O
grosso do esforço para ajudar a Europa a satisfazer as suas necessidades
energéticas, numa sucessão de ondas de calor intensas, resulta da energia
solar, a qual ajuda a responder ao aumento da procura de eletricidade
A
este respeito, a 14 de agosto, a Euronews publicou um artigo intitulado
“Europa: vagas de calor aumentam energia solar até 17% nos dias mais quentes”,
em que o jornalista Liam Gilliver revela que um relatório do think tank
de energia Ember concluiu que “a produção solar, nos países europeus, aumentou
até 17%, nos dias de onda de calor, em junho e em julho”, o que, de acordo com
os investigadores, “ajudou a alimentar a rede, numa altura em que a procura de
eletricidade aumentou, até um quarto, nos dias mais quentes”.
Segundo
o jornalista, as ondas de calor geram, não raro, “um pico no consumo de
eletricidade”, devido à súbita necessidade de arrefecimento, sobretudo, por unidades
de ar condicionado (A/C) com elevado consumo de energia”. E a Agência
Internacional da Energia (AIE) estima que o arrefecimento de espaços, em
particular, com unidades de A/C e com ventoinhas, terá consumido quase 7% da
eletricidade mundial, em 2022, com países de baixa posse de aparelhos de A/C a
registarem picos de procura de energia, quando as temperaturas disparam. Por
exemplo, a França, durante as ondas de calor, no início do verão de 2025,
registou um pico de consumo de eletricidade, à noite, 25% acima da média fora
de época, devido ao A/C.
A
análise da Ember concluiu que, durante a onda de calor de finais de junho deste
verão, a procura diária de eletricidade aumentou, face à semana anterior, até
26%, na Hungria, 22%, na Itália, 11% na França, e 8%, na Espanha.
À
medida que aumentava a procura impelida pelas ondas de calor, a energia solar tornou-se
a única grande fonte de eletricidade com desempenho “melhor do que o habitual”.
Em comparação com outros dias de junho e de julho, a produção solar média
diária, nas ondas de calor foi 17% superior, na França e na Hungria, e 5%
superior, na Espanha e na Itália.
“A
energia solar já está a suportar o grosso do esforço, durante as ondas de
calor, mas o verdadeiro desafio começa depois do pôr do sol. À noite, quando a
procura de arrefecimento continua elevada, a rede fica mais exposta à
eletricidade produzida por centrais a gás, mais cara, diz Chris Rosslowe,
analista sénior de energia.
Ondas
de calor sucessivas na Europa, “praticamente impossíveis”, sem as alterações
climáticas, desencadearam secas generalizadas. Os baixos níveis de água ao
longo do rio Danúbio obrigaram a reduzir a produção nuclear, na Hungria e a
energia hidroelétrica aproximou-se de um “mínimo histórico” na região alpina.
Também a energia produzida a partir de combustíveis fósseis foi afetada pela
seca: a Polónia foi obrigada a reduzir a produção numa central a carvão, devido
a níveis de água criticamente baixos no rio Vístula.
Nas
ondas de calor de finais de junho e de início de julho, os preços médios
diários da eletricidade dispararam, ficando 119% mais altos do que em dias
comparáveis das semanas anteriores, na Hungria, 44%, na França, 13%, na Itália
e 7%, na Espanha.
Especialistas
sustentam que esta escalada de preços reforça a necessidade de sistemas de
armazenamento em baterias, capazes de evitar o desperdício de excedentes
de energia solar. Para Rosslowe, a energia solar salva o dia e as baterias
salvam a noite, as quais, em conjunto, são uma das formas mais claras de tornar
o sistema elétrico europeu resiliente nos verões mais quentes, pois, quando a
produção solar aumenta, nas ondas de calor, outras fontes têm dificuldades, enquanto
o armazenamento pode levar a eletricidade barata, mesmo de noite.
***
No
entanto, como não há bela sem senão, as baterias, tidas como tecnologia crucial
na transição da União Europeia (UE) para a energia limpa, suscitam preocupações
com apagões. À medida que a quota de energia renovável, na UE, chegue
a cerca de 69%, em 2030, e a 80%, em 2050, aumenta a necessidade de
armazenamento flexível. A Europa desperdiça energia eólica e solar no valor de
milhões de euros, devido às limitações e ao caráter pouco flexível da rede. E,
quando a oferta supera a procura, pode provocar preços negativos da
eletricidade.
Os
especialistas identificaram os sistemas de armazenamento de energia em
baterias (BESS) como solução decisiva para o problema, visto que as
baterias podem armazenar a eletricidade produzida pelas renováveis, durante o
dia (quando o consumo é mais baixo) e libertá-la para as habitações, quando a
procura aumenta, ao final da tarde e à noite. Por isso, a Europa instalou 36
GWh (gigawatts-hora) de novos BESS em 2025, levando a capacidade operacional
total acima dos 100 GWh. É energia que alimenta cerca de 75 milhões de lares.
Como
verifica a associação setorial SolarPower Europe, “por toda a Europa, o
armazenamento em baterias está a ajudar a integrar volumes crescentes de
energia renovável, a reforçar a segurança energética e a melhorar a resiliência
dos sistemas elétricos”. Ora, com a redução da dependência da Europa de
importações caras de combustíveis fósseis e com a aceleração da eletrificação,
na rota do cumprimento dos objetivos climáticos, o armazenamento, de mera tecnologia
de apoio, passa a ser um ativo estratégico, determinante para reforçar a
resiliência, a competitividade e a soberania energética da Europa.
Na
sequência de relatório do Panel of Technical Experts (PTE) – grupo de peritos
independentes nomeados pelo governo britânico, para aconselhar em aspetos
técnicos da reforma do mercado da eletricidade, o jornal britânico “The
Telegraph” publicou um artigo intitulado “Boom das baterias no Reino
Unido ‘arrisca sobrecarregar a rede’”, segundo o qual sistemas de reserva que
apoiam a energia eólica podem provocar “os apagões que tentam evitar”.
Por
conseguinte, “o PTE continua a considerar que é necessário refletir sobre a
forma como os BESS, provavelmente, se comportarão numa situação de Capacity
Market Notice (CMN)”, pois “o armazenamento pode ter o incentivo de carregar,
antecipadamente, para cumprir as suas obrigações no mercado de capacidade”. E,
porque isso pode redundar, em rápida evolução, para uma situação de stresse, a
procura adicional “pode ter de ser modelizada de forma mais explícita, ao
estimar a procura máxima em caso de stresse”.
A
CMN é um sinal, dado com quatro horas de antecedência, de que pode haver menos
produção de energia disponível do que aquilo que os operadores de rede esperam
precisar para satisfazer a procura nacional. Porém, o relatório não diz que as
baterias desestabilizarão a rede, nem manifesta, explicitamente, preocupação
com apagões; apenas sublinha a necessidade de modelizar a forma como as
baterias reagem a uma CMN.
O
receio de que as baterias provoquem apagões, em toda a Europa, prende-se com o
facto de os operadores de rede não verem, nem controlarem grande parte das
pequenas instalações distribuídas. Isto é, se as baterias funcionarem todas em
simultâneo, será difícil gerir o sistema. Diz, a este respeito, Adrian Hiel,
diretor da Electrification Alliance, que “é o mesmo desafio que temos
vindo a gerir com a energia solar, há 20 anos”.
Tem-se
conseguido, de forma gradual, garantir que as instalações melhoram a rede, em
vez de a prejudicarem. Nesse sentido, só haverá risco de apagão, se se ignorar que
instalamos “milhões de baterias, todos os anos. E, de acordo com Hiel, a
principal solução para lidar com o risco mínimo colocado pelas baterias é a
melhor modelização, que permitirá aos operadores de rede antecipar o
comportamento dos conjuntos de baterias, em determinadas situações.
O
diretor da Electrification Alliance sustenta que, nos próximos anos, “é de
esperar margens de erro relativamente grandes na modelização”, mas que, depois,
os modelos se tornarão “cada vez mais precisos, como aconteceu com a
modelização do comportamento da energia solar em telhados”. Ao mesmo tempo,
considera outra solução para gerir as baterias na rede: o controlo agregado por
parte de um terceiro, isto é, “em vez de cada família gerir o funcionamento da
sua bateria, uma empresa reunirá dezenas ou centenas de milhares de baterias e
operá-las-á, de forma a maximizar o benefício para as famílias e para a rede”.
Para
Hiel, esta ideia, que é aplicada ao carregamento inteligente de veículos
elétricos, em muitos países, é o “passo lógico seguinte” para as baterias
– que permite ao operador de rede contactar o agregador de baterias para que
estas comecem, rapidamente, a consumir, carregando, ou a descarregar, de forma
rápida, para responderem a aumentos súbitos da procura.
Uma
voz da indústria citada no artigo do “The Telegraph” afirma que “as baterias
são muito caras”, mas sem mostrar qualquer dado que sustente a asserção.
De
acordo com a AIE, os custos médios das baterias caíram 90%, desde 2010, graças
a avanços na química e na produção. E um relatório da Ember, já mencionado, concluiu
que, até 2030, as baterias à escala de rede poderão fornecer flexibilidade de
curto prazo, na UE, a um custo 20% inferior ao de novas centrais a gás; e que,
nos próximos quatro anos, as baterias na UE poderão fornecer, numa única hora,
mais de 80% da energia do que todas as centrais elétricas a gás da UE
combinadas conseguem gerar no mesmo período.
Beatrice
Petrovich, analista sénior da Ember, afirma que “a flexibilidade limpa já
chegou”; que “o rápido crescimento das baterias, do carregamento inteligente de
veículos elétricos e das bombas de calor pode reduzir a dependência do gás para
o equilíbrio da rede e aliviar a pressão sobre as infraestruturas”; e que “a
tarefa, agora, não é inovar, mas executar”, ou seja, “eliminar barreiras,
recompensar a flexibilidade e aplicar estas soluções em escala suficiente para
evitar ficar preso a reservas fósseis desnecessárias”
Um
entrevistado pelo “The Telegraph” sugere que os potenciais custos e riscos de
apagões devem levar os países a travar a transição para a energia limpa e a manter
a dependência dos combustíveis fósseis. Ao invés, Hiel – para quem “as
baterias serão uma ajuda muito maior para a rede do que um problema” – afirma: “Dizer
que não devemos construir produção intermitente por causa deste risco mínimo
associado às baterias é como dizer a uma pessoa com obesidade mórbida que não
deve perder peso, porque terá de comprar roupa nova.”
E
prossegue: “O incómodo de gerir o impacto destes milhões de baterias é
infinitamente pequeno, face aos benefícios de maximizar as fontes de energia
mais baratas que o Mundo alguma vez conheceu, numa altura em que os países que
nos vendem gás falam em dominar, energeticamente, a Europa e ameaçam cortar
esse gás, se não fizermos o que dizem.”
O
Departamento de Segurança Energética e Neutralidade Carbónica (DESNZ) do Reino
Unido, questionado sobre se está preocupado com apagões, devido ao boom
das baterias recusou comentar. Porém, um porta-voz observou: “O nosso mercado
de capacidade garante a segurança do abastecimento, assegurando, ao mesmo tempo,
uma boa relação qualidade-preço para os consumidores. […] Reduzimos o IVA [imposto
sobre o valor acrescentado] na eletricidade para dar algum alívio às famílias e
estamos focados em baixar a fatura em definitivo.”
***
As
alterações climáticas, que provocam as ondas de calor que, entre outras
consequências, constituem maior risco de incêndios, levam a secas severas e
extremas, ao sobreaquecimento de sistemas elétricos e à erosão dos solos
subsequente a tempestades fortes e frequentes. E, sendo de vincar que o calor
extremo deste verão é provocado pelo homem, não por El Niño, é de advertir que
este fenómeno climático deverá libertar calor acumulado no oceano.
Este
assunto é abordado pela jornalista Angela Symons, em artigo publicado pela Euronews,
a 6 de agosto, sob o título “El Niño pode libertar calor dos oceanos e levar
2026 a bater recordes”.
Refere
a jornalista que se propagam incêndios florestais na América do Norte e na
Europa, que ondas de calor mortais sufocam cidades, que os oceanos estão mais
quentes do que alguma vez se registou, nesta altura do ano, e que se prevê que
um El Niño em intensificação quebre todos os registos, impulsione as
temperaturas globais e provoque perturbações no clima em todo o planeta.
Contudo, observa que, apesar de parecer que o planeta está a atravessar um
verão infernal, capaz de pulverizar recordes, ainda não entrou totalmente em
território de recordes.
Segundo
a estatísticas climáticas, este é apenas o terceiro ano mais quente, atrás de
2024 e 2025. Porém, 2026 ainda vai a meio e, devido ao aquecimento global
acelerado causado pelo homem e a um El Niño de grande intensidade, cresce, em 35%,
a probabilidade de, até ao fim do ano, 2026 se tornar o ano mais quente de que
há registo e de ultrapassar 2024 (embora o novo recorde não seja duradouro) –
ou, ao menos, aproximando-se. E, embora os cientistas discordem sobre se 2026
será ou não o ano mais quente de sempre, há consenso de que 2027 superará
qualquer ano recente, em termos de calor, talvez por larga margem.
Com
guerras no Mundo, nos últimos anos, dava-se pouca atenção às alterações
climáticas “porque o Mundo ardia de outras formas”, mas o Mundo está, de novo, “em
chamas com as alterações climáticas, de forma cada vez mais difícil de se ignorar”,
diz o climatólogo Zeke Hausfather, da Berkeley Earth, organização de dados
climáticos sem fins lucrativos.
O
antigo principal cientista do clima da NASA, James Hansen, apelidado de
“padrinho” da ciência do clima, pelos alertas de longo prazo que tem feito, ao
longo de 40 anos, prevê que 2026 ultrapasse, ligeiramente, 2024, no fim do ano.
Com efeito, a temperatura diária da superfície dos mares (cobre mais de
70% da superfície da Terra) igualou a de 2024, a partir de maio, e tem, desde
junho, batido recordes, quase diariamente. Assim, está prestes a chegar a
altura em que o globo começará a bater recordes, porque cerca de 82% da
superfície oceânica está sujeita, neste ano, a ondas de calor marinhas, segundo
o serviço climático Copernicus da Europa.
Segundo
Hausfather, é isto que está a alterar as perspetivas são previsões cada vez
mais fortes para um El Niño “arrasador” e com intensidade recorde. Com efeito,
trata-se de um aquecimento natural e temporário de partes do Pacífico
equatorial que eleva a temperatura média do planeta e altera, em força, os
fenómenos meteorológicos, em todo o Mundo. E o nível de calor acumulado nos
oceanos – um indicador das alterações climáticas provocadas pelo ser humano –
continua a atingir valores recorde. Para os cientistas, o motor do recorde
de calor é a alteração do clima em curso. E a sua contribuição é muito
maior do que a de El Niño, que acrescenta entre um décimo e dois décimos de
grau a essa tendência de longo prazo.
Hansen
sustenta que a noção da aceleração do aquecimento se deve ao facto de estar a
diminuir a tradicional poluição industrial que gera fuligem e smog –
e arrefece o globo, mascarando o aquecimento provocado pelos gases com efeito
de estufa (GEE) – e que tudo indica que o clima está a reagir, de forma mais
intensa aos GEE do que os cientistas previam.
Ora,
apesar da necessidade do incremento à energia renovável e ao seu armazenamento
e de os parques de estacionamento solares se multiplicarem, em toda a Europa,
nem todos os países os veem como investimento acertado e há muita movimentação
contra a sua instalação. Preferem ter eletricidade mais cara e depender da
energia fóssil. E as guerras a isso ajudam.
Está
longe a transição energética!
2026.08.14
– Louro de Carvalho