domingo, 8 de março de 2026

No Dia Internacional da Mulher de 2026, contrastes e preocupações

 

É celebrado, a 8 de março, o Dia Internacional da Mulher e, neste ano, é de salientar, como positivo, que os dados parecem mostrar que as mulheres estão, cada vez mais, a assumir posições de autoridade no mundo empresarial.

Com efeito, na maioria dos países da União Europeia (UE) aumentou o número de mulheres em cargos de gestão, entre 2014 e 2024, mas três países registaram uma diminuição. Na verdade, as estatísticas do Eurostat indicam que 35,2% de todos os cargos de gestão na UE, em 2024, eram ocupados por mulheres, contra 31,8%, em 2014.

A percentagem de cargos de gestão ocupados por mulheres diminui com a idade, com 34,4% das mulheres gestoras com idades entre os 40 e os 64 anos e 26,5% das mulheres com 65 anos ou mais. E a percentagem de jovens gestoras com idades entre os 15 e os 39 anos é mais elevada do que noutros grupos etários: quase 40% das gestoras deste grupo são mulheres.

Os números também variam consoante o país da UE: as maiores percentagens de mulheres em cargos de gestão ocorrem na Suécia (44,4%), na Letónia (43,4%) e na Polónia (41,8%). Ao invés, as taxas mais baixas ocorrem em Chipre (25,3%), na Croácia (27,6%) e na Itália (27,9%). Contudo, os números estão a aumentar na grande maioria dos países da UE, com o Luxemburgo a registar o maior aumento de mulheres gestoras, desde 2014, com 13,7%. Seguem-se Malta (10,1%) e Chipre (7,9%). Em contraponto, na Eslovénia (-3,8%), na Letónia (-0,7%) e na Lituânia (-0,2%) diminuiu o número de mulheres em cargos de gestão, nesse período.

O aumento do número de mulheres a gerirem empresas ocorre numa altura em que cada vez mais mulheres assumem funções em áreas tradicionalmente dominadas pelos homens na UE, como a ciência e a engenharia.

O aumento do número de mulheres gestoras vem também do esforço da UE para garantir maior equilíbrio de género nos conselhos de empresas cotadas em bolsa, nomeadamente, pela aplicação da diretiva relativa ao equilíbrio entre homens mulheres nos conselhos de administração das empresas, a qual estabelece como objetivo as empresas terem 40% do sexo sub-representado entre os administradores não executivos e 33% entre todos os administradores. E, embora o prazo para as empresas cumprirem este objetivo seja 30 de junho de 2026, o prazo para os membros da UE transporem a diretiva era dezembro de 2024, o que mostra que as empresas já faziam pressão para melhorar a diversidade na sua liderança, em conformidade com o Eurostat.

No entanto, independentemente dos cargos de chefia, continua a clara diferença de emprego entre homens e mulheres. Efetivamente, os dados do Eurostat mostram que 80,8% dos homens estavam empregados a tempo inteiro, em todo o bloco, em 2024, caindo para 70,8% das mulheres. Em contraponto, a percentagem de mulheres que trabalham a tempo parcial é muito mais elevada do que a dos homens (27,8% contra 7,7%) e, segundo o Eurostat, a diferença de emprego diminuiu 1,1%, em toda a UE, na última década, tendência registada em 22 países da UE.

Passando da gestão às ciências e às engenharias, é de salientar que as ciências constituem parte significativa dos postos de trabalho, na Europa: em 2024, mais de 73,8 milhões de pessoas com idades entre os 25 e os 64 anos estavam empregadas nos domínios da ciência e da tecnologia, na UE. E o número de mulheres cientistas e engenheiras, na UE, aumentou de 3,4 milhões, em 2008, para 7,9 milhões, em 2024, de acordo com o Eurostat. Porém, continuam as disparidades entre setores individuais. As mulheres investigadoras estão quase em paridade, no setor do ensino superior (44%) e no setor público (45%), mas estão sub-representadas no setor empresarial (22%), de acordo com o relatório da Comissão Europeia “She Figures 2024”. Além disso, as mulheres representam apenas 25% dos profissionais independentes, nos setores da ciência e da engenharia e das tecnologias de informação e comunicação (TIC).

O relatório “She Figures 2024” sustenta que “a segregação de género continua a ser um desafio no mercado de trabalho”, mas que há tendência gradual para inverter a situação, “o que indica um progresso lento, mas constante, no sentido da igualdade de género”.

Entre os países da UE, as percentagens mais elevadas de mulheres cientistas e engenheiras registaram-se na Letónia, com 50,9%, na Dinamarca, com 48,8%, e na Estónia, com 47,9%. Em contraponto, os níveis mais baixos de representação registaram-se na Finlândia, com 30,7%, na Hungria, com 31,7%, e no Luxemburgo, com 32,4%.

Não obstante, nalgumas regiões da Europa, as mulheres estão em percentagem mais elevada na ciência do que os homens. Segundo o Eurostat, há mais mulheres em 11 regiões da Espanha, de Portugal, da Polónia, da Bulgária, da Suécia e da Letónia. Por exemplo, as Canárias, na Espanha, têm a percentagem mais elevada de mulheres cientistas e engenheiras, com 58,8%. Seguem-se, em Portugal, os Açores e a Madeira, com 57,3% e 56,4%, respetivamente.

No outro extremo da escala, a menor proporção de mulheres cientistas e engenheiras foi registada na região húngara de Közép-Magyarország (30,0%), na região finlandesa de Manner-Suomi (30,7%) e em Sud, na Itália (31,1%).

As mulheres nascidas fora da UE têm menos probabilidades de trabalharem como cientistas e engenheiras (36%) do que as nascidas num país da UE (43%) e as nascidas no país da UE onde trabalham (42%). As proporções mais baixas de mulheres nascidas fora da UE a trabalhar como cientistas e engenheiras, na UE, registam-se no Luxemburgo (21%) e nos Países Baixos (26%).

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Porém, o Dia Internacional da Mulher, em 2026, deve fazer refletir os cidadãos portugueses, no que toca ao feminicídio, sobretudo, por violência doméstica. Com efeito, em 2025, pelo menos, 25 pessoas morreram vítimas de violência doméstica.

É certo, que apesar das ocorrências se manterem estáveis (29778), aumentou o número de reclusos por este crime (1560) e de pessoas em programas para agressores (3112). As medidas de apoio às vítimas registaram ligeiras diminuições no número de beneficiários. Porém, o número preocupa.

O número de vítimas de violência doméstica (25), num ano, torna 2025 o ano com mais homicídios, nesse contexto, desde 2022.

Segundo o Portal da Violência Doméstica, da Comissão para a Igualdade e Cidadania (GIG), 11 pessoas – 10 mulheres e uma criança – morreram, no último semestre do ano, somando-se às 11 mulheres, dois homens e uma criança que perderam a vida no primeiro semestre.

Em 2024 tinham morrido 22 pessoas vítimas de homicídio voluntário, em contexto de violência doméstica, o mesmo número registado em 2023. É, pois, 2025 o ano com mais homicídios voluntários por violência doméstica, desde 2022, ano em que ocorreram 28 mortes.

Ao longo de 2025, a Polícia de Segurança Pública (PSP) e a Guarda Nacional Republicana (GNR) registaram 29778 ocorrências conexas com violência doméstica, ligeiramente abaixo do ano anterior (29885). E, no final de 2025, havia 1560 reclusos nas prisões por violência doméstica, dos quais 1184 em prisão efetiva e 376 em prisão preventiva, acima dos números do final de 2024 (1358 reclusos, dos quais 1019 em prisão efetiva e 339 em prisão preventiva).

Havia, no final do ano passado, 1351 suspeitos com medidas de coação em vigor, no âmbito do crime de violência doméstica, mais do que os 1236 do ano anterior.

Também o número de pessoas integradas em programas para agressores aumentou de 2788, no final de 2024, para 3112, no final de 2025. E, no respeitante às medidas de apoio às vítimas de violência doméstica, havia 6100 pessoas com medida de teleassistência, no final de 2025, menos 424 do que no final do ano anterior. Na Rede Nacional de Apoio às Vítimas de Violência Doméstica, estavam acolhidas 1349 pessoas, no final do ano, entre as quais 705 mulheres, 623 crianças e 21 homens, ao passo que, no ano anterior eram 1420 pessoas no total, incluindo 727 mulheres, 669 crianças e 24 homens.

Em referência ao período de 2002 a 2025, o Observatório de Mulheres Assassinadas refere que, pelo menos, 709 mulheres foram assassinadas e 939 foram vítimas de tentativa de homicídio. Dito de outro modo, nos últimos 22 anos, foram mortas, em média, 32 mulheres, por ano, em Portugal, tendo a maioria destes crimes ocorrido na residência partilhada entre vítimas e agressores e com registo de violência prévia.

Desses 709 crimes, 539 foram cometidos por companheiros ou ex-companheiros das vítimas, em contexto em que a vítima tentava separar-se e os ofensor não aceitava a separação. E, de acordo com a estrutura da União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR), só em 2025 foram assassinadas 26 mulheres (número superior ao da CIG), em Portugal, e 57 foram vítimas de tentativa de homicídio. Destas mortes, 22 foram feminicídios, “mortes intencionais de mulheres motivadas por questões de género”, todos cometidos por homens.

Quanto às 57 tentativas de homicídio de mulheres, 45 foram no contexto de feminicídio. “Dos 22 feminicídios, 16 foram em contexto de intimidade e as vítimas tinham entre 36 e 56 anos. A maioria destes crimes ocorreu na residência partilhada entre vítimas e agressores”, salientou, citada pela Lusa, a coordenadora daquele observatório, Cátia Pontedeira, a qual chamou a atenção para que, “na maior parte dos crimes de feminicídio, há violência prévia e, em 80% dos casos, esta violência é conhecida por outras pessoas”.

Também é de anotar que, “em quase metade dos casos de homicídio de mulheres, houve uma tentativa de suicídio, por parte do agressor, com sete homens a perderem a vida”.

A presidente da UMAR, Liliana Rodrigues, também segundo a Lusa, frisou que os dados “mostram que a casa continua a ser o lugar mais inseguro para as mulheres”.

Os dados referentes a 2025 permitiram identificar igualmente que 27% das mulheres assassinadas não era de nacionalidade portuguesa, e que, em 23% dos casos, “houve uma tentativa de ocultar o crime” por parte do agressor.

O Observatório de Mulheres Assassinadas contabilizou, nos últimos 22 anos, uma média de 32 homicídios, por ano, o que, segundo Frederica Armada, uma das responsáveis pela estrutura, mostra que “a violência sobre as mulheres não é um fenómeno episódico”. E é durante a noite e madrugada, sobretudo, no verão, entre junho e setembro, que os feminicídios mais acontecem e que, em 55% dos casos de 2025, houve recurso a armas brancas para cometer o crime.

Para a presidente da UMAR, perante o facto de os números apontarem que na maior parte destes crimes há episódios de violência doméstica já denunciados, "é urgente que o sistema de justiça criminal deixe de minimizar o risco".

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No Dia Internacional da Mulher, verificando que as mulheres sofrem mais com o clima e que políticas verdes querem mudá-lo, a Euronews Green destaca entidades políticas que lideram a luta constante contra as alterações climáticas, em todo o Mundo.

À cabeça, vem Hannah Spencer, canalizadora e estucadora, recém-eleita deputada do Partido Verde, no Norte de Inglaterra, caso inédito, que representa o tipo de eleitor que o partido – com a sua base de apoio da classe média, no Sul do Reino Unido – tem, há muito, dificuldade em alcançar. Quer tirar o lixo e as descargas ilegais das ruas. Ora, uma análise de 2019 concluiu que apenas 7% de todos os deputados britânicos tinham origem na “classe trabalhadora”.

Lena Scilling, que deixou a vida de ativista climática do movimento Friday for Future, para se tornar eurodeputada verde austríaca, em 2024, diz que “os insultos sexistas, os ataques pessoais e a perda de privacidade fazem, infelizmente, parte da realidade”, sendo peculiar a forma como a intersecção entre género e clima intensifica os ataques.

De facto, uma investigação norte-americana, publicada na revista “Climatix Change”, verificou a correlação consistente entre sexismo, negação das alterações climáticas e oposição às políticas climáticas, o que se explica pela “justificação do sistema”, ou seja, quando as pessoas lutam pela proteção da ordem socioeconómica existente. Grande parte deste assédio ocorre online, com os guerreiros de teclado a esconderem-se no anonimato e os algoritmos a amplificarem conteúdos divisivos. Um inquérito da HateAid e da Universidade Técnica de Munique, na Alemanha, concluiu que as mulheres são visadas, com mais frequência e de forma mais sexualizada, com cerca de dois terços a relatarem ataques sexistas ou misóginos.

O Partido Verde Europeu é um dos dois europartidos com quotas de género formais (o único com plena paridade de género) e, embora alguns as desvalorizem como discriminação positiva, um estudo, de 2024, do King’s College London concluiu que as quotas são o único método fiável para garantir a representação das mulheres nas direções partidárias.

Na cimeira climática da Nações Unidas COP30, de 2025, as mulheres representavam 40% dos membros das delegações nacionais, uma subida de apenas 9%, em 17 anos, e menos de um terço das delegações era liderado por uma mulher. Ora, os estudos mostram que as alterações climáticas atingem, com mais força, quem tem menos poder para lhes escapar. Assim, mulheres e crianças têm 14 vezes mais probabilidades de morrer do que os homens, na ocorrência de fenómenos meteorológicos extremos; e quatro quintos de pessoas deslocadas por força das alterações climáticas serão mulheres e raparigas.

Porém, quando as mulheres têm poder, os resultados melhoram, para todos. Um estudo que abrangeu 91 países concluiu que a presença feminina nos parlamentos nacionais estava associada a políticas climáticas mais exigentes e a menores emissões de carbono. Por conseguinte, a conclusão é óbvia: mulheres na política podem “mudar o futuro”.

Lena Schilling recorda que a sua motivação para a causa surgiu quando a ministra austríaca do Ambiente dos Verdes, Leonore Gewessler, lutou para salvar a Lei de Restauração da Natureza, mostrando que uma mulher, no lugar certo, pode tomar decisões que mudam o futuro. E adverte que a política não se faz apenas nos parlamentos, mas também nas ruas, nas organizações da sociedade civil, nas comunidades locais e nos movimentos.

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Por fim, cabe a palavra a António Guterres, secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), que propõe, no jornal Público (de 8 de março, pág. 16), “oito áreas de ação destinadas a promover os direitos das mulheres e a alcançar resultados concretos”: “corrigir os desequilíbrios de poder”, com vista à igualdade de género e à expansão da liberdade; “fazer da paridade uma prioridade”, contrariando a sub-representação das mulheres nas instituições; “apostar no investimento mais rentável” (pela educação, saúde e apoio social); “assegurar[-lhes] um lugar nas negociações de paz”; “acabar com a discriminação legal”; estipular a “tolerância zero para a violência de género” (bem como para os culpados); “eliminar distorções no setor tecnológico” (nomeadamente, a misoginia online); e “integrar a perspetiva de género na ação climática”.

“Se os líderes levarem a sério a igualdade de género e se se comprometerem com estas ações agora, mudaremos o Mundo”, diz António Guterres.

2026.03.08 – Louro de Carvalho

sábado, 7 de março de 2026

É urgente parar a ambição ilimitada de Donald Trump

 

No oitavo dia da guerra contra o Irão desencadeada pela coligação dos Estados Unidos da América (EUA) com Israel, secundada pela cumplicidade – explícita ou implícita – de vários países (incluindo Portugal, através da cedência expressa da Base das Lages, nos Açores) e da própria União Europeia (UE), excetuando a Espanha, Donald Trump anunciou a criação de coligação militar com 17 países para “erradicar cartéis”, no hemisfério ocidental, bem como “negociações” com Cuba, país que ele diz estar no “fim da linha”.

No seu discurso, na cimeira “Shield of the Americas”, em Miami, na Florida, no seu resort de golfe, o inquilino da Casa Branca revelou, perante vários líderes de países latino-americanos, como a Argentina, a Bolívia, o Chile, a Costa Rica, o Equador, entre outros, que 17 países já aderiram, formalmente, a esta nova aliança militar, denominada de Coligação das Américas de Combate aos Cartéis, a qual tem o “compromisso do uso da “força militar letal, para destruir os sinistros cartéis e as redes terroristas”, que são uma “ameaça inaceitável”.

“Neste dia histórico, reunimo-nos para anunciar uma nova coligação militar para erradicar os cartéis criminosos que assolam a nossa região. Estamos a chamar a esta parceria militar a Coligação das Américas de Combate aos Cartéis. Vamos acabar com os cartéis sinistros e [com] as redes terroristas, de uma vez por todas”, declarou Donald Trump, citado pelos media nos EUA, encorajando os líderes a usar as forças armadas neste combate aos cartéis.

Em Miami, o presidente dos EUA também revelou que estão a decorrer negociações entre os EUA e Cuba, que classificou como um país em “fim de linha”. “Eles querem negociar. Estão a negociar com Marco [Rubio, secretário de Estado], comigo e com outros, e acho que um acordo com Cuba será feito com muita facilidade”, discorreu.

É de anotar que, a 6 de março, segundo a estação televisiva CNN, o presidente norte-americano afirmou que o governo cubano vai cair “muito em breve” e acrescentou que Havana tem “imensa vontade” de negociar com Washington. E, em declarações, por telefone, à CNN sobre a operação militar contra o Irão, disse que, após uma campanha “bem-sucedida” no Médio Oriente, o regime comunista de Cuba seria o próximo alvo. No entanto, como as autoridades cubanas “querem chegar a um acordo”, para negociar, nomeou o secretário de Estado, cidadão cubano-norte-americano. “Veremos como corre. Por agora, estamos muito concentrados nisto, o Irão. Temos muito tempo, mas Cuba está pronta, ao fim de 50 anos. Há 50 anos que a observo”, afirmou.

No dia 5, o presidente republicano tinha dito que Havana “estava desesperada” para chegar a um acordo com o seu governo, de imediato, e que era só “uma questão de tempo”, até que os EUA voltem, novamente, a sua atenção para a ilha caribenha, dando a entender que a campanha militar contra o Irão desviou, um pouco, os planos da Casa Branca e do Pentágono.

Nesse mesmo dia 5, em entrevista ao jornal digital Politico, o líder norte-americano afirmou que a queda de Cuba seria “a cereja em cima do bolo”, depois do ataque militar de janeiro passado à Venezuela, em que os EUA capturaram o então presidente, Nicolás Maduro, o mais próximo aliado de Havana. E deu como exemplo “a maravilhosa colaboração” com o governo da presidente interina, chavista Delcy Rodríguez, com o qual Washington anunciou, no dia 5 que vai restabelecer relações diplomáticas, após décadas de afastamento de Caracas.

Nas últimas semanas, a comunicação social norte-americana noticiou contactos entre Marco Rubio e Raúl Guillermo Rodríguez Castro, neto do antigo presidente cubano Raúl Castro. Porém, tal notícia refere “contactos”, e não negociações, e indica alegadas conversações sobre possíveis reformas económicas graduais futuras, na ilha, e a retirada faseada das sanções de Washington, cujo agravamento, nos últimos tempos, deixou o país à beira da rutura, à mercê de ajuda humanitária de países vizinhos para suprir necessidades básicas, como alimentação.

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Os EUA e Israel eliminaram o líder supremo do Irão e uma série alargada de autoridades e de funcionários da República Islâmica do Irão. As forças de defesa israelitas, com os EUA, além do Irão, atacaram pontos nevrálgicos do Líbano. E, no oitavo dia da guerra, Donald Trump avisou que o Irão vai ser “duramente atingido. Isto, depois de garantir que as hostilidades não parariam, até à rendição total de Teerão. Porém, o conflito evidencia o alastramento a outros alvos regionais e consequências, aos níveis militar, económico e diplomático.

As autoridades dos Emirados Árabes Unidos (EAU) indicaram, a 7 de março, que os estilhaços causados pela interceção de projéteis do Irão causaram danos menores na fachada de uma torre na marina do Dubai. A situação ocorreu numa zona onde estão localizados muitos arranha-céus, não tendo sido registados, até ao momento, feridos. E, já antes da explicação das autoridades, a CNN noticiou que edifícios na marina do Dubai tinham sido evacuados. Entre as pessoas que foram retiradas, estavam funcionários daquela cadeia televisiva norte-americana.

A Guarda Revolucionária do Irão (IRGC) disse ter atacado a base norte-americana de Juffair, no Bahrein, como resposta ao alegado bombardeamento “terrorista” dos EUA contra a central de dessalinização iraniana de Qeshm, no Golfo Pérsico. A base norte-americana de Juffair “foi, imediatamente, atacada por mísseis de combustível sólido e líquido, guiados com precisão, da Guarda Revolucionária Islâmica”, enfatizou a IRGC.

Já antes, o ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Abbas Araghchi, acusara os EUA de terem atacado a instalação de dessalinização numa ilha do Golfo Pérsico. “Com este ataque, os EUA abriram um precedente”, afirmou o governante, salientando que  “o abastecimento de água de 30 aldeias foi afetado” e vincando que “atacar as infraestruturas do Irão é uma medida perigosa com consequências graves”.

Por seu turno, durante a participação da cimeira “Shield of the Americas”, Donald Trump disse que os EUA destruíram, em três dias, 42 navios do Irão (“alguns deles muito grandes”), no âmbito da operação “Fúria Épica” lançada contra Teerão. “Foi o fim da Marinha”, assegurou, tendo referido que as forças norte-americanas destruíram a Força Aérea do Irão.

O governo de Keir Starmer (Reino Unido) informou que as forças norte-americanas começaram a usar as bases britânicas para ações defensivas, no âmbito da operação “Fúria Épica”, para “operações defensivas específicas destinadas a impedir o Irão de lançar mísseis na região”.

A companhia petrolífera nacional do Kuwait anunciou ter reduzido, “preventivamente”, a produção de petróleo, devido aos ataques iranianos e às ameaças que pairam sobre o estreito de Ormuz, ponto de passagem fundamental para os hidrocarbonetos do Golfo. “À luz da agressão contínua da República Islâmica do Irão contra o Estado do Kuwait, incluindo as ameaças iranianas à segurança da passagem de navios no estreito de Ormuz, a Kuwait Petroleum Company (KPC) implementou uma redução preventiva da produção de petróleo bruto e da capacidade de refinação”, precisou, em comunicado a empresa, frisando que esta medida será “reavaliada em função da evolução da situação”.

A ofensiva israelita, que atingiu a “cidade de Nabi Sheet e cidades vizinhas, no distrito de Baalbek, resultou num total de 41 cidadãos mortos e 40 feridos”, indicou, em comunicado, o Ministério da Saúde do Líbano.

Israel tem realizado vários ataques contra posições do Hezbollah no Líbano, em sequência da operação conjunta com os EUA contra o Irão. Entretanto, segundo a Sky News, o Hezbollah avisou os residentes de uma cidade no Norte de Israel, próxima da fronteira com o Líbano, de que devem deixar o local e seguir para o Sul.

Também a Jordânia acusou o Irão de ter atacado instalações estratégicas no reino, disparando 119 mísseis e drones, na semana subsequente aos ataques israelo-norte-americanos que desencadearam a guerra regional. Em conferência de imprensa, o porta-voz do exército jordano, general de brigada Mustafa al-Hayari, disse que o exército intercetou 108 dos projéteis. “Estes mísseis e drones visavam instalações vitais dentro da Jordânia e não estavam, simplesmente, a atravessar o nosso território”, afirmou, observando que o Irão disparou um total de 60 mísseis e 59 drones contra “instalações vitais”, na Jordânia, desde que Israel e os EUA iniciaram o ataque contra o Irão, tendo sido apenas 11 os misseis não intercetados.

Mustafa al-Hayari revelou que os ataques provocaram 19 feridos, todos já recuperados, resultantes da queda de destroços ou de restos de projéteis, após terem sido intercetados. E, segundo a agência oficial jordana Petra, nenhum deles era do tipo de cruzeiro.

Al-Hayari sublinhou que estes ataques ao território jordano ocorreram “apesar de o Reino ter informado todas as partes de que não se tornaria num campo de batalha, nem de que o seu território seria usado como plataforma de lançamento para qualquer ataque”. Em todo o caso, revelou que as Forças Armadas jordanas aumentaram o nível de alerta e de preparação, antes do conflito, equipando os militares no terreno com “dispositivos, equipamentos e armas necessários para fazer face a circunstâncias excecionais”, além de terem ativado “os sistemas de defesa aérea ao seu alcance” e “intensificado a vigilância do espaço aéreo com aeronaves e radares”.

Neste sentido, indicou que o país ativou “acordos de cooperação militar e de defesa com vários exércitos aliados e amigos para fornecer cobertura aérea”, a fim de reforçar a proteção do espaço aéreo do reino. “A Jordânia procurou, desde o início da escalada, evitar a guerra na região, por meios diplomáticos. A principal preocupação do Reino é preservar a sua segurança e a dos seus cidadãos. Os ataques com mísseis e drones que sofreu constituem um ataque à sua soberania”, afirmou.

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Pouco mais de duas dezenas de pessoas manifestaram-se, a 7 de março, em frente à Base das Lajes, na ilha Terceira, nos Açores, contra a utilização da infraestrutura como plataforma para operações militares relacionadas com o ataque dos EUA ao Irão. “Da mesma forma que o governo tem capacidade de criticar as ameaças de Trump a Espanha, nós acreditamos que o governo devia ter a capacidade, ter a clareza, de unicamente permitir a utilização da Base das Lajes, quando se trata de operações militares que derivem de organizações que tanto Portugal como os Estados Unidos são membro. A nosso ver, não foi esse o caso destas operações militares”, afirmou, em declarações aos jornalistas, Laura Alves, porta-voz da manifestação.

De baixo de chuva, num parque de estacionamento a 100 metros da entrada da Base, pouco mais de duas dezenas de manifestantes, incluindo o líder do Bloco de Esquerda /Açores e outros seus dirigentes, gritaram “Lajes para a paz, não para bombardear” e “Nos Açores e no continente, queremos paz no Médio Oriente”. Na faixa principal, lia-se “Açores fora da guerra de Trump” e várias pessoas mostravam folhas com frases como: “Respeitem o direito internacional”, “Trump fora da Terceira”, “Not in my name [Não em meu nome]” e “Nobel Price of War [Prémio Nobel da Guerra]”. E Laura Alves vincou: “O que nos une aqui, na realidade, é a recusa da utilização da Base das Lajes para utilizações que sejam fora do Acordo de [Cooperação e Defesa].”

Laura Alves assegurou que os manifestantes são “claros opositores ao regime iraniano”, que é “autoritário e viola os direitos humanos”, mas também “opositores a narrativas que justifiquem a escalada deste conflito e ignorem a via diplomática e a via das negociações”.

“O que sabemos é que o ataque recente atingiu uma escola, provocando a morte de mais de uma centena de crianças, e qualquer resposta que agrave ainda mais o sofrimento civil é moralmente inaceitável. A única saída responsável e sustentável passa por cessar, imediatamente, a intensificação do conflito, garantir a proteção das populações civis e retomar a via diplomática”, declarou a porta-voz do evento.

Já a 1 de março, no Iémen, manifestantes pró-Irão exibiram cartazes com a imagem do líder supremo iraniano, Ali Hosseini Khamenei, bandeiras do Iémen e do Irão, armas e diziam palavras de ordem, durante um protesto, a condenar os ataques dos EUA e de Israel ao Irão.

Exemplo de firmeza, nos países da UE, é a Espanha, cujo governo recusou a utilização das suas bases pelos EUA, mesmo depois de ameaçado de retaliação por Donald Trump.

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Um relatório confidencial do  Conselho Nacional de Inteligência (NIC) duvida de que a oposição iraniana assuma o poder, após uma campanha militar norte-americana em grande escala, já que, provavelmente, não conseguirá derrubar o poderio militar e clerical iraniano.

O documento, divulgado, pelo jornal “Washington Post”, a 7 de março, revela “uma avaliação preocupante, num momento, em que a administração Trump levanta o espectro de uma campanha militar prolongada que, segundo autoridades, ‘apenas começou’”. E as conclusões foram confirmadas ao “Washington Post” por três conhecedores do conteúdo do relatório, que falaram sob anonimato, e põem em causa o plano declarado por Donald Trump de “limpar” a estrutura de liderança do Irão e de instalar um governante à sua escolha.

O NIC é composto por analistas veteranos, que fazem avaliações confidenciais destinadas a representar o conhecimento desenvolvido pelas 18 agências de inteligência dos EUA. E a Casa Branca não revelou se o presidente foi informado desta avaliação, antes de aprovar a operação militar, que se expandiu, rapidamente, em várias direções, incluindo a guerra submarina no Oceano Índico, tendo-se dirigido mais a Oeste, com confrontos antimísseis nas proximidades da Turquia, país membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO).

A possibilidade de a oposição fragmentada do Irão assumir o controlo do país foi descrita, no documento, como “improvável”, como afirmaram as fontes referidas supra. Também foram referidas ao “New York Times” e ao “Wall Street Journal” as dúvidas do NIC sobre a capacidade de a oposição iraniana tomar o poder, embora não tenham sido divulgados, antes, o envolvimento do NIC e as suas análises dos resultados potenciais de ofensivas em pequena e em grande escala. E não parece que o relatório tenha examinado outros cenários possíveis, como o envio de tropas terrestres dos EUA para o Irão ou o armamento dos Curdos com vista a uma rebelião.

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A ambição trumpiana parece ilimitada. Impõe tarifas. Quer a Gronelândia, o Canadá, o Canal do México. Atacou a Venezuela e ameaçou a Colômbia. Criou o Conselho de Paz, em afronta à Organização das Nações Unidas (ONU). É a segunda vez que ataca o Irão. Agora, está a negociar-ameaçar Cuba. E não se contentará com o hemisfério ocidental. Essa ambição tem de ser travada pela união e força dos países sensatos e decentes, em nome da justiça, dos direitos humanos e do Direito internacional, e pela mobilização da opinião pública. É urgente multiplicar as duas dezenas e meia dos manifestantes açorianos, em todos os países, incluindo os EUA.

2026.03.07 – Louro de Carvalho

Há desigualdade de género no consumo e nas queixas a ele atinentes

 

A maioria dos consumidores considera que a igualdade de género, em Portugal, permanece baixa e 53% dos inquiridos acredita que as empresas não estão a adotar práticas adequadas para promover a igualdade de género.

A jornalista Bárbara Sousa, em artigo intitulado “Maioria dos consumidores considera que igualdade de género em Portugal ainda é baixa” e publicado, no site grandeconsumo.com, a 6 de março, aborda a questão, com base num estudo divulgado pela ConsumerChoice.

De acordo com o inquérito, 41% dos participantes classifica o nível de igualdade de género como muito baixo, 33% considera-o médio, 18% classifica o nível de igualdade como elevado e, apenas 8% o avalia como muito elevado. Assim, os resultados que mostram que, apesar de haver progressos, parte significativa assinala que é relevante o caminho a percorrer.

A este respeito, Nassrin Majid, diretora-geral da ConsumerChoice sustenta que “a História da evolução da mulher na sociedade é também a História da evolução da própria sociedade”, representando cada conquista, cada oportunidade e cada ultrapassagem de barreira “um avanço para as mulheres” e “um progresso coletivo”. E, na sua ótica, “os consumidores reconhecem esse caminho e valorizam, cada vez mais, contextos onde talento, mérito e oportunidade têm espaço para crescerem, independentemente do género”,

Grande parte dos participantes no inquérito (62%) não tem sentido ou presenciado qualquer tipo de situações de desigualdade de género, enquanto 28% já viveu ou observou essa experiência, sobretudo, no contexto profissional, com as diferenças salariais entre homens e mulheres que desempenham funções similares, com o menor acesso das mulheres a promoções e a cargos de liderança e com as dificuldades na gestão da vida profissional e familiar.

Quanto à evolução da igualdade de género, nos últimos cinco anos, 63% dos participantes pensa que a situação se manteve igual. Todavia, 30% diz que o país registou progressos e 7% acredita que houve retrocesso. Nas justificações aduzidas, sobressaem os avanços graduais, sobretudo, a nível legislativo, da modernização social e do aumento de oportunidades para as mulheres, em especial, no acesso a cargos de liderança.

No atinente ao papel das organizações, 53% contraria a ideia de que “as empresas, em Portugal, estão a adotar práticas cada vez mais adequadas para promover a igualdade de género”. Cerca de 29% assume posição neutra e apenas 19% concorda com tal asserção. Embora algumas empresas tenham implementado políticas específicas, muitos participantes, sustentam que os progressos são moderados e desiguais, indicando lacunas na aplicação prática das medidas, principalmente, em questões, como a igualdade salarial e o acesso a cargos de liderança.

Quanto à perceção geracional, os resultados são díspares: 40% dos inquiridos discorda de que as gerações mais jovens tenham visão mais igualitária sobre o papel das mulheres e dos homens na sociedade, 30% tem posição neutra e os restantes 30% concorda com esta asserção – o revela que alguma evolução geracional por parte dos participantes, apesar de persistir significativa perceção de que a mudança não é tão expressiva ou generalizada quanto seria expectável.

E, questionados sobre qual a principal medida para acelerar a igualdade de género, em Portugal, os inquiridos destacam a maior partilha das licenças parentais (30%). Seguem-se a educação para a igualdade, desde a escola (22%), e a igualdade salarial entre géneros (21%).

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Também o relatório do estudo “O Perfil da Mulher Consumidora em Portugal 2026”, realizado pela Consumers Trust Labs – hub de inteligência de dados, por ocasião do Dia Internacional da Mulher e publicado a 6 de março, revela que mulher portuguesa se tornou a principal auditora do mercado e a voz do consumidor, ou seja, as mulheres já lideram as queixas de consumo, em Portugal, representando 50,09% do total de queixas registadas, em 2025, no Portal da Queixa. 

A fonte de dados são as reclamações registadas no Portal da Queixa; e a metodologia foi a análise quantitativa e qualitativa das reclamações registadas no Portal da Queixa, durante o ano de 2025.

Assim, de 1 de janeiro a 31 de dezembro de 2025, foram registadas 119564 reclamações apresentadas por mulheres, um marco histórico na monitorização de conflitos de consumo no país. A tendência mantém-se em 2026: só no conjunto dos meses de janeiro e fevereiro, as mulheres representaram 51,86% das queixas, no total de 39380 reclamações registadas.

De acordo com o relatório, este crescimento reflete maior literacia digital, maior consciência dos direitos do consumidor e menor tolerância ante falhas nos serviços, sobretudo em áreas associadas ao comércio eletrónico, à logística e aos serviços públicos. Por conseguinte, a mulher portuguesa tornou-se “uma das principais auditoras da qualidade dos serviços”, utilizando plataformas digitais, para denunciar falhas, para exigir soluções e para alertar outros consumidores.

A relatório especifica os setores em que a fragilidade do mercado mais afeta as mulheres.

A análise dos setores mais reclamados pelas mulheres em 2025 oferece um mapa detalhado das falhas operacionais em Portugal. O setor Correio, Transporte e Logística é a principal fonte de descontentamento, representando 13,92% das queixas femininas, seguido pelos setores Compras, Moda e Joalharia (10,07%) e Serviços e Administração Pública (7,94%).

Entre as entidades mais referidas nas ocorrências, estão empresas, como CTT, GLS, Worten, e Perfumarias Primor; e, nos serviços públicos, o Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana  (IHRU) surge como a entidade mais reclamada pelas consumidoras, num contexto marcado por atrasos na atribuição de apoios à renda e a processos administrativos.

O principal motivo de reclamação apontado pelas mulheres relaciona-se com entregas e com atrasos logísticos, que representam 24,66% das queixas, seguido da qualidade do serviço ou do produto (23,62%) e de problemas financeiros e de transações, incluindo reembolsos (22,61%).

O perfil da mulher reclamante online tem a idade média de 40,07 anos, provindo a maioria das reclamações da faixa etária entre 25 e 44 anos, que concentra cerca de 55% das queixas femininas. E, em termos geográficos, a maior parte das reclamações provém dos grandes centros urbanos. Lisboa lidera com 31,74%, seguida do Porto, com 17,94%, e Setúbal com 10,86%, enquanto Aveiro e Braga completam o grupo dos distritos com maior volume de queixas.

O estudo verifica a desigualdade de género, na resolução de conflitos, pois ainda há diferenças na resposta às reclamações de homens e de mulheres: a percentagem das queixas resolvidas apresentadas por mulheres é 55,81%, inferior à dos homens, que atinge 59,47%.

A este respeito, Sónia Lage Lourenço, CEO do Portal da Queixa, afirma: “As conclusões deste barómetro são claras: o perfil da mulher consumidora, em Portugal, é o de uma ‘gestora de crises’ que utiliza a tecnologia, para exigir o cumprimento de direitos básicos. Este relatório evidencia que a qualidade do serviço não é um luxo, mas uma pré́-condição para a estabilidade social e [para] o crescimento económico, num país onde a voz feminina nunca foi tão ouvida, nem tão determinante.”

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Em consonância com o já referido, o Barómetro de Consumo e Análise de Reclamações 2025-2026, estabelece o Perfil da Mulher Consumidora em Portugal, devidamente atualizado.

Em síntese, sustenta que, pela primeira vez, as mulheres lideram o volume total de reclamações, em Portugal, representando 50,09% das queixas – uma mudança histórica no perfil do consumidor português. Registam-se, como se disse, 119564 reclamações femininas, que representam 50,09% do total nacional, sendo a idade média das reclamantes 40,07 anos. E a tendência de aumento da percentagem de reclamações femininas mantém-se, pois, nos meses de janeiro e de fevereiro de 2026, foi de 51,86%.

Em termos de análise setorial, o setor Correio, Transporte e Logística lidera com 13,92% das queixas femininas. Seguem-se os setores: Compras, Moda e Joalharia, com 10,07%; Serviços e Administração Pública, com 7,94%; Comunicações, TV e Media, com 6,78%; Mobiliário, Decoração e Eletrodomésticos, com 5,85%; Informática, Tecnologia e Som, com 5,44%; Beleza, Estética e Bem-estar, com 5,33%; Transportes públicos, Aluguer e Condução, com 5,18%; e Outros, com 39,49%.

Quanto ao perfil de demográfico, verifica-se que a percentagem de queixas de mulheres, por escalão etário, é de 8,21%, dos 18 aos 24 anos; de 28,95, dos 25 aos 34 anos; de 26,04%, dos 35 aos 44 anos; de 21,29%, dos 45 aos 54 anos; de 10,58%, dos 55 aos 64 anos; e de 4,93% dos 65 anos em diante. A idade média das reclamantes é 40,07 anos; a mediana é 39 anos; e a percentagem de reclamações, face às consumidoras nacionais é de 99,01%.

A nível geográfico, as reclamantes concentram-se no litoral. Neste sentido, surge Lisboa, com 31,74%, o Porto, com 17,94%, e Setúbal, com 10,86%, que concentram mais de 60% do total das reclamações femininas – a que se seguem Aveiro, com 5,45%, e Braga, com 5,44%, expondo uma fratura clara entre o litoral urbanizado e o interior do país, que apresenta 28,57%.

É de considerar também a sazonalidade das reclamações femininas. Assim, por ordem crescente, aparece abril, com 6,72% das reclamações. Seguem-se fevereiro (agitação laboral), com 7,13%; junho, com 7,32%; novembro (Black Friday), com 7,42%; março (greves na função pública), com 7,49%; maio, com 7,66%; setembro (regresso às aulas), com 8,08%; outubro (crise IHRU), com 8,16%; agosto, com 8,44%; julho (picos de turismo), com 8,78%; janeiro (saldos de inverno), com 8,96%; e, por último, dezembro (Natal / Logística), com 13,84%.

O pico de atividade é às 11h00 da manhã e a reclamação integra-se na rotina diária de trabalho.

Como é evidente, dezembro destaca-se com 13,84% do total anual. O “Efeito Dezembro” reflete falhas logísticas do período natalício e do comércio eletrónico. Assim, é o mês que concentra a maior contestação feminina, alimentada pela incapacidade operacional das transportadoras em lidar com o volume de encomendas natalícias.

O Barómetro especifica motivos das reclamações femininas, em que entregas e logística lideram com 24,66% – que são o principal motivo de queixa –, seguidas da qualidade do serviço / produto (artigos defeituosos ou impróprios), com 23,62%, e problemas financeiros (reembolsos e cobranças indevidas), com  22,61%. Estes três tipos de queixas criam, respetivamente, perda de confiança, prejuízo material e ansiedade patrimonial.

Também segurança, fraude e privacidade, com 12,38% das queixas, concitam o medo de exposição; questões legais e técnicas, com 9%, acusam frustração burocrática; e queixas sobre atendimento e suporte, com 7,75%, geram sensação de abandono no consumidor.

No âmbito das reclamações, “encomenda” é a palavra mais mencionada (26302 referências). Todavia, há outras, como bilhete, sapatilhas, autocarro, sofá, aplicação, Internet, cartão.

Também há desigualdade de género na satisfação, no tempo de resposta e na resolução.

A satisfação das consumidoras caiu quase 3%, em 2025, um recuo superior ao do público masculino. As marcas demonstram uma “negligência seletiva”, por género.

A satisfação feminina, em 2025, é de 3,59%, contra 3,84% da masculina, representando uma queda de -2,90%, face a 2024. As mulheres avaliam as marcas com pontuação inferior, refletindo uma experiência real de espera.

O tempo de resposta às mulheres é de -3,84%, face a -3,14% do tempo de resposta aos homens. O tempo de resposta piorou mais para mulheres do que para homens, sugerindo enviesamento estrutural no atendimento.

A taxa de resolução feminina é de 55,81%, face a 59,47% da masculina. Nestes termos, 37,37% dos casos femininos ficam sem resolução, face a 33,65% dos casos masculinos.

Os indicadores de satisfação feminina em 2024 e em 2025 (numa escala de 0 a 5) são os seguintes:

Média das avaliações de satisfação, em  2024, é 3,70; em 2025, é 3,59.

Média do comportamento da marca, em 2024, é 4,20; em 2025, é 3,91.

Média do tempo de resposta, em 2024, é 4,12; em 2025, é 3,96.

84,1% das reclamações femininas começam com sentimento negativo. Apenas 13,3% atingem positividade final, contra14,6% das reclamações masculinas.

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O barómetro destaca os casos do IHRU, que se tornou a marca mais reclamada por mulheres, e da moda e cosmética, que revelam a predominância feminina esmagadora nas queixas.

O IHRU – Habitação regista 2,67% das queixas, sendo mais 93% do total delas femininas.

A suspensão de apoios à renda e a demora na aprovação de candidaturas ao Porta 65 deixaram milhares de famílias em vulnerabilidade extrema. E o IHRU, registando  atrasos “gravíssimos”, admitiu que o sistema falhou em responder a mais de 50 mil beneficiários, em mais 93% de reclamações.

O Portal da Queixa tornou-se o canal preferencial para expor a agonia de quem não consegue contactar os serviços públicos.

Das queixas do setor Compras Moda e Joalharia 72,26% são femininas, focando-se em sapatarias online e perfumarias e sendo 51,89% da categoria Beleza e Estética.

Há encomendas que não saem do armazém e há dificuldade de contacto com o apoio ao cliente, bem como falhas de stock, publicidade enganosa. Ora, promessas de prazos de entrega incumpridas geram perceção de desrespeito pela consumidora.

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Concluindo,

Regista-se uma hegemonia feminina, isto é, a mulher portuguesa assumiu o papel de principal auditora da qualidade dos serviços, sendo a reclamação digital, hoje, a principal fonte de informação para empresas e reguladores. Por conseguinte, as marcas que ignorem o fosso de satisfação entre géneros e continuem a oferecer tempos de resposta mais lentos e menores taxas de resolução às mulheres perderão o seu principal grupo de decisores de compra.

O contexto é marcado pela crise habitacional, com o colapso do IHRU e as falhas nos apoios à renda e ao Porta 65 a demonstrarem que os serviços públicos estão a falhar às mulheres, que mais precisam de proteção social e estabilidade.

Está a crescer a cidadania económica das mulheres, ou seja, a mulher consumidora é uma “gestora de crises” que utiliza a tecnologia para exigir o cumprimento de direitos básicos; e a queixa tornou-se um ato de cidadania económica e de proteção mútua, entre consumidoras.

Em termos das perspetivas para 2026, é de considerar que a recuperação da confiança dependerá da capacidade das marcas e do Estado em humanizar o atendimento por género, em automatizar processos de reembolso e em garantir a integridade das entregas em crise.

Porém, a via de resolução é longa, até porque o Barómetro só considera as queixas online.

2026.03.06 – Louro de Carvalho

quinta-feira, 5 de março de 2026

Já não é tempo de esperar por D. Sebastião, mas por novas políticas

 

A notícia da escolha de Luís Neves, licenciado em Direito pela Universidade Lusíada e diretor da Polícia Judiciária (PJ), durante oito anos, para ministro da Administração Interna foi recebida com aplauso, pela generalidade das forças político-partidárias com assento parlamentar, bem como pelas instituições que tutela, embora a Associação dos Profissionais da Guarda (APG/GNR), a princípio tenha manifestado reticências, mas já passadas a expectativas.  

A nível partidário, o partido do Chega, pela voz de Rui Gomes da Silva, lhe prometeu escrutínio político “implacável”, prometendo chamá-lo, em breve, à Assembleia da República (AR) e avisando-o de que deve alterar o paradigma “cor-de-rosa” que defendeu sobre a criminalidade grave, em Portugal, designadamente, a conexa com a imigração. Além disso, apontou-lhe desafios, como o das carreiras, nas forças de segurança, o do comando unificado dos bombeiros e o da reorganização da Proteção Civil. E Mariana Leitão, presidente da Iniciativa Liberal (IL), também lhe pôs pressão sobre a ação: “É tempo de executar o que tem ficado por fazer, o país não aguenta continuar a viver de anúncios sem consequência”, escreveu no X, prometendo acompanhar a ação do novo governante.

Quanto aos demais partidos, é de registar o voto de confiança do Bloco de Esquerda (BE) e do Livre e um salvo-conduto do Partido  Comunista Português (PCP). Assim, a deputada do Livre Patrícia Gonçalves apontou que Luís Neves “tem uma tarefa difícil pela frente”, mas é “uma escolha positiva”, e referiu que, em áreas, como a imigração e a luta contra o racismo, Luís Neves tem expressado opiniões numa “linha diferente do governo”.

José Manuel Pureza, líder do BE, elogiou a postura do novo ministro, enquanto diretor da PJ, designadamente, no “combate à criminalidade motivada pelo discurso de ódio de extrema-direita”, mas julga difícil “compatibilizar isso com a opção política de um governo que legitima, diariamente, o discurso de ódio da extrema-direita”.

O PCP frisou que, “independentemente da personalidade indicada, o país precisa de medidas e de investimentos indispensáveis à prevenção e à preparação do país, para enfrentar intempéries, incêndios ou outros problemas”, e de apostar na “valorização dos profissionais das forças de segurança”, algo que os companheiros de profissão do novo ministro disseram.

Pelo Partido Socialista (PS), o secretário-geral, José Luís Carneiro, entende que o ministro será “personalidade forte” em “governo frágil”. Trata-se, a meu ver, de elogio com pouco sentido. É uma personagem com notável folha de serviço, na PJ, mas isso não é garantia de bom político e de governante eficaz (como revela a experiência relativa às duas antecessoras), pois nem tem o poder do ministro das Finanças, nem tem revelado pensamento alinhado com o do governo, ao invés do que referiu o ministro da Presidência, António Leitão Amaro, ao referir o seu “trabalho de grande qualidade e de sintonia” com a visão do executivo. 

Do seu lado, Associações e sindicatos da Guarda Nacional Republicana (GNR) e da Polícia de Segurança Pública (PSP) esperam que Luís Neves ponha em prática o que tem defendido sobre salários e sobre condições de trabalho. E a liga dos Bombeiros Portugueses (LBP) elogiou a escolha, valorizando o seu conhecimento do setor.

Alguns analistas, como Daniel de Oliveira, do Expresso, levam em linha de conta que o novo titular da pasta está habituado à exposição pública. Já falou mais vezes para as câmaras televisivas do que as antecessoras, quando detinham o cargo. E tem mostrado astúcia. Sobreviveu à limpeza política geral do Partido Social Democrata (PSD) no topo das instituições do Estado, “com algum golpe de rins”, capacidade a que não é estranha a competência com que tem dirigido a PJ, desde 2018. Ao invés preocupam-se com quem lhe sucederá na PJ. Com efeito, num momento em que a Procuradoria-Geral da República (PGR) está controlada (o seu titular reclama-se amigo do chefe do governo) e o primeiro-ministro (PM) protegido, teme-se que fique beliscada a autonomia daquela polícia de investigação.

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A folha de serviços do ex-diretor da PJ deslumbrou os observadores; e a reivindicação por salários mais justos e melhores condições de trabalho é unânime, nas forças de segurança, até porque Luís Neves, aquando da aprovação de um subsídio de risco para os inspetores da PJ, disse que as restantes polícias deveriam ver a sua condição salarial melhorada.

Luís Neves entrou na Direção Central de Combate ao Banditismo em dezembro de 1996, mas foi no combate ao terrorismo e ao crime internacional que se especializou. E chegou ao Ministério da Administração Interna (MAI) com a bagagem de 30 anos. Participou em investigações a gangues que assaltavam multibancos, com explosivos, e no combate às máfias de Leste e ao grupos de skinheads, apoiantes de ideologia nazi e de violência, por motivos racistas. Esteve associado ao desmantelamento de células da ETA, em Portugal, é à detenção, em Itália, do ex-espião do Serviço de Informações de Segurança (SIS) Frederico Carvalhão Gil. Encarou o caso mediático ocorrido em 2001, quando Manuel Subtil se barricou numa casa de banho da RTP. E, como responsável máximo da PJ, liderou a investigação ao furto de material de guerra nos paióis de Tancos, como Saltou para a ribalta com a captura de João Rendeiro, ex-líder do Banco Privado Português (BPP), na África do Sul, e esteve envolvido no caso de Rui Pinto.

Em 2025, explicou os jornalistas o Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) posicionando-se do lado dos factos, por oposição às “perceções”, termo com que o PM justificava a necessidade de se fazer mais contra a insegurança e a criminalidade. Luís Neves disse que nem uma nem outra eram problema nacional. Aliás, já no primeiro ano de pandemia, comentando a investigação aos skinheads, dizia que “o ódio racial, político, religioso, de género, contra os imigrantes, tudo isto tem de ser reprimido” e que a PJ estaria “sempre na primeira linha de combate, quer do ponto de vista preventivo, quer do ponto de vista repressivo”.

Todavia, o seu percurso não foi isento de polémicas. Talvez a mais conhecida estalou quando, falou em “terrorismo judiciário”, ao defender mudanças na lei que diminuíssem a possibilidade de os advogados recorrerem a “expedientes dilatórios que arrastam processos”, o que foi contestado pela Ordem dos Advogados (OA), em nome da íntegra liberdade de defesa

Quando, sob a sua direção, a PJ desencadeou a enorme operação na Madeira, em processo conexo com suspeitas de corrupção, de prevaricação, de abuso de poder e de tráfico de influências, que envolveu o governo regional, a PJ foi criticada por, alegadamente, ter dito aos jornalistas que a operação ia acontecer e, assim, ter ampliado o impacto da investigação.

Já em 2025, numa conferência de celebração dos 160 anos do “Diário de Notícias”, o diretor da PJ deu exemplos que deitavam por terra a ideia de que Portugal era país inseguro. “A perceção de insegurança é gerada pela desinformação, [por] fake news e [por] ameaças híbridas”, disse, acusando os canais de televisão que passam, repetidamente, a notícia de um crime, o que acaba por criar “a ideia de insegurança que não tem a ver com a insegurança plena do crime”.

Na mesma conferência, comparando a atualidade com o passado de drogas, reafirmou o seu ponto vista sobre um país mais seguro, contrariou as insinuações de que há mais criminalidade por causa do aumento significativo de pessoas, no país nos últimos anos, desfazendo qualquer ligação entre os dois factos, e evidenciou os casos relacionados com “organizações criminosas transnacionais, [com] cibercrime ou [com] estupefacientes” e com “criminalidade contra o património”, porque tais pessoas “não são imigrantes”, pois muitos dos envolvidos e dos presos são “mulas de transporte” [de droga], “pessoas pobres” que chegam a Portugal, porque o país é a porta de entrada da União Europeia [UE] para quem vem da América Latina e de África.

Salientou, ainda, que há 120 pessoas de países asiáticos, num universo de mais de 10 mil reclusos, mas admitiu que é necessário controlar quem está cá, para robustecer as políticas públicas de integração e todas as outras que são instrumentais ou adjacentes a ela, bem como para proteger o “próprio imigrante” que é, “muitas vezes, vítima das garras dos traficantes de pessoas, dos tráficos de seres humanos, das organizações criminosas e da imigração ilegal”.

Um mês depois, chamado à Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias pela IL, cujo presidente de então, Rui Rocha, o acusara de usar “dados truncados”, na tal conferência, Luís Neves repetiu muito do que tinha dito e defendeu uma “maior agilidade burocrática” na legalização das pessoas, considerando que os imigrantes em situação legal “tendencialmente, não cometem crimes”. E, admitindo que “as perceções de insegurança têm de ser respeitadas”, esclareceu que a maioria dos estrangeiros detidos estão presos preventivamente e que o que o preocupa mais são os crimes informáticos e as redes criminosas. 

Na altura, os dados partilhados com os deputados mostram que, apesar de a população estrangeira residente ter aumentado de 454 mil, em 2009, para 1,4 milhões, em 2023, a percentagem de detidos, por população estrangeira, baixou de 0,122% para 0,045%.

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Entretanto, em março de 2025, no contexto de uma investigação da PJ à Federação Portuguesa de Futebol (FPF), no âmbito da “Operação Mais-valia”, Luís Neves, então diretor da PJ, foi à tomada de posse de Fernando Gomes (antigo presidente da FPF) do cargo presidente do Comité Olímpico de Portugal (COP), como previsto, e disse, ao lado dele: “Fernando Gomes e Tiago Craveiro não são visados, nesta investigação, não há qualquer indícios [...] Estou aqui a dar a cara para que fique esclarecido e para que Fernando Gomes não se sinta diminuído por esta nossa ação”. Já Fernando Gomes, que ouviu, manteve-se em silêncio, deixando escapar apenas que não se sente fragilizado com o que está a acontecer: “De todo...”

A PJ fazia buscas na Cidade do Futebol, na sede da FPF,  por suspeitas dos crimes de recebimento indevido de vantagem, de corrupção, de participação económica em negócio e de fraude fiscal, no mandato de Fernando Gomes. As buscas estavam relacionadas com a venda da antiga sede da FPF, tendo sido cumpridos 20 mandados de busca a pessoas singulares e coletivas.

A FPF, liderada por Pedro Proença, emitiu um comunicado onde garantia que seria “totalmente inflexível na defesa dos interesses da instituição” e que “iria até às últimas consequências, face a qualquer prática ilícita ou criminal” que visses a ser apurada.

Estamos a falar do homem que, ao ser confrontado com o facto de ter dirigido a corporação que investigou, em cooperação com o Ministério Público (MP), o caso que envolveu (e ainda envolve, pelos vistos) o PM – pelo que, na ótica dos críticos, não deveria ter aceitado o convite para integrar o governo –, respondeu que o diretor não faz investigações. Porém, sabe dizer que A e B não estão implicados em nada, mas produz diretivas de serviço, comanda, recebe reportes, avalia e faz relatórios. Será caso comparável ao do procurador-geral da República, que não inquire nada, mas antecipada que, a propósito da Spinumniva, poderia haver uma prenda de Natal.     

Enfim, ao longo de 2025, Luís Neves fez várias declarações sobre a relação entre criminalidade e imigração, dissociando-as, e associou o medo às fake news, vincando que “imigrantes não são sinónimo de crime”. Assim, clarificou que “um imigrante é estrangeiro, mas um estrangeiro não é, necessariamente, um imigrante”. Distinguiu os conceitos de “estrangeiro” e de “imigrante”, relevando que muitos cidadãos estrangeiros detidos não residem em Portugal, como acontece com correios de droga intercetados nos aeroportos em operações internacionais.

Verificou a continuidade de muitos homicídios e de muitos crimes de violência doméstica no país, para frisar que 90% deles são cometidos por cidadãos nacionais.

Advertiu que “o número de estrangeiros é, por rácio de detidos, o segundo número mais baixo”, em 2024 e que “o primeiro foi em 2020”. Porém, esquece que a insegurança, em termos psicossociais, não se cinge ao volume de detidos, mas também resulta dos que andam à solta e, sobretudo, dos que não são detidos e dos que os tribunais não pronunciam para julgamento, por falta ou por inconsistência de provas.  

Diz que as perceções de segurança devem ser respeitadas, porque são os sentimentos das pessoas.

E  considera que estamos a assistir a um momento de desinformação, de fake news e de ameaças híbridas, sendo isso tudo a levar à perceção de insegurança.

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Luís Montenegro optou por escolhas surpreendentes na pasta que tutela as polícias: Margarida Blasco, era inspetora-geral da Administração Interna, órgão de fiscaliza as forças policiais; Maria Lúcia Amaral, era Provedora de Justiça, órgão independente a quem incumbe a defesa dos direitos dos cidadãos, face ao Estado, e que tem criticado abusos policiais; e, agora, Luís Neves, que é a mais perplexizante de todas, dado o seu proverbial desalinhamento do governo. 

Alguém apontou o resultado das eleições presidenciais como o móbil da reviravolta do PM. Dois terços de eleitores, incluindo muitos apoiantes do governo, ao vincarem a rejeição de André Ventura, terão feito ver que não é boa ideia manter o securitarismo racista e xenófobo extremista. E há quem diga que o Presidente da República terá influído na escolha. Assim, ver-se-á quem muda de rota, se o PM, se o tutelar das polícias e da Proteção Civil. Porém, há outras questões.

Não alinho na ideia de que integrar a AR ou o governo seja labéu a evitar por magistrados e por polícias, mas Luís Neves dirigia a investigação dos crimes mais graves, como a corrupção, tráfico de influências e outros delitos associados a cargos públicos relevantes. E o PM é, novamente, visado em investigação a cargo da PJ. Ora, impõe-se o princípio da separação de poderes. Nem José Sócrates, ao ser escutado, por exemplo, no processo “Face Oculta”, se lembrou de convidar então diretor da PJ para o governo, o qual também não aceitaria o convite.

Ora, se como diz o novo governante, as perceções são legítimas, há que lembrar que, em política, muitas vezes, o que parece é. Dito de outro modo, à mulher de César não basta ser honesta, mas deve também parecê-lo. E o novo governante, que tem a imagem de impoluto, de corajoso e, como garantiu, na tomada de posse, de avesso a taticismos, o seu histórico de façanhas e de polémica não o imune de desiludir, quer as perceções, quer a realidade.

Parece que muitos pensam que virá salvar a honorabilidade da governação e, em especial, da Administração Interna. Todavia, é de vincar que não há D. Sebastião (ou Messias), quando o governo é fraco. Além disso, o tempo de D. Sebastião já acabou ou é muito curto. Tivemos, há anos, uma procuradora enviada de Lisboa a pôr ordem numa investigação em curso no Porto e nada mudou de substancial. Tivemos, recentemente, um almirante que ganhou aura enorme com as vacinas, no tempo da covid-19, mas, perdeu a corrida presidencial, entretido na disputa pessoal e/ou profissional com outro candidato.

Portanto, desengane-se quem pense que algo mudará, se o PM e o ministro das Finanças mantiverem as políticas de constrição de meios, de esvaziamento do Estado e de pouco interesse pela valorização dos trabalhadores em funções públicas. Não há D. Sebastião que perdure.

2026.03.05 – Louro de Carvalho


quarta-feira, 4 de março de 2026

Acidente do ascensor da Glória deve ser plenamente esclarecido

 

A 3 de setembro de 2025, já lá vão seis meses, o ascensor da Glória descarrilou e provocou 16 mortos e cerca de 20 feridos, mas continua sem haver uma conclusão sobre tudo o que correu mal. Por isso, a 3 de março, o grupo municipal do Partido Socialista (PS) propôs, na Assembleia Municipal de Lisboa (AML), a constituição de uma comissão eventual para acompanhamento e esclarecimento do acidente, garantindo transparência, ouvindo todas as entidades relevantes e acompanhando a investigação e o processo de indemnizações às vítimas.

“A relevância do acidente, a necessidade de transparência e a obrigação institucional de garantir a segurança dos munícipes e [dos] visitantes impõem um acompanhamento político rigoroso, sistemático e independente”, defendem os socialistas, vincando que a AML, enquanto órgão fiscalizador da atividade do executivo municipal, “tem o dever de assegurar que todas as entidades envolvidas [no acidente] são ouvidas e que as responsabilidades, diretas ou indiretas, são devidamente apuradas”.

O ascensor da Glória, mais conhecido por elevador da Glória, muito procurado por turistas, no centro de Lisboa, com uma das duas cabinas a embater violentamente contra um edifício, provocou 16 mortes e 20 feridos, entre portugueses e estrangeiros de várias nacionalidades.

Em resposta à agência Lusa, a Procuradoria Geral da República (PGR) informou que o inquérito do Ministério Público (MP) ao acidente está ainda “em investigação”, encontrando-se “em curso” diligências de aquisição de prova, designadamente, “diligências complexas de natureza pericial”, e que “o inquérito está sujeito a segredo de justiça”. Porém, não deu mais informação, inclusive, sobre que pessoas foram já ouvidas no âmbito deste caso.

De acordo com o grupo municipal do PS, a comissão pretende também seguir o curso do processo de indemnização e de apoios prestados às vítimas pelas várias entidades competentes e responsáveis nas diferentes matérias, assim como remeter à Câmara Municipal de Lisboa (CML) um relatório final, depois de ser aprovado em plenário da AML.

A proposta do PS, que ainda tem de ser votada pela AML, determina a apresentação de um relatório final, “no prazo de 90 dias”, com conclusões e com recomendações para a melhoria da segurança e da gestão dos ascensores e funiculares da cidade.

No dizer dos deputados municipais do PS, o acidente de que resultaram consequências humanas e materiais de elevada gravidade, “gerou uma profunda preocupação pública”, quanto às condições de segurança, de manutenção, de fiscalização e de gestão deste ascensor, classificado como Monumento Nacional e integrado no sistema de mobilidade urbana de Lisboa”.

Na reunião da AML, Miguel Coelho, deputado do PS, aproveitou o debate de atualidade sobre sinistralidade rodoviária e mobilidade em Lisboa, feito a pedido do PS, para propor a criação de uma comissão eventual sobre o acidente com o elevador da Glória, e desafiou o Partido Social Democrata (PSD) a “não inviabilizar” a proposta. É tempo de discutirmos, um bocado mais aprofundadamente, o que é que aconteceu e quais são as responsabilidades técnicas, mas também políticas”, afirmou Miguel Coelho, instando o vice-presidente da CML, Gonçalo Reis, do PSD, a “usar os seus bons ofícios” para que seja aprovada a constituição da comissão.

Gonçalo Reis recusou pronunciar-se sobre a proposta, aduzindo que se trata de “jurisdições independentes”, e realçou que “a Carris está a fazer tudo o que é adequado”, com o acompanhamento das vítimas, com um inquérito interno e com uma auditoria externa e com a avaliação das condições de segurança de todos os ascensores da cidade.

Essa recomendação ao vice-presidente da CML é, de facto, descabida, pois, o executivo não deve, nem pode, interferir no debate da AML. Porém, fazia sentido o pedido antecipado de alocação de meios para o funcionamento da comissão, caso seja aprovada.

No atual mandato (2025-2029), a AML tem 75 deputados, 10 grupos municipais, respetivamente, 24 do PS, 22 do PSD, seis da Iniciativa Liberal (IL), seis do partido do Chega, cinco do Partido Comunista Português (PCP), quatro do partido do Centro Democrático Social (CDS), três do Livre, dois do Bloco de Esquerda (BE), dois do Partido Ecológico “Os Verdes” (PEV) e um do partido Pessoas-Animais-Natureza (PAN). Portanto, se não houver um esforço de boa vontade dos grupos municipais, a comissão corre o risco de inviabilização.  

Na sequência do acidente com o elevador da Glória, a CML, presidida por Carlos Moedas, do PSD, suspendeu, “de imediato”, o funcionamento dos ascensores da Bica e do Lavra e do funicular da Graça para inspeção dos respetivos equipamentos.

A 2 de março, a empresa municipal Carris, responsável pela gestão destes equipamentos de transporte público urbano, indicou que o funicular da Graça vai reabrir “em abril”, após a vistoria técnica ter confirmado “as boas condições estruturais e operacionais do equipamento”, enquanto os ascensores da Bica e do Lavra continuam sob avaliação.

Seis meses depois do acidente, os processos de apoio às vítimas e aos familiares continuam em desenvolvimento, por parte da seguradora da Carris, a Fidelidade, tendo sido já celebrados acordos indemnizatórios. E fonte oficial da seguradora revelou que foi registado um total de 40 vítimas e frisou que mantém “acompanhamento ativo e permanente” às vítimas e [às] respetivas famílias, “assegurando a regularização do sinistro nos termos legais aplicáveis”.

Já é estranho não haver conclusões finais sobre a origem do acidente e sobre as responsabilidades em relação ao mesmo. Porém, era inadmissível que uma instituição como o município lisboeta não tenha tido capacidade técnica e financeira para repor o funcionamento deste importante meio de transporte urbano, quanto antes. Parece que reabrirá em abril.

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A Carris garante que “mantém em curso o inquérito interno, as auditorias externas e uma estreita colaboração, no âmbito do inquérito promovido pelo Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários (GPIAAF)”, assim como tem fornecido “todos os elementos” pedidos pela Comissão Técnica de Avaliação (CTI), criada pela CML e constituída por elementos da Ordem dos Engenheiros (OE), do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), do Instituto Superior Técnico (IST), da Carris e da EMEL – Empresa Municipal de Mobilidade e Estacionamento de Lisboa.

De acordo com os dados da avaliação preliminar do GPIAAF, “ficaram evidenciados o grau de ‘atenção’ e o nível de ‘fragilidade’ técnica na aquisição dos serviços de manutenção”, segundo Carlos Gaivoto, engenheiro especialista em transportes e membro do Conselho Superior das Obras Públicas. O cabo de tração entre as cabinas do ascensor não era “conforme com a especificação da Companhia Carris de Ferro de Lisboa”, nem “certificado para utilização em instalações para o transporte de pessoas”, nem alvo de manutenção e fiscalização adequadas.

Falta, porém, o relatório final, que está apontado para setembro, cerca de um ano após a tragédia, sendo, para Carlos Gaivoto, “inacreditável” que o relatório final da investigação do acidente demore um ano a ser feito. Por isso, afirma: O Estado português desestruturou-se tecnicamente.”

O engenheiro que trabalhou 50 anos na Carris, sustenta que a CTI “não substitui o papel de uma entidade fiscalizadora nacional que, em Portugal, simplesmente não existe”. E diz que, na França, a STRMTG, estrutura estatal especializada em transportes”, é o serviço técnico central do governo, para teleféricos, funiculares, tapetes rolantes de estâncias de montanha, transportes públicos guiados e sistemas rodoviários automatizados; funciona como observatório; produz estudos, normas e pareceres; apoia a administração, em segurança e em formação; e supervisiona o mercado de componentes.

Como, em sua ótica, “não há uma entidade que acompanhe acidentes, fiscalize, dê diretivas e garanta que normas são cumpridas”, Carlos Gaivoto espera que o relatório final manifeste essa necessidade e “obrigue o Estado a alterar a organização institucional do setor, de modo a incluir essa nova entidade”. Ao mesmo tempo, lamentando “a cobertura que sucessivos governos têm dado à mercantilização dos serviços de manutenção e segurança deste setor”, lembra que “a Carris tinha uma qualidade de manutenção muito exigente”, mas que “a rotação dos conselhos de administração e as políticas aplicadas de diminuição dos custos de manutenção foram causando sérios danos internos e aumentando a probabilidade destes acidentes”.

Impedido de entrar nas instalações da Carris, por ter denunciado, em público, o desinvestimento na manutenção na sequência da tragédia do ascensor da Glória, fala em sistema de manutenção “fragilizado há décadas”, mercê de políticas de redução de pessoal, de subcontratações sucessivas e de ausência de uma entidade nacional especializada capaz de fiscalizar equipamentos de transporte, como funiculares, ascensores e elevadores.

Segundo o especialista, os procedimentos de manutenção que existiram, durante décadas, deixaram de ser aplicados, o que se revelou “um problema grave”, sobretudo, quando os equipamentos são centenários, pois “estes equipamentos dependem de cabos, de motores externos e de sistemas de travagem cuja manutenção tem de ser contínua”. Nos anos 1980, havia equipas permanentes afetas a cada equipamento e, “todos os anos, havia uma revisão geral” e acompanhamento diário, mas “esse modelo deixou de funcionar” e passaram a existir equipas reduzidas, manutenção distribuída por turnos e por visitas esporádicas. “A Carris foi esvaziada tecnicamente”, insiste o especialista, em cujo entender, “faltaram equipas permanentes, controlo rigoroso dos sistemas de travagem, planeamento de manutenção, acompanhamento técnico diário e fiscalização independente, em equipamentos “cada vez mais exigentes”.

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No dia do acidente, a Autoridade da Mobilidade e dos Transportes (AMT) prometeu “realizar uma ação de supervisão ao acidente”, cujos resultados seriam divulgados “com a maior celeridade possível”. Contudo, o relatório não foi realizado.

A informação foi avançada, 25 de fevereiro, pelo jornal Público, que solicitou, em janeiro, o acesso ao dito relatório. Ao jornal a AMT disse que, “de forma a não perturbar as investigações e inspeções em curso e respeitando as competências de cada entidade responsável pelas mesmas, aguardou pelo fim das ações das devidas autoridades e pela consequente publicação dos resultados”. Ou, seja, não fez qualquer relatório, porque, após as conclusões do relatório do GPIAAF, “entendeu terem ficado esclarecidas as principais questões relacionadas com o incidente em causa, considerando não fazer sentido efetuar diligências adicionais que seriam de natureza jurídica diferente, dadas as atribuições de fiscalização e supervisão da AMT”.

Ainda decorre a investigação do GPIAAF, após a divulgação de o relatório preliminar de outubro. Em simultâneo, segue uma investigação do MP, para encontrar eventuais responsabilidades criminais e, ainda, uma terceira a cargo da Carris.

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O funicular da Graça, parado desde o acidente com o elevador da Glória, vai reabrir em abril, segundo a Carris, após a vistoria técnica ter confirmado as boas condições estruturais e operacionais do equipamento.

Quanto ao retomar do funcionamento dos ascensores da Bica e do Lavra, a CTI prossegue com o estudo, com testes e com avaliação dos equipamentos, “com vista à sua oportuna reabertura”, informou a Carris, em comunicado enviado à agência Lusa.

O funicular da Graça foi inaugurado a 12 de março de 2024, ou seja, quase 15 anos depois de ter começado a ser construído, levando a derrapar o orçamento inicial para sete milhões de euros. Assegurando o percurso entre a Mouraria e a Graça, dispõe de via única, constituída por carris e com dois pontos de paragem no início de cada trajeto, tendo capacidade para transportar o máximo de 14 pessoas, por viagem, que dura cerca de minuto e meio.

Estava, inicialmente, previsto ser gerido pela Carris, mas, na inauguração foi anunciado que a gestão ficaria a cargo da EMEL. No entanto, em janeiro de 2025, a CML aprovou a transferência da gestão do funicular da Graça da EMEL para a Carris, ambas empresas municipais.

“Apesar de ainda estar a decorrer o processo administrativo de transferência da gestão do equipamento”, a Carris já está a executar “três ações” identificadas como necessárias no relatório da CTI, para que a reabertura do funicular da Graça se concretize, com brevidade, nomeadamente, ensaios complementares a equipamentos, atualização das medidas de autoproteção e revisão da formação dos operadores. “Na sequência de um trabalho detalhado e independente que visou aferir se o funicular da Graça reunia as condições para voltar a funcionar com normalidade, estamos satisfeitos por constatar que o relatório é inequívoco e conclui que o funicular foi concebido, construído e poderá ser operado em linha com os melhores padrões de segurança”, afirmou o presidente do conselho de administração da Carris, Rui Lopo, nomeado há três meses, após a demissão de Pedro de Brito Bogas.

Citado em comunicado, Rui Lopo disse que a Carris já informou a CML de que está a realizar as ações identificadas no relatório para que a operação do funicular seja retomada e, “havendo autorização final para esse efeito”, que compete ao IMT, “estarão reunidas as condições para que, em abril, o funicular da Graça volte a funcionar em pleno”.

Quando a CML deliberou a criação da CTI, após o acidente com o elevador da Glória, definiu como “prioridade absoluta” garantir que todos os elevadores e ascensores históricos da cidade “apenas retomariam a operação com padrões reforçados de segurança, totalmente alinhados com as melhores práticas nacionais e europeias”. E, segundo a Carris, as diligências da CTI incluíram o estudo de toda a documentação técnica do projeto e da empreitada do funicular da Graça, inspeções presenciais e ensaios específicos, reuniões com entidades especializadas, comparação com práticas de outros sistemas equivalentes, incluindo uma reunião técnica com responsáveis pelos funiculares da Catalunha, assim como a avaliação da conformidade com o Regulamento da União Europeia (UE) e com o restante enquadramento técnico legal aplicável.

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Quando a lógica da “reestruturação” de empresas públicas e de serviços públicos – redução de pessoal, subcontratação, externalização ou terceirização de serviços, poupança em materiais e em fiscalização – se sobrepõe ao interesse público, “o barato sai caro” e o bem-estar das pessoas fica em risco. Aliás, também, quando, em vez de os gestores de tais entidades (as quais, por vezes, até disputam a gestão de certos equipamentos) serem tecnicamente qualificados, são escolhidos com base no cartão partidário e, tantas vezes, não se lhes dá tempo de levar a seu termo o seu projeto de gestão (se é que o têm), subverte-se o serviço público.

Ora, os utentes, os turistas, os cidadãos merecem mais respeito e mais cuidado.   

2026.03.04 – Louro de Carvalho