnicas/informáticas, os tempos de espera estavam “acima dos parâmetros de referência”, ao passo que o controlo de fronteiras, na zona das chegadas do aeroporto, estava “com os tempos de espera dentro dos parâmetros de referência”. E salientava que, com o apoio da ANA, estavam a ser feitos “todos os esforços para repor os tempos de referência na zona das partidas, sem descurar a segurança e resiliência da fronteira e de todo o Espaço Schengen”.

“A ANA – Aeroportos está a colaborar com as autoridades responsáveis pelo controlo de fronteira, para mitigar os constrangimentos causados na operação aeroportuária, e reforçou as suas equipas, nos aeroportos para apoio aos passageiros”, indicou a gestora aeroportuária.

Os constrangimentos que se têm vindo a registar no controlo de fronteiras do AHD levou, em 2025, o governo a suspender, temporariamente, o sistema europeu de controlo de fronteiras para cidadãos extracomunitários, denominado Sistema de Entrada/Saída (EES) da UE, que já está a funcionar, novamente, desde o início deste ano.

No dia 17, fonte da PSP informava que o controlo de fronteiras nos aeroportos de Lisboa e de Faro registava tempos de espera “superiores ao desejável”, durante a manhã, mas que passaram a estar “dentro dos parâmetros de referência”. E referia à Lusa que os atrasos verificados nos dois aeroportos se deveram a razões técnicas informáticas, mas também à “dimensão elevada de tráfego aéreo no dia de hoje”. “Neste momento, os tempos de espera estão dentro dos parâmetros de referência”, assegurava a PSP, salientando que estava, com o apoio da ANA Aeroportos, a “encetar todos os esforços” para que os tempos de espera fossem os menores possíveis, “sem descurar a segurança e resiliência” da fronteira e de todo o Espaço Schengen.

Era o segundo dia em que controlo de fronteiras do AHD registava atrasos, por dificuldades técnicas informáticas, com o tempo de espera a ultrapassar uma hora, no dia anterior.

Também no dia 17, a PSP admitia tempos de espera superiores a duas horas no controlo de fronteiras do Aeroporto Francisco Sá Carneiro, em Pedras Rubras, no distrito do Porto. E indicava que o tempo máximo de espera, no domingo, dia 17, “com picos de tempos de espera entre as 09h00 e as 12h00, nunca foi superior a 100 minutos, em Faro, 110 minutos em Lisboa, e 130 minutos, no Porto”. Ou seja, admitindo que o controlo de fronteiras, no aeroporto do Porto, registou tempos de espera superiores a duas horas, a polícia rejeitou, no entanto, notícias sobre esperas de seis horas.

Num comunicado, divulgado no dia 17, à noite, a PSP justifica os atrasos com razões técnicas e informáticas e com “elevada dimensão de passageiros fora do Espaço Schengen”.

“Os três aeroportos controlaram cerca de 69 mil passageiros em voos vindos de fora do Espaço Schengen […] Desde cedo, foram tomadas medidas de contingência, sempre no estrito cumprimento das regras de segurança e das normas de controlo fronteiriço, tendo os parâmetros de referência sido alcançados, ao final da manhã”, disse a PSP, lamentando o que descreveu como “desinformação reiterada” sobre o controlo das fronteiras aéreas, dando como exemplo “notícias de seis horas de tempo de espera”.

Considerando que a desinformação “induz em erro os nossos cidadãos, prejudicando a imagem” do país, a PSP apelou à responsabilidade na partilha de informação. “A circulação de informação não verificada causa alarme injustificado e prejudica, não só o normal funcionamento das operações fronteiriças, como a própria eficácia da operação geral dos aeroportos”, alertou.

Segundo o Diário de Notícias (DN), as informações sobre os tempos de fila de espera foram publicadas por influencers, nas redes sociais, entre os quais, brasileiros.

A PSP disse que estão em execução investimentos, para aumentar a capacidade do controlo fronteiriço, para reforçar os recursos humanos e para melhorar a capacidade tecnológica.

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A 18 de maio, o primeiro-ministro (PM), Luís Montenegro, mostrou-se insatisfeito com resposta dada por parte dos serviços de controlo de fronteiras aeroportuárias, devido às longas filas de espera nos aeroportos, e disse, que se a situação continuar, admite suspender a recolha de dados biométricos. “Eu não escondo que estamos [o governo] insatisfeitos com aquilo que tem sido a resposta dada por parte dos serviços de fronteira nos aeroportos, em particular, no de Lisboa. Vamos levar este esforço até ao fim, até ao limite, para podermos ultrapassar a situação”, afirmou o chefe do governo, durante a inauguração das obras de estabilização do paredão de Moledo, em Caminha, num investimento de 180 mil euros.

O PM assegurou que o governo irá tomar medidas mais duras, caso a situação a isso obrigue. “Não queremos colocar em causa a segurança do país, mas também não queremos colocar em causa o movimento económico do país”, frisou o governante, que disse ter recebido relatos de “vários agentes económicos incomodados com essa situação”.

Estas declarações surgem depois de um fim de semana com longas filas nos aeroportos, justificadas pela PSP com razões técnicas e informáticas associadas a um elevado fluxo de passageiros de fora do Espaço Schengen.

Luís Montenegro assegurou que o governo está “a fazer um investimento enorme, do ponto de vista do reforço dos reforços humanos”. “Ainda agora vão sair cerca de 300 elementos de um curso da PSP, precisamente, para funções que têm que ver com o controlo de fronteiras, estamos a fazer um grande investimento, do ponto de vista tecnológico. Estamos a cumprir todas as regras e obrigações, dentro dos nossos compromissos no Espaço Schengen”, frisou.

Segundo o PM, o governo “está a centralizar, ou a fazer esse caminho, no que diz respeito a mecanismo de manutenção e, portanto, de agilidade do ponto de vista da assistência aos equipamentos que temos”. “Estamos a fazer tudo o que nos compete para podermos ter mais capacidade de resposta” observou.

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A 8 de maio, a companhia aérea Ryanair apelou, mais uma, vez ao governo que suspendesse, até setembro, a aplicação do EES, destinado ao controlo de passageiros de fora do Espaço Schengen, para evitar constrangimentos nos aeroportos, durante a época alta de verão.

O Ministério da Administração Interna informou, no mesmo dia 8, em resposta a uma questão da Lusa, que Portugal “mantém o compromisso de assegurar” o funcionamento do EES, em conformidade com o direito da UE, “não estando prevista qualquer suspensão deste sistema”. Não obstante, como ressalvou, “o quadro europeu aplicável admite, em circunstâncias excecionais e devidamente limitadas, a adoção de medidas operacionais, como a suspensão da recolha de biometria (imagem facial e impressões digitais), em determinados pontos de passagem fronteiriça, quando a intensidade do tráfego possa gerar tempos de espera excessivos”.

Como explicou a tutela, esta gestão operacional é da competência da PSP e, “durante as suspensões temporárias, o controlo de fronteiras cumpre todos os protocolos de segurança definidos, sendo a recolha de biometria retomada, logo que atingidos os parâmetros de referência”. Assim, segundo indicou, então, a PSP, em 11 e 12 de abril, foi suspensa a recolha de biometria nas partidas dos aeroportos de Lisboa, do Porto e de Faro, devido ao tempo de espera acima do desejado para os passageiros embarcarem.

Por seu turno, o ministro das Infraestruturas garantiu, a 20 de maio, que o governo está comprometido em encontrar uma solução para as filas nos aeroportos. Em audição regimental na Assembleia da República (AR), Miguel Pinto Luz admitiu que “é um embaraço” a situação a que se assiste, frequentemente, com esperas de duas horas ou mais, no controlo de fronteiras. “Não queremos comprometer a imagem de Portugal mais do que já foi comprometida. Não vou pôr a minha cabeça na areia. Nas próximas semanas, no próximo mês, vamos mitigar a situação. Estamos a investir tudo o que é possível no hardware”, afirmou o governante.

Já no dia 18, o ministro tinha garantido que o governo “está a fazer todos os esforços, junto da Comissão [Europeia], mas também internos, para resolver essa situação”, e anunciou que haverá melhorias no serviço do AHD, no próximo mês, com a conclusão das obras de alargamento da zona de chegadas.

Já o Ministério da Administração Interna anunciou que o AHD vai ter mais ‘boxes’ de controlo manual de fronteiras, a partir de 29 de maio, para reforçar a resposta operacional e para reduzir o tempo de espera.

Está também previsto um aumento do número de e-gates (fronteira automática) e, a partir de julho, um reforço dos recursos humanos da PSP afetos ao controlo de fronteiras com mais 360 polícias.

Também o primeiro-ministro se mostrou insatisfeito com a atuação dos serviços de controlo de fronteiras e admitiu, se a situação continuar, suspender a recolha de dados biométricos.

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Bruxelas nega que filas nos aeroportos em Portugal se devam a novo EES. Na verdade, a 21 de maio, fonte oficial do executivo comunitário, em resposta escrita enviada à Lusa, segundo esta agência, como se pôde ler no DN online, nesse dia, afirmou: “Temos conhecimento das notícias divulgadas pelos meios de comunicação social e estamos em contacto com Portugal, tal como com todos os estados-membros, no que diz respeito à implementação do EES. Os atrasos podem ter várias causas e, muitas vezes, não estão relacionados com o funcionamento do EES.”

Nestes termos, a Comissão Europeia nega que as filas nos aeroportos, em Portugal, se devam ao novo Sistema de Entrada/Saída das fronteiras da UE, apontando que o processamento dos registos demora, em média, pouco mais de um minuto, “na maioria dos estados-membros.

De acordo com Bruxelas, “é também esse o caso aqui”. No entanto, como reforça a instituição, o executivo comunitário “continuará em contacto com Portugal, sobre este assunto, e continuará a prestar o apoio necessário”, se bem que “os desafios enfrentados em Portugal, incluindo tempos de espera mais longos, não estão relacionados com quaisquer problemas no funcionamento do Sistema de Entrada/Saída”. “Quaisquer situações excecionais podem ser – e estão a ser – resolvidas, através das flexibilidades e [de] procedimentos alternativos previstos na legislação da UE. Cabe aos estados-membros assegurar a correta implementação do EES no terreno, [sendo que] a Comissão mantém contacto com todos os estados-membros […] e continuará a prestar o apoio necessário”, assegura fonte da Comissão Europeia.

Desde outubro de 2025, foram registadas quase 66 milhões de entradas e saídas neste novo sistema, bem como mais de 32 mil recusas de entrada, das quais mais de 800 pessoas foram identificadas como representando uma ameaça à segurança da UE.

Na resposta à Lusa, Bruxelas frisa que “a fluidez nas fronteiras deve também ser assegurada pelos estados-membros, através da disponibilização de um número adequado de guardas fronteiriços, de soluções automatizadas, como quiosques de autosserviço e portas eletrónicas (e-gates), bem como da utilização da aplicação de pré-registo ‘Travel to Europe’”. E concluiu: “Isto é particularmente importante nos pontos de passagem fronteiriça com tráfego intenso.”

No dia 18, foi anunciado que a PSP vai reforçar os aeroportos portugueses com 360 polícias em julho, para diminuir os tempos de espera dos passageiros de fora do Espaço Schengen.

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O país faz as reformas que a UE, determina e em cujo processo as autoridades portuguesas participam, mas é difícil a concretização no terreno ser isenta de mácula: os meios informáticos são insuficientes ou falham; os espaços são exíguos; os recursos humanos alocados às tarefas são mínimos; o dinheiro falta, para aquilo que é necessário, embora não falhe para certas mordomias; a administração pública enreda-se na lentidão da burocracia e na diversidade de entidades que têm de dar parecer; a fiscalização é demorada e a justiça mais do que lenta.

O ex-Presidente da República e ex-primeiro-ministro, que foi laureado com recém-criada Ordem Europeia do Mérito entregue pelo Parlamento Europeu (PE), dizia que Portugal era o bom aluno da UE, mas, pelos vistos, enganou-se.

E, quanto a falhas informáticas, tão frequentes, em aeroportos e em outras estruturas do país, é caso para perguntar se são apenas os idosos, como eu, os iliteratos em tecnologias.

2026.05.21 – Louro de Carvalho

Acordo comercial EUA e UE já coberto por acordo político

 

A 20 de maio, apesar das relações transatlânticas incertas, os negociadores da União Europeia (UE), isto é, os diplomatas do Conselho da União Europeia (Conselho da UE) e os eurodeputados acordaram na aplicação do controverso acordo comercial concluído no verão de 2025 com os Estados Unidos da América (EUA), também dito acordo de Turnberry, por ter sido assinado na cidade escocesa com aquele nome, onde o líder norte-americano, Donald Trump, possui um resort de golfe. Porém, esse entendimento continua frágil, enquanto o inquilino da Casa Branca insistir no uso de tarifas como instrumento de pressão política.  

O acordo político abre caminho à entrada em vigor dos termos negociados entre os EUA e a UE para o comércio transatlântico, no próximo mês, respeitando o prazo dado por Donald Trump (até 4 de julho deste ano) para a conclusão do processo, que elimina direitos aduaneiros sobre a maioria dos bens industriais norte-americanos importados para a Europa.

O líder norte-americano ameaçou aumentar as tarifas sobre as exportações da UE, nomeadamente, de automóveis, que seriam revistas de 15% para 25%, se a UE não cumprisse os seus compromissos no acordo comercial, até ao termo daquele prazo.

As negociações foram concluídas, duas semanas depois de o presidente dos EUA ter ameaçado impor tarifas de 25 % sobre os automóveis europeus, se a UE não aplicasse o acordo fechado por Trump e pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, em Turnberry, na Escócia, no verão passado, até 4 de julho.

O Acordo de Turnberry, criticado por eurodeputados, por ser desequilibrado, aumenta, até 15 %, as tarifas norte-americanas sobre bens da UE, a qual se comprometeu, ainda, a investir 600 mil milhões de dólares em setores estratégicos nos EUA, até 2028, e a comprar energia norte-americana no valor de 750 mil milhões de dólares.

Os eurodeputados mantiveram o acordo congelado, durante várias semanas, na sequência das ameaças de Trump relativas à Gronelândia, no início deste ano, suspenderam o processo depois de os EUA terem adotado novas tarifas, na sequência de uma decisão do Supremo Tribunal Federal que julgou ilegais as tarifas impostas pela Casa Branca, desde o regresso de Trump ao poder, e anunciadas no “Dia da Libertação” (2 de abril de 2025).

Ao exigirem clareza à administração norte-americana, os eurodeputados acabaram por aceitar iniciar negociações com a presidência cipriota do Conselho da UE, que representa os estados-membros, depois de a Comissão Europeia lhes garantir que os EUA cumpririam a sua parte do acordo e limitariam as tarifas a 15 %, como previsto.

“A UE e os Estados Unidos [da América] partilham a maior e mais integrada relação económica do Mundo. Manter uma parceria transatlântica estável, previsível e equilibrada é do interesse de ambos os lados”, declarou o ministro do Comércio de Chipre, Michael Damianos, vincando: “Hoje, a União Europeia cumpre os seus compromissos.”

Porém, as relações entre a UE e os EUA continuam frágeis e, em Bruxelas, admite-se que a Casa Branca possa continuar a usar tarifas, para exercer pressão política sobre a UE, caso o bloco não responda às exigências da administração norte-americana, noutros dossiês.

As recentes ameaças de Donald Trump relativas aos automóveis da UE visaram também a Alemanha, cujo chanceler, Friedrich Merz, criticou a guerra no Irão desencadeada pelos EUA em conjunto com Israel. Por outro lado, o inquilino da Casa Branca tem instado, repetidamente, os países europeus a enviarem navios em ajuda à garantia da segurança no estreito de Ormuz, um passo que os europeus têm mostrado relutância em dar.

Muitos outros pontos de discórdia continuam a pressionar as relações entre UE e EUA, em relação à Ucrânia, incluindo a recente prorrogação norte-americana de uma derrogação das sanções à Rússia, que permite a compra de petróleo russo, e em relação à NATO, que Donald Trump, por várias vezes, ameaçou abandonar.

Na noite do dia 19 para o dia 20, os eurodeputados tentaram blindar o acordo, pelo acréscimo de condições, correndo o risco de irritar Washington com disposições adicionais que os EUA não tinham avalizado. Ou seja, os negociadores por parte do Parlamento Europeu (PE) queriam incluir na legislação salvaguardas mais rigorosas, incluindo uma “cláusula de início de vigência”, segundo a qual a UE só reduziria as tarifas, quando os EUA cumprissem a sua parte do acordo, ou a possibilidade de suspender o acordo se os EUA violassem os seus termos, e uma “cláusula de extinção”, para pôr fim às concessões tarifárias da UE, a 31 de março de 2028. Contudo, os governos da UE mostraram-se menos dispostos a incluir tais proteções, receosos de antagonizar Trump e de criar incerteza para as empresas do bloco europeu.

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O que foi acordado, nos dias 19 e 20, foi um conjunto de textos legislativos da UE, ou seja, um acordo político para eliminar tarifas aos produtos dos EUA.

Nos termos do acordo firmado no resort de golfe de Turnberry, propriedade do presidente norte-americano, na Escócia, em julho de 2025, a UE concordou em eliminar as tarifas aplicadas aos produtos industriais dos EUA e em conceder acesso preferencial ao mercado interno a produtos agrícolas e agroalimentares norte-americanos. E os EUA passaram a aplicar uma tarifa base de 15% à maior parte das exportações da UE.

Quase dez meses após esse acordo-quadro, o PE e o Conselho da UE, que representa os governos do bloco, chegaram a acordo sobre os textos legislativos que abrem caminho à entrada em vigor das reduções tarifárias da UE, com salvaguardas, caso a Administração Trump não cumpra os termos estabelecidos na Escócia. Em concreto, foi obtido consenso sobre dois regulamentos destinados a implementar os aspetos tarifários do acordo comercial com os EUA: o primeiro, o principal, elimina os direitos aduaneiros remanescentes sobre bens industriais dos EUA e concede acesso preferencial ao mercado europeu, inclusive, através de quotas e de tarifas reduzidas para peixe e para marisco, como peixe do Alasca, salmão do Pacífico e camarão, e produtos agrícolas não sensíveis dos EUA, como soja, milho, frutos secos, fruta fresca e processada. O segundo visa o prolongamento da suspensão das tarifas para importações de lagosta, incluindo lagosta processada.

A este respeito, no dia 20, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, através do X, saudou o acordo alcançado pelo PE e pelo Conselho da UE sobre a redução das tarifas para as exportações industriais dos EUA para a UE, o qual significa que, em breve, o bloco europeu cumprirá a sua parte da Declaração Conjunta UE-EUA, conforme prometido. E apelou aos colegisladores para que ajam com rapidez e finalizem o processo, para que se garanta “um comércio transatlântico estável, previsível, equilibrado e mutuamente benéfico”.

A eurodeputada Zeljana Zovko, relatora do grupo do Partido Popular Europeu (PPE), também escreveu, no X, que o acordo proporciona uma estrutura mais estável para as relações comerciais entre a UE e os EUA, ao mesmo tempo que deixa espaço para novas discussões sobre questões não resolvidas, particularmente, no setor do aço e do alumínio.

Também Michael Damianos, ministro da Energia, Comércio e Indústria de Chipre, que detém a presidência do Conselho da UE, neste semestre, referiu, em comunicado, que manter uma parceria transatlântica “estável, previsível e equilibrada é do interesse de ambas as partes”. Salientou que a UE e os EUA “partilham a maior e mais integrada relação económica do Mundo”, vincando: “Hoje, a União Europeia cumpre os seus compromissos. Somos e continuaremos a ser um parceiro de confiança no comércio global. Garantimos, no nosso acordo, salvaguardas robustas para podermos proteger os interesses, as empresas e os trabalhadores europeus.”

O bloco deverá conseguir cumprir o prazo de 4 de julho estabelecido por Trump, com a votação final de aprovação no PE prevista para meados de junho. Após a finalização da legislação, a nível técnico, o acordo provisório, sobre ambos os regulamentos, deverá ser endossado e formalmente adotado pelo PE e pelo Conselho Europeu (que define as grandes prioridades e as orientações políticas gerais da UE e é composto pelos chefes de Estado ou de Governo de todos os estados-membros, pelo presidente do Conselho Europeu e pelo/a presidente da Comissão Europeia), e entrarão em vigor no dia seguinte à sua publicação. O segundo regulamento, relativo à importação de lagosta, terá efeito retroativo a 1 de agosto de 2025.

No braço de ferro entre Washington e Bruxelas, terminado em julho de 2025, depois de se prolongar durante mais de três meses, foi o presidente dos EUA que venceu: apesar de a taxa de 15% a aplicar às mercadorias europeias ser metade da tarifa de 30% que Trump ameaçara impor à UE, o valor supera os 10% que os produtos europeus pagavam à entrada no mercado norte-americano, desde abril, quando começaram as negociações. A nova taxa corresponde ao aumento de mais de 900%, face à taxa média de 1,47%, cobrada à esmagadora maioria dos produtos europeus, antes do regresso de Donald Trump à Casa Branca. Em 2025, as trocas entre UE e EUA totalizaram 1,64 biliões (na nomenclatura europeia, milhões de milhões) de euros, correspondente a 30% do comércio global e a 43% do produto interno bruto (PIB) mundial.

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Horas depois de os negociadores terem fechado as condições políticas e legislativas para a vigência do polémico acordo comercial UE-EUA concluído em julho de 2025, Bernd Lange, o principal negociador do PE, defendeu o ritmo e o alcance do entendimento, mas advertiu que a Europa nunca estará fora de perigo, enquanto o presidente dos EUA, Donald Trump, se mantiver em funções. A esse respeito, afirmou ao programa Europe Today, da Euronews, na manhã de 20 de maio: “Tivemos de ser mesmo muito prudentes. O presidente Trump recorreu, de facto, a medidas coercivas contra nós. Agora, temos uma rede de segurança.”

Recordou que os diplomatas e os eurodeputados chegaram a acordo, na noite de 19 para 20 de maio, para aplicar o contestado acordo UE-EUA, que elimina direitos aduaneiros sobre a maioria dos bens industriais norte-americanos importados para a Europa; que as negociações terminaram duas semanas depois de Donald Trump ter ameaçado impor tarifas de 25% sobre os automóveis europeus, se os Europeus não aplicassem, até 4 de julho, o acordo acertado com a presidente da Comissão Europeia; e que o PE vinha a defender salvaguardas mais fortes para proteger o acordo, em caso de novas ameaças unilaterais de Trump, nomeadamente, com inclusão da “cláusula de caducidade”, que permite à UE denunciar o acordo, caso não seja renovado, a partir de 31 de dezembro de 2029, onze meses depois da data prevista para Trump deixar o cargo, alterando a data inicial de 31 de março de 2028, por pressão dos governos do bloco.

Bernd Lange frisou que o chamado “Acordo de Turnberry” tem sido criticado por muitos eurodeputados, por ser desequilibrado, visto que fixa tarifas norte-americanas sobre bens europeus em 15%, ao mesmo tempo que reduz, drasticamente, os direitos aplicados aos bens norte-americanos importados para a Europa. Não obstante, declarou: “Este é um pacote que dá previsibilidade e segurança para nós, para os nossos consumidores e para a nossa indústria. Por isso, fico bastante satisfeito por o termos concluído.”

Todavia, o principal negociador do PE associou estas declarações à preocupação de que a UE “não tem segurança”, face aos imprevisíveis humores do presidente republicano e às “turbulências do outro lado do Atlântico”. “Temos, realmente, uma rede de segurança e salvaguardas. Teremos um acompanhamento das consequências económicas dentro da União Europeia, a partir de três meses após a entrada em vigor desta legislação […] Temos muitas cláusulas de suspensão e também uma regulamentação clara segundo a qual, se os Estados Unidos [da América] não reduzirem as tarifas sobre estes produtos metálicos, até ao fim do ano, então levantaremos a suspensão das nossas tarifas neste dossiê”, clarificou Bernd Lange.

Por fim, disse que o pacote dá à Europa previsibilidade, perante “o desconhecido”, e manifestou a esperança de que “a administração norte-americana atue de forma adequada”.

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O Grupo PPE (o maior grupo político, no PE, com 185 deputados de todos os estados-membros) saúda o acordo alcançado entre o PE e os estados-membros da UE sobre o Acordo-Quadro de Comércio UE-EUA, como passo importante para aliviar as tensões comerciais transatlânticas e restaurar a segurança para as empresas e os trabalhadores europeus.

Para eurodeputada do Grupo PPE responsável pelas relações comerciais com os EUA, Željana Zovko, o resultado mostra que a política pragmática e as negociações construtivas ainda podem produzir resultados, apesar da crescente instabilidade global. “Graças à liderança do Grupo do PPE, os colegisladores chegaram a um acordo sobre o comércio entre a UE e os EUA, evitando uma grave escalada das tensões comerciais transatlânticas”, disse Zovko.

Durante meses de negociações, o Grupo PPE alertou contra as consequências económicas de uma escalada tarifária entre a UE e os EUA, insistindo que a Europa não poderia permitir um conflito comercial com o parceiro estratégico e económico mais importante, pelo que lutou por um acordo que protegesse as empresas, os investimentos e os empregos europeus de incerteza prolongada, ao mesmo tempo que abordava as crescentes preocupações do setor sobre a falta de previsibilidade nas relações comerciais transatlânticas. “Este acordo prova que a liderança responsável e as negociações pragmáticas ainda podem prevalecer em tempos de crescente incerteza global. Ouvimos as preocupações dos nossos setores e empresas, que há meses vêm pedindo estabilidade, previsibilidade e segurança jurídica”, vincou Zovko.

Zovko espera que o acordo forneça uma estrutura mais estável para as relações comerciais entre a UE e os EUA, deixando espaço a discussões sobre questões não resolvidas, especialmente, nos setores de aço e do alumínio, e que os parceiros transatlânticos aceitem a mão que a Europa ofereceu, com vista uma parceria transatlântica mais forte e equilibrada.

E o eurodeputado Jörgen Warborn, porta-voz do Grupo PPE para o comércio internacional, diz que, apesar das suas deficiências, o acordo oferece a melhor base disponível para restaurar a previsibilidade do comércio transatlântico e para salvaguardar o sistema comercial global baseado em regras, continuando a ser a opção mais viável atualmente disponível e o resultado preferível para as empresas da UE.

O Grupo EPP enfatiza que a estreita cooperação entre a Europa e os EUA é essencial na crescente incerteza geopolítica e económica, visto que ambos compartilham interesses económicos e uma responsabilidade estratégica para preservar a estabilidade, para fortalecer as suas indústrias e para salvaguardar a parceria transatlântica para o futuro.

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Enfim, uma negociação que deveria garantir estabilidade está ensombrada pelo espectro da incerteza e do atropelo iminente das regras que definiu, ao arrepio do princípio “pacta sunt servanda”.

2026.05.20 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 20 de maio de 2026

O pacifismo parece ter os dias contados

 

Os Estados Unidos da América (EUA), sob a liderança de Donald Trump, estão a intervir ou a tentar intervir, comercial ou militarmente, em praticamente todos os lugares do Orbe.

Foi e é a intervenção militar no Irão, a complacência cooperante com Israel na guerra de Gaza, dita pacificada, ou o bloqueio norte-americano no Estreito de Ormuz; foi e é a apetência pela Gronelândia, pelo Canadá, pelo México e pelo Panamá; foi a extração do presidente venezuelano, Nicolás Maduro; é a ameaça a Cuba e à Colômbia; é o apoio a Taiwan, contra a China; é o jogo ambíguo com Vladimir Putin, mesclado com hipócrita apoio à Ucrânia; é o descarte do apoio à Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) e o seu enfraquecimento, com o relaxamento da defesa do continente europeu aos seus próprios recursos; é a criação irónica do famigerado Conselho da Paz, com a subalternização da Organização das Ações Unidas (ONU) e com a retirada ou com o enfraquecimento do apoio financeiro às suas instituições; é o desprezo pela União Europeia (UE); é a guerra comercial, em várias frentes, adoçada por acordos comerciais em que os EUA ganham sempre; e o pseudopacifismo em várias frentes onde havia conflito armado, em demanda da atribuição do Prémio Nobel da Paz.           

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Penso que será útil a leitura do artigo da jornalista Catarina Maldonado de Vasconcelos, intitulado “’O Japão é uma potência militar’: o fim do velho pacifismo perante a ameaça da China”, publicado a 19 de maio, no Expresso online, referindo que, sempre que “a Coreia do Norte lança um míssil no Mar do Japão” ou “a China afirma a sua força em zonas disputadas nos mares da China Oriental e Meridional, mais os Japoneses se convencem da necessidade de uma postura de defesa mais forte” e que o país está a aumentar o “poder de dissuasão e defesa”.

O Japão vem sendo rotulado de pacifista, pois, em grande parte do pós-guerra, “cultivou uma tradição antimilitarista”, porque “as elites japonesas e o público, em geral, sempre desconfiaram do papel do poder militar na resolução de questões internacionais complexas”, segundo Chris Hughes, professor na Universidade de Warwick. Porém, como aponta a jornalista, o país “sempre esteve preparado para se defender, se necessário”, mantendo “um poderio militar substancial e cultivando a aliança” com os EUA, mas, como diz Hughes, rearmou-se e transformou o exército numa força muito avançada tecnologicamente e interligada, “com capacidade de contra-ataque, e muito mais integrada nas forças e na estratégia dos EUA”.

A sua estratégia de segurança do pós-guerra é um misto de isolacionismo, de desconfiança antimilitarista, face aos militares e ao controlo civil, e de realismo defensivo.  O país rearmou-se, com a criação, em 1954, das Forças de Autodefesa, que foram crescendo, até se tornarem muito poderosas, mas focadas na “defesa territorial”. E, de acordo com o politólogo Paul Midford, as alterações, a partir de 2022, “acrescentam um elemento de dissuasão moderada, com a aquisição de mísseis de contra-ataque capazes de atingir alvos na Coreia do Norte e na China”. Porém, as capacidades de contra-ataque do Japão continuam modestas (400 mísseis Tomahawk) e levarão tempo a serem adquiridas aos EUA, devido à escassez destas armas naquele país. É certo que o Japão criou uma base jurídica restrita para o uso da força na defesa de outros países que sejam atacados, mas não há consenso sobre quando ou se este direito de autodefesa deve ser exercido.

A primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, apontada como defensora acérrima da ‘linha dura’, disse a Donald Trump que o país não se podia envolver militarmente no conflito sobre o Estreito de Ormuz, por causa da Constituição, mas as empresas japonesas podem vender, livremente, equipamento militar avançado a 17 países com os quais o país mantém acordos de defesa, revertendo a política em vigor, desde 1967. E a chefe do governo justificou a decisão com a necessidade de garantir a segurança nacional, auxiliando países parceiros.

A Guerra do Golfo, no início da década de 1990, retirou o Japão da confortável relação de aliança, na qual as suas responsabilidades eram mínimas. Nas décadas subsequentes, à medida que os vizinhos se tornaram mais ameaçadores e provocadores, o país alterou as suas estratégias de defesa, aderindo à evolução da mudança baseada nas capacidades de dissuasão, mas há muitas restrições concetuais que limitam o uso da capacidade defensiva do país.

Desde a década de 1950, a política externa japonesa assenta em evitar o envolvimento em guerras que não lhe interessam e em impedir os EUA de abandonarem a sua proteção militar. Porém, não se pode dizer que Tóquio seja pacifista, embora tenha uma estratégia realista e calculada que perdurou no pós-guerra. O único aspeto pacifista do Japão é o artigo 9.º – a chamada Cláusula de Paz –, imposto pelos EUA na Constituição de 1947.  

Os politólogos creem que há razões a impelir o Japão à sua segurança. A China e a Coreia do Norte são as principais razões. A Marinha chinesa alargou as suas operações ao Pacífico Central, e a Coreia do Norte tem testado mísseis balísticos intercontinentais com maior alcance e capacidade de carga. Por isso, a mudança de postura japonesa passa por fornecer os melhores sistemas de armas disponíveis a parceiros, como as Filipinas e a Austrália. Nestes termos, Tóquio assinou um acordo de 6,5 mil milhões de dólares com Camberra para o fornecimento de 11 versões melhoradas das fragatas da classe Mogami, que já estão ao serviço da Força Marítima de Autodefesa do Japão. Os três primeiros navios de guerra serão construídos no Japão e entregues até 2030, sendo os restantes construídos na Austrália.

A Indonésia pretende adquirir submarinos da classe Oyashio, e as Filipinas ambicionam os contratorpedeiros de escolta da classe Abukuma, o que reforçará a capacidade da Marinha filipina, face às forças marítimas chinesas que tomaram atóis e recifes no Mar do Sul da China, território reivindicado por Manila. E o Japão trabalha com o Reino Unido e com Itália num caça furtivo de 6.ª geração, no âmbito do Programa Global de Aviação de Combate, e desenvolve o intercetor de fase plana com os EUA, para combate a mísseis hipersónicos.

O Japão sempre teve umas das forças armadas mais poderosas do Mundo, mas está a mudar a sua estratégia, priorizando as capacidades ofensivas e de contra-ataque, considerando a introdução de armas nucleares táticas norte-americanas e adotando uma postura mais avançada e proativa. Ou seja, as suas forças de autodefesa, que atuavam na defesa, têm de atuar no ataque, para dificultarem os cálculos de um adversário tão poderoso como a China.

A vontade de exportar armas japonesas, anterior a Sanae Takaichi, remonta à governação de Shinzo Abe, que flexibilizou a rígida proibição de 1967 às exportações de defesa, em 2014, para permitir a venda de equipamentos não letais, como os de vigilância, de transporte, de resgate e de desminagem. As armas letais continuaram a ser proibidas. Todavia, esta doutrina jurídica foi alterada, em 2014, por reinterpretação constitucional, e permitiu, com as Leis de Paz e Segurança, de 2015, maior integração com as forças dos EUA, alargando a capacidade do Japão de ir além do fornecimento de direitos de base e apoio na retaguarda, podendo entrar em conflito, a par dos EUA. Agora, a primeira-ministra pretende rever a Constituição, para remover o artigo 9.º, mas a opinião pública, sobretudo, a população mais antiga, não está convencida.

Rana Mitter, professor catedrático de Relações EUA-Ásia na Escola Kennedy de Harvard, sustenta que “o Japão sempre definiu a sua postura militar do pós-guerra como autodefesa”, mas reavalia o seu nível de resistência, face às pressões externas, porque está cônscio “das sensibilidades que envolvem o seu poderio militar” e “das tensões num Mundo que se torna cada vez mais perigoso”. Além disso, o Japão está “preocupado com a possibilidade de o tratado de segurança EUA-Japão ser menos seguro do que tem sido, desde a Guerra Fria”, isto é, a China e a Coreia do Norte são o problema mais grave que o país enfrenta, neste momento, pelo que está a adaptar a sua postura, face à mudança da doutrina global dos EUA.

A questão sobre se o país se está a rearmar ou a remilitarizar era pertinente, há alguns anos. Agora, segundo Hugo Dobson, professor de Relações Internacionais do Japão, na Universidade de Sheffield, o Japão, que “é uma potência militar”, vê tudo a mudar. A sua cultura e identidade “podem estar em processo de desenvolvimento”, mas ambas se encontram num patamar bastante diferente de “quando os debates giravam em torno da contribuição do Japão para as operações de manutenção da paz da ONU, na década de 1990, ou para a guerra contra o terror, na década de 2000”. Por isso, na ótica, Hugo Dobson, “é difícil que o artigo 9.º sobreviva”.

Em fevereiro, um funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, mostrou a sua oposição ao processo, que desafia a autoproclamada “dedicação à paz” ​​e a adesão à política “exclusivamente orientada para a defesa”. Por outro lado, um bloqueio a Taiwan, pela China, pode ser interpretado como “situação de ameaça à sobrevivência” do Japão que justificaria o uso da força. Porém, mesmo que uma contingência em Taiwan surja como ameaça à sobrevivência para o Japão, a participação das Forças de Autodefesa será limitada à força necessária e restrita ao apoio logístico.

Tóquio mostrou preocupação com o futuro da democracia taiwanesa e com o futuro do transporte marítimo e do comércio na região, caso Taiwan seja reunificada pela força. Cabe ao governo japonês determinar o que é uma “situação de ameaça à sobrevivência”. O Japão poderá não se mobilizar para defender Taiwan sozinho. Se o seu aliado, os EUA, responder a um ataque chinês a Taiwan e a China responder, atacando bases norte-americanas no Japão, o governo do Japão invocará, provavelmente, o “requisito de ameaça existencial” na autodefesa. Com efeito, um ataque da China a Taiwan constituiria grande perturbação no comércio de tecnologia, para o Japão e para a Europa, afetando os fluxos comerciais globais, mais drasticamente do que o conflito com o Irão afetou os fluxos de energia.

David Leheny, professor de Estudos da Ásia Oriental, na Universidade de Cornell, admite que a direção em que o Japão caminha tem gerado indignação dos pacifistas e da esquerda, por isso levar, alegadamente, o Japão a ser primordialmente uma potência militar, mas crê que a maioria das pessoas compreende que um conflito militar com uma potência da região pode ser catastrófico, pelo que os líderes japoneses não correrão esse risco.

A questão crucial para o futuro do artigo 9.º é, segundo David Leheny, a forma como o governo de Takaichi e o Partido Liberal Democrático o reescreverem, em caso de revisão constitucional. Porque Takaichi goza de popularidade, esta pode ser a melhor hipótese de realizar um sonho, para muitos, na direita, mas há obstáculos difíceis de ultrapassar para viabilizar a revisão. E, quanto mais extensa ela for, maior será a resistência e menor o apoio.

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O que está a acontecer no Japão está em paralelo com o que se passa noutras partes do planeta.

Aquando da mudança de postura do governo dos EUA, liderado por Joe Biden, consubstanciada na autorização do uso de mísseis de longo alcance contra as tropas russas e norte-coreanas, na região de Kursk, no Oeste da Rússia, região tomada pela Ucrânia numa contraofensiva em agosto de 2024, Moscovo decretou a alteração da sua doutrina nuclear, permitindo o uso de armas nucleares contra países que ataquem os territórios da Rússia ou dos seus aliados, ultrapassando o objetivo inicial de desmilitarização e de desnazificação da Ucrânia.  

Em fins de novembro de 2025, depois da sua manifestação de várias apetências territoriais (nomeadamente, onde haja terras raras, zonas de veraneio ou pontos estratégicos para os EUA), Donald Trump aprovou a nova estratégia de segurança nacional norte-americana, com mira ao domínio do Hemisfério Ocidental, ao apoio apenas aos países que estejam em consonância com a supremacia norte-americana, designadamente com ideias e postura conservadoras, e deixando a defesa da Europa entregue a si própria.

Entretanto, a Europa, devido à necessidade de autonomia estratégica e às ameaças geopolíticas, optou pelo rearmamento, prevendo investimento de até 800 mil milhões de euros na modernização militar, para fortalecer a dissuasão nas áreas terrestre, aérea, marítima, ciberespacial e espacial. Nesse sentido, a Comissão Europeia lidera um plano que canaliza fundos disponíveis e novos empréstimos (estimados em 150 mil milhões de euros) para a indústria de defesa, aliviando as restrições das regras fiscais aos estados-membros. E a Alemanha, numa mudança histórica, planeia excluir a defesa dos seus limites de controlo de dívida pública, em prol de forte aumento do investimento para revitalizar o seu poderio militar. Este esforço conjunto visa complementar as obrigações dos países europeus, para com a NATO, reduzindo a dependência europeia, face a aliados externos.

Por pressão de Donald Trump, os membros da NATO – estrutura que não possui orçamento centralizado para as forças armadas, mas apenas orçamentos centralizados e relativamente pequenos para cobrir os custos operacionais, civis e militares das infraestruturas e quartéis-generais partilhados – acordaram que cada país deve gastar em defesa, a curto prazo, o equivalente a, no mínimo, 2% do seu produto interno bruto (PIB), estando em andamento metas de investimento progressivas ainda mais elevadas, a médio prazo, que atingirão os 5% do PIB, num horizonte temporal até 2035.

Na conferência “40 Anos de Portugal na UE: Sucessos e Desafios”, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, no Porto, a 12 de maio, defendeu que é inviável a criação de um exército europeu, mas apontou para maior cooperação atlântica, em matéria de defesa. O ex-presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, defendeu a importância da NATO, na defesa da Europa, mas sustentou que “há que avançar com as capacidades europeias na defesa”. E o deputado socialista no Parlamento Europeu (PE) Francisco Assis defendeu que este é “um debate que a Europa começa a ter” e que mexe com a “memória dos povos” europeus.

Em entrevista à Rádio Renascença, divulgada na noite de 13 de maio, o ex-presidente Aníbal Cavaco Silva defendeu uma força europeia separada da NATO, mas em cooperação com ela, para reduzir a dependência dos EUA, e considerou o presidente Donald Trump “supererrático”. Considerou que Ursula von der Leyen “tem realizado um trabalho excelente, num tempo muito difícil, num tempo de guerra na Ucrânia”, e elogiou a “muita força e determinação” da política alemã contra “aqueles que tentaram restringir o apoio europeu à Ucrânia”, país em guerra com a Rússia que, para o ex-governante, não deve ser excluído da possibilidade de alargamento da UE. Por outro lado, sublinhou que se a UE tivesse “um mercado de capitais verdadeiramente europeu, seria possível aos estados e às empresas fazerem grandes emissões de dívida a nível europeu, podendo competir com as grandes emissões de dívida norte-americana”.

O também ex-primeiro-ministro, frisando que Trump considera as relações comerciais não para benefício dos que intervêm na transação, mas só para benefício dos EUA, vincou: “Temos, nos EUA, um presidente não confiável para a Europa, mas a Europa não deve acobardar-se perante as exigências do presidente Trump.”

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Enfim, todos clamam pela paz, mas aprontam-se para a guerra.

2026.05.19 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Suásticas e vandalismo cultural em Lisboa e política similar nos EUA

 

Em artigo intitulado “Suásticas em Lisboa: PS critica ‘desvalorização’, Câmara também vê perigos na extrema-esquerda”, publicado, a 18 de maio, pela Euronews, João Azevedo aborda a vandalização da estátua da escritora Natália Correia, na Graça, que levou o Partido Socialista (PS) a alertar para difusão “preocupante” de mensagens de ódio.

Alexandra Leitão, vereadora do PS na Câmara Municipal de Lisboa (CML) quer mais empenho no combate à intolerância, ao que o presidente do município, Carlos Moedas, responde que não há “extremismos virtuosos”, acusando a vereadora de “visão maniqueísta”.

Refere o jornalista que, poucos dias antes da celebração dos 52 anos do 25 de Abril (aliás, no dia 16), um ato de vandalismo, em Lisboa, contra a estátua de Natália Correia, ícone da luta pela liberdade, inflamou “o já muito entrincheirado debate político no país”.

A estátua, erigida, em 2023, na freguesia de São Vicente, para marcar o centenário do nascimento da escritora açoriana, foi danificado e alvo de pichagens: sobre o rosto, foram desenhadas cruzes suásticas, o emblema adotado pelo Partido Nazi alemão, em 1920, e que se tornou o símbolo mais representativo da propaganda hitleriana, assente em reivindicações de supremacia da raça ariana, remetendo para o Holocausto, pelo que, em vários países, o seu uso em apologia do nazismo é proibido por lei.

Os danos foram denunciados, no dia 25, pelo presidente da Junta de Freguesia, condenando a “simbologia de ódio” nos termos de um ataque cujo alcance vai além da personalidade visada. “Vandalizar a memória de Natália Correia é tentar, inutilmente, silenciar os valores da inteligência, da insubmissão e da democracia que ela tão bem personificou”, escreveu André Biveti, na rede social Instagram, prometendo resistir a quaisquer tentativas de intimidação, porque a escritora “ensinou-nos a não ter medo”.

Também a vereação do PS condenou, energicamente, o incidente, através de voto de repúdio, que mereceu aprovação unânime na reunião privada do executivo camarário. Os representantes do PS na CML verberam o uso de “símbolos que evocam um dos períodos mais negros da História contemporânea”, num ato de “cobardia” que “não é apenas um crime de dano contra o património autárquico”, mas também um “ataque aos valores do Estado de Direito Democrático”. E apresentam Natália Correia como “vulto ímpar da cultura portuguesa” e põem em evidência o trabalho da autora como deputada da Assembleia da República (AR) na “defesa intransigente das mulheres”. “Ergueu a sua voz, firme e sem medo, contra o autoritarismo moralizador que ainda ensombrava o país, e contra o qual devemos estar vigilantes (…)”, assinalam os quatro vereadores socialistas, instando a CML a apelar às autoridades para a “rápida identificação e responsabilização” de quem maculou a estátua.

A Junta de Freguesia fez saber que tem recebido mais queixas, incluindo “ataques a casas de vizinhos”, e a vereação do PS reforça que não se tratou de “ato isolado de delinquência”, denunciando, com base no Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) relativo a 2025, um “padrão preocupante de propagação de símbolos e mensagens de ódio ligadas aos regimes nazis e fascistas”. O RASI, publicado no final de março, que recolheu os dados da criminalidade reportada pelas polícias à Direção-Geral da Política de Justiça (DGPJ), entre janeiro e dezembro de 2025, dá conta do aumento dos crimes de ódio em Portugal. Foram registadas 449 participações, uma subida de quase 7%, face a 2024 (que era ano recorde, com 421 denúncias), com a Área Metropolitana de Lisboa (AML) a concentrar 30% das ocorrências.

O relatório, como recorda João Azevedo, evidencia “uma maior crispação da sociedade portuguesa” provocada pelo “nível de polarização política, racial, religiosa e/ou sexual, acompanhada de fenómenos de desinformação”. E este sentimento induz “comportamentos de confrontação” materializados em “ações de protesto não autorizadas e, por vezes, disruptivas, com contornos de violência verbal ou física”, que perturbam o funcionamento da democracia e põem em risco a segurança da população e dos bens.

De acordo com Alexandra Leitão, “entre 2015 e 2025, os crimes de ódio cresceram uns estonteantes 2236%”, com as pessoas “a mimetizar o contexto social”, que “mimetiza o contexto político”, no quadro do crescimento do partido Chega, que levou ao clima de maior tensão na sociedade. “Há um discurso violento que não era muito comum em Portugal, até há seis anos, e as pessoas perdem um bocado a vergonha. Normaliza-se um certo tipo de discurso e, consequentemente, um certo tipo de atuação que, antes, estava mais escondida”, afirmou.

O RASI faz eco da radicalização política, ao indicar que a agenda da extrema-direita explora “temas fraturantes”, com propósitos eleitorais, sobretudo, a partir de uma retórica anti-imigração, que banaliza o “discurso público da discriminação, do ódio e das ideias antidemocráticas”, e favorece “comportamentos racistas ou xenófobos”. E mostra preocupação com o envolvimento de menores e de jovens adultos nestes fenómenos extremistas, incluindo grupos “com algum grau de estruturação”, que recrutam, na Internet, estas faixas mais vulneráveis da população, para doutriná-las, levando-as a “uma distorção da realidade” que as faz aderir a “teorias da conspiração ou a retóricas antissistema”. Estes movimentos, com “forte presença online, são alimentados por líderes carismáticos que, segundo o RASI, agem como “verdadeiros influencers”, em particular, junto de jovens do sexo masculino.

Alexandra Leitão, estabelecendo paralelismo com os movimentos a nível internacional, criados por Charlie Kirk e por Andrew Tate, denuncia a abundância de “discurso profundamente misógino” nas comunidades online radicalizadas e dominadas por rapazes/homens, que “não são de minorias”. “É uma misoginia que não passa só pelo famoso ‘O lugar das mulheres é na cozinha’, mas que vai mesmo ao ponto de incentivar a violência contra as mulheres”, adverte a ex-ministra do PS, lembrando a presença de influenciadores digitais, a convite, maioritariamente, de associações de estudantes, em dezenas de escolas, em Portugal, nos dois últimos anos letivos, para palestras com conteúdos de teor sexual e misógino.

Esta situação, frisa o jornalista, levou a Inspeção-Geral da Educação e Ciência (IGEC) a abrir um inquérito a dois diretores escolares. Por sua vez, o ministro da tutela interveio, anunciando a constituição de um grupo de trabalho para definir orientações que ajudem a determinar as entidades e personalidades externas que podem entrar no recinto escolar, mas salientou que a responsabilidade pelo controlo dos acessos recai sobre quem dirige os estabelecimentos e que não se justificava qualquer alteração na lei, que já estipula esse procedimento.

Alexandra Leitão, sustentando que faltou firmeza na posição do Ministério da Educação, volta a alertar para os perigos das narrativas de hostilidade contra as mulheres. “Não sou a favor de nenhum tipo de policiamento de linguagem, mas há uma fronteira entre a liberdade de expressão e o discurso de ódio, e essa fronteira está firmemente traçada na lei, quando tem tipos penais que criminalizam o discurso de ódio”, anota a socialista, considerando que a liberdade de expressão não serve para dizer que as mulheres são inferiores.

Em 2025, Luís Neves, então líder da Polícia Judiciária (PJ) e, agora, ministro da Administração Interna, assumiu posição assertiva, face a comportamentos misóginos. Em junho, alertou que alguns jogos online têm por objetivo violar, abater e perseguir mulheres: e, em outubro, deu conta da escalada dos crimes de ódio, em especial, contra pessoas do sexo feminino.

“Há, aí, uma visão machista de tratar a mulher como um ser menor”, referiu o agora governante falando em “crimes politicamente motivados” e prometendo “combate feroz” a todas as formas de violência com base no género, na nacionalidade, na raça ou no credo.

Alexandra Leitão aplaudiu a escolha de Luís Neves para liderar o Ministério da Administração Interna e admite, na qualidade de vereadora em Lisboa, avançar com “mais iniciativas”, até junto do governo, depois de esgotado o diálogo com a CML, se houver “continuação” de condutas extremistas na capital.

Em outubro, o líder da PJ trouxe à colação o facto de os jovens serem recrutados para cometer estes crimes com caráter discriminatório – situação inconcebível numa sociedade em que tem de prevalecer o respeito pelo ser humano. E o RASI relata que, em 2025, ocorreu a primeira condenação, em Portugal, de um rapaz com menos de 16 anos, por atos que constituiriam “infração terrorista” e “crime de discriminação e incitamento ao ódio e à violência”, de base ideológica de extrema-direita”, estando em causa alguém com maioridade penal.

O ataque à estátua de Natália Correia não pode ser visto à luz de mais um episódio de vandalismo, insiste Alexandra Leitão, frisando que a poetisa, dramaturga, ensaísta, jornalista, tradutora e editora sempre se opôs, sem amarras, ao pensamento e ao espírito da ditadura. Nos jornais, na rádio, na televisão, na AR (onde tem um busto) ou no seu bar “Botequim”, que reunia os intelectuais, desafiou os costumes epocais e corporizou a emancipação social e política que muitos procuravam, tendo sido processada e condenada a três anos de prisão, com pena suspensa, pela publicação de obras que, para o Estado Novo, ofendiam a moral pública.

Na mesma semana de abril em que se vandalizou a estátua de Natália Correia, teve lugar uma outra ação contra o património no espaço urbano lisboeta. Na freguesia de Santa Maria Maior, foi partido o nariz da estátua de Carlos Mendonça, um comerciante que se tornou uma das principais figuras das marchas da cidade. Sem minimizar este ataque, Alexandra Leitão deixa claro que as duas situações não podem ser colocadas no mesmo plano: numa, há um impulso circunstancial, enquanto, noutra, é visível a tentativa de criar um efeito social de intimidação. O “vandalismo casual, etílico” é “imensamente censurável”, ressalva, mas vincando que é preciso distingui-lo dos atos em que há uma motivação ideológica.

Além da destruição material, a socialista menciona o caso de violência, a 10 de junho de 2025, contra Adérito Lopes, ator do teatro “A Barraca”, agredido por um grupo de extrema-direita, em Lisboa, quando se encaminhava para um espetáculo de homenagem a Camões.

Alexandra Leitão gostaria de ver “maior empenho” da autarquia na condenação destas práticas de violência e estranha que nada de concreto tenha sido feito pelo presidente da CML, no seguimento da aprovação do voto de repúdio do PS. Em contraponto, Carlos Moedas rejeita as críticas da oposição socialista e defende “tolerância zero para ataques ao património”, independentemente da natureza dos atos de vandalismo. Diz que a autarquia reserva, todos os anos, dois milhões de euros para a limpeza de grafitis. E acusa a vereadora do PS de ter “uma visão maniqueísta do Mundo e da política, aludindo ao militante do PS suspeito de, a 21 de março, arremessar um engenho explosivo contra os manifestantes antiaborto, na Marcha pela Vida, junto à AR, sem que, alegadamente, Alexandra Leitão se tenha pronunciado. Porém, esta, aceitando o paralelismo dos crimes, à direita e à esquerda, acusa Moedas de ter as prioridades trocadas, por indicar que a criminalidade violenta e grave baixou (-1,6%).

Também a petição “Festas de Abril sem Abril”, assinada por cerca de 600 agentes culturais da cidade, denunciou a tentativa de alterar o nome deste período festivo, de “Festas de Abril” para “Festas da Primavera”. Os subscritores acusam a empresa municipal responsável pela programação (EGEAC Lisboa Cultura) de esbater a centralidade da Revolução e de a reduzir a “festa genérica da primavera”. Uma estranha (des)ideologização da cultura!

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No mesmo dia 18, em artigo intitulado “Governo americano retira milícias de extrema-direita da lista de ameaças à segurança nacional”, publicado no Expresso online, Ricardo Lourenço dá-nos conta de que a estratégia de contraterrorismo do governo dos Estados Unidos da América (EUA) foi recalibrada e comunicada a responsáveis de países aliados, no sentido de que o tempo dos EUA, como superpolícia global, acabou, pelo que eles “terão de fazer mais para se protegerem, segundo uma porta-voz do Conselho Nacional de Segurança (CNS).

O documento de 16 páginas define os gangues de narcotraficantes e os grupos terroristas islâmicos como duas das três preocupações cruciais, atingindo a terceira os movimentos “antifascistas e antiamericanos” que marinam na “ideologia radical pró-transgénero”.

O líder norte-americano assinou o relatório e indicou que “a Administração trabalhará para identificar as ameaças e neutralizá-las, pela força, ou estrangulando os seus recursos financeiros”, impedindo que “conservadores e cristãos inocentes” permaneçam como alvos.

Apesar de o FBI e grande parte da academia garantirem que a maior ameaça à segurança interna provém de milícias armadas de extrema-direita, o governo prefere atacar os rivais políticos de Trump, no pressuposto de que “a esquerda protagonizou muito mais tentativas de assassínio político, nos últimos anos, do que a direita”.

Grupos supremacistas como os Wolverine Watchmen, arquitetos da tentativa de rapto e de assassínio da governadora do Michigan, Gretchen Whitmer, os Proud Boys, os Oath Keepers e os Boogaloo Boys, atores principais da insurreição de 6 de janeiro de 2021, caíram no esquecimento, pois, como já começa a ser comum dizer-se, a América é “onde o homem branco voltará a reinar de forma suprema”. Reconhecem aspetos positivos na nova estratégia de contraterrorismo, pois acerta-se nalgumas coisas. “Por exemplo, concentram-se no perigo de grupos terroristas obterem armas de destruição maciça. Mas, depois, falham muito”, dizem.

A omissão dos tais grupos de extrema-direita espantou a opinião pública. “Não se foca no terrorismo doméstico, nas células extremistas”, lamenta o general Michael Hayden, antigo diretor da CIA, acusando o documento, que deveria ser puramente técnico e apartidário, de estar recheado de acusações contra inimigos políticos”.

De volta à aposta no combate ao narcotráfico, há o risco de esta poder drenar recursos da luta contra o terrorismo islâmico. E o general Michael Hayden denuncia a falta de substância do documento, neste ponto. “Não tem nada que ver com estratégia. É somente uma forma de ver o Mundo”, sublinha.

A nova estratégia de contraterrorismo não menciona as novas tecnologias e ferramentas usadas por grupos terroristas. E, quanto à aposta em perseguir grupos de extrema-esquerda, Robert McFadden, antigo membro da Naval Criminal Investigative Service (NCIS), a unidade de investigação criminal da Marinha, reconhece que aumentou a violência perpetrada por radicais esquerdistas, mas que parte desse fenómeno está ligado à radicalização recíproca, em que, digo eu, está a predominar a falsa ideia da pureza da raça, do sangue sem mesclas.

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Enfim, em Portugal e no Mundo (os EUA são exemplo), campeia a radicalização, o discurso e a prática do ódio. É o retrocesso civilizacional e um piparote na fraternidade.

2026.05.18 – Louro de Carvalho

“Mas alguns ainda duvidaram”

 

A Solenidade da Ascensão do Senhor, que Portugal e outros países, onde a Quinta-feira da Ascensão não é feriado, celebram no 7.º domingo da Páscoa, sugere que, no final do caminho de amor e de doação, está a vida definitiva, a comunhão com Deus, e que Jesus nos deixou o testemunho para que somos nós, seus seguidores, continuemos a realizar o projeto libertador de Deus. Não devemos agarrar-nos ao Mundo, mas também não podemos ficar espantados a olhar o firmamento, como se o Reino de Deus dispensasse o nosso trabalho e o cuidado com o universo das periferias existenciais que existem, gritantes, ao pé de nós ou lá mais à distância, que os meios de comunicação e de locomoção tornaram perto.   

Não devemos refugiar-nos num misticismo devoto e angelista, descurando o trabalho com os últimos, nem nos perder-nos no ativismo material ou apostólico, menosprezando a força do Alto que temos à nossa disposição, com a qual devemos manter relação íntima e produtiva.

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O trecho da conclusão do Evangelho de Mateus (Mt 28,16-20), que é proclamado no Ano A, apresenta o encontro final de Jesus ressuscitado com os discípulos, num monte da Galileia. A comunidade dos discípulos, reunida à volta de Jesus ressuscitado, reconhece-O como o seu Senhor, adora-O e recebe d’Ele a missão de continuar, no Mundo, o testemunho do Reino. Todavia, o evangelista anota que “alguns ainda duvidaram”.

A dúvida, que não é pecado, faz parte da vida, face à complexidade da tarefa ou da missão, mas urge que seja dissipada, para que a missão não fique irrealizável, nem impedida.

O trecho evangélico situa-nos na Galileia, após a ressurreição de Jesus, embora não especifique se é muito ou pouco tempo, após a descoberta do túmulo vazio. De acordo com Mateus, Jesus, pouco antes de ser preso, havia marcado encontro com os discípulos na Galileia; na manhã da Páscoa, os anjos que apareceram às mulheres no sepulcro e o próprio Jesus, vivo e ressuscitado, renovam o convite para que os discípulos se dirijam à Galileia, a fim de lá encontrarem o Senhor.
A Galileia – região setentrional da Palestina – era próspera e bem povoada, de solo fértil e bem cultivado. A situação geográfica fazia dela ponto de encontro de muitos povos; por isso, um número importante de pagãos integrava a sua população. A coabitação de populações pagãs e judias fazia com que os judeus da Galileia vivessem a religião de maneira diferente dos judeus de Jerusalém e da Judeia: a presença diária dos pagãos induzia os galileus a suavizarem a prática da Lei e a interpretar mais amplamente as regras que se referiam, por exemplo, às impurezas rituais contraídas no contacto com os não judeus. E isso levava os judeus de Jerusalém a desprezarem os judeus da Galileia, dizendo que da Galileia “não podia sair nada de bom”.

Todavia, foi na Galileia que Jesus viveu quase toda a sua vida e foi lá que Ele começou a anunciar o Evangelho do Reino e que começou a reunir à sua volta um grupo de discípulos. Para Mateus, esse facto sugere que a dimensão do anúncio libertador de Jesus é universal: destina-se a judeus e a pagãos.

Mateus situa este encontro final entre Jesus ressuscitado e os discípulos num “monte que Jesus lhes indicara”, uma montanha da Galileia impossível identificar geograficamente, mas que talvez Mateus ligue com a montanha da tentação e com a da transfiguração. De qualquer forma, o monte é sempre, no Antigo Testamento, o lugar onde Deus Se revela aos homens. E, ainda hoje, muitas ermidas e santuários se postam no cimo de montanhas ou ao abrigo das mesmas.

O trecho em referência divide-se em duas partes.

Na primeira (vv. 16-18), relata-se o encontro. Jesus, vivo e ressuscitado, revela-Se aos discípulos; e os discípulos reconhecem-No como “o Senhor” e adoram-No. Depois de descrever a adoração, Mateus acrescenta a expressão “alguns ainda duvidaram”, a significar que a fé não é uma certeza científica e que não exclui a dúvida. Aliás, a dúvida constante dos discípulos é expressa em vários momentos, ao longo da caminhada para Jerusalém.

Ao reconhecimento e à adoração dos discípulos, segue-se a manifestação do mistério de Jesus, que reflete a fé da comunidade mateana: Jesus é o “Kýrios”, que possui todo o poder no Mundo e na História; Jesus “o mestre”, cujo ensinamento será sempre a referência para os discípulos, é o “Deus-connosco”, que acompanhará, pari passu, a caminhada dos discípulos pela História.

Na segunda parte (vv. 19-20), o evangelista descreve o envio dos discípulos em missão pelo Mundo. A Igreja de Jesus é comunidade missionária, cuja missão é testemunhar, no Mundo, a salvação e a libertação que Jesus trouxe aos homens e que deixou nas mãos e no coração dos discípulos. A primeira nota do envio e do mandato que Jesus dá aos discípulos é a da universalidade. A missão dos discípulos destina-se a “todas as nações”.

A segunda nota dá conta das duas fases da iniciação cristã, conhecidas da comunidade de Mateus: o ensino e o batismo. Começava-se pela catequese, cujo conteúdo eram as palavras e os gestos de Jesus (o discípulo começava sempre pelo catecumenato, que lhe dava as bases da doutrina de Jesus). Quando os discípulos estavam informados da proposta de Jesus, vinha o batismo – que selava a vinculação do discípulo ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. O batismo é em e para o nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Como última nota, sobressai a promessa de Jesus que estará sempre com os discípulos, “até ao fim dos tempos”, que expressa a convicção – de todos os crentes da comunidade mateana – de que Jesus ressuscitado estará sempre com a sua Igreja, acompanhando-a na sua marcha pela História, ajudando-a a superar as crises e as dificuldades da caminhada.

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A primeira leitura (At 1,1-11) contém a mensagem essencial desta solenidade: Jesus, depois de ter revelado ao Mundo o desígnio do Pai, entrou na vida definitiva da comunhão com Deus – a vida que espera todos os que percorrem o caminho que Jesus percorreu. E os discípulos não podem ficar a olhar para o céu, em passividade alienante, mas têm de ir para o meio dos homens.

O livro dos “Atos dos Apóstolos” dirige-se a comunidades que vivem em contexto de crise. Na década de 80, cerca de 50 anos após a morte de Jesus, passara a fase da expectativa pela vinda iminente do Cristo glorioso para instaurar o Reino e havia alguma desilusão. As questões doutrinais trazem confusão; a monotonia favorece uma vida cristã pouco comprometida e as comunidades instalam-se na mediocridade. O quadro geral é o de uma certa frustração, porque o Mundo continua igual e a esperada intervenção vitoriosa de Deus continua adiada, interrogando-se os crentes sobre quando se concretizará, plena e inequivocamente, o plano salvador de Deus.

No trecho em apreço, Lucas avisa que o projeto de salvação e de libertação que Jesus veio apresentar passou (com a ida de Jesus para junto do Pai) para a Igreja, animada pelo Espírito. A construção do Reino é tarefa não terminada e que é preciso concretizar na História, exigindo o empenho contínuo de todos os crentes. Os cristãos são convidados a redescobrir o seu papel, no sentido do testemunho do projeto de Deus, na fidelidade ao caminho de Jesus.

O texto começa com o prólogo (vv. 1-2) que articula os Atos com o 3.º Evangelho, na referência a Teófilo a quem o Evangelho era dedicado e na alusão a Jesus, aos seus ensinamentos e à sua ação no Mundo (tema central do 3.º Evangelho). No prólogo são apresentados os protagonistas do livro: o Espírito Santo e os apóstolos, ambos vinculados com Jesus.

Após a apresentação do livro, vem a despedida de Jesus (vv. 3-8). O hagiógrafo refere os “quarenta dias” que mediaram entre a ressurreição e a ascensão, durante os quais Jesus falou aos discípulos “a respeito do Reino de Deus”, o que parece contradizer o Evangelho, onde a ressurreição e a ascensão são apresentados no dia de Páscoa. Ora, o número quarenta é um número simbólico, que define o tempo necessário para que o discípulo possa aprender e repetir as lições do mestre. Aqui define, pois, o tempo simbólico de iniciação ao ensinamento do Ressuscitado.

As palavras de despedida de Jesus sublinham dois aspetos: a vinda do Espírito e o testemunho que os discípulos vão ser chamados a dar “até aos confins do Mundo”. Está aqui resumida a experiência missionária da comunidade lucana: o Espírito derramar-se-á sobre a comunidade crente e dar-lhe-á a força para testemunhar Jesus em todo o Mundo, de Jerusalém a Roma. É o programa que Lucas vai apresentar, ao longo do livro, posto na boca de Jesus ressuscitado. O hagiógrafo quer mostrar, com a sua obra, que o testemunho e a pregação da Igreja estão entroncados em Jesus e são impulsionados pelo Espírito.

O último tema é o da ascensão (vv. 9-11), passagem que necessita de ser interpretada para que, através da roupagem dos símbolos, a mensagem apareça com toda a claridade.

Em primeiro lugar, a elevação de Jesus ao céu não significa uma pessoa que, literalmente, descola da Terra e começa a elevar-se. Estamos perante um sentido teológico, não um sentido de reportagem: a ascensão é uma forma de expressar, simbolicamente, que a exaltação de Jesus é total e atinge dimensões supraterrenas; é a forma literária de descrever o culminar de uma vida vivida para Deus, que agora reentra na glória da comunhão com o Pai. Depois, surge a nuvem, que subtrai Jesus aos olhos dos discípulos. Pairando a meio caminho entre o Céu e a Terra, a nuvem é, no Antigo Testamento, símbolo privilegiado da presença do divino. Ao mesmo tempo, esconde e manifesta: sugere o mistério do Deus escondido e presente, cujo rosto o Povo não pode ver, mas cuja presença adivinha nos acidentes da caminhada. Céu e Terra, presença e ausência, luz e sombra, divino e humano, são dimensões sugeridas a propósito de Cristo ressuscitado, elevado à glória do Pai, continuando a caminhar com os discípulos. E temos os discípulos a olhar para o Céu, a significar a expectativa da comunidade que espera ansiosamente a segunda vinda de Cristo, para levar a cabo o projeto de libertação do Homem e do Mundo.

Por fim, aparecem os dois homens vestidos de branco. O branco sugere o Mundo de Deus – o que indica que o seu testemunho vem de Deus. E eles convidam os discípulos a continuarem no Mundo (em consonância com o discurso evangélico de João, após a última ceia), animados pelo Espírito, a obra libertadora de Jesus. Agora, é a comunidade discipular que tem de continuar, na História, a obra de Jesus, embora com a esperança posta na segunda e definitiva vinda do Senhor.

O sentido da ascensão não é que fiquemos a admirar a elevação de Jesus, mas que sigamos o seu caminho, olhando para o futuro e entregando-nos à realização do desígnio de salvação no meio do Mundo.

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A segunda leitura (Ef 1,17-23) convida os discípulos a terem consciência da esperança a que foram chamados (a vida de comunhão com Deus). Devem caminhar ao encontro dessa esperança de mãos dadas com os irmãos – membros do mesmo corpo – e em comunhão com Cristo, a cabeça desse corpo. Cristo reside no seu corpo, a Igreja; e é nela que Se torna, hoje, presente no meio dos homens.

A Carta aos Efésios será um dos exemplares de uma carta circular enviada a várias igrejas da Ásia Menor, quando Paulo está na prisão (provavelmente, em Roma), por volta dos anos 58/60. O seu portador é Tíquico. Alguns veem na carta uma síntese da teologia paulina, numa altura em que a missão do apóstolo está praticamente terminada no Oriente.

O trecho em apreço aparece na primeira parte da Carta e faz parte de uma ação de graças, na qual Paulo agradece a Deus pela fé dos Efésios e pela caridade que eles manifestam para com todos os irmãos na fé. E à ação de graças o apóstolo une fervorosa oração a Deus, para que os destinatários conheçam “a esperança a que foram chamados”. A prova de que o Pai tem poder para realizar essa “esperança” (conferir aos crentes a vida eterna como herança) é o que Ele fez com Jesus Cristo: ressuscitou-O e sentou-O à sua direita, exaltou-O e deu-Lhe a soberania sobre os poderes angélicos. Paulo está preocupado com a tendência de alguns cristãos que dão importância exagerada aos anjos, pondo-os acima de Cristo. Ora, a soberania estende-se à Igreja, o corpo do qual Cristo é a cabeça.

O mais significativo do texto é a ideia de que a comunidade cristã é um “corpo”. O “corpo de Cristo”, formado por muitos membros, já havia aparecido nas grandes cartas, acentuando-se a relação dos vários membros do corpo entre si. Porém, nas “cartas do cativeiro”, Paulo retoma a noção de corpo de Cristo, para refletir sobre a relação que existe entre a comunidade e Cristo. Neste texto, em concreto, há dois conceitos muito significativos, para definir o quadro da relação entre Cristo e a Igreja: o de “cabeça” e o de “plenitude” (em grego, “pleroma”).

Dizer que Cristo é a cabeça da Igreja significa, acima de tudo, que os dois formam uma comunidade indissolúvel e que há entre os dois uma comunhão total de vida e de destino; significa, também, que Cristo é o centro à volta do qual o corpo se articula, a partir do qual e em direção ao qual o corpo cresce, se orienta e constrói, a origem e o fim desse corpo; significa, ainda, que a Igreja/corpo está submetida à obediência a Cristo/cabeça: só de Cristo a Igreja depende e só a Ele deve obediência. E dizer que a Igreja é a plenitude de Cristo significa dizer que nela reside a plenitude, a totalidade de Cristo. Ela é o recetáculo, a habitação, onde Cristo Se torna presente no Mundo; é através desse corpo, onde reside, que Cristo continua, todos os dias, a realizar o seu projeto de salvação em prol dos homens. Presente nesse corpo, Cristo enche o Mundo e atrai a Si o universo inteiro, até que o próprio Cristo “seja tudo em todos”.

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É, portanto, justo e salutar que os crentes aclamem o Senhor da Ascensão e realizem a missão que Ele lhes confiou, seguros de que Ele continua connosco. Nunca deixará de ser o Deus-connosco.

“Ergue-Se Deus, o Senhor, em júbilo e ao som da trombeta.”

“Povos todos, batei palmas, / aclamai a Deus com brados de alegria, / porque o Senhor, o Altíssimo, é terrível, / o Rei soberano de toda a terra.

“Deus subiu entre aclamações, / o Senhor subiu ao som da trombeta. / Cantai hinos a Deus, cantai, / cantai hinos ao nosso Rei, cantai.

“Deus é Rei do universo: / cantai os hinos mais belos. / Deus reina sobre os povos, / Deus está sentado no seu trono sagrado.”

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“Aleluia. Aleluia. Ide e ensinai todos os povos, diz o senhor: Eu estou sempre convosco até ao fim dos tempos.”

2026.05.17 – Louro de Carvalho