quarta-feira, 1 de julho de 2026

Aranha-reclusa-do-Chile detetada na cidade portuguesa do Porto

 

Foi detetada, no Porto, uma espécie de aranha venenosa originária da América do Sul, tornando-se o primeiro registo confirmado da aranha-reclusa-do-Chile na Península Ibérica, marcando o terceiro registo confirmado na Europa. Os investigadores garantem que, apesar da descoberta, não há motivo para alarme, visto que se trata de uma espécie discreta, pouco agressiva e com baixa probabilidade de contacto com a população.

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De acordo com a “Wikipédia – a Enciclopédia livre” a Loxosceles reclusa (ou Loxosceles laeta), conhecida como como aranha-violinista ou aranha-reclusa-castanha, é uma espécie de aranha araneomorfa (subordem da classe Arachnida: das aranhas comuns e peçonhentas) da família Sicariidae, capaz de infligir mordeduras venenosas proteolíticas, de significativas consequências para o ser humano.

Este aracnídeo pode apresentar entre seis e 20 mm (milímetros) de comprimento, raramente maior, com coloração entre o castanho-claro e o bege, mas podendo apresentar tons de castanho mais escuro. Distingue-se, ainda, pelas pernas finas e pela epónima mancha em forma de violino no cefalotórax.

A aranha-reclusa-castanha é uma espécie insetívora, que costuma alimentar-se à noite. Ao invés das outras espécies de aranhas, que se servem de venenos de ação neurotóxica, a aranha-reclusa-castanha injeta as presas com veneno de ação hemolítica.

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A espécie tem distribuição natural ampla na parte Leste da América do Norte, desde o Norte do México até à Nova Inglaterra, em habitats abrigados e húmidos, sobretudo, entre pedras, madeira ou lenhas deixadas no exterior ou em recantos húmidos e escuros de edifícios.

O Jornal de Notícias (JN) online, a 1 de julho, refere que a primeira ocorrência desta espécie, na Península Ibérica, foi documentada num estudo da Universidade do Porto (UP), publicado em maio deste ano e divulgado, agora, na Imprensa, levado a cabo pelos biólogos Francisco Gil e José Manuel Grosso-Silva.

José Manuel Grosso-Silva, entomólogo (biólogo especializado no estudo dos insetos) do Museu de História Natural e da Ciência da UP, garantiu, em entrevista à Euronews, que, devido ao comportamento desta espécie, não há razões para alarme. “A probabilidade de as pessoas se cruzarem com esta espécie ou serem mordidas por ela é reduzida”, explicou.

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Sob o título “Há uma nova espécie de aranha venenosa em Portugal”, a jornalista Ana Filipa Palma, também a 1 de julho, releva que “a descoberta da aranha-reclusa-chilena (Loxosceles laeta), no Porto, marca o primeiro registo desta espécie venenosa na Península Ibérica. Apesar da sua mordida poder provocar lesões graves na pele, os investigadores garantem que o risco para a população é reduzido. devido ao comportamento discreto”. “Uma nova espécie de aranha venenosa, a aranha-reclusa-chilena, cientificamente conhecida como Loxosceles laeta, foi descoberta na cidade do Porto, no norte de Portugal”, resume.

A peça jornalística de Ana Filipa Palma dá conta da referida entrevista à Euronews do já referido cientista José Manuel Grosso-Silva, entomólogo do Museu de História Natural e da Ciência da UP e um dos investigadores responsáveis pela descoberta. “Trata-se de uma espécie tímida e pouco propensa a morder, mas a sua mordida pode causar danos consideráveis na pele, resultando, frequentemente, em lesões cutâneas necróticas”, descreve o estudo realizado pelos biólogos Francisco Gil e José Manuel Grosso-Silva, sobre a descoberta da primeira ocorrência desta espécie na Península Ibérica.

Dizem os especialistas que a aranha-reclusa-chilena, laeta, é nativa da região ocidental da América do Sul, sendo encontrada, habitualmente, em países como o Brasil e a Argentina. Porém, tem conseguido expandir-se para regiões distantes do seu habitat de origem, impulsionada pelas trocas comerciais internacionais. A primeira descoberta, no país, foi casual, conta o biólogo, e ocorreu a 10 de setembro de 2025, quando um macho foi encontrado numa parede no Campo dos Mártires da Pátria, no Porto.

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O Campo dos Mártires da Pátria, antigo Largo do Olival, no Porto, mudou de nome em homenagem aos doze “Mártires da Liberdade” que foram enforcados por ordem dos tribunais miguelistas, em 1829, e entre os quais se destaca António Bernardo de Brito e Cunha (1781-1829).
Ali foi erigido por iniciativa do povo anónimo e à custa de donativos particulares, como explica Germano Silva, “um monumento fúnebre evocativo dos trágicos acontecimentos da Praça Nova, constituído por uma coluna sobre a qual foi colocada uma figura representando a cidade. Desapareceu já esse singelo monumento que pretendia tão somente representar o triunfo da virtude sobre a tirania”.

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A segunda descoberta, também de um macho, ocorreu a 10 de janeiro de 2026, tendo o exemplar sido recolhido já morto, numa armadilha adesiva que não lhe era destinada. “Apesar da descoberta desta nova espécie, outra aranha venenosa da mesma família habita Portugal, há várias décadas, e apresenta uma distribuição alargada. Trata-se da Loxosceles rufescens, ou aranha-reclusa-do-mediterrâneo, originária da América do Norte e presente na Europa, há mais de 200 anos”, dizem os dois especialistas.

“Não sabemos se esta nova espécie existe apenas aqui no Porto ou se já está mais dispersa. Como a aranha-reclusa-chilena se pode confundir, facilmente, com a aranha-reclusa-do-mediterrâneo, é possível que existam registos fotográficos identificados como sendo desta última que, na realidade, correspondam à nova espécie”, diz o biólogo José Grosso-Silva.

Observa a jornalista, escudada nas declarações do investigador, que a principal diferença entre as duas espécies se encontra nos pedipalpos dos machos, apêndices articulados localizados na parte frontal do corpo das aranhas machos, que desempenham funções sensoriais e reprodutivas, servindo para transferir o esperma para a fêmea, durante o acasalamento. Ao nível da morfologia e do comportamento, são muito semelhantes. “São castanhas uniformes, não têm aquelas cores que lhes permitem camuflar-se na vegetação e não fazem as teias que, normalmente, vemos nas plantas, para apanhar insetos. Constroem teias em paredes, cantos e locais mais escondidos e sombrios, sendo mais ativas durante a noite”, explica o entomólogo.

Há diferentes níveis de gravidade, desde casos ligeiros até casos graves, incluindo alguns fatais, na sequência da mordida deste tipo de aranhas. “O risco existe, mas parece-me reduzido, pelo que tento não contribuir para o pânico ou alarme excessivo”, reforça o biólogo.

A jornalista recorda que, em 2023, Portugal registou um caso de loxoscelismo, síndrome causada pelo veneno da aranha, provocado pela mordida da Loxosceles rufescens, ou aranha-reclusa-do-mediterrâneo. Com efeito, a revista SPMI Case Reports, publicação científica digital da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, divulgou o caso de uma mulher de 48 anos que foi mordida por esta espécie, enquanto se encontrava num parque urbano.

Após a mordida na nuca, a mulher apresentou um inchaço, sem dor imediata. Porém, nas 24 horas subsequentes, agravaram-se os sintomas, com aumento das dores de cabeça, mal-estar, sensação de febre, cansaço e o surgimento de necrose com eritema na zona da lesão. Depois, verificou-se descamação da pele noutras zonas do corpo, nomeadamente, em redor dos olhos, na região dos glúteos, nas coxas, nos lábios e na mucosa oral.  Daí resultou que a paciente teve de ser internada, vindo a ter alta hospitalar, 16 dias depois, sem apresentar sintomas.

Ana Filipa Palma refere que estão estabelecidas, em Portugal, mais de 300 espécies de insetos oriundas de várias regiões do Mundo, muitas delas introduzidas pelo ser humano, devido ao aumento do transporte de mercadorias. “Estamos, cada vez mais, a alterar o ambiente que nos rodeia. Introduzimos, propositadamente, muitas plantas que, muitas vezes, trazem consigo insetos que não pretendíamos”, observa o entrevistado.

O biólogo recorda o caso da vespa asiática, introduzida na Europa, através de França, num transporte de bonsais chineses, e que, também “através do urbanismo e das monoculturas, como os eucaliptos, que ocupam áreas enormes, mas também de culturas extensivas, como o milho, têm-se reduzido os habitats naturais”, o que contribui para a alteração dos ecossistemas e favorece o aparecimento de novas espécies. O aumento das temperaturas à escala global, com a Europa a aquecer a ritmo acelerado, pode favorecer a reprodução e a expansão destas espécies exóticas. “Não sabemos como evoluirá cá, na Península Ibérica, isso é uma situação para acompanhar nos próximos anos”, alerta José Manuel Grosso-Silva.

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Como dissemos, além de esta descoberta constituir o primeiro registo desta aranha na Península Ibérica, trata-se do terceiro na Europa. Na verdade, o primeiro registo europeu desta espécie data de 1972, num edifício dos Departamentos de Zoologia e Genética da Universidade de Helsínquia, na Finlândia.

Acredita-se que a espécie tenha sido transportada pelo ser humano e se tenha instalado no interior do edifício, para beneficiar das temperaturas mais elevadas, uma vez que, dificilmente, sobreviveria ao clima exterior da Finlândia.

Em 2025, a Universidade Eberhard Karl de Tübingen, na Alemanha, também identificou um exemplar desta espécie, na cave da instituição. E há referências à sua possível presença na Itália. Contudo, o sítio onde tal informação foi originalmente publicada já não se encontra disponível e, por isso, esse registo permanece por confirmar.

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Também no mesmo dia 1 de julho, Francisco Laranjeira, no “Executive digest”, faz referência à

a Loxosceles laeta, conhecida como aranha-reclusa-do-Chile e que foi identificada por investigadores ligados ao Museu de História Natural e da Ciência da UP, correspondendo ao primeiro registo desta espécie, em Portugal e em toda a Península Ibérica.

Salienta, fazendo-se eco da asserção do biólogo, que a probabilidade de as pessoas se cruzarem com esta aranha é reduzida, pois a espécie tem hábitos reservados: é, sobretudo, noturna e tende a esconder-se em locais escuros e pouco expostos. Apesar de ser pouco inclinada a morder, o seu veneno pode causar lesões significativas cutâneas, incluindo necrose.  

Observa que a aranha-reclusa-do-Chile é nativa da região ocidental da América do Sul e que a sua presença longe do habitat original tem sido associada ao comércio internacional e ao transporte acidental de mercadorias. E diz que os investigadores não sabem se a espécie está limitada à cidade do Porto ou se já se está mais disseminada, pois, uma das dificuldades está na semelhança com outra aranha venenosa da mesma espécie, a Loxosceles rufescens, conhecida como aranha-reclusa-mediterrânica, existente em Portugal, há várias décadas, e amplamente distribuída. A distinção entre ambas passa, sobretudo, pela análise dos pedipalpos dos machos, apêndices da parte frontal do corpo das aranhas e usados em funções sensoriais e reprodutivas. Visualmente, as duas espécies são muito semelhantes. Têm coloração castanha uniforme, não apresentam padrões vistosos e não constroem as teias visíveis em plantas para capturar insetos.

O risco para a população é o baixo, mas não inexistente. As mordeduras destas aranhas podem causar quadros de gravidade variável, desde lesões ligeiras até situações mais graves. Em casos raros, podem ocorrer complicações sistémicas.

Francisco Laranjeira também refere que Portugal já tinha registado um caso de loxoscelismo em 2023, síndrome causada pelo veneno destas aranhas, associado à Loxosceles rufescens, para o que citou o caso, publicado na ‘SPMI Case Reports’, acima descrito.

Por fim, sustenta que a descoberta no Porto se insere num fenómeno mais amplo: a chegada e fixação de espécies exóticas a Portugal, com o aumento do transporte internacional de mercadorias, com a introdução de plantas ornamentais, com o incremento da urbanização, com a alteração de habitats e até com as temperaturas mais elevadas, que podem favorecer a dispersão de espécies que antes dificilmente sobreviveriam fora das suas regiões de origem. E refere que, entre as mais de 300 espécies de insetos de várias regiões do Mundo estabelecidas em Portugal, muitas introduzidas, involuntariamente, através da atividade humana, a vespa-asiática é um dos exemplos mais conhecidos de uma espécie que chegou à Europa por transporte acidental e que acabou por se expandir.

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No entanto, as aranhas são vitais para a saúde do planeta.

Insetos e aracnídeos – aranhas, escorpiões e opiliões das patas longas – “raramente recebem a mesma atenção que animais carismáticos populares, como leões e pandas”, diz Laura Figueroa, professora de conservação ambiental na Universidade de Massachusetts Amherst, nos Estados Unidos da América (EUA). Todavia, em 2017, parecia que esta tendência se estava a inverter. Um estudo publicado na revista científica “PLOS One” revelou a redução de 75% na biomassa de insetos voadores, em 27 anos, em 63 reservas naturais, na Alemanha.

A notícia de iminente apocalipse dos insetos fez manchetes no Mundo, desencadeou estudos semelhantes e impulsionou programas de monitorização e iniciativas de proteção destes animais. A partir do alarme causado por estes declínios, Figueroa e o seu estudante de pós-graduação, Wes Walsh, passaram a avaliar o estado de insetos e aracnídeos na América do Norte, com resultados preocupantes, tendo ficado surpreendidos pela falta de informação disponível e por 88,5% das espécies de insetos e aracnídeos não ter “qualquer estatuto de conservação”.

Entre as poucas salvaguardas, as borboletas e as libélulas recebem fatia desproporcionada da atenção, tal como espécies aquáticas importantes para a monitorização da qualidade da água, como as efémeras, as moscas-de-pedra e as frigâneas. “Os aracnídeos, em particular, estão praticamente ausentes das políticas de conservação; a maioria dos estados nem sequer protege uma única espécie”, observa Walsh.

As aranhas, são muitas vezes, demonizadas como predadores, mas só uma fração mínima das espécies é, realmente, perigosa para os humanos; as suas capacidades de caça são inestimáveis para controlar populações de insetos, pois mantêm sob controlo moscas, mosquitos, pulgões e outras pragas agrícolas; como presas, fornecem relevante fonte de alimento para aves, lagartos e outros predadores, fazendo a energia subir na cadeia alimentar.

A sua presença é indicador precoce fundamental da saúde dos ecossistemas: ajudam na polinização e no controlo biológico de pragas; servem de monitores da qualidade do ar e da água, pelo estão enraizados em muitas culturas, em todo o Mundo. “Insetos e aracnídeos são mais do que objetos de medo. […] Precisamos de os valorizar pela sua importância ecológica, e isso começa por recolher mais dados e por considerá-los dignos de conservação, defende Walsh.

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Não se pode julgar pelas aparências; e o medo, o asco ou o risco não podem impedir a beneficiação que estes bichinhos oferecem aos ecossistemas. Todavia, convém prevenir e tratar as lesões.  

2026.07.01 – Louro de carvalho

terça-feira, 30 de junho de 2026

Grande parte do salário é para contribuições e impostos

 

Terminou, a 30 de junho, o prazo para a entrega da declaração do imposto sobre o rendimento das pessoas singulares (IRS), que decorre, anualmente, entre 1 de abril e 30 de junho – obrigação declarativa que se aplica a todos os contribuintes, independentemente do tipo de rendimento, mas não do volume de rendimento, uma vez que se trata de imposto proporcional e progressivo, em conformidade com escalonamento definido por lei.

Se o prazo limite for ultrapassado, é aconselhável regularizar a situação, o mais rapidamente possível, para minimizar potenciais coimas, que podem ser aplicadas por entrega fora de prazo.

Falar de IRS é abordar uma obrigação contributiva que incide sobre o rendimento, nomeadamente, o rendimento do trabalho materializado em salário ou em pensão em regime contributivo (que se reporta à compensação pelo trabalho no passado). A par deste desconto sobre o rendimento, é de referir a conveniente contribuição mensal para a Segurança Social, seja pelo sistema estatal, seja por regimes privados, como os planos de poupança para a reforma, os complementos de reforma ou a Caixa de Previdência dos Advogados e Solicitadores (CPAS).

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A este respeito, parece-me oportuna a leitura de um artigo do jornalista Servet Yanatma intitulado “Europa: em que países os trabalhadores retêm mais do seu salário?”, publicado a 29 de junho, pela Euronews, sustentando que “a percentagem dos rendimentos absorvida por impostos e [por] outras retenções varia muito na Europa” e lança a pertinente questão: “Afinal, quanto é que os trabalhadores retêm?”

E não é só a variação dos sistemas de imposto sobre o rendimento das pessoas singulares e de segurança social que está em causa. Também o está “o peso global sobre a remuneração dos trabalhadores”, para os quais “o mais importante é saber quanto do salário conseguem, efetivamente, levar para casa, depois de impostos e deduções obrigatórias”.

Para responder a tal preocupação dos trabalhadores, a Euronews Business, com base em dados do Eurostat para calcular o rendimento anual líquido como percentagem do salário bruto e para obter um rácio de rendimento disponível, “calculou a parte do salário bruto [ou ilíquido] que é absorvida por impostos e [por] outras deduções.

Há casos de resultado negativo. Tal acontece, quando os trabalhadores arrecadam mais do que o salário ilíquido, graças a abonos de família e a reembolsos fiscais. No caso dos trabalhadores por conta de outrem e dos pensionistas, a entidade patronal ou pagadora retém na fonte a percentagem do IRS e a da contribuição para a Segurança Social (nos casos em que há lugar a tal contribuição). Por outro lado, a percentagem destinada a impostos e deduções também varia consoante o estado civil e a existência ou não de filhos a cargo.

Segundo os dados de 2025 do Eurostat, a parcela do salário ilíquido destinada a impostos e a outras deduções varia bastante pelo continente. Para uma pessoa solteira sem filhos a auferir o salário médio, vai de 15,1 %, em Chipre, a 41,5 %, na Roménia. A média da União Europeia (UE) é de 29,1 %. Em Portugal, é de 21,8%. Para um casal em que só um dos cônjuges trabalhe e que tenha a cargo duas crianças, a parcela vai de -3,3%, na Grécia, a 33,4%, na Roménia. A média da UE é de 8,0 %. Em Portugal, é de 5,7%. Para um casal em que os dois cônjuges trabalhem e que tenha a cargo duas crianças, a parcela vai de 13,5 %, em Chipre, a 38,3 %, na Roménia. A média da UE é de 22,6 %. Em Portugal, é de 18,1%.

Na UE, o salário ilíquido médio anual é de 37958 euros, enquanto o rendimento líquido é de 26929 euros. Assim, 11029 euros são canalizados para impostos e para outras deduções.

Além da Roménia (41,5%), há mais seis países em que mais de um terço do salário ilíquido é absorvido por impostos e por outras deduções, no caso de uma pessoa solteira sem filhos a auferir o salário médio: a Lituânia (39,1 %), a Bélgica (37,6 %), a Eslovénia (36,9 %), a Alemanha (34,8 %), a Dinamarca (34,0 %) e a Hungria (33,5 %). A percentagem também fica acima da média da UE no Luxemburgo (32,6 %) e na Croácia (31,5 %).

No extremo oposto, a Grécia (17,0 %) surge logo a seguir a Chipre, com menos de um quinto do salário ilíquido a ser destinado a impostos e a outras deduções.

Só na Roménia (33,4%), o casal em que só um dos cônjuges trabalhe e que tenha a cargo duas crianças, vê mais de um terço do salário ilíquido absorvido por impostos e por outras deduções. A percentagem também fica acima da média da UE em 17 países: a Lituânia (23,8%), a Hungria (23,2%), a Eslovénia (23,1%), a Finlândia (22,2%), a Dinamarca (21,0%), a Suécia (18,3%), a Croácia (16,9%), a Estónia (15,9%), a Bélgica (14,8%), os Países Baixos (14,5%), a Letónia (14,5%), a Bulgária (13,8%), a Espanha (12,0%), a Eslováquia (11,8%), Chipre (10,3%), a Chéquia (10,1%) e a Irlanda (8,7%). Há três países – a Roménia (38,3%), a Lituânia (34,3%) e a Eslovénia (33,6%) – em que o casal em que os dois cônjuges trabalhem e que tenha a cargo duas crianças vê mais de um terço do salário ilíquido absorvido por impostos e por outras deduções. A percentagem também fica acima da média da UE em sete países: a Dinamarca (32,2%), a Bélgica (31,7%), a Hungria (28,4%), a Croácia (27,7%), o Luxemburgo (26,6%), a Alemanha (26,2%) e a Finlândia (24,8%).

Tomando por base o desconto de pessoa solteira sem filhos a auferir o salário médio, é de referir que vários países se situam entre 22 % e 25 %: Assim, a Chéquia (21,6 %), a Irlanda (21,6 %), Portugal (21,8 %), a Espanha (22,1 %), a Bulgária (22,4 %), Malta (23,1 %), a Estónia (23,2 %), a Itália (24,1 %), a Suécia (24,5 %) e a Eslováquia (24,6 %) registam percentagens inferiores a um quarto. Entre as quatro maiores economias da UE, a Alemanha apresenta a maior parcela do salário ilíquido destinada a impostos e a outras deduções, com 34,8 %, enquanto a Espanha tem a mais baixa, com 22,1 %. Na França, o valor é de 26,2 % e, na Itália, de 24,1 %.

Como aponta Servet Yanatma, de forma geral, os países do Sul da Europa tendem a registar percentagens mais baixas do salário ilíquido destinadas a impostos e a outras deduções, enquanto valores mais elevados são mais comuns na Europa Central e de Leste. A Europa Ocidental mostra um quadro mais misto, embora a Bélgica e a Alemanha surjam entre os países com valores mais altos. Os países nórdicos e bálticos também apresentam variação considerável, o que sugere que a geografia, por si só, não explica as diferenças.

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Ter filhos a cargo pode reduzir, de forma significativa, a parcela do salário ilíquido destinada a impostos e a outras deduções, sobretudo, no caso de casais com apenas um rendimento. Para este tipo de agregado, a percentagem varia de -3,3 %, na Grécia a 33,4 %, na Roménia.

O valor também é negativo na Polónia (-0,6 %), o que significa que o rendimento líquido supera o salário ilíquido, graças a abonos de família e a reembolsos fiscais.

A média da UE desce para 8,0 %, face aos 29,1 % de uma pessoa solteira sem filhos.

A Roménia destaca-se no topo da tabela. A segunda percentagem mais elevada é de 23,8 % na Lituânia, quase 10% abaixo. À exceção destes dois países, a percentagem só ultrapassa 20 % na Hungria, na Eslovénia, na Finlândia e na Dinamarca.

Comparando uma pessoa solteira sem filhos com um casal com um único rendimento e dois filhos, a Alemanha é o caso mais extremo. A parcela do salário ilíquido destinada a impostos e outras deduções desce de 34,8 % para apenas 0,2 %, uma queda de 34,6%.

Em ambos os casos, o salário bruto anual é de 47514 euros. No entanto, um casal com um único rendimento e dois filhos leva para casa 47424 euros, face a 31 mil euros, no caso de uma pessoa solteira sem filhos, uma diferença de 16424 euros.

Para casais com dois rendimentos e dois filhos, a parcela destinada a impostos e outras deduções é inferior à de pessoa solteira sem filhos em todos os países da UE, exceto na Grécia.

A Polónia surge entre os países com a maior diferença, de 11,5%. Na Grécia, pelo contrário, a parcela do salário ilíquido destinada a impostos e outras deduções é idêntica nos dois cenários.

Alex Mengden, economista na Tax Foundation, chama a atenção para as diferenças na forma como os países europeus tributam o trabalho e defende que o peso global é mais importante do que o imposto sobre o rendimento por si só.

Por exemplo, como observa o economista, “a carga fiscal sobre o trabalho, na Dinamarca, fica abaixo da Polónia”. Contudo, a Dinamarca surge no topo da classificação, porque “a tributação do trabalho assenta, quase exclusivamente, no imposto sobre o rendimento, enquanto, na Polónia, as contribuições sociais retiram quase 2,5 vezes mais do que o imposto sobre o rendimento ao que um empregador paga a um trabalhador com salário médio, o que coloca o país no fundo da tabela”.

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Também, como se viu, os rendimentos líquidos anuais dos trabalhadores variam muito na Europa, de menos de 13 mil a mais de 54 mil euros (€).

Segundo o Eurostat, o trabalhador que ganha o salário médio arrecada mais de quatro vezes mais no Luxemburgo do que na Hungria. Os rendimentos anuais líquidos do trabalhador isolado (solteiro ou em estado equivalente) sem filhos, que traduzem o que arrecada, variam entre 12,967€, na Hungria, e 54,260€, no Luxemburgo, evidenciando as grandes diferenças de rendimento líquido na Europa. A classificação revela significativo fosso entre países, com uma diferença considerável, embora esta diminua um pouco, ao ser ajustada ao poder de compra.

Esta diferença resulta da combinação de níveis salariais, sistemas fiscais, contribuições para a segurança social e regimes de prestações familiares. Países com salários mais elevados nem sempre ocupam os primeiros lugares, no atinente aos impostos e ao custo de vida. Os rendimentos líquidos medem o que os trabalhadores arrecadam, depois de deduzido o imposto sobre o rendimento e as contribuições para a segurança social. No caso dos agregados com filhos, incluem também as prestações familiares.

Em 2025, segundo o Eurostat, os rendimentos anuais líquidos de pessoa solteira sem filhos que aufere o salário médio situavam-se nos 26,929€, na UE. Ora, como os rendimentos líquidos variam conforme a situação familiar e o número de filhos a cargo, há outros cenários.

Entre os países da UE que ocupam o topo da tabela, só o Luxemburgo ultrapassa os 50 mil euros e só dois países registam que uma pessoa solteira ganhe mais de 40 mil euros líquidos, por ano: a Irlanda (44,263€) e a Dinamarca (41,981€). Outros países acima da média da UE, de 26,929€ também superam os 30 mil euros: os Países Baixos (36,837€), a Bélgica (34,642€), a Suécia (34,624€), a Finlândia (33,641€), a Alemanha (31 mil euros) e a França (30,832€).

Embora a Alemanha e a França fiquem acima da média europeia, a Espanha e a Itália surgem abaixo. Uma pessoa solteira, na Alemanha ou na França, ganha, pelo menos, mais cinco mil euros do que os seus homólogos da Espanha e da Itália, onde o rendimento anual líquido é de 25,263€ e de 24,471€, respetivamente.

Em dez países da UE, o rendimento anual líquido é inferior a 20 mil euros: a Hungria (12,967€), a Roménia (13,233€), a Grécia (15,050€), a Eslováquia (15,686€) e a Polónia (16,163€) formam o grupo com valores mais baixos; a Letónia (16,793€), a Croácia (17,256€), a Lituânia (18,650€), a Chéquia (19,569€) e Portugal (19,709€) oferecem rendimentos relativamente mais elevados, embora a diferença não seja grande. E também a Estónia (20,045€), a Eslovénia (22,503€), Chipre (23,524€) e Malta (25,544€) estão entre os 20 mil euros e a média da UE.

A Bulgária tinha os rendimentos líquidos mais baixos da UE, em 2024, mas a Euronews Business excluiu o país, aguardando confirmação do Eurostat, devido ao aumento invulgarmente acentuado nos dados atualizados.

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Tendo em conta o custo de vida, o quadro altera-se de forma significativa. Os trabalhadores em países como a Roménia e a Polónia levam para casa menos euros do que os seus homólogos na Europa Ocidental, mas os preços mais baixos fazem com que o seu rendimento renda mais, a nível interno. Nestes termos, o fosso entre quem ganha mais e quem ganha menos, na Europa, é muito menor do que parece à primeira vista. Enquanto o rendimento líquido no país mais bem posicionado é 4,2 vezes superior ao do último em termos nominais, a diferença cai para 2,3 vezes, quando ajustada ao poder de compra.

Em termos de Padrão de Poder de Compra (PPS) – medida paralela à que se faz em euros e sua complementar –, a média da UE situa-se nos 26,346€, variando entre 17,509€, na Grécia e 40,846€, no Luxemburgo. Entre as quatro maiores economias da UE, a Alemanha regista o rendimento líquido mais elevado, com 28,536€, seguida da Espanha (27,794€), e não de França (27,724€), que surge em segundo lugar, em termos de euros, embora a diferença seja mínima. E a Itália (25,095€) continua abaixo da média da UE.

Alguns países sobem, de forma notória, na tabela, em PPS. A Roménia passa de segunda mais baixa para meio da tabela, ultrapassando vários países. A Polónia fica acima da Estónia, da Letónia e da Lituânia. A Espanha ultrapassa França e reduz, significativamente, a diferença para a Alemanha. Em contraponto, alguns países descem, claramente, na classificação em PPS. A Grécia cai para o valor mais baixo da UE, ficando abaixo da Hungria. E a Dinamarca recua também, atrás da Irlanda, da Áustria e dos Países Baixos.

Surgem tendências regionais em ambas as medidas (euros e PPS). Os países da Europa Ocidental dominam, em termos de euros e de PPS, embora a Dinamarca perca terreno, em PPS. Países da Europa de Leste, como a Roménia, a Polónia e a Croácia, ganham posições na tabela, em PPS, já que o custo de vida mais baixo compensa, parcialmente, os salários nominais inferiores. Isto contribui para reduzir o fosso entre Leste e Oeste.

Os números acima referem-se a uma pessoa solteira sem filhos. Quando há filhos a cargo, os rendimentos líquidos e as classificações mudam de forma significativa em alguns países que concedem abonos de família generosos. Estes podem assumir a forma de reduções no imposto sobre o rendimento ou de transferências, em numerário, pagas por cada filho a cargo.

Comparando uma pessoa solteira sem filhos com um casal com só um dos membros a trabalhar e dois filhos, a Alemanha surge como o país mais generoso. Os rendimentos líquidos do casal com um só salário e dois filhos são 53% superiores, passando de 31 mil euros para 47,424€.

A Polónia (39%), a Bélgica (37%) e a Áustria (33%) destacam-se também por um apoio familiar bastante forte. Entre as maiores economias, a Espanha apresenta a menor diferença, de apenas 13%, enquanto a França fica nos 26% e a Itália nos 25%. Chipre (6%) e dois países nórdicos – a Finlândia (7%) e a Suécia (8%) – surgem no fim da tabela, mas isto não quer dizer que as famílias com filhos não recebam apoio, que pode ser prestado com outros mecanismos.

 

A estatística reza assim. Fica por saber o que realmente se passa com as famílias, pois, além de impostos e de contribuições, há outros encargos: saúde, educação, e apoio à infância, aos idosos e no desemprego. A vida é a tarefa de todos os dias calejada pelo tempo.

2026.06.30 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Os apóstolos Pedro e Paulo, as grandes referências da Igreja

 

A 29 de junho, celebrou-se a Solenidade de S. Pedro e de S. Paulo, apóstolos que chegaram a Jesus por vias diferentes: Pedro, pescador, recebeu o chamamento de Jesus nas margens do Mar da Galileia; Paulo, rabi judeu, encontrou Jesus no caminho de Damasco. Ambos apostaram tudo em Jesus e seguiram-No até ao martírio (em Roma, na perseguição do imperador Nero). Pedro e Paulo, cada um a seu jeito, são duas grandes referências para os cristãos. A liturgia da solenidade desafia-nos a seguir o seu exemplo de fidelidade a Jesus e ao Evangelho.

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A primeira leitura (At 12,1-11) mostra como Deus cauciona o testemunho dos discípulos e cuida deles, quando o Mundo os condena. A misteriosa libertação de Pedro da prisão mostra a solicitude de Deus pela sua Igreja e pelos discípulos que testemunham a Boa Nova.

Nos Atos dos Apóstolos, Lucas propôs-se narrar a aventura missionária que levou o Evangelho desde Jerusalém até Roma, o coração do império, sendo os discípulos, guiados pelo Espírito Santo, as testemunhas de Jesus e do desígnio do Pai.

O trecho em referência encerra a primeira parte do livro – a História da expansão do cristianismo dentro da Palestina, tendo já o Evangelho sido levado à Samaria e a toda a faixa costeira da Palestina, incluindo Ashdod, Cesareia Marítima, Lida e Jope.

Por esta altura (cerca do ano 42) Herodes Agripa I, neto de Herodes, o Grande, refizera o reino do seu avô. No ano 37, o imperador Calígula deu-lhe o título de rei e confiou-lhe os antigos territórios da tetrarquia de Herodes Filipe (a Itureia, a Traconítide, a Bataneia, a Gaulanítide e a Auranítide). No ano 40, o mesmo imperador adicionou ao reino de Herodes Agripa a antiga tetrarquia de Herodes Antipas (a Galileia e a Pereia); E, no ano 41, o imperador Cláudio (sucessor de Calígula) pôs a Samaria e a Judeia sob a autoridade de Herodes Agripa, que reinou até ao ano 44, altura em que morreu, de súbito, em Cesareia, numa cerimónia pública.

Herodes Agripa I teve sempre boas relações com os líderes judaicos. Observava as prescrições da Lei de Moisés, cumpria os rituais de purificação dos judeus e oferecia, diariamente, os sacrifícios prescritos no templo de Jerusalém. Porém, fazia-o mais por cálculo político do que por convicção, pois, fora do território judaico vivia ao modo helénico. E foi para agradar aos líderes judaicos que Herodes Antipas mandou matar, à espada, o apóstolo Tiago, filho de Zebedeu, irmão de João. Ora, Tiago era figura proeminente da comunidade cristã de Jerusalém. Jesus tinha-lhe predito que beberia o mesmo cálice que Jesus, isto é, partilharia o destino de Jesus.

Após a morte/ressurreição/exaltação de Jesus, os discípulos passaram a arautos da salvação que Deus ofereceu aos homens, através do seu Filho. À questão como é que o Mundo – que rejeitou Jesus e o crucificou numa colina fora das muralhas de Jerusalém – acolherá o testemunho dos discípulos, o hagiógrafo responde com factos concretos. Depois de contar, de passagem, a morte de Tiago, refere que Pedro foi preso à ordem de Herodes Agripa I, cujo plano seria condenar Pedro à morte, para assegurar o aplauso dos líderes judaicos. Porém, como decorriam as festas pascais, o julgamento foi adiado. E, enquanto Pedro estava na prisão, “a Igreja orava, instantemente, a Deus por ele”, pois a comunidade, unida e solidária, era uma família preocupada com a sorte de cada um dos seus membros. Por isso, quando Pedro corria perigo, a Igreja pedia para ele a ajuda de Deus.

Na véspera do julgamento, Pedro escapou da prisão, de noite. Não se sabe o que terá acontecido, mas a libertação de Pedro foi vista pela comunidade como resultado da intervenção de Deus. A narração lucana fala da intervenção de um “anjo do Senhor” que tirou Pedro da prisão, sem papel ativo deste no processo. E nós devemos ver, nos pormenores maravilhosos narrados (o aparecimento do anjo do Senhor, a luz que iluminou a cela da cadeia, a passagem pelos guardas sem se aperceberem da fuga, a abertura milagrosa da porta da prisão), não tanto a descrição de acontecimentos, mas uma catequese sobre a solicitude de Deus pelos apóstolos. Seja como for, os cristãos de Jerusalém viram o dedo de Deus na saída de Pedro da prisão.

A catequese dirige-se a todos os cristãos incompreendidos e perseguidos por causa da fidelidade a Jesus e ao Evangelho e que não estão sozinhos, ante a hostilidade do Mundo. Deus acompanha-os, em cada passo, dá-lhes a força para serem testemunhas, cuida deles, livra-os dos perigos, fá-los vencer as ciladas dos inimigos. Os enviados de Jesus sabem que peregrinam e enfrentam o Mundo, sob o olhar atento e paterno de Deus.

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O Evangelho (Mt 16,13-19) convida os discípulos a aderirem a Jesus e a verem-No como “o Messias, o Filho de Deus vivo”. Dessa adesão, nasce a Igreja – comunidade dos discípulos de Jesus, convocada e organizada à volta de Pedro e que tem a missão de testemunhar a salvação que Jesus trouxe. À Igreja e a Pedro (que a representa, na unidade) é confiado o poder das chaves – isto é, de interpretar as palavras de Jesus, de adaptar o seu ensino aos desafios do Mundo e de acolher na comunidade quantos aderem à proposta de salvação.

O episódio em apreço ocupa lugar central no Evangelho de Mateus, assinalando um momento de viragem no trilho de Jesus. Já se perfila, no seu horizonte, o destino de cruz.

Nos primeiros tempos de ministério, Jesus conhece fulgurante sucesso. A sua fama espalha-se e reúnem-se à volta d’Ele “grandes multidões vindas da Galileia, da Decápole, da Judeia e de além Jordão”. Depois, começa a encontrar sinais de resistência crescente à sua proposta: os fariseus e os doutores da Lei contestam-No abertamente e, em muitas povoações da Galileia, há gente que não acredita e recusa a sua mensagem. O anúncio do Reino de Deus só encontra acolhimento incondicional por parte do grupo dos que O seguem passo a passo.

Jesus tem consciência de que se aproxima, a passos largos, a altura de se dirigir a Jerusalém para enfrentar as autoridades. Será condenado e morto na cruz. Porém, o Reino não morrerá na cruz a içar fora das muralhas da cidade santa. Os discípulos ficarão para levarem a todos a Boa Nova do Reino, mas é preciso prepará-los: devem entender e acolher o Reino, comprometer-se totalmente no seguimento de Jesus, manifestar disponibilidade para integrar a comunidade do Reino. A conversa de Jesus com eles, perto de Cesareia de Filipe, aponta para isso.

Cesareia de Filipe, cenário da narração mateana, situava-se no Norte da Galileia, no sopé do Monte Hermon, junto de uma das nascentes do rio Jordão, na zona da atual Bânias. No período helenístico, tinha tomado o nome de Panion, por haver lá um santuário dedicado ao deus grego Pan; mas, no ano 2 ou 3 a.C., Herodes Filipe (filho de Herodes o Grande) reconstruiu-a e denominou-a Cesareia, em honra de César Augusto, imperador de Roma. Era, pois, uma cidade marcada pelo paganismo e pelo culto ao imperador.

O trecho em apreço pode dividir-se em duas partes: a primeira, de caráter cristológico, centra-se em Jesus e na sua identidade; a segunda, de carácter eclesiológico, centra-se na Igreja, que Jesus convoca em torno de Pedro.

Na primeira parte (vv. 13-16), Jesus interroga, duplamente, os discípulos: acerca do que as pessoas dizem d’Ele e acerca do que os discípulos pensam. A opinião dos “homens” reflete entendimentos diversos. Os contemporâneos de Jesus veem-No em continuidade com o passado (“é João Baptista”, “Elias”, “Jeremias” ou “algum dos profetas”). Não captam a condição singular de Jesus, a sua novidade e originalidade. Só reconhecem que é homem convocado por Deus e enviado ao Mundo com uma missão, como os profetas veterotestamentários. Na perspetiva deles, Jesus é homem bom, justo, generoso, que escutou o apelo de Deus e Se esforçou por ser um sinal vivo de Deus, como tantos outros antes d’Ele. Não é o suficiente: significa que não entenderam a novidade nem a profundidade do mistério do Messias.

Já a opinião dos discípulos vai muito além da opinião comum. Porque seguiram Jesus por toda a Galileia, conviveram com Ele, noite e dia, escutaram as suas palavras e testemunharam os seus gestos, é normal que tenham visto em Jesus uma dimensão que as outras pessoas não captaram. Pedro, porta-voz do grupo, resume o sentir da comunidade do Reino na expressão: “Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo”. Estes dois títulos resumem a fé da Igreja mateana e a catequese sobre Jesus. Dizer que Jesus é o Cristo (Messias) é dizer que é o libertador que Israel esperava, enviado por Deus para libertar o Povo e para lhe doar a salvação definitiva. No entanto, para os membros da comunidade do Reino, Jesus não é só o Messias: é também o “Filho de Deus”. No Antigo Testamento, a expressão “Filho de Deus” aplica-se aos anjos, ao Povo eleito, aos vários membros do Povo de Deus, ao rei e ao Messias-rei da linhagem de David. Designa a condição de quem está em peculiar relação com Deus, a quem Deus elegeu e a quem Deus confiou uma missão. Definir Jesus como o Filho de Deus significa que Ele recebe vida de Deus e que vive em total comunhão com Deus, que desenvolve com Deus uma relação de profunda intimidade e que Deus Lhe confiou a missão única da salvação dos homens; é reconhecer a profunda unidade e intimidade entre Jesus e o Pai e que Jesus conhece e realiza o desígnio do Pai entre os homens. Os discípulos são convidados a entender, dessa forma, o mistério de Jesus.

Na segunda parte (vv. 17-19), Jesus responde à confissão de fé petrina. É texto exclusivo de Mateus, pois não aparece nos outros sinóticos. Jesus felicita Pedro pela fé que o anima e que ele testemunha. Porém, essa fé não é mérito de Pedro, mas dom de Deus (“não foram a carne e o sangue que to revelaram, mas o meu Pai que está nos céus”). Pedro pertence à categoria dos pobres, dos simples, abertos à novidade de Deus, que têm o coração disponível para acolher os dons e as propostas de Deus (os pobres e simples estão contrapostos aos líderes – os fariseus, os doutores da Lei, os escribas – instalados nas certezas, seguranças e preconceitos, incapazes de abrir o coração aos desafios de Deus).

A fé proclamada por Pedro é a base sobre a qual assenta a comunidade do Reino. A Pedro (nome grego do aramaico “Kephâ”, que significa “rocha”), é confiada a missão de ser a rocha sobre a qual assentará a Igreja nascida de Jesus. Não é rocha contra a qual nos esmaguemos ou pedra com se atira e fere, mas gruta rupestre (forte e suave), que acolhe e protege.

Para que seja possível a Pedro testemunhar Jesus, o Messias Filho de Deus e edificar a comunidade do Reino, Jesus promete-lhe “as chaves do Reino dos céus” e o poder de “ligar e desligar”. No contexto bíblico, o detentor das chaves é o administrador do palácio. É ele que, entre outras coisas, administra os bens do soberano, fixa o horário da abertura e do fechamento das portas do palácio e define que visitantes introduzir junto do soberano. E a expressão “atar e desatar” designava, entre os judeus, o poder de interpretar a Lei com autoridade, de declarar o que era ou não permitido, de excluir ou de reintroduzir alguém na comunidade do Povo de Deus. Assim, Jesus nomeia Pedro para administrador e supervisor da Igreja, com autoridade para interpretar as palavras de Jesus, para adaptar o ensino de Jesus a novas necessidades e situações, e para acolher novos membros na comunidade dos discípulos do Reino.

Porém, a Igreja não é um condomínio fechado ao qual só alguns têm acesso. Todos são chamados por Deus a integrar a comunidade do Reino, mas só entram os que aceitam Jesus como o Messias, o Filho de Deus, e acolhem a Boa Nova.

Jesus não confia a um homem (Pedro) o primado, o papel de liderança absoluta (o poder das chaves, de ligar e de desligar) da comunidade dos discípulos, mas, como escreve Santo Agostinho, Pedro é o discípulo que dá voz a todos os que acreditam em Jesus e que representa a comunidade dos discípulos. Com efeito, o poder de “ligar e desligar”, por exemplo, aparece noutro contexto, confiado à totalidade da comunidade e não a Pedro em exclusivo. Assim, deve entender-se a personalidade apostólica de Pedro como o protótipo do discípulo e do apóstolo. Nele está representada e por ele é coordenada e confirmada na fé a comunidade que se reúne à volta de Jesus e que proclama a fé em Jesus como o Messias e o Filho de Deus. É a ela, representada por Pedro, que Jesus confia as chaves do Reino e o poder de acolher ou excluir (alguns insistem na exclusão!). Isso não invalida que Pedro fosse a grande referência para os primeiros cristãos e que tivesse papel de primeiro plano na animação da Igreja nascente, sobretudo, nas comunidades da Síria (a que o Evangelho de Mateus parece dirigir-se).

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A segunda leitura (2Tm 4,6-8.17-18) é como que o testamento paulino. Em balanço da vida do apóstolo, o epistológrafo recorda a resposta generosa de Paulo ao chamamento de Jesus e o seu compromisso total com o Evangelho. É texto desafiante, que convida todos os discípulos a percorrerem o caminho cristão com entusiasmo, com entrega, com ânimo, a exemplo de Paulo. Timóteo cujo nome aparece no endereço da carta é um cristão nascido, em Listra (Ásia Menor), de pai grego e de mãe judeo-cristã. O apóstolo encontrou-o na segunda viagem missionária e associou-o à aventura do anúncio do Evangelho. E ele tornou-se companheiro inseparável de Paulo. Aparece ao lado do apóstolo em Atenas, em Corinto, em Éfeso, colaborando no esforço missionário. Paulo confiava plenamente nele e encarregou-o de missões delicadas junto das igrejas. Segundo a tradição, foi o primeiro bispo de Éfeso.

É problemático que Paulo seja o autor das cartas a Timóteo: a linguagem, o estilo e a doutrina apresentam diferenças em relação a outras cartas paulinas. Também o contexto eclesial destas cartas parece mais do final do século I de princípios do século II. Enquanto na época de Paulo, a preocupação era anunciar o Evangelho, na destas cartas, a preocupação é “conservar a fé”, visto que a fé cristã estava ameaçada pela acomodação dos crentes e pelas falsas doutrinas que alguns mestres difundiam. É possível que um discípulo de Paulo tenha composto estas cartas para responder às novas problemáticas que a Igreja tinha de enfrentar.

Em concreto, a segunda Carta a Timóteo apresenta conselhos pastorais que Paulo destina ao grande colaborador (Timóteo) na obra da evangelização. O epistológrafo estaria na prisão e, numa espécie de testamento, recorda a Timóteo o ministério que recebeu, convida-o a manter-se fiel à graça, alerta-o para os perigos dos novos tempos e faz-lhe recomendações.

O autor da carta apresenta-se na persona de Paulo, prisioneiro em Roma. Sentindo que a vida lhe está a chegar ao fim, avalia a forma como viveu, com o objetivo de levar os crentes a fazerem, como Paulo, o dom total das suas vidas a Deus.

A vida de Paulo sofreu radical transformação, quando se encontrou com Cristo na via de Damasco. Postergou as certezas e seguranças em que apostara e começou a viver para Cristo: enfrentou as oposições, contornou os obstáculos, suportou os cansaços, enfim, deu tudo para levar a Boa Nova a todas as nações, de Jerusalém a Roma.

Para definir a sua vida de compromisso total com o desígnio de Deus, recorre a três imagens. A primeira vem do culto judaico: a vida de Paulo foi oferta sacrificial a Deus, derramada sobre o altar de Deus, à imagem dos ritos de libação que se faziam no santuário e que consistiam no derramamento de um pouco de vinho sobre o altar onde, depois, se queimava a oferenda destinada à divindade. A segunda é tirada do contexto militar. A sua vida foi um combate, em que ele se empenhou, totalmente, até ao dom de si próprio. Combateu bravamente e deu tudo pela vitória de Deus. A terceira imagem é a do atleta que corre em direção à meta, para alcançar a vitória. Qual atleta de eleição, Paulo correu sempre, com empenho total, com dedicação absoluta, pondo todas as suas forças ao serviço do desígnio de Deus. Agora, depois de uma vida gasta ao serviço de Deus, pressente que chegou ao fim do seu caminho. Está satisfeito com a sua prestação, pois manteve-se focado e fiel, realizando tudo o que estava ao seu alcance para corresponder ao chamamento de Jesus. Resta-lhe receber a “coroa da justiça” reservada aos vencedores. E Paulo aproveita para avisar que o mesmo prémio está reservado a todos aqueles que lutam, com o mesmo denodo e com o mesmo entusiasmo, pela causa do Reino.

No final, nuns versículos que a leitura da solenidade não conservou, o epistológrafo põe na boca do apóstolo o lamento do homem cansado que, apesar de tudo o que fez pelo Evangelho, se sente abandonado por alguns irmãos na fé. Apesar disso, não se sente sozinho, pois tem experimentado, nos dias de cativeiro, o apoio e o conforto de Deus. Está convicto de que Deus o livrará de todo o mal e lhe dará, no final da caminhada, a vida definitiva. Por isso, termina a sua partilha com um grito de louvor: “Glória a Ele pelos séculos dos séculos. Ámen.”

Ao apresentar aos crentes o testemunho de Paulo, o epistológrafo pede-lhes que tenham atitude semelhante à do apóstolo, não se deixando vencer pelo desânimo, pelo sofrimento, pelo medo, pela tribulação; mantendo-se fiéis a Jesus e ao Evangelho; e confiando no prémio que espera todos os que combateram o bom combate e mantiveram a fé. Prosit!

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Por isso, com o salmista, bendigamos o Senhor e, com Pedro, professemos a fé no Cristo, Filho de Deus:

“O Senhor libertou-me de toda a ansiedade.”

“A toda a hora bendirei o Senhor, / o Seu louvor estará sempre na minha boca. / A minha alma gloria-se no Senhor; / escutem e alegrem-se os humildes.

“Enaltecei comigo ao Senhor, / e exaltemos juntos o Seu nome. / Procurei o Senhor e Ele atendeu-me, / libertou-me de toda a ansiedade.

“Voltai-vos para Ele e ficareis radiantes: / o vosso rosto não se cobrirá de vergonha. / Este pobre clamou e o Senhor o ouviu, / salvou-o de todas as angústias.

“O anjo do Senhor protege os que O temem / e defende-os dos perigos. / Saboreai e vede como o Senhor é bom: / feliz o homem que n’Ele se refugia.” 

“Aleluia. Aleluia. Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja / e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.”

2026.06.29 – Louro de Carvalho

EUA teriam de remover substâncias perigosas da Gronelândia

 

Uma investigação do Politiken – jornal diário dinamarquês, fundado em 1884, com sede em Copenhaga, conhecido pela sua linha editorial liberal e de centro-esquerda, que é parceiro do Expresso na rede European Investigative Collaborations (EIC) – a, pelo menos, 36 antigas bases e instalações militares norte-americanas, na Gronelândia, a maior ilha do Mundo, revela que os Estados Unidos da América (EUA) deixaram, ali, milhares de toneladas de resíduos perigosos e águas residuais radioativas.

Os dados da investigação da EIC foram publicados, a 29 de junho, no Expresso online, por Carl Emil Arnfred, Jesper Thobo-Carlsen e Peter-Emil Hornemann, sob o título Investigação na Gronelândia. Como os EUA deixaram para trás milhares de toneladas de resíduos perigosos e águas residuais radioativas”.

A poluição em causa, que é, segundo os jornalistas, “a mais extensa do que alguma vez foi noticiada”, é visível em “centenas de bidões de petróleo enferrujados, baterias de automóvel, tubos e cabos descartados e placas de amianto estilhaçadas”, contrastando com os icebergues que deslizam, lentamente, no horizonte de Narsarsuaq, no Sul da Gronelândia, onde esteve a maior base norte-americana, na ilha, durante a II Guerra Mundial e para onde se mudaram milhares de soldados norte-americanos, após a criação da base, em 1941.

Agora, é um pequeno aeroporto com uma povoação ao lado, rodeado de “centenas de milhares de litros de gasóleo”, de “muitos milhares de toneladas de resíduos perigosos ou contaminados”, de “milhões de litros de águas residuais de baixa radioatividade”, e de “substâncias tóxicas e metais pesados” – enfim, uma poluição que “está a prejudicar mexilhões e outras formas de vida marinha”, quando os EUA dizem querer regressar a várias das bases.

O que sobressai na zona do aeroporto é a “lixeira” junto ao fiorde, a poucas centenas de metros da pista, com toneladas de resíduos a espalharem-se “por vários hectares ao longo da margem, abandonadas no rio de água do degelo”, que desagua no fiorde. E dizem os jornalistas que, “em vários pontos, os bidões de petróleo e os destroços acumulam-se em camadas com metros de altura” – empurrando “tudo na direção da água” – e que, noutros pontos, “foram enterrados”.

“Durante muitos, muitos anos, o petróleo infiltrou-se na água. Foram afundados vários aviões no fiorde”, conta um mecânico de formação e que foi diretor do aeroporto de Narsarsuaq, durante mais de 20 anos, frisando que os norte-americanos “abandonaram a base militar de Narsarsuaq, em 1958, sem fazerem qualquer limpeza”.

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Entretanto, a 18 de junho de 2021, a revista Sustentável publicou um artigo de Rafael Correia, intitulado “Bactéria é utilizada para limpar solo poluído a gasóleo na Gronelândia”, a pôr em relevo a presença natural, no solo, em postos militares extintos, na Gronelândia, de uma bactéria que limpa o solo poluído a gasóleo, como revelou, em comunicado, a Universidade de Copenhaga, após investigação de cinco anos, em Mestersvig, na Gronelândia Oriental.

Os investigadores do Departamento de Plantas e Ciências Ambientais da Universidade de Copenhaga e do Geological Survey of Denmark and Greenland (GEUS) diziam que a bactéria limpou, em cinco anos, até 82% das cinco mil toneladas de solo contaminado. E, como explicou Jan H. Christensen, professor da Universidade de Copenhaga, as bactérias são eficazes na decomposição da grande maioria dos compostos do gasóleo, podendo este método ser aplicado em mais lugares do Ártico. Em alternativa, dispõe-se do recurso, mais oneroso, à “remoção da contaminação dos solos, através de aeronaves ou navios”.

Este método natural, conhecido como landfarming, geralmente associado a climas mais quentes, no Mundo, antes deste projeto, nunca foi testado, em larga escala, em condições árticas, e “nunca foi tão estudado e documentado como nesta experiência”.

O landfarming funciona com a distribuição do solo contaminado numa camada fina, que é, depois, lavrada, fertilizada e oxigenada, todos os anos, para otimizar as condições para as bactérias degradarem os compostos poluentes. Com efeito, diz o colunista da Sustentável, “as bactérias podem, facilmente, degradar os contaminantes no solo, apesar das temperaturas frígidas”; e, no futuro, espera-se que estas bactérias possam ser usadas para remediar a contaminação em cerca de 30 outras instalações desertas, na Gronelândia.

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Porém, se os EUA querem regressar, além da responsabilidade histórica pela despoluição, há mais um argumento para lhes assacar o ónus da mesma.

Durante a II Guerra Mundial e a Guerra Fria, os EUA operaram em, pelo menos, 36 bases e instalações militares gronelandesas. Hoje, só têm a grande base de Pituffik, mas decorrem intensas negociações diplomáticas entre os EUA, a Dinamarca e a Gronelândia, com o governo norte-americano a procurar reabrir várias bases, nomeadamente, as de Narsarsuaq e de Kangerlussuaq. Ao mesmo tempo, Donald Trump, há muito que ameaça apoderar-se da maior ilha do Mundo. E, recentemente, o seu enviado especial para a Gronelândia, Jeff Landry, publicou uma mensagem sobre o território em que afirmava, que os EUA poderiam ficar mais ricos com um novo estado, já no próximo ano.

O Politiken, que se deslocou à Gronelândia, para investigar em que estado os EUA deixaram as suas muitas antigas bases, apesar de terem sido publicados artigos sobre o legado norte-americano na Gronelândia, considera-se “o primeiro órgão de comunicação a cartografar a poluição das bases dos EUA, com base em vários milhares de páginas de informação obtidas ao abrigo do direito de acesso a documentos” – estudos ambientais e documentos das autoridades dinamarquesas e gronelandesas, que não foram tornados públicos.

A investigação evidnecia a significativa dimensão da poluição: “vários milhares de toneladas de resíduos perigosos ou contaminados abandonados, na Natureza gronelandesa; até 100 mil bidões de petróleo enferrujados e corroídos; poluição por mais de 400 mil litros de gasóleo; até 24 milhões de litros de águas residuais de baixa radioatividade deixados sob o manto de gelo; várias toneladas de baterias descartadas”; deteção de PCB [bifenilos policlorados], em níveis muito acima dos limites legais; e metais pesados, como o chumbo e o cádmio.

Muitas das antigas bases e instalações dos EUA nunca foram investigadas a fundo, quanto à contaminação ambiental. E vários políticos gronelandeses criticam, duramente, a poluição deixada na Gronelândia. Sustentam que “deixar as coisas para trás é um sinal de falta de respeito”. Ora, tendo sido permitido aos EUA irem à Gronelândia, estarem lá e tirarem benefícios dessa posição, “o mínimo que podem fazer é limpar o que sujam”, dizem.

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Na II Guerra Mundial e nos primeiros anos da Guerra Fria, a grande ilha tornou-se foco de interesse para as forças armadas norte-americanas. Primeiro, na guerra contra a Alemanha nazi e, depois, como entreposto de recursos, campo de ensaios para a guerra no Ártico e posto avançado virado para a União Soviética comunista. Desde o início, os termos da presença norte-americana foram negociados, num complexo jogo de política de defesa em que os EUA nem sempre diziam toda a verdade à Dinamarca sobre os seus planos, e o governo dinamarquês agia por cima da cabeça dos gronelandeses.

A 9 de abril de 1941, Henrik Kauffmann, enviado dinamarquês aos EUA, arrogando-se representante do governo de Copenhaga, celebrou um acordo de defesa que lhes concedia o direito de instalarem aeroportos e portos como bases militares na Gronelândia. O governo dinamarquês destituiu Kauffmann, acusando-o de traição, e declarou o acordo inválido, mas os EUA começaram a instalar bases por toda a Gronelândia. E, após a II Guerra Mundial, viam-se como o protetor do Mundo livre, entendiam que isso lhes conferia claros privilégios e quiseram comprar a Gronelândia, por cerca de 100 milhões de dólares, o que foi recusado por Copenhaga.

Em 1950, os norte-americanos gizaram, nas costas da Dinamarca, uma estratégia para o Ártico que previa a extração de urânio, na Gronelândia, a instalação de mísseis telecomandados com o alcance de dois mil a 2500 quilómetros e o desenvolvimento de meios de transporte sob o gelo.

Em 1951, os governos dinamarquês e norte-americano assinaram um acordo de defesa para defenderem, conjuntamente, a Gronelândia sob a égide da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), segundo o qual os EUA podiam “adaptar a zona [terra, mar e ar] para uso militar”, não tendo as bases de “ser devolvidas no estado em que se encontravam no momento em que foram disponibilizadas”. Esta última disposição serviu, indevidamente, de pretexto, para os ocupantes não terem de despoluir.

Apesar de abandonarem, à pressa, a maior parte das bases, os EUA criaram, em 1959, a cerca de 225 quilómetros a Leste da base de Pituffik, no Nordeste da Gronelândia, uma estação de investigação digna de ficção científica, a Camp Century, dotada de uma pequena central nuclear sob o manto de gelo. A estação consistia num extenso sistema de túneis, com a “avenida principal” de 330 metros e mais de 20 túneis adjacentes. O reator nuclear fornecia eletricidade e calor à base e aos 225 ocupantes. Os norte-americanos iniciaram a construção, sem terem recebido a aprovação de Copenhaga. E, em 1966, retiraram o reator nuclear, poucos anos antes de deixarem a base, em 1966. Mas, segundo um relatório de 2016, ficaram sob o gelo até 24 milhões de litros de águas residuais de baixa radioatividade, nove mil toneladas de resíduos de construção e 200 mil litros de gasóleo.

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A poluição por petróleo é, em particular, um enorme problema nas antigas bases dos EUA. É o que se passa, sobretudo, na ilha de Simiutaq, no Sul da Gronelândia. No total, estima-se que haja cerca de 10 mil metros cúbicos de solo contaminado por hidrocarbonetos.

Na costa ocidental, a pouco menos de 70 quilómetros a Sul de Nuuk, os norte-americanos deixaram, pelo menos, oito mil bidões de petróleo, na base de Marraq. A estimativa da quantidade total de gasóleo que contaminou o local “aponta para cerca de 120 mil litros ou mais”. A contaminação era “tão grave que ainda se sentia no local um forte cheiro a petróleo”, apesar de ter ocorrido cerca de 50 anos antes.

A contaminação por petróleo é mais grave na base de Ikkatteq, na costa oriental, de difícil acesso e onde os norte-americanos deixaram dezenas de milhares de bidões de petróleo e veículos antigos espalhados por uma área de mais de 25 mil metros quadrados. Em vários pontos, os bidões foram empilhados em duas ou três camadas, e dizem os investigadores que “as substâncias detetadas nas amostras de solo e de água podem representar um risco para a vida marinha junto à costa, em particular, para os mexilhões do fiorde”.

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Outro grande problema é a quantidade de amianto deixada pelos norte-americanos, havendo amianto em edifícios abandonados em quase todas as bases. Na II Guerra Mundial, os EUA construíram um hospital militar de 250 camas, que se manteve relativamente intacto, até 1972, ano em que ardeu, tendo ficado, durante anos, reduzido a um monte de escombros. E, nos anos 1980, os restos do hospital foram demolidos com bulldozers, mas as placas de amianto ficaram. “Hoje, pequenas placas de amianto brancas espalham-se pelo vale, como bolachas estaladiças esmigalhadas”, relatam alguns habitantes.

Em 2019, um grupo de investigadores da Universidade de Aarhus fazia trabalho de campo em Narsarsuaq. Aí, observaram placas de amianto estilhaçadas espalhadas pela zona. Recolheram amostras, tendo concluído que o material era amianto. E informaram o médico-chefe da Gronelândia das conclusões. “O médico-chefe pediu às autoridades gronelandesas que tomassem medidas para reduzir o risco para a saúde”, leu o Politiken, na ata duma reunião.

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O caso do amianto em Narsarsuaq ilustra como a responsabilidade se perde no jogo do empurra, entre autoridades. O Ministério do Ambiente de Copenhaga diz que a responsabilidade por Narsarsuaq foi transferida para as autoridades gronelandesas, mas o Departamento do Ambiente, Energia, Natureza e Investigação da Gronelândia afirma que o princípio de base é que “quem deixou os resíduos tem de pagar para que sejam removidos”. Cabe ao município local “tentar encontrar o proprietário”, já que os municípios são a autoridade principal em matéria de gestão de resíduos.

Nos anos 1990, os norte-americanos tinham desviado as atenções da Gronelândia. A maioria das bases tinha sido abandonada. Só a Base Aérea de Thule, rebatizada Base Espacial de Pituffik, em abril de 2023, permanecia sob controlo dos EUA. Políticos gronelandeses manifestaram preocupação com as enormes quantidades de resíduos. A 13 de março de 1991, o ministro dos Negócios Estrangeiros e o seu homólogo americano assinaram um acordo em que os EUA se comprometiam a “remover” ou a “neutralizar” todas as substâncias perigosas conhecidas, mas os norte-americanos terão renegado essa promessa, 11 anos depois.

O Politiken perguntou ao Departamento de Defesa dos EUA e ao Ministério do Ambiente dinamarquês se consideram o acordo de 1991 válido e cumprido, mas não obteve resposta

Na década de 2010, políticos gronelandeses intensificaram as críticas ao legado militar dos EUA, as quais suscitaram o acordo de 2012 entre o governo dinamarquês e o governo Autónomo da Gronelândia para limpar o que as forças armadas dinamarquesas deixaram no território, mas sem qualquer menção aos resíduos militares norte-americanos.

Em 2017, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Gronelândia queixou-se ao Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), alegando que a Dinamarca não assumia suficiente responsabilidade da limpeza das instalações militares dos EUA.

O relator especial da ONU para os resíduos perigosos concluiu que “a Dinamarca tem de identificar e remover todos os resíduos militares deixados na Gronelândia” que o povo gronelandês queira ver removidos, instando os EUA a contribuírem para esse esforço. Em 2018, o governo dinamarquês afetou 180 milhões de coroas dinamarquesas, ao longo de seis anos, para limpar bases americanas selecionadas, mas os EUA não contribuíram. As verbas não estão esgotadas e, até agora, só foi limpa uma pequena parte das bases.

Agora que os EUA querem regressar a antigas bases e reforçar a presença militar na Gronelândia, muitas vozes do território exigem medidas que garantam que os erros passados não se repetem. O Departamento de Defesa dos EUA não respondeu às críticas dos políticos gronelandeses, mas, nos últimos seis meses, representantes das forças armadas dos EUA visitaram Narsarsuaq, para inspecionarem a pista, o hotel da povoação e o antigo aeroporto, mas não foram à grande zona com resíduos norte-americanos.

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A diplomacia é, por vezes, muito escusa. Os EUA fazem política egoísta (não só com Trump). O colonizador ou protetor não cuida da colónia ou protetorado, a quem, por mais razão que tenha, pouco se liga. No caso vertente, deve aplicar-se o princípio: “Quem suja limpa.”    

2026.06.29 – Louro de Carvalho