A
Federação Nacional da Educação (FNE) tomou conhecimento, a 11 de julho, da nota
informativa do Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI), na qual é
anunciado que os professores-classificadores serão compensados, com o pagamento
de horas extraordinárias, pelo trabalho realizado durante o fim de semana de 10
a 12 de julho, pelo esforço suplementar exigido para cumprir os prazos
estabelecidos no calendário da avaliação externa.
A
FNE sustenta que todo o trabalho extraordinário deve ser devidamente
remunerado. Os professores-classificadores foram chamados a responder com
enorme profissionalismo [travado por inúmeros escolhos], disponibilidade e
sentido de responsabilidade a uma situação de vários constrangimentos, de alterações
de procedimentos, de pressão sobre prazos e de trabalho acrescido. Porém, o
pagamento de horas extraordinárias não é um reconhecimento excecional, mas o
cumprimento da obrigação decorrente da prestação de trabalho fora do horário. Por
isso, apresentar o seu pagamento como forma especial de reconhecimento pelo
esforço desenvolvido suscita interrogações. O reconhecimento não pode
limitar-se ao pagamento do que é devido: é também – e sobretudo – criar
condições adequadas de trabalho, planear com rigor, garantir sistemas fiáveis,
prevenir situações de sobrecarga de trabalho e assumir responsabilidades, se tais
condições não são asseguradas.
É
de reconhecer o extraordinário esforço dos professores-classificadores, mas sem
ignorar os restantes profissionais que, nas escolas e em outras estruturas
envolvidas, garantem o funcionamento de todo o processo dos exames nacionais. E
isso não se reduz a um fim de semana.
Na
impossibilidade de, no caos da situação criada, se apurar o efetivo trabalho
extraordinário em torno dos exames, em minha opinião, seria de pensar, por
exemplo, em pagar, por exemplo, 20 horas extraordinárias a todos os diretamente
envolvidos no trabalho de exames, mesmo os que estiveram disponíveis e não lhes
chegaram provas, sem os avisarem, pelo sempre tentaram. Pagar só a quem,
supostamente trabalhou no último fim de semana parece gozo.
Como
aponta a FNE, “os problemas verificados na implementação do processo de
classificação digital tiveram consequências que ultrapassaram largamente o
trabalho dos classificadores”, obrigaram à reorganização de procedimentos e
calendários, prolongaram prazos, aumentaram a pressão sobre as escolas e
agravaram, significativamente, a carga de trabalho de muitos profissionais,
incluindo alguns assistentes técnicos.
Por
isso, a FNE julga necessário não reduzir a discussão ao trabalho realizado num
determinado fim de semana, pois o trabalho de classificação das provas de
avaliação externa é, por natureza, tarefa de enorme exigência e
responsabilidade, independentemente de ser realizado em dia útil, à noite, ao
sábado ou ao domingo. E devo acrescentar que muitos professores-classificadores
integram o elenco dos vigilantes de sala de exame.
Os
professores-classificadores assumem uma função específica, especializada e de
elevada responsabilidade, que exige concentração, rigor, domínio científico e
pedagógico, cumprimento de critérios e capacidade para tomar decisões, com efeitos
diretos na vida escolar e académica dos alunos. Esse trabalho não é exigente, só
quando é feito ao fim de semana, mas sempre. É, pois, necessário, segundo a
FNE, discutir, de forma séria, as condições em que o trabalho de classificação
é realizado, a sua compatibilização com as restantes obrigações dos docentes,
os prazos definidos e o reconhecimento efetivo duma responsabilidade que não
pode ser tratada como simples extensão da atividade profissional quotidiana.
Além
disso, os constrangimentos ocorridos suscitam perguntas que não podem ficar sem
resposta: “De quem é a responsabilidade pelas falhas verificadas? Foram
devidamente avaliados os riscos associados à implementação do modelo? Existiram
mecanismos de contingência suficientemente robustos? Foram ouvidos e
envolvidos, em tempo útil, os profissionais que conhecem o funcionamento real
das escolas, da avaliação e dos exames?”
Os
profissionais envolvidos não podem ser transformados nos responsáveis por
resolver, com mais horas de trabalho e com maior disponibilidade e sacrifício
pessoal, problemas cuja origem não lhes é imputável. E foi por terem respondido
com profissionalismo e com sentido de responsabilidade que o processo pôde
continuar. Todavia, o empenho dos profissionais não pode servir para ocultar falta
de planeamento, de organização, de implementação ou de comunicação, nem pode ser
mecanismo de compensação das insuficiências do sistema.
Admite
a FNE que, na polémica em torno dos exames, o modelo adotado, a forma de
implementação, a preparação do processo, os sistemas utilizados ou a capacidade
de resposta, ante as dificuldades podem ter falhado”, mas não se pode culpar o
digital, sob pena de falhar o diagnóstico, pois o digital é bem-vindo, mas inteligente
e adequadamente.
A
tecnologia não é o problema: “deve ser utilizada para melhorar processos,
aumentar a eficiência, reduzir tarefas burocráticas e facilitar o trabalho”. O
problema ocorre, quando a transformação digital não é acompanhada de
planeamento rigoroso, de testes adequados, de sistemas robustos, de formação, de
apoio técnico, de mecanismos de contingência e de envolvimento efetivo dos que
vão utilizar os sistemas. Digitalizar um processo não significa apenas
substituir o papel pelo ecrã, mas “repensar procedimentos, antecipar riscos,
garantir condições de funcionamento e colocar a tecnologia ao serviço das
pessoas, e não obrigar as pessoas a compensar as fragilidades da tecnologia ou
da sua implementação”.
A
FNE considera ainda uma dimensão que não pode ser ignorada: os professores
têm de estar mais presentes na explicação pública sobre o que significa avaliar,
pois, quando a discussão pública sobre avaliação se reduz a plataformas, a classificações,
a prazos, a médias e a números, perde-se parte essencial da realidade
educativa. A meu ver, nunca se deve perder a vertente holística da avaliação,
sob pena de estarmos a avaliar com folha Excel. Sem a voz dos professores,
corre-se o risco de empolar episódios, de simplificar problemas complexos e de transmitir
à sociedade uma imagem errada do trabalho desenvolvido nas escolas.
Os
exames nacionais são uma componente do sistema de avaliação, mas não esgotam o múnus
da avaliação educativa. E os professores não podem ser chamados só para
executar procedimentos ou para colmatar falhas: “têm de ser ouvidos na
conceção, na organização, na implementação e na avaliação das políticas
educativas”.
Por
fim, esta situação demonstra o que se tem vindo a denunciar: o tempo real
de trabalho dos professores ultrapassa sistematicamente os limites formalmente
estabelecidos. O trabalho além do horário não começou agora. Não acontece
apenas num fim de semana e por causa dos exames nacionais. Ao longo de todo o
ano letivo, milhares de professores prolongam, diariamente, a sua atividade
profissional para lá do horário formal, à noite, ao fim de semana. Preparam
aulas, corrigem trabalhos e provas, elaboram materiais, fazem avaliações,
preenchem plataformas, respondem a solicitações, participam em reuniões,
desenvolvem projetos e cumprem uma enormidade de tarefas burocráticas. O tempo
real de trabalho ultrapassa as 50 horas semanais, mas, porque invisível, não é
contabilizado e remunerado.
Por
isso, se o MECI reconhece que o trabalho realizado ao fim de semana, para
assegurar o calendário de exames, deve ser considerado e remunerado como
trabalho extraordinário, então deve abrir à reflexão mais ampla e consequente
sobre todo o tempo de trabalho docente que, ao longo do ano, é realizado
para lá dos limites legal e humanamente aceitáveis. Com efeito, não pode haver
reconhecimento, só quando o problema se torna público.
Por
conseguinte, a FNE exige que esta situação não seja tratada como episódio
isolado, mas que se retirem consequências, se apurem responsabilidades, se avaliem
os procedimentos adotados e se garanta que os problemas ocorridos não se
repetem. Por outro lado, é necessário reconhecer uma realidade
estrutural: a Educação não pode depender da disponibilidade ilimitada dos
seus profissionais. O reconhecimento não se faz só com agradecimentos, mas,
sobretudo, com respeito pelo tempo de trabalho, com a criação de condições para
o exercício profissional, com planeamento e com organização, com a participação
de quem conhece e faz a escola, diariamente, e com a garantia de que todo o
trabalho é contabilizado e valorizado.
***
Em
conferência de imprensa, a 8 de julho, a Federação Nacional dos Professores (FENPROF)
considerou que o caos, que “podia ter sido evitado”. Tem origem “nas opções
políticas que fragilizaram a Administração Educativa” e tendo as escolas e os
professores cumprido o seu dever, “cabe ao governo e ao ministro da Educação
assumirem as suas responsabilidades”. E, porque tem sido constante o desrespeito
para com os professores, sobretudo, neste processo, esta organização sindical lançou
um abaixo-assinado de protesto, pelas graves deficiências do processo
de classificação dos exames nacionais e pelos seus efeitos.
Segundo
a FENPROF, estes problemas não constituem surpresa, antes “são a face visível
da brutal demolição das estruturas e serviços do MECI, opção política do
governo imposta e iniciada no verão de 2025, redundando no desmantelamento da
Administração Educativa, sob a capa de “reforma da Educação, como um processo
de modernização e simplificação da Administração Educativa”. Porém, a FENPROF logo
avisou que o desmantelamento de serviços, substituídos por institutos públicos,
a concentração de estruturas e responsabilidades, a redução da capacidade
técnica do MECI e a transformação administrativa e digital sem planeamento e
colaboração dos envolvidos, no quadro de perigosa economia de meios –
desprezando o conhecimento e a experiência de que dispunham – comprometeriam o
sistema educativo.
A
Educação não pode ser gerida em lógica meramente administrativa ou financeira.
Uma Administração Educativa forte, qualificada e próxima das escolas é indispensável
condição de garantia do funcionamento do sistema educativo, da qualidade do
serviço público de educação e da igualdade de oportunidades. Ora, o caos
verificado no processo dos exames mostra que o enfraquecimento da Administração
Educativa tem consequências. E os maiores prejudicados são os alunos e as suas
famílias, que têm direito a viver processos, como os dos exames, com confiança
e sem ansiedades evitáveis.
Face
à gravidade da situação, o governo não pode invocar dificuldades técnicas ou
informáticas, tem de assumir a responsabilidade política, explicar as razões
que levaram ao falhanço, garantir que nenhum aluno será prejudicado e rever a
eficiência do mecanismo.
Diz
a FENPROF que os factos mostram que os alertas feitos não eram alarmismo, mas resultaram
de análise fundamentada das consequências previsíveis da reforma administrativa
mal concebida e erradamente orientada. Por isso, o que está em causa não é só o
mau funcionamento dos exames nacionais, mas a capacidade de o Estado garantir
uma escola pública de qualidade, capaz de responder às necessidades dos alunos,
dos professores e das comunidades educativas. Perante a situação existente, o
MECI não pode diluir as responsabilidades, nem as transferir para as escolas ou
para outros intervenientes. Com efeito, as escolas, as direções, os professores
e os restantes trabalhadores da educação fizeram o que sempre fazem: “responderam
com profissionalismo, procuraram encontrar soluções para problemas que não
criaram e tudo fizeram para minimizar os prejuízos causados aos alunos”.
As
responsabilidades pelo caos vivido “são responsabilidades políticas de quem
decidiu avançar com uma profunda reorganização/desorganização da Administração
Educativa, sem garantir as condições humanas, técnicas e organizacionais
indispensáveis ao seu funcionamento, antes desbaratando-as, dispensando
trabalhadores e extinguindo serviços, com décadas de provas dadas e de
reconhecida competência e credibilidade”. Por isso, o MECI tem obrigação de apresentar,
com urgência, soluções que garantam que nenhum aluno será prejudicado na
avaliação e no acesso ao ensino superior. E o governo deve proceder a “uma
avaliação rigorosa da reforma da Administração Educativa” e à “reversão das
opções que conduziram ao enfraquecimento dos serviços públicos de educação”. O
que aconteceu não é um acaso, mas consequência de uma política que desvalorizou
a capacidade de intervenção do MECI.
A
FENPROF denuncia também a insensatez de outras reformas iminentes na área
educativa, como o estatuto do diretor, o novo diploma da gestão e administração
escolar, a revisão do Decreto-Lei n.º 54/2018, de 6 de julho, e a revisão do
Estatuto da Carreira Docente.
Porém,
ainda em relação aos exames, critica o comportamento de Fernando Alexandre, a
sua postura errática e o passa-culpas permanente, pois, ante os relatos de
atrasos e erros no envio dos itens denunciados pelos professores
classificadores, classificava-os de falsos; ante convocatórias indevidas de
classificadores, afirmava que a responsabilidade era das escolas; ante o
prejuízo do período de férias de alunos e famílias, reputou de imprudência a
marcação de férias pelas famílias. Ora, segundo a FENPROF, num Estado
democrático, a responsabilidade política existe para responder perante
situações desta natureza. E, quando um governante acumula decisões erradas, apesar
de sucessivos alertas, quando os problemas se repetem e quando, ante o
fracasso, procura desvalorizar factos ou transferir responsabilidades para
outros, “deixa de reunir condições políticas para continuar a exercer funções”.
Por
tudo isto, a 11 de julho, a FENPROF anunciou que vai apresentar, a 17 de julho,
queixa na Procuradoria-Geral da República a exigir a abertura de um inquérito e
o apuramento de responsabilidades, relativamente à fiabilidade, à segurança e
credibilidade da plataforma e aos procedimentos adotados de classificação dos
exames nacionais do ensino secundário, tendo em conta a gravidade e a dimensão
dos erros reportados.
Com
efeito, na sua ótica, não é o anúncio do pagamento de horas extraordinárias,
mesmo devido, que resolve o sufoco que se abateu sobre os docentes, nem pode
ser recebido como prémio. Aliás, critica-se o facto de o anúncio ter sido feito
por um dirigente partidário, e não por um membro do governo. Por outro lado,
esta organização sindical sustenta que “a aflição em que o MECI se encontra
abriu uma brecha no desinteresse revelado por estas questões”. E avisa que a
conclusão da classificação dos exames não traz o fim da pressão sobre os
docentes, porquanto segue-se o período de apresentação dos pedidos de
reapreciação das provas, potencialmente inúmeros, face ao desnorte verificado,
cuja aceitação pelos professores classificadores designados é obrigatória. Assim,
muitos docentes ficarão sujeitos a mais tarefas e responsabilidades, podendo
ver adiado, mais uma vez, ou diminuído o gozo de férias, ao arrepio das
determinações legais, a não ser que o ano letivo comece mais tarde, o que
prejudicará os alunos.
***
As
organizações sindicais não podem ser acusadas de se pronunciarem sobre matérias
que vão além das questões laborais. Com efeito, más políticas públicas e
insatisfação dos cidadãos e das famílias abatem-se sobre o universo laboral e
prejudicam o objetivo do trabalho, o que é claramente visível na área educativa.
Por isso, o governo deve estar atento.
2026.07.12 – Louro de Carvalho