A
liturgia do 25.º domingo do Tempo Comum no Ano A convida-nos a descobrir um
Deus cuja lógica de pensamento e de atitude está acima da lógica humana quanto
o Céu está acima da Terra. Por conseguinte, não podemos esperar que Deus mude
dos seus critérios para os nossos, mas devemos ajustar-nos ao sentir e ao
querer de Deus.
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Na
primeira leitura (Is 55,6-9), o hagiógrafo pede aos crentes que voltem
para Deus. “Voltar para Deus” é um movimento que exige a transformação radical
do homem, de forma que os seus pensamentos e ações reflitam a lógica, as
perspetivas e os valores de Deus.
O
Deuteroisaías, profeta anónimo da escola de Isaías, que profetizou entre os
exilados da Babilónia, procurava consolar e manter acesa a esperança no meio de
um povo amargurado, desiludido e dececionado. Assim, os capítulos que recolhem
a sua mensagem chamam-se “Livro da Consolação”.
O
trecho em referência surge no final do “Livro da Consolação”. O tempo do Exílio
foi de angústia e de sofrimento, mas também de amadurecimento e de graça, com Israel
a tomar consciência das suas falhas e infidelidades e a descobriu que viver
longe de Deus não conduz à vida e à felicidade. Ao mesmo tempo, o tempo Exílio
ajudou Israel a purificar a sua noção de Deus, da Aliança, do culto e do
significado de ser Povo de Deus.
Neste
momento em que se abrem novos horizontes, o profeta convida os concidadãos a
percorrerem o caminho de conversão e de redescoberta de Deus que a experiência
do Exílio lhes revelou. O Povo está prestes a pôr-se a caminho em direção à
Terra Prometida, mas não se trata de mera deslocação geográfica, mas,
sobretudo, de um caminho espiritual de reencontro com o Senhor. Deixar a terra
da escravidão e voltar à terra da liberdade significará, para Israel, uma
redescoberta dos esquemas de Deus e um esforço sério para viver na fidelidade
dinâmica aos mandamentos de Javé.
A
conversão implica também a mudança na forma de ver Deus. O homem tende a
construir um deus à sua imagem, um deus previsível e domesticado que funcione
de acordo com a lógica e com a mentalidade do homem. Porém, Deus não pode ser
reduzido aos esquemas humanos: os seus pensamentos não são os do homem, as suas
reações não são as do homem, os seus caminhos não são os do homem. Converter-se
é, pois, aprender que Deus não é redutível às lógicas e aos esquemas humanos; é
aprender que Deus tem os seus próprios caminhos, diferentes dos nossos; é
prescindir das nossas certezas, preconceitos e autossuficiências; é confiar em
Deus e na bondade dos caminhos através dos quais ele conduz a História da Salvação.
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No
Evangelho (Mt 20,1-16a), o evangelista diz-nos que Deus chama à salvação
todos os homens, sem considerar a antiguidade na fé, os créditos, as qualidades
ou os comportamentos assumidos anteriormente. A Deus interessa apenas a forma
como se acolhe o seu convite. Pede-nos a transformação da nossa mentalidade, de
forma que a nossa relação com Deus não seja marcada pelo interesse, mas pelo
amor e pela gratuitidade.
O
trecho em apreço mostra Jesus na continuidade da instrução aos discípulos, a
fim de que eles compreendam a realidade do Reino e, após a partida de Jesus, a
testemunhem.
O
quadro que a parábola em causa nos apresenta reflete a realidade social e
económica dos tempos de Jesus, tal como replica, em certa medida, o nosso
tempo. A Galileia estava cheia de camponeses que, por causa da pressão fiscal
ou de anos contínuos de más colheitas, tinham perdido as terras que pertenciam
à sua família. Para sobreviverem, os camponeses sem terra ofereciam a sua força
de trabalho. Juntavam-se na praça da cidade e esperavam que os grandes
latifundiários os contratassem para trabalharem nos seus campos ou nas suas
vinhas. Ainda conheci esse mecanismo em terras em que residi nos finais do
século XX.
Cada
patrão tinha os seus clientes”, isto é, homens em quem ele confiava e a quem
contratava regularmente. Esses trabalhadores de confiança recebiam tratamento
de favor, que implicava, nomeadamente, que esses trabalhadores fossem sempre os
primeiros a contratar, a fim de poderem ganhar uma jorna completa (um denário,
que era o pagamento diário habitual de um trabalhador não especializado).
Em
resposta final, o dono da vinha afirma que ninguém tem nada a reclamar, se ele
decide derramar a sua justiça e a sua misericórdia sobre todos, sem exceção. Cumpriu
as suas obrigações para com os que trabalham com ele, desde o início, o que não
o impede de ser bondoso e misericordioso para com os que só chegam no fim. Isso
em nada deveria afetar os outros.
Só
quem tem um coração mau se escandaliza por Deus ser bom para com os outros. Só
quem tem inveja se cinge à mera justiça comutativa, não se preocupando com a
justiça social que impõe que todo o ser humano tenha o suficiente digno para
viver, independentemente da sua capacidade ou da sua oportunidade de realizar
trabalho. Cada um tem o dever do trabalho, mas se não há campo, nem vinha, nem
fábrica, nem serviço disponível, nem saúde suficiente, não pode viver do ar e é
inconveniente, em termos de dignidade humana, que viva da mendicidade.
Provavelmente,
a parábola serviu a Jesus para responder aos adversários, que O acusavam de
estar demasiado próximo dos pecadores (os trabalhadores da última hora).
Através dela, Jesus mostra que o amor do Pai se derrama sobre todos os seus
filhos, sem exceção e por igual. Para Deus, não é decisiva a hora a que se
responde ao seu apelo; o que é decisivo é que se tenha respondido ao seu
convite para trabalhar na vinha do Reino. Para Deus, não há tratamento especial
por antiguidade; para Ele, todos os seus filhos são iguais e merecem o seu
amor.
A
parábola serviu a Jesus, também, para denunciar a conceção que os teólogos de
Israel tinham de Deus e da salvação. Sobretudo, para os fariseus, Deus era o
patrão que pagava conforme as ações do homem. Se o homem cumprisse,
escrupulosamente, a Lei, conquistaria determinados méritos e Deus pagar-lhe-ia
convenientemente. Segundo esta perspetiva, Deus não dá nada; é o homem que
conquista tudo. O deus dos fariseus é uma espécie de comerciante ou de
contabilista, que aponta, diariamente, no seu livro de registos, as dívidas e
os créditos do homem, que, um dia, faz as contas finais, vê o saldo e dá a
recompensa ou aplica o castigo.
Para
Jesus, Deus não é um contabilista, sempre de lápis na mão a fazer as contas dos
homens para lhes pagar conforme os seus merecimentos; é o pai, cheio de
bondade, que ama todos os seus filhos por igual e que derrama sobre todos, sem
exceção, o seu amor.
Não
podemos esquecer que se trata de uma parábola do Reino dos Céus ou do Reino de
Deus. Não é a parábola da vinha, não é a parábola do dono, não é a parábola dos
trabalhadores, não é a parábola do trabalho, não é a parábola da praça. Há uma
nota importante: sair e chamar. Por isso, é a parábola que nos ensina que o
Reino dos Céus é comparável a um dono de uma vinha (primeiro elemento), que
saiu (segundo elemento) à praça (terceiro elemento) a chamar (quarto elemento)
os trabalhadores de que precisava (quinto elemento), para trabalharem (sexto
elemento) na sua vinha (sétimo elemento). Fê-lo de manhã, a meio da manhã, ao
meio-dia, às três da tarde e ao cair da tarde – o chamamento de todas as horas
(oitavo elemento). No fim, chamou-os para a remuneração – Deus tanto chama para
trabalhar, como para recompensar (nono elemento) – e pagou a todos por igual,
como tinha combinado (décimo elemento). Ninguém teve inveja do trabalho, mas
apenas da recompensa dada a outrem.
Deus
é o rei; a vinha é o espaço do reino; a saída e o chamamento são de Deus; a resposta
ao chamamento, a ida para a vinha e o trabalho devem ser nossos; e a recompensa
justa não faltará.
A
parábola foi, depois, exposta por Mateus à sua comunidade (provavelmente, a
comunidade cristã de Antioquia da Síria) para iluminar a situação que a
comunidade vivia com a entrada maciça de pagãos na Igreja. Alguns cristãos de
origem judaica não entendiam que os pagãos, vindos mais tarde, estivessem em pé
de igualdade com os que tinham acolhido o Reino, desde a primeira hora. Contudo,
Mateus esclarece que o Reino é dom oferecido por Deus a todos os seus filhos,
sem qualquer exceção. Judeus ou gregos, escravos ou livres, cristãos da
primeira hora ou da última, todos são filhos amados do Pai. Na comunidade de
Jesus não há graus de antiguidade, de raça, de classe social, de merecimento. O
dom de Deus destina-se a todos, por igual.
Assim,
a parábola insta a percebamos que o nosso Deus é o Deus que oferece,
gratuitamente, a salvação a todos os seus filhos, independentemente da
antiguidade, dos créditos, das qualidades, ou dos comportamentos. Os membros da
comunidade do Reino não devem fazer o bem em vista da recompensa, mas para
encontrarem a felicidade, a vida plena e eterna.
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A
segunda leitura (Fl 1,20c-24.27a) apresenta-nos o exemplo de Paulo, um
cristão que abraçou, de modo exemplar, a lógica de Deus. Renunciou aos
interesses pessoais e aos esquemas de egoísmo e de comodismo, e pôs no centro
da sua existência Cristo, os seus valores, o seu projeto.
Filipos,
cidade situada ao Norte da Grécia, foi a primeira cidade europeia evangelizada
por Paulo. Era cidade próspera, com uma população constituída, maioritariamente,
por veteranos romanos do exército. Organizada à maneira de Roma, estava fora da
jurisdição dos governantes das províncias locais e dependia, diretamente, do
imperador. Gozava, pois, dos mesmos privilégios das cidades de Itália.
A
comunidade cristã, fundada por Paulo, Silas e Timóteo, no verão do ano 49, era
entusiasta, generosa e comprometida, sempre atenta às necessidades de Paulo e
do resto da Igreja.
Quando
escreve aos Filipenses, Paulo está na prisão (em Éfeso?). Dos Filipenses
recebeu dinheiro e o envio de Epafrodito (membro da comunidade), encarregado de
ajudar o apóstolo em tudo o que fosse necessário. Enviando Epafrodito de volta
a Filipos, Paulo confia-lhe uma carta para a comunidade. É uma carta afetuosa,
onde Paulo agradece aos Filipenses a sua preocupação, a sua solicitude e o seu
amor. Nela, Paulo dá notícias, informa a comunidade sobre a sua própria sorte e
exorta os Filipenses à fidelidade ao Evangelho.
O
trecho em causa faz parte de uma perícopa (cf. Fl 1,12-26), em que Paulo
fala aos Filipenses de si próprio, da sua situação, das suas preocupações e
esperanças, cônscio de que corre riscos de vida, mas sereno, alegre e confiante
porque o que lhe interessa é Cristo e o Evangelho.
Quando
escreve a carta, o apóstolo não sabe se sairá da prisão vivo ou morto, mas,
para ele, isso não é importante; o que é importa é que Cristo seja engrandecido
– seja através da vida, seja através da morte do apóstolo.
Para
o apóstolo, Cristo é que é a autêntica vida, a razão de ser e de viver. Na ótica
paulina, a morte seria bem-vinda, não como libertação das dificuldades e das
dores que se experimentam na vida terrena, mas como caminho direto para o
encontro definitivo, imediato, sem intermediários, com Cristo. Paulo não se
importaria de morrer, a curto prazo, porque isso significaria a comunhão total
com Cristo. Especialmente significativa é a conhecida frase (escrita no seu
túmulo, em Roma): “Para mim, viver é Cristo e morrer é lucro.”
No
entanto, Paulo está consciente de que Deus pode ter outros planos e querer que
ele continue – para benefício das comunidades cristãs – algum tempo mais, na Terra,
a testemunhar o Evangelho de Cristo, o que o apóstolo aceita, uma vez que, por
Cristo, está disposto a tudo. Na verdade, não são os interesses de Paulo que
contam, mas os interesses de Cristo.
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É,
pois, bom invocar o Senhor, louvá-Lo, exaltar a sua misericórdia e abrir o
coração para a escuta da sua palavra:
“O
Senhor está perto de quantos O invocam.”
“Quero
bendizer-Vos, dia após dia, / e louvar o vosso nome para sempre. / Grande é o
Senhor e digno de todo o louvor, / insondável é a sua grandeza.
“O
Senhor é clemente e compassivo, / paciente e cheio de bondade. / O Senhor é bom
para com todos / e a sua misericórdia se estende a todas as criaturas.
“O
Senhor é justo em todos os seus caminhos / e perfeito em todas as suas obras. /
O Senhor está perto de quantos O invocam, / de quantos O invocam em verdade.”
“Aleluia.
Aleluia. Abri, Senhor, os nossos corações, para aceitarmos a palavra do vosso
Filho.”
2026.09.20
– Louro de Carvalho