terça-feira, 25 de agosto de 2026

Grandes surpresas no complexo processo de envelhecimento

 

Investigadores da Universidade de Osaka, no Japão, identificaram um traço comum nos supercentenários: um número anormalmente elevado de um tipo específico e raro de célula imunológica em quem vive além dos 100 anos, o que levanta hipóteses sobre a capacidade de adaptação do organismo em idades extremas, ou seja, oferece novas pistas sobre um envelhecimento saudável.

O envelhecimento não é, em si, uma doença, nem leva, necessariamente, à falência de sistemas fisiológicos essenciais, embora apresente, em geral, diminuição de reflexos e de outras capacidades pessoais, que dão azo ao isolamento e a certas formas de dependência. Com efeito, resulta da acumulação de danos moleculares e celulares, com o tempo, o que provoca gradual diminuição da capacidade física e mental e aumenta o risco de doença e de morte.

De facto, o inevitável processo biológico do envelhecimento, caraterizado por declínios graduais nas funções físicas e cognitivas, é impulsionado pelo acúmulo de alterações moleculares e celulares, incluindo mutações no ADN (ácido desoxirribonucleico), disfunção mitocondrial e senescência celular, com o envelhecimento do sistema imunológico a comprometer a capacidade de a pessoa se defender contra patógenos (microrganismos ou agentes infeciosos) externos e de eliminar células anormais internas, como células pré-cancerosas ou senescentes, aumentando o risco de várias doenças. Porém, supercentenários (pessoas que vivem até aos 110 anos ou mais) oferecem um modelo de envelhecimento saudável que alcança longevidade, evita ou retarda doenças associadas à idade, como distúrbios cardiovasculares e cancro.

Mantêm-se imunes, cardiovascular e epigenómicamente (em termos do conjunto total de marcas químicas) perfis que parecem mais jovens do que o esperado, para a sua idade cronológica. Assim, recente estudo genético sobre centenários japoneses, incluindo 173 supercentenários (com 110 anos ou mais), identificou componentes genéticos-chave conexos com longevidade e com a sua correlação com a redução dos riscos de múltiplas doenças associadas à idade, sugerindo potencial contribuição genética para a função imunológica sustentada na idade avançada.

No estudo, publicado na revista Cell Reports, os investigadores concluíram que estas células se expandem e se adaptam nesta população mais idosa.

As CD4 CTL, glóbulos brancos que integram a resposta imunitária do organismo, aumentam, à medida que as pessoas chegam aos 100 anos. Normalmente, representam menos de 5% das células T ou linfócitos (glóbulos brancos que agem como soldados de elite no sistema imunológico, para defenderem o corpo contra vírus, bactérias e tumores), em indivíduos mais jovens; e, nos supercentenários, com 110 anos ou mais, a percentagem mediana ronda os 17,6%.

Os investigadores analisaram amostras de sangue de 28 adultos, divididos em três grupos etários: 70–99, 100–109 e 110 ou mais, e verificaram que a proporção de CD4 CTL aumentava, com a idade, em percentagens medianas de 4%, 9,6% e 17,6%, respetivamente.

O estudo relatou que linfócitos T citotóxicos CD4 CTL se localizam perto de células tumorais positivas para MHC de classe II (complexo principal de histocompatibilidade: um grupo de genes que produz proteínas de superfície celular essenciais para o sistema imunitário reconhecer antígenos), em pacientes com NSCLC (cancro do pulmão de células não pequenas) e suprimem o crescimento tumoral em modelos de camundongos. Além disso, o estudo identificou o GPR56 (recetor de adesão acoplado à proteína G encontrado na membrana das células) como marcador-chave para CD4 CTL no cancro de pulmão, revelando que tais células aumentam a expressão de PD-1 (morte celular programada 1) e entram em estado de exaustão. Os CD4 CTL analisados também expressaram GPR56, mas permaneceram negativos para PD-1. Isso sugere que tais células evitam a exaustão e podem contribuir para a imunovigilância tumoral. Por fim, foi relatado que CD4 CTL têm por alvo outras fontes de antígenos persistentes, incluindo células senescentes e vírus latentes.

“As CD4 CTL são uma população de células T atípica e relativamente rara”, afirmou o primeiro autor, Kosuke Hashimoto, professor associado na Universidade de Osaka, vincando que o aumento significativo destas células nos supercentenários pode fornecer pistas importantes sobre a forma como o sistema imunitário se mantém em idades extremas, pois, de acordo com a investigação, “a expansão seletiva de determinadas células T sugere que, mesmo em idades muito avançadas, o sistema imunitário pode continuar a adaptar-se aos desafios associados ao envelhecimento.”

O estudo indica que estas células podem contribuir para um envelhecimento saudável e para a longevidade, ao atacarem células envelhecidas, que se acumulam no organismo, e ao garantirem vigilância imunitária contra tumores. Porém, os autores do estudo salientam que a investigação, centrada na presença de células T que circulam no sangue, não prova que ter abundância de CD4 CTL previna o cancro ou faça alguém viver mais tempo. E Hashimoto adiantou que o próximo passo da equipa é estudar como estas células se comportam nos tecidos humanos.

Efetivamente, os investigadores reconhecem os limites do estudo.

Uma limitação relevante é a ausência de validação funcional direta in vivo. A análise concentrou-se em células T circulantes, sem esclarecer as suas funções reais específicas de tecido, incluindo as células ou antígenos específicos que elas reconhecem e eliminam. Estudos futuros que incorporem células imunes residentes em tecidos serão essenciais para suprir essa lacuna. Depois, as correspondências no banco de dados de TCR – recetor de células T: molécula na superfície dos linfócitos T responsável por reconhecer antígenos (fragmentos de vírus, de bactérias ou células tumorais) apresentados por outras células – basearam-se, apenas, em sequências CDR3β (regiões hipervariáveis na cadeia beta do TCR), pelo que devem interpretar-se como evidências exploratórias de sobreposição com repertórios de TCR previamente relatados, não como prova de que esses TCR reconhecem o mesmo antígeno.

Devido aos desafios técnicos para isolar células primárias de supercentenários, as conclusões funcionais baseiam-se em experimentos de estimulação ex vivo. Assim, a maneira como essas células T citotóxicas CD4 CTL e seus perfis específicos de citocinas contribuem para o envelhecimento saudável requer maior elucidação experimental.

Por fim, a extrema raridade dos sujeitos resultou numa amostra de tamanho relativamente pequeno. E, embora se tenham observado tendências consistentes, variações individuais podiam influenciar os resultados, pelo que são necessárias amostras maiores em estudos futuros.

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Em contraponto, uma investigação, publicada na Neurology, revista médica da Academia Americana de Neurologia, concluiu que a perturbação dos ritmos circadianos está associada a maior probabilidade de demência – com o aumento de 45%, entre as pessoas cuja atividade diária atinge o seu pico mais tarde.

O ritmo circadiano é o relógio interno do corpo – orientado pelo cérebro e fortemente influenciado pela exposição à luz – que regula os ciclos de 24 horas de alterações físicas, mentais e comportamentais, como o ciclo sono-vigília, a libertação de hormonas, a digestão e a temperatura corporal.

Ora, se os ritmos circadianos são robustos, o relógio do corpo alinha-se bem com o dia de 24 horas e envia sinais claros para as principais funções do corpo. As pessoas com ritmos mais fortes tendem a manter horários regulares para o sono e a atividade diária, mesmo quando o seu horário ou as estações do ano mudam. Ao invés, se os ritmos são fracos, é mais provável que as mudanças de luz e de rotina desviem o relógio biológico do seu rumo. As pessoas com padrões menos estáveis são mais propensas a alterar os horários de sono e de atividade.

As alterações temporárias, como o jet lag (dessincronização circadiana ou síndrome da mudança de fuso horário) e o trabalho por turnos, podem afetar, negativamente, o sono, o humor e a saúde, quando repetidas ou prolongadas. E, com o envelhecimento, os ritmos circadianos tornam-se mais fracos e irregulares. As pessoas mais velhas tendem a deitar-se e a acordar mais cedo e a ter sono mais fragmentado. “As alterações dos ritmos circadianos ocorrem com o envelhecimento e as provas sugerem que as perturbações do ritmo circadiano podem ser um fator de risco para doenças neurodegenerativas como a demência”, afirmou a autora do estudo Wendy Wang, professora assistente de Epidemiologia e Medicina Interna na UT Southwestern.

O estudo mediu estes ritmos de repouso-atividade e descobriu que as pessoas com ritmos mais fracos e mais fragmentados, e as pessoas com níveis de atividade que atingiram o pico no final do dia, tinham risco elevado de demência.

A investigação analisou mais de dois mil participantes nos Estados Unidos da América (EUA), com idade média de 79 anos, nenhum dos quais sofria de demência, no início do estudo. Os participantes usaram pequenos monitores cardíacos, durante cerca de duas semanas, permitindo aos cientistas seguirem os padrões de repouso e de atividade e avaliar a força do ritmo circadiano de cada pessoa. Os investigadores seguiram, depois, os participantes, durante três anos, em que 176 pessoas desenvolveram demência. Dividiram a amostra em três grupos, com base na força do ritmo, medida pelas diferenças entre os períodos mais e menos ativos de uma pessoa, num dia. Os resultados mostraram que as pessoas do grupo de ritmo mais fraco tinham quase 2,5 vezes mais risco de desenvolver demência do que as do grupo de ritmo mais forte.

Observaram também que as pessoas cujo pico de atividade se verificava à tarde – a partir das 14h15 – tinham um risco 45% maior de desenvolver demência do que as que tinham um pico de atividade mais cedo. Este tipo de horário atrasado pode causar um desfasamento entre o relógio do corpo e os sinais ambientais, como as horas tardias e a escuridão.

De acordo com a Agência Europeia de Medicamentos (EMA), em 2019, a demência afetava 55 milhões de pessoas, no Mundo, e cerca de 11 milhões, na Europa. Com o envelhecimento da população europeia, estima-se que este número atinja os 19 milhões, em 2050. E os investigadores esperam que os resultados incentivem mais investigação sobre a forma como o ajuste do relógio biológico pode potencialmente prevenir o aparecimento de demência.

“As nossas descobertas preparam o terreno para futuras investigações que avaliem o papel potencial das intervenções no ritmo circadiano, como a terapia da luz, a utilização de melatonina ou as modificações do estilo de vida na prevenção da demência”, escreveram.

Horário de sono regular, rotinas de exercício e exposição à luz natural, especialmente, de manhã, provaram ser intervenções eficazes e não invasivas para ajudar a manter os ritmos circadianos.

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Duas pessoas podem ter a mesma idade no papel e apresentar estados de saúde muito diferentes. Os cientistas já recorrem a vários métodos para estimarem a velocidade a que uma pessoa está a envelhecer biologicamente. E um estudo analisou o que se passa no interior do organismo, quando cinco dos métodos mais utilizados sinalizam um envelhecimento mais rápido.

Os métodos, conhecidos como relógios epigenéticos, são modelos matemáticos baseados na metilação do ADN – processo químico que adiciona um grupo metil (CH3) a uma molécula de ADN, normalmente na base citosina, sem alterar a sequência genética original – alterações químicas em torno do ADN que podem influenciar o comportamento dos genes sem alterar o próprio código genético.

Os relógios epigenéticos são amplamente usados na investigação sobre o envelhecimento para estudar a forma como o envelhecimento biológico se relaciona com a doença, o declínio físico e o risco de morte. “O envelhecimento não se resume ao número de velas no bolo de aniversário, mas ao que está a acontecer dentro das células”, afirmou, em comunicado T. Em Arpawong, professora associada de investigação em gerontologia na USC Leonard Davis School, que ainda não se sabia o que sucede no organismo, quando cada relógio indica envelhecimento mais rápido.

Para investigar esta questão, investigadores nos EUA analisaram amostras de sangue de 3 227 participantes no Health and Retirement Study, realizado no país. Compararam cinco dos relógios epigenéticos mais usados com a atividade génica nas amostras de sangue, para perceberem o que se passava no organismo quando cada relógio apontava para um envelhecimento mais rápido. E concluíram que os cinco relógios estavam associados a diferentes sinais de envelhecimento no corpo. Alguns estavam mais ligados à forma como o organismo utiliza a energia e como as células crescem, enquanto outros se relacionavam com a atividade do sistema imunitário e a inflamação.

Os relógios partilhavam também algumas caraterísticas em comum, em particular, alterações que envolvem o sistema imunitário, o metabolismo e a comunicação entre células.

Os investigadores dizem que as conclusões ajudam a escolher o relógio de envelhecimento mais útil para cada estudo. Por exemplo, um pode ser mais adequado para a investigação no sistema imunitário, enquanto outro pode ser mais útil para estudar o metabolismo.

A equipa, com base nos resultados do estudo, desenvolveu novas medições, denominadas pontuações génicas de envelhecimento transcriptómico (TAGS), isto é, a mudança na forma como os genes são lidos e ativados ao longo do tempo, o que afeta a produção de proteínas e reflete a idade biológica do corpo. Em vários casos, as TAGS foram melhores do que os relógios, isoladamente, a prever a fragilidade, a velocidade da marcha, as doenças cardíacas, a diabetes, as doenças pulmonares e a mortalidade, de acordo com o estudo.

A autora sénior, Eileen Crimmins, da USC Leonard Davis, referiu que o trabalho ajuda a abrir a caixa negra por trás dos relógios de envelhecimento biológico, ao mostrar quais os processos moleculares associados às respetivas leituras. “Ao revelar os programas moleculares subjacentes a estes biomarcadores, os nossos resultados tornam‑nos mais interpretáveis e ajudam a orientar a sua utilização na gerociência, na epidemiologia e em futuras aplicações clínicas”, disse.

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Enfim, o relógio interno do corpo pode influenciar o risco de demência, de modo que as pessoas com relógios internos mais fracos ou mais irregulares têm maior risco de desenvolver demência. Ao mesmo tempo, são de admirar e de apoiar os centenários e os supercentenários. Os cientistas, os decisores políticos e os cidadãos comuns têm a responsabilidade de cuidar das pessoas idosas, nas suas doenças, achaques e outras limitações, e de apoiar e de acompanhar as pessoas que transportam em si a floração mais madura da vida.

E os idosos devem sincronizar o relógio biológico assim: expondo‑se à luz, de manhã, e evitando-a, à noite; deitando-se e acordando, à mesma hora, todos os dias; comendo cedo, durante o dia; ajustando a hora do exercício; e tendo o relógio biológico em mente.

2026.08.25 – Louro de Carvalho  


segunda-feira, 24 de agosto de 2026

No problemático 35.º aniversário da independência da Ucrânia

 

Líderes europeus reuniram-se em torno de Volodymyr Zelenskyy, em Kiev, a 24 de agosto, para a celebração do 35.º aniversário da independência da Ucrânia, numa altura em que este país europeu já vai no quinto ano da guerra com a Rússia a Ucrânia. É, pois, este o quinto Dia da Independência, desde a invasão em grande escala da Rússia, alegadamente, para desmilitarizar e para desnazificar o país invadido – um marco que poucos esperavam quando as forças russas avançaram sobre a capital ucraniana, em fevereiro de 2022.

Andy Burnham, primeiro-ministro britânico, na sua primeira deslocação ao estrangeiro, desde que tomou posse, juntou-se ao presidente do Conselho Europeu, António Costa, e a outros altos responsáveis europeus, em Kiev, para as comemorações e para encontros com o presidente ucraniano. Também os outros líderes europeus da Coligação da Boa Vontade – nomeadamente, o presidente francês, Emmanuel Macron, o chanceler alemão, Friedrich Merz, o primeiro-ministro irlandês, Micheal Martin, e o primeiro-ministro do Luxemburgo, Luc Frieden – participaram, à distância, num encontro com Zelenskyy.

Foi notória a ausência de qualquer membro da administração norte-americana na cerimónia, designadamente, Steve Witkoff, enviado especial dos Estados Unidos da América (EUA) para o Médio Oriente, e Jared Kushner, conselheiro sénior, entre 2017 e 2021, no primeiro mandato do presidente dos EUA e, no atual mandato, intermediário-chave nas negociações diplomáticas relativas à guerra Israel-Hamas e à guerra Rússia-Ucrânia.

Apesar da especulação de que o Dia da Independência poderia assinalar a sua primeira visita à Ucrânia, os dois enviados especiais do inquilino da Casa Branca não compareceram. Aliás, desde que assumiram papel de destaque nos esforços diplomáticos da administração norte-americana, nenhum deles viajou para Kiev, embora tenham participado em repetidos encontros com responsáveis russos e Witkoff tenha feito oito visitas a Moscovo.

Não obstante, é de assinalar que Mike Pence, antigo vice-presidente dos EUA, e Keith Kellogg, antigo enviado especial de Donald Trump para a Ucrânia, bem como os senadores Richard Blumenthal e James Lankford, se deslocaram-se a Kiev, durante o fim de semana, e participaram em eventos associados ao 35.º aniversário. E o anfitrião disse que os informou da contínua ameaça de mísseis balísticos da Rússia e da necessidade de reforçar as defesas aéreas.

Kiev aproveitou o ensejo para pressionar os aliados a ajudarem a Ucrânia a obter mais mísseis de defesa aérea, antes do inverno.

Em resposta, António Costa, falando ao lado de Zelenskyy e do primeiro-ministro britânico, na cerimónia realizada na praça em frente da catedral de Santa Sofia, prestou homenagem ao povo ucraniano pela “coragem e bravura” que, disse, “inspiram o Mundo”.

“Continuaremos a prestar todo o apoio necessário, durante o tempo que for preciso”, afirmou, alargando esse compromisso para lá da guerra, até à futura adesão da Ucrânia à UE [União Europeia]. […] O direito internacional tem de prevalecer. A Rússia não irá prevalecer. […] A União Europeia não pode ser neutra, quando o direito internacional está a ser violado. Não somos neutros. Estamos do lado da Ucrânia”, afirmou o presidente do Conselho Europeu.

Por seu turno, Andy Burnham comparou a resistência da Ucrânia à Rússia à luta do Reino Unido contra a Alemanha nazi, dizendo aos ucranianos: “A minha nação manteve viva, no século XX, a chama da liberdade europeia; vós mantendes essa chama no século XXI.”

Depois, comprometeu-se também a ajudar Kiev a reforçar a sua defesa aérea, antes do inverno.

Também o ministro da Defesa britânico, Luke Pollard, confirmou que Londres vai partilhar tecnologia com a Ucrânia, para apoiar a produção interna do míssil de longo alcance SCALP, afirmando: “Estaremos ao lado deles, durante o tempo que for preciso.”

E a UE, anunciou, neste dia, um novo pacote de 6,1 mil milhões de euros em ajuda militar.

Num discurso que assinalou o Dia da Independência, Volodymyr Zelenskyy disse aos ucranianos e aos líderes internacionais que, há 35 anos, os serviços de informações duvidavam de que a Ucrânia sobrevivesse como Estado independente, sugerindo que voltaria a cair sob influência russa. “Mas os ucranianos restauraram a independência do seu Estado e iremos, certamente, proteger a independência da Ucrânia. Não há qualquer dúvida”, afirmou, aludindo às avaliações dos serviços de informações ocidentais, antes da invasão em grande escala da Rússia, de que a Ucrânia poderia cair em poucos dias ou semanas.

Quando as forças russas avançaram, rapidamente, em direção a Kiev, a 24 de fevereiro de 2022, poucos esperavam que a Ucrânia resistisse ao ataque. Seis meses depois, o país assinalou o primeiro Dia da Independência, desde o início da guerra em grande escala.

“Os ucranianos não serão pedras de calçada, sob os pés de czares e de governantes. Os ucranianos não se vão submeter. Os ucranianos não serão moeda de troca, em disputas entre capitais. Os ucranianos não aceitarão aquilo em que não acreditam. E, certamente, não abandonarão o seu próprio sonho – o sonho de viver em liberdade e independência”, bradou o chefe de Estado do país invadido, há mais de quatro anos.

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As comemorações refletiram também o enorme custo de preservar a independência, contra as repetidas tentativas da Rússia em desestabilizar e em “desfazer” o país.

Zelenskyy e a primeira-dama, Olena Zelenska, começaram o dia a homenagear os combatentes mortos, antes de o presidente entregar algumas das mais altas condecorações do país a militares, homens e mulheres. As famílias dos soldados mortos na defesa da Ucrânia receberam distinções atribuídas a título póstumo.

Não houve o tradicional desfile militar no centro de Kiev. Em vez disso, a Ucrânia exibiu drones de produção nacional e outras tecnologias de defesa que se tornaram centrais no esforço de guerra.

A cerimónia aconteceu após uma forte escalada dos ataques russos contra a Ucrânia. Na verdade, Moscovo intensificou os ataques com mísseis balísticos e com drones contra cidades ucranianas, elevando o número de vítimas civis aos níveis mais altos desde os primeiros meses da invasão e revelando a crescente escassez de mísseis intercetores avançados na Ucrânia.

Zelenskyy afirmou que o envio de mísseis intercetores Patriot, diminuiu significativamente, mesmo com o aumento dos ataques com mísseis russos. Por isso, pretendendo obter, pelo menos, mais 330 mísseis intercetores, antes do inverno, fez da defesa aérea um dos temas centrais das conversações com os seus aliados europeus.

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A deslocação do primeiro-ministro britânico à capital ucraniana surgiu após o anúncio de que o Reino Unido vai apoiar Kiev na produção interna de mísseis de longo alcance.

Segundo o respetivo comunicado, o Reino Unido “acordou que a empresa de defesa MBDA pode divulgar informação classificada sobre componentes de fabrico britânico do míssil de longo alcance SCALP, para estabelecer linhas de montagem locais na Ucrânia”. Ora, esta decisão de divulgar a informação classificada sobre o míssil, que utiliza tecnologia britânica e francesa, permite à França e à Ucrânia avançarem com a montagem do míssil em território ucraniano.

Além disso, o comunicado acrescenta: “Complementa também o importante esforço britânico para desenvolver, rapidamente, armas avançadas de ataque de longo alcance e de baixo custo para a Ucrânia, através do projeto Brakestop”.

“No 35.º aniversário da independência da Ucrânia, o povo ucraniano não deve ter dúvidas: o Reino Unido está convosco hoje e pelo tempo que for necessário”, afirmou Andy Burnham em comunicado.

O Reino Unido tem sido um dos principais apoiantes da Ucrânia desde a invasão em grande escala da Rússia em 2022, comprometendo até agora cerca de 25 mil milhões de libras (29,2 mil milhões de euros) em apoio, incluindo 16 mil milhões de libras (18,7 mil milhões de euros) em ajuda militar.

Já no dia 23, presidente ucraniano reuniu-se com líderes nórdicos e bálticos e manteve conversações bilaterais centradas na cooperação em matéria de defesa.

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A Comissão Europeia anunciou, no dia em que se celebra a Independência da Ucrânia, 6,1 mil milhões de euros em novas aquisições de material de defesa para o país. Este financiamento integra o Empréstimo de Apoio à Ucrânia, no valor de 90 mil milhões de euros, e aconteceu num dia em que se realizou, em Kiev, uma reunião da Coligação da Boa Vontade.

“No Dia da Independência da Ucrânia, a Comissão Europeia aprovou 6,1 mil milhões de euros em novas aquisições de material de defesa para a Ucrânia. Este financiamento abrange sistemas de defesa aérea e antimíssil, mísseis, munições e radares, reafirmando o compromisso da Europa em apoiar a defesa e a resiliência da Ucrânia, perante a contínua agressão russa”, indica o executivo comunitário, em comunicado.

Ursula von der Leyen, realçou que esta iniciativa “demonstra que o apoio [da UE] é inabalável e concreto” e que, perante a intensificação dos ataques russos, a UE está a reforçar o apoio a Kiev, para “ajudar a Ucrânia a proteger a sua população e a defender o seu espaço aéreo”. “A Europa está ao lado da Ucrânia e iremos fornecer-lhe o que necessita, quando necessita”, garantiu no dia em que a Coligação da boa vontade se reuniu, em Kiev, para celebrar o 35.º aniversário da independência da Ucrânia.

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A reunião teve um formato híbrido – não estiveram em Kiev alguns dirigentes, como os já referidos e o ministro dos Negócios Estrangeiros português, que participou por videoconferência. Paulo Rangel reafirmou, numa publicação nas redes sociais o apoio de Portugal à soberania, integridade territorial e ao futuro europeu da Ucrânia.

O Presidente da República de Portugal enviou uma videomensagem ao homólogo ucraniano, Volodymyr Zelensky, “e a todos os cidadãos ucranianos”, prestando tributo àqueles “que defendem esta independência no terreno”.

De acordo com uma nota divulgada pela Presidência da República, António José Seguro frisou que “o apoio de Portugal à Ucrânia, à sua soberania e integridade territorial e ao corajoso povo ucraniano continua e continuará a ser incondicional, tal como tem sido desde o primeiro dia”. E, reiterando que Portugal “continuará a prestar apoio político, humanitário, financeiro e militar à Ucrânia, enquanto for necessário”, o chefe de Estado “formulou votos muito sinceros para que as comemorações do 24 de agosto de 2027 decorram já em tempo de paz”.

“O 35.º aniversário da independência da Ucrânia representa, hoje, volvidos quatro anos desde o início de uma trágica guerra, uma dupla vitória: a vitória do tempo, que consolidou a identidade nacional, e a vitória da vontade coletiva do corajoso povo ucraniano, que se recusa a ceder perante a força”, destacou Seguro, sustentando: “Hoje é dia para honrar aqueles que defendem esta independência no terreno, é dia para reconhecer o sacrifício de tantas famílias, é dia para reafirmar a capacidade de um povo de manter viva a soberania, mesmo quando ela é, direta e reiteradamente, desafiada”.

“Estes 35 anos de independência são um testemunho vivo de que a identidade de um povo não se mede pela ausência de adversidade, mas pela forma como a enfrenta”, prosseguiu Seguro, completando que “a amizade entre Portugal e a Ucrânia é uma amizade entre povos que partilham valores fundamentais e uma comum determinação de defender a liberdade, a democracia e o respeito pelo Direito Internacional”.

Em representação do presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar-Branco, estiveram em Kiev deputados do Grupo Parlamentar de Amizade Portugal-Ucrânia, nomeadamente, o líder parlamentar do Partido Socialista (PS) e presidente deste grupo parlamentar, Eurico Brilhante Dias, os seus vice-presidentes Francisco Figueira, do Partido Social Democrata (PSD), e Rodrigo Saraiva, Rui Tavares, do Livre, e Paulo Núncio, líder parlamentar do partido do Centro Democrático Social (CDS).

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A celebração do Dia da Independência e a aprovação do financiamento (já referido) pela UE surgem numa altura em que a Rússia intensifica os ataques com mísseis balísticos e drones. No entanto, numa mensagem divulgada nas redes sociais, o presidente ucraniano garantiu que a Ucrânia não se renderá à Rússia. “A Ucrânia quer a paz, sem dúvida, mas não está pronta para simplesmente se render”, disse Volodymyr Zelensky, citado pela Reuters, vincando que a cedência à exigência russa para abdicar da parte restante do Donbass não é suficiente para pôr um ponto final na guerra e acusando Vladimir Putin de estar “preso ao passado”.

Ao mesmo tempo, solicitou à China que se manifeste contra as ameaças de Moscovo sobre o uso de armas nucleares. “A China não pode continuar em silêncio”, defendeu. “A China deve provar a ambição de ser um dos líderes mundiais, não só nos campos económico e tecnológico, mas também no civilizacional, deixando claro que nenhum ditador deve ameaçar o planeta com ogivas obsoletas”, afirmou, elogiando “a força de espírito” do povo ucraniano.

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Desde a sua independência, a Ucrânia apresentou várias mudanças, tendo Maryna Mykhailenko,

embaixadora da Ucrânia em Portugal destacado (cf. Expresso online de 24 de agosto): ter mostrado ao Mundo quem são os ucranianos, não como república pós-soviética ou na esfera de influência da Rússia, mas como país e nação livres e independentes; ter escolhido, de forma definitiva e irreversível, o caminho do desenvolvimento democrático, após décadas de totalitarismo soviético, pois os ucranianos sempre tiveram, pela sua própria mentalidade, uma forte predisposição para a democracia, nomeadamente, graças às sólidas tradições históricas de autogoverno; e ter optado pela adesão à UE.

E a diplomata conclui que a agressão armada da Rússia contra a Ucrânia não é “uma guerra por territórios”, pelo que “quaisquer concessões territoriais não contribuirão para uma paz duradoura”. Trata-se, antes, de “uma guerra existencial pelo direito do povo ucraniano à existência, à liberdade, ao seu próprio Estado e à sua escolha europeia”, bem como uma guerra que “é também travada pela Rússia para preservar a sua capacidade de determinar a segurança europeia e [de] ditar as suas condições à Europa”.

Com efeito, na ótica da embaixadora, “a Rússia pretende limitar, drasticamente, a soberania ucraniana e determinar a nossa política interna e externa”, tal como pretende “uma Europa dependente dos seus recursos energéticos, intimidada pelo seu exército e governada por aqueles que apoia – e não são forças políticas que tenham os valores europeus no seu ADN”.

Sem desmentir o entendimento da diplomata, é de referir que o “Ocidente” foi ambicioso na subtração de áreas territoriais à influência da poderosa ex-União Soviética e não soube libertar-se da sua dependência estratégica e económica. Agora, torce a orelha.

2026.08.24 – Louro de Carvalho


As chaves são fundamentalmente para abrir, mas alguns só sabem fechar

 

O centro da reflexão suscitada pela liturgia do 21.º domingo do Tempo Comum, no Ano A, evidencia dois temas da construção e da estruturação da existência cristã: Cristo e a Igreja.

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A primeira leitura (Is 22,19-23) mostra como deve ser concretizado o poder “das chaves”. O que detém as chaves não pode usar a autoridade para concretizar interesses pessoais ou para vedar aos irmãos o acesso aos bens essenciais, nomeadamente, os eternos, mas deve exercê-la como serviço de pai que procura o bem dos filhos, com solicitude, com amor e com justiça.

Isaías nasceu por de 760 a.C., provavelmente, em Jerusalém. Bastante jovem, sentiu-se chamado por Deus à profecia (“no ano da morte do rei Ozias”, ou seja, por volta de 740-739 a.C.) e profetizou durante um longo lapso de tempo (os seus últimos oráculos são de finais do século VIII ou de princípios do século VII a.C.), sendo a consciência crítica dos vários reis que, nessa fase, presidiram aos destinos do Povo de Deus. De família nobre, é homem culto, decidido, enérgico, que frequenta os círculos de poder e faz parte dos notáveis de Judá. Participa nas decisões atinentes à condução do reino, fala com autoridade a altos funcionários e aos reis.

Porém, não apoia as classes altas: os seus maiores ataques são dirigidos aos grupos dominantes: autoridades, juízes, latifundiários, políticos, mulheres da classe alta que vivem em escandaloso luxo. Defende, com paixão, os oprimidos, os órfãos, as viúvas, o povo explorado e desencaminhado pelos governantes. E insta, continuamente, o povo à conversão, exortando a que volte para Javé, que respeite os compromissos assumidos, que reaprenda a viver a Aliança, que ponha, de novo, Deus e os mandamentos no centro da vida e da História.

O oráculo assumido na liturgia desta dominga leva-nos à época do rei Ezequias, que atinge a maioridade e assume os destinos de Judá, em 714 a.C. Ezequias, pretendendo a reforma religiosa e a independência política, manifesta propensão para alianças políticas contra os assírios (que, desde o reinado de Acaz, mantêm Judá sob a sua autoridade). Em resposta, Senaquerib ataca Judá e devasta-a. E, em 701 a.C., Jerusalém é cercada pelos assírios e Ezequias tem de aceitar uma submissão mais onerosa do que a anterior.

Todavia, o episódio em causa não se refere aos grandes acontecimentos políticos em que Judá se vê envolvido. Aborda, antes, um caso palaciano. Shebna e Elyaqîm são altos funcionários de Ezequias, que o 2.º livro dos Reis cita a propósito de episódio associado à invasão de Senaquerib.

O oráculo dirige-se, inicialmente, a Shebna, “administrador do palácio”. Anuncia-lhe a destituição do cargo e a sua substituição por Elyaqîm, porque Shebna talhou “para si um sepulcro no alto e cavou para si na rocha um mausoléu”. A sua atitude é condenável, porque é sinal do orgulho de Shebna, que usa o poder para se projetar na sociedade, porque Shebna utilizou o dinheiro do povo ou porque despendeu dinheiro em futilidades, num momento difícil para o povo. Na verdade, sempre o detentor do poder tende a projetar-se acima de todos, a utilizar dinheiro do povo em benefício próprio e a gastar em ninharias e petulâncias, recursos que fazem falta ao povo. Numa dessas tentações terá caído o administrador do palácio.

Shebna será substituído nas suas funções. Para tanto, será despojado das insígnias do poder (a túnica, o cinto, a chave do palácio), que passarão para Elyaqîm, que receberá o poder das chaves do palácio. O simbolismo das chaves é sugestivo: o mordomo, entre outras coisas, conservava em seu poder as chaves do palácio real, administrava os bens do rei, fixava a abertura e o fechamento das portas e definia quais os visitantes a introduzir junto do soberano.

A frase usada pelo profeta – “ele será um pai para os habitantes de Jerusalém e para a casa de Judá” – indica que Elyaqîm exercerá o serviço da autoridade com solicitude, com amor, com justiça; e a referência à “estaca” (“fixá-lo-ei como uma estaca num lugar firme”), revela que, na ótica de Isaías, Elyaqîm desempenhará as suas funções com firmeza.

A autoridade não pode tornar-se em poder absoluto; deve servir para aumentar a robustez da comunidade. A “auctoritas” latina é cognata do verbo “augere”, que significa “aumentar”, fazer crescer”. E a tentação é, muitas vezes, apoucar os outros e aumentar o poder pessoal.

Este episódio palaciano – de corrupção e de validade – é-nos proposto como Palavra de Deus, porque nos prepara para melhor entendimento do Evangelho, pois define em que consiste o serviço “das chaves”, o serviço da autoridade: ser pai para aqueles sobre quem se tem responsabilidade e procurar o bem de todos com solicitude. A chave, é fundamentalmente, para abrir, para incluir, mas alguns detentores usam-na para fechar, para vedar, para excluir

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O Evangelho (Mt 16,13-20) convida os discípulos a aderirem a Jesus e a acolherem-No como “o Messias, Filho de Deus”. Desta adesão, nasce a Igreja – comunidade dos discípulos de Jesus, convocada e organizada à volta de Pedro, mas sempre referenciada a Cristo. A missão da Igreja é testemunhar salvação que Jesus trouxe. À Igreja e a Pedro é confiado o poder das chaves – isto é, a faculdade de interpretar as palavras de Jesus, de adaptar o ensino de Jesus aos desafios do Mundo e de acolher na comunidade todos os que aderem à via da salvação.

Estamos no Norte da Galileia, perto das nascentes do Jordão, em Cesareia de Filipe (atual Bânias), construída por Herodes Filipe (filho de Herodes o Grande) no ano 2 ou 3 a.C., em honra do imperador Augusto.

O trecho em causa é central no Evangelho mateano. Aparece num momento de viragem, quando se perfila no horizonte de Jesus um destino de cruz. Após o êxito inicial do seu ministério, Jesus começou a experienciar a oposição dos líderes e desinteresse por parte do Povo. A sua proposta do Reino não é acolhida, senão por um pequeno grupo – o grupo dos discípulos. Então, dirige-se aos discípulos a interrogá-los sobre Si próprio, não para medir a sua quota de popularidade, mas para clarificar, nos discípulos, a índole da sua opção e para os confirmar nessa opção de seguimento e de aposta no Reino.

O relato de Mateus é diferente do relato do mesmo episódio feito por outros evangelistas, nomeadamente, Marcos. Mateus remodelou e ampliou o texto de Marcos, juntando a afirmação de que Jesus é o Filho de Deus e a missão confiada a Pedro. O trecho em causa é divisível em duas partes: a primeira, cristológica, centra-se em Jesus e na sua identidade; a segunda, eclesiológica, centra-se na Igreja, que Jesus convoca à volta de Pedro.

Na primeira parte (vv. 13-16), Jesus interroga os discípulos: acerca do que as pessoas dizem dele e do que eles próprios pensam. A opinião dos “homens” vê Jesus em continuidade com o passado (“João Baptista”, “Elias”, “Jeremias” ou “algum dos profetas”). Não captam a condição única de Jesus. Na perspetiva dos “homens”, Jesus é, apenas, um homem bom, justo, generoso, que escutou o apelo de Deus e Se esforçou por ser um sinal vivo de Deus, como tantos outros homens antes d’Ele. É muito, mas não basta: não entenderam a novidade do Messias.

A opinião dos discípulos acerca de Jesus vai muito além da opinião comum. Pedro, porta-voz da comunidade, sintetiza o sentir da comunidade do Reino na asserção: “Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo”. Nestes dois títulos resume-se a fé da Igreja mateana e a catequese aí feita sobre Jesus. Dizer que Jesus é “o Cristo” (Messias) significa dizer que Ele é o libertador que Israel esperava, enviado por Deus para libertar o seu Povo e para lhe doar a salvação definitiva. Porém, para os membros da comunidade do Reino, Jesus não é apenas o Messias: é também o “Filho de Deus”. No Antigo Testamento, a expressão “Filho de Deus” é aplicada aos anjos, ao Povo eleito, aos vários membros do Povo de Deus, ao rei e ao Messias/rei da linhagem de David. Designa a condição de alguém que tem relação particular com Deus, a quem Deus elegeu e a quem Deus confiou uma missão. Definir Jesus como o “Filho de Deus” significa, não só que Ele recebe vida de Deus, mas que vive em total comunhão com Deus, que desenvolve com Deus a relação de profunda intimidade e que Deus Lhe confiou uma missão única para a salvação dos homens; significa reconhecer a profunda unidade e intimidade entre Jesus e o Pai e que Jesus conhece e realiza o desígnio do Pai no meio dos homens. Os discípulos são convidados a entender dessa forma o mistério de Jesus.

Na segunda parte (vv. 17-20), Jesus responde à confissão de fé da comunidade discipular, feita pela voz de Pedro. Jesus felicita Pedro (e a comunidade) pela clareza da fé que o anima, que não é mérito de Pedro, mas dom de Deus (“não foram a carne e o sangue que to revelaram, mas o meu Pai que está nos céus”). Pedro (os discípulos) pertence ao grupo dos pobres, dos simples, abertos à novidade de Deus, que têm coração disponível para acolher o dom de Deus (pobres e simples contrapõem-se a líderes – fariseus, doutores da Lei, escribas – instalados nas certezas, seguranças e preconceitos, incapazes de abrirem o coração aos desafios de Deus).

O que é que significa Jesus dizer a Pedro que ele é “a rocha” (“Pedro” é a tradução grega do hebraico “Kephâ” – “rocha”) sobre a qual a Igreja de Jesus é construída? As palavras de Jesus têm de ser vistas no contexto da confissão de fé acabada de proferir. Mateus está, pois, a afirmar que a base firme e inamovível sobre a qual assenta a “Ekklesía” (Igreja) de Jesus é a fé que Pedro e a comunidade dos discípulos professam: a fé em Jesus como o Messias, Filho de Deus vivo.
Para que seja possível a Pedro testemunhar que Jesus é o Messias Filho de Deus e edificar a comunidade do Reino, Jesus promete-lhe “as chaves do Reino dos céus” e o poder de “ligar e desligar”. A entrega das chaves equivale à nomeação do administrador do palácio de que falava Isaías. Por outro lado, a expressão “atar e desatar” designava, entre os judeus, o poder para interpretar a Lei, com autoridade, para declarar o que era ou não permitido, para excluir ou reintroduzir alguém na comunidade do Povo de Deus. Assim, Jesus nomeia Pedro administrador e supervisor da Igreja, com autoridade para interpretar as palavras de Jesus, para adaptar os ensinamentos de Jesus a novas necessidades e situações, e para acolher ou não novos membros na comunidade dos discípulos do Reino. Porém, é de clarificar que todos são chamados por Deus a integrar a comunidade do Reino; mas aqueles que não estão dispostos a aderir a Jesus não podem aí ser admitidos.

Não se trata de confiar a um homem (Pedro) um primado, enquanto liderança absoluta (o poder das chaves, o poder de ligar e desligar) da comunidade dos discípulos, stricto sensu. Pedro é, aqui, o discípulo que dá voz a todos os que acreditam em Jesus, que representa a comunidade dos discípulos e que os confirma na fé. Não há Igreja sem Pedro (a Igreja existe com Pedro), mas Pedro, que representa a Igreja, não a substitui.

O poder de “ligar e desligar” aparece noutro contexto, confiado à totalidade da comunidade e não a Pedro em exclusivo (cf. Mt 18,18). Assim, a postura mais correta é ver em Pedro o protótipo do discípulo; nele, está representada a comunidade que se reúne à volta de Jesus e que proclama a sua fé em Jesus como o Messias e o “Filho de Deus”. É a esta comunidade, representada por Pedro, que Jesus confia as chaves do Reino e o poder de acolher ou excluir. Isso não invalida que Pedro seja a figura de referência para os cristãos e que tenha desempenhado papel de primeiro plano na animação da Igreja nascente, sobretudo nas comunidades da Síria, a que o Evangelho de Mateus se destina.

Por fim, uma palavra sobre a rocha petrina. As portas do inferno não prevalecerão contra ela, porque é dura e forte. Porém, ela tem a outra face mais simpática para os filhos de Deus: no seu seio (gruta) eles são acolhidos e protegidos e sentem-se irmãos. Para tanto, alguns têm de se encarregar, permanente ou temporariamente, da vigilância contra os perigos e da ampliação da gruta, porque todos são chamados a entrar e a permanecer nela.

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Perante os fiéis reunidos na Praça de São Pedro, para a oração do Angelus, Leão XIV sublinhou que o Evangelho nos coloca ante uma pergunta que interpela cada um de nós na via da fé: “Quem é Jesus para cada um?”. O que outrem pensa não me compromete, mas o que eu creio.

“A partir da narração evangélica, percebe-se quanto esta pergunta é decisiva para a experiência do discipulado. Ainda que os apóstolos já tivessem compartilhado muito da vida e do ministério do Mestre, Jesus não quis pressupor que eles O conheciam e que tinham compreendido o mistério do Reino de Deus. Por isso, depois de perguntar quais eram as opiniões das pessoas sobre Ele, dirige-se-lhes, diretamente: “E vós, quem dizeis que Eu sou?”

“Este é um passo fundamental para cada um de nós, pois a fé não nos é dada de uma vez para sempre; antes, precisamos, constantemente, de redescobrir o rosto de Cristo e o seu Evangelho, aprofundar a sua mensagem e renovar as escolhas, para que sejam coerentes com o que professamos, vencendo a tentação de pensar que sabemos tudo e de transformar a fé num costume. Esta pergunta surge, especialmente, na oração e na meditação sobre o Evangelho, mas também quando nos deparamos com as feridas e com as necessidades dos irmãos, ou nas relações e nas situações que mais interpelam a nossa consciência.

“Enfim, no âmbito da nossa vida, avaliamos se, para nós, Jesus é só uma grande figura da História que disse e fez coisas importantes, ou se é o Cristo, Aquele que foi enviado para nos introduzir no amor do Pai e transformar a nossa vida e o Mundo em que vivemos.”

Por conseguinte, o Papa exorta a que “aprendamos a não nos fecharmos nas nossas convicções e certezas religiosas, para nos mantermos abertos a uma relação autêntica com Cristo”. De facto, por vezes, no atinente à fé cristã, contentamo-nos com o que ‘ouvimos dizer’, com os lugares-comuns, com o que nos foi transmitido. Ora, Jesus pede-nos uma resposta pessoal, que O conheçamos de perto, que nos deixarmos escrutinar, a partir da amizade com Ele, num encontro sempre novo que pode exigir que trilhemos caminhos inéditos e que façamos escolhas diferentes das que imaginávamos. Isto é válido para o percurso pessoal, para o caminho da Igreja e para as escolhas pastorais, já que, às vezes, pensamos que basta continuar a fazer como sempre fizemos.

“Ao invés, importa que nos perguntemos, frequentemente: ‘Para mim, quem é o Senhor? Conheço-O? O que me pede o seu Evangelho? Que passos e que escolhas deveria tomar?’

“Invoquemos a Virgem Maria, que, no seu coração, procurava a vontade de Deus, através do seu Filho, para que nos guie sempre no caminho da fé.

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A segunda leitura (Rm 11,33-36) insta a contemplar a riqueza, a sabedoria e a ciência de Deus que, de modo misterioso e desconcertante, realiza o seu desígnio de salvação do homem. Ao homem resta entregar-se na mão de Deus e deixar que o seu espanto, reconhecimento e adoração se transformem em hino de amor e de louvor a Deus salvador e libertador.

Israel rejeitou a oferta da salvação que Deus fez, através de Jesus Cristo, mas isso não significa que Israel esteja arredado da salvação, pois Deus, que lhe prometeu a salvação, não pode ser infiel às suas promessas. Talvez tenha deixado que Israel, num primeiro momento, recusasse a salvação, para que, cedo, os gentios beneficiassem dos dons de Deus. Deus pode ter permitido algo de aparentemente mau, para daí tirar um bem maior. De resto, Israel foi, desde os primeiros instantes da sua existência, chamado a ser o Povo de Deus; e esse chamamento é irrevogável. O Povo eleito, chamado por Deus, desde os seus inícios, não pode deixar de ser objeto especial da misericórdia de Deus. O trecho em apreço, a conclusão desta reflexão paulina, é um belo hino de louvor, de reconhecimento e de adoração que exalta o desígnio salvador de Deus.

Paulo, totalmente abismado, contempla a riqueza, a sabedoria e a ciência de Deus – qualidades de Deus que levam às exclamações e interrogações que preenchem o resto do hino.

O apóstolo reconhece que o desígnio de Deus é misterioso e ultrapassa, infinitamente, a capacidade de compreensão e de entendimento do homem. Deus é sempre mais do que aquilo que o homem imagina: mais sábio, mais poderoso, mais misericordioso. Ao homem resta reconhecer a sua pequenez, os seus limites, a sua finitude, a sua incapacidade de compreender, totalmente, o Deus desconcertante e incompreensível. Mesmo quando as coisas parecem não fazer sentido (a lógica de Deus é diferente da lógica dos homens), ao homem resta atirar-se, com confiança, para os braços de Deus, acolher humildemente a sua Palavra e procurar seguir, com simplicidade e amor os seus caminhos. O verdadeiro crente é o que, embora não entenda o alcance total do desígnio de Deus, se entrega confiadamente nas suas mãos e deixa que o seu espanto e adoração se transformem num hino de louvor: “Glória a Deus para sempre. Ámen”.

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Toda a dinâmica da salvação é fruto da misericórdia de Deus, pelo que Ele é digno de todo o louvor para sempre. Louvemo-Lo e aceitemos a Palavra de Cristo:

“Senhor, a vossa misericórdia é eterna: não abandoneis a obra das vossas mãos.”

“De todo o coração, senhor, eu Vos dou graças / porque ouvistes as palavras da minha boca. / Na presença dos Anjos Vos hei de cantar / e Vos adorarei, voltado para o vosso templo santo.

“Hei de louvar o vosso nome pela vossa bondade e fidelidade, / porque exaltastes acima de tudo o vosso nome e a vossa promessa. /Quando Vos invoquei, me respondestes, / aumentastes a fortaleza da minha alma.

“O Senhor é excelso e olha para o humilde, / ao soberbo conhece-o de longe. / Senhor, a vossa bondade é eterna, / não abandoneis a obra das vossas mãos.

“Aleluia. Aleluia. Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja / e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.”

2026.08.23 – Louro de Carvalho


domingo, 23 de agosto de 2026

Vai ser possível distribuir periódicos em todo o Portugal Continental

 

A VASP - Distribuição e Logística ganhou o concurso para a distribuição diária de jornais e de revistas, no próximo triénio, garantindo a distribuição nos dois lotes do concurso público internacional lançado pelo governo, a 2 de junho, que se enquadra no Plano de Ação para a Comunicação Social (PACS) e que ocorre após longo processo de conceção de um modelo de apoio à distribuição, em território nacional, que abre a porta a eventuais concorrentes.

O Executivo dividiu o concurso em dois lotes, correspondentes às regiões Norte e Sul de Portugal Continental. Assim, o Lote 1 respeita ao Norte e ao Centro; e o Lote 2, ao Oeste e ao Vale do Tejo, à Grande Lisboa, à Península de Setúbal, ao Alentejo e ao Algarve.

A Pergaminhos Flash Distribuição – sociedade constituída, em junho, para se candidatar ao concurso, por José Manuel Rogeira de Jesus, dono da Parsoc, acionista do Jornal de Notícias (JN) – liderada, no âmbito do concurso, por Rui Marques dos Santos, antigo executivo da VASP, foi a única concorrente da VASP, na distribuição de periódicos. O resultado preliminar do concurso atribui à vencedora a distribuição nos dois lotes, por 763 mil euros, por ano, ou 2,29 milhões de euros, no total dos três anos de vigência dos contratos para os dois lotes, bastante abaixo do preço estimado pelo governo.

A VASP, detida por Marco Galinha, dono do grupo BEL- que é também acionista do Diário de Notícias (DN) –, opera, atualmente, em monopólio, depois da saída do mercado de concorrentes na distribuição de publicações. A insolvência, em 2017, da Distrinews II, do Grupo Urbanos, transformou a VASP na incumbente deste negócio, em território nacional. Recorde-se que a Impresa, proprietária do Expresso e da SIC, alienou, em 2021, a sua participação de 33,33% na VASP ao grupo BEL e à Cofina Media, hoje, Medialivre, por 2,1 milhões de euros.

A inclusão do financiamento público à distribuição no PACS era reivindicação dos autarcas do interior e das empresas do setor dos media, face à possibilidade de vários municípios de baixa densidade populacional ficarem sem acesso à imprensa escrita. O governo, por seu lado, recusou a possibilidade de um apoio direto à VASP.

A distribuidora chegou, a 4 de dezembro de 2025, a anunciar que estaria a avaliar “ajustamentos”, em rotas nos distritos de Beja, de Évora, de Portalegre, de Castelo Branco, da Guarda, de Viseu, de Vila Real e de Bragança, aduzindo “uma situação financeira particularmente exigente, resultante da quebra contínua das vendas da imprensa e do aumento significativo dos custos operacionais, que colocam sob forte pressão a sustentabilidade da atual cobertura de distribuição de imprensa diária”. Em março, a empresa reconheceu ter remetido “informações financeiras incompletas” ao gabinete do ministro da Presidência, António Leitão Amaro, explicando as suas razões e apresentado pedido de desculpas.

Os resultados do concurso para a distribuição de jornais e revistas, no próximo triénio, foram comunicados aos concorrentes a 20 de agosto, abrindo-se, agora, o período de pronúncia dos concorrentes sobre o relatório preliminar. Os passos que se seguem são a aprovação do relatório final, a adjudicação definitiva e a celebração dos contratos.

Contudo, a Pergaminho flash, vai contestar a decisão e pedir ao júri a reanálise do processo. “O resultado final não está naturalmente alinhado com a nossa expectativa”, disse ao JN Rui Marques Santos, após analisar a documentação disponível no portal do concurso, vincando que há “vários itens que merecem contestação jurídica. Assim, a concorrente vai contestar os dois lotes, dispondo de cinco dias para apresentar a sua pronúncia.

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O caderno de encargos dividiu Portugal continental em dois blocos geográficos, já indicados: o Lote 1, com o preço base de 1,7 milhões de euros, para três anos, e o Lote 2, com o preço base de 1,3 milhões de euros, também para três anos.

No Lote 1, a proposta da VASP, de cerca de 1,23 milhões de euros, obteve 65 pontos, ficando à frente da proposta da Pergaminhos flash, de 1,4 milhões euros, pontuada com 59,53 pontos. No Lote 2, a proposta da Pergaminhos flash foi excluída pelo júri, por não assegurar pontos de venda em todos os concelhos abrangidos, requisito obrigatório do concurso, faltando os concelhos de Alcoutim e de Marvão. A VASP ficou, assim, como única concorrente admitida neste lote, com uma proposta na ordem de um milhão de euros.

No conjunto dos dois lotes, a proposta da VASP totaliza cerca de 2,29 milhões de euros para três anos (cerca de 763 mil euros, por ano), menos de cerca de 712 mil euros do que o preço base global de três milhões euros, uma poupança de cerca de 24% para o Estado.

O contrato definitivo obrigará o operador vencedor a garantir, no mínimo, um ponto de venda ativo por cada concelho do continente, a assegurar o transporte totalmente não discriminatório de todos os títulos concorrentes e a submeter relatórios mensais detalhados de vendas e custos à fiscalização do Estado.

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A questão vem de longe. Marco Galinha, presidente do Conselho de Administração da VASP, a 20 de janeiro – falando na comissão parlamentar de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto, no âmbito da audição da administração da VASP, a requerimento do grupo parlamentar do partido do Chega sobre a anunciada suspensão, no mês anterior, da distribuição de imprensa, em oito distritos do interior do país –, afirmou que a empresa estava na iminência de cortar rotas, por não ser viável distribuir jornais no interior, pois, como alegou, não consegue suportar resultados negativos recorrentes, no interior do país, mas que está ao lado dos editores e preocupada com as pessoas lá residentes.

Por sua vez, o administrador da VASP, Rui Moura, sublinhou que a empresa “sempre falou com todos os grupos parlamentares” e que se reunira, “há 10 dias”, com a Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP). Mais referiu que os custos têm sido absorvidos pela VASP, mas que, “desde 2019”, não é viável distribuir jornais no interior do país.

Marco Galinha lamentou a “insensibilidade” existente para a atual situação e observou que a VASP é “um monopólio natural”, porque todos os concorrentes faliram. “Se vier outra empresa duplica os custos e torna mais inviável a operação”, salientou.

Recordou que ficou “muito satisfeito”, quando o governo, em outubro de 2024, anunciou o PACS, com medidas fundamentais para as pessoas comprarem jornais. Disse ter havido “várias reuniões”, nomeadamente, com o ministro da tutela de então, Pedro Duarte, que prometeu lançar o concurso, em sete semanas, mas “o governo caiu e as coisas voltaram à estaca zero”.

Marco Galinha referiu que a subida do salário mínimo, que tem um impacto de quase um milhão de euros, por ano, na VASP, e o fim do grupo Trust in News (TiN) são dois fatores que afetam o negócio. Por outro lado, na sua ótica, a distribuição “é um negócio que está a sofrer uma transformação” e que a inteligência artificial (IA) não é tudo.

Paulo Ribeiro, vice-presidente da Associação Portuguesa de Imprensa (APImprensa), sustentou, na mesma audição, que o digital não substitui o papel e que a entidade ainda não recebeu qualquer informação sobre como o governo vai resolver o problema da distribuição dos jornais. Porém, na sua intervenção, considerou “fundamental”, para a coesão territorial, levar a imprensa a territórios de baixa densidade e enfatizou o papel da associação na capacitação dos editores para que possam fazer essa transformação. “A questão está no modelo de negócio e a proliferação gratuita” das publicações, apontou.

Questionado pelo Livre sobre se receberam informação do governo, no atinente à questão da distribuição, o responsável da APImprensa disse que não. “Não recebemos ainda do governo qualquer informação respeitante de como vai resolver o problema da distribuição” e “os CTT não resolvem o problema da distribuição”, sublinhou, explicitando: “Temos vindo aqui a alertar que o modelo de distribuição dos correios” tem tido impacto no setor e que o serviço postal universal (SPU) “não está a ser assegurado, o que leva à deterioração do negócio e à perda de assinantes”, por não receberem a horas.

Em resposta ao Chega sobre o PACS, o responsável destacou uma medida “bem feita” e que foi logo aplicada, que é o aumento do porte pago. Depois, falou de “uma medida importante”, que não foi tomada: os jornais e revistas estarem no Plano Nacional de Leitura, pois, na sua perspetiva, se tal entrasse nas escolas, seria uma outra forma de começar a haver um novo consumo de imprensa. E, por fim, disse que a APImprensa defende que todos os apoios “devem fazer feitos por via indireta”.

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Em dezembro de 2025, Joaquim Brigas, Presidente do Instituto Politécnico da Guarda (IPG), afirmou que a iminência de oito distritos do interior ficarem sem distribuição de jornais e revistas, a partir de 2026, era um sinal político preocupante. Trata-se de um problema mais simbólico do que estrutural, mas que não é menos relevante. Como sabem os diretores da imprensa que assinaram a carta aberta “Em defesa da imprensa, alerta à democracia”, a migração de leitores do suporte impresso para o digital é estrutural e inevitável. Todavia, este é mais um sinal da marginalização progressiva a que, nas últimas décadas, têm sido sujeitos os territórios periféricos. Embora seja fenómeno europeu e norte-americano, em Portugal tem expressão particularmente grave. Por exemplo, o centralismo estatal e a macrocefalia das grandes cidades espanholas são muito menores do que em Portugal.

Mais do que o acesso à informação – que a digitalização tende a resolver –, o desaparecimento dos jornais impressos alimenta a “geografia do descontentamento” e causa danos reais à democracia e à coesão territorial. E, na ótica do líder do IPG, “deixar regiões para trás tem consequências políticas profundas e representa um risco sério para a democracia.

E, citando José Manuel Ribeiro, ex-presidente da delegação portuguesa no Comité Europeu das Regiões, diz: “A ‘geografia do descontentamento’ revela que áreas economicamente estagnadas se tornam focos de voto antissistema [e] a erosão da confiança nas instituições democráticas ocorre precisamente nos territórios onde as pessoas sentem que foram esquecidas.”

Ora, segundo Joaquim Brigas, para combater este sentimento de abandono, que redunda em radicalização política e em rejeição das elites, é relevante manter a distribuição de jornais impressos no interior; e, como sucede com o porte pago da imprensa regional, o governo pode criar um subsídio que assegure a entrega de jornais nacionais em todos os concelhos. Contudo, em seu entender, tal subsídio não deve ser entregue, exclusivamente, à VASP, o único operador de distribuição de imprensa, mas deve ser aberto, de forma concorrencial, às cadeias da grande distribuição que dispõem de redes logísticas com cobertura nacional, que operam em quase todos os municípios.

Assim, “com o estímulo certo, e sem beneficiar, indevidamente, qualquer operador, será possível garantir a chegada da imprensa a todo o país. […] Será necessário pouco dinheiro, uma vez que a procura por jornais e revistas impressos é hoje reduzida. Mas fará toda a diferença, para a coesão territorial e para a qualidade da nossa democracia”, observou.

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Também em dezembro, Cláudia Maia, presidente da APImprensa criticou, em entrevista à Lusa, as “máquinas de comunicação das autarquias” – melhores do que algumas equipas de jornais –, que contribuem para uma comunicação não escrutinada.

Frisando que uma das propostas da associação ao governo é a promoção da literacia mediática, através da compra de jornais, em bibliotecas, espaços públicos, lojas do cidadão e escolas”, observou que, “para algumas autarquias interessa que não haja jornais, são municípios que têm máquinas de comunicação muito fortes, às vezes máquinas de comunicação muito melhores do que as equipas dos jornais”. Tais autarquias “comunicam o que querem, sem filtros, sem escrutínio e, portanto, interessa, às vezes, que não haja a distribuição de jornais.”

Quando foi apresentado, em outubro de 2024, o PACS, havia quatro concelhos que não estavam a receber publicações periódicas. Porém, após uma negociação, em 2024, e um apoio do anterior governo para que houvesse distribuição de jornais, nestes locais, dois deles não estavam interessados e, à data, ainda não tinham pontos de venda.

Para a entrevistada, em causa está comunicação não escrutinada, pois as ferramentas de comunicação dos municípios têm orçamentos e recursos superiores aos dos jornais regionais, substituindo a função da imprensa local. Porém, as estratégias de comunicação das câmaras municipais não cumprem a obrigação de publicitar as deliberações e medidas, na imprensa regional, e ocultam ou retêm informação para a utilizarem nas suas publicações institucionais e difundir conteúdos não sujeitos a escrutínio jornalístico. Isso prejudica o direito do cidadão a receber informação plural e verificada e põe em causa, em último grau, o direito à liberdade de imprensa dos cidadãos destas comunidades.

Numa perspetiva para 2026, Cláudia Maia considera que o desafio para os media “se resume a uma palavra: sustentabilidade”. É claro que, “sem sustentabilidade, não há jornais; [e], sem jornais, não há democracia”, sentenciou.

Na entrevista, Cláudia Maia alertou que a VASP, responsável pela distribuição de jornais, tem de ter rotas que não podem dar prejuízo, incentivando ao aumento da concorrência. Ora, a empresa informara, a 4 de dezembro, que estava a avaliar a necessidade de ajustamentos na distribuição diária de jornais, nos oito distritos já referidos. A isto, Cláudia Maia responde que, se tal decisão avançar, “é muito grave, porque, se um jornal diário não chega, todos os dias, o leitor acaba por perder interesse na subscrição e não tem informação atualizada”.

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A VASP – que diz ter “assumido e garantido, com elevado sentido de responsabilidade e em condições de igualdade, o acesso de todos os cidadãos à imprensa escrita e ao bem público fundamental que é a informação” – manifestou, a 17 de março, preocupação com a proposta do governo sobre a distribuição de imprensa, vincando que tem o potencial de gerar efeitos contrários aos pretendidos, ao fragmentar um sistema logístico nacional. Porém, disse que prosseguirá com “esta missão, não obstante os custos que, com total transparência, tem dado a conhecer às entidades públicas e governamentais com intervenção e responsabilidades nesta área, que, no passado, reputaram esta prestação como serviço público”.

A VASP sustenta que “opera sob um conjunto de condições e obrigações, no âmbito da sua atividade regulada pela Autoridade da Concorrência, e através da supervisão de um mandatário de monitorização, tendo sempre pautado a sua atuação por princípios de rigor, transparência e colaboração institucional”. E enfatiza que é “um sistema logístico complexo que funciona diariamente”, envolvendo “recolha nas gráficas, reparte, expedição, transporte noturno, distribuição capilar no território, recolha e controlo de sobras e gestão, faturação e cobrança de milhares de pontos de venda, bem como o pagamento a editores”.

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Agora, é de perguntar: “O concurso contribuirá para maior coesão territorial e para melhor democracia?”

2026.08.23 – Louro de Carvalho