As
grandes civilizações nasceram junto ao Tigre e ao Eufrates, na Mesopotâmia, e junto
ao Nilo, no Egito – o chamado “Crescente Fértil” –, bem como junto ao Rio
Amarelo, na China, e junto ao Indo e ao Ganges, na Índia. Posteriormente, enquanto
Alexandre Magno atravessava vários rios (como o Granico, na Ásia Menor), para
lograr as suas conquistas, Roma desenvolveu-se à beira do Tibre e do seu
império fez-se a “civilização ocidental cristã”, a qual, hoje, na sua mais
grave crise, devia ver-se espelhada nos rios que poluiu.
O
sociólogo brasileiro Ruben Siqueira, articulista do EcoDebate, sustentava,
em 2021, que, no Brasil, os rios foram os caminhos de interiorização da
civilização introduzida pelos portugueses.
Porém,
a civilização humana não se alimenta só da água; também toda a incomensurável e
complexa biodiversidade é essencial para a sobrevivência do homem sobre a
Terra. Hoje, nos campos e nas cidades, os rios estão moribundos, por causa da
poluição das suas águas e dos solos que os margeiam. Preservar as águas, para
muita gente, não pertence à lógica que rege o desenvolvimento. O nosso estilo
de vida leva à corrosão dos recursos naturais e ao lixo excessivo. E as águas
são as primeiras a sinalizar o início do fim.
A
combinação de terra, água, luz do Sol e o zelo, predominantemente, feminino
originou a agricultura, há 12 mil anos. Desde então, a tecnologia evoluiu no
controlo dos fatores naturais de produção agrícola, até ao ponto de prescindir
deles. Em muitas áreas de cultivo, o solo não é mais do que o sustentáculo da
planta e toda a nutrição é artificial, feita por microgotejamento eletrónico. O
agricultor, sentado ao computador numa sala climatizada, vai teclando as
quantidades de fertilizantes que sobem pela água bombeada do rio. Os gases
libertados pelos fertilizantes químicos são dos piores de origem agropecuária,
que respondem por 25% dos gases de efeito estufa (GEE) que aquecem o planeta. E
os rios acabam por ser dos maiores destinos da maior parte dos produtos tóxicos
(são-no, em termos relativos), só ultrapassados pelos oceanos (em termos
absolutos).
O
modelo da moderna agricultura, chamada “Revolução Verde”, propôs-se
“desenvolver” as áreas rurais. A concentração da terra e da água, das sementes
e dos investimentos públicos em grandes empresas agropecuárias aumentou a
produção, mas de produtos agrícolas brutos ou com pouca industrialização,
cultivados ou criados em larga escala (servindo de matéria-prima para a
fabricação de outros bens), como (soja, carne, suco de laranja e etanol) para
exportação e para especulação no mercado de capitais. Cai o consumo de arroz e de
feijão, o que significa má alimentação e fome. E as cidades violentas e
inseguras, não param de inflar.
Em
muitos lugares, o campo ou ficou inculto ou esvaziou-se para domínio do
agronegócio globalizado, de que resulta miséria camponesa e degradação
ambiental. Expandem-se o agronegócio hidrointensivo e a onda dos
agrocombustíveis, como pseudossolução para o aquecimento global, e intensifica-se
a irrigação, que já consome 70% das águas disponíveis.
A
par da irrigação e dos esgotos, as barragens e hidroelétricas condenaram muitos
dos rios e não param de aumentar, sem que não se discutam os custos, nem para
quê e para quem tanta energia.
No
dizer de Ruben Siqueira, “um rio é como um espelho que reflete os valores de
uma sociedade”, a nossa não vale o que bebe e come. Por isso, o sociólogo entende
que, esgotado o “desenvolvimento”, urge recuperar o “envolvimento”. E, neste âmbito,
só a agroecologia pode salvar a Humanidade, salvando a Terra, os rios, a
agrobiodiversidade, os territórios, as tradições culturais, a soberania
alimentar. Nisto, poderemos aprender muito com os povos originários,
sobreviventes à colonização.
E
Ruben Siqueira advertia que a gestão territorial e participativa das águas,
através dos comités de bacias poderá até contribuir para piorar o quadro, se
for subserviente aos interesses expansionistas do capital. Por isso, a luta
maior é pela revitalização integral.
***
Os
rios mais poluídos do planeta são:
*
o rio Citarum, na Indonésia, que sofre com o despejo diário de centenas de
toneladas de lixo e de resíduos tóxicos, como chumbo, mercúrio e arsénico,
vindos de mais de duas mil fábricas têxteis e do esgoto de milhões de
habitantes (é o mais poluído de todos);
*
o rio Ganges, na Índia, um dos mais sagrados do país, contaminado por grandes
volumes de esgoto não tratado, por resíduos químicos industriais e por restos
de cremação religiosa;
*
o rio Yamuna, também na Índia, o principal afluente do Ganges (passa perto do
Taj Mahal), que apresenta níveis críticos de matéria orgânica e de oxigénio
quase nulo;
*
o rio Amarelo / Huang He, na China, muito afetado pela contaminação pesada,
decorrente da mineração de carvão e do escoamento de indústrias ao longo da sua
bacia;
*
o rio Buriganga, no Bangladesh, em Daca, considerado biologicamente morto,
devido ao descarte direto de dejetos humanos e de resíduos tóxicos de curtumes;
*
o rio Sarno, na Itália, considerado um dos mais poluídos da Europa, sofrendo
com a forte pressão da agricultura intensiva e de descargas industriais com
metais pesados.
***
As
secas cada vez mais extremas, no planeta, gritam, continuamente, que, sem água
não há vida. Além de imprescindível para a sobrevivência de todos os seres
vivos, é fundamental para o desenvolvimento socioeconómico, para a produção de
energia e para a adaptação às mudanças climáticas. Porém, atualmente, o enorme
desafio é a poluição dos rios, mas também dos mares, dos oceanos, dos canais, dos
lagos e das barragens (está tudo em conexão) – o que põe em perigo a saúde de
milhões de pessoas no Mundo.
As
águas do Ganges descem limpas e cristalinas pela cidade indiana de Rishikesh,
situada às portas do Himalaia. Nessas montanhas, ninguém dirá que é um dos
leitos fluviais mais poluídos do Mundo, com concentrações de bactérias
fecais, que chegam 31 milhões, por cada 100 mililitros, segundo a Fundação
Sankat Mochan, organização que luta por devolver ao Ganges o antigo esplendor. Isto
faz do rio sagrado símbolo da poluição hídrica, problema global que afeta um de
cada três habitantes do planeta, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU).
A
Organização Mundial da Saúde (OMS) define água contaminada como a que sofre
alterações na sua composição, até ficar inutilizável. É água tóxica que não
pode ser bebida, nem usada em atividades essenciais, como a agricultura, que é
fonte de insalubridade, que provoca mais de 500 mil mortes anuais, a nível
global, por diarreia, e que transmite doenças, como a cólera, a disenteria, a febre
tifoide e a poliomielite.
Segundo
a origem, há diferentes tipos de poluição da água: a química, produzida por
pesticidas, fertilizantes e metais pesados, que podem causar doenças, se forem
consumidos; a biológica, causada por bactérias, por vírus e por parasitas
resultantes de resíduos humanos e animais; a física, que ocorre, devido à
presença de plásticos, de sedimentos e de resíduos que danificam os
ecossistemas; a térmica, causada pela descarga de água quente das fábricas em
rios e em lagos, aniquilando a fauna marinha; e a poluição por microplásticos e
por partículas de plástico presentes na água e cujas consequências da sua
ingestão estão em investigação.
Os
principais poluentes da água incluem bactérias, vírus, parasitas,
fertilizantes, pesticidas, medicamentos, nitratos, fosfatos, plásticos,
resíduos fecais e até substâncias radioativas, que nem sempre mudam a cor da
água, de tal modo que a poluição hídrica é, muitas vezes, invisível, pelo que
se utilizam análises químicas de pequenas amostras e de organismos aquáticos.
Embora
a presença de plásticos no oceano tenha sido problema recorrente, ao longo dos
anos, hoje, diferentes produtos poluentes afetam os ecossistemas marinhos. Os
microplásticos são o grande perigo presente em todos os mares. Todavia,
produtos, como os resíduos farmacêuticos, também poluem o meio aquático, sobretudo,
através de águas residuais urbanas e industriais, e os tratamentos
convencionais nem sempre os eliminam, por completo. Alguns poluentes
persistentes são compostos derivados de produtos narcóticos, como a cocaína; de
agroquímicos, como a atrazina; de cuidados pessoais, como os parabenos (conservantes
que impedem o crescimento de bactérias, de fungos e de bolor); e da indústria
alimentar, como a cafeína.
A
poluição da água configura uma das problemáticas mais urgentes, a nível
mundial. Cerca de 2,1 mil milhões de pessoas não acedem à água potável, de
forma segura, afetando a saúde e a economia. Na maioria dos países onde há
dados, as mulheres e as meninas assumem a responsabilidade principal de
recolher água em locais de grande stresse hídrico. Em regiões, como a África
Subsariana e a Ásia Central, muitas dedicam mais de 30 minutos diários a essa
tarefa, o que limita as oportunidades educativas e profissionais, aumentando a
disparidade socioeconómica e de género. E, se a água estiver poluída, a
exposição a doenças, como a cólera ou a hepatite A, torna-se sério perigo para
a vida. Essa é realidade cada vez mais frequente, já que, segundo a ONU, 80%
das águas residuais é despejada, sem tratamento, no meio ambiente, o que faz
com que grande quantidade da água que as pessoas consomem, nos países em vias
de desenvolvimento (PED) contenham resíduos altamente tóxicos.
Também
na alimentação, o impacto é direto. A agricultura depende de água limpa, para
regar culturas, para manter a qualidade do solo e para proteger a produção
pecuária. Se a água contiver poluentes ou não houver dela suficiente disponibilidade,
os rendimentos diminuem, as perdas aumentam e podem ser afetados os preços e a segurança
alimentar.
Em
setores, como o da energia, a poluição representa um grande problema económico.
A produção hidroelétrica e as grandes instalações elétricas dependem de grandes
fluxos de água limpa para os seus sistemas de refrigeração. Quando a água
disponível está poluída com sedimentos ou com matéria orgânica, a eficiência
termodinâmica das centrais reduz-se, drasticamente, e os custos de manutenção
disparam, afetando os preços do serviço. Paralelamente, o perigo do custo influencia
as cidades, já que o tratamento de água potável e de águas residuais exige
grande investimento em infraestruturas, em energia e em manutenção. À medida
que a poluição aumenta, os municípios devem dedicar mais recursos para
assegurarem o serviço, o que se traduz em maior gasto público e em menos
recursos para outras prioridades.
A
poluição da água afeta o meio ambiente, a vida diária, a economia e a
estabilidade social, a qual garante a todos a possibilidade das mesmas
oportunidades.
***
Fatores
naturais, como a filtração do mercúrio presente na crosta terrestre, podem
poluir os oceanos, rios, lagos, canais e represas. No entanto, o mais comum é
que a degradação da água seja causada pelas atividades humanas e pelas suas
consequências, a saber: o aumento da temperatura terrestre, devido às emissões
de dióxido de carbono (CO2), aquece a água e faz com que o seu nível
de oxigénio diminua; a desflorestação pode esgotar as fontes hídricas e gerar
resíduos orgânicos, que servem de terreno fértil para bactérias contaminantes;
os despejos de produtos químicos provenientes destes setores são uma das
principais causas da eutrofização da água; mais de 80% das águas residuais do Mundo
que chegam ao mar e aos rios não é tratada; grande parte dos plásticos que
poluem os oceanos provém de barcos de pesca, de petroleiros e de navios de
carga; o transporte e o armazenamento de petróleo e dos seus derivados podem
causar vazamentos que chegam às fontes de água.
A
deterioração da qualidade da água traz efeitos negativos ao meio ambiente, à
saúde e à economia global. De facto, quando a demanda biológica de oxigénio,
indicador do nível de contaminação orgânica da água, ultrapassa determinado
limite, o crescimento do produto interno bruto (PIB) das regiões localizadas
nas bacias hidrográficas pode cair até um terço.
A
poluição hídrica empobrece os ecossistemas aquáticos e facilita a proliferação
descontrolada de algas fitoplanctónicas nos lagos – processo conhecido como
eutrofização.
A
pesca em águas contaminadas e a utilização de águas residuais na pecuária e
agricultura, podem transmitir toxinas aos alimentos que prejudicam a saúde, ao
serem ingeridos. A ONU admite que ainda há vários milhares de de pessoas, no Mundo,
sem acesso à água potável e ao saneamento, especialmente, em áreas rurais. A
OMS estima que cerca de dois mil milhões de pessoas consomem água potável
contaminada por dejetos, expondo-se ao risco de contrair doenças, como cólera, disenteria
e hepatite. E, segundo a ONU, as doenças diarreicas vinculadas à falta de
higiene provocam a morte em cerca de mil crianças, por dia, em todo o Mundo.
A
poluição da água afeta tanto os países ricos como os pobres e a água poluída
tem efeitos daninhos na economia de países e regiões.
Quando
a demanda biológica de oxigénio aumenta, o PIB das regiões afetadas reduz-se 33,33%.
Os fertilizantes chegam a aumentar os casos de atraso no crescimento das
crianças, em 19%. A exposição aos nitratos, em idades precoces, afeta o
desenvolvimento e pode ser letal. O rendimento agrícola diminui, à medida que
aumenta a salinidade da água. A água salgada danifica, anualmente, alimentos
suficientes para abastecer 170 milhões de pessoas.
***
Segundo
um relatório da ONU, de 2026, hoje, 75% da Humanidade vive em zonas de escassez
ou de insegurança hídrica e, a cada ano, a crise se agrava. Por isso, devemos
adotar uma série de medidas para conter essa crise, desde logo, reduzir as
emissões de CO2.
Para
evitar o aquecimento global e a acidificação dos oceanos, devemos
reduzir o uso de pesticidas químicos e de nutrientes, em culturas agrícolas. É
também necessário reduzir e tratar as águas residuais, de forma segura, para
que, além de não poluírem, possam ser reutilizadas para irrigação e para produção
de energia.
É
preciso limitar o uso de plásticos de um só uso, que acabam por flutuar
em rios, em lagos e em oceanos, muitos deles na forma de microplásticos. E
há que promover a pesca sustentável, para garantir a sobrevivência das
espécies e evitar o esgotamento dos mares.
Governos,
cidadãos e empresas têm a responsabilidade para fazer ações conjuntas, para
proteger os ecossistemas e para realizar projetos que melhorem o bem-estar das
espécies marinhas, como o controlo da pesca de animais em risco de extinção. Paralelamente,
regulamentação mais rigorosa e controlo rigoroso dos despejos são a base para
reduzir a poluição.
Há
urgência de pesquisa e de tecnologias que melhorem o tratamento de águas
residuais. Por outro lado, a monitorização, em tempo real, com sensores
inteligentes, com telemetria e com plataformas de IoTm (Internet das
Coisas ou sistemas em nuvem que ligam dispositivos físicos a aplicações,
recolhem dados e gerem redes de sensores) permite detetar, instantaneamente, contaminação,
antecipar picos de carga e definir doses de tratamento, de modo eficiente. E a
economia circular da água, ao invés da abordagem linear (captar, usar e
descartar), propõe fechar o ciclo da água, minimizando o consumo de recursos
hídricos virgens, reduzindo a poluição e gerando valor agregado, a partir do
tratamento e da reutilização da água.
***
Cursos
e extensões de água doentes, lesam a Humanidade, a todos os níveis.
2026.10.05
– Louro de Carvalho