quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

UE insta setor espacial a acelerar medidas de segurança e de resiliência


Realizou-se, a 27 e 28 de janeiro, no Centro de Convenções Square, em Bruxelas, a 18.ª Conferência Europeia do Espaço, focada na autonomia, na segurança, na defesa e na competitividade do setor espacial europeu, que reuniu líderes da Agência Espacial Europeia (ESA), a Comissão Europeia, estados-membros, a indústria, atores da defesa, inovadores e investidores, para debaterem orçamentos recorde, a constelação IRIS2 e novas estratégias.

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É de recordar que a Comissão Europeia celebrou, a 16 de dezembro de 2024, o contrato de concessão para a Infraestrutura para Resiliência, Interconectividade e Segurança por Satélite (IRIS²), constelação multiorbital de 290 satélites, com o consórcio SpaceRISE, devendo esta parceria-público-privada desenvolver, implantar e operar o novo sistema da União Europeia (UE). Trata-se de significativo passo, rumo à soberania e à conectividade segura da Europa, pois, com o desenvolvimento de um sistema de conectividade de última geração, a Europa oferecerá capacidades de comunicação aprimoradas, para usuários governamentais e empresariais.
O sistema dará suporte a ampla variedade de aplicações governamentais, principalmente, nas áreas de vigilância, como a vigilância de fronteiras e marítima; na gestão de crises, como pela ajuda humanitária; na conexão e na proteção de infraestruturas essenciais, como pelas comunicações seguras para embaixadas da UE; e na segurança e na defesa, como emergências marítimas, mobilização de forças, ações externas da UE, intervenções policiais. O sistema viabilizará também grande número de aplicações comerciais, como no setor de transportes (marítimo, ferroviário, aéreo e automotivo), na gestão inteligente de redes de energia, no setor bancário, nas atividades industriais no exterior, na telemedicina e na conectividade rural (retrotransporte de dados), assim como possibilitará aplicações para o mercado de massa, incluindo o acesso, via satélite, de banda larga móvel e fixa, o roteamento, via satélite, para serviços B2B, o acesso, via satélite, para transporte, as redes reforçadas por satélite e os serviços de banda larga e nuvem, via satélite.
Com tecnologias disruptivas, incluindo os padrões 5G, o sistema de conectividade segura multiorbital da UE garantirá a disponibilidade, a longo prazo, de serviços de conectividade, via satélite, confiáveis, seguros e economicamente viáveis, ​​à escala global, permitindo o desenvolvimento de banda larga de alta velocidade e a conectividade contínua em toda a UE, eliminando zonas sem conectividade e aumentando a coesão entre os estados-membros, além de possibilitar a conectividade em áreas geográficas de interesse estratégico fora da União, como o Ártico e a África. Isso incentivará a implantação de tecnologias inovadoras e disruptivas e novos modelos de negócios, aproveitando, em particular, o ecossistema do “Novo Espaço”. 
À medida que a conectividade global, via satélite, se torna, rapidamente, um ativo estratégico para a segurança, para a proteção e para a resiliência, urge a necessidade de a UE agir para assegurar o acesso irrestrito e sem dependência de terceiros.
À implementação do IRIS 2  seguiu-se uma abordagem incremental, com os serviços governamentais iniciais fornecidos por meio da capacidade de satélite existente, pertença dos estados-membros, reunida e compartilhada, já em 2025, através do Governmental Satellite Communications (GOVSATCOM), componente do Programa Espacial da UE que fornece serviços de comunicações, via satélite, seguros, fiáveis e rendíveis a organismos governamentais, a forças de segurança e a missões críticas. E os serviços completos de conectividade, via satélite, do IRIS², baseados em infraestrutura de propriedade da UE, serão entregues até 2030. 
Espera-se papel importante do setor privado. O contrato de concessão oferece uma otimização de custos e o compartilhamento dos riscos de projeto, de desenvolvimento e de implantação, assim como garante a disponibilidade de serviços governamentais, cria ambiente favorável ao desenvolvimento de soluções inovadoras, principalmente, por meio do envolvimento de atores do ecossistema do “Novo Espaço”. 
A Comissão assegura rigorosas supervisão e prática do contrato, baseando-se no papel e na missão dos parceiros de confiança: a ESA, para as atividades de desenvolvimento e de implementação, e a Agência da União Europeia para o Programa Espacial (EUPSA), para a prestação de serviços governamentais. Tal supervisão é realizada por uma equipa integrada do programa, composta, principalmente, por especialistas da Comissão e da ESA.
O projeto IRIS 2  apoia o crescimento económico e social da UE e promove a coesão social, através da redução da exclusão digital. Apoiando-se em padrões 5G compatíveis com a sua evolução futura e em criptografia e em cibersegurança de nível governamental, através de uma abordagem de segurança integrada na infraestrutura, o sistema proporcionará aos usuários um nível de segurança sem precedentes. E, integrando tecnologias inovadoras, derivadas de empresas consolidadas da indústria espacial, com tecnologia comprovada, e do ecossistema disruptivo do “Novo Espaço”, oferecerá capacidade de escalabilidade para necessidades futuras, graças a uma abordagem multiorbital (baixa e média).
Por fim, espera-se que as cargas úteis dedicadas a bordo do sistema melhorem e expandam as capacidades e os serviços de outros componentes do Programa Espacial da UE.

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Voltando à 18.ª Conferência Europeia do Espaço, sob o lema “Concretizando a ambição espacial da Europa: soberania, segurança e transformação industrial”, é de salientar que a edição deste ano marcou um ponto de viragem para o ecossistema espacial da UE. Com a presença ainda mais forte de ministros e de agências nacionais, juntamente com as instituições da UE, a conferência demonstrou a capacidade de a Europa se unir, de alinhar prioridades e de alcançar resultados. Através de discussões sobre competitividade, sobre segurança, sobre sustentabilidade, sobre inovação e sobre investimento, ficou claro que a Europa está a entrar num momento estratégico novo, que moldará as suas capacidades para a próxima década. Por conseguinte, olhando o futuro, a UE continuará a aproveitar o impulso, através de novas atividades lançadas no âmbito do Centro Europeu da Conferência Espacial, criando mais oportunidades para a comunidade espacial europeia se conectar, colaborar e avançar em conjunto.
A este respeito, Jeremy Wilks, em artigo intitulado “UE insta setor espacial a acelerar medidas de segurança: 5 pontos da Conferência Europeia do Espaço”, publicado pela Euronews, a 28 de janeiro, explica tudo, desde logo, a categórica declaração dos líderes na Conferência Espacial Europeia: Acabou a retórica ambiciosa: 2026 tem de ser o ano em que a Europa cumpre, finalmente, as promessas espaciais.” 
Depois, o colunista aborda as cinco principais mensagens da conferência: destaque para a segurança; prazos apertados para o IRIS2; coligação de gigantes espaciais no Projeto Bromo; antecipação de tempestades, antes de elas chegarem; e espaço que se mantém inspirador,
As operações espaciais civis foram evitando os laços com o domínio militar, o que já não é o caso. Assim, o comissário europeu para a Defesa e o Espaço, Andrius Kubilius, alertou, no discurso de abertura, que os conflitos na Europa e as tensões geopolíticas levam “os estados-membros a  recear que a guerra esteja a caminho” e que só a unidade pode defender a UE e dissuadir. 
Apontou o novo serviço de navegação cifrada e segura dos satélites Galileo da UE e o lançamento, na semana anterior, do GOVSATCOM, um sistema soberano de comunicações por satélite que recorre a equipamento espacial europeu já existente.
Para muitos profissionais do espaço, falar de dupla utilização é reflexo bem-vindo da realidade do setor. O CEO da Arianespace, David Cavaillolès, refere que a maioria dos satélites lançados é de dupla utilização, quer no atinente a telecomunicações e a observação da Terra, quer no atinente a posicionamento, podendo ter usos civis e militares.
O diretor-geral ESA, Josef Aschbacher, criticou os estados europeus que atuam, isoladamente, na segurança espacial, o que os enfraquece. Ora,  a ESA promove a European Resilience from Space (ERS) que permite, na ótica de Josef Aschbacher, “aos estados-membros manterem o controlo e a propriedade plenos dos seus ativos nacionais, agrupar e partilhar com outros e, assim, permitir que a Europa beneficie de um sistema de sistemas integrado”.
Nem todos confiam nas perspetivas do setor, apesar do afluxo recorde de financiamento público ao espaço, por parte de governos e de instituições europeias, no último ano. Por isso, precisa-se de mais contratos públicos e de melhor visibilidade de longo prazo. E novos protagonistas, como a búlgara Endurosat, continuam dependentes de capital de risco norte-americano para crescerem.
A nova constelação de conectividade segura RIS2 da Europa avança em ritmo acelerado. E Andrius Kubilius pediu a todos os parceiros que “reforçassem e acelerassem”, com 2029, agora, apontado para serviços iniciais, embora alguns suspeitem de deslize para 2030.
Membros do consórcio Space Consortium for a Resilient, Interconnected and Secure Europe (SpaceRise), encarregado de construir e de operar esta frota de 290 satélites, têm dúvidas sobre o projeto, admitindo que, por vezes, há “demasiados cozinheiros na cozinha”. Fabricar terminais terrestres e assegurar componentes críticos dos satélites continua no topo das preocupações. Não obstante, segundo Jeremy Wilks, a construção pode arrancar, neste ano, admitindo os responsáveis que os primeiros satélites IRIS2 poderão ser lançados com capacidades limitadas e receber melhorias iterativas, ao longo da década de 2030.
Embora os clientes na Comissão Europeia estejam empenhados no IRIS2, foi questionado o racional comercial, com operadores de telecomunicações a dizerem, na conferência, que comprarão largura de banda a concorrentes como a Starlink, serviço de Internet, via satélite, de alta velocidade e baixa latência, desenvolvido pela SpaceX, de Elon Musk. Por outro lado, o projeto enfrenta a concorrência da recém-anunciada constelação TeraWave da Blue Origin, que visa os mesmos clientes institucionais e empresariais. Contudo, o CEO da Hispasat, Luis Mayo, e o CEO da SES, Adel Al-Saleh, veem no desenho multiórbita semelhante do concorrente norte-americano uma validação da sua abordagem. 
O Projeto Bromo, nome de código para a fusão dos pesos pesados Airbus Defence and Space, Thales Alenia Space e Leonardo, recebeu acolhimento positivo na conferência. Na verdade, esta “bromance”, no dizer do articulista, “faz sentido empresarial”, se a Europa quer competir com os Estados Unidos da América (EUA) e com a China.
O diretor do European Space Policy Insitute, Hermann Ludwig Moeller, acha normal “consolidar, tentar otimizar horizontalmente, ser mais eficaz, talvez organizar melhor a força de trabalho” mas admite que o Projeto Bromo pode travar a vontade do setor de criar start-ups e de incentivar pequenas e médias empresas (PME).
Já o vice-presidente da finlandesa IceEye, Joost Elstak, considera “globalmente positivo”, do ponto de vista europeu, que a UE se torne mais competitiva e garanta que a indústria consegue competir à escala global.
Também a previsão de tempestades intensas e violentas poderá tornar-se mais precisa, já neste ano, à medida que os serviços meteorológicos integrem imagens do novo satélite MTG-S1 da Organização Europeia para a Exploração de Satélites Meteorológico (EUMETSAT), organização intergovernamental baseada em Darmstadt, na Alemanha, responsável pelo desenvolvimento, pela operação e pelo fornecimento de dados de satélites meteorológicos a 30 estados-membros. Monitoriza o tempo, clima e ambiente 24/7 (24 horas por dia, em 7 dias, por semana), apoiando previsões meteorológicas essenciais. 
Foram reveladas, em Bruxelas, as primeiras imagens desta pioneira sonda de infravermelhos, que mostram como a temperatura, a humidade e a composição da atmosfera evoluem a diferentes altitudes. O instrumento observa, em simultâneo, quase dois mil comprimentos de onda, em todo o espectro do infravermelho.
O diretor-geral da EUMETSAT, Phil Evans, enfatiza que “o que a imagem fornecerá é informação, em quatro dimensões, sobre a atmosfera”, isto é, disponibiliza informação ao longo do perfil da atmosfera, à medida que evolui no tempo. É uma estreia europeia. A primeira imagem foi captada em novembro de 2025, a partir de uma órbita geoestacionária, 36 mil quilómetros acima do equador, mostrando faixas de vapor de água a atravessar o Atlântico, variações acentuadas de temperatura no Saara, topos de trovoadas e plumas de fontes de poluição, como fábricas de fertilizantes.
Finalmente, é de frisar que a Conferência  concluiu que, apesar do foco na segurança e na competitividade europeia, as missões espaciais continuam a inspirar quem trabalha no setor. Assim, Joost Elstak, da IceEye, lembra reuniões com engenheiros da missão JUICE da ESA às luas geladas de Júpiter, “a falar sobre como a transferência de Vénus para Júpiter era a menor das preocupações”, vindo a concluir que “isso é bastante impressionante”. 
A diretora de Observação da Terra da ESA, Simonetta Cheli, disse ter ficado deslumbrada, no início do ano, quando foi posto em serviço o satélite Biomass, que olha para a absorção de CO2 [dióxido de Carbono] pelas florestas tropicais, uma missão de alterações climáticas, com tecnologia incrível: um radar de banda P, nunca voado”.
Jean-François Clervov, astronauta da ESA admitiu continuar fascinado pela procura de vida para lá do planeta, pelo que recomenda a continuidade da exploração.
Clervoy esteve na Conferência Espacial Europeia como embaixador da Venturi Space, do Mónaco, pré-selecionada pela NASA para produzir componentes para um futuro rover lunar do programa Artemis. Se for escolhida, as primeiras rodas na Lua do século poderão ser fabricadas na Suíça, alimentadas por baterias produzidas no Mónaco, com um sistema de controlo de França.
A 9 de fevereiro, a próxima missão Artemis II deverá levar astronautas em volta da Lua, pela primeira vez, desde 1972, com a nave Orion a depender do European Service Module, fabricado na Alemanha, para o ar, para a água e para a propulsão. E, provavelmente, a 11 de fevereiro, Sophie Adenot, astronauta francesa da ESA partirá, na missão Épsilon, para a Estação Espacial Internacional, com seus colegas da Crew-12 a bordo de uma cápsula Dragon da SpaceX, com lançamento previsto para a Florida, nos EUA.

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Há, pois, muito que esperar da gestão espacial europeia. Na verdade, a UE pode e deve afirmar a sua autonomia em todas as áreas. Para tanto, tem de mobilizar cientistas, técnicos, investidores e, sobretudo, decisores políticos que saibam olhar a realidade e arquitetar o futuro.

2026.02.05 – Louro de Carvalho


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Proteção Civil e operadoras de comunicações refutam críticas

 

O presidente da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC), José Manuel Moura, admite que não se pode dizer que tudo correu bem, na resposta à tempestade “Kristin”, que provocou elevados prejuízos, sobretudo, na região Centro. Porém, rejeita que tenha havido falhas estruturais na resposta, sustenta que as medidas de antecipação foram “robustas” e garante que se fez “tudo o que era possível fazer”.
Em declarações ao Expresso, registadas pela jornalista Carla Tomás, a 4 de fevereiro, em peça jornalística intitulada “Presidente da Proteção Civil rejeita falhas e aponta para violência do evento extremo: ‘Não conseguimos estar em todo o lado ao mesmo tempo,” o responsável pela ANEPC revelou que “foram ativadas medidas de prevenção, ao mais alto nível”, e que a atuação no terreno seguiu as prioridades operacionais definidas para cenários de emergência extrema. Assim, antes da chegada da depressão foi elevado “o estado de prontidão ao nível 4, o nível máximo”, o que exigiu o reforço e o pré‑posicionamento de meios, briefings com comandos regionais e sub‑regionais e avisos à população, através de comunicados de ordem técnica e de mensagens preventivas.
Foi ativado, em caráter extraordinário, o Centro de Coordenação Operacional Nacional (CCON), que esteve em funcionamento permanente, durante a noite anterior ao impacto da ‘Kristin’, e foram pré‑posicionados meios da Força Especial de Proteção Civil e de vários corpos de bombeiros, em diferentes zonas do país, para serem projetados conforme os pedidos locais.
Apesar de tudo, a resposta vem sendo alvo de críticas, sobretudo, graças à perceção de escassez de meios, nas primeiras horas, em localidades fortemente atingidas. Imagens de moradores a tentar reparar telhados destruídos, sem apoio imediato, sem água e sem luz, alimentaram dúvidas sobre a eficácia da intervenção e sobre o momento de ativação do Plano Nacional de Emergência e Proteção Civil (PNEPC).
O presidente da ANEPC esclarece que a dimensão e a violência do fenómeno condicionaram a resposta, no início, mas que “a prioridade inicial foi garantir corredores de emergência”, para o acesso de ambulâncias e para o socorro a populações isoladas.
Com efeito, no pico da crise, havia um milhão de clientes sem luz e muitos milhares sem comunicações, mas a reposição de energia e de comunicações, não é responsabilidade da ANEPC, embora esta tenha prestado apoio logístico, angariando geradores e cedendo-os, sempre que solicitado. Em todo o caso, o responsável pela Proteção Civil compreende a ansiedade das populações, ante a falta de eletricidade, de comunicações e de abastecimentos.
Sobre pessoas que protegiam telhados destruídos, José Manuel Moura rejeita a ideia de ausência generalizada de meios e evoca o princípio da subsidiariedade, nos termos seguintes: o foco inicial foi garantir corredores de emergência; os comandantes locais definiram prioridades; a primeira intervenção cabe aos serviços municipais de proteção civil; e os meios regionais e nacionais são ativados, à medida das necessidades.
A ativação do PNEPC, a 1 de fevereiro, foi uma decisão da Comissão Nacional de Proteção Civil – “órgão de coordenação política, não operacional” – após uma reunião com a Ministra da Administração Interna. Tal decisão foi motivada pelo “agravamento do cenário previsto para os dias seguintes, com elevados volumes de precipitação e com impactos hidrológicos acumulados num território já marcado pela depressão ‘Kristin’”. Contudo, não deixou de ser tomada  nenhuma decisão necessária, por não estar ativado o PNEPC, só que o timing refletiu o somatório de fenómenos meteorológicos e a forte componente hidrológica esperada. E, desde 1 de fevereiro, mantém-se o acompanhamento permanente da situação, em coordenação com o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) e com a Agência Portuguesa do Ambiente (APA), face à previsão de novos períodos de chuva intensa e de cheias em várias bacias hidrográficas.
Na fase inicial da operação, segundo a ANEPC, o esforço concentrou‑se no corte de árvores e na remoção de destroços, para reabrir estradas e acessos. No início da manhã de 28 de janeiro, “estavam no terreno mais de oito mil operacionais” e foram mobilizados para as zonas mais afetadas 16 grupos de reforço, para ações de desobstrução e de emergência pré‑hospitalar.
Quanto ao recurso ao Mecanismo Europeu de Proteção Civil, José Manuel Moura mantém que não havia um pedido concreto de meios que justificasse o seu acionamento, pois o que faltava eram lonas e telhas, não meios pesados.
O presidente da ANEPC defende que “a prevenção foi à prova de bala”, mas que não se conseguiu  “parar, artificialmente, uma depressão desta dimensão”. Reconhece os “constrangimentos na reposição de energia e comunicações, devido à queda de mais de 60 postes de alta tensão e de outras infraestruturas”. Com efeito a falta de eletricidade comprometeu serviços essenciais,    como o bombeamento de água, o abastecimento de combustíveis e as comunicações.
Quanto as falhas no SIRESP– Gestão de Redes Digitais de Segurança e Emergência, SA, José Manuel Moura diz que várias antenas sofreram danos e que foi necessário recorrer às redes analógicas de emergência e às redes operacionais dos bombeiros, que funcionam como redundância.
Entretanto, especialistas em proteção civil alertam para a falta de cultura de risco e de investimento preventivo. Na verdade, há mais de 27 mil edifícios construídos em leitos de cheia ou em zonas de risco, deixando populações expostas e infraestruturas vulneráveis. Há serviços essenciais, como hospitais, lares e câmaras municipais, sem geradores de emergência ou telefones de satélite. “A aquisição de telefones-satélite e [de] geradores pelos municípios é vista, de forma incorreta, como desnecessária, porque nunca fizeram falta – até ao momento em que fazem, e é tarde demais”, afirma uma fonte ligada à ANEPC. Efetivamente, a falta de geradores, de planos logísticos prévios e de telefones de emergência contribuiu para isolar populações, para prolongar cortes de eletricidade ou de água e para fragilizar serviços básicos.
Para Duarte Caldeira, investigador em Proteção Civil, entre as principais falhas, após eventos extremos, está “a ausência de cultura de risco por parte dos cidadãos”, que deve ser trabalhada “diariamente”, pelo defende que Portugal precisa de “uma reserva nacional de equipamentos de emergência, como geradores”. 
O especialista critica o facto de a avaliação de danos, após catástrofes, estar centrada em indemnizações e em apoios, devendo, antes, ser “participada e partilhada, para identificar necessidades e ações a implementar”. 
Além disso, os serviços de proximidade, nomeadamente, autárquicos, devem zelar pelo bom estado das vias de comunicação, pela limpeza de todos os canais de escoamento de água pluviais, nas estradas e nas ruas, tal como os moradores, no seu espaço habitacional, bem como no corte de árvores que impendam, perigosamente, sobre a via pública. A fiscalização de edificações, de estradas e de grandes estruturas deve ser mais apertada.
E, obviamente, as linhas de condução de eletricidade e de telecomunicações devem ser, preferencialmente, subterrâneas. Quem não se lembra da pressão de um governo do Partido Socialista (PS) sobre o SIRESP nesse sentido?

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Durante a passagem por Pedrógão Grande, no dia 4 de fevereiro, o Presidente da República reconheceu que as comunicações falharam e defendeu que é preciso retirar lições para o futuro, na sequência da depressão ‘Kristin’. E, na visita a uma escola em Ourém, sublinhou que cerca de 60% a 70% dos alunos admitiram não terem ainda comunicações, tratando-se de um município com uma “capacidade de resposta elevada”. Ora, na ótica do chefe de Estado, apesar de se ter aprendido com os incêndios de 2017, em Pedrógão, “está visto que para problemas mais complexos – e este é mais complicado – ainda é preciso tirar lições” para o futuro. Por isso, observou que é preciso adotar medidas preventivas, lembrando que há países, como os bálticos, que já vivem “preparados” para o risco,  ao passo que Portugal não está ainda nesse nível, enquanto país “mais envelhecido” e com estruturas mais antigas.
As asserções de Marcelo Rebelo de Sousa de que “as comunicações portaram-se mal”, na resposta à quebra das telecomunicações, só pode “resultar de informações incompletas ou imprecisas sobre o trabalho que tem vindo a ser desenvolvido”, sustenta Ana Figueiredo, CEO da MEO. E Miguel Almeida, CEO da NOS, também o acusa de estar “mal informado” e de insensibilidade para com os profissionais no terreno. “Injustas e desajustadas” foi como a APRITEL – Associação dos Operadores de Comunicações Eletrónicas classificou tais declarações.
A CEO da MEO enfatiza que, desde logo, fora ativado o seu plano de contingência, com mais de 1500 técnicos no terreno, mobilizados de forma contínua, muitas vezes, em condições extremamente exigentes. Foi acionada a sala de crise, em funcionamento 24 horas, por dia, sete dias por semana, garantindo a coordenação de todos os meios técnicos e operacionais.
“Estamos, desde o primeiro momento, em contacto permanente com as autoridades competentes, com a Proteção Civil e com as entidades de emergência, assegurando total alinhamento institucional. Paralelamente, foram acionados meios alternativos de emergência, precisamente, para mitigar impactos e garantir a maior resiliência possível das comunicações, em contextos excecionais”, disse Ana Figueiredo, em comunicado, vincando que o foco absoluto “está na recuperação plena dos serviços e no apoio às populações e às entidades críticas” e destacando o “profissionalismo irrepreensível, a dedicação e o esforço incansável de todas as equipas que têm trabalhado de forma ininterrupta, em todas as frentes”. 
Também o CEO da NOS acusa Marcelo Rebelo de Sousa de estar “mal informado” e de insensibilidade para com os profissionais no terreno. “O senhor Presidente da República está, certamente, muito mal informado. As suas declarações demonstram uma profunda insensibilidade e desumanidade, face às centenas de homens e mulheres que, desde quarta-feira passada [28 de janeiro], estão, dia e noite, a recuperar da maior destruição de redes de comunicações já vista em Portugal”, declarou Miguel Almeida.
Por seu turno, a Vodafone, com a qual o Presidente da República se mostrou mais complacente, remeteu uma reação para a APRITEL, associação do setor, que reagiu, sustentando que as Declarações de Marcelo Rebelo de Sousa “são injustas e desajustadas, não reconhecendo a dimensão do esforço extraordinário que está a ser desenvolvido no terreno, nem a complexidade e o risco associados a estas operações”. 
“A depressão ‘Kristin’ teve um impacto sem precedentes nas infraestruturas de comunicações. Para responder a esta situação extrema, foram mobilizados mais de três mil profissionais, que permanecem no terreno, desde o primeiro momento, num esforço ininterrupto, muitas vezes, em condições de risco de segurança”, afirma a associação, em comunicado.
A APRITEL lembra que o trabalho destes operacionais “tem sido condicionado por inúmeros fatores”, como dificuldades de acesso às áreas com maior grau de destruição, cortes e condicionamentos de vias rodoviárias, com impacto direto na chegada de equipas e materiais”, “persistência de condições meteorológicas adversas, limitando intervenções técnicas e trabalhos em altura”, “reincidência de estragos, com ocorrência de danos adicionais, após reposições iniciais”, bem como “persistência de falhas de fornecimento elétrico em diversas zonas”. 
“Desde a primeira hora, os operadores ativaram todas as medidas de contingência disponíveis, incluindo conectividade por satélite, instalação de geradores, camiões itinerantes, ‘bolhas’ de conectividade e de autonomia energética, bem como a instalação de estações móveis provisórias em locais estratégicos, com prioridade absoluta ao reforço das comunicações da Proteção Civil e das forças de segurança e ao apoio a hospitais e serviços críticos”, reforça.
Na manhã de 4 de fevereiro, a Vodafone, na última atualização da reposição de serviços, adiantou que a rede móvel foi reativada “em todos os 58 concelhos inicialmente afetados, ainda que, em alguns casos, de forma parcial e sujeita a instabilidade”, mas que, “em dois desses concelhos – Ferreira do Zêzere e Vila de Rei –, o grau de degradação do serviço ainda é elevado”. 
A operadora “instalou, desde o início, várias soluções móveis de emergência, entre as quais camiões itinerantes e ‘bolhas’ de conectividade e autonomia energética”, como as que, no dia 4, estiveram a ser colocadas nas estações-base localizadas junto às autoestradas A1, A8 e A17, para melhorar o acesso à rede móvel, nestas vias de circulação. E prometeu que, ao longo dos dias subsequentes, esta complementaridade seria reforçada com novos meios, tal como seria restabelecido o serviço fixo, nas zonas em que este foi afetado, muito dependente, por exemplo, da reparação de cortes de fibra.

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Marcelo Rebelo de Sousa não baixou a guarda. Afirmou que o governo esteve “menos bem”, quando avaliou a extensão geográfica das zonas afetadas pelo mau tempo, e referiu, em resposta às operadoras de telecomunicações, que as suas asserções resultam do que viu no terreno, em contacto com as populações.

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É óbvio que as críticas mais abundantes, no âmbito de tempestade ‘Kristin’, incidiram sobre o abandono que as pessoas sentiram, por parte de governantes, que tardaram a vir ao terreno, no que foram ultrapassados pelos candidatos presidenciais; sobre a lentidão com que chegaram à tomada de decisões; sobre a incapacidade perceção e de comunicação de alguns membros do governo responsáveis por estas áreas; sobre algum aproveitamento político; sobre a perceção de alguma descoordenação, normal em circunstâncias tão gravosas como esta (quem espera desespera); e sobre a, pelo menos, aparente indiferença do poder central pelos mortos, pelos feridos e pelos desalojados. Os próprios autarcas sentiram esse abandono governamental.

E há, sobretudo, três coisas a sublinhar: o país não está preparado em infraestruturas para fenómenos como estes e tem de se preparar; a onda magnífica de solidariedade que se desencadeia, nestas circunstâncias, embora necessária e benéfica, nunca pode dispensar o empenho do Estado, que é quem detém o poder e os recursos para decidir medidas estruturantes; e é difícil aceitar, em circunstâncias de grande sofrimento, a evocação do princípio da subsidiariedade, como se fosse mezinha a aplicar de forma cega e absoluta. Nestes casos graves, deve pontificar a solidariedade de todos, também do governo.
Finalmente, há uma avaliação séria a fazer, que resulte em conclusões que sirvam de aprendizagem para todos. Parece que teimamos em não aprender com os acontecimentos.  

2026.02.04 – Louro de Carvalho

ONU declarou 2026 Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores

 

A Organização das Nações Unidas (ONU) declarou 2026 o Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores, para salientar a importância das pastagens na criação de um ambiente sustentável, de crescimento económico e de meios de subsistência resilientes para as comunidades, em todo o Mundo. Assim, a iniciativa tem em vista sensibilizar para o valor das pastagens ​​e do pastoreio sustentável e promover esta atividade, bem como defender a necessidade de fortalecer mais a capacidade da pecuária pastoril e de aumentar o investimento responsável no setor.
Tal objetivo postula a adoção de práticas sustentáveis ​​de maneio da terra, a melhoria ou a restauração de ecossistemas, o acesso equitativo aos mercados e a saúde e a reprodução do gado. Como agência líder, a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) é responsável pela organização do Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores.
Por conseguinte, as celebrações da FAO mobilizarão ações e parcerias, a nível global, ao longo de 2026, para destacar dois dos pilares vitais dos sistemas agroalimentares: a gestão sustentável das pastagens e os contributos, muitas vezes invisíveis, das mulheres agricultoras. Com efeito, 2026 foi designado, por resoluções da Assembleia Geral da ONU, Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores (IYRP 2026) e Ano Internacional da Mulher Agricultora (AMIA 2026).
Teresa Silveira, em artigo intitulado “FAO declara 2026 o Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores e o ​​​​Ano Internacional da Mulher Agricultora”, publicado, a 3 de dezembro de 2025, na “Meteored Portugal”, referiu que a FAO agendara o início das duas comemorações das Nações Unidas para 2026, com eventos de lançamento de alto nível, na sua sede, nos dias 2 e 4 de dezembro de 2025, à margem do Conselho da FAO (1 a 5 de dezembro).
Durante o ano, a FAO quer mobilizar várias ações e parcerias, em múltiplos países, com vista a sublinhar os dois pilares vitais dos sistemas agroalimentares: a gestão sustentável das pastagens e os contributos, muitas vezes invisíveis, das mulheres agricultoras de todo o Mundo.
As pastagens cobrem, aproximadamente, metade da superfície terrestre e albergam uma biodiversidade única, assim como serviços de ecossistema, que são essenciais para milhões de famílias de pastores por todo o Mundo.
Os pastores gerem os recursos naturais, através da mobilidade, do conhecimento tradicional e de práticas adaptativas que promovem a coesão territorial e contribuem para a mitigação das alterações climáticas, para a fertilidade do solo e para a obtenção de meios de subsistência resilientes. Todavia, nem tudo funciona bem, no mundo rural. Por um lado, há pastagens de origem desastrosa, como as da floresta amazónica, por via dos incêndios, da desflorestação ao serviço dos grandes interesses privados e do aquecimento global. Por outro, a pastorícia enfrenta crescentes pressões decorrentes da conversão de terras, dos choques climáticos e da degradação ambiental, como relata a FAO, no comunicado que emitiu, ao anunciar 2026 como Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores.
Em Portugal, por exemplo, as pastagens são componente crucial da agricultura, ocupando cerca de 60% da superfície agrícola utilizada (SAU), sobretudo, com pastagens permanentes. E, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), de 2020, a área de pastagens permanentes, em Portugal, cresceu 14%, face ao último recenseamento agrícola (de 2009).
O evento de lançamento, pela FAO, do IYRP 2026 contou com o discurso de abertura, em 2 de dezembro, do diretor-Geral da FAO, QU Dongyu, seguido de declarações de alto nível, por parte de Khurelsukh Ukhnaa, presidente da Mongólia, e de Matías Carambula, vice-Ministro da pecuária, Agricultura e Pescas do Uruguai.
O programa incluiu dois painéis de debate com representantes de instituições de investigação, com organizações de pastores e com redes internacionais. Houve ainda uma exposição conjunta, que estará patente, durante quatro dias, no átrio da sede da FAO, em Roma (Itália).
No dia 4 de dezembro, a FAO promoveu a cerimónia de lançamento do Ano Internacional da Mulher Agricultora, que também é assinalado em 2026.
O evento, coorganizado pela Jordânia, pela Irlanda e pela FAO, incluiu o discurso de abertura do economista-chefe da FAO, Máximo Torero, declarações de alto nível de representantes do Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (FIDA) e do Programa Alimentar Mundial (PAM), um discurso da Princesa Basma bint Ali, embaixadora regional da Boa Vontade da FAO, e uma palestra de Sinéad McPhillips, secretária-geral do departamento de Agricultura, Alimentação e Marinha da Irlanda.
Tratou-se de um conjunto de palestras que pretendeu destacar as mulheres líderes de empresas rurais, de redes de agricultores e de órgãos parlamentares regionais. “As mulheres agricultoras são indispensáveis para os sistemas agroalimentares globais, contribuindo significativamente para a produção de alimentos, [para a] nutrição e [para as] economias rurais”, diz a FAO.
O evento inaugurou também uma exposição conjunta com o IYRP 2026, no átrio da FAO, em Roma, apresentando produtos, fotografias e performances de mulheres agricultoras e comunidades pastoris.
Para a FAO não há dúvidas: “As mulheres agricultoras são indispensáveis para os sistemas agroalimentares globais, contribuindo, significativamente, para a produção de alimentos, para a nutrição e para as economias rurais.” Apesar disso, a organização liderada por QU Dongyu sustenta que elas “continuam a enfrentar grandes barreiras no acesso à terra, ao financiamento, à tecnologia, à formação e aos espaços de decisão”.
O AMIA 2026 convoca, assim, os vários países do Mundo para ações transformadoras a fim de reduzir as desigualdades de género e de promover a liderança e o empoderamento das mulheres, em todos os sistemas agroalimentares.
Em Portugal, as mulheres estão a assumir um papel cada vez mais relevante na agricultura e na vitalidade das zonas rurais. Os dados divulgados pela Corteva Agriscience e pela Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), em novembro de 2025, dão conta que “33,3% das explorações agrícolas do país são, atualmente, geridas por mulheres”, uma proporção “um pouco acima da média europeia, que se situa nos 30,1%”.

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Como era de esperar, num país com forte apetência para o ruralismo, o ano em curso, ficará marcado por muitas iniciativas ligadas à Pastorícia e à Agropecuária. Destacam-se algumas.

O Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores será assinalado, em Castro Daire, com um conjunto de iniciativas dedicadas à valorização da transumância, das pastagens serranas e do modo de vida pastoril. Sob o tema “Nos Caminhos da Transumância, o Legado dos Pastores do Montemuro”, e no âmbito do evento “A Última Rota da Transumância”, o município promoverá, ao longo de 2026, atividades culturais, turísticas, gastronómicas e educativas, reforçando a ligação à Serra do Montemuro e às suas comunidades. Pretende, deste modo, valorizar os pastores, os produtos locais e o património imaterial, afirmando Castro Daire como um território autêntico, sustentável e profundamente ligado à sua identidade serrana.
De acordo com o comunicado oficial, o município já se tem afirmado como território de referência nacional, pela forma como preserva o seu património natural, cultural e imaterial, profundamente ligado à Serra do Montemuro e às comunidades que nela vivem e trabalham. Na verdade,  “aqui, a serra é mais do que paisagem – é identidade, tradição e memória coletiva, transmitida de geração em geração, através da sabedoria dos pastores e das práticas da vida rural.”
Em coerência com esta visão da realidade local e regional, o ano de 2026 constitui uma oportunidade para reforçar e para celebrar o caminho que o município de Castro Daire tem vindo a trilhar, ao longo dos últimos anos, na valorização da transumância, das pastagens serranas e do modo de vida pastoril. E, para tanto, foi gizado um vasto programa de atividades culturais, turísticas, gastronómicas e educativas alusivas ao tema, que unem o passado e o presente, a tradição e a inovação, a comunidade e o visitante.
Esta celebração, nos termos do referido comunicado, pretende dar voz aos protagonistas da serra, os pastores, valorizar os produtos locais, estimular o turismo sustentável e preservar o património imaterial que faz de Castro Daire um território autêntico e inspirador. Assim, o Montemuro será, novamente, “palco de histórias, [de] caminhos e [de encontros], num tributo vivo à identidade serrana e à força das suas gentes”.

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O PASTONATUR participou no primeiro evento realizado em Portugal  no âmbito do Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores, que reuniu, no dia 24 de janeiro, pastores de todo o Norte do país no Instituto Politécnico de Bragança (IPB).
O IPB é entidade de referência na investigação sobre o pastoreio e membro fundador do Centro de Competências do Pastoreio Extensivo (CCPE), o qual esteve representado, no encontro, pela Associação de Defesa do Património de Mértola (ADPM) – que tem desenvolvido projetos em Trás-os-Montes, em articulação com a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) –, membro do conselho executivo e uma das entidades parceiras do projeto internacional PASTONATUR.
O evento contou com a participação do Ministro da Agricultura e do Mar, José Manuel Fernandes, que reforçou o reconhecimento do governo pelo papel fundamental desempenhado  pelos pastores e a importância do seu trabalho para a coesão territorial. Na sua intervenção, anunciou um pacote de apoio de 30 milhões de euros destinado à pastorícia, com potencial para aumentar a atratividade da atividade e para promover a renovação geracional do setor.
O projeto PASTONATUR, financiado pelo programa Interreg Sudoe, foi apresentado, juntamente com outras iniciativas relevantes para a pastorícia, aos cerca de 130 pastores presentes no evento. A iniciativa pretendeu assinalar o início do AIP 2026, cujo objetivo é unir e valorizar o setor da pastorícia, bem como promover políticas públicas que assegurem a sustentabilidade das pastagens e dos pastores.
O objetivo PASTONATUR é conservar e restaurar a biodiversidade e mitigar as alterações climáticas, em sistemas agroflorestais de áreas protegidas do meio rural. Para tal, trabalha com a pecuária extensiva, tornando-a mais sustentável, bem como mais competitiva e rentável, através da valorização dos seus produtos e do apoio às suas empresas, para que possa perdurar e continuar a contribuir para a conservação dinâmica das áreas protegidas.
O IPB assinalou o arranque do AIP 2026) com a realização do “Jantar dos Pastores”, uma iniciativa de reconhecimento público da pastorícia e dos pastores do território transmontano. O evento, que decorreu na Escola Superior Agrária do IPB, em coorganização com CCPE, reuniu mais de 150 participantes, entre pastores, familiares, representantes institucionais e entidades regionais e nacionais, evidenciando o papel da pastorícia extensiva na identidade, na sustentabilidade e na coesão do território. 
Durante a sessão foram abordados temas centrais para o futuro da pastorícia, desde os desafios do exercício da atividade em territórios de montanha à renovação geracional e ao papel da investigação na valorização e sustentabilidade dos sistemas silvo-pastoris. José Manuel Fernandes felicitou o IPB pela organização do evento, ouviu as preocupações dos pastores e respondeu às questões colocadas pelos jornalistas. E, no final da sessão, juntou-se aos participantes no jantar, que decorreu na cantina dos Serviços de Ação Social do IPB. 
Satisfeito com a organização do evento que juntou, pela primeira vez em Bragança, pastores de vários pontos do país, Orlando Rodrigues, presidente do IPB realçou a importância simbólica de esta iniciativa decorrer na instituição que dirige e que, ao longo de décadas, tem desenvolvido trabalho científico próximo do território, em permanente diálogo com os pastores e atento às especificidades da sua atividade. 
A dimensão intergeracional da pastorícia e a necessidade de criar condições para o seu futuro ficaram patentes nas palavras de um jovem pastor de ovelhas do concelho de Vinhais, que partilhou as razões que o levaram a esta atividade, concilia a pastorícia com os estudos. Luís Miguel começou com o avô e gostou; teve sempre “amor” pelos animais; e, agora, sublinha a importância dos apoios públicos, como incentivo para que os jovens abracem esta profissão. 
Para o IPB, o momento reforçou o compromisso da instituição com o desenvolvimento sustentável das regiões de montanha, com a valorização do conhecimento tradicional, com a articulação entre ciência e prática e com o reconhecimento das comunidades que moldam o território. Integrado nas iniciativas nacionais que assinalaram o início do IYRP 2026, o “Jantar dos Pastores” – tradição entre os membros de um grupo privado na rede social Facebook, que conta com mais de sete mil inscritos – afirma Bragança e o IPB como espaços de referência na reflexão, na valorização e no futuro da pastorícia extensiva.

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A associação “Terra Maronesa” em parceria com outras entidades, nomeadamente o LIFE Maronesa, vai organizar um conjunto de atividades alusivas ao lançamento do Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores.

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Também a 17.ª edição das Jornadas Internacionais  Hospital Veterinário Muralha de Évora destaca como tema central, no âmbito da agropecuária, o Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores, efeméride proclamada pela ONU que reconhece o papel essencial dos ecossistemas de pastagem e dos sistemas de produção pastoril na segurança alimentar, na conservação da biodiversidade e na sustentabilidade dos recursos naturais. 

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Há pastores em todo o país. Contudo, há enormes extensões de território que estão, pura e simplesmente, abandonadas. O despovoamento do interior – acompanhado da área florestal ardida, da ausência de exploração agrícola e agropecuária, do encerramento de serviços públicos (ou que servem público) e da utilização, quase em exclusivo, de quintas para festas, nomeadamente, de casamento – oferece o panorama de um povo que vive, maioritariamente, da importação. Os dados do INE não traduzem uma percentagem sobre o território, mas apenas sobre a superfície agrícola utilizada (SAU), que é diminuta e mostra a crise agrícola.
Por isso, é urgente que os poderes públicos incentivem a pastorícia, a agricultura mecanizada, a produção agropecuária e a florestação ordenada, com a predominância de folhosas (por exemplo, castanheiros, carvalhos, sobreiros e azinheiras). A ocupação ativa do território é a melhor forma de defesa!

2026.02.04 – Louro de Carvalho

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Chefe da OCDE diz que os Europeus fariam bem em ouvir Mario Draghi

 

Mathias Cormann, secretário-geral da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) afirma que, apesar das tarifas aduaneiras, continua forte a apetência pelo comércio multilateral e que a Europa deve tomar nota das recomendações do antigo presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, para manter a “História de sucesso” da União Europeia (UE).
Na Cimeira Mundial dos Governos, no Dubai, Mario Draghi afirmou que a UE é uma “História de sucesso único”, mas que enfrenta desafios estruturais, num Mundo em mudança, onde o comércio multilateral e as regras internacionais estão a ser postos à prova.  
Na verdade, os dirigentes europeus e os representantes das empresas deslocaram-se ao Dubai, para uma das maiores reuniões mundiais, em que cerca de 150 governos e 500 ministros analisam a forma como os governos se podem adaptar e podem inovar, num Mundo em mudança.
Tanto o australiano Mathias Cormann como o italiano Mario Draghi foram convidados para a reunião e falaram com Maria Tadeo, editora de notícias da UE da Euronews, que também está no Dubai para esta ocasião.
De regresso à Bélgica, Mario Draghi lançou um alerta aos líderes europeus. A 2 de fevereiro, numa cerimónia na Universidade de Lovaina, o ex-presidente do BCE e ex-primeiro-ministro italiano disse que os países da UE não devem ter medo de se integrarem a diferentes velocidades, se isso for necessário para o bloco ganhar influência na cena mundial.
O líder da OCDE sustentou, em declarações ao programa matinal “Europe Today” da Euronews, que os líderes europeus (e toda a gente) devem “ouvir, com atenção”, as palavras de Mario Draghi – “um líder excecional”, que elaborou, em 2024, um relatório apelando à mudança radical no funcionamento da UE –, numa altura em que o continente procura uma nova receita, a fim de ultrapassar o impacto das tarifas aduaneiras na sua economia.
No dia 2, Mario Draghi reiterou o seu apelo, sugerindo que a UE deveria ser gerida no espírito de uma “verdadeira federação”, e não de um mosaico de países individuais. “A Europa é um continente de sucesso esmagador, mas está a enfrentar desafios. A UE tem de se posicionar da melhor forma possível face à evolução das circunstâncias”, vincou.
Numa entrevista à Euronews, em janeiro, o presidente do Conselho Europeu, António Costa, disse esperar que os líderes da UE deem “orientações políticas claras” para a implementação das recomendações apresentadas no relatório Draghi – influente, mas em grande parte não implementado – o qual apelava à UE para se transformar, radicalmente, sob pena de enfrentar uma “lenta agonia”, numa nova era de geopolítica agressiva.
Na sequência, o presidente do Conselho Europeu convidou os líderes da UE para um “retiro” informal, no dia 12 de fevereiro, na Bélgica, com a presença de Mario Draghi, que tem apelado, repetidamente, para que o bloco funcione como uma verdadeira união.
Além disso, Mario Draghi manifestou apoio à contração conjunta de empréstimos pelos estados-Membros da UE, para financiar projetos de interesse comum, como a segurança e a defesa, e apelou à integração dos mercados de capitais europeus para atrair e aumentar os investimentos.
Por seu turno, Mathias Cormann sugeriu que o comércio continua a ser uma força positiva nas relações globais e afirmou que a apetência pela cooperação internacional não diminuiu, apesar da introdução de direitos aduaneiros, a nível mundial, pelo governo dos Estados Unidos da América (EUA) e da utilização dos excedentes comerciais como armas.
O líder da OCDE referiu as preocupações “legítimas”, relativamente às distorções do mercado, apontando as práticas comerciais chinesas. A UE assinalou que Pequim tem de resolver o problema do crescente défice comercial e alertou para um segundo “choque chinês”, pois a segunda maior economia mundial inunda o Mundo com mercadorias que não consegue colocar no seu mercado interno. “Há áreas em que estamos preocupados com práticas de distorção do mercado e [com] níveis excessivos de subsídios estatais. Preferíamos que houvesse um maior alinhamento com as práticas baseadas no mercado”, afirmou Mathias Cormann.

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António Costa organizou uma série de reuniões informais que reunirão os 27 líderes da UE, para debaterem ideias, sem as formalidades de uma cimeira europeia. E, como dissemos, a primeira ocorrerá a 12 de fevereiro e nela participará Mario Draghi, a convite do próprio presidente do Conselho Europeu, que pretende acelerar a aplicação do relatório sobre a competitividade, pelo que o encontro de fevereiro se centrará na dinamização da economia europeia.
Também participará no encontro Enrico Letta, antigo primeiro-ministro italiano e presidente do Instituto Jacques Delors, que apresentou, 20 de abril de 2024, ao Conselho da União Europeia, em Bruxelas, o relatório de alto nível sobre o futuro do mercado único.
Algumas das questões fundamentais do relatório “Muito mais do que um Mercado”, incluem as questões energéticas, o reforço da segurança da UE e a promoção da criação de emprego e a facilidade em fazer negócios.
O também conhecido como Relatório Letta desdobra-se em cinco capítulos temáticos: uma 5.ª liberdade, para aumentar a Investigação, a Inovação e a Educação no Mercado Único; um Mercado Único para jogar grande: a escala é importante; um Mercado Único Sustentável para Todos; um Mercado Único para ir rápido e ir além; e um Mercado Único para além das suas fronteiras.
Já o Relatório Draghi resulta de incumbência da Comissão Europeia para a preparação de um relatório com a visão pessoal do ex-presidente do BCE – uma das grandes mentes económicas da Europa – sobre o futuro da competitividade europeia. Efetivamente, a desaceleração da produtividade, os desafios demográficos, o aumento dos custos de energia e a crescente concorrência global pressionam a prosperidade da Europa, a longo prazo. Ao mesmo tempo, as transições verde e digital postulam níveis sem precedentes de investimento e inovação. Para enfrentar tais desafios, em setembro de 2023, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, solicitou a Mario Draghi a elaboração de um relatório sobre o futuro da competitividade europeia. O objetivo era definir como a UE se pode adaptar a um Mundo em rápida transformação e garantir um crescimento sustentável, nas próximas décadas.
Assim, o relatório analisa os desafios enfrentados pela indústria e pelas empresas no Mercado Único, descreve como a Europa não poderá mais contar com muitos dos fatores que sustentaram o crescimento, no passado, e apresenta um diagnóstico claro, além de recomendações concretas para colocar a Europa numa trajetória diferente.
Em entrevista à Euronews a partir de Nova Deli, onde a UE assinou um importante acordo comercial com a Índia, António Costa disse que o retiro de fevereiro servirá para lançar um debate interinstitucional sobre a forma de reforçar a economia europeia e de implementar a agenda de reformas. “Convidei Mario Draghi e Enrico Letta a juntarem-se a nós, para fazermos um balanço do que fizemos, mas também para analisarmos o que temos de fazer”, afirmou.
Vincando que “precisamos de criar uma dinâmica renovada e dar um novo impulso” às reformas, o presidente do Conselho Europeu disse esperar que “os líderes deem uma orientação política clara à Comissão e ao Conselho, como fizeram no ano passado, em matéria de defesa e segurança”, mas, desta vez, sobre “o mercado único”. 
O formato de retiro, segundo António Costa, permite discussões mais abertas. Assim, em 2025, os líderes europeus reuniram-se com Mark Rutte, secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), e com Keir Starmer, primeiro-ministro do Reino Unido, para discussão sobre a segurança e a defesa europeias. Agora, espera-se restabelecer a dinâmica em torno das recomendações dos dois peritos, Letta e Draghi.
Em 2025, os esforços da Comissão Europeia centraram-se na redução da burocracia e da burocracia associada ao excesso de regulamentação da UE. Apesar da insistência na simplificação das regras existentes, os analistas sugerem que o executivo não está a fazer o suficiente para avançar com reformas reais, em conformidade com as recomendações dos relatórios. Um relatório do Conselho Europeu de Inovação Política, publicado em setembro de 2025, sugeria que só 11% das recomendações enumeradas no relatório Draghi tinham sido implementadas no seu primeiro ano, apesar de a Comissão o referir como a sua “bússola económica”.
A presença de Mario Draghi pode servir para aguçar os ânimos, visto que o antigo presidente do BCE é muito influente nos círculos diplomáticos, nas capitais europeias e nas instituições da UE, onde os seus discursos são acompanhados de perto. E apelou, repetidamente, a que o bloco trabalhasse como uma verdadeira união, tal como sugeriu uma abordagem “federalista pragmática”, num Mundo em mudança.
O perito manifestou o seu apoio à contração conjunta de empréstimos pelos estados-membros da UE, para financiar projetos de interesse comum, como a segurança e a defesa, e apelou à integração dos mercados de capitais europeus, para atrair e aumentar investimentos.

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Em novembro de 2025, levantava-se a questão se, depois dos referidos relatórios (Letta e Draghi) o mercado único e a competitividade melhoraram. Sobre esta matéria, pronunciaram-se várias personalidades, em especial, o antigo comissário britânico Lord Jonathan Hill e o chanceler alemão, Friedrich Merz.
O antigo comissário britânico sustenta que os estados-membros se sentiriam “muito mais confortáveis em ceder poderes a reguladores europeus supranacionais, se pensassem que estes são favoráveis ao crescimento”.
Por sua vez, o chanceler alemão defendeu a criação de uma bolsa de valores europeia única, frisando que a fragmentação em função das fronteiras nacionais continua a entravar o investimento na UE.
Pelo menos, de acordo com o antigo comissário Lord Jonathan Hill, embora uma proposta deste tipo não seja nova, a consolidação financeira está a tornar-se cada vez mais urgente. Com efeito,  na sua ótica, com a alteração das antigas alianças, “a urgência da necessidade de mudar tornou-se claramente maior”.
O político britânico, antigo comissário europeu para a União dos Mercados de Capitais, falando ao The Big Question, sobre a competitividade da Europa na cena mundial, considerou: “As mudanças geopolíticas são como uma grande campainha de alarme a soar. Os reguladores e supervisores na Europa ainda se comportam como se estivéssemos a operar no velho Mundo. Penso que esse Mundo desapareceu e não vai regressar. […] Os políticos europeus têm de assumir uma maior responsabilidade na argumentação a favor do crescimento.”
Desbloquear o investimento tornou-se fundamental para a UE, confrontada com uma série de desafios, como a agressão russa e as tarifas comerciais dos EUA.
Em termos de valor, o mercado bolsista norte-americano é quatro vezes superior ao valor total das empresas cotadas nas bolsas europeias e as ações norte-americanas são muito mais líquidas. Estas disparidades, combinadas com uma menor carga regulamentar nos EUA, significam que muitas empresas europeias migram para o outro lado do oceano, quando querem cotar as suas ações, ansiosas por avaliações mais elevadas. Outros fluxos de capitais, como os mercados de dívida e o investimento de risco, continuam fragmentados na UE. Isto significa menos dinheiro a fluir para as economias do bloco, menos empregos criados, menos oportunidades de investimento e perda de soberania, quando as tensões geopolíticas são elevadas.
Jonathan Hill diz que “o relatório Draghi e o anterior relatório Letta” o encorajaram bastante, no quadro das propostas da UE em matéria de competitividade. Todavia, passado um ano, pensa que “a Europa está a avançar mais lentamente do que o necessário”.
Os apelos de Bruxelas para melhorar a competitividade da UE centram-se também na União Bancária e no seu potencial para aumentar a capacidade de concessão de empréstimos. Criada para responder à crise da dívida da Zona Euro, a iniciativa pretende preparar os bancos para períodos de tensão financeira e reduzir a fragmentação regulamentar.
Desde o regresso de Donald Trump à Casa Branca, os bancos norte-americanos têm vindo a prever uma onda de desregulamentação financeira, porque a administração norte-americana se comprometeu a reduzir os requisitos de capital, podendo tais mudanças de política libertar biliões de dólares, visto que os bancos são obrigados a manter almofadas mais pequenas para os choques financeiros. Porém, enquanto os EUA são cautelosos, a UE avança mais lentamente. Alguns pensam que esta hesitação resulta da aprendizagem com os erros do passado, ao passo que outros sustentam que “esta abordagem é demasiado cautelosa no clima atual”. 
Segundo Jonathan Hill, o ocorrido em 2010 e nos anos seguintes foi reação humana natural a uma enorme crise e exigiu um trabalho enorme e muito importante para tornar o sistema mais seguro. Agora, o maior problema da Europa é a falta de crescimento, mas os juízos que se fazem tendem a ser os de há dez ou doze anos, quando a maior preocupação era a estabilidade financeira. Efetivamente, deviam fazer-se alguns julgamentos diferentes, porque os problemas são diferentes. Contudo, no quadro da regulamentação, “não querem ter essa discussão”. 
Um dos obstáculos a uma maior coesão da UE é a relutância de os estados-membros cederem o controlo da tomada de decisões a um organismo supranacional. E Jonathan Hill considera que “esta mentalidade tem, por exemplo, impedido o progresso de uma bolsa de valores europeia única”, pois, na sua perspetiva, “os estados-membros sentir-se-iam muito mais confortáveis em ceder poderes a reguladores europeus supranacionais, se achassem que estes são a favor do crescimento”.
Efetivamente, conclui o político britânico,  “se as pessoas se sentirem confiantes de que, no centro, haverá pessoas que compreendem a importância da competitividade, penso que o argumento da centralização se torna mais fácil de defender.”

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Têm razão o líder da OCDE e o presidente do Conselho Europeu, quanto à conveniência de a UE ouvir Mario Draghi e Enrico Letta, mas devem ser escutadas todas as personalidades cujo pensamento e ação contribuam para a Europa chegar a bom porto, em termos estratégicos, de desenvolvimento e de segurança. O Brexit não impede que se ouçam políticos como Lord Jonathan Hill, pois a sanidade do projeto da UE também interessa ao Reino Unido.

2026.02.03 – Louro de Carvalho

O Mundo pode estar a caminhar para uma crise sistémica como a de 2008

 

Após o seu painel na Web Summit Qatar, Yanis Varoufakis, antigo ministro das finanças grego, em declarações à Euronews, afirmou que o Mundo pode estar a caminhar para uma crise como a de 2008, impulsionada pela ascensão das stablecoins e das poderosas plataformas tecnológicas, e alertou para o estado da economia global.
Na ótica do ex-governante grego, o capitalismo já acabou (“e nem sequer nos apercebemos disso”) e o Mundo entrou na era de “tecnofeudalismo”, em que as grandes empresas tecnológicas exercem inédito poder sobre o comportamento humano. Com efeito, o crescimento das stablecoins está a remodelar, discretamente e de formas arriscadas, o sistema financeiro. “Donald Trump, com a Lei Genius, privatizou o dólar americano, manteve a Reserva Federal em baixo e transfere poderes para empresas privadas, essencialmente, com uma licença para imprimir dólares”, disse Varoufakis, advertindo que a situação – “uma receita para o próximo 2008” – cria um perigoso ciclo de retorno entre a dívida pública e a moeda privada, com milhares de milhões de dólares a poderem migrar para stablecoins, nos próximos meses, aumentando o risco sistémico.
As plataformas modernas não produzem bens, mas moldam comportamentos e simulam mercados. “Qualquer pessoa que detenha esse poder pode dirigir-nos, para nos treinar, a fim de ganhar a nossa confiança e de nos incutir desejos. Isto já não é capitalismo. Bem-vindos ao tecnofeudalismo!”, enfatizou o economista, sublinhando a desigualdade, que é cada vez mais impulsionada pela posse do que chama capital de nuvem, de tal forma que a questão “é saber a quem pertencem as máquinas que podem modificar o nosso comportamento”. 
Para reequilibrar o poder económico, Yanis Varoufakis apela à democratização dos bancos centrais. “Os bancos centrais devem ser democratizados. O JP Morgan e o Bank of America têm de ter conta no banco central. O dinheiro devia ser um bem comum, não um privilégio”, sustenta o economista grego, vincando que, apesar de haver tecnologia para o fazer, a resistência política é grande, porque tais reformas reduziriam a influência das instituições financeiras e das grandes empresas tecnológicas.

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No seu livro mais recente “Tecnofeudalismo – Ou o fim do capitalismo” (2023), Varoufakis, sustenta que as gigantes da tecnologia derrubaram o capitalismo, isto é, empresas, como a Apple e a Meta, tratam os usuários como servos modernos. Essa é a tese do ex-ministro das Finanças grego, famoso por defender dos credores alemães a Grécia endividada, e que, não tendo recuperado a notoriedade de 2015, é proeminente voz da esquerda. Após uma campanha fracassada para o Parlamento Europeu (PE), em 2019, planeava candidatar-se, de novo, em junho de 2024, sendo o seu adversário, dessa vez, não Berlim, nem a banca, mas as empresas de tecnologia, que distorcem a economia e incitam a população contra as pessoas.
O seu 17.º livro, escrito em forma de carta ao pai, entusiasta da tecnologia, dá conta da evolução do capitalismo, desde o “boom” da publicidade, na década de 1960, passando por Wall Street, na década de 1980, até à crise financeira de 2008 e à pandemia de covid-19. E considera  que a Apple, o Facebook e a Amazon transformaram a economia a ponto de ela se assemelhar ao sistema feudal da Europa medieval. Os gigantes da tecnologia tornaram-se “os senhores” e todos os outros são “camponeses” que trabalham a terra, em troca de muito pouco.
Assim, ao postar no X, trabalha-se, como o servo medieval, para Elon Musk, que não paga. É o trabalho gratuito do usuário que paga e aumenta o valor da empresa. No X, quanto mais usuários ativos, mais anúncios são exibidos e mais assinaturas vendidas. No Google Maps, os usuários melhoram o produto, alertando o sistema para congestionamentos nas suas rotas.
É certo que a aproximação ao feudalismo não é nova, mas o livro pretende levar a ideia a um público mais amplo. O seu lançamento nos Estados Unidos da América (EUA), um mês antes de os órgãos reguladores dos EUA e da União Europeia (UE)  iniciarem ações antitrust contra a Apple, teve um timing favorável.
No livro, o autor demonstra que dinâmicas tradicionais do capitalismo não governam mais a economia. O que destituiu esse sistema foi o próprio capital e as mudanças tecnológicas aceleradas das últimas duas décadas, que destruíram, como um vírus, o hospedeiro.
Os dois pilares que sustentavam o capitalismo foram substituídos: os mercados deram lugar às plataformas digitais, que são verdadeiros feudos das grandes tecnologias, e o lucro foi substituído pela pura extração de rendas. Ante esse cenário, Yanis Varoufakis diz que o tecnofeudalismo é o novo poder que está a remodelar a nossa vida e o Mundo, sendo, atualmente, a maior ameaça ao indivíduo liberal, aos esforços para evitar a catástrofe climática e à democracia.
Com referências que partem da mitologia grega até a cultura pop, Varoufakis explica essa transformação revolucionária: como ela escraviza a nossa mente, como reescreve as regras do poder global e, por fim, o que será necessário para a derrubar.

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Ianis Varoufakis, em entrevista a Morgan Meaker, da WIRED – revista  estadunidense, de publicação mensal, com sede em San Francisco, na Califórnia, que aborda questões de tecnologia, de ciência, de entretenimento, de design e de negócios, nos diferentes subtópicos, e da respetiva influência na sociedade, na cultura, na economia e na política – explicita a forma como as gigantes da tecnologia mudaram a economia e porque nos devemos importar com isso.
Começa por explicar o sentido do termo “tecnofeudalismo” e a relevância do sistema feudal nesse contexto. Enquanto o lucro impulsiona o capitalismo, a renda impulsionava o feudalismo. Agora, passou-se do capitalismo para o novo feudalismo, por via do capital superpoderoso, omnipresente e multifacetado, o capital da nuvem, ou algorítmico, a criar “novos feudos digitais”, como a Amazon.com e o Airbnb, em que a base da riqueza não é o lucro, mas a renda.
Ao criar um aplicativo da Apple Store, a Apple pode reter 30% dos lucros do usuário, através da taxa de comissão. É um arrendamento (ou aluguer), como se fosse de um terreno. A Apple Store é um “feudo na nuvem”, e a Apple extrai um aluguer, como no feudalismo. Nestes termos, não há regressão do capitalismo para o feudalismo, mas a progressão para um sistema novo com muitas das caraterísticas feudais, mas que está mais à frente do capitalismo. Por isso, Varoufakis adicionou a palavra “tecno” a “feudalismo”.
Ao falar-se de feudos digitais, a ideia entendível é a de plataformas, como a App Store da Apple ou a Amazon, que arrecadam uma percentagem das vendas. Porém, outras plataformas, como o Facebook, podem ser acusadas de operar tais feudos. Efetivamente, na perspetiva do economista grego, “o Facebook é um feudo na nuvem clássico”, pois cria capital na nuvem, atraente para as pessoas que se querem comunicar umas com as outras, para encontrar amigos, para publicar opiniões ou notícias sobre temas diversos. O usuário é atraído para esse feudo, e o próximo passo de Zuckerberg é atrair para ele editores e anunciantes, a fim de lhes vender a atenção dos usuários.
Em seguida, como Cory Doctorow descreve, através do conceito de “enshittificação”, o usuário é um editor, que se sente bem, porque as suas vendas aumentam por meio do Facebook, mas, de repente, descobre que foi rebaixado e que tem de pagar um aluguer mais alto na nuvem para ser atualizado, novamente, pagando por anúncios, por exemplo, para que os clientes encontrem o seu produto. Isso é típico capitalismo na nuvem, o tecnofeudalismo.
O tecnofeudalismo afeta três grupos de pessoas. Por exemplo, a empresa que produz as bicicletas elétricas vendidas no Alibaba ou na Amazon.com é uma capitalista vassala. A maior parte da sua margem de lucro é desviada por Jeff Bezos, fundador e presidente executivo da Amazon, na forma de aluguer de nuvem. Em segundo lugar, estão os proletários da nuvem, por exemplo, “os trabalhadores nos armazéns da Amazon, que são monitorados por algoritmos”. E o terceiro grupo somos nós, os servos da nuvem, que oferecemos “trabalho voluntário e gratuito”, não importando se gostamos  ou não.
Cada vez que alguém publica um vídeo no TikTok, no Facebook, no Instagram, aumenta o capital dessas empresas. Contribuímos, “diretamente, com o nosso trabalho, com o nosso movimento ou com a nossa existência”. Enfim, “somos servos, mas somos mais do que servos, somos servos da nuvem a produzir capital”, facto que “nunca aconteceu na História”. 
À objeção de que a Apple pode argumentar que, em vez de ser feudo, a App Store da Apple talvez se assemelhe a um shopping center, onde as empresas precisam de alugar espaços ao proprietário do prédio, o entrevistado assegura que a diferença é enorme. De facto, o aluguer de loja no shopping é fixo e proporcional às nossas vendas. Quanto mais dinheiro ganharmos, maior será a nossa margem de lucro, em relação ao aluguer. Ao invés, a Apple Store, fica com 30% de todas as vendas. É o equivalente ao arrendamento da terra que o senhor feudal cobrava aos vassalos.
Relativamente ao que torna o capitalismo em nuvem um sistema económico pior do que o capitalismo tradicional, Varoufakis observa que, primeiro, temos “a perspetiva macroeconómica”. Assim, na sua ótica, “quando uma quantia tão grande de dinheiro é extraída na forma de renda da nuvem, esse dinheiro desaparece do fluxo circular de renda”. Segundo os seus cálculos, entre 35% e 40% do produto interno bruto (PIB) é “desviado do fluxo circular de renda pela renda da nuvem, o que significa menos dinheiro na economia”. Por isso, sendo baixo o investimento, há “menos empregos bons e de qualidade”, na restante economia.
Depois, é de ter em conta que “esse capital virtual é projetado para se reproduzir por meio da nossa atenção e do nosso trabalho gratuito”. E, porque as plataformas descobriram que passamos mais tempo a produzir capital virtual gratuito para os donos desse capital, se estivermos com raiva, “os algoritmos estão programados para envenenarem as nossas conversas”, o que “é extremamente prejudicial às nossas democracias, porque o consenso é muito ruim para o capital virtual, que pretende que “estejamos com raiva e a gritar uns com os outros”.
Como professor, Varoufakis diz observar o efeito nos jovens universitários. Hoje, os estudantes, como “têm muito medo de conversas presenciais”, preferem espaços seguros. Não querem que sejam apresentadas, em sala de aula, ideias desafiadoras e protestam. Todavia, se lhes derem um telefone, tornam-se tóxicos e agressivos. Ora, não é essa a forma de se conduzir “uma democracia ou uma sociedade civilizada”, diz o economista grego.
O facto de as pessoas já terem expressado a sua insatisfação com o capitalismo em diversos movimentos de protesto leva Morgan Meaker a questionar o entrevistado por que motivo deveriam as pessoas importar-se  com a transição para um sistema algo diferente, dominado por um tipo de empresa um pouco diferente.
A este respeito, Varoufakis diz que as pessoas precisam de saber o que subjaz ao descontentamento. Dar-lhes explicação que faça sentido para elas, “é extremamente empoderador” e é “a base de qualquer possibilidade de democracia”. Com efeito, “para haver democracia, não basta poder votar, a cada quatro ou cinco anos”, mas “é preciso que as pessoas entendam o que está a acontecer, que estejam informadas das causas do seu descontentamento”. Na verdade, se não as entendem, facilmente se tornam vítimas da xenofobia, da misoginia ou do racismo, apegando-se  “a soluções simplistas, o que é o início do fascismo”.
À dupla questão se estamos no início do fascismo e, se em caso afirmativo, a culpa é do tecnofeudalismo, o economista opina que “o fascismo já está em ascensão” pois, na França, quase 45% da população apoia a neofascista Marine Le Pen, e a Itália tem uma primeira-ministra neofascista, Giorgia Meloni. Porém, isso não é obra do tecnofeudalismo, que veio depois. O que sucedeu foi que o descontentamento das pessoas aumentou, por causa da ascensão do capital em nuvem, da drenagem de dinheiro do fluxo circular de renda e dos “algoritmos que geram dinheiro e acumulam capital em nuvem, a tal ponto que nos odiamos uns aos outros”. Ora, na perspetiva de Varoufakis, “o ódio é o combustível do fascismo” (por isso é que o discurso do ódio campeia). Assim, misturando descontentamento, impossibilidade de a maioria das pessoas não conseguir pagar as contas e ódio reforçado pelos algoritmos, temos o fascismo.
Quanto ao que se deve fazer, em relação ao novo sistema, que alimenta o novo fascismo, o entrevistado, sugere “muitas coisas”. Desde logo, é preciso entender onde estamos, para não culparmos os estrangeiros, nem as mulheres, nem as pessoas trans.
Em termos económicos, urge a introdução imediata introdução de um imposto sobre a nuvem, por  exemplo, taxar a Amazon em 5%, por cada transação na sua plataforma. Em seguida, criar a possibilidade de cada um de possuir uma identidade digital, para não precisarmos do Google ou do Facebook para comprovar a nossa identidade na Internet. “Ter uma identidade digital emitida pelo Estado contribuirá para restaurar ou para garantir os direitos de propriedade sobre os nossos dados, pois, no momento, não somos donos deles”, observa Varoufakis.
Depois, há que introduzir interoperabilidade. E explica: “Estou na plataforma X. Não posso migrar para a Bluesky. Se Elon Musk decidir bloquear-me, porque disse algo de que ele não gostou, […] tenho mais de um milhão de seguidores na plataforma X e não posso sair, sem os perder. Se eu for para a Bluesky, tenho 10 seguidores. [Ora,]  interoperabilidade significará que, se eu migrar para outra plataforma, como a Bluesky, quando eu publicar algo na Bluesky, o meu milhão de seguidores na plataforma X poderá ver a publicação.
Apesar de a interoperabilidade ser uma das propostas da Lei dos Mercados Digitais da UE, que está, pelo menos, a tentar abordar alguns dos problemas descritos por Varoufakis, este pensa que “não vai longe o suficiente”. Há, ali, “algumas ideias interessantes”, como a interoperabilidade, mas ninguém, no governo, está a trabalhar nisso (esse é o problema), não por ser tarefa difícil, mas porque não se importam, pois estão a serviço dos grandes “tecnofeudas”. 
Por fim, à questão se crê que ninguém, no governo, faz nada, como é que avança, a partir dessa verificação, diz que a pergunta é oportuna e não sabe responder, mas é por isso que, ao arrepio das suas preferências, continua na política, “porque não há alternativa à política”.

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Gradualmente, o capital, que se globalizou, e as mudanças tecnológicas das últimas décadas produziram um capitalismo financeiro sem rosto, que redundou no esboroamento do capitalismo. Os mercados tradicionais deram lugar às plataformas digitais e o lucro vem da renda por espaço na nuvem. Com os nossos scrolls (rolagens) e cliques, este sistema económico consolida o poder das grandes tecnológicas e redesenha o mapa geopolítico. O clique postula seleção mental e ação direta, mas o scroll tornou-se o padrão de compromisso em dispositivo móvel e em rede social, gerando consumo de conteúdo fluido, sem interrupção, e aumentando o tempo de utilização. 

2026.02.02 – Louro de Carvalho