segunda-feira, 13 de abril de 2026

“Misercordias Domini in aeternum cantabo”

 

O Papa São João Paulo II, no ano 2000, consagrou o termo da Oitava da Páscoa, o II domingo do tempo pascal – tradicionalmente designado por domingo in albis (em que os batizados na Vigília Pascal depunham a veste branca) e popularmente conhecido como domingo da pascoela – como “Domingo da Divina Misericórdia”. A liturgia deste domingo leva-nos a contemplar a comunidade de homens novos que nasce da cruz e da ressurreição de Jesus, a Igreja. No dia da ressurreição, Jesus ressuscitado, confia à sua comunidade a missão de testemunhar, no Mundo, o amor e a misericórdia de Deus.

Os primeiros discípulos contemplaram, no ressuscitado, as chagas da paixão (o ressuscitado é o mesmo que foi crucificado). A misericórdia do Senhor manifesta-se no cravejamento do Filho de Deus na cruz. E a ressurreição significa revolução da misericórdia ou Revolução dos Cravos. Os cravos desapareceram, mas os seus lugares puderam ser contemplados no corpo do ressuscitado.   

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O Evangelho (Jo 20,19-31) exibe a comunidade da Nova Aliança, nascida da ação criadora e vivificadora de Jesus e que se reúne à volta do ressuscitado, recebendo d’Ele Vida, sendo animada pelo Seu Espírito e testemunhando, no Mundo, a Vida nova de Deus. Quem quiser ver e tocar o ressuscitado, deve procurá-Lo na comunidade que d’Ele nasceu e que d’Ele vive.

Jesus foi crucificado na manhã de sexta-feira – dia da preparação da Páscoa – e morreu pelas três horas da tarde. Depois de morto, um soldado trespassou-lhe o coração com uma lança; e do coração aberto de Jesus saiu sangue e água. João vê, no sangue que sai do lado aberto, o sinal do seu amor dado até ao extremo: do amor do pastor que dá a vida pelas ovelhas, do amor do amigo que dá a vida pelos amigos; e vê, na água que sai do coração trespassado, o sinal do Espírito que Jesus entregou aos seus e que é fonte de Vida nova. Da água e do sangue, do batismo e da eucaristia, nasce a comunidade da Nova Aliança. Contudo, os discípulos que tinham subido com Jesus a Jerusalém e que seriam o embrião da comunidade da Nova Aliança, desapareceram, sem deixarem rasto. Estão ocultos, algures em Jerusalém, paralisados pelo medo.

No final da tarde de sexta-feira, o corpo morto de Jesus foi sepultado à pressa num túmulo novo, situado num horto ao lado do lugar onde se dera a crucifixão. Depois veio o sábado, o último dia da semana, o dia da celebração da Páscoa judaica, durante o qual o túmulo de Jesus continuou cerrado. Chegados ao “primeiro dia da semana”, o primeiro dia do tempo novo, da Humanidade nova, nascida da ação criadora e vivificadora de Jesus, tudo muda. “No primeiro dia da semana”, Maria Madalena, a mulher que representa a nova comunidade, vai ao túmulo e vem de lá confusa, porque o túmulo está vazio. Logo depois, ainda “no primeiro dia da semana”, Pedro e outro discípulo correm ao túmulo e verificam o que Maria Madalena afirmara: Jesus não está encerrado no domínio da morte. A comunidade de Jesus começa a despertar do letargo e a viver o tempo novo. “Ao entardecer do primeiro dia da semana” (ao concluir-se o primeiro dia da nova criação) a comunidade discípular experiencia o encontro com Jesus, vivo e ressuscitado.

O trecho em apreço divide-se em duas partes.

A primeira (vv. 19-23), narra o encontro de Jesus ressuscitado com os discípulos. João começa por descrever a situação em que estavam os discípulos, antes de Jesus lhes aparecer: o “anoitecer”, as “portas fechadas”, o “medo”, que traduzem a insegurança e o desamparo que sentem ante o mundo hostil que condenou Jesus à morte. Mas, de repente, o Jesus apresenta-Se “no meio deles”. O crucificado está vivo; a morte não o venceu. Os discípulos não estão órfãos, deixados à hostilidade do Mundo. Ao situar-Se no meio deles, Jesus ressuscitado assume-Se como referência, fator de unidade, fonte de Vida, videira na qual se enxertam os ramos. A comunidade centra-se em Jesus, o centro onde todos bebem a água da Vida eterna.

A esta comunidade Jesus transmite a paz. Não é só o usual cumprimento hebraico (“shalom”), mas é, sobretudo, a certeza de que Jesus venceu tudo o que assustava os discípulos: a morte, a opressão, a mentira, a violência, a hostilidade do Mundo. Doravante os discípulos não têm qualquer razão para viverem paralisados pelo medo. Possuem a paz desarmada e desarmante, no dizer do Papa Leão XIV.

Depois, Jesus mostra aos discípulos as mãos com a marca dos cravos e o lado que foi trespassado pela lança. Nesses sinais está a prova da sua vitória sobre a morte e sobre a maldade dos homens; e, sobretudo, o selo misericordioso da sua entrega até à morte, por obediência ao Pai e por amor aos homens. Neles está impressa a identidade de Jesus, ou seja, os sinais de amor e de doação que a comunidade reconhece em Jesus vivo e presente no seu meio. A permanência desses sinais indica a permanência do amor de Jesus: Ele é sempre o Messias que ama e do qual brotarão a água e o sangue que constituem e alimentam a comunidade. A esta apresentação de Jesus, os discípulos respondem com a alegria. Estão alegres, porque Ele está vivo e porque sabem que começou o tempo novo, em que a morte não assusta, o tempo do Homem Novo, do Homem livre, do Homem que se encontrou com a Vida definitiva.

Em seguida, Jesus convoca os discípulos para a missão, a que o Pai Lhe confiou: realizar, no Mundo, a obra de Deus. Os discípulos concretizá-la-ão conectados com Jesus (são ramos ligados à videira/Jesus), pois só assim darão fruto. E, para os discípulos poderem concretizá-la, Jesus realiza um gesto significativo: “soprou” sobre eles. O verbo utilizado é o do texto grego de Gn 2,7 (para dizer que Deus soprou sobre o homem de argila, infundindo-lhe a vida de Deus). Com aquele sopro, o homem tornou-se um ser vivente; com este sopro, Jesus transmite aos discípulos a Vida nova, o Espírito Santo, que fará deles Homens Novos e que os capacitará para viverem como testemunhas de Jesus ressuscitado. É, na verdade, uma nova Criação. Da ação de Jesus, do seu testemunho, do seu amor, do seu dom nasceu a nova Humanidade, capaz de amar até ao extremo, de dar a vida, de realizar a obra de Deus. É este Espírito que, a cada instante, constitui e anima a comunidade de Jesus. E é esta a comunidade da Nova Aliança, nascida da ação e do amor de Jesus.

Na segunda parte (vv. 24-31, o evangelista apresenta uma catequese sobre a modo de os discípulos de qualquer época chegarem à fé em Cristo ressuscitado. O historial de Tomé, o Dídimo (gémeo), pode ser o nosso. Também nós nem sempre nos contentamos com o testemunho dos primeiros discípulos: gostaríamos de ver, de tocar, de ter provas.

Jesus ressuscitado apresenta-Se aos discípulos “no primeiro dia da semana”, quando a comunidade está reunida. A comunidade é o lugar natural onde se manifesta e irradia o amor de Jesus, onde desponta a Vida nova. Por isso, é lá que se faz a experiência da presença de Jesus vivo. Mas Tomé “não estava com eles”. Estava fora da comunidade. E desafia: “Se eu não vir o sinal dos cravos nas suas mãos e não meter o meu dedo nesse sinal e a minha mão no seu lado, não acredito” – diz Tomé quando lhe disseram que viram o Senhor. Em vez de se integrar e de participar da experiência que os outros discípulos fizeram em comunidade, quer obter para si uma demonstração particular de Deus. Tomé representa os fechados em si (está fora), que não fazem caso do testemunho da comunidade, pelo que nem percebem os sinais de Vida nova que nela se manifestam.

Porém, “oito dias depois” (também “no primeiro dia da semana”), Tomé já está integrado na comunidade; e é aí que se encontra com o ressuscitado. Esta experiência é tão impactante que, do coração rendido de Tomé, brota uma extraordinária declaração de fé, uma das mais belas de toda a Bíblia: “Meu Senhor e meu Deus!”. Também nós, os chamados a acreditar sem termos visto, nem tocado, poderemos fazer a experiência que Tomé fez: é no encontro com o amor fraterno, com o perdão dos irmãos, com a Palavra proclamada em comunidade, com o pão de Jesus partilhado, que se descobre e se experimenta Jesus ressuscitado. Por isso, a comunidade de Jesus se reúne “no primeiro dia da semana”, no “dia do Senhor” (o domingo), o dia da ressurreição, o dia da Igreja. É o primeiro dia, que se torna também o oitavo, como na música, somos chamados à celebração da Páscoa de oitava em oitava, sem parar, até que o Senhor nos mande entrar na eternidade.

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A primeira leitura (At 2,42-47) é uma fotografia retocada da primeva comunidade cristã de Jerusalém. Lucas imprime nela os traços da comunidade ideal: unida e fraterna, onde os bens são partilhados e cada um está atento às necessidades dos irmãos. É uma comunidade empenhada em escutar a Boa Notícia de Jesus, em reunir-se para a “fração do pão” e para a oração comunitária. O estilo de vida desta família é contagiante e faz com que muitos outros homens e mulheres sintam vontade de integrar a Igreja de Jesus.

Depois de ter apresentado, na primeira parte (o “Evangelho de Jesus Cristo segundo Lucas”), o tempo de Jesus, Lucas completa a sua obra, apresentando o tempo da Igreja, em que a proposta de salvação de Deus é levada ao encontro do Mundo pela comunidade de Jesus (a Igreja), animada e guiada pelo Espírito Santo. Esta comunidade ideal, que nasce do Espírito e do testemunho dos apóstolos é a comunidade que consolida a sua experiência de vida em quatro pilares fundamentais: o ensino dos apóstolos, a comunhão fraterna, a fração do pão e a oração. Os apóstolos foram testemunhas oculares da salvação que Jesus apresentou, enquanto andava pelos caminhos da Galileia e da Judeia. Na pregação dessas testemunhas privilegiadas das palavras e dos gestos de Jesus ecoa, agora, a verdade do Reino de Deus.

A comunidade reúne-se à volta dos apóstolos, porque quer chegar a Jesus e à Boa Notícia que Ele trouxe. Pelo testemunho dos apóstolos quer conhecer a pessoa de Jesus, o seu plano, os seus valores, o seu estilo de vida, o seu amor até ao extremo, a sua entrega ao Pai e aos homens. A catequese recebida dos apóstolos aproxima de Jesus a comunidade e mostra-lhe como deve viver para se identificar com Jesus. Construindo a sua fé sobre o testemunho dos apóstolos, os cristãos estão livres da mentira, das doutrinas falsas e dos falsos profetas.

A comunidade de Jerusalém é também a comunidade que vive em comunhão fraterna. Os seus membros veem-se como irmãos e irmãs; são família em Cristo. Identificam-se com Cristo e são membros do Corpo de Cristo. Essa fraternidade não é algo abstrato, que se fica na teoria e ou na doutrina; mas é a fraternidade que se sente, se vê e se expressa na realidade da vida, nos gestos de todos os dias. Significava a renúncia à vida de egoísmo, de autossuficiência e de fechamento em si próprio. Implicava terem tudo em comum, partilharem os bens com os irmãos, cuidarem dos mais pobres e frágeis. É a comunidade que assume o verdadeiro compromisso com o amor, com a partilha, com o dom da vida. A caridade é a sua marca distintiva.

A comunidade cristã era assídua à “fração do pão”. Inicialmente, a expressão designava o gesto do chefe de família que, no início da refeição, partia o pão e o distribuía pelos convivas. Porém, na linguagem cristã, torna-se a expressão técnica designativa do memorial da ceia do Senhor, a eucaristia. Era a celebração que resumia toda a vida do Senhor Jesus, feita doação da vida e entrega até à morte. Acompanhada duma refeição fraterna, comportava orações, pregação e gestos de comunhão e de partilha entre os cristãos. Era momento de alegria, em que a comunidade celebrava a união a Jesus e a comunhão fraterna. Os crentes saíam da fração do pão mais identificados a Jesus e sentindo, fortemente, os laços que os uniam aos irmãos com quem tinham partilhado o mesmo pão, o pão dado por Jesus aos seus.

Temos, ainda, as orações. Os primeiros cristãos continuaram a frequentar o Templo (“todos os dias frequentavam o Templo”) e a participar da oração da comunidade judaica. Porém, bastante cedo, a comunidade cristã terá começado a sentir a necessidade de se encontrar para a oração tipicamente cristã, centrada na pessoa de Jesus; e é a esta oração comunitária cristã que Lucas se refere. A comunidade de Jesus é, pois, a comunidade que se junta para rezar, para louvar o seu Senhor; e a oração comum constitui um momento de comunhão, de aprofundamento dos laços que unem os membros da comunidade.

Lucas vinca o testemunho da comunidade cristã aos outros habitantes de Jerusalém. Os gestos realizados pelos apóstolos enchiam toda a gente de temor, isto é, infundiam em todos os que os testemunhavam a certeza da presença de Deus e dos seus dinamismos de salvação. Além disso, a piedade, o amor fraterno, a alegria e a simplicidade dos crentes concitavam a admiração e a simpatia de todo o povo; desafiavam os habitantes de Jerusalém; e faziam que aumentasse, todos os dias, o número dos que aderiam a Jesus e à comunidade da salvação.

A comunidade cristã de Jerusalém não seria, de facto, a comunidade ideal. Outros textos dos Atos falam-nos de tensões e de problemas – como em qualquer comunidade humana. Porém, a descrição lucana aponta para a meta a que a comunidade cristã deve aspirar, confiada na força do Espírito. Trata-se, pois, de uma descrição da comunidade ideal, que pretende servir de modelo à Igreja e às igrejas de todas as épocas.

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Na segunda leitura (1Pe 1,3-9) um catequista dos finais do século I lembra aos batizados em Cristo a condição de homens novos, felizes beneficiários da misericórdia de Deus. Cristo, o vencedor da morte, salvou-os e abriu-lhes as portas da vida definitiva. Certos da vida nova que os espera, os cristãos devem encarar a sua caminhada pela Terra com uma “esperança viva”, com uma “alegria inefável e gloriosa”, com um otimismo contagiante.

O trecho em referência apresenta-se na forma de hino de ação de graças, ao estilo das bênçãos judaicas. Nele, o autor louva a Deus pela sua obra salvadora em favor dos homens. É um “credo abreviado” do povo de Deus.

Foi Deus que tomou a iniciativa de dar ao homem a salvação. Fê-lo por meio de Jesus Cristo, o Filho que enviou ao encontro dos homens. A vitória de Jesus sobre a morte ocupa lugar central na História da Salvação que Deus quis escrever para nós. Os que aderem a Cristo e se identificam com Ele – isto é, os batizados – participam da ressurreição e renascem para uma vida nova. A vida que os anima é a vida do Ressuscitado. Abre-se para eles um novo horizonte, que a fragilidade e a morte não conseguirão manchar. A vida dos batizados é marcada “por uma esperança viva, por uma herança que não se corrompe, nem se mancha, nem desaparece”. Os que se identificam com Cristo e participam da sua ressurreição destinam-se à vida eterna, à “salvação que se vai revelar nos últimos tempos”. Cônscios de que estão destinados à salvação, caminham na alegria e na esperança: sabem que, aconteça o que acontecer, lhes está reservado o encontro com a vida plena. No seu horizonte de vida não há lugar ao pessimismo, nem ao desânimo.

Porém, a vida dos batizados não imune a obstáculos nem a crises. O caminho que os homens percorrem na Terra será sempre marcado por numerosas aflições e provações; e os que optaram por Jesus não estão isentos dessa experiência. No entanto, os sofrimentos e as perseguições são a prova em que a fé dos crentes é purificada, decantada de interesses mesquinhos, fortalecida; e, nesse processo, o crente vai sendo transformado pela ação do Espírito, até se identificar com Cristo e chegar à vida nova. O autor da carta lembra-nos que o próprio ouro tem de ser purificado pelo fogo, antes de aparecer em todo o seu esplendor. De qualquer modo, o percurso existencial dos crentes – cumprido, simultaneamente, na alegria e na dor – é sempre uma caminhada animada pela esperança da salvação.

O grande apelo que a primeira carta de Pedro nos deixa é que nos identifiquemos com Cristo, que amamos, sem O termos visto; que acreditemos n’Ele e que O sigamos incondicionalmente, mesmo que as suas indicações nos levem à cruz. Do lado de lá da cruz espera-nos a vida nova. Assim chegaremos à salvação e daremos sentido pleno à nossa vida.

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Por toda a misericórdia com que o Senhor olha para nós, é justo cantar com o salmista:  

“Dai graças ao Senhor, porque Ele é bom, / porque é eterna a sua misericórdia.”

“Diga a casa de Israel: / é eterna a sua misericórdia. / Diga a casa de Aarão: / é eterna a sua misericórdia. / Digam os que temem o Senhor: / é eterna a sua misericórdia.

“Empurraram me para cair, / mas o Senhor me amparou. / O Senhor é a minha fortaleza e a minha glória, / foi Ele o meu Salvador. / Gritos de júbilo e de vitória nas tendas dos justos: / a mão do Senhor fez prodígios.

“A pedra que os construtores rejeitaram / tornou se pedra angular. / Tudo isto veio do Senhor: / é admirável aos nossos olhos. / Este é o dia que o Senhor fez: / exultemos e cantemos de alegria.

“Senhor, salvai os vossos sevos, / Senhor, dai-nos a vitória. / Bendito O que vem em nome do Senhor / Da casa do Senhor nós vos bendizemos. / O Senhor é Deus / e fez brilhar sobre nós a sua luz.”

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“Aleluia. Aleluia. Disse o Senhor a Tomé: ‘Porque Me viste, acreditaste; felizes os que acreditam sem terem visto’.”

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No cristianismo, o “oitavo dia” simboliza a ressurreição de Jesus, um novo começo e a eternidade, superando a criação de sete dias. É o domingo, considerado o “Dia do Senhor” e o início da nova criação. Liturgicamente, refere-se também às “oitavas” (Natal/Páscoa), celebrando uma solenidade, com especial brilho, durante oito dias consecutivos. 

Após o sétimo dia (sábado de repouso), o domingo é o dia em que Cristo ressuscitou, marcando o início de um tempo novo e eterno. Embora seja o primeiro dia da semana, teologicamente é o oitavo, fora da contagem cronológica normal, simbolizando o século futuro e a eternidade.

O cristianismo primitivo associava o oitavo dia à circuncisão (antiga aliança) e, por extensão, ao batismo (nova e definitiva aliança), simbolizando a entrada numa nova vida e a purificação. Este conceito representa, portanto, a transição da Lei para o Evangelho e a esperança na vida eterna. 

Muitos batistérios antigos têm forma octogonal (oito lados) para refletir o simbolismo do oitavo dia como o dia do novo nascimento pelo batismo.

2026.04.12 – Louro de Carvalho

domingo, 12 de abril de 2026

Recuperada carga de navio bimilenar no lago Neuchâtel, na Suíça

 

 

Em artigo intitulado, “Achado sensacional: arqueólogos subaquáticos recuperam carga de navio com 2000 anos num lago na Suíça” publicado a 12 de abril, Kirste Ripper e a Euronews revelam que arqueólogos subaquáticos recuperaram, no lago Neuchâtel, na Suíça, “um carregamento de mais de mil artefactos de cerâmica” e de “espadas muito bem conservados, datados de 20 a 50 d.C.” e que, “para evitar pilhagens, a espetacular descoberta”, que aconteceu no final de novembro de 2024, “foi inicialmente mantida em segredo”.

Mergulhando no lago de Neuchâtel, Fabien Langenegger e Julien Pfyffer fizeram uma descoberta espetacular do Império Romano. No início, aproximaram-se, cautelosamente, de um monte de círculos, um suposto depósito de minas deixado para trás na II Guerra Mundial, mas, quando Julien Pfyffer ligou a luz da sua câmara, apareceu a cor caraterística da terracota. E, olhando para alguns pratos partidos, aperceberam-se ambos de que o achado era extraordinário.

Foi assim que Julien Pfyffer, em entrevista à Euronews, descreveu a descoberta de carga particularmente bem preservada de um navio que terá naufragado entre 20 e 50 d.C. Até os restos de comida encontrados nos recipientes de cerâmica estão agora a ser analisados.

O momento da descoberta foi impressionante para os dois arqueólogos. “Ficámos agarrados ao local por cima desta carga, durante vários minutos. Naquele momento, enquanto observava Fabien, apercebi-me de que estávamos numa situação muito especial.”

Foram as imagens de drone que mostravam uma mancha escura na água do Lago Neuchâtel, mais clara, há vários anos, que deram início ao mergulho, em busca por um naufrágio. Durante as campanhas de escavação – que duraram duas semanas, em 2025, e quase um mês, em 2026 – os arqueólogos subaquáticos da Fundação Octopus (fundação suíça dedicada à exploração marinha e ao conhecimento universal) desenterraram mais de mil objetos.

Presume-se que se trata da carga de um navio de carga que deveria levar utensílios de cozinha fabricados na Suíça para um acampamento romano. Um dos caixotes foi datado do ano 17 d.C. Os destroços do cargueiro ainda não foram encontrados no lago de Neuchâtel. Porém, nas últimas décadas, foram escavados navios romanos no Reno, na Alemanha, e no Ródano, na França.

Não obstante, foram encontrados objetos que pertenciam ao equipamento dos legionários, nomeadamente, duas espadas de gladiadores, um punhal, uma fivela de cinto e um perónio. De acordo com a equipa de arqueólogos, estes objetos sugerem que os legionários escoltavam o navio. Dada a quantidade de artefactos encontrados, a carga poderia ter sido destinada a uma legião de cerca de seis mil homens.

Foi também descoberto um cesto de vime que, segundo os arqueólogos, “foi milagrosamente preservado na giz do lago – ou craie lacustre, camada de sedimentos de calcário fino e solto que se deposita no fundo – e contém um grupo de seis objetos de cerâmica que diferem, no seu fabrico, do resto da carga”, dizem os arqueólogos, sustentando que se trata de louça e de alimentos menos elaborados dos marinheiros do navio. “Recuperámos da água todos os artefactos – pouco mais de mil – que estavam em risco de serem danificados por âncoras ou [por] redes ou roubados por saqueadores. Estes artefactos encontram-se, agora, na fase de limpeza e estão a ser processados pela equipa de restauro em terra. Uma vez concluída esta fase, os restauradores podem discutir com os arqueólogos o que observaram e o que nos escapa completamente durante a fase de escavação, uma vez que estamos muitas vezes no meio de uma nuvem de sedimentos”, explica Julien Pfyffer, explicitando que os restauradores poderão reconhecer pormenores (como selos de fabrico, vestígios de alimentos, elementos de proteção, como a palha entre os pratos), “que nos são muito difíceis de ver na água”.

A equipa Fundação Octopus está a preparar um livro e um documentário que serão publicados em 2027. Será realizada no Laténium, o maior museu arqueológico da Suíça, em Neuchâtel, uma exposição dos achados espetaculares, cuja data ainda não foi fixada. E ainda há muito para descobrir: segundo a equipa Octopus, há mais artefactos históricos nos oceanos do que em todos os museus do Mundo.

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De acordo com o artigo de Éric Moreira intitulado “Naufrágio romano raro de dois mil anos é descoberto em lago na Suíça”, publicado, a 26 de março, pela revista “Aventuras na História”, a descoberta é considerada de grande relevância arqueológica, pois o sítio submerso reúne um conjunto expressivo de artefactos e oferece novas perspetivas das rotas comerciais, da logística e da presença militar, no início do Império Romano.

Ainda de acordo com a mesma revista, o achado foi localizado em novembro de 2024, a partir de imagens aéreas utilizadas para monitorização do leito do lago, no âmbito de um projeto voltado à proteção do património subaquático. A identificação de uma anomalia levou à realização de mergulhos exploratórios, que confirmaram a presença de vestígios de uma embarcação. Embora a estrutura do barco não tenha resistido ao tempo, a carga permaneceu amplamente preservada, ao longo dos séculos.

As análises iniciais indicam que o naufrágio ocorreu entre os anos 20 e 50 d.C., período de transição entre o final da República e o início do Império Romano. Todavia, exames de datação por carbono-14, realizados em fragmentos de madeira, sugerem um intervalo mais amplo, entre 50 a.C. e 50 d.C., reforçando a antiguidade do conjunto, segundo o comunicado oficial do cantão de Neuchâtel. A escavação é conduzida pela Fundação Octopus em parceria com o Departamento de Arqueologia do Cantão de Neuchâtel.

O referido comunicado releva que, em novembro de 2024, no fundo do Lago Neuchâtel, foi descoberto um naufrágio excecional, cujo espólio era um tesouro milagrosamente preservado de cerâmica, de armas, de ferramentas e de peças de arreios relacionados com o transporte puxado por cavalos. E lança a hipótese de se, datando do início do Império Romano, essa carga poderia estar ligada ao destacamento das legiões romanas, ao longo do Reno, enfrentando a perigosa Germânia.

Mais refere que, no quadro do projeto “Naufrágios vulneráveis ​​do Lago Neuchâtel”, iniciado em 2018, o último deles foi descoberto por drone, em 21 de novembro de 2024, por Fabien Droz, colaborador externo do Departamento de Arqueologia do Cantão de Neuchâtel (OARC).

A primeira confirmação e a avaliação subaquática foi realizada, em 24 de novembro de 2024, pelo arqueólogo responsável pela área lacustre do cantão de Neuchâtel, Fabien Langenegger, e por Julien Pfyffer, presidente da Fundação Octopus.

Durante esse mergulho extraordinário, determinou-se que se tratava de vasta carga de cerâmica antiga. Diversas peças foram recolhidas para análise rápida por especialistas. Além disso, uma amostra de madeira da carga foi extraída para datação por carbono-14. Os resultados dessa análise estabeleceram um período entre 50 a.C. e 50 d.C. Essa descoberta inicial situa a carga no período entre o fim da República Romana e o início do Império Romano.

Graças à diversidade dos objetos e ao seu excecional estado de conservação, este conjunto representa um raro vislumbre da antiguidade, provavelmente, enterrado sob sedimentos, durante várias centenas de anos. Porém, na sequência de dois projetos de correção das águas do Jura (nos séculos XIX e XX), realizados para estabilizar os níveis do lago, foi erodida a camada de sedimentos que cobria estes vestígios. Estes artefactos, de inestimável valor histórico, encontravam-se expostos às correntes do lago e a potenciais saqueadores. Decidiu-se, pois, realizar escavações para proteger e para estabilizar estas peças, tornando-as acessíveis ao público.

O material recuperado chama atenção pela diversidade. Centenas de peças de cerâmica – entre pratos, tigelas, copos e travessas – compõem a maior parte da carga. Esses itens foram produzidos em oficinas do Planalto Suíço, indicando uma forte base produtiva local integrada a redes comerciais mais amplas, como repercute a “Revista Galileu”.

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Também a revista “Oeste Geral”, refere, a 11 de abril, que foi encontrada intacta “carga de navio romano naufragado, há dois mil anos, no lago de Neuchâtel”, com espadas, ânforas e rodas de madeira, que permaneceu submersa, durante cerca de dois mil anos, sem que ninguém soubesse da sua existência. A descoberta, anunciada oficialmente em março, é considerada única não apenas na Suíça, mas em toda a região de águas interiores ao Norte dos Alpes.

Também cita o comunicado oficial do cantão de Neuchâtel, para dizer que o achado começou em novembro de 2024, durante uma monitoração sanitária de rotina do leito do lago, e que uma fotografia aérea obtida pelo Serviço de Arqueologia Cantonal de Neuchâtel (OARC) revelou objetos anómalos no fundo das águas, levando ao acionamento imediato de mergulhadores.

A primeira campanha de escavação foi realizada em março de 2025, conduzida em parceria entre o OARC, a Fundação Octopus e o Serviço Arqueológico do Estado de Friburgo (SAEF). A urgência era real: erosão, embarcações de recreio e risco de pilhagem ameaçavam o sítio, a cada semana de espera.

Diz a “Oeste Geral” que a carga romana recuperada é combinação excecional de produtos regionais e de longa distância, preservados em estado raramente visto em sítios subaquáticos de água doce. Entre os itens identificados, contam-se: centenas de recipientes de cerâmica, entre pratos, travessas, xícaras e tigelas, produzidos em ateliês da planície suíça, preservados quase intactos; ânforas ibéricas importadas da Península Ibérica, contendo azeite de oliva e atestando a integração da região nas redes comerciais do Império Romano; utensílios e ferramentas ligados à vida quotidiana da tripulação; quatro rodas de madeira e de metal em estado de conservação extraordinário, os únicos exemplares romanos desse tipo encontrados na Suíça; e gladii (espadas curtas romanas), sugerindo que a embarcação mercante viajava com escolta armada.

A carga de navio romano reconstrói a rota comercial entre Yverdon e Vindonissa. Com efeito, a combinação de itens a bordo permitiu aos arqueólogos reconstruírem o trajeto provável da embarcação. As mercadorias iam de carroça até ao porto de Yverdon (a antiga Eburodunum), no extremo Sul do lago, onde eram embarcadas rumo ao Norte, em direção ao acampamento militar de Vindonissa, nas margens do rio Aare.

A presença simultânea de carga civil e de gladii indica que a embarcação não era um navio estritamente militar, mas um cargueiro comercial com proteção armada. Dada a quantidade de objetos, os pesquisadores avaliam que o carregamento pode ter sido destinado a uma legião de aproximadamente seis mil homens estacionada na fronteira do Reno.

Os motivos de as rodas de madeira serem o achado mais raro entre os itens do naufrágio têm a ver com o facto de a madeira raramente sobreviver a milénios e com o facto  de a sua preservação, em ambiente subaquático, depender de condições muito específicas: baixa oxigenação, sedimento fino e ausência de organismos que acelerem a decomposição. No lago de Neuchâtel, essas condições combinaram-se com a raridade suficiente para conservar algo que os arqueólogos nunca haviam visto, antes, em solo suíço.

As quatro rodas de madeira e de metal recuperadas são os únicos exemplares romanos desse tipo já encontrados na Suíça. Provavelmente, pertenciam às próprias carroças que transportaram a carga até Yverdon e foram embarcadas junto com os demais itens para o trecho aquático da rota.

Os itens recuperados serão objeto de tratamento de conservação antes de serem expostos no Laténium, o parque e museu de arqueologia de Neuchâtel. Materiais, como madeira e metal, que passaram séculos submersos deterioram-se, rapidamente, ao contacto com o ar, se não forem estabilizados com cuidado.

Prevê-se que estudos futuros avancem em, pelo menos, três frentes: identificação dos ateliês específicos que produziram a cerâmica regional encontrada no porão; mapeamento mais detalhado dos circuitos de distribuição de mercadorias romanas ao norte dos Alpes; e análise das ânforas ibéricas para determinar a origem precisa do azeite e os portos de embarque na Península Ibérica,

A datação do naufrágio, há dois mil anos entre os anos 20 e 50 da nossa era (ou entre 50 a.C. e 50 d.C.) situa o evento num momento em que o Império Romano firmava a sua presença na Helvécia, construindo estradas, acampamentos e rotas de abastecimento, numa região recém-incorporada. O que afundou no lago era, ao tempo, uma operação logística comum: era parte da engrenagem quotidiana do império, que precisava de alimentar e de armar legiões, a centenas de quilómetros de distância. Não era tesouro de general, nem carga de navio de Estado, mas registo de um dia de trabalho que não chegou ao destino, preservado no fundo frio do lago de Neuchâtel, enquanto o Império Romano nascia, se expandia e desaparecia acima da superfície da água.

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Enquanto prosseguem estes estudos, soube-se que a Ucrânia pediu, a 23 de dezembro, ao Ministério Público (MP) de Varsóvia a extradição do arqueólogo russo Oleksandr Butyagin, sob a acusação de ter participado em escavações ilegais na Crimeia, que fora detido na Polónia, 4 de dezembro, a pedido da Ucrânia, e colocado em prisão preventiva durante 40 dias.

Funcionário do Museu Estatal Hermitage, em que dirige o setor de arqueologia antiga da Costa Norte do Mar Negro, no departamento do Mundo Antigo, deslocara-se à capital da Polónia para dar uma conferência. Porém, na Ucrânia, Butyagin é conhecido como “o arqueólogo de Putin”. Em 2024, os serviços secretos ucranianos (SBU) recolheram provas, com a Polícia Nacional e com o MP, de que a sua expedição arqueológica danificara o património cultural no complexo arqueológico da Cidade Antiga de Mirmekiy, no distrito de Kerch, na Crimeia anexada.

Segundo o SBU, após as escavações ilegais, os invasores removeram a chamada camada cultural da península ucraniana até à profundidade de quase dois metros, danificaram um sítio histórico ucraniano e causaram danos no valor de mais de 200 milhões de hryvnias.

O arqueólogo foi acusado, ao abrigo do n.º 4 do artigo 298.º do Código Penal da Ucrânia, por operações de busca ilegais em sítio do património arqueológico, de destruição ou danificação de sítios do património cultural, feitas para procurar objetos móveis provenientes de sítios do património arqueológico. E, se for extraditado para a Ucrânia, poderá ser condenado a pena de prisão até cinco anos. A decisão de extradição cabe ao tribunal.

O porta-voz da presidência russa, Dmitry Peskov, classificou a detenção com “arbitrariedade jurídica”. E os colegas de Butyagin na Academia Russa de Ciências sustentam que a detenção é “absurda nas suas motivações”.

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A Arqueologia é uma poderosa ciência auxiliar da História e, como é óbvio, deve ser exercida na legalidade, mas esta não pode ser encarada por olhar político enviesado. É facto que a Crimeia foi anexada pela Rússia. Não se vê que um arqueólogo que ali trabalhe sofra a penalização que o invasor não sofre. A Ciência não conhece fronteiras, como reconhece a Confederação Helvética.

2026.04.12 – Louro de Carvalho

sábado, 11 de abril de 2026

Portugal é o país da Zona Euro em que mais subiu o preço das casas

 

 

Na União Europeia (UE), o preço das casas subiu, em média, 5,5%, no quarto trimestre de 2025, face ao mesmo período de 2024, mas vários países registaram aumentos bastante mais fortes, acima dos 10%, nomeadamente, em destinos turísticos, como Portugal, a Croácia e a Espanha. E, em geral, os especialistas do setor apontam a melhoria das condições de financiamento, em particular, das taxas de juro, como principal motor desta tendência.

A Hungria foi o país da UE que registou, segundo o Eurostat,  o maior aumento anual dos preços das casas, no quarto trimestre de 2025, com a subida de 21,2%. “Na Hungria, que lidera a tabela, foram promovidos, nos últimos anos, programas de aquisição de habitação subsidiada, que impulsionaram a procura, a par de forte atividade dos investidores”, observou Kate Everett-Allen, responsável pela investigação em habitação europeia na Knight Frank.

Na Zona Euro, Portugal e a Croácia registaram os mais fortes aumentos. Neste âmbito, cabe a Portugal a subida de 18,9%, vindo, a seguir, a  Croácia, com 16,1%, e a Espanha, com 12,9%. E

Everett-Allen afirmou que a forte procura internacional foi um fator decisivo nos três países. Com efeito, a migração, por razões de estilo de vida, a compra de casas de férias e o investimento externo (incluindo nómadas digitais, reformados e compradores estrangeiros) mantiveram-se robustos, apesar da subida dos custos de financiamento interno, sobretudo, nos mercados costeiros e urbanos.

Michael Polzler, CEO da empresa imobiliária REMAX Europe adiantou que as maiores subidas de preços, em Portugal, na Croácia e na Espanha ocorreram nas grandes áreas urbanas e costeiras, onde a procura é maior. “Em Portugal, a subida dos preços tem sido impulsionada por uma oferta muito limitada, sobretudo, em Lisboa, no Porto e nas zonas envolventes, mas também por medidas de apoio específicas do governo”, referiu, sustentando que foi importante motor da procura a criação do regime de garantia pública para jovens compradores de primeira habitação, que permite financiamento bancário, até 100% do valor, com o Estado a garantir até 15% do preço do imóvel.

Trata-se, na sua ótica, de mercado dominado pelos vendedores, e a escassez de oferta, combinada com esta política, permite manter forte poder de fixação de preços.

Para o líder da REMAX Europe, “a evolução dos preços, no final de 2025, foi marcada pela melhoria das condições de financiamento, que trouxe de volta a procura”; e, “com a estabilização das taxas de juro, compradores que tinham adiado a procura de casa voltaram ao mercado”.

Mikk Kalmet, da Global Property Guide, frisando a recuperação da procura, após as subidas das taxas de juro, em 2023 e em 2024, observou: “À medida que a Euribor e as taxas de juro bancárias, em geral, estabilizaram, o mercado recuperou, ligeiramente, porque quem hesitava em comprar numa fase de incerteza passou a sentir alguma previsibilidade a partir do final de 2024.”

Michael Polzler referiu que cidades, como Valência e Madrid, têm superado as médias nacionais, na Espanha, apoiadas pela procura interna e internacional. De facto, o investimento estrangeiro sustentado e a atratividade contínua dos mercados reforçam a subida dos preços.

Para Mikk Kalmet, a maior subida dos preços, em Portugal, na Croácia e na Espanha, resulta, sobretudo, da sua atratividade de destinos turísticos. Efetivamente, compradores internacionais, a procura de segundas residências e a expansão do alojamento de curta duração aumentaram a pressão sobre o mercado de habitação, sobretudo, nas zonas costeiras e urbanas.

Além dos países referidos, há outros que também registaram fortes subidas dos preços das casas, superiores a 10%: a Eslováquia, com 12,8% (menos 0,1% do que a Espanha), a Bulgária, com 12,6%, a Letónia, com 11%, a Lituânia, com 10,8%, e a Chéquia, com 10,4%.

Everett-Allen salientou que a Europa Central e de Leste, a par da Península Ibérica, se destacaram, nos últimos 12 a 18 meses, em linha com o crescimento do produto interno bruto (PIB) mais forte. “Estes mercados beneficiam também do investimento em infraestruturas e da entrada de capitais, tanto associados a escolhas de estilo de vida como às perspetivas económicas de longo prazo”, explicitou.

Por seu turno, Mikk Kalmet sustenta que os preços tendem a subir mais depressa, na Europa Central e de Leste, em parte, porque os rendimentos estão a aproximar‑se da média europeia e o ponto de partida do mercado da habitação era mais baixo.

As subidas dos preços das casas na Dinamarca (7,6%), na Irlanda (7%), na Roménia (6,7%), nos Países Baixos (6,2%), em Malta (6,1%), em Chipre (6%), na Eslovénia (5,8%) e na Noruega (5,7%) ficaram também acima da média da UE, embora por margem menor.

A Finlândia foi o único país, entre 29 mercados europeus, onde os preços das casas desceram, com uma queda anual de 3,1%.

Entre as quatro maiores economias da UE, a Espanha destacou‑se com a subida de 12,9% e a Itália registou a subida de 4,1%. Na Alemanha, os preços das casas aumentaram 3%, enquanto a França ficou na terceira posição mais baixa na Europa, com apenas 1% de subida. “A França ainda está a recuperar da forte correção do mercado, em 2023 e em 2024, quando a subida das taxas de juro do crédito à habitação e a inflação afetaram, de forma significativa, a procura, como explicou Michael Polzler, sustentando que “o mercado está a estabilizar, com movimentos de preços moderados e [com] compradores mais cautelosos”.

E, segundo Everett-Allen, o mercado residencial alemão esteve mais exposto ao peso do endividamento barato, ao fraco crescimento dos rendimentos e a um sistema de arrendamento que permite a retração rápida da procura e elevados custos regulatórios e de entrada.

O Luxemburgo ficou na segunda posição, com a subida de 0,1%; e, na quarta posição ficou a Suécia, com a subida de 1,2%.

Abaixo da média da UE (5,5%) e da média da Zona Euro (5,1%), ficaram ainda a Bélgica (3,5%), a Áustria (3,7%) e a Polónia (4,3%).

Também consta, abaixo das médias da UE e da Zona Euro, a Suíça, com a subida de 3,9%, e, acima destas médias, a Noruega, com a subida de 5,7% – países que não integram a UE.

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A aquisição de casa depende do rendimento real disponível para compra ou para arrendamento. E um dos fatores que dificultou o poder de compra ou de arrendamento de casa foi a crise surgida com a pandemia da covid-19. E, com o regresso ao normal, adveio a crise inflacionista provocada pela guerra na Ucrânia e pela situação em Gaza e no Irão. No entanto, na UE, o rendimento real dos agregados familiares, por pessoa, subiu cerca de 7%, face ao período pré-pandemia, mas a variação entre 2019 e 2024 difere muito de país para país. Os países nórdicos registaram ganhos modestos, enquanto muitos países da Europa de Leste e Central viram crescimentos mais fortes. Também a evolução, na última década, não foi uniforme no continente.

É importante saber como se alterou o rendimento real dos agregados familiares, por pessoa, na Europa, entre 2014 e 2024, como se compara com a pré-pandemia e que países apresentam o rendimento, por pessoa, mais elevado em standard de poder de compra (PPS).

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O PPS (Padrão de Poder de Compra:  Purchasing Power Standard), no contexto de rendimento por agregado familiar é a unidade monetária artificial da UE para comparar o poder de compra real entre diferentes países, eliminando as diferenças de nível de preços. A sua finalidade é comparar se um rendimento de, por exemplo, 20 mil euros anuais, permite comprar os mesmos bens e serviços, por exemplo, em Portugal ou na Alemanha, ajustando a inflação e o custo de vida local. Conexo com este, vem o rendimento líquido equivalente (RLE), por agregado familiar, calculando quanto dinheiro cada membro da família tem para gastar, após ajustar o custo de vida e a dimensão do agregado familiar.

Um PPS compra, em média, a mesma quantidade de bens e serviços, em cada país. Se um país tem um nível de preços elevado, são necessários mais euros para comprar um PPS do que num país com preços baixos. Assim, quando se analisa o rendimento por agregado familiar em PPS, olha-se o poder de compra real e não apenas para o valor nominal do salário. 

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No conjunto da UE, os rendimentos aumentaram 17%, entre 2014 e 2024. O crescimento travou, em 2020, devido à pandemia de covid-19, como aconteceu em muitos países, havendo alguns a registar quebras. Depois retomou, de forma gradual, entre 2019 e 2024, resultando num aumento de 7% face, aos níveis pré-pandemia.

O rendimento dos agregados familiares, por pessoa, calcula-se dividindo o rendimento disponível bruto ajustado dos agregados familiares pela população total. Ou seja, mostra-se o dinheiro disponível dos agregados familiares para gastarem ou para pouparem. Mede-se deduzindo os impostos sobre o rendimento e as contribuições para pensões. Inclui, como é óbvio, o valor de serviços, como educação e saúde, que os agregados recebem, gratuitamente, dos governos e de organizações sem fins lucrativos. E é rendimento real, pois é o valor nominal corrigido da inflação, usando o deflator da despesa final efetiva de consumo das famílias.

A Croácia registou o crescimento mais forte do rendimento real dos agregados familiares, nestes cinco anos, com 26%. Malta registou 24%, a Hungria 20%, a Roménia 19% e a Polónia 16%, colocando-se estes países entre os maiores incrementos, todos acima de 15%. Com exceção de Malta, estes países estão fora da Zona Euro e o crescimento reflete também alterações nas moedas nacionais. Não é o caso da Suécia e da Dinamarca.

Os três países nórdicos surgem no fim da tabela: a Suécia, com 1%, a Finlândia, com 2%, e a Dinamarca, com 3%, registaram crescimentos modestos. No auge da covid-19, segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), as taxas de desemprego subiram mais nos países nórdicos do que em outros países europeus; as quatro maiores economias da UE também ficam abaixo da média europeia. A França e a Espanha (6%, cada) estão abaixo da média da UE;  a Itália e a Alemanha (4%, cada) aproximam-se dos níveis nórdicos.

Em geral, os países fora da Zona Euro registaram crescimentos mais fortes, entre 2014 e 2024, com a Roménia a alcançar 76%. Entre os sete países com maior crescimento, Malta é o único membro da Zona Euro, com 55%. A Turquia (68%), a Hungria (55%), a Croácia (51%), a Bulgária (45%) e a Polónia (42%) também registaram aumentos significativos (a Croácia e a Bulgária aderiram, mais tarde, à Zona Euro). E o Eurostat assinala que o crescimento do produto interno bruto (PIB) real, na Zona Euro, foi mais fraco do que no conjunto da UE, nos últimos 10 anos.

A Suécia registou o crescimento mais baixo deste período. Os outros dois países nórdicos também ficam abaixo da média da UE, de 17%, com a Finlândia, nos 10%, e a Dinamarca, nos 14%. A Espanha está apenas dois pontos acima da média europeia, enquanto as outras três principais economias ficam abaixo deste patamar.

As taxas de crescimento são importantes, mas não mostram o nível efetivo de rendimento dos agregados familiares, em cada país. Para essa comparação, recorre-se ao rendimento disponível bruto ajustado dos agregados familiares por pessoa, em PPS. Em 2024, ano dos dados mais recentes, o Luxemburgo apresentou o rendimento, por pessoa, mais elevado, com 41,552 PPS, entre 32 países europeus. A Alemanha (37,098) a Áustria (34,443), os Países Baixos (34,406) e a Suíça (33,971) completam o top cinco. O rendimento, por pessoa, dos agregados familiares ultrapassa os 30,000 PPS na Bélgica, na França, na Islândia e na Noruega.

A Bulgária apresenta o rendimento por pessoa mais baixo, com 7,802 PPS, com base em dados de 2022. Países da Europa de Leste e dos Balcãs, incluindo candidatos à adesão à UE, registam, igualmente, rendimentos mais reduzidos, em termos de PPS.

A Sérvia situa-se nos 13,311 PPS, enquanto outros países, incluindo a Grécia, a Turquia, a Eslováquia, a Roménia e a Hungria se posicionam, sobretudo, entre 20,000 e 25,000 PPS.

Os três primeiros lugares no ranking em PPS mantiveram-se inalterados, em 2014, em 2019 e em 2024. Ao invés, a Grécia e a Suécia perderam posições, neste período, entre 30 países. A Suécia ocupava o sexto lugar, em 2014, o oitavo, em 2019l e o décimo, em 2024. A Grécia desceu do vigésimo terceiro para o  vigésimo oitavo lugar, na última década. Em contraponto, os Países Baixos subiram do sétimo para o quarto lugar. A Hungria passou do vigésimo sexto para o vigésimo segundo e a Roménia subiu do vigésimo nono para o vigésimo quatro.

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Para enfrentar a crise da habitação em Portugal, a OCDE (vincando que o nosso é um dos países onde o acesso à casa mais se degradou, na última década) lançou, em janeiro de 2026, o relatório “OECD Economic Survey: Portugal 2026”, com recomendações que focam, sobretudo a reforma fiscal e o aumento da oferta.

Em termos de reforma fiscal e de impostos, propõe o agravamento do imposto municipal sobre imóveis (IMI) para casas vazias, com aperto fiscal e com aplicação efetiva de taxas mais altas para os cerca de 730 mil imóveis desocupados ou subutilizados, especialmente, em zonas de elevada procura; preconiza a redução (ou a eliminação progressiva) do imposto municipal sobre as transmissões onerosas de imóveis (IMT), para facilitar a mobilidade residencial; recomenda a limitação de isenções do imposto sobre as mais-valias, na venda de residência própria, mesmo quando o valor é reinvestido, para evitar pressões inflacionárias no mercado; e sugere a atualização de avaliações, baseando o valor patrimonial dos imóveis em dados recentes de mercado, para tornar a tributação mais justa e eficiente. 

A nível do aumento da oferta e do investimento, sugere a simplificação de licenciamentos, acelerando os processos administrativos e eliminando barreiras regulatórias que travam a construção de novos edifícios; a expansão da habitação pública, reforçando o investimento no parque de habitação social e pública, para apoiar as famílias mais vulneráveis; e o arrendamento de longo prazo, equilibrando a regulamentação para incentivar os proprietários a porem casas no mercado de arrendamento de longa duração, com maior segurança jurídica. 

E, no âmbito de outras medidas estruturais, recomenda o alívio do imposto sobre o rendimento das pessoas singulares (IRS), sugerindo que o aumento da receita vinda de impostos imobiliários (como o IMI) se use para baixar os impostos sobre o trabalho, especialmente, para rendimentos mais baixos; e propõe  o apoio aos jovens, monitorizando o impacto das medidas de apoio a jovens compradores, para garantir que não levam à subida artificial de preços.

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Do exposto é legítimo questionar por que se apregoa a vantagem da pertença à Zona Euro, se, nos países que a integram, o aumento do rendimento é menor; e por que motivo a OCDE não sugere medidas de políticas públicas que obstem à especulação imobiliária e do arrendamento. Uma renda de 2300 euros mensais, em Portugal, em que os salários são muito baixos, não é moderada e o senhorio não merece apoio estatal.

2026.04.11 – Louro de Carvalho

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Severa, a mítica fadista de Lisboa que morreu na flor da vida

 

O crucigrama da revista do “Expresso”, de 10 de abril, com a indicação “Mítica fadista” remeteu-me para o tempo da adolescência em que estava em voga a canção “Ó Tempo volta pra trás” – composição de Eduardo Dantas e Manuel Paião, interpretada por António Mourão e que replicávamos nos nossos serões – em que se falava da Severa e cuja letra é :

“A Severa, foi-se embora. / O tempo, pra mim parou. / Passado que vai com ela, / Para mim não mais voltou.

“As horas pra mim são dias, / As horas pra mim são dias, / Os dias pra mim são anos. / Recordação é saudade, / Recordação é saudade, / Saudades são desenganos.

“Ó tempo, volta pra trás, / Traz-me tudo o que eu perdi. / Tem pena e dá-me a vida, / A vida que eu já vivi. / Ó tempo, volta pra trás. / Mata as minhas esperanças vãs. / Vê que até o próprio sol, /
Volta todas as manhãs. / Vê que até o próprio sol, / Volta todas as manhãs.

“Porque será que o passado, / E o amor são tão iguais. / Porque será que o amor, /
Quando vai, não volta mais. / Mas para mim a Severa, / Mas para mim a Severa, / É o eco dos meus passos. / Eu tenho a saudade à espera, / Eu tenho a saudade à espera, /
Que ela volte prós meus braços.

“Ó tempo, volta pra trás, / Traz-me tudo o que eu perdi. […]” (bis)

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Maria Severa Onofriana, filha de Severo Manuel de Sousa e de Ana Gertrudes Severa (apelido adaptado do nome do marido), nasceu a 26 de julho de 1820, na Rua da Madragoa ou dos Barracos (atual Rua Vicente Borga, n.º 33, na freguesia da Estrela), onde a mãe tinha uma taberna, e passou por vários locais, até se fixar na Mouraria, onde faleceu. Os locais do nascimento e da morte estão assinalados com lápides, colocadas com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa.

Embora a lenda lhe atribua ascendência cigana, investigação publicada, em 2022, pelo antropólogo Paulo Lima, na obra “Severa 1820” (da Tradisom), trouxe novos dados concludentes de que a fadista descendia de africanos escravizados, levados, originalmente, para Ponte de Sor. A obra reconstrói o percurso biográfico de Severa, desde o nascimento, a 26 de julho de 1820, na Rua dos Barracos (freguesia dos Anjos), até à sua morte precoce, aos 26 anos, desmistificando a narrativa romântica que envolve a sua figura. 

A mãe, conhecida como “A Barbuda”, era uma  prostituta da Mouraria. E Maria Severa ingressou, muito cedo, na mesma profissão, por volta dos 12 anos, distinguindo-se “pelos olhos de fogo” e pelo seu modo de cantar o fado, segundo vários relatos e registos epocais. 

Em 1831, morava na Rua Direita da Graça e teria morado no Pátio do Carrasco ao Limoeiro, por volta de 1844. Viveu no Bairro Alto à Travessa do Poço da Cidade, antes de se fixar na Mouraria, na Rua do Capelão, n.º 35A, que foi frequentada por marujos portugueses e ingleses, no tempo de Rua Suja. Contam-se histórias sobre a Severa, mas muitas terão credibilidade contestável, sendo mais lendas do que relatos oficiais. Percorria os bairros populares de Lisboa e a sua voz animou as noites de muitas tertúlias bairristas, tendo algumas tabernas ficado famosas pela sua presença. Teve vários amantes, entre eles o 13.º Conde de Vimioso, D. Francisco de Paula de Portugal e Castro) enfeitiçado pelo modo como ela cantava e tocava guitarra, levando-a, muitas vezes, à tourada, o que lhe proporcionou celebridade, prestígio e maior número de oportunidades para se exibir ante um público de jovens da elite social e intelectual.

Morreu de tuberculose e de apoplética, às 21 horas de 30 de novembro de 1846, aos 26 anos, num bordel da Rua do Capelão, na Mouraria (freguesia do Socorro), e foi sepultada no Cemitério do Alto de São João, em vala comum, sem caixão. As suas últimas palavras terão sido: “Morro, sem nunca ter vivido.” Na Mouraria, na Rua do Capelão, encontra-se o “Largo da Severa”, onde a casa da fadista está assinalada com a indicação de “Casa da Severa” e no chão, empedrado de calçada à portuguesa, vê-se o desenho de uma guitarra. Na fachada da casa foi colocada uma placa, onde se lê: “Nesta casa viveu Maria Severa Onofriana / Considerada na época a expressão sublime do Fado / Faleceu em 30-11-1846 com 26 anos de idade / Lisboa 3-6-1989.” A placa foi descerrada por Amália Rodrigues, geralmente aclamada como a voz de Portugal.

A sua fama deve-se, em parte, a Júlio Dantas, cuja novela “A Severa” originou uma peça levada à cena, em 1901, e ao primeiro filme sonoro português, de Leitão de Barros, em 1931. E, no filme “Fados”, de 2007, do espanhol Carlos Saura, a Severa é interpretada por Cuca Roseta.

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O Museu do Fado confirma a data do nascimento de Severa, pelo registo de batismo, a 12 de setembro de 1820, na Paróquia dos Anjos, que, além do mais, refere que era filha de Severo Manuel de Sousa, natural da freguesia de S. Nicolau, em Santarém, e de Ana Gertrudes, nascida em Portalegre, tendo o casal celebrado matrimónio a 27 de abril de 1815, na Paróquia de Santa Cruz da Prideira de Santarém. E o assento de óbito, dá a entender que faleceu muito jovem, pois indica a morte a 30 de novembro de 1846 na Rua do Capelão, apoplética e sem sacramentos, aos 26 anos e solteira, tendo sido sepultada no Cemitério do Alto de S. João.

Sustenta o Museu do Fado que, além destes dados, pouco mais está comprovado sobre a vida da cantadeira, pois a maioria das informações provém dos relatos orais de contemporâneos, como Luís Augusto Palmeirim, Miguel Queriol e Raimundo António de Bulhão Pato.

O poeta Bulhão Pato, que a conheceu, testemunhou: “A pobre rapariga foi uma fadista interessantíssima como nunca a Mouraria tornará a ter! Não será fácil aparecer outra Severa altiva e impetuosa, tão generosa como pronta a partir a cara a qualquer que lhe fizesse uma tratantada! Valente, cheia de afetos para os que estimava, assim como era rude para com os inimigos. Não era mulher vulgar.”

Augusto Palmeirim que a viu e falou com ela uma vez, mas o bastante para não mais se esquecer da “esbelta rapariga, que tinha lume nos olhos, uma voz plangente e sonora”, mas também “modos bruscos e sacudidos”, que avisavam os interlocutores a porem-se fora do alcance de um “revés de fortuna”. Tendo-a visitado numa casa onde morava, no Bairro Alto, descreveu, posteriormente, no seu livro “Os excêntricos do meu tempo”, a visita: “Quando entrei em casa da Severa, modesta habitação do tipo vulgar das que habitam as infelizes suas congéneres, estava ela fumando, recostada num canapé de palhinha, com chinelas de polimento ponteadas de retrós vermelho, com um lenço de seda de ramagens na cabeça e as mangas do vestido arregaçadas até ao cotovelo. Era uma mulher sobre o trigueiro, magra, nervosa e notável por uns magníficos olhos peninsulares. Em cima de uma mesa de jogo estava pousada uma guitarra, a companheira inseparável dos seus triunfos; e pendente da parede (sacrilégio vulgar nas casas daquela ordem) uma péssima gravura, representando o Senhor dos Passos da Graça!”

Miguel Queriol refere a visita noturna de um grupo de boémios ao Palácio do Conde de Vimioso, na qual Severa cantou o Fado, acompanhada à guitarra por Roberto Camelo. Em artigo do jornal “O Popular”, comentou: “Era uma rapariga esbelta, bem apessoada, cabelo escuro e farto, com um ar de desenvoltura sem ultrapassar as conveniências da sua posição, para com quem a favorecia, trajando limpa, mas modestamente, sem fazer lembrar a desgraça da classe em que menos o vício [do] que a miséria a havia precipitado, e que, pela sua timidez, se mostrava contrafeita no meio social em que ali se achava.”

Maria Severa Onofriana, celebrizou-se como Severa, o ícone de primeira fadista pelos seus amores e pelos fados que cantava, tocava e dançava, na Mouraria. Os locais da sua atuação não estão ainda identificados, mas estarão relacionados com os circuitos de prostituição, em particular do Bairro Alto e da Mouraria. Porém, fez apresentações em festas aristocráticas, o que foi possível pela sua ligação ao conde de Vimioso, como relata Miguel Queriol no jornal “O Popular”, que elogia a apresentação de Severa no Palácio do Conde.

Eduardo Sucena refere que um dos locais frequentados pela cantadeira, onde teria conhecido o Conde de Vimioso, era a taberna da Rosária dos “Óculos”, que ficava ao cimo da Rua do Capelão, no prédio conhecido por “casa de pedra”. Aí ela cantava e batia o fado, acompanhada à guitarra por Joaquim Lucas, caixeiro de uma outra taberna da Rua dos Cavaleiros. O mesmo autor indica a taberna do Manuel Jerónimo, o Cegueta, e a do Manhoso, situadas na mesma Rua do Capelão, e o Café da Bola, na Rua de S. Vicente à Guia, como locais onde a presença de Severa seria habitual. A estes locais acrescenta o café do antigo moço de forcado Joaquim Silva, à Rua do Saco, perto da praça de touros do Campo de Santana, onde o Conde de Vimioso se juntava com apreciadores e com praticantes da arte de tourear.

Após a sua morte, a “meio-soprano dos conservatórios do vício”, conforme a apelidou Pinto de Carvalho, passou a usufruir de crescente fama, até então inédita, nestes círculos populares, cantada em letras de fados, em romance e até no cinema. Essa popularidade está patente no “Fado da Severa”, catalogado por Teófilo Braga no “Cancioneiro Popular” de 1867, como sendo de autoria de Sousa do Casacão e datado de 1848, de que transcrevem algumas quadras:

“Chorai fadistas, chorai, / Que uma fadista morreu. / Hoje mesmo faz um ano / Que a Severa faleceu.

“Chorai, fadistas, chorai / Que a Severa já morreu: / E fadista como ela / Nunca no Mundo apar’ceu.

(...)

“Chorai, fadistas, chorai, / Que a Severa se finou. / O gosto que tinha o Fado, / Tudo com ela acabou.”

Prolonga-se a aura de mistério que torna Severa a figura mitológica do fado, fruto da ausência de detalhes sobre a sua vida e da inexistência de retrato que possa, comprovadamente, perpetuar a sua figura. De tal forma esta imagem assumia grande importância que o jornal “Canção do Sul”, de 1 de Setembro de 1939, apresentava, na primeira página, uma fotografia que afirmava ser o retrato de Severa, mas que era a reprodução, em postal ilustrado, de Acácia Reis (Severa) e Rosa d’ Oliveira (Rosa Enjeitada), na revista “Na ponta da Unha”, representada no teatro da Rua dos Condes, em 1902.

Em 1901, Júlio Dantas escreveu “A Severa”, alterando alguns aspetos da possível verdade histórica, transformando o Conde de Vimioso em Conde de Marialva”, atribuindo origem cigana a Severa e construindo um enredo dramático que, ao gosto romântico da época, se baseia em “A Dama das Camélias”, de Alexandre Dumas. Do mesmo autor é a peça que estreia a 25 de Janeiro de 1901, no Teatro D. Amélia (futuro Teatro São Luiz), com Ângela Pinto a protagonizar a cantadeira Severa. De tal forma esta peça se tornou um êxito que foi adaptada a opereta por André Brun, em 1909. Neste espetáculo a protagonista foi Júlia Mendes.

Continuando a ser tema popular e com sucesso, sucederam-se as reposições em palco com as mais conceituadas protagonistas, como a encenação da companhia de Vasco Morgado, estreada a 8 de março de 1955, no Teatro Monumental, com Amália Rodrigues a interpretar Severa.

A obra de Júlio Dantas foi adaptada ao cinema por Leitão de Barros, em 1931, tornando-se o primeiro filme sonoro português, que se estreou no São Luiz, a 18 de Junho de 1931 e esteve mais de seis meses em cartaz, sendo visto por 200 mil espectadores. Da sua banda sonora faz parte o “Novo Fado da Severa” (Rua do Capelão) com versos de Júlio Dantas e com música de Frederico de Freitas, que se popularizou muito para lá das telas do cinema.

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Duzentos anos após o seu nascimento, um grupo de investigadores, encabeçado pelo antropólogo Paulo Lima, desconstruiu a maior lenda da canção de Lisboa. Severa era descendente de escravos negros e prostituta de terceira categoria, explorada por um conde e produto de uma paisagem de exclusão. A este respeito, Miguel Azevedo, a 5 de janeiro de 2023, observa, no “The mag – the weekly magazine by flash”, que o novo e mais exaustivo trabalho de investigação sobre “a primeira cantora de fado” está no livro “Severa 1820”, que traça todo um mapa genealógico e muitos dos passos de Severa, durante os seus 26 anos de vida.

Começou a cantar por volta dos 10 anos e a vender o corpo pelos 12 anos. Destacou-se pela personalidade e pelos olhos de fogo, mas viveu uma vida de privações dificuldades e violência. Descobriu-se que terá vivido na Rua da Oliveirinha, porque documentação policial mostra que a mãe tentou matar o pai “com uma faca de sapateiro”. Contudo, Maria Severa marcou profundamente quem com ela se cruzou. Um texto de cerca de 1870 de alguém que ouvira uma sessão de fados na Praça da Figueira diz que a figura descrita é a da Severa.

Na hora da sua morte, terá sido a própria Severa a pedir que a lançassem em vala comum sem qualquer memória funerária, mas um embuçado apresentou-se a oferecer-se para comprar um coval ou erguer uma lápide, mas está por explicar de quem se trataria. 

Um do aspetos de maior interesse é que não era cigana, mas descendente de escravos africanos. Não era negra, mas teria pele trigueira. E Paulo Lima sustenta que os antepassados da Severa mais longínquos que se encontraram são um casal de escravos que se casa por volta de 1688. Têm vários filhos, entre os quais Luzia, “a Preta”, que era escrava forra ou liberta, mas que continuou a trabalhar para os mesmos patrões, que eram a família Manso, de Ponte de Sor. A Luzia teve vários filhos e é nesta linha de descendência que nasce, em 1791, Ana Gertrudes Severa, a mãe da Severa, que já casou tarde, em 1815, e que veio para Lisboa, por volta de 1817, à procura de melhor vida, que não encontrou.

Outro mito é o de que morreu jovem. Ora, à época, na idade em que morreu, já era mulher madura. Ao tempo, a primeira categoria de prostituta era a amante de alguém. A segunda era a que vivia em casas onde era explorada e a terceira era a prostituta de rua, onde se enquadrava a Severa. Há um documento segundo o qual  o pai e o padre local pediram para ela entrar na Casa Pia, para não cair na prostituição. Como tal não aconteceu, terá sido então que começou a prostituir-se. Não há documento que comprove o seu casamento, o que não era normal, se ele tivesse ocorrido, porque era prostituta de terceira categoria. Isso percebe-se pelas voltas que dava por Lisboa, à procura de clientes, sempre condicionadas às leis higiénicas da cidade que determinavam que as prostitutas só podiam andar em determinados sítios.

A relação com o 13.º Conde de Vimioso não era amor. Ela e a mãe deviam ser exploradas por ele, porque viviam em casas que lhe pertenciam, sem nunca pagarem.

Após a sua morte, surgem fados populares sobre esta mulher que morre de amores e é isso que se inscreve na História do Fado. Depois, surge a narrativa que vai construindo a figura da Severa. Ela foi a primeira fadista, mas, em 1830, a fadista era uma marginal. O que se pode dizer é que ela pertence à primeira geração daquilo a que viríamos a reconhecer como fado. Ela cantava já aos 10-12 anos. E, com ela, o fado extravasou dos ambientes marginais.

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Também com estas figuras, marcadas pela desdita (mas que marcam a vida), se deve construir a História e não só com os poderosos, cuja vida esconde, por vezes, imensa podridão.

2026.04.10 – Louro de Carvalho