quarta-feira, 20 de maio de 2026

O pacifismo parece ter os dias contados

 

Os Estados Unidos da América (EUA), sob a liderança de Donald Trump, estão a intervir ou a tentar intervir, comercial ou militarmente, em praticamente todos os lugares do Orbe.

Foi e é a intervenção militar no Irão, a complacência cooperante com Israel na guerra de Gaza, dita pacificada, ou o bloqueio norte-americano no Estreito de Ormuz; foi e é a apetência pela Gronelândia, pelo Canadá, pelo México e pelo Panamá; foi a extração do presidente venezuelano, Nicolás Maduro; é a ameaça a Cuba e à Colômbia; é o apoio a Taiwan, contra a China; é o jogo ambíguo com Vladimir Putin, mesclado com hipócrita apoio à Ucrânia; é o descarte do apoio à Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) e o seu enfraquecimento, com o relaxamento da defesa do continente europeu aos seus próprios recursos; é a criação irónica do famigerado Conselho da Paz, com a subalternização da Organização das Ações Unidas (ONU) e com a retirada ou com o enfraquecimento do apoio financeiro às suas instituições; é o desprezo pela União Europeia (UE); é a guerra comercial, em várias frentes, adoçada por acordos comerciais em que os EUA ganham sempre; e o pseudopacifismo em várias frentes onde havia conflito armado, em demanda da atribuição do Prémio Nobel da Paz.           

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Penso que será útil a leitura do artigo da jornalista Catarina Maldonado de Vasconcelos, intitulado “’O Japão é uma potência militar’: o fim do velho pacifismo perante a ameaça da China”, publicado a 19 de maio, no Expresso online, referindo que, sempre que “a Coreia do Norte lança um míssil no Mar do Japão” ou “a China afirma a sua força em zonas disputadas nos mares da China Oriental e Meridional, mais os Japoneses se convencem da necessidade de uma postura de defesa mais forte” e que o país está a aumentar o “poder de dissuasão e defesa”.

O Japão vem sendo rotulado de pacifista, pois, em grande parte do pós-guerra, “cultivou uma tradição antimilitarista”, porque “as elites japonesas e o público, em geral, sempre desconfiaram do papel do poder militar na resolução de questões internacionais complexas”, segundo Chris Hughes, professor na Universidade de Warwick. Porém, como aponta a jornalista, o país “sempre esteve preparado para se defender, se necessário”, mantendo “um poderio militar substancial e cultivando a aliança” com os EUA, mas, como diz Hughes, rearmou-se e transformou o exército numa força muito avançada tecnologicamente e interligada, “com capacidade de contra-ataque, e muito mais integrada nas forças e na estratégia dos EUA”.

A sua estratégia de segurança do pós-guerra é um misto de isolacionismo, de desconfiança antimilitarista, face aos militares e ao controlo civil, e de realismo defensivo.  O país rearmou-se, com a criação, em 1954, das Forças de Autodefesa, que foram crescendo, até se tornarem muito poderosas, mas focadas na “defesa territorial”. E, de acordo com o politólogo Paul Midford, as alterações, a partir de 2022, “acrescentam um elemento de dissuasão moderada, com a aquisição de mísseis de contra-ataque capazes de atingir alvos na Coreia do Norte e na China”. Porém, as capacidades de contra-ataque do Japão continuam modestas (400 mísseis Tomahawk) e levarão tempo a serem adquiridas aos EUA, devido à escassez destas armas naquele país. É certo que o Japão criou uma base jurídica restrita para o uso da força na defesa de outros países que sejam atacados, mas não há consenso sobre quando ou se este direito de autodefesa deve ser exercido.

A primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, apontada como defensora acérrima da ‘linha dura’, disse a Donald Trump que o país não se podia envolver militarmente no conflito sobre o Estreito de Ormuz, por causa da Constituição, mas as empresas japonesas podem vender, livremente, equipamento militar avançado a 17 países com os quais o país mantém acordos de defesa, revertendo a política em vigor, desde 1967. E a chefe do governo justificou a decisão com a necessidade de garantir a segurança nacional, auxiliando países parceiros.

A Guerra do Golfo, no início da década de 1990, retirou o Japão da confortável relação de aliança, na qual as suas responsabilidades eram mínimas. Nas décadas subsequentes, à medida que os vizinhos se tornaram mais ameaçadores e provocadores, o país alterou as suas estratégias de defesa, aderindo à evolução da mudança baseada nas capacidades de dissuasão, mas há muitas restrições concetuais que limitam o uso da capacidade defensiva do país.

Desde a década de 1950, a política externa japonesa assenta em evitar o envolvimento em guerras que não lhe interessam e em impedir os EUA de abandonarem a sua proteção militar. Porém, não se pode dizer que Tóquio seja pacifista, embora tenha uma estratégia realista e calculada que perdurou no pós-guerra. O único aspeto pacifista do Japão é o artigo 9.º – a chamada Cláusula de Paz –, imposto pelos EUA na Constituição de 1947.  

Os politólogos creem que há razões a impelir o Japão à sua segurança. A China e a Coreia do Norte são as principais razões. A Marinha chinesa alargou as suas operações ao Pacífico Central, e a Coreia do Norte tem testado mísseis balísticos intercontinentais com maior alcance e capacidade de carga. Por isso, a mudança de postura japonesa passa por fornecer os melhores sistemas de armas disponíveis a parceiros, como as Filipinas e a Austrália. Nestes termos, Tóquio assinou um acordo de 6,5 mil milhões de dólares com Camberra para o fornecimento de 11 versões melhoradas das fragatas da classe Mogami, que já estão ao serviço da Força Marítima de Autodefesa do Japão. Os três primeiros navios de guerra serão construídos no Japão e entregues até 2030, sendo os restantes construídos na Austrália.

A Indonésia pretende adquirir submarinos da classe Oyashio, e as Filipinas ambicionam os contratorpedeiros de escolta da classe Abukuma, o que reforçará a capacidade da Marinha filipina, face às forças marítimas chinesas que tomaram atóis e recifes no Mar do Sul da China, território reivindicado por Manila. E o Japão trabalha com o Reino Unido e com Itália num caça furtivo de 6.ª geração, no âmbito do Programa Global de Aviação de Combate, e desenvolve o intercetor de fase plana com os EUA, para combate a mísseis hipersónicos.

O Japão sempre teve umas das forças armadas mais poderosas do Mundo, mas está a mudar a sua estratégia, priorizando as capacidades ofensivas e de contra-ataque, considerando a introdução de armas nucleares táticas norte-americanas e adotando uma postura mais avançada e proativa. Ou seja, as suas forças de autodefesa, que atuavam na defesa, têm de atuar no ataque, para dificultarem os cálculos de um adversário tão poderoso como a China.

A vontade de exportar armas japonesas, anterior a Sanae Takaichi, remonta à governação de Shinzo Abe, que flexibilizou a rígida proibição de 1967 às exportações de defesa, em 2014, para permitir a venda de equipamentos não letais, como os de vigilância, de transporte, de resgate e de desminagem. As armas letais continuaram a ser proibidas. Todavia, esta doutrina jurídica foi alterada, em 2014, por reinterpretação constitucional, e permitiu, com as Leis de Paz e Segurança, de 2015, maior integração com as forças dos EUA, alargando a capacidade do Japão de ir além do fornecimento de direitos de base e apoio na retaguarda, podendo entrar em conflito, a par dos EUA. Agora, a primeira-ministra pretende rever a Constituição, para remover o artigo 9.º, mas a opinião pública, sobretudo, a população mais antiga, não está convencida.

Rana Mitter, professor catedrático de Relações EUA-Ásia na Escola Kennedy de Harvard, sustenta que “o Japão sempre definiu a sua postura militar do pós-guerra como autodefesa”, mas reavalia o seu nível de resistência, face às pressões externas, porque está cônscio “das sensibilidades que envolvem o seu poderio militar” e “das tensões num Mundo que se torna cada vez mais perigoso”. Além disso, o Japão está “preocupado com a possibilidade de o tratado de segurança EUA-Japão ser menos seguro do que tem sido, desde a Guerra Fria”, isto é, a China e a Coreia do Norte são o problema mais grave que o país enfrenta, neste momento, pelo que está a adaptar a sua postura, face à mudança da doutrina global dos EUA.

A questão sobre se o país se está a rearmar ou a remilitarizar era pertinente, há alguns anos. Agora, segundo Hugo Dobson, professor de Relações Internacionais do Japão, na Universidade de Sheffield, o Japão, que “é uma potência militar”, vê tudo a mudar. A sua cultura e identidade “podem estar em processo de desenvolvimento”, mas ambas se encontram num patamar bastante diferente de “quando os debates giravam em torno da contribuição do Japão para as operações de manutenção da paz da ONU, na década de 1990, ou para a guerra contra o terror, na década de 2000”. Por isso, na ótica, Hugo Dobson, “é difícil que o artigo 9.º sobreviva”.

Em fevereiro, um funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, mostrou a sua oposição ao processo, que desafia a autoproclamada “dedicação à paz” ​​e a adesão à política “exclusivamente orientada para a defesa”. Por outro lado, um bloqueio a Taiwan, pela China, pode ser interpretado como “situação de ameaça à sobrevivência” do Japão que justificaria o uso da força. Porém, mesmo que uma contingência em Taiwan surja como ameaça à sobrevivência para o Japão, a participação das Forças de Autodefesa será limitada à força necessária e restrita ao apoio logístico.

Tóquio mostrou preocupação com o futuro da democracia taiwanesa e com o futuro do transporte marítimo e do comércio na região, caso Taiwan seja reunificada pela força. Cabe ao governo japonês determinar o que é uma “situação de ameaça à sobrevivência”. O Japão poderá não se mobilizar para defender Taiwan sozinho. Se o seu aliado, os EUA, responder a um ataque chinês a Taiwan e a China responder, atacando bases norte-americanas no Japão, o governo do Japão invocará, provavelmente, o “requisito de ameaça existencial” na autodefesa. Com efeito, um ataque da China a Taiwan constituiria grande perturbação no comércio de tecnologia, para o Japão e para a Europa, afetando os fluxos comerciais globais, mais drasticamente do que o conflito com o Irão afetou os fluxos de energia.

David Leheny, professor de Estudos da Ásia Oriental, na Universidade de Cornell, admite que a direção em que o Japão caminha tem gerado indignação dos pacifistas e da esquerda, por isso levar, alegadamente, o Japão a ser primordialmente uma potência militar, mas crê que a maioria das pessoas compreende que um conflito militar com uma potência da região pode ser catastrófico, pelo que os líderes japoneses não correrão esse risco.

A questão crucial para o futuro do artigo 9.º é, segundo David Leheny, a forma como o governo de Takaichi e o Partido Liberal Democrático o reescreverem, em caso de revisão constitucional. Porque Takaichi goza de popularidade, esta pode ser a melhor hipótese de realizar um sonho, para muitos, na direita, mas há obstáculos difíceis de ultrapassar para viabilizar a revisão. E, quanto mais extensa ela for, maior será a resistência e menor o apoio.

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O que está a acontecer no Japão está em paralelo com o que se passa noutras partes do planeta.

Aquando da mudança de postura do governo dos EUA, liderado por Joe Biden, consubstanciada na autorização do uso de mísseis de longo alcance contra as tropas russas e norte-coreanas, na região de Kursk, no Oeste da Rússia, região tomada pela Ucrânia numa contraofensiva em agosto de 2024, Moscovo decretou a alteração da sua doutrina nuclear, permitindo o uso de armas nucleares contra países que ataquem os territórios da Rússia ou dos seus aliados, ultrapassando o objetivo inicial de desmilitarização e de desnazificação da Ucrânia.  

Em fins de novembro de 2025, depois da sua manifestação de várias apetências territoriais (nomeadamente, onde haja terras raras, zonas de veraneio ou pontos estratégicos para os EUA), Donald Trump aprovou a nova estratégia de segurança nacional norte-americana, com mira ao domínio do Hemisfério Ocidental, ao apoio apenas aos países que estejam em consonância com a supremacia norte-americana, designadamente com ideias e postura conservadoras, e deixando a defesa da Europa entregue a si própria.

Entretanto, a Europa, devido à necessidade de autonomia estratégica e às ameaças geopolíticas, optou pelo rearmamento, prevendo investimento de até 800 mil milhões de euros na modernização militar, para fortalecer a dissuasão nas áreas terrestre, aérea, marítima, ciberespacial e espacial. Nesse sentido, a Comissão Europeia lidera um plano que canaliza fundos disponíveis e novos empréstimos (estimados em 150 mil milhões de euros) para a indústria de defesa, aliviando as restrições das regras fiscais aos estados-membros. E a Alemanha, numa mudança histórica, planeia excluir a defesa dos seus limites de controlo de dívida pública, em prol de forte aumento do investimento para revitalizar o seu poderio militar. Este esforço conjunto visa complementar as obrigações dos países europeus, para com a NATO, reduzindo a dependência europeia, face a aliados externos.

Por pressão de Donald Trump, os membros da NATO – estrutura que não possui orçamento centralizado para as forças armadas, mas apenas orçamentos centralizados e relativamente pequenos para cobrir os custos operacionais, civis e militares das infraestruturas e quartéis-generais partilhados – acordaram que cada país deve gastar em defesa, a curto prazo, o equivalente a, no mínimo, 2% do seu produto interno bruto (PIB), estando em andamento metas de investimento progressivas ainda mais elevadas, a médio prazo, que atingirão os 5% do PIB, num horizonte temporal até 2035.

Na conferência “40 Anos de Portugal na UE: Sucessos e Desafios”, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, no Porto, a 12 de maio, defendeu que é inviável a criação de um exército europeu, mas apontou para maior cooperação atlântica, em matéria de defesa. O ex-presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, defendeu a importância da NATO, na defesa da Europa, mas sustentou que “há que avançar com as capacidades europeias na defesa”. E o deputado socialista no Parlamento Europeu (PE) Francisco Assis defendeu que este é “um debate que a Europa começa a ter” e que mexe com a “memória dos povos” europeus.

Em entrevista à Rádio Renascença, divulgada na noite de 13 de maio, o ex-presidente Aníbal Cavaco Silva defendeu uma força europeia separada da NATO, mas em cooperação com ela, para reduzir a dependência dos EUA, e considerou o presidente Donald Trump “supererrático”. Considerou que Ursula von der Leyen “tem realizado um trabalho excelente, num tempo muito difícil, num tempo de guerra na Ucrânia”, e elogiou a “muita força e determinação” da política alemã contra “aqueles que tentaram restringir o apoio europeu à Ucrânia”, país em guerra com a Rússia que, para o ex-governante, não deve ser excluído da possibilidade de alargamento da UE. Por outro lado, sublinhou que se a UE tivesse “um mercado de capitais verdadeiramente europeu, seria possível aos estados e às empresas fazerem grandes emissões de dívida a nível europeu, podendo competir com as grandes emissões de dívida norte-americana”.

O também ex-primeiro-ministro, frisando que Trump considera as relações comerciais não para benefício dos que intervêm na transação, mas só para benefício dos EUA, vincou: “Temos, nos EUA, um presidente não confiável para a Europa, mas a Europa não deve acobardar-se perante as exigências do presidente Trump.”

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Enfim, todos clamam pela paz, mas aprontam-se para a guerra.

2026.05.19 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Suásticas e vandalismo cultural em Lisboa e política similar nos EUA

 

Em artigo intitulado “Suásticas em Lisboa: PS critica ‘desvalorização’, Câmara também vê perigos na extrema-esquerda”, publicado, a 18 de maio, pela Euronews, João Azevedo aborda a vandalização da estátua da escritora Natália Correia, na Graça, que levou o Partido Socialista (PS) a alertar para difusão “preocupante” de mensagens de ódio.

Alexandra Leitão, vereadora do PS na Câmara Municipal de Lisboa (CML) quer mais empenho no combate à intolerância, ao que o presidente do município, Carlos Moedas, responde que não há “extremismos virtuosos”, acusando a vereadora de “visão maniqueísta”.

Refere o jornalista que, poucos dias antes da celebração dos 52 anos do 25 de Abril (aliás, no dia 16), um ato de vandalismo, em Lisboa, contra a estátua de Natália Correia, ícone da luta pela liberdade, inflamou “o já muito entrincheirado debate político no país”.

A estátua, erigida, em 2023, na freguesia de São Vicente, para marcar o centenário do nascimento da escritora açoriana, foi danificado e alvo de pichagens: sobre o rosto, foram desenhadas cruzes suásticas, o emblema adotado pelo Partido Nazi alemão, em 1920, e que se tornou o símbolo mais representativo da propaganda hitleriana, assente em reivindicações de supremacia da raça ariana, remetendo para o Holocausto, pelo que, em vários países, o seu uso em apologia do nazismo é proibido por lei.

Os danos foram denunciados, no dia 25, pelo presidente da Junta de Freguesia, condenando a “simbologia de ódio” nos termos de um ataque cujo alcance vai além da personalidade visada. “Vandalizar a memória de Natália Correia é tentar, inutilmente, silenciar os valores da inteligência, da insubmissão e da democracia que ela tão bem personificou”, escreveu André Biveti, na rede social Instagram, prometendo resistir a quaisquer tentativas de intimidação, porque a escritora “ensinou-nos a não ter medo”.

Também a vereação do PS condenou, energicamente, o incidente, através de voto de repúdio, que mereceu aprovação unânime na reunião privada do executivo camarário. Os representantes do PS na CML verberam o uso de “símbolos que evocam um dos períodos mais negros da História contemporânea”, num ato de “cobardia” que “não é apenas um crime de dano contra o património autárquico”, mas também um “ataque aos valores do Estado de Direito Democrático”. E apresentam Natália Correia como “vulto ímpar da cultura portuguesa” e põem em evidência o trabalho da autora como deputada da Assembleia da República (AR) na “defesa intransigente das mulheres”. “Ergueu a sua voz, firme e sem medo, contra o autoritarismo moralizador que ainda ensombrava o país, e contra o qual devemos estar vigilantes (…)”, assinalam os quatro vereadores socialistas, instando a CML a apelar às autoridades para a “rápida identificação e responsabilização” de quem maculou a estátua.

A Junta de Freguesia fez saber que tem recebido mais queixas, incluindo “ataques a casas de vizinhos”, e a vereação do PS reforça que não se tratou de “ato isolado de delinquência”, denunciando, com base no Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) relativo a 2025, um “padrão preocupante de propagação de símbolos e mensagens de ódio ligadas aos regimes nazis e fascistas”. O RASI, publicado no final de março, que recolheu os dados da criminalidade reportada pelas polícias à Direção-Geral da Política de Justiça (DGPJ), entre janeiro e dezembro de 2025, dá conta do aumento dos crimes de ódio em Portugal. Foram registadas 449 participações, uma subida de quase 7%, face a 2024 (que era ano recorde, com 421 denúncias), com a Área Metropolitana de Lisboa (AML) a concentrar 30% das ocorrências.

O relatório, como recorda João Azevedo, evidencia “uma maior crispação da sociedade portuguesa” provocada pelo “nível de polarização política, racial, religiosa e/ou sexual, acompanhada de fenómenos de desinformação”. E este sentimento induz “comportamentos de confrontação” materializados em “ações de protesto não autorizadas e, por vezes, disruptivas, com contornos de violência verbal ou física”, que perturbam o funcionamento da democracia e põem em risco a segurança da população e dos bens.

De acordo com Alexandra Leitão, “entre 2015 e 2025, os crimes de ódio cresceram uns estonteantes 2236%”, com as pessoas “a mimetizar o contexto social”, que “mimetiza o contexto político”, no quadro do crescimento do partido Chega, que levou ao clima de maior tensão na sociedade. “Há um discurso violento que não era muito comum em Portugal, até há seis anos, e as pessoas perdem um bocado a vergonha. Normaliza-se um certo tipo de discurso e, consequentemente, um certo tipo de atuação que, antes, estava mais escondida”, afirmou.

O RASI faz eco da radicalização política, ao indicar que a agenda da extrema-direita explora “temas fraturantes”, com propósitos eleitorais, sobretudo, a partir de uma retórica anti-imigração, que banaliza o “discurso público da discriminação, do ódio e das ideias antidemocráticas”, e favorece “comportamentos racistas ou xenófobos”. E mostra preocupação com o envolvimento de menores e de jovens adultos nestes fenómenos extremistas, incluindo grupos “com algum grau de estruturação”, que recrutam, na Internet, estas faixas mais vulneráveis da população, para doutriná-las, levando-as a “uma distorção da realidade” que as faz aderir a “teorias da conspiração ou a retóricas antissistema”. Estes movimentos, com “forte presença online, são alimentados por líderes carismáticos que, segundo o RASI, agem como “verdadeiros influencers”, em particular, junto de jovens do sexo masculino.

Alexandra Leitão, estabelecendo paralelismo com os movimentos a nível internacional, criados por Charlie Kirk e por Andrew Tate, denuncia a abundância de “discurso profundamente misógino” nas comunidades online radicalizadas e dominadas por rapazes/homens, que “não são de minorias”. “É uma misoginia que não passa só pelo famoso ‘O lugar das mulheres é na cozinha’, mas que vai mesmo ao ponto de incentivar a violência contra as mulheres”, adverte a ex-ministra do PS, lembrando a presença de influenciadores digitais, a convite, maioritariamente, de associações de estudantes, em dezenas de escolas, em Portugal, nos dois últimos anos letivos, para palestras com conteúdos de teor sexual e misógino.

Esta situação, frisa o jornalista, levou a Inspeção-Geral da Educação e Ciência (IGEC) a abrir um inquérito a dois diretores escolares. Por sua vez, o ministro da tutela interveio, anunciando a constituição de um grupo de trabalho para definir orientações que ajudem a determinar as entidades e personalidades externas que podem entrar no recinto escolar, mas salientou que a responsabilidade pelo controlo dos acessos recai sobre quem dirige os estabelecimentos e que não se justificava qualquer alteração na lei, que já estipula esse procedimento.

Alexandra Leitão, sustentando que faltou firmeza na posição do Ministério da Educação, volta a alertar para os perigos das narrativas de hostilidade contra as mulheres. “Não sou a favor de nenhum tipo de policiamento de linguagem, mas há uma fronteira entre a liberdade de expressão e o discurso de ódio, e essa fronteira está firmemente traçada na lei, quando tem tipos penais que criminalizam o discurso de ódio”, anota a socialista, considerando que a liberdade de expressão não serve para dizer que as mulheres são inferiores.

Em 2025, Luís Neves, então líder da Polícia Judiciária (PJ) e, agora, ministro da Administração Interna, assumiu posição assertiva, face a comportamentos misóginos. Em junho, alertou que alguns jogos online têm por objetivo violar, abater e perseguir mulheres: e, em outubro, deu conta da escalada dos crimes de ódio, em especial, contra pessoas do sexo feminino.

“Há, aí, uma visão machista de tratar a mulher como um ser menor”, referiu o agora governante falando em “crimes politicamente motivados” e prometendo “combate feroz” a todas as formas de violência com base no género, na nacionalidade, na raça ou no credo.

Alexandra Leitão aplaudiu a escolha de Luís Neves para liderar o Ministério da Administração Interna e admite, na qualidade de vereadora em Lisboa, avançar com “mais iniciativas”, até junto do governo, depois de esgotado o diálogo com a CML, se houver “continuação” de condutas extremistas na capital.

Em outubro, o líder da PJ trouxe à colação o facto de os jovens serem recrutados para cometer estes crimes com caráter discriminatório – situação inconcebível numa sociedade em que tem de prevalecer o respeito pelo ser humano. E o RASI relata que, em 2025, ocorreu a primeira condenação, em Portugal, de um rapaz com menos de 16 anos, por atos que constituiriam “infração terrorista” e “crime de discriminação e incitamento ao ódio e à violência”, de base ideológica de extrema-direita”, estando em causa alguém com maioridade penal.

O ataque à estátua de Natália Correia não pode ser visto à luz de mais um episódio de vandalismo, insiste Alexandra Leitão, frisando que a poetisa, dramaturga, ensaísta, jornalista, tradutora e editora sempre se opôs, sem amarras, ao pensamento e ao espírito da ditadura. Nos jornais, na rádio, na televisão, na AR (onde tem um busto) ou no seu bar “Botequim”, que reunia os intelectuais, desafiou os costumes epocais e corporizou a emancipação social e política que muitos procuravam, tendo sido processada e condenada a três anos de prisão, com pena suspensa, pela publicação de obras que, para o Estado Novo, ofendiam a moral pública.

Na mesma semana de abril em que se vandalizou a estátua de Natália Correia, teve lugar uma outra ação contra o património no espaço urbano lisboeta. Na freguesia de Santa Maria Maior, foi partido o nariz da estátua de Carlos Mendonça, um comerciante que se tornou uma das principais figuras das marchas da cidade. Sem minimizar este ataque, Alexandra Leitão deixa claro que as duas situações não podem ser colocadas no mesmo plano: numa, há um impulso circunstancial, enquanto, noutra, é visível a tentativa de criar um efeito social de intimidação. O “vandalismo casual, etílico” é “imensamente censurável”, ressalva, mas vincando que é preciso distingui-lo dos atos em que há uma motivação ideológica.

Além da destruição material, a socialista menciona o caso de violência, a 10 de junho de 2025, contra Adérito Lopes, ator do teatro “A Barraca”, agredido por um grupo de extrema-direita, em Lisboa, quando se encaminhava para um espetáculo de homenagem a Camões.

Alexandra Leitão gostaria de ver “maior empenho” da autarquia na condenação destas práticas de violência e estranha que nada de concreto tenha sido feito pelo presidente da CML, no seguimento da aprovação do voto de repúdio do PS. Em contraponto, Carlos Moedas rejeita as críticas da oposição socialista e defende “tolerância zero para ataques ao património”, independentemente da natureza dos atos de vandalismo. Diz que a autarquia reserva, todos os anos, dois milhões de euros para a limpeza de grafitis. E acusa a vereadora do PS de ter “uma visão maniqueísta do Mundo e da política, aludindo ao militante do PS suspeito de, a 21 de março, arremessar um engenho explosivo contra os manifestantes antiaborto, na Marcha pela Vida, junto à AR, sem que, alegadamente, Alexandra Leitão se tenha pronunciado. Porém, esta, aceitando o paralelismo dos crimes, à direita e à esquerda, acusa Moedas de ter as prioridades trocadas, por indicar que a criminalidade violenta e grave baixou (-1,6%).

Também a petição “Festas de Abril sem Abril”, assinada por cerca de 600 agentes culturais da cidade, denunciou a tentativa de alterar o nome deste período festivo, de “Festas de Abril” para “Festas da Primavera”. Os subscritores acusam a empresa municipal responsável pela programação (EGEAC Lisboa Cultura) de esbater a centralidade da Revolução e de a reduzir a “festa genérica da primavera”. Uma estranha (des)ideologização da cultura!

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No mesmo dia 18, em artigo intitulado “Governo americano retira milícias de extrema-direita da lista de ameaças à segurança nacional”, publicado no Expresso online, Ricardo Lourenço dá-nos conta de que a estratégia de contraterrorismo do governo dos Estados Unidos da América (EUA) foi recalibrada e comunicada a responsáveis de países aliados, no sentido de que o tempo dos EUA, como superpolícia global, acabou, pelo que eles “terão de fazer mais para se protegerem, segundo uma porta-voz do Conselho Nacional de Segurança (CNS).

O documento de 16 páginas define os gangues de narcotraficantes e os grupos terroristas islâmicos como duas das três preocupações cruciais, atingindo a terceira os movimentos “antifascistas e antiamericanos” que marinam na “ideologia radical pró-transgénero”.

O líder norte-americano assinou o relatório e indicou que “a Administração trabalhará para identificar as ameaças e neutralizá-las, pela força, ou estrangulando os seus recursos financeiros”, impedindo que “conservadores e cristãos inocentes” permaneçam como alvos.

Apesar de o FBI e grande parte da academia garantirem que a maior ameaça à segurança interna provém de milícias armadas de extrema-direita, o governo prefere atacar os rivais políticos de Trump, no pressuposto de que “a esquerda protagonizou muito mais tentativas de assassínio político, nos últimos anos, do que a direita”.

Grupos supremacistas como os Wolverine Watchmen, arquitetos da tentativa de rapto e de assassínio da governadora do Michigan, Gretchen Whitmer, os Proud Boys, os Oath Keepers e os Boogaloo Boys, atores principais da insurreição de 6 de janeiro de 2021, caíram no esquecimento, pois, como já começa a ser comum dizer-se, a América é “onde o homem branco voltará a reinar de forma suprema”. Reconhecem aspetos positivos na nova estratégia de contraterrorismo, pois acerta-se nalgumas coisas. “Por exemplo, concentram-se no perigo de grupos terroristas obterem armas de destruição maciça. Mas, depois, falham muito”, dizem.

A omissão dos tais grupos de extrema-direita espantou a opinião pública. “Não se foca no terrorismo doméstico, nas células extremistas”, lamenta o general Michael Hayden, antigo diretor da CIA, acusando o documento, que deveria ser puramente técnico e apartidário, de estar recheado de acusações contra inimigos políticos”.

De volta à aposta no combate ao narcotráfico, há o risco de esta poder drenar recursos da luta contra o terrorismo islâmico. E o general Michael Hayden denuncia a falta de substância do documento, neste ponto. “Não tem nada que ver com estratégia. É somente uma forma de ver o Mundo”, sublinha.

A nova estratégia de contraterrorismo não menciona as novas tecnologias e ferramentas usadas por grupos terroristas. E, quanto à aposta em perseguir grupos de extrema-esquerda, Robert McFadden, antigo membro da Naval Criminal Investigative Service (NCIS), a unidade de investigação criminal da Marinha, reconhece que aumentou a violência perpetrada por radicais esquerdistas, mas que parte desse fenómeno está ligado à radicalização recíproca, em que, digo eu, está a predominar a falsa ideia da pureza da raça, do sangue sem mesclas.

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Enfim, em Portugal e no Mundo (os EUA são exemplo), campeia a radicalização, o discurso e a prática do ódio. É o retrocesso civilizacional e um piparote na fraternidade.

2026.05.18 – Louro de Carvalho

“Mas alguns ainda duvidaram”

 

A Solenidade da Ascensão do Senhor, que Portugal e outros países, onde a Quinta-feira da Ascensão não é feriado, celebram no 7.º domingo da Páscoa, sugere que, no final do caminho de amor e de doação, está a vida definitiva, a comunhão com Deus, e que Jesus nos deixou o testemunho para que somos nós, seus seguidores, continuemos a realizar o projeto libertador de Deus. Não devemos agarrar-nos ao Mundo, mas também não podemos ficar espantados a olhar o firmamento, como se o Reino de Deus dispensasse o nosso trabalho e o cuidado com o universo das periferias existenciais que existem, gritantes, ao pé de nós ou lá mais à distância, que os meios de comunicação e de locomoção tornaram perto.   

Não devemos refugiar-nos num misticismo devoto e angelista, descurando o trabalho com os últimos, nem nos perder-nos no ativismo material ou apostólico, menosprezando a força do Alto que temos à nossa disposição, com a qual devemos manter relação íntima e produtiva.

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O trecho da conclusão do Evangelho de Mateus (Mt 28,16-20), que é proclamado no Ano A, apresenta o encontro final de Jesus ressuscitado com os discípulos, num monte da Galileia. A comunidade dos discípulos, reunida à volta de Jesus ressuscitado, reconhece-O como o seu Senhor, adora-O e recebe d’Ele a missão de continuar, no Mundo, o testemunho do Reino. Todavia, o evangelista anota que “alguns ainda duvidaram”.

A dúvida, que não é pecado, faz parte da vida, face à complexidade da tarefa ou da missão, mas urge que seja dissipada, para que a missão não fique irrealizável, nem impedida.

O trecho evangélico situa-nos na Galileia, após a ressurreição de Jesus, embora não especifique se é muito ou pouco tempo, após a descoberta do túmulo vazio. De acordo com Mateus, Jesus, pouco antes de ser preso, havia marcado encontro com os discípulos na Galileia; na manhã da Páscoa, os anjos que apareceram às mulheres no sepulcro e o próprio Jesus, vivo e ressuscitado, renovam o convite para que os discípulos se dirijam à Galileia, a fim de lá encontrarem o Senhor.
A Galileia – região setentrional da Palestina – era próspera e bem povoada, de solo fértil e bem cultivado. A situação geográfica fazia dela ponto de encontro de muitos povos; por isso, um número importante de pagãos integrava a sua população. A coabitação de populações pagãs e judias fazia com que os judeus da Galileia vivessem a religião de maneira diferente dos judeus de Jerusalém e da Judeia: a presença diária dos pagãos induzia os galileus a suavizarem a prática da Lei e a interpretar mais amplamente as regras que se referiam, por exemplo, às impurezas rituais contraídas no contacto com os não judeus. E isso levava os judeus de Jerusalém a desprezarem os judeus da Galileia, dizendo que da Galileia “não podia sair nada de bom”.

Todavia, foi na Galileia que Jesus viveu quase toda a sua vida e foi lá que Ele começou a anunciar o Evangelho do Reino e que começou a reunir à sua volta um grupo de discípulos. Para Mateus, esse facto sugere que a dimensão do anúncio libertador de Jesus é universal: destina-se a judeus e a pagãos.

Mateus situa este encontro final entre Jesus ressuscitado e os discípulos num “monte que Jesus lhes indicara”, uma montanha da Galileia impossível identificar geograficamente, mas que talvez Mateus ligue com a montanha da tentação e com a da transfiguração. De qualquer forma, o monte é sempre, no Antigo Testamento, o lugar onde Deus Se revela aos homens. E, ainda hoje, muitas ermidas e santuários se postam no cimo de montanhas ou ao abrigo das mesmas.

O trecho em referência divide-se em duas partes.

Na primeira (vv. 16-18), relata-se o encontro. Jesus, vivo e ressuscitado, revela-Se aos discípulos; e os discípulos reconhecem-No como “o Senhor” e adoram-No. Depois de descrever a adoração, Mateus acrescenta a expressão “alguns ainda duvidaram”, a significar que a fé não é uma certeza científica e que não exclui a dúvida. Aliás, a dúvida constante dos discípulos é expressa em vários momentos, ao longo da caminhada para Jerusalém.

Ao reconhecimento e à adoração dos discípulos, segue-se a manifestação do mistério de Jesus, que reflete a fé da comunidade mateana: Jesus é o “Kýrios”, que possui todo o poder no Mundo e na História; Jesus “o mestre”, cujo ensinamento será sempre a referência para os discípulos, é o “Deus-connosco”, que acompanhará, pari passu, a caminhada dos discípulos pela História.

Na segunda parte (vv. 19-20), o evangelista descreve o envio dos discípulos em missão pelo Mundo. A Igreja de Jesus é comunidade missionária, cuja missão é testemunhar, no Mundo, a salvação e a libertação que Jesus trouxe aos homens e que deixou nas mãos e no coração dos discípulos. A primeira nota do envio e do mandato que Jesus dá aos discípulos é a da universalidade. A missão dos discípulos destina-se a “todas as nações”.

A segunda nota dá conta das duas fases da iniciação cristã, conhecidas da comunidade de Mateus: o ensino e o batismo. Começava-se pela catequese, cujo conteúdo eram as palavras e os gestos de Jesus (o discípulo começava sempre pelo catecumenato, que lhe dava as bases da doutrina de Jesus). Quando os discípulos estavam informados da proposta de Jesus, vinha o batismo – que selava a vinculação do discípulo ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. O batismo é em e para o nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Como última nota, sobressai a promessa de Jesus que estará sempre com os discípulos, “até ao fim dos tempos”, que expressa a convicção – de todos os crentes da comunidade mateana – de que Jesus ressuscitado estará sempre com a sua Igreja, acompanhando-a na sua marcha pela História, ajudando-a a superar as crises e as dificuldades da caminhada.

***

A primeira leitura (At 1,1-11) contém a mensagem essencial desta solenidade: Jesus, depois de ter revelado ao Mundo o desígnio do Pai, entrou na vida definitiva da comunhão com Deus – a vida que espera todos os que percorrem o caminho que Jesus percorreu. E os discípulos não podem ficar a olhar para o céu, em passividade alienante, mas têm de ir para o meio dos homens.

O livro dos “Atos dos Apóstolos” dirige-se a comunidades que vivem em contexto de crise. Na década de 80, cerca de 50 anos após a morte de Jesus, passara a fase da expectativa pela vinda iminente do Cristo glorioso para instaurar o Reino e havia alguma desilusão. As questões doutrinais trazem confusão; a monotonia favorece uma vida cristã pouco comprometida e as comunidades instalam-se na mediocridade. O quadro geral é o de uma certa frustração, porque o Mundo continua igual e a esperada intervenção vitoriosa de Deus continua adiada, interrogando-se os crentes sobre quando se concretizará, plena e inequivocamente, o plano salvador de Deus.

No trecho em apreço, Lucas avisa que o projeto de salvação e de libertação que Jesus veio apresentar passou (com a ida de Jesus para junto do Pai) para a Igreja, animada pelo Espírito. A construção do Reino é tarefa não terminada e que é preciso concretizar na História, exigindo o empenho contínuo de todos os crentes. Os cristãos são convidados a redescobrir o seu papel, no sentido do testemunho do projeto de Deus, na fidelidade ao caminho de Jesus.

O texto começa com o prólogo (vv. 1-2) que articula os Atos com o 3.º Evangelho, na referência a Teófilo a quem o Evangelho era dedicado e na alusão a Jesus, aos seus ensinamentos e à sua ação no Mundo (tema central do 3.º Evangelho). No prólogo são apresentados os protagonistas do livro: o Espírito Santo e os apóstolos, ambos vinculados com Jesus.

Após a apresentação do livro, vem a despedida de Jesus (vv. 3-8). O hagiógrafo refere os “quarenta dias” que mediaram entre a ressurreição e a ascensão, durante os quais Jesus falou aos discípulos “a respeito do Reino de Deus”, o que parece contradizer o Evangelho, onde a ressurreição e a ascensão são apresentados no dia de Páscoa. Ora, o número quarenta é um número simbólico, que define o tempo necessário para que o discípulo possa aprender e repetir as lições do mestre. Aqui define, pois, o tempo simbólico de iniciação ao ensinamento do Ressuscitado.

As palavras de despedida de Jesus sublinham dois aspetos: a vinda do Espírito e o testemunho que os discípulos vão ser chamados a dar “até aos confins do Mundo”. Está aqui resumida a experiência missionária da comunidade lucana: o Espírito derramar-se-á sobre a comunidade crente e dar-lhe-á a força para testemunhar Jesus em todo o Mundo, de Jerusalém a Roma. É o programa que Lucas vai apresentar, ao longo do livro, posto na boca de Jesus ressuscitado. O hagiógrafo quer mostrar, com a sua obra, que o testemunho e a pregação da Igreja estão entroncados em Jesus e são impulsionados pelo Espírito.

O último tema é o da ascensão (vv. 9-11), passagem que necessita de ser interpretada para que, através da roupagem dos símbolos, a mensagem apareça com toda a claridade.

Em primeiro lugar, a elevação de Jesus ao céu não significa uma pessoa que, literalmente, descola da Terra e começa a elevar-se. Estamos perante um sentido teológico, não um sentido de reportagem: a ascensão é uma forma de expressar, simbolicamente, que a exaltação de Jesus é total e atinge dimensões supraterrenas; é a forma literária de descrever o culminar de uma vida vivida para Deus, que agora reentra na glória da comunhão com o Pai. Depois, surge a nuvem, que subtrai Jesus aos olhos dos discípulos. Pairando a meio caminho entre o Céu e a Terra, a nuvem é, no Antigo Testamento, símbolo privilegiado da presença do divino. Ao mesmo tempo, esconde e manifesta: sugere o mistério do Deus escondido e presente, cujo rosto o Povo não pode ver, mas cuja presença adivinha nos acidentes da caminhada. Céu e Terra, presença e ausência, luz e sombra, divino e humano, são dimensões sugeridas a propósito de Cristo ressuscitado, elevado à glória do Pai, continuando a caminhar com os discípulos. E temos os discípulos a olhar para o Céu, a significar a expectativa da comunidade que espera ansiosamente a segunda vinda de Cristo, para levar a cabo o projeto de libertação do Homem e do Mundo.

Por fim, aparecem os dois homens vestidos de branco. O branco sugere o Mundo de Deus – o que indica que o seu testemunho vem de Deus. E eles convidam os discípulos a continuarem no Mundo (em consonância com o discurso evangélico de João, após a última ceia), animados pelo Espírito, a obra libertadora de Jesus. Agora, é a comunidade discipular que tem de continuar, na História, a obra de Jesus, embora com a esperança posta na segunda e definitiva vinda do Senhor.

O sentido da ascensão não é que fiquemos a admirar a elevação de Jesus, mas que sigamos o seu caminho, olhando para o futuro e entregando-nos à realização do desígnio de salvação no meio do Mundo.

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A segunda leitura (Ef 1,17-23) convida os discípulos a terem consciência da esperança a que foram chamados (a vida de comunhão com Deus). Devem caminhar ao encontro dessa esperança de mãos dadas com os irmãos – membros do mesmo corpo – e em comunhão com Cristo, a cabeça desse corpo. Cristo reside no seu corpo, a Igreja; e é nela que Se torna, hoje, presente no meio dos homens.

A Carta aos Efésios será um dos exemplares de uma carta circular enviada a várias igrejas da Ásia Menor, quando Paulo está na prisão (provavelmente, em Roma), por volta dos anos 58/60. O seu portador é Tíquico. Alguns veem na carta uma síntese da teologia paulina, numa altura em que a missão do apóstolo está praticamente terminada no Oriente.

O trecho em apreço aparece na primeira parte da Carta e faz parte de uma ação de graças, na qual Paulo agradece a Deus pela fé dos Efésios e pela caridade que eles manifestam para com todos os irmãos na fé. E à ação de graças o apóstolo une fervorosa oração a Deus, para que os destinatários conheçam “a esperança a que foram chamados”. A prova de que o Pai tem poder para realizar essa “esperança” (conferir aos crentes a vida eterna como herança) é o que Ele fez com Jesus Cristo: ressuscitou-O e sentou-O à sua direita, exaltou-O e deu-Lhe a soberania sobre os poderes angélicos. Paulo está preocupado com a tendência de alguns cristãos que dão importância exagerada aos anjos, pondo-os acima de Cristo. Ora, a soberania estende-se à Igreja, o corpo do qual Cristo é a cabeça.

O mais significativo do texto é a ideia de que a comunidade cristã é um “corpo”. O “corpo de Cristo”, formado por muitos membros, já havia aparecido nas grandes cartas, acentuando-se a relação dos vários membros do corpo entre si. Porém, nas “cartas do cativeiro”, Paulo retoma a noção de corpo de Cristo, para refletir sobre a relação que existe entre a comunidade e Cristo. Neste texto, em concreto, há dois conceitos muito significativos, para definir o quadro da relação entre Cristo e a Igreja: o de “cabeça” e o de “plenitude” (em grego, “pleroma”).

Dizer que Cristo é a cabeça da Igreja significa, acima de tudo, que os dois formam uma comunidade indissolúvel e que há entre os dois uma comunhão total de vida e de destino; significa, também, que Cristo é o centro à volta do qual o corpo se articula, a partir do qual e em direção ao qual o corpo cresce, se orienta e constrói, a origem e o fim desse corpo; significa, ainda, que a Igreja/corpo está submetida à obediência a Cristo/cabeça: só de Cristo a Igreja depende e só a Ele deve obediência. E dizer que a Igreja é a plenitude de Cristo significa dizer que nela reside a plenitude, a totalidade de Cristo. Ela é o recetáculo, a habitação, onde Cristo Se torna presente no Mundo; é através desse corpo, onde reside, que Cristo continua, todos os dias, a realizar o seu projeto de salvação em prol dos homens. Presente nesse corpo, Cristo enche o Mundo e atrai a Si o universo inteiro, até que o próprio Cristo “seja tudo em todos”.

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É, portanto, justo e salutar que os crentes aclamem o Senhor da Ascensão e realizem a missão que Ele lhes confiou, seguros de que Ele continua connosco. Nunca deixará de ser o Deus-connosco.

“Ergue-Se Deus, o Senhor, em júbilo e ao som da trombeta.”

“Povos todos, batei palmas, / aclamai a Deus com brados de alegria, / porque o Senhor, o Altíssimo, é terrível, / o Rei soberano de toda a terra.

“Deus subiu entre aclamações, / o Senhor subiu ao som da trombeta. / Cantai hinos a Deus, cantai, / cantai hinos ao nosso Rei, cantai.

“Deus é Rei do universo: / cantai os hinos mais belos. / Deus reina sobre os povos, / Deus está sentado no seu trono sagrado.”

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“Aleluia. Aleluia. Ide e ensinai todos os povos, diz o senhor: Eu estou sempre convosco até ao fim dos tempos.”

2026.05.17 – Louro de Carvalho

domingo, 17 de maio de 2026

Escritores estrangeiros abandonam a Grasset, devido à inflexão à direita

 

A 15 de maio, no jornal Público, Isabel Coutinho, dá nota de que escritores estrangeiros desertam Grasset, em rutura com a sua inflexão à direita.

Com efeito, a editora detida por Vincent Bolloré galgou fronteiras e agrega nomes, como Ali Smith ou Han Kang. E, no cinema, 600 profissionais temem a expansão deste império conotado com a extrema-direita.

Trata-se de inédito movimento, no campo da edição francesa, a alargar-se a autores estrangeiros, que eclodiu, depois do despedimento, a 14 de abril, do editor Olivier Nora, à frente da editora, há décadas, e depois da sua substituição por Jean-Christophe Thiery, homem de confiança do milionário Vincent Bolloré,  patrão do poderoso grupo de media Vivendi e principal acionista do grupo Hachette Livre que a prestigiada chancela Grasset integra. Bolloré tem empenhado, nos últimos dez anos, o seu império, que inclui jornais, revistas, canais de rádio e de televisão, numa batalha cultural para impor um projeto ideológico de extrema-direita.

Porém, já a 17 de abril, a Euronews, publicava um artigo intitulado “170 autores deixam editora francesa Grasset após destituição do seu diretor-geral”, em que Nina Borowski relatava que “mais de uma centena de escritores anunciaram a sua saída da editora Grasset, na sequência do anúncio da demissão do seu presidente, Olivier Nora”, e que, “em carta conjunta, denunciam a influência de Vincent Bolloré, acusando-o de “impor o autoritarismo por todo o lado na cultura e nos media”.

Trata-se, como diz o jornalista, de cisão sem precedentes, que abala o setor editorial francês. Efetivamente, a 15 de abril, 115 escritores cujas obras eram publicados pela Grasset anunciaram a sua saída, depois de Vincent Bolloré, proprietário do grupo Hachette Livre que detém a editora, desde 2023, ter destituído Olivier Nora. E, em carta conjunta, denunciaram a “guerra ideológica” liderada pelo bilionário ultraconservador, para “impor o autoritarismo na cultura e nos media” e avisaram: “Não assinaremos o nosso próximo livro com a Grasset.”

Emmanuel Macron, aludiu ao caso, após um discurso no Festival do Livro de Paris, apelando à “liberdade dos autores, à sua qualidade e ao papel da editora”, como noticiou o jornal Le Monde, invocando a necessidade de defender o “pluralismo editorial”. “A editora não é simplesmente aquela que imprime livros, é um espírito, é uma editora, é também parte do património literário, uma corrente humana”, frisou o presidente francês.

Esta mobilização, rara na sua dimensão, foi lançada, rapidamente, após o anúncio da saída surpresa de Olivier Nora, de 66 anos, que dirigiu a editora, durante 26 anos, e que é nome de respeito no meio. Embora as razões oficiais do despedimento não tenham sido comunicadas, os autores acusam, diretamente, o empresário de impor a sua linha: “Mais uma vez, Vincent Bolloré diz: ‘Estou em casa e posso fazer o que quiser.’ […] “Não queremos que as nossas ideias, o nosso trabalho, sejam propriedade dele”, clamam os escritores.

A saída de Olivier Nora pode estar ligada a tensões sobre a publicação do próximo livro de Boualem Sansal, que entrou, recentemente, para a Grasset. Parece ter havido desacordo entre a equipa de direção quanto ao calendário de publicação do livro sobre a sua prisão na Argélia. Porém, o escritor contestou esta versão, revelando que Olivier Nora lhe tinha escrito para lhe dizer: “Não tens nada a ver com isto.”

Os signatários incluem autores bestseller, como Virginie Despentes, Vanessa Springora e Sorj Chalandon. Todos prestam homenagem ao homem que descrevem como “o baluarte e o cimento” de uma editora conhecida pela diversidade dos seus escritores. Contudo, num post, no Facebook, Chalandon apela a que a reação contra a Grasset não se traduza num boicote aos livros que a editora irá lançar, na próxima rentrée, fruto do trabalho de Nora.

Entretanto, segundo o jornalista, o episódio insere-se num contexto mais vasto de transformação do grupo Hachette Livre, controlado por Vincent Bolloré, detentor de vários meios de comunicação social e tido como querendo espalhar a sua doutrina ultraconservadora através deles, desde 2023. Bolloré detém, nomeadamente, o canal televisivo CNews, tido como próximo da extrema-direita.

Por divergências estratégicas, já abandonaram os seus cargos vários quadros superiores, como Arnaud Nourry e Sophie de Closets. Em contraponto, algumas editoras do grupo, como a Fayard, viram a sua linha editorial evoluir, com a publicação de autores de direita ou de extrema-direita, como Nicolas Sarkozy, Jordan Bardella e Philippe de Villiers.

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Como refere a Wikipédia, a Éditions Grasset, editora fundada, em 1907, por Bernard Grasset, por fusão, em 1967, com a Éditions Fasquelle, tornou-se Éditions Grasset & Fasquelle. Publica literatura francesa e estrangeira, como ensaios, romances e obras na área das humanidades, entre outras coisas. Foi, sucessivamente, presidida pelo fundador, pelo seu sobrinho Bernard Privat e por Jean-Claude Fasquelle. Jean Vigneau esteve entre os primeiros diretores. Porém, Bernard Grasset vendeu o seu capital à Hachette, em 1954.

Com a fusão da Grasset com a Éditions Fasquelle, que era dirigida, desde 1954 por Jean-Claude Fasquelle, este tornou-se diretor-gerente da Éditions Grasset & Fasquelle, em 1969, depois, em 1981, seu presidente e CEO. Em 2000, tornou-se presidente do conselho de supervisão e Olivier Nora sucedeu-lhe como presidente do conselho de administração. A editora gerou 17,5 milhões de euros de receitas, em 2007.

Grasset, subsidiária da Hachette Livre, integra o grupo Lagardére, desde 1981, pelo que faz parte do grupo de Vincente Bolloré, desde a sua aquisição da Lagardère, em 2023.

A 14 de abril de 2026, a revista L'Express relata que o acionista Vincente Bolloré decidiu substituir Olivier Nora por Jean-Christophe Thiery de Bercegol du Moulin. Ex-aluno da École Nationale d’Administration (ENA), CEO do Grupo Louis Hachette e diretor-geral adjunto da Hachette Livre, Thiery é considerado “muito próximo” do bilionário, que apoiou na sua expansão nos setores de media e de cultura. Segundo o jornal Libération, Vincent Bolloré teria dito aos seus funcionários, referindo-se ao CEO Olivier Nora: “Não aguento mais esse idiota, demitam-no.”

Em artigo publicado no Le Jouranl du Dimanche, de que é proprietário, Vincent Bolloré afirma que a editora Grasset “continuará” e que aqueles que estão a sair “permitirão que novos autores sejam publicados”. Refere-se, no caso, a “uma pequena camarilha que se considera superior a todos e que se coopta e se sustenta”. Por outro lado, menciona “os dececionantes resultados financeiros da Grasset”, citando uma faturação que, segundo ele, caiu de 16,5 milhões de euros, em 2024, para 12 milhões de euros, em 2025, bem como queda no lucro operacional. Não obstante, segundo afirma, a remuneração anual de Olivier Nora aumentou de 830 mil euros para 1,017 milhão de euros, uma remuneração paga pela Hachette que foi faturada à Grasset pela metade, melhorando as despesas aparentes da Grasset e o seu resultado.

Segundo informação do Le Canard Enchaîné, confirmada pelo Mediaport, a demissão de Olivier Nora resultou de desentendimento com Boualem Sansal sobre a data de publicação do seu próximo livro. Enquanto Sansal considerava o seu manuscrito pronto para publicação, o ex-CEO da Grasset preferia esperar até outubro, “após a temporada dos principais prémios literários, para não atrapalhar os lançamentos de outono dos autores”, de acordo com a análise do Le Figaro. Porém, o escritor franco-argelino desmente, citando, em entrevista, a mensagem que Nora lhe enviou, dizendo tratar-se de conflito antigo entre a editora e Bolloré. E Le Nouvel Obs sugere que foi a sua recusa em publicar os próximos livros do ensaísta “muito católico” Nicolas Diat, também editor de Philippe de Villiers e Jordan Bardella, que levou à sua demissão, por decisão do chefe da Hachette Livre, Arnaud Lagardére, que lhe ordenou saída imediata.

No dia seguinte, mais de cem escritores reuniram-se para anunciarem a sua saída da editora, criticando a falta de garantia de independência e afirmando que não queriam que as suas ideias e trabalhos se tornassem propriedade de Vincent Bolloré e que se recusavam a ser “reféns de uma guerra ideológica destinada a impor o autoritarismo em toda a cultura e nos media”. A socióloga Gisèle Sapiro analisou a situação em artigo publicado no Le Monde, a 30 de abril, e concluiu que “a estratégia de Vincent Bolloré consiste em conquistar os meios de comunicação e a publicação, para os tornar instrumentos de propaganda”.

A maioria dos autores estrangeiros publicados pela Grasset declarou: “Recusamos que o nosso trabalho seja usado para fins políticos que não compartilhamos. A extrema-direita opera além das fronteiras; deve ser combatida além das fronteiras. Nessas condições, não submeteremos os nossos trabalhos futuros à Éditions Grasset.”

Após artigo no L’Express, de 26 de agosto de 2019, Le Monde revelou ao público, com documentos comprovativos, que Yann Moix participou, em 1989 e em 1990 (aos 21 anos), quando era estudante, em três edições da Ushoahia, revista “caseira” que negava o Holocausto e promovia o antissemitismo e o racismo virulento contra os negros. E referia que, na Grasset, editora de Yann Moix, três pessoas tinham conhecimento das publicações em questão: Bernard-Henri Lévy, Jean-Paul Enthoven e o CEO Olivier Nora. Yann Moix perguntou a este, em 2007, se continuaria a confiar nele. Para Joseph Confavreux, o caso Moix mancha a editora Grasset, com a questão de se saber se a gestão da Grasset pode ocultar dos leitores o passado negacionista de um dos seus autores favoritos.

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Ganharam nomeada algumas coleções da Grasset. Entre elas, figuram os Cadernos Verdes, coleção de literatura geral lançada, em 1921, sob a direção de Daniel Halévy. O primeiro volume foi Maria Chapdeleine, de Louis Hénon, que obteve sucesso, seguido por Les Cœurs des autres, de Gabriel Marcel. Porém, a publicação cessou no início da década de 1960.

E, em 1983, Jean-Claude Fasquelle, presidente da Grasset, criou os Cadernos Vermelhos, coleção reconhecível pelas capas vermelhas dos seus mais de 370 títulos, a qual, pelo preço e pelo formato, se posicionava num nível intermédio entre as edições de bolso e as edições padrão e incluía cerca de uma dúzia de títulos, por ano. A publicação revitaliza o acervo de autores da editora, recorrendo, em particular, aos “clássicos modernos” (expressão americana): Jean de la Ville de Mirmont, Paul Morand, Jean Cocteau, Irène Némirosvky, Thomas e Klaus Mann, Jean Giono. E o seu catálogo apresenta clássicos, como Sainte-Beuve ou Giorgio Vasari, e autores estrangeiros, como F. Scott Fitzgerald, Truman Capote, Gabriel García Márquez, Paul Theroux. Arte e poesia têm ali o seu espaço, com Cézanne, Degas, Van Gogh, Paul Klee e Salvador Dalí. Figuram os poemas de Paul Verlaine e os de Walt Whitman. A série Cahiers Rouges traz de volta ao centro das atenções literárias obras esquecidas, como as de Irène Némirosvky, que permaneceram na obscuridade por muito tempo, antes de se tornarem bestsellers, ao lado de Stefan Zweig e dos Diários de Kafka. E textos considerados clássicos cult, como L’Horizon chimérique, de Jean de la Ville de Mirmont, e J’adore, de Jean Desborde, também integram a coleção.

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O acontecimento mereceu um artigo de opinião intitulado “De Grasset a Bolloré” de Pedro Mexia, publicado, no Expresso online, a 29 de abril, sustentando que, de início, tudo “parecia uma quezília editorial” sobrevalorizada pela imprensa parisiense. Boualem Sansal, romancista franco-argelino muito premiado e muito censurado, foi eleito para a Academia Francesa, após ter sido libertado em resultado de perdão presidencial que o salvou de uma condenação por “atentar contra a unidade nacional”. Refugiado em França, o autor, de longa data, da editora Gallimard trocou-a por uma concorrente, do grupo Hachette. A decisão, como lembra o colunista, “tinha a ver com o conteúdo do novo livro, que evocava os tempos em que esteve preso, e com a atitude da Gallimard, que o autor considerou demasiado tímida e complacente”. Sansal manteve “a intransigência e a coragem de que deu provas”, face ao regime iníquo do seu país”, enquanto Gallimard preferia outra abordagem. E o autor mudou-se para a Grasset, do universo empresarial de Bolloré, da direita musculada.

O articulista sublinha que “o grupo Bolloré detém, entre muitos outros, o Canal+ e a militante CNews, as rádios Europe 1 e Europe 2, o Journal du Dimanche e a revista Paris Match, e editoras, como a Fayard, a Plon, a Stock, a Larousse, a Calmann-Lévy, além de posições importantes na distribuição ou no digital”. Além da preocupação com o poderio dos media, emergia o receio de que Bolloré não quisesse este conglomerado só por motivos comerciais, mas que o projetasse como plataforma política. Por exemplo, a Fayard, segundo Pedro Mexia, tornou-se, nos últimos anos, “verdadeira coligação das direitas”, de Sarkozy a bardellistas, ciottistas, zemmouristas, maréchalistas. Bolloré, como recorda o articulista, fora contrariado, uma vez, por Olivier Nora e estava ansioso pela publicação do livro de Sansal, em cujo manuscrito Nora ainda trabalhava. Assim, despediu o CEO, dirigindo-lhe palavras duras, e desprezando a vantagem de contar com o editor atento, amável e incansável, que os autores estimavam.

Dezenas desses autores anunciaram que iam procurar outra chancela. E, a 29 de abril, segundo Pedro Mexia, já eram 250, dos quais se destacam, a nível mediático, Bernard-Henri Lévy, Laure Adler, Virginie Despentes ou Vanessa Springora, apoiados por autores, como Carrère, Slimani ou Le Clézio. Todos entendem que uma grande editora não deve estar enfeudada às estritas convicções do proprietário e que despedir um editor culto e cuidadoso, para editar livros marcadamente ideológicos, alguns dos quais sem grande retorno, é “destruir a autonomia editorial e desbaratar o prestígio da Grasset”. Num dos seus jornais, Bolloré respondeu aos descontentes com deslavada brutalidade, dizendo que eram “uma casta que se acha acima de tudo e todos” e que, com a sua saída, ficavam abertas as portas para outros, quiçá melhores.

Considera Pedro Mexia que “o delíquio francês” se mostrou mais significativo do que se julgava, pela concentração, pela diversidade, pela autonomia e pela questão jurídica de saber a quem pertencem os direitos dos livros anteriores dos ex-Grasset, além da provável ideia de Bolloré engendrar, pelos seus meios, uma “direita unida” para as presidenciais de 2027, o que significa, segundo o articulista, um regresso ao passado e ao fundador (em 1907), Grasset, que gozava de grande consideração, até aderir, em 1940, ao colaboracionismo com o ocupante alemão, deixando de editar os judeus e contribuindo para a lista de autores a afastar (a “lista Otto”), enquanto, na Gallimard, o prestigiado escritor Pierre Drieu La Rochelle dirigia a Nouvelle Revue Française, sem judeus nem resistentes. Na Libertação, Grasset foi castigado com pena insignificante, mas, como releva o colunista do Expresso, “o estatuto da editora nunca voltou à altura de entre as guerras, ou apenas mais tarde, no ensaio, nomeadamente, na coleção amarela canelada”, que veremos se editará escritores ou propagandistas.

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É triste, para as democracias, que o dinheiro, o poder e ambição autárcica condicionem a produção cultural, literária e artística e a liberdade de opinião e de expressão.

2026.05.16 – Louro de Carvalho

sábado, 16 de maio de 2026

“Aqui ninguém é estrangeiro. Aqui ninguém está sozinho.”

 

Em noite iluminada por milhares de velas, na peregrinação aniversária internacional de maio, em Fátima, os peregrinos foram desafiados a serem luz, num Mundo ferido, por D. Rui Valério, patriarca de Lisboa e presidente das celebrações, que lhes pediu que se tornem luz no Mundo. Porém, as asserções mais tocantes, vertidas em epígrafe, ficaram para o dia 13.

Nestes dois dias da primeira grande peregrinação de 2026, participaram nas celebrações 430 mil peregrinos, provenientes dos cinco continentes.

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Cerca de 250 mil peregrinos participaram nas celebrações do dia 12, no Santuário de Fátima. Na homilia da Celebração da Palavra, D. Rui Valério exortou os peregrinos a tornarem-se luz, num Mundo ferido pela guerra, pela violência, pela divisão e pela solidão, que precisa de luz interior. “Não basta acender uma vela. Não basta receber luz. É preciso tornar-se luz”, bradou o patriarca, apresentando como caminho de santidade e de conversão interior a prática diária do perdão, da reconciliação, da caridade concreta e da escuta paciente de quem sofre.

O metropolita lisbonense lembrou o contexto em que Nossa Senhora apareceu há 109 anos, na Cova da Iria, para fazer verificar a atualidade da mensagem de Fátima no Mundo atual. “Em Fátima, Nossa Senhora não aparece com estrondo, nem com imposição. Aparece como luz suave, como presença materna, como sinal de esperança. Ela vem ao encontro de um Mundo ferido – como o nosso – e traz uma mensagem simples e exigente: oração, penitência, conversão, confiança em Deus”, lembrou o patriarca de Lisboa.

 O presidente da peregrinação apresentou, depois, as velas acesas, na procissão das velas, como “uma imagem viva da Igreja”, que caminha junta, na diversidade. “Caminhamos guiados pela fé. Caminhamos com Maria. Esta procissão é um testemunho para o Mundo: a Igreja é um povo em caminho, que não desiste, que não se resigna, que continua a acreditar que a luz vence as trevas”, afirmou D. Rui Valério.

Na conclusão, o patriarca de Lisboa desafiou os peregrinos a meditarem sobre a forma como podem ser luz para o Mundo e pediu a intercessão de Nossa Senhora neste desafio de conversão interior. “Que luz preciso de reacender em mim? Que sombra preciso de entregar? Que ferida precisa de ser iluminada pela graça? Entreguemos a Maria as nossas noites: os medos, as dúvidas, os pecados, as feridas escondidas”, interpelou e exortou D. Rui Valério.

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A 13 de maio, o pano de fundo homilético foi a asserção patriarcal de que “Fátima não é um ponto de chegada”, mas “um ponto de envio”. Aliás, o cristianismo vive a dialética da aproximação ao centro – onde pontifica a Eucaristia, sacramento da comunhão, do amor e da unidade e sacrifício de Cristo – e o envio às periferias existenciais, incluindo as geográficas, as sociais e as religiosas,  

Neste 13 de maio, os peregrinos foram desafiados a concretizarem a experiência e a mensagem de Fátima para o Mundo. Ou seja, os peregrinos são chamados a ser luzeiros do Mundo e arautos da mensagem de Fátima, que tem óbvias raízes evangélicas. Para tanto, necessitam de ir ao santuário, seja ele o de Fátima, seja o da sua comunidade territorial, a paróquia e a cabeça da diocese. Porém, não podem ficar especados no santuário. Há que partir com luz e com ideias-força. Assim, pode dizer-se que Fátima foi apresentada pelo presidente desta peregrinação internacional aniversária como um “ponto de envio” a milhares de peregrinos reunidos no Recinto de Oração, que foram exortados a serem missionários.

“Não basta admirar Fátima. É preciso viver Fátima. Não basta acender uma vela. É preciso tornar-se luz. Não basta passar por este lugar. É preciso deixar que este lugar passe pela nossa vida. “Fátima não é um ponto de chegada. Fátima é um ponto de envio”, salientou o Patriarca de Lisboa, na homilia da missa, ao exortar a gestos concretos para assumir a missão pedida. “Partimos para levar esperança aos desanimados, partimos para levar reconciliação aonde há divisão, partimos para levar paz aonde há violência, partimos para levar luz aonde há trevas. Não tenhais medo de ser luz. Não tenhais medo de ser santos. Não tenhais medo de mostrar ao Mundo a beleza de Deus”, concretizou, em tom assertivo e exortativo.

D. Rui Valério perspetivou a paz mundial não apenas como um acordo político, mas como resultado de uma transformação pessoal e interior. “O cristão não leva ao Mundo apenas palavras. Leva uma luz recebida. Leva um coração transformado. Leva uma paz nascida da contemplação. Por isso, Fátima não é apenas um lugar de devoção. Fátima é uma escola de transformação interior. Aqui aprendemos que a Humanidade só reencontra o caminho, quando volta a levantar os olhos para Deus”, disse o presidente da celebração, ao lançar aos peregrinos o desafio de levarem a experiência de Fátima para o Mundo.

“Tudo aquilo que aqui vivemos – a oração, o silêncio, a conversão, a reconciliação, a comunhão – não pode permanecer encerrado nesta Cova da Iria. Tem de descer à vida. Tem de entrar nas nossas casas, nas nossas famílias, nas nossas cidades e aldeias, no nosso trabalho, nas nossas escolas e universidades, nas nossas relações, nas feridas e alegrias do quotidiano”.

No dia do nono aniversário da canonização dos Santos Pastorinhos, Rui Valério apontou para o exemplo dos irmãos santos Francisco Marto e Jacinta Marto, para lembrar que, “quando Deus encontra um coração disponível, uma pequena chama pode iluminar o Mundo inteiro”. E, ao admirar a multidão de peregrinos que encheu o Recinto de Oração, o Patriarca de Lisboa apelou à fraternidade como chave para a paz mundial. “Esta é uma das maiores profecias de Fátima para o nosso tempo: a Humanidade só encontrará paz, quando descobrir, novamente, que é família. Aqui ninguém é estrangeiro. Aqui ninguém está sozinho. Aqui todos somos filhos acolhidos pela mesma Mãe”, concluiu.

No momento de adoração eucarística, os doentes presentes na Cova da Iria e em casa foram os destinatários de uma palavra que apresentou Nossa Senhora como guia e refúgio, nos momentos de maior desânimo e sofrimento, e os santos Pastorinhos como exemplo de fé e de resiliência. “Como os santos Pastorinhos Francisco e Jacinta Marto, unamos o nosso sofrimento ao de Jesus na Cruz, pela paz, pela salvação do Mundo. Façamos da nossa fragilidade um lugar de encontro, assumamos como nossas as palavras confiantes de Lúcia, no seu diário: ‘Espero também na proteção do Imaculado Coração de Maria, que será sempre o meu refúgio, o meu guia, a minha força, a luz do meu caminho’”, lembrou a Irmã Inês Vasconcelos, da Congregação das Servas de Nossa Senhora de Fátima.

Na palavra final, o bispo de Leiria-Fátima, D. José Ornelas, agradeceu a presença de D. Rui Valério e reforçou o apelo à fraternidade deixado pelo presidente da peregrinação. “Que o Coração de Maria transforme o nosso coração. Com Ela e como Ela levemos às nossas casas, às nossas comunidades cristãs, à Igreja e ao Mundo a mensagem de Fátima, mensagem da Mãe que cuida de todos, que não distingue nacionais e estrangeiros, para construir um Mundo mais humano, marcado pelo amor de Jesus, na justiça, na fraternidade e na paz”, disse o prelado do Lis e anfitrião de tantos milhares de peregrinos.

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Na Eucaristia deste 13 de maio, dia em que passaram 45 anos sobre o atentado à vida do Papa São João Paulo II, foi usado o cálice que o santo polaco ofereceu ao Santuário de Fátima.

Em Roma, após ter rezado no local do atentado, na Praça de São Pedro, o Papa Leão XIV lembrou a festa litúrgica da Virgem Santa Maria do Rosário de Fátima, durante a audiência geral de quarta-feira. Na saudação aos fiéis de língua portuguesa, o Santo Padre apontou o olhar para a Cova da Iria, onde já decorria a recitação do Rosário, na Capelinha das Aparições. Disse o Santo Padre: “Saúdo os fiéis de língua portuguesa: Neste dia, festa litúrgica da Virgem Santa Maria de Fátima, dirigimos o nosso olhar para o Santuário, onde Nossa Senhora entregou aos três Pastorinhos uma mensagem de paz. Naquele lugar, tão querido a todos os cristãos, encontram-se, hoje, numerosos peregrinos, oriundos dos cinco continentes: a sua presença é sinal da necessidade de consolação, de unidade e de esperança dos homens do nosso tempo. Confiemos ao Imaculado Coração de Maria o clamor de paz e concórdia que se eleva de todas as partes do Mundo, especialmente, dos povos afligidos pela guerra. Para todos vós, a minha bênção!”

O Sumo Pontífice dedicou a sua catequese da audiência geral a Maria, enfatizando sua “concretude histórica” como uma jovem chamada a viver uma experiência extraordinária. À Virgem o Papa confiou o “clamor pela paz” dos povos afligidos pela guerra.

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Na procissão e na missa internacional aniversária da peregrinação, foi usada uma nova cruz processional com as respetivas lanternas. A nova cruz tem a particularidade de ser adornada com um disco que vai sendo alterado, consoante o tempo litúrgico.

“Se, no Tempo Comum, o resplendor se assume como metáfora do tempo, à maneira de um mostrador solar, no tempo do Advento, no Natal, na Quaresma e na Páscoa convocará as figuras e imagens bíblicas que a Igreja também convoca para dizer o Evangelho de Cristo: José, Maria grávida, João Batista e os Profetas (Advento); Maria, o Anjo e os Pastores, a estrela e os Magos (Natal); Maria e João no Calvário (Quaresma); Madalena, as chamas do Pentecostes e as flores da festa (Páscoa)”, explica a memória descritiva.

As peças litúrgicas, criadas pela artista plástica Sílvia Patrício, com programa iconográfico de Marco Daniel Duarte, foram concebidas em latão fundido e recortado e em madeira torneada, e têm cerca de 2,5 metros de altura. Nas lanternas, as linhas decorativas, mais que um mero ornamento, servem para reforçar o significado da chama, evocando a luz que os peregrinos de Fátima carregam nas vigílias de oração e nas suas próprias vidas. O movimento dinâmico dessas linhas inspira-se nos raios do sol, dando às lanternas o sentido de elevação e de vida nova que nasce do Batismo.

Também na celebração da Eucaristia, D. Rui Valério apresentou-se paramentado com uma casula de bordado de Castelo Branco, oferecida ao Santuário por um grupo de peregrinos. Segundo a memória descritiva da casula, os motivos bordados foram inspirados no Salmo 44 (45): “Com um manto multicolor é apresentada ao Rei”, da liturgia do dia 13. O manto multicolor evoca “o jardim das origens, o novo Éden que adorna a nova Eva, a Esposa de Cristo, a Igreja”. Nesse manto, “Maria representa a flor mais bela, consubstanciando em si a primavera da Igreja”.

De acordo com o documento, a expressão visual dos bordados evoca, por representação visual metafórica, a diversidade de virtudes, a graça e a santidade, encontradas em Maria, Mãe e imagem da Igreja.

A memória descritiva refere que “o dia 13 de maio ocorre em tempo Pascal”. De forma detalhada e particular, menciona que, “no cimo da casula, encontra-se a Árvore da Vida coroada com o diadema real, repleta de flores, folhas e frutos”, símbolo da “fecundidade de Maria, a Mãe da nova Humanidade, nascida da Páscoa de Cristo onde nos tornamos filhos de uma só Mãe, figura e imagem da Igreja, já coroada de glória, com o diadema real a coroar a árvore, que aqui evoca a azinheira das aparições”.

Em tom mais conclusivo, sublinha que “é este o mistério de Cristo celebrado em Fátima, a vivência da fé em comunidade, onde o centro e cume de cada peregrinação é a Eucaristia” e a casula é paramento daquele que “preside, em nome e na pessoa de Cristo, à celebração do mistério Pascal, do povo reunido em festa como num grande Cenáculo com Maria Mãe de Jesus”.

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A afirmação de Rui Valério “Aqui, ninguém é estrangeiro” tocou o coração de muitas pessoas e mereceu titular uma crónica de Luís Osório, escritor, jornalista e cronista, no Diário de Notícias (DN), a 14 de maio.

Lembra o cronista que o pai, dizendo que “era ateu graças a Deus”, seguia sempre pela televisão a procissão das velas. Ao invés, a mãe, devota de Nossa Senhora, na noite do nascimento de Luís Osório, rezara à Virgem e sonhara “com o bebé que tinha na barriga”. Uma vez acordada, tranquilizou médicos e enfermeiras de que a criança “estava bem”, quando eles duvidavam do êxito do parto.

Diz o cronista que sempre ouviu esta narrativa que lhe apraz contar, talvez “por saudades da mulher que arriscou a sua vida” para que ele existisse.

Não faz ideia se Maria apareceu às três crianças – aliás, “as aparições não são dogma para a Igreja” –, mas considera Fátima “um milagre”, que “há qualquer de especial, naquele lugar, uma energia que não parece ser daqui”. E relata que, da última vez em que lá esteve, escreveu perguntas no seu bloco de notas. “Onde começa a humanidade? Onde começa o que somos? Que sopro nos anima? O que realmente importa? Que perguntas não conhecemos? Que palavras estão por inventar? Onde acaba o que acaba? E Deus? Em que parte de nós adormece? Tudo começa, quando achamos que termina?”

Confessa que foi isto que escreveu, “mas sem o talento de acertar na frase certa, a que ontem, em Fátima, foi dita por Rui Valério, Patriarca de Lisboa”: “Aqui, ninguém é estrangeiro.” E, conclui: “Por vezes, basta isto: a simplicidade de uma frase que tudo diz, que é inquestionável para quem acredita que somos mais do que os nossos miseráveis e terrenos instintos.”

Carla Oliveira, uma das seguidoras do jornalista no Facebook, comentou assim: “Ali ninguém é estrangeiro, porque o colo de uma mãe acolhe um filho, sem estranheza. Ninguém é estranho, no colo de sua mãe. Fátima é isto: o colo de uma MÃE que acolhe cada um dos seus filhos. E não, não há quem determine quem são esses filhos, se os intelectuais, se os humildes, se os espirituais, se os religiosos, se os religiosos assim assim... Todos os que procuram o colo de uma mãe encontram-no em Fátima. Sem questões e sem julgamentos, simplesmente o melhor colo que podemos ter, colo da MÃE. Ninguém é estrangeiro ao colo de sua MÃE! Obrigada a D. Rui Valério, pela tradução do amor de mãe que se encontra em Fátima.”

E um dos seus seguidores, Rui Almeida, sustenta que “quem vai a Fátima, mesmo não sendo crente (e muitos vão, mesmo de outras religiões) sente ali algo de especial”.

Segundo o seu testemunho, ele que é crente (“embora as aparições não sejam um dogma de fé”), quando lá vai, sente “uma paz, uma tranquilidade e uma força” que não sente em muitos lados. E confessa: “E vou lá, só porque sinto isso, sinto-me bem… não vou cumprir promessas. Há mais de cem anos que é assim. Cada um que tire as suas ilações. Há ali uma mistura de fé e de piedade popular que não é fácil descrever. Aconselho mesmo a quem não tem fé que faça essa experiência; até recomendo uma visita num sábado, fora das grandes datas.”

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Em suma, Fátima prossegue a sua marcha eclesial, tocando os corações de muita gente. Porém, como diz Lurdes Nobre, outra das seguidoras, “bem pode o patriarca dizer as frases que quiser, mas, se gente que se diz da igreja, que vai à missa ao domingo, que é filmada a rezar, depois apregoa coisas contra os estrangeiros e o padre da paróquia [e os demais crentes] que frequenta não os repreendem e os fazem ser humanistas (sic), esta frase é conversa para boi dormir”.

Com efeito, o sentido do acolhimento, da inclusão de todos e do testemunho deve ser obra em todas as comunidades paroquiais e similares.

2026.05.16 – Louro de Carvalho