No
Fórum de Segurança de Varsóvia, na Polónia 12 de outubro de 2026, Alexus
Grynkewich, comandante supremo aliado da Organização do Tratado do Atlântico
Norte (NATO) na Europa (SACEUR), advertiu a Rússia, de forma contundente, que as
forças da Aliança Atlântica destruiriam “tudo e qualquer coisa” envolvida em
qualquer ataque, caso Moscovo fosse “tolo o suficiente” para lançar um ataque
em território aliado.
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O
SACEUR (Supreme Allied Commander Europe ou Comandante Supremo Aliado na
Europa) é o principal comandante militar do Comando da Operações Aliadas (ACO)
da NATO e chefe do Quartel-General Supremo das Potências Aliadas na Europa (SHAPE),
quartel que está localizado em Casteau, perto de Mons, na Bélgica.
É
o segundo cargo militar mais alto da NATO, logo abaixo do presidente do Comité
Militar da NATO. Tem sido ocupado, sempre, por um oficial general (ou um almirante)
de quatro estrelas dos Estados Unidos da América (EUA), desde a sua criação, em
1950, tendo sido o primeiro titular o general Dwight D. Eisenhower. E esse oficial
general acumula o cargo de comandante do Comando Europeu dos Estados Unidos
(USEUCOM).
Desde
4 de julho de 2025, o SACEUR é Alexus Grynkewich; e o adjunto (DSACEUR) é,
desde março deste ano, o marechal do Ar Sir Johnny Stringer, do Reino
Unido.
Trata-se
de um comando operacional ao qual incumbe o comando geral das operações
militares da NATO, a condução do planeamento militar, a identificação as forças
necessárias junto dos países membros e o reporte ao Comité Militar
da NATO para as atividades do dia a dia.
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Alexus
Grynkewich apresentou, no fórum, a nova estratégia de defesa destinada a
garantir que qualquer ataque a um membro da Aliança se revele “totalmente
inútil”, numa altura em que os países no flanco oriental da NATO enfrentam
sabotagens, incêndios e incursões de drones. Por conseguinte, a nova estratégia
procura negar aos adversários qualquer base de operações e desmantelar as suas
capacidades de combate, uma vez que a NATO está pronta para bloquear, para conter
e para derrotar qualquer ataque externo.
Falando
no Fórum de Segurança de Varsóvia, Grynkewich afirmou que a estratégia,
conhecida como ‘Teoria da Guerra’, foi concebida para negar aos adversários a
capacidade de penetrarem em território da NATO e de sustentarem um ataque. “Se
formos atacados, estamos prontos para combater já esta noite”, disse o SACEUR, com
fortes aplausos, acrescentando. “Continuaremos a preparar-nos e a treinar,
todos os dias, para estarmos mais preparados amanhã e ainda mais preparados
depois de amanhã.”
Grynkewich
explicou que a estratégia visa tanto tranquilizar os mil milhões de pessoas que
vivem sob o guarda-chuva de segurança da NATO como deixar claro a adversários,
como a Rússia, que a Aliança está disposta a responder a uma invasão. “As
formações inimigas ficarão privadas de reforços. Os comandantes inimigos
ficarão incapazes de controlar as suas forças. As forças inimigas e as
capacidades de apoio serão reduzidas e destruídas. […] Em suma, vamos garantir
que qualquer ataque, contra qualquer aliado, se revele totalmente inútil”, prometeu.
Aprovado
pelos 32 membros da NATO, o plano estratégico de Grynkewich combina capacidades
militares convencionais, incluindo forças terrestres e meios materiais, com
tecnologias avançadas como drones, sistemas antidrone e inteligência artificial
(IA).
A
estratégia tira, igualmente, partido das lições dos conflitos modernos, em
particular dos combates em terra e no ar sobre a Ucrânia. “Estamos a aprender
imenso com os parceiros ucranianos”, disse Grynkewich ao fórum.
A
estratégia assenta em três princípios, que se concretizam em três fases com a
mesma designação – “bloquear”, “travar” e “destruir” – que o SACEUR descreveu
como simples, mas centrais na abordagem da NATO. “Vamos bloquear o ataque
inicial. Se o ataque persistir, vamos travá-lo e impedir qualquer avanço
inimigo. E, se necessário, vamos destruir as forças do inimigo e o sistema
operacional de guerra mobilizado contra nós”, explicou.
O
bloqueio pretende impedir um avanço inicial das forças inimigas. Nestes termos,
a primeira fase centra-se em impedir que forças hostis conquistem território
aliado, com as forças terrestres da NATO a envolver as formações em avanço,
contendo os seus movimentos e destruindo as forças que tentem penetrar em
território da Aliança. “Vamos fixar as formações inimigas e impedir a tomada de
território da Aliança. […] As forças baseadas em terra atacarão o inimigo e
destruirão as suas forças em avanço”, explicitou Grynkewich.
Se
o ataque inicial continuar, a NATO, em segunda fase, a do travar, recorrerá a
um leque mais vasto de capacidades para perturbar e sobrecarregar as forças em
avanço. Entre essas capacidades, contam-se sensores avançados e sistemas
autónomos, capazes de identificar e de avaliar ameaças com pouca ou nenhuma
intervenção direta humana.
Nesse
sentido, segundo Grynkewich, a estratégia combinará capacidades em vários
domínios operacionais, para impedir que as forças inimigas façam novos avanços.
A
fase final, a do destruir, terá como alvo não só as tropas inimigas, mas também
os sistemas que lhes permitem operar, incluindo estruturas de comando, redes de
abastecimento e outra infraestrutura logística, recorrendo a capacidades como
ataques de precisão de longo alcance e redes de sensores, para neutralizar
toda a capacidade de combate do inimigo.
O
objetivo, no dizer do SACEUR, é perturbar o conjunto das operações militares do
adversário e deixar as suas forças incapazes de sustentar um ataque. “A
abordagem tira também lições da guerra moderna na Ucrânia e no Médio Oriente”, esclareceu
Grynkewich.
O
comandante supremo aliado da Organização do Tratado do Atlântico Norte na Europa
sublinhou que a estratégia da NATO é defensiva, ou seja, visa proteger o
território aliado e não perseguir ambições territoriais. “Não temos planos, nem
intenções, nem ambições, além da proteção das nossas populações e da defesa do
nosso território”, disse.
Depois,
referiu que a probabilidade de um ataque iminente contra a Aliança é baixa, mas
advertiu que a NATO responderá, convenientemente, se um adversário decidir
atacar. “Se alguém for suficientemente imprudente para nos atacar, vamos
combater”, assegurou.
As
declarações do SACEUR surgem em maré de crescentes preocupações de segurança
entre os membros da NATO, sobretudo, no flanco oriental, onde as autoridades
relatam incidentes que envolvem sabotagens, incêndios e incursões de drones,
alguns com explosivos de uso militar. Além disso, é sabido que a Rússia controla
o maior arsenal nuclear do Mundo, com cerca de 4400 ogivas armazenadas,
incluindo 1796 estrategicamente posicionadas. E alteração da sua doutrina nuclear
é a maior ameaça à NATO.
Grynkewich
afirmou que o contexto de segurança cada vez mais exigente reforça a
necessidade de a NATO demonstrar a sua prontidão para defender o território
aliado. E questionado sobre se a estratégia continua viável numa altura em que
alguns estados-membros manifestam dúvidas, quanto ao compromisso dos EUA para com
a NATO, remeteu para a promessa de defesa coletiva da Aliança e lembrou que Washington
acordou, na cimeira da NATO, em julho, uma declaração que reafirma o seu
“compromisso inabalável com o Artigo 5.º”.
O
Artigo 5.º é a pedra angular do princípio de defesa coletiva da NATO, segundo o
qual um ataque armado contra um membro é considerado um ataque contra todos.
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Os
governos europeus vêm acusando Moscovo de intensificar uma campanha de
sabotagem, incursões com drones e ataques cibernéticos contra eles; o próprio Reino
Unido acusou recentemente, a Rússia de ter interferido no referendo de que
resultou o Brexit, ou a saída do Reino Unido da União Europeia (UE); e a
Rússia avisou, em setembro, que usaria armas nucleares, se a NATO tentasse
isolar o seu enclave de Kaliningrado.
No
seu discurso no Fórum de Segurança de Varsóvia, Grynkewich não mencionou a
Rússia nominalmente, mas a sua mensagem era direcionada a Moscovo; e o Conceito
Estratégico da NATO para 2022 elege a Rússia como a ameaça mais significativa à
segurança da aliança. E, na sequência da perceção dessa ameaça, o SACEUR,
prometeu luta defensiva: “Iremos deter o ataque e impedir que alcancem os seus
objetivos, quaisquer que sejam. Em suma, garantiremos que qualquer ataque,
contra qualquer aliado, se mostre completamente inútil.”
Grynkewich
advertiu o Kremlin, sem o nomear, de que, se necessário, isso envolveria uma
retaliação maciça, atingindo muito além das forças na área sob ataque. “Caso o
adversário opte por prosseguir com o ataque ou por mobilizar suas reservas,
romperemos o sistema de guerra empregado contra nós”, assegurou, explicitando
que “isso inclui não apenas a força atacante em si, mas tudo aquilo que apoia,
sustenta e controla essa força”.
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No
entanto, a NATO vem mostrando bastantes fragilidades, desde logo, a posição de
subserviência do secretário-geral, Mark Rutte, às arremetidas do presidente dos
EUA ou de suas declarações que oscilam entre o reforço do valor da Aliança
Atlântica e a alegação de que o modelo de funcionamento da aliança de 32 países
“não é sustentável” (disse-o, a 1 de outubro, em entrevista à Euronews).
E, embora sustente que os EUA manterão o envolvimento na Europa, no domínio
nuclear e no convencional, defendeu que o problema não é o compromisso
norte-americano, mas a falta de sustentabilidade da NATO, pois, em sua opinião,
não é sustentável que um país “assuma uma responsabilidade excessiva pela
defesa de 600 milhões de europeus”.
Nem
é verdade que a defesa da Europa tenha sido garantida apenas pelos EUA, nem é
verdade que a Europa não tenha procurado robustecer a sua defesa. Não obstante,
a fragilidade da NATO está patente em episódios como o de 5 de outubro, em que
o subsecretário da Defesa dos EUA, Elbridge Colby, reuniu, em Varsóvia,
representantes de cinco aliados-chave da NATO para debater as capacidades
militares e o futuro da Aliança, excluindo os outros aliados, o que pode gerar,
segundo os críticos, uma divisão “tóxica”.
Conhecido
como Grupo de Bergen, após a reunião inaugural, na Noruega, em 2025, o formato
reúne a Suécia, a Finlândia, a Polónia, a Alemanha e os Países Baixos. Assim, o
Reino Unido, a França e os países bálticos não foram convidados. “Em última
análise, isto é muito tóxico, para uma aliança que assenta na atuação
coletiva”, disse Fabrice Pothier, diretor executivo da consultora geopolítica
Rasmussen Global, relevando que isto mostra que os EUA têm favoritos.
O
grupo foi criado para discutir o futuro da NATO, numa fase em que a Aliança
evolui para a NATO 3.0: modelo concebido nos EUA, no momento em que a Europa
assume a liderança da defesa convencional do continente, a par da redução do
papel tradicional norte‑americano, com a retirada de capacidades‑chave, como
bombardeiros, submarinos e pessoal atualmente colocado ao serviço da Aliança.
Porém,
um responsável da NATO, minimizando a importância deste subgrupo separado,
liderado por Washington, diz que “não é invulgar que grupos de aliados se
encontrem em formatos mais pequenos”. Trata-se de conversações rotineiras. Contudo,
outras vozes defendem que o esquema separa os membros em categorias de “bons
europeus” e “maus europeus”, ao mesmo tempo que reforça a influência de
Washington em toda a Aliança.
Pothier
reconhece que grupos mais pequenos podem fazer avançar novas ideias nas
organizações, por exemplo, através da divulgação de ‘non‑papers’, e que os países
convocados “oferecem uma massa crítica desejada – terrestre, aérea e marítima”,
mas considera que Washington escolheu os países de Bergen por cumprirem
critérios de defesa importantes.
E
o também antigo diretor de planeamento político, Fabrice Pothier, diz que a
divisão de partes da Aliança em subgrupos alimenta o receio de os EUA estarem dispostos
a defender mais alguns aliados do que outros. “Introduz‑se a ideia de que os
Estados Unidos favorecem certos aliados e tenderiam a defender esses aliados
antes dos restantes”, afirmou, evocando o “ressentimento” do presidente norte‑americano,
Donald Trump, face à recusa inicial do Reino Unido e da França em participarem
na guerra com o Irão, juntamente com a aposta francesa na aquisição de
equipamento militar europeu.
Porém,
os diplomatas britânicos rejeitam a ideia de que o Reino Unido esteja a ser
afastado, vincando que mantêm contactos regulares com os seus homólogos norte‑americanos.
No
caso, é particularmente significativa a ausência dos Estados bálticos, os
que mais investem em defesa, em proporção do produto interno bruto (PIB) e os
que se situam na linha da frente da Aliança, face à Rússia. Além disso, a
região tem sido alvo de repetidos ataques híbridos, incluindo incursões de
drones, incêndios e atos de sabotagem, como já foi referido.
A
exclusão surge na sequência da visita de Colby à sede da NATO, em Bruxelas, em
agosto, quando, segundo fontes da organização, instou os responsáveis bálticos
a adotarem um tom menos confrontacional, ante a agressão russa. E uma fonte
referiu que Elbridge Colby invocou os renovados esforços norte‑americanos para
pôr fim à guerra na Ucrânia, como motivo para moderar a retórica de que se está
“em guerra” com a Rússia.
Washington
convidou, igualmente, o presidente russo, Vladimir Putin, para a cimeira do G20
em Miami, em dezembro, num complexo de golfe que é propriedade de Trump. “É
provavelmente a primeira vez, desde o alargamento da NATO, que se regista uma
clivagem entre os Estados Unidos e os Bálticos”, disse Pothier, acrescentando: “Sabemos
que esta administração norte‑americana se mostra muito menos incomodada com a
agressão russa.”
A
situação nos Bálticos continua tensa, devido às constantes incursões, com
drones e com outras formas de guerra encoberta, o que leva governos, forças
armadas e populações civis a manterem‑se em permanente estado de alerta. Por
exemplo, a 3 de outubro, o aeroporto de Vilnius, a capital da Lituânia, foi
obrigado a encerrar durante cerca de uma hora, levando ao descolar de dois
caças da NATO em resposta à suspeita de intrusão de drones, a partir da
Bielorrússia. E, face a esta situação, o governo lituano convidou Colby a
visitar a região, para observar, de perto, as violações em curso do espaço
aéreo. “Dizemos o que vemos”, disse um diplomata báltico à Euronews, ao
defender a postura militar avançada da região, frisando que Moscovo precisa de
perceber que o custo da sua guerra encoberta tem de ser “duro”.
E
o comissário europeu da Defesa, Andrius Kubilius, antigo primeiro‑ministro
lituano, apelou, igualmente, a resposta mais firme, na Cimeira da Euronews
sobre Defesa e Espaço realizada a 30 de setembro, em Bruxelas. “Se formos
atingidos por ataques híbridos russos, as nossas respostas devem ser tão
dolorosas quanto esse ataque”, afirmou Kubilius.
Entretanto,
uma fonte sediada em Washington disse que a reunião exclusiva de Varsóvia parece
ser “manobra de provocação” por parte dos EUA, contribuindo para dividir a NATO.
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Enfim,
a NATO precisa de estar unida e coesa. E, se julga que é benéfico o estudo em
subgrupos, que o defina, a contento de todos, e não de forma sub-reptícia.
2026.10.12 – Louro de Carvalho