segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

A todo o ser humano se levanta o problema da justeza das suas opções

 

Na sua condição humana de chamado à liberdade, também se coloca ao crente a questão das suas opções. E a Liturgia da Palavra  do sexto domingo do Tempo Comum no Ano A, mostra como os cristãos devem responder à oferta de salvação que Deus nos faz. É óbvio que somos confrontados com algumas possibilidades, cabendo-nos o ónus do discernimento sobre qual a que interessa ao nosso bem. Porém, sem forçar a nossa liberdade, inalienável, os textos litúrgicos apontam, inequivocamente, para a realidade apelante de Deus a um destino transcendente, a uma vocação sublime, a uma felicidade completa e eterna, não podendo nós, por desleixo, por comodismo, por falta de compromisso, ignorar a proposta que nos garante a vida em plenitude.

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A primeira leitura [Sir 15,16-21 (15-20)] sustenta que somos livres de escolher entre a proposta de Deus, que leva à vida e à felicidade, e a nossa autossuficiência, que nos leva, quase sempre, à desgraça e à morte. Aos que escolhem a vida Deus oferece os mandamentos, como os sinais que mostram o caminho da salvação.

Ao autor material do texto levantam-se questões sobre a responsabilidade pelas más ações do homem, sobre a origem do pecado e sobre o modo como a realidade de Deus – o todo-poderoso, Aquele que é fonte de tudo e que tudo controla – se encaixa em tudo isto.

Ben Sirah conhece o belo poema das origens que aparece em Gn 1. Sabe que Deus criou um “Mundo bom” e o confiou ao cuidado do homem, tal como sabe que, depois de mostrar ao homem os caminhos que devia percorrer para ter vida, o deixou tomar as suas decisões. Enfim, Deus criou o homem livre. E é este o encaixe do trecho de Ben Sirah que serve de primeira leitura. Para descrever a definição por Deus da liberdade do homem, o hagiógrafo recorre à linguagem e aos conteúdos que a catequese de Israel popularizou.

Os teólogos deuteronomistas falavam da opção que o homem tem de fazer entre “dois caminhos”. De um lado está o caminho da vida e da felicidade e do outro o da desgraça e da morte. Essa é a grande questão que condiciona o sentido da vida do homem e o sentido da História: se o homem escolhe caminhos de orgulho e de autossuficiência, à margem de Deus e dos mandamentos, prepara para si e para a sua comunidade um futuro de morte e de desgraça; mas, se escolhe viver no temor de Deus e no respeito pelas propostas de Javé, constrói para si e para o seu Povo o futuro de felicidade, de bem-estar, de abundância, de paz.

Esta doutrina é desenvolvida em Dt 30,15-20. E Ben Sirah mantém a sua reflexão nos mesmos parâmetros. Dirigindo-se aos israelitas tentados pelos parâmetros da cultura helénica, coloca-os diante das grandes lições da História: sempre que o povo vive de acordo com as indicações de Deus, constrói uma sociedade fraterna, livre, solidária, onde todos têm o que é necessário para viverem de forma equilibrada e feliz; mas, quando o Povo escolhe caminhos à margem de Javé e faz orelhas moucas à proposta de Deus, resvala por vias de egoísmo, de injustiça, de exploração, de divisão, de ambição e, portanto, de sofrimento e de morte. Aliás, as grandes catástrofes que marcaram a História do povo, nomeadamente, o exílio na Babilónia, resultaram de opções por sendas escusas à margem de Deus e dos mandamentos.

Porém, Deus respeita a liberdade do homem. O homem não é um títere nas mãos de Deus, ou um robô que Deus liga e desliga com um comando; mas é ser livre, que faz as suas escolhas, que condicionam o seu futuro – e que tem nas suas mãos o próprio destino. Deus indica ao homem os caminhos para chegar à vida e à felicidade; mas, depois, respeita, em absoluto as opções do homem. A opção pela vida ou pela morte resulta do livre-arbítrio do homem.

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No Evangelho (Mt 5,17-37), Jesus pede aos discípulos – que aceitam a oferta da salvação que Ele traz e se dispõem a caminhar com Ele – que não se limitem a serviços mínimos, isto é, a cumprir a letra da Lei, mas adiram a Deus de todo o coração e busquem a vontade do Pai com paixão, com entusiasmo, com total compromisso.

Os líderes religiosos acusavam Jesus de pregar uma doutrina revolucionária, herética, contrária à tradição israelita, exposta na soberana liberdade de Jesus, frente ao sábado; na pouca consideração pelas tradições religiosas judaicas; na novidade das palavras e dos gestos; e na forma como acolhia os mais desprezados. Todavia com Jesus, a Lei antiga não caducou. Ao invés, Jesus começa por definir a sua posição face à Lei tradicional, a Torah: “Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim revogar, mas completar.” Jesus não veio abolir a Lei que Deus ofereceu ao povo no Sinai. A Lei de Deus conserva toda a sua validade, é eterna. Porém, Jesus esclarece que veio “completar” a Lei. O verbo utilizado “plêrosai”) significa “levar à perfeição”. Jesus quer levar à perfeição a Lei do Sinai, restituindo-a à sua simplicidade e sentido original.

Os escribas e os fariseus tinham-se apoderado da Lei e tinham-na usado para criarem a armadilha do legalismo. Para eles, a Lei abrangia um conjunto de indicações fechadas que era preciso seguir à letra e que regulavam todos os passos da vida. Se as leis não fossem totalmente explícitas e não abarcassem todas as situações da vida, deviam ser explicitadas por novas leis. Surgia, assim, um emaranhado legal que enredava a vida do crente, que se tornava escravo da Lei. Quem, pelas duras condições de vida, não conseguia cumprir todas as normas, era tido como pecador, alguém que estava longe de Deus e da salvação.

Com a vida encerrada dentro dos limites da Lei, o crente sentia-se seguro: a Lei indicava-lhe como viver para agradar a Deus e para aceder à salvação. Porém, isto desenvolvia, frequentemente, uma mentalidade errada: a salvação aparecia, ao crente que vivia agarrado ao cumprimento da Lei, como conquista do homem e não como dom do amor de Deus. Daí resultava a autossuficiência.

Deste legalismo derivava outro perigo grave: convictos de que o estrito cumprimento da Lei assegurava a salvação, os crentes cumpriam as regras, sem se envolverem ao nível do coração, da adesão plena a Deus. Cumpriam a letra da Lei, sem aprofundarem o seu espírito. Nesse contexto, não interessava o que se sentia em relação a Deus ou aos irmãos. A religião tornava-se uma experiência puramente externa. Havia quem cumpria, estritamente, a letra da Lei, mas não tinha o mínimo de amor a Deus e aos irmãos. Ora, esta não é a experiência religiosa que Jesus propõe aos seus discípulos. Por isso, avisa: “Se a vossa justiça não superar a dos escribas e fariseus, não entrareis no reino dos Céus.”

Na perspetiva de “levar à perfeição” a Lei, Jesus propõe a vivência da Lei em plenitude, indo ao fundo das coisas. É não ficar na epiderme da Lei, mas cumprir toda a vontade de Deus, mesmo para lá da estrita observância da letra da Lei. É aderir a Deus, assumindo a atitude interior de total compromisso com Deus, com os valores de Deus.

Enquanto os fariseus e os doutores da Lei centravam tudo na Lei, Jesus põe no centro de tudo o Reino de Deus. O que Ele pretende é fazer nascer uma comunidade de homens e mulheres que abram o coração a Deus e façam tudo para que nasça um Mundo mais justo e mais fraterno.

Para maior clareza, Jesus apresentar exemplos da atitude que preconiza, face à Lei.

O primeiro refere-se às relações fraternas. A Lei de Moisés exige não matar mas, para Jesus, não matar implica evitar causar qualquer dano ao irmão. Há muitas formas de destruir o irmão, de o eliminar, de lhe roubar a vida: as palavras ofensivas, as calúnias deletérios, os gestos de desprezo que exclui, os confrontos que põem fim à relação. Ora, quem aceita o convite para integrar a comunidade do Reino de Deus não pode limitar-se a cumprir a letra da Lei; tem de assumir nova atitude, mais abrangente, que leve ao respeito absoluto pela vida e pela dignidade do irmão. E Mateus aproveita o ensejo para apresentar à comunidade a catequese da urgência da reconciliação (cortar relações com o irmão, afastá-lo da relação, marginalizá-lo são formas de matar). Na linha mateana, a reconciliação com o irmão sobrepõe-se ao culto, pois a relação com Deus de alguém que não ama os irmãos é mentira que Deus não aceita.

Por isso, se alguém está junto do altar com a oferta e se lembra de que alguém tem algo contra ele (não é só se tem algo contra o irmão), deve deixar a oferta junto do altar (não a pode levar consigo, porque já não é sua) e ir reconciliar-se com o irmão e voltar ao sacrifício da oferta (tem de cultuar, mas de mãos limpas.

Depois, vem a questão do adultério. A Lei moisaica exige não cometer adultério. Porém, na ótica de Jesus, é preciso ir além da letra da Lei e atacar a raiz do problema: o coração do homem, em que nasce o desejo que se traduz em gestos. Por isso, Jesus propõe a conversão do coração que previna qualquer desejo egoísta que possa evoluir para atitudes que danifiquem a dignidade das pessoas e da relação familiar. A referência a arrancar o olho que é ocasião de pecado (o olho é o órgão que dá entrada ao desejo) ou a cortar a mão que é ocasião de pecado (a mão é o órgão da ação, através do qual se concretiza o desejo que nasce no coração) são expressões fortes a significar que é preciso atuar onde as más ações têm origem e eliminar, na fonte, o mal.

A seguir, vem o tema do divórcio. A Lei de Moisés permitia ao homem repudiar a esposa, mas, na prática, vedava à mulher a possibilidade de pôr fim ao casamento. Na ótica de Jesus, trata-se de uma lei machista, que Moisés aceitou, por causa da dureza do coração do homem. E Jesus considera que essa lei não estava nos planos de Deus, quando criou o homem e a mulher para se amarem e para se completarem. Aqui, Jesus não se limita a completar a Lei: propõe a mudança no sentido do plano original de Deus para o homem e para a mulher. No entanto, o texto abre uma exceção: no caso de “união ilegal” (literalmente, “porneia”). Discute-se o que esta exceção – praticada na comunidade de Mateus – significa. Poderia referir-se à concessão feita aos cristãos de origem judaica para que o marido de mulher infiel pudesse casar-se outra vez, pois a infidelidade da primeira esposa tornaria a união ilegal.

Uma das razões por que o divórcio do homem era permitido, e o da mulher não, ou porque o adultério era proibido à mulher é que se tratava de um atentado à propriedade do homem. A mulher, em algumas civilizações era considerada propriedade do marido. Ora, o adultério e o divórcio feminino subtraíam-na da alçada do marido.

No atinente à questão do julgamento, a Lei moisaica pede, apenas, a fidelidade aos compromissos selados com juramento; mas, para Jesus, a necessidade de jurar implica a existência de clima de desconfiança que é incompatível com a limpidez da verdade. Para os inseridos na dinâmica do Reino, deve haver um clima de sinceridade e de confiança que os simples “sim” e “não” bastam. Qualquer fórmula de juramento é supérflua e sinal de corrupção da dinâmica do Reino.

Enfim, a doutrina de Jesus está muito além do cumprimento casuístico de uma Lei externa. Implica uma atitude interior completamente nova, uma mudança do coração que leve o homem a acolher e a viver a sério as indicações de Deus, um dinamismo novo que transforme cada discípulo em arauto e testemunha fiáveis de um Mundo mais justo, mais humano e mais fraterno.

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 Na segunda leitura (1Cor 2,6-10), o apóstolo apresenta o plano salvador de Deus (a “sabedoria de Deus” ou o “mistério”). É um projeto que Deus preparou, desde sempre, “para aqueles que O amam”, que esteve oculto aos olhos dos homens, mas que Jesus revelou com a sua pessoa, com as suas palavras, com os seus gestos e, sobretudo, com o dom da sua vida até ao fim. Na cruz onde Jesus entregou a vida vemos, ao vivo, o amor de Deus por nós e no qual descobrimos a rota da salvação, da nossa plena realização.

Paulo não se apresentou aos Coríntios como filósofo, capaz de lhes ensinar uma “sabedoria humana”, um sistema filosófico coerente. Veio por mandato de Deus e apresentou apenas a Boa Notícia de Jesus (“julguei não dever saber outra coisa entre vós, a não ser Jesus Cristo, e este, crucificado”). Não o fez com a linguagem dos sábios, dos filósofos, dos grandes oradores, mas com a convicção de quem se encontrou com Jesus, se apaixonou pela proposta de Jesus e decidiu colocar toda a sua vida ao serviço do Evangelho. E foi o Espírito Santo que fez o resto e que tornou possível, a partir do testemunho de Paulo, a adesão dos Coríntios ao Evangelho e o nascimento da Igreja de Corinto.

Em todo o caso, Paulo ensinou aos cristãos de Corinto (os “perfeitos”) uma sabedoria, mas uma sabedoria que “não é deste Mundo, nem dos príncipes deste Mundo”. É a “sabedoria de Deus”, da qual a cruz onde Jesus entregou a vida por amar é a expressão mais completa.

Falar da “sabedoria de Deus” é falar do desígnio de salvação que Deus tem, desde o princípio, para a Humanidade. Paulo refere-se a esse desígnio, recorrendo ao termo grego “mystêrion”. É um plano “que Deus preparou para aqueles que o amam”, a fim de os levar à salvação, à vida plena, e que resulta do amor e da solicitude de Deus pelos seus filhos, os homens. É um plano que o Deus manteve oculto, durante muitos séculos, e só revelou através do seu Filho, Jesus Cristo. Aliás, antes de revelação feita através das palavras, dos gestos, da pessoa de Cristo, dificilmente os homens estariam preparados para compreenderem o alcance e a profundidade do plano divino, da “sabedoria de Deus”.

O “mystêrion” paulino descreve-se deste modo: Deus escolheu-nos, desde sempre, e quis que nos tornássemos santos e irrepreensíveis, a fim de chegarmos à realização plena. Por isso, veio ao encontro dos homens, fez com eles uma Aliança, apontou-lhes, de mil formas, as sendas de vida. E, na plenitude dos tempos, enviou ao Mundo o seu próprio Filho, Jesus, que lutou contra o pecado e contra a maldade, os venceu e inseriu os homens numa dinâmica de amor e de doação da vida. Na cruz, está patente a História de amor que vai até ao ponto de o Filho dar a vida por nós. Este plano de salvação continua a agir na vida dos crentes pela ação do Espírito, que nos anima no sentido de nascermos como homens novos, até nos identificarmos totalmente com Cristo.

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Leão XIV produziu, a 15 de fevereiro, antes do Angelus, o seguinte comentário:

“Ouvimos, no Evangelho, uma parte do ‘sermão da montanha’. Depois de proclamar as Bem-aventuranças, Jesus convida-nos a entrar na novidade do Reino de Deus e, para nos guiar, revela o verdadeiro significado dos preceitos da Lei de Moisés, que não servem para satisfazer uma necessidade religiosa exterior, a fim de nos sentirmos bem diante de Deus, mas para nos fazer entrar na relação de amor com Deus e com os irmãos. Por isso, Jesus não veio para abolir a Lei, ‘mas para levá-la à perfeição’.

“O cumprimento da Lei é o amor, que realiza o seu significado profundo e o seu fim último. Trata-se de adquirir uma ‘justiça superior’ à dos escribas e fariseus, uma justiça que não se limita a observar os mandamentos, mas nos abre ao amor e nos compromete com ele. Assim, Jesus examina alguns preceitos da Lei que se referem a casos da vida e utiliza uma fórmula linguística – as antinomias –, para mostrar a diferença entre a justiça religiosa formal e a justiça do Reino de Deus: ‘Ouvistes o que foi dito aos antigos’. Eu, porém, digo-vos’.

“Esta abordagem diz-nos que a Lei foi dada a Moisés e aos profetas como um caminho para começarmos a conhecer Deus e o seu projeto sobre nós e sobre a História ou, numa expressão de São Paulo, como pedagogo que nos guiou até Ele. Mas, agora, Ele, na pessoa de Jesus, veio entre nós, que cumpriu a Lei, tornando-nos filhos do Pai e dando-nos a graça de entrar em relação com Ele como filhos e como irmãos entre nós.

“Jesus ensina-nos que a verdadeira justiça é o amor e que, em cada preceito da Lei, devemos perceber uma exigência de amor. Com efeito, não basta não matar fisicamente uma pessoa, se a matamos, depois, com palavras ou não respeitamos a sua dignidade. Também não basta ser formalmente fiel ao cônjuge e não cometer adultério, se nesta relação faltam a ternura recíproca, a escuta, o respeito, o cuidado mútuo e o caminhar, juntos, num projeto comum. A estes exemplos que Jesus nos oferece, poderíamos acrescentar outros. O Evangelho oferece-nos um ensinamento precioso: não basta a justiça mínima, é preciso o amor grande, possível, graças à força de Deus.

“Invoquemos, juntos, a Virgem Maria, que deu ao Mundo o Cristo, Aquele que leva à perfeição a Lei e o projeto da salvação: que Ela interceda por nós, nos ajude a entrar na lógica do Reino de Deus e a viver a sua justiça.”

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Por tudo, é salutar a oração como o salmista e como o evangelista:

“Ditoso o que anda na lei do Senhor.”

“Felizes os que seguem o caminho perfeito / e andam na lei do Senhor. /Felizes os que observam as suas ordens / e O procuram de todo o coração.

“Promulgastes os vossos preceitos / para se cumprirem fielmente. / Oxalá meus caminhos sejam firmes / na observância dos vossos decretos.

“Fazei bem ao vosso servo: / viverei e cumprirei a vossa palavra. / Abri, Senhor, os meus olhos /
para ver as maravilhas da vossa Lei.

“Ensinai-me, Senhor, o caminho dos vossos decretos / para ser fiel até ao fim. / Dai-me entendimento para guardar a vossa lei / e para a cumprir de todo o coração.

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“Aleluia, aleluia.”

“Bendito sejais, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque revelastes aos pequeninos os mistérios do reino.”

2026.02.15 – Louro de Carvalho

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Crescente volatilidade global requer ativação da defesa mútua da UE

 

Decorreu, de 13 a 15 de fevereiro, a 62.ª edição da Conferência de Segurança de Munique (MSC), com a presença confirmada de mais de 60 chefes de Estado e de Governo, de uma centena de ministros e de cerca de um milhar de participantes de 120 países, tendo o seu presidente, o diplomata alemão Wolfgang Ischinger, referido que esta MSC decorria em contexto de instabilidade e de profunda incerteza, devido à política norte-americana.
Intervindo na abertura da conferência, o chanceler alemão, Friedrich Merz, alertou que, “na era das grandes potências”, a liberdade da Europa “já não é adquirida, está ameaçada”, pelo que urge a necessidade de “firmeza e vontade para afirmar essa liberdade”, devendo a Europa estar pronta para “empreender novos começos, [para] assumir mudanças e [para] fazer sacrifícios”, “não um dia, mas agora”, à medida que os países europeus aumentem os seus gastos militares, ante a ameaça russa e o afastamento dos Estados Unidos da América (EUA).
À margem da MSC, o chefe da diplomacia chinesa, Wang Yi, num encontro com o homólogo ucraniano, anunciou que a China está pronta para prestar “nova ajuda humanitária” à Ucrânia. “As relações entre a China e a Ucrânia devem manter-se no caminho certo [...]. A China está pronta para prestar nova ajuda humanitária à Ucrânia”, disse Wang Yi a Andrii Sybiga, segundo um comunicado divulgado pela televisão estatal chinesa CCTV.
A China, que nunca condenou a ofensiva russa e se diz neutra, tem apelado a negociações de paz para pôr termo à guerra. Porém, os governos ocidentais e a Ucrânia acusam-na de fornecer à Rússia apoio económico crucial para a guerra, nomeadamente, componentes militares para a indústria de defesa. Ao invés, segundo a agência chinesa Xinhua, Wang Yi afirmou que as trocas comerciais entre Pequim e Kiev se desenvolveram em 2025, sendo a China o maior parceiro comercial da Ucrânia e a maior fonte de importações, e que a China espera que o lado ucraniano continue a garantir a segurança do pessoal e das instituições chinesas na Ucrânia.
Wang Yi falou em progressos recentes, no diálogo sobre o conflito, que julga reconfortantes, e assegurou que a posição chinesa é constante, “defendendo a objetividade e a equidade e promovendo, ativamente, as conversações de paz” e revelando disposição para manter a comunicação com a Ucrânia e para trabalhar com a comunidade internacional no desempenho de papel construtivo na obtenção de uma solução política rápida para a crise.
No final do encontro, Andrii Sybiga agradeceu a Wang Yi a decisão da China de “conceder ajuda humanitária adicional, em matéria de energia, à Ucrânia”, face à intensificação dos bombardeamentos russos contra a rede energética do país. E, nas redes sociais, revelou que falou a Wang Yi sobre os desenvolvimentos da guerra. “Informei o meu colega chinês da situação na linha da frente, dos ataques russos ao nosso sistema energético e dos danos infligidos às empresas chinesas como resultado dos ataques russos. Discutimos os esforços de paz e o papel importante da China para facilitar o fim do conflito”, escreveu, citado pela AFP.
Wang Yi reuniu-se também com o homólogo norte-americano, Marco Rubio. Segundo a AFP, o encontro, que durou uma hora, ocorreu poucos dias após o presidente dos EUA ter afirmado que receberá Xi Jinping, em Washington, no fim do ano, para discutirem, sobretudo, questões comerciais. Rubio e Wang reuniram-se num hotel da capital bávara, onde trocaram um aperto de mão, mas sem declarações aos jornalistas.

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Por seu turno,  a presidente da Comissão Europeia, defendeu, claramente, que a União Europeia (UE) deve ativar a cláusula de defesa mútua e tomar decisões de segurança por maioria qualificada, bem como apostar em estreitar laços com o Reino Unido e com outros parceiros, num contexto de crescente volatilidade global. “A Europa deve tornar-se mais independente, não há outra opção”, frisou, referindo ameaças, que vão desde territórios a tarifas, passando por regulamentações tecnológicas (alusão aos EUA e à agressão russa).
A independência de que fala Ursula von der Leyen, que abrange a defesa, a energia, a economia, o comércio, as matérias-primas e a tecnologia digital, não enfraquece os laços transatlânticos, pois, nas suas palavras, “uma Europa independente é uma Europa forte e uma Europa forte torna a aliança transatlântica mais sólida”. Aliás, as despesas com a defesa apontam nessa direção. Desde o início da guerra na Ucrânia, o investimento europeu, nesta área, cresceu quase 80% e as projeções indicam que, em 2028, as despesas do continente em equipamento militar ultrapassarão as dos EUA em 2025.  “Um verdadeiro despertar europeu”, disse a presidente da Comissão, para quem não é suficiente gastar, mas tomar decisões, mais rapidamente, o que pode implicar o recurso à maioria qualificada, em vez de exigir unanimidade.
A líder do executivo europeu pede a aplicação do artigo 42.7 do Tratado da UE, a cláusula de defesa mútua – o princípio “um por todos e todos por um” –, sustentando que “não é opcional para a UE”, mas “obrigação”, ou compromisso que só tem peso, “se for construído com base na confiança e na capacidade real”. E propôs a formalização de colaborações em segurança, em economia e em defesa, até agora, pontuais, como a Força Expedicionária Conjunta liderada pelo Reino Unido, a Coligação de Voluntários para a Ucrânia, a Noruega, a Islândia e o Canadá.

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Também o secretário de Estado norte-americano, intervindo na MSC, afirmou que a América e a Europa partilham raízes, mas alertou para a necessidade de inverter o declínio económico e cultural. Assim, em tom mais suave do que o do vice-presidente dos EUA, James David Vance, em 2025, Marco Rubio reiterou que o Ocidente está a enfrentar um declínio civilizacional por opção, em resultado de políticas mal concebidas, decorrentes de um “culto” ao clima e à migração em massa. Por conseguinte, apelou aos Europeus para que se unam a uma causa comum com os EUA, a fim de liderarem um novo século de prosperidade, já que as duas partes estão histórica, cultural e economicamente interligadas, pelo que devem partilhar princípios.
“Acreditamos que a Europa tem de sobreviver. […] Em última análise, o nosso destino está – e estará sempre – entrelaçado com o vosso”, afirmou Marco Rubio, num tom foi mais conciliador do que o do vice-presidente, que chocou os Europeus, ao defender que o continente corria o risco de se tornar terra de censura, sufocada por regulamentação excessiva e ameaçada pela abertura das fronteiras, e ao sugerir que a maior ameaça da Europa não vem da Rússia, mas do seu interior.
Marco Rubio não utilizou a linguagem hiperbólica trumpiana, que refere os Europeus como fracos e decadentes, mas a mensagem central manteve-se intacta, pois enquadrou os desafios que se avizinham como uma missão para salvar toda uma civilização do declínio.
O chefe da diplomacia dos EUA criticou os políticos liberais por terem feito uma “escolha consciente”, para desmantelarem, o Ocidente e a sua capacidade industrial, e subcontratado cadeias de abastecimento críticas a rivais e concorrentes. “A desindustrialização não era inevitável”, vincou, para explicitar: “Foi escolha política consciente, empreendimento económico de décadas que despojou as nossas nações da sua riqueza, da sua capacidade produtiva e da sua independência. A perda da soberania da nossa cadeia de abastecimento foi uma transformação insensata, mas voluntária.” 
Aludindo à “migração em massa”, como fonte de conflito, observou que não é preocupação marginal de pouca importância, mas que “foi e continua a ser uma crise que está a transformar e a desestabilizar as sociedades em todo o Ocidente”. 
Tais observações são eco da controversa análise da segurança nacional dos EUA, publicada em dezembro de 2025, segundo a qual ou a UE a invertia o rumo de políticas fundamentais ou enfrentaria o “apagamento civilizacional”, mas os EUA promoveriam laços e trabalhariam com os partidos patrióticos da UE que lutam contra o status quo a partir do seu interior.
Contudo, Marco Rubio foi aplaudido de pé, ao garantir que os EUA se preocupam com o futuro da Europa e ao sugerir que os desacordos provêm de um lugar de “profunda preocupação” pelo continente, que referiu como o berço de uma civilização comum. “Estamos ligados, não só a nível económico, não só a nível militar, [mas] espiritualmente e culturalmente”, frisou, mencionando Mozart, Dante, Shakespeare, os Beatles e os Rolling Stones.
Ursula von der Leyen, questionada sobre a sua opinião acerca do discurso do secretário de Estado norte-americano, respondeu que se sentia “muito tranquila e descreveu Marco Rubio como “um bom amigo, um aliado forte”, mostrando que, em paralelo com os que, na administração norte-americana, foi muito claro, ao referir: “Queremos uma Europa forte na aliança e é por isso que estamos a trabalhar intensamente na UE.”
Marco Rubio criticou os “delírios pós-guerra” partilhados pela Europa e pelos EUA: ceder soberania a instituições internacionais, criar estados de bem-estar social, à custa da capacidade de defesa, abrir portas à imigração massiva que ameaça a coesão social. E criticou organismos, como a Organização das Nações Unidas (ONU), que se mostraram impotentes” em conflitos, como Gaza ou a Ucrânia e que precisam de reformas urgentes. Porém, apesar da dureza da mensagem, tentou tranquilizar os aliados europeus. Os EUA não querem “separar-se”, mas “revitalizar” a velha amizade, pois “a nossa casa é no hemisfério ocidental, mas seremos sempre filhos da Europa”. E insistiu que Washington não quer aliados fracos, mas capazes de se defenderem por si próprios, orgulhosos da sua cultura e herança, e dispostos a proteger a civilização que partilham.
Por fim, disse que as diferenças entre a Rússia e a Ucrânia diminuíram, embora permaneçam as questões mais difíceis de responder. Rejeitou a ideia de que Moscovo não esteja interessada em negociar e insistiu que os EUA avançaram nas conversações.

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Por sua vez, o presidente francês afirmou que a Europa terá de redesenhar a sua arquitetura de segurança, nos seus próprios termos, porque enfrenta uma Rússia agressiva. Assim, porque a atual estrutura de segurança não se manterá, os Europeus têm de definir novos parâmetros, que podem incluir uma abordagem mais holística da dissuasão nuclear.
Sustentando que os planos para “o dia seguinte”, que implicam futura coexistência com a Rússia, devem ser elaborados pelos Europeus, de forma independente, devido à realidade geográfica e a um exército russo “inchado”, com “alta de açúcar” beligerante, o líder francês afirmou: “Temos de ser nós a negociar a nova arquitetura de segurança para a Europa, no dia seguinte, porque a nossa geografia não vai mudar. […] Viveremos com a Rússia no mesmo lugar e com os Europeus no mesmo lugar, e não quero que esta negociação seja organizada por outra pessoa.”
Emmanuel Macron sugeriu que os futuros parâmetros de segurança podem incluir nova dissuasão nuclear, mais holística, entre os aliados europeus, ao invés de um domínio estritamente nacional, o que levanta uma questão delicada, devido às implicações na soberania, mas resolúvel com “novo diálogo estratégico” sobre armas nucleares. “Encetámos um diálogo estratégico com o chanceler Merz e [com] outros líderes europeus, para ver como podemos articular a nossa doutrina nacional com a cooperação especial e com os interesses de segurança comuns em alguns países-chave, afirmou, enfatizando a importância deste diálogo como forma de articular a dissuasão nuclear, numa abordagem holística da defesa e da segurança.
O líder francês procurou reunir apoio para uma Europa mais forte e orgulhosa, que, muitas vezes, carece de autoconfiança, apesar dos seus muitos pontos fortes, não podendo continuar a ser vilipendiada com falsas alegações amplificadas nas redes sociais, como economia excessivamente regulamentada que fecha a inovação, como sociedade presa da migração que corrompe as suas preciosas tradições, e “como um continente repressivo”, em alguns setores.  
Emmanuel Macron pareceu reagir à administração dos EUA, que instam a Europa a inverter o rumo ou a enfrentar o apagamento civilizacional, citando a regulamentação excessiva, a migração ilegal e as políticas repressivas nas redes sociais que restringem a liberdade de expressão. “Todos deviam inspirar-se em nós, em vez de tentarem dividir-nos”, afirmou.

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O chanceler alemão observou que a ordem mundial, como existe, há décadas, “já não existe” e avisou os EUA de que não serão suficientemente poderosos para “avançarem sozinhos”, na nova era da política das grandes potências. E, aludindo ao título do encontro, “Um Mundo em destruição”, sugeriu que a ordem baseada em regras desapareceu e que países, como a Alemanha, têm de repensar a sua abordagem à segurança e à autodefesa.
Declarando que o “momento unipolar” que existiu após a queda do Muro de Berlim e após a ascensão dos EUA como superpotência mundial passou, Friedrich Merz alertou para o facto de a nova ordem global de política poder colocar em maior perigo mesmo as nações mais fortes. “O regresso à política de poder não tem apenas origem na rivalidade entre grandes potências”, frisou, sugerindo que reflete a inquietação e a agitação dos tempos pré-revolucionários.
Este novo contexto, aduziu, marca o fim da “ordem baseada em regras” que as potências democráticas utilizaram para prevenir ou para mediar conflitos, desde o final da Segunda Guerra Mundial. “A política das grandes potências parece oferecer respostas fortes e fáceis, pelo menos, aos grandes atores e, pelo menos, à primeira vista”, afirmou, sustentando que, “sob esta ilusão, a política das grandes potências afasta-se de um Mundo em que a crescente conetividade se traduz no Estado de direito e em relações pacíficas entre Estados” e que “a política das grandes potências tem as suas próprias regras: é rápida, dura e, muitas vezes, imprevisível”. 
O chanceler abordou uma “verdade inconveniente”: a relação transatlântica entre os EUA e a Europa, que sustentou a segurança ocidental, durante décadas, e em dúvida, agora. “Abriu-se um fosso entre a Europa e os EUA”, disse Merz, dando razão a James David Vance, mas não aceitando o seu diagnóstico, antes enfatizando os valores europeus e considerando que “as guerras culturais do MAGA [Make America Great Again], nos EUA, não são as nossas”. 
“A liberdade de expressão, aqui, termina, quando as palavras proferidas são dirigidas contra a dignidade humana, nossa lei básica. Não acreditamos em tarifas e em protecionismo, mas no comércio livre. Aderimos aos acordos climáticos e à Organização Mundial de Saúde [OMS], convictos de que os desafios globais só podem ser resolvidos em conjunto”, observou.

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Em suma, a UE sabe que o Mundo está dividido e em crescente volatilidade, que os conflitos eclodem, a cada passo, e que o continente europeu está fragilizado. Por isso, tem de organizar a sua defesa e a sua segurança, de fortalecer a sua economia, mas não pode descurar a diplomacia, pois é o diálogo estratégico, aliado à dissuasão, que pode garantir a segurança comum.

2026.02.15 – Louro de Carvalho


sábado, 14 de fevereiro de 2026

Ministra impôs a demissão de um dos coordenadores da EMER 2030

 

Fábio Alves Teixeira anunciou, ao início da noite de 13 de fevereiro, a sua demissão de coordenador da Estrutura de Missão para o Licenciamento de Projetos de Energias Renováveis 2030 (EMER2030), apenas quatro dias depois de o despacho de nomeação, o Despacho n.º 1578/2026, de 9 de fevereiro, ter sido publicado em Diário da República.
A nomeação do licenciado em Enfermagem, sem experiência na área para que fora nomeado, concitou uma série de críticas ao governo, incluindo dentro do Partido Social Democrata (PSD), que procurou anular ou, pelo menos, esbater a polémica.
A ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho garante que não teve intervenção na nomeação da personalidade em causa, que foi, até novembro de 2025, adjunto no gabinete da ministra da Cultura, Margarida Balseiro Lopes. Em nota enviada ao Expresso, como referem Paula Caeiro Varela e David Dinis, o gabinete de Maria da Graça Carvalho afirma que a governante “não foi informada desta designação e [que] tomou conhecimento dela, através da imprensa”, acrescentando que, sendo professora e investigadora na área da Energia, nunca poderia concordar com a designação para uma estrutura tão especializada, específica e vital como a EMER, de um profissional que não fosse da área”. 
O despacho de nomeação, datado de 2 de fevereiro, do presidente da EMER2030, Manuel Nina – que, até ao mês de janeiro, integrava o gabinete do secretário de Estado da Energia, Jean Barroca” – sustenta que Fábio Alves Teixeira “possui currículo académico e profissional que evidencia o perfil adequado” para o cargo. Não obstante, o mesmo presidente da EMER2030 declarou à Lusa que aceitara “o pedido de exoneração apresentado” pelo nomeado, agradecendo-lhe “a disponibilidade manifestada para o exercício das funções e o sentido de responsabilidade demonstrado” e desejando-lhe “os maiores sucessos pessoais e profissionais”. 
A publicação do despacho de nomeação levou a Ordem dos Engenheiros (OE) a emitir um comunicado, em que manifestou “perplexidade”, ante “a nomeação de um técnico com formação superior em Enfermagem para o exercício das funções de coordenador da Estrutura de Missão para o Licenciamento de Projetos de Energias Renováveis 2030 (EMER2030)”.
A Iniciativa Liberal (IL) anunciou que pretendia ouvir, na Assembleia da República (AR), o enfermeiro, no âmbito de uma série de audições, por causa de nomeações feitas pelo governo.
O deputado do PSD Bruno Vitorino criticava, no dia 11, a nomeação, feita sem o conhecimento da ministra do Ambiente e Energia, criticando a nomeação: “Não devia ter entrado, entrou mal, tem de sair já”, considerou.
Em declarações à agência Lusa, o deputado Pedro Vaz, do Partido Socialista (PS), afirmou que “a história continua mal explicada” e, por isso, o grupo parlamentar do PS agendou para o dia 22, a audição na Comissão Parlamentar de Ambiente e Energia, da AR, do secretário de Estado Adjunto e da Energia, Jean Barroca, “que tem delegação de poderes, no âmbito desta estrutura”. 
O PS pretende questionar o governante se teve conhecimento ou se validou a designação de Fábio Teixeira para coordenador da EMER2030 (ou se concordou), bem como ouvir o presidente da EMER2030, “porque é o principal responsável”. Ambos devem explicar o que aconteceu. “O presidente da EMER fez declarações públicas a dizer que a pessoa reunia os conhecimentos técnicos suficientes para o desempenho das funções, o que manifestamente não é correto”, referiu o deputado, defendendo que “é muito importante esclarecer o que é que aqui passou e questionar ao presidente da EMER se sente que tem condições para continuar, perante esta desautorização do Governo” e ao executivo se “mantém a confiança política” em Manuel Nina, que “está, claramente, desalinhado daquilo que é a visão do governo para a entidade”.
Na opinião do PS, “dificilmente terá essas condições”, pois, como sustenta o deputado, “se o presidente da estrutura, designado pelo governo, diz, publicamente, que Fábio Alves Teixeira tinha as competências para as funções, o governo diz que, claramente, não tinha, há aqui um desalinhamento muito grande”. 
O também coordenador do PS na Comissão de Ambiente e Energia considerou que a ministra Maria da Graça Carvalho “esteve bem” e “fez o correto” ao exigir a demissão de Fábio Teixeira, pelo que “não faz sentido” chamá-la à AR, pois considerou “normal” que a ministra do Ambiente e Energia não tenha tido conhecimento da designação do enfermeiro para coordenador da EMER2030.

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Do meu ponto de vista, tão criticável é esta nomeação como a nomeação para técnico especialista no Gabinete da ministra da Juventude e Modernização ou a nomeação para adjunto no Gabinete da ministra da Cultura, Juventude e Desporto – aliás, como tantas nomeações governamentais de assessores, de secretários, de adjuntos e de chefes de gabinete.
Por outro lado, parece que emergiu também, no caso, a vertente corporativa, da parte da OE. Com efeito, de acordo com  a nota curricular associada ao despacho de nomeação, Fábio Teixeira é licenciado em Enfermagem pela Escola Superior de Enfermagem do Porto, desde 2018, com pós-graduação em Gestão de Projetos pela Porto Business School e com certificações profissionais em gestão de projetos (PMP) e metodologias ágeis (CSPO). Além disso, foi gestor de projetos (projetos de desenvolvimento e implementação de software; projetos de consultoria), na Inetum, empresa de serviços de TI (tecnologia da informação) ágil que fornece serviços e soluções digitais, e um grupo global que ajuda empresas e instituições a obter o máximo do fluxo digital, e iria ter, como funções, a gestão da estrutura, incluindo o acompanhamento de procedimentos concursais, a gestão financeira e a contratação pública.
Nos termos do despacho de nomeação, este coordenador teria as atribuições referidas nas alíneas h), i), j) e k) do n.º 3 da Resolução do Conselho de Ministros n.º 50/2024, de 26 de março, que cria a Estrutura de Missão para o Licenciamento de Projetos de Energias Renováveis 2030:
* realizar ações de capacitação de dirigentes e de técnicos das entidades da Administração Pública central, regional e local, intervenientes nos procedimentos de licenciamento de projetos de energias renováveis, em alinhamento com a operacionalização procedimental (h));
* publicar relatórios de monitorização de desempenho e de resultados (i));
* implementar um sistema de gestão e controlo interno, suportado em modelos adequados de monitorização e de informação, que previna e detete irregularidades e permita a adoção das medidas corretivas oportunas e adequadas (j));
* Praticar todos os atos necessários à prossecução da missão que lhe é conferida e à concretização dos objetivos enunciados, bem como ao exercício das competências que lhe venham a ser delegadas (k)).
Nestes termos, deviam ter-lhe exigido formação académica em Engenharia (nomeadamente, Engenharia Eletrotécnica), em Economia, em Direito ou em Gestão.

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A EMER2030, criada em março de 2024, tem por missão agilizar os processos de concretização dos projetos de energias renováveis inscritos no Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) e, segundo a ministra do Ambiente e Energia, será extinta no final de 2026, após concluir as tarefas previstas. Questionado, no dia 11, pela Lusa, o Ministério do Ambiente e Energia (MAE) referiu que o presidente da EMER20230 iniciou funções em janeiro de 2026 e que a sua gestão interna, incluindo o reforço de equipas, é da sua exclusiva responsabilidade, salientando que os trabalhos estão em fase avançada, com projetos, como a implementação do balcão único de licenciamento, o estudo de transposição da diretiva RED III – (Diretiva (UE) 2023/2413), que visa aumentar a meta de energias renováveis no consumo final para 42,5% (ou 45%), até 2030, reforçando a descarbonização –, sobre zonas de aceleração de energias renováveis, e o desenvolvimento de ferramentas de apoio ao licenciamento municipal.
A EMER2030, com fim à vista, não só não perdia fulgor, mas viu a sua estrutura reforçada. Assim, o seu presidente, para garantir que os projetos teriam “saudável execução”,  nomeou como coordenador Fábio Teixeira, com “total respeito pelos critérios legais e técnicos” (é sempre assim), conforme revelou ao Expresso, segundo Miguel Prado.
Fábio Teixeira, que se licenciou em 2018 na Escola Superior de Enfermagem do Porto, não teve qualquer experiência profissional ligada à energia. Porém, em 2022, fez uma pós-graduação em Gestão de Projetos, na Porto Business School; trabalhou para a Ventimiguis Career Solutions; foi gestor de projetos do Conselho Nacional de Juventude, passou pela MyCareforce e pela Inetum; e, entre 2024 e 2025, esteve no gabinete da ministra Margarida Balseiro Lopes.
Apesar de não ter, no currículo, experiência associada às renováveis, foi nomeado para assumir funções de coordenação com especificidades distintas das que regeram os outros dois coordenadores da EMER 2030, com direito à remuneração bruta de 3276,88 euros, por mês, a que acresceriam despesas de representação de 341,88 euros, por mês. Assim, o gestor de projetos e enfermeiro vinha juntar-se a outros dois coordenadores com competências distintas e que tinham sido nomeados pelo anterior presidente da EMER2030, Hugo Carvalho.
Efetivamente, em outubro de 2024, foi nomeado Diogo Mota, ex-consultor da Deloitte que tem mestrado em Engenharia Eletrotécnica, com especialização em energias renováveis, como coordenador, para “desenvolver, implementar e gerir o balcão único para o licenciamento e monitorização de projetos de energias renováveis”, bem como para “acompanhar os serviços de licenciamento na área da energia” e para “garantir a articulação e o apoio técnico às equipas das unidades orgânicas da Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG) e da Agência Portuguesa do Ambiente (APA)”. E em abril de 2025, Hugo Carvalho nomeou Catarina Roleta, como coordenadora, com os objetivos de “apresentar uma proposta de programa setorial das Áreas de Aceleração de Energias Renováveis” e de “desenvolver um calendário anual de atribuição de nova capacidade para projetos de energias renováveis”. Catarina Roleta, que trabalhou, entre 2022 e 2024, na Greenvolt, tem mestrado em Gestão, com especialidade em Marketing Estratégico.
Manuel Nina foi nomeado, em janeiro deste ano, para o cargo de presidente pela ministra do Ambiente e Energia. O gestor integrava, desde junho de 2025, o gabinete do secretário de Estado da Energia, Jean Barroca, onde foi autorizado a trabalhar acumulando, a tempo parcial, a atividade profissional que tinha na empresa Goparity, embora impedido de ter atividade privada nessa empresa, nas áreas do ambiente e da energia.
A estrutura estava sem líder, desde setembro, quando Hugo Carvalho anunciou a sua saída. E a nomeação de Manuel Nina ocorreu, pouco mais de dois meses depois de a titular das pastas do Ambiente e da Energia ter afirmado, na AR, que “a EMER vai acabar”, visto que o seu trabalho “está praticamente concluído”. 
“A designação de Fábio José Alves Teixeira para coordenador interno, com as responsabilidades da gestão interna da EMER, [do] acompanhamento dos procedimentos concursais, [da] gestão financeira e [da] contratação pública, completa o leque dos três coordenadores previstos, juntando-se a um coordenador técnico e a um coordenador de capacitação”, contextualizou Manuel Nina, vincando: “Depois desta designação, considero que a EMER dispõe de todos os recursos relevantes para a prossecução dos objetivos e [das] reformas exigidas pelo PRR, no estrito cumprimento dos exigentes prazos deste programa”. 
Todavia, tem de contratar outro coordenador ou deixar essa tarefa para um eventual sucessor.

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A ministra do Ambiente e Energia anunciou, a 4 de novembro de 2025, em audição conjunta da Comissão de Ambiente e Energia com Comissão de Orçamento, Finanças e Administração Pública, na AR, para debater o Orçamento do Estado para 2026, a extinção da Estrutura de Missão para o Licenciamento de Projetos de Energias Renováveis (EMER 2030), justificando o seu fim, com a alegação de que já cumpriu o objetivo. 
Ora, como tal entidade tinha mandato até 31 de dezembro de 2030, vê as suas funções terminadas quatro anos antes do previsto.
A criação da EMER2020 – pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 50/2024, de 26 de março, com o objetivo de “descentralizar e [de] agilizar o licenciamento de projetos de energias renováveis, em Portugal” – foi exigência do PRR, tendo ajudado – e muito – com a transposição da diretiva das renováveis RED III e com as zonas de aceleração de energias renováveis. Entregou o trabalho que devia fazer, durante o mandato do “último” (não o é) presidente que teve, mas, agora, o trabalho está praticamente concluído. São marcos do PRR que têm de ser cumpridos. E, “a seguir a isso, a EMER vai acabar”, sentenciou a titular da pasta, que, ao ser questionada pelos deputados sobre a decisão, disse que “a EMER não foi um fracasso”. 
A criação desta estrutura de missão foi uma das últimas medidas do governo de António Costa, antes de cessar funções. Já com Luís Montenegro, o anúncio da EMER surgiu em abril de 2024, no âmbito do PRR, com uma estrutura de cerca 30 funcionários, para acelerar a concretização de projetos de energia de fonte renovável através de um regime processual mais transparente, ágil e simplificado, para cumprir o Plano Nacional de Energia e Clima (PNEC).
Em maio de 2025, Maria da Graça Carvalho nomeou o ex-deputado do PSD Hugo Carvalho para a liderança da estrutura encarregue de criar e de gerir o Balcão Único para o Licenciamento e Monitorização de Projetos de Energias Renováveis. Porém, ao fim de pouco mais de um ano e sem nada o levar a prever,  Hugo Carvalho, que  tinha mandato até ao final de 2030, pediu à tutela para sair. Assim, desde 1 de setembro, a entidade estava sem líder, tendo o ex-deputado social-democrata decidido deixar o cargo pelo seu próprio pé, segundo consta, para aceitar um convite para voltar ao setor privado, a fim de integrar um projeto tecnológico.
A EMER2030, limitada no tempo, foi criada para facilitar e para tornar mais transparente o licenciamento de projetos de energias renováveis, tendo Hugo Carvalho cumprido todas as metas e o trabalho que lhe foi atribuído e que é incorporado na legislação, pelo que o MAE aceitou o seu pedido de demissão e a vontade de abraçar novos desafios. Entre os principais objetivos, ressaltam: a implementação de um balcão único para o licenciamento de projetos; a consolidação do quadro legal das energias renováveis; e a criação de um sistema de monitorização eficaz, que permita o acompanhamento e o controlo dos projetos em desenvolvimento.
Resta saber por que motivo a entidade que ia acabar, por ter atingido os objetivos, persiste.

2026.02.14 – Louro de Carvalho

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Mau planeamento e má gestão territorial agravam danos das intempéries

 

 

 

Na sequência da rutura do dique da Ponte dos Casais, no rio Mondego, na zona de Coimbra, na tarde de 11 de fevereiro, parte do pavimento da autoestrada A1, a principal autoestrada do país, colapsou, na noite seguinte, ao quilómetro 191,2 da A1, no sentido Norte-Sul, afetando o troço que liga Coimbra Norte a Coimbra Sul.

De acordo com a informação avançada, em conferência de imprensa, ao final da tarde do dia 11, pela ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, a medida teria sido adotada pela Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC) “por uma questão de precaução”, não de “perigo iminente”. Contudo, já após o colapso, diretamente afetado pela rutura do dique em referência, o ministro das Infraestruturas e Habitação, Miguel Pinto Luz, informou que o “problema” estava a “ser monitorizado, há vários dias, pelo Laboratório Nacional de Engenharia Civil [LNEC]” e que o governo estava a par dos “riscos” existentes na zona.

Como explicou o governante, a via rodoviária cedeu, após a força da água ter ido “cavando” por baixo da mesma, sendo serão necessárias “várias semanas” para efetuar as devidas reparações. “Quando mandamos encerrar uma infraestrutura, as decisões não são tomadas de ânimo leve. Ninguém manda encerrar a A1, ou manda encerrar uma infraestrutura absolutamente crítica para o país, sem ter em consciência os riscos que estão calculados”, observou.

À TSF, o subcomandante regional da ANEPC informou que, pelo facto de o trânsito nesta autoestrada já ter sido suspenso, não há registo de feridos.

Num briefing da ANEPC, na tarde do dia 11, o primeiro-ministro (PM), Luís Montenegro, já tinha apelado à evacuação de zonas consideradas de risco, não descartando eventuais novas ruturas no sistema de diques do Mondego, mas assegurava que “todas as medidas preventivas” tinham sido adotadas e que, apesar da melhoria das condições meteorológicas prevista para o dia 12, isso não diminuiria “a necessidade de manter vigilância total e absoluta”.

Entretanto, segundo um comunicado do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), esperava-se novo agravamento, entre “o final da tarde de dia 12 e a manhã de dia 13”, com “períodos de chuva, por vezes forte, e vento com rajadas até 80 km/h [80 quilómetros por hora], em quase todo o país”, uma vez que, Portugal continental seria atravessado por “um sistema frontal associado a uma região depressionária centrada a Norte da Península Ibérica”, a qual daria origem a nova depressão, a Oriana.

Porém, a mesma fonte sustentava que tal depressão não afetaria, diretamente, Portugal continental, porque o seu desenvolvimento se faria já “em território espanhol”, embora os seus efeitos viessem também a ser sentidos no nosso país. Por este último motivo, foram emitidos pelo IPMA “avisos, de nível ‘amarelo’, de precipitação e rajada”, para vários pontos do país; e, face às previsões meteorológicas de chuva para a noite do dia 12 para o dia 13, a ANEPC voltou a deixar o aviso às populações das zonas ribeirinhas do Mondego a fim de se manterem em alerta e de estarem preparadas para abandonar as habitações.

Além disso, Mário Silvestre, comandante da ANEPC, advertiu para a precipitação, “por vezes forte”, que levaria à adoção de comportamentos seguros e responsáveis, também na zona da grande Lisboa e na Península de Setúbal, locais onde se previam “cheias rápidas” e deslizamentos de terra. “Irá chover, durante as próximas horas, mas não é a intensidade do fenómeno que é preocupante, é sua a persistência”, vincou, adiantando que “o plano especial da bacia do Tejo” se mantinha “no seu estado ‘vermelho’, o nível mais elevado”, pelo que, também ali, as pessoas deviam estar preparadas “para abandonarem as suas casa”, se isso se justificasse.

Mário Silvestre referiu que, até então, foram registadas 16623 ocorrências, sendo as mais comuns as quedas de árvores e as inundações. Sem energia mantinham-se 33 mil clientes, sendo 25 mil resultado, ainda, da depressão Kristin.

Também a presidente da Câmara Municipal  de Coimbra, Ana Abrunhosa, num ponto de situação na noite do dia 11, admitiu a possibilidade de uma “cheia centenária”, sendo de “grande preocupação” toda a zona baixa da cidade, devido às novas descargas a fazer pela barragem da Aguieira, que está no limite da capacidade; e não descartou a ocorrência de novas roturas em mais partes do dique do Mondego, pedindo às populações que se resguardassem em casa.

No dia 11, pelas 21h00, um comboio descarrilou na Linha do Leste, perto da povoação de Bemposta, no município de Abrantes, como reportou a agência Lusa, com base em informação fornecida por fonte da ANEPC. A automotora, que transportava passageiros, no momento do incidente, saiu dos carris, depois de ter batido contra uma árvore e de terem caído detritos para a linha. A ocorrência, que não causou feridos, motivou o corte da circulação ferroviária e a mobilização de elementos da empresa Infraestruturas de Portugal (IP) para o local, a fim de  realizarem trabalhos de limpeza e de reparação.

As chuvas fortes e persistentes que se têm registado em Portugal continental, nas últimas semanas, continuam a causar aluimentos de terras em diferentes zonas do território. Assim, depois de se terem registado vários deslizamentos na zona da Costa da Caparica, novo deslizamento, no dia 11, obrigou à evacuação de um prédio e à retirada de 31 pessoas. E, em Ponte da Barca, no distrito de Viana do Castelo, as evacuações preventivas dos últimos dias afetaram 23 pessoas, segundo a Lusa, sem previsão de quando poderão regressar às suas habitações.

A ANEPC explicou, no briefing do dia 12, que os movimentos de massa comprometem infraestruturas, a rede rodoviária e a rede ferroviária”. E, apesar das melhorias do estado do tempo prevista para o fim de semana, se mantém o risco de derrocadas. “Este risco não vai passar com o alívio da precipitação. Irá manter-se, porque existe uma saturação muito grande nos solos, por isso é um risco que se irá manter nos próximos dias”, alertou Mário Silvestre.

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O exposto retrata apenas algumas situações dos impactos do comboio de tempestades que têm afetado Portugal, um pouco por toda a parte, deixando um lastro de destruição, que não teve pejo em atacar edifícios de toda a sorte, ruas, estradas, vias férreas, arvoredos, bases aéreas, margens de rios, orlas costeiras, igrejas e pessoas. É cenário que levanta questões, nomeadamente, sobre o modo como as cidades são planeadas e construídas, face às alterações climáticas. Na verdade, o drama de vários milhares de pessoas desalojadas que não distinguem lágrimas e água da chuva, mostra um país triste, cuja governação voltou a falhar e azou que o pior ocorresse.

Maria Rosário Partidário, professora catedrática de Planeamento, Urbanismo e Ambiente no Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa (IST-UL), em entrevista à Euronews, considerou que “falhou o planeamento”. Com efeito, esta realidade não é nova. “Isto acontece há anos. Só muito recentemente é que começou a haver uma preocupação real”, afirmou, sustentando que, “para muitos, já vem tarde”.

Portugal vem sendo afetado por sucessivas depressões que causaram danos incalculáveis em muitas localidades, com inundações, com cortes de eletricidade, de água e de comunicações e, desta feita, com mais de dezena e meia de mortes. “É preciso adaptar as cidades. […] Há um completo desprezo por aquilo que são as permeabilidades do território. […] Não há espaço para a água”, avisou a especialista em planeamento estratégico e consultora em Avaliação Ambiental Estratégica, verificando que as sucessivas tempestades devastaram dezenas de regiões e deixaram a descoberto debilidades do ordenamento territorial.

A especialista reconhece que o ciclo da água e a força da Natureza não são controláveis, mas defende que, se tivessem sido tomadas medidas preventivas, contando com as alterações climáticas, muita coisa poderia ter sido evitada. A construção excessiva (de dezenas de parques de estacionamento, de rotundas, de centros comerciais…) “contribui para a impermeabilização dos solos”. E não deixar o solo respirar, edificar em zonas de risco, não criar bacias de retenção ou não ter planos de drenagem, são erros que têm sido cometidos na gestão territorial e urbanística que não ajuda a conter a água e a abrandar o desastre.

Alguns abatimentos de estradas, penso eu, resultam de falta de estudo geológico dos terrenos, da sua má compactação, da não construção ou não manutenção de canais de drenagem e de escoamento de águas pluviais e, ainda, da falta de fiscalização de projetos e de obras.   

A renomada professora catedrática defende, há muito, que é preciso voltar “às origens”, ou seja, “trazer a Natureza para dentro das cidades, sendo importantíssima “a plantação de mais árvores e de [mais] espaços verdes”. Efetivamente, como é sabido, “as árvores são um contributo essencial para o combate aos desafios climáticos”, porque melhoram a qualidade do ar, têm um efeito de arrefecimento nas ondas de calor e ajudam na absorção de água pelo solo e pelas raízes.

Além da construção desenfreada, também está em causa o tipo de construção e os materiais utilizados. “A construção precária prolifera pelas cidades”, diz Rosário Partidário, criticando um mercado imobiliário incomportável, que leva a construções com falta de qualidade e de planeamento, com soluções rápidas e frágeis, como a “autoconstrução”. E, como relembra, “há imensas zonas industriais com telhados de zinco que não resistiram.”

A falha na manutenção e no acompanhamento das capacidades das infraestruturas é outro fator. A professora do IST-UL deu o exemplo dos postes de eletricidade que estavam preparados para ventos até 150 km/h, mas a tempestade Kristin atingiu rajadas superiores a 180 km/h. Também o dique do Mondego, já em situação limite, que rebentou, levantou suspeitas da falta de manutenção na estrutura hidráulica e na desatenção à velocidade possível das águas, aquando da escolha de materiais de barragem (não basta obviar ao desvio da água, mas também obviar à sua força).

Jorge Avelar Froes, engenheiro agrónomo que integrou a equipa de projetos dos diques do Mondego, disse que a estrutura é robusta, mas que os anos de “abandono e desleixo” podem ter causado danos. O sistema de diques foi criado para impedir a inundação dos campos agrícolas nas margens, o que sucedia com frequência. Agora, segundo o especialista, é necessária avaliação estrutural completa que garanta que o sistema, construído entre o final dos anos 1970 e meados dos anos 80 do século XX, continua apto.

Em 2007, Portugal adotou uma diretiva do Parlamento Europeu (PE) de que resultou a Avaliação Ambiental Estratégica (AAE) para avaliar os efeitos ambientais de qualquer plano ou programa público, incluindo o ordenamento urbano e rural ou a utilização dos solos. E Rosário Partidário lembra que há muitos estudos e trabalhos feitos nesta área, só que muitos “não saem do papel” ou, quando saem, não têm o devido acompanhamento. Com efeito, as questões do clima e dos riscos são consideradas no ordenamento das cidades, mas a especialista acredita que “são relegadas para segundo plano” por muitos municípios, que tentam contornar ou infringir a lei. “Basta ver a construção massiva em cima da linha de água”, exemplifica.

O Plano Geral de Drenagem de Lisboa, iniciado em 2016, é exemplo de um projeto que visa fazer face às alterações climáticas, mas, na ótica da especialista, “não é uma medida preventiva, porque só aconteceu depois de muitas cheias em Lisboa”. O projeto, avaliado em 250 milhões de euros, cria várias bacias de retenção e dois túneis que ligarão Monsanto a Santa Apolónia e Chelas ao Beato, “estruturas de grandes dimensões que vão captar a água em dois pontos altos da cidade”.

A necessidade de financiamento destes projetos é uma razão para não serem mais implementados. “Uma bacia de retenção é cara e os resultados […] não são imediatos”, explicou a especialista, desabafando que gostaria que se fizessem contas aos danos dos últimos anos e ao que temos de reconstruir, comparando com o que se gastaria em medidas de prevenção.

Também a Bacia de Retenção do Parque Urbano da Várzea, projetada em 2018 e posta à prova,  neste ano, é apontada como exemplo de uma medida que tem protegido a cidade de Setúbal. De acordo com declarações ao canal do município de Paulo Maia, vereador detentor da Proteção Civil Municipal, “as ações preventivas de limpeza de obstrução de sumidouros foram importantes, mas, face às tempestades que nos têm afetado e à enorme quantidade de água que tem chovido”, foi, sobretudo, esta bacia de retenção que “protegeu o centro da cidade e evitou inundações”.

Para Rosário Partidário, esta é uma das soluções necessárias para as cidades. “É uma solução natural ao nível do solo”, assegura.

Ao abrigo de vários programas de financiamento da União Europeia (UE), como o Programa Operacional para a Sustentabilidade e Eficiência no Uso de Recursos (POSEUR), o PORTUGAL 2020 e o Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER), foram criados dois furos geodésicos que garantem o abastecimento de água a todo o Parque da Várzea e foram plantadas cerca de 1290 árvores, que contribuíram para prevenir a erosão do solo. E os caminhos pedonais foram construídos em betão poroso, “uma variante que permite a rápida infiltração da água e a circulação de ar”.

Com as fortes chuvas da tempestade Leonardo, a bacia tinha utilizado apenas 20% da sua capacidade. E, num comunicado da Câmara Municipal de Setúbal, lê-se: “A bacia de retenção da Ribeira do Livramento, conjugada com outras estruturas similares de menor porte, que somam uma capacidade total de cerca de 300 mil metros cúbicos de água, continua a cumprir a função de impedir o registo de cheias na cidade.”

Assim, o Parque Urbano da Várzea mostra que é possível aplicar as medidas ambientais, em prol das cidades e da qualidade de vida dos seus habitantes. E Rosário Partidário, lembrando que o envolvimento das comunidades é essencial, para que possam compreender, decidir e sentir-se com poder sobre as suas próprias terras, defende que é “imprescindível repensar o ordenamento das cidades, colocando a proteção ambiental e o bem-estar das pessoas no centro de todas as decisões”.

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O PM anunciou, no dia 12, um Plano de Recuperação e Resiliência exclusivamente português, a que chamou PTRR, para que o país recupere, economicamente, das consequências do mau tempo e atue nas infraestruturas mais críticas. Porém, não disse como será o seu financiamento e se terá os habituais 30 ou 100 itens. Além disso, não advertiu que a promoção e a gestão das principais fontes de rendimento público, a edificação das grandes estruturas de serviço ao público e a distribuição da maior parte dos benefícios do bem-estar ou são privadas ou capturam o interesse de um Estado cada vez mais exíguo e se pautam pelo lucro, não pelo interesse, nem pelo serviço público. Temos governos que apenas gerem o quotidiano.

2026.02.13 – Louro de Carvalho


Portugal lidera o ranking da UE em matéria de eletricidade renovável

 

Em janeiro de 2026, de acordo com a Associação Portuguesa de Energias Renováveis (APREN), 80,7% da eletricidade gerada, em Portugal, teve origem em fontes renováveis, principalmente, em resultado do grande aumento da produção de energia hidroelétrica e eólica.

Este é o melhor resultado em nove meses, desde que Portugal sofreu um apagão generalizado que provocou o caos em todo o país, elevando-o ao segundo lugar na Europa. A Noruega, que não pertence à União Europeia (UE), ficou em primeiro lugar, com 96,3% de produção de eletricidade renovável, em janeiro, enquanto a Dinamarca caiu para o terceiro lugar, com 78,8%.

Assim, Portugal lidera o ranking da UE, na corrida à energia verde, com mais de 80% da eletricidade consumida, em janeiro, a vir de fontes renováveis.

A produção de eletricidade, em Portugal, foi liderada pela energia hidráulica, que representou 36,8% do mix global. Seguiu-se de perto a eólica (35,2%), enquanto a energia solar representou 4,4%. Houve 210 horas não consecutivas em que a produção renovável foi suficiente para cobrir todo o consumo nacional. E, de acordo com a APREN, a incorporação destas fontes permitiu uma poupança estimada de 703 milhões de euros, face à produção em centrais a gás natural.

Perante estes dados, levanta-se a questão se pode a energia verde evitar um novo apagão, como o do mês de abril de 2025.

No ano passado, a Península Ibérica mergulhou no caos, devido a um apagão sem precedentes que deixou cerca de 60 milhões de pessoas sem eletricidade.

A 28 de abril, uma perda total do fornecimento elétrico paralisou redes de metro, semáforos, serviços móveis e sistemas de emergência, em Portugal e na Espanha, deixando milhares de pessoas retidas e travando a atividade económica. Desde então, o episódio é descrito como o “evento mais significativo no sistema elétrico” da Europa, em mais de duas décadas.

Cerca de 15 gigawatts (GW) de capacidade de produção de eletricidade (equivalentes a cerca de 60% da procura de energia da Espanha, à hora do incidente) abandonaram o sistema, em cinco segundos. Foram necessárias mais de 12 horas para restabelecer a maior parte do fornecimento de eletricidade nos dois países ibéricos, tendo o incidente provocado a morte de, pelo menos, quatro pessoas. Um casal e o seu filho adulto terão morrido por intoxicação com monóxido de carbono, após utilizarem um gerador, durante o apagão.

A falha em larga escala suscitou alegações duvidosas em torno da corrida da UE para uma transição para a energia verde, com muitos meios de comunicação a culparem as renováveis e a meta de “emissões líquidas zero” pelos cortes de eletricidade. No entanto, uma investigação oficial sobre o apagão atribuiu a culpa a erros nas centrais elétricas convencionais e ao “mau planeamento” do operador da rede.

Com efeito, segundo alguns especialistas, a causa principal do incidente foi uma “sobretensão em cascata”, fenómeno técnico em que um pico de potência desencadeia outros picos, espalhando-se pela rede elétrica como uma reação em cadeia. Em termos simples, o problema é a incapacidade da rede de reiniciar o sistema de forma automática.

Porém, Rana Adib, diretora executiva da Rede de Políticas de Energia Renovável para o Século XXI (REN21), sustenta que o apagão, na Península Ibérica, foi um alerta para acelerar a modernização da rede existente. “À medida que as energias renováveis crescem, também a resiliência do sistema tem de aumentar”, considera Rana Adib, acrescentando:  “Isto implica um planeamento holístico, que contemple oferta, infraestruturas, flexibilidade e procura e [que] assegure, desde o início, uma forte colaboração entre todas as partes interessadas.”

Outra questão que se levanta é se a rede elétrica europeia conseguirá acompanhar o boom das energias renováveis.

De acordo com um relatório de 2025 da empresa de energia Aurora, a rede elétrica europeia está a tornar-se cada vez mais um “problema”, para atingir a neutralidade carbónica, devido à falta de investimento. A Comissão Europeia estima que serão necessários 584 mil milhões de euros de investimento na rede elétrica até 2030, para cumprir as metas.

A rede, que transporta eletricidade para casas e para empresas, nunca foi concebida para parques solares e eólicos, frequentemente, construídos em zonas remotas, e foi, originariamente, desenvolvida em torno de grandes centrais de combustíveis fósseis centralizadas.

Isto significa que a UE, não tendo dificuldade em gerar energia verde, enfrenta problemas para a transportar. Por isso, o Reino Unido desliga, com frequência turbinas eólicas, quando a rede fica congestionada, desperdiçando energia, e a Polónia tem, repetidamente, desperdiçado energia gerada por painéis solares.

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Este esforço da Europa e, em particular da UE, em torno das energias renováveis, visa minorar os efeitos das alterações climáticas, através da diminuição drástica da utilização de combustíveis de origem fóssil, no que há muito caminho por andar, ao invés, havendo grande retrocesso. Assim, voltou a avançar o Relógio do Juízo Final ou Relógio do Apocalipse, numa altura em que o Mundo se aproxima de uma catástrofe global alimentada por armas nucleares, por desinformação e pelas alterações climáticas.

Criado pela organização sem fins lucrativos The Bulletin of the Atomic Scientists, o Relógio do Juízo Final nasceu em 1945, por obra de Albert Einstein e de Julius Robert Oppenheimer, da Universidade de Chicago, após a criação da bomba atómica. Utiliza uma analogia em que a Humanidade está a poucos minutos da meia-noite, a qual representa a destruição por uma guerra nuclear ou uma grande destruição causada pelos próprios seres humanos. Funciona, pois, como metáfora da ameaça das tecnologias criadas pelo homem, sendo a aproximação à meia-noite sinónimo de apocalipse. Tal ameaça pode incluir “política, energia, armas, diplomacia e ciência do clima”; e as fontes potenciais de ameaça incluem ameaças nucleares, mudanças climáticas, bioterrorismo e inteligência artificial (IA).

A primeira representação do relógio foi produzida em 1947, quando a artista norte-americana Martyl Langsdirf, esposa do físico Alexander Langsdorf Jr., do Projeto Manhattan, foi convidada pelo cofundador da revista “Hyman Goldsmith” para desenhar uma capa para a edição de junho. O número de minutos para a meia-noite, uma medida do nível nuclear, de armamento e tecnologias envolvidas, é atualizado anualmente.

Em 2025, o Bulletin alertou que o planeta estava “perigosamente perto” de catástrofe generalizada. E, em vez de acolherem o aviso, potências, como a Rússia, a China e os Estados Unidos da América (EUA), tornaram-se mais agressivas e nacionalistas.

Atualizado todos os anos, o Relógio foi, inicialmente, fixado em sete minutos para a meia-noite e recuou oito vezes. Agora, está a apenas 85 segundos da meia-noite. Com efeito, em 2025, as concentrações globais de dióxido de carbono atmosférico (CO2) atingiram um máximo histórico, subindo para 150% acima dos níveis pré-industriais. Estes gases, que retêm calor, fizeram subir as temperaturas globais, pondo à prova pontos de rutura críticos do planeta. 2025 foi o terceiro ano mais quente à escala global e assinalou o primeiro período de três anos com temperaturas acima do limiar de 1,5 °C (graus Celsius) previsto no Acordo de Paris. Na Europa, vagas de calor abrasaram o continente, alimentaram incêndios mortais e sujeitaram os cidadãos a sucessivas vagas de calor.

Uma análise do Imperial College London e da London School of Hygiene & Tropical Medicine concluiu que 68% das 24400 estimadas mortes por calor, no verão de 2025, se devem às alterações climáticas, que elevaram as temperaturas em até 3,6 °C.

Por cada aumento de 1 °C na temperatura do ar, a atmosfera retém cerca de mais 7% de humidade, o que pode levar a chuva mais intensa e abundante. Foi, em parte, por isso que milhares morreram, em toda a Ásia, após monções sobrepostas no outono de 2025. As cheias repentinas, que destruíram centenas de casas e transformaram estradas em rios de lama, também evidenciaram os efeitos de desflorestação. Por exemplo, a Indonésia, entre 2016 e 2025, desflorestou 1,4 milhões de hectares em Aceh, na Sumatra do Norte e na Sumatra Ocidental, que serviam de travão às cheias, absorvendo o excesso de água e reduzindo o volume de escoamento. Ora, sem tais florestas, o país não sabe lidar com chuva extrema.

Apesar de 2025 ter sido marcado por fenómenos meteorológicos extremos, o progresso na saída dos combustíveis fósseis foi travado na cimeira COP30, em Belém, mas, fora da agenda oficial, o apoio a um roteiro para a transição para energia limpa ganhou força, durante as negociações. Efetivamente, mais de 90 países, incluindo o Reino Unido, a Alemanha e os Países Baixos, apoiaram a ideia de um roteiro segundo o qual cada nação define as suas próprias metas para eliminar, gradualmente, os combustíveis fósseis. E Lula da Silva, do Brasil, foi voz ativa a apelar ao mundo para “começar a pensar em como viver sem combustíveis fósseis”.

A Carbon Majors apurou que 17 dos 20 maiores emissores, em 2024, eram empresas controladas por países que bloquearam esse roteiro. Incluem-se, nessa lista, a Arábia Saudita, a Rússia, a China, a Índia, o Iraque, o Irão e o Qatar. Assim, as respostas nacionais e internacionais à emergência climática passam de totalmente insuficientes a profundamente destrutivas.

Nenhuma das três cimeiras do clima mais recentes da Organização das Nações Unidas (ONU) relevou a eliminação progressiva dos combustíveis fósseis ou o controlo das emissões de CO2. Nos EUA, a administração Trump declarou guerra às energias renováveis e a políticas climáticas sensatas, desmantelando, sem tréguas, os esforços nacionais de combate as alterações climáticas.”

Todavia, mesmo com os ponteiros do Relógio do Apocalipse muito perto da meia-noite, há uma réstia de esperança. A Humanidade pode recuar da beira do abismo, se o Congresso dos EUA rejeitar a guerra de Trump às energias renováveis. Na verdade, incentivar e investir permitirá reduzir, rapidamente, o uso de combustíveis fósseis.

Avançar para energia limpa e reduzir a dependência de combustíveis fósseis é a única forma de cumprir as metas climáticas. Segundo a ONU, os combustíveis fósseis são, de longe, o maior contributo para as alterações climáticas globais, pois representam cerca de 68% das emissões globais de gases com efeito de estufa (GEE) e quase 90% de todas as emissões de CO2.

Num sinal positivo, 2025 foi um marco importante para as energias renováveis, na Europa, com a eólica e a solar a gerarem mais eletricidade, na UE, do que os combustíveis fósseis.

Um relatório do think tank de energia Ember concluiu que, nos últimos cinco anos, a energia fóssil desceu de 36,7% da eletricidade da UE, para 29%, enquanto a eólica e a solar combinadas subiram para 30%, apesar da queda da eólica, em 2025, face a 2024. E dez países europeus, incluindo a Bélgica, a Noruega e o Reino Unido, prometeram 9,5 mil milhões de euros, para transformar o Mar do Norte no “maior reservatório de energia limpa” do Mundo, para abastecer cerca de 143 milhões de lares, até 2050, recorrendo a parques eólicos no mar ligados diretamente a mais do que um país, através de interconectores multiusos (MPI).

Ao invés, Donald Trump está determinado no reforço dos combustíveis fósseis e na prossecução dos ataques às energias renováveis. Depois de prometer levar a sua mentalidade de “drill, baby, drill” às reservas de petróleo da Venezuela, suspendeu as concessões de todos os projetos eólicos offshore no país, decisão que está a ser revertida, depois de um juiz federal ter decidido, a 20 de janeiro, que um projeto eólico offshore quase concluído em Massachusetts pode continuar. E, em Davos, chamou “perdedores” aos países que usam turbinas eólicas, afirmando que a China não investe nas renováveis, apesar de ter construído o maior parque eólico do Mundo.

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Estudos mostram que a luz branca, de noite, prejudica a atividade dos morcegos, ao passo que a luz vermelha tem efeito mínimo, semelhante ao da escuridão. Em Copenhaga, a iluminação urbana, ao longo de uma das principais vias é vermelha, de acordo com um plano para reduzir os efeitos da poluição luminosa, sobretudo, sobre os animais noturnos.

Em Gladsaxe, decorre um projeto do gabinete AFRY Architects para conciliar o desenvolvimento urbano com objetivos ambientais. Assim, candeeiros LED vermelhos (a luz LED consome menos energia e exige menos manutenção), instalados numa estrada principal e numa supervia ciclável, reduzem o impacto na vida dos morcegos de colónia próxima. Ao longo da estrada, 30 balizadores, com um metro de altura, que emitem um brilho vermelho, estão suficientemente espaçados para espécies sensíveis à luz atravessarem a zona, sem ficarem expostas como presas, e para garantirem que circulam carros e ciclistas, na estrada, em segurança.

Projetos semilares arrancaram por toda a Europa. Em 2018, a localidade neerlandesa de Zuidhoek-Nieuwkoop tornou-se a primeira localidade do Mundo, a instalar iluminação amiga da fauna. E o Reino Unido criou a primeira passagem para morcegos, em 2019, com 60 metros de iluminação vermelha, na autoestrada A4440, junto à reserva natural Warndon Woodlands, em Worcester.

Em 2017, investigadores Instituto de Ecologia dos Países Baixos mediram, pela primeira vez, os efeitos da luz em diferentes espécies de morcegos e concluíram que diferentes espetros tinham impactos distintos na atividade de morcegos de voo lento e sensíveis à luz, nos seus habitats de alimentação. E a experiência decorreu, durante cinco anos, em oito locais de estudo, junto a margens de floresta, em zonas escuras. “Verificámos que estes morcegos são igualmente ativos com luz vermelha e na escuridão”, afirmou o investigador principal, Kamiel Spoelstra, em comunicado, vincando: “A luz branca e a luz verde, pelo contrário, reduzem, significativamente, o nível de atividade dos morcegos”.

Os morcegos caçam insetos à noite, porque têm pouca concorrência de outros animais e os predadores não os veem, devido à escuridão. A luz artificial branca causa perturbações em espécies, como o morcego-de-Natterer ou o morcego-castanho-de-orelhas-compridas, vulneráveis a predadores que caçam pela visão. Já espécies de voo ágil, como o morcego-anão (pipistrelle), não se incomodam com luz adicional, ajudando-as os candeeiros de rua a capturar mais insetos, ao atraí-las para a área mais concentrada. E espécies de morcegos de maior porte, como a serotina e a noctula-pequena, voam alto o suficiente para não serem afetadas pela iluminação pública. De facto, a iluminação vermelha funciona em condições reais, porque essa luz é adequada para ser utilizada em estradas secundárias.

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A ação climática requer ousado investimento em fontes renováveis de energia, nomeadamente, construindo estruturas de produção e de transporte, contendo o consumo e o desperdício; proteção dos diversos ecossistemas; robustecimento das infraestruturas públicas; e organização do Estado para a previsão das catástrofes e para a resposta adequada, quando surjam.     

2026.02.12 – Louro de Carvalho