Com
um resultado histórico, o Partido Democrático conquistou o controlo do
Congresso nas eleições intercalares dos Estados Unidos da América (EUA), a 3 de
novembro, constituindo um revés para Donald Trump e para o Partido Republicano.
Na noite da contagem dos votos, a maioria dos Estados pintou-se de azul, mesmo
em regiões tradicionalmente vermelhas. Os democratas garantiram 228 assentos na
Câmara dos Representantes, em 435, sendo necessários 218 para a maioria, e 54
no Senado, em 100, quando eram só necessários 51.
O
Partido Democrático assegurou, pelo menos, sete lugares no Senado, em estados
tradicionalmente republicanos e em disputas acirradas, incluindo o Kansas – que
não elegia um senador democrata, há quase um século – o Iowa, o Texas, o Ohio, o
Maine, a Carolina do Norte e a Carolina do Sul. Na Câmara dos Representantes,
os democratas conquistaram mais de duas dezenas de distritos. Destacou-se o
Michigan, com a eleição do democrata Abdul El-Sayed, um médico
egípcio-americano, que se tornou o primeiro muçulmano eleito para o Senado.
E
há outras vitórias expressivas: James Talarico foi o primeiro democrata, em 38
anos, a conseguir vaga no Senado pelo Texas; Adam Hamilton é o primeiro
democrata no Senado pelo Kansas, desde 1932; Troy Jackson, que pôs fim ao
mandato de 30 anos de Susas Collins, no Senado pelo Maine; na Carolina do Sul,
Annie Andrews derrotou a republicana Darline Graham, conseguindo uma vitória
que escapava aos democratas, desde o século passado, enquanto, no Ohio, o
antigo senador Sherrod Brown recuperou um lugar na câmara alta ao derrotar Jon
Husted; e Aaron Ford venceu a eleição para governador de Nevada e é o primeiro
governador afroamericano do Estado.
Também
foram realizadas eleições para governador, em 39 estados e territórios,
eleições para procurador-geral estadual e inúmeras eleições estaduais e locais.
E a vitória dos democratas estendeu-se às eleições para governadores estaduais,
com resultados significativos no Texas, onde Gina Hinojosa derrotou o
republicano Greg Abbott, e na Geórgia, onde Keisha Lance Bottoms se tornou a
primeira mulher negra eleita governadora de um estado norte-americano.
Numa
das suas primeiras reações, o presidente republicano afirmou estar “absolutamente
disposto a aceitar esses resultados” e a esperar “trabalhar” com os democratas;
e, noutro momento, considerou que a guerra no Irão foi, “parcialmente”,
responsável pela derrota do Partido Republicano nas eleições intercalares e
felicitou os democratas.
Já
o antigo presidente dos EUA, Barack Obama, saudou os resultados como uma clara
rejeição à política divisiva: “Esta noite, o povo americano enviou uma mensagem
clara: quer uma política que una as pessoas em vez de as dividir, e líderes que
ofereçam soluções concretas para os desafios que enfrentam.”
O
líder dos democratas no Senado, Chuck Schumer, saudou uma vitória que
considerou extraordinária e prometeu uma mudança nas prioridades políticas em
Washington. Com efeito, a dimensão da vitória, confirmada pelas projeções dos
principais órgãos de comunicação social dos EUA, superou as expectativas do
Partido Democrata, que recuperou o controlo do Senado e da Câmara dos
Representantes, até agora dominados pelos republicanos.
Os
resultados representam uma mudança profunda no equilíbrio político em
Washington e obrigarão Trump a enfrentar um Congresso controlado pela oposição,
nos últimos dois anos do seu mandato presidencial. Esta nova maioria permitirá
aos democratas controlar as comissões parlamentares, investigar a administração
presidencial e bloquear iniciativas legislativas republicanas, enquanto o
controlo do Senado lhes dará capacidade para travar nomeações presidenciais.
Contudo, Donald Trump será muito capaz de vetar os principais diplomas do
Congresso. E o seu veto só pode ser contornado por uma maioria de dois terços
em cada uma das câmaras, maioria que é muito difícil de conseguir.
A
insatisfação com o custo de vida, a proliferação de centros de dados, o
controlo generalizado dos cidadãos e das empresas pela inteligência artificial
(IA), a falência económica causada pelas tarifas, a guerra no Irão, os tiques
autoritários e as preocupações com a corrupção governamental estão entre os
principais fatores apontados para o resultado das eleições.
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Na
verdade, o período que antecedeu as eleições foi marcado pelo aumento da
inflação, no contexto da crise de acessibilidade económica, nos EUA, incluindo
aumentos nos preços dos combustíveis, dos serviços de saúde e dos alimentos,
com o Poder Executivo a aumentar a arrecadação federal através da imposição das
maiores elevações de impostos da História norte-americana, através de tarifas
comerciais. Outras preocupações compartilhadas pelos eleitores incluem a
perceção de corrupção e favorecimento pessoal; o retrocesso democrático; a desigualdade;
a vigilância em massa; e a política externa, incluindo a guerra entre os EUA e
o Irão, o aumento da tensão com aliados tradicionais, a proposta de aproximação
com a Rússia, o expansionismo coercitivo e a crescente rutura com a Igreja
Católica e Leão XIV.
A
Casa Branca alinhou-se ao Vale do Silício (região da baía de São Francisco onde
estão situadas várias empresas de alta tecnologia) e incentivou o
desenvolvimento da superinteligência artificial (ASI), o que suscitou uma
reação pública contra a perspetiva de futuras perdas de empregos causadas pela inteligência
artificial geral (AGI), a construção de centros de dados, os impactos
ambientais e o risco existencial representado pela ASI. Houve, ainda, a alteração
de nomes de locais históricos para se alinharem com a ideologia nacionalista
trumpiana, como o Lago Ontário para Lago da América e o do Golfo do México para
Golfo da América, o que membros do Partido Democrata classificaram como
distração.
As
eleições também ocorreram no contexto de investigações federais sobre a eleição
presidencial de 2020 e sobre os esforços de registo de eleitores, incluindo a
apreensão de cédulas num centro eleitoral do Condado de Fulton, na Geórgia, e
uma busca do FBI (Departamento Federal de Investigação) nos escritórios da Ohio
Organizing Collaborative, uma organização de registo de eleitores –
investigação que especialistas em eleições e autoridades democratas
caraterizaram como tentativas de intimidar funcionários eleitorais e eleitores,
mas que o Departamento de Justiça afirma terem sido autorizadas judicialmente.
Trump
pediu aos estados governados por republicanos que fizessem um raro redesenho
dos distritos eleitorais, para aumentar as hipóteses de o seu partido
permanecer no poder. Isso concitou uma reação similar por meio de novos redesenhos
eleitorais. Em abril de 2026, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, no caso
Louisiana versus Callais, que algumas normas da Lei dos Direito de Voto,
de 1965, são inconstitucionais. O governo Trump utilizou milhões de dólares dos
contribuintes para financiar anúncios eleitorais republicanos, embora tenha,
depois, passado a utilizar recursos provenientes do seu supercomité de ação
política (super PAC).
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Os
preços elevados pesaram muito na decisão dos eleitores. Cerca de dois terços
disseram, num inquérito feito no dia da votação, que as tarifas prejudicaram a
economia. O presidente afirmou que aceitaria os resultados, que disse não ver
como um ataque contra si. Porém, deixou claro que tencionava usar o veto para
travar a agenda dos democratas, publicando uma fotografia de um boné vermelho
com a palavra “VETO” bordada, e declarou ao New York Times que estava
disposto a trabalhar com os democratas.
Provavelmente,
o Congresso não acabará com as tarifas, porque já não dependem deste órgão.
Após o STF ter anulado, em fevereiro, as suas tarifas de emergência, a
administração passou‑as para a Secção 301 da legislação comercial norte‑americana,
mecanismo que permite ao presidente agir sem votação dos congressistas. E James
Smith, economista de mercados desenvolvidos no banco holandês ING, considera
que uma Washington dividida pode até levar o presidente a recorrer mais a esse
instrumento. “Tal como a política externa, o comércio é outro poder que o
presidente pode exercer de forma unilateral, sem o Congresso”, escreveu Smith, em
nota divulgada antes da votação, admitindo que surjam novas tarifas dirigidas à
Europa, que podem ter grande impacto na inflação dos EUA e na Reserva Federal
(FED).
Os
democratas presidirão às comissões do Senado e decidirão quais dos nomeados de
Trump serão confirmados, quando o novo Congresso entrar em funções, em janeiro.
E muitos querem aprovar novos fundos para a Ucrânia. Porém, o mais difícil é
garantir que esse dinheiro seja, de facto, gasto, pois, nos últimos dois anos,
a Casa Branca tem cancelado verbas aprovadas pelo Congresso, retendo‑as até ao
final do ano fiscal, altura em que expiram.
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Após
um início nervoso, as bolsas europeias inverteram a tendência e passaram a
negociar em alta. Às 10h00 CET, o Euro Stoxx 50 subia 0,8% e o DAX alemão 0,6%,
enquanto o IBEX 35 espanhol avançava 1,6%. Os futuros sobre as ações norte‑americanas
também recuperaram, com os contratos sobre o S&P 500 a ganharem 0,2%.
As
instituições financeiras lideraram os ganhos, à medida que os investidores
voltaram a apostar em bancos centrados nos respetivos mercados domésticos. O
Deutsche Bank subiu 3,6%, o Intesa Sanpaolo 3,3%, o Commerzbank e o Société
Générale 3,1%, cada, enquanto o Santander e o UniCredit avançaram 3%. As
empresas de energias limpas, penalizadas pelas políticas de Trump, também
recuperaram. A dinamarquesa Ørsted, desenvolvedora de parques eólicos, disparou
7,3%, e o fabricante de turbinas Vestas ganhou 5,2%.
Porém,
as ações do setor da defesa seguiram no sentido oposto. Os investidores receiam
que um Congresso democrata trave a subida da despesa militar dos EUA, que Trump
tem defendido, e muitos fabricantes europeus de armamento fornecem as forças
armadas norte‑americanas. A BAE Systems recuou 5,2%, a Hensoldt 4,9%, a Thales
4,5%, a Saab 3,8%, a Rheinmetall 3,2%, a Dassault Aviation 2,8% e a Leonardo
2,7%.
Os
metais preciosos estiveram entre os principais vencedores. O ouro avançou 2,7%,
para 4035 dólares, por onça, regressando acima dos quatro mil dólares, e a
prata valorizou 4%, para 51,76 dólares. O euro apreciou‑se 0,5%, para 1,1247
dólares, à medida que o dólar se enfraquecia, face às restantes grandes moedas.
As obrigações do Tesouro dos EUA também valorizaram. A yield das Treasuries, a
10 anos, desceu 3,7 pontos base, para 4,93%, a das notas, a dois anos, para
4,61% e a das obrigações, a 30 anos, para 5,30%. A taxa das Bunds alemãs a 10
anos pouco se alterou, situando‑se em 3,33%. O bitcoin subiu 1,3%, para cerca
de 78300 dólares, e o Brent negociou perto dos 104 dólares, por barril.
Os
mercados, geralmente, apreciam esse cenário. Quando a Casa Branca e o Congresso
estão em desacordo, aprovam‑se menos grandes leis, o que significa menos
surpresas.
A
História também favorece os detentores de obrigações. Nos três meses após
anteriores eleições intercalares, as yields das Treasuries a 10 anos caíram, em
média, entre 20 e 25 pontos base, segundo Luca Bindelli, responsável de
estratégia de investimento no banco privado suíço Lombard Odier. E Ed Yardeni,
presidente da Yardeni Research, mostrou‑se cauteloso, ao considerar: “Wall
Street, tradicionalmente, recebe bem o bloqueio político, porque reduz a
probabilidade de o Congresso aprovar legislação extremista. Mas, desta vez pode
ser diferente.”
A
preocupação é o teto da dívida, o limite legal ao montante que o governo dos EUA
pode contrair empréstimos. Uma Washington dividida terá de chegar a acordo para
o aumentar, e uma disputa prolongada poderá fazer subir, em vez de descer, os
custos de financiamento.
O
euro enfrenta os seus problemas. Os preços da energia permanecem elevados, em
grande medida, devido à guerra com o Irão, o ING espera que a inflação da Zona Euro
se mantenha em pelos 4%, e os investidores exigem prémio maior para deterem
obrigações do Estado francês. E, na Ásia, as ações tecnológicas lideraram as
quedas, enquanto investidores avaliavam uma regulamentação mais rígida da IA e
o impasse político em Washington.
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Caíram
as ações, no dia 3, enquanto os mercados mundiais acompanhavam os resultados
das eleições intercalares nos EUA. No início da manhã, na Europa, segundo a Associated
Press (AP), os democratas tinham conquistado o controlo do Senado e
estavam em vias de ganhar a Câmara dos Representantes. As preocupações dos
eleitores com o custo de vida, incluindo os preços elevados da gasolina e do
gasóleo, ajudaram a impulsionar os ganhos democratas. A oposição aos centros de
dados também esteve presente em algumas campanhas, incluindo a corrida ao Senado,
em Ohio, onde o republicano Jon Husted perdeu para o democrata Sherrod Brown.
Esta
mudança poderá ter implicações para o boom da IA. Alguns investidores em
Wall Street receiam que uma vitória democrata alargada no Congresso leve a mais
regulamentação e a mais restrições ao desenvolvimento da IA.
Além
do futuro da expansão dos centros de dados de IA, o resultado eleitoral pode
ter amplas implicações em áreas sensíveis para os mercados, incluindo as
perspetivas fiscais dos EUA, a despesa em defesa e a regulamentação da saúde,
da banca e das criptomoedas. Contudo, uma governação federal dividida pode não
trazer a mudança que os eleitores procuravam. Embora uma vitória democrata desfira
forte golpe na agenda de Trump para os seus dois últimos anos na Casa Branca, o
presidente ameaçou com o veto para bloquear legislação democrata.
Alguns
analistas advertiram que isso pode significar que pouco será feito em
Washington, nesse período. “O controlo democrata do Congresso aumentaria o
potencial de bloqueio legislativo, de confrontos orçamentais, de disputas sobre
o teto da dívida e de investigações no Congresso”, afirmou Chris Weston, da
Pepperstone, citado pela AFP, acrescentando que “o presidente manteria
uma autoridade executiva considerável, pelo que as implicações para setores
individuais estão longe de ser claras”.
A
incerteza pressionou as bolsas e o dólar, que se enfraqueceu, face às
principais moedas.
Os
futuros que acompanham os principais índices acionistas europeus desciam entre
0,3% e 0,5%, às 06h00 CET, enquanto os futuros do Euro STOXX 50 recuavam 0,7%. O
euro negociava a 1,1249 dólares, enquanto a libra subia 0,4% para 1,3460
dólares, o dólar descia para 157,63 yuan, face ao iene japonês. As yields das
obrigações recuaram ligeiramente, com o rendimento da Bund alemã, a 10 anos, a
negociar em 3,35%, no início da manhã europeia, e o da OAT francesa a 10 anos
em 4,93%. A yield da Treasury norte-americana, a 10 anos, inverteu a queda
anterior, voltando a subir para cerca de 4,945%, às 06h00 CET.
As
ações asiáticas caíram com o dólar, no dia 4, com Tóquio a descer 2,85%, enquanto
o iene se fortalecia, face à nota verde, penalizando os exportadores. E houve perdas
em Xangai, em Sydney, em Seul, em Singapura e em Taipé, enquanto Hong Kong
avançava ligeiramente.
As
coisas passaram a ficar mais equilibradas a partir das 10 horas do dia 4.
***
As
eleições intercalares corresponderam às expectativas dos democratas e ate as
superaram, o que pode trazer algum alívio à situação global do Mundo, ainda que
a suprema autoridade do Irão esteja muito cética em relação a isso. Fico sem perceber
se o mercado bolsista gostou ou não da mudança política. É pena que os mercados
estrebuchem com as opções do povo.
2026.11.05
– Louro de Carvalho