segunda-feira, 15 de junho de 2026

Jesus viu, compadeceu-se e chamou: a messe é grande

 

No 11.º domingo do Tempo Comum no Ano A, a Palavra de Deus recorda a constante presença de Deus no Mundo e a vontade que Ele tem de oferecer aos homens, a cada passo, a vida e a salvação. Porém, concretiza a sua intervenção na História humana através daqueles que chama e envia, como sinais vivos do seu amor e como testemunhas da sua bondade.

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A primeira leitura (Ex 19,2-6a) apresenta-nos o Deus da aliança, que elege um povo para com ele estabelecer laços de comunhão e de familiaridade, confiando-lhe a missão sacerdotal, que torna Israel o povo reservado para o serviço de Javé, isto é, para ser sinal de Deus, ante as outras nações. O trecho em apreço, insere-se nas tradições da aliança do Sinai – tradições de origem diversa, cujo denominador comum é a reflexão sobre o compromisso (“berit” – “aliança”) que Israel assumiu com Javé.

Estamos no deserto do Sinai, “em frente do monte”. O texto bíblico não dá indicações geográficas suficientes de identificação do “monte da aliança”. “Sinai”, em si, não designa um monte, mas a enorme península triangular, com cerca de 420 quilómetros de extensão Norte/Sul, estendendo-se entre os mares Mediterrâneo e Vermelho (no sentido Norte/Sul) e os golfos do Suez e o da Áqaba (no sentido oeste/este). É um deserto árido, escassamente povoado, de terreno acidentado e com várias montanhas que chegam a atingir 2400 metros de altura. Uma tradição cristã do século IV d.C. identifica o monte da aliança com o “Gebel Musah” (monte de Moisés), de 2244 metros de altitude, situado a Sul da península sinaítica. Embora a identificação do monte da aliança com este lugar levante problemas, o “Gebel Musah” é lugar de peregrinação para judeus e cristãos.

Foi, pois, diante de um monte que Javé e Israel se comprometeram numa aliança. O termo hebraico “berit” define um pacto entre duas partes, que implica direitos e obrigações recíprocos. A “berit”, raramente escrita, tinha sempre valor jurídico. Habitualmente, era selada por um ritual, consagrado pelo uso, que incluía o juramento e a imolação de animais em sacrifício. Foi no quadro deste esquema jurídico que Israel representou o seu compromisso com Javé.

É de anotar que a iniciativa da aliança é de Deus: Ele convoca Moisés – o intermediário entre Deus e o Povo – para a montanha e propõe, através dele, uma aliança à casa de Jacob. A iniciativa de estabelecer laços de comunhão e de familiaridade com o povo é sempre de Deus. Depois, é de atentar em que a aliança que Deus propõe é realidade que envolve toda a História do povo. As palavras de proposição da aliança aparecem em segmentos textuais, abarcando, cada um, um tempo – passado, presente e futuro –, na relação que aponta à totalidade da caminhada do povo de Deus.

O primeiro (v. 4) refere-se ao passado, com referência à libertação da escravidão do Egito (“vistes o que Eu fiz no Egito”), à presença e assistência amorosa de Deus, ao longo do deserto (“como vos transportei sobre asas de águia”) e ao chamamento à comunhão com Deus (“e vos trouxe até Mim”). Tudo isso resulta do compromisso que Deus assumiu com Israel, ainda antes da aliança do Sinai.

O segundo (v. 5a) refere-se ao presente. Javé insta Israel a aceitar estabelecer com Ele laços privilegiados de comunhão e de familiaridade. Para tanto, Deus pede a Israel que escute a sua voz e guarde a aliança: os mandamentos são os quesitos de compromisso do povo.

O terceiro (vv. 5b-6) refere-se ao futuro. Se Israel se comprometer com Deus numa aliança, Ele oferecerá ao povo uma relação que o tornará o povo eleito de Deus, um reino de sacerdotes e uma nação santa. Entre todos os povos da Terra, Israel passará a ser o povo que Deus escolheu entre todos os povos da Terra para uma relação única. Será um reino de sacerdotes, ou seja, um povo cuja missão é testemunhar Deus e torná-Lo presente no Mundo. Será nação santa, isto é, povo à parte, separado do convívio dos outros, para se dedicar apenas ao serviço de Javé.

A aliança faz parte integrante do desígnio de salvação que Deus tem para os homens. Israel é convidado por Deus a desempenhar um papel primordial no processo: se aceitar fazer parte da comunidade de Deus e percorrer o caminho dos mandamentos), será o povo escolhido por Deus para o seu serviço e para ser sinal de Javé à vista de todos os outros povos. Esta eleição não é privilégio, mas serviço, que se concretiza na missão profética de ser sinal vivo de Deus. É este o sentido fundamental do Êxodo: a libertação do Egito não se reduz a fazer sair povo da escravidão para a liberdade: a caminhada que Javé começou com o povo, no Egito, aponta para o compromisso com Deus e com os homens e para a construção de um povo que ganha a liberdade e se torna testemunha, sinal e sacerdote de Deus no Mundo.

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O Evangelho (Mt 9,36-10,8) traz o discurso da missão, com Mateus a apresentar a catequese da escolha, do chamamento e do envio de doze discípulos (que representam a totalidade do Povo de Deus) a anunciar o Reino. Os Doze são os continuadores da missão de Jesus, que devem levar a toda a Terra a salvação e a libertação que Deus dá aos homens em Jesus.

Depois de ter apresentado Jesus e de O mostrado a anunciar o Reino, em palavras e em obras, o evangelista narra o envio dos discípulos em missão. Os discípulos são os que Jesus chamou, que responderam ao chamamento e seguiram Jesus. E, na caminhada com Jesus, escutaram os seus ensinamentos e testemunharam os seus sinais. Formados por Ele na escola do Reino, podem ser enviados ao Mundo, a anunciar a todos a chegada do Reino dos Céus.

Os estudiosos do Evangelho de Mateus chamam ao texto que vai de 9,36 a 11,1, o “discurso da missão”: Jesus envia os discípulos e define a missão deles – anunciar a vinda do Reino. Este discurso consta de várias partes: introdução (Mt 9,36-38); chamamento e envio dos discípulos (Mt 10,1-15); instrução sobre o caminho que os discípulos têm de percorrer (Mt 10,16-42); e conclusão (Mt 11,1). É um discurso composto pelo evangelista, a partir de diversos materiais, combinando relatos de envio, ditos de Jesus acerca dos Doze e várias sentenças de Jesus que, originalmente, não terão sido proferidas neste contexto.

Mateus escreve na década de 80. Dirige o Evangelho a uma comunidade viva e entusiasta, empenhada na atividade missionária (será a comunidade cristã de Antioquia da Síria). Porém, as dificuldades encontradas no anúncio do Evangelho e a perseguição traziam a comunidade perturbada. Por isso, Mateus compôs um manual do missionário, que enraíza a missão em Cristo, elenca os conteúdos do anúncio que os discípulos são chamados a proclamar e as atitudes fundamentais que os missionários devem assumir. O trecho em causa inclui a introdução e uma parte do relato do chamamento e do envio dos discípulos.

É de considerar, na introdução (Mt 9,36-38), a atitude de Jesus: olhou e viu a multidão, semelhante a ovelhas sem pastor, pelo que Se condoeu em compaixão. Assim, Mateus explica que essa missão a que Jesus chama os discípulos é expressão da solicitude de Deus, que oferece ao seu povo a salvação. Mateus – que escreve para uma comunidade onde havia significativo número de crentes de origem judaica – usa, para transmitir esta mensagem, imagens retiradas do Antigo Testamento e muito familiares para os judeus.

Nas palavras de Jesus, Israel é comunidade abatida e desnorteada, cujos pastores (os líderes religiosos) se demitiram das suas responsabilidades. São os maus pastores de que falam os profetas. Ao invés, o coração de Deus está cheio de compaixão pelo rebanho abatido e desanimado. Por isso, Deus assume as suas responsabilidades e conduz o seu povo às pastagens onde há vida. E, como Jesus, os discípulos devem olhar, condoer-se e agir.

A referência à “messe” indica que a missão é urgente, não havendo muito tempo para a levar a cabo. Nos profetas, a messe vem ligada à imagem do juízo iminente de Deus; a referência ao “pedido” que deve ser feito ao Senhor da messe é o apelo a que a comunidade contemple a missão como obra de Deus a levar a cabo com os critérios de Deus. Por isso, a comunidade deve rezar, para se aperceber do desígnio, da perspetiva e dos critérios de Deus, antes de empreender a tarefa de anunciar o Evangelho.

Vem, depois, o chamamento dos discípulos (Mt 10,1-4). Mateus deixa claro que a iniciativa é de Jesus: “chamou-os”. Não há explicação dos critérios que levaram à escolha: falar de vocação e de eleição é falar de mistério insondável, que depende de Deus e que o homem nem sempre consegue compreender e explicar.

A seguir, o evangelista aponta o número dos discípulos: “doze”. Doze é número simbólico que lembra as doze tribos que formavam o antigo povo de Deus. Assim, estes doze, cujos nomes são referidos, representam a totalidade do povo de Deus, do novo povo de Deus.

Depois, Mateus define a missão que Jesus lhes confiou (“deu-lhes poder de expulsar os espíritos impuros e de curar todas as doenças e enfermidades”). Os espíritos impuros, as doenças e as enfermidades representam tudo o que escraviza o homem e o impede de chegar à vida em plenitude. A missão dos discípulos é, pois, lutar contra tudo aquilo – de caráter físico ou de caráter espiritual – que destrói a vida e a felicidade do homem. Ou seja, a missão dos discípulos é lutar contra o pecado.

E Mateus aponta os nomes dos Doze: Simão Pedro; André; Tiago, filho de Zebedeu; João; Filipe; Bartolomeu; Tomé; Mateus; Tiago, filho de Alfeu; Tadeu; Simão, o cananeu; e Judas Iscariotes). As listas apresentadas pelos evangelistas apresentam diferenças, seja na ordem dos nomes, seja nos próprios nomes (por exemplo, Tadeu é, em Lucas, Judas). Seja como for, Pedro encabeça a lista e Judas Iscariotes fecha-a. Estes dois são as duas personagens mais fortes e que, ao longo da caminhada com Jesus, terão assumido algum protagonismo no grupo.

O último passo é o envio dos discípulos, antecedido das instruções para a missão (Mt 10,5-8). Primeiro, Jesus define os destinatários da missão: numa primeira fase, são “as ovelhas perdidas da casa de Israel”. Esta interpretação restritiva da missão explica-se pelo modo da expansão do cristianismo, em termos geográficos: começou na Palestina e, só depois, ultrapassou as fronteiras da Palestina. Também terá a ver com as tensões na comunidade mateana, onde alguns judeo-cristãos tinham dificuldade em aceitar que o Evangelho fosse anunciado aos pagãos. Mais tarde, Mateus deixará claro que o anúncio se destina também aos pagãos e que a “casa de Israel” rejeitou Jesus e a sua proposta do Reino.

A seguir, o evangelista aponta os sinais que devem acompanhar o anúncio da chegada do Reino: cura dos doentes, ressurreição dos mortos, expulsão dos demónios. Não deve constar só de palavras, mas também de gestos que sejam sinal vivo da libertação que o Reino traz.

Por fim, aparece o apelo à gratuitidade: os discípulos não podem partir em missão a pensar em dividendos pessoais ou na satisfação de interesses egoístas. O mandato “recebestes de graça, dai de graça” insta a fazer da vida dom gratuito ao Reino, sem esperar recompensa.

A missão dos discípulos surge como prolongamento da missão de Jesus. O anúncio confiado aos discípulos é o que Jesus fazia: o Reino; os gestos que os discípulos são convidados a fazer para anunciar o Reino são os de Jesus; os destinatários da mensagem que Jesus apresentou são os da mensagem a que os discípulos se dirigem. Ao apresentar a missão dos discípulos em paralelo e em continuidade com a missão de Jesus, Jesus convida a Igreja (os discípulos) a continuar, na História, a obra libertadora que Ele iniciou em prol do homem.

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A segunda leitura (Rm 5,6-11) sugere que a comunidade dos discípulos é comunidade de pessoas a quem Deus ama. A sua missão no Mundo é testemunhar o amor de Deus pelos homens – amor eterno, inquebrável, gratuito e único.

A Carta aos Romanos, texto sereno e amadurecido, escrito por Paulo, por volta do ano 57/58, apresenta uma síntese da sua mensagem e da sua pregação. O pretexto é o projeto de passagem por Roma, a caminho de Espanha. Paulo, sentindo terminada a sua missão no Oriente, quer anunciar o Evangelho no Ocidente. Contudo, os estudiosos sustentam que o apóstolo se serve do pretexto para lembrar aos cristãos vindos do judaísmo (para quem a salvação dependia da prática da Lei de Moisés) e aos cristãos vindos do paganismo (para quem a Lei de Moisés era empecilho) o essencial da mensagem cristã. E Paulo insiste no facto de a salvação não ser conquista do homem, mas dom do amor de Deus. De facto, todos vivemos mergulhados no pecado, pois o pecado é realidade universal, mas Deus, na sua bondade, a todos justifica e salva; e a salvação é oferecida por Deus ao homem, por Jesus Cristo, cabendo ao homem aderir à salvação, na fé.

O trecho em referência é a parte final da perícopa que começa em Rm 5,1, com Paulo a explicar o que brota da justificação que Deus nos ofereceu: a paz, que é a plenitude dos bens; e a esperança, que nos permite caminhar por este Mundo de cabeça levantada, de olhos postos no futuro glorioso da vida em plenitude.

Sermos justificados, isto é, recebermos, de forma totalmente gratuita, uma salvação não merecida, postula descobrir quanto Deus nos ama. O amor de Deus pelos homens é algo que nunca deixará de espantar; e é esse espanto que Paulo quer transmitir aos cristãos. Com efeito, a História da Salvação é uma indizível história de amor.

Como o homem, se contar só com as suas forças, não supera a situação de escravidão, de egoísmo e de pecado para que descambou, Deus enviou o seu Filho ao Mundo. Ele ofereceu toda a sua vida – até à cruz – para que os homens percebam que o egoísmo gera morte e sofrimento e que só o amor gera felicidade e vida sem fim. Desse modo, salvou os homens da escravidão do egoísmo e do pecado e ofereceu-lhes, de forma totalmente gratuita, a salvação. Porém, o mais indizível é que tudo aconteceu “quando éramos, ainda, pecadores”. É algo incompreensível, humanamente, que subverte a lógica dos homens. Talvez aceitássemos morrer por alguém a quem amamos muito, mas não estaríamos dispostos a dar a vida por alguém egoísta, orgulhoso e autossuficiente. Porém, Deus ama de tal modo os homens todos que aceitou que o próprio Filho morresse pelos ímpios.

O amor de Deus é indizível, ilógico, inexplicável. Soa a absoluto, a eternidade. Nada nem ninguém o consegue vencer, derrotar, eliminar. Mais: se Deus nos amou desta forma, quando éramos pecadores, com muito mais razão nos amará, agora, que nos reconciliámos com Ele. Este amor inapagável e impagável é penhor de vida em plenitude.

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Por tudo isto, no dizer de Santo Atanásio, “o Senhor faz cantar aos redimidos um hino de vitória”, e o salmista canta a alegria de quem entra no templo:

“Nós somos o povo de Deus, as ovelhas do seu rebanho.”

“Aclamai o Senhor, Terra inteira, /servi o Senhor com alegria, /vinde a Ele com cânticos de júbilo.

“Sabei que o Senhor é Deus, / Ele nos fez, a Ele pertencemos, / somos o seu povo, as ovelhas do seu rebanho.

“Porque o Senhor é bom, / eterna é a sua misericórdia, / a sua fidelidade estende-se de geração em geração.”

“Aleluia, aleluia!”

“Está próximo o Reino de Deus. / Arrependei-vos e acreditai no Evangelho.”

2026.06.15 – Louro de Carvalho

Acordo EUA-Irão pronto para assinar, mas Israel discorda

 

O presidente norte-americano, Donald Trump, no dia 14 de junho, à noite, disse que o acordo-quadro, ou seja, o “texto do memorando de entendimento”, entre os Estados Unidos da América (EUA) e o Irão está “concluído”, será assinado na Suíça, no dia 19, e abre caminho a um período de 60 dias de negociações.

“O acordo com a República Islâmica do Irão está, agora, concluído. Parabéns a todos. […] Este grande acordo trará paz e segurança a toda a região”, afirmou o inquilino da Casa Branca, no Truth Social, acrescentando: “Por este meio, autorizo, plenamente, a abertura, sem restrições, do Estreito de Ormuz e, simultaneamente, autorizo a retirada imediata do bloqueio naval dos EUA. Navios do Mundo, ligai os vossos motores. Deixai o petróleo fluir.”

Porém, recuou um pouco, numa publicação posterior, dizendo que a crucial via navegável reabriria após a assinatura do acordo prevista para o dia 19.

Por sua vez, Teerão referiu que “o fim imediato e permanente da guerra e das operações militares em várias frentes, incluindo o Líbano, será anunciado a partir desta noite”. “O texto do memorando de entendimento foi finalizado, e a cerimónia oficial de assinatura do Memorando de Entendimento de Islamabad terá lugar na Suíça, na sexta-feira”, afirmou o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros, Kazem Gharibabadi, frisando: “O texto será divulgado, em breve, e o público poderá ver tanto as conquistas do Irão como os seus compromissos. Os nossos compromissos não são comparáveis aos ganhos e conquistas que garantimos.”

Segundo Teerão, isto abre caminho para negociações de 60 dias, “após a verificação dos compromissos dos EUA”, incluindo o levantamento do bloqueio norte-americano.

Embora não tenha mencionado o Estreito de Ormuz, a agência noticiosa estatal Fars afirmou, em reportagem publicada poucos minutos após o anúncio de Trump, que seria estabelecido um quadro jurídico para regular a navegação nas águas do Golfo Pérsico, em cooperação entre o Irão e Omã. E a televisão estatal iraniana exibiu uma faixa onde se lia: “Os EUA foram forçados a assinar um acordo para pôr fim à guerra.”

Minutos antes de Trump, o primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, anunciou que o acordo estava concluído, apesar das dúvidas anteriores sobre novos ataques israelitas, no Líbano.

“Após intensas negociações, temos o prazer de anunciar que foi alcançado o acordo de paz entre os Estados Unidos da América e a República Islâmica do Irão, escreveu Sharif, no X, frisando que “ambas as partes declararam o fim imediato e permanente das operações militares em todas as frentes, incluindo no Líbano”, que os mediadores facilitarão, nesta semana, reuniões para “lançar as bases para as negociações técnicas” e que a cerimónia oficial de assinatura terá lugar, a 19 de junho, na Suíça.

Depois, agradeceu aos EUA e à República Islâmica do Irão, “pelo seu empenho em encontrar uma solução diplomática para o conflito”, aos “nossos irmãos”, neste esforço de mediação, à grande liderança do Estado do Catar, pelo seu apoio na concretização deste acordo, e à “liderança visionária do Reino da Arábia Saudita e da República da Turquia, pelas suas imensas contribuições neste sentido”.

Também o vice-presidente dos EUA, James David Vance, afirmou que o acordo representa um grande momento, para os EUA, e um “passo muito, muito importante”, mas alertou que há passos a dar por ambas as partes. “Não vou dizer que, amanhã, todos vão cantar ‘Kumbaya’. Vai demorar algum tempo a aprender os caminhos da paz”, afirmou na Fox News.

A declaração de Teerão, divulgada na noite do dia 14, representa o mais próximo que o Irão estará de anunciar um acordo de paz com os EUA, mas mantendo a posição de força e projetando a imagem de que define os termos do acordo e conduz o processo diplomático.

O quartel-general operacional militar da República Islâmica, Khatam al-Anbiya, emitiu um comunicado separado, a afirmar que “o povo resiliente e orgulhoso do Irão demonstrou, com força, que os inimigos humilhados não têm outra opção senão aceitar a derrota e render-se perante um povo inspirado por Deus e pelos soldados do Todo-Poderoso. “Ao impor a sua vontade divina e de ferro aos seus adversários, provaram que não há alternativa para o inimigo senão reconhecer a derrota”, disse Khatam al-Anbiya.

No início do dia 14, o principal negociador do Irão, Mohammad Bagher Ghalibaf, afirmou que os novos ataques israelitas contra o Hezbollah, grupo próximo de Teerão, no Líbano, mostravam que os EUA “ou carecem da vontade de cumprir os seus compromissos ou carecem da capacidade para o fazer”. “Se lhes falta a vontade e a capacidade para cumprir os seus compromissos, é impossível falar em continuar por este caminho”, observou.

Os meios de comunicação estatais iranianos informaram que Teerão não tinha tomado uma decisão final sobre o acordo de paz destinado a pôr fim à guerra entre os EUA e o Irão. Porém, Trump e o Paquistão, que tem desempenhado papel fundamental como mediador nas negociações, deram a entender, no dia 13 que o acordo poderia ser obtido em 24 horas. “A assinatura do acordo está prevista para amanhã e, imediatamente após a assinatura, o Estreito de Ormuz ficará aberto a todos”, escreveu Trump, no Truth Social.

Sharif tinha afirmado, no início do dia, que um acordo estava mais próximo “do que nunca”. “Com a conclusão prevista para as próximas 24 horas, o Paquistão está a preparar-se para a assinatura eletrónica do acordo de paz, imediatamente a seguir, seguida de conversações a nível técnico, na próxima semana”, escreveu Sharif, no X.

O Catar, em destaque, nos últimos dias, como outro negociador-chave nas conversações entre o Irão e os EUA, saudou, no dia 14, o acordo, que inclui “a garantia da liberdade de navegação no Estreito de Ormuz”, e considera-o “um passo importante para a consolidação de uma paz sustentável e a promoção do crescimento económico a nível regional e internacional”.

“O Ministério dos Negócios Estrangeiros expressa o apreço do Estado do Catar pela determinação tanto da parte americana como da iraniana e pelo seu empenho em avançar na resolução de divergências através de negociações e meios pacíficos”, escreveu o ministério, no X.

Uma delegação do Catar esteve na capital iraniana, no início do dia 14, enquanto as negociações prosseguiam. A agência noticiosa Tasnim afirmou que a delegação tinha como objetivo “analisar os últimos desenvolvimentos relacionados com o processo diplomático”.

O acordo continua a depender da aceitação, por parte de Teerão, de reabrir, totalmente, o Estreito de Ormuz, uma das principais rotas mundiais para o transporte de petróleo e gás natural, e de pôr fim ao seu programa de armas nucleares. E Trump afirmou que o acordo serviria como “garantia contra o desenvolvimento de armas nucleares”. “Esperemos que todo este processo se resolva de forma rápida, fácil e sem complicações. Se assim não for, temos a alternativa de último recurso, a que esperamos nunca mais ter de recorrer”, advertiu.

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Enquanto o Irão reivindica vitória, Israel mantém posição irredutível, no primeiro teste ao acordo. Na verdade, Teerão afirmou que os EUA “foram forçados a assinar” uma rendição e os militares iranianos disseram que os inimigos “não tiveram alternativa senão aceitar a derrota”, mas Israel avisou que as forças de defesa de Israel (FDI) ficarão no Líbano, na Síria e em Gaza, “por tempo indeterminado”.

Como é evidente, o acordo enfrenta obstáculos, com Teerão a afirmar que pretende, como vencedor da guerra, controlar o tráfego marítimo, no Estreito de Ormuz, e com Israel a insistir em manter o território conquistado no Líbano, na batalha contra o Hezbollah.

Por outro lado, o acordo de princípio que pôs fim imediato à guerra fica pendente de conversações que desemboquem num “acordo final”, e a agência noticiosa Fars adiantou que será estabelecido, através da cooperação entre o Irão e Omã, um enquadramento jurídico para a navegação nas águas do golfo Pérsico.

Por sua vez, Donald Trump, que anunciou, inicialmente, que a via marítima crucial tinha sido reaberta, com o levantamento do bloqueio naval dos EUA, recuou, afirmando que isso ficava dependente da assinatura do acordo na Suíça, a 19 de junho.

Tanto o Irão como Omã controlam a passagem pelo Estreito de Ormuz, que tem cerca de 38 quilómetros de largura, no ponto mais estreito, por onde circula, habitualmente, um quinto do petróleo e dos carregamentos de gás natural liquefeito (GNL) mundiais, bem como outras mercadorias. Porém, Teerão tinha afirmado que iria introduzir portagens para os navios em trânsito, cobrando taxas de passagem em conjunto com Omã, uma asserção que Mascate rejeitou, com o argumento de que não é legal cobrar quaisquer taxas, porque o Estreito de Ormuz é uma passagem natural e não artificial.

O Irão publicou, no final de maio, um mapa em que reclama o controlo regulamentar de uma faixa do Estreito de Ormuz que se estende, profundamente, pelas águas territoriais dos Emirados Árabes Unidos (EUA) e de Omã, o que levou cinco Estados do Golfo a advertirem as companhias de navegação, através da Organização Marítima Internacional (IMO), a não cumprirem essas instruções.

Teerão tem apresentado o acordo como vitória da República Islâmica e o comando operacional Khatam al-Anbiya fala dos EUA como “inimigos humilhados”, sem alternativa à aceitação da derrota infligida por um povo inspirado por Deus.

Kazem Gharibabadi afirmou que o Irão “derrotou os EUA, no campo de batalha militar”, e que “as forças armadas iranianas terão sempre o dedo no gatilho para enfrentar as conspirações dos inimigos”.

Israel, que participou no primeiro ataque da guerra, a 28 de fevereiro, afirmou que as suas operações continuarão, apesar do anúncio de que o acordo se aplica a todas as frentes, incluindo o Líbano. Com efeito, o ministro israelita da Defesa, Israel Katz, diz que o primeiro-ministro e ele seguem uma política clara segundo a qual as FDI permanecerão nas zonas de segurança do Líbano, da Síria e de Gaza, por um período ilimitado, “para proteger a fronteira e as comunidades israelitas desses locais contra elementos jihadistas”.

Já o ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, considera o acordo “mau, para Israel e para todo o Mundo livre”. “Teremos de continuar, por nossa conta e de forma criativa, a campanha para derrubar o regime e [para] garantir que o Irão nunca terá armas nucleares”, vincou.

O Irão criticou, anteriormente, os EUA por não travarem Israel e a sua intervenção contra o Hezbollah, aliado de Teerão no Líbano, e tem afirmado, repetidamente, que o fim das hostilidades no Líbano é condição prévia para um acordo de paz com os EUA. Tanto assim é que o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi, afirmou, em comunicado, que falou, separadamente, no dia 15, com os homólogos turco, iraquiano e egípcio, para exigir que Israel cesse todas as hostilidades contra o Líbano, e atribuiu aos EUA a responsabilidade pela implementação do acordo e agradeceu aos três países o apoio ao cessar-fogo e aos esforços diplomáticos.

O grupo xiita libanês Hezbollah é o componente mais poderoso do Eixo da Resistência (como lhe chama o Irão), uma rede de grupos armados em todo o Médio Oriente, que inclui o Hamas, em Gaza, os Houthis, no Iémen, e milícias xiitas, no Iraque, que Teerão financia, arma e dirige. A rede foi construída, ao longo de décadas, pela Força Quds do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica e é o principal instrumento de influência regional do Irão.

Israel está envolvido numa intervenção militar contra o Hezbollah, desde os primeiros dias da guerra com o Irão, que se iniciou com ataques conjuntos dos EUA e de Israel contra o Irão, no final de fevereiro, e que resultaram na morte do aiatolá Ali Khamenei. O Hezbollah, em resposta, lançou ataques com mísseis contra Israel, desencadeando o conflito em curso.

A campanha israelita provocou a morte a 3700 pessoas, feriu quase 11500 e deslocou mais de 1,5 milhões, desde março, segundo responsáveis estatais libaneses.

O acordo surge após semanas de negociações tensas e de ameaças periódicas de novos confrontos, mas os detalhes continuam pouco claros. A agência noticiosa iraniana Mehr noticiou que os EUA desbloquearão 12 mil milhões de dólares, em ativos iranianos congelados antes do início das negociações, e citou um memorando de entendimento de 14 pontos, segundo o qual serão libertados 24 mil milhões de dólares, em ativos iranianos congelados no período de negociações de 60 dias, que se iniciará após a assinatura do acordo de princípio.

A administração norte-americana não comentou estes pormenores, que podem vir a ser polémicos numa altura em que os EUA intensificam os esforços para porem termo às ambições nucleares de Teerão e para lidarem com o seu stock de urânio altamente enriquecido, que se diz ter sido enterrado por ataques norte-americanos, em junho de 2025.

Numa entrevista ao New York Times, no dia 14, Trump afirmou que os EUA ainda negoceiam se Teerão suspenderá o enriquecimento, durante 20 anos. E deixou a entender que poderia aceitar uma suspensão de 15 anos, mas salientou que não queria negociar através da comunicação social.

A Casa Branca já tinha rejeitado, anteriormente, como falsas as alegadas versões preliminares do acordo divulgadas na imprensa.

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Num tão grande mar de incerteza, com tantas dúvidas, que bem podem transformar-se em escolhos que podem deitar tudo a perder – a não ser que os EUA estejam dispostos a engolir sapos vivos, é de que questionar o avanço de tantos hossanas ao acordo de princípio, da parte de tantos países e da UE.

Altos responsáveis da UE saudaram o acordo, afirmando que a Europa está pronta para contribuir para uma paz duradoura. O presidente do Conselho Europeu, António Costa, diz que “as armas têm, agora, de se calar”. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, vincando que a prioridade é a rápida e plena aplicação do acordo, apela a “todas as partes para que respeitem a soberania e a integridade territorial do Líbano e cumpram um cessar-fogo genuíno”. E Emmanuel Macron, presidente francês, afirmou que uma missão militar criada por Paris e Londres, para apoiar o tráfego no Estreito de Ormuz, está pronta a ser destacada.

Concordo com o historiador israelo-americano Omer Bartov, segundo o qual, Israel esgotou o crédito para “voltar a invocar o Holocausto”, como disse, em entrevista a Hélder Gomes, jornalista do Expresso; e com João Pedro Barros, editor online do Expresso, para quem, “talvez seja prudente manter o ponto de interrogação no título “O fim da guerra do Irão?”, face ao historial errático de Trump e à natureza do regime teocrático iraniano. 

2026.06.15 – Louro de Carvalho

Importa que os humanos não percam o controlo dos sistemas de IA

 

O governo dos Estados Unidos da América (EUA) emitiu uma diretiva em que ordena à Anthropic a suspensão do acesso aos modelos por parte de cidadãos estrangeiros. A empresa reagiu à proibição de cidadãos estrangeiros de utilizarem algumas das suas mais poderosas ferramentas de inteligência artificial (IA), afirmando que irá cumprir a ordem, mas que discorda da fundamentação avançada pelo governo.

Num texto publicado no seu blogue, na noite do dia 13 de junho, a Anthropic revelou ter recebido, às 17h21 (hora da costa Leste dos EUA), carta do governo a exigir a suspensão do acesso aos modelos de IA Fable 5 e Mythos 5, invocando motivos de segurança nacional.

Como explicou a empresa, a proibição abrange cidadãos estrangeiros dentro e fora dos EUA e inclui colaboradores da Anthropic que sejam estrangeiros. “O efeito prático desta ordem é termos de desativar, de forma abrupta, o Fable 5 e o Mythos 5, para todos os nossos clientes, para garantir o cumprimento”, lê-se no texto, que salvaguarda a não afetação do acesso aos restantes modelos da Anthropic, a qual pediu desculpa pelos transtornos causados aos utilizadores e porfiou estar a trabalhar para repor o acesso assim que possível.

Segundo a Anthropic, as autoridades terão identificado uma forma de fazer “jailbreak” ao Fable 5. “Jailbreak” é um método que contorna as restrições do fabricante ou do software num dispositivo ou plataforma permitindo que os usuários obtenham acesso root, removam as barreiras de gestão de direitos digitais (DRM) ou instalem aplicativos não autorizados e modificações personalizadas. “Jailbreak” de IA ocorre quando um hacker explora vulnerabilidades de um modelo, contornando as orientações éticas, para tentar ações restritas.

A empresa procurou relativizar o problema, afirmando que as vulnerabilidades são “relativamente simples” e que verificou que modelos disponíveis publicamente são capazes de as detetar. Reafirmou que, apesar de cumprir a diretiva, discorda de que “uma potencial forma de “jailbreak”, bastante limitada, deva ser motivo para retirar um modelo comercial disponibilizado a centenas de milhões de pessoas”. E sublinhou ter desenvolvido “robustas salvaguardas que reduzem, significativamente, a probabilidade de o Fable ser usado, de forma indevida, em tarefas relacionadas com a cibersegurança”.

Em reação à notícia, na rede X, Jordan Bardella, eurodeputado e presidente do partido francês de extrema-direita Rassemblement National (RN), considerou que esta decisão é lembrete claro de que a IA é “uma questão central de soberania nacional”. “As nações que não desenvolverem, rapidamente, os seus próprios modelos dependerão, cada vez mais, das escolhas de outras potências. A França deve acelerar o apoio à ‘joia’ Mistral AI [laboratório de IA de ponta, sediado em Paris, que desenvolve modelos fundacionais avançados, combinando abordagens de código aberto com foco na soberania digital] e a todo o ecossistema de IA”, explicou.

Não é a primeira vez que a Anthropic e a administração Trump entram em confronto. Já em fevereiro, Trump ordenou às agências federais dos EUA que deixassem, imediatamente, de utilizar a tecnologia da Anthropic, depois de o CEO, Dario Amodei, e a empresa se terem oposto ao uso das suas soluções para determinadas finalidades de defesa. “Não precisamos dela, não a queremos e não faremos mais negócios com eles!”, escreveu Trump no Truth Social, adiantando que haveria um “período de eliminação gradual” de seis meses.

Mais tarde, a Anthropic anunciou que avançaria com uma ação judicial contra o governo, após este ter classificado a empresa como “risco para a cadeia de abastecimento”.

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A Anthropic foi fundada em 2021 por sete ex-funcionários da OpenAI, incluindo os irmãos Daniela Amodei e Dario Amodei. Este era vice-presidente de pesquisa da OpenAI.

No verão de 2022, a Anthropic concluiu o desenvolvimento da primeira versão do Claude, mas não o lançou publicamente, alegando a necessidade de testes adicionais de segurança e o desejo de evitar o início de uma corrida potencialmente perigosa para o desenvolvimento de sistemas de IA cada vez mais poderosos.

Em 2024, atraiu funcionários de destaque da OpenAI, incluindo Jan Leike, John Schulman e Durk Kingma. Em março de 2025, a Databricks e a Anthropic anunciaram que o Claude seria integrado na Databricks Data Intelligence Platform. E, em maio, a empresa anunciou o Claude 4, apresentando o Claude Opus 4 e o Claude Sonnet 4 com capacidades aprimoradas de programação e outros novos recursos, tal como introduziu novas funcionalidades de API (interface de programação de aplicações), incluindo o conector do Model Context Protocol (MCP), e sediou a conferência inaugural para desenvolvedores.

Em maio desse ano, a Anthropic lançou uma API de pesquisa na web, que permite ao Claude aceder a informações da Internet em tempo real. O Claude Code, assistente de programação da Anthropic, passou da fase de pesquisa para disponibilidade geral, contando com integrações para o VS Code e ambientes da JetBrains, além de suporte para o GitHub Actions.  

Em setembro de 2025, anunciou que deixaria de vender os seus produtos para grupos controlados, de forma maioritária, por entidades da China, da Rússia, do Irão ou Coreia do Norte, invocando preocupações de segurança nacional. Em outubro, revelou uma parceria de nuvem com o Google, que lhe garantiu acesso a até um milhão de unidades de processamento tensor (TPUs) personalizadas, aliança que fornecerá mais de um gigawatt de capacidade computacional para IA online, até 2026. Em novembro, a Nvidia, a MIcrosoft e a Anthropic anunciaram um acordo, segundo o qual a Nvidia e a Microsoft investiriam até 15 mil milhões de dólares na empresa, e a Anthropic adquiriria 30 mil milhões em capacidade computacional da plataforma Microsoft Azure, rodando em sistemas de IA da Nvidia.

Ainda em novembro, a Anthropic reportou que hackers financiados pelo governo chinês utilizaram o Claude para ataques cibernéticos automatizados contra cerca de 30 organizações globais. Os invasores enganaram a IA para que executasse subtarefas, fingindo testes defensivos. E, em dezembro de 2025, a Anthropic adquiriu o Bun, para melhorar a velocidade e a estabilidade do Claude Code, e assinou uma parceria, avaliada em 200 milhões de dólares, com a Snowflake Inc., para disponibilizar os modelos Claude na plataforma da Snowflake, como parte da expansão da implementação corporativa de agentes e ferramentas de IA.

Em fevereiro de 2026, a Anthropic exibiu dois comerciais, durante o Super Bowl LX, como parte de “A Time and a Place”, campanha de marketing mais ampla, que contou com quatro anúncios criados pela agência Mother. Cada peça mostrava assistentes de IA a mudar de assunto, repentinamente, numa conversa para promover produtos fictícios. A Anthropic reforçou que o Claude permanecerá sem anúncios, contrastando com a concorrente OpenAI, que passou a exibir anúncios na versão gratuita do ChatGPT. E, no início de abril, apresentou o Mythos, um dos seus modelos mais recentes.

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Políticos europeus lançaram o alerta sobre a IA soberana, depois de a empresa norte-americana Anthropic (acreditando que a administração norte-americana tinha tomado conhecimento de um método para contornar as proteções de segurança do Fable 5) ter anunciado que ia suspender o acesso a alguns dos seus principais modelos de IA, na sequência de uma diretiva de Trump. A notícia desencadeou uma vaga de reações, em toda a Europa, com muitos responsáveis políticos a dizerem que deve ser um sério teste de realidade para os governos e a apelarem a mais investimento em tecnologia própria.

Bruno Retailleau, ex-ministro do Interior francês e candidato às presidenciais de 2027, escreveu, no X: “A decisão de Washington de cortar o acesso aos modelos mais poderosos da Anthropic deve servir de sinal de alarme. Na corrida à IA, um país que depende de outros para a sua tecnologia é um país que pode ser desligado de um dia para o outro. […] A França tem, na Europa, trunfos únicos: eletricidade nuclear descarbonizada e soberana, engenheiros que estão entre os melhores do Mundo, bem como empresas, como a Mistral, a OVHcloud, a Scaleway e a ChapsVision, capazes de competir com os gigantes americanos. No entanto, é necessário pôr fim à ingenuidade e decidir, finalmente, reforçar o nosso poder tecnológico.”

Al Carns, deputado britânico e ex-ministro das Forças Armadas (demitiu-se, recentemente, devido a diferendo sobre a despesa em defesa), afirmou que o modelo de IA mais avançado do planeta foi desligado por um governo estrangeiro, quando investigadores britânicos o estudavam, empresas britânicas o testavam e hospitais britânicos o experimentavam. “Isto não é uma história sobre IA. É a história de todas as indústrias que antes liderávamos”, disse.

Geert Wilders, líder do partido holandês de extrema-direita, Partido pela Liberdade, apelou, no X, a que os Países Baixos desenvolvam os seus modelos: “Quero de volta o meu #Anthropic Claude Fable 5! […] A IA está cada vez mais ligada à soberania nacional.”

Benjamin Haddad, secretário de Estado francês dos Assuntos Europeus, escreveu: “A decisão da administração Trump de proibir os cidadãos estrangeiros de acederem ao mais recente modelo da Anthropic representa uma aceleração da batalha geopolítica pela IA. […] A Europa não se pode contentar com ser um mercado aberto dependente de tecnologias concebidas, financiadas e controladas noutros lugares. Tem de investir mais, apoiar os seus inovadores e dotar-se de meios para dominar as tecnologias que determinarão o poder no século XXI.”

Tom Tugendhat, deputado britânico e ex-ministro da Segurança, observou: “Desligar o Fable 5 e outros modelos para os estrangeiros não é um mal-entendido nem um erro, é o resultado inevitável de a tecnologia estar a moldar a guerra, de tal modo que a soberania passa a depender mais de código do que de canhões. […] Com custos de energia elevados e a ênfase na segurança, em vez da oportunidade, a resposta do Reino Unido tem sido construir o travão, cortando o país do futuro e amarrando-o ao passado. Não podemos continuar assim.”

Édouard Philippe, primeiro-ministro francês, entre 2017 e 2020, e presidente da câmara de Le Havre, considerou: “Ao restringir o acesso aos modelos mais poderosos da Anthropic para não norte-americanos, o governo dos EUA escolhe submeter o desenvolvimento da IA à sua lógica de poder. […] A IA é, hoje, uma infraestrutura crítica, tão essencial como a eletricidade ou a Internet. Uma infraestrutura cujos modelos e poder de computação não controlamos é uma infraestrutura que outros podem desligar.”

Também Jordan Bardella, presidente do RN, reagiu como referimos.

Por seu turno, a Comissão Europeia reagiu à exclusão europeia dos principais modelos de IA da Anthropic, denunciando que ordem só para americanos é discriminatória e alertando que o controlo de exportações da Anthropic não deve discriminar.

Por conseguinte, a decisão do governo dos EUA de impor controlo à exportação sobre os modelos de IA mais avançados da Anthropic está a merecer o escrutínio da Comissão Europeia, que avalia as implicações para os utilizadores da União Europeia (UE).

O Fable 5 e o Mythos 5 são considerados modelos de última geração. O acesso tinha sido, numa primeira fase, limitado a um grupo restrito de utilizadores, a fim de se avaliar o seu potencial para detetar e explorar vulnerabilidades em ciberataques. “Estamos a assistir à chegada ao mercado de uma nova geração de modelos de IA altamente capazes. Estes modelos oferecem benefícios significativos, nomeadamente, para a ciberdefesa, mas levantam sérias preocupações de cibersegurança que é preciso enfrentar”, afirmou, no dia 14, Thomas Regnier, porta-voz da Comissão Europeia para a soberania tecnológica, frisando tratar-se de desafio partilhado, e não de algo circunscrito a uma jurisdição ou empresa, pelo que “as medidas de contingência adotadas neste contexto não devem ser discriminatórias para com os parceiros”.

Para a Comissão, é mais um sinal de que a Europa deve reforçar a sua soberania tecnológica e de que as leis da UE em cibersegurança e em IA ajudarão o bloco a gerir estes riscos emergentes, nos seus próprios termos. “Estamos a analisar de perto as consequências práticas desta decisão para os utilizadores europeus destes serviços”, disse Regnier.

Está prevista a participação de Dario Amodei, CEO da Anthropic, num almoço, no dia 16, com os líderes do G7 e com os CEO de outras empresas de IA.

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No entanto, é de ter em conta que, a 5 de junho, o cofundador da Anthropic, Jack Clark disse que agentes de IA poderão, em breve, construir e treinar modelos sozinhos e que, se isso acontecer, os humanos poderão perder o controlo dos sistemas de IA. Por isso, pretende que o setor da IA pise o travão, antes de a tecnologia começar a desenvolver-se ainda mais por conta própria, sem intervenção humana.

Em declarações à BBC, Clark afirmou que 80% do trabalho de programação da Anthropic já é feito pela sua IA Claude, podendo chegar aos 100%, em alguns anos. Mas sublinhou que “é uma escolha” deixar que as empresas de IA permitam que se chegue tão longe, sem travar. “Achamos que este é um tema sobre o qual o Mundo devia falar mais”, disse Clark, vincando que a indústria da IA tem, no carro, o pedal de acelerador, mas não o pedal de travão, e “queremos fazer parte do trabalho necessário para construir esse pedal”.

Como explicou a Anthropic, num artigo publicado no seu blogue, na noite do dia 12, trata-se do processo de “autoaperfeiçoamento recursivo”, em que uma IA se melhora a si própria, sem intervenção humana. Num modelo recursivo, os agentes de IA, trabalhadores autónomos criados por um chatbot, podem vir a ser capazes de construírem e de treinarem eles próprios modelos, pelo que Claude “poderia ser continuamente melhorado por Claude”.

Embora uma IA recursiva benefície áreas, como a ciência e a saúde, pode aumentar “os riscos de os seres humanos perderem o controlo sobre sistemas de IA”. “Se os sistemas forem capazes de construir, totalmente, os seus sucessores, tornam-se muito mais importantes as formas como os protegemos, vigiamos e moldamos o seu comportamento”, lê-se no blogue.

Há sinais, no modelo, de que a recursividade pode chegar mais cedo do que tarde. A empresa destaca que as taxas de correção de código pela sua equipa têm diminuído, constantemente, no último ano, o que significa que há menos erros no que Claude produz. Claude consegue também realizar as suas próprias experiências de investigação, quando recebe uma pergunta em aberto, como “Um modelo mais fraco pode supervisionar um modelo mais forte?”, e encontrar soluções por iniciativa própria, sem intervenção humana. “As provas sugerem que o papel dos humanos está a encolher em cada etapa do processo de desenvolvimento de IA”, lê-se no blogue.

A Anthropic adiantou que o seu instituto realizará investigação para criar um sistema que verifique se os desenvolvedores estão a parar ou a abrandar o avanço para IA recursiva. Porém, alerta que o abrandamento real exige que “vários laboratórios bem financiados, na linha da frente ou perto dela, em vários países”, aceitem “parar nas mesmas condições”.

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Como a pessoa humana está por trás da IA, esta deve ser regulamentava pelo poder político, sob critérios científicos e humanistas, mas sem qualquer discriminação.

2026.06.15 – Louro de Carvalho