Realizou-se,
a 27 e 28 de janeiro, no Centro de Convenções Square, em Bruxelas, a 18.ª
Conferência Europeia do Espaço, focada na autonomia, na segurança, na defesa e
na competitividade do setor espacial europeu, que reuniu líderes da Agência
Espacial Europeia (ESA), a Comissão Europeia, estados-membros, a indústria,
atores da defesa, inovadores e investidores, para debaterem orçamentos recorde,
a constelação IRIS2 e novas estratégias.
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É
de recordar que a Comissão Europeia celebrou, a 16 de dezembro de 2024, o
contrato de concessão para a Infraestrutura para Resiliência,
Interconectividade e Segurança por Satélite (IRIS²), constelação multiorbital
de 290 satélites, com o consórcio SpaceRISE, devendo esta
parceria-público-privada desenvolver, implantar e operar o novo sistema da
União Europeia (UE). Trata-se de significativo passo, rumo à soberania e à
conectividade segura da Europa, pois, com o desenvolvimento de um sistema de
conectividade de última geração, a Europa oferecerá capacidades de comunicação
aprimoradas, para usuários governamentais e empresariais.
O
sistema dará suporte a ampla variedade de aplicações governamentais,
principalmente, nas áreas de vigilância, como a vigilância de fronteiras e
marítima; na gestão de crises, como pela ajuda humanitária; na conexão e na proteção
de infraestruturas essenciais, como pelas comunicações seguras para embaixadas
da UE; e na segurança e na defesa, como emergências marítimas, mobilização de
forças, ações externas da UE, intervenções policiais. O sistema viabilizará também
grande número de aplicações comerciais, como no setor de transportes (marítimo,
ferroviário, aéreo e automotivo), na gestão inteligente de redes de energia, no
setor bancário, nas atividades industriais no exterior, na telemedicina e na conectividade
rural (retrotransporte de dados), assim como possibilitará aplicações para o
mercado de massa, incluindo o acesso, via satélite, de banda larga móvel e
fixa, o roteamento, via satélite, para serviços B2B, o acesso, via satélite,
para transporte, as redes reforçadas por satélite e os serviços de banda larga
e nuvem, via satélite.
Com
tecnologias disruptivas, incluindo os padrões 5G, o sistema de conectividade
segura multiorbital da UE garantirá a disponibilidade, a longo prazo, de
serviços de conectividade, via satélite, confiáveis, seguros e economicamente
viáveis, à escala global, permitindo o desenvolvimento de banda larga de alta
velocidade e a conectividade contínua em toda a UE, eliminando zonas sem
conectividade e aumentando a coesão entre os estados-membros, além de
possibilitar a conectividade em áreas geográficas de interesse estratégico fora
da União, como o Ártico e a África. Isso incentivará a implantação de
tecnologias inovadoras e disruptivas e novos modelos de negócios, aproveitando,
em particular, o ecossistema do “Novo Espaço”.
À
medida que a conectividade global, via satélite, se torna, rapidamente, um
ativo estratégico para a segurança, para a proteção e para a resiliência, urge a
necessidade de a UE agir para assegurar o acesso irrestrito e sem dependência
de terceiros.
À
implementação do IRIS 2 seguiu-se uma abordagem
incremental, com os serviços governamentais iniciais fornecidos por meio da
capacidade de satélite existente, pertença dos estados-membros, reunida e
compartilhada, já em 2025, através do Governmental Satellite Communications (GOVSATCOM),
componente do Programa Espacial da UE que fornece serviços de comunicações, via
satélite, seguros, fiáveis e rendíveis a organismos governamentais, a forças de
segurança e a missões críticas. E os serviços completos de conectividade, via
satélite, do IRIS², baseados em infraestrutura de propriedade da UE, serão
entregues até 2030.
Espera-se
papel importante do setor privado. O contrato de concessão oferece uma
otimização de custos e o compartilhamento dos riscos de projeto, de desenvolvimento
e de implantação, assim como garante a disponibilidade de serviços
governamentais, cria ambiente favorável ao desenvolvimento de soluções
inovadoras, principalmente, por meio do envolvimento de atores do ecossistema
do “Novo Espaço”.
A
Comissão assegura rigorosas supervisão e prática do contrato, baseando-se no
papel e na missão dos parceiros de confiança: a ESA, para as
atividades de desenvolvimento e de implementação, e a Agência da União
Europeia para o Programa Espacial (EUPSA), para a prestação de serviços
governamentais. Tal supervisão é realizada por uma equipa integrada do programa,
composta, principalmente, por especialistas da Comissão e da ESA.
O
projeto IRIS 2 apoia o crescimento económico e
social da UE e promove a coesão social, através da redução da exclusão digital.
Apoiando-se em padrões 5G compatíveis com a sua evolução futura e em
criptografia e em cibersegurança de nível governamental, através de uma
abordagem de segurança integrada na infraestrutura, o sistema proporcionará aos
usuários um nível de segurança sem precedentes. E, integrando tecnologias
inovadoras, derivadas de empresas consolidadas da indústria espacial, com
tecnologia comprovada, e do ecossistema disruptivo do “Novo Espaço”, oferecerá
capacidade de escalabilidade para necessidades futuras, graças a uma abordagem
multiorbital (baixa e média).
Por
fim, espera-se que as cargas úteis dedicadas a bordo do sistema melhorem e
expandam as capacidades e os serviços de outros componentes do Programa
Espacial da UE.
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Voltando
à 18.ª Conferência Europeia do Espaço, sob o lema “Concretizando a ambição
espacial da Europa: soberania, segurança e transformação industrial”, é de
salientar que a edição deste ano marcou um ponto de viragem para o ecossistema
espacial da UE. Com a presença ainda mais forte de ministros e de agências
nacionais, juntamente com as instituições da UE, a conferência demonstrou a
capacidade de a Europa se unir, de alinhar prioridades e de alcançar
resultados. Através de discussões sobre competitividade, sobre segurança, sobre
sustentabilidade, sobre inovação e sobre investimento, ficou claro que a Europa
está a entrar num momento estratégico novo, que moldará as suas capacidades
para a próxima década. Por conseguinte, olhando o futuro, a UE continuará a aproveitar
o impulso, através de novas atividades lançadas no âmbito do Centro
Europeu da Conferência Espacial, criando mais oportunidades para a comunidade
espacial europeia se conectar, colaborar e avançar em conjunto.
A
este respeito, Jeremy Wilks, em artigo intitulado “UE insta setor espacial a
acelerar medidas de segurança: 5 pontos da Conferência Europeia do Espaço”,
publicado pela Euronews, a 28 de janeiro, explica tudo, desde logo, a categórica
declaração dos líderes na Conferência Espacial Europeia: “Acabou a
retórica ambiciosa: 2026 tem de ser o ano em que a Europa cumpre, finalmente,
as promessas espaciais.”
Depois,
o colunista aborda as cinco principais mensagens da conferência: destaque para
a segurança; prazos apertados para o IRIS2; coligação de gigantes
espaciais no Projeto Bromo; antecipação de tempestades, antes de elas chegarem;
e espaço que se mantém inspirador,
As
operações espaciais civis foram evitando os laços com o domínio militar, o que
já não é o caso. Assim,
o comissário europeu para a Defesa e o Espaço, Andrius Kubilius, alertou, no
discurso de abertura, que os conflitos na Europa e as tensões geopolíticas
levam “os estados-membros a recear que a
guerra esteja a caminho” e que só a unidade pode defender a UE e dissuadir.
Apontou
o novo serviço de navegação cifrada e segura dos satélites Galileo da UE e o
lançamento, na semana anterior, do GOVSATCOM, um sistema soberano de
comunicações por satélite que recorre a equipamento espacial europeu já
existente.
Para
muitos profissionais do espaço, falar de dupla utilização é reflexo bem-vindo
da realidade do setor. O CEO da Arianespace, David Cavaillolès, refere que a
maioria dos satélites lançados é de dupla utilização, quer no atinente a
telecomunicações e a observação da Terra, quer no atinente a posicionamento, podendo
ter usos civis e militares.
O
diretor-geral ESA, Josef Aschbacher, criticou os estados europeus que atuam,
isoladamente, na segurança espacial, o que os enfraquece. Ora, a ESA promove a European Resilience from
Space (ERS) que permite, na ótica de Josef Aschbacher, “aos estados-membros
manterem o controlo e a propriedade plenos dos seus ativos nacionais, agrupar e
partilhar com outros e, assim, permitir que a Europa beneficie de um sistema de
sistemas integrado”.
Nem
todos confiam nas perspetivas do setor, apesar do afluxo recorde de
financiamento público ao espaço, por parte de governos e de instituições
europeias, no último ano. Por isso, precisa-se de mais contratos públicos e de
melhor visibilidade de longo prazo. E novos protagonistas, como a búlgara
Endurosat, continuam dependentes de capital de risco norte-americano para
crescerem.
A
nova constelação de conectividade segura RIS2 da Europa
avança em ritmo acelerado. E Andrius Kubilius pediu a todos os parceiros que “reforçassem
e acelerassem”, com 2029, agora, apontado para serviços iniciais, embora alguns
suspeitem de deslize para 2030.
Membros
do consórcio Space Consortium for a Resilient, Interconnected and Secure
Europe (SpaceRise), encarregado de construir e de operar esta frota de 290
satélites, têm dúvidas sobre o projeto, admitindo que, por vezes, há “demasiados
cozinheiros na cozinha”. Fabricar terminais terrestres e assegurar componentes
críticos dos satélites continua no topo das preocupações. Não obstante, segundo
Jeremy Wilks, a construção pode arrancar, neste ano, admitindo os responsáveis
que os primeiros satélites IRIS2 poderão ser lançados com
capacidades limitadas e receber melhorias iterativas, ao longo da década de
2030.
Embora
os clientes na Comissão Europeia estejam empenhados no IRIS2, foi
questionado o racional comercial, com operadores de telecomunicações a dizerem,
na conferência, que comprarão largura de banda a concorrentes como a Starlink,
serviço de Internet, via satélite, de alta velocidade e baixa latência,
desenvolvido pela SpaceX, de Elon Musk. Por outro lado, o projeto
enfrenta a concorrência da recém-anunciada constelação TeraWave da Blue Origin,
que visa os mesmos clientes institucionais e empresariais. Contudo, o CEO da
Hispasat, Luis Mayo, e o CEO da SES, Adel Al-Saleh, veem no desenho multiórbita
semelhante do concorrente norte-americano uma validação da sua abordagem.
O
Projeto Bromo, nome de código para a fusão dos pesos pesados Airbus Defence and
Space, Thales Alenia Space e Leonardo, recebeu acolhimento positivo na
conferência. Na verdade, esta “bromance”, no dizer do articulista, “faz
sentido empresarial”, se a Europa quer competir com os Estados Unidos da
América (EUA) e com a China.
O
diretor do European Space Policy Insitute, Hermann Ludwig Moeller, acha normal “consolidar,
tentar otimizar horizontalmente, ser mais eficaz, talvez organizar melhor a
força de trabalho” mas admite que o Projeto Bromo pode travar a vontade do
setor de criar start-ups e de incentivar pequenas e médias empresas (PME).
Já
o vice-presidente da finlandesa IceEye, Joost Elstak, considera “globalmente
positivo”, do ponto de vista europeu, que a UE se torne mais competitiva e
garanta que a indústria consegue competir à escala global.
Também
a previsão de tempestades intensas e violentas poderá tornar-se mais precisa,
já neste ano, à medida que os serviços meteorológicos integrem imagens do novo
satélite MTG-S1 da Organização Europeia para a Exploração de Satélites
Meteorológico (EUMETSAT), organização intergovernamental baseada em Darmstadt,
na Alemanha, responsável pelo desenvolvimento, pela operação e pelo
fornecimento de dados de satélites meteorológicos a 30 estados-membros.
Monitoriza o tempo, clima e ambiente 24/7 (24 horas por dia, em 7 dias, por
semana), apoiando previsões meteorológicas essenciais.
Foram
reveladas, em Bruxelas, as primeiras imagens desta pioneira sonda de
infravermelhos, que mostram como a temperatura, a humidade e a composição da atmosfera
evoluem a diferentes altitudes. O instrumento observa, em simultâneo, quase dois
mil comprimentos de onda, em todo o espectro do infravermelho.
O
diretor-geral da EUMETSAT, Phil Evans, enfatiza que “o que a imagem fornecerá é
informação, em quatro dimensões, sobre a atmosfera”, isto é, disponibiliza
informação ao longo do perfil da atmosfera, à medida que evolui no tempo. É uma
estreia europeia. A primeira imagem foi captada em novembro de 2025, a partir
de uma órbita geoestacionária, 36 mil quilómetros acima do equador, mostrando
faixas de vapor de água a atravessar o Atlântico, variações acentuadas de
temperatura no Saara, topos de trovoadas e plumas de fontes de poluição, como
fábricas de fertilizantes.
Finalmente,
é de frisar que a Conferência concluiu
que, apesar do foco na segurança e na competitividade europeia, as missões
espaciais continuam a inspirar quem trabalha no setor. Assim, Joost Elstak, da
IceEye, lembra reuniões com engenheiros da missão JUICE da ESA às luas
geladas de Júpiter, “a falar sobre como a transferência de Vénus para Júpiter
era a menor das preocupações”, vindo a concluir que “isso é bastante
impressionante”.
A
diretora de Observação da Terra da ESA, Simonetta Cheli, disse ter ficado
deslumbrada, no início do ano, quando foi posto em serviço o satélite Biomass,
que olha para a absorção de CO2 [dióxido de Carbono] pelas florestas
tropicais, uma missão de alterações climáticas, com tecnologia incrível: um
radar de banda P, nunca voado”.
Jean-François
Clervov, astronauta da ESA admitiu continuar fascinado pela procura
de vida para lá do planeta, pelo que recomenda a continuidade da exploração.
Clervoy
esteve na Conferência Espacial Europeia como embaixador da Venturi Space, do
Mónaco, pré-selecionada pela NASA para produzir componentes para um futuro rover
lunar do programa Artemis. Se for escolhida, as primeiras rodas na Lua do
século poderão ser fabricadas na Suíça, alimentadas por baterias produzidas no
Mónaco, com um sistema de controlo de França.
A
9 de fevereiro, a próxima missão Artemis II deverá levar astronautas em volta
da Lua, pela primeira vez, desde 1972, com a nave Orion a depender do European
Service Module, fabricado na Alemanha, para o ar, para a água e para a
propulsão. E, provavelmente, a 11 de fevereiro, Sophie Adenot, astronauta
francesa da ESA partirá, na missão Épsilon, para a Estação Espacial
Internacional, com seus colegas da Crew-12 a bordo de uma cápsula Dragon da
SpaceX, com lançamento previsto para a Florida, nos EUA.
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Há,
pois, muito que esperar da gestão espacial europeia. Na verdade, a UE pode e
deve afirmar a sua autonomia em todas as áreas. Para tanto, tem de mobilizar cientistas,
técnicos, investidores e, sobretudo, decisores políticos que saibam olhar a realidade
e arquitetar o futuro.
2026.02.05
– Louro de Carvalho