O
presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, garantiu, a 25 de outubro, na
segunda volta das eleições presidências (após ter sido vencido, na primeira volta,
por Flávio Bolsonaro), o regresso ao poder, ao conquistar a reeleição com a
vantagem de 4430191 votos sobre o adversário, alcançando 51,79% do total da
votação (64256232 votos), contra 48,21% (59826041 votos) de Bolsonaro. A taxa
de abstenção desceu, face à primeira volta, passando de 21% para 19%. E registaram-se
4153801 votos nulos.
O
Tribunal Superior Eleitoral (TSE) confirmou os resultados, que Bolsonaro
contesta.
O
Triunfo de Lula quebra, assim, a tendência regional de vitórias da direita
aliada do presidente dos Estados Unidos da América (EUA), Donald Trump, indicando
que a maior economia latino-americana continuará a desafiar as exigências do
ex-presidente, Jair Bolsonaro, apesar da pressão de tarifas mais altas. E o dirigente
de esquerda, de 81 anos, contrariou as previsões e assegurou um inédito quarto
mandato, travando a vaga conservadora que tem levado vários países
sul-americanos, como a Argentina, o Chile, a Colômbia e o Peru, a inclinarem-se
para a direita, com o persistente e pouco discreto apoio do presidente
norte-americano.
Flávio
Bolsonaro recusou-se, de imediato, a admitir a derrota e pediu a anulação dos
resultados eleitorais, após uma noite de caos em algumas secções de voto, na
sequência de uma decisão de última hora de prolongar a votação por duas horas,
a pedido dos dois candidatos.
Filho
do antigo presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro, o senador vê o pai a
cumprir uma pena de 27 anos de prisão, por tentar um golpe de Estado, após a
derrota frente a Lula nas últimas eleições, em 2022. Concretizada no assalto ao
Palácio dos Três Poderes.
Lula
da Silva solicitou o prolongamento da votação, depois de denunciar que
autocarros tinham sido retirados de circulação, em várias cidades, impedindo
cidadãos de votar. Por sua vez, Flávio Bolsonaro solicitou um prolongamento, em
algumas regiões, devido às chuvas intensas – o que foi autorizado pelo TSE, mas
o candidato derrotado classificou, depois, a decisão como “inaceitável” e uma
“manobra suja”. “É impossível reconhecer os resultados. Vou pedir a anulação
destas eleições”, afirmou, num breve discurso, em Brasília.
Após
a derrota na primeira volta, a esquerda mobilizou-se com grandes comícios, sob
o lema “Nunca mais Bolsonaro”, e reformulou a estratégia nas redes sociais.
Desde
1989, ano da primeira eleição direta, após o fim da ditadura militar, nenhum
candidato que perdera a primeira volta conseguiu vencer a segunda. “As pessoas
foram votar, porque conseguimos convencê-las de que votar era muito importante
para garantir a democracia no país”, afirmou Lula, nas primeiras declarações,
após a vitória, a qual levou a que fogo de artifício e vuvuzelas ecoassem no
Rio de Janeiro e milhares de pessoas vestidas de vermelho, a cor do Partido dos
Trabalhadores (PT) de Lula, saíssem às ruas de São Paulo, em festejo.
A
campanha de Lula apoiou-se, fortemente, no tema da soberania, face à pressão
comercial e diplomática dos EUA de Trump. “Ou a pátria permanece livre, ou
morremos pelo Brasil […] Este país não vai aceitar ser o quintal de ninguém”,
afirmou, dirigindo-se aos apoiantes.
No
Rio de Janeiro, carros buzinavam e uma mulher vestida de vermelho gritava a
quatro homens de amarelo e verde a beber cerveja, cores associadas a Bolsonaro:
“Perderam! Chorem mais!”. Um enorme clamor ecoou na rua quando o resultado foi
confirmado.
Lula,
que inicia o quarto mandato com quase metade do país a rejeitá-lo, em busca de
mudança, saiu da pobreza para chegar à presidência, em 2003, e foi reeleito, em
2006. Regressou, de forma dramática, ao cargo nas eleições de 2022, depois de
um escândalo de corrupção o ter levado à prisão por mais de 18 meses. As
acusações foram anuladas por motivos processuais. E, no terceiro mandato,
supervisionou a queda da inflação e do desemprego e tirou milhões da fome, mas
muitos eleitores mantinham-se pessimistas com o alto custo de vida e a
criminalidade.
Já
um dos líderes mais idosos do Mundo, Lula terá 85 anos no final do novo
mandato, em 2030. Nada que atrapalhe, já que o Brasil, além do presidente,
elege um vice-presidente, como nos EUA. A este respeito, é de recordar que
Tancredo Neves foi eleito, mas não chegou a tomar posse, devido a doença, pelo
que o cargo passou para o vice-presidente José Sarney.
***
A
Europa, sob o signo “a democracia venceu”, ficou satisfeita com a surpreendente
vitória de Lula da Silva, no Brasil. Assim, os dirigentes da União Europeia (UE)
saudaram a reeleição do presidente brasileiro para um quarto mandato,
contrariando previsões de uma vaga de direita no país mais populoso da América
Latina e garantindo um aliado-chave para a UE.
A
presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente do
Conselho Europeu, António Costa, estiveram entre os primeiros a felicitar Lula,
com quem trabalharam, de perto, para a conclusão do acordo comercial UE-Mercosul.
O
acordo, assinado em janeiro com o bloco comercial sul-americano que integra o Brasil,
a Argentina, o Paraguai e o Uruguai, foi visto como resposta às tarifas
punitivas do presidente norte-americano. Bruxelas receava que o rival de
direita de Lula, Flávio Bolsonaro, colocasse o acordo em risco, após ter
apelado a que o Brasil se libertasse dos “grilhões” do Mercosul e negociasse
acordos comerciais independentes, incluindo com os EUA.
“Parabéns
ao meu amigo Lula! […] A democracia e o multilateralismo venceram no Brasil. A
parceria da Europa com o Brasil está a florescer. Continuaremos ao seu lado,
nos próximos anos. […] Juntos continuaremos a trabalhar, de forma estreita, em
prol de um comércio livre e aberto, de uma ordem global baseada em regras e de
fortes ambições para o clima”, escreveu Ursula von der Leyen, nas redes
sociais. E António Costa falou com Lula, na noite do dia 25, para o felicitar
pessoalmente. “O povo brasileiro pronunciou-se. […] Continuaremos a trabalhar
em conjunto para aprofundar os nossos laços, enfrentar os desafios globais e
construir um mundo mais pacífico e próspero”, afirmou.
O
presidente francês, Emmanuel Macron, o primeiro-ministro neerlandês, Rob
Jetten, e o primeiro-ministro português, Luís Montenegro, juntaram-se às
mensagens de felicitação, bem com o Presidente português, António José Seguro,
que saudou a reeleição de Lula, em mensagem no site da Presidência: “O
Presidente António José Seguro expressa a vontade de continuar a colaborar com
o seu homólogo brasileiro no aprofundamento do relacionamento entre Portugal e
o Brasil, que não se esgota na vertente bilateral, mas se estende também ao
domínio multilateral, nomeadamente, na Comunidade dos Países de Língua
Portuguesa [CPLP] e no quadro da cooperação entre os Estados ibero-americanos”,
lê-se na declaração.
“Num
Mundo que permanece marcado por desafios que nenhum país pode enfrentar
sozinho, o Presidente da República expressa ainda o seu otimismo, quanto à
possibilidade de Portugal e o Brasil estreitarem a sua colaboração em prol de
causas globais, como o reforço da paz e da segurança, a defesa do direito
internacional e dos direitos humanos, bem como a promoção do desenvolvimento
sustentável, em particular no âmbito da Organização das Nações Unidas [ONU]”,
termina a mensagem de António José Seguro.
“Perante
os grandes desafios do nosso tempo, reforcemos a nossa parceria estratégica e
demos vida à amizade entre os nossos dois países ao serviço de um mundo mais
justo”, declarou Macron. E Pedro Sánchez, destacado dirigente de esquerda na
Europa, saudou a reeleição como “grande vitória” e estabeleceu um paralelo com
o seu país, onde a oposição conservadora lidera as sondagens, antes de eleições
antecipadas, no próximo mês. “O que aconteceu no Brasil acontecerá em Espanha. […]
O regresso do progressismo global acaba de começar”, afirmou.
As
reações europeias sucederam-se, à medida que os resultados mostravam Lula com a
vantagem de quase 4,4 milhões de votos sobre Bolsonaro, garantindo-lhe 51,8% dos
votos.
Bolsonaro,
cujo pai, Jair Bolsonaro, está na prisão, por ter liderado uma tentativa de
golpe de Estado, contestou a contagem e defende que a eleição deve ser anulada.
Efetivamente, na sua ótica, a decisão da justiça de prolongar o horário de
votação devido a atrasos nos transportes públicos e a chuvas torrenciais foi
uma “jogada suja”. E uma vitória sua, como muitas sondagens previam, teria
consolidado a viragem à direita da América Latina, após a administração Trump haver
tentado afirmar a sua influência na região, sob a “Doutrina Donroe”.
Donald
Trump é apontado como tendo aproximado a UE e o Brasil, à medida que ambos
procuravam parceiros fiáveis, num Mundo cada vez mais volátil. A UE e o Brasil
encontraram terreno comum em áreas que Trump colocou em causa, como o comércio
livre, a ordem multilateral e a ação climática, com foco na Amazónia. Persistem,
contudo, diferenças importantes, nomeadamente, quanto à invasão em grande
escala da Ucrânia pela Rússia. O Brasil, enquanto membro dos BRICS (aliança
intergovernamental composto por onze países de mercado emergente), mantém laços
estreitos com a Rússia.
***
Lula
contrariou um histórico desfavorável desde 1989, vencendo a segunda volta,
depois de perder a primeira. A vitória encerra mais um capítulo da trajetória
política de reveses, de regressos e de ascensão que o levou de operário
metalúrgico à Presidência.
Com
a derrota na primeira volta, Lula da Silva logrou uma histórica reviravolta para
ser reeleito, na segunda. Regressado, eleitoralmente, ao Palácio do Planalto,
de onde nem saiu, o líder do PT contrariou o histórico desfavorável. Desde
1989, ano em que o Brasil voltou a ter eleições presidenciais diretas,
estreando ainda o mecanismo de segunda volta, nunca tinha havido uma
reviravolta na corrida ao Planalto, na segunda volta. “Devo isso a vocês, eu
sempre acho que Deus foi muito generoso comigo, porque tem tanta gente mais
preparada que eu, tanta gente com mais diploma que eu, tanta gente que já leu
mais livros do que eu, tanta gente que já estudou mais do que eu”, afirmou, no
discurso de vitória,
Lula
superou-se. Já tinha perdido para a estatística, em anos anteriores, como em
1989, quando ficou 13,3% atrás do rival Fernando Collor de Mello, na primeira
volta das presidenciais, confirmando a derrota na segunda. De operário a
sindicalista, de sindicalista a político, de político a presidente. Nunca houve
impossíveis para Lula, que voltou a confirmar, com a reeleição, que a
adversidade não é sempre intransponível. “Depois de amanhã, dia 27, eu completo
81 anos de idade. E eu quero assumir um compromisso, na frente da imprensa e na
frente de vocês. Vou fazer o melhor mandato que um presidente já fez na História
deste país”, garantiu.
Sétimo
filho de um casal de agricultores analfabetos, Luiz Inácio Lula da Silva nasceu,
a 27 de outubro de 1945, na cidade de Garanhuns, em Pernambuco. Tinha sete anos,
quando rumou a São Paulo, com a família, e 14, quando foi admitido no curso
técnico de torneiro mecânico. Antes, já trabalhara como vendedor ambulante,
engraxador, ajudante de tinturaria e metalúrgico, profissão que exerceu e
defendeu, como sindicalista. “Lula”
começou por ser um hipocorístico e foi, mais tarde, incorporado no nome. Tornou-se
o paradigma do operário político: foi como sindicalista e líder das greves dos
metalúrgicos na região de São Paulo, durante a ditadura militar, que ficou
conhecido. De quando era operário metalúrgico ficou o acidente laboral que lhe
causou a perda de um dedo e valeu a alcunha de “nove dedos”, atribuída por
adversários.
Foram
as greves, que protagonizou, entre 1978 e 1980, que estiveram na origem da fundação
do PT, em 1980, que havia de emergir como o principal partido da esquerda
brasileira, após a democratização do país, no período 1985-88, com Lula como figura
cimeira. Este, candidato derrotado nas eleições de 1989, de 1994 e de 1998,
chegou à Presidência em 2002, exercendo dois mandatos. Foi o primeiro líder
sindical e operário a chegar ao Planalto.
Da
sua herança política, quase todos, pelo menos, os que o apoiam, destacam a
transformação de um país marcado pela pobreza extrema e pelo analfabetismo num
Brasil mais próspero e mais igualitário, através de medidas políticas sociais
como a introdução da “Bolsa Família”, em 2003, e a criação do programa “Fome
Zero”. E terminou o primeiro mandato com a aprovação de 57% e foi reeleito, em
2006, com mais de 58 milhões de votos, a maior votação da História do Brasil.
Os
resultados deram força à narrativa de Lula de que o Estado pode desempenhar
papel decisivo na redução da pobreza e da fome. Em 2014, já no governo de Dilma
Rousseff, sua sucessora política, o Brasil saiu do Mapa da Fome, da ONU, após significativa
redução da subalimentação. A evolução foi associada a um conjunto de políticas
sociais e económicas.
Politicamente,
surgiu como defensor do multilateralismo, da diplomacia e da ordem
internacional em que as decisões não sejam determinadas só pelo poder das
grandes potências. “A guerra não é a
continuação da política por outros meios. É a falência total da política. Num
mundo interdependente, liderar é conciliar os interesses da pátria com os da Humanidade”,
afirmou, a 22 de setembro de 2026, no seu discurso na 81.ª Assembleia Geral da
ONU.
Porém,
os escândalos de corrupção a envolver os nomes de Lula e do PT haveriam de
apanhá-lo, limitando-lhe, momentaneamente, a carreira política. Lula foi preso
em março de 2018, após ter sido condenado a nove anos de prisão, por ter, alegadamente,
recebido um apartamento em troca de favores políticos. Depois de 580 dias
detido, foi libertado em novembro de 2019, na sequência de uma mudança de
jurisprudência do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o momento a partir do
qual pode começar a execução de uma pena. E, em 2021, o STF anulou as
condenações do antigo presidente por considerar que o tribunal de Curitiba não
tinha competência para os julgar, permitindo ao fundador do PT o regresso à
corrida presidencial que venceu em 2022.
Lula
já não encontra o mesmo Brasil que governou nos anos 2000: o país continua polarizado,
o Congresso é dominado pelo centro-direita e o bolsonarismo mantém significativa
força eleitoral. Também esta vitória provoca sell-off nas bolsas. O índice
brasileiro Bovespa recua 16%, tocando 172 pontos (o nível mais baixo
desde 24 de agosto). E as perdas chegam à Europa.
Entre
as cotadas que compõem o índice, a banca é dos setores mais penalizados. Há perdas
agressivas no Banco do Brasil (28%) e no Itaú (16%). A Petrobras, a cotada
mais valiosa da bolsa brasileira, tomba 12%. Há quedas na Telefónica (mais de
5%) e no Santander (mais de 3%), cotadas na bolsa de Madrid, que têm grande
exposição ao mercado brasileiro. E o real também sofre: o dólar sobe 9%, contra
a moeda do Brasil, e o euro ganha quase 8,50%.
***
Os
investidores parecem não gostar da democracia político-social. Dá-lhes jeito o
autoritarismo musculado e repressivo. Porém, espera-se que o Lula e o seu staff
saibam contornar a situação financeira o escolho político que o Congresso lhes oferece.
2026.10.26
– Louro de Carvalho