sexta-feira, 13 de março de 2026

A ciência está a olhar de outra forma para a escamas de peixe


As escamas de peixe acabam no caixote do lixo dos mercados e das nossas casas. Porém, nos laboratórios do Departamento de Histologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Granada (UGR), o Grupo de Engenharia de Tecidos examina, com novo olhar, estes resíduos, cujo resultado é o implante de córnea (queratoplastia) biocompatível, resistente e transparente, a partir das escamas da carpa e de outros peixes de consumo comum.

Segundo a equipa de investigação, os testes laboratoriais e em animais mostraram promissores resultados para reparo e regeneração da córnea. Os implantes de escamas de peixe são transparentes, duráveis e altamente compatíveis com tecido biológico.

A investigação foi financiada pelo Instituto de Saúde Carlos III, do Ministério da Ciência, Inovação e Universidades, através do projeto PI23/00335. O trabalho foi apresentado na presença do diretor do Hospital Clínico San Cecilio de Granada, Manuel Reyes, o que reflete o interesse do meio clínico no desenvolvimento desta linha de investigação.

A este respeito, o jornalista Jesus Maturana, em artigo intitulado “Transplantes de córnea feitos de escamas de peixe, a mais recente descoberta da medicina espanhola”, publicado pela Euronews, a 12 de março, dá-nos conta de que investigadores da UGR desenvolveram implantes de córnea, a partir de escamas de peixe”, uma descoberta que “abre uma via” à redução da “dependência dos transplantes”.

O jornalista lembra que “a córnea é a camada transparente que cobre a parte da frente do olho” e que tem “função ótica essencial”. Com efeito, quando fica gravemente doente, regenera-se mal e não recebe irrigação sanguínea direta, o que complica o tratamento, sendo o transplante de um dador, em muitos casos, a única saída. Porém, a dependência de dador e a limitação da disponibilidade de tecido saudável levam a que as listas de espera sejam longas. “É necessário desenvolver novos métodos eficazes de regeneração que não dependam da doação de órgãos”, afirma Miguel Alaminos, professor de Histologia da UGR.

O estudo, publicado na revista “Materials & Design”, explicita como a análise dos flocos permitiu obter um biomaterial com propriedades adequadas para ser utilizado na reparação da córnea. Os testes efetuados em condições laboratoriais e em animais experimentais deram bons resultados funcionais. E, para lá do interesse clínico, os investigadores destacam uma vantagem prática: a origem do material torna-o barato e fácil de obter, pois as escamas de peixe são um subproduto da indústria pesqueira que é, geralmente, descartado. A sua transformação em matéria-prima para implantes médicos abre um potencial de utilização que pode ter consequências económicas, no litoral e no interior dos países.

De acordo com a explicação de Ingrid Garzón, professora de Histologia da UGR e investigadora do Instituto de Investigação Biosanitária ibs.GRANADA, este produto é muito acessível, fácil de obter e barato, e poderia contribuir para impulsionar o setor da pesca, numa zona que está a ser afetada por numerosas restrições e condicionantes”.

Os resultados preliminares são suficientemente sólidos, para justificar a sua continuação. A fase laboratorial e os testes em animais passaram os primeiros filtros, mas, antes de este tipo de implante chegar à sala de operações, é preciso completar os ensaios clínicos em humanos, o que demora anos e postula regulamentação rigorosa.

Para já, a equipa da UGR conseguiu a demonstração de que o material funciona a nível biológico e estrutural. O facto de as escamas de carpa serem convertíveis numa córnea viável ainda não é realidade clínica, mas é hipótese fortemente apoiada por dados. Num domínio em que a escassez de dadores continua a ser problema, sem solução fácil, isso é bastante.

 

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Sobre o mesmo tema, o jornal espanhol “El Mundo” publicou, também a 10 de março, um artigo intitulado “De um mercado em Granada para os seus olhos: desenvolvem uma córnea bioartificial à base de escamas de carpa”, em que a jornalista Rocío R. García-Abadillo refere que, embora os resultados da investigação sejam promissores, ainda temos de esperar de quatro a cinco anos, para que  tais córneas cheguem a um paciente.

A jornalista do “El Mundo” levanta a hipótese de ter sido, “enquanto faziam compras na peixaria, preparavam o jantar, em casa, ou assistiam a um documentário sobre a Natureza, numa tarde de domingo”, que surgiu o momento exato de “Êúrêka!” arquimediano que inspirou os pesquisadores “a considerarem as escamas de peixe como um material adequado para a criação de córneas artificiais”. Seja como for, testaram a ideia, que funcionou, pelo menos, nos modelos laboratoriais. E Miguel Alaminos revela que, um dia, “meio que por acaso”, começaram a pensar em escamas de peixe, que “são muito duras, mas flexíveis e transparentes”.

O investigador diz que é um processo em que a sorte desempenha relevante papel. Passaram o dia a procurar novos materiais, a tentar aprimorar os produtos que fabricavam. Às vezes, não funcionavam, mas, outras vezes, mostraram-se “muito biocompatíveis” e a funcionarem “muito bem”. Trata-se, pois, de processo de meses ou de anos, até se verem “as células proliferarem, os genes expressos serem os corretos, assim como as propriedades físicas...”

Como refere a articulista, o historial do grupos já se estende por mais de 25 anos, ou seja, desde a criação do Grupo de Engenharia de Tecidos no Departamento de Histologia da Faculdade de Medicina da UGR. Durante esse período, desenvolveram uma córnea artificial (o seu primeiro produto), uma pele artificial, que implantaram em mais de 25 pacientes, tal como desenvolveram um palato artificial, que foi implantado em cinco crianças.

O Grupo fabrica esses produtos e aprimora-os, continuamente, como fez, agora, com a córnea, na constante demanda por propriedades aprimoradas e por maiores benefícios para os pacientes. O problema, de acordo com Miguel Alaminos, é que, por serem terapias avançadas e regidas por legislação complexa, a nível europeu, levam tempo a chegar às aplicações clínicas, isto é, para serem usadas pelos pacientes; e cada avanço ou aprimoramento exige nova autorização da Agência Europeia de Medicamentos (EMA). É começar do zero. A primeira córnea levou 10 anos; a pele artificial; de seis a sete; e o palato artificial, cerca de cinco.

Para a córnea bioartificial (os materiais são biológicos) chegar ao olho de uma pessoa, ainda será de esperar quatro a cinco anos, na melhor das hipóteses.

Todavia, Miguel Alaminos revela o que fizeram, desde o momento em que surgiu a ideia. Começaram a investigação, compram os peixes no mercado e levam-nos para o laboratório, o mais rápido possível, porque, tal como na culinária,  produto fresco é sempre preferível. Inicialmente, procuravam as espécies de peixe mais comuns que viam nos mercados de Granada, onde investigam. Testaram salmão, sardinha, dourada e peixe-vermelho – peixes  utilizados comumente – e descobriram que todos são bastante adequados, pois, sendo produtos fornecidos pela Natureza, as suas células desenvolvem-se muito bem.

O plástico artificial, como observa o investigador, não é o mesmo que um produto natural. Todos funcionam muito bem, mas nota-se que “algumas escamas são um pouco mais transparentes, outras um pouco mais resistentes, outras um pouco mais biocompatíveis, e assim por diante”. Foram analisadas diversas espécies animais, mas concluíram, no final, que as escamas de carpa, de um peixe de água doce, oferecem as melhores propriedades gerais, entre todas as mencionadas, embora todas tenham os seus prós e contras.

E o cientista, pormenorizando, explicita que se retiram, com pinças, as escamas do tamanho certo e se processam, para remover o que não é necessário. Como as escamas de peixe contêm muitos componentes muito úteis, para nós, porque “não somos tão diferentes dos peixes, do ponto de vista evolutivo”, como se poderia pensar, há componentes da pele humana presentes nas escamas de peixe, o que postula que se mantenham. Em paralelo, há coisas que são muito diferentes, porque se passaram milhões de anos, desde a evolução, pelo que devem ser eliminadas. É, por exemplo, o caso das células de peixe presas à epiderme do peixe ou a camada fina de carbonato de cálcio  (CaCO3), que a maioria das escamas tem na sua superfície.

Para limpar as escamas, os investigadores usam um processo que vêm aprimorando, há “muitos meses, em laboratório”, e que “envolve a combinação de vários produtos”, mas, sobretudo, um “ácido que ajuda a eliminar todo o cálcio, as células e qualquer tecido epidérmico remanescente que não seja mais necessário”. Isso resulta num biomaterial que forma o núcleo da escama, utilizável em engenharia de tecidos. “A parte central contém colágeno e outros materiais muito úteis. Em seguida, lavamos bem e começamos a fixar células da córnea, que obtemos de culturas de células cultivadas em laboratório”, explica Alaminos.

O investigador diz que as células são depositadas na superfície, usando materiais e meios de cultura que permitem criar várias camadas de células sobre a escama, resultando em algo semelhante à córnea humana. E explica: “A córnea humana tem um material composto por muitas fibras paralelas transparentes e resistentes. E, sobre ele, há células. É mais ou menos isso que temos: material resistente e transparente com células da córnea sobrepostas. É semelhante a uma córnea artificial e, teoricamente, poderia ser implantada num paciente.”

Enquanto a pele forma cicatriz e se fecha bastante rapidamente, quando lesionada, a córnea cicatriza muito lentamente, por não ter vasos sanguíneos, resultando em capacidades limitadas de regeneração e de reparo. Por exemplo, trabalhadores rurais, às vezes, perfuram os olhos com galhos de árvore, causando buraco ou úlceras que duram semanas, meses ou anos. Assim, os primeiros pacientes serão os que têm danos graves na córnea e essas úlceras, tendo perdido a visão ou sentindo dores oculares terríveis. Há de ser possível remover a córnea danificada e substituí-la pela transparente criada, mas isso levará algum tempo, no dizer do cientista.

Outra vantagem inegável é não depender de doações: “Muitos desses pacientes com patologias corneanas graves só podem ser tratados por meio de transplante. Embora o transplante convencional ofereça, geralmente, bons resultados, é necessário desenvolver novos métodos eficazes de regeneração que não dependam da doação de órgãos, que está sujeita a listas de espera”, observa o investigador.

Miguel Alaminos relata que, há um ano, também analisaram a lula, mas os resultados não foram melhores do que os oferecidos pela córnea artificial e não prosseguiram com essa linha de investigação. Admite que será útil para outros produtos, como cartilagem, mas não para córneas. Agora, tentam aprimorar a córnea, incluindo fatores de crescimento, fatores bioativos encontrados no azeite de oliva, que, segundo descobriram, fazem as células proliferarem mais e se diferenciarem melhor. Tentam criar tecidos artificiais com esses produtos à base de azeite de oliva e aprimoram produtos com nanopartículas que podem conter fatores biológicos, fatores de crescimento, antibióticos, etc. – coisas de que o paciente precise. Enfim, aprimoram os produtos que fabricam, para benefício dos pacientes que os receberem, no futuro.

Por último, como dizem os investigadores, embora sejam necessários ensaios em humanos, antes de as córneas poderem ser usadas clinicamente, a inovação representa um passo promissor rumo a tratamentos “acessíveis e económicos”, para pacientes, em todo o Mundo, potencialmente aliviando a escassez global de tecido doador. Com efeito, esta opção não carece de doador, só bastando que haja peixes para pescar e que a União Europeia (UE) não imponha quotas de pesca para fins clínicos.

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Trata-se de mais um avanço na oftalmologia e na cirurgia oftálmica.

É de lembrar que, em outubro de 2023, era notícia a criação do primeiro Banco de Córneas de Cultura, no Centro Hospitalar de Santo António, no Porto, a respeito do qual o então ministro da Saúde, Manuel Pizarro, no dia da inauguração, a 13 daquele mês, dizia que aquele investimento do Serviço Nacional de Saúde (SNS) era iniciativa que criava “valor, para as pessoas”, permitindo “fazer mais transplantes de córnea e reduzir o tempo de espera para a intervenção”. E salientava o “elevado humanismo” da nova resposta, considerando que tudo era feito “em nome das pessoas”, sendo o Banco de Córneas do Santo António “exemplo perfeito” de como “o SNS cumpre o desiderato humanista e essencial de democratizar o acesso à inovação tecnológica e científica, na área da Saúde”.

A criação do Banco de Córneas de Cultura – resultante da cooperação entre o Serviço de Oftalmologia, o Serviço de Anatomia Patológica (técnicos de citopatologia), o Centro Materno-Infantil Albino Aroso (biólogos do Banco de Gâmetas), o Centro de Transplantação e o Departamento da Qualidade – abriu caminho à duplicação do número de doentes transplantados, robustecendo o programa e permitindo a oferta de córneas a outros hospitais. O processamento laboratorial da córnea, em meio de cultura, ultrapassando a conservação a frio, permite alargar os critérios de colheita, o prazo de validade e a qualidade dos tecidos colhidos.

A escassez de tecidos, já então apontada, é o passo limitante do processo de transplantação de córneas. Até àquela data, o Santo António obtinha 150 a 200 córneas, por ano, aquém das potencialidades do programa de transplantação. Ora, é necessário, como sustentava Manuel Pizarro, “cooperar em rede, partilhar os recursos”, pois, “os cidadãos pedem serviços de qualidade”, mas “exigem rentabilização dos serviços e dos recursos públicos existentes”.  Por exemplo, sublinhava o governante, os centros hospitalares de São João e de Santo António partilham a urgência de oftalmologia, aplaudindo o aumento da capacidade de obter córneas, possibilitando partilha de tecidos entre hospitais e evitando importação estrangeira.

Neste contexto, o então ministro da Saúde agradeceu “a dedicação e empenho dos profissionais”, destacando que o novo Banco foi “uma iniciativa dos profissionais do Santo António, que mobilizaram a sua energia, em prol da dignidade das pessoas”.

Como a córnea é, no olho, a estrutura transparente que está à frente da íris, o desafio é devolver transparência, quando há patologia que põe em causa a passagem de luz. O Hospital de Santo António fez o primeiro transplante de córnea, em 1958, e foram, até 1980, efetuados 198, o que representava uma média de nove, por ano. Em 1980, o hospital criou o Banco de Olhos para córneas refrigeradas, o que permitiu a conservação das córneas, por alguns dias, possibilitando atividade mais regular. Com o banco de cultura, o número de potenciais dadores aumenta, bem como o tempo de preservação. A preservação vai até um mês, em vez de uma semana ou duas. Isto porque a preservação a frio permite a utilização das córneas até ao máximo de 14 dias, tratando-se de um método com outras limitações, porque exclui os dadores acima dos 80 anos de idade e as vítimas de septicemia. Já o “Banco de Córneas de Cultura” permite o processamento laboratorial em meio biológico, ultrapassando a conservação a frio, alargando os critérios de colheita, além do prazo de validade e a qualidade dos tecidos colhidos.

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Nesta matéria, os países ibéricos são pioneiros.

2026.03.12 – Louro de Carvalho


quinta-feira, 12 de março de 2026

Está reaberto o debate sobre a energia nuclear na Europa

 

O presidente francês, Emmanuel Macron, e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, foram os anfitriões de uma cimeira de energia nuclear, em Paris, a 10 de março, para o relançamento da aposta e do investimento nessa energia. No 15.º aniversário do desastre de Fukushima, até o Japão está a voltar ao nuclear e a Europa não quer ficar para trás.

Com a operação militar, de grande envergadura, dos Estados Unidos da América (EUA) e de Israel no Irão e em alguns dos países limítrofes, voltámos à crise petrolífera dos anos 1970. Como diz o físico nuclear Luís Guimarãis, a cimeira ecoa “o choque petrolífero de 1973”, com outras roupagens, mas com as iguais caraterísticas. Na altura, a França apostou no seu programa nuclear, construindo 56 reatores, em cerca de 15 a 20 anos; e, hoje, continua a ser o maior exportador de eletricidade e a espinha dorsal do sistema elétrico europeu. Porém, a invasão da Ucrânia pela Rússia pôs a nu a extrema dependência europeia do petróleo e do gás russos; e, agora, por via da guerra dos EUA e de Israel contra o Irão, este país, em retaliação, fechou o Estreito de Ormuz, com impacto na circulação dessa matéria-prima.

É curioso terem sido aqueles os anfitriões da cimeira de Paris, considerando o seu papel na desaceleração da energia nuclear, nas últimas décadas. Ursula Von der Leyen foi adepta do encerramento das centrais alemãs, quando integrava o governo alemão, e Emmanuel Macron arrancou a sua campanha para o primeiro mandato, em 2017, a prometer o  encerramento de uma porção do parque nuclear francês, tendo chegado, a encerrar dois reatores, sem necessidade, porque ambos cumpriam os padrões de segurança e de rendibilidade.

A presidente da Comissão Europeia pronunciou-se a favor da energia nuclear, que assegura o fornecimento de eletricidade à população e à indústria, a preços acessíveis e sem impacto no clima, e denominou de “erro estratégico” o abandono da energia nuclear.

Enquanto ministra do Trabalho e dos Assuntos Sociais, Ursula von der Leyen, pela União Social Cristã (CSU) desempenhou papel fundamental no abandono da energia nuclear, na Alemanha, no mandato da chanceler Angela Merkel, da União Democrata-Cristã (CDU), que não se pronunciou sobre a atual crise dos preços da energia. Após a catástrofe nuclear de Fukushima, no Japão, a 11 de março de 2011, a então coligação governativa decidiu acelerar, rapidamente, o abandono progressivo da energia nuclear anteriormente planeado. Os últimos reatores em funcionamento, na Alemanha, foram encerrados em 2023.

Após o abandono da energia nuclear, a Alemanha passou a abastecer-se, em grande parte, da energia russa. Com o início da guerra na Ucrânia, tal abastecimento sofreu enorme redução. Como denunciou o presidente dos EUA, no Fórum Económico Mundial, em Davos, a Alemanha lidera a alta dos preços da eletricidade, na União Europeia (UE). No primeiro semestre de 2025, o preço da eletricidade para as famílias, por 100 quilowatts-hora (kWh), foi de 38,4 euros. A média da UE é de 28,7 euros. Em 2010, o preço da eletricidade alemã, para as famílias, era de 23,7 euros. Os elevados custos da energia são desafio permanente para as famílias e para a indústria.

Para o economista Daniel Stelter, a Alemanha aumentou os preços da eletricidade e as “tendências de desindustrialização por sua própria culpa”, tendo por sensato o regresso à energia nuclear, que é mais rendível do que as energias renováveis, se forem tidas em conta determinadas condições. Com efeito, estimam-se poupanças, a longo prazo, na ordem dos “milhares de milhões” de euros, com a combinação de energias renováveis e energia nuclear.

Porém, os Verdes criticam esta medida, como erro estratégico, 15 anos depois de Fukushima; e enfatizam que a questão dos resíduos nucleares continua por resolver e que a Europa, em vez do nuclear, precisa de rapidez com as renováveis, em nome da soberania energética.

Também o chanceler Friedrich Merz, da CDU parece ser contra um renascimento nuclear. Apesar de ter criticado o abandono progressivo da energia nuclear, sob o comando da sua rival de longa data, Angela Merkel, exclui a energia nuclear alemã. E o ministro Federal do Ambiente, Carsten Schneider, do Partido Social Democrata (SPD), é crítico da questão, ao afirmar que “a Alemanha fez bem em abandonar a energia nuclear” e que está a ser extremamente rápida “na expansão das energias renováveis”. Assim, a Alemanha parece opor-se aos planos da UE, mas a presidente da Comissão Europeia sustenta que “a Europa deve tornar-se um centro mundial para a energia nuclear de nova geração”. Para tanto, a UE está a centrar-se no desenvolvimento de centrais mininucleares, que deverão estar operacionais, até 2030, e que se destinam a apoiar, de forma flexível, as centrais nucleares convencionais.

A ativista Anna Veronika Wendland é cética, quanto aos minirreatores nucleares, cuja vantagem é serem intrinsecamente seguros e poderem ser produzidos numa linha de montagem, o que permite a sua construção em parques industriais e em cidades. Porém, não há uma central à escala industrial licenciada, na UE, e que possa ser construída na sua área geográfica.

No passado, o ministro presidente da Baviera, Markus Söder, da CSU, entre outros, pronunciou-se a favor de centrais mininucleares. “Compramos energia nuclear a França e à Chéquia, mas rejeitamos a energia nuclear aqui”, declarou, numa entrevista ao “Welt am Sonntag”, no final de 2025. No entanto, para permitir o regresso à energia nuclear, o Bundestag teria de alterar a proibição nuclear prevista na Lei da Energia Atómica.

Na UE, a energia nuclear é proibida, por lei, na Alemanha e na Áustria. Na Itália, foi abolida por referendo. É produzida em vários países da UE, como a França e a Eslováquia. A Chéquia planeia investir milhares de milhões de euros em reatores, até 2050.

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A Bélgica decidiu, a 15 de maio de 2025, no contexto de um clima político europeu favorável à energia atómica, revogar a sua lei nacional de abandono progressivo da energia nuclear, prevendo a possibilidade de reativar a indústria atómica, no futuro, com possibilidade de construir novas centrais, o que representa uma alteração política e energética na Bélgica.

Em 2003, a Bélgica decidiu suprimir, progressivamente, os seus sete reatores nucleares, entre 2015 e 2025. Porém, o governo decidiu voltar atrás neste compromisso, para obviar aos desafios atuais, por se tratar de fonte de energia com baixo teor de carbono e de fonte de energia abundante, segundo Mathieu Bihet, ministro belga da Energia, que enuncia os três objetivos partilhados pelos parceiros europeus – segurança do aprovisionamento, preço controlado e energia de baixo teor de carbono – que a energia nuclear permite atingir.

Entretanto, é de anotar que a escolha belga não é uma escolha isolada na UE, mas faz parte de uma dinâmica política que atravessa outros estados-membros, intrinsecamente ligada à situação de incerteza geopolítica e da dependência do gás. A UE tem cerca de cem reatores nucleares, em 12 países: a Bélgica, a Bulgária, a Espanha, a Finlândia, a França, a Hungria, os Países Baixos, a Chéquia, a Roménia, a Eslováquia, a Eslovénia e a Suécia. Quase um quarto da eletricidade produzida na UE provém da energia nuclear. E esta dinâmica a favor do átomo está a estender-se a países que não dependem, ou já não dependem, desta tecnologia.

A Alemanha é tida como ponto de partida para a transição, a nível europeu. Em 2011, o país comprometeu-se a abandonar, progressivamente, a energia nuclear, reforçando, o seu estatuto de voz do movimento antinuclear, na UE. Tal objetivo foi atingido, em abril de 2023, com o encerramento das últimas três centrais. Na campanha eleitoral do início de 2025, Friedrich Merz, prometeu estudar a possibilidade de reativar o setor, mas, depois, admitiu que o regresso ao nuclear era improvável, tanto mais que a questão divide a coligação que lidera. No entanto, a sua promessa marcou profunda rutura ideológica no panorama político alemão.

A Itália também está a considerar a reintrodução da energia nuclear. No final da década de 1980, decidiu pôr fim à energia nuclear, mas Giorgia Meloni fixou o ano de 2030 como data limite para o regresso à energia nuclear, pois este recurso ajuda a garantir a segurança energética do país e a atingir os objetivos ambientais da descarbonização. E, por razões similares, a Polónia iniciou vasto programa nuclear, pelo qual decidiu construir a primeira central elétrica, em 2022, com a entrada em funcionamento do primeiro reator prevista para 2033.

Deve acrescentar-se à lista de estados-membros que não querem virar as costas ao átomo a Dinamarca, que adotou legislação no mesmo sentido e no mesmo dia que a Bélgica, bem como a Suécia, que diz querer reforçar a sua indústria nuclear, e a Espanha, cujo governo está sob pressão para reconsiderar o abandono da energia nuclear, na sequência do gigantesco apagão que atingiu a Península Ibérica, a 28 de abril de 2025. A energia nuclear, responsável por 22,8% de toda a eletricidade produzida na UE, é uma das suas fontes de energia mais importantes. Porém, só a Rússia está a planear tantos novos reatores como todo o grupo dos 27. E os especialistas dizem quanto é que o bloco deve investir para satisfazer as necessidades energéticas.

Após o encerramento de reatores da Alemanha, há 12 produtores de energia nuclear na UE. A França, com 57 reatores e 338 gigawatts-hora (GWh) por hora, é o maior fornecedor, gerando 55% da produção da UE. Segue-se Espanha, com mais de 9%, seguida da Suécia, com quase 8%.

Porém, o investimento em energia nuclear não está a aumentar. A World Nuclear Association (WNA) – Associação Nuclear Mundial – alertou para o facto de, no futuro, não haver reatores suficientes para produzir a mesma eletricidade dos que serão encerrados, o que pode comprometer a estratégia, a longo prazo, da UE, em segurança energética. Neste momento, só dois novos reatores estão em construção na UE – um, na França e outro na Eslováquia. E, em março de 2025, estavam previstos apenas mais 12, menos do que na Rússia, que tem 14 novos reatores em construção, seis dos quais já estão em curso.

Para obviar às suas necessidades energéticas, a WNA diz que a UE tem de investir 350 mil milhões de euros em novos reatores, até 2050, no âmbito do plano de investimento global de até 755 mil milhões de euros, que inclui o desmantelamento e a gestão de resíduos.

Previa-se, em março de 2025, que os investimentos nucleares da UE se concentrariam na Europa Central e Oriental, com dois novos reatores, na Bulgária, um, na Chéquia, dois, na Hungria, três, na Polónia, dois, na Roménia, e dois, na Suécia. A Polónia é a mais disposta a aumentar a produção nuclear, com 26 novos reatores a distribuir por Pątnów, Dąbrowa Górnicza, Nowa Huta, Ostrołęka, Stawy Monowskie, Tarnobrzeg e Włocławek. Porém, “é provável que mais unidades novas entrem em funcionamento, nos próximos 15 anos”, dizia a WNA.

A França é o país da UE mais dependente da energia nuclear, que cobre 65% de toda a sua produção de eletricidade, seguida da Eslováquia com 62%. Em contraponto, só 1,4% da eletricidade alemã, e 3,3% dos Países Baixos provêm de centrais nucleares.

Adel El Gammal, secretário-geral da Aliança Europeia de Investigação Energética (EERA), sugere duas estratégias para o regresso à energia nuclear, que não são exclusivas, mas diferentes no seu desenvolvimento: alargar, o mais possível, as instalações existentes; e relançar uma nova indústria nuclear ou relançar a construção de novos reatores, o que é mais complicado, porque “os orçamentos envolvidos são extremamente elevados” e porque o tempo necessário para construir uma central elétrica é dilatado (cerca de 10 anos), quando “as energias renováveis estão a entrar em funcionamento muito mais rapidamente”.

Na sua ótica, montar uma indústria de energia atómica é ter visão de longo prazo, antecipando o custo dos diferentes recursos energéticos, ao longo de uma década. Enquanto as energias renováveis se baseiam a lógica de custos decrescentes e de tecnologia crescente, nas tecnologias maduras, como a energia nuclear, os custos dependem muito das matérias-primas – cimento, aço – cujo custo tende a aumentar. Porém, o nuclear e as energias renováveis não são estratégias contraditórias, antes, podem ser complementares.

Para tentar trazer segurança ao setor, o ministro da Energia belga, Mathieu Bihet, sugere a criação de projetos comuns e investimentos multiestatais, que “farão baixar os custos” e “estabilizarão os investimentos, para dar confiança às empresas”.

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O chefe de Estado francês prometeu a aposta ainda maior em energia nuclear, em parte, para alimentar os sedentos de inteligência artificial (IA). O anúncio, feito no arranque da cimeira nuclear surgiu na esteira de um outro, quando Emmanuel Macron proclamou, dias antes o início de nova era nuclear europeia de “discussão avançada”, que foi aceite por Berlim, embora a contra gosto. Com efeito, a França precisa de mais energia, por via dos parques de IA.

Quando as pessoas pensam no nuclear, associam-no ao armamento, que são duas componentes ligadas. E a França pretende, garantindo a satisfação das suas necessidades energéticas e a dos vizinhos e aliados, exercer influência geopolítica.

A cimeira nuclear de Paris aconteceu na véspera dos 15 anos do acidente de Fukushima, que marcou o início de nova crise nuclear, reavivando os receios e assombros que o desastre de Chernobyl, em 1986, erguera, levando a Áustria a encerrar as suas centrais. Agora, os dois países afetados por acidentes nucleares têm planos de retoma, embora, no caso de Kiev, o acordo de construção de novos reatores esteja em pausa forçada pela guerra, sendo a central de Zaporizhzhia um dos pontos de contenda nas negociações para pôr fim ao conflito. 

Hoje, a energia nuclear corresponde a cerca de 9% da eletricidade produzida a nível mundial, com cerca de 440 reatores, em cerca de 30 países. A Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), copatrocinadora do evento de Paris, estima que a produção de energia nuclear poderá duplicar, até 2050, esperando-se que a China acrescente 29 novos reatores aos 57 que tem a operar. E Rafael Grossi, secretário-geral da AIEA, revela que outros 40 países começaram a construir ou estão interessados em construir reatores nucleares.

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Portugal autoexclui-se do programa europeu nuclear. Em Guimarães, a 10 de março, à margem da sessão de apresentação da Capital Verde Europeia, a ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, afirmou que o investimento no nuclear “não faz sentido”, em Portugal, vincando que a aposta deve continuar nas renováveis, mas que será importante, em países que têm “menos sol, menos vento e menos hídrica” e, portanto, menor potencial renovável. Além disso, considerou que a energia nuclear convoca elevado investimento inicial, que nós temos muito potencial renovável e que já investimos.

A governante – que proferiu a sua declaração no dia em que a presidente da Comissão Europeia anunciou 200 milhões de euros (montante exíguo), em apoio ao investimento em tecnologias nucleares inovadoras, para evitar as vulnerabilidades da importação de gás e de petróleo do Médio Oriente – frisou que Portugal apostou nas renováveis, o que lhe confere competitividade e boa performance, em termos de independência energética.

Basta-nos (digo eu) o Palácio de Belém com a bomba atómica para dissolver o Parlamento.

2026.03.11 – Louro de Carvalho


terça-feira, 10 de março de 2026

Força Aérea Portuguesa vai substituir os antigos F-16

Em entrevista publicada pelo Diário de Notícias (DN), a 19 de dezembro de 2025, o general João Cartaxo Alves – então, chefe do Estado-Maior da Força Aérea (CEMFA) e, atualmente, chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas (CEMGFA) – confirmou que Lisboa planeia adquirir entre 14 e 28 caças de 5.ª geração, ao abrigo da Lei de Programação Militar (LPM), sinalizando o compromisso decisivo com capacidades avançadas de combate aéreo e com a interoperabilidade a longo prazo com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO).

O então CEMFA vincava o atraso do passado – “a substituição dos F-16 deveria ter sido um processo iniciado há cerca de vinte anos”, em sua opinião –, para afirmar que “estamos, agora, a entrar nos ritmos certos” e para se mostrar convicto de que, em 2026, “teremos novidades sobre a substituição dos F-16”.

A jornalista Diana Rosa Rodrigues, em artigo intitulado “Asas para Portugal: quais os aviões de combate prontos para ingressar na Força Aérea”, publicado pela Euronews, a 10 de março, refere que o processo ainda não arrancou, oficialmente, mas, há vários meses, que se fala da necessidade de o país renovar a sua frota de caças e passar o atestado oficial de reforma aos velhinhos F-16 da Força Aérea.

Na verdade, ainda não há decisão e aguarda-se a abertura formal do processo de compra dos novos caças para a Força Aérea Portuguesa (FAP), mas os candidatos ao fornecimento dos novos aviões de combate a Portugal multiplicam-se. Entre os principais modelos em causa, encontram-se o norte-americano F-35, da Lockheed Martin, o sueco Gripen E, da Saab, e o Typhoon, do consórcio europeu Eurofighter.

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Desenvolvido pela Lockheed Martin, o F-35 Lightning II é um caça de 5.ª geração e, atualmente, um dos aviões de combate mais avançados em operação. A empresa dos Estados Unidos da América (EUA) defende as “capacidades incomparáveis” do avião, que surge, aos olhos de alguns especialistas, como o aparentemente preferido e a opção incontestável, para substituir os F-16 da frota portuguesa.

O F-35 fortalece a segurança nacional, aprimora parcerias globais e impulsiona o crescimento económico. É o caça mais letal, com maior capacidade de sobrevivência e de conectividade do Mundo, proporcionando aos pilotos vantagem contra qualquer adversário e permitindo que executem as suas missões e retornem em segurança. E, à medida que os adversários avançam e as aeronaves legadas envelhecem, o F-35 torna-se crucial para manter a supremacia aérea, nas próximas décadas. Por isso, a equipa do F-35 está a fornecer recursos integrados de sustentação, para garantir que o F-35 esteja pronto para a missão, a qualquer hora e em qualquer lugar, pois, como cada minuto conta, os centros de operações 24 horas, por dia, sete dias, por semana, e os seus engenheiros de sustentação trabalham em estreita colaboração com os clientes, para solucionarem novos desafios e para atenderem às necessidades da linha de voo.

Entre as suas principais vantagens, contam-se a superioridade tecnológica, a furtividade e a integração plena com sistemas da NATO, tornando-o particularmente eficaz em cenários de guerra moderna, com defesa aérea avançada. É, pois, segundo alguns, o símbolo da tecnologia e da fiabilidade norte-americanas.

Porém, apesar das vantagens, este avião de combate representa, como observa a jornalista, uma opção cujo custo de aquisição e de operação é bastante elevado, além de a manutenção ser complexa e de depender muito da infraestrutura e do suporte técnico dos EUA, o que pode constituir outro problema. Por outro lado, a decisão de comprar ou não os F-35, além de técnica, é política, principalmente, num contexto internacional em que a orientação dos EUA pode variar, significativamente. Neste sentido, alguns decisores políticos europeus questionam até que ponto esta dependência pode limitar a autonomia estratégica dos aliados, tendo o ministro português da Defesa, Nuno Melo, questionado a previsibilidade da política externa norte-americana.

Efetivamente, como dizia o governante ao jornal “Público”, em março de 2025, a recente posição dos EUA, no contexto da NATO e no plano geoestratégico internacional, deve induzir as melhores opções, “porque a previsibilidade dos nossos aliados é um bem maior a ter em conta”.

O negócio que ainda nem começou já é alvo da atenção das altas esferas políticas, com o embaixador dos EUA em Portugal a defender que o país deveria optar pela compra dos caças norte-americanos. Aliás, o acordo comercial entre a União Europeia (UE) e os EUA, em que, pelo menos, na aparência, o bloco europeu se vergou ante Donald Trump priorizava a aquisição de compras aos EUA. Porém, o acordo ainda não ratificado pelos eurodeputados.

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Não obstante, apesar de aparentemente favoritos, os norte-americanos F-35 não são a única opção, até porque, face à imprevisibilidade e à necessidade de redução da dependência dos EUA, a solução “Made in Europe” parece ganhar fôlego.

A sueca Saab está a posicionar as suas peças no tabuleiro estratégico da Europa. Num encontro com a imprensa especializada, na sua sede, em Estocolmo, a fabricante do caça Gripen E reforçou que a OGMA (Indústria Aeronáutica de Portugal) possui “muito potencial” para se tornar um hub produtivo e de manutenção da aeronave, caso o governo opte pelo vetor sueco, para substituir sua frota de F-16AM/BM Fighting Falcon.

Daniel Boestad, vice-presidente de negócios Gripen na Saab, fez o paralelo com a bem-sucedida transferência de tecnologia (ToT) realizada no Brasil. A parceria com a Embraer, que detém o controlo acionário da OGMA, serve de “blueprint” para eventual oferta a Lisboa. Esta estratégia visa mitigar a pressão política dos EUA, que tentam emplacar o Lockheed Martin F-35 Lightning II como sucessor natural dos F-16 na FAP. Ao acenar com a produção local, a Saab foca o retorno industrial e a soberania tecnológica de Portugal. E um dos pontos altos da apresentação de Boestad foi a diferenciação da arquitetura de sistemas do Gripen E. E, em relação aos seus competidores, sobressaiu a agilidade de atualização do caça à de um smartphone.

Diferente das aeronaves, onde o software de missão e o software de voo (flight control) são intrinsecamente ligados, exigindo meses de testes de certificação para qualquer alteração mínima, o Gripen E utiliza uma arquitetura aberta. A agilidade no Ciclo de Atualização permite a rápida integração de novos armamentos e sensores, sem comprometer a segurança de voo, o que gera independência do operador, tendo Portugal maior autonomia para customizar os seus sistemas sem dependência total da OEM (Original Equipment Manufacturer).

O Gripen E, um caça multifunções, é um avião de geração 4.5 (geração 4 com sistemas de radar e sensores avançados e supercruzeiro), concebido com foco na eficiência operacional, de baixos custos de manutenção e de elevada flexibilidade. Este avião pode operar a partir de pistas curtas e de estradas preparadas, caraterísticas que integram a doutrina de defesa sueca.

A recente versão inclui radar AESA (Active Electronically Scanned Array), sistemas avançados de guerra eletrónica e grande compatibilidade com armamento ocidental. “Rede silenciosa e fusão total de sensores em toda uma unidade aérea tática, para cegar e confundir o inimigo”, explica a Saad, que reforçou o interesse em fazer o negócio com Portugal, propondo integrar o país na produção dos aviões, através da OGMA, criando retorno de parte do investimento. 

O Gripen apresenta um custo bastante mais baixo de operação e de manutenção, comparativamente com caças mais pesados ou de 5.ª geração, mas tem algumas limitações, visto que não tem furtividade comparável a outros caças de tecnologia mais avançada, transporta menos combustível e armamento e tem uma base de utilizadores relativamente pequena.

A redução drástica no tempo de upgrade, evita que a aeronave fique indisponível, por longos períodos em manutenção. E, para a Saab, o Gripen não é só vetor de defesa, mas plataforma de cooperação industrial que pode revitalizar o cluster aeronáutico de Alverca.

Porém, cabe ao governo seguir a padronização da NATO com o F-35 norte-americano ou apostar na autonomia industrial e na eficiência operacional do “Smartfighter” sueco. Entretanto, embora não haja processo de licitação formalmente aberto pelo Ministério da Defesa, a Saab utiliza referências de contratos recentes para balizar as expectativas.

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Do coração da Europa chega o Eurofighter Typhoon, um caça desenvolvido por um consórcio industrial que inclui as empresas Airbus, BAE Systems e a Leonardo, sendo operado por vários países europeus, como o Reino Unido, a Alemanha e a Itália.

É classificado como um caça de geração 4.5, originalmente concebido para a superioridade aérea, e destaca-se pela velocidade, pela manobrabilidade e pela capacidade de combate ar-ar. E, segundo o consórcio que o desenvolveu, o Typhoon, que oferece um nível invejável de flexibilidade e de eficiência, dispõe de armas suficientes e de poder de processamento suficiente para suportar, simultaneamente, atualizações de mísseis em voo e em bombardeios em voo, posicionando-se como “uma verdadeira aeronave de combate multifuncional”.

Em outubro, o grupo mostrou-se interessado na corrida do fornecimento dos caças ao Estado, com a Airbus, que integra o consórcio, a assinar um memorando de entendimento com o Cluster para as Indústrias da Aeronáutica, Espaço e Defesa (AED Cluster Portugal) – que contou com a presença do embaixador espanhol em Portugal, Juan Fernández Trigo –, “para identificar oportunidades de cooperação, antes da próxima substituição da frota de caças”.

Altos responsáveis presentes em Lisboa não especificaram o preço do caça europeu, mas prometeram bom preço. “Será uma jornada de dois a três anos. Gostaríamos de organizar todos os elementos básicos para fazer uma oferta atraente que abranja o aspeto militar, o aspeto político e a cooperação industrial”, frisava Ivan Gonzalez Exposito, diretor de vendas da Eurofigter, na cerimónia de assinatura do memorando. O objetivo, como explicou, era oferecer bom preço, o que é importante para um país como Portugal, onde o investimento do PIB (produto interno bruto) na defesa é muito baixo, como na Espanha” (era de pouco mais de 1%”), que é um dos parceiros europeus do Eurofigther e que já encomendou caças para o seu exército.

“É uma oferta convincente e penso que é muito atrativa”, defende Ivan Gonzalez, apontando como um dos fatores favoráveis a esta opção, a vizinhança com a Espanha, também acionista da Airbus, presente em Santo Tirso, em Lisboa e em Coimbra, produzindo, com 1660 funcionários, componentes para os A350. Com efeito, para o responsável da Eurofighter, o fator proximidade com a Espanha permite vislumbrar potenciais sinergias para treino e operações conjuntas”.

O programa Eurofighter é um projeto de cooperação multinacional europeu, criado para desenvolver e produzir o avião de combate Eurofighter Typhoon, sendo os seus parceiros originais o Reino Unido, a Alemanha, a Itália e a Espanha.

Ao abrigo do referido acordo, a Airbus e a AED estabeleceram as bases de início de um conjunto de pesquisas, a fim de se desenvolver uma proposta industrial de valor para a substituição da atual frota portuguesa, para uma solução europeia. E José Neves, presidente da AED, frisou que “a Airbus é um parceiro internacional de referência” de fornecedores portugueses, gerando receitas anuais, junto destes, no montante de 70 milhões de euros.

Os responsáveis da Airbus salientam a relevância de uma das maiores motivações da Europa, no âmbito de Rearm Europe, de comprar mais e de comprar em conjunto. E, apesar de haver outras alternativas europeias, para Portugal, no âmbito dos caças, o Eurofighter “é o verdadeiro programa de parceria” (dizem). “Num momento em que a soberania europeia e a autonomia industrial estão no centro da nossa estratégia, a Airbus acredita que o Eurofighter é a melhor opção para esta substituição”, diz José Luis de Miguel, diretor para a região europeia da Airbus Defence and Space, vincando: “A nossa ligação com Portugal baseia-se em décadas de cooperação, não apenas no setor civil, mas também no militar, através do programa C295 de Transporte Tático Médio, e a nossa intenção é continuar a fortalecer esta relação de confiança mútua.”

No entanto, o Typhoon tem desvantagens. Apresenta elevados custos operacionais, além da logística pesada, que envolve um consórcio multinacional e que pode tornar upgrades mais complexos. Além disso, não possui furtividade comparável à dos caças de 5.ª geração. Em cenários de guerra aérea altamente tecnológicos, pode depender mais de apoio externo ou de outras plataformas para competir com aeronaves furtivas.

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Falando em defesa, o tempo é de investimento. O governo revelou, em novembro, ter solicitado, “formalmente, ao mecanismo europeu de empréstimo para a defesa SAFE (Security Action for Europe) um montante de 5,8 mil milhões de euros”, que incluirá a aquisição de navios, de veículos blindados, de satélites, sistemas de artilharia e de defesa antiaérea, de munições de diversos calibres e de sistemas aéreos não tripulados e antidrone. Porém, os novos caças que Portugal poderá adquirir não constam dos custos planeados, apresentados a Bruxelas.

O montante do custo do negócio aos cofres portugueses dependerá do modelo escolhido, do número de unidades compradas e dos moldes completos do negócio. Ora, de acordo com o general João Cartaxo Alves, o número de caças oscilará entre os 14 e os 28 caças. E, no atinente aos custos, seja o F-35, seja qualquer outra capacidade, os valores são muito semelhantes: entre os três mil milhões e os 4,8 mil milhões de euros.

A decisão deve ter em conta os custos que a longevidade do aparelho acarretará. Operar um avião de combate custa muito dinheiro. Para comparar caças e o respetivo impacto financeiro, um dos indicadores a utilizar é o custo, por hora de voo (“cost per flight hour”), que inclui variáveis, como combustível, manutenção, peças e pessoal necessários para operar a aeronave.

O estudo “Fighter Aircraft Through Life Costs”, da Aviation Week Network, de 2023, que analisa estimativas da indústria, refere custos na ordem dos 46282 dólares, por hora de voo, para o F-35, 22174 dólares, para o Gripen E/F, e 28965 dólares para o Eurofighter Typhoon, no custo combinado entre operações e manutenção. Neste parâmetro, o Gripen surge em vantagem. Além disso, o Gripen E/F surge como o aparelho mais barato, em termos de preço de aquisição por unidade entre os três modelos neste artigo analisados.

*** Parte superior do formulário

Não se entende como é que, parecendo que a FAP estava inclinada para os caça F-35, a Airbus assinou um memorando de entendimento com a AED e o governo não definiu uma política que balize as opções. Além disso, adquirir 28 caças (no máximo), não constitui frota suficientemente dissuasora, em caso de grave necessidade de reforço da defesa do nosso território. E, já agora, porque é que a aquisição dos caças não consta dos nossos planos do SAFE?

2026.03.10 – Louro de Carvalho


segunda-feira, 9 de março de 2026

Mensagem política na posse do Presidente da República

 

A 9 de março, às 10h00, a Assembleia da República (AR) reuniu-se, em sessão solene, no Palácio de São Bento, com a presença dos deputados, dos membros do governo, de outras entidades oficiais e de convidados, para a tomada de posse do Presidente da República, António José Martins Seguro, eleito na sequência das eleições de 8 de fevereiro, o qual, após a prestação do juramento, nos termos do n.º 3 do artigo 127.º da Constituição da República Portuguesa (CRP), proferiu o esperado discurso protocolar e de tom programático.

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O empossado começou por saudar, na pessoa do presidente da AR, o Parlamento e porfiou o “respeito democrático pela expressão popular do povo português” ali “representada na sua pluralidade” e prometeu cooperação institucional, no respeito pela CRP.

Assumindo a “honra e a responsabilidade de servir Portugal como Presidente da República”, agradeceu a confiança em si depositada para servir como “Presidente de todos os Portugueses, vivam em Portugal ou no estrangeiro”. E, citando Jorge de Sena, no sentido de que “Portugal é feito dos que partem e dos que ficam”, revelou continuar, na linha do antecessor, a fazer as comemorações do Dia de Portugal, em território nacional e na diáspora.

De Marcelo Rebelo de Sousa, a quem decidiu condecorar com o Grande-Colar da Ordem da Liberdade, disse: “Qualquer que seja o balanço que cada um faz dos seus mandatos, ninguém pode negar-lhe o seu amor a Portugal.”

De modo análogo, mencionou os anteriores Presidentes da República vivos ou falecidos, eleitos em democracia, “que marcam, de forma indelével, a História da nossa vida democrática” e cujo legado “é um dos maiores ativos da nossa democracia”.

Na referência aos chefes de Estado estrangeiros presentes, destacou: os laços de amizade, de proximidade e de cooperação que unem Portugal e a Espanha, preferindo ambos os países “os caminhos às fronteiras” e “demonstrado que é possível construir convergências duradouras quando prevalece a vontade de um destino partilhado”; e “a força dos laços históricos, culturais e económicos” que unem os povos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e “reafirmam os valores da cooperação, da amizade e do diálogo que partilhamos”.

Relativamente à CPLP, o eminente orador observou que “a comunidade lusófona demonstra que uma língua comum pode ser também a partilha de uma ambição maior: um projeto de desenvolvimento e de afirmação conjunta, num Mundo que precisa, cada vez, mais de entendimento e de paz”. E, frisou que tal consciência leva Portugal a assumir “as suas responsabilidades no plano internacional, procurando que a sua presença nos principais fóruns multilaterais […], seja sempre um espaço de escuta e de representação das aspirações que partilhamos nesta comunidade de língua portuguesa”.

E, no campo das saudações, emergiu a referência aos “Capitães de Abril, homens de coragem que abriram as portas da esperança a Portugal e devolveram a liberdade ao povo português”.

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Em termos da situação presente, o chefe de Estado, salientou que, enquanto o Mundo caminhava “para uma ordem internacional mais cooperante, respeitadora da soberania dos Estados, baseada no direito e na força das instituições do multilateralismo”, se criaram “regras, organizações e estruturas de intermediação, mecanismos de solidariedade internacional, estabilidade nas relações entre Estados, trocas comerciais” e a crença de que o progresso significa “evolução permanente no caminho de um futuro mais digno para todos”. E isso criou estabilidade e prosperidade.

Hoje, como disse o Presidente da República, “a força da lei foi substituída pelo poder dos mais fortes”, de modo que, em demasiadas regiões do Mundo, “ganha corpo a metáfora do filósofo Thomas Hobbes, ‘o homem é o lobo do homem’”. Assim, a “guerra regressou à Europa”; as “cadeias económicas revelam fragilidades”; a “competição geopolítica intensifica-se”; a “paz é, hoje, mais frágil do que ontem”; a “transição energética e tecnológica transforma sociedades inteiras a uma velocidade sem precedentes” e, em alguns casos, são utilizadas “como arma ou chantagem”; e as “alterações climáticas impõem urgência e responsabilidade”. E avisou que nenhum país enfrentará, “sozinho, esta realidade brutal”.

De Portugal disse que “enfrenta desafios estruturais”, materializados no “crescimento económico insuficiente”, na economia de “baixos salários”, de “desigualdades persistentes”, de “pobreza constante”, no “envelhecimento demográfico”, na “morosidade na justiça”, nas “burocracias públicas”, no difícil “acesso à saúde e à habitação”, na “falta de mão de obra”, na “escassez de oportunidades para os mais jovens”, na “insegurança para os mais idosos” e na “desconfiança nas instituições e na política”. A estes desafios, na ótica de António José Seguro, acresce o esforço de reconstrução e recuperação de parte significativa do território nacional, devastado pelas catástrofes deste inverno, a cujas populações reexpressou solidariedade.

E, sustentando que “nenhum destes desafios se resolve com improvisação, com metas que se esgotam no imediato” e com visto a “um calendário eleitoral de egoísta conveniência”, garantiu fazer tudo “para estancar” o “frenesim eleitoral” de “ciclos eleitorais de dois anos”.

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Dirigindo-se aos partidos com assento parlamentar, afirmou que o país  necessita de “um compromisso político claro”, que garanta “estabilidade democrática, previsibilidade nas políticas públicas, capacidade governativa e foco nas respostas urgentes e nas reformas estruturais”. E, sustentando que é fácil encontrar “uma desculpa para justificar um erro”, pediu que se faça tudo, “para que não sejamos nós a desculpa”.

Abrindo-se um ciclo de três anos sem eleições nacionais, o Presidente julga que Portugal tem “uma oportunidade de ouro” para que os partidos, a AR e o governo “encontrem soluções duradouras para resolver os graves problemas que afetam a vida dos Portugueses”. Não se trata, na ótica do orador, de unanimismo, nem de anular diferenças, mas de maturidade que ponha “o interesse nacional acima da lógica de curto prazo e de interesses eleitorais”. Não é pressuposto contra a democracia, mas por ela, que “precisa de tempo para produzir resultados”, ganhando o país, quando os partidos convergem no essencial, isto é, “nas prioridades e nas políticas estruturais”. Por isso, o chefe de Estado prometeu a promoção do diálogo e do incentivo a “entendimentos entre os diferentes responsáveis políticos”.

Mais esclareceu que a rejeição da proposta de lei do Orçamento do Estado não implica, automaticamente, a dissolução da AR e que “as legislaturas são para cumprir, devendo todos (“governo e oposição”) “assumir essa responsabilidade”.

Quanto à melhoraria da qualidade de vida, uma das suas bandeiras, diz empenhar-se em que se garanta “aos Portugueses o acesso à saúde, a tempo e horas”. Para tanto, convidará os partidos para o início de trabalhos com vista a “dotar o país de um compromisso interpartidário para garantir o acesso à saúde” e a “salvaguardar a continuidade do Serviço Nacional de Saúde”.

O mesmo deve ser alcançado noutras áreas essenciais, como “o acesso à habitação, o rejuvenescimento da nossa população, criação de melhores oportunidades para os jovens, uma justiça mais célere, um Estado eficiente, um crescimento económico assente num modelo com melhores salários, com critérios de igualdade que ponham fim à inaceitável discriminação salarial das mulheres portuguesas”.

A seguir, sublinhou que “a estabilidade não é um fim”, nem “uma meta”, nem significa “estagnação e imobilismo”, mas “uma condição para a mudança”.

Verificando que “poucos estão a demolir um marco civilizacional resultado do contributo de muitos” e de muitos anos, porfiou a crença “na solidez das instituições e na resistência do nosso sistema de valores”, mas alertou que “esses pilares estão a ser desmoronados”. E, sabendo que o país não está imune a esse risco, estabeleceu, como linhas vermelhas, o “salutar confronto de ideias” e o “normal funcionamento dos contrapoderes instituídos”.

Depois, elencou desafios, a nível interno, que têm de ser superados, com determinação, tais como: criar mais riqueza, garantir a sustentabilidade do Estado social, combater desigualdades e reforçar a confiança entre cidadãos e o Estado. E, a nível externo, entre “os desafios que só podem ser enfrentados em conjunto com os nossos parceiros”, enumerou: “a segurança, a estabilidade económica, a sustentabilidade ambiental, a transição energética, a regulação das novas tecnologias, e a defesa dos direitos humanos e dos valores democráticos.

Tudo isto postula a não desistência “do multilateralismo e da resolução pacífica dos conflitos internacionais”, a prossecução de “todos os diálogos bilaterais” e o contributo para reforçar as organizações que integramos, como as Nações Unidas, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), a CPLP, a Organização dos Estados Ibero-americanos e a União Europeia (UE). E, como “país europeu, atlântico e lusófono”, Portugal detém  “responsabilidade acrescida no diálogo com África e com a América Latina”.

Encarando a Europa como “comunidade de valores – democracia , liberdade, dignidade humana, primado da lei e solidariedade entre povos” – que “estão a ser testados como nunca”, advertiu para a necessidade de os defendermos, devendo Portugal ter voz no “aprofundamento da construção europeia”, “com maior integração política, [com] decisões mais céleres, [com]  economia mais competitiva, [com]  convergência social, [com]  crescente autonomia estratégica na defesa e na energia, e [com]  capacidade para proteger os seus cidadãos”. E salientou os 40 anos da nossa integração na UE, para vincar que “Portugal precisa de melhor Europa” e “o Mundo precisa de mais Europa”. Isto, porque a Europa – António José Seguro citou Gonçalo M. Tavares – “é o humano  precisa de brilhar nas noites que estão mais escuras do que habitualmente”.

Acreditando que “a vontade nacional é essencial para o sucesso desta estratégia”, o Presidente disse empenhar-se na sua mobilização, tendo em conta as opiniões plurais dos Portugueses, e ouvir já “alguns jovens oriundos de todas as regiões do pais e da diáspora”.

Ao nível dos propósitos disse que será “um Presidente próximo das pessoas”, escutando e compreendendo “as suas preocupações”; agirá com respeito pela CRP; estará “atento às desigualdades e comprometido com a justiça social e [com] a dignidade humana”; será “exigente com as instituições e com os [seus] responsáveis”; exercerá “o cargo com equilíbrio, diálogo e cooperação leal e profícua com o governo”. Ao mesmo tempo, reiterou a sua liberdade e independência no exercício de funções, o que o levará, entre outros aspetos, a tratar “todos os partidos por igual”. E, mesmo que as suas decisões não agradem a todos, encontrará conforto na sua “consciência” e no seu “dever para com os Portugueses e para com Portugal”.

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Prometeu zelar pela legalidade, pela integridade e pela missão das Forças Armadas, num regime democrático, e agir “com reserva, sobriedade e sentido de Estado”, vendo os militares como “servidores da paz, da Constituição e do povo português”.

Saudou o poder local democrático e as autonomias regionais que celebram 50 anos de existência – “marco incontornável na consolidação da democracia portuguesa” e, “na aproximação das decisões políticas às populações, na valorização dos territórios e na promoção de um desenvolvimento mais participado”. Porém, sabe que Portugal apresenta “desequilíbrios regionais significativos”, em prejuízo do “interior abandonado e esquecido”, pelo que “merece reflexão e decisões futuras” o “caminho da descentralização e da valorização dos territórios”.

Face ao desalento resultante deste inverno, do verão passado e de sempre, bem como à indignação de muitos “com tantas injustiças e com o elevado custo de vida, proclamou “uma palavra de esperança”: “Acreditem em Portugal.”

Considerando que, na História, “Portugal enfrentou momentos difíceis” e os superou, defendeu que é necessária “cultura política que privilegie soluções, em vez de bloqueios, visão, em vez de curto-prazo, diálogo, em vez de trincheiras”, tal como “precisamos da ciência, da inovação e da cultura, como motores da transformação social e da emancipação do ser humano”, aliás, “de todos os seres humanos”. E o eminente orador falou de outras necessidades: mais  organização do que improviso; “mobilização do talento das universidades, dos cientistas, dos criadores culturais, dos empresários, dos trabalhadores, das instituições públicas, das nossas comunidades, no Mundo, de de todos os cidadãos que acreditam no potencial do país” e, sobretudo, da capacidade de definir o futuro, que “não está escrito”, que se constrói “com trabalho, com visão e com esperança”. E, como “este é o momento de vencermos o medo e [de] erguermos a esperança”, que “não é ingenuidade”, apelou a que acreditemos na “capacidade coletiva para resolver[mos] os nossos problemas” e que “avancemos juntos, com coragem para mudar, [com] sabedoria para decidir e [na] união para vencer.

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Antes do discurso do novo chefe Estado, tinha intervindo o presidente da AR.

Começou por uma referência ao Presidente da República cessante, Marcelo Rebelo de Sousa, que, desde os tempos de comentador, “foi mais amado pelo país real do que pelo país político”, mas que “foi sempre igual a si próprio”, de “previsível imprevisibilidade” e de “proximidade irrepetível”. Mais: “foi o Presidente de que os Portugueses precisaram, do primeiro ao último momento dos seus mandatos.”

Na referência ao novo Presidente, contrariou a ideia da crise da democracia com os cinco milhões 519 mil 808 cidadãos que saíram de casa para votar (“uma das maiores participações de sempre”), com o país a enfrentar “temporais sem precedentes” – o que mostra que os cidadãos acreditam no “regime democrático, construído ao longo de 50 anos” e confiam “nesta República, que a nossa Constituição protege”.

Ao debate político polarizado contrapôs os três milhões 505 mil e 846 pessoas (“a maior votação de sempre”), no candidato que defendeu “a necessidade de consensos e de acordos”. E à suposta fragmentação e ao  bloqueio da AR opôs os 269 diplomas aprovados na generalidade, desde junho de 2025, “com temas diferentes, que vão da mobilidade às finanças públicas” e “com diferentes geometrias de aprovação.

Assim, em vez de “polarização”, temos “debate”; em vez de “fragmentação”, vemos “participação” e, em vez de “crise”, há capacidade de “resultados”.

E, concluindo que “a democracia funciona”, a “ordem internacional nos traz novas exigências” e “o país conta com as suas instituições”, assegurou ao chefe de Estado “a lealdade institucional” da AR e a certeza de que todos estarão à altura desta “responsabilidade”.

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Em suma, há que saudar um novo ciclo de tranquilidade na incerteza. Teremos estabilidade para a mudança, diálogo e não trincheiras, linhas vermelhas na democracia e reflexão sobre o papel da Europa na guerra, descentralização e, por último, novo estilo no topo do Estado.

2026.03.09 – Louro de Carvalho

Por uma Igreja Samaritana, que acolhe a fé e a propaga

 

Não é fácil, nem isenta de obstáculos a rota de conversão e de renovação que, pelo deserto quaresmal, nos encaminha para a vida nova. A Palavra de Deus escutada no 3.º domingo da Quaresma, no Ano A, dá-nos uma indicação reconfortante: Deus acompanhar-nos-á em cada passo e nunca deixará de saciar a nossa sede de vida.

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A primeira leitura (Ex 17,3-7) lembra um dos momentos cruciais da caminhada dos Hebreus pelo deserto, após a libertação do Egito: o povo, apoquentado pela sede, questiona o desígnio de Deus e pergunta-se se Deus pretende salvá-lo ou perdê-lo. A esta dúvida Deus responde com um gesto extraordinário: faz brotar água de um rochedo e sacia a sede do povo. Não é caso isolado: o Deus salvador e libertador esteve, está e estará sempre empenhado em saciar a sede de vida do seu povo, enquanto este atravessa o deserto da História.

Há algum tempo que Israel, liberto da noite do Egito, deixou a escravidão e caminha em direção ao dia novo da liberdade. Ao longo desta difícil caminhada, Deus tem-no acompanhado pari passu e tem-lhe manifestado, de muitos modos, o seu cuidado, bondade e amor.

Nos episódios da passagem do mar, da água amarga transformada em água doce e do maná e das codornizes, Deus mostrou o indubitável empeno na salvação do povo. Depois dessas experiências, Israel devia estar seguro da bondade e da fidelidade de Deus e confiar totalmente em Deus e no projeto de vida que Ele concretizava em favor do povo. Contudo, apesar das provas que Deus deu, continua desconfiado e duvida da fidelidade de Deus. Qualquer obstáculo que lhe apareça no caminho é visto como traição de Deus. O episódio de Refidim é mais um momento nesta História de desconfiança e de ingratidão. O povo instala o acampamento, mas, não tendo água para saciar a sede, depois de discussão com Moisés, sugere que foi enganado por Deus, o libertou do Egito para o matar de sede em pleno deserto. Cego de ingratidão, o povo de vistas curtas e com mentalidade de escravo vê no projeto de vida que Deus iniciou em favor dele um projeto de morte. Acusa Deus de o enganar, de o arrastar para um beco sem saída.

Naquele lugar, Israel entrou em conflito com Deus e acusou-o de conduzir o povo em direção à morte (o nome “meribá” vem da raíz “rib” – “entrar em contencioso”);  “provocou” Deus e desafiou-O (o nome “massa” vem da raiz “nsh” – “tentar”, no sentido de “provocar”). Assim, o lugar ficou a chamar-se “Meribá” e “Massá”, devido à altercação dos filhos de Israel, que tentaram o Senhor, ao perguntarem: “O Senhor está ou não no meio de nós?” Enfim, após tantas provas, tanta bondade, tantos cuidados e gestos de amor por parte de Deus, Israel ainda não fez verdadeira experiência de fé: não confia em Deus, não se entrega nas suas mãos.

Com divina paciência, Deus responde com gestos concretos e oferece ao povo a água que dá vida. Provando, de novo, que está com o povo, faz brotar de um rochedo a água de que o povo carece para saciar a sede. Uma lenda rabínica assegurará que, a partir daqui, a rocha que proporciona a água que dá vida nunca mais cessou de acompanhar o povo de Deus ao longo da sua marcha pela História. O apóstolo Paulo sugerirá, mais tarde, que Cristo – o Filho de Deus, que veio ao encontro dos homens para lhes dar vida – é a rocha de onde brota a água que mata a nossa sede de vida. E a catequese de Israel garante a todos os crentes que o Senhor Deus saciará sempre a nossa sede de vida e assistirá o seu povo em cada passo do seu caminho pela História.

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No Evangelho (Jo 4,5-42 Jesus dialoga com uma mulher da Samaria (um escândalo falar com uma mulher e estrangeira), junto do poço de Jacob, e propõe-se oferecer-lhe a “água viva” que matará toda a sede e que se tornará “uma nascente que jorra para a vida eterna”. A mulher mostra-se disponível para acolher e beber a água que Jesus tem para lhe oferecer.

O poço de Jacob ocupa o centro da cena. À sua volta movem-se as personagens principais: Jesus e a samaritana. Portanto, a temática a abordar relaciona-se com um poço de água e com gente que procura água para matar a sede. Não se diz o nome da mulher, mas que é uma mulher e samaritana. O que faz ali é captar água para matar a sua sede e a da sua família. A mulher, sem nome próprio, representa a Samaria, povo de religião heterodoxa, desprezado pelos Judeus, que busca, desesperadamente, a água capaz de matar a sede de vida plena, bem como, no dizer de Santo Agostinho, a Igreja provinda do paganismo. Na verdade, também os Samaritanos sentiam sede e a água que Deus oferece a todos os seus filhos também é para os Samaritanos.

O poço que está à disposição dos Samaritanos é historicamente conhecido – o poço de Jacob. E, na narrativa joânica, representa a Lei, sistema religioso à volta do qual se consubstanciava a experiência religiosa samaritana. Era nesse poço (a Lei) que os Samaritanos buscavam a água de que precisavam para saciarem a sua sede de vida. Porém, a água daquele poço já não respondia às necessidades (à sede) da Samaria. Os Samaritanos reconheceram, há muito, a insuficiência do poço da Lei e procuraram a vida plena noutras propostas religiosas, noutras vias, noutros deuses. Jesus refere-se aos cinco maridos que a samaritana tivera, o que pode aludir aos cinco deuses que os Samaritanos chegaram a adorar, conforme dizia a tradição judaica.

Na Samaria havia um povo, desprezado pelos Judeus, devido ao seu sincretismo religioso, que sentia sede de vida e buscava, em sendas erradas, a água para saciar a sede. Procurou-a no poço de Jacob, símbolo da Lei, mas só encontrou água que não saciava: quem dela bebia voltava a ter sede. Também procurou essa água noutras fontes, noutros deuses, mas encontrou desilusão e desencanto: já tinha conhecido diversas soluções (cinco maridos) e continuava a ter a inapagável sede de vida verdadeira e eterna. Todavia, Os Samaritanos não estavam condenados a errar à sede, à procura da água que sempre lhes escapa.

O evangelista diz-nos que Jesus, vindo da Judeia para a Galileia, “tinha de atravessar a Samaria”, mas não tinha. Quem viajava entre a Galileia e a Judeia fazia todos os possíveis por não atravessar a Samaria, para evitar as montanhas da região e para não ser confrontado com a hostilidade dos Samaritanos. Por isso, a necessidade de Jesus passar pela Samaria é teológica. Isto é, para cumprir a missão que o Pai Lhe tinha confiado, Jesus tinha de passar na Samaria e oferecer-lhe a água de que ela carecia para saciar a sua sede de vida.

Portanto, por volta do meio dia, Jesus chega ao poço de Jacob e senta-se. Ao sentar-se, propõe-se tomar o lugar do poço. É Jesus o novo poço que oferece a água aos Samaritanos sedentos de vida. Entretanto, aproximou-se uma mulher samaritana, que vem buscar água.

O poço era, na cultura popular palestiniana, cenário de noivado (aliás, nas nossas aldeias, a fonte era lugar de namoro). É junto de um poço que se decide o noivado de Isaac com Rebeca ou o de Jacob com Raquel. É junto de um poço que Moisés descobre Séfora e se apaixona por ela. E João evoca o tema profético do noivado de Deus com o povo: Jesus é o noivo que vem ao encontro do povo para o desposar e fazer com ele a nova Aliança. Assim, junto daquele poço, Jesus é o noivo que desposa a noiva, a Samaria. Doravante, a Samaria não precisará de procurar outro marido. Jesus é capaz de saciar a sua sede de felicidade.

Entre Jesus e a samaritana estabelece-se um dos mais belos diálogos do Novo Testamento. Jesus pede-lhe: “Dá-me de beber”. Ele não precisa da água daquele poço, mas rebaixa-Se – contra as convenções sociais e religiosas – a dirigir-se à mulher pertencente a um povo impuro e desprezado, para introduzir, na equação, a água. Jesus, que se apresentou aos homens no presépio de Belém, nunca teve problema em Se rebaixar, para descer ao nível dos homens e para sentir as suas necessidades. E a água é bom tema: todos precisamos dela para viver.

Entretanto, a mulher (Samaria) descobre que Jesus lhe vem propor a água que lhe matará, em definitivo, a sede de vida eterna. Depois de descobrir isso, rende-se completamente a Jesus e pede: “Senhor, dá me dessa água!” Para João, a água de Jesus – o grande dom – é o Espírito. Na conversa com Nicodemos, Jesus já avisara que “quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus”; e, quando Jesus Se apresenta como a “água viva” que matará a sede do homem, João cuida de explicar que Ele se referia ao Espírito, que iam receber aqueles que acreditassem n’Ele. O Espírito, acolhido no coração do homem, transforma-o, renova-o e torna-o capaz de amar Deus e os irmãos. Sacia a sede de vida do homem e possibilita-lhe uma vida totalmente nova.

Em relação ao repto de Jesus, a mulher, inicialmente, fica confusa. Quer saciar a sua sede de vida, mas não sabe o que fazer para ter acesso à água do Espírito, à água de Jesus. Terá de renunciar à sua especificidade religiosa e de ceder às pretensões religiosas dos Judeus, para quem o verdadeiro encontro com Deus só ocorre no Templo de Jerusalém e na instituição religiosa judaica (“nossos pais adoraram neste monte, mas vós dizeis que é em Jerusalém que se deve adorar”)? Ora, Jesus esclarece que não se trata de escolher entre o caminho dos Judeus e o dos Samaritanos. Não é no Templo de pedra de Jerusalém ou no Templo de pedra do monte Garizim que Deus está. Quem quiser encontrar Deus e acolher o Espírito que sacia a sede de vida, deve aderir a Jesus, escutar as suas indicações, seguir os seus passos, ir atrás d’Ele no caminho do amor e da entrega. Da adesão a Jesus nascerá um povo novo, a comunidade que vive do Espírito.

Só então desaparecerão as barreiras que separavam os dois povos: os Judeus e os Samaritanos. O que passa a contar é a vida do Espírito e da verdade, que renovará e transformará o coração de todos, que a todos ensinará o amor a Deus e que fará de todos – sem distinção de raça ou de perspetiva religiosa – uma família de irmãos. É uma lição para os cristãos vindos dos judaísmo e do paganismo, uma lição que a Igreja de hoje precisa de reaprender.

A mulher responde a Jesus deixando o cântaro (tornado inútil) e corre a anunciar aos habitantes da cidade a proposta que Jesus, em nome de Deus, oferece à Samaria. E João enfatiza adesão entusiástica de todos os Samaritanos à mensagem de Jesus e a confissão da fé proclamada por toda a comunidade, que reconhece Jesus como “o Salvador do Mundo” – isto é, como Aquele que dá ao homem a vida plena e definitiva. Os samaritanos descobriram o novo poço onde poderão saciar a sua sede de felicidade e de vida eterna: Jesus.

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A segunda leitura (Rm 5,1-2.5-8) não evoca o tema da água, mas reafirma o empenho de Deus em oferecer vida e salvação ao povo. Garante que, sejam quais forem as nossas faltas, Deus “justifica-nos”. A sua misericórdia falará sempre mais alto do que o nosso pecado. Deus oferecer-nos-á sempre, gratuita e incondicionalmente, a salvação.

Paulo está seguro da realidade que o enche de alegria: todos – Judeus, Gregos ou Romanos – os que se encontraram com Jesus e O acolheram, estão destinados à salvação. Independentemente das suas origens, histórias de vida, pecados ou virtudes, foram justificados pela fé. A “justificação pela fé” é um conceito-chave na visão teológica de Paulo.

No mundo bíblico a “justiça”, mais do que um conceito jurídico reservado ao tribunal, é uma relação que define a fidelidade de alguém a si próprio, à sua essência, modo de ser, compromissos. Ora, sempre que se relacionou com os homens, Deus mostrou que a sua essência é amor, clemência, compaixão, bondade, misericórdia. A sua ira dura apenas um instante, ao passo que a sua benevolência permanece. Assim, dizer que Deus é justo não é dizer que responde na mesma moeda ao pecador ou que lhe pune as faltas quando ele infringe as regras, mas é dizer que a bondade e o amor de Deus falam sempre mais alto, mesmo quando o homem não procedeu bem. A bondade de Deus vem sempre ao de cima; e, mesmo que o homem o não mereça, emitirá o veredicto da graça, e o homem pecador alcança a salvação.

Ora, o amor de Deus e o seu veredicto de graça em favor do homem concretizaram-se em Jesus e através de Jesus. Nós, seres humanos limitados e pecadores, descobrimos e contemplamos o amor de Deus, quando olhamos para Jesus, para os seus gestos de partilha e de entrega, para a sua morte na cruz. Deus enviou-no-lo para nos mostrar o seu amor e para conhecermos o seu dom. Jesus mostrou-nos o caminho que conduz à vida e deixou-se matar para concretizar o projeto salvador de Deus. Na verdade, nós não merecíamos tanto amor; mas, apesar do nosso pecado, Jesus deixou-Se matar para nos apontar o caminho que leva à vida: “Deus prova assim o seu amor para connosco: Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores”.

O homem pecador – justificado pelo amor de Deus patente na cruz de Jesus – é nova criatura: é o homem ressuscitado para a vida nova, que vive do Espírito, que é filho de Deus e co-herdeiro com Cristo. E o apóstolo explica o que é que ganham os cristãos que se encontram com Cristo, que são “justificados” e que obtêm o acesso à salvação.

Ganham a paz, que não é a mera ausência de guerra ou a tranquila serenidade de quem se sente bem consigo, mas é a situação de quem embarca na relação positiva com Deus tendo, através d’Ele, acesso à vida verdadeira e definitiva. Ganham a esperança, o dom que nos permite superar as dificuldades e a dureza da caminhada, apontando a um futuro glorioso de vida em plenitude. A esperança não é um otimismo irresponsável, que nos permite evadirmo-nos do presente ou iludirmos a adversidade, mas é o que nos permite enfrentar, confiadamente, as vicissitudes da caminhada, cônscios de que as forças da morte não terão a última palavra e que as forças da vida triunfarão. E ganham o amor de Deus ao homem, pois o cristão não é um pobre diabo que se arrasta pela lama do Mundo alimentando sonhos irrealizáveis, mas é, alguém a quem Deus ama com amor verdadeiro. A prova está em Jesus de Nazaré, o Filho amado que Deus enviou ao Mundo e “entregou à morte por nós, quando ainda éramos pecadores”.

Estamos no âmago da teologia paulina. Na compreensão que o apóstolo tem da vida e da História, há uma realidade central, que ele testemunha com entusiasmo contagiante: Deus ama-nos com um amor sem limites e faz tudo para se encontrar connosco e para saciar a nossa sede de vida. Paulo, enquanto viver, não conseguirá calar esta “Boa Notícia”.

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É eloquente o comentário de Santo Agostinho ao episódio evangélico acima desenvolvido:

Veio uma mulher. Esta mulher é figura da Igreja, ainda não justificada, mas a caminho da justificação.  […] A mulher veio sem saber o que a esperava; encontrou Jesus, e Jesus dirigiu-lhe a palavra. Vejamos o facto e a razão por que veio uma mulher da Samaria para tirar água). “Os Samaritanos não pertenciam ao povo judeu; não eram do povo escolhido. Faz parte do simbolismo da narração que esta mulher, figura da Igreja, tenha vindo de povo estrangeiro; porque a Igreja viria dos pagãos, dos que não pertenciam à raça judaica.

“Ouçamos a nós mesmos nas palavras desta mulher, reconheçamo-nos nela e nela demos graças a Deus por nós. Ela era uma figura, não a realidade; começou por ser figura, e tornou-se realidade. Pois acreditou naquele que queria torná-la figura de nós mesmos. Veio, simplesmente, para tirar água, como costumam fazer os homens e as mulheres. Jesus disse-lhe: ‘Dá-me de beber.’ Os discípulos tinham ido à cidade para comprar alimentos. A mulher samaritana disse a Jesus: ‘Como é que tu, sendo judeu, pedes de beber a mim, que sou uma mulher samaritana?’ De facto, os Judeus não se dão com os Samaritanos. Estais a ver que são estrangeiros. Os Judeus de modo algum se serviam dos cântaros dos Samaritanos. Como a mulher trazia consigo um cântaro para tirar água, admirou-se de que um judeu lhe pedisse de beber, pois os Judeus não o costumavam fazer. Mas aquele que pedia de beber tinha sede da fé daquela mulher.

«Escuta agora quem pede de beber. Respondeu-lhe Jesus? ‘Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede: ‘Dá-me de beber’, tu mesma lhe pedirias a ele, e ele te daria água viva

“Pede de beber e promete dar de beber. Apresenta-se como necessitado que espera receber, mas possui em abundância para saciar os outros. ‘Se tu conhecesses o dom de Deus’, diz. O dom de Deus é o Espírito Santo. Jesus fala, veladamente, à mulher, mas vai entrando no seu coração, e vai-lhe ensinando. Que haverá de mais suave e bondoso do que esta exortação? Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede: ‘Dá-me de beber’, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva. Que água lhe daria ele, senão aquela da qual está escrito: ‘Em vós está a fonte da vida? Pois como podem ter sede os que vêm saciar-se na abundância de vossa morada?

“O Senhor prometia à mulher um alimento forte, prometia saciá-la com o Espírito Santo. Mas ela não compreendia. E, na sua incompreensão, que respondeu? Disse-lhe então a mulher: “Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede e nem tenha de vir aqui para tirá-la”. A necessidade obrigava-a a trabalhar, mas a sua fraqueza recusava o trabalho. Se, ao menos  ela tivesse ouvido aquelas palavras: ‘Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos e eu vos darei descanso!’ Jesus dizia-lhe tudo aquilo para que não se cansasse mais; ela, porém, ainda não compreendia.”

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É imperativo escutar a palavra de Deus e aclamar Cristo, o Senhor.

“Se hoje ouvirdes a voz do Senhor, / não fecheis os vossos corações.”

“Vinde, exultemos de alegria no Senhor, / aclamemos a Deus nosso salvador. / Vamos à sua presença e dêmos graças, / ao som de cânticos aclamemos o Senhor.

“Vinde, prostremo-nos em terra, / adoremos o Senhor que nos criou, / pois Ele é o nosso Deus / e nós o seu povo, as ovelhas do seu rebanho.

“Quem dera ouvísseis hoje a sua voz: «Não endureçais os vossos corações, / como em Meriba, como no dia de Massa no deserto, / onde vossos pais Me tentaram e provocaram, / apesar de terem visto as minhas obras.”

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“Louvor e glória a Vós, Jesus Cristo, Senhor.”

“Senhor, Vós sois o Salvador do mundo: / dai-nos a água viva, para não termos sede.”

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Só uma Igreja que acolhe e propaga a fé é capaz de ser samaritana como o bom samaritano que, ao invés do sacerdote e do levita, socorreu o homem ferido que jazia na berma da estrada (Lc 10,25-37). O grande bom samaritano é Cristo!

2026.03.08 – Louro de Carvalho