As
verdadeiras festas costumam preparar-se entre o silêncio e o afã.
A
Páscoa é a solenidade (festa-mor) mais relevante do cristianismo. Efetivamente,
é a partir da Ressurreição de Jesus conhecida, em primeiro lugar, pela visão e pela
comunicação das mulheres – em que pontifica Maria Madalena, a mulher independente
e com posses, natural de Magdala, nas costas do Mar da Galileia, que seguiu
Jesus, desde o princípio –, aos apóstolos, sobretudo, a Pedro e a João, a
princípio, incrédulos, que assenta do dinamismo cristão.
Contra
o equivoco do Papa Gregório Magno, Maria Madalena não é a pecadora arrependida,
muito menos a prostituta, nem a irmã de Lázaro e de Marta, moradores em Betânia,
localizada na encosta Sudeste do Monte das Oliveiras, perto de Jerusalém, na
Judeia. Ela é única, tal como se descobriu, em 1969, a “apóstola dos apóstolos”.
Os apóstolos, depois de Pedro e João terem ido ao sepulcro, a confirmar as informações
das mulheres, receberam a visita do Ressuscitado, na tarde do Domingo da Ressurreição,
no cenáculo de Jerusalém, tendo as portas fechadas, pois tinham medo dos judeus.
E Jesus acompanhou os discípulo de Emaús, no regresso conturbado dos mesmos a
casa, tendo-lhes explicado, na qualidade de companheiro de percurso, tudo o que as Escrituras diziam do Messias e tendo-se-lhes
revelado na fração do pão.
Depois
da última ceia judaica de Jesus e dos discípulos ou da primeira ceia cristã, em
que o Messias institui a Eucaristia, sacrifício do seu corpo e do seu sangue
pela vida do Mundo e para alimento deste, e dá o mandamento do amor fraterno,
com a largueza e a profundidade do seu, para marca discipular, tudo é espelhado,
publicamente, no Calvário, fazendo nascer do lado aberto de Cristo a Igreja,
comunidade dos filhos de Deus. No fim do dia, parecendo que tudo acabou, o Rei
dos Judeus é descido da cruz e merece uma sepultura nova, condigna, embora
alheia, e a enorme quantidade de unguentos e de perfumes que José de Arimateia
e Nicodemos disponibilizaram, bem como os unguentos que as mulheres teimaram em
oferecer também.
Depois
de tudo isto, os discípulos ficaram desconsolados, desnorteados e frustrados,
em relação ao projeto messiânico em que tinham acreditado e a que tinham
aderido.
Observaram
o cego silêncio do medo e do desconforto. Tudo o que aprenderam parece ter sido
esquecido ou remetido para a arca da saudade. A entrada triunfal de Jesus na Cidade
Santa foi vista como um logro. E não havia meio de virarem a página, pois esqueceram
a prece de Cristo pela unidade, pela libertação do mal, mas não de retirada do
Mundo, e a promessa do Espírito Santo, o defensor, o consolador e o mestre
espiritual.
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Cerca
de dois mil anos passados, o Sábado Santo é de silêncio recomendado pela Igreja.
Não há qualquer serviço litúrgico, a não ser a recitação da Liturgia das Horas.
Porém,
desta feita, não há medo dos judeus de há dois mil anos. O medo dos judeus de
hoje é a guerra que fazem aos Palestinianos (sobretudo na Faixa de Gaza), aos
Libaneses, aos Iranianos, com um aliado de luxo, Donald Trump, presidente dos Estados
Unidos da América (EUA), guerra que se faz com armas altamente sofisticadas e
com o bloqueio à distribuição dos bens essenciais à vida das pessoas e dos
povos, bem como ao conforto civilizacional.
O
silêncio de Sábado Santo deveria ser para o reencontro da família e dos amigos,
bem como para a preparação do cume pascal, o dia da Ressurreição. É esta que valida
o sacrifício de Cristo na cruz. Sem ela a Páscoa do Senhor não fazia sentido e
nunca seria a nossa Páscoa.
É
a Pascoa do Senhor, feita nossa Páscoa, reforçada com o Espírito Santo, a plenitude
do dom de Deus no Pentecostes, que originou todo o movimento dos cristãos
contra ventos e marés.
Foi
à luz da Ressurreição, guiados pelo Espírito Santo, que os discípulos, constituídos
em apóstolos, reinterpretaram tudo quando Jesus lhes ensinara. E foi neste
contexto que se foram abrindo ao mistério do Natal, a solenidade que celebra o
mistério da encarnação, cujo escopo final é a redenção do homem todo e de todos
os homens, sem qualquer exceção.
Se
o Natal passou a ser a festa da família, que se reúne, no seio do lar, a Páscoa
é a festa da família, que se mostra, que para o trabalho, que confraterniza,
que se expande. O Natal é vida discreta, envolta pelo caráter, por vezes, agreste
da Natureza, ao passo que a Páscoa é a vida pujante, secundada pela verdura dos
campos, pela vasta florescência, por algumas colheitas, pela reprodução animal.
É a Natureza a despontar e a afirmar-se amiga da Terra e do Homem.
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É
certo que, nos tempos atuais, não se faz silêncio para pensar, nem para curar,
nem para rezar. Também não é a palavra ponderada que pontifica, mas o barulho,
o afã, a velocidade, a correria, o atropelo. Excecionalmente, pratica-se o silêncio
da dureza, do protesto, do amuo.
O
Natal, mais do que celebração religiosa, litúrgica e familiar, está eivado de
forte mercantilismo, portador de grandeza individual, de submissão social, de viagem
para junto da família ou para afastamento da mesma. A indústria hoteleira e os
equipamentos de lazer demonstram-no.
De
igual modo, está a Páscoa altamente mercantilizada. Muitos dos números da Semana
Santa, em vez da compunção e do júbilo litúrgicos ou da piedade cristã popular,
reduzem-se a espetáculos ditados por algumas tradições ou a números que mais
parecem teatro do que ação religiosa. Fará algum sentido cristão, por exemplo,
a procissão da burrinha, a queima do Judas ou o rebentar do Aleluia, sem quê,
nem para quê?
Depois,
temos as amêndoas (de açúcar ou de chocolate), os ovos da Páscoa (de chocolate)
– tudo bombas calóricas, acompanhadas de uma imensidade de bolos e quejandos.
E, obviamente, como não podia deixar de ser e o tempo convida, as estâncias de
turismo e a indústria hoteleira e similares têm aqui o seu apogeu mercantil.
Enfim,
Natal e Páscoa constituem um dos fatores mais relevantes do turismo religioso,
das viagens de finalistas e de tantas formas de fuga da família. E, ironicamente,
fala-se do turismo como “indústria da paz”, mesmo em Jerusalém, onde o patriarca
latino foi impedido, pela polícia, de celebrar a Missa do Domingo de Ramos,
porque, face ao sofrimento que grassa na Faixa de Gaza, entende que não pode ser
neutro.
Às
vezes, a neutralidade política é uma forma de hipocrisia e de cobardia.
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Não
obstante, quero e devo aproveitar o ensejo que me proporciona este silêncio
pascal – que não é duro, nem político, nem de amuo, mas de protesto, pelo
excesso de mercantilismo pascal – para desejar uma Feliz Páscoa (e santa, para
todos os crentes, praticantes ou não) a todas as pessoas com quem tive a
oportunidade de conviver, na família, no lazer, no grupo de amigos, nos trabalhos
(e foram muitos e diversificados), na política ativa, na análise da sociedade e
na cosmovisão. E foram e são muitas essas pessoas que se cruzaram comigo na minha
vida multifacetada.
Lamento,
profundamente, já não termos connosco, nesta Páscoa, pessoas de grande referência.
Nesse sentido, refiro a morte do Papa Francisco, único no estilo e na abertura
ao Mundo e às periferias, talvez na linha de São Paulo VI, o meu Papa de referência.
Recordo, com imensa saudade, o padre José Augusto Matias Pereira (de 74 anos,
mas mais novo uns dias do que eu), de Lamelas, da freguesia e concelho de
Castro Daire, altamente apreciado e amado nas paróquias que bem serviu, um homem
conhecedor da sociedade e que sempre depositou grande confiança na minha pessoa.
Porém,
nem só de eclesiásticos vive o Mundo e a Igreja. Por isso, devo uma palavra de reconhecimento
ao arquiteto Manuel Tomás de Carvalho Botelho, uma grande referência na arte e
como professor, de quem tive a honra de ser aluno. Já em tempo, lhe fiz uma
referência merecida, em meu entender.
Um
preito de saudade e de homenagem devo a meu cunhado José Mário da Paixão Pereira,
que faleceu a 20 de agosto do ano passado, com 72 anos, no Hospital Santos
Silva, de doença não muito prolongada, mas grave. Além de familiar e amigo, foi
companheiro nos tempos de adolescência e foi sempre prestável nos melhores e nos
piores momentos das nossas vidas. E era um Homem de fortes convicções e um
amigo do trabalho, bem como dos seus amigos e familiares. Foi uma perda bem
sentida por todos nós, os familiares e os amigos.
Por
fim, mas não menos relevante, a referência, que nunca fiz por escrito, e o preito
de saudade e de homenagem ao meu primo Abraão de Carvalho, cuja morte no Lar da
Associação de Solidariedade Social Alvorada na Serra, em Pendilhe, me surpreendeu,
a 27 de janeiro deste ano, por comunicação da filha Armanda, e a cujo funeral
não pude comparecer.
Tanto
o senhor Abraão (sempre o tratei assim, pois era mais idoso do que eu) como o resto
da família mais próxima prezaram a consideração por mim. Receberam-me, algumas
vezes, na sua casa em Pendilhe, incluindo o tempo que não via quase nada por acidente
ocular; e receberam-me, muitíssimas vezes, na sua casa em Famões, no concelho
de Odivelas. Convidaram-me para o casamento da filha e do filho e para o
batismo de dois netos. O filho Paulo faleceu muito novo, aos 50 anos, se não
estou em erro.
Com
a mesma bonomia como que admirava o meu exercício sacerdotal, aceitou a minha
opção pelo casamento.
Além
de funcionário da Carris de Lisboa, aplicava-se a outros trabalhos, nos tempos
livres, providenciou, no regime de autoconstrução, casa própria e para os
filhos. Foi catequista e ministro extraordinário da comunhão, sobretudo, para a
visita aos doentes, e sempre mostrou grande preocupação pelos problemas profissionais
e sociais.
Por
tudo isto, era merecedor da minha profunda consideração, bem como a sua família
mais próxima, o que talvez nem sempre eu soube manifestar.
***
Enfim,
a Páscoa é de festa e festa grande e de júbilo, mas também é de saudade, que se
cultiva no silêncio, na memória e na lembrança do bem que nos fazem ou fizeram.
Votos
de Feliz Páscoa!
2026.04.04
– Louro de Carvalho