terça-feira, 7 de abril de 2026

Passagem da leitura de Saramago a opcional na escola cria polémica

 

A obra de José Saramago, o único escritor português laureado com o Prémio Nobel da Literatura, deixará de ser leitura obrigatória no 12.º ano do ensino secundário, de acordo com a proposta do Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI), em consulta pública, até 28 de abril, que permite às escolas optar por outro autor, mas que está a gerar controvérsia.

Tornar opcional uma das obras de Saramago, em alternativa à de outro autor, no caso, Mário de Carvalho, decorre da revisão das Aprendizagens Essenciais de Português. Aliás, os titulares da pasta da Educação gostam de fazer alterações nem sempre necessárias.

Todavia, convém esclarecer o assunto, pois não há retirada de obras do programa, nem inserção de obras no mesmo. Aliás, as mudanças agora propostas só deverão entrar em vigor no ano letivo 2027/2028, no âmbito de revisão mais alargada dos programas escolares. Estamos a falar apenas da lista de obras e de textos no âmbito da educação literária.

Assim, em termos de poesia, vem no topo, em poesia lírica, a obra de Fernando Pessoa: poesia do ortónimo (escolha de oito poemas), poesia dos heterónimos (escolha de três poemas de Alberto Caeiro, de três poemas de Ricardo Reis e de  três poemas de Álvaro de Campos). A seguir, vêm poemas de Cesário Verde: “Num Bairro Moderno”, “De Verão”, e a leitura integral de “O Sentimento dum Ocidental”, in Cânticos do Realismo – O Livro de Cesário Verde (introdução e nota biobibliográfica de Helena Buescu. Depois, temos poemas de Mário de Sá-Carneiro e de Teixeira de Pascoaes, em contrato de leitura (um compromisso individual de um aluno ou de um grupo de alunos). E, ainda, a escolha de seis poemas de, pelo menos, três poemas de poetas portugueses contemporâneos (em contrato de leitura): Jorge de Sena, Eugénio de Andrade, Alexandre O’Neill, António Ramos Rosa, Ruy Belo, Vasco Graça Moura, Nuno Júdice, Ana Luísa Amaral; ou Fiama Hasse Pais Brandão, José Régio, Mário Cesariny, Ruy Cinatti, Vitorino Nemésio, Carlos de Oliveira, Raul de Carvalho, Salette Tavares (poemas visuais), Ana Hatherly (poemas visuais) e Luís Filipe de Castro Mendes.

Na poesia épica, surge “Mensagem”, de Fernando Pessoa, com a escolha de três poemas de cada uma das três partes.

Na narrativa em prosa, é obrigatória a leitura do conto “George”, de Maria Judite de Carvalho; e, em contrato de leitura, dois dos seguintes contos: “Sempre é uma companhia”, de Manuel da Fonseca; “As famílias desavindas”, de  Mário de Carvalho; “Saudades para a Dona Genciana”, de José Rodrigues Miguéis, in Léah e Outras Histórias; “A minha vida com Bela”, de Teresa Veiga, in O Último Amante;  “Wanda e o espelho”, de David-Mourão Ferreira, in As Quatro Estações; “Leão Velho”, de Lídia Jorge, in O Belo Adormecido;  “A enfermeira”,  de Irene Lisboa, in Obras de Irene Lisboa, O Pouco e o Muito – Crónica Urbana; e “Sentado no Deserto”, de Luísa Costa Gomes, in Contos outra vez.

Mário de Carvalho pode ver escolhidas duas obras suas.

A nível do romance – e é, neste âmbito que se situa a polémica – a proposta estabelece: José Saramago, com opção entre Memorial do Convento e O Ano da Morte de Ricardo Reis; ou Mário de Carvalho, com Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde.

Quanto ao teatro, a proposta estabelece a escolha de um texto dramático, entre: Eurípides, As Troianas; Jean Cocteau, A Voz Humana; Maria Velho da Costa, Madame; Sófocles, Antígona; Tiago Rodrigues, Ifigénia; Agamémnon, Electra; e William Shakespeare, Romeu e Julieta.

Não vejo ninguém a contestar a floresta de obras obrigatórias ou opcionais, no parâmetro “educação literária”, a par do parâmetro “leitura”, com uma enorme variedade de obras, como as constantes do  Plano Nacional de Leitura (PNL), para cada ano da escolaridade. Isto, além dos parâmetros de escrita e de oralidade. Acreditam, a sério, que é assim que se consegue que o aluno do ensino secundário fará, diariamente, 60 minutos de leitura?

Reportando-me ao romance, devo referir que a reforma de Roberto Carneiro não estabelecia o elenco de obras de leitura obrigatória, o qual ficava ao critério da escola. Porém, o Ministério da Educação, sob a liderança de Manuela Ferreira Leite, ao preparar a exigência de exames nacionais para conclusão do ensino secundário, tarefa que Marçal Grilo levou por diante, estabeleceu um programa mínimo, mas deixou que as escolas optassem entre Aparição, de Vergílio Ferreira, e Memorial do Convento, de José Saramago. David Justino impôs Memorial do Convento, de José Saramago. E foi Nuno Crato que determinou a opção entre Memorial do Convento e O Ano da Morte de Ricardo Reis, ambos de José Saramago.

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Na prática, as escolas deixam de estar obrigadas (como no tempo de Marçal Grilo) a escolher uma obra de Saramago no 12.º ano, passando a optar pela obra de Mário de Carvalho.

Também no 11.º ano, continuam a ser de leitura obrigatória Sermão de Santo António, do Padre António Vieira, Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett, bem como as obras de Eça de Queirós ou de Antero de Quental e passa também a autor obrigatório Camilo Castelo Branco.

A Associação de Professores de Português (APP) participou, com o MECI, na revisão das Aprendizagens Essenciais da disciplina, depois de consultados especialistas do Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias (CLEPUL), da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. “No centro desta revisão das obras de educação literária está o facto de os alunos lerem pouco. Mais de um terço dos alunos, desde o primeiro ciclo até ao secundário, nunca lê ou raramente lê qualquer livro. O mesmo aluno que não lê no primeiro ciclo, continua a não ler no segundo, não lê no terceiro e continua a não ler no secundário. Isto dá resultados catastróficos e impede que os resultados dos nossos alunos sejam objetivamente bons”, explicou João Pedro Aido, presidente da direção da APP.

A APP defende que se pretende aumentar a diversidade de autores, de forma a permitir uma maior flexibilidade na escolha das obras e a fomentar hábitos de leitura nos alunos. Não é por aí. A floresta gera perda, não orientação. O gosto pela leitura precisa de outras inspirações.

O presidente da APP fala de várias indicações para os alunos terem mais escolhas de obras e de autores para estudarem e para lerem, bem como “para terem rotinas de leitura”. E fala do “projeto pessoal de leitura, autónoma e por prazer, para criar rotinas de leitura”, sugerindo que os alunos no ensino básico leiam, pelo menos, 30 minutos, por dia, e os alunos no secundário leiam 60 minutos, por dia, em leitura autónoma e por prazer, com obras que os alunos decidem com a ajuda do professor ou com recomendações do PNL ou com outras obras.

Segundo João Pedro Aido, os 10 minutos de leitura que escolas e professores promovem em sala de aula são insuficientes. São, normalmente, na aula de Português, mas não todos os dias, porque os alunos não têm a disciplina todos os dias. Porém, esquece que, em todas as disciplinas, há exercício de leitura e que algumas editoras publicam resumos baratos que dispensam a leitura das obras. E esses resumos não são combatidos. Mais, na ótica algo ingénua do presidente da APP, “os alunos vão continuar a ler Saramago”, mesmo que o autor passe a ser de leitura opcional na escola. O importante, na visão de João Pedro Aido não será tanto se os alunos leem em aula um romance de Saramago ou de Mário de Carvalho, mas o que farão com essas obras. Com efeito, em sua opinião (com que concordo) é mais relevante os alunos pensarem sobre as obras de uma forma pessoal, escreverem sobre elas, defendê-las publicamente e debaterem-nas.

O dirigente da APP não descarta a hipótese de dar um passo atrás, se os resultados da consulta pública contrariarem a proposta do MECI.

A revisão, que retira da obrigatoriedade o único Nobel português da Literatura, está a suscitar debate público. A Fundação Saramago pronunciou-se, nas redes sociais, sobre o tema, recuperando as palavras do autor no discurso de agradecimento do Prémio Nobel, a 10 de dezembro de 1998: “E, agora, quero também agradecer aos escritores portugueses e de língua portuguesa, aos do passado e aos de agora: é por eles que as nossas literaturas existem, eu sou apenas mais um que a eles se veio juntar.”

A Fundação Saramago diz que a sua posição “será sempre a de agregar, de não excluir, não colocar em comparação ou oposição”, mas sugere “à Comissão responsável por esta alteração na lista de livros de leitura obrigatória para o 12.º ano”: “Trocar a palavra ‘ou’ pela palavra ‘e’, juntando a José Saramago o escritor Mário de Carvalho, merecedor de toda a admiração e abrindo, assim, a porta a que outras e outros escritores participem também na formação das novas gerações de leitores.” Por outro lado, levanta duas questões: uma sobre qual o critério para esta alteração; a outra, sobre se a alteração “também abrangerá outros autores que integram o cânone da Literatura Portuguesa, colocando-os como de leitura sugerida e não obrigatória”.

“Trocar a palavra ‘ou’ pela palavra ‘e’, no caso, não resolve o problema da sobrecarga sobre os alunos. Portanto, do meu ponto de vista, o problema é a opção dos promotores da revisão das Aprendizagens Essenciais de Português, que se escudam em critérios de cientificidade e de tecnicidade pouco claros, que mais parecem refletir as perspetivas dos promotores, dadas as sugestões de algumas obras de análise crítica portadoras de alguns contos e poemas.

Mário de Carvalho, em declarações à TSF, mostrou-se satisfeito pelo “reconhecimento” de que o seu livro “merecia ser lido, apreciado e analisado”, mas recusou qualquer tipo de competição com José Saramago, autor que muito aprecia. O livro Um Deus Passeando Pela Brisa da Tarde é um estudo envolvente sobre a conduta moral de um homem e uma reflexão provocadora sobre a dificuldade de se levar uma vida virtuosa numa era em constante mudança. E o romancista refere: “Não vejo o meu livro em termos de competição com quem quer que seja. É uma obra, é uma proposta que teve o seu rumo e está em bom rumo, ao que me parece, continua. Portanto, não considero que haja qualquer tipo de competição com um grande escritor que eu muito admiro, que é o José Saramago.”

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Questionado pelos jornalistas, o ministro Fernando Alexandre, detentor da pasta da Educação, considerou que “a proposta é resultado de uma avaliação absolutamente técnica, não é uma decisão” e que será feita uma “revisão mais profunda”. É óbvio que, seja técnica ou científica, a proposta, quando se transformar em decisão, será um ato político.

Ora, o governante, corajoso no anuncio de medidas a tomar, mas hesitante na confrontação com polémicas, sublinhou que José Saramago “é, obviamente, um escritor de referência” e admitiu que deve ser obrigatório ler este como outros escritores nacionais, apontando que, “felizmente, Portugal tem muitos e grandes” escritores.

Em comunicado, o governo qualificou a revisão das Aprendizagens Essenciais como uma “etapa de aperfeiçoamento e validação”, que “pretende recolher contributos da comunidade educativa, de especialistas e da sociedade em geral, com o objetivo de reforçar a qualidade da revisão curricular”, com a participações de professores, de escolas, de universidades e de politécnicos, bem como de “outros atores com conhecimento relevante” sobre a matéria. “Os contributos recebidos serão alvo de análise, pelo EduQA [Instituto de Educação, Qualidade e Avaliação], com vista à sua integração nos documentos curriculares. Ao longo deste período, serão também auscultados peritos, de forma a reforçar a consistência técnica e científica do trabalho desenvolvido”, esclareceu o MECI.

O MECI recordou que a revisão das Aprendizagens Essenciais se insere “numa reforma mais ampla do currículo, que inclui a atualização dos conteúdos curriculares, a revisão da matriz curricular, a inserção da dimensão digital e de inteligência artificial [IA] de forma transversal, nas aprendizagens, e a reorganização do ensino básico”.

Resta saber se era necessária uma reforma do currículo e se a IA funciona melhor com uns autores do que com outros. Além disso, é de questionar por que motivo, para a leitura de alguns poemas e contos, são recomendados alguns tipos de livros, como consta da letra da proposta.

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Helena Buescu, professora catedrática da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, considera normal que Saramago possa sair dos programas escolares, porque nem todos os autores os podem integrar. Diz a TSF que a coordenadora do programa e das metas curriculares de Português, em 2014, quando passou a ser obrigatório ler Saramago, no 12.º ano, sob a alçada do ministro da Educação Nuno Crato – o que não é exato, como expliquei (até então, era obrigatório ler Memorial do Convento e passou, depois de alguma controvérsia a poder-se optar por esta obra ou por O Ano da Morte de Ricardo Reis) –, afirma que apenas um autor não pode ser excluído. “A exceção, para mim, é Camões. Luís de Camões é um autor que não pode sair do cânone. Todos os outros, até mesmo Fernando Pessoa, pode entrar e sair, ser substituído por um heterónimo ou outro heterónimo”, acredita.

Na História Literária Portuguesa, há muito por onde escolher: “O resto é relativamente flexível e tem de ser, visto que nós temos, como dizia o Eduardo Lourenço, uma literatura que tem praticamente a idade do país, tal como foi constituído. São muitos séculos de grande literatura e, evidentemente, nem todos os autores podem fazer parte dos programas escolares e é natural que assim seja.”

A catedrática sustenta que os critérios de escolha “são, fundamentalmente, opções consensualizadas dentro da comunidade de leitores, nomeadamente, a comunidade interpretativa e dos críticos”. “Procura-se que haja um certo consenso e que as pessoas se pronunciem sobre autores que são consensualizados, sendo que, como todas as opções dentro do cânone, as coisas vão-se alterando. Pode haver autores que, em determinado momento, são absolutamente essenciais e, depois, podem ser substituídos por outros, por exemplo, o Camilo Castelo Branco”, esclarece.

Para Carlos Reis, professor catedrático e comissário para o centenário de José Saramago, em cima da mesa está “uma proposta um pouco arriscada”. Embora as escolas tenham o “direito e dever” de fazer escolhas, é o governo quem tem “obrigação de estabelecer determinados conteúdos essenciais para a aprendizagem”, argumentou, vincando a “presença muito significativa” de José Saramago. “Abre-se a possibilidade de muitos estudantes passarem pelo sistema de ensino e não conhecerem nada da obra de José Saramago. Acaba por pôr em causa justamente a sua formação no sentido mais exigente do termo. Quando nós lemos um grande escritor como Saramago, não estamos a ler só palavras, estamos a ler sentidos, valores, representações da História, da nossa relação com o Mundo, etc. […], frisou.

Carlos Reis sublinhou que a medida do governo surge numa época em que o pensamento crítico é cada vez mais subalternizado, devendo a tutela provar que isto “não tem nada a ver com o facto de Saramago ter sido sempre um escritor muito crítico”, face a certas instituições.

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Em suma, a opção é política e, provavelmente, “desideologizante” (!).

2026.04.07 – Louro de Carvalho

Guerras e alterações climáticas requerem proteção da saúde mental

 

A ansiedade pode ter várias causas. Todos recordamos o que os cidadãos, à escala mundial, sofreram com o confinamento e com as várias restrições à mobilidade, ao trabalho e aos serviços, no tempo da pandemia de covid-19. Nesse tempo, o nosso país, além de ter passado por vários níveis de alerta, incluindo declarações de calamidade pública, cercas sanitárias e uma declaração do estado de emergência, renovada por duas vezes, outra declaração do estado de emergência, renovada por quatro vezes, e mais uma declaração do estado de emergência, renovada por seis vezes (ao todo, 15 períodos emergência com a duração de 15 dias cada um).

Atualmente, a ansiedade que invade o espírito de muitas pessoas deve-se aos conflitos armados que pululam pelo Orbe e, em especial, à guerra no Irão e em territórios limítrofes, que gera enorme incerteza económica afetando a saúde mental de tantas pessoas, no Mundo. Isto, para não falarmos das políticas atrabiliárias de Donald Trump, que geram incerteza comercial e, obviamente, económica e política, ou da ambição expansionista de Vladimir Putin.  

A ansiedade de guerra alberga o medo, a insegurança e o impacto emocional na população civil que acompanha o conflito pelas notícias. Os principais sintomas são hipervigilância, pesadelos, flashbacks, irritabilidade, dificuldade de concentração e distanciamento emocional. Na verdade, os efeitos da guerra, além da incerteza económica e da perplexidade estratégica, lesam o bem-estar emocional das pessoas. Por isso, os especialistas recomendam o cuidado das relações sociais, a manutenção das rotinas diárias e a mínima exposição a estas questões.

Kazuhiro Tajima, psiquiatra espanhol de origem japonesa, salienta que a incerteza económica pode provocar angústia e sintomas de ansiedade, ao gerar a sensação de perda de controlo, podendo induzir problemas de ansiedade. E, para obviar a esta situação, recomenda que se obtenha o máximo de informação sobre a crise e que se reforcem as relações sociais, que são fundamentais para proteger o bem-estar psicológico em situações de instabilidade, tal como aconselha a manutenção de hábitos e de costumes. Assim, em seu entender, não devemos quebrar as rotinas diárias, em termos de lazer, de desporto ou de outras atividades. Porém, em situações de emergência ou de incerteza económica, a primeira coisa que muitas pessoas fazem é a suspensão das rotinas, o que lhes aumenta a angústia.

Ora, Kazuhiro Tajima sustenta que é crucial cuidar do nosso ambiente social, pois a socialização alivia os efeitos que podem prejudicar a saúde mental. Portanto, sublinha que temos de reforçar as relações sociais, “para evitar que nos isolemos, nesta situação de incerteza económica”. A falta de rotinas ou de não interação social leva à tendência para andar, constantemente, às voltas com os problemas e a excessiva preocupação económica faz pensar que não conseguimos fazer face às despesas. Em tempos de crise, muitas pessoas renunciam ao lazer e ao desporto, com vista à redução dos custos – um erro, já que as atividades de lazer ou desportivas nos ajudam a desligar das preocupações. Por isso, há que manter tais atividades e até as promover, “para nos reiniciarmos mentalmente”, como aconselha o psiquiatra, que também exorta a que nos sintamos úteis. “Não há nada pior do que sentirmo-nos inúteis”, reforça.

Kazuhiro Tajima afirma que, neste contexto de incerteza, está a regressar o boom da economia colaborativa, ou seja, o renascimento da troca, neste caso, digital, que nos pode ajudar, enquanto sociedade, a sentir que somos úteis. É o caso da SACO, plataforma que o psiquiatra, com outro empreendedor, criou para trocarem competências por serviços, tendo o tempo como moeda de troca, e para levarem a outros países. Por isso, em cenário de tensão geopolítica e de aumento do custo de vida, é mais necessário do que nunca proteger a saúde mental e enfrentar os desafios económicos para reforçar a resiliência coletiva.

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Também a ecoansiedade, isto é, o impacto silencioso das alterações climáticas na saúde mental é um problema. Como explicita a psicóloga Teresa Pereira, doutorada em Psicologia Aplicada, com investigação nas áreas da psicologia e das alterações climáticas, o conceito “engloba o conjunto de respostas emocionais da população, perante a antecipação e a vivência dos fenómenos associados às alterações climáticas”.

Multiplicam-se por toda a parte, os fenómenos meteorológicos extremos, potenciados pelas alterações climáticas. Do aumento das temperaturas globais às secas ou aos intensos incêndios florestais – não olvidando, as tempestades cada vez mais frequentes, com chuvas e ventos fortes de ingente capacidade de devastação –, todos estes fenómenos trazem efeitos devastadores ao quotidiano das populações. Assim, o comboio de tempestades que afetou Portugal resultou em danos avultados por todo o país, com particular incidência na região Centro. Todavia, o impacto nas populações não se mede só pela destruição causada pelas ocorrências naturais e pelos custos do processo de reconstrução, de recuperação e de reposição das infraestruturas e dos bens materiais de todo o tipo, mas também por influenciar a saúde mental.

Em declarações à Euronews, Teresa Pereira, explicou o “termo que engloba o conjunto de respostas emocionais da população, perante a antecipação e também, no fundo, a vivência dos fenómenos associados às alterações climáticas”. É a “ecoansiedade”, conceito referido pelo filósofo ambiental Glenn Albrecht, em 2007 e que, dez anos depois, em 2017, foi definido pela Associação Americana de Psicologia (APA) como “um medo crónico da degradação ambiental”. É, na ótica da psicóloga, um termo que “pode caraterizar-se por uma variabilidade emocional”, que se manifesta, por exemplo, em sintomas de “ansiedade, [de] preocupação, [de] medo, [de] raiva ou [de] culpa”, e por outros mais fisiológicos ou da “alteração das rotinas da vida quotidiana dos indivíduos”, como em “mudanças nos padrões de sono, na perda de apetite, da procura constante de informação sobre as alterações climáticas” ou na “diminuição do rendimento académico”, da parte dos mais jovens.

Os efeitos da degradação ambiental na saúde mental, de acordo com a especialista, devem ser considerados a três níveis. O primeiro é o das consequências diretas do fenómeno climático, isto é, “quando as pessoas vivenciam estas situações”, podendo surgir sintomas, como ansiedade, depressão e até perturbação de stresse pós-traumático. O segundo é o do impacto em pessoas afetadas pelos efeitos dos fenómenos climáticos extremos a nível indireto, já que não vivenciam ou não presenciam tais ocorrências, mas sentem os efeitos dos eventos meteorológicos sobre as “infraestruturas que utilizam” (por exemplo, serviços públicos, meios de subsistência próprios, como é o caso dos agricultores que viram as suas colheitas devastadas), o que pode repercutir-se na saúde mental. E o terceiro é o do conhecimento dos fenómenos extremos pelos meios de comunicação social ou pela informação que nos chega por outras pessoas.

É este último nível que leva os cidadãos a terem mais conhecimento destes fenómenos e dos seus impactos e que é a forma usual de enquadrar a ecoansiedade. E explica a psicóloga: “O facto de nós obtermos esta informação de que as alterações climáticas são um fenómeno cada vez mais presente na nossa vida diária acaba por gerar a vivência de ecoansiedade nas pessoas, mesmo não tendo presenciado, diretamente, um evento extremo.”

Ora surgindo, na comunicação social, cada vez mais informação e imagens dos efeitos das alterações climáticas na vida das populações, é “natural que essa preocupação se torne mais presente e que o fenómeno também se torne mais real”, acentua a especialista, vincando que não estão só em causa situações que “acontecem noutros países, noutras localizações geográficas, ou com outras pessoas que não nós, as nossas famílias” ou a comunidade portuguesa, dotando-as de um caráter de maior “proximidade”.

Apesar da variedade de sintomas e das formas de manifestação da ecoansiedade, é importante haver, na população, consciencialização para o facto de este ser “um fenómeno expectável e que revela uma resposta adaptativa”, especialmente, nos que viveram as consequências de fenómenos climáticos extremos, na primeira pessoa, como é o caso dos cidadãos afetados pelas últimas tempestades. Neste sentido, é de anotar que a ecoansiedade “não é uma patologia”. Contudo, em casos em que tais comportamentos interferem, significativamente, na vida diária das pessoas, pode ser necessária a ajuda de profissionais de saúde mental, para acompanhamento especializado, e pode ser essencial a validação e o suporte da comunidade, de família, de professores e dos pares, aliados a outras estratégias, sem alarmismo.

Por isso, a especialista  apela à promoção de medidas que ajudem a que “população, em geral, seja mais empática”, no atinente a este tema, de modo a fomentar uma maior “validação” destas emoções, o que passa pela “promoção da literacia sobre este fenómeno”, que se torna cada vez mais frequente, no nosso país, tendo as escolas, aqui, papel relevante.

Com base na investigação científica sobre o tema, a ecoansiedade pode motivar os indivíduos a adotarem comportamentos de proteção ambiental. Uma das estratégias mais eficazes para lidar com a ecoansiedade, está a conexa com esse tipo de iniciativa. Outra das formas possíveis para lidar com esta resposta emocional é o envolvimento em grupos, em associações com foco mais ambiental, bem como o contacto com pessoas que relatem ecoansiedade, de forma a adquirirem “maior suporte social”. E muitos estudos associam o contacto com a Natureza, com espaços verdes e azuis, a maiores níveis de bem-estar, pelo que também essa pode ser uma estratégia válida para combater alguns sintomas de ansiedade.

Nos últimos anos, a investigação académica tem-se debruçado sobre o impacto da ecoansiedade nas populações.  Um estudo europeu, publicado no European Journal of Public Health, em 2023, com base em dados retirados da 10.ª ronda do Inquérito Social Europeu (entre 2020 e 2022), avaliou a preocupação de 52219 participantes com mais de 15 anos de idade, provindos de 25 países, face às alterações climáticas, tendo concluído que há diferenças de níveis de ecoansiedade nos países europeus, sendo a Alemanha (55,3%) e a Espanha (55,2%) os países onde eles são mais altos, com a Eslováquia (22,6%) e a Estónia (24,7%) na base da tabela.

Outra análise de 2021, divulgada na The Lancet Planetary Health, inquiriu 10 mil crianças e jovens, com idades entre os 16 e os 25 anos, em dez países – a Austrália, o Brasil, a Finlândia, a França, a Índia, a Nigéria, as Filipinas, Portugal, o Reino Unido e Estados Unidos da América (EUA) –, para recolher “dados sobre as opiniões e sentimentos dos participantes, em relação às alterações climáticas”, tendo concluído que os “países que expressaram maior preocupação e maior impacto no funcionamento tendiam a ser mais pobres, localizados no Sul Global e mais diretamente afetados pelas alterações climáticas”. Porém, no Norte Global, o dos países ditos mais desenvolvidos, Portugal (que registou aumentos dramáticos nos incêndios florestais, desde 2017) tem o nível mais elevado de preocupação. Ainda assim, recente investigação, publicada no Social Responsability Journal, inferiu, com base na amostra de 3300 indivíduos com 18 ou mais anos de idade, que “a prevalência da ansiedade relacionada com as alterações climáticas é baixa entre os adultos, em Portugal”.

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Os jovens têm dificuldade em lidar com os desafios da vida e em funcionar de forma eficaz no dia a dia, mas os jovens adultos, na Europa, apresentam resultados fracos, face aos de outros continentes, com vários países europeus entre os mais mal classificados. Um estudo da Sapien Labs, organização sem fins lucrativos sediada nos EUA e dedicada à compreensão da saúde mental, mediu um Mind Health Quotient (MHQ), através de inquéritos online realizados na Ásia, na África, na Europa e nas Américas. Este índice avalia a saúde da mente, definida como o complexo das capacidades emocionais, sociais, cognitivas e físicas essenciais para prosperar na vida, no trabalho e nas relações.

Os inquiridos avaliaram capacidades essenciais para enfrentar os desafios do quotidiano e grandes perturbações de saúde mental, relatando dificuldades no controlo emocional, na gestão das relações com os outros e na capacidade de concentração. Os jovens adultos com menos de 35 anos, que já estavam em maior dificuldade do que pais e avós antes da pandemia de covid-19, sofreram queda acentuada durante a pandemia, de que nunca recuperaram. Já os adultos com 55 ou mais anos mantiveram-se estáveis, em torno de uma pontuação de 100, valor em que se espera que esteja a população considerada normal. Em contraste, cada geração mais jovem obtém valores mais baixos. Entre os 18 e os 34 anos, a pontuação média é de 36, no MHQ, e 41% dos participantes disse enfrentar problemas significativos de saúde mental.

O estudo concluiu que os jovens da África Subsariana, a região com o rendimento per capita mais baixo do Mundo, obtiveram resultados muito melhores do que os dos EUA, do Canadá, da Europa, da Índia, do Japão e da Austrália, todos próximos do fundo da classificação. A Itália é o país europeu mais bem classificado, na 20.ª posição, entre os 84 países do estudo. A Finlândia surge em 40.º lugar, Portugal e a Espanha em 46.º, a Bélgica em 52.º e a França em 58.º. Os países europeus mais mal classificados são a Irlanda, em 70.º, a Alemanha, em 71.º, e o Reino Unido, em 81.º. O surpreendente deste declínio nas gerações mais jovens é ser mais acentuado nos países mais ricos, onde o aumento da despesa em saúde mental não alterou a situação.

O estudo identificou quatro fatores que influenciam o estado de saúde mental dos jovens: laços familiares, espiritualidade, utilização de smartphones e consumo de alimentos ultraprocessados. Relações familiares frágeis tornam os jovens adultos quatro vezes mais propensos a situarem-se nas faixas de sofrimento ou dificuldade, em comparação com os que têm proximidade com os membros da família. Os participantes com forte sentido de espiritualidade e de ligação a uma força superior tiveram resultados melhores do que os não espirituais. Os países onde os jovens se sentem menos espirituais são a Alemanha, o Reino Unido e a Espanha. Além disso, o acesso mais precoce ao primeiro smartphone está associado a piores resultados de saúde mental mais tarde na vida. E o consumo de alimentos ultraprocessados aumentou nos últimos 15 anos e está associado a 15% a 30% da carga de doença mental.

Apesar do aumento do investimento em investigação e em cuidados de saúde mental, os resultados não melhoraram. E estes padrões apontam à urgência de mudanças estruturais, a montante, no tratamento e nos fatores ambientais que moldam a mente dos jovens.

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Por fim, um estudo do Instituto Karolinska, em Estocolmo, na Suécia, centrado no gene da apolipoproteína E (APOE), de que cerca 25% das pessoas é portadora de uma sua variante, que aumenta o risco de demência, concluiu que o consumo regular de carne é recomendado para travar a demência. Porém, o tipo de carne é importante. Os efeitos positivos estão associados à carne vermelha não transformada e às aves de capoeira. Já a carne processada, como a salsicha ou o fiambre, é fator de risco.

A importância dos resultados para a saúde pública é enorme. As pessoas têm sido aconselhadas a reduzir o consumo de carne, mas a algumas deve aconselhar-se o contrário.

É bem-vindo todo o apoio à saúde mental. E não podemos esquecer a ansiedade que atormenta os mais idosos pela sensação de isolamento e de abandono.

2026.04.06 – Louro de Carvalho


domingo, 5 de abril de 2026

Da subida dos preços na energia à dos alimentos e dos serviços

 

Os conflitos no Médio Oriente e, em especial, o bloqueio do estreito de Ormuz, acrescidos às tempestades de janeiro e de fevereiro, levam alguns economistas a admitir que o choque nos preços estará apenas a começar. Efetivamente, a inflação está a acelerar, em Portugal e na Zona Euro, tendo já atingido, em março, 2,7% e 2,5%, respetivamente – um salto mensal de 0,6%, nas duas taxas, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE) e o Eurostat.

E novas acelerações parecem um dado adquirido para instituições, como o Banco de Portugal (BdP) e para os consumidores, sentindo estes o vazio da carteira, sobretudo, por causa dos preços dos combustíveis, o que é injustificável, porque os preços dos combustíveis, agora, em utilização foram estabelecidos há uns seis meses.

Do encarecimento dos combustíveis passamos, com facilidade, ao de vasta gama de bens e de serviços, desde bens essenciais, como alimentos, a bens duradouros, como computadores e telemóveis. Porém, alguns economistas sustentam – não sei se com razão – que as famílias portuguesas estarão mais preparadas do que em 2022, com salários reais superiores e com poupanças em máximos históricos, mas que a inflação afeta, desproporcionalmente, as famílias com menores rendimentos, no que têm razão.

Com efeito, após anos de fraca inflação, apesar dos esforços do Banco Central Europeu (BCE) de estímulo à procura, o agravamento de preços regressou em 2022, na reta final da pandemia, em que o regresso à vida normal se confrontou com a incapacidade de resposta do lado da oferta, depois de meses de paralisação da atividade produtiva. O choque energético derivado da invasão da Ucrânia pela Rússia e da imposição de sanções económicas ao invasor, da parte do dito Ocidente, incluindo a União Europeia (UE) agravou a situação, com os Portugueses a suportarem uma rápida subida dos preços. Ora, em 2022, as poupanças da pandemia (acumuladas após meses de confinamento e de restrições à mobilidade) ajudaram muitos a enfrentar o aumento do custo de vida. E, agora, a questão é se os Portugueses estão mais preparados, do que então, para nova subida rápida dos preços.

De acordo com o INE, a taxa de crescimento das remunerações médias mensais brutas era de 3,7%, em 2022; de 6,7%, em 2023; de 6,4%, em 2024; e de 5,6%, em 2025. Já a taxa de inflação média anual era de 7,8%, em 2022; de 4,3%, em 2023; de 2,4, em 2024; e de 2,3%, em 2025. E, de acordo com o INE e com o BdP, a taxa de poupança dos particulares era, de 7,3%, em 2022; de 8,9%, em 2023; de 12,5%, em 2024; e de 12,1, em 2025.

Alguns economistas pensam que a ajudar as famílias a suportar o encarecimento dos bens e de serviços, no curto prazo, estão os aumentos salariais dos últimos anos, acima da inflação, e as taxas de poupança em máximos históricos, em Portugal, de 12,5%, em 2024, e de 12,1%, em 2025, de acordo o INE. Assim, para Susana Peralta, professora da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa (Nova SBE), como “o salário real médio tem vindo a aumentar”, as famílias estão mais preparadas, em média, para resistir à crise inflacionista do que estavam em 2022, à saída da grande crise económica. E o facto de a taxa de poupança estar em máximos sinaliza alguma capacidade de absorção do choque inflacionista, pois “é uma poupança sobre um rendimento superior”. Ou seja, é poupança maior, em valor absoluto (em euros), do que no choque de 2022. Porém, não podemos esquecer que, em 2020, a taxa média de poupança era de 12%, tendo descido para 10,9, em 2021. Por outro lado, a taxa de crescimento das remunerações médias mensais brutas era de 3,6%, em 2021 (quando era de 3%, em 2020).

Resta saber se os aumentos salariais e as taxas de poupança continuarão acima da inflação. De facto, os danos em instalações energéticas-chave do Médio Oriente e em portos marítimos já se fazem sentir no aumento dos preços da energia, nas bombas de abastecimento de combustíveis e nos pontos de venda de gás; e estará para breve o efeito nos preços de bens e de serviços.

Como explica Miguel Faria e Castro, economista da Reserva Federal de St. Louis, nos Estados Unidos da América (EUA), a subida dos preços do petróleo causa três efeitos diretos: sendo os produtos derivados do petróleo componente da despesa das famílias, o aumento dos preços reduz o consumo; sendo o petróleo importante bem intermédio para produzir bens e serviços destinados ao consumo final, a subida dos preços do petróleo aumenta os custos de produção, que se repercutem nos preços dos bens finais, reduzindo o consumo; e, como Portugal é importador líquido de produtos petrolíferos, o aumento dos seus preços corresponde a um rendimento negativo, que pode contribuir para a contração do consumo agregado, o que pode ter um efeito de moderação no aumento do nível de preços. Contudo, há consumos inevitáveis.

A evolução do consumo dos bens e de serviços depende da reação da procura à subida dos preços de cada um deles. Há bens e serviços cuja procura aumenta, quando o preço baixa, e diminui, quando o preço sobe. Têm elevada elasticidade a procura/preço bens e serviços cujo consumo não é essencial para as famílias, como as refeições em restaurantes. Já noutros bens e serviços a procura não diminui, quando os preços sobem, pois têm baixa elasticidade a procura/preço dos bens e serviços essenciais, como muitos dos bens alimentares.

“O que se espera é que haja cortes nos consumos menos essenciais (como lazer), adaptações no cabaz de consumo alimentar, a favor de produtos menos afetados pela carestia ou mais baratos tout court (como marcas brancas e produtos de época), e poupanças energéticas (por exemplo, no aquecimento da casa ou nas deslocações em viatura própria)”, diz Susana Peralta.

Porém, a subida generalizada dos preços agrava as desigualdades entre famílias com mais rendimentos e as que menos têm: as primeiras podem prescindir de certos bens e serviços, sem sacrifício do consumo de bens essenciais, o que não sucede com agregados com menores rendimentos, porque a maior parte dos seus rendimentos vai para os bens e serviços de que ninguém pode prescindir, como alimentos ou fornecimento de água.

O aumento do rendimento médio acima da inflação e a almofada das poupanças não se aplicam a todas as famílias, na mesma medida. Nas menos favorecidas, o rendimento não tem aumentado tanto e as poupanças são menores. Não será por, em média, as famílias estarem mais preparadas para fazer face à inflação que todas estão igualmente preparadas. Depois, há muitas categorias do consumo conexas com o petróleo que não são facilmente substituíveis: todos temos de acender luzes em casa, independentemente do rendimento. E muitas pessoas têm de se deslocar para o trabalho ou para levar as crianças à escola, sejam altos ou baixos os rendimentos.

Os governos aconselham o teletrabalho, o uso dos transportes públicos e a poupança de produtos energéticos, mas esquecem que o trabalho presencial continua a ser necessário, em muitos casos, que os transportes públicos são escassos e mal organizados e que os transportes escolares dificilmente cobrem as necessidades de deslocação dos alunos.   

Os valores nominais de despesa em bens e em serviços conexos com petróleo tendem a não variar muito com o nível de rendimento. Por isso, a tendência é haver uma relação negativa entre o nível de rendimento e a percentagem de despesa com bens e serviços conexos com petróleo, despesa pode ser relativamente maior para famílias de baixos rendimentos, as quais podem ser mais afetadas, em termos relativos

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Portugal registou o maior aumento mensal de preços da Zona Euro, entre fevereiro e março, com a taxa de 2,3%, acima da média europeia de 1,2%. A inflação homóloga portuguesa atingiu 2,7%, ultrapassando a meta do BCE de 2%. Os preços da energia subiram 7,5%, o maior aumento desde 1996, devido aos conflitos geopolíticos no Médio Oriente.

O aumento do custo de vida é real para os cidadãos europeus, mas é mais real para uns do que para outros. Com efeito, nenhum país da Zona Euro teve aumento médio dos preços tão rápido como Portugal, entre fevereiro e março.

A taxa de variação em cadeia (de mês para mês) do índice harmonizado de preços no consumidor (IHPC) foi de 2,3%, nos países da Zona Euro, acima da média de 1,2%, para esses países, de acordo com as estimativas do Eurostat de 31 de março. Só em março e em abril de 2022, mercê da guerra na Ucrânia e da reconfiguração dos mercados energéticos europeus que se lhe seguiu, é que houve taxas mensais comparáveis, de 2,6% e 2,4%, respetivamente.

O IHPC é calculado com uma metodologia diferente da do índice de preços no consumidor (IPC) – cujas estimativas foram divulgadas, a 31 de março, pelo INE – para eliminar distorções e permitir comparações entre estados-membros da UE.

Em Portugal, a subida dos preços da energia, entre fevereiro e março de 2026, foi de 7,5%, a maior taxa em cadeia, desde 1996, ano de início da série do Eurostat, superando os aumentos mensais de 2022, nos preços da energia, superiores a 6%, em alguns meses.

No atinente às taxas de variação homóloga, a inflação média da Zona Euro aumentou, em março, 0,6%, para os 2,5%, excedendo a meta de 2% estabelecida pelo BCE como taxa de inflação ideal para garantir a estabilidade dos preços nos países da moeda única. A taxa de variação homóloga (que mede o aumento médio dos preços, num determinado mês, face ao mesmo mês do ano anterior) do IHPC, em Portugal, foi estimada pelo Eurostat nos 2,7%, crescendo 0,6%, em comparação com fevereiro. Foi a 12.ª maior taxa entre os 21 países da zona euro, numa lista encabeçada pela Croácia (4,7%).

Segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU), o bloqueio do estreito de Ormuz, por onde passa 38% do crude e 29% do gás de petróleo liquefeito globais, e o ataque a instalações-chave, como o complexo de Ras Laffan, no Catar, a maior fábrica de gás natural liquefeito (GNL) do Mundo (responsável por 25% da produção mundial de hélio, um subproduto da refinação de gás essencial para o fabrico de semicondutores), concitam comentários alarmantes.

Christine Lagarde, presidente do BCE, em recente entrevista à The Economist, considerou “demasiado otimista” a postura dos investidores, confiantes no regresso rápido à normalidade, e advertiu que o Mundo está ante “um choque real”, provavelmente, além do que imaginamos, neste momento”. E alguns analistas admitem que o banco de Frankfurt, na reunião de política monetária de 30 de abril, aumente as taxas diretoras (a taxa de referência está nos 2%) respondendo, mais depressa do que em 2022, à subida das taxas de inflação. Os dados divulgados pelo Eurostat dão força à tese: a taxa de inflação harmonizada média da Zona Euro estimada para março aumentou para os 2,5%, mais 0,6% do que em fevereiro e bem acima da meta do BCE.

Um dos indicadores seguidos pelos decisores de política monetária é a taxa de inflação subjacente, a qual, ao excluir dos seus cálculos a energia e os bens alimentares por sofrerem frequentes variações de preço, mede a tendência de médio prazo dos preços dos bens e serviços e refletindo persistência da inflação no custo de vida. Em março, este indicador foi estimado pelo Eurostat nos 2,2%, menos 1% do que em fevereiro. Assim, o aumento do custo da energia ainda não se repercutiu no resto do cabaz dos bens e serviços.   

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Outro dado de difícil explicação é o preço internacional do cacau estar em queda e os chocolates da Páscoa serem mais caros. A inflação do chocolate fixou-se nos 13,7%, em fevereiro, em Portugal, seis vezes mais do que o índice geral dos preços, muito acima da inflação geral apesar da forte queda homóloga de 64%, na cotação internacional do cacau. O desfasamento temporal entre a compra de matéria-prima e o produto final, a recuperação de margens e outros custos explicam esta resistência à descida, mas não justificam a subida.

Depois de ter atingido um máximo histórico, em 2024, quando a tonelada chegou aos 12 mil dólares, o cacau negoceia em torno dos 3200 dólares. No último ano, a cotação desta matéria-prima caiu a pique (-64%), mas não se repercutiu no preço que os Portugueses pagam por cada ovo de chocolate no supermercado, que está mais caro do que em 2025.

Em fevereiro, os últimos dados disponíveis revelavam que os preços do chocolate, do cacau e dos produtos à base de cacau subiam 13,7% em Portugal, face ao mesmo período do ano anterior, segundo o INE, muito acima da inflação global, que se fixava nos 2,3%. E a tendência não é recente: em 2025, a subida destes produtos manteve-se, consistentemente, acima dos 14% e ultrapassou os 17%, em vários meses. Assim, mesmo em contexto de desinflação generalizada, o chocolate destoa e pesa mais na carteira. Desde o início da guerra na Ucrânia, a inflação do chocolate cresceu, em Portugal, em média, três vezes mais do que o índice geral dos preços. E no último ano, seis vezes mais.

Não é só questão de calendário. Há também o efeito de recuperação de margens. Após anos de forte pressão sobre custos, com o cacau a disparar, os produtores e retalhistas aproveitam a descida, para recompor rendibilidade, em vez de baixar preços. A isso somam-se outros fatores, como energia mais cara, custos de transporte elevados e embalagens mais dispendiosas.

Os dados de preços em Portugal ajudam a perceber a dimensão da escalada. O índice de preços do chocolate e produtos de cacau passou de cerca de 68%, em fevereiro de 2022, para perto de 99%, em fevereiro de 2026, uma subida acumulada de quase 45%. Nest período, a cotação do cacau aumentou apenas metade (20%). Entretanto, o mercado internacional entrou em nova fase. Em 2025, os preços do cacau recuaram de níveis próximos dos 10 mil dólares para menos de metade, refletindo melhores condições climatéricas, novas plantações e recuperação da oferta global. No início de 2026, a tendência manteve-se em descida de cerca de seis mil dólares, por tonelada, em janeiro, para pouco mais de três mil dólares, em abril.

Face aos preços elevados, as empresas ajustam estratégias. A mais comum é a shrinkflation ou reduflação: produtos mais pequenos ou com menor teor de cacau, mantendo ou aumentando o preço por grama. Em paralelo, há reformulações, com alguns produtos a serem vendidos como “com sabor a chocolate”, em vez de chocolate. Do lado dos consumidores, há abrandamento. Na Europa, a venda de chocolate caiu nos últimos meses, embora a procura resista em períodos sazonais, como a Páscoa, onde o consumo é  um pequeno luxo acessível.

Em Portugal, o contexto não é imune a estas pressões e as consequências veem-se no retalho.  Lojas de gomas e chocolates Hussel encerrarão depois da Páscoa. O fim da operação resulta da falência da marca, na Alemanha, que torna insustentável a manutenção dos 20 espaços do país, apesar dos esforços do grupo Jerónimo Martins para viabilizar o negócio.

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Em maré de crise, os preços sobem precocemente, reina a especulação, geram-se grandes oportunidades para espertos, os preços sobem em cadeia, há consumos inevitáveis, os salários não sobem, o desemprego e a precariedade crescem, os pobres sofrem. Subindo os preços e mantendo-se o consumo, sobe a carga fiscal e os governos distribuem migalhas às famílias e bolos às grandes empresas. Desta feita, querem tributar, excecionalmente, as empresas que lucram com a crise. Não há problema para elas: o cliente paga.

2026.04.05 – Louro de Carvalho

sábado, 4 de abril de 2026

No pico do silêncio pascal, boas festas!

 

As verdadeiras festas costumam preparar-se entre o silêncio e o afã.

A Páscoa é a solenidade (festa-mor) mais relevante do cristianismo. Efetivamente, é a partir da Ressurreição de Jesus conhecida, em primeiro lugar, pela visão e pela comunicação das mulheres – em que pontifica Maria Madalena, a mulher independente e com posses, natural de Magdala, nas costas do Mar da Galileia, que seguiu Jesus, desde o princípio –, aos apóstolos, sobretudo, a Pedro e a João, a princípio, incrédulos, que assenta do dinamismo cristão.

Contra o equivoco do Papa Gregório Magno, Maria Madalena não é a pecadora arrependida, muito menos a prostituta, nem a irmã de Lázaro e de Marta, moradores em Betânia, localizada na encosta Sudeste do Monte das Oliveiras, perto de Jerusalém, na Judeia. Ela é única, tal como se descobriu, em 1969, a “apóstola dos apóstolos”. Os apóstolos, depois de Pedro e João terem ido ao sepulcro, a confirmar as informações das mulheres, receberam a visita do Ressuscitado, na tarde do Domingo da Ressurreição, no cenáculo de Jerusalém, tendo as portas fechadas, pois tinham medo dos judeus. E Jesus acompanhou os discípulo de Emaús, no regresso conturbado dos mesmos a casa, tendo-lhes explicado, na qualidade de companheiro de percurso,  tudo o que as Escrituras diziam do Messias e tendo-se-lhes revelado na fração do pão.

Depois da última ceia judaica de Jesus e dos discípulos ou da primeira ceia cristã, em que o Messias institui a Eucaristia, sacrifício do seu corpo e do seu sangue pela vida do Mundo e para alimento deste, e dá o mandamento do amor fraterno, com a largueza e a profundidade do seu, para marca discipular, tudo é espelhado, publicamente, no Calvário, fazendo nascer do lado aberto de Cristo a Igreja, comunidade dos filhos de Deus. No fim do dia, parecendo que tudo acabou, o Rei dos Judeus é descido da cruz e merece uma sepultura nova, condigna, embora alheia, e a enorme quantidade de unguentos e de perfumes que José de Arimateia e Nicodemos disponibilizaram, bem como os unguentos que as mulheres teimaram em oferecer também.  

Depois de tudo isto, os discípulos ficaram desconsolados, desnorteados e frustrados, em relação ao projeto messiânico em que tinham acreditado e a que tinham aderido.  

Observaram o cego silêncio do medo e do desconforto. Tudo o que aprenderam parece ter sido esquecido ou remetido para a arca da saudade. A entrada triunfal de Jesus na Cidade Santa foi vista como um logro. E não havia meio de virarem a página, pois esqueceram a prece de Cristo pela unidade, pela libertação do mal, mas não de retirada do Mundo, e a promessa do Espírito Santo, o defensor, o consolador e o mestre espiritual.

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Cerca de dois mil anos passados, o Sábado Santo é de silêncio recomendado pela Igreja. Não há qualquer serviço litúrgico, a não ser a recitação da Liturgia das Horas.

Porém, desta feita, não há medo dos judeus de há dois mil anos. O medo dos judeus de hoje é a guerra que fazem aos Palestinianos (sobretudo na Faixa de Gaza), aos Libaneses, aos Iranianos, com um aliado de luxo, Donald Trump, presidente dos Estados Unidos da América (EUA), guerra que se faz com armas altamente sofisticadas e com o bloqueio à distribuição dos bens essenciais à vida das pessoas e dos povos, bem como ao conforto civilizacional.  

O silêncio de Sábado Santo deveria ser para o reencontro da família e dos amigos, bem como para a preparação do cume pascal, o dia da Ressurreição. É esta que valida o sacrifício de Cristo na cruz. Sem ela a Páscoa do Senhor não fazia sentido e nunca seria a nossa Páscoa.

É a Pascoa do Senhor, feita nossa Páscoa, reforçada com o Espírito Santo, a plenitude do dom de Deus no Pentecostes, que originou todo o movimento dos cristãos contra ventos e marés.  

Foi à luz da Ressurreição, guiados pelo Espírito Santo, que os discípulos, constituídos em apóstolos, reinterpretaram tudo quando Jesus lhes ensinara. E foi neste contexto que se foram abrindo ao mistério do Natal, a solenidade que celebra o mistério da encarnação, cujo escopo final é a redenção do homem todo e de todos os homens, sem qualquer exceção.

Se o Natal passou a ser a festa da família, que se reúne, no seio do lar, a Páscoa é a festa da família, que se mostra, que para o trabalho, que confraterniza, que se expande. O Natal é vida discreta, envolta pelo caráter, por vezes, agreste da Natureza, ao passo que a Páscoa é a vida pujante, secundada pela verdura dos campos, pela vasta florescência, por algumas colheitas, pela reprodução animal. É a Natureza a despontar e a afirmar-se amiga da Terra e do Homem.

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É certo que, nos tempos atuais, não se faz silêncio para pensar, nem para curar, nem para rezar. Também não é a palavra ponderada que pontifica, mas o barulho, o afã, a velocidade, a correria, o atropelo. Excecionalmente, pratica-se o silêncio da dureza, do protesto, do amuo.

O Natal, mais do que celebração religiosa, litúrgica e familiar, está eivado de forte mercantilismo, portador de grandeza individual, de submissão social, de viagem para junto da família ou para afastamento da mesma. A indústria hoteleira e os equipamentos de lazer demonstram-no.

De igual modo, está a Páscoa altamente mercantilizada. Muitos dos números da Semana Santa, em vez da compunção e do júbilo litúrgicos ou da piedade cristã popular, reduzem-se a espetáculos ditados por algumas tradições ou a números que mais parecem teatro do que ação religiosa. Fará algum sentido cristão, por exemplo, a procissão da burrinha, a queima do Judas ou o rebentar do Aleluia, sem quê, nem para quê?

Depois, temos as amêndoas (de açúcar ou de chocolate), os ovos da Páscoa (de chocolate) – tudo bombas calóricas, acompanhadas de uma imensidade de bolos e quejandos. E, obviamente, como não podia deixar de ser e o tempo convida, as estâncias de turismo e a indústria hoteleira e similares têm aqui o seu apogeu mercantil.  

Enfim, Natal e Páscoa constituem um dos fatores mais relevantes do turismo religioso, das viagens de finalistas e de tantas formas de fuga da família. E, ironicamente, fala-se do turismo como “indústria da paz”, mesmo em Jerusalém, onde o patriarca latino foi impedido, pela polícia, de celebrar a Missa do Domingo de Ramos, porque, face ao sofrimento que grassa na Faixa de Gaza, entende que não pode ser neutro.

Às vezes, a neutralidade política é uma forma de hipocrisia e de cobardia.

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Não obstante, quero e devo aproveitar o ensejo que me proporciona este silêncio pascal – que não é duro, nem político, nem de amuo, mas de protesto, pelo excesso de mercantilismo pascal – para desejar uma Feliz Páscoa (e santa, para todos os crentes, praticantes ou não) a todas as pessoas com quem tive a oportunidade de conviver, na família, no lazer, no grupo de amigos, nos trabalhos (e foram muitos e diversificados), na política ativa, na análise da sociedade e na cosmovisão. E foram e são muitas essas pessoas que se cruzaram comigo na minha vida multifacetada.

Lamento, profundamente, já não termos connosco, nesta Páscoa, pessoas de grande referência. Nesse sentido, refiro a morte do Papa Francisco, único no estilo e na abertura ao Mundo e às periferias, talvez na linha de São Paulo VI, o meu Papa de referência. Recordo, com imensa saudade, o padre José Augusto Matias Pereira (de 74 anos, mas mais novo uns dias do que eu), de Lamelas, da freguesia e concelho de Castro Daire, altamente apreciado e amado nas paróquias que bem serviu, um homem conhecedor da sociedade e que sempre depositou grande confiança na minha pessoa.

Porém, nem só de eclesiásticos vive o Mundo e a Igreja. Por isso, devo uma palavra de reconhecimento ao arquiteto Manuel Tomás de Carvalho Botelho, uma grande referência na arte e como professor, de quem tive a honra de ser aluno. Já em tempo, lhe fiz uma referência merecida, em meu entender.

Um preito de saudade e de homenagem devo a meu cunhado José Mário da Paixão Pereira, que faleceu a 20 de agosto do ano passado, com 72 anos, no Hospital Santos Silva, de doença não muito prolongada, mas grave. Além de familiar e amigo, foi companheiro nos tempos de adolescência e foi sempre prestável nos melhores e nos piores momentos das nossas vidas. E era um Homem de fortes convicções e um amigo do trabalho, bem como dos seus amigos e familiares. Foi uma perda bem sentida por todos nós, os familiares e os amigos.

Por fim, mas não menos relevante, a referência, que nunca fiz por escrito, e o preito de saudade e de homenagem ao meu primo Abraão de Carvalho, cuja morte no Lar da Associação de Solidariedade Social Alvorada na Serra, em Pendilhe, me surpreendeu, a 27 de janeiro deste ano, por comunicação da filha Armanda, e a cujo funeral não pude comparecer.       

Tanto o senhor Abraão (sempre o tratei assim, pois era mais idoso do que eu) como o resto da família mais próxima prezaram a consideração por mim. Receberam-me, algumas vezes, na sua casa em Pendilhe, incluindo o tempo que não via quase nada por acidente ocular; e receberam-me, muitíssimas vezes, na sua casa em Famões, no concelho de Odivelas. Convidaram-me para o casamento da filha e do filho e para o batismo de dois netos. O filho Paulo faleceu muito novo, aos 50 anos, se não estou em erro.

Com a mesma bonomia como que admirava o meu exercício sacerdotal, aceitou a minha opção pelo casamento.

Além de funcionário da Carris de Lisboa, aplicava-se a outros trabalhos, nos tempos livres, providenciou, no regime de autoconstrução, casa própria e para os filhos. Foi catequista e ministro extraordinário da comunhão, sobretudo, para a visita aos doentes, e sempre mostrou grande preocupação pelos problemas profissionais e sociais.

Por tudo isto, era merecedor da minha profunda consideração, bem como a sua família mais próxima, o que talvez nem sempre eu soube manifestar.

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Enfim, a Páscoa é de festa e festa grande e de júbilo, mas também é de saudade, que se cultiva no silêncio, na memória e na lembrança do bem que nos fazem ou fizeram.  

Votos de Feliz Páscoa!

2026.04.04 – Louro de Carvalho

A durabilidade da crise energética advinda da guerra no Irão

 

Numa altura em que a guerra no Médio Oriente mantém a restrição do abastecimento de petróleo, em 12 milhões de barris, por dia, a União Europeia (UE) tenta resolver o problema do aumento das faturas de energia e exorta os cidadãos do bloco a reduzirem o número de carros. Com efeito, a questão é: Quanto tempo durarão as reservas de petróleo da UE.

Os analistas estimam que os 426 milhões de barris de petróleo libertados pela Agência Internacional de Energia (AIE) – 91,7 milhões dos quais são contributo de 20 países da UE – durarão cerca de cinco meses, mas o bloco conta com reservas de armazenamento.

O nível de alerta em toda a UE-27 intensificou-se quando o comissário da Energia, Dan Jørgensen, mudou o enfoque da questão de preços para a potencial rutura do abastecimento, na sequência da reunião de emergência dos ministros da Energia, a 31 de março. Nesse dia, disse aos governos da UE que o gasóleo e o combustível para aviões corriam maior risco de escassez, devido à dependência do Médio Oriente, alertou para um “potencial conflito prolongado” e apelou à “unidade entre os países da UE”.

A UE consome cerca de 10,5 milhões de barris de petróleo, por dia, isto é, cerca de 10% da procura mundial, liderada pela Alemanha (2,3 milhões de barris), seguindo-se a França (1,6 milhões de barris) e a Itália (1,3 milhões de barris).

O bloco dispõe de reservas petrolíferas de emergência de cerca de 100 milhões de barris, uma mistura de petróleo bruto, gasóleo e gasolina, dos quais cerca de 91,7 milhões foram libertados a 11 de março, no âmbito da libertação coordenada de 426 milhões pela AIE. As reservas são detidas pelos governos nacionais, enquanto a Comissão Europeia coordena as respostas, durante as crises, por forma a garantir uma abordagem unificada. Estima-se que as reservas cubram cerca de 90 dias de importações líquidas, ou cerca de 61 dias de consumo.

De acordo com os dados da UE, a França, com 120 milhões de barris, a Alemanha, com 110 milhões, e a Itália, com 76 milhões, são os principais detentores de reservas da UE. Também a Espanha detém grandes reservas, enquanto países como a Bélgica, o Luxemburgo e Malta detêm reservas substanciais, noutros países da UE.

Como dissemos, 20 dos estados-membros da UE-27 contribuíram para a libertação de emergência de petróleo coordenada pela AIE, num total de 91,7 milhões de barris, ou seja, cerca de 20% dos 426 milhões de barris libertados em 11 de março. A Alemanha libertou 19,5 milhões de barris, seguida da França (14,6), da Espanha (11,6) e da Itália (10).

Assim, as reservas de emergência de petróleo dos estados-membros da UE em resposta às perturbações no Médio Oriente, os países  da UE contribuem com 91,7 milhões (Mb) de barris de um total de 426 Mb libertados pela AIE. Por ordem crescente, surgem: o Luxemburgo, com 0,1 Mb; a Bélgica, a Estónia e a Letónia, com 0,3 Mb, cada; a Lituânia, com 0,6 Mb; a Dinamarca, com 1,2 Mb; a Irlanda, com 1,7 Mb; a Finlândia, com 1,8 Mb; a Grécia e Portugal, com 2 Mb, cada; a Suécia, com 2,1 Mb; a Chéquia, com 2,2 Mb; a Áustria, com 2,4 MB; os Países Baixos, com 5,4 MB; a Hungria, com 6,1 Mb; a Polónia, com 7,5 Mb; a Itália, com 10 Mb; a Espanha, com 11,6 Mb; a França, com 14, 6 Mb; e a Alemanha, com 19,5 Mb.

Homayoun Falakshahi, analista sénior de energia da agência de informação comercial Kpler, disse que as reservas libertadas pela AIE estão a ser utilizadas, a nível interno. Depende dos países, mas estão a ser libertadas ao ritmo de cerca de 2,5 milhões de barris, por dia, o que significa que darão para cerca de 160 dias. Fatih Birol, diretor da AIE, afirmou, a 1 de abril, num podcast com Nicolai Tangen, CEO do Norges Bank Investment Management, que está a considerar nova libertação das reservas estratégicas de petróleo. E Dan Jørgensen declarou ao Financial Times, a 2 de abril, que a UE “não excluirá outra libertação”, se as condições se agravarem.

As reservas da UE contêm, atualmente, 270 milhões de barris de petróleo bruto, o que corresponde a um volume suficiente para três semanas de consumo, depois de refinado em gasóleo, em gasolina ou em combustível para aviões. As reservas estratégicas e a redução das existências estão a fazer parte do ajustamento restante, suportando cerca de seis milhões de barris, por dia, de procura, segundo a empresa de consultoria económica Oxford Economics. Porém os analistas alertam para o facto de estes amortecedores serem finitos e se tornarem menos eficazes, com o tempo, prevendo um défice de cerca de dois milhões de barris de petróleo, por dia. E, no cenário de guerra prolongada com o Irão, estima-se que a lacuna aumente para cerca de 13 milhões de barris de petróleo, por dia, no sexto mês.

Embora a crise energética de 2022 tenha afetado as importações de gás natural, depois de a UE ter perdido, abruptamente, 40% a 45% do combustível russo, a situação está cada vez mais difícil, à medida que se instala a grande escassez de petróleo, o que levou a indústria petrolífera a recordar os cerca de quatro mil milhões de barris de recursos petrolíferos inexplorados, na Europa, de acordo com a Associação Internacional de Produtores de Petróleo e Gás (IOGP).

“A questão não é se precisamos ou não deles. […] A verdadeira escolha é se os produzimos no nosso país ou se importamos mais do estrangeiro”, disse à Euronews Nareg Terzian, diretor de estratégia e comunicação da IOGP Europa, sugerindo que estes recursos inexplorados são uma “rede de segurança à disposição da UE”, juntamente com os esforços contínuos do bloco para eletrificar e para melhorar a eficiência energética, através do isolamento de edifícios e de tecnologias que ajudam a reduzir o consumo de energia.

Além dos campos do Mar do Norte e dos campos em terra, muito mais poderia ser descoberto em áreas de exploração bastante novas, como o Mediterrâneo Oriental e o Mar Negro.

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A subida dos preços do petróleo e do gás, na Europa, resultante da guerra que envolve o Irão, não voltará aos níveis normais tão cedo, mesmo que a paz seja declarada amanhã, alertou o comissário da Energia da UE, a 31 de março, numa conferência de imprensa após a reunião dos ministros da energia da UE, pois, embora não haja escassez imediata de petróleo e de gás em todo o bloco de 27 membros, há pressão sobre o abastecimento de gasóleo e combustível para aviação e restrições crescentes, nos mercados globais de gás, que fazem subir os preços da eletricidade. Contudo, afirmou que o braço executivo da UE está a preparar uma série de medidas para ajudar as famílias e as empresas a fazerem face à subida acentuada dos preços do petróleo, que provocou aumentos de cerca de 70%, no gás, e de 60%, no petróleo, na Europa.

Segundo Dan Jørgensen, desde o início desta guerra, a fatura da UE com a importação de combustíveis fósseis aumentou 14 mil milhões de euros (€), o que implica ação coordenada entre os estados-membros da UE, para “evitar respostas nacionais fragmentadas e sinais perturbadores para os mercados”. A “caixa de ferramentas” de medidas em preparação, que será revelada, em breve, incluirá formas de facilitar aos estados dissociarem os preços do gás dos preços da eletricidade. E está a ser considerada uma redução dos impostos sobre a eletricidade, como foi sugerido pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.

Dan Jørgensen disse que, embora não espere a repetição da crise do gás natural de 2022, durante a qual as empresas obtiveram grandes lucros com a subida dos preços, “continua a ser uma possibilidade” um “imposto extraordinário” sobre essas empresas. Há boas oportunidades para os estados-membros prestarem apoio financeiro a grupos vulneráveis e a indústrias sob “stresse extraordinário”, e a Comissão tornará tais possibilidades ainda mais simples e amplas.

O comissário encorajou os países da UE a considerarem o plano de 10 pontos da AIE, que inclui trabalhar a partir de casa, reduzir a velocidade das autoestradas, promover os transportes públicos e aumentar a partilha de automóveis. Todavia, a UE continua empenhada na proibição da compra de gás russo, para reduzir a dependência dos fornecimentos russos e para cortar o financiamento da guerra russa na Ucrânia. A dependência do gás russo caiu de 45%, antes da guerra, para 10% e espera-se que caia para zero, quando as importações de fornecedores alternativos aumentarem, especialmente dos Estados Unidos da América (EUA). E a UE está a explorar novas fontes de energia do Azerbaijão, da Argélia, do Canadá e de pequenos produtores mundiais.

Dan Jørgensen advertiu que a UE não deve “repetir os erros do passado, permitindo que Putin use a energia como arma contra nós e chantageie os estados-membros”, sendo inaceitável que a UE comprasse energia que ajudaria a financiar guerra que Putin trava na Ucrânia.

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Em poucas semanas, o conflito no Irão redefiniu a equação energética europeia. O preço de referência do gás natural TTF (Title Transfer Facility) holandês subiu, desde o início do mês de março, de 38 para 54 euros por megawatt-hora (MWh), uma subida de 70% que põe março de 2026 na rota do maior aumento mensal dos preços do gás, na Europa, desde setembro de 2021, um número com impacto muito para lá dos mercados de energia.

A 24 de março, as reservas subterrâneas de gás estavam em apenas 28,4%, ou 325 terawatt-hora (TWh), menos 5% do que na mesma data de 2025 e muito abaixo da média sazonal dos últimos cinco anos, segundo a Kyos European Gas Analytics. A Alemanha está entre os países mais expostos, com as instalações a 22,3% da capacidade, quase menos 7%, em termos homólogos. A França apresenta situação semelhante, com 22,1%. Os Países Baixos são o caso mais crítico no continente: o armazenamento caiu para 6,0%, ou 9 TWh, menos de um terço do nível de há um ano e muito abaixo do mínimo histórico para esta altura do ano.

Portugal entra na crise com os reservatórios 85,3% cheios e a Espanha com 55,5%, ambos a beneficiarem de maior capacidade de importação de gás natural liquefeito (GNL), de menor dependência do gás na produção elétrica e de uma expansão das renováveis que reduzem estruturalmente, a exposição às oscilações dos preços grossistas do gás.

O choque de oferta, na origem, é estrutural, não temporário. O Qatar – segundo maior exportador mundial de GNL, com 84 mil milhões de metros cúbicos, por ano, e fornecedor-chave de vários estados-membros da UE – confirmou que não consegue cumprir todas as obrigações contratuais, depois dos ataques do Irão, no início do mês, à Ras Laffan Industrial City.

Numa nota de investigação datada de 22 de março, o Goldman Sachs elevou a sua previsão para o TTF, no segundo trimestre de 2026, de 63 para 72 €/MWh, alertando que a Europa terá de desviar cargueiros de GNL de compradores asiáticos concorrentes para encher, adequadamente, as reservas antes do inverno. Num cenário adverso – em que os fluxos energéticos através de Ormuz se mantêm deprimidos, em 10 semanas, em vez de seis –, a média do TTF, no verão, pode superar os 89 €/MWh. E, em cenário muito adverso, que inclua danos mais prolongados na infraestrutura do Qatar, o TTF pode manter-se acima dos 100 €/MWh, em todo o verão.

Se o trânsito por Ormuz permanecer suspenso durante três meses, o contrato TTF do mês seguinte pode subir para cerca de 90 €/MWh. No limite superior, nesse cenário, os preços podem situar-se entre 115 e 155 €/MWh, visto que cerca de 28,6 mil milhões de metros cúbicos de GNL seriam retirados do mercado mundial. Um encerramento de seis meses faria subir a média do TTF para perto de 160 €/MWh, uma pressão ao estilo de 2022 ou pior, com preços potencialmente entre 145 e 240 €/MWh e com o enchimento das reservas para o próximo inverno a tornar-se “quase impossível”. Para referência, o TTF atingiu um máximo de 345 €/MWh, em agosto de 2022, após a invasão da Ucrânia pela Rússia.

Para as famílias europeias, o choque é real, mas repercute-se de forma desigual nas várias componentes da fatura energética. Os preços da eletricidade estão a subir, à medida que o custo do gás se repercute nos mercados grossistas de eletricidade, mas o impacto é mais diluído, ao nível do consumidor final. O mercado elétrico está a incorporar parte do choque do gás, estimando-se o efeito nas faturas das famílias em alguns pontos percentuais, visível, mas muito abaixo dos 60 a 70% de aumento registados no gás grossista.

Nos combustíveis, a pressão vai além do crude, com fretes mais caros, com prémios de seguro mais elevados e com limitações na refinação a fazerem subir os custos ao longo de toda a cadeia.

Embora a Itália esteja em melhor posição do que a média da UE, com reservas de gás a 43,9%, a ameaça imediata é de preços, não de falta física de gás.

A tendência desinflacionista que a Europa viveu nos últimos três anos terminou, pelo menos, no curto prazo. O Goldman Sachs previa que a inflação homóloga geral na Zona Euro subisse para 2,7% em março, bem acima dos 1,89% de fevereiro, impulsionada quase totalmente pela energia, cujo contributo deverá passar de -3,1% para +5,9% homólogos, num só mês. Também a trajetória de médio prazo mudou de forma abrupta: o banco antecipou uma inflação média de 2,9%, em 2026, com um pico de 3,2%, no segundo trimestre.

A inflação subjacente – que exclui energia e alimentos – deverá subir gradualmente, atingindo 2,5%, no terceiro trimestre, à medida que os custos energéticos começam a refletir-se nos preços dos serviços e nos custos de transporte.

Fechou-se a janela em que o Banco Central Europeu (BCE) podia, de forma credível, alegar que estava a caminho da meta de 2%, pois a equação inverteu-se em poucas semanas. Assim, o Goldman Sachs espera que o Conselho do BCE aumente as taxas em 25 pontos base, na reunião de 30 de abril, e em junho, novamente. Com efeito, o Goldman Sachs reviu, em baixa, o crescimento do produto interno bruto (PIB) da Zona Euro, no conjunto do ano, para 0,7%, quase metade da trajetória prevista antes do conflito.

É pouco provável que o choque se aproxime da magnitude da crise energética de 2022-23, nem que atinja as economias da Zona Euro de forma tão uniforme como nessa altura. O sinal mais claro está nos mercados de eletricidade: embora os preços do gás tenham disparado 80%, desde o início do ano, os preços médios grossistas de eletricidade, nas cinco maiores economias da Zona Euro, mal se mexeram e continuam cerca de 14% abaixo dos níveis do início do ano.

Esse desacoplamento reflete a aceleração da expansão das renováveis na Europa, desde 2022, e o regresso da frota nuclear francesa à plena capacidade, uma mudança estrutural que funciona como amortecedor parcial. E a resposta orçamental deverá ser mais contida: os governos estão mais condicionados, os mercados obrigacionistas menos tolerantes e os decisores políticos mais cônscios dos riscos inflacionistas associados a apoios energéticos pouco focalizados.

A crise de 2022 foi um choque sistémico que expôs as vulnerabilidades que a Europa acumulou ao longo de décadas de gás russo barato. A atual é mais localizada, mais desigual e, por agora, mais gerível. A dúvida é saber até quando se manterá assim.

Por isso, os países-membros da UE devem estar preparados, devendo travar qualquer, tentativa de especulação, procurar novos fornecedores estratégicos, aconselhar a poupança energética e criar condições para ela, apostar nas energias renováveis e incentivar a sua produção e utilização.

2026.04.03 – Louro de Carvalho