Esta
solenidade celebra o facto de Jesus ressuscitado acolher a sua mãe na glória do
Céu. Com efeito, Jesus vivo, glorificado à direita do Pai, põe sobre a cabeça
da sua e nossa mãe a coroa de doze estrelas de que fala o Livro do
Apocalipse.
Pela
sua humidade e disponibilidade para o desígnio de Deus, ao ser elevada ao Céu,
em corpo e alma, após o cumprimento da sua missão terrena, Maria tornou-se a
primeira criatura a alcançar a plenitude da Salvação. É a consequência da sua
maternidade divina: a Mãe de Deus não podia passar pela corrupção sepulcral. E
é fruto da íntima relação com Cristo, pela qual participou no mistério do
Cristo morto, ressuscitado e catapultado à gloria de Deus.
Este
privilégio mariano é corolário da sua imaculada conceição e da sua perpétua
virgindade, que assinala a singularidade da encarnação do Verbo de Deus, assim
como precede o triunfo da Igreja, quando, juntamente com a Humanidade, atingir
a plenitude da glória. Assim a assunção de Maria, o garante de que o homem se
salvará inteiro, é penhor seguro de que o homem triunfará da morte. Nestes
termos, a mãe de Jesus é sinal de esperança e de alegria para o Povo de Deus
que peregrina pela Terra, em demanda da pátria definitiva.
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A
primeira leitura (Ap 11,19a;12,1-6a.10ab) apresenta-nos Maria, imagem da
Igreja, pois, como Ela, a Igreja gera, na dor, o Mundo novo e participa na
vitória de Cristo sobre o Mal. As visões do Apocalipse, expressas em linguagem
codificada, revelam que Deus arranca os fiéis de todas as formas de morte. Por
transposição, a visão o sinal grandioso é ser aplicável a Maria.
O
livro foi composto no ambiente das perseguições que se abatiam sobre a jovem
Igreja, ainda tão frágil. Na linguagem do profeta cristão, os animais
terrificantes designam os perseguidores. A Mulher representa a Igreja, novo
Israel, de que Maria é imagem e protótipo, o que é sugerido pelo número 12 (as
estrelas). O seu nascimento é o do batismo que deve dar à Terra nova Humanidade.
O Dragão, o perseguidor, põe tudo em ação para destruir este recém-nascido. Mas
o destruidor não tem a última palavra, pois o poder de Deus em ação protege o
seu Filho.
A
mulher que deu à luz o seu filho e se retirou para o deserto é imagem da Igreja,
incompreendida e perseguida, mas salva pela compaixão de Deus; e de Maria, que
se retirou para o deserto do silêncio e do encontro com Deus, para reaparecer,
sempre que é necessário intervir para interceder por nós junto de Jesus (“eles
não têm vinho”) e para ser missionária de Jesus junto de nós (“fazei tudo o que
Ele disser”).
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Na
segunda leitura (1Cor 15,20-27), surge Cristo o novo Adão, que faz da
Virgem Maria uma nova Eva, sinal de esperança para todos os homens.
O
apóstolo não evoca, explicitamente, Maria, mas a proclamação desta perícopa na
Assunção mostra que a Igreja vê o lugar eminente da Mãe de Deus no grande
movimento da ressurreição. Com efeito, se às primícias se seguem os frutos da
colheita, à Ressurreição de Cristo seguir-se-á a nossa. Ele é o vencedor da
morte, mas só o pode ser, vencendo-a em todos os seus, em todo o seu Povo. Ora,
Maria é o primeiro elemento do Povo de Deus e, pela assunção, tornou-se primícias
(em regime de participação com Jesus) de todos os ressuscitados.
Dizer
que os corpos ressuscitam ou que Maria foi assunta em corpo e alma que dizer
que o homem se salva inteiro, e não apenas pela alma.
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O
Evangelho (Lc 1,39-56) mostra-nos Maria, a mãe dos crentes, cheia do
Espírito Santo, a primeira a encontrar as palavras proféticas da fé e da
esperança: “Doravante todas as gerações A chamarão bem-aventurada!”
A
vinda do Messias é a grande obra de Deus, pela qual Ele cumpre o seu desígnio
de salvação, cuja concretização se começa a realizar pela encarnação do Verbo
no seio de Maria, a que Ela assentiu. Por isso, Isabel a reconhece e proclama
“bendita entre as mulheres”, pois, pela sua maternidade virginal, supera todas
as mulheres; e, consequentemente, proclama bendito o filho de Maria, que está
na origem de tudo isto, com o Pai e o Espírito Santo.
O
cântico de Maria explana o programa que Deus tinha começado a realizar desde o
começo, que prosseguiu em Maria e que cumpre, agora, na Igreja, para todos os
tempos. Pela Visitação que teve lugar na Judeia, Maria levava Jesus pelos
caminhos da Terra. Pela Dormição e pela Assunção, é Jesus que leva a mãe pelos
caminhos celestes, para o templo eterno, para a Visitação definitiva. Nesta solenidade,
com Maria, proclamamos a obra grandiosa de Deus, que chama a Humanidade a
juntar-se a Ele pelo caminho da ressurreição. Em Maria, Ele já realizou a sua
obra na totalidade; e, com Ela, proclamamos: “Dispersou os soberbos, exaltou os
humildes.” Os humildes são os que creem no cumprimento da palavra de Deus e se
põem a caminho, os que acolhem até ao mais íntimo do ser a Vida nova, Cristo,
para o levar ao nosso Mundo. Deus debruça-se sobre eles e cumpre neles
maravilhas. Assim, a Assunção é forte apelo à celebração da Páscoa, alimentados
do pão ázimo da pureza e da verdade e cultivando a afeição às coisas do Alto.
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É,
pois, com disposição pascal que proclamamos bendita a Virgem Maria, prefigurada
na esposa veterotestamentária do rei. Ela tem os favores de Deus e está
associada, para sempre, à glória do seu Filho (primogénito: a seguir, vimos
nós):
“À
vossa direita, Senhor, a Rainha do Céu, ornada do ouro mais fino.”
“Ao
vosso encontro vêm filhas de reis, / à vossa direita está a rainha, ornada com
ouro de Ofir.
“Ouve,
minha filha, vê e presta atenção, / esquece o teu povo e a casa de teu pai.
“Da
tua beleza se enamora o Rei; / Ele é o teu Senhor, presta-Lhe homenagem.
“Cheias
de entusiasmo e alegria, / entram no palácio do Rei” (salmo responsorial).
“Aleluia.
Aleluia. Maria foi elevada ao Céu; / alegra-se a multidão dos Anjos” (aclamação
ao Evangelho).
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Na
homilia missa da solenidade, na paróquia São Tomás de Villanova, em Castel
Gandolfo, Leão XIV frisou que o Magistério da Igreja ensina que “Maria,
terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória
celestial” (Pio XII, Constituição Apostólica Munificentissimus Deus, de
1 de novembro de 1950, que proclamou este dogma) e nos indica, neste Mistério,
o cumprimento da plenitude da graça que Deus Lhe concedeu na Imaculada
Conceição. Por isso, muitas obras de arte A retratam, no fim da sua vida
terrena, como jovem belíssima que se eleva, fisicamente, da Terra ao Céu, inspiradas
na cena do Livro do Apocalipse: “Uma Mulher vestida de Sol, com a Lua
debaixo dos pés”. Quer dizer que, “no coração de Maria, se encontram o Céu e a Terra,
o tempo e a eternidade”.
Esta
imagem contrasta com a experiência que provoca em nós o passar dos anos. O corpo
torna menos ágil, mais lento; a pele não fica mais fresca, mas mostra sinais da
velhice; os cabelos não ganham cor, nem brilho, mas tornam-se grisalhos e,
depois, brancos. Então, o Pontífice pergunta o que temos em comum com a jovem
maravilhosa retratada nas telas dos altares. Para responder, sustenta que devemos
manter unidos dois sinais: o corpo incorrutível da Mãe de Deus e o seu Coração
Imaculado. É a pureza da alma que, em Maria – tal como em nós –, pela graça de
Deus, ilumina e transfigura a pessoa inteira, levando-a à glória do Céu.
A
glorificação de Maria, em corpo e alma, ensina que a verdadeira beleza não
consiste em esconder os sinais do tempo, mas em mostrar, impressos na nossa
carne, os sinais do amor que não tem fim. Convida-nos, assim, a rever muitos
dos padrões estéticos que o Mundo nos impõe, predominantemente, de caráter
hedonista e consumista, e que correm o risco de nos aprisionar em pesados
condicionamentos, levando-nos a desperdiçar energias preciosas no que não tem
valor, nem dura para sempre.
Na
experiência comum, encontramos pessoas de rosto marcado pelos anos e pelo
sofrimento, mas que são capazes de irradiar serenidade, benevolência e paz; da
mesma forma podemos observar outras, talvez exteriormente atraentes, mas duras
e frias, no íntimo. É fácil compreender onde reside a verdadeira beleza e onde
há necessidade de conversão, de perdão e de cura. Se queremos descobrir e
cultivar a beleza divina que nos envolve e para a qual fomos criados,
difundindo-a à nossa volta, temos de aprender a lê-la no rosto terno da criança
e nas rugas do idoso; na vivacidade do jovem e na compostura do adulto; nos
adornos festivos, nas roupas e nos instrumentos de trabalho. Enfim, temos de
ouvir as histórias de amor únicas que cada uma destas realidades nos conta,
reconhecendo nelas pequenos recantos de céu, pois “é o amor o mais belo
ornamento do homem: o amor que transfigura, transforma, enobrece, eleva, que nos
torna leves, livres, próximos de Deus, mesmo através das vicissitudes da vida.
São
Paulo VI, meditando a Assunção da Virgem, dizia que, para se compreender o seu
significado, “é preciso tornar superlativos e absolutos os termos que usamos na
linguagem terrena […], para imaginar em pequena dimensão o eterno”. E, a
propósito deste encontro entre o infinito e o finito na Mãe de Deus, o Papa
Francisco escrevia: “Maria é Aquela que sabe transformar um curral de animais
na casa de Jesus, com uns pobres paninhos e uma montanha de ternura.”
O
milagre que a donzela de Nazaré viveu no seu coração inocente, e que a levou à
glória do Céu, é o encontrar-se de extremos, como ela testemunha nas palavras
inspiradas do Magnificat. Neste cântico, pelas expressões humildes da
sua fé, a Mãe do Céu fala-nos, de forma simples, de mistérios grandiosos: de
Deus que nela Se faz homem para salvar os homens, do Eterno que nela Se
manifesta no tempo, para nos reabrir “o caminho da eternidade”, mostrando-nos,
ao mesmo tempo, na sua condição de “humilde serva”, a “pequena dimensão” na
qual, como dizia São Paulo VI, “podemos encontrar o Senhor”.
Portanto,
não devemos procurar longe a sublimidade do Mistério que celebramos. Podemos
encontrá-la onde há verdadeira caridade: nos olhos do pai e da mãe que
regressam a casa, após um dia de trabalho, cansados, mas felizes por estarem
com os filhos; nos rostos dos avôs e das avós que, apesar dos achaques da
idade, se iluminam com inesperada energia ao cuidarem dos netos; no empenho dos
jovens que se esforçam por crescerem íntegros e honestos, dispostos até a irem
contra a corrente em relação ao que “todos fazem”; e, por fim, na obra de
tantos homens e mulheres que, diariamente, com fé e dedicação, contribuem para
trazer um pouco do Céu à terra e levar a terra para o Céu.
O
belíssimo rosto de Nossa Senhora da Assunção é único, ultrapassa qualquer
representação possível. Porém, é familiar: é o rosto das pessoas que estão ao
nosso lado, mesmo neste momento, dos irmãos e irmãs com quem partilhamos, na
fé, a oferta diária da nossa vida. Por isso, na mulher do Apocalipse, a
Comunidade dos fiéis vê-se a si própria, e o Concílio Vaticano II descreve
Maria como “imagem e início da Igreja, […] sinal de esperança segura e de
consolação” (Constituição dogmática Lumen gentium, 68). Na sua
humanidade santa, pela graça de Deus, está também a nossa; lá estamos nós,
chamados a viver a plenitude de vida e a partilhar a mesma glória.
Santo
Agostinho, ao falar da ressurreição de Cristo, convidava os cristãos do seu
tempo a fazerem dela a bússola e o ponto de referência da sua existência.
Dizia: “Cristo ressuscitou para nunca mais morrer […]. Muda de rumo, segue a
luz! Começa por levantar-te do mesmo lugar de onde Ele ressuscitou” (Enarratio
in Psalmos 126, 7).
E
o Papa exorta: “Acolhamos o convite. Sigamos a luz do Ressuscitado, mudando de
rumo, se necessário. Façamo-lo, também hoje, olhando para Maria, que Deus
coroou de glória em corpo e alma, e nos deu como Mãe, guia, companheira de
viagem e protetora na rota do Céu.
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Antes
da recitação do Angelus na Praça da Liberdade, também em Castel Gandolfo,
o Santo Padre falou desta solenidade e da sua relevância para a teologia
católica e para a devoção popular. Com efeito, é uma data comemorada
intensamente em várias comunidades, especialmente, onde a catedral ou a igreja
paroquial é dedicada à Nossa Senhora da Assunção.
Para
contemplar este mistério da fé, podemos recorrer aos dois modelos iconográficos
com que os artistas o têm representado.
O
mais antigo, que foi o único, durante quase um milénio, é o da “dormição” da
Mãe de Deus: Ela aparece deitada num catafalco, adormecida na morte; à sua
volta estão os Apóstolos, que a veneram comovidos em oração; no centro, de pé,
está Jesus ressuscitado, que segura nos braços a alma de Maria, como a de criança
recém-nascida. Veio buscá-La para A levar consigo para a glória de Deus, “no Céu”,
como dizemos simbolicamente. De facto, o Senhor cumpriu com sua Mãe o que
prometeu a todos os seus amigos: “Quando eu for [para junto do Pai] e vos tiver
preparado um lugar, virei, novamente, e hei de levar-vos para junto de mim” (Jo
14,3). Este modelo realça a verdade central: é Cristo, morto e ressuscitado,
que nos conduz à meta para a qual estamos, desde sempre, destinados, a vida
eterna. É isto que gerações e gerações de fiéis contemplaram ao rezarem,
perante os ícones da Dormição, e que se pode admirar em Roma, no grande mosaico
da abside da Basílica de Santa Maria Maior.
Já
a iconografia mais recente, que se desenvolveu, posteriormente, no Ocidente,
mostra-nos a Virgem Maria de corpo inteiro, no Céu, envolta de luz,
frequentemente rodeada por anjos e santos. Aqui, no centro, encontra-se o corpo
glorificado da Virgem, em consonância com o que se lê no Livro do Apocalipse:
“Apareceu no Céu um grande sinal: uma Mulher vestida de Sol, com a Lua debaixo
dos pés e com uma coroa de doze estrelas na cabeça” (Ap 12,1).
Este
modelo realça a verdade de que Maria foi elevada em corpo e alma, ou seja, na
integridade da sua pessoa. Aquela mulher que, na terra, deu corpo e sangue ao
Verbo encarnado e o seguiu até à união perfeita no sacrifício de amor, foi por
Ele, para sempre, à glória.
Alguns
artistas combinaram os dois esquemas, representando, na parte superior, a
Virgem gloriosa e, na parte inferior, o seu túmulo vazio, frequentemente
repleto de flores multicoloridas, e os Apóstolos com o olhar voltado para ela,
no céu.
Assim,
a iconografia permite-nos contemplar o nosso destino. A plenitude de vida, que admiramos,
com alegria em Maria, espera-nos também a nós, no fim dos tempos, quando, como
diz São Paulo, Cristo Ressuscitado transfigurar “o nosso pobre corpo,
conformando-o ao seu corpo glorioso”), revestindo o que é corruptível de
incorruptibilidade e o que é mortal de imortalidade. Então, com a nossa carne
transformada pelo amor do Redentor, viveremos eternamente, na festa sem fim.
Depois
do Angelus, Leão XIV relevou que Maria Santíssima, assunta na glória do Céu,
é para todo o povo de Deus um sinal de esperança e de consolação. Por isso, o
Papa desejou invocar a sua intercessão maternal em favor das comunidades que
têm especial necessidade de serem consoladas e de continuarem a ter esperança. É
o caso dos irmãos e das irmãs da Terra Santa, que é também, por excelência, a
Terra de Maria. É o caso dos povos ucraniano e russo, unidos por uma devoção
filial à Santa Mãe de Deus. É caso dos cristãos que sofrem discriminação ou
perseguição e nos povos que sofrem os efeitos da guerra e/ou das catástrofes
naturais e as de erro ignorância ou negligência humana.
2026.08.15 – Louro de Carvalho