terça-feira, 9 de junho de 2026

Está a diminuir o comércio entre os EUA e a UE

 

No rescaldo da agressão da Rússia contra a Ucrânia, a União Europeia (UE) aumentou as suas importações de produtos energéticos dos Estados Unidos da América (EUA). Por conseguinte, as importações da UE dos EUA cresceram mais do que as importações da China e do resto do Mundo, e permaneceram num nível comparativamente mais alto.

No entanto, as tensões comerciais entre os EUA e a UE, devido à imposição trumpiana do regime de tarifas a vários países do Mundo e à UE, levaram a que as exportações, que foram impulsionadas, no primeiro trimestre de 2025, tivessem sofrido uma queda acentuada no resto desse ano. Com o acordo comercial no horizonte, no primeiro trimestre de 2026, as importações e as exportações cresceram modestamente, em comparação com o quarto trimestre de 2025. Porém, em comparação com o primeiro trimestre de 2025, as exportações caíram para um pouco mais de 30% e as importações para 6%. Consequentemente, o superavit comercial da UE encolheu para 34 mil milhões de um pico de 80 milhões, no primeiro trimestre de 2025.

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O comércio é importante indicador da prosperidade e do lugar da Europa no Mundo. A UE está integrada aos mercados globais, para os produtos que fornece e para as exportações. A sua política comercial é um dos pilares das suas relações com o resto do Mundo.

Uma vez que os 27 estados-membros da UE partilham um mercado único e uma única fronteira externa, dispõem de política comercial única. Assim, falam e negociam coletivamente, tanto na Organização Mundial do Comércio (OMC), onde as regras do comércio internacional são acordadas e aplicadas, como com parceiros comerciais individuais. Esta política permite falar a uma só voz, nas negociações comerciais, maximizando o seu impacto nessas negociações, o que se afigura ainda mais premente num mundo globalizado em que as economias tendem a agrupar-se em grupos regionais. Nestes termos, a abertura do regime comercial da UE significou que a UE é o maior ator no cenário comercial mundial e continua a ser boa região para fazer negócios. Graças à facilidade de transporte e de comunicações modernas, agora, é mais fácil produzir, comprar e vender mercadorias, em todo o Mundo, o que dá às empresas europeias de todos os tamanhos o potencial para negociar fora da Europa.

Os valores comerciais são expressos em milhões ou biliões (mil milhões) de euros e correspondem ao valor estatístico, ou seja, ao montante que seria faturado, em caso de venda ou de compra na fronteira nacional do país inquirido. É chamado de valor FOB (livre a bordo) para exportações e um valor CIF (custo, seguro, frete) para importações.

Os EUA têm sido o principal destino de exportação da UE e um dos seus principais parceiros de importação. Esta relação bilateral tem gerado, consistentemente, um excedente comercial para a UE, embora a sua magnitude flutue de um período para outro. Em 2025, esse padrão persistiu, mas com variações notáveis. Em particular, a ameaça de potencial guerra comercial entre os EUA e a UE desencadeou um aumento acentuado dos fluxos comerciais bilaterais, no primeiro trimestre de 2025, com as importações e, especialmente, as exportações a registarem significativo aumento, seguido de um declínio acentuado, no segundo trimestre de 2025. No terceiro trimestre de 2025, as importações cresceram ligeiramente, enquanto as exportações registaram modesta uma diminuição, um declínio que teria sido consideravelmente maior, se uma grande empresa não tivesse negociado, com sucesso, uma pausa temporária nas tarifas sobre produtos químicos com os EUA. Este acordo levou a acentuado aumento nas exportações de produtos químicos, em setembro de 2025, compensando, parcialmente, o amplo declínio observado nos meses anteriores. Segundo o Eurostat, no quarto trimestre de 2025, tanto as importações (-7%) quanto as exportações (-12%) diminuíram acentuadamente, mas, no primeiro trimestre de 2026, as importações (+1%) e as exportações (+3%) aumentaram modestamente.  

Em resultado disso, o superavit comercial da UE em bens com os EUA diminuiu de 80,44 mil milhões, no primeiro trimestre de 2025, para 33,52 mil milhões, no primeiro trimestre de 2026. Com efeito, enquanto, no primeiro trimestre de 2025, as exportações totalizaram 171,49 mil milhões de euros e as importações totalizaram 91,05 mil milhões de euros, no primeiro trimestre de 2026, as exportações totalizaram 119,42 mil milhões de euros e as importações totalizaram 85,90 mil milhões de euros.

E os dados do Eurostat permitem continuar com a informação, como segue.

A taxa de crescimento tributário no comércio da UE de mercadorias com os EUA, no primeiro trimestre de 2026, foi de 0,95%, nas importações, e de 3,18%, nas exportações.

No primeiro trimestre de 2026, os excedentes combinados para produtos químicos e produtos conexos, para máquinas e veículos, para outros bens manufaturados e para alimentos e bebidas foram maiores do que os défices combinados de energia, matérias-primas e outros bens. Em comparação com o primeiro trimestre de 2021, a balança comercial para energia caiu de -3 (três) mil milhões para -18 mil milhões, enquanto o saldo para máquinas e veículos aumentou de 16 mil milhões de euros para 23 milhões, tendo atingido um pico de 29 mil milhões, no quarto trimestre de 2023.

Também é de referir que, entre o primeiro trimestre de 2021 e o primeiro trimestre de 2022, o crescimento das importações da UE dos EUA, da China e do resto do Mundo se desenvolveu em linhas semelhantes. E, no rescaldo da agressão da Rússia contra a Ucrânia, a UE aumentou as suas importações de produtos energéticos dos EUA. Daí resultou que as importações da UE dos EUA cresceram mais do que as importações da China e do resto do Mundo, tendo permanecido num nível comparativamente mais alto. Assim, no primeiro trimestre de 2021, as importações da UE dos EUA totalizaram 166,82 mil milhões de euros; da China 135,59 mil milhões; e do resto do Mundo, 130,28 mil milhões.

Após a invasão da Ucrânia pela Rússia e a imposição de proibições de petróleo e de gás russos, os EUA substituíram, parcialmente, a Rússia como fonte dessas importações. Consequentemente, em 2025, os combustíveis foram o grupo de produtos mais importados dos EUA, seguido por máquinas e produtos farmacêuticos. Assim, as importações de combustíveis dos EUA para a UE somaram 76,95 mil milhões de euros, em 2024, e 70,44 mil milhões, em 2025; as de máquinas somaram 53,44 mil milhões de euros, em 2024, e 57,15 mil milhões, em 2025; as de produtos farmacêuticos somaram 37,11 mil milhões de euros, em 2024, e 43,61 mil milhões, em 2025; as de instrumentos, somaram 28,00 mil milhões de euros, em 2024, e 27,98 mil milhões, em 2025; as de produtos químicos e orgânicos somaram 19,03 mil milhões de euros, em 2024, e 25,38 mil milhões, em 2025; as de aeronaves somaram 20,07 mil milhões de euros, em 2024, e 23,32 mil milhões, em 2025; as de máquinas elétricas somaram 18,11 mil milhões de euros, em 2024, e 18,04 mil milhões, em 2025; e as de veículos, somaram 11,76 mil milhões de euros, em 2024, e 10,52 mil milhões, em 2025.

Os três principais grupos de produtos exportados para os EUA, em 2025, foram produtos farmacêuticos, máquinas e produtos químicos orgânicos. As exportações de produtos químicos orgânicos aumentaram, fortemente, em 2025 em comparação com 2024, devido aos exportadores anteciparem o aumento das tarifas e apressarem as suas exportações, antes que as tarifas entrassem em vigor. Assim, as exportações de produtos farmacêuticos da UE para os EUA somaram 106,92 mil milhões de euros, em 2024, e 108,87 mil milhões, em 2025; as exportações de máquinas somaram 91,77 mil milhões de euros, em 2024, e 90,91 mil milhões, em 2025; as de produtos químicos orgânicos somaram 31,84 mil milhões de euros, em 2024, e 68,11 mil milhões, em 2025; as de veículos somaram 53,35 mil milhões de euros, em 2024, e 42,48, mil milhões, em 2025; as de produtos máquinas elétricas somaram 39,47 mil milhões de euros, em 2024, e 40,99 mil milhões, em 2025; as de produtos instrumentos somaram 36,41 mil milhões de euros, em 2024, e 35,56 mil milhões, em 2025; as de produtos aeronaves somaram 14,83 mil milhões de euros, em 2024, e 12,60 mil milhões, em 2025; e as de plásticos somaram 10,11 mil milhões de euros, em 2024, e 10,01 mil milhões, em 2025.

A UE retira a informação da base de dados COMEXT do Eurostat, base de dados de referência para o comércio internacional de mercadorias, dando acesso a dados recentes e históricos dos estados-membros da UE, bem como às estatísticas de significativo número de países terceiros. As estatísticas agregadas e pormenorizadas do comércio internacional divulgadas pelo sítio Web do Eurostat são compiladas, mensalmente, a partir de dados COMEXT.

Os dados são recolhidos pelas competentes autoridades nacionais dos estados-membros da UE e compilados de acordo com uma metodologia harmonizada estabelecida pelos regulamentos da UE, antes da transmissão ao Eurostat. No atinente ao comércio extra-UE, a informação é fornecida, sobretudo, pelos comerciantes com base em declarações aduaneiras.

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A este respeito, Alessio Dell’Anna, em artigo intitulado EUA e União Europeia: como está a diminuir o comércio?”, publicado pela Euronews, a 9 de junho, observa que “já se faz sentir o impacto das tarifas de Trump no mercado da UE, com uma tendência negativa no comércio apenas superada pela registada com o Irão”.

Efetivamente, como vimos, as exportações do bloco europeu para os EUA caíram quase um terço, nos primeiros três meses de 2026, numa altura em que a UE se prepara para aplicar a sua parte de um acordo comercial com Washington. Nos primeiros três meses de 2026, a UE perdeu 30,23% do valor, em euros, dos bens trocados com os EUA, face a igual período de 2025.

Em agosto de 2025, os EUA empurraram a UE para um acordo comercial, com a fixação de uma tarifa de 15% sobre vários bens. O inquilino da Casa Branca justificou a medida alegando um défice superior a 300 mil milhões de euros, nas trocas com a UE.

É certo que o desequilíbrio norte-americano em bens, face à UE é real, situado em cerca de 200 mil milhões de euros. Porém, é compensado pelo valor das exportações de serviços norte-americanos para a UE, o que reduz o excedente comercial global da UE para apenas 21 mil milhões de euros, pois as tarifas norte-americanas atingiram setores europeus fundamentais, como o automóvel, os produtos farmacêuticos, os semicondutores, o vinho e o queijo.

Enquanto a UE se prepara para aplicar a sua parte do acordo, os EUA continuam, ainda assim, a ser o seu maior mercado de exportação, com cerca de 120 mil milhões de euros, aproximadamente 19% do valor total das exportações de bens do bloco.

Na verdade, a UE e os EUA mantêm a maior relação bilateral de comércio e de investimento do Mundo e desfrutam da relação económica mais integrada do planeta. Em bens, em serviços e em investimentos, são, de longe, os maiores parceiros comerciais um do outro.  

Milhões de empregos, nos EUA, estão associados ao comércio e ao investimento entre a UE e os EUA. A UE é uma fonte confiável de suprimentos essenciais para os EUA, incluindo ingredientes medicinais e produtos farmacêuticos, máquinas e equipamentos avançados, além de peças e de componentes aeroespaciais. Ao mesmo tempo, a UE é a maior compradora de gás natural e petróleo dos EUA, um elemento importante para garantir a segurança energética transatlântica e permitir resposta conjunta e robusta à agressão militar da Rússia à Ucrânia. 

Porém, a quebra nas trocas com Washington contribuiu para uma descida de 9%, no valor global das exportações da UE, para o resto do Mundo, em comparação com o primeiro trimestre de 2025.

As exportações também recuaram, embora de forma menos acentuada, para outros principais parceiros, a China (8,17%) e a Turquia (8,37%). A queda mais forte, porém, foi registada com o Irão, -44,33%, sobretudo, devido às sanções atinentes ao seu programa nuclear, ao apoio à Rússia e às violações de direitos humanos.

A diferença das exportações da UE em bens, do primeiro trimestre de 2025 para o segundo trimestre de 2026, é de -7,53%, para o Japão; de -7,57%, para a China (excluindo Hong Kong); de -8,17%, para a Argélia; de -8,37%, para a Turquia; de -12,07%, para a Arábia Saudita; de -16,13%, para os Emirados Árabes Unidos (EAU); de -16,27%, para a Líbia; de -16,63%, para o Cazaquistão; de -22,13, para a Nigéria; de -30,23%, para os EUA; e de -44,33%, para o Irão.

Em registo mais positivo, as exportações para a Indonésia dispararam 22,97%, no primeiro trimestre de 2026. Este aumento segue-se à conclusão do Acordo de Parceria Económica Global (CEPA), que visa reduzir ou eliminar tarifas sobre a maioria das exportações da UE e simplificar os procedimentos aduaneiros, constituindo um caminho de abertura, de parceria e de prosperidade partilhada, pois abrirá novos mercados, criará mais oportunidades para as respetivas empresas e ajudará a fortalecer as cadeias de abastecimento de matérias-primas críticas, essenciais para a indústria europeia de tecnologias limpas e para a siderurgia.

O aumento das exportações da UE em bens, do primeiro trimestre de 2025 para o segundo trimestre de 2026, é de 22,97%, para a Indonésia; de 8,93%, para o Egito; de 8,43%, para a Austrália; de 7,17%, para a África do Sul; de 6,83%, para o Canadá; de 5,7%, para a Ucrânia; de 5,67%, para a Tunísia; de 5,47%, para a Tailândia; de 4,73, para Hong Kong; de 3,37%, para Singapura; e de 3,17%, para a Noruega.

As exportações também cresceram, mas de forma menos expressiva, para a Índia (1,8%) e para o Reino Unido (2,3%). Depois dos EUA, o segundo maior mercado consistente de exportação da UE é o Reino Unido (14%), seguido da Suíça (9%), da China (7%) e da Turquia (4%).

Porém, a saga da guerra comercial entre a UE e Washington pode não ter chegado ao fim. Com efeito, em maio, Donald Trump ameaçou impor novas tarifas de 10%, ou mais, sobre importações provenientes da UE e de outros parceiros comerciais, acusando a UE de não combater o comércio de bens produzidos com recurso a trabalho forçado, prejudicando os interesses comerciais dos EUA. E a UE rejeitou a acusação, classificando-a como “injustificada”.

Trump queixou-se também de que Bruxelas não tinha aplicado os compromissos assumidos no acordo comercial alcançado em julho de 2025. Por isso, deu à UE até 4 de julho para aprovar a sua parte do acordo, e o bloco prepara-se para aprovar o acordo, com uma votação marcada para 16 de junho. Segundo a Casa Branca, a UE deverá eliminar as tarifas sobre bens industriais dos EUA e dar acesso preferencial ao mercado para vários produtos do mar e agrícolas, “incluindo frutos de casca rija, lacticínios, frutas e legumes frescos e transformados, produtos alimentares transformados, sementes para plantação, óleo de soja e carne de porco e de bisonte”.

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Por fim, é de atentar na declaração de Enrico Letta ao programa “Europe Today” da Euronews: “A Europa tem de continuar a acelerar o seu roteiro para integrar, plenamente, o mercado único e criar uma estratégia industrial europeia, sob pena de se tornar subalterna face às grandes potências mundiais, afirmou o antigo primeiro-ministro italiano, frisando que não queremos ser uma colónia dos EUA, nem da China, mas “queremos ser europeus”.

A Europa não pode estar, nem dar a impressão de estar desorientada ou cansada.

2026.06.09 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 8 de junho de 2026

A guerra no Médio Oriente está a complicar-se

 

Não bastava o bloqueio do Estreito de Ormuz aos navios que deviam transitar por ali, para virem, agora, os rebeldes houthis do Iémen decretar uma interdição à navegação israelita no mar Vermelho, pondo em risco esta via marítima, bem como o golfo de Áden e o estreito de Bab el-Mandeb, que os liga, o que, juntamente com o anúncio, a 8 de junho de um ataque com mísseis a Israel, dá entender que se juntaram, formalmente, de novo, a Terão na guerra contra Israel. Esta arremetida ameaça um terço do petróleo e de gás enviados por mar.

Durante a guerra entre Israel e o Hamas, em Gaza, os Houthis atacaram navios de carga nesta rota marítima vital, por onde passavam, todos os anos, bens avaliados em cerca de um bilião de dólares (866 mil milhões de euros), com perto de 200 incidentes, obrigando muitas empresas a um longo desvio em torno do extremo sul de África.

O desvio em causa adiciona, em geral, cerca de 14 dias e custos significativos às viagens entre a Ásia e a Europa. O volume de petróleo que atravessa o estreito de Bab el-Mandeb desceu de 8,8 milhões para cerca de quatro milhões de barris, por dia, durante a campanha.

Os Houthis suspenderam os ataques após o cessar-fogo, em Gaza, em outubro de 2025, mas avisaram que os retomariam, se a guerra do Irão escalasse. Agora, o presente anúncio surge numa altura em que o estreito de Ormuz, porta de entrada para o Golfo e para os seus exportadores de energia, continua bloqueado por Teerão, colocando, simultaneamente, sob ameaça dois dos pontos de estrangulamento marítimo mais críticos do Mundo.

O Bab el-Mandeb, com apenas 26 quilómetros de largura, no seu ponto mais estreito, liga o mar Vermelho ao golfo de Áden e ao mais vasto oceano Índico. Cerca de 12% do comércio marítimo mundial passa por ali. Por sua vez, o Estreito de Ormuz é a rota de cerca de um quinto do petróleo e do gás transportados por mar em todo o Mundo, além de outras cargas.

Não obstante, num comunicado das forças armadas dos Houthis, lê-se: “Declaramos uma proibição completa e total da navegação marítima israelita no mar Vermelho. […] Consideramos todos os movimentos do inimigo alvos militares legítimos para as nossas forças armadas, a partir do momento em que este comunicado é divulgado.”

Os Houthis, que, em março aderiram, formalmente, à guerra do Irão, em apoio de Teerão, não anunciavam um ataque com mísseis contra Israel, desde o início do frágil cessar-fogo, em 8 de abril. Desta vez, afirmaram ter lançado uma barragem de mísseis contra alvos sensíveis do inimigo israelita e que as investidas atingiram os objetivos, com precisão.

Antes do anúncio, o exército israelita escreveu, na rede social Telegram, que “identificou o lançamento de um míssil, a partir do Iémen, em direção a território israelita e que os sistemas de defesa aérea estão a operar para intercetar a ameaça”.

O ataque dos Houthis ocorreu, a 6 de junho, enquanto Israel e o Irão trocavam fogo, colocando o cessar-fogo sob nova pressão e ameaçando as esperanças de um acordo de paz.

Os Houthis e o Hezbollah, sediado no Líbano, integram o Eixo da Resistência, apoiado, treinado e armado por Teerão, que inclui o Hamas e milícias no Iraque. Oficialmente designados por Ansar Allah, os Houthis, que são um grupo político e militar xiita zaydita sediado no Iémen, formado na década de 1990, para resistir à influência ocidental e para combater o wahabismo (movimento fundamentalista do islamismo sunita, originado no século XVIII, na Península Arábica), controlam grande parte do país, há mais de uma década, após terem tomado a capital Sanaa e derrubado o governo em setembro de 2014.

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Entretanto, o Irão ameaçou atacar infraestruturas energéticas, em países vizinhos e no resto da região, se continuarem os ataques israelitas contra instalações energéticas iranianas, numa altura em que os dois lados trocaram ataques contra complexos petroquímicos, também a 6 de junho.

Uma fonte não identificada, próxima da Guarda Revolucionária do Irão, declarou à agência noticiosa Fars que qualquer novo ataque contra instalações energéticas do Irão desencadearia ataques contra ativos energéticos dos Estados Unidos da América (EUA), de Israel e dos respetivos parceiros regionais. E sublinhou que as petrolíferas e empresas de energia a operar na região com acionistas norte-americanos ou com israelitas eram consideradas alvos legítimos.

Antes dessa declaração, os meios de comunicação iranianos noticiaram que Israel atacara a fábrica petroquímica de Karun, situada na cidade portuária de Mahshahr, na província de Khuzestan, no Sudoeste do Irão, uma das principais zonas petroquímicas e industriais do país.

Na verdade, o complexo de Karun é um dos maiores produtores de etileno do Irão e um elemento crucial da infraestrutura de exportação química do país.

Cerca de uma hora depois, a Guarda Revolucionária afirmou que a sua força aeroespacial atacara, em retaliação, instalações petroquímicas em Haifa, o principal porto industrial de Israel e o centro do seu setor petroquímico, acolhendo a refinaria da Bazan Group, a maior do país, bem como várias fábricas químicas e terminais de armazenamento.

Os ataques à zona industrial de Haifa implicam significativos riscos para civis e para o ambiente, dada a concentração de materiais perigosos ali armazenados. Porém, a Guarda Revolucionária do Irão disse que os ataques visavam “instalações industriais semelhantes” às atingidas no Irão e acusou Israel de ter lançado “um jogo perigoso”, ao visar infraestruturas energéticas civis. Por seu turno, as forças israelitas indicaram, em separado, ter atacado alvos militares no Oeste e Centro do Irão, horas depois de o Irão lançar mísseis contra Israel, em resposta a um ataque israelita anterior aos subúrbios sul de Beirute.

Na conferência de imprensa semanal de 8 de junho, o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Irão, Esmaeil Baghaei, rejeitou, diretamente, a alegação de Donald Trump de que Washington tentara impedir os ataques israelitas. “Ninguém acredita que [Israel] tome qualquer iniciativa sem coordenação com os Estados Unidos da América”, afirmou Baghaei, acrescentando que o Comando Central dos EUA estava “totalmente alinhado” com Israel, “tanto nas operações ofensivas como nas defensivas”.

Baghaei afirmou que as vertentes militar e diplomática do Irão decorriam em paralelo, que as forças armadas iranianas atuarão, “sempre que necessário”, e que o ataque de retaliação do Irão foi realizado ao abrigo do artigo 51.º da Carta da Organização das Nações Unidas (ONU), que consagra o direito dos estados-membros à autodefesa individual ou coletiva, em resposta a um ataque armado.

Responsabilizou, diretamente, os EUA pelas ações israelitas, dizendo que Washington assumia responsabilidade, como parte no cessar-fogo de 8 de abril, e que “qualquer desenvolvimento na região que resulte numa violação do cessar-fogo implica responsabilidade direta dos EUA”.

No sinal diplomático mais significativo do briefing, Baghaei referiu, pela primeira vez, que o stock de urânio enriquecido do Irão poderia ser incluído numa segunda fase de negociações, uma mudança notável face à posição anterior de Teerão de que o tema não era negociável.

“Qualquer discussão sobre vários aspetos do programa nuclear do Irão, incluindo o seu stock de urânio enriquecido, é, nesta fase, puramente especulativa”, declarou, observando que, “se esta fase chegar a uma conclusão bem-sucedida, essa questão será um dos temas a discutir na próxima fase de negociações”. E acrescentou que as conversações atuais continuam centradas no fim da guerra, não estando, por agora, em cima da mesa uma troca de prisioneiros com os EUA.

Baghaei negou ainda que o Irão tivesse atacado a base aérea Prince Sultan, na Arábia Saudita, após relatos de um ataque desse tipo. “As nossas forças armadas anunciam, abertamente e com coragem, qualquer alvo que atinjam, no quadro do legítimo direito de autodefesa do Irão. Neste caso, não recebemos qualquer declaração ou anúncio desse teor, por parte das nossas forças armadas”, porfiou.

Acusou, igualmente, o diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), Rafael Grossi, de adotar uma abordagem “completamente parcial, não técnica e política”, em relação ao dossiê nuclear iraniano, o mais recente episódio numa série de críticas públicas iranianas à forma como Grossi tem conduzido a supervisão da agência, desde o início da guerra.

A troca de ataques ocorre apesar de um cessar-fogo entre o Irão e os EUA em vigor desde 8 de abril. Teerão insiste que o acordo abrange todas as frentes, incluindo o Líbano e as operações israelitas, posição rejeitada por Washington e por Israel.

Relatos e imagens divulgadas nas redes sociais, a partir do Irão, indicavam que os ataques israelitas contra Teerão e contra outras grandes cidades continuavam, com os sistemas de defesa aérea acionados para intercetar ameaças em aproximação.

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Enquanto sucede tudo isto, é de recordar que o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, anunciou, a 7 de junho, que as suas forças armadas bombardearam os subúrbios do Sul de Beirute, indicando que foi o primeiro ataque contra a capital libanesa, desde o acordo do novo cessar-fogo alcançado em Washington, a 4 de junho.

“De acordo com as instruções do primeiro-ministro Netanyahu e do ministro da Defesa Katz, as forças de defesa de Israel [FDI, o exército] atacaram o quartel-general terrorista no bairro de Dahye, em Beirute, em resposta aos disparos do Hezbollah contra território israelita”, referiu o comunicado do gabinete do governante israelita, criado pela agência de notícias espanhola EFE.

Os subúrbios do sul de Beirute bombardeados por Israel são conhecidos como Dahye e constituem um bastião do grupo xiita Hezbollah.

Segundo avançou a agência de notícias Associated Press (AP), citando o comunicado de imprensa do primeiro-ministro, os ataques constituíram uma retaliação aos disparos efetuados, anteriormente, pelo grupo militante Hezbollah contra o Norte de Israel. Porém, o Hezbollah não reivindicou, imediatamente, a responsabilidade por esses ataques.

Israel atacou os extensos bairros urbanos, duas vezes, desde que o primeiro acordo entre o Líbano e Israel entrou em vigor a 17 de abril. Os ataques sobre o sul do Líbano, continuam diariamente, onde combatentes do Hezbollah e tropas israelitas também entraram em confronto. Segundo a AP, os residentes ouviram três explosões na área, mas não há notícias de vítimas.

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Também guerra a Ucrânia prossegue, como diria Camilo Castelo Branco, “convenientemente”.

O comandante das Forças Armadas ucranianas, Oleksandr Syrsky, garantiu que a Ucrânia recuperou cerca de 100 quilómetros quadrados de território, no mês de maio.

Numa publicação, no Telegram, Syrsky aponta que, “na sequência das operações realizadas em maio”, o saldo entre território recuperado e perdido foi favorável à Ucrânia, em cerca de 100 quilómetros quadrados. Segundo o chefe militar, mais de 600 quilómetros quadrados de território ucraniano foram libertados, desde o início do ano.

Oleksandr Syrsky faz ainda um balanço das operações militares de maio, afirmando que as unidades de drones “atingiram mais de 88 mil alvos” e “neutralizaram mais de 30500 soldados russos”. Não obstante, de acordo com a Reuters, um ataque russo com drones contra a cidade de Zaporizhzhia, no Sudeste da Ucrânia, provocou a morte de duas pessoas e, pelo menos, 15 ficaram feridas, segundo o governador regional, Ivan Fedorov.

Mostrando-se o presidente dos EUA cansado com as negociais entre Washington e Moscovo, o Reino Unido, a França e a Alemanha estão a combinar, entre si e com o presidente ucraniano, a forma de colocar Moscovo e Kiev em conversações para obter o fim da guerra, o que Vladimir Putin vem pondo de parte, ao não ceder nos seus objetivos territoriais.

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Por sua vez, Donald Trump avisou Israel e o Irão de que devem travar os ataques, imediatamente.

Em duas publicações nas redes sociais, o inquilino da Casa Branca exigiu que os dois lados parassem de “disparar”. Inicialmente, apenas o Irão anunciou o fim dos ataques, mas, após um telefonema entre o presidente norte-americano e o primeiro-ministro israelita, Israel terá concordado com a suspensão das hostilidades.

Depois de a Guarda Revolucionária do Irão ter anunciado que os seus ataques contra Israel poderiam continuar durante toda a semana, as forças armadas do Irão anunciaram o fim das operações militares contra Israel, mas avisaram, no entanto, que ataques “muito mais severos” ocorrerão, caso Israel retome as ofensivas contra o Sul do Líbano.

Mais tarde, foi a vez de uma autoridade israelita afirma ao canal 12 do país que também Israel vai cessar os ataques, a pedido do chefe de Estado norte-americano. Contudo, os ataques no Sul do Líbano prosseguirão, se o Hezbollah atacar Israel.

Após a mais recente troca de ataques entre o Irão e Israel, o chefe de Estado norte-americano continua a vincar que ambos os países “procuram um cessar-fogo imediato”.

O presidente dos EUA disse, em declarações aos jornalistas, que “não estava feliz” com os ataques de Teerão, mas que estes “não teriam qualquer impacto no acordo”. E insistiu que “quem dá as ordens” é o chefe de Estado norte-americano, e não Benjamin Netanyahu, com quem entrou em rota de colisão, recentemente.

Apesar de Trump afirmar que a paz está próxima, os sinais indicam que está a perder influência na crescente crise. O analista militar Michael Clarke referiu, em declarações à Sky News, que a administração norte-americana tem desenvolvido uma “diplomacia amadora”.

Por outro lado, o governo paquistanês, que tem empreendido esforços, enquanto mediador entre Israel e o Irão, não acredita que um acordo esteja próximo.

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Vladimir Putin persiste na sua soberba ambição de hegemonia militar e de expansão territorial. Donald Trump continua convencido que pode ser o senhor da guerra e construtor da paz. Benjamin Netanyahu vê terroristas em qualquer esquina. Masoud Pezeshkian (presidente do Irão) e Mojtaba Khamenei (líder supremo do Irão) dizem que se limitam a responder a ataques armados.

Todos dizem querer a paz, mas nenhum abdica das suas ambições (armas nucleares, poderio militar, político e económico, terras raras, controlo do petróleo e dos seus derivados, domínio territorial, etc.).

Toda esta hipocrisia sanguinolenta me faz lembrar o epíteto “puñetero y desalmado”, com que “El Credo de la Misa Campesina” carateriza Pôncio Pilatos. Com efeito, porfiou que Jesus de Nazaré era inocente, mas, no entanto, mandou-o flagelar e coroar de espinhos e, lavando as mãos para se afirmar irresponsável pela sua morte, entregou-o à crucifixão.  

Não serão também verdadeiros “puñeteros y desalmados” estes senhores da guerra que, enquanto conversam, instigam à matança de tanta gente e à destruição de património e de ecossistemas?

2026.06.08 – Louro de Carvalho


domingo, 7 de junho de 2026

O Evangelho da misericórdia abomina todo o tipo de hipocrisia

 A Palavra de Deus proclamada na liturgia do 10.º domingo do Tempo Comum, no Ano A insiste em que o Senhor prefere a misericórdia ao sacrifício de cabritos ou de novilhos. A misericórdia é atribuição divina que, espelhando-se no homem, configura a magnífica humanitas, tornando-o parecido com Deus. Aliás, pode dizer-se que Deus veio ao Mundo, por Jesus Cristo, para que o homem deixe de ser homem pervertido e passe a ser integralmente homem, porque parecido com Deus e seu aliado, na compaixão e na misericórdia.

Deus censura a oração e os sacrifícios cultuais, porque são hipócritas. Ou seja, são atos meramente exteriores, não significando pureza de intenção, nem oferta do coração a Deus; são ineficazes, porque não mudam a vida (mentalidade, valores, atitudes e comportamentos) de quem os oferece; e não constituem compromisso de empatia e de ajuda aos mais fracos (pobres, doentes, pecadores, estrangeiros, mulheres e crianças), antes convivem, desgraçadamente, com a soberba, o orgulho e a autossuficiência, a avareza e a ambição desmedida, a ira e o insulto, a exploração escravizante, a prepotência, a inveja, a luxúria (por pensamentos, desejos, palavras e ações).

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Na primeira leitura (Os 6,3-6), o profeta põe em causa a sinceridade da comunidade que procura controlar e manipular Deus, mas não está minimamente interessada em aderir, de coração sincero e verdadeiro, à aliança. Os atos de culto – mesmo faustosos e magnificentes – nada significam, se não há amor – amor a Deus e amor ao próximo (a outra face do amor a Deus).

Oseias exerceu o ministério profético no reino do Norte (Israel), a partir de 750 a.C., em época muito conturbada, marcada politicamente, pela insegurança, pela violência e pelo derramamento de sangue. Os reinados eram curtos e terminavam em revoluções, assassínios, massacres. O aventureirismo dos dirigentes e as alianças com as potências vizinhas causavam instabilidade e anunciavm a perda da independência, o que aconteceu em 721 a.C., quando a Samaria foi arrasada por Salamanasar V, da Assíria.

A nível religioso, reina a confusão. Exposto à influência cultural dos povos circunvizinhos, Israel acolhe deuses estrangeiros que coabitam com Javé no coração do Povo e nos centros religiosos. Mistura-se o Javismo com os cultos de Baal e de Astarte; embora Javé seja, oficialmente, o Deus nacional, é preterido em prol dos deuses cananeus. Além disso, as alianças políticas com os povos estrangeiros significam que Israel não confia em Deus e que põe a confiança e a esperança nos guerreiros, nos cavalos, nos carros de guerra das superpotências. Assim, a Assíria e o Egito deixam de ser realidades terrenas e humanas, para se tornarem deuses, capazes de salvar. O povo passa a confiar neles e a prescindir de Javé.

Oseias, sentindo o drama do sincretismo religioso, que faz perigar a fé do seu povo, apela a que Israel não se deixe dominar pela idolatria (a que chama “prostituição”: o povo é como a esposa que abandonou o marido, para correr atrás dos amantes) e convida-o a redescobrir o amor de Javé – sempre presente na História de Israel – e a responder-Lhe com a vontade sincera de viver em comunhão com Ele.

No início do capítulo 6, o profeta põe na boca do Povo uma fórmula de arrependimento, quiçá tomada da tradição cultual (“vinde, voltemos para o Senhor: Ele nos despedaçou, Ele nos curará; Ele fez a ferida, Ele nos porá o penso que cura” – Os 6,1). Todavia, o profeta olha para esta expressão com olhar irónico, porque duvida da sinceridade da conversão do povo.

Israel diz: “O Senhor é como a aurora, pontual e inevitável, como a chuva que empapa a terra. Sabemos como Ele funciona, pois Ele é previsível; se soubermos fazer bem as coisas, podemos controlá-Lo, pô-Lo do nosso lado e recuperar a vida que perdemos.” Isto é o resultado da atitude calculista de quem está convicto de que conhece Deus perfeitamente e é capaz de O manejar e manipular, e não o resultado de atitude coerente e sincera, de verdadeiro desejo de conversão.

Na reação de Deus, o profeta vê como que uma luta interior. “Que farei?” – pergunta Deus. Mas logo surge a resposta: Deus assume que não cederá, pois que a conversão de Israel é superficial, não passa de conversa fiada (“o vosso amor é como o nevoeiro da manhã, como o orvalho da madrugada que logo se evapora”). Israel não quer mudar o coração; só está disposto a controlar Deus, para readquirir a vida. Ora, não havendo transformação verdadeira do coração, o apregoado amor do povo por Deus não passa de piedosa declaração de boas intenções.

Israel não manifesta, no dia a dia, a Javé a sua vontade de “voltar para o Senhor”, através de vida coerente com os mandamentos e de amor que sai do fundo do coração e se expressa em gestos de bondade, de justiça, de misericórdia. Expressa o seu amor a Javé em ritos externos, em atos de culto. Porém, as orações que superabundam em palavras e os atos rituais (os sacrifícios) nada significam por si próprios; são apenas atos exteriores ao homem. Nada vale o culto – ainda que magnificente – que não resulte da atitude interior de amor e da vontade de comunhão com Deus (“conhecimento de Deus”). O culto não pode consistir em ritos desligados da vida, para aplacar Deus ou para comprar a sua benevolência, mas tem de ser expressão da vida voltada para Deus, vivida ao ritmo da aliança, no respeito por Deus e pelas suas leis.

Dizer que Deus quer “a misericórdia (“hesed”), e não os sacrifícios, o conhecimento de Deus (“daat Elohim”), mais do que os holocaustos”, significa que a Deus não agradam rituais externos – mesmo que ricos e espalhafatosos – que não exprimem os sentimentos que vão no coração; o que interessa a Deus é o coração que aceita viver em comunhão com Ele (“conhecimento de Deus”) e que é capaz de gestos de amor, de ternura, de bondade, de misericórdia (“hesed”) em favor dos irmãos. Deus amor, é comunhão e é misericórdia.

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Na segunda leitura (Rm 4,18-25), Paulo apresenta aos cristãos (aos que vêm do judaísmo, preocupados com o cumprimento da Lei de Moisés, e aos que vêm do paganismo) a única coisa essencial: a fé. A figura de Abraão é exemplar: o que o tornou o modelo para todos não foram as suas obras, mas a adesão total, incondicional e plena a Deus e ao seu plano.

Quando Paulo escreveu aos romanos, preocupava-o a ameaça de cisão da Igreja: os cristãos oriundos do judaísmo e os oriundos do paganismo tinham óticas diferentes da salvação e pareciam em rota de colisão. O problema seria também sentido em Roma. No ano 49, um édito do imperador Cláudio obrigara os judeus a deixar Roma; a comunidade cristã ficara entregue aos cristãos de origem pagã. Mas, em 57/58, muitos judeus regressaram e a comunidade cristã contava, de novo, com significativo grupo de judeo-cristãos. Estes, ao retornarem, encontraram a comunidade cristã com caraterísticas diferentes da que tinham deixado, dirigida por cristãos convertidos do paganismo e emancipada das tradições judaicas. Era de crer que os cristãos de origem judaica, não se sentido acolhidos, criticassem as novas orientações.

 Dirigindo-se aos romanos e à Igreja em geral, o apóstolo sublinha o que deve unir todos os crentes – judeus, gregos ou romanos. Apesar da universalidade do pecado (judeus e não judeus estão em pé de igualdade), Deus oferece a todos, gratuitamente, a salvação e de todos faz, em igualdade de circunstâncias, seus filhos. É por Cristo que a salvação é oferecida aos homens. O cumprimento da Lei não salva, porque a salvação é dom de Deus. Ao homem, resta-lhe acolher o dom na fé. A fé é adesão à salvação que, em Cristo, Deus oferece aos homens.

Como exemplo, Paulo apresenta Abraão (cf. Rm 4,1-12). O apóstolo demonstra que essa figura modelar para judeus e pagãos não foi salva pela Lei, nem pelas obras, mas pela fé.

Paulo, no trecho em apreço, deixa claro – com argumentação tirada da Escritura – porque foi Abraão o depositário da promessa e se tornou fonte de bênção para a sua descendência.
Abraão tornou-se referência fundamental para todos os crentes – judeus e não judeus – não por ter realizado obras meritórias ou por ter cumprido, estrita e escrupulosamente, a Lei. Tornou-se modelo para todos por ser o homem da fé, tendo acolhido o dom de Deus e tendo-Lhe respondido com entrega incondicional, com obediência radical, com ilimitada confiança.

Paulo descreve a grandeza e a profundidade da fé de Abraão. O exemplo mais conhecido e emblemático é que, apesar das avançadas idades de Abraão e de Sara, sua esposa, o patriarca não titubeou, não argumentou, não duvidou, quando Deus lhe anunciou o nascimento de Isaac. Isto significa a profundidade, a força, a heroicidade da fé do homem que fez da vida a entrega completa nas mãos de Deus, que confiou incondicionalmente em Deus, que esperou “contra toda a esperança”. Estas últimas palavras definem a atitude do homem que reconhece tudo dever a Deus e que se Lhe entrega incondicionalmente.

O apóstolo tem plena certeza de que não foram as obras de Abraão, mas a sua fé (entrega, obediência, confiança) que o tornaram o eleito de Deus e fonte de vida e de bênção para os seus descendentes. Portanto, não são as obras que fazemos que nos asseguram a salvação. Ao invés, o que nos assegura a vida plena e definitiva é a nossa fé – isto é, a adesão radical, confiante, ilimitada à salvação que, em Jesus, Deus nos faz. A salvação não é conquista do homem, mas dom de Deus, oferecido gratuitamente por amor, e que o homem é convidado a acolher com fé, com serenidade, com confiança.

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O Evangelho (Mt 9,9-13) é uma catequese sobre a resposta que devemos dar ao Deus que chama todos os homens, sem exceção. O exemplo de Mateus sugere que o decisivo é a resposta pronta ao seu convite de Deus para integrar a comunidade do Reino.

O trecho evangélico faz parte de uma longa secção, em que Mateus põe Jesus – com palavras e com ações – a anunciar o Reino (Mt 4,23 – 9,35). Na primeira parte (Mt 5-7), Mateus apresenta o sermão da montanha: num discurso magnífico, Jesus apresenta a lei e o programa do Reino que veio propor: é o anúncio do Reino por palavras. Na segunda parte (Mt 8-9), Mateus, apresentando o anúncio do Reino, pelas ações de Jesus, coloca-nos diante de três conjuntos de ações ou milagres de Jesus que tornam presente a realidade do Reino. E, entre cada um desses conjuntos aparecem reflexões sobre o significado dos gestos de Jesus e apelos ao seu seguimento. O trecho em causa, inserido neste esquema, apela ao seguimento de Jesus.

Em suma, nesta secção, temos o anúncio do Reino nas palavras e nos gestos de Jesus. As palavras anunciam a chegada do Mundo novo no qual os pobres e os débeis receberão a salvação de Deus; os gestos mostram a realidade desse tempo novo de felicidade, de alegria, de libertação para todos. Os discípulos, obviamente, são convidados a aderir ao Reino que Jesus propõe e a tornarem-se testemunhas desse Mundo novo.

Estamos perante dois episódios distintos. O primeiro refere o chamamento do publicano Mateus; o segundo descreve o banquete em casa de Mateus e a controvérsia com os fariseus.

Os publicanos (ou cobradores de impostos) eram rotulados de pecadores públicos notórios. Além de estarem ao serviço do opressor romano, tinham a fama (e o proveito) de explorarem os pobres. Por isso, a linguagem oficial associava-os aos marginais: ladrões, pagãos, assassinos e prostitutas. Os publicanos eram considerados pecadores públicos, permanentemente afetados de impureza, pelo que nem podiam fazer penitência, pois eram incapazes de reconhecer todos os que tinham defraudado. Os fariseus, muito ciosos da sua santidade, mudavam de passeio, quando, na rua, viam um publicano vir ao seu encontro. Eram, pois, gente desclassificada (apesar de rica), impura, considerada amaldiçoada por Deus e totalmente à margem da salvação.

Tudo isto nos permite perceber o inaudito da situação criada por Jesus. Não apenas chama o publicano para o grupo de discípulos, como aceita sentar-Se à mesa com ele, estabelecendo com ele laços de familiaridade, de fraternidade, de comunhão. O comportamento de Jesus é, não só atentatório da moral e dos bons costumes, como é verdadeira provocação.

O relato da vocação de Mateus não é substancialmente distinto do relato do chamamento de outros discípulos. Em qualquer dos casos, fala-se de homens que estão a trabalhar, a quem Jesus chama e que, deixando tudo, O seguem. Os chamados não são super-homens, seres perfeitos e santos, estranhos ao Mundo, pairando acima das nuvens, sem contacto com a vida e com os problemas e dramas dos outros homens e mulheres. Ao invés, são pessoas normais, que vivem vida normal, que trabalham, lutam, riem e choram. Porém, todos são chamados ao seguimento de Jesus. O verbo “akolouthéô”, utilizado na forma imperativa, traduz a ação de “ir atrás” e define a atitude do discípulo que aceita ligar-se a um mestre, escutar as suas lições e imitar o seu exemplo de vida. É isso que Jesus pede a Mateus. E Mateus, sem objeções nem pedidos de esclarecimento, deixa tudo e aceita ser discípulo, em adesão plena, total e radical a Jesus e à sua proposta de vida.

Mateus define aqui o caminho do verdadeiro discípulo: é o que, na vida normal, se encontra com Jesus, escuta o seu convite, o aceita sem discussão e segue Jesus de forma incondicional. A esta adesão ao chamamento de Deus chama-se fé.

Contudo, há um dado novo, em relação a outros relatos de vocação: o chamado é cobrador de impostos. Os cobradores de impostos eram gente desclassificada, excluída da vida social e religiosa do Povo de Deus. Jesus, contudo, pretende demonstrar que, na casa do Reino, há lugar para todos, até para os que o Mundo desclassifica e marginaliza. Deus tem uma proposta de salvação a apresentar a todos, sem exceção; e essa proposta não distingue entre bons e maus: destina-se a todos os que estiverem interessados em acolhê-la.

Depois, o evangelista coloca-nos ante uma controvérsia entre Jesus e os fariseus, porque Jesus – tendo convidado o publicano a integrar o grupo de discípulos (coisa inaudita, que nenhum mestre aceitaria) – desceu mais e aceitou sentar-Se à mesa com publicanos e pecadores.

O banquete era, na mentalidade judaica, o lugar do encontro, da fraternidade, onde os convivas criam laços de família e de comunhão. Sentar-se à mesa com alguém significava estabelecer laços profundos, íntimos, familiares, com essa pessoa. Por isso, o banquete é, para Jesus, o símbolo mais apropriado do Reino de fraternidade, de comunhão, de amor sem limites, que Ele veio propor aos homens. Ao sentar-Se à mesa com os publicanos e pecadores, Jesus diz, claramente, que veio apresentar a salvação para todos, sem exceção, e que, no Mundo novo, todos os homens e mulheres (independentemente das suas opções ou decisões erradas) têm lugar. A única condição que há para sentar-se à mesa do Reino é aceitar a proposta de Jesus.

Os fariseus (mais preocupados com as obras, com os comportamentos externos, com o cumprimento da Lei) não entendem isto. Jesus recordando-lhes que “não são os que têm saúde que precisam de médico, mas os doentes”, e cita a frase de Oseias: “Prefiro a misericórdia ao sacrifício.” Há, nas afirmações de Jesus, uma certa ironia: os fariseus julgavam-se justos e bons, porque cumpriam a Lei; mas, na perspetiva de Deus, os justos não são os que estão satisfeitos consigo próprios e vivem isolados na autossuficiência, mas todos quantos, não se conformando com a triste situação em que vivem, estão dispostos a acolher o dom de Deus e a aderir à salvação.

Para Deus, o que é decisivo não é o estrito cumprimento das regras, das leis e dos atos de culto, estar disposto a acolher a salvação que Ele oferece e a entregar-se, confiadamente, nas suas mãos. Todos quantos, na sua humildade e dependência, estão nesta atitude integram a comunidade do Reino e fazem parte da comunidade de Jesus, da comunidade da salvação.

Deus chama todos, sem exceção. Os que se consideram bons e justos, pensam que não precisam do dom de Deus, pois merecem, pelos seus atos, a salvação. Porém, a salvação é sempre um dom gratuito de Deus, não merecido pelo homem. O que Deus pede ao homem (seja bom ou mau, pecador ou santo, justo ou injusto) é que aceite o dom de Deus, escute o chamamento de Jesus e, sem objeções, com total confiança e disponibilidade, aceite seguir Jesus e seja seu discípulo, para integrar a comunidade do Reino.

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É salutar ouvir, como o salmista, a voz de Deus e segui-la em novo estilo de vida:

“A quem procede retamente farei ver a salvação de Deus.”

“Falou o Senhor, Deus soberano, / e convocou a Terra, do Oriente ao Ocidente: / «Não é pelos sacrifícios que Eu te repreendo: / os teus holocaustos estão sempre na minha presença.

“Se tivesse fome, não to diria, / porque meu é o Mundo e tudo o que nele existe. / Comerei porventura as carnes dos touros / ou beberei o sangue dos cabritos?

“Oferece a Deus sacrifícios de louvor / e cumpre os votos feitos ao Altíssimo. / Invoca-Me no dia da tribulação: / Eu te livrarei e tu Me darás glória».”

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Por fim, o imperativo da misericórdia é o discípulo aceitar, alegremente, ser apóstolo do Evangelho aos pobres e oprimidos:

“Aleluia. Aleluia.”

“O Senhor enviou-me a anunciar o evangelho aos pobres / e a liberdade aos oprimidos.”

2026.06.07 – Louro de Carvalho


sábado, 6 de junho de 2026

União Europeia reduz importações de combustíveis fósseis

 

Passaram 100 dias desde o início da guerra dos Estados Unidos da América (EUA) e de Israel contra o Irão, que atirou o Mundo para um dos maiores choques nos combustíveis fósseis da nossa época e, enquanto a União Europeia (UE) respondeu a esta crise dos combustíveis fósseis, restringindo as importações, três países agravaram a exposição, ao aumentá-las.

Liam Gilliver, em artigo intitulado “UE reduz importações de combustíveis fósseis, mas três países fogem à regra”, publicado pela Euronews, a 6 de junho, sustenta que o boom das fontes de energia renováveis, na Europa, “ajudou a proteger o continente da escalada de preços do petróleo e do gás – que continuam voláteis, devido ao controlo exercido pelo Irão sobre o Estreito de Ormuz” –, tendo só a energia solar poupado à Europa 12,8 mil milhões de euros, até 2 de junho.

É de referir que, em fins de março, uma análise da SolarPower Europe concluía que a capacidade solar da Europa pode permitir ao continente europeu poupar 67,5 mil milhões de euros, até ao final do ano, caso o preço do gás se mantenha elevado, o que dá a entender que a energia solar ajuda a livrar a Europa dos pesados custos das importações de combustíveis fósseis, quando a guerra contra o Irão faz disparar os preços do petróleo e do gás.

O relatório defendia que a capacidade de produção de energia solar já funcionava como um “importante amortecedor”, face ao choque energético provocado pela guerra.

Só nos primeiros 20 dias de março, a análise – baseada em dados de preços do gás da Rystad Energy – concluiu que a produção de eletricidade solar poupou à UE dois mil milhões de euros (100 milhões de euros, por dia) que, de outra forma, teriam sido gastos em importações de combustíveis fósseis.

Sustentam os analistas, a energia solar fez baixar, em quase, um terço o custo total de satisfazer as necessidades energéticas da UE. Apesar disso, pela primeira vez, em dez anos, o mercado solar europeu começou a encolher.

A 31 de março, o Brent, referência mundial para o preço do petróleo, tinha subido mais de 50 %, desde o início do conflito no Médio Oriente, tendo atingido 107 euros, por barril, na manhã daquele dia, e o preço do gás natural holandês TTF disparara cerca de 70 %. “É altura de tirar lições não de uma, mas de duas crises energéticas”, afirmava Walburga Hemetsberge, diretora-executiva da SolarPower Europe, lamentando que o crescimento da energia solar na Europa tenha estagnado, quando “os benefícios são maiores do que nunca”.

Convicta de que a tarefa urgente dos decisores políticos “é maximizar tudo o que a energia solar pode fazer pela Europa”, Hemetsberge pede aos governos que criem redes elétricas mais flexíveis, apostem mais no armazenamento de energia e aprofundem a eletrificação em toda a economia.

Apesar de enfrentarem uma “onda de desinformação”, as bombas de calor também permitiram poupar 20 mil milhões de euros, em 2025, e devem ter gerado poupanças de 5,3 mil milhões de euros, entre janeiro e abril deste ano.

Uma bomba de calor é um equipamento de climatização altamente eficiente que transfere calor do exterior para o interior de um espaço ou vice-versa, utilizando fontes de energia naturais, como o ar, a água ou o solo. Em vez de gerar calor, através da queima de combustíveis, move o calor já existente de um local para outro, utilizando uma pequena quantidade de eletricidade.

O seu funcionamento é semelhante ao de um frigorífico, mas ao contrário deste (que retira o calor de dentro e o liberta para o exterior), a bomba de calor faz o processo inverso.

O ciclo baseia-se num circuito fechado onde circula um fluido refrigerante, em quatro fases: captação, em que o fluido absorve a energia térmica disponível no ambiente, mesmo com temperaturas exteriores baixas; compressão, em que um compressor elétrico comprime o fluido, aumentando, drasticamente, a sua temperatura e a sua pressão; transferência, sendo o calor concentrado transferido, através de um permutador, para o sistema de aquecimento da casa ou para as águas quentes sanitárias (AQS); e expansão, pela qual o fluido arrefece e volta ao estado inicial, reiniciando o ciclo.

Vários países europeus já tinham demonstrado os benefícios de transformar os seus sistemas energéticos, apostando em tecnologia verde, antes da guerra contra o Irão. Por exemplo, a Espanha, desde 2019, duplicou a sua capacidade eólica e solar, acrescentando mais de 40 gigawatts (GW) ao seu mix energético. Repare-se que uma central com capacidade de um GW pode abastecer cerca de 876 mil agregados familiares, durante um ano, assumindo um consumo médio anual de 10 mil quilowatts, por hora (kWh) de eletricidade, por casa.

“O crescimento da energia eólica e solar, na Espanha, reduziu em 75 % a influência das centrais fósseis caras no preço da eletricidade, desde 2019”, afirmava o think tank energético Ember, num relatório publicado em 2025, relevando que “esta redução das horas em que o preço da eletricidade estava indexado ao custo da produção a gás foi mais rápida do que noutros países dependentes do gás, como Itália e Alemanha”.

Nos mercados elétricos europeus, é o produtor mais caro em funcionamento para satisfazer a procura – normalmente, uma central a combustíveis fósseis – que define o preço grossista horário da eletricidade. Porém, à medida que aumenta a produção a partir de tecnologias de baixo custo, como a eólica e a solar, são afastados o gás e o carvão e os combustíveis fósseis passam a determinar o preço com menos frequência.

Ventos recorde ajudaram o Reino Unido a bater novo máximo de produção renovável, apesar das alegações de “fantasia” de que o país precisa de perfurar o mar do Norte em busca de petróleo. A 26 de março, a produção de energia eólica britânica atingiu novo máximo de 23880 megawatts, energia suficiente para alimentar 23 milhões de casas. “Durante este período recorde, o vento forneceu mais de metade da eletricidade britânica, e é muito significativo que, mais cedo, no mesmo dia, a eólica e a solar de baixo custo tenham expulsado o gás caro do nosso sistema energético – a produção a gás caiu para o nível mais baixo em quase dois anos, representando apenas 2,3 % da nossa eletricidade”, afirmou Tara Singh, da RenewableUK, vincando: “É isto que a transição energética significa, na prática, e mostra por que precisamos de continuar a desenvolver uma carteira ambiciosa de novos projetos de energia limpa, agora e nos próximos anos.”

Em 2025, a energia eólica e a solar geraram, pela primeira vez, mais eletricidade na UE, do que os combustíveis fósseis, um “marco importante” na transição para energia limpa.

Um relatório da Ember concluiu que a energia eólica e a solar representaram um recorde de 30 % da eletricidade da UE, ultrapassando os combustíveis fósseis por um ponto percentual.

Em 2024, a Áustria era o país com a maior taxa de utilização de eletricidade verde (90 %), impulsionada, sobretudo, pelas suas 16 centrais hidroelétricas. A Suécia surgiu, logo a seguir, com 88 %, alimentada, sobretudo, por vento e por água, enquanto a Dinamarca ficou em terceiro lugar, com 80 % da energia a vir de fontes renováveis. Seguiram-se a Geórgia (68,4 %), Portugal (65,8 %), a Espanha (69,7 %) e a Croácia (58 %). Malta ficou em último lugar, com apenas 10,7 % de utilização de energia renovável.

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Contudo, segundo Liam Gilliver, a UE, que ainda gasta milhares de milhões de euros em importações de combustíveis fósseis e aumentou a sua dependência, face aos seus dois maiores fornecedores de gás natural liquefeito (GNL), os EUA e a Rússia.

Uma nova análise do Institute for Energy Economics and Financial Analysis (IEEFA) mostra que as importações de GNL da UE caíram 1,2 %, desde março até agora, e continuam a diminuir. No Reino Unido, as importações de GNL recuaram 20 % no mesmo período. Em conjunto, isto traduz-se numa redução de 3 %

Segundo a IEEFA, as importações de GNL, por país, em biliões de metros cúbicos, entre março e maio de 2025 e entre março e maio de 2026 (em termos homólogos) são, respetivamente:  a França – perto de 10 e perto de oito; a Espanha – mais de seis e muito perto de seis; os Países Baixos – muito perto de seis e mais perto de cinco; a Itália – cinco e perto de seis; a Bélgica – perto de quatro e quatro; a Alemanha – dois e três e meio; o Reino Unido – um pouco mais de três e meio e três; a Polónia, dois e perto de dois; Portugal – perto de um e um pouco mais de um; a Grécia – pouco mais de meio e um; a Lituânia – meio e quase um; a Croácia – perto de um e um; a Finlândia – meio e quase meio; e Malta – não chega a um meio, em nenhum dos períodos.  

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“A UE apercebeu-se de que a decisão de 2022 de reforçar as importações de GNL deixou de ser sustentável”, afirma a analista de energia da IEEFA, Ana Maria Jaller-Makarewicz, sublinhando que “as restrições na oferta levaram a uma redução das importações de GNL, o que evidencia a necessidade iminente de uma diminuição adicional da procura de gás, para não pôr em causa a segurança energética do bloco.”

De acordo com Jaller-Makarewicz, embora muitos estados-membros da UE tenham respondido a esta crise dos combustíveis fósseis, limitando as importações de GNL, outros “aprofundaram a sua exposição, ao aumentá-las”.

As importações de GNL da Alemanha dispararam 72 %, em termos homólogos entre março e maio de 2026, configurando o aumento mais acentuado entre todos os países da UE. A Itália – que corre o risco de falhar a sua meta de emissões para 2030 – e a Bélgica também aumentaram as importações de GNL, no último ano.

A análise da IEEFA conclui que a dependência do GNL dos EUA e da Rússia se manteve, nos primeiros 100 dias de guerra no Médio Oriente, e que, na sequência do fecho efetivo do Estreito de Ormuz, diminuíram as importações europeias de GNL do Qatar. Porém, entre março e maio deste ano, as importações de GNL da UE aumentaram, em termos homólogos, junto de todos os outros principais fornecedores: mais 4 %, dos EUA; 11 %, da Argélia; 25 %, da Rússia; e 84 %, da Noruega.  Os EUA representaram 60 % das importações de GNL da UE, neste período, face a 56 %, no período homólogo anterior.

A subida dos custos das importações de combustíveis fósseis, a par de mais de 210 medidas de emergência adotadas pelos seus estados-membros, deixou à UE uma fatura energética de 60 mil milhões de euros, em resultado da guerra. “Menos de 5 % (dois mil milhões de euros) desse montante foi dirigido a medidas de eletrificação, o único investimento estrutural que reduz a exposição hoje e constrói a resiliência energética de amanhã”, diz Alice Moscovici, investigadora do centro de reflexão europeu Instituto Jacques Delors.

As energias renováveis produzidas internamente são apontadas como a melhor forma de reduzir a dependência da UE dos combustíveis fósseis, pois, em 2025, ao reduzir as importações poluentes, a energia limpa poupou à UE 51 mil milhões de euros, com a energia solar e a eólica na linha da frente. E as famílias europeias também recorrem à eletrificação, para se protegerem da escalada dos preços da energia. As vendas de bombas de calor aumentaram 25 %, na França, na Alemanha e na Polónia, nos primeiros meses deste ano, enquanto a empresa energética britânica Octopus Energy viu as suas vendas subirem 51 %, nas três primeiras semanas de março, face ao mesmo período do mês anterior.

Várias plataformas de venda de automóveis em toda a Europa registaram o aumento do interesse em veículos elétricos, enquanto dados do governo britânico indicam que foram concluídas mais de 27 mil instalações solares em março de 2026, o valor mensal mais elevado desde 2012. “Acelerar a transição para transportes, aquecimento e indústria eletrificados é essencial para reduzir a dependência de combustíveis importados e reforçar a resiliência”, afirma Adrian Hiel, diretor da Electrification Alliance, sustentando que resultará, porque as famílias e as empresas pouparão “dezenas de mil milhões de euros todos os anos”.

Em muitos países da UE, o preço da eletricidade continua ligado aos voláteis combustíveis fósseis, devido ao princípio da ordem de mérito. Este mecanismo faz com que o preço da eletricidade seja determinado pela central elétrica mais cara ainda necessária para satisfazer a procura. Porém, o investimento em renováveis começa a romper este princípio, protegendo ainda mais os europeus dos choques nos combustíveis fósseis e mantendo as faturas de energia estáveis. “Nos primeiros cinco meses de 2026, os países com presença reduzida de combustíveis fósseis no seu mix de produção elétrica tiveram uma relação mais favorável entre os preços do gás e da eletricidade”, verifica Aneta Stefańczyk, especialista do European Climate Neutrality Observatory, explicando: “As diferenças são grandes: a relação entre o preço da eletricidade e o do gás é mais de duas vezes inferior, na Espanha, face a países mais dependentes de combustíveis fósseis, como a Itália ou a Polónia.”

Segundo o centro de estudos de energia Ember, 75 % da eletricidade, na Espanha, foi gerada a partir de fontes de baixo carbono, em 2025, acima da média da UE, de 71 %.

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Entretanto, após corte no financiamento verde, a França é acusada de negacionismo climático.

As temperaturas excecionalmente altas foram associadas a várias mortes, incluindo a de um corredor de 53 anos que morreu durante uma prova, em Paris, e infraestruturas, como o metro e a ferrovia, estiveram em risco, devido à subida das temperaturas. A este respeito, Friederike Otto, professora de Ciências do Clima no Imperial College London, diz que a ciência é muito clara: “As alterações climáticas tornam estas ondas de calor mais intensas, mais longas e muito mais frequentes. O clima em que vivemos hoje já não é aquele em que crescemos e os nossos edifícios e infraestruturas estão, lamentavelmente, despreparados para o que aí vem.”

A França prepara-se para ondas de calor extremas, há vários anos, sobretudo, em cidades como Paris, frequentemente, afetadas pelo efeito de ilha de calor urbana, em que infraestruturas, como o betão e o asfalto, absorvem calor, mantendo as temperaturas exteriores elevadas. E os esforços para retirar materiais que retêm o calor, como o asfalto e lugares de estacionamento, transformaram Paris, abrindo caminho a mais árvores e plantas que proporcionam sombra e ajudam a melhorar a qualidade do ar.

O Fundo Verde, que ajuda as comunidades a adaptarem-se às alterações climáticas, representa 4,5 mil milhões de euros em subsídios do Estado e abrange a renovação energética de edifícios públicos, a melhoria da qualidade do ar, a prevenção de cheias e a recuperação da Natureza. Porém, o seu orçamento baixou de 2,4 mil milhões de euros, em 2024, para 873 milhões, em 2026. Por isso, Marine Tondelier, líder do partido ecologista, acusa o governo de incompetência e de obstinação na direção errada, o que significa “negação climática”.

Em abril, a França anunciou o corte quatro mil milhões de euros, na despesa deste ano, para manter o controlo as finanças públicas, na sequência da guerra no Irão.

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Está a guerra a descontrolar a economia, as finanças públicas e a ação climática.

2026.06.06 – Louro de Carvalho

Na eucaristia está oculta a divindade e a humanidade de Cristo

 

Celebrou-se, a 4 de junho, quinta-feira, a solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, também conhecida, popularmente, em Portugal, como festa do Corpo de Deus, na qual os cristãos foram instados a aumentar a fé na Eucaristia – mistério do Corpo e Sangue de Cristo, disponível, para alimento dos crentes e para consolidação da unidade da Igreja, na sua diversidade, sob as espécies de pão e de vinho. Ao mesmo tempo, presentifica o sacrifício da cruz e antecipa a glória futura dos filhos de Deus.

Por outro lado, os crentes foram convidados e estimulados a festejar, nas ruas, a presença do Corpo e Sangue de Cristo e a mostrar ao Mundo a sua fé eucarística. Assim, desejava-se que a procissão constituísse uma pública profissão coletiva da fé e não uma simples manifestação de opas e de objetos sagrados ou, muito menos, uma criação espácio-temporal de ostentação e de desfile de vaidades, como sucede, por vezes. A graça divina não gosta de ser misturada com a ostentação humana, que despreza e até humilha os pobres e os fracos.       

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No Ano A, os textos bíblicos proclamados e meditados foram: Dt 8, 2-3.14b-16a; 1Cor 10, 16-17; e Jo 6, 51-58.

A primeira leitura, que é veterotestamentária, recorda-nos que os autores bíblicos pretenderam, com frequência, que o povo meditasse, demoradamente, os acontecimentos do Êxodo. Com efeito, nesses dias, Deus, que libertara o seu povo da terra da escravidão, salvou, no deserto, o mesmo povo faminto e sedento, dando-lhe o alimento que não tinham conhecido, o maná, e a água que fez brotar da rocha dura, por ação da vara de Moisés.

Assim, os antepassados do povo israelita fizeram uma experiência fundamental: no deserto, terra árida, de sede e sem água, sentiram a proteção de Deus, mas não sem antes ter sido posto à prova a sua fidelidade a Deus. Oscilaram entre a murmuração e rebeldia e a aceitação da generosidade divina, com a promessa do cumprimento das suas leis.  

Mais tarde, em tempo de prosperidade económica, em que o povo era tentado a esquecer-se de Deus, foi necessário lembrar a experiência do deserto e garantir que o homem não vive só de pão, mas precisa de se alimentar da palavra que sai da boca de Deus.

Por outro lado, o maná do deserto e a água da rocha prefiguram a Eucaristia, em que o pão e o vinho, tornados corpo e sangue de Cristo, saciam o povo peregrino da fome e da sede do divino e o preparam para a festa infinda no seio de Deus.

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Na segunda leitura, o apóstolo São Paulo garante que abençoamos a comunhão no cálice de bênção e no pão que partimos, que é o corpo de Cristo. E assegura que, porque há um só pão e porque participamos dele, embora sejamos muitos, formamos um só corpo.

Assim, a comunhão do Corpo e do Sangue de Cristo cria, nos crentes, uma união vital superior à comunhão de fé e de esperança, de que é sinal eficaz, mas de que são contrafação e antitestemunho as situações e os factos de quezília, de divisão e de luta entre grupos cristãos.

Pão vivo descido do Céu, verdadeiro maná, na caminhada da vida, a Eucaristia realiza a nossa incorporação em Cristo morto e ressuscitado e, por Ele, na Igreja, que é Corpo uno e diversificado de Cristo. O Pão Eucarístico não é, pois, mero sinal, mas alimento de unidade entre e os cristãos e destes com Deus.  

Assim, comungar o Corpo e do Sangue de Cristo é comungar o amor de Jesus pelo Pai e pelos homens. Por conseguinte, cada comunhão deve ser um compromisso de unidade, unidade que não deve manifestar-se apenas na assembleia litúrgica, mas que deve abranger a vida toda.

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O Evangelho mostra-nos o desconcerto da multidão e de muitos dos discípulos, quando, depois de encantados com o milagre da multiplicação dos pães e dos peixes, ouviram a Jesus dizer que Ele próprio é o pão vivo descido do Céu e que quem dele comer viverá eternamente. Mais ainda ficaram escandalizados, ao ouvirem dizer que, se não comerem a Carne do Filho do Homem (que Ele dará pela vida do Mundo) e não beberem o seu sangue, não terão a vida.

Por fim, depois de afirmar que, assim como Ele vive pelo Pai, que O enviou, e que Ele vive pelo Pai, também quem O come viverá por Ele, garantiu que o Pão que desceu do Céu não é como o que os antepassados dos Judeus comeram. Na verdade, o maná alimentou-os, mas eles morreram, ao passo que aqueles que comerem deste novo pão hão de viver para sempre.

Hoje, a Eucaristia também é desconcertante, a não ser que seja encarada como mero ritual um tanto estranho ou uma peça quase museológica da tradição religiosa.

Ora, é preciso que nos libertemos do mero tradicionalismo, bem como do desconcerto. Para tanto, é preciso assumir o testemunho da Ressurreição que os apóstolos nos deram, tendo relido, à luz do Ressuscitado, todos os discursos de Jesus.

Por fim, é de assinalar que aqueles, que na pobreza e na disponibilidade da fé, souberem acolher a Cristo, sob o sinal sacramental, receberão a sua graça, unir-se-ão à sua Morte e Ressurreição, penetrarão no seu mistério e receberão a Vida.   

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Um dos grandes teólogos que melhor ilustraram o mistério com doutrina orante foi Tomás de Aquino, no século XIII, com o hino “Adoro Te devote, Latens Deitas”, cuja tradução (poética) se transcreve da Capela Santo Isidro:

 

“Eu Te adoro com afeto, Deus oculto,

que Te escondes nestas aparências.

A Ti sujeita-se o meu coração por inteiro

e desfalece ao Te contemplar.

 

À vista, o tacto e o gosto não Te alcançam,

mas só com o ouvir-Te firmemente creio.

Creio em tudo o que disse o Filho de Deus,

nada mais verdadeiro do que esta Palavra da Verdade.

 

Na cruz estava oculta somente a tua divindade,

mas aqui se esconde também a humanidade.

Eu, porém, crendo e confessando ambas,

peço-Te o que pediu o ladrão arrependido.

 

Tal como Tomé, também eu não vejo as tuas chagas,

mas confesso, Senhor, que és o meu Deus;

faz-me crer sempre mais em Ti,

esperar em Ti, amar-Te.

 

Ó memorial da morte do Senhor,

Pão Vivo que dás vida ao homem,

faz que o meu pensamento sempre de Ti viva,

e que sempre lhe seja doce este saber.

 

Senhor Jesus, terno pelicano,

lava-me a mim, imundo, com teu sangue,

do qual uma só gota já pode

salvar o mundo de todos os pecados.

 

Jesus, a quem agora vejo sob véus,

peço-Te que se cumpra o que mais anseio:

que vendo o teu rosto descoberto,

seja eu feliz contemplando a tua glória.”

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Tomás de Aquino sublinha, devotamente, o que está oculto (“latitat”) nas aparências de pão e de vinho, mas que é a Palavra de Verdade. E, comparando o que se passa neste sacramento com o que se passou no Calvário, sustenta, pela fé, que, “na cruz estava oculta somente a divindade [deitas]”, ao passo que, na eucaristia, está oculta a divindade e a humanidade do Senhor.  

Por isso, sente que os sentidos todos falecem perante o mistério, só nos restando pedir o mesmo que pediu o ladrão arrependido, a entrada no Reino dos Céus.

Ainda, na referência à cruz e, obviamente, à Ceia com os discípulos, o teólogo poeta considera Jesus como o piedoso pelicano [“pius pelicanus’]” (a ave que alimenta os filhotes com o seu sangue, aliás como fazem as mães, quando a criança se desenvolve no ventre materno). Porém, basta uma simples gota do sangue de Cristo para salvar o Mundo dos pecados.

Finalmente, o piedoso teólogo poeta, deseja, como consequência da Eucaristia, fruto do amor misericordioso de Deus, a felicidade de contemplar para sempre, no fim dos tempos, o rosto de Cristo, o amor fontal do Pai, na comunhão do Espírito Santo.

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Nas suas catequeses sobre a Eucaristia, o Papa Francisco sublinhava que ela se insere no âmago da iniciação cristã, com o Batismo e com a Confirmação, constituindo a nascente da vida da Igreja, pois, do Sacramento, derivam todos os caminhos autênticos de fé, de comunhão e de testemunho. No centro do espaço da celebração, o altar, mesa coberta com uma toalha, faz-nos pensar num banquete. A cruz que está sobre a mesa releva que, no altar, se oferece o sacrifício de Cristo: “é Ele o alimento espiritual que ali recebemos, sob as espécies do pão e do vinho.” Ao lado da mesa encontra-se o ambão, de onde se proclama a Palavra de Deus: “e ele indica que ali nos reunimos para ouvir o Senhor que fala mediante as Sagradas Escrituras e, portanto, o alimento que recebemos é também a sua Palavra.

Na Missa, Palavra e Pão tornam-se uma coisa só, como na Última Ceia, quando todas as palavras de Jesus, todos os sinais que Ele tinha realizado, se condensaram no gesto de partir o pão e de oferecer o cálice, antecipação do sacrifício da cruz, e naquelas palavras: “Tomai e comei, isto é o meu corpo… Tomai e bebei, isto é o meu sangue.” O gesto de Jesus na Última Ceia é a extrema ação de graças ao Pai pelo seu amor, pela sua misericórdia. Em grego, “ação de graças” diz-se “eucaristia”. Portanto, o Sacramento chama-se Eucaristia, a suprema ação de graças ao Pai, que nos amou a tal ponto que nos ofereceu o seu Filho por amor.

Assim, a celebração eucarística é muito mais do que mero banquete: é o memorial da Páscoa de Jesus, o mistério fulcral da salvação. “Memorial” não significa apenas recordação, mas que, ao celebrarmos este Sacramento, participamos no mistério da paixão, morte e ressurreição de Cristo.

A Eucaristia, apogeu da obra de salvação de Deus, em que Jesus, fazendo-se pão partido para nós, derrama sobre nós toda a sua misericórdia e todo o seu amor, a ponto de renovar o nosso coração e o nosso modo de nos relacionarmos com Ele e com os irmãos.

Dizia o Pontífice argentino que há muitos sinais muito concretos para compreendermos como vivemos a Eucaristia. O primeiro indício é o nosso modo de ver e considerar os outros. Na Eucaristia Cristo oferece, sempre, de novo, o dom de si que já concedeu na Cruz. Toda a sua vida é gesto de partilha total de si mesmo por amor. Por isso, gostava de estar com os discípulos e com as pessoas que tinha o ensejo de conhecer. Isto significava partilhar os seus desejos, os seus problemas, o que agitava as suas almas e vidas. Assim, considerando que, ao participarmos na Missa, nos encontramos com homens e mulheres de todos os tipos – jovens, idosos e crianças; pobres e abastados; naturais do lugar e estrangeiros; acompanhados pelos familiares e pessoas sós… – é de nos questionarmos se a celebração nos leva a senti-los todos como irmãos e irmãs, se nos faz crescer na capacidade de nos alegrarmos com quem rejubila, de chorar com quem chora, se nos impele a ir ao encontro dos pobres, dos enfermos e dos marginalizados, reconhecendo neles o rosto de Jesus.

Um segundo indício é a graça de nos sentirmos perdoados e prontos a perdoar. Por vezes, alguém pergunta: “Por que deveríamos ir à igreja, visto que quem participa habitualmente na Santa Missa é pecador como os outros?” Na realidade, quem celebra a Eucaristia não o faz porque se considera melhor do que os outros, mas porque se reconhece necessitado de ser acolhido e regenerado pela misericórdia de Deus, que se fez carne em Jesus Cristo. Se não nos sentirmos necessitados da misericórdia de Deus, se não nos sentirmos pecadores, melhor seria não irmos à Missa. O “Confesso” que recitamos no início não é uma rotina, mas verdadeiro ato de penitência. “Sou pecador e confesso-o: assim começa a Missa! Nunca devemos esquecer que a Última Ceia de Jesus teve lugar ‘na noite em que Ele foi entregue’. Naquele pão e naquele vinho que oferecemos, e ao redor dos quais nos congregamos, renova-se de cada vez a dádiva do corpo e do sangue de Cristo, para a remissão dos nossos pecados”, ensinava Francisco, insistindo que vamos à Missa, porque somos pecadores.

Um último indício inestimável é-nos oferecido pela relação entre a celebração eucarística e a vida das comunidades cristãs. É preciso ter presente que a Eucaristia não é algo que nós fazemos; não é a nossa comemoração do que Jesus disse e fez. É ação de Cristo. É Cristo quem age sobre o altar. É dom de Cristo, que Se torna presente e nos reúne ao redor de Si, para nos alimentar com a sua Palavra e a sua vida. Isto significa que a missão e identidade da Igreja derivam da Eucaristia, e nela sempre adquirem forma. Uma celebração pode ser impecável do ponto de vista exterior, maravilhosa, mas, se não nos levar ao encontro com Jesus, corre o risco de não oferecer alimento ao nosso coração e à nossa vida. Ao invés, pela Eucaristia, Cristo quer entrar na nossa existência e permeá-la com a sua graça, de tal modo que, em cada comunidade cristã, haja coerência entre liturgia e vida.

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Por tudo isto, é bom cantar com o salmista:

“Jerusalém, louva o teu Senhor.”

“Glorifica, Jerusalém, o Senhor, louva, Sião, o teu Deus. / Ele reforçou as tuas portas / e abençoou os teus filhos.

“Estabeleceu a paz nas tuas fronteiras / e saciou-te com a flor da farinha. / Envia à terra a sua palavra, / corre veloz a sua mensagem.

“Revelou a sua palavra a Jacob, / suas leis e preceitos a Israel. / Não fez assim com nenhum outro povo, / a nenhum outro manifestou os seus juízos.”

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E é bom exultar na fé eucarística:

“Aleluia, aleluia.”

“Eu sou o pão vivo descido do Céu, diz o Senhor. / Quem comer deste pão viverá eternamente.”

2026.06.06 – Louro de Carvalho