A
cerca de 150 metros de profundidade, do lado de fora e ao largo da costa Oeste
da ilha norueguesa do Fedje, no condado de Vestland, encontram-se os destroços
do submarino alemão U-864, que foi afundado a 9 de fevereiro de 1945, em fins
da II Guerra Mundial, como refere a Administração Costeira Norueguesa (Kystverket).
É
certo que os papéis de carga nunca foram encontrados, mas, se a carga a bordo
do U-864 correspondeu à ordem do Japão, havia, entre outras coisas, 65 a 67
toneladas de mercúrio a bordo, divididas em cerca de 1900 contentores de aço
destinados ao uso na produção de armas japonesas. Muitos deles terão sido
destruídos, quando o submarino foi torpedeado, de forma que a poluição por
mercúrio foi documentada no fundo do oceano, ao redor dos destroços.
Em
maio de 2025, a empresa Reach Subsea, com sede em Haugesund, por encomenda da Kystverket,
procedeu a investigação abrangente sobre os destroços, da qual resultaram,
entre outras coisas, novas imagens dos destroços e um modelo 3D (três dimensões),
gerado fotogrametricamente, que visualiza o fundo do mar e o naufrágio. A razão
para a investigação foi o Storting (Assembleia ou Conselho unicamaral: poder
legislativo da Noruega) ter decidido por nova avaliação sobre a forma como o
submarino deve ser tratado, pelo que o Ministério do Comércio e Pescas pediu à Kystverket
a realização de um mapeamento completo dos destroços e da área circundante. Assim,
para a concretização dessa incumbência, foi realizada uma expedição
investigatória, logo em maio.
O
objetivo era fazer uma recomendação profissional, que passa por um dilema de
opções: “Deve-se começar por tentar recuperar os recipientes de mercúrio, antes
de cobrir os destroços ou ir, diretamente, para essa cobertura? Para tomar uma
decisão, é preciso avaliar os riscos ambientais decisivos e verificar se uma
operação de elevação é financeiramente justificável.
A
primeira etapa centrou-se no mapeamento e na recolha de dados, sem intervenção
física no fundo do oceano. Usando um veículo submarino operado remotamente (WROV
– veículo subaquático telecomandado ligados a um navio por cabo), câmaras 4K
Ultra HD, fotogrametria e medições acústicas, foram examinadas partes
interiores e exteriores dos destroços, tal como se procedeu a extenso
mapeamento geofísico da área ao redor dos destroços. E, agora, está-se a
trabalhar num modelo 3D que mostra a geometria e os detritos dos destroços.
Também
se espera que os levantamentos forneçam informações sobre camadas de
sedimentos, acúmulos de mercúrio, recipientes de mercúrio em sedimentos e
outras informações relevantes associadas ao acúmulo geológico do fundo do
oceano. “Vamos, agora, ter uma imagem muito melhor de onde os recipientes de
mercúrio estão localizados e de como os destroços são colocados nos sedimentos.
[…] Isso dá-nos uma base de tomada de decisão importante para a próxima fase,
que esperamos poder iniciar, já neste outono, diz Hans Petter Mortensholm, diretor
de Preparação Ambiental da Kystverket.
A
expedição foi realizada com o mais alto padrão ambiental. Todo o trabalho foi
feito sem contacto físico com o fundo do mar, para evitar a rodopiação de
sedimentos contaminados com mercúrio. Equipamentos que estavam perto dos
destroços e do fundo do mar foram cuidadosamente inspecionados, antes de serem
levantados no vaso de guerra, e nenhuma contaminação por mercúrio do
equipamento foi observada.
A
próxima fase do projeto testará métodos e equipamentos para aceder à quilha dos
destroços e a recipientes de mercúrio para avaliar a condição destes. Isso
exigirá intervenção nos sedimentos e abertura da quilha – operação que deve ser
realizada com extrema precisão e segurança. Por isso, o governo decidiu que as
partes dos destroços devem ser cobertas. A missão da Kystverket é, portanto,
examinar a possibilidade de remover o mercúrio, antes de uma cobertura.
O
U-864 não é só um naufrágio histórico – é também fonte de poluição. O mercúrio
é contaminante ambiental que pode acumular-se na cadeia alimentar. Por isso, é
crucial obter uma visão geral da situação e considerar medidas. Por causa dos
riscos associados à acumulação, o Instituto de Pesquisa Marinha realiza, desde
2005, levantamentos anuais de peixes e de mariscos, e os resultados mostram
baixos níveis estáveis de mercúrio.
Para
a Reach Subsea – empresa norueguesa fundada em 2008 que fornece serviços e
dados subaquáticos (subsea) para projetos de energia e de infraestruturas
offshore, em todo o Mundo, realizando serviços de inspeção, de reparação
e de manutenção em estruturas submarinas, bem como de mapeamento do fundo do
mar e de recolha de dados geofísicos e ambientais – a expedição mostra que,
desde a pesquisa anterior, houve significativa melhoria na qualidade da imagem
e da fotogrametria, que fará uma base melhor para o planeamento da próxima
pesquisa. “Provavelmente ainda há algumas limitações, especialmente, em termos
do que podemos mapear no fundo do mar, mas a pesquisa mostra que temos a
tecnologia e a experiência para lidar com desafios ambientais complexos debaixo
de água”, diz Mortensholm.
***
A
19 de setembro, a Euronews publicou um artigo intitulado “Submarino nazi
com possível ‘bomba de mercúrio’ ao largo da Noruega”, em que a jornalista Nela
Heidner releva que “poderá conter uma grande carga de mercúrio” e que “imagens
subaquáticas revelam o estado do navio e explicam porque é que a sua
recuperação é, agora, uma corrida contra o tempo”.
O
submarino U-864, que retém um pedaço da História Militar alemã, repousa no
fundo do mar, há mais de oito décadas (81 anos), partido em duas partes,
rodeado de sedimentos e de uma carga que representa um problema ambiental. É um
caso excecional. Segundo os documentos históricos, provavelmente, havia a bordo
grandes quantidades de mercúrio. Uma encomenda japonesa refere 1867
recipientes. Ora, como diz a jornalista, se a remessa estivesse a bordo, na
íntegra, corresponderia a uma quantidade de cerca de 65 a 67 toneladas. Porém,
como não se conservam documentos de carga exatos, a quantidade real não está
definitivamente confirmada. A única certeza é que há mercúrio no naufrágio.
Observa
Nela Heidner que a II Guerra Mundial, em fevereiro de 1945, se encontrava
na fase final. No entanto, o U-864 ainda estava em missão especial. O submarino
alemão deveria chegar ao Japão, através da Noruega. A bordo, além de
equipamento militar e técnico, havia especialistas e material destinado à
indústria de armamento japonesa.
No
entanto, o submarino britânico HMS Venturer, que tinha descodificado as
comunicações de rádio alemãs e localizado o U-864, a 9 de fevereiro de 1945, disparou
um torpedo, que atingiu o submarino alemão e o destruiu. O U-864 afundou-se a
cerca de 150 metros de profundidade. Todas as 73 pessoas a bordo perderam a
vida. O ataque é considerado o único caso conhecido de um submarino submerso que
afundou outro submarino submerso.
Entretanto,
como vinca a jornalista, “os destroços caíram no esquecimento, durante décadas”.
Porém, o U-864 voltou a estar no centro das atenções, e indícios sobre a carga
especial levaram a investigações, ao largo da costa norueguesa. Em 2003, quando
os destroços foram localizados pelo navio da Marinha norueguesa KNM Tyr, verificou-se
que o submarino não permanecia intacto no fundo do mar. As duas partes dos
destroços encontram-se separadas uma da outra, a cerca de 150 metros de
profundidade.
O
problema com esta carga é que o mercúrio não desaparece, simplesmente, podendo
permanecer no ambiente, durante muito tempo, porque, ao invés de muitos
poluentes orgânicos, não é biodegradável. O tempo que o mercúrio permanece no
ambiente depende da sua forma química e das condições ambientais. Em sedimentos
contaminados, pode permanecer, durante décadas, em alguns casos, durante
séculos. A EPA – Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos da América (EUA)
salienta que o mercúrio presente nos solos pode ser libertado, ao longo de
centenas de anos.
Um
aspeto particularmente problemático é o facto de os microrganismos poderem
transformar o mercúrio em metilmercúrio, a forma química mais tóxica do
mercúrio, em que este se transforma, quando bactérias na água transformam o
mercúrio lançado por indústrias ou por poluição, e que entra, facilmente, nas
células e atravessa a barreira cerebral. Esta forma particularmente tóxica
acumula-se na cadeia alimentar, sobretudo, nos peixes (o consumo de peixe é a
principal via de exposição humana, gerando recomendações específicas de
segurança alimentar pela ASAE – Autoridade de Segurança Alimentar e Económica).
Sofre bioacumulação e biomagnificação, atingindo níveis altos em grandes
predadores marinhos. Afeta o sistema nervoso, causando formigamentos, tremores
e perda de coordenação. É altamente perigoso, para grávidas e para crianças,
pois afeta o desenvolvimento fetal.
***
Como
vimos, as imagens da Kystverket mostram o estado atual dos destroços. Em maio
de 2025, a Kystverket mandou inspecionar os destroços com veículos subaquáticos
telecomandados. A partir das imagens, foi criado um modelo tridimensional dos
destroços e do fundo marinho circundante. O submarino encontra-se a grande
profundidade abaixo da superfície da água, parcialmente enterrado nos
sedimentos do fundo do mar. Muitos dos supostos 1867 contentores terão ficado
danificados, durante o naufrágio. Foi essa a experiência das autoridades
norueguesas nas investigações e dos trabalhos de resgate, em 2026, quando foram
recuperados 22 contentores dos destroços. Segundo as primeiras análises, cerca
de 80% dos contentores estava danificado e com fugas, pelo que cerca de meia
tonelada de mercúrio chegou à costa e, ao mesmo tempo, foi libertado mercúrio,
na água na zona de trabalho.
Perante
o dilema, que tem sido objeto de debate, se se deve tentar retirar a carga
perigosa de um submarino de guerra, naufragado, há 81 anos, ou cobrir, de forma
permanente, o submarino naufragado e o fundo marinho contaminado, a Kystverket,
em 2026, baseada na experiência adquirida nos trabalhos, voltou a recomendar
que o navio naufragado fosse coberto, já que uma operação de recuperação em
grande escala poderia libertar mais substâncias nocivas do que aquelas que removeria.
Não
obstante, uma cobertura não seria uma solução definitiva: teria de ser
monitorizada, a longo prazo. Com efeito, os habitantes de Fedje convivem com o
facto de, a poucos quilómetros da sua costa, haver um submarino alemão cuja
carga continua a suscitar questões. Embora, agora, décadas mais tarde, a
tecnologia permita ver, em profundidade, o interior dos destroços, a questão
decisiva e que permanece por resolver é: “O que fazer com os destroços?”
A
este propósito, as autoridades norueguesas, que têm vindo a analisar, há anos,
peixes e marisco da região, sustentam que não parece haver motivos para
preocupação excessiva, pois as análises revelam, até agora, níveis de mercúrio
estáveis ou baixos.
***
O
transporte de cargas é uma tarefa que existe, há centenas de anos,
principalmente, quando consideramos o meio marítimo para esse trabalho. Com o
passar do tempo, foram sido desenvolvidas, cada vez mais, tecnologias e
ferramentas para facilitar e para aumentar a quantidade de produtos e de carga
a transportar. Uma dessas ferramentas criadas é o contentor – nomeadamente, o
contentor marítimo –, uma ferramenta desenvolvida para o transporte de cargas
pesadas e com dimensões maiores do que o habitual.
A
sua estrutura, em alumínio ou em aço, é parecida com uma caixa gigante. Os contentores
podem ser utilizados em transportes marítimos, terrestres e até aéreos. A sua
construção visa a sua qualidade e durabilidade. E o facto de serem reutilizados
diversas vezes, por ano, e o desgaste por conta do choque marítimo, obrigam os
fornecedores a criarem produtos com ótima qualidade e resistência, o que pode
levar um contentor a ter cem anos de vida útil.
Hoje,
os contentores não têm só funcionalidade para empresas de transporte de
cargas, também podem ser usados para construções. Temos construções de casas e de
empresas em contentores (salas modulares) pelo Mundo fora, o que mostra
a versatilidade desses módulos.
Há
vários tipos de contentores, mas o mais recomendado para o segmento marítimo é
o com coberta marítima. A sua principal caraterística é o piso work-through
(modelo logístico e estrutural que permite o acesso, entrada e saída de
mercadorias ou de veículos por ambas as extremidades do espaço), ferramenta
utilizada para diminuir o tempo de descarregamento de cargas e o espaço
necessário para isso. Este modelo foi criado para facilitar o transporte e o descarregamento
de cargas pesadas em navios cargueiros e militares.
***
Em
julho e em agosto, mergulhadores polacos descobriram, no mar Báltico os
destroços de dois submarinos da Marinha de Guerra alemã, que se tinham afundado
durante a II Guerra Mundial. De facto, o naufrágio do U-583 e do U-649, com
muitos jovens marinheiros a bordo, está documentado, como refere o historiador
Christian Lübcke, da associação Volksbund Deutsche Kriegsgräberfürsorge. Ambos
colidiram com outros submarinos alemães.
O
U-583, do tipo VIIC, em que morreram 45 homens (com a idade média de 24 anos), a
15 de novembro de 1941, foi encontrado, em julho, a 70 metros de profundidade, por
membros da associação “Stowarzyszenie Wyprawy Wrakowe” (SWW: associação para
mergulhos em naufrágios), com a empresa de levantamentos hidrográficos Geoings
Polska, a cerca de 90 quilómetros a norte de Ustka, na costa polaca do Báltico.
Da
colisão do U-649 com outro submarino alemão, no Báltico e com fraca
visibilidade, a 24 de fevereiro de 1943, sobreviveram 11 militares da Marinha,
graças à rapidez das equipas de salvamento. Porém, morreram 35 homens (com a
idade média de 23 anos). Foi encontrado em agosto, a 72 metros de profundidade.
O
resgate dos dois submarinos não está previsto, porque podem detonar torpedos e
outros explosivos. “Os submarinos são, muitas vezes, saqueados. Os cascos de
aço fechados são verdadeiras cápsulas do tempo. As pilhagens, sobretudo, no mar
Báltico, são maciças”, alerta Christian Lübcke, explicando: “A caça a
recordações não poupa sequer os restos mortais. Em alguns túmulos de guerra, no
mar, encontram-se esqueletos intactos; noutros restam montes de tecido humano
em decomposição, onde se veem relógios de pulso ou fivelas de cinto.”
Em
situações de risco particularmente elevado, o Volksbund Deutsche
Kriegsgräberfürsorge pede a criação de zonas interditas ao mergulho.
No
mar Báltico continuam desaparecidos dois submarinos alemães da I Guerra Mundial
(SMU-10 e SMUC-57) e outros dois da II Guerra Mundial (U-479 e U-745). Desapareceram
algures, no golfo da Finlândia. Na I Guerra Mundial, segundo Christian Lübcke, foram
destruídos cerca de 200 submarinos alemães; e, na II Guerra Mundial, mais de
750. De cada um dos conflitos, cerca de 45 submarinos estão dados como
desaparecidos. Há destroços no Oceano Atlântico, no mar do Norte, no mar
Báltico, no Mediterrâneo e nos oceanos Índico e no Pacífico.
***
Isto
não passa de ínfima amostra da destruição e da mortandade dos dois conflitos
mundiais, mas os líderes políticos, não querendo aprender a lição da História do
século XX, espalham a guerra “em pedaços repartidos pelo Mundo”, até à
catástrofe geral!
2026.09.19
– Louro de Carvalho