As
escamas de peixe acabam no caixote do lixo dos mercados e das nossas casas.
Porém, nos laboratórios do Departamento de Histologia da Faculdade de Medicina
da Universidade de Granada (UGR), o Grupo de Engenharia de Tecidos examina, com
novo olhar, estes resíduos, cujo resultado é o implante de córnea (queratoplastia)
biocompatível, resistente e transparente, a partir das escamas da carpa e de
outros peixes de consumo comum.
Segundo
a equipa de investigação, os testes laboratoriais e em animais mostraram promissores
resultados para reparo e regeneração da córnea. Os implantes de escamas de
peixe são transparentes, duráveis e altamente compatíveis com tecido biológico.
A
investigação foi financiada pelo Instituto de Saúde Carlos III, do Ministério
da Ciência, Inovação e Universidades, através do projeto PI23/00335. O trabalho
foi apresentado na presença do diretor do Hospital Clínico San Cecilio de
Granada, Manuel Reyes, o que reflete o interesse do meio clínico no
desenvolvimento desta linha de investigação.
A
este respeito, o jornalista Jesus Maturana, em artigo intitulado “Transplantes
de córnea feitos de escamas de peixe, a mais recente descoberta da medicina
espanhola”, publicado pela Euronews, a 12 de março, dá-nos conta de que
investigadores da UGR desenvolveram implantes de córnea, a partir de escamas de
peixe”, uma descoberta que “abre uma via” à redução da “dependência dos
transplantes”.
O
jornalista lembra que “a córnea é a camada transparente que cobre a parte da
frente do olho” e que tem “função ótica essencial”. Com efeito, quando
fica gravemente doente, regenera-se mal e não recebe irrigação sanguínea
direta, o que complica o tratamento, sendo o transplante de um dador, em muitos
casos, a única saída. Porém, a dependência de dador e a limitação da disponibilidade
de tecido saudável levam a que as listas de espera sejam longas. “É necessário
desenvolver novos métodos eficazes de regeneração que não dependam da doação de
órgãos”, afirma Miguel Alaminos, professor de Histologia da UGR.
O
estudo, publicado na revista “Materials & Design”, explicita como a análise
dos flocos permitiu obter um biomaterial com propriedades adequadas para ser
utilizado na reparação da córnea. Os testes efetuados em condições
laboratoriais e em animais experimentais deram bons resultados funcionais. E, para
lá do interesse clínico, os investigadores destacam uma vantagem prática: a
origem do material torna-o barato e fácil de obter, pois as escamas de peixe
são um subproduto da indústria pesqueira que é, geralmente, descartado. A sua
transformação em matéria-prima para implantes médicos abre um potencial de
utilização que pode ter consequências económicas, no litoral e no interior dos
países.
De
acordo com a explicação de Ingrid Garzón, professora de Histologia da UGR e
investigadora do Instituto de Investigação Biosanitária ibs.GRANADA, este
produto é muito acessível, fácil de obter e barato, e poderia contribuir para
impulsionar o setor da pesca, numa zona que está a ser afetada por numerosas
restrições e condicionantes”.
Os
resultados preliminares são suficientemente sólidos, para justificar a sua
continuação. A fase laboratorial e os testes em animais passaram os primeiros
filtros, mas, antes de este tipo de implante chegar à sala de operações, é preciso
completar os ensaios clínicos em humanos, o que demora anos e postula
regulamentação rigorosa.
Para
já, a equipa da UGR conseguiu a demonstração de que o material funciona a nível
biológico e estrutural. O facto de as escamas de carpa serem convertíveis numa
córnea viável ainda não é realidade clínica, mas é hipótese fortemente apoiada
por dados. Num domínio em que a escassez de dadores continua a ser problema,
sem solução fácil, isso é bastante.
***
Sobre
o mesmo tema, o jornal espanhol “El Mundo” publicou, também a 10 de março, um
artigo intitulado “De um mercado em Granada para os seus olhos: desenvolvem uma
córnea bioartificial à base de escamas de carpa”, em que a jornalista Rocío R.
García-Abadillo refere que, embora os resultados da investigação sejam
promissores, ainda temos de esperar de quatro a cinco anos, para que tais córneas cheguem a um paciente.
A
jornalista do “El Mundo” levanta a hipótese de ter sido, “enquanto faziam
compras na peixaria, preparavam o jantar, em casa, ou assistiam a um
documentário sobre a Natureza, numa tarde de domingo”, que surgiu o momento
exato de “Êúrêka!” arquimediano que inspirou os pesquisadores “a
considerarem as escamas de peixe como um material adequado
para a criação de córneas artificiais”. Seja como for, testaram a ideia,
que funcionou, pelo menos, nos modelos laboratoriais. E Miguel Alaminos revela
que, um dia, “meio que por acaso”, começaram a pensar em escamas de peixe, que “são
muito duras, mas flexíveis e transparentes”.
O
investigador diz que é um processo em que a sorte desempenha relevante papel.
Passaram o dia a procurar novos materiais, a tentar aprimorar os produtos que
fabricavam. Às vezes, não funcionavam, mas, outras vezes, mostraram-se “muito
biocompatíveis” e a funcionarem “muito bem”. Trata-se, pois, de processo de
meses ou de anos, até se verem “as células proliferarem, os genes expressos
serem os corretos, assim como as propriedades físicas...”
Como
refere a articulista, o historial do grupos já se estende por mais de 25 anos,
ou seja, desde a criação do Grupo de Engenharia de Tecidos no Departamento de
Histologia da Faculdade de Medicina da UGR. Durante esse período,
desenvolveram uma córnea artificial (o seu primeiro produto), uma pele
artificial, que implantaram em mais de 25 pacientes, tal como desenvolveram um
palato artificial, que foi implantado em cinco crianças.
O
Grupo fabrica esses produtos e aprimora-os, continuamente, como fez, agora, com
a córnea, na constante demanda por propriedades aprimoradas e por maiores
benefícios para os pacientes. O problema, de acordo com Miguel Alaminos, é que,
por serem terapias avançadas e regidas por legislação complexa, a nível
europeu, levam tempo a chegar às aplicações clínicas, isto é, para serem
usadas pelos pacientes; e cada avanço ou aprimoramento exige nova
autorização da Agência Europeia de Medicamentos (EMA). É começar do zero.
A primeira córnea levou 10 anos; a pele artificial; de seis a sete; e o palato
artificial, cerca de cinco.
Para
a córnea bioartificial (os materiais são biológicos) chegar ao olho de uma
pessoa, ainda será de esperar quatro a cinco anos, na melhor das
hipóteses.
Todavia,
Miguel Alaminos revela o que fizeram, desde o momento em que surgiu a ideia. Começaram
a investigação, compram os peixes no mercado e levam-nos para o laboratório, o
mais rápido possível, porque, tal como na culinária, produto fresco é
sempre preferível. Inicialmente, procuravam as espécies de peixe mais comuns
que viam nos mercados de Granada, onde investigam. Testaram salmão,
sardinha, dourada e peixe-vermelho – peixes utilizados comumente – e descobriram que
todos são bastante adequados, pois, sendo produtos fornecidos pela Natureza, as
suas células desenvolvem-se muito bem.
O
plástico artificial, como observa o investigador, não é o mesmo que um produto
natural. Todos funcionam muito bem, mas nota-se que “algumas escamas são um
pouco mais transparentes, outras um pouco mais resistentes, outras um pouco
mais biocompatíveis, e assim por diante”. Foram analisadas diversas espécies
animais, mas concluíram, no final, que as escamas de carpa, de um peixe de
água doce, oferecem as melhores propriedades gerais, entre todas as
mencionadas, embora todas tenham os seus prós e contras.
E
o cientista, pormenorizando, explicita que se retiram, com pinças, as escamas
do tamanho certo e se processam, para remover o que não é necessário. Como
as escamas de peixe contêm muitos componentes muito úteis, para nós, porque “não
somos tão diferentes dos peixes, do ponto de vista evolutivo”, como se poderia
pensar, há componentes da pele humana presentes nas escamas de peixe, o que
postula que se mantenham. Em paralelo, há coisas que são muito diferentes,
porque se passaram milhões de anos, desde a evolução, pelo que devem ser
eliminadas. É, por exemplo, o caso das células de peixe presas à epiderme
do peixe ou a camada fina de carbonato de cálcio (CaCO3),
que a maioria das escamas tem na sua superfície.
Para
limpar as escamas, os investigadores usam um processo que vêm aprimorando, há “muitos
meses, em laboratório”, e que “envolve a combinação de vários produtos”, mas, sobretudo, um
“ácido que ajuda a eliminar todo o cálcio, as células e qualquer tecido
epidérmico remanescente que não seja mais necessário”. Isso resulta num
biomaterial que forma o núcleo da escama, utilizável em engenharia de tecidos. “A
parte central contém colágeno e outros materiais muito úteis. Em seguida,
lavamos bem e começamos a fixar células da córnea, que obtemos de culturas de
células cultivadas em laboratório”, explica Alaminos.
O
investigador diz que as células são depositadas na superfície, usando materiais
e meios de cultura que permitem criar várias camadas de células sobre a escama,
resultando em algo semelhante à córnea humana. E explica: “A córnea humana tem
um material composto por muitas fibras paralelas transparentes e resistentes. E,
sobre ele, há células. É mais ou menos isso que temos: material resistente
e transparente com células da córnea sobrepostas. É semelhante a uma córnea
artificial e, teoricamente, poderia ser implantada num paciente.”
Enquanto
a pele forma cicatriz e se fecha bastante rapidamente, quando lesionada, a
córnea cicatriza muito lentamente, por não ter vasos sanguíneos, resultando em
capacidades limitadas de regeneração e de reparo. Por exemplo, trabalhadores
rurais, às vezes, perfuram os olhos com galhos de árvore, causando buraco ou
úlceras que duram semanas, meses ou anos. Assim, os primeiros pacientes
serão os que têm danos graves na córnea e essas úlceras, tendo perdido a visão
ou sentindo dores oculares terríveis. Há de ser possível remover a córnea
danificada e substituí-la pela transparente criada, mas isso levará algum tempo,
no dizer do cientista.
Outra
vantagem inegável é não depender de doações: “Muitos desses pacientes com
patologias corneanas graves só podem ser tratados por meio de transplante.
Embora o transplante convencional ofereça, geralmente, bons resultados, é
necessário desenvolver novos métodos eficazes de regeneração que não
dependam da doação de órgãos, que está sujeita a listas de espera”, observa o investigador.
Miguel
Alaminos relata que, há um ano, também analisaram a lula, mas os resultados não
foram melhores do que os oferecidos pela córnea artificial e não prosseguiram
com essa linha de investigação. Admite que será útil para outros produtos, como
cartilagem, mas não para córneas. Agora, tentam aprimorar a córnea, incluindo
fatores de crescimento, fatores bioativos encontrados no azeite de oliva,
que, segundo descobriram, fazem as células proliferarem mais e se diferenciarem
melhor. Tentam criar tecidos artificiais com esses produtos à base de azeite de
oliva e aprimoram produtos com nanopartículas que podem conter fatores
biológicos, fatores de crescimento, antibióticos, etc. – coisas de que o
paciente precise. Enfim, aprimoram os produtos que fabricam, para benefício dos
pacientes que os receberem, no futuro.
Por
último, como dizem os investigadores, embora sejam necessários ensaios em
humanos, antes de as córneas poderem ser usadas clinicamente, a inovação
representa um passo promissor rumo a tratamentos “acessíveis e económicos”,
para pacientes, em todo o Mundo, potencialmente aliviando a escassez global de
tecido doador. Com efeito, esta opção não carece de doador, só bastando que
haja peixes para pescar e que a União Europeia (UE) não imponha quotas de pesca
para fins clínicos.
***
Trata-se
de mais um avanço na oftalmologia e na cirurgia oftálmica.
É
de lembrar que, em outubro de 2023, era notícia a criação do primeiro Banco de
Córneas de Cultura, no Centro Hospitalar de Santo António, no Porto, a respeito
do qual o então ministro da Saúde, Manuel Pizarro, no dia da inauguração, a 13
daquele mês, dizia que aquele investimento do Serviço Nacional de Saúde (SNS)
era iniciativa que criava “valor, para as pessoas”, permitindo “fazer mais
transplantes de córnea e reduzir o tempo de espera para a intervenção”. E salientava
o “elevado humanismo” da nova resposta, considerando que tudo era feito “em
nome das pessoas”, sendo o Banco de Córneas do Santo António “exemplo perfeito”
de como “o SNS cumpre o desiderato humanista e essencial de democratizar o
acesso à inovação tecnológica e científica, na área da Saúde”.
A
criação do Banco de Córneas de Cultura – resultante da cooperação entre o
Serviço de Oftalmologia, o Serviço de Anatomia Patológica (técnicos de
citopatologia), o Centro Materno-Infantil Albino Aroso (biólogos do Banco de
Gâmetas), o Centro de Transplantação e o Departamento da Qualidade – abriu
caminho à duplicação do número de doentes transplantados, robustecendo o
programa e permitindo a oferta de córneas a outros hospitais. O processamento
laboratorial da córnea, em meio de cultura, ultrapassando a conservação a frio,
permite alargar os critérios de colheita, o prazo de validade e a qualidade dos
tecidos colhidos.
A
escassez de tecidos, já então apontada, é o passo limitante do processo de
transplantação de córneas. Até àquela data, o Santo António obtinha 150 a 200
córneas, por ano, aquém das potencialidades do programa de transplantação. Ora,
é necessário, como sustentava Manuel Pizarro, “cooperar em rede, partilhar os
recursos”, pois, “os cidadãos pedem serviços de qualidade”, mas “exigem
rentabilização dos serviços e dos recursos públicos existentes”. Por exemplo, sublinhava o governante, os
centros hospitalares de São João e de Santo António partilham a urgência de
oftalmologia, aplaudindo o aumento da capacidade de obter córneas,
possibilitando partilha de tecidos entre hospitais e evitando importação
estrangeira.
Neste
contexto, o então ministro da Saúde agradeceu “a dedicação e empenho dos
profissionais”, destacando que o novo Banco foi “uma iniciativa dos
profissionais do Santo António, que mobilizaram a sua energia, em prol da
dignidade das pessoas”.
Como
a córnea é, no olho, a estrutura transparente que está à frente da íris, o
desafio é devolver transparência, quando há patologia que põe em causa a
passagem de luz. O Hospital de Santo António fez o primeiro transplante de
córnea, em 1958, e foram, até 1980, efetuados 198, o que representava uma média
de nove, por ano. Em 1980, o hospital criou o Banco de Olhos para córneas
refrigeradas, o que permitiu a conservação das córneas, por alguns dias,
possibilitando atividade mais regular. Com o banco de cultura, o número de
potenciais dadores aumenta, bem como o tempo de preservação. A preservação vai
até um mês, em vez de uma semana ou duas. Isto porque a preservação a frio
permite a utilização das córneas até ao máximo de 14 dias, tratando-se de um
método com outras limitações, porque exclui os dadores acima dos 80 anos de
idade e as vítimas de septicemia. Já o “Banco de Córneas de Cultura” permite o
processamento laboratorial em meio biológico, ultrapassando a conservação a
frio, alargando os critérios de colheita, além do prazo de validade e a
qualidade dos tecidos colhidos.
***
Nesta
matéria, os países ibéricos são pioneiros.
2026.03.12
– Louro de Carvalho