Uma
investigação do Politiken – jornal diário dinamarquês, fundado em 1884,
com sede em Copenhaga, conhecido pela sua linha editorial liberal e de
centro-esquerda, que é parceiro do Expresso na rede European
Investigative Collaborations (EIC) – a, pelo menos, 36 antigas bases e
instalações militares norte-americanas, na Gronelândia, a maior ilha do Mundo, revela
que os Estados Unidos da América (EUA) deixaram, ali, milhares de toneladas de
resíduos perigosos e águas residuais radioativas.
Os
dados da investigação da EIC foram publicados, a 29 de junho, no Expresso online,
por Carl Emil Arnfred, Jesper Thobo-Carlsen e Peter-Emil Hornemann, sob o
título “Investigação na Gronelândia. Como os EUA deixaram para trás
milhares de toneladas de resíduos perigosos e águas residuais radioativas”.
A
poluição em causa, que é, segundo os jornalistas, “a mais extensa do que alguma
vez foi noticiada”, é visível em “centenas de bidões de petróleo enferrujados,
baterias de automóvel, tubos e cabos descartados e placas de amianto
estilhaçadas”, contrastando com os icebergues que deslizam, lentamente, no horizonte
de Narsarsuaq, no Sul da Gronelândia, onde esteve a maior base norte-americana,
na ilha, durante a II Guerra Mundial e para onde se mudaram milhares de
soldados norte-americanos, após a criação da base, em 1941.
Agora,
é um pequeno aeroporto com uma povoação ao lado, rodeado de “centenas de
milhares de litros de gasóleo”, de “muitos milhares de toneladas de resíduos
perigosos ou contaminados”, de “milhões de litros de águas residuais de baixa
radioatividade”, e de “substâncias tóxicas e metais pesados” – enfim, uma
poluição que “está a prejudicar mexilhões e outras formas de vida marinha”,
quando os EUA dizem querer regressar a várias das bases.
O
que sobressai na zona do aeroporto é a “lixeira” junto ao fiorde, a poucas
centenas de metros da pista, com toneladas de resíduos a espalharem-se “por
vários hectares ao longo da margem, abandonadas no rio de água do degelo”, que
desagua no fiorde. E dizem os jornalistas que, “em vários pontos, os bidões de
petróleo e os destroços acumulam-se em camadas com metros de altura” – empurrando
“tudo na direção da água” – e que, noutros pontos, “foram enterrados”.
“Durante
muitos, muitos anos, o petróleo infiltrou-se na água. Foram afundados vários
aviões no fiorde”, conta um mecânico de formação e que foi diretor do aeroporto
de Narsarsuaq, durante mais de 20 anos, frisando que os norte-americanos “abandonaram
a base militar de Narsarsuaq, em 1958, sem fazerem qualquer limpeza”.
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Entretanto,
a 18 de junho de 2021, a revista Sustentável publicou um artigo de
Rafael Correia, intitulado “Bactéria é utilizada para limpar solo poluído a
gasóleo na Gronelândia”, a pôr em relevo a presença natural, no solo, em postos
militares extintos, na Gronelândia, de uma bactéria que limpa o solo poluído a
gasóleo, como revelou, em comunicado, a Universidade de Copenhaga, após
investigação de cinco anos, em Mestersvig, na Gronelândia Oriental.
Os
investigadores do Departamento de Plantas e Ciências Ambientais da Universidade
de Copenhaga e do Geological Survey of Denmark and Greenland (GEUS) diziam que
a bactéria limpou, em cinco anos, até 82% das cinco mil toneladas de solo
contaminado. E, como explicou Jan H. Christensen, professor da Universidade de
Copenhaga, as bactérias são eficazes na decomposição da grande maioria dos
compostos do gasóleo, podendo este método ser aplicado em mais lugares do
Ártico. Em alternativa, dispõe-se do recurso, mais oneroso, à “remoção da
contaminação dos solos, através de aeronaves ou navios”.
Este
método natural, conhecido como landfarming, geralmente associado a
climas mais quentes, no Mundo, antes deste projeto, nunca foi testado, em larga
escala, em condições árticas, e “nunca foi tão estudado e documentado como
nesta experiência”.
O
landfarming funciona com a distribuição do solo contaminado numa camada
fina, que é, depois, lavrada, fertilizada e oxigenada, todos os anos, para
otimizar as condições para as bactérias degradarem os compostos poluentes. Com
efeito, diz o colunista da Sustentável, “as bactérias podem, facilmente,
degradar os contaminantes no solo, apesar das temperaturas frígidas”; e, no
futuro, espera-se que estas bactérias possam ser usadas para remediar a
contaminação em cerca de 30 outras instalações desertas, na Gronelândia.
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Porém,
se os EUA querem regressar, além da responsabilidade histórica pela despoluição,
há mais um argumento para lhes assacar o ónus da mesma.
Durante
a II Guerra Mundial e a Guerra Fria, os EUA operaram em, pelo menos, 36 bases e
instalações militares gronelandesas. Hoje, só têm a grande base de Pituffik, mas
decorrem intensas negociações diplomáticas entre os EUA, a Dinamarca e a
Gronelândia, com o governo norte-americano a procurar reabrir várias bases, nomeadamente,
as de Narsarsuaq e de Kangerlussuaq. Ao mesmo tempo, Donald Trump, há muito que
ameaça apoderar-se da maior ilha do Mundo. E, recentemente, o seu enviado
especial para a Gronelândia, Jeff Landry, publicou uma mensagem sobre o
território em que afirmava, que os EUA poderiam ficar mais ricos com um novo
estado, já no próximo ano.
O
Politiken, que se deslocou à Gronelândia, para investigar em que estado
os EUA deixaram as suas muitas antigas bases, apesar de terem sido publicados
artigos sobre o legado norte-americano na Gronelândia, considera-se “o primeiro
órgão de comunicação a cartografar a poluição das bases dos EUA, com base em
vários milhares de páginas de informação obtidas ao abrigo do direito de acesso
a documentos” – estudos ambientais e documentos das autoridades dinamarquesas e
gronelandesas, que não foram tornados públicos.
A
investigação evidnecia a significativa dimensão da poluição: “vários milhares
de toneladas de resíduos perigosos ou contaminados abandonados, na Natureza
gronelandesa; até 100 mil bidões de petróleo enferrujados e corroídos; poluição
por mais de 400 mil litros de gasóleo; até 24 milhões de litros de águas
residuais de baixa radioatividade deixados sob o manto de gelo; várias
toneladas de baterias descartadas”; deteção de PCB [bifenilos policlorados], em
níveis muito acima dos limites legais; e metais pesados, como o chumbo e o
cádmio.
Muitas
das antigas bases e instalações dos EUA nunca foram investigadas a fundo,
quanto à contaminação ambiental. E vários políticos gronelandeses criticam,
duramente, a poluição deixada na Gronelândia. Sustentam que “deixar as coisas
para trás é um sinal de falta de respeito”. Ora, tendo sido permitido aos EUA
irem à Gronelândia, estarem lá e tirarem benefícios dessa posição, “o mínimo
que podem fazer é limpar o que sujam”, dizem.
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Na
II Guerra Mundial e nos primeiros anos da Guerra Fria, a grande ilha tornou-se foco
de interesse para as forças armadas norte-americanas. Primeiro, na guerra
contra a Alemanha nazi e, depois, como entreposto de recursos, campo de ensaios
para a guerra no Ártico e posto avançado virado para a União Soviética
comunista. Desde o início, os termos da presença norte-americana foram
negociados, num complexo jogo de política de defesa em que os EUA nem sempre
diziam toda a verdade à Dinamarca sobre os seus planos, e o governo dinamarquês
agia por cima da cabeça dos gronelandeses.
A
9 de abril de 1941, Henrik Kauffmann, enviado dinamarquês aos EUA, arrogando-se
representante do governo de Copenhaga, celebrou um acordo de defesa que lhes
concedia o direito de instalarem aeroportos e portos como bases militares na
Gronelândia. O governo dinamarquês destituiu Kauffmann, acusando-o de traição,
e declarou o acordo inválido, mas os EUA começaram a instalar bases por toda a
Gronelândia. E, após a II Guerra Mundial, viam-se como o protetor do Mundo
livre, entendiam que isso lhes conferia claros privilégios e quiseram comprar a
Gronelândia, por cerca de 100 milhões de dólares, o que foi recusado por Copenhaga.
Em
1950, os norte-americanos gizaram, nas costas da Dinamarca, uma estratégia para
o Ártico que previa a extração de urânio, na Gronelândia, a instalação de
mísseis telecomandados com o alcance de dois mil a 2500 quilómetros e o
desenvolvimento de meios de transporte sob o gelo.
Em
1951, os governos dinamarquês e norte-americano assinaram um acordo de defesa
para defenderem, conjuntamente, a Gronelândia sob a égide da Organização do Tratado
do Atlântico Norte (NATO), segundo o qual os EUA podiam “adaptar a zona [terra,
mar e ar] para uso militar”, não tendo as bases de “ser devolvidas no estado em
que se encontravam no momento em que foram disponibilizadas”. Esta última
disposição serviu, indevidamente, de pretexto, para os ocupantes não terem de
despoluir.
Apesar
de abandonarem, à pressa, a maior parte das bases, os EUA criaram, em 1959, a
cerca de 225 quilómetros a Leste da base de Pituffik, no Nordeste da
Gronelândia, uma estação de investigação digna de ficção científica, a Camp
Century, dotada de uma pequena central nuclear sob o manto de gelo. A estação
consistia num extenso sistema de túneis, com a “avenida principal” de 330
metros e mais de 20 túneis adjacentes. O reator nuclear fornecia eletricidade e
calor à base e aos 225 ocupantes. Os norte-americanos iniciaram a construção,
sem terem recebido a aprovação de Copenhaga. E, em 1966, retiraram o reator
nuclear, poucos anos antes de deixarem a base, em 1966. Mas, segundo um
relatório de 2016, ficaram sob o gelo até 24 milhões de litros de águas
residuais de baixa radioatividade, nove mil toneladas de resíduos de construção
e 200 mil litros de gasóleo.
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A
poluição por petróleo é, em particular, um enorme problema nas antigas bases
dos EUA. É o que se passa, sobretudo, na ilha de Simiutaq, no Sul da
Gronelândia. No total, estima-se que haja cerca de 10 mil metros cúbicos de
solo contaminado por hidrocarbonetos.
Na
costa ocidental, a pouco menos de 70 quilómetros a Sul de Nuuk, os norte-americanos
deixaram, pelo menos, oito mil bidões de petróleo, na base de Marraq. A
estimativa da quantidade total de gasóleo que contaminou o local “aponta para
cerca de 120 mil litros ou mais”. A contaminação era “tão grave que ainda se
sentia no local um forte cheiro a petróleo”, apesar de ter ocorrido cerca de 50
anos antes.
A
contaminação por petróleo é mais grave na base de Ikkatteq, na costa oriental,
de difícil acesso e onde os norte-americanos deixaram dezenas de milhares de
bidões de petróleo e veículos antigos espalhados por uma área de mais de 25 mil
metros quadrados. Em vários pontos, os bidões foram empilhados em duas ou três
camadas, e dizem os investigadores que “as substâncias detetadas nas amostras
de solo e de água podem representar um risco para a vida marinha junto à costa,
em particular, para os mexilhões do fiorde”.
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Outro
grande problema é a quantidade de amianto deixada pelos norte-americanos,
havendo amianto em edifícios abandonados em quase todas as bases. Na II Guerra
Mundial, os EUA construíram um hospital militar de 250 camas, que se manteve
relativamente intacto, até 1972, ano em que ardeu, tendo ficado, durante anos, reduzido
a um monte de escombros. E, nos anos 1980, os restos do hospital foram
demolidos com bulldozers, mas as placas de amianto ficaram. “Hoje, pequenas
placas de amianto brancas espalham-se pelo vale, como bolachas estaladiças
esmigalhadas”, relatam alguns habitantes.
Em
2019, um grupo de investigadores da Universidade de Aarhus fazia trabalho de
campo em Narsarsuaq. Aí, observaram placas de amianto estilhaçadas espalhadas
pela zona. Recolheram amostras, tendo concluído que o material era amianto. E informaram
o médico-chefe da Gronelândia das conclusões. “O médico-chefe pediu às
autoridades gronelandesas que tomassem medidas para reduzir o risco para a
saúde”, leu o Politiken, na ata duma reunião.
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O
caso do amianto em Narsarsuaq ilustra como a responsabilidade se perde no jogo
do empurra, entre autoridades. O Ministério do Ambiente de Copenhaga diz que a
responsabilidade por Narsarsuaq foi transferida para as autoridades
gronelandesas, mas o Departamento do Ambiente, Energia, Natureza e Investigação
da Gronelândia afirma que o princípio de base é que “quem deixou os resíduos
tem de pagar para que sejam removidos”. Cabe ao município local “tentar
encontrar o proprietário”, já que os municípios são a autoridade principal em
matéria de gestão de resíduos.
Nos
anos 1990, os norte-americanos tinham desviado as atenções da Gronelândia. A
maioria das bases tinha sido abandonada. Só a Base Aérea de Thule, rebatizada
Base Espacial de Pituffik, em abril de 2023, permanecia sob controlo dos EUA.
Políticos gronelandeses manifestaram preocupação com as enormes quantidades de
resíduos. A 13 de março de 1991, o ministro dos Negócios Estrangeiros e o seu
homólogo americano assinaram um acordo em que os EUA se comprometiam a “remover”
ou a “neutralizar” todas as substâncias perigosas conhecidas, mas os norte-americanos
terão renegado essa promessa, 11 anos depois.
O
Politiken perguntou ao Departamento de Defesa dos EUA e ao Ministério do
Ambiente dinamarquês se consideram o acordo de 1991 válido e cumprido, mas não
obteve resposta
Na
década de 2010, políticos gronelandeses intensificaram as críticas ao legado
militar dos EUA, as quais suscitaram o acordo de 2012 entre o governo
dinamarquês e o governo Autónomo da Gronelândia para limpar o que as forças
armadas dinamarquesas deixaram no território, mas sem qualquer menção aos
resíduos militares norte-americanos.
Em
2017, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Gronelândia queixou-se ao
Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), alegando
que a Dinamarca não assumia suficiente responsabilidade da limpeza das
instalações militares dos EUA.
O
relator especial da ONU para os resíduos perigosos concluiu que “a Dinamarca
tem de identificar e remover todos os resíduos militares deixados na
Gronelândia” que o povo gronelandês queira ver removidos, instando os EUA a contribuírem
para esse esforço. Em 2018, o governo dinamarquês afetou 180 milhões de coroas
dinamarquesas, ao longo de seis anos, para limpar bases americanas selecionadas,
mas os EUA não contribuíram. As verbas não estão esgotadas e, até agora, só foi
limpa uma pequena parte das bases.
Agora
que os EUA querem regressar a antigas bases e reforçar a presença militar na
Gronelândia, muitas vozes do território exigem medidas que garantam que os
erros passados não se repetem. O Departamento de Defesa dos EUA não respondeu
às críticas dos políticos gronelandeses, mas, nos últimos seis meses,
representantes das forças armadas dos EUA visitaram Narsarsuaq, para
inspecionarem a pista, o hotel da povoação e o antigo aeroporto, mas não foram à
grande zona com resíduos norte-americanos.
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A
diplomacia é, por vezes, muito escusa. Os EUA fazem política egoísta (não só
com Trump). O colonizador ou protetor não cuida da colónia ou protetorado, a quem,
por mais razão que tenha, pouco se liga. No caso vertente, deve aplicar-se o princípio:
“Quem suja limpa.”
2026.06.29
– Louro de Carvalho