No
rescaldo da agressão da Rússia contra a Ucrânia, a União Europeia (UE) aumentou
as suas importações de produtos energéticos dos Estados Unidos da América (EUA).
Por conseguinte, as importações da UE dos EUA cresceram mais do que as
importações da China e do resto do Mundo, e permaneceram num nível
comparativamente mais alto.
No
entanto, as tensões comerciais entre os EUA e a UE, devido à imposição trumpiana
do regime de tarifas a vários países do Mundo e à UE, levaram a que as
exportações, que foram impulsionadas, no primeiro trimestre de 2025, tivessem sofrido
uma queda acentuada no resto desse ano. Com o acordo comercial no horizonte, no
primeiro trimestre de 2026, as importações e as exportações cresceram
modestamente, em comparação com o quarto trimestre de 2025. Porém, em
comparação com o primeiro trimestre de 2025, as exportações caíram para um
pouco mais de 30% e as importações para 6%. Consequentemente, o superavit
comercial da UE encolheu para 34 mil milhões de um pico de 80 milhões, no
primeiro trimestre de 2025.
***
O
comércio é importante indicador da prosperidade e do lugar da Europa no Mundo. A
UE está integrada aos mercados globais, para os produtos que fornece e para as
exportações. A sua política comercial é um dos pilares das suas relações com o
resto do Mundo.
Uma
vez que os 27 estados-membros da UE partilham um mercado único e uma única
fronteira externa, dispõem de política comercial única. Assim, falam e negociam
coletivamente, tanto na Organização Mundial do Comércio (OMC), onde as regras
do comércio internacional são acordadas e aplicadas, como com parceiros
comerciais individuais. Esta política permite falar a uma só voz, nas
negociações comerciais, maximizando o seu impacto nessas negociações, o que se
afigura ainda mais premente num mundo globalizado em que as economias tendem a agrupar-se
em grupos regionais. Nestes termos, a abertura do regime comercial da UE
significou que a UE é o maior ator no cenário comercial mundial e continua a
ser boa região para fazer negócios. Graças à facilidade de transporte e de comunicações
modernas, agora, é mais fácil produzir, comprar e vender mercadorias, em todo o
Mundo, o que dá às empresas europeias de todos os tamanhos o potencial para
negociar fora da Europa.
Os
valores comerciais são expressos em milhões ou biliões (mil milhões) de euros e
correspondem ao valor estatístico, ou seja, ao montante que seria faturado, em
caso de venda ou de compra na fronteira nacional do país inquirido. É chamado
de valor FOB (livre a bordo) para exportações e um valor CIF (custo, seguro,
frete) para importações.
Os
EUA têm sido o principal destino de exportação da UE e um dos seus principais
parceiros de importação. Esta relação bilateral tem gerado, consistentemente,
um excedente comercial para a UE, embora a sua magnitude flutue de um período
para outro. Em 2025, esse padrão persistiu, mas com variações notáveis. Em
particular, a ameaça de potencial guerra comercial entre os EUA e a UE
desencadeou um aumento acentuado dos fluxos comerciais bilaterais, no primeiro
trimestre de 2025, com as importações e, especialmente, as exportações a
registarem significativo aumento, seguido de um declínio acentuado, no segundo
trimestre de 2025. No terceiro trimestre de 2025, as importações cresceram
ligeiramente, enquanto as exportações registaram modesta uma diminuição, um
declínio que teria sido consideravelmente maior, se uma grande empresa não
tivesse negociado, com sucesso, uma pausa temporária nas tarifas sobre produtos
químicos com os EUA. Este acordo levou a acentuado aumento nas exportações de
produtos químicos, em setembro de 2025, compensando, parcialmente, o amplo declínio
observado nos meses anteriores. Segundo o Eurostat, no quarto trimestre de
2025, tanto as importações (-7%) quanto as exportações (-12%) diminuíram
acentuadamente, mas, no primeiro trimestre de 2026, as importações (+1%) e as
exportações (+3%) aumentaram modestamente.
Em
resultado disso, o superavit comercial da UE em bens com os EUA diminuiu de 80,44
mil milhões, no primeiro trimestre de 2025, para 33,52 mil milhões, no primeiro
trimestre de 2026. Com efeito, enquanto, no primeiro trimestre de 2025, as exportações
totalizaram 171,49 mil milhões de euros e as importações totalizaram 91,05 mil
milhões de euros, no primeiro trimestre de 2026, as exportações totalizaram 119,42
mil milhões de euros e as importações totalizaram 85,90 mil milhões de euros.
E
os dados do Eurostat permitem continuar com a informação, como segue.
A
taxa de crescimento tributário no comércio da UE de mercadorias com os EUA, no
primeiro trimestre de 2026, foi de 0,95%, nas importações, e de 3,18%, nas
exportações.
No
primeiro trimestre de 2026, os excedentes combinados para produtos químicos e produtos
conexos, para máquinas e veículos, para outros bens manufaturados e para alimentos
e bebidas foram maiores do que os défices combinados de energia,
matérias-primas e outros bens. Em comparação com o primeiro trimestre de 2021,
a balança comercial para energia caiu de -3 (três) mil milhões para -18 mil milhões,
enquanto o saldo para máquinas e veículos aumentou de 16 mil milhões de euros para
23 milhões, tendo atingido um pico de 29 mil milhões, no quarto trimestre de
2023.
Também
é de referir que, entre o primeiro trimestre de 2021 e o primeiro trimestre de
2022, o crescimento das importações da UE dos EUA, da China e do resto do Mundo
se desenvolveu em linhas semelhantes. E, no rescaldo da agressão da Rússia
contra a Ucrânia, a UE aumentou as suas importações de produtos energéticos dos
EUA. Daí resultou que as importações da UE dos EUA cresceram mais do que as
importações da China e do resto do Mundo, tendo permanecido num nível
comparativamente mais alto. Assim, no primeiro trimestre de 2021, as importações
da UE dos EUA totalizaram 166,82 mil milhões de euros; da China 135,59 mil milhões;
e do resto do Mundo, 130,28 mil milhões.
Após
a invasão da Ucrânia pela Rússia e a imposição de proibições de petróleo e de gás
russos, os EUA substituíram, parcialmente, a Rússia como fonte dessas
importações. Consequentemente, em 2025, os combustíveis foram o grupo de
produtos mais importados dos EUA, seguido por máquinas e produtos farmacêuticos.
Assim, as importações de combustíveis dos EUA para a UE somaram 76,95 mil milhões
de euros, em 2024, e 70,44 mil milhões, em 2025; as de máquinas somaram 53,44 mil
milhões de euros, em 2024, e 57,15 mil milhões, em 2025; as de produtos
farmacêuticos somaram 37,11 mil milhões de euros, em 2024, e 43,61 mil milhões,
em 2025; as de instrumentos, somaram 28,00 mil milhões de euros, em 2024, e 27,98
mil milhões, em 2025; as de produtos químicos e orgânicos somaram 19,03 mil milhões
de euros, em 2024, e 25,38 mil milhões, em 2025; as de aeronaves somaram 20,07 mil
milhões de euros, em 2024, e 23,32 mil milhões, em 2025; as de máquinas
elétricas somaram 18,11 mil milhões de euros, em 2024, e 18,04 mil milhões, em
2025; e as de veículos, somaram 11,76 mil milhões de euros, em 2024, e 10,52 mil
milhões, em 2025.
Os
três principais grupos de produtos exportados para os EUA, em 2025, foram
produtos farmacêuticos, máquinas e produtos químicos orgânicos. As exportações
de produtos químicos orgânicos aumentaram, fortemente, em 2025 em comparação
com 2024, devido aos exportadores anteciparem o aumento das tarifas e apressarem
as suas exportações, antes que as tarifas entrassem em vigor. Assim, as exportações
de produtos farmacêuticos da UE para os EUA somaram 106,92 mil milhões de euros,
em 2024, e 108,87 mil milhões, em 2025; as exportações de máquinas somaram 91,77
mil milhões de euros, em 2024, e 90,91 mil milhões, em 2025; as de produtos químicos
orgânicos somaram 31,84 mil milhões de euros, em 2024, e 68,11 mil milhões, em
2025; as de veículos somaram 53,35 mil milhões de euros, em 2024, e 42,48, mil
milhões, em 2025; as de produtos máquinas elétricas somaram 39,47 mil milhões
de euros, em 2024, e 40,99 mil milhões, em 2025; as de produtos instrumentos somaram
36,41 mil milhões de euros, em 2024, e 35,56 mil milhões, em 2025; as de produtos
aeronaves somaram 14,83 mil milhões de euros, em 2024, e 12,60 mil milhões, em
2025; e as de plásticos somaram 10,11 mil milhões de euros, em 2024, e 10,01 mil
milhões, em 2025.
A
UE retira a informação da base de dados COMEXT do Eurostat, base de dados de
referência para o comércio internacional de mercadorias, dando acesso a dados
recentes e históricos dos estados-membros da UE, bem como às estatísticas de significativo
número de países terceiros. As estatísticas agregadas e pormenorizadas do
comércio internacional divulgadas pelo sítio Web do Eurostat são
compiladas, mensalmente, a partir de dados COMEXT.
Os
dados são recolhidos pelas competentes autoridades nacionais dos estados-membros
da UE e compilados de acordo com uma metodologia harmonizada estabelecida pelos
regulamentos da UE, antes da transmissão ao Eurostat. No atinente ao comércio
extra-UE, a informação é fornecida, sobretudo, pelos comerciantes com base em
declarações aduaneiras.
***
A
este respeito, Alessio Dell’Anna, em artigo intitulado EUA e União Europeia:
como está a diminuir o comércio?”, publicado pela Euronews, a 9 de junho,
observa que “já se faz sentir o impacto das tarifas de Trump no mercado da UE,
com uma tendência negativa no comércio apenas superada pela registada com o
Irão”.
Efetivamente,
como vimos, as exportações do bloco europeu para os EUA caíram quase um terço,
nos primeiros três meses de 2026, numa altura em que a UE se prepara para
aplicar a sua parte de um acordo comercial com Washington. Nos primeiros três
meses de 2026, a UE perdeu 30,23% do valor, em euros, dos bens trocados com os
EUA, face a igual período de 2025.
Em
agosto de 2025, os EUA empurraram a UE para um acordo comercial, com a fixação de
uma tarifa de 15% sobre vários bens. O inquilino da Casa Branca justificou a
medida alegando um défice superior a 300 mil milhões de euros, nas trocas com a
UE.
É
certo que o desequilíbrio norte-americano em bens, face à UE é real, situado em
cerca de 200 mil milhões de euros. Porém, é compensado pelo valor das
exportações de serviços norte-americanos para a UE, o que reduz o excedente
comercial global da UE para apenas 21 mil milhões de euros, pois as tarifas norte-americanas
atingiram setores europeus fundamentais, como o automóvel, os produtos farmacêuticos,
os semicondutores, o vinho e o queijo.
Enquanto
a UE se prepara para aplicar a sua parte do acordo, os EUA continuam, ainda
assim, a ser o seu maior mercado de exportação, com cerca de 120 mil milhões de
euros, aproximadamente 19% do valor total das exportações de bens do bloco.
Na
verdade, a UE e os EUA mantêm a maior relação bilateral de comércio e de investimento
do Mundo e desfrutam da relação económica mais integrada do planeta. Em bens, em
serviços e em investimentos, são, de longe, os maiores parceiros comerciais um
do outro.
Milhões
de empregos, nos EUA, estão associados ao comércio e ao investimento entre a UE
e os EUA. A UE é uma fonte confiável de suprimentos essenciais para os EUA,
incluindo ingredientes medicinais e produtos farmacêuticos, máquinas e
equipamentos avançados, além de peças e de componentes aeroespaciais. Ao mesmo
tempo, a UE é a maior compradora de gás natural e petróleo dos EUA, um elemento
importante para garantir a segurança energética transatlântica e permitir
resposta conjunta e robusta à agressão militar da Rússia à Ucrânia.
Porém,
a quebra nas trocas com Washington contribuiu para uma descida de 9%, no valor
global das exportações da UE, para o resto do Mundo, em comparação com o
primeiro trimestre de 2025.
As
exportações também recuaram, embora de forma menos acentuada, para outros
principais parceiros, a China (8,17%) e a Turquia (8,37%). A queda mais forte,
porém, foi registada com o Irão, -44,33%, sobretudo, devido às sanções atinentes
ao seu programa nuclear, ao apoio à Rússia e às violações de direitos humanos.
A
diferença das exportações da UE em bens, do primeiro trimestre de 2025 para o segundo
trimestre de 2026, é de -7,53%, para o Japão; de -7,57%, para a China (excluindo
Hong Kong); de -8,17%, para a Argélia; de -8,37%, para a Turquia; de -12,07%,
para a Arábia Saudita; de -16,13%, para os Emirados Árabes Unidos (EAU); de -16,27%,
para a Líbia; de -16,63%, para o Cazaquistão; de -22,13, para a Nigéria; de
-30,23%, para os EUA; e de -44,33%, para o Irão.
Em
registo mais positivo, as exportações para a Indonésia dispararam 22,97%, no
primeiro trimestre de 2026. Este aumento segue-se à conclusão do Acordo de
Parceria Económica Global (CEPA), que visa reduzir ou eliminar tarifas sobre a
maioria das exportações da UE e simplificar os procedimentos aduaneiros,
constituindo um caminho de abertura, de parceria e de prosperidade partilhada, pois
abrirá novos mercados, criará mais oportunidades para as respetivas empresas e ajudará
a fortalecer as cadeias de abastecimento de matérias-primas críticas,
essenciais para a indústria europeia de tecnologias limpas e para a siderurgia.
O
aumento das exportações da UE em bens, do primeiro trimestre de 2025 para o segundo
trimestre de 2026, é de 22,97%, para a Indonésia; de 8,93%, para o Egito; de
8,43%, para a Austrália; de 7,17%, para a África do Sul; de 6,83%, para o
Canadá; de 5,7%, para a Ucrânia; de 5,67%, para a Tunísia; de 5,47%, para a
Tailândia; de 4,73, para Hong Kong; de 3,37%, para Singapura; e de 3,17%, para
a Noruega.
As
exportações também cresceram, mas de forma menos expressiva, para a Índia
(1,8%) e para o Reino Unido (2,3%). Depois dos EUA, o segundo maior mercado consistente
de exportação da UE é o Reino Unido (14%), seguido da Suíça (9%), da China (7%)
e da Turquia (4%).
Porém,
a saga da guerra comercial entre a UE e Washington pode não ter chegado ao fim.
Com efeito, em maio, Donald Trump ameaçou impor novas tarifas de 10%, ou mais,
sobre importações provenientes da UE e de outros parceiros comerciais, acusando
a UE de não combater o comércio de bens produzidos com recurso a trabalho
forçado, prejudicando os interesses comerciais dos EUA. E a UE rejeitou a
acusação, classificando-a como “injustificada”.
Trump
queixou-se também de que Bruxelas não tinha aplicado os compromissos assumidos no
acordo comercial alcançado em julho de 2025. Por isso, deu à UE até 4 de julho
para aprovar a sua parte do acordo, e o bloco prepara-se para aprovar o acordo,
com uma votação marcada para 16 de junho. Segundo a Casa Branca, a UE deverá
eliminar as tarifas sobre bens industriais dos EUA e dar acesso preferencial ao
mercado para vários produtos do mar e agrícolas, “incluindo frutos de casca
rija, lacticínios, frutas e legumes frescos e transformados, produtos
alimentares transformados, sementes para plantação, óleo de soja e carne de
porco e de bisonte”.
***
Por
fim, é de atentar na declaração de Enrico Letta ao programa “Europe Today” da Euronews:
“A Europa tem de continuar a acelerar o seu roteiro para integrar, plenamente,
o mercado único e criar uma estratégia industrial europeia, sob pena de se
tornar subalterna face às grandes potências mundiais, afirmou o antigo
primeiro-ministro italiano, frisando que não queremos ser uma colónia dos EUA,
nem da China, mas “queremos ser europeus”.
A
Europa não pode estar, nem dar a impressão de estar desorientada ou cansada.
2026.06.09
– Louro de Carvalho