segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Morte dos rios põe em causa a subsistência do planeta e da Humanidade

 

As grandes civilizações nasceram junto ao Tigre e ao Eufrates, na Mesopotâmia, e junto ao Nilo, no Egito – o chamado “Crescente Fértil” –, bem como junto ao Rio Amarelo, na China, e junto ao Indo e ao Ganges, na Índia. Posteriormente, enquanto Alexandre Magno atravessava vários rios (como o Granico, na Ásia Menor), para lograr as suas conquistas, Roma desenvolveu-se à beira do Tibre e do seu império fez-se a “civilização ocidental cristã”, a qual, hoje, na sua mais grave crise, devia ver-se espelhada nos rios que poluiu.

O sociólogo brasileiro Ruben Siqueira, articulista do EcoDebate, sustentava, em 2021, que, no Brasil, os rios foram os caminhos de interiorização da civilização introduzida pelos portugueses.

Porém, a civilização humana não se alimenta só da água; também toda a incomensurável e complexa biodiversidade é essencial para a sobrevivência do homem sobre a Terra. Hoje, nos campos e nas cidades, os rios estão moribundos, por causa da poluição das suas águas e dos solos que os margeiam. Preservar as águas, para muita gente, não pertence à lógica que rege o desenvolvimento. O nosso estilo de vida leva à corrosão dos recursos naturais e ao lixo excessivo. E as águas são as primeiras a sinalizar o início do fim.

A combinação de terra, água, luz do Sol e o zelo, predominantemente, feminino originou a agricultura, há 12 mil anos. Desde então, a tecnologia evoluiu no controlo dos fatores naturais de produção agrícola, até ao ponto de prescindir deles. Em muitas áreas de cultivo, o solo não é mais do que o sustentáculo da planta e toda a nutrição é artificial, feita por microgotejamento eletrónico. O agricultor, sentado ao computador numa sala climatizada, vai teclando as quantidades de fertilizantes que sobem pela água bombeada do rio. Os gases libertados pelos fertilizantes químicos são dos piores de origem agropecuária, que respondem por 25% dos gases de efeito estufa (GEE) que aquecem o planeta. E os rios acabam por ser dos maiores destinos da maior parte dos produtos tóxicos (são-no, em termos relativos), só ultrapassados pelos oceanos (em termos absolutos).

O modelo da moderna agricultura, chamada “Revolução Verde”, propôs-se “desenvolver” as áreas rurais. A concentração da terra e da água, das sementes e dos investimentos públicos em grandes empresas agropecuárias aumentou a produção, mas de produtos agrícolas brutos ou com pouca industrialização, cultivados ou criados em larga escala (servindo de matéria-prima para a fabricação de outros bens), como (soja, carne, suco de laranja e etanol) para exportação e para especulação no mercado de capitais. Cai o consumo de arroz e de feijão, o que significa má alimentação e fome. E as cidades violentas e inseguras, não param de inflar.

Em muitos lugares, o campo ou ficou inculto ou esvaziou-se para domínio do agronegócio globalizado, de que resulta miséria camponesa e degradação ambiental. Expandem-se o agronegócio hidrointensivo e a onda dos agrocombustíveis, como pseudossolução para o aquecimento global, e intensifica-se a irrigação, que já consome 70% das águas disponíveis.

A par da irrigação e dos esgotos, as barragens e hidroelétricas condenaram muitos dos rios e não param de aumentar, sem que não se discutam os custos, nem para quê e para quem tanta energia.

No dizer de Ruben Siqueira, “um rio é como um espelho que reflete os valores de uma sociedade”, a nossa não vale o que bebe e come. Por isso, o sociólogo entende que, esgotado o “desenvolvimento”, urge recuperar o “envolvimento”. E, neste âmbito, só a agroecologia pode salvar a Humanidade, salvando a Terra, os rios, a agrobiodiversidade, os territórios, as tradições culturais, a soberania alimentar. Nisto, poderemos aprender muito com os povos originários, sobreviventes à colonização.

E Ruben Siqueira advertia que a gestão territorial e participativa das águas, através dos comités de bacias poderá até contribuir para piorar o quadro, se for subserviente aos interesses expansionistas do capital. Por isso, a luta maior é pela revitalização integral.

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Os rios mais poluídos do planeta são:

* o rio Citarum, na Indonésia, que sofre com o despejo diário de centenas de toneladas de lixo e de resíduos tóxicos, como chumbo, mercúrio e arsénico, vindos de mais de duas mil fábricas têxteis e do esgoto de milhões de habitantes (é o mais poluído de todos);

* o rio Ganges, na Índia, um dos mais sagrados do país, contaminado por grandes volumes de esgoto não tratado, por resíduos químicos industriais e por restos de cremação religiosa;

* o rio Yamuna, também na Índia, o principal afluente do Ganges (passa perto do Taj Mahal), que apresenta níveis críticos de matéria orgânica e de oxigénio quase nulo;

* o rio Amarelo / Huang He, na China, muito afetado pela contaminação pesada, decorrente da mineração de carvão e do escoamento de indústrias ao longo da sua bacia;

* o rio Buriganga, no Bangladesh, em Daca, considerado biologicamente morto, devido ao descarte direto de dejetos humanos e de resíduos tóxicos de curtumes;

* o rio Sarno, na Itália, considerado um dos mais poluídos da Europa, sofrendo com a forte pressão da agricultura intensiva e de descargas industriais com metais pesados.

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As secas cada vez mais extremas, no planeta, gritam, continuamente, que, sem água não há vida. Além de imprescindível para a sobrevivência de todos os seres vivos, é fundamental para o desenvolvimento socioeconómico, para a produção de energia e para a adaptação às mudanças climáticas. Porém, atualmente, o enorme desafio é a poluição dos rios, mas também dos mares, dos oceanos, dos canais, dos lagos e das barragens (está tudo em conexão) – o que põe em perigo a saúde de milhões de pessoas no Mundo.

As águas do Ganges descem limpas e cristalinas pela cidade indiana de Rishikesh, situada às portas do Himalaia. Nessas montanhas, ninguém dirá que é um dos leitos fluviais mais poluídos do Mundo, com concentrações de bactérias fecais, que chegam 31 milhões, por cada 100 mililitros, segundo a Fundação Sankat Mochan, organização que luta por devolver ao Ganges o antigo esplendor. Isto faz do rio sagrado símbolo da poluição hídrica, problema global que afeta um de cada três habitantes do planeta, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU).

A Organização Mundial da Saúde (OMS) define água contaminada como a que sofre alterações na sua composição, até ficar inutilizável. É água tóxica que não pode ser bebida, nem usada em atividades essenciais, como a agricultura, que é fonte de insalubridade, que provoca mais de 500 mil mortes anuais, a nível global, por diarreia, e que transmite doenças, como a cólera, a disenteria, a febre tifoide e a poliomielite.

Segundo a origem, há diferentes tipos de poluição da água: a química, produzida por pesticidas, fertilizantes e metais pesados, que podem causar doenças, se forem consumidos; a biológica, causada por bactérias, por vírus e por parasitas resultantes de resíduos humanos e animais; a física, que ocorre, devido à presença de plásticos, de sedimentos e de resíduos que danificam os ecossistemas; a térmica, causada pela descarga de água quente das fábricas em rios e em lagos, aniquilando a fauna marinha; e a poluição por microplásticos e por partículas de plástico presentes na água e cujas consequências da sua ingestão estão em investigação.

Os principais poluentes da água incluem bactérias, vírus, parasitas, fertilizantes, pesticidas, medicamentos, nitratos, fosfatos, plásticos, resíduos fecais e até substâncias radioativas, que nem sempre mudam a cor da água, de tal modo que a poluição hídrica é, muitas vezes, invisível, pelo que se utilizam análises químicas de pequenas amostras e de organismos aquáticos.

Embora a presença de plásticos no oceano tenha sido problema recorrente, ao longo dos anos, hoje, diferentes produtos poluentes afetam os ecossistemas marinhos. Os microplásticos são o grande perigo presente em todos os mares. Todavia, produtos, como os resíduos farmacêuticos, também poluem o meio aquático, sobretudo, através de águas residuais urbanas e industriais, e os tratamentos convencionais nem sempre os eliminam, por completo. Alguns poluentes persistentes são compostos derivados de produtos narcóticos, como a cocaína; de agroquímicos, como a atrazina; de cuidados pessoais, como os parabenos (conservantes que impedem o crescimento de bactérias, de fungos e de bolor); e da indústria alimentar, como a cafeína.

A poluição da água configura uma das problemáticas mais urgentes, a nível mundial. Cerca de 2,1 mil milhões de pessoas não acedem à água potável, de forma segura, afetando a saúde e a economia. Na maioria dos países onde há dados, as mulheres e as meninas assumem a responsabilidade principal de recolher água em locais de grande stresse hídrico. Em regiões, como a África Subsariana e a Ásia Central, muitas dedicam mais de 30 minutos diários a essa tarefa, o que limita as oportunidades educativas e profissionais, aumentando a disparidade socioeconómica e de género. E, se a água estiver poluída, a exposição a doenças, como a cólera ou a hepatite A, torna-se sério perigo para a vida. Essa é realidade cada vez mais frequente, já que, segundo a ONU, 80% das águas residuais é despejada, sem tratamento, no meio ambiente, o que faz com que grande quantidade da água que as pessoas consomem, nos países em vias de desenvolvimento (PED) contenham resíduos altamente tóxicos.

Também na alimentação, o impacto é direto. A agricultura depende de água limpa, para regar culturas, para manter a qualidade do solo e para proteger a produção pecuária. Se a água contiver poluentes ou não houver dela suficiente disponibilidade, os rendimentos diminuem, as perdas aumentam e podem ser afetados os preços e a segurança alimentar.

Em setores, como o da energia, a poluição representa um grande problema económico. A produção hidroelétrica e as grandes instalações elétricas dependem de grandes fluxos de água limpa para os seus sistemas de refrigeração. Quando a água disponível está poluída com sedimentos ou com matéria orgânica, a eficiência termodinâmica das centrais reduz-se, drasticamente, e os custos de manutenção disparam, afetando os preços do serviço. Paralelamente, o perigo do custo influencia as cidades, já que o tratamento de água potável e de águas residuais exige grande investimento em infraestruturas, em energia e em manutenção. À medida que a poluição aumenta, os municípios devem dedicar mais recursos para assegurarem o serviço, o que se traduz em maior gasto público e em menos recursos para outras prioridades.

A poluição da água afeta o meio ambiente, a vida diária, a economia e a estabilidade social, a qual garante a todos a possibilidade das mesmas oportunidades.

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Fatores naturais, como a filtração do mercúrio presente na crosta terrestre, podem poluir os oceanos, rios, lagos, canais e represas. No entanto, o mais comum é que a degradação da água seja causada pelas atividades humanas e pelas suas consequências, a saber: o aumento da temperatura terrestre, devido às emissões de dióxido de carbono (CO2), aquece a água e faz com que o seu nível de oxigénio diminua; a desflorestação pode esgotar as fontes hídricas e gerar resíduos orgânicos, que servem de terreno fértil para bactérias contaminantes; os despejos de produtos químicos provenientes destes setores são uma das principais causas da eutrofização da água; mais de 80% das águas residuais do Mundo que chegam ao mar e aos rios não é tratada; grande parte dos plásticos que poluem os oceanos provém de barcos de pesca, de petroleiros e de navios de carga; o transporte e o armazenamento de petróleo e dos seus derivados podem causar vazamentos que chegam às fontes de água.

A deterioração da qualidade da água traz efeitos negativos ao meio ambiente, à saúde e à economia global. De facto, quando a demanda biológica de oxigénio, indicador do nível de contaminação orgânica da água, ultrapassa determinado limite, o crescimento do produto interno bruto (PIB) das regiões localizadas nas bacias hidrográficas pode cair até um terço.

A poluição hídrica empobrece os ecossistemas aquáticos e facilita a proliferação descontrolada de algas fitoplanctónicas nos lagos – processo conhecido como eutrofização.

A pesca em águas contaminadas e a utilização de águas residuais na pecuária e agricultura, podem transmitir toxinas aos alimentos que prejudicam a saúde, ao serem ingeridos. A ONU admite que ainda há vários milhares de de pessoas, no Mundo, sem acesso à água potável e ao saneamento, especialmente, em áreas rurais. A OMS estima que cerca de dois mil milhões de pessoas consomem água potável contaminada por dejetos, expondo-se ao risco de contrair doenças, como cólera, disenteria e hepatite. E, segundo a ONU, as doenças diarreicas vinculadas à falta de higiene provocam a morte em cerca de mil crianças, por dia, em todo o Mundo.

A poluição da água afeta tanto os países ricos como os pobres e a água poluída tem efeitos daninhos na economia de países e regiões.

Quando a demanda biológica de oxigénio aumenta, o PIB das regiões afetadas reduz-se 33,33%. Os fertilizantes chegam a aumentar os casos de atraso no crescimento das crianças, em 19%. A exposição aos nitratos, em idades precoces, afeta o desenvolvimento e pode ser letal. O rendimento agrícola diminui, à medida que aumenta a salinidade da água. A água salgada danifica, anualmente, alimentos suficientes para abastecer 170 milhões de pessoas.

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Segundo um relatório da ONU, de 2026, hoje, 75% da Humanidade vive em zonas de escassez ou de insegurança hídrica e, a cada ano, a crise se agrava. Por isso, devemos adotar uma série de medidas para conter essa crise, desde logo, reduzir as emissões de CO2.

Para evitar o aquecimento global e a acidificação dos oceanos, devemos reduzir o uso de pesticidas químicos e de nutrientes, em culturas agrícolas. É também necessário reduzir e tratar as águas residuais, de forma segura, para que, além de não poluírem, possam ser reutilizadas para irrigação e para produção de energia.

É preciso limitar o uso de plásticos de um só uso, que acabam por flutuar em rios, em lagos e em oceanos, muitos deles na forma de microplásticos. E há que promover a pesca sustentável, para garantir a sobrevivência das espécies e evitar o esgotamento dos mares.

Governos, cidadãos e empresas têm a responsabilidade para fazer ações conjuntas, para proteger os ecossistemas e para realizar projetos que melhorem o bem-estar das espécies marinhas, como o controlo da pesca de animais em risco de extinção. Paralelamente, regulamentação mais rigorosa e controlo rigoroso dos despejos são a base para reduzir a poluição.

Há urgência de pesquisa e de tecnologias que melhorem o tratamento de águas residuais. Por outro lado, a monitorização, em tempo real, com sensores inteligentes, com telemetria e com plataformas de IoTm (Internet das Coisas ou sistemas em nuvem que ligam dispositivos físicos a aplicações, recolhem dados e gerem redes de sensores) permite detetar, instantaneamente, contaminação, antecipar picos de carga e definir doses de tratamento, de modo eficiente. E a economia circular da água, ao invés da abordagem linear (captar, usar e descartar), propõe fechar o ciclo da água, minimizando o consumo de recursos hídricos virgens, reduzindo a poluição e gerando valor agregado, a partir do tratamento e da reutilização da água.

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Cursos e extensões de água doentes, lesam a Humanidade, a todos os níveis.

2026.10.05 – Louro de Carvalho

O apólogo e a parábola da vinha: de Isaías a Mateus

 

A liturgia do 27.º domingo do Tempo Comum, no Ano A, recorre à imagem da vinha para falar do Povo que aceita o desafio do amor de Deus e que se põe ao serviço de Deus. Desse Povo, Deus exige frutos (obras) de amor, de paz, de justiça, de bondade e de misericórdia.

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Na primeira leitura (Is 5,1-7), o profeta atesta o amor e a solicitude de Deus pela sua vinha. Porém, o amor e a solicitude de Deus não podem ter como contraponto frutos de egoísmo e de injustiça. O Povo de Javé tem de se deixar transformar pelo amor sempre fiel de Deus e produzir os frutos que Deus aprecia: justiça, direito, respeito pelos mandamentos, fidelidade à Aliança.

Isaías, filho de Amós, profetizou em Jerusalém, no reino de Judá, na segunda metade do século VIII a.C. (desde por volta de 740-739 a.C.); os seus oráculos vão até perto de 700 a.C.; e a sua pregação abarca um arco de tempo bastante longo e abrange vários reinados.

Tal como os outros profetas, não fala de realidades abstratas, mas de acontecimentos concretos, tocando a realidade da vida, dos problemas, das inquietações, das esperanças dos homens.

A primeira fase do seu ministério desenrola-se no reinado de Jotam (740-734 a.C.), uma época de relativa tranquilidade política, em que Judá se mantém afastado da cena internacional e das jogadas políticas das superpotências. Todavia, o olhar crítico do profeta deteta uma realidade distinta: a sociedade de Judá está marcada por grandes injustiças e por arbitrariedades; os poderosos exploram os mais débeis; os juízes deixam-se corromper; os latifundiários deixam-se dominar pela cobiça e inventam esquemas legais para se apropriarem dos bens dos mais pobres; os governantes oprimem os súbditos; e as senhoras finas de Jerusalém vivem no luxo e na futilidade – tudo no desrespeito absoluto pelas necessidades e carências dos mais pobres.

O culto floresce na abundância inaudita de práticas de piedade e de abundantes e solenes manifestações religiosas, mas todo ele é incoerente e mentiroso, pois não resulta da verdadeira adesão a Javé, mas da tentativa de acalmar as consciências e de comprar Deus.

Assim, Jerusalém deixou de ser a esposa fiel, para se converter numa prostituta, ou, noutros termos, a vinha cuidada por Deus só produz frutos amargos, e não os frutos bons (de justiça e de amor), pedidos a quem vive envolvido no ambiente da Aliança.

O “cântico da vinha” terá sido um cântico de vindima ou um cântico de trabalho, que um poeta popular entoava para o círculo de amigos ou de companheiros de trabalho. Mas, rapidamente, adquiriu duplo sentido e passou a evocar outra realidade. Na cultura judaica, a vinha é um símbolo do amor. Nestes termos, o “cântico da vinha” é, na boca do poeta popular, a cantiga de amor, que descreve o esforço do jovem apaixonado para conquistar a amada. E Isaías utiliza esta cantiga de amor como recurso para transmitir a mensagem que Deus lhe confiou.

O profeta/poeta brinca com as sonoridades e com o ritmo, alterna os sons doces das canções de amor com os sons ásperos das canções de trabalho. Os interlocutores, atentos e fascinados, escutam, com prazer, a descrição das patéticas tentativas do poeta para conquistar a amada. Ouvem-no falar dos seus trabalhos para construir a sua vinha, dos seus cuidados com ela, das suas ilusões, dos seus sonhos; sorriem, ante as alusões ao lagar (onde é feito o vinho do amor) e à torre (de onde o amado vigiará, para que ninguém entre na sua vinha e colha os frutos do seu amor). Aprovam, quando ele, após tantos cuidados, fica à espera dos frutos saborosos do amor que cultivou. Ficam revoltados, quando, depois de todo o empenho do amado, a vinha só lhe ofereceu frutos azedos. O auditório simpatiza com o poeta, identifica-se com ele e partilha a sua desilusão.

De súbito, o poeta transforma o cântico em queixa e reclama justiça. Interpela os interlocutores e exige deles um veredicto. Todos concordam que o profeta/poeta tem razão e que tem o direito de tirar a vedação protetora da vinha, em não voltar a cuidar dela, em dar ordens às nuvens para que não a fecundem com a chuva. E, quando o seu público pronunciou, mentalmente, o veredicto favorável ao profeta/poeta, este lança-lhe a acusação que vinha a preparar: “A vinha do Senhor do universo é a casa de Israel e os homens de Judá são a plantação escolhida. Ele esperava retidão e só há sangue derramado; esperava justiça e só há gritos de horror.” Quer dizer: o veredicto volta-se contra os interlocutores do profeta que personificam o Povo de Deus.

A imagem da vinha aplicada ao Povo de Deus é recorrente na Bíblia. Os profetas e os catequistas de Israel viram, na imagem da vinha, o símbolo privilegiado para expressarem a história de amor que Deus quis escrever com o seu Povo, isto é, a Aliança. Neste apólogo, Deus é o vinhateiro e Israel é a vinha. Foi Deus quem trouxe de longe (do Egito) as videiras escolhidas, que as plantou em terra fértil (Canaã), que removeu dessa terra as pedras (os povos que a habitavam) que podiam estorvar a fecundidade da vinha, que cuidou e, sobretudo, que amou a sua vinha. Deus esperava que Israel vivesse no direito e na justiça (“mishpat” e “zedaqa”) cumprindo, fielmente, as exigências da Aliança, numa vida de coerência com os mandamentos e de respeito pelos direitos dos mais débeis. Todavia, o Povo atua em sentido contrário ao que Deus esperava: os poderosos cometem injustiças e arbitrariedades, os juízes são corruptos e não fazem justiça ao pobre, os grandes praticam violências e derramam o sangue do inocente, os órfãos e as viúvas veem espezinhados dos seus direitos, sem que ninguém os defenda.

E o profeta sustenta que Deus não pode pactuar com este esquema e prepara-Se para abandonar essa vinha ingrata, essa amada infiel. Com efeito, o amor de Deus pretende criar, no coração do seu Povo, uma dinâmica de amor ao irmão. Deus ama-nos e quer que nos deixemos transformar pelo amor e que amemos todo o próximo.

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No Evangelho (Mt 21,33-43), Jesus recorre à imagem da vinha, transformando o apólogo de Isaías numa parábola. Critica, fortemente, os líderes judaicos que se apropriaram, em benefício próprio, da vinha de Deus e se recusaram a oferecer a Deus os frutos que Lhe eram devidos. Jesus anuncia que a vinha lhes vai ser retirada e vai ser confiada a trabalhadores que produzam e que entreguem a Deus os frutos que Ele espera.

Estamos em Jerusalém, pouco tempo após a entrada triunfal de Jesus na cidade. Cresce a tensão entre Jesus e os adversários. Os líderes judaicos pressionam-no, num esquema que parece um processo organizado. No horizonte próximo de Jesus, está a prisão, o julgamento, a condenação à morte. Jesus, cônscio do destino que lhe está reservado, enfrenta os dirigentes e condena, implacavelmente, a sua recusa em acolher o Reino.

O trecho em referência integra um bloco de três parábolas (a do pai, dos dois filhos e da vinha; a do homem que cavou uma vinha que só lhe deu agraços; e a do banquete), destinadas a ilustrar a recusa de Israel em aceitar o projeto de salvação que Deus oferece aos homens, através de Jesus. Com elas, Jesus convida os opositores a reconhecerem que se fecharam num mecanismo de autossuficiência, de orgulho, de arrogância, de preconceito, que não os deixa abrir o coração e a vida aos desafios de Deus. Aqui, está expressa a segunda dessas parábolas.

A saga em referência compreende-se à luz da situação socioeconómica da Galileia do tempo de Jesus. A terra estava, quase sempre, nas mãos de grandes latifundiários que viviam nas cidades e que utilizavam vários sistemas de exploração das suas terras. Uma delas (porque, para o latifundiário não implicava muito trabalho) consistia em arrendar as várias parcelas do latifúndio, em troca de parte substancial dos produtos recolhidos. Os que arrendavam as terras eram camponeses que tinham perdido as suas, devido à pressão fiscal ou às más colheitas, e que viviam em situação periclitante: depois de descontados os gastos com a exploração, os impostos pagos e a parte que pertencia ao latifundiário, mal ficavam com o indispensável para se sustentarem a si e à família. Em anos agrícolas maus, isto significava miséria absoluta.

Este quadro provocava conflitos sociais frequentes e o aparecimento de movimentos campesinos que lutavam contra os latifundiários ou contra a carga excessiva de impostos.

A parábola coloca-nos no mesmo ponto de partida do apólogo da vinha: “Um senhor plantou uma vinha, cercou-a com uma sebe, cavou nela um lagar e levantou uma torre.” Depois, afasta-se do apólogo de Isaías. O proprietário não explorou, diretamente, a vinha, mas confiou-a a vinhateiros que deviam dar-lhe, cada ano, determinado percentil dos frutos produzidos. Porém, quando os servos do senhor apareceram para recolherem a parte pertencente ao amo, foram maltratados e assassinados pelos vinhateiros; e o próprio filho do dono da vinha, enviado pelo pai, para chamar os vinhateiros à responsabilidade e ao respeito pelos compromissos, foi assassinado.

A vinha é Israel, o Povo de Deus. O dono da vinha é Deus. Os vinhateiros são os líderes religiosos judaicos, encarregados de trabalharem a vinha e de fazerem com que ela produzisse frutos. Os servos enviados pelo senhor são os profetas que os líderes da nação perseguiram, apedrejaram e mataram. O filho morto fora da vinha é Jesus, assassinado fora dos muros de Jerusalém. É um quadro de extrema gravidade. Os vinhateiros não só não entregaram ao senhor os frutos que lhe deviam, como fecharam os caminhos de diálogo e recusaram todas as possibilidades de encontro e de entendimento com o senhor: maltrataram e apedrejaram os servos enviados pelo senhor e assassinaram-lhe o filho.

Diante deste quadro, Jesus interpela os seus ouvintes: “Quando vier o dono da vinha, que fará àqueles vinhateiros?” A comunidade cristã primitiva encontrou fácil resposta para esta questão. Na perspetiva dos primeiros catequistas cristãos, a resposta de Deus à recusa de Israel foi dada em dois movimentos: Deus ressuscitou o seu filho, que os vinhateiros mataram, glorificou-O e constituiu-O pedra angular da nova construção; e decidiu retirar a vinha das mãos desses maus e ingratos vinhateiros e confiá-la a outros vinhateiros – a um povo que fizesse a vinha produzir bons frutos e que entregasse ao senhor os frutos a que ele tem direito.

Entretanto, a Mateus não interessa tanto a questão do filho – ressuscitado, exaltado e colocado como pedra angular da nova construção – como a questão da entrega da vinha a outro povo.  Neste âmbito, explica porque é que, na maioria das comunidades cristãs, os judeus – os primeiros trabalhadores da vinha de Deus – eram a minoria: recusaram-se a oferecer frutos bons ao senhor da vinha e recusaram todas as tentativas do senhor no sentido da aproximação e do compromisso. Assim, o senhor escolheu outros vinhateiros. E o decisivo, para a escolha de Deus, não é que os novos trabalhadores da vinha sejam judeus ou não, mas que estejam dispostos a oferecer ao senhor os frutos que lhe são devidos e a acolher o filho que o Senhor enviou.

Ao mesmo tempo, o evangelista exorta a comunidade a produzir frutos verdadeiros que agradem ao senhor da vinha. Tendo, no final do século I, passado o entusiasmo inicial e tendo-se os crentes da comunidade mateana instalado num cristianismo fácil, sem exigência, descomprometido, instalado, Mateus aproveita o ensejo para exortar os irmãos a que despertem, a que saiam do comodismo, a que se empenhem, a que deem frutos próprios do Reino, a que vivam, com radicalidade, a proposta de Jesus.

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Na segunda leitura (Fl 4,6-9), o apóstolo exorta os Filipenses – e todos os que fazem parte da “vinha de Deus” – a viverem na alegria e na serenidade, respeitando o que é verdadeiro, nobre, justo e digno. São esses os frutos que Deus espera da sua vinha.

Na Carta aos prezados filipenses, Paulo manifesta o apreço por essa comunidade que o ama, que o ajuda e que se preocupa com ele. Tendo estado doente, envia-lhes de volta Epafrodito, agradece, dá notícias, informa a comunidade sobre a sua própria sorte e exorta os filipenses à fidelidade ao Evangelho. O trecho em causa, que pertence à parte final da carta, apresenta um conjunto de recomendações, destinadas a recordar algumas obrigações que resultam do compromisso dos filipenses com Cristo e com o Evangelho.

Os primeiros dois versículos fazem parte de uma passagem mais longa, na qual Paulo recomenda aos cristãos de Filipos que vivam na alegria. Esta alegria não tem nada a ver com gargalhada histérica ou com otimismo inconsciente; mas é a alegria que resulta da vida de comunhão com o Senhor, com tudo o que isso significa, em termos de garantia de vida verdadeira e eterna. O cristão vive na alegria, pois a comunhão com Cristo garante-lhe acesso próximo (“o Senhor está próximo”) à vida definitiva, do que resulta a serenidade, a paz, a tranquilidade, que permitem ao crente enfrentar a vida sem medo e sentir-se seguro nos braços amorosos de Deus Pai. Ao crente resta cultivar a comunhão com Deus, entregando-Lhe, diariamente, a sua vida, “com orações, súplicas e ações de graças”, e fazendo de toda a vida uma constante oração.

Depois, Paulo recomenda seis “qualidades” que se devem cultivar e apreciar: a verdade, a nobreza, a justiça, a pureza, a amabilidade e a boa reputação. Tudo isto é virtude e é digno de louvor. Há quem veja neste versículo a “magna carta do humanismo cristão”. Porém, estes valores não são exclusivos do cristianismo: são valores sãos e louváveis, que eram valores igualmente propostos pelos moralistas gregos da época. No entanto, a comunidade cristã deve estar aberta ao acolhimento de todos os verdadeiros valores humanos. Ou seja, os cristãos devem ser, antes de mais, testemunhas e arautos dos verdadeiros valores humanos.

Finalmente, Paulo convida os filipenses a porem em prática estas recomendações, segundo o exemplo que receberam dele próprio. O cristão tem de viver os valores humanos em, confronto constante com o Evangelho e na fidelidade ao Evangelho.

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Concluindo, é oportuno salmodiar o apólogo da vinha, não segundo a linha da rejeição, mas do acolhimento do Messias de Deus e do propósito da consecução das boas obras.

“A vinha do Senhor é a casa de Israel.”

“Arrancastes uma videira do Egito, / expulsastes as nações para a transplantar. / Estendia até ao mar as suas vergônteas / e até ao rio os seus rebentos.

“Porque lhe destruístes a vedação, / de modo que a vindime quem quer que passe pelo caminho? / Devastou-a o javali da selva / e serviu de pasto aos animais do campo.

“Deus dos Exércitos, vinde de novo, / olhai dos céus e vede, visitai esta vinha. / Protegei a cepa que a vossa mão direita plantou, / o rebento que fortalecestes para Vós.

“Não mais nos apartaremos de Vós: / fazei-nos viver e invocaremos o vosso nome. / Senhor, Deus dos Exércitos, fazei-nos voltar, / iluminai o vosso rosto e seremos salvos.”

“Aleluia. Aleluia. Eu vos escolhi do Mundo, para que vades e deis fruto, / e o vosso fruto permaneça, diz o Senhor.”

2026.10.04 – Louro de Carvalho


domingo, 4 de outubro de 2026

Alterações climáticas alteram a agricultura e a pecuária

 

O aumento das temperaturas já permite cultivar café, na Itália, e arroz, nos Países Baixos. Ora, se o aquecimento global já tinha levado o Sul da Inglaterra, no Reino Unido, a produzir espumante tipo champanhe, deslocando mais para norte a tradicional zona de produção da França e do Norte da Itália, a passagem do café das zonas equatoriais para o Mediterrâneo é ainda mais significativa, assim como o é a produção de arroz, nos Países Baixos.

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A cooperação anglo-francesa existe há séculos. Vários foram os momentos de encontro entre os dois povos, por exemplo, quando as tribos do Sul da Inglaterra lutaram ao lado dos gauleses do outro lado da Mancha ou quando Júlio César invadiu a Gália. Grande parte da História entre as duas nações resulta de mudanças políticas. Desde a conquista normanda até à Entente Cordiale, fatores sociais uniram e separaram a França e a Inglaterra. Porém, o exemplo mais recente tem origem nas alterações climáticas.

Dizem que o champanhe “é o ‘crème de la crème’ e a ‘mousse de la mousse’ do vinho espumante”. Por conseguinte, é instituição protegida por lei e tradição orgulhosa, com séculos de História e de cultura. Há vários fatores que influenciam o produto, mas os relevantes são o clima e o ‘terroir’, a terra sob a qual a sagrada videira ‘vitis vinifera’ é plantada.  

A região de Champagne é a mais setentrional, no atinente à produção deste vinho, cujos parâmetros gerais se situam entre 30º e 50º (graus) de latitude, em ambos os hemisférios. Reims, capital da região, situa-se a 49,15º norte. O clima frio favorece a produção do espumante, pois o viticultor necessita de muito elevada acidez nas uvas, para criar as condições estruturais adequadas à produção pelo método tradicional. Por outro lado, o solo desta parte da França tem muito elevada composição calcária, que mantém a frescura e a mineralidade, que são elementos perfeitos para a produção do espumante. E o nível superior de Champagne – os Grands Crus – é, quase exclusivamente, produzido nos locais com maior teor de giz, que é bom para a drenagem e pode armazenar humidade, em caso de seca.

Juntando estes elementos, há condições perfeitas para a produção de champanhe. Porém, as alterações climáticas criam um problema. As uvas ficam cada vez mais maduras, mesmo em colheitas comparativamente mais frescas; as vinhas viradas a sul da Côte des Blancs estão a aquecer e os sistemas meteorológicos são menos previsíveis. Ora, a solução do problema está nas terras imediatamente do outro lado do Canal da Mancha, no condado de Kent, no Sudeste da Inglaterra, onde o espumante que, agora, dá à Inglaterra e à França a sua mais recente relação cordial, é produzido a uma escala rapidamente crescente.

Dizem que o vinho espumante inglês está a ter um renascimento. Contudo, o mais correto será dizer que está a nascer, pois a indústria melhorou, drasticamente, nos últimos dez anos e, com o aumento da produção e da escalabilidade, o preço desceu para um nível competitivo e a qualidade melhorou, inquestionavelmente. De facto, os solos de muitas zonas de Kent, de Sussex e de Surrey possuem teor de giz tão elevado como o dos solos das zonas de cultivo de Champagne, precisamente, por aquela zona fazer parte da mesma Bacia de Paris que desenvolveu espessas camadas de giz formadas por fósseis de plâncton, entre há 60 e 100 milhões de anos. Além disso, o clima do Sudeste de Inglaterra é comparável ao de Champagne, há 50 anos, ao passo que o aumento de um grau na temperatura no Nordeste de França resultou numa proporção alarmante de uvas secas, devido ao excesso de calor.

Os laços entre a casa de champanhe Taittinger e esta região de Kent são a génese da iniciativa fundada na cooperação anglo-francesa, mercê da amizade de décadas de Pierre-Emmanuel Taittinger e do master of wine britânico Patrick McGrath. O pai de Taittinger, Jean, foi presidente da câmara de Reims – capital da região de Champagne – que geminou a cidade com Cantuária, em 1962. E, a alguns quilómetros da cidade-catedral de Kent, descobriram o local rico em giz, com excelentes encostas viradas a sul e com um pouco de altitude.

India McGrath, filha de Patrick McGrath e diretora de marca do Domaine Evremond, confirma que a Hatch Mansfield e a Taittinger trabalharam em conjunto, durante anos e anos, e serão as suas distribuidoras, pois a maioria das marcas de vinho inglesas não teria um agente, por não estarem a importar vinho. Apenas o vendiam, diretamente, da adega. No caso vertente, a Hatch Mansfield utilizará as suas ligações de distribuição no setor do comércio. E, embora o foco seja o mercado do Reino Unido, a utilização de rede de distribuição já estabelecida é inestimável para a exportação, e a Taittinger tem agentes em todo o Mundo.

O Domaine Evremond, junto à aldeia de Chilham (do século XV), perto de Cantuária, a 52,1º norte, está fora dos parâmetros históricos da viticultura, mas as alterações climáticas rompem com a tradição. Embora os franceses sejam as últimas pessoas que comprariam espumante inglês, sabem o que é preciso para o fazer e que a sua região já não é adequada.

A propriedade de 125 hectares (quase metade dos quais são cultivados com vinha) tem o nome e o símbolo de Charles St Evremond, poeta, crítico literário e soldado do século XVII, que se viu indesejado na sua terra natal, a França, apesar dos seus feitos militares, por ter sido franco sobre a política externa do seu governo, após o fim da guerra franco-espanhola. Fugiu para a Inglaterra e levou champanhe consigo. Um lembrete desta personagem encontra-se no Poets’ Corner, na Abadia de Westminster – onde é o único francês – e sob o seu busto de mármore vê-se o seu emblema, a flor de cinco folhas (cinquefoil), símbolo utilizado no primeiro vinho da propriedade, o Classic Cuvée.

Não lançado até março de 2025, o cuvée foi envelhecido, durante três anos, nas borras (células de levedura mortas que dão ao espumante notas tostadas e de brioche) e é uma mistura das três uvas tradicionais utilizadas para a mistura em Champagne: Pinot Noir (55%), Chardonnay (35%) e Pinot Meunier (10%). Será vendido a retalho, por 50 libras (cerca de 67 euros), o que, comparativamente, não é barato.

A Evremond contou com os principais contactos comerciais na inauguração da sua loja principal, organizou uma receção para os comerciantes de vinhos finos e, em janeiro de 2025, organizou a prova de pré-lançamento com os principais sommeliers. Outra vantagem de ter pronta a rede de distribuição é o tempo. Com a maior parte das dificuldades de vendas resolvidas, a diretora da marca e a equipa têm menos distrações, face a outros projetos.

Há outros elementos anglo-franceses a trabalhar para aperfeiçoar o projeto como um todo. Mark Gaskin, ex-proprietário dos pomares onde a empresa plantou os primeiros 20 hectares, continua a trabalhar ali, mas em conjunto com a viticultora Christelle Rinville. A experiência desta como gestora das vinhas da Taittinger, em quase uma década, com o conhecimento singular de Gaskin sobre o terroir, faz boa combinação.

O espumante inglês, apesar de ser maioritariamente nacional, no seu foco de vendas, tem feito incursões significativas nos canais globais. O Nyetimber, por exemplo, está disponível em, pelo menos, 24 países e a apresentação em Xangai alargou essa pegada. E o Domaine Evremond precisará de tempo para se estabelecer e para aperfeiçoar a comercialização do seu vinho de base único, mas com o investimento, com o savoir-faire da Taittinger, com a rede de distribuição e com a inestimável bacia de giz, brilhará.

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A Itália é o maior produtor europeu de café – com 25% da produção da União Europeia (UE), seguida da Alemanha, com 22%. Porém, a Europa não tem plantio: importa o grão, faz-lhe a torrefação e transforma-o nos diversos subprodutos.

Com o aumento da temperatura, a Itália passou a cultivar e a colher o primeiro café em Palermo, na Sicília. Quem protagoniza esta proeza é a família Morettino, que concluiu a primeira colheita. É o sinal de como o clima está a alterar culturas, em todo o Mundo.

Uma plantação às portas de Palermo produziu, pela primeira vez, grãos de café da variedade arábica cultivados e colhidos, integralmente, em terreno italiano. O resultado deve-se à alteração do clima, que traz temperaturas tropicais ao Sul da Itália. Ora, se o aquecimento tinha levado o Sul da Inglaterra a produzir champanhe, deslocando a zona de produção para norte, a passagem do café das zonas equatoriais para o Mediterrâneo é mais significativa.

Segundo o diário La Stampa, a produção siciliana na zona de San Lorenzo ai Colli, a algumas centenas de metros de altitude, atinge cerca de 100 quilos (Kg) de drupas (o fruto da planta do café, conhecido como cereja), dos quais se obtêm pouco mais de 15 kg de grãos torrados. E, embora o projeto, que envolve a Universidade e o Jardim Botánico de Palermo, ainda esteja longe de volumes compatíveis com a produção comercial, em grande escala, já tem valor científico e simbólico relevante. Café é paciência e não quer frio.

Tradicionalmente, o café é cultivado nas regiões tropicais e equatoriais, onde temperaturas elevadas, humidade e precipitações constantes favorecem o seu crescimento. Por isso, os principais produtores e exportadores mundiais concentram-se, sobretudo, na América Latina, na África e na Ásia, com a variedade arábica, mais robusta, a oferecer a melhor qualidade, a altitudes mais elevadas. Entre os maiores países produtores, contam-se o Brasil, a Colômbia, o Peru e a Costa Rica, na América Latina; a Etiópia, o Uganda, o Quénia e a Tanzânia, na África; o Vietname e a Indonésia, na Ásia.

O café produzido em Palermo desenvolve caraterísticas aromáticas com notas que lembram a uva-passa, especificidade que o distingue das produções provenientes das áreas tradicionais de cultivo de café. Porém, antes da experiência da família Morettino, uma exploração agrícola já tinha cultivado café em estufa, em Terrasini, na zona de Palermo.

Também vem sendo tentada a experiência, de formas diversas, noutros pontos do Sul da Europa.

Na Espanha, sobretudo, na região de Granada, surgiram projetos experimentais para testar a resistência das plantas, com resultados diferentes dos da Gran Canaria, onde, graças à posição geográfica em latitude mais baixa, se cultiva café, desde o século XIX, aproveitando a fertilidade e a humidade dos solos vulcânicos. E as ilhas açorianas, em Portugal, onde foram identificadas plantações privadas que tiram partido do clima ameno, marcam um dos pontos mais setentrionais de cultivo de café.

Às perspetivas comerciais juntam-se as questões ligadas à sustentabilidade ambiental deste cultivo fora das suas zonas de origem. O processamento dos grãos, após a colheita, exige entre 50 e 200 litros de água, por quilo de café verde, e gera águas residuais que, se não forem tratadas devidamente, podem afetar os ecossistemas locais. Se, em vez das precipitações tropicais que alimentam as plantações de café, se passa a zonas a seca endémica, em determinados períodos do ano, torna-se necessário acrescentar à aposta agrícola no café a componente tecnológica, para reduzir a quantidade de água necessária para o cultivar e transformar.

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Com o clima a aquecer, agricultores holandeses conseguem cultivar um cereal nunca antes cultivado e colhido nos Países Baixos: o arroz.

Durante séculos, as vacas foram a base da agricultura do país. Agora, porém, os agricultores experimentam culturas que, antes, seriam impensáveis, num país tão húmido e temperado. E os investigadores por trás do projeto esperam que o cultivo de arroz ajude a enfrentar um dos desafios ambientais mais urgentes do país: solos de turfa que afundam, à medida que secam, fazendo descer ainda mais partes dos Países Baixos, já de si baixos. Tal seca das turfas, juntamente, com a libertação de dióxido de carbono (CO2) resulta da pecuária intensiva. Por isso, a solução pode ser o cultivo de arroz do tipo japonês.

Um agricultor, de 68 anos, que disponibilizou os campos para o cultivo e para a colheita de arroz, releva que “nunca teríamos imaginado que conseguiríamos cultivar arroz, nos Países Baixos”, mas que isso resulta da mudança do clima, o que assusta.

Para já, o projeto é um piloto, que ocupa apenas 0,6 hectares, e os organizadores esperam produzir cerca de três toneladas de arroz de grão curto, adequado para sushi ou risoto. A equipa trabalha com cerca de 30 variedades de arroz provenientes de locais tão distantes como a Rússia, a China, o Japão e o Uzbequistão, para perceber qual se adapta melhor ao clima local.

Numa parcela encharcada entre Amesterdão e Haia, um agricultor, de 53 anos, que se considera pioneiro, lavra as suas culturas de arroz com uma ceifeira-debulhadora, tendo moinhos de vento e canais como pano de fundo, e diz que quer mostrar a outros agricultores que o arroz pode crescer nos solos pantanosos holandeses. “O meu objetivo é mostrar que é possível produzir mais do que apenas erva em zonas húmidas”, afirma, embora admita que, tendo vacas, há 600 anos, “é muito difícil imaginar outra coisa que não seja tirar leite da vaca”.

Mas o projeto vai muito além da diversificação de culturas. Os investigadores acreditam que pode ajudar a enfrentar um dos problemas ambientais mais persistentes dos Países Baixos. Cerca de 10% do território é constituído por turfeiras, que os agricultores drenam, para produzirem erva, a fim de alimentarem o gado. À medida que a turfa seca, liberta milhões de toneladas de CO2 e provoca abatimento do terreno, podendo, nas zonas mais afetadas, descer vários centímetros, por ano. Segundo a Universidade de Wageningen, as emissões de gases com efeito de estufa (GEE) provenientes dos solos de turfa holandeses representam cerca de 2% a 3% do total de emissões do país. Ora, até agora, a única forma de quebrar este ciclo vicioso era manter os campos encharcados, o que deixaria os agricultores sem nada para cultivar ali.

“Basicamente, começou apenas com uma ideia disparatada”, explica Julian Helfenstein, de 36 anos, investigador da Universidade e Investigação de Wageningen, que testa o projeto, juntamente com colegas da vizinha Universidade de Leiden, vincando que é combinação rara de adaptação às alterações climáticas e de mitigação dos seus efeitos.

O arroz é oportunidade de adaptação local às alterações climáticas, cultivando algo que não era possível, e de mitigar essas alterações, porque impede que a turfa se degrade e liberte todo o CO2, já que pode permanecer molhada. O problema da turfa, além dos Países Baixos, afeta grande parte do Norte da Europa, incluindo a Alemanha, a Bélgica e os países bálticos. E a equipa de Helfenstein monitoriza as emissões de CO2 e de metano ligadas ao cultivo de arroz, em comparação com as das pastagens, para o remédio não ser pior do que a doença.

Restaurantes locais já manifestaram interesse em servir arroz de origem holandesa de gama alta, diz Guusje van der Vossen, de 27 anos, da associação Wij Land, que ajuda agricultores a transitar para modos de produção mais sustentáveis.

Explica que o arroz agora colhido é de uma variedade do Norte do Japão, que parece ser a mais adaptável aos Países Baixos. A jovem é das poucas pessoas que alguma vez provaram arroz cultivado nos Países Baixos, proveniente de um lote experimental produzido em 2025. “Sabia mesmo bem, para ser sincera […] Era um pouco rijo, mas muito bom”, conta, frisando que o objetivo era preparar sushi, com esse arroz, e talvez saqué.

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Há, pelos vistos, várias formas de minorar os efeitos das mudanças climáticas.

2026.10.04 – Louro de Carvalho


sábado, 3 de outubro de 2026

Alemanha assinala os 36 anos da reunificação com júbilo contido

 

Após as negociações do respetivo Tratado de Unidade, que duraram quase um ano, a República Democrática Alemã (RDA) aderiu, a 3 de outubro de 1990, à República Federal da Alemanha (RFA), chegando, deste modo, ao fim a divisão da Alemanha, que durou 41 anos.

Berlim voltou a ser capital de toda a Alemanha. Embora o Muro tenha caído a 9 de novembro de 1989, foi preciso quase um ano para o Leste e o Oeste chegarem a acordo sobre os tratados. Mas, agora, na ponte Glienicker – estrutura de ferro sobre o rio Havel (que liga Berlim e Postdam) concluída em 1907, danificada no final da II Guerra Mundial e reconstruída em 1949 –, evoca-se o papel de Helmut Kohl na reunificação, para cujo êxito foi decisivo.

Helmut Kohl, o chanceler da unidade, afirmou, em mensagem televisiva de 2 de outubro de 1990: “Dentro de poucas horas, um sonho tornar-se-á realidade. Após mais de 40 amargos anos de divisão, a Alemanha, a nossa pátria, volta a estar unida. Para mim, este momento é um dos mais felizes da minha vida. […] Mas, apesar de toda a alegria, queremos, primeiro, recordar os que sofreram, de forma particular, com a divisão da Alemanha. Famílias foram cruelmente separadas. Nas prisões, os detidos políticos estavam encarcerados. Pessoas morreram no Muro.”

Na sua intervenção, o chanceler agradeceu aos alemães de Leste que conquistaram a sua liberdade, às antigas potências vencedoras e aos movimentos de libertação na Europa Central, Oriental e do Sul, sem os quais a reunificação não teria sido possível. E terminou: “A Alemanha é a nossa pátria, a Europa unida é o nosso futuro. Deus abençoe a nossa pátria alemã.”

A Alemanha voltou a ser juridicamente um só país e tornou-se mais independente. Até então, a RDA dependia, em certa medida, da União Soviética e a RFA dos Aliados.

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Após a II Guerra Mundial, as quatro potências vencedoras – os Estados Unidos da América (EUA), a União Soviética, o Reino Unido e a França – dividiram a Alemanha derrotada em quatro zonas de ocupação, para desmilitarizarem o país, para anularem a influência nazi e para reorganizarem o sistema político.

Entretanto, o líder soviético, Joseph Stlalin construiu um cinturão protetor da União Soviética em nações controladas na sua fronteira ocidental, o Bloco do Leste socialista, que incluía a Polónia, a Hungria, e a Checoslováquia, que ele pretendia manter, a par de um enfraquecido controlo soviético na Alemanha.  E, já em 1945, revelou aos líderes alemães socialistas que esperava enfraquecer, lentamente, a posição britânica na sua zona de ocupação, que os EUA retirariam a sua ocupação dentro de um ano ou de dois e que, em seguida, nada ficaria no caminho de uma Alemanha unificada sob controlo socialista, na órbita soviética.

A grande tarefa do Partido Comunista no poder na zona soviética alemã foi abafar as ordens soviéticas, através do aparelho administrativo, fingir, para as outras zonas de ocupação, que se tratava de iniciativas próprias e nacionalizar a propriedade e a indústria naquela zona.

Em 1948, após desentendimento sobre a reconstrução e sobre a nova moeda alemã, Stalin instituiu o Bloqueio de Berlim, impedindo que alimentos, materiais e suprimentos chegassem a Berlim Ocidental. Os EUA, o Reino Unido, a França, o Canadá, a Austrália, a Nova Zelândia e vários outros países começaram uma enorme “ponte aérea de Berlim”, fornecendo alimentos e outros suprimentos a Berlim Ocidental. Os soviéticos montaram uma campanha de relações públicas contra a mudança da política ocidental e socialistas tentaram perturbar as eleições de 1948, enquanto 300 mil berlinenses pediam a continuação do transporte aéreo internacional. Em maio de 1949, Stalin acabou com o bloqueio, permitindo a retomada dos embarques do Ocidente para Berlim. A 7 de outubro desse ano, foi declarada a RDA.

O Ministério de Negócios Estrangeiros Soviético concedeu-lhe autoridade administrativa, mas não autonomia, tendo os soviéticos ilimitada penetração no regime de ocupação e nas estruturas de administração e de polícia militar e secreta. A RDA diferia da RFA, que se desenvolveu como país ocidental capitalista, com economia social de mercado (“Soziale Marktwirtschaft”) e com uma governação de democracia parlamentar. O crescimento económico contínuo, a partir de 1950, da RFA alimentou um “milagre económico” de 20 anos (“Wirtschaftswunder”). Enquanto a economia da RFA cresceu e o seu padrão de vida melhorou continuamente, muitos alemães orientais tentavam ir para a Alemanha Ocidental.

Após a ocupação soviética da Europa Oriental, no final da II Guerra Mundial, a maioria das pessoas que viviam nas áreas recém-adquiridas do Bloco Oriental aspiravam à independência e queriam que os soviéticos saíssem. Aproveitando-se da zona de fronteira entre as zonas ocupadas na Alemanha, o número de cidadãos da RDA que se deslocavam para a RFA totalizou 197 mil, em 1950, 165 mil, em 1951, 182 mil, em 1952, e 331 mil em 1953. Uma das razões para o aumento acentuado, em 1953, foi o medo de sovietização mais intensa com as ações cada vez mais paranoicas de Joseph Stalin, em 1952 e no início de 1953, tendo fugido 226 mil pessoas, apenas nos primeiros seis meses de 1953.

Apesar de, em 1955, tanto o Oeste como o Leste terem sido formalmente investidos de soberania – o primeiro pelos Aliados, o segundo pela União Soviética –, as potências não alemãs mantiveram direitos especiais. A União Soviética preservou direitos de intervenção estratégica e o seu peso político e militar continuou a ser forte.

Dada a diferença de regimes entre os dois países alemães e como a União Soviética não conseguia travar a migração Leste-Oeste, em Berlim, surgiu a ideia da construção de um muro, ou seja, uma barreira de betão vigiada que cercou Berlim Ocidental, de 1961 a 1989, separando-a de Berlim Oriental e da RDA. A construção foi iniciada pelo governo da RDA, a 13 de agosto de 1961. Incluía torres de guarda colocadas ao longo de grandes muros de betão, acompanhadas por uma ampla área que continha trincheiras antiveículo, leitos de pregos e outras defesas. O objetivo era impedir que os cidadãos da RDA fugissem para o Ocidente.

A propaganda soviética apresentava o muro como proteção à população de “elementos fascistas que conspiravam para impedirem a vontade do povo” de erigir um Estado comunista. As autoridades referiram-se-lhe como Muro de Proteção Antifascista (“Antifaschistischer Schutzwall”). Por sua vez, o governo de Berlim Ocidental referia-se-lhe como o “Muro da Vergonha”, expressão cunhada pelo prefeito Willy Brandt, aludindo à restrição à liberdade de movimento. Juntamente com a fronteira interna alemã, separada do muro e muito mais longa, que demarcava a fronteira entre a Alemanha Oriental e a Ocidental, passou a simbolizar fisicamente a Cortina de Ferro, que separava o Bloco Ocidental e os Estados satélites da União Soviética, durante a Guerra Fria.

Com a reunificação, terminaram os direitos de reserva que ainda restavam às quatro potências vencedoras. As condições externas da reunificação foram definidas, previamente, no Tratado Dois-mais-Quatro, assinado em Moscovo, a 12 de setembro de 1990. A RFA e a RDA reconheceram, com o tratado, a fronteira Oder-Neisse com a Polónia. A Alemanha renunciou, definitivamente, aos antigos territórios orientais alemães, como a Silésia, a Pomerânia e a Prússia Oriental, que representavam cerca de 25% da área do antigo Estado alemão.

 

O Muro de Berlim começou a ser derrubado na noite de 9 de novembro de 1989, após 28 anos de existência. Antes da sua queda, houve grandes manifestações em que, entre outras coisas, se pedia a liberdade de viajar e houve enorme fluxo de refugiados para o Ocidente, pelas embaixadas da RFA, principalmente, em Praga e em Varsóvia, e pela fronteira recém-aberta entre a Hungria e a Áustria, perto do lago de Neusiedl. Porém, o impulso decisivo para a queda foi um mal-entendido entre o governo da RDA. Na tarde de 9 de novembro, em conferência de imprensa, transmitida ao vivo na televisão da RDA. Günter Schabowski, membro do Politburo do SED (Partido Socialista Unificado da Alemanha), anunciou a decisão do Conselho de Ministros de abolir, imediata e completamente, as restrições de viagens ao Oeste. Tal decisão deveria ser publicada só no dia seguinte, para, antes, informar todas as agências governamentais. Pouco depois, houve notícias da abertura do Muro, na rádio e televisão ocidental. Milhares de pessoas acorreram aos postos fronteiriços e pediram a abertura da fronteira, mas nem as unidades militares, nem as unidades de controlo de passaportes haviam sido instruídas.

Pela força da multidão e por os guardas da fronteira não saberem o que fazer, a fronteira abriu, às 23h00, no posto de Bornholmer Strasse, e, mais tarde, em outras partes do centro de Berlim e na fronteira ocidental. Muitas pessoas viram a abertura da fronteira na televisão e, pouco depois, acorreram à fronteira. Como muitas pessoas já dormiam, quando a fronteira abriu, na manhã de 10 de novembro, grandes multidões de pessoas queriam passar.

Os cidadãos da RDA foram recebidos com euforia em Berlim Ocidental. Muitas boates perto do Muro serviram cerveja, espontânea e gratuitamente, houve grande e ruidosa celebração na Rua Kurfürstendamm e pessoas que nunca se tinham visto antes cumprimentavam-se. Cidadãos de Berlim Ocidental subiram o muro e passaram pelo Portão de Brandemburgo, que não eram acessíveis aos ocidentais. O Bundestag interrompeu as discussões sobre o orçamento, e os deputados cantaram, espontaneamente, o hino nacional da Alemanha.

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O relatório mais recente da comissária para o Leste, apresentado em 2026, analisa até que ponto a origem ainda molda percursos de vida e oportunidades de ascensão. Embora alemães de Leste e de Oeste vejam, em muitos aspetos, as suas condições de vida de forma similar, os cidadãos do Leste continuam sub-representados em cargos de direção das principais autoridades federais. A sua quota aumentou de 13,9 para 16,3%, desde 2022. Entretanto, já há uma geração que cresceu sem memória pessoal da queda do Muro de Berlim e da Alemanha dividida. Os vestígios da divisão entre regiões continuam visíveis.

“O ‘Leste’ é, para os jovens que crescem aí, ainda hoje, muito mais do que um ponto cardeal”, afirmou Elisabeth Kaiser, ministra de Estado e comissária do governo federal para a Alemanha de Leste, no seu relatório de 2025. A diferença é clara, em heranças e doações: em 2025, segundo dados do Departamento Federal de Estatística, 95% do valor total das transferências patrimoniais registadas fiscalmente situou-se na Alemanha Ocidental. Uma das razões das diferenças ainda visíveis reside nas consequências da transformação económica e demográfica, após a reunificação. Apenas 17% dos cidadãos da antiga RDA manteve a profissão, após a mudança de regime; os restantes tiveram de se reajustar. A conclusão é de um estudo da Rockwool Foundation Berlin, a que a agência Reuters teve acesso.

Muitas empresas da antiga RDA perderam os seus mercados ou foram encerradas, na década de 1990, enquanto, sobretudo, jovens qualificados se deslocaram para o Oeste. Em consequência, continuam a faltar população e sedes empresariais em várias regiões. Por isso, o governo federal procura reduzir mais as diferenças económicas, sociais e políticas. As regiões estruturalmente mais frágeis recebem apoio, nomeadamente, através de investimentos em infraestruturas, investigação, pequenas e médias empresas e novas iniciativas empresariais.

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Apesar de a unidade não ser perfeita, é de frisar que as imagens de 9 de novembro de 1989 correram o Mundo. Alemães de Leste e de Oeste abraçaram-se, berlinenses treparam ao Muro e outros, com martelo e cinzel, guardavam para si um pedaço da construção histórica. Enfim, caiu o Muro, símbolo da falta de liberdade e da divisão da Alemanha. Após a mudança de regime, a data foi, inicialmente, discutida como possível feriado nacional. Devido, entre outros fatores, à Noite dos Pogroms do Reich de 1938, acabou por se optar por essa solução. Também a proclamação da República, em 1918, ocorreu nesse dia. A escolha recaiu no dia do Tratado de Unificação, 3 de outubro de 1990. O feriado ficou consagrado na lei.

Em sessão extraordinária, convocada pelo então primeiro-ministro da RDA e político da União Democrata-Cristã da Alemanha (CDU), Lothar de Maizière, foram votadas a adesão da RDA e a data de 3 de outubro. Segundo relatos, o debate terá sido acalorado e prolongou-se, das 21 horas às 2h30 da madrugada.

A 31 de agosto de 1990, os dois principais negociadores, o ministro do Interior da RFA, Wolfgang Schäuble (CDU), e o secretário de Estado da RDA, Günther Krause (CDU), assinaram o “Tratado entre a República Democrática Alemã e a República Federal da Alemanha sobre a criação da unificação alemã”, conhecido como Tratado de Unidade. Ficou então decidido que, a 3 de outubro de 1990, seria hasteada, pela primeira vez, a chamada “bandeira da unidade”, a maior bandeira oficial do país, em frente ao edifício do Reichstag, em Berlim.

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No Tratado de Unidade de 31 de agosto de 1990, o 3 de outubro foi fixado como “Dia da Unidade Alemã” e feriado nacional. Substituiu o dia 17 de junho, Dia da Memória da Revolta Popular na RDA. Contudo, o 17 de junho permanece como dia nacional de lembrança.

O governo da RDA anunciou aumentos nas normas de produção, apesar da frágil situação de abastecimento no Leste da Alemanha. A 17 de junho de 1953, os protestos culminaram em cerca de 700 cidades da RDA, com greves e manifestações, que envolveram entre 400 mil e 1,5 milhões de pessoas. Na repressão às greves, com o apoio de tanques soviéticos, morreram, pelo menos, 55 pessoas e muitas ficaram feridas. Calcula-se que tenham sido detidas até 13 mil pessoas. “Em 17 de junho de 1953, o povo alemão na zona de ocupação soviética e em Berlim Oriental insurgiu-se contra o domínio violento comunista e, com grandes sacrifícios, afirmou a sua vontade de liberdade”, lê-se no Diário Oficial Federal, de 1953. O dia 17 de junho foi declarado feriado legal, em homenagem ao Dia da Unidade Alemã.

“Estamos certos de que o que pertenceu e esteve unido voltará a reunir-se”, declarou Heinrich Lübke, presidente federal, no 10.º aniversário da revolta popular, em 17 de junho de 1963, ano em que elevou o 17 de junho a “dia nacional de lembrança do povo alemão”.

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A criação da Alemanha unificada como o Estado-nação, a nível político e administrativo, realizou-se, oficialmente, a 18 de janeiro de 1871, na Galeria dos Espelhos do Palácio de Versalhes, na França. Após a capitulação francesa na Guerra Franco-Prussiana, os príncipes dos estados alemães reuniram-se para proclamar Guilherme da Prússia como imperador do Império Alemão. Porém, a transição “de facto” da maioria das populações germanófonas para uma organização federada de estados, ocorreu mais cedo, através de alianças formais e informais, entre nobres, de forma irregular, devido às dificuldades levantadas pelos interesses de grupos aristocráticos, desde a dissolução do Sacro Império Romano-Germânico, em 1806, e da consequente ascensão do nacionalismo, durante as Guerras Napoleónicas. Em 1990, voltou-se ao início.

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A reunificação alemã é um facto, mas a situação no país mostra que muitas pessoas já perderam a memória do nazismo e do bolchevismo. A crispação política bem o revela.

2026.10.03 – Louro de Carvalho


Alemanha instala o aerogerador mais alto do Mundo

 

Uma turbina eólica com a altura de 365 metros (m), no município de Schipkau, no estado de Brandemburgo, no Leste da Alemanha, torna-se a mais alta do Mundo – de acordo com a GICON, a empresa, sediada em Dresden, que a desenvolveu –, capta ventos mais constantes e fortes e prevê-se que entre em funcionamento em novembro. É, agora, a segunda estrutura mais alta do país, apenas mais baixa três metros do que a Torre de Televisão de Berlim.

Imagens aéreas mostraram a estrutura a destacar-se sobre a paisagem envolvente, com trabalhadores visíveis perto do topo.

O projeto, que esteve em desenvolvimento, durante uma década, pôs o aerogerador no terreno em julho de 2025, tem em vista a captação de ventos mais fortes e regulares, o que poderá gerar mais eletricidade do que as turbinas vizinhas, e mostra como novas tecnologias tornam a energia eólica europeia mais eficiente e reforçam a autonomia do abastecimento energético.

Elevando-se acima da paisagem de Brandemburgo, a colossal turbina eólica constitui um símbolo de ambição, inovação e do que é possível quando a engenharia encontra a visão.

De 3,8 MW (megawatts), é igual às turbinas eólicas ao redor. Todavia, o objetivo é testar quanto mais energia elas podem extrair, no mesmo local, só construindo mais alto, pelo que usaram o mesmo design de turbina (algo ultrapassado). Se tudo der certo, como esperado, projetos futuros usarão turbinas mais modernas de 7,2 MW.

Após cerca de dois anos de construção, a fase decisiva chegou. A instalação está praticamente concluída. Com 365 m, desde a base até à ponta das pás, o aerogerador, só três metros mais baixo do que a torre de TV de Berlim, integra o grupo das estruturas mais altas da Alemanha. Com a instalação de energia eólica de grande altura, a GICON aposta na utilização de ventos mais fortes e regulares em altitudes elevadas. O objetivo é que a torre contribua para um sistema energético mais independente. Se isso será possível, deverá ficar claro em breve.

Os números avançados pelo prestador de serviços de engenharia GICON são impressionantes: uma produção elétrica anual estimada entre 30 e 33 GWh (gigawatts-hora) e custos de produção de eletricidade inferiores a cinco cêntimos, por quilowatt-hora (kWh). Segundo a empresa, seria possível abastecer cerca de 7500 agregados familiares de quatro pessoas. Em comparação com aerogeradores convencionais, a GICON promete, em comunicado de imprensa, de 3 de março, um aumento de desempenho até 220%, face às instalações vizinhas no parque eólico de Schipkau. A explicação física é simples: quanto mais alto está o aerogerador, mais forte e mais estável sopra, em regra, o vento.

A GICON, que afirma trabalhar nesta tecnologia desde 2010, quis comprovar, cientificamente, esta hipótese. Por encomenda da beventum GmbH, uma filial da Agência Federal para Inovações de Salto (SPRIND), a empresa ergueu um mastro de medição de vento, na vizinha Klettwitz. As medições mostraram que, a 300 m de altura, o vento sopra, de facto, de forma mais contínua e mais intensa do que nas altitudes usuais até agora.

No final de 2025, a construção foi travada por um problema de qualidade. Foram detetadas irregularidades em elementos de aço fornecidos por um subempreiteiro, o que levou à suspensão dos trabalhos. Em meados de fevereiro de 2026, começaram os preparativos para a retoma e, desde 2 de março, os trabalhos passaram a decorrer, novamente. “A segurança e a qualidade têm prioridade absoluta neste projeto único à escala mundial”, afirmou, em comunicado, o professor Jochen Großmann fundador e diretor executivo da GICON.

Schipkau situa-se na Lusácia, região mineira conhecida, durante décadas, pela exploração de carvão e, hoje, apontada como exemplo de reconversão estrutural. Não foi por acaso que surgiu, aqui, o primeiro aerogerador de grande altura deste tipo: a região oferece espaço disponível, infraestruturas e apoio político a novos projetos energéticos; e, a longo prazo, o local será convertido numa central híbrida, com dois níveis de produção eólica e um parque solar ao nível do solo. Segundo a GICON, a tripla utilização da mesma área pode quintuplicar o rendimento energético, face à exploração exclusivamente solar. A combinação de várias fontes de energia permitirá produção elétrica mais regular, ao longo do ano.

Contudo, o projeto evidencia um problema estrutural da transição energética. A palavra-chave é “redispatch” (“redispacho”), um caro paradoxo: quando, nas regiões ventosas do Nordeste da Alemanha entra na rede, mais eletricidade do que as linhas conseguem transportar para o Sul, onde o consumo é maior, os aerogeradores têm de ser obrigatoriamente reduzidos ou desligados. Ao mesmo tempo, noutros pontos entram em funcionamento outras centrais, para colmatar a lacuna. Em suma: energia limpa é desperdiçada, para manter a estabilidade da rede, e os consumidores pagam a fatura, através das tarifas de acesso às redes.

O redispacho é o mecanismo usado pelos operadores de redes elétricas para ajustar a produção ou o consumo de energia e evitar sobrecarga ou congestionamento nas linhas de transmissão.

O operador da rede de transporte (TSO) analisa os planos de envio de eletricidade e percebe que uma linha não aguenta o fluxo previsto de energia (identificação). Então, ordena (intervenção) que certas centrais reduzam a sua injeção de energia (redispacho negativo) e, em simultâneo, pede a outras centrais – localizadas noutra zona – que aumentem a sua produção (redispacho positivo). Assim, a quantidade total de energia injetada na rede mantém-se praticamente igual (equilíbrio desejável), mas a sua distribuição geográfica muda, para proteger os cabos e para evitar apagões.

Serve, pois, a integração de energias renováveis, ajudando a escoar ou a conter picos de energia eólica e solar, quando a rede local não tem capacidade física para transportar tudo para os centros de consumo, assim como previne falhas técnicas e garante a segurança do fornecimento elétrico.

De acordo com uma análise do Tagesspiegel, perderam-se, só em 2023, cerca de 9,3 TWh (terawatts-hora) de eletricidade eólica. Os custos da gestão de congestionamentos ascenderam a quase três mil milhões de euros e são repercutidos nos consumidores, através das tarifas de rede.

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A GICON e a SPRIND defendem que torres eólicas de grande altura podem atenuar este dilema, a longo prazo: os ventos de altitude sopram de forma mais regular; permite-se operar instalações, de forma rentável; e, mesmo onde os ventos à superfície são fracos, a expansão da energia eólica poderá ser planeada de forma mais descentralizada.

O contexto europeu em que o projeto surge é claro: no final de 2025, com base em dados do setor, estavam instalados na Europa cerca de 304 GW de capacidade eólica em terra e no mar, segundo o Bundesverband. A Alemanha liderava, com cerca de 77,7 GW de potência instalada, seguida do Reino Unido, com 31,6 GW, e da Espanha, com 31,2 GW. Com 5735 MW de nova capacidade instalada em 2025, a Alemanha registou o maior aumento entre os países europeus. Ao mesmo tempo, vastas zonas da Europa, do Leste da Polónia à Península Ibérica, são consideradas difíceis para o desenvolvimento da energia eólica, devido aos ventos fracos à superfície. Por isso, torres eólicas de grande altura podem tornar viável, no futuro, a exploração destas regiões. A SPRIND sublinha: “A Europa precisa de uma posição forte na construção de aerogeradores para garantir a própria produção de energia.”

Também do ponto de vista político o projeto recebe apoio. O ministro federal do Ambiente, Carsten Schneider, apresentou, em 26 de março de 2026, no Bundestag, o Programa de Proteção Climática 2026, que elenca 67 medidas com as quais se pretende poupar, até 2030, mais de 25 milhões de toneladas adicionais de dióxido de carbono (CO₂). No geral, espera-se que a Alemanha economize quase sete biliões de metros cúbicos de gás natural e cerca de quatro biliões de litros de gasolina até 2030. Nas próximas licitações, devem ser atribuídos cerca de dois mil aerogeradores mais do que estava previsto. E serão lançados concursos para 12 GW adicionais de capacidade eólica, que devem ligar-se à rede, até 2030. “Isto vai ajudar-nos a reduzir a dependência do petróleo e do gás de outras regiões do Mundo”, afirmou Schneider.

Se a torre eólica de grande altura da GICON poderá servir de modelo para projetos europeus ficará claro, assim que o aerogerador entrar na rede. Numa altura em que a Europa sente a forte dependência de combustíveis energéticos importados e em que a soberania energética é, há muito, uma questão geopolítica, o projeto representa mais do que um recorde: mostra se de uma ideia inovadora pode surgir uma solução industrial sustentável.

A principal razão para construir uma estrutura desta dimensão, colocando a turbina a uma altitude muito superior à das instalações convencionais, está nas condições do vento, uma vez que, a maiores altitudes, os ventos tendem a ser mais fortes e regulares, o que pode permitir produzir mais eletricidade. Para estudar estas condições, foram realizadas medições numa torre instalada nas proximidades de Klettwitz. Concluiu-se que, a 300 metros de altitude, o vento é mais forte e mais regular do que à altura habitual das turbinas eólicas. E a GICON pretende utilizar esta tecnologia para demonstrar se a produção eólica a grande altitude será economicamente viável, incluindo em regiões onde os ventos próximos do solo são menos favoráveis.

Tendo em conta que uma grua convencional não era suficiente para executar todas as operações necessárias a esta escala, o projeto utiliza um sistema telescópico que permite elevar a estrutura até à altura final. A turbina foi, inicialmente, construída a uma altura inferior e elevada, posteriormente, através deste sistema.

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Antes desta proeza alemã, a turbina eólica offshore mais potente do planeta – com a potência de 26 MW, com a altura de 340 m e preparada para resistir a tufões – era e continuará a ser a implantada na China, em julho de 2025 (a mais potente, embora menos alta). A estrutura impressiona pelo tamanho, pela potência e pela capacidade de abastecer milhares de residências com energia limpa – novidade que marca novo nível na engenharia do setor.

A instalação foi feita pela Dongfang Electric Corporation (DEC), no parque eólico offshore de Fuzhou, na província de Fujian.

O modelo ainda não está disponível para o mercado internacional, mas já se tornou um marco global. A turbina eólica atinge a altura total de 340 metros, com o cubo localizado a 185 metros acima do mar. Cada uma das três pás tem 128 m de comprimento, resultando num diâmetro de rotor de 310 metros. A área total varrida ultrapassa 75 mil metros quadrados (m²), o que permite captar energia, mesmo em condições variáveis de vento. A potência nominal é de 26 MW, sendo a maior entre todas as turbinas eólicas conhecidas, até ao momento.

A previsão da empresa é que a unidade produza até 100 GWh, por ano – energia suficiente para abastecer cerca de 55 mil residências chinesas.

Além do tamanho, a turbina também foi projetada para resistir a condições climáticas extremas. O Mar da China é conhecido pela exposição a tufões. Por isso, a nova turbina foi desenvolvida para suportar ventos de até 220 quilómetros por hora (km/h), o equivalente à força de um furacão de categoria 4. A DEC utilizou um sistema estrutural reforçado, além de tecnologias de controlo ativo de passo (que ajusta o ângulo das pás) e guinada (que gira o rotor para enfrentar melhor os ventos). O conjunto inclui também proteção anticorrosiva em camada dupla, sensores redundantes e uma estrutura interna preparada para absorver cargas dinâmicas extremas.

Nenhum modelo em operação se aproxima da potência da turbina chinesa. Com esse avanço, a China reforçou a sua posição como líder global em energia renovável. O país já conta com mais de 470 GW de capacidade eólica instalada, dos quais cerca de 40 GW estão em parques offshore. Porém, o crescimento de turbinas gigantes levanta preocupações. Estudos recentes alertam para impactos nas correntes marítimas e nos ecossistemas costeiros. Além disso, a instalação de turbinas desse porte exige soluções logísticas complexas, como embarcações especiais, fundações sob medida e portos adaptados. Mesmo assim, a nova turbina da DEC mostra que o futuro da energia eólica será cada vez maior e mais preparado para enfrentar os ventos mais extremos.

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A procura por maior eficiência na extração de energia a partir do vento levou uma empresa alemã a procurar por objetivos mais altos, literalmente. A central eólica de Gaildorf, na Alemanha, passou a ser conhecida, em novembro de 2017, como o local onde foi construída a turbina de vento mais alta do Mundo, até então, com uma altura da torre de 178 m, enquanto o ponto mais alto da hélice ascendia aos 264,5 m. Esta turbina é parte de um conjunto de quatro torres, todas construídas pela Max Bögl Wind AG (parte da MB Renewables), com altura igual ou superior a 155 m.

A Alemanha era já a terceira do Mundo – atrás da China e dos Estados Unidos da América (EUA) – para a energia eólica adicionada, a cada ano. No tamanho, o “hub” da turbina é de 178 m de altura e a altura total da torre – nas pontas das lâminas elevadas para cima – é de 246,5 m. Para cada metro adicionado em altura, a produção anual de energia aumenta em 0,5 a 1%, devido à menor turbulência e a ventos mais fortes e mais consistentes. Isso leva a menos interrupções na geração. A turbina mais alta faz parte de um quarteto com alturas que variam de 155 m a 178 m. No topo de cada torre, um gerador GE 3.4-137 3.4MW, que produzirá uma média de cerca de 10500MWh / ano – um fator de capacidade aproximada de 34,4%.

Uma média doméstica dos EUA usa cerca de 10MWh / ano. As turbinas fazem parte de um projeto de “bateria de água” que custou 70 milhões de euros (€) com a receita esperada de € 6,5 milhões, no primeiro ano de serviço. Os fundamentos dos quatro geradores de turbinas eólicas mais poderosos serão usados como reservatório superior.  São conectados através de condução subterrânea a uma central hidrelétrica de bombeamento no vale que fornece até 16 MW, no poder.

A capacidade de armazenamento elétrico da instalação é projetada para o total de 70 MWh. O aspeto da bateria de água do projeto é o que proporciona a essas turbinas altura extra. As torres de água de 40 m de altura estão incluídas na construção das turbinas e são reservatórios de altitude mais altos que fazem parte de uma central hidrelétrica de armazenamento de bombas localizada a 200 m abaixo das turbinas. A energia eólica forçará a água contra a gravidade a armazená-la nos reservatórios. E a água será usada para conduzir uma corrente elétrica, com a instalação de armazenamento capaz de armazenar água ou de produzir eletricidade em 30 segundos. É combinação bem-sucedida de geração de energia com o armazenamento, esperando-se que o quarteto de turbinas eleve até mil casas, por vez.

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Como é da tradição civilizacional, a China dá cartas nas principais matérias; e, se não é pioneira, depressa apanha, sustentadamente, os comboios da política, da guerra (sobretudo, logística e comercial), da economia e da inovação.

2026.10.02 – Louro de Carvalho