O
presidente dos Estados Unidos da América (EUA) celebrou, a 14 de junho, o seu
80.º aniversário com um grande evento de artes marciais mistas na Casa Branca e
com a esperança de finalizar o acordo preliminar de paz com com o Irão, com
vista ao fim à guerra.
No
dia 13, Donald Trump e o Paquistão, que tem desempenhado o papel de mediador
central nas conversações de paz, tinham dado a entender que o acordo poderia
ser alcançado nas 24 horas seguintes. “A assinatura do acordo está marcada para
amanhã e, imediatamente depois de assinado, o estreito de Ormuz ficará aberto a
todos”, escreveu o inquilino da Casa Branca, na sua conta do Truth Social.
Antes,
o primeiro-ministro paquistanês tinha afirmado que o acordo estava “mais perto
do que nunca”. “Com a conclusão, provavelmente, nas próximas 24 horas, o
Paquistão está a preparar-se para a assinatura eletrónica do acordo de paz,
logo de seguida, a que se seguirão conversações técnicas, na próxima semana”,
escreveu Shehbaz Sharif, na rede X.
Enquanto
as negociações prosseguiam, uma delegação do Qatar chegou, no dia 14, à capital
iraniana, de acordo com a agência noticiosa Tasnim, para avaliar os desenvolvimentos
mais recentes relacionados com o processo diplomático.
O
acordo depende de Teerão aceitar reabrir, por completo, o estreito de Ormuz,
ponto nevrálgico para o trânsito de petróleo e de gás, e de pôr fim ao seu
programa de armamento nuclear. Nesse sentido, o líder político norte-americano
afirmou, no dia 12, que um acordo seria “uma barreira total contra as armas
nucleares”. “Esperemos que todo este processo decorra de forma rápida, simples
e suave. Se não for assim, temos a alternativa extrema, que esperamos nunca
mais ter de usar”, advertiu.
Embora
o acordo não aborde as questões mais delicadas, como o programa nuclear
iraniano ou os ativos congelados do país, prevê um período de 60 dias para
discussões técnicas sobre esses temas, o que poderá servir de base a uma
desescalada no Líbano.
***
Entretanto,
os media estatais iranianos noticiaram, no dia 14, que Teerão não tomou
uma decisão final sobre o acordo de paz para pôr fim à guerra entre os EUA e o
Irão.
A
razão do adiamento da assinatura do acordo tem a ver com o comportamento de
Israel, nos últimos dias, parecendo interessado no bloqueio das negociações. Com
efeito, as forças de defesa israelitas (FDI) lançaram, no dia 14, novos ataques
no Sul de Beirute, na zona conhecida como Dahiyeh, um bastião do Hezbollah, tendo
um bombardeamento atingido o bairro de Ghobeiry, segundo a Agência Nacional
de Notícias (NNA) do Líbano. Os ataques responderam aos drones que
transportavam cargas explosivas, visando o território israelita.
O
gabinete de Benjamin Netanyahu, primeiro ministro de Israel, aliado de
Washington, nas guerras do Médio Oriente, confirmou ataques a infraestruturas
do Hezbollah, que ameaçam a trégua EUA-Irão. Teerão exigiu o fim dos ataques
israelitas ao Líbano e Donald Trump apelou ao fim das ofensivas. E o presidente
libanês, Joseph Aoun, afirmou, no dia 13, que o país vive um “momento decisivo”,
ante a escolha entre se tornar “um Estado soberano que monopoliza as armas e
respeita o primado da lei” ou permanecer “refém da lógica das milícias e da
cultura de exclusão”. Falando por ocasião do aniversário do assassínio, em
1978, do antigo ministro Tony Suleiman Frangieh por fações armadas, Aoun frisou
que a unidade nacional é uma “necessidade existencial”. “Estamos num momento
que não admite nem luxos sectários nem jogos de forças regionais”, observou.
Colunas
de fumo erguiam-se sobre a capital libanesa, enquanto as FDI descreviam os
ataques em Dahiyeh como “cirúrgicos”, visando, segundo o exército, um centro de
comando do Hezbollah em Beirute, utilizado para preparar “ataques terroristas
contra civis israelitas e soldados das FDI” que operam no Sul do Líbano. Dois mísseis atingiram uma zona densamente
povoada, onde se concentram hospitais, escolas e estabelecimentos comerciais. “Todos
os alvos pertenciam à organização terrorista Hezbollah, em resposta aos
disparos do Hezbollah contra território israelita”, referiu o gabinete de
Benjamin Netanyahu.
Numa
publicação nas redes sociais, as FDI acrescentaram que, antes dos ataques,
foram tomadas medidas para “reduzir o risco para civis”. E, noutra mensagem, indicaram
que os projéteis disparados pelo Hezbollah caíram nas proximidades de Shomera e
de Shlomi, somando-se a outros dois projéteis que atravessaram a fronteira para
o território israelita, no fim de semana, no âmbito de tentativas contínuas de
atingir civis israelitas.
Trata-se
da segunda vaga de ataques do fim de semana, depois de os bombardeamentos do
dia 13 já terem provocado, pelo menos, cinco mortos. Uma pessoa morreu num
ataque aéreo contra a localidade de Maarakeh, no distrito de Tiro. Ali Badie,
presidente da câmara municipal de Ar-Rihan, foi morto no distrito de Jezzine e
outras três pessoas morreram em Deir al-Zahrani e em Kafr Reman, no distrito de
Nabatieh.
No
dia 13, os militares israelitas tinham avisado os residentes de 24 cidades e
aldeias libanesas para abandonarem, imediatamente, as suas casas.
O
presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, comentou o
bombardeamento nos subúrbios do Sul de Beirute, sustentando que o ataque mostra
a incapacidade de os EUA “cumprirem os seus compromissos”, numa altura em que
um acordo entre Teerão e Washington estava próximo da conclusão. “A incursão
sionista em Dahiyeh demonstrou, mais uma vez, que os EUA não têm vontade nem
capacidade para cumprir os seus compromissos. Ao dar luz verde a este regime,
não é possível alcançar concessões. O jogo do ‘polícia bom e polícia mau’ está
ultrapassado”, escreveu o principal negociador da delegação iraniana nas
conversações com os EUA, no X. Esta foi a primeira reação oficial do
Irão ao ataque.
O
Irão tem vindo a afirmar que qualquer ataque israelita aos subúrbios do sul de
Beirute poderá desencadear o lançamento de mísseis contra Israel e contra
interesses norte-americanos na região. É claro que a continuação da escalada
entre Israel e o Hezbollah coloca em risco um eventual acordo entre Washington
e Teerão. E o regime iraniano, principal aliado do Hezbollah, insiste em que
qualquer entendimento de cessar-fogo entre os EUA e o Irão inclua o fim dos
ataques israelitas no Líbano.
Da
última vez que Israel bombardeou os subúrbios de Beirute, o Irão respondeu com
ataques contra território israelita.
O
Hezbollah entrou no conflito no início de março, após o líder supremo iraniano,
o aiatolá Khamenei, ter sido morto, o que levou ao alargamento da guerra.
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Num
comentário aos ataques, divulgado no Truth Social, Donald Trump apelou,
no dia 14, ao fim dos ataques e escreveu que estes não deviam ter acontecido. “O
ataque desta manhã a Beirute não deveria ter ocorrido, especialmente, num dia
tão especial em que estamos tão perto de um acordo de paz com o Irão. Israel
tem o direito de se defender contra ameaças, mas o ataque a que estava a
responder foi muito pequeno e insignificante; ninguém ficou ferido, lesionado
ou morto, e isso não deveria perturbar este importante processo. Estamos muito
perto de um acordo que trará paz à região, incluindo ao Líbano, e todas as
partes devem recuar. Não deve haver mais ataques, por parte de Israel, em
qualquer parte do Líbano, mas também não deve haver mais ataques, por parte de
qualquer outra parte, incluindo o Hezbollah, contra Israel. Este pode ser o
início de uma paz longa e bela – não vamos estragar tudo!”, escreveu.
Compreende-se
que o presidente norte-americano tenha condenado o ataque aéreo israelita contra
o Sul de Beirute, um bombardeamento que “não deveria ter acontecido”, e que
tenha apelado à calma, em Telavive e entre as milícias libanesas do Hezbollah. Na
verdade, com a oposição crescente à guerra no Congresso (nomeadamente entre
republicanos) e na opinião pública, é normal que tema, embora não o confesse,
os resultados das próximas eleições intercalares, que lhe podem fragilizar a legitimidade
e a popularidade.
Por
outro lado, Donald Trump salienta que o ataque israelita foi desproporcionado,
pois resultou em, pelo menos, três mortos e 15 feridos, enquanto os impactos
dos alegados drones não causaram vítimas. Ou seja, sustenta que o ataque a que Israel
estava a responder foi menor e inconsequente, já que ninguém ficou ferido ou
morto. Por conseguinte, espera que isso não venha a prejudicar o processo de
busca da paz.
Porém,
a segurança do bastião do Hezbollah é condição inegociável para que Teerão, um
dos principais apoiantes do partido-milícia, se sente para negociar. É por isso
que o ataque israelita a Beirute não deveria ter ocorrido, quando se supunha
iminente “um acordo de paz”. Nestes termos, a advertência foi taxativa: “Não
deverá haver mais ataques de Israel, em qualquer parte do Líbano, mas também
não deverá haver mais ataques de qualquer outro grupo, incluindo o Hezbollah,
contra Israel. Este poderá ser o início de uma paz longa e bela.”
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O
ex-presidente norte-americano, Barack Obama, manifestou ceticismo, quanto à
possibilidade de um acordo entre os EUA e o Irão representar melhoria
significativa, face ao obtido em 2015, durante a sua administração. “É pouco
provável que qualquer acordo que venha a ser alcançado seja substancialmente
diferente ou constitua uma melhoria significativa, em relação ao acordo que
tínhamos, inicialmente”, declarou ao canal ABC News.
O
antigo presidente democrata defendeu que esse acordo funcionou durante longo
período, antes de os EUA se retirarem dele (referência à decisão de Trump, no
seu primeiro mandato). E sugeriu que é melhor procurar uma solução
diplomática que não satisfaça a 100% as exigências de Washington do que correr
o risco de conflito militar aberto. “Isto recorda-nos que, perante muitos
problemas complexos de política externa, a ideia de que podemos, simplesmente, impor
a nossa vontade pela força ou recorrer a bombardeamentos para encontrar
soluções pode, por vezes, parecer apelativa”, afirmou, lamentando não se ter
aprendido “esta lição, há muito tempo”, e manifestou o desejo de que os
bombardeamentos terminem e de que as populações civis deixem de sofrer as
consequências da guerra.
As
diferenças entre Obama e Trump sobre o Irão não incidem no objetivo de
impedir Teerão de obter armas nucleares, mas nos meios para o atingir. Com
efeito, Obama foi responsável pelo JCPOA (Plano de Ação Conjunto Global),
celebrado entre o Irão e um grupo conhecido como P5+1, que incluía, além dos
EUA, o Reino Unido, a França, a Rússia, a China e a União Europeia (UE) e que limitou
o enriquecimento de urânio iraniano, reduziu os stocks de
material nuclear, submeteu o programa nuclear a inspeções internacionais
rigorosas e dilatou o tempo necessário para o Irão produzir material para uma arma
nuclear.
A
administração Trump critica o JCPOA, por não abordar, suficientemente, o
programa de mísseis balísticos, conter cláusulas temporárias que expiravam, ao
fim de vários anos, e permitir libertar recursos financeiros para Teerão, sem anular
a ameaça.
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Entretanto,
os media estatais iranianos noticiaram, a 13 de junho, que decorrerão,
entre 4 e 9 de julho o funeral e o enterro de Ali Khamenei, antigo líder da
República Islâmica, que foi morto, a 28 de fevereiro, nas primeiras horas de um
ataque conjunto dos EUA e de Israel ao Irão, com vários altos funcionários e
comandantes militares – um funeral e um enterro que ocorrem mais de quatro
meses após a morte.
De
acordo com um comunicado da comissão encarregada de assinalar a memória do
antigo líder iraniano, o corpo ficará em câmara ardente no Mosalla (espaço para
orações muçulmanas) de Teerão, em 4 e em 5 de julho; o cortejo fúnebre em honra
de Ali Khamenei estará em marcha, em Teerão, a 6 de julho, bem como outra
cerimónia fúnebre na cidade santa de Qom, a 7 de julho; e o falecido líder
supremo deverá ser sepultado, a 9 de julho, no santuário do oitavo imã xiita,
em Mashhad, após um cortejo fúnebre pela segunda maior cidade do Irão.
Ainda
assim, o longo intervalo entre a morte do antigo líder da República Islâmica e
o recente anúncio das datas das cerimónias fúnebres suscitou, nas últimas
semanas, muitas perguntas e especulações. Efetivamente, neste período, os
responsáveis da República Islâmica divulgaram pouca informação sobre quando seria
o enterro, levando alguns críticos a perguntar, em tom de escárnio, por que
motivo não se tinha realizado o funeral.
Embora
os responsáveis não tenham explicado o atraso, parece que preocupações de
segurança e a possibilidade de um ataque durante o funeral terão sido algumas
das principais razões. Com efeito, organizar uma cerimónia de grande escala,
como a envisgada pelas autoridades da República Islâmica, exige amplas medidas
de segurança e preparativos logísticos. No funeral de Qasem Soleimani, o
falecido comandante dos Guardas da Revolução (IRGC), em 2020, pelo menos 56,
pessoas perderam a vida num esmagamento da multidão.
Responsáveis
da República Islâmica indicaram que “vários milhões de pessoas” poderão
participar nas cerimónias do funeral e do enterro de Ali Khamenei. Isto, depois
de um vice-presidente da câmara de Teerão ter afirmado que grupos do Iraque, do
Afeganistão, do Paquistão, da Índia, de Caxemira e de outros países se tinham
mostrado disponíveis para participarem nas cerimónias e que alguns responsáveis
iraquianos pediram que o corpo de Ali Khamenei fosse levado a Najaf e a Karbala,
no Iraque, antes de ser enterrado no Irão.
Se
o adiamento do funeral e do enterro de Ali Khamenei, parecia compreensível, a
princípio, passado tempo e abrandadas as tensões regionais, a pergunta sobre
porque estava por sepultar ganhou peso. Isto, por já se terem realizado o
funeral e o enterro de Ali Larijani, secretário do Conselho Supremo de
Segurança Nacional do Irão, morto na guerra.
Ali
Khamenei esteve à frente do Estado iraniano durante quase 37 anos, de 1989 a
fevereiro de 2026, e tinha a última palavra nas principais decisões de política
do país. Desde que foi designado seu sucessor, Mojtaba Khamenei não apareceu em
público, nem foi divulgada gravação áudio ou vídeo sua. E está por esclarecer
se participará no funeral e no enterro do pai.
***
A
postura de Donald Trump e de Benjamin Netanyahu faz-me lembrar o livro “A
Psicologia da Incompetência dos Militares” (Editora Dom Quixote: 1977), de
Norman F. Dixon, pela arrogância que mostram, por subestimarem o inimigo (com
seus recursos, organização e planeamento) e por não terem em conta as consequências
da guerra em escalada. E, se Trump (encravado em Ormuz) se mostra em recuo,
depois de tantas ambições, ameaças, ataques, acordos (quase inúteis), Netanyahu
parece obstinado na guerra, até à eliminação do último inimigo, como prometeu,
em relação aos Palestinianos. Todavia, quem persiste no erro, costuma acabar
mal.
2026.06.14
– Louro de Carvalho