Em
1986, a RTP transmitiu uma série realizada por José Asseiceiro, que
mostrava algumas das mais fascinantes atividades humanas que estão a rarear ou
mesmo em vias de desaparecer, engolidas na voragem da sociedade consumista e
mecanicista.
Trata-se
de profissões crestadas pela tradição, como as do moleiro, do oleiro, do
cesteiro, do tanoeiro, do entalhador, do batedor de ouro, do caldeireiro ou do
canteiro, cujo labor está espelhado em muitas obras do património utilitário,
artístico e cultural.
Há
outras profissões – como a lavadeira manual, o posticeiro (que faz postiços), o
dactilógrafo, o charuteiro manual, o lavador de peles ou a governanta de casas
particulares – que são dadas como extintas e que já não constam na Classificação
Nacional de Profissões (CNP).
São,
atualmente, consideradas em risco de extinção – devido ao envelhecimento dos
mestres, à falta de renovação geracional e à concorrência industrial – a
profissão de calceteiro, que enfrenta futuro incerto, por causa da escassez de
novos profissionais para manter a famosa calçada portuguesa; a de alfaiate, uma
vez que a roupa por medida, à mão, está a tornar-se extremamente rara, com
poucos jovens a aprender o ofício; a de amolador, cujo serviço, fixo ou
ambulante, de afiar tesouras e facas sobrevive apenas em locais específicos; a
de cestaria de cana e palha (arte de entrançar fibras vegetais), ainda muito
presente em regiões, como o Algarve e na zona de Tondela, que perdeu expressão
com a produção plástica e industrial; a de resineiro, que extraía resina dos
pinhais e que empregou milhares de pessoas, no interior do país; a de
encadernador artesanal (que faz a reparação e a costura manual de livros em
capas de pele ou de tecido), que já conta com pouquíssimos artífices ativos; a
de latoeiro e funileiro, que trabalham, respetivamente, com folha de latão e
com folha de flandres; a de oleiro de barro preto, ainda presente em Molelos (município
de Tondela) e em Bisalhães (freguesia de Mondrões, município de Vila Real); ou
a do caldeireiro artesanal, o profissional especializado no fabrico, na montagem
e na reparação de estruturas metálicas, caldeiras, tanques, tubagens e outros
recipientes de metal, que ainda subsiste em Loulé, mas que cedeu ao caldeireiro
industrial / metalomecânico, também em situação crítica, mercê da arduidade do
trabalho e da magreza do salário.
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Merecem
especial destaque a alfaiate e o calceteiro.
A
alfaiataria é ofício reconhecido desde 1826, quando o algibebe (pessoa ou loja
que vende roupa pronta a vestir, nova ou usada, mas de fraca qualidade) deixou
de ter o exclusivo da matéria-prima e aos alfaiates foi permitido vender fato
feito, comprando os tecidos aos mercadores. Começou aí a especialização de uma
profissão que, 200 anos depois, está em vias de extinção, apesar dos esforços
para que sobreviva. Em 1964, Portugal tinha 6500 alfaiates e três mil mestres.
Todavia, o pronto a vestir, ganhando tração, levou a dianteira à máquina de
costura e fez com que a fita métrica, o giz e a tesoura fossem, paulatinamente,
postos de lado.
A
profissão de calceteiro tem dado forma às ruas das cidades, das vilas e de
muitas aldeias. Todos os dias, milhares de pessoas trilham desenhos em pedra
que fazem parte da identidade de Lisboa. Mas, por trás da calçada portuguesa,
há um ofício que está a perder quem o sabe fazer. A Câmara Municipal de Lisboa (CML),
reconhecendo que o risco de desaparecimento da profissão de calceteiro é permanente,
admite que renovar esta geração de profissionais é um dos maiores desafios para
preservar um dos maiores símbolos da cidade. A preocupação não está só no
número reduzido de profissionais (de 20 a 40), mas também na idade de quem
exerce a profissão. A média etária ultrapassa os 55 anos e, dentro de cerca de
uma década, muitos destes trabalhadores estarão em condições de se reformar.
Para
o município lisboeta, garantir o futuro da profissão passa por conseguir atrair
jovens para uma carreira fisicamente exigente e pouco atrativa, do ponto de
vista salarial. Todavia, é preciso repensar a tabela salarial e continuar com a
formação.
A
CML tem uma Escola de Calceteiros. Porém, o cenário descrito pelo Sindicato dos
Trabalhadores do Município de Lisboa é diferente. Segundo o presidente da
estrutura, Nuno Almeida, a escola está “quase inativa”, sem ações de formação,
há mais de dez anos. E trabalhadores ouvidos pela Lusa garantem que quem
entra na profissão acaba por aprender, sobretudo, no terreno, acompanhando
colegas mais experientes.
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O
desaparecimento de tantas profissões é explicado pelos especialistas com a
evolução da sociedade, das tecnologias e do mercado de trabalho. Porém,
enquanto algumas ocupações profissionais desapareceram, outras têm
representação mínima no mercado de trabalho e já nem são consideradas como
profissões e outras transformam-se, aglutinando-se com outras.
Em
entrevista à Lusa, em julho de 2007, Ana Campos, técnica superior do
Instituto do Emprego e da Formação Profissional (IEFP), ligada ao projeto de
revisão da CNP, falou das dificuldades sentidas pelos técnicos para descobrirem
profissões extintas ou em vias de extinção e para encontrarem novas no mercado
de trabalho.
Para
as encontrarem, os técnicos analisam o mercado, contactam empresas, sindicatos,
associações, parceiros sociais, entre outras entidades. “No projeto de revisão
da CNP em curso [em 2007] as profissões consideradas extintas ou em vias de
extinção são aquelas que existiam na classificação de 1994 e que, entretanto,
deixaram de existir no mercado de trabalho”, explicou, vincando que a questão é
mais complexa, porque, em algumas situações, as profissões acabaram, mas outras
apenas se transformaram no sentido de se aglutinarem com outras.
Segundo
aquela técnica do IEFP, por vezes, as profissões não existem, por uma questão
de designação ou de conteúdo, e outras até podem existir, mas, se tiverem
representação mínima no mercado acabarão por se extinguir ou nem serão
consideradas como profissão.
No
atinente às novas profissões, Ana Campos, considerava que ainda são mais
difíceis de encontrar. “As pessoas começam por desempenhar determinadas tarefas
e o mercado evolui, algumas vêm a ser profissões outras não”, afirmou,
discorrendo: “Quando olhamos e analisamos o mercado, as profissões, as tarefas
das pessoas, é que vamos tentando delinear o que é são novas profissões e estas
não aparecem de um dia para o outro.”
Por
vezes, as profissões aparecem no mercado, sem terem um papel que as defina e
esse papel deve ser claramente definido. Porém, uma coisa é uma profissão ser nova,
como tarefa que não existia e de que houve necessidade no mercado, e outra é o
conceito de novo que se transformou e, portanto, se aglutinou. E, para Ana
Campos, é muito difícil conseguir abarcar tudo, pois são muitas profissões e o
mercado de trabalho evolui muito rapidamente.
Surgem
também profissões ligadas às engenharias do Ambiente, do aeronáutico do aeroespacial],
de dietistas, de preparador físico, de técnicos de radioterapia, de técnicos de
análises clínicas e de higienista oral, entre outras.
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A
preservação do artesanato tradicional é tarefa importante e, mais do que
integrar ou constituir núcleos museológicos, deve levar a que o artesanato
reencontre o seu lugar no mercado, como memória, como prenda ou como atração
turística. Não é fácil uma escola entregar-se, exclusiva ou predominantemente,
à formação artesanal. Por outro lado, na formação profissional, a escola não
ensina tudo. Muita da aprendizagem é feita em serviço ou em contexto real e com
a ajuda de quem é experiente (melhor ainda, se conseguir aliar a teoria à
prática).
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Bom
exemplo de recuperação dos saberes tradicionais é o que se está a passar no Uzbequistão.
Disso nos dá conta o jornalista Rushanabonu Aliakbarova, em artigo intitulado “Artesãos
do Uzbequistão transmitem saberes tradicionais às novas gerações”, publicado, a
29 de setembro, pela Euronews, segundo o qual oficinas tradicionais, naquele
país, “ensinam às novas gerações a arte da talha em madeira, do bordado e da
cerâmica, adaptando-a a gostos atuais e a novas oportunidades”.
Muitas
vezes, os uzbeques (ou uzbequistaneses) aprendem os ofícios tradicionais, no
trabalho com mestres experientes em técnicas transmitidas de pais e avós às
gerações mais novas. Assim, a oficina pode, no dizer do jornalista, “ser sala
de aula, local de trabalho e arquivo de família”. Num processo de anos, os
aprendizes começam por tarefas básicas e vão aprendendo a lidar com materiais, com
ferramentas, com motivos decorativos e com técnicas, mantendo-se, em algumas
famílias, o ofício ao longo de várias gerações, em quanto, noutros casos, as
oficinas passaram a ser locais onde as pessoas aprendem uma profissão para
ganharem a vida.
Rushanabonu
Aliakbarova menciona o caso do entalhador de madeira, Muhammadali Yunusov, do
distrito de Furqat, na região de Fergana, que mantém a tradição familiar que já
vai em cinco gerações. Começou a trabalhar, de forma independente, aos 15 anos,
e estudou, mais tarde, em escolas profissionais, enquanto aperfeiçoava as
competências. Hoje, os filhos trabalham na mesma área, tornando‑se a sexta
geração de artesãos da família, e os netos também já estão a aprender o ofício.
Yunusov
afirma que a sua oficina, atualmente, com quase cem aprendizes, já formou mais
de dois mil aprendizes. Muitos colaboraram com ele em trabalhos de talha
decorativa e na construção de ayvons tradicionais, ou seja, terraços ou varandas
cobertas e abertas na frente, esculpidas ao pormenor, com elementos de madeira
entalhada. E, em seu entender, tornar‑se mestre começa pela paciência e pela
determinação, pois, se pequenas áreas de uma peça podem ocupar um dia inteiro
de trabalho, peças maiores podem exigir semanas, porque os motivos são
esculpidos, à mão, com cinzéis finos, conhecidos como ‘naqshqalam’.
Também
a madeira exige preparação. Por exemplo, nogueira, olmo, amoreira e plátano
podem ficar de molho em água, durante seis meses ou mais, antes de serem secos
e trabalhados. A madeira é, depois, cortada em pranchas, novamente seca e
moldada, de acordo com o objeto final, seja um portão, uma coluna, uma porta ou
estrado de madeira. Os desenhos incluem motivos geométricos e islâmicos, com
formas diferentes, a transmitir significados distintos. Trabalha-se no que Yunusov
descreve como estilo de Fergana, uma das cinco grandes tradições regionais do
artesanato uzbeque, a par dos estilos de Tashkent, Samarcanda, Bukhara e
Khorezm.
Para
ele, as peças mais valiosas são as pensadas para durarem gerações,
nomeadamente, elementos arquitetónicos, como ayvons e portões, que podem
permanecer parte de um edifício, durante décadas ou séculos. Assim, o trabalho
de um mestre e dos seus aprendizes pode integrar a História física de um lugar.
A
tecnologia também entrou na oficina, de modo que a inteligência artificial (IA)
tem ajudado a encontrar referências a desenhos e técnicas que se tinham tornado
menos familiares, ao longo do tempo, oferecendo novas fontes de inspiração.
O
jornalista faz referência a outra oficina em Fergana, em que os ofícios
tradicionais servem também de fonte de emprego. Atesta-o Sadokat Mirzayeva, que
dirige um centro de artesanato e instituição de ensino onde mulheres e
raparigas aprendem diferentes técnicas e recebem apoio para encontrar trabalho.
O centro já formou mais de 500 mulheres e raparigas, em seis anos. E mais de cem
trabalham com a empresa, a partir de casa ou como funcionárias permanentes.
As
artesãs produzem mais de 100 tipos de artigos, como bonecas tradicionais,
brinquedos populares, malas, chapéus e outras peças de cabeça, robes chapan e
outras peças de vestuário. Os produtos são fornecidos a centros turísticos,
mercados regionais e lojas duty‑free do Aeroporto Internacional de Tashkent ou
exportados para países da Ásia Central.
O
chapan ou chopon é um casaco usado sobre as roupas, geralmente, nos
meses frios do inverno. Geralmente, usados por homens, esses casacos são
adornados com fios intrincados e vêm numa variedade de cores e padrões.
Para
Mirzayeva, preservar o artesanato tradicional está ligado à criação de
oportunidades para as mulheres desenvolverem competências práticas e obterem
rendimento. Os artigos são feitos com materiais naturais, como seda e algodão.
O bordado, o vestuário tradicional e os motivos clássicos continuam no centro
dos desenhos, enquanto as encomendas individuais permitem aos clientes pedirem
novos produtos ou adaptações. A sala de exposição reúne estas diferentes formas
de artesanato, dando aos visitantes o ensejo de as verem num só espaço.
Também
em Tashkent, a família Rakhimov trabalha a cerâmica, há sete gerações. E o
ceramista Shokhrukh Rakhimov observa que a herança tal conhecimento implica
responsabilidade. Cada nova geração, primeiro, tem de aprender o que veio antes
e, depois, desenvolver as próprias ideias. E a família tem uma identidade
visual própria, incluindo a combinação de verde e preto associada à cerâmica de
Tashkent. Ao mesmo tempo, Rakhimov considera essencial que os artesãos mais
jovens experimentem novas formas e abordagens.
O
trabalho com o barro é um processo de colaboração. Em vez de controlar
totalmente o material, o artesão responde ao comportamento da argila e vai
guiando a peça até à forma desejada. E a cerâmica Rakhimov integra influências
de diferentes culturas e períodos. E cores, ornamentos e símbolos podem ter
significados específicos, com flores, pássaros e peixes a surgirem em desenhos
associados a ideias, como paraíso, liberdade, felicidade e vida.
Exposições
internacionais e bienais deram à oficina oportunidades de colaborar com
artistas de outros países e de experimentar abordagens contemporâneas, mantendo
as técnicas tradicionais. Porém, aprender o ofício é um processo longo. Os
jovens aprendizes podem passar anos a aprender a manter o ateliê e a trabalhar
com as ferramentas, antes de avançarem para a preparação do barro, dos vidrados
e das cores e de criarem as próprias peças.
A
paciência é uma das qualidades essenciais para dar continuidade à tradição
familiar. As três oficinas diferem nos materiais e nas técnicas, mas têm algo
em comum na forma como ensinam. Yunusov lembra que o pai começou por lhe
ensinar a pensar, a manter a concentração e a abordar cada trabalho com
determinação. O seu aprendiz, Samandar Tokhirov, que entrou na oficina, aos 14
anos, confessa que o interesse pela talha em madeira cresceu, à medida que
começou a aprender com o mestre, e diz que o passo seguinte foi trabalhar em
peças maiores e mais complexas e levar as tradições uzbeques a um público mais
vasto.
Nas
oficinas de Fergana e de Tashkent, o artesanato tradicional faz parte da vida
familiar e da formação profissional. As técnicas podem ser antigas, mas quem as
aprende, hoje, trabalha com novas tecnologias, mercados e ideias. Há três
oficinas, três artes diferentes e uma lição comum: a mestria exige tempo. E as tradições
mantêm‑se quando alguém está disposto a aprendê‑las, a praticá‑las e a transmiti‑las.
***
Gosto,
paciência, determinação e consciência do valor das raízes identitárias de um
povo são cruciais para a redescoberta destes valores tradicionais (artísticos,
culturais e utilitários), que bem podem conviver com novas técnicas e com novos
produtos, num espaço de todos.
2026.09.29
– Louro de Carvalho