segunda-feira, 7 de setembro de 2026

ONU adverte que a IA representa risco existencial para a Humanidade

 

Volker Türk, o alto comissário da Organização das Nações Unidas (ONU) para os Direitos Humanos, alerta que a inteligência artificial (IA) avançada pode representar um “risco existencial para a Humanidade” e apelou à ação imediata para tornar esta tecnologia mais segura, designadamente, pela criação urgente de salvaguardas globais, de mecanismos independentes de controlo e de limites consensuais.

Num discurso, a 7 de setembro, no Conselho de Direitos Humanos da ONU, Volker Türk afirmou que as pessoas enfrentam ameaças “desconhecidas, até sem precedentes”, aos seus direitos. “A necessidade de uma governação da IA é amplamente reconhecida, mas onde está a ação?” questionou, avisando que “o atraso só beneficia as grandes empresas tecnológicas, os seus proprietários e facilitadores”.

Na verdade, como afirmou Volker Türk, “um punhado de homens tem um poder quase ilimitado sobre a IA, que nos dizem, repetidamente, ter uma capacidade de computação inimaginável”. “Falam de liberdade, mas, olhando melhor, isso revela-se pouco mais do que a liberdade para explorar os nossos dados”, vincou, apontando para sistemas de IA que escapam aos ambientes de teste ou chantageiam programadores, para evitarem ser desligados.

De acordo com a AFP, Türk avisou que “uma IA que escapa ao seu ambiente de teste ou chantageia programadores, para impedir que a desliguem é uma IA demasiado poderosa”. Tais declarações referem-se, em parte, às revelações, em julho, de que agentes da OpenAI escaparam a ambientes supostamente controlados e acederam a servidores da Hugging Face, uma plataforma amplamente utilizada onde programadores partilham software de IA.

O comissário da ONU referiu que agentes da OpenAI executaram um código em dezenas de servidores da Hugging Face e obtido acesso total a um deles, e que o incidente reavivou apelos a supervisão mais apertada dos sistemas de IA avançada. A Anthropic, a Meta e outras empresas tecnológicas relataram incidentes similares, envolvendo agentes, em fases de teste. “Partilho as preocupações de membros da indústria de que a IA avançada possa representar um risco existencial para a Humanidade. […] Apelo aqui, hoje, a um esforço total para estabelecer garantias sólidas, em torno da segurança e da proteção da IA, antes que seja demasiado tarde”, afirmou Türk, prometendo escrever, em breve, às empresas de IA, a exortá-las a tomarem medidas imediatas para reduzir os riscos que estão sob o seu controlo.

“No mínimo, precisamos que os países que acolhem a IA e os que integram as respetivas cadeias de fornecimento se juntem em torno de linhas vermelhas acordadas. […] Precisamos de verificação independente e de colaboração mais forte em matéria de segurança, na própria indústria. […] É também necessário ponderar o impacto da IA nos direitos humanos, nas práticas laborais, nos princípios fundamentais da democracia e no nosso ambiente”, frisou.

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A 21 de julho, a criadora do ChatGPT, a OpenAI, afirmou que o seu sistema de IA invadiu, autonomamente, outra empresa de IA, num episódio que descreveu como “incidente cibernético sem precedentes”. E a startup de IA Hugging Face disse, na semana anterior, que detetara uma intrusão nos seus sistemas de processamento de dados, que suspeitava ter sido causada por um agente de IA a atuar de forma autónoma. “Suspeitávamos que o ciberataque da semana passada pudesse ter vindo de um laboratório de ponta, dada a sofisticação do agente. […] Afinal veio mesmo!”, afirmou, em comunicado, Clément Delangue, cofundador e presidente-executivo da Hugging Face.

O ataque era tão avançado e bem executado que a Hugging Face suspeitou, desde o início, que tinha origem nos sistemas de uma das grandes empresas de IA, e não num pirata informático.

Num teste interno, a OpenAI procurava medir até que ponto os seus modelos de IA conseguiam invadir sistemas, num exercício conhecido como ExploitGym. Para avaliar a capacidade máxima de intrusão dos modelos, a empresa desligou, propositadamente, os filtros de segurança que, normalmente, impedem atividades cibernéticas perigosas. O teste deveria decorrer num sandbox, ambiente isolado sem acesso real à Internet, exceto por uma ferramenta que permitia aos modelos descarregar software de que precisassem para cumprir a tarefa.

Contudo, os modelos ficaram obcecados em resolver o teste. Em vez de o fazerem pela via prevista, procuraram um atalho e encontraram uma forma de chegar ao espaço aberto da Internet, a que não deveriam aceder. Para lá chegarem, seguiram uma cadeia de passos, ampliando, silenciosamente, os seus níveis de acesso dentro dos próprios sistemas da OpenAI, até encontrarem um ponto com ligação à Internet. Já online, os modelos concluíram que a Hugging Face, uma grande plataforma que aloja modelos de IA e conjuntos de dados, provavelmente, tinha as respostas do próprio teste que estavam a tentar resolver. Invadiram, assim, os servidores da Hugging Face, para obter essas respostas. Basicamente, fizeram batota, recorrendo a credenciais de acesso roubadas e a outras vulnerabilidades.

Esta revelação surgiu num tempo de crescente preocupação com as capacidades de cibersegurança dos modelos mais potentes, que levaram, em junho, o presidente dos Estados Unidos da América (EUA), Donald Trump, a assinar uma ordem executiva que cria um quadro para o governo federal avaliar, durante até um mês antes da sua divulgação pública, os riscos para a segurança nacional dos sistemas de IA mais avançados.

Segundo a OpenAI, a intrusão foi provocada pela combinação dos seus modelos de IA, incluindo o recém-lançado GPT-5.6 Sol e um modelo “ainda mais capaz” que continua em testes internos; a IA utilizou credenciais roubadas e descobriu uma vulnerabilidade, até então desconhecida, para aceder aos servidores da Hugging Face; e o sistema, que foi “ao limite, para alcançar um objetivo de teste bastante restrito”, “encontrou formas de obter acesso a informação confidencial que podia usar para manipular a avaliação”.

Por conseguinte, a empresa que desenvolve o ChatGPT deliberou, em meados de agosto, abrandar o ritmo da sua investigação mais avançada, incluindo o maior treino de aprendizagem por reforço que previra realizar, semanas depois de um sistema construído com os seus próprios modelos ter escapado a um teste interno de segurança e ter invadido a plataforma de IA Hugging Face. A este respeito, o diretor executivo, Sam Altman, prometeu que a OpenAI se coordenará com o resto do setor em regras de segurança comuns, mas que, “até lá”, agirá de forma unilateral.

Um novo sistema de deteção escrutina, em tempo real, a atividade dos modelos e procura sinalizar, em 30 minutos, qualquer comportamento que se assemelhe a acessos não autorizados ou a tentativas de desativar salvaguardas, a um custo computacional que a OpenAI estima em cerca de 20% da capacidade de processamento monitorizada. A empresa diz que estas mudanças já estavam previstas e não resultam do incidente, embora o episódio tenha acelerado o processo.

A OpenAI e a Anthropic apoiaram, em separado, uma petição promovida por trabalhadores que apela aos governos para ajudarem a coordenar a velocidade a que o setor avança, marcando uma mudança, em relação à resistência anterior de Altman a pedidos públicos para abrandar o desenvolvimento da IA.

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Centros de dados enfrentam crescente revolta nos EUA, devido à quantidade de água e de eletricidade que consomem. As gigantes tecnológicas que investem milhares de milhões de dólares nestas instalações dizem que, pelo menos, no atinente à água, o problema é resolúvel.

Os centros de dados são armazéns repletos de servidores informáticos que alimentam a Internet e, cada vez mais, a IA. Esses computadores geram calor e a sua refrigeração exige grandes quantidades de água. Segundo a consultora Rystad Energy, em 2025, centros de dados em todo o Mundo consumiram 222 mil milhões de litros (59 mil milhões de galões) de água para arrefecimento. E, sem medidas para reduzir o consumo, tal valor poderá quase triplicar para 644 mil milhões de litros, até 2030. Porém, a consultora sustenta que medidas para limitar o uso da água podem manter o aumento abaixo dos 100%.

A Nvidia, fabricante norte-americana de chips, afirmou, num relatório publicado em junho, que o seu mais recente sistema de conceção e gestão de centros de dados de IA, conhecido como DSX, pode, praticamente, eliminar o consumo de água em algumas instalações. É uma afirmação ambiciosa e o setor enfrenta uma pressão crescente para a concretizar.

O sistema da Nvidia recorre a arrefecimento em circuito fechado, com líquido a circular, diretamente, pelos servidores e o mais perto possível dos chips, que podem atingir temperaturas superiores a 80º C (graus Celsius) e 176º F (Fahrenheit). Todavia, reduzir o consumo de água pode implicar custos adicionais. “Há relação bastante direta entre a quantidade de água utilizada e a quantidade de energia necessária” para controlar as temperaturas, afirmou Andy Masley, investigador independente especializado em IA e centros de dados, sustentando que usar menos água exige mais eletricidade, porque o líquido que circula em tubagens estanques tem de ser arrefecido, muitas vezes, através de fluxos de ar.

A Nvidia contorna parte do problema, ao deixar que o líquido entre nos servidores mais quente do que é habitual, a 45º C. A maioria dos outros sistemas em circuito fechado funcionava em torno dos 32º C, em 2024, segundo o Uptime Institute, que certifica centros de dados.

Partindo de água mais quente, a Nvidia não precisa de injetar ar frio, ao longo do ano. “Simples ventoinhas a fazer circular o ar” são, muitas vezes, suficientes, embora, por vezes, seja necessário combinar métodos, afirmou Josh Parker, responsável pela sustentabilidade na Nvidia, referindo que, em locais com climas extremamente quentes ou durante ondas de calor, ar refrigerado ou sistemas de arrefecimento por evaporação podem continuar a ser necessários.

A Microsoft, a Amazon Web Services (AWS) e a Meta disseram à AFP que utilizam sistemas de arrefecimento em circuito fechado, que não provocam qualquer perda líquida de água.

A Microsoft e a WS, duas das maiores empresas de computação na nuvem do Mundo, consumiram mais água no total, entre 2022 e 2025, à medida que expandiram as operações dos seus centros de dados. No entanto, a eficiência do uso da água melhorou 25%, na Microsoft, e 37%, na AWS, de acordo com os seus relatórios de sustentabilidade mais recentes.

As comparações são difíceis por não haver um padrão transversal ao setor que regulamente a forma como as empresas comunicam os seus esforços ambientais, sociais e de governação. A SpaceX, de Elon Musk, que se tornou importante operador de centros de dados, depois de adquirir a sua empresa de IA xAI, nunca publicou um relatório ESG (environmental, social and governance: ambiental, social e de governação). Em junho, a agência de notação MSCI atribuiu à SpaceX (empresa norte-americana de voos espaciais, telecomunicações e IA) a sua classificação ESG mais baixa.

“Como a água é, em geral, muito mais barata do que a eletricidade, as empresas têm menos incentivos para reduzir o uso de água apenas com base nos custos”, afirmou Shaolei Ren, professor de engenharia na Universidade da Califórnia, Riverside, reconhecendo que “há incentivos”, mas que são, sobretudo, motivados por preocupações de imagem pública, numa altura em que a oposição aos centros de dados cresce em todo o país.

Outro problema é o custo de modernizar centros de dados mais antigos com tecnologia mais recente, que consome menos água. Porém, as instalações mais antigas são, geralmente, mais pequenas e menos potentes do que os enormes centros de dados, atualmente, em construção, o que significa que precisam de menos arrefecimento, à partida.

A água utilizada, diretamente, pelos centros de dados é apenas uma parte da sua pegada global. É também necessária água para produzir a eletricidade que os alimenta e para fabricar os respetivos chips e servidores. E, nos EUA, este uso indireto de água pode ser duas vezes superior ao volume consumido pelos próprios centros de dados.

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Há três anos, a utilização de IA na agricultura cingia‑se ao cálculo de inventário e era oferecida como produto especializado por empresas com stands bem atrás dos fabricantes de tratores, mas, hoje, a IA está a transformar a forma de produção de alimentos e de rações.

No atinente à monitorização das culturas, drones e imagens de satélite alimentam modelos de visão computacional que detetam infeções fúngicas ou pragas, antes do olho humano, e sugerem a aplicação de produtos de proteção das culturas, ou pesticidas, de forma mais eficaz. E, se os agricultores utilizarem sensores de solo, o conjunto de dados fica mais completo.

Na previsão da produção, o recurso a sensores permite aos agricultores terem o inventário do que já colheram e o do que estão prestes a colher. A Syngenta desenvolveu uma GenAI que atinge 95% de precisão, na previsão de rendimentos e que faz recomendações sobre a colocação das sementes. A previsão é importante, porque os agricultores precisam de preparar, antecipadamente, a logística das culturas. Quanto mais informação rigorosa fornecerem a retalhistas e a empresas de transporte, menos dinheiro perdem.

No âmbito da robótica na agricultura, a robótica expande‑se num contexto marcado pela IA. Não se trata só de veículos autónomos a conduzir‑nos pelas cidades, mas também de tratores e de outros equipamentos de campo, que podem ser automatizados com IA.

Na rega de precisão, que dependia, até agora, sobretudo, da experiência do agricultor, estão a ser usados sistemas de fusão de sensores que combinam humidade do solo, temperatura da copa das plantas e previsões meteorológicas, para reduzir o consumo de água, em cerca de 30%, mas aumentando a produtividade em algumas aplicações (num caso documentado em plantações de cana‑de‑açúcar, na Índia, a redução de 30% na água foi acompanhada do aumento de 40% no rendimento). E sistemas de pulverização de taxa variável aplicam pesticidas, apenas onde são necessários, reduzindo os volumes de químicos e criando registos de auditoria que facilitam o cumprimento das normas.

E, na pecuária, soluções de IA recorrem à visão computacional e a sensores vestíveis (acelerómetros, monitores biométricos) para detetar sinais de doença, vários dias antes de surgirem sintomas visíveis, o que reduz o uso de antibióticos e melhora os indicadores de bem‑estar animal, cada vez mais relevantes, face ao aumento da pressão regulatória e dos retalhistas sobre o uso de antibióticos na carne e nos lacticínios.

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Como se vê, a IA tem mau e bom. Precisa de ser regulamentada, bem aplicada e arredada de utilização danosa. Assim, na União Europeia (UE), a lei da IA estipula o seu enquadramento jurídico, segundo o qual os sistemas de alto risco têm de cumprir requisitos rigorosos, antes de entrarem no mercado da UE, sendo proibidas utilizações consideradas ameaça inaceitável para a segurança ou para os direitos das pessoas, nomeadamente, pelas vias de manipulação, da exploração ou pela silenciosa ou expressa indução de crime.

2026.09.07 – Louro de Carvalho


Não será colonialismo geográfico, mas erro lesivo deve ser corrigido

 

A 80.ª Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU) aprovou, a 4 de setembro, uma resolução que promove, embora sem caráter vinculativo, o abandono da projeção de Mercator do globo terrestre, em favor de uma representação cartográfica mais fiel à dimensão real dos continentes, em particular de África, até agora encolhida, o que deverá ter impacto nas aplicações educacionais e tecnológicas. Com efeito, a África é 14 vezes maior do que a Gronelândia, que é oito vezes menor do que a América do Sul, mas, na projeção do Mercator – até agora adotada, parecem semelhantes. Uma alternativa promocional é a projeção Equal Earth (Terra Igual), desenvolvida, em 2018, por uma equipa internacional de cartógrafos.

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A projeção de Mercator é uma projeção cilíndrica do globo terrestre, em que os meridianos são planificados na forma de linhas retas paralelas verticais horizontalmente equidistantes, enquanto os paralelos são planificados na forma de linhas retas paralelas horizontais, de modo que a distância vertical entre dois paralelos sucessivos é tanto menor quanto mais próximos os paralelos estiverem da linha do equador. Foi apresentada, pela primeira vez, em 1569, por Gerhard Kramer (em Latim: Gerardus Mercator) cosmógrafo e cartógrafo flamengo, através de um grande planisfério de 250 centímetros (cm) por (x) 128 centímetros (cm) e constituído por 18 folhas xilografadas separadamente.

A geometria adotada por Mercator leva a que a superfície da Terra seja deformada na direção norte-sul, tanto mais quanto maior for a latitude. Assim, nessa projeção, a distância entre os meridianos adjacentes é a mesma, em toda a longitude, mas a distância entre os paralelos aumenta com a latitude e torna-se muito grande nos polos, o que impede a representação dos paralelos nos polos e nas suas proximidades. Por se tratar de uma projeção conforme, a escala não varia com a direção e os ângulos são conservados em todos os pontos. Todavia, como em qualquer projeção cartográfica, a escala varia de lugar para lugar, distorcendo a forma dos objetos geográficos representados, de modo que as áreas são fortemente afetadas, transmitindo uma imagem irreal da geometria do planeta, como vimos.

Por outro lado, as curvas loxodrómicas (curva loxodrómica ou loxodromia é uma linha na superfície da Terra que cruza todos os meridianos com um ângulo constante) são planificadas na forma de linhas retas (linhas de rumo constante) e os ângulos que elas formam com os meridianos são preservados, o que faz com que esta projeção seja particularmente adequada ao apoio da navegação marítima, permitindo que rumos e azimutes sejam medidos diretamente na carta náutica, com o auxílio de transferidor e da rosa dos ventos nela impressa. Outros instrumentos úteis numa carta que utilize esse tipo de projeção são o compasso (muito útil para transferir distâncias), a régua graduada (útil para medir distâncias) e um par de esquadros (útil para transferir direções).

A Equal Earth (projeção da Terra igual) é uma projeção equivalente pseudocilíndrica para mapas-múndi, criada por Bojan Šavrič, Bernhard Jenny e Tom Patterson, em 2018. É inspirada na amplamente utilizada projeção de Robinson (projeção de um mapa-múndi – feita, em 1963, pelo geógrafo americano Arthur H. Robinson – que mostra o Mundo inteiro, de uma só vez, para encontrar um bom meio-termo para o problema de mostrar, prontamente, o globo inteiro como uma imagem plana). Contudo, a Terra Igual preserva o tamanho relativo das áreas. As equações da projeção são simples de implementar e rápidas de calcular.

As características da projeção da Terra igual incluem: os lados curvos da projeção sugerem a forma esférica da Terra; os paralelos retos facilitam a comparação da distância ao norte ou ao sul do equador; os meridianos são igualmente espaçados ao longo de qualquer linha de latitude; e o software para a projeção é fácil de escrever e executa-se de modo eficiente.

Um dos efeitos da projeção da Terra igual é a melhoria da representação de muitos países em desenvolvimento do Hemisfério Sul, particularmente, na África, devido aos tamanhos relativos dos países na projeção de Mercator, afetando fatores económicos, sociais e políticos. Por exemplo, na projeção de Mercator, a Gronelândia parece maior que toda a África, mas possui apenas 7% da área terrestre total da África. As inconsistências na representação das áreas podem levar a uma representação inadequada do impacto da disseminação de doenças transmissíveis.

Há outras projeções, como a projeção equiretangular e a projeção de Robinson, que representam melhor o tamanho desses países, mas apresentam outras limitações, ao passo que a projeção da Terra Igual oferece uma representação visualmente mais precisa da área real de cada país, em comparação com as outras projeções.

Recorde-se que a projeção equiretangular ou projeção cilíndrica equidistante é uma projeção cartográfica cilíndrica muito simples, cuja invenção se atribui a Marinus de Tiro, a quem Cláudio Ptolomeu credita a invenção no ano 100. Devido à distorção que produz, não pode ser utilizada em mapas de navegação, nem em mapas cadastrais, mas é, habitualmente, usada em mapas temáticos, tendo-se convertido num padrão para aplicações informáticas, devido à sua correspondência entre pixéis e a posição geográfica.

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Por força da dita resolução da AGNA, sobretudo, se for acolhida pelo Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), que lhe pode dar força vinculativa, a projeção de Mercator do globo terrestre, uma imagem que temos da Terra, há 450 anos, estará em vias de extinção, enquanto aplicação generalizada, pois, como vimos, será difícil bani-la de algumas áreas de atividade, aliás como, por exemplo, a projeção equiretangular.

O Togo foi o maior promotor da resolução #CorrectTheMap (“Corrigir o Mapa”) e recebeu o apoio dos membros da União Africana (UA). Na AGNU, recebeu 164 votos específicos. Alguns países abstiveram-se: a Estónia, a Sérvia, a Geórgia, a Moldávia, a Lituânia e a Ucrânia. Os Estados Unidos da América (EUA) foram o único país a votar contra.

A ONU fundamenta a resolução em vários pressupostos, de que se destacam: os direitos humanos, a soberania dos Estados, o respeito pelas pessoas e povos, a equidade na produção e na distribuição dos recursos, o cuidado do planeta, a verdade no conhecimento geográfico e a sua utilidade nas diversas atividades atinentes à economia e ao bem-estar de todos.

No entanto, a aprovação da resolução não obriga os Estados ou as instituições a abandonar a versão do Mercator. Mas apela à promoção do mapa que mostra áreas mais semelhantes à realidade, sobretudo, nas escolas. E a importância de uma representação fiel da dimensão das nações vai para lá do âmbito educativo.

O exemplo mais evidente da distorção apontada é a comparação de África com a Gronelândia. No mapa-múndi até agora vigente, o continente africano e o território dinamarquês parecem ter dimensões semelhantes. Na realidade, África é cerca de 14 vezes maior do que o território autónomo dinamarquês, exemplifica o jornal The Guardian. E a campanha #CorrectTheMap usa, algumas vezes, uma comparação visual: na África caberiam os EUA, a China, a Índia, o Japão, o México, grande parte da Europa e ainda sobraria território.

Esta projeção Mercator foi criada para facilitar a navegação marítima, como lembra o site do Politico. Hoje, sabe-se que é impossível representar, sem distorções, a superfície curva da Terra num plano bidimensional e, por isso, qualquer mapa-múndi implica alguns compromissos. O problema particular da projeção de Mercator é que as massas terrestres parecem progressivamente quanto maiores mais se afastam da linha do equador. As regiões equatoriais ficam reduzidas face às zonas de latitudes mais elevadas. E a projeção Terra Igual responde a este problema. É uma projeção de área equivalente e, por isso, o objetivo primordial é preservar as proporções relativas às superfícies terrestres, o tamanho de cada país comparado com outros.

Na verdade, a UA já mudou o mapa em fevereiro. Os 55 estados-membros adotaram a versão Terra Igual, depois da campanha ter sido lançada em agosto de 2025, e o Togo ficou responsável por liderar os esforços para levar a questão à ONU em representação da UA.

“Um Mundo justo começa com um mapa justo. Um mapa nunca é neutro”, disse Robert Dussey, ministro dos Negócios Estrangeiros do Togo, citado pela BBC. O Togo defendeu, aquando da votação, que as representações cartográficas desproporcionadas, sobretudo a de Mercator, tiveram efeitos cognitivos, culturais, geopolíticos e socioeconómicos, impelindo a África no imaginário coletivo mundial. “Não se trata de uma discussão ‘política’, mas ‘científica’, porque há evidência científica que nos permite aceitar esta realidade”, enfatizou Dussey.

A resolução da ONU acolheu esta ideia, ao referir-se à intenção de fazer “justiça cognitiva” e “reparação memorial”. E a campanha #CorrectTheMap sublinha a questão de “poder e perceção”, ideia reforçada por Kioko Muendo, um geógrafo do Quénia, em declarações à BBC. O mapa contribuiu, implicitamente, para diminuir a perceção de recursos, de população e de oportunidades, em África, moldando a forma como as regiões são percebidas política e economicamente. Há até ativistas que falam em “colonialismo cartográfico”.

Os EUA rejeitaram o enquadramento da resolução e classificaram a iniciativa como um projeto ideológico “muito maior e mais radical”, cita o Politico. Yaryna Ferencevych, representante norte-americana na ONU, acusou a resolução de ridicularizar o trabalho e o propósito da Assembleia Geral da ONU, desviando a organização de problemas reais relacionados com a paz e com as riquezas. Ao invés, a França apoiou a resolução e o Ministério dos Negócios Estrangeiros francês declarou que os seus serviços oficiais deixarão de usar a projeção de Mercator e adotarão a projeção de Eckert IV, alternativa mais próxima da Equal Earth, posição que o The Guardian enquadra como esforço de Paris para melhorar as relações com as suas antigas colónias.

Apesar de a decisão não ser vinculativa, a UA pretende trabalhar nesse sentido. E o governo do Togo planeia realizar, no primeiro trimestre do próximo ano, um encontro dedicado à implementação do novo mapa, com a participação da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) e de várias empresas.

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Uma África encolhida, uma Gronelândia e um Norte da Rússia que parecem estender-se até ao infinito constituem um cenário que vai acabar nos mapas da diplomacia francesa.

O ministro dos Negócios Estrangeiros, Jean-Noël Barrot, anunciou, a 4 de setembro, o abandono, pelos seus serviços, da projeção de Mercator. A França passará a usar, em seu lugar, a projeção Eckert IV, que restitui de forma mais fiel as proporções reais dos continentes. Assim, a França surgirá mais pequena no mapa, em comparação com os países próximos do equador, tal como os EUA ou a Rússia.

No seu discurso na Sorbonne, no evento para o grande público “La Fabrique de la diplomatie”, o governante disse que “chegou o momento” de “corrigir” as perceções do Mundo transmitidas por uma cartografia herdada dos navegadores ocidentais do século XVI. “Um mapa nunca é totalmente neutro. Vejam a projeção de Mercator, aquela que cada um de nós conhece desde a infância. As áreas que aí vemos não correspondem às áreas reais: [...] Os Estados Unidos [da América], a Rússia e a China ganham uma importância visual desproporcionada face a África, à América Latina ou ao Sudeste Asiático”, declarou.

Jean-Noël Barrot deu também o exemplo da Gronelândia, que tem, aproximadamente, a mesma dimensão que a República Democrática do Congo ou a Argélia, quando, na realidade, “parece quase tão vasta” como todo o continente africano. “Mudar de mapa não muda, evidentemente, o Mundo. Mas corrigir uma representação que o distorce constitui já um ato de verdade”, sublinhou.

Os mapas do Quai d’Orsay não vão mudar de um dia para o outro: o processo já está em curso. O ministério começou, já em 2021, a reduzir a utilização da projeção de Mercator, “com o objetivo de proporcionar uma representação geográfica mais precisa do Mundo”.

Estas cartas foram “progressivamente retiradas” de todos os sites públicos da diplomacia francesa. “As vantagens e os enviesamentos associados a cada modo de representação são abordados em apresentações realizadas durante os diversos eventos em que participam cartógrafos do ministério, acrescenta o Quai d’Orsay, referindo-se às Jornadas Europeias do Património e ao Festival Internacional de Geografia de Saint-Dié-des-Vosges.

A França continuará este trabalho que consiste em dar prioridade, nas suas práticas diplomáticas, a projeções cartográficas adaptadas às diferentes finalidades e mais fiéis às realidades geográficas. Porém, os diplomatas franceses reconhecem que a projeção de Mercator continua a ser pertinente, “num número limitado de casos”, para utilizações regionais ou para locais na zona equatorial, bem como para mapas de navegação.

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A ONU diz que a resolução não proíbe a projeção de Mercator, “nem impõe um mapa único”, mas encoraja os governos, os estabelecimentos de ensino, as organizações internacionais e as empresas tecnológicas a recorrerem à projeção Terra Igual ou a outros mapas “equivalentes”, que preservam as proporções reais das áreas. A França associou-se a esta orientação, mas adotou a projeção Eckert IV, criada em 1906 (o comprimento das linhas polares é metade do equador, e as linhas de longitude são semielipses ou partes de elipses). É próxima da Terra Igual, recomendada pela ONU, embora não idêntica. Ambas representam, de forma mais fiel, a dimensão dos continentes do que a projeção de Mercator, mas diferem, ligeiramente, na forma que atribuem aos continentes.

Como lembra a ONU, a cartografia de Mercator não desaparecerá. Plataformas digitais, como o Google Maps, também têm, hoje, uma versão desta projeção. E, nas escolas francesas, a maioria dos planisférios continua a usar Mercator. “Encontram-se Eckert ou Peters nalguns manuais, mas é muito raro”, diz Grégory, professor agregado de História-Geografia em Rennes.

A ideia não é eliminar, totalmente, a projeção de Mercator, mas introduzir uma representação do globo terrestre, onde a África e a América Latina ficam com dimensões proporcionais, face aos outros continentes. De facto, o mapa-múndi atual aumenta a distorção, à medida que uma região se afasta do Equador. E, como a África e a América Latina são cortadas pelo Equador, tendem a parecer menores do que o tamanho real, comparativamente com a Europa, América do Norte, Gronelândia e Rússia, sobredimensionadas na projeção de Mercator.

No último ano, a campanha #CorrectTheMap tem ganho cada vez mais assinaturas, porque o continente africano tem sido central, na resolução de desafios globais, pelo que é essencial que seja “representado na sua verdadeira escala”. Assim, o objetivo é incentivar uma utilização mais adequada das diferentes projeções cartográficas: manter a projeção de Mercator, quando as suas caraterísticas são úteis, como na navegação, e recorrer a mapas de áreas equivalentes, para comparar, de forma rigorosa, a dimensão dos continentes.

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Não é colonialismo, nem anticolonialismo, mas evitar o erro, quando ele prejudica.

2026.09.07 – Louro de Carvalho


domingo, 6 de setembro de 2026

Responsabilidade dos cristãos, face aos irmãos e às irmãs que os rodeiam

 

A tendência é para interpretar, de forma errada, o dito evangélico: “E se [o teu irmão] também não der ouvidos à Igreja, considera-o como um pagão ou um publicano”. Ora, a liturgia do 23.º domingo do Tempo Comum, no Ano A, insta à reflexão sobre a responsabilidade cristã, face aos irmãos e irmãs. Ninguém pode ficar indiferente ante o que ameace a vida e a felicidade do próximo e todos somos responsáveis uns pelos outros, sem qualquer tipo de ostracismo.

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Na primeira leitura (Ez 33,7-9), surge a figura do profeta como sentinela a quem Deus confiou a vigilância da cidade dos homens. Atento ao desígnio de Deus e à realidade do Mundo, o profeta apercebe-se do que subverte o plano de Deus e impede a felicidade dos homens. E, como vigilante responsável alerta a comunidade para os perigos que a ameaçam.

Ezequiel é o profeta da esperança. Desterrado na Babilónia, desde 597 a.C. (no reinado de Joaquin, quando Nabucodonosor toma Jerusalém, pela primeira vez, e deporta para a Babilónia a classe dirigente do país), exerce aí o serviço profético entre os exilados judeus.

A primeira fase decorre entre 593 a.C. (data do chamamento) e 586 a.C. (data em que Jerusalém é arrasada pelas tropas de Nabucodonosor e uma segunda leva de exilados é encaminhada para a Babilónia). Nesta fase, Ezequiel tenta destruir falsas esperanças e anuncia que, ao invés do que pensam os exilados, o cativeiro durará. E os que ficaram em Jerusalém (a multiplicar pecados e infidelidades) farão companhia aos já desterrados na Babilónia. A segunda fase desenrola-se a partir de 586 a.C. e vai até cerca de 570 a.C. Instalados em terra estrangeira, privados do templo, do sacerdócio e do culto, os exilados desesperam e duvidam do amor de Deus. Então, Ezequiel alimenta a esperança dos exilados e transmite ao Povo a certeza de que o Deus libertador – o Deus que Israel descobriu na sua História – não os abandonou, nem esqueceu.

O teor do trecho em apreço não permite dizer, de forma clara, se pertence à primeira ou à segunda fase da atividade profética de Ezequiel. Todavia, define – pelo recurso à imagem da sentinela – a missão profética: o profeta é, entre os exilados, uma sentinela atenta, que escuta o apelo de Deus e avisa o Povo dos perigos que aparecem no horizonte da comunidade.

A imagem da sentinela aplicada ao profeta não é nova. Já Habacuc, Isaías, Jeremias e Oseias recorrem a esta figura para definir a missão profética. Como sentinela ou plantão, o profeta é o vigilante atento que, enquanto os outros descansam, perscruta o horizonte e procura detetar o perigo que ameaça cidade, os concidadãos, os camaradas de armas. E, ao pressentir o perigo, tem a obrigação de dar o alarme. Assim, a comunidade pode preparar-se para enfrentar o desafio que o inimigo lhe colocar. Se a sentinela não vigiar ou se não der o alarme, será responsável pela catástrofe que atingiu o seu Povo.

Conta-se que São Frei Bartolomeu dos Mártires, quando era arcebispo de Braga, no regresso da visita pastoral a uma das paróquias encontrou, na serrania, um zagal cujas ovelhas pastavam tranquilas sob forte vento e chuva, mas que estava de vigia em cima de um penedo. E, questionado pelo arcebispo por que motivo não se abrigava do vento e da chuva numa gruta rochosa que estava no perímetro da pastagem, respondeu que, se o lobo viesse e roubasse alguma das ovelhas, o pai, que era severo, ajustaria contas consigo, pois não bastava a ajuda do cão. Este não passava de um adjutor, ainda que importante.

Assim é o profeta, o guarda que Javé colocou no meio da comunidade do Povo de Deus, para perscrutar, atentamente, o horizonte da História e da vida do Povo e para dar o alarme, sempre que a comunidade corre riscos. Contudo, para ser uma sentinela eficiente, tem de ser, ao mesmo tempo, homem de Deus e um homem atento ao Mundo que o rodeia. O profeta é, antes de mais, o homem que Javé chamou ao seu serviço, pelo que vive em comunhão com Deus, e descobre, na intimidade que vai criando com Deus, a vontade de Deus e aprende a discernir o desígnio de Deus para os homens e para o Mundo. Também é o homem do seu tempo, imerso na realidade e nos desafios da sociedade em que se integra. Conhece, pois, o Mundo e é capaz de ler, em chave crítica, os problemas, os dramas e as infidelidades dos contemporâneos.

Ao contemplar os planos de Deus e a vida do Mundo, o profeta apercebe-se do desfasamento entre uma realidade e outra e de que a realidade da vida dos homens é muito diferente da realidade que Deus projetou. Perante isto, não alija a responsabilidade, dizendo que não é nada com ele, não se fecha na comodidade, não ignora as infidelidades dos homens ao desígnio de Deus, nem se demite das suas responsabilidades, não se incomodando com as opções erradas dos irmãos. Ao invés, porque recebeu mandato de Deus para alertar a comunidade para os perigos que a ameaçam, o profeta tem de dizer a todos – mesmo que os concidadãos não o compreendam ou não o queiram escutar – custe o que custar, doa a quem doer, que trilhar caminhos errados só pode conduzir à infelicidade, ao sofrimento, à morte.

O profeta/sentinela é mais um sinal vivo do amor de Javé pelo seu Povo. Deus chama-o, envia-o em missão, dá-lhe a coragem de testemunhar e apoia-o nos momentos de crise, de desilusão e de solidão. É, por conseguinte, a prova de que Deus continua, a cada dia, a oferecer ao seu Povo caminhos de salvação e de vida, demonstrando, sem margem para dúvidas, que Deus não quer a morte do pecador, mas que ele se converta e viva.

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O Evangelho (Mt 18,15-20) evidencia a nossa responsabilidade em ajudar cada irmão a tomar consciência dos seus erros. É dever que resulta do mandamento do amor. Porém, Jesus ensina que a via para atingir o objetivo não é a humilhação, nem a condenação de quem falhou, mas o diálogo fraterno, leal, amigo, que revela ao irmão que a nossa intervenção resulta do amor.

O capítulo 18 do Evangelho de Mateus é conhecido como o “discurso eclesial”, pois contém uma catequese de Jesus sobre a experiência de caminhada em comunidade. Mateus ampliou, de forma significativa, instruções apresentadas por Marcos sobre a vida comunitária e compôs, com esses materiais, um dos cinco grandes discursos que o seu Evangelho transcreve. Os destinatários desta instrução são os discípulos e, obviamente, a comunidade a que o Evangelho de Mateus se dirige. A comunidade de Mateus é uma comunidade normal, com tensões entre os diversos grupos e com problemas de convivência. Há os que se julgam superiores aos outros e que querem ocupar os primeiros lugares; os que, sendo prepotentes, escandalizam os pobres e os débeis; os que magoam e ofendem outros membros da comunidade; e os que têm dificuldade em perdoar as falhas e os erros dos outros. Em resposta a este cenário, a exortação mateana insta à simplicidade e à humildade, ao acolhimento dos pequenos, dos pobres e dos excluídos, ao perdão e ao amor; e desenha um modelo de comunidade para os cristãos de todos os tempos: a comunidade de Jesus tem de ser a família de irmãos, que vive em harmonia, que dá atenção aos pequenos e aos débeis, que escuta os apelos e os conselhos do Pai e que vive no amor.

O fragmento do discurso eclesial em causa refere-se, especialmente, ao modo de proceder para com o irmão que errou e que provocou conflitos na comunidade. Nesta situação os irmãos não devem condenar, nem marginalizar o infrator. Com efeito, neste cenário, as decisões radicais e fundamentalistas não são cristãs. É preciso bom senso, maturidade, equilíbrio, tolerância e, acima de tudo, amor. E Mateus propõe um caminho em várias etapas.

Em primeiro lugar, deve promover-se um encontro, em privado com o irmão infrator, falando com ele cara a cara, sobre o tema. Nada de dizer mal nas suas costas, de publicitar a falta, de criticar publicamente (ainda que nada se invente) e de, muito menos, de espalhar boatos, de caluniar, de difamar. O caminho correto é o confronto pessoal, leal, honesto, sereno, compreensivo e tolerante com o irmão. Se o encontro resulta, o problema acaba, ficando entre os dois.

No caso de o encontro a dois não resultar, Mateus propõe nova tentativa, que implica o recurso a outros irmãos (“toma contigo uma ou duas pessoas”) que, com serenidade, sensibilidade e bom senso, sejam capazes de fazer o infrator perceber o sem sentido do seu comportamento. Se esta tentativa resultou, o problema terminou, tendo ficado entre testemunhas.

Se também essa tentativa falhar, resta o recurso à comunidade. A comunidade será chamada a confrontar o infrator, a recordar-lhe as exigências do caminho cristão e a pedir-lhe uma decisão. Se o irmão aceder ao apelo eclesial, a Igreja “reganha” o irmão.

No entanto, se o infrator se obstinar no comportamento errado, a comunidade terá de reconhecer, com dor, a situação em que o irmão se colocou, tendo de aceitar que esse comportamento o pôs à margem da comunidade. Nos termos da interpretação de muita gente, a solução de marginalização dá tranquilidade, o que não é suposto, evangelicamente. Mateus esclarece que, nesse caso, o faltoso será considerado como “um pagão ou um cobrador de impostos”. Ora, os contemporâneos de Jesus olhavam, como notório desprezo, os pagãos (não têm a fé judaica, agora, a cristã), os cobradores de impostos e para os pecadores públicos, em geral, porque estavam, definitivamente, arredados da salvação. Não é este o entendimento de Jesus, que procurou publicanos (Mateus era-o), prostitutas, leprosos, coxos, surdos-mudos, cegos de nascença, doentes e pagãos, porque têm entrada no Reino de Deus, bastando que aceitem a chamada.  

Dizem alguns comentadores que isto não significa que os pagãos e os cobradores de impostos não têm lugar na comunidade de Mateus e douram a pílula, referindo que, ao usar este exemplo, o evangelista não se refere a indivíduos, mas a situações. Trata-se de imagens judaicas para falar de pessoas que estão instaladas em situações de erro, que se obstinam no mau proceder e que recusam todas as oportunidades de integrar a comunidade da salvação. Não obstante, é de vincar que as situações não entram no Céu, nem no Inferno, mas as pessoas. Por isso, não basta não condenar as pessoas infratoras, mas importa redobrar a atenção e procurar, calma e rapidamente, as oportunidades de “reapelo” à conversão. A comunidade não tem o direito de dormir descansada, enquanto houver pecadores e pagãos. Por isso, é insensata a postura de hierarcas que se refugiam, comodamente, na excomunhão, na interdição, na negação da absolvição, na admissão à comunhão eucarística e ao funeral cristão e noutras penalizações. E é antievangélica a exclusão e qualquer outra prática de ostracismo que tantos leigos praticam, em relação aos demais, não admitindo alguns nas agremiações cristãs. Há muito Evangelho a percorrer!

Mateus não sugere que a Igreja exclua da comunhão qualquer irmão que errou. Na realidade, a Igreja é realidade divina e humana, onde coexistem a santidade e o pecado. E Mateus sugere que a Igreja tem de tomar posição, quando algum dos seus membros, consciente e obstinadamente, recusa a proposta do Reino e realiza atos que estão contra as propostas de Cristo.

Depois da instrução sobre a correção fraterna, mais bem expresso, promoção fraterna, o evangelista transcreve três “ditos” de Jesus que seriam, originalmente, independentes da temática precedente, mas que Mateus encaixou neste contexto.

O primeiro refere-se ao poder, conferido à comunidade, de “ligar” e “desligar”. Entre os judeus, a expressão designava o poder de interpretar a Lei com autoridade, de declarar o que era ou não permitido e de excluir ou reintroduzir alguém na comunidade do Povo de Deus; aqui, significa que a comunidade (em Mt 16,19 – Jesus disse o mesmo a Pedro, que representava a totalidade da comunidade dos discípulos) tem o poder de interpretar as palavras de Jesus, de acolher os que aceitam as suas propostas e de excluir os que não estão dispostos a seguir o caminho que Jesus propôs. Alguns parecem ter gosto em fechar, vedar e excluir. Todavia, qualquer tipo de atitude exclusiva tem de assumir a marca da transitoriedade.

Não esqueço que o juiz de Barrelas condenou, humanamente, um arguido, à pena de morte, mas concedeu-lhe 100 anos de espera, a fim de que se arrependesse dos seus pecados.

O segundo dito sugere que as decisões graves para a vida da comunidade devem ser tomadas em clima de oração. Assegura aos discípulos, reunidos em oração em nome de Jesus, que o Pai os escutará. Às vezes, a Igreja funciona mais como clube jurídico ou como alfandega da fé, do que em espaço de oração ou em espaço de escuta do Espírito Santo.

O terceiro dito garante aos discípulos a presença de Jesus “no meio” da comunidade. Neste contexto, sugere-se que as tentativas de correção, de reconciliação e de promoção entre irmãos, no seio da comunidade, terão o apoio e a assistência de Jesus. Encantados – e bem – com a presença real de Jesus na Eucaristia, esquecemos a presença também real de Cristo na assembleia dos irmãos, mesmo que seja apenas para rezarem.

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Na segunda leitura (Rm 13,8-10), Paulo convida os cristãos de Roma (e de todos os lugares e tempos) a porem no centro da existência cristã o mandamento do amor. É uma dívida que temos para com todos os nossos irmãos, e que nunca estará completamente saldada.

O apóstolo mostra como devem viver os que Deus chama à salvação. Deus oferece a todos a salvação, cabendo acolher o dom de Deus. Porém, a adesão a Jesus, portador do dom, implica assumir, na prática diária, atitudes coerentes com a vida nova que o cristão acolheu no batismo.

No ano 49, o imperador Cláudio publicou o édito de expulsão de Roma dos judeus (e dos cristãos de origem judaica). Ora, em 57/58 (tempo da escrita da Carta aos Romanos), muitos judeus tinham voltado a Roma. Possivelmente, os cristãos de origem pagã, donos da comunidade ostentavam superioridade e desprezo pelos cristãos de origem judaica entretanto regressados a Roma, concitando divisão e falta de amor na comunidade de Roma. Nessas circunstâncias, Paulo teria escrito a carta de reconciliação, para unir a comunidade dividida.

Paulo exorta os crentes a construírem a sua vida sobre o amor. Cristianismo sem amor é mentira. Os cristãos não podem deixar de amar os irmãos. Contudo, é exigência que nunca estará completamente realizada. Uma dívida pode ser liquidada de uma vez, mas o amor não. É preciso amar e amar sempre mais. O cristão não pode dizer que já ama o suficiente ou que já amou tudo.

O amor está no centro de toda a experiência religiosa. O mandamento do amor resume toda a Lei e todos os preceitos, que não passam de especificações da exigência do amor. A ideia de que toda a Lei se resume no amor não é invenção de Paulo, mas a constante na tradição bíblica.

Mais: Paulo menciona como cumprimento da Lei o amor ao próximo, porque sabe que não há amor ao próximo (que lhe faltava até à estrada de Damasco), sem o amor a Deus.

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É bom ouvir a voz de Deus e promover a unidade e a reconciliação:

“Se hoje ouvirdes a voz do Senhor, / não fecheis os vossos corações.”

“Vinde, exultemos de alegria no Senhor, / aclamemos a Deus, nosso Salvador. / Vamos à sua presença e dêmos graças, /ao som de cânticos aclamemos o Senhor.

“Vinde, prostremo-nos em terra, / adoremos o Senhor que nos criou. / Pois Ele é o nosso Deus /
e nós o seu povo, as ovelhas do seu rebanho.

“Quem dera ouvísseis hoje a sua voz: ‘Não endureçais os vossos corações, / como em Meriba, no dia de Massa no deserto, / onde vossos pais Me tentaram e provocaram, / apesar de terem visto as minhas obras’.”

“Aleluia. Aleluia. Em Cristo, Deus reconcilia o mundo consigo / e confiou-nos a palavra da reconciliação.”

2026.09.06 – Louro de Carvalho


Bino Branco, a voz do “Fundo Baxo” e grande intérprete de funaná

 

Faleceu a 29 de agosto de 2026, nos Estados Unidos da América (EUA), onde se encontrava em tratamento, desde 2025, Bino Branco, vocalista e compositor cabo-verdiano cujo nome fica ligado, para sempre, ao funaná, género musical e dança tradicional cabo-verdiana, típico da ilha de Santiago, tendo o grupo Ferro Gaita, por ele cofundado, contribuído muito para a sua difusão, como anota Filinto Elísio – na sua crónica semanal, de 3 de setembro, no Programa “África em Clave Cultural: personagens e eventos” do podcast do Vaticano dedicado à cultura, à arte, às figuras públicas e aos acontecimentos relevantes ligados ao continente africano –, pondo em evidência a filosofia, a evolução e os maiores sucessos do grupo.

A cerimónia fúnebre do músico Carlos Alberto Pereira Lopes (nome de registo e de batismo), conhecido por Bino Branco, de 56 anos (faria 57, a 29 de dezembro), que enfrentava uma doença oncológica, ocorreu a 6 de setembro, na cidade da Praia.  Os seus restos mortais chegaram à cidade da Praia, a 5 de setembro, às 23h00, tendo-se seguindo o velório, às 23h40, na Casa Mortuária da Agência Funerária Estrela de Cabo Verde, em Achada, no município de São Filipe. No dia 6, às 9h00, a urna foi transportada para a residência do falecido, em Calabaceira, a cerimónia fúnebre tem lugar às 15h00, na Capela de Calabaceira, e seguiu, às 15h40, o cortejo para o Cemitério da Várzea, com passagem por Achadinha.

Na circular disponibilizada nas redes sociais pedia-se aos familiares, amigos e artistas que comparecessem vestidos de branco, em sinal de homenagem, respeitando a vontade do músico.

Conhecido pela sua energia em palco, Bino Branco tornou-se uma figura indissociável do ferrinho, instrumento que marcou a sonoridade do grupo e a sua identidade artística.

Em junho deste ano, o governo aprovou a atribuição de uma pensão de Estado no valor de 75 mil escudos mensais ao músico, em “reconhecimento pelo seu contributo para a cultura nacional”, numa altura em que enfrentava uma doença oncológica.

“Nascido em Cabo Verde, Bino Branco tornou-se conhecido pela sua voz marcante e pela execução do ferrinho (ou ferro), instrumento tradicional que, juntamente com a gaita (acordeão diatónico), constitui a base sonora do funaná. A sua imagem tornou-se tão associada ao instrumento que é, frequentemente, utilizada como referência quando se fala do ferrinho na música cabo-verdiana”, lê-se no Boletim Oficial que publicou a medida.

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Para Filinto Elísio, os funanás Ferro Gaita, uma das bandas mais emblemáticas e históricas de Cabo Verde, assumiram, em pleno o funaná, ritmo tradicional da ilha de Santiago.

Bino Branco, participou em diversos grupos musicais juvenis, sendo o mais conhecido o Grupo Djassy, onde era o vocalista principal, tendo, após a dissolução em 1991, ido viver na ilha Brava, onde era presença assídua nas noites cabo-verdianas.

Este músico (também compositor) passou a ser identificado pela voz marcante e pela execução do ferrinho ou ferro. A sua imagem tornou-se tão associada ao instrumento que é, frequentemente, utilizada como referência, quando se fala do ferrinho na música cabo-verdiana.

O conjunto Ferro Gaita foi fundado em 1996, por Bino Branco, Eduíno e Paulino Preto. O nome “Ferro Gaita” foram-no buscar a dois instrumentos tradicionais do arquipélago, verdadeiros pilares do funaná: respetivamente, um pedaço de metal tocado com uma faca e uma espécie de acordeão. A estes decidiram juntar as potencialidades da bateria e do baixo, construindo assim as bases da sua aventura musical. O grupo teve papel vital na revitalização da música tradicional da ilha de Santiago, injetando ritmos modernos numa herança secular, especialmente, o género musical funaná.

Em 1997, o lançamento do álbum de estreia Fundu Baxu (ou Fundo Baxo) gerou enorme impacto local, impulsionado pela icónica atuação no Festival da Gamboa, na cidade da Praia. Os dois anos seguintes levaram-nos a partilhar a festa com diversas plateias, em Cabo Verde, em Portugal, na França, na Alemanha, em Cuba, no Senegal, nos Países Baixos, e na Espanha, entre outros países. Desde então, Bino Branco tornou-se a voz marcante e a presença eletrizante no comando do ferrinho, deixando profundo legado na História moderna da música cabo-verdiana.

Em 1999, os Ferro Gaita cruzam o oceano para gravar o segundo álbum de originais – “Rei Di Tabanka” – nos EUA. Levando mais longe o seu talento, a sua vontade e capacidade de revisitarem estilos tradicionais, conferindo-lhes novas roupagens, sem os adulterarem, os Ferro Gaita aventuram-se pelos territórios do batuque, da tabanka, do finaçon. Introduzem na sua música novos instrumentos e convocam o talento de uma das lendas vivas da música cabo-verdiana, Nha Nácia, então com 75 anos de idade, para participar no disco. E um novo sucesso comercial, trá-los de volta aos palcos internacionais, com destaque para uma alargada tournée europeia, ao lado de grandes nomes da música cabo-verdiana, como Cesária Évora, Ildo Lobo, Luís Morais e Tito Paris, entre outros.

O disco sucessor, “Bandêra Liberdadi”, editado em finais de 2003, é o primeiro trabalho do grupo gravado em Cabo Verde, onde fica bem patente a maturidade do grupo e que ilustra na perfeição o sentimento – a “Nós Cultura” – de uma terra, de um povo, que tão bem sabe cantar a sua alma, inebriada pelos ritmos ou embalada pela saudade. Ao vivo, os espetáculos do grupo transbordam de emoção, de sensualidade e de visceralidade da música cabo-verdiana.

Porém, a banda explora outros géneros de raiz cabo-verdiana, tais como o batuque e a tabanka, que se tornaram presença habitual no circuito global dos festivais e fizerem concertos nos países de forte comunidade cabo-verdiana, inscrevendo a música cabo-verdiana nos palcos do Mundo. 

O batuque é um género musical, dança tradicional e manifestação cultural com raízes africanas, com maior destaque histórico e expressão em Cabo Verde e no Brasil. Já a tabanca, enquanto género musical, caracteriza-se por ter um andamento alegre e um compasso binário e por ser, tradicionalmente ser apenas melódico, estruturando-se no canto-resposta, em que um cantor entoa versos que são, de imediato, replicados em uníssono. Nasceu, como organização hierarquizada, na sociedade escravocrata como espaço de união, de refúgio e de resistência das classes mais desfavorecidas e escravizados. E o finaçon é um género musical tradicional, caraterizado por uma narrativa cantada, como crónica do quotidiano, conselho ou sátira social.

Bino Branco gravou sete álbuns originais com o grupo Ferro Gaita, participou em colaborações com diversos artistas cabo-verdianos, gravou um álbum a solo e teve papel fundamental na promoção da música de Cabo Verde. E, em 2007, os Ferro Gaita receberam a Medalha Nacional de Mérito Cultural. Em 2024, assinaram com o Ministério da Cultura um protocolo de apoio à preservação do funaná, enquanto património imaterial nacional. A Bino Branco, que em vida recusou sempre o título de embaixador do funaná, fica reservado esse lugar, incontestável, na memória do género que ajudou a manter vivo.

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A morte do célebre compositor, “ferrinhista” e cantor encerra uma carreira de cerca de 30 anos ligada aos Ferro Gaita. Ao lado de Eduíno e Paulino Preto, ajudou a construir, a partir de 1996, uma das formações de referência na interpretação e divulgação do funaná.

Mais do que a voz, Bino Branco tinha um estilo único de estar em palco. O ferrinho, a energia, a animação e a simplicidade faziam parte da sua presença. Para os admiradores e expectadores, ao longo dos anos, era difícil separá-lo da sonoridade dos Ferro Gaita. “Estamos todos consternados com esta perda”, disse à Inforpress Emanuel Tavares, conhecido por Manel di Tilinha, percussionista e voz de coro do grupo. Sabiam que o estado de saúde do colega era grave, mas a notícia da morte foi recebida com choque.

Manel di Tilinha fala de Bino como “um grande artista”, alguém que entregava à música “o que de melhor há no funaná”, mas também como um homem divertido, alegre e simples. “Os Ferro Gaita não perderam apenas um músico. Perderam um amigo e um irmão”.

Bino Branco cresceu, artisticamente, num período em que o funaná ganhava novas formas de chegar ao público. Nos Ferro Gaita encontrou um espaço onde a tradição podia dialogar com uma abordagem contemporânea, sem perder aquilo que lhe dava identidade.

O ferrinho, uma das imagens associadas à sua presença, acompanhava uma voz que ajudou a dar personalidade ao grupo. Ao longo de três décadas, tal combinação passou por diferentes palcos e contribuiu para que a música nacional chegasse cada vez mais longe. E foi nessa capacidade de levar as raízes consigo que se construiu parte importante do seu percurso.

O Ministério da Cultura, Indústrias Criativas, Juventude e Desporto reagiu à morte com uma nota de pesar, considerando Bino Branco uma figura de grande relevância para a música e para a cultura nacional. Na mensagem, destaca o contributo do artista para a valorização e divulgação da música e considera que o seu percurso permanecerá na memória de quem ama e valoriza a cultura do país. E o ministro, António Duarte, lamentando a morte do músico, declarou que o Estado acompanhava com preocupação o seu estado de saúde e já tinha conhecimento da gravidade da situação. “Foi com profunda consternação e imensa tristeza que tomei conhecimento do falecimento de Bino dos Ferro Gaita, figura de grande relevância para a música e para a cultura cabo-verdiana. […] Deu um contributo marcante à valorização e divulgação da nossa música, ajudando a preservar e a projetar a riqueza e a diversidade da identidade cultural cabo-verdiana.

[…] Perde-se mais um artista. A cultura perde parte da sua referência”, afirmou.

Em nome do governo e do Ministério da Cultura, António Duarte apresentou condolências à família, amigos, colegas e à comunidade artística e cultural cabo-verdiana. “Que a sua memória permaneça viva, através da sua música e do legado que deixa às presentes e futuras gerações”, declarou.

Para o governante, o percurso artístico de Bino Branco e o legado que deixa “permanecerão, seguramente, na memória de todos aqueles que amam e valorizam a nossa cultura, de todos os cabo-verdianos a nível global; os Ferro Gaita ficam mais pobres; e o funaná também perde uma das suas referências.

A doença de Bino já vinha obrigando os Ferro Gaita a preparar o futuro do grupo. Segundo o produtor e manager David Vieira, há cerca de um ano que estavam a ser criadas condições para a entrada de novos talentos. E Eduíno, líder da formação, vinha assumindo maior protagonismo nos espetáculos, enquanto músicos mais jovens começavam a integrar o projeto.

A intenção, explica David Vieira, nunca foi substituir Bino Branco. “Não há substituição, há uma adaptação, para não deixar o trabalho morrer”, afirmou à Inforpress.

A frase de David Vieira, agora, ganha outro peso. O grupo que Bino ajudou a fundar terá de continuar sem uma das suas figuras centrais, levando consigo uma história construída ao longo de 30 anos. David Vieira recorda o músico como alguém que se entregava por inteiro ao que fazia. No palco e fora dele, diz, dava sempre “cem por cento”. E é também essa entrega que fica na memória de quem acompanhou os Ferro Gaita, pois Bino tinha uma forma descontraída de estar, mas, quando entrava em palco, a música tomava conta. O ferrinho marcava o compasso, a voz conduzia e o funaná fazia o resto. Agora, o grupo prepara-se para continuar. A ideia é manter vivo o trabalho construído e chegar a mais lugares, apostando em novos intérpretes.

A morte de Bino Branco acontece num momento em que a música nacional continua a ser uma das principais formas de ligação entre quem vive nas ilhas e quem está fora delas. Ao longo da carreira, o músico fez parte dessa ligação. Cantou as raízes, levou o funaná a outros públicos e ajudou a manter vivo um som que, para muitos, é imediatamente reconhecível como sendo de casa. Por isso, a sua ausência será sentida não apenas pelos Ferro Gaita, mas por todos os que cresceram com a música do grupo e que reconheciam naquela voz e naquele ferrinho uma parte das suas próprias memórias.

Bino Branco parte, mas deixa uma obra que continuará a ser tocada. Deixa também uma geração de músicos que com ele partilhou estrada e palco e que, agora, terá a responsabilidade de continuar o caminho. Cada vez que o ferrinho voltar a soar e a voz de Bino surgir numa gravação dos Ferro Gaita, haverá quem reconheça ali mais do que uma canção. Reconhecerá uma época, um grupo e um modo de levar o funaná pelo Mundo, sem deixar as raízes para trás.

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Como género musical, o funaná carateriza-se pelo andamento alegre, mas variável, de vivace a andante, pelo compasso binário e pelo elemento meramente melódico Além do feru ou ferro (barra de ferro, também chamada de ferrinho, utilizada para produzir som com o apoio duma faca de mesa), o funaná está intimamente associado ao acórdão, mais precisamente ao acórdão diatónico, conhecido, em Cabo Verde, por gaita. Este facto influencia uma série de aspetos musicais que caraterizam o funaná, como o uso, na sua forma mais tradicional, de apenas escalas diatónicas, e não escalas cromáticas.

O acordeão diatónico, instrumento musical de palheta livre, com fole como agente ativador do som, cujas palhetas metálicas vibram através do fluxo e pressão de ar, quando pressionados botões, em função e proporção do movimento de expansão e compressão pelo instrumentista.

A estrutura da composição do funaná não é muito diferente da estrutura de outros géneros musicais, em Cabo Verde. Basicamente, a música estrutura-se num conjunto de estrofes principais que se alternam com um refrão. Só que, intercalando as estrofes e os refrãos, há um solo executado na gaita. As músicas são, geralmente, monotónicas. O acompanhamento é executado com a mão esquerda na gaita, dando os baixos e os acordes. O modelo rítmico é executado no ferrinho.

Como dança, o funaná é dançado aos pares, com os executantes com um braço a enlaçar o parceiro, enquanto com o outro braço mantêm as mãos dadas. A dança efeitua-se, imprimindo rápidas e fortes flexões alternadas de cada um dos joelhos, marcando os tempos do compasso. No modo de dançar mais rural, os corpos estão meio inclinados para frente (com contacto nos ombros), e os pés levantam-se do chão. No modo de dançar mais urbano, mais estilizado, os corpos estão na vertical (com contacto na zona peitoral), e os pés arrastam-se pelo chão.

O funaná é relativamente recente. Segundo a tradição oral, surgiu quando, na tentativa de aculturação, o acordeão teria sido introduzido na ilha de Santiago, no início do século XX, para que a população aprendesse géneros musicais portugueses.

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Enfim, uma justa homenagem a um artista, a uma bela expressão artística, a um povo e a um pouco da postura de Portugal, no passado e na atualidade.

2026.09.06 – Louro de Carvalho


sexta-feira, 4 de setembro de 2026

UE tenta reforçar o alargamento, após o voto negativo da Islândia

 

A 29 de agosto, os eleitores islandeses rejeitaram, por margem estreita, reabrir as negociações de adesão com Bruxelas, suspensas desde 2013, com 52,8% contra 47,2%, infligindo significativo golpe às ambições de alargamento da União Europeia (UE), particularmente, junto dos seus vizinhos mais ricos. Altos responsáveis da UE minimizam o impacto negativo do voto islandês, e os ministros dos Assuntos Europeus dos Estados-membros da UE e dos países candidatos reuniram-se, a 4 de setembro, num encontro informal, organizado pela presidência irlandesa do Conselho da UE, em Dublin, na Irlanda, para debate do processo de alargamento, pois Bruxelas visa manter e reforçar o seu impulso dos seus esforços para países candidatos.

Questionada se o resultado do referendo islandês significava que a UE se tornou menos atrativa, a comissária para o Alargamento, Marta Kos, negou, salientando que, nos últimos oito meses, se registaram mais progressos na adesão de novos membros do que nos 25 anos anteriores. “Esta dinâmica vai prolongar-se no outono. […] Lamento a decisão dos islandeses de não regressarem ao processo de adesão. Fazem parte do mercado único. Fazem parte de Schengen. Mas a nossa União Europeia é muito mais do que apenas essas duas coisas”, afirmou.

Disse ver a tendência para reduzir a UE a uma comunidade económica, o que está longe de ser a sua essência, até porque a Europa deve estar unida, face às crescentes ameaças de segurança vindas da Rússia. E caberá aos islandeses decidir se querem aderir à UE, em data posterior, mas Marta Kos recordou que, quando a Islândia negociava a adesão, em 2010, apenas 19% apoiava a entrada na UE, contra os 47% que votaram “sim” no referendo mais recente.

“O povo islandês votou como votou. Que podemos fazer? Tomaram a decisão”, declarou o ministro de Estado para os Assuntos Europeus e a Defesa da Irlanda, Thomas Byrne, vincando que “isso não tem qualquer impacto no que estamos a fazer, hoje, e [que] os países candidatos estão a trabalhar arduamente para continuar o processo de adesão”.

Falando aos jornalistas, à margem da reunião, Byrne desvalorizou o efeito da votação na Islândia nas perspetivas dos outros países candidatos, citando os progressos do Montenegro, da Albânia, da Moldávia e da Ucrânia. Lembrou que o caso islandês é marcado pela questão da sua indústria da pesca marítima, mas que o país continuará a fazer parte do Espaço Económico Europeu (EEE). E disse que, entretanto, a UE procura manter o ritmo do alargamento. O Montenegro está em vias de se tornar o 28.º membro do bloco, até 2028, a Albânia segue de perto e a Ucrânia e a Moldávia já abriram dois clusters de adesão, neste ano.

Questionado se receava que as eleições previstas para 2027 em vários estados-membros – incluindo a França, a Itália, a Espanha e a Polónia – pudessem pôr em causa o processo, Byrne rejeitou essa ideia.

Na França, a candidata da Rassemblement National (RN), de extrema-direita, Marine Le Pen, que surge como vencedora em todos os cenários de segunda volta, segundo as sondagens, é eurocética e, historicamente, opõe-se ao alargamento da UE. “As eleições são imprevisíveis. […] Não devemos tirar grandes conclusões das sondagens neste momento”, afirmou Byrne.

Por sua vez, a Comissão Europeia trabalha, desde julho, numa proposta de reforma de uma União alargada e de melhor integração dos países candidatos, a apresentar, no final de setembro, e a discutir, na próxima cimeira de líderes da UE, em 15 e 16 de outubro.

A reunião de Dublin também debateu salvaguardas, para evitar retrocessos democráticos e no Estado de direito em novos estados-membros – ideia avançada por cinco dos membros fundadores (a Alemanha, a França, os Países Baixos, a Bélgica e o Luxemburgo), que retiram lições do mandato de Viktor Orbán, ex-primeiro-ministro húngaro. “Desde o alargamento de 2004, nem sempre podemos ter a certeza de que, uma vez integrados, os novos membros respeitarão o Estado de direito e o princípio da cooperação leal”, afirmou a comissária Kos, rejeitando que as salvaguardas criem adesão de segunda classe, pois serão temporárias.

Petar Marković, chefe da missão do Montenegro junto da UE, disse que o seu país apoia salvaguardas mais rígidas, desde que assentem em critérios objetivos para avaliar violações sistemáticas das normas democráticas e do Estado de direito.

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A 25 de agosto, a responsável pelo alargamento da UE anunciou as linhas gerais da proposta da Comissão Europeia para reformar o processo de alargamento do bloco, com planos para integração gradual, para avaliação mais rigorosa dos candidatos e para nova metodologia, numa fase que descreve como um novo “Momento de Helsínquia”. São quatro os temas em debate: reformas internas, sem alterar os tratados, mais garantias democráticas, integração gradual e amplas medidas de transição.  “O Mundo mudou. E o alargamento tem de mudar com ele”, afirmou Marta kos, na Conferência dos Embaixadores da Croácia, em Zagreb.

No seu discurso, a comissária Kos enunciou os elementos da revisão das políticas pré-alargamento – iniciativa adiada, há muito, que analisa como será a UE com mais de 30 estados-membros. A Comissão recuperou a iniciativa, antes do debate entre líderes da UE, em outubro.

Para a comissária eslovena, a UE enfrenta um novo “Momento de Helsínquia”, numa referência ao encontro de líderes europeus na capital islandesa, que abriu caminho ao “alargamento em grande escala” do pós-Guerra Fria, quando 10 novos países aderiram ao bloco. E destacou, em particular, os rápidos progressos do Montenegro, visto como o principal candidato à adesão, os avanços da Albânia, no cumprimento de critérios-chave, em matéria de Estado de direito e os significativos progressos técnicos da Ucrânia e da Moldávia, assim como tentou o voto da Islândia, para retomar o seu processo de adesão.

Para a responsável pelo alargamento da UE, uma União mais ampla precisará de reformas significativas para agir e para se adaptar, rapidamente, em tempos de crise. Assim, defende que podem ser introduzidas alterações nos processos de tomada de decisão e na arquitetura institucional, sem rever os tratados, o que exigiria negociações prolongadas e um processo de ratificação imprevisível entre os estados-membros. “Devemos aproveitar isto para tornar a tomada de decisão mais simples e flexível. Isto pode implicar a redução do número de áreas em que um único estado-membro consegue bloquear todos os outros, como pode tornar as nossas instituições mais pequenas”, sustentou a comissária Kos.

Apontou para a cooperação reforçada, mecanismo jurídico que permite a um grupo mais pequeno de países da UE avançar com uma iniciativa, quando outros não estão prontos para o fazer. O mecanismo já foi utilizado em áreas, como o Espaço Schengen e o euro.

Outro elemento sublinhado pela comissária é o reforço das salvaguardas existentes para evitar que novos membros recuem nos padrões democráticos e no respeito pelo Estado de direito. “Temos de ir um passo mais longe. Temos de garantir que não deixamos entrar cavalos de Troia. Nem hoje, nem daqui a 10 ou 20 anos. A experiência recente mostrou que podem ser necessárias salvaguardas mais fortes para prevenir – e, se necessário, corrigir – violações dos princípios e valores fundamentais da nossa União”, afirmou.

Porém, esta proposta é controversa, porque pode ir contra o princípio central da UE de que todos os estados-membros devem ser tratados de forma igual, criando potencialmente membros de segunda linha. “Estas medidas são indispensáveis, não apenas desejáveis. São cruciais para criar confiança e unidade dentro da nossa União na aceitação de novos membros”, acrescentou Kos, sugerindo que salvaguardas mais fortes poderão facilitar o processo de ratificação.

Vários países da UE, em especial, a França e a Alemanha, defendem que o bloco deve rever a sua metodologia de alargamento, sobretudo, através de “integração gradual”, oferecendo benefícios concretos aos países candidatos numa fase mais precoce. “O alargamento da UE tem de evoluir para responder às realidades de hoje”, afirmou Kos, salientando que, enquanto o processo de adesão pode demorar décadas, os adversários da UE podem explorar essa incerteza e exercer pressão política para travar o processo.

Portanto, na ótica da comissária, é preciso abandonar a lógica do “tudo ou nada”, no alargamento, e fazer uma “abordagem mais estruturada, para preencher o tempo que já não temos”, o que pressupõe a procura de “formas mais ambiciosas de integração gradual”.

A urgência em repensar a metodologia de alargamento do bloco resulta, em grande medida, do início do processo de adesão da Ucrânia, numa altura em que as capitais da UE receiam que algum tipo de estatuto de membro e garantias de segurança tenham de integrar eventual acordo de paz com a Rússia, para ancorar Kiev, de forma firme, na Europa. Aí, Kos referiu que já existem alguns benefícios antecipados (passos positivos, mas insuficientes) de que os candidatos à adesão podem usufruir, como a entrada na Área Única de Pagamentos em Euros (SEPA) e a ligação à rede energética do bloco.

E responsável pelo alargamento da UE frisou que Bruxelas tem de compreender o impacto que os novos membros terão nos estados-membros atuais e de proteger os interesses do bloco contra potenciais riscos. “Temos experiência com medidas transitórias de grande alcance para garantir que a integração dos novos membros decorre sem sobressaltos. E temos de assegurar que o orçamento da UE continua a financiar as nossas prioridades”, explicitou.

Todavia, a forma como os novos estados-membros devem ser considerados no orçamento da UE diverge entre governos europeus, complicando ainda mais as tensas negociações sobre o próximo Quadro Financeiro Plurianual (QFP).

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A proposta conjunta dos referidos cinco dos países fundadores (a Itália não aderiu), em meados de junho, recomenda que os tratados de adesão dos futuros estados-membros sejam reforçados por cláusulas de salvaguarda, de modo a reprimir violações legais e a impor sanções rápidas, como a suspensão de fundos e de direitos de voto. Segundo o documento, os novos estados-membros devem ver o seu poder de veto limitado, por um período indefinido, a fim de evitar bloqueios súbitos em decisões de elevada prioridade. A política externa é uma das áreas em que a UE exige unanimidade permanente. “O alargamento não deve fazer-se em detrimento da nossa capacidade de agir”, disse um diplomata.

A iniciativa surge, em grande medida, como resposta à experiência da UE com Viktor Orbán, ex-primeiro-ministro húngaro. Os vetos, na UE, e as reformas, no seu país, com que fragilizou os equilíbrios institucionais, deram azo a numerosos processos judiciais e à suspensão de milhares de milhões de euros em fundos europeus. No início de 2026, o veto ao empréstimo de 90 mil milhões de euros à Ucrânia suscitou acusações de deslealdade e de chantagem.

De facto, a proposta enuncia uma salvaguarda nova dedicada ao princípio da cooperação leal. “Com base nas lições retiradas das anteriores rondas de alargamento, precisamos de uma nova abordagem aos tratados de adesão. Uma simples reprodução dos tratados de adesão anteriores não será suficiente”, afirmam os cinco países em causa.

A elaboração do documento foi calendarizada para influenciar as discussões em curso, garantindo que o tratado com o Montenegro sirva de modelo para os restantes candidatos, como a Ucrânia, a Moldova, a Albânia, a Macedónia do Norte e a Sérvia. E, embora nenhum candidato seja mencionado, explicitamente, referências no texto, como períodos transitórios “reforçados” para a Política Agrícola Comum (PAC) e para a política de coesão, parecem refletir preocupações em muitas capitais, quanto ao pedido de adesão da Ucrânia.

O documento defende transições adicionais, para atenuar perturbações que a livre circulação de trabalhadores cause no mercado de trabalho, nos níveis de vida e na habitação.

Todavia, o elemento central do documento é o Estado de direito. Nos últimos anos, a UE tem enfrentado dificuldades em deter retrocessos democráticos, em vários países que aderiram ao bloco em 2004, nomeadamente, a Hungria, a Polónia e a Eslováquia.

A crise expôs a influência limitada que Bruxelas conserva, após a conclusão do processo de adesão, que é caraterizado por critérios de entrada excecionalmente exigentes. E o texto visa criar uma margem de manobra nos anos seguintes à adesão, consagrando a “cláusula de não retrocesso” como “norma vinculativa” para os novos estados-membros. Caso ocorra um retrocesso, a UE ficará habilitada a adotar “medidas de proteção”, além dos instrumentos atualmente disponíveis, nomeadamente, os processos de infração e o congelamento de fundos.

Além disso, o documento propõe a simplificação do artigo 7.º dos Tratados da UE para lidar com violações graves dos valores fundamentais. Conhecido como “opção nuclear”, prevê dois passos processuais principais: a ativação, por maioria de quatro quintos dos estados-membros, e a suspensão dos direitos de voto por unanimidade (exceto o país visado). Em casos anteriores que envolviam a Hungria e a Polónia, a exigência de unanimidade para o segundo passo revelou-se impossível. Por isso, defende-se que a suspensão dos direitos de voto seja decidida por maioria de quatro quintos, para uma reação mais rápida, se um novo membro recuar.

Para a coligação dos cinco países fundadores, a inclusão de cláusulas de salvaguarda e de períodos transitórios nos futuros tratados de adesão ajudará a tranquilizar cidadãos reticentes, em relação ao alargamento do bloco. “Temos de aproveitar esta oportunidade e desenhar as melhorias necessárias para garantir que o alargamento reforça a UE e aumenta a segurança da sua vizinhança. […] Isto será fundamental para manter e reforçar o apoio político e público ao alargamento, o que, por sua vez, é determinante para a necessária ratificação dos tratados de adesão em todos os Estados-membros”, lê-se na introdução do documento.

A proposta surge numa altura em que se intensifica o debate sobre a forma de adaptar o processo de adesão (que dura, há décadas) ao novo contexto geopolítico e de o transformar de um conceito burocrático numa perspetiva tangível, ou seja, um processo mais simples.

A Alemanha e a França propõem a integração gradual dos países candidatos, permitindo que os futuros membros beneficiem mais cedo da adesão à UE, antes de alcançarem o estatuto de membro de pleno direito. E o chanceler alemão, Friedrich Merz, propôs a criação do estatuto de “membro associado” para alargar as garantias de segurança à Ucrânia.

Os cinco membros fundadores propõem sanções rápidas para violações jurídicas, incluindo a suspensão de fundos europeus e de direitos de voto nos processos de decisão institucional. E alguns países preveem eventual extensão dos períodos transitórios, derrogações limitadas à aplicação plena do direito da UE, bem como a restrição temporária o acesso ao mercado de trabalho a trabalhadores de novos estados-membros.

Outra ideia é tornar obrigatória, para os novos estados-membros, a participação na Procuradoria Europeia (EPPO). Atualmente, só a integram 24 estados-membros, embora a Irlanda e a Hungria já tenham manifestado interesse na integração.

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Enfim, a UE tem de aproveitar a experiência adquirida, para reforçar salvaguardas e gizar processos de reforma mais simples e ágeis.

2026.09.04 – Louro de Carvalho