sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Tragédia do 11 de Setembro continua a marcar os EUA e o Mundo

 

Assinalaram-se, a 11 de setembro, os 25 anos dos atentados que ensombraram Nova Iorque e Washington, aliás, os Estados Unidos da América (EUA) – atentados que que provocaram milhares de vítimas e desencadearam as duras guerras no Médio Oriente.

A 11 de setembro de 2001, a manhã solarenga de verão de Nova Iorque augurava um dia normal, mas um instante, que marcou a História, teve impacto na vida quotidiana de milhões de pessoas, nos EUA e no resto do Mundo. Às 08h46 (13h46, em Lisboa), surgiram os primeiros relatos: as televisões, como a CNN ou a CBS, interromperam a emissão e lançaram os alertas de última hora sobre “a colisão de um avião” com uma das torres do World Trade Center (WTC). A maior parte das testemunhas, ouvidas em dezenas de reportagens ou documentários, lembram que “ninguém sabia o que estava a acontecer”. Só entenderam que se tratava de um atentado, mais tarde, quando as televisões mostravam, em direto, ao Mundo o segundo avião a embater noutra torre do WTC. As Torres Gémeas foram destruídas.

Porém, o choque não se limitou a Nova Iorque. Outro avião, meia hora mais tarde, despenhou-se sobre o Pentágono. Das quatro aeronaves desviadas por terroristas, só uma não terá chegado ao destino. O voo 93 da United Airlines despenhou-se em Shanksville, no estado da Pensilvânia. Investigações subsequentes concluíram que os passageiros entraram em confronto com os terroristas a bordo. O avião teria por destino o Capitólio ou a Casa Branca. Das quase três mil pessoas que morreram, então, só pouco mais de 1600 foram identificadas.

No final dos anos 1980, Osama Bin Laden fundou o movimento extremista Al-Qaeda e, uma década mais tarde, a partir das cavernas do Afeganistão, declarou guerra aos EUA. Nascido em Riade, na Arábia Saudita, era filho de um empresário e investidor do ramo da construção civil. Criticava o apoio norte-americano a regimes do Médio Oriente, que classificava de “tirânicos” e “apóstatas”, como o próprio regime saudita, e sustentava que se tratava de “agressão ocidental contra os muçulmanos, em todo o Mundo”, segundo o The Guardian.

Nos anos 1990, houve vários atentados da autoria da Al-Qaeda contra embaixadas e bases dos EUA na África Oriental. A 26 de fevereiro de 1993, em território dos EUA, uma carrinha carregada de explosivos rebentou na garagem do WTC, causando a morte de seis pessoas. Mais de mil ficaram feridas. No início dos anos 2000, um ataque suicida quase afundou um navio de guerra norte-americano, ao largo do Iémen. E, mais tarde, o inquérito do Congresso destacou a incapacidade de altos responsáveis, incluindo o presidente George W. Bush, de agir, ante os avisos dos serviços de inteligência. E os documentos apontam falhas do FBI e da CIA na partilha de informações cruciais que impediriam a tragédia setembrina.

“Hoje, os nossos compatriotas, o nosso modo de vida, a nossa própria liberdade, foram atacados numa série de atos terroristas deliberados e mortíferos.” Foi com esta frase que o Presidente dos EUA, George W. Bush, iniciou o discurso que fez, a partir da sala oval, na Casa Branca, 12 horas após os atentados terroristas.

Nessa manhã, o então inquilino da Casa Branca estava de visita a uma escola primária na Florida. Sem compreender o que se passava, pediu para o manterem informado sobre o que estava a acontecer em Nova Iorque. Depois, desfizeram-se as dúvidas. O chefe de gabinete da Administração Bush foi dizer-lhe que um segundo avião colidiu com a segunda torre. E, pouco depois, percebeu que houve aviões desviados para Washington, obrigando-o a passar largas horas no ar, a bordo do Air Force One, antes de aterrar no Nebraska.

Três dias depois, Bush foi a Nova Iorque, ao local, hoje conhecido como “Ground Zero”. Ante milhares de trabalhadores, polícias e bombeiros, garantiu ao Mundo, no que foi muito aplaudido: “As pessoas que derrubaram estes edifícios vão ouvir-nos a todos, em breve.”  

Menos de um mês após os atentados, surgiu a primeira resposta de Washington contra a Al-Qaeda. Sob as suas ordens, as forças dos EUA começaram a bombardear os campos de treino dos terroristas da Al-Qaeda e as instalações militares do regime talibã no Afeganistão. Estas ações, cuidadosamente direcionadas, como declarou o Presidente republicano, a 7 de outubro, tinham o objetivo de impedir que o Afeganistão fosse utilizado como base de operações terroristas e de enfraquecer a capacidade militar do regime talibã. E só ao fim de 20 anos, em 2022, é que os EUA saíram, definitivamente, do Afeganistão. Durante esse período, houve comparações “com o Vietname”, lembrando as consequências do conflito dos anos 1970.

Os analistas do Pentágono acreditavam que Osama Bin Laden estaria escondido nas montanhas afegãs, mas, só em 2011, foi localizado e morto numa operação das forças especiais norte-americanas no Paquistão.

Ao longo de duas décadas, foram milhares as vítimas – civis e militares – de uma guerra “sem fim”. E a Al-Qaeda ainda existe, lembra a BBC, sobretudo na África subsariana e, inclusive, com alguns membros no território afegão.

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Além dos milhares de norte‑americanos mortos no 11 de Setembro, dezenas de europeus perderam a vida e, 25 anos depois, alguns suspeitos não foram julgados. Porém, os atendados continuam enraizados na memória coletiva norte-americana, mais do que qualquer outra ocorrência dos últimos 25 anos. Uma sondagem da Ipsos refere que cerca de metade dos adultos nos EUA, cita o 11 de setembro entre os factos mais marcantes das suas vidas, à frente da pandemia de covid-19, das eleições de Barack Obama e de Donald Trump e do furacão Katrina, em 2005. E 90% sustenta que tais ataques mudaram o país “muito” ou “bastante”, com a maioria dos norte-americanos a lembrar-se de onde estava, quando recebeu a notícia.

Mesmo assim, apesar da ferida duradoura, apenas cerca de 1% tencionava assinalar, ativamente, o aniversário que se assinalou a 11 de setembro deste ano; e, entre os que o fizeram, um minuto de silêncio e o hastear da bandeira foram os gestos mais comuns.

A confiança na capacidade do governo para impedir um novo ataque também diminuiu, de forma constante, desde os níveis recorde registados nos dias que se seguiram a 2001.

As cerimónias decorreram nos três locais. Em Nova Iorque, familiares das vítimas reuniram-se na praça do Memorial para a leitura, em voz alta, dos nomes dos mortos, intercalada por sete momentos de silêncio, mais um do que em anos anteriores, acrescentado para homenagear os que, entretanto, morreram, devido a doenças associadas ao 11 de Setembro.

Quase três mil drones iluminaram o horizonte de Nova Iorque, durante um ensaio da instalação “Tribute in Light”, preparatória do 25.º aniversário dos atentados. Os aparelhos enchiam o céu noturno com formações em constante mudança sobre a cidade. E, no dia 11, foram utilizadas, ao todo, 2977 luzes, número que corresponde às pessoas mortas nos atentados. Os drones traçaram padrões sobre Nova Iorque, no âmbito do memorial anual.

Houve também cerimónias no Pentágono, em Arlington, e no Memorial Nacional do Voo 93, em Shanksville, na Pensilvânia.

Donald Trump não participou, desta vez, na cerimónia de Nova Iorque, preferindo discursar no Pentágono. Contudo, o vice-presidente James David Vance deslocou-se ao “Ground Zero”, área onde começaram as primeiras buscas de sobreviventes. Também os ex-presidentes Joe Biden, Barack Obama, Bill Clinton e George W. Bush foram à cerimónia de Nova Iorque.

Artistas que desenham a giz reuniram-se no Memorial Nacional do Voo 93, em Shanksville, na Pensilvânia, para criarem retratos dos 40 passageiros e membros da tripulação mortos a 11 de setembro. Cada desenho a constitui uma homenagem pessoal às vítimas do Voo 93 da United Airlines. Entre as obras está o retrato de um dos passageiros que participou na tentativa de recuperar o controlo do avião sequestrado. Outro artista desenhou a pessoa mais jovem a bordo do voo, dizendo que o trabalho tem forte significado pessoal. Os retratos são temporários e esbater-se-ão, gradualmente, enquanto estiverem expostos no memorial.

Também na Califórnia, quase três mil bandeiras dos EUA cobriram o relvado da Universidade Pepperdine, em Malibu, na comemoração anual “Wave of Flags” dos atentados, em homenagem às 2977 pessoas mortas. Os visitantes percorreram as filas de bandeiras, com mensagens de homenagem presas a alguns mastros. Efetivamente, cartões com a inscrição “We Remember” foram colocados entre as bandeiras, enquanto um expositor próximo convidava os visitantes a escreverem as suas próprias mensagens de tributo às vítimas.

Para alguns, a abreviatura “9/11” pode parecer estranha. A data foi o 11.º dia do 9.º mês, mas a convenção norte-americana de escrever as datas com o mês em primeiro lugar dá origem a “9/11”, o que coincide com o número de emergência 911 nos EUA.

Quase três mil norte-americanos (justamente, 2977) morreram nos atentados, mas, entre as vítimas, contavam-se centenas de cidadãos estrangeiros. As estimativas apontam para cerca de 372 vítimas não norte-americanas, oriundas de cerca de 60 países. O Reino Unido registou o maior número de mortos de qualquer país, além dos EUA, com 67 cidadãos mortos. A Alemanha, a Itália, a Irlanda e outros Estados europeus perderam igualmente cidadãos, muitos deles trabalhadores do setor financeiro que trabalhavam no WTC ou o visitavam.

A empresa norte-americana de serviços financeiros Cantor Fitzgerald ocupava os pisos 101 a 105 da Torre Norte do WTC, diretamente, acima da zona de impacto do voo 11 da American Airlines. Empregava vários europeus e, no total, 658 trabalhadores morreram nesse dia, a maior perda de vidas sofrida por uma só empresa.

O número de europeus mortos (131) nos atentados de 11 de setembro, por países, é: do Reino Unido – 67; da Alemanha – 11; da Itália – 10; da Irlanda – seis; da Polónia – seis; de Portugal – nove portugueses e lusodescendentes; da França – quatro; da Roménia – quatro; da então República Federal da Jugoslávia (a Sérvia e o Montenegro) – dois; da Suécia – dois; da Suíça – dois; da Bielorrússia, da Bélgica, da Lituânia, da Moldávia, dos Países Baixos, da Rússia, da Espanha e da Ucrânia – um, por país.

Durante os ataques, morreram os 19 sequestradores, sendo 15 cidadãos sauditas, dois dos Emirados Árabes Unidos (EAU), um do Egito e um do Líbano. Por detrás deles estava a mais ampla rede terrorista da al-Qaeda, que reivindicou, diretamente, a responsabilidade pelos atentados. O líder do grupo, Osama bin Laden, fugiu à captura, durante quase uma década, antes de ser morto por forças especiais dos EUA no Paquistão, em 2011. E o seu sucessor, Ayman al-Zawahiri, foi morto num ataque de drone em Cabul, em 2022.

Khalid Sheikh Mohammed, o “cérebro” do plano, foi capturado, no Paquistão, em 2003, e está detido na base de Guantánamo desde 2006, acusado de homicídio em primeiro grau de 2977 pessoas. Um juiz militar norte-americano marcou, agora, o início do julgamento, longamente adiado, para junho de 2028, juntamente com vários alegados coconspiradores, após ter falhado um acordo de confissão, em 2024, que previa que os arguidos admitissem culpa, em troca da retirada da pena de morte das opções de condenação.

O processo arrasta-se, marcado por disputas sobre provas obtidas mediante o recurso a tortura, incluindo simulações de afogamento, em locais secretos da CIA.

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À hora dos ataques, o jornalista Henrique Mano estava em Nova Jérsia, na redação jornal Luso-Americano, o mais antigo jornal de língua portuguesa em publicação contínua nos EUA.

Nova Iorque, onde dois aviões se despenharam contra as Torres Gémeas do WTC, ficava do outro lado do rio. As torres acabaram por colapsar. “Primeiro, durante umas horas, não se sabia bem o que se tinha passado, quantos aviões mais iriam cair. […] Foi uma sensação de insegurança também muito grande. De certa maneira, de perda e de não acreditar que um ataque terrorista daqueles pudesse acontecer com aquele requinte”, recorda o jornalista.

O resto do dia foi passado a refazer a edição do jornal que ia ser publicada no dia seguinte, uma edição ainda com mais perguntas do que respostas sobre o que estava a ocorrer. Todos os acessos a Nova Iorque estavam fechados. Henrique Mano só conseguiu pôr-se a caminho de casa no dia seguinte. Mas, antes, passou por uma comunidade portuguesa das zonas de Tribeca e Soho, a poucos minutos do WTC. Estavam aflitos, porque eram amigos de um casal que tinha um filho que trabalhava nas torres e do qual nada sabiam.

O jornal, que iniciou uma investigação de dois anos para identificar e escrever as histórias das vítimas portuguesas e luso-americanas, identificou nove pessoas, no total. Não foram encontrados os corpos de todas as vítimas. É esse, por exemplo, o caso de João Aguiar Júnior, de 30 anos, que trabalhava no setor financeiro e que salvou a vida de colegas. Percebeu que tinham de sair do prédio, andou pelo escritório a pedir a todos para saírem, aquelas pessoas com quem trabalhava saíram, ele assegurou-se de que elas chegaram ao elevador e elas sobreviveram.  Porém, quando o segundo avião embateu no edifício onde se encontrava, a Torre Sul, ele ainda não tinha conseguido escapar.

A história de João Aguiar Júnior foi imortalizada num dos capítulos do livro “The Hidden Brain” (“O Cérebro Oculto”), de Shankar Vedantam.

Das nove vítimas identificadas pelo jornal, apenas uma, Christopher Mello, estava num dos aviões sequestrados. Viajava com um colega no AA11 da American Airlines, que embateu na Torre Norte. Estava numa viagem de trabalho a caminho de Los Angeles.

Henrique Mano também cobriu outras histórias do 11 de Setembro, com enfoque na comunidade luso-americana, desde os que escaparam à morte por acaso, salvos pela pausa para fumar ou por atraso a chegar ao emprego, até a pessoas envolvidas nas operações de salvamento e de remoção dos escombros. Aliás, a montanha de escombros e o cheiro que dali emanava foram o que mais o impressionou, nos primeiros dias.

No fim de setembro de 2001, a família de João Aguiar Júnior fez uma cerimónia de despedida, junto à praia, em Nova Jérsia. Alguns colegas de trabalho estiveram presentes e tinham quase um pouco de culpa de sobreviventes, porque eles estavam na cerimónia e ele não.

No 25.º aniversário, Henrique Mano voltou a escrever sobre as vítimas e testemunhas do 11 de Setembro no jornal Luso-Americano. Porém, tantos anos depois, vão surgindo histórias novas. “Agora surgiu o nome de uma mulher que estou a tentar investigar, tentar saber se ela é ou não de origem portuguesa. […] É sempre uma caixa de Pandora inacreditável”, diz, vincando a dificuldade de chegar aos familiares.

Se confirmada, esta será a 10.ª vítima portuguesa e a primeira mulher, numa tragédia que, no dizer do jornalista, “afetou tanta gente de formas tão diferentes que a gente nunca sabe”.

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Agora, o Mundo está polvilhado ameaças híbridas, de guerras, de guerrilhas, de terrorismo e de contraterrorismo, com as liberdades e a segurança/defesa em desequilíbrio.

2026.09.11 – Louro de Carvalho

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Choque energético na Zona Euro faz BCE subir taxa de juro para 2,5%

 

O Conselho do Banco Central Europeu (BCE) anunciou, a 10 de setembro, o aumento da taxa da facilidade de depósito de 2,25% para 2,5%, aduzindo que o choque energético provocado pela guerra no Irão faz subir a inflação na Zona Euro, o que obrigou a um segundo aumento, em três meses. É o segundo aumento desde 11 de junho, data em que a autoridade de política tomou medidas de endurecimento, pela primeira vez, em três anos. No resto da economia, o cenário é mais calmo.

O BCE define a política monetária da zona euro, através de três taxas de juro de referência, sendo a taxa da facilidade de depósito o principal indicador de referência da sua política. No entanto, a taxa de refinanciamento principal também foi aumentada para 2,65% e a taxa da facilidade de crédito marginal para 2,9%.

No seu comunicado, o banco central observou que “o conflito no Médio Oriente continua a gerar pressões inflacionistas” e que “a inflação deverá permanecer bem acima da meta, durante um período prolongado”. Todavia, simultaneamente, garante que, “com a decisão de hoje, o Conselho do BCE continua bem posicionado para lidar com a incerteza causada pelo conflito”.

As projeções dos especialistas do BCE continuam a estimar que a inflação global se situará, em média, nos 3%, neste ano. No entanto, reviu em alta as expectativas de 2,5% e de 2,1%, para 2027 e para 2028, respetivamente, em comparação com junho.

Esta decisão segue-se à leitura da inflação de agosto, que se situou nos 3,3%, acima dos 2,9% registados em julho, correspondendo ao valor mais elevado, desde setembro de 2023.

Praticamente, os custos da energia explicam a subida, com a inflação energética a aumentar de 10,3% para 14,3%, à medida que os conflitos no estreito de Ormuz limitam a oferta de petróleo bruto. O problema persiste, dado que o Brent voltou a ultrapassar os 100 dólares, por barril, no dia 9, devido a novos confrontos entre os Estados Unidos da América (EUA) e o Irão.

A inflação subjacente, que exclui a energia, os alimentos, o álcool e o tabaco, desceu de 2,5% para 2,4%, em agosto, enquanto a inflação dos serviços, o componente mais sensível aos salários, recuou de 3,3% para 3%. Ainda não há sinais de que o encarecimento da energia esteja a espalhar-se pelo resto da economia.

Num estudo publicado no início deste mês, os economistas do BCE concluíram que os fatores adversos associados à oferta de energia explicam cerca de 90% da subida da inflação energética, entre janeiro e maio deste ano. “Desta vez, o choque na oferta de energia predomina, ao passo que a procura e o estímulo da política pública assumem um papel secundário”, escreveram os economistas, em contraste com a vaga de 2021-2022, que motivou resposta mais agressiva.

Em agosto, a inflação foi de 4,5%, na Espanha, de 2,9%, na Alemanha, e de 2,7%, na França – três economias que enfrentaram o mesmo choque energético, sob a mesma taxa de juro, mas com resultado diferente.

O bloco do euro tem resistido melhor do que o esperado, mas esta resiliência está longe de representar um sobreaquecimento e, mesmo, com uma taxa de 2,5%, a taxa de depósito permanece dentro da faixa considerada neutra pelo BCE. Ir mais longe significaria assumir que a política deve começar a travar, ativamente, a economia.

Christine Lagarde, líder da autoridade da política monetária da Zona Euro, já tinha anunciado esta possibilidade de aumento dos juros, em julho, quando o Conselho manteve as taxas, mas instruiu os serviços a simularem cenários para o petróleo e para o gás, antecipando-se a setembro. “A responsabilidade da prova está nos dados”, afirmou então Lagarde, vincando que “todo o impacto inflacionista do choque energético ainda está por sentir”.

A decisão do dia 10 é acompanhada por novas projeções dos serviços, embora a data de corte seja de cerca de duas semanas antes da reunião, o que significa que estão refletidos nela, nem a fase mais recente da subida do petróleo, nem o aumento dos rendimentos das obrigações soberanas europeias para máximos de 15 anos.

As atenções voltam-se, agora, para os bancos homólogos de Frankfurt. A Reserva Federal norte-americana (FED) divulgará a sua decisão a 16 de setembro e o Banco do Japão a 18, estando ambos a ponderar novas subidas. Ao invés, o Banco de Inglaterra, que decidirá no dia 17 de setembro, deverá manter as taxas, dado sustentar uma taxa diretora de 3,75%, muito mais elevada do que a dos restantes bancos centrais.

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A 9 de setembro, os mercados atribuíam à subida de 0,25% uma probabilidade quase certa, o que elevaria a taxa de depósito do BCE de 2,25% para 2,5%. O que tornava difícil esta decisão não era saber se o BCE ia agir, mas porquê e se a justificação resistiria ao confronto com os dados.

Até aqui, tudo tem acontecido de forma acelerada: o BCE aumentou as taxas, a 11 de junho, pela primeira vez, em três anos, elevando a taxa de depósito de 2% para 2,25%, em resposta ao choque energético da guerra com o Irão, e manteve‑as em julho. Porém, Christine Lagarde sinalizava setembro, num tom mais agressivo.

Os números da inflação de agosto dissiparam as dúvidas restantes, com a inflação da energia, na Zona Euro, a atingir um valor percentual bem mais alto do que em julho.

Porém, segundo o BCE, a inflação global não se generaliza, até se inverte o retrato. Tanto a inflação subjacente como a inflação nos serviços, o componente mais ligado aos salários e à procura interna, recuaram. Assim, continua a haver poucos sinais de que a energia cara esteja a repercutir‑se no resto da economia. É isso que os economistas entendem por “efeitos de segunda ordem” e a sua ausência é o argumento mais forte contra um aperto da política monetária.

Os estudos do BCE reforçam esta importante distinção. Num artigo publicado a 8 de setembro, economistas do BCE concluíram que os fatores adversos de oferta de energia, motivados por tensões geopolíticas, explicam cerca de 90% da subida da inflação da energia, entre janeiro e maio. “Desta vez, o choque na oferta de energia domina, enquanto a procura e os estímulos de política pública têm papéis secundários”, escreveram os economistas, acrescentando que “estas diferenças são essenciais para explicar porque é que as respostas de política monetária são diferentes”.

Já a vaga de 2021‑22 resultou de “uma combinação de fatores de oferta e de procura de dimensão elevada e sem precedentes”, razão pela qual o BCE então “aumentou as taxas de juro, de forma vigorosa e persistente”, em vez de o fazer gradualmente.

A divergência entre países da UE sublinha ainda mais quão desigual é esta situação. Como vimos, a Espanha, a Alemanha e a França são três economias sujeitas ao mesmo choque energético e, tendo resultados muito diferentes, todas são reguladas por uma única taxa de juro.

Também o crescimento económico é complicação. A Zona Euro mostrou‑se mais resiliente do que se previa, algo que o ING ((Internationale Nederlanden Groep)) atribui, em parte, à sorte, em parte, ao facto de os concorrentes asiáticos sofrerem mais com o encerramento do estreito de Ormuz e, em parte, ao estímulo orçamental. Porém, resiliência não significa que o crescimento não possa, ou não deva, acelerar.

O ING – instituição financeira multinacional, de origem neerlandesa, que oferece serviços bancários, a nível global – carateriza o movimento esperado para o dia 10 como “mais uma subida de taxas por prevenção” ou “uma subida de taxas dovish”, frisando que, mesmo a 2,5%, a taxa de depósito permanece dentro da faixa que o próprio BCE considera neutra.

Uma postura dovish indica que um banco central prefere reduzir ou manter as taxas de juros baixas, para estimular o emprego e o crescimento económico, tolerando um pouco mais de inflação, pois ir mais longe significa assumir que é necessária uma política restritiva, o que seria, no caso, uma decisão de natureza totalmente diferente.

O BCE não atua sozinho, o que é relevante para o euro. A FED reúne‑se a 15 e a 16 de setembro, depois de o presidente, Kevin Warsh, ter defendido, no seu primeiro discurso em Jackson Hole, que as condições financeiras não são restritivas e que a inflação subjacente não melhorou. E os investidores atribuíram, antes dessas declarações, uma probabilidade de cerca de um terço a uma subida nos EUA, mas apontam, agora, para 60% de hipótese de a FED elevar a banda alvo de 3,5%‑3,75% para 3,75%‑4%. E o Banco do Japão segue‑se a 17 e 18 de setembro, com os mercados a atribuírem entre 80% e 90% de probabilidade de um movimento para 1,25%.

Ao invés, o Banco de Inglaterra deverá manter as taxas em 3,75%, a 17 de setembro, porque, atualmente, sustenta uma taxa de juro muito superior à dos restantes bancos centrais.

Se a FED subir as taxas, enquanto o BCE as mantiver, o dólar reforçar‑se‑á, face ao euro, o que terá efeitos contraditórios para Frankfurt. Um euro mais fraco torna as exportações europeias mais competitivas, mas encarece as importações. E, como o petróleo e o gás são transacionados em dólares, acabaria por aumentar os custos de energia que estão na origem do problema de inflação.

No conjunto, é seguro presumir que a subida de taxas em setembro está, praticamente, garantida no BCE, mas também é provável que não resolva o dilema atual da instituição: aumentar os custos de financiamento, perante uma inflação que não consegue alcançar, e retirar, ao mesmo tempo, o apoio a uma economia que ainda poderia beneficiar dele.

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Depois de uma pausa de três anos, está retomado o ciclo de aperto da política monetária. Com efeito, o conflito no Médio Oriente continua a gerar pressões inflacionistas, devendo a inflação permanecer muito acima do objetivo, durante um período alargado.

O aumento era esperado pelos analistas e pelos economistas que acompanham as movimentações de política monetária da banca central, numa altura em que as taxas de inflação na Zona Euro, depois de um alívio momentâneo, dão mostras de estarem a ganhar balanço.

Em agosto, o Índice Harmonizado de Preços no Consumidor (IHPC), o indicador que permite a comparação dos níveis de preços entre os países da União Europeia (UE), aumentou 3,3%, face ao mês homólogo, uma aceleração, face aos 2,9% de julho.

Por sua vez, o BCE reiterou que “o Instrumento de Proteção da Transmissão” – que permite, sob determinadas condições, a compra de dívida, no caso de aumento da rendibilidade implícita das obrigações soberanas – “está disponível para contrariar dinâmicas de mercado desordenadas, injustificadas e passíveis de representarem uma ameaça grave para a transmissão da política monetária, em todos os países da área do euro, permitindo, assim, ao Conselho do BCE cumprir, mais eficazmente, o seu mandato de estabilidade de preços”, mensagem que os mercados terão em conta, numa altura de acentuada queda dos preços dos Títulos do Tesouro dos países, que se traduz, a curto prazo, num aumento da fatura com juros para as capitais europeias.

A subida dos preços, espoletada pela crise no Médio Oriente e pela sua repercussão nos preços dos combustíveis, é a razão direta para esta decisão tomada pelo BCE, segundo o qual “as perspetivas mantêm-se extremamente incertas, com riscos em alta para a inflação e em baixa para o crescimento económico”.

No atinente ao choque energético, os cenários atualizados preparados pelos especialistas ilustram o vasto leque de resultados para a evolução do crescimento e da inflação, com base em diferentes pressupostos sobre a intensidade e a duração do choque, bem como os seus efeitos indiretos e de segunda ordem.

Já no respeitante ao crescimento económico, as projeções de referência situam-se em 0,9%, para 2026, em 1,4%, para 2027, e em 1,5%, para 2028 – uma revisão em alta, relativamente a 2026 e a 2027, refletindo, sobretudo, uma resiliência da economia da área do euro maior do que o esperado. Recentemente, o Eurostat reviu em alta a taxa de crescimento na Zona Euro do segundo trimestre para os 0,6% em cadeia.

A resistência das economias europeias ao choque energético terá facilitado a decisão anunciada no dia 10; mas, ante a ameaça de inflação mais acelerada, os analistas mantinham, antes do anúncio, a perspetiva de novo aumento, apenas em dezembro. Numa análise divulgada, no dia 9, Michael Krautzberger, diretor de Investimento Global de Mercados Públicos da AllianzGI, sustentava que “a combinação de previsões de inflação em alta e uma função de reação vigilante sugere que a fasquia para novos aumentos, além de setembro, se mantém baixa” e que “é provável outro aumento de 0,25% em dezembro”.

Mark Wall, economista-chefe para a Europa do Deutsche Bank, considera, numa nota já depois do comunicado do BCE, que os riscos inflacionistas podem estar a aumentar e que é provável que aconteça uma nova subida das taxas em dezembro, mas o BCE ainda tem de avançar com cautela, pois a economia mostrou-se resiliente, nos últimos seis meses, mas a rápida subida dos preços do gás significa que o choque negativo, do lado da oferta, está a intensificar-se, acabando por prejudicar o crescimento. A questão é saber em que medida e quando.

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Em suma, o ambiente económico e monetário é marcado pela incerteza. A guerra das armas sepulta pessoas e bens nos escombros da destruição, do trauma e da morte, talvez mais violentamente do que as catástrofes naturais. As ameaças de guerra, a guerra comercial e a guerra da desinformação são fonte de danos económicos, morais e sociais. E com líderes políticos – por exemplo, Donald Trump, Vladimir Putin e Xi Jinping – que não olham a meios para tingirem os fins, tudo é incerto, mutável e inseguro.

É preciso ganhar resiliência, porque hoje não há guerra pura. Ela e feita de tudo: armas, guerrilha, sabotagem, ameaças, desinformação, chantagem, difamação, supostos erros, ataques cibernéticos, cortes de energia e de comunicações, apagões, destruição de infraestruturas – envolvendo militares, civis e militares que trajem à civil, bem como envolvendo Estados e grupos de mercenários. É a guerra mundial aos pedaços, mexendo com tudo e com todos.

No meio de tudo isto, é preciso alimentar a esperança e nunca atirar a tolha ao chão.

2026.09.10 – Louro de Carvalho


Governo sobrevive a moção de censura inoportuna e despropositada

 

 

Foi a terceira vez que um governo liderado por Luís Montenegro foi alvo de uma moção de censura. As outras duas foram debatidas a 21 de fevereiro e a 5 de março de 2025, por iniciativa do partido do Chega e do Partido Comunista Português (PCP), respetivamente, tendo sido ambas rejeitadas, pelo que o governo sobreviveu e só caiu por força da apresentação de uma moção de confiança, que mereceu o voto contra do Partido Socialista (PS).

A debatida e rejeitada a 8 de setembro – em férias parlamentares – é inoportuna e despropositada, mas explicável, só para o partido proponente, o Chega, marcar a agenda política. Com efeito, uma moção de censura, obviamente, apresentada por partido(s) da oposição, visa o derrube do governo, por questões que põem em causa a governabilidade, e não a ação de um ministro, para mais estando em causa funções que exerceu antes da entrada na governação.

A governação atual, certamente, merece reparo e mesmo censura. Porém, os partidos políticos, para não serem acusados de criação de crise política – que penaliza os seus autores –, vêm-se contendo, a não ser o partido da extrema-direita xenófobo e anti-imigração, que faz tudo por tudo para ter espaço privilegiado na arena política.

O ministro da Administração Interna, Luís Neves, tem condições políticas para estar no governo? Obviamente, não. Por menores e menos numerosas suspeitas outros governantes caíram em tempos idos. A sua gestão na Polícia Judiciária (PJ) surgiu, nos últimos tempos, embrulhada numa série de casos capeados de informalidade ou de irregularidade, embora se levante a dúvida se não houve mesmo ilegalidades.

Cresce a ideia de que tudo isto veio à tona, porque o Chega se sentiu incomodado com antigas diligências investigatórias conduzidas pela PJ e porque houve elementos daquela polícia que se terão sentido ultrapassados na sua pretensa ascensão interna. Também o agora ministro diz que nunca prejudicou o Estado e que, embora tenha cometido erros, de que pediu desculpa e que não repetiria, sabendo o que sabe hoje, esteve sempre do lado do bem.

Ora, nenhuma destas circunstâncias justifica, política e eticamente, a permanência do visado no executivo, pois são tantos os inquéritos instaurados, uma averiguação preventiva e um julgamento anunciado que seria bom que tudo ficasse devidamente esclarecido, a bem da causa pública e do próprio visado. No entanto, não é adequada, para obviar a esta situação a moção de censura, mas a demissão por iniciativa do primeiro-ministro ou do próprio, sendo desejável que fosse o visado a colocar o seu lugar à disposição.

Contudo, o primeiro-ministro (PM), Luís Montenegro, segurou o ministro da polémica e anunciou uma medida de redução fiscal, bem como um mísero bónus nas pensões baixas.

A moção de censura contra o governo Aliança Democrática (AD), de centro-direita, formada pelo Partido Social Democrata (PSD) e pelo partido do Centro Democrático Social (CDS), não passou, pelo que o executivo se mantém em exercício. Apenas o Chega (com os seus 60 deputados), o partido de extrema-direita que apresentou a moção, votou a favor. Os outros partidos votaram contra ou abstiveram-se. Mas foi a abstenção do Partido Socialista (PS, de centro-esquerda), o terceiro partido com representação parlamentar, que evitou a queda do governo.

A moção teve 104 votos contra, das bancadas do PSD, do CDS da Iniciativa Liberal (IL), do Livre e do partido Pessoas-Animais-Natureza (PAN), bem como 62 abstenções, entre os deputados do PS, do PCP, do Bloco de Esquerda (BE) e do Juntos pelo Povo (JPP).

No momento em que o presidente da Assembleia da República (AR), José Pedro Aguiar-Branco, anunciou o resultado da votação, todos os deputados da bancada proponente se levantaram, repetindo a palavra “demissão”, em uníssono, durante mais de um minuto. E, ante a perplexidade de alguns deputados, o presidente da AR frisou que se matéria ali o tempo que fosse necessário, nem que fosse até à meia-noite, pois, o Chega, que desrespeita o Parlamento, ficará a saber que o Parlamento, com este seu presidente funciona, tal como a democracia parlamentar, no que foi aplaudido pelos demais componentes da mesa.

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Em causa estão os casos relacionados com o Ministro da Administração Interna, enquanto era diretor da PJ, a principal polícia de investigação criminal, em termos de competência genérica.

Os casos têm vindo a ser divulgados na imprensa, durante o verão, e foram discutidos na manhã do dia 8, na Comissão Parlamentar de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias. Entre estes, estão a falta de entrega das declarações patrimoniais, as relações com uma empresa de construção que, tendo contratos com a PJ, também fez obras numa propriedade do ministro. Além disso, o caso de um atrelado, confiscado num caso de tráfico de droga, que foi levado por esta empresa de construção.

O governante, nas suas respostas, que pouco adiantaram, em relação ao que já se sabia, moderou as suas críticas ao Chega, a quem acusava de populismo (que o governante iria combater por todos os meios) e declarou que não via motivo para colocar o seu lugar à disposição do PM. Por conseguinte, manter-se-á no governo a fazer o seu trabalho, até que o governo acabe ou o PM o venha a dispensar.

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“Chegámos aqui pela atitude do ‘quero, posso e mando’ de um ministro que se arvorou em novo xerife da República”, disse o líder do Chega na tarde do dia 8, no início do debate da moção de censura. “E com todo o respeito, como é que ainda está aí sentado? Como é que ainda tem a falta de vergonha de estar sentado na bancada do Governo?”, perguntou Ventura.

Só cerca de uma hora e meia depois do início do debate é que o PM falou do ministro Luís Neves, enfatizando: “O atual ministro da Administração Interna é um excelente ministro e Portugal precisa dele. Está no governo quem o primeiro-ministro escolheu.”

Luís Montenegro elogiou Luís Neves no combate ao crime, dizendo que “tem correspondido ao desafio de sermos um dos países mais seguros”, e defendeu o trabalho de preparação da época de incêndios. “Fez o trabalho de casa, antes do pico do verão”, afirmou, para vincar: “Enquanto alguns sonham com demissões, Portugal tem o melhor desempenho económico da Europa e o maior crescimento do emprego da Europa.”

O chefe do governo também aproveitou para fazer dois anúncios de medidas a tomar em Conselho de Ministros: o imposto sobre o rendimento das pessoas singulares (IRS) será reduzido até ao sexto escalão, a partir de novembro; e, em dezembro, os reformados com pensões mais baixas receberão um suplemento extraordinário.

A oposição respondeu, mantendo o governo, com votos contra a moção ou com a abstenção. Contudo, foi muito crítica do Chega e da atuação do governo.

“O PS não viabiliza esta moção de censura, porque o PS responde às portuguesas e aos portugueses. As portuguesas e portugueses não querem uma nova crise política”, disse o líder do PS, José Luís Carneiro, mas pediu explicação dos casos de Luís Neves.

O PCP, que também se absteve, decidiu centrar a intervenção na atuação do governo e nas condições de vida. “A sua propaganda esbarra na realidade da vida, onde salários, aumentos e pensões são comidos pelo aumento do custo de vida”, disse o secretário-geral, Paulo Raimundo, dirigindo-se ao primeiro-ministro.

Jorge Pinto, do Partido Livre, sublinhou ser o único partido à esquerda a votar contra. “Nós não alinharemos nunca neste jogo”, disse Jorge Pinto, numa crítica à moção. “Mas o que há para censurar é muito, senhor primeiro-ministro.”

Mariana Leitão, da IL, disse que o primeiro-ministro está “a amarrar o seu destino ao caso de Luís Neves”. Mesmo assim, o partido votou contra, porque “uma moção de censura não serve para demitir um ministro, é para demitir um governo”.

Também a deputada do Pessoas-Animais-Natureza (PAN, ecologista), Inês de Sousa Real, disse que o partido não queria criar uma crise política. Andreia Galvão, do Bloco de Esquerda (BE), pediu a demissão do ministro da Administração Interna. E Filipe Sousa, do Partido Juntos Pelo Povo (JPP), pediu uma comissão parlamentar de inquérito (CPI).

Uma CPI, que o Chega também pensou exigir, terá âmbito limitado, pois cinge-se a atos de gestão e de negócios de Luís Neves e de quem tenha colaborado com ele nisso, o que está sob inquérito e por cujas conclusões é prudente esperar. De resto, todo o trabalho investigativo da PJ já passou pelo escrutínio judiciário.

Esta foi a terceira vez que um governo de Luís Montenegro foi alvo de moção de censura. Na primeira legislatura, no início de 2025, o governo sobreviveu a duas moções, mas acabou por cair, depois de ter falhado uma moção de confiança, tendo voltado a ganhar as eleições legislativas, a 18 de maio do ano passado.

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O líder do Chega, na parte final do debate da moção de censura, disse que o propósito foi “mostrar o caminho da decência” a Luís Montenegro, o que, em sua opinião, passaria pelo afastamento do ministro da Administração Interna.

Nas críticas aos restantes partidos da oposição, centrou-se na IL, que tal como o Livre votou contra, dizendo que o antigo líder Rui Rocha talvez não esteja presente no momento em que o orador discursava, por não concordar com essa orientação de voto. E mencionou a “brigada da ética do PSD”, recordando figuras, como Duarte Pacheco, Fernando Negrão e Rui Rio, para que o antigo diretor nacional da PJ deixe de ser ministro.

Igualmente crítico se mostrou para o PS, recordando que os socialistas se juntaram ao seu partido na rejeição da moção de confiança apresentada por Luís Montenegro, em 2025. “Que saudades de Pedro Nuno Santos”, exclamou Ventura, com o antigo secretário-geral a manter-se impávido, na última fila da bancada socialista.

Anunciando que o Chega apresentará projetos de lei para descida de impostos sobre combustíveis e para o IVA Zero (imposto sobre o valor acrescentado) na alimentação, André Ventura perguntou-se se “temos um governo assim tão bom, que não mereça uma moção de censura”. E concluiu que os que a inviabilizam serão “cúmplices e muletas” deste governo.

Citando Sá Carneiro, o líder do Chega admitiu que demitir Luís Neves tem riscos: “Mas a política sem riscos é uma chatice, mas sem ética é uma vergonha”, sentenciou.

O ministro do Estado e dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, encerrando o debate da moção de censura, em nome do governo, disse que Portugal tem de “dizer chega ao Chega e dizer basta ao PS”. E, dirigindo-se, sobretudo, ao partido de André Ventura, atirou: “Não é um partido de governo, é um partido de campanha.”

Para Rangel, “os tempos não estão para brincadeiras”, o que o leva a criticar quem poderia lançar Portugal numa crise política, “diante da situação internacional desafiante e imprevisível”. E, sobre os elogios do Chega à recente vitória eleitoral da Alternativa para a Alemanha (AfD), Rangel diz que o partido deve decidir se está a favor da Europa e da NATO (Organização do Tratado do Atlântico Norte) ou, pelo contrário, “da Rússia de Putin”.

Do PS, Rangel guarda a “pesada herança dos oito anos de governação socialista” e diz que esse partido “quer fazer esquecer que a sua atual direção esteve ao leme”. E, aludindo à entrada de 800 mil migrantes, em quatro anos, com más consequências, o ministro dos Negócios Estrangeiros apontou a Carneiro a extinção do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF). “Se não foi o pai, foi o pai adotivo, porque abraçou a extinção e a executou sem reservas”, disse.

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Conforme julgo inoportuna a moção de censura, também me parece descabida a crítica do ministro do Estado e dos Negócios Estrangeiros ao PS, que teve, objetivamente, a cooperação com o governo. Por isso, deixo uma referência aos três minutos finais reservados para o PS, que serviram para o secretário-geral subir à tribuna para, num apelo ao afastamento de Luís Neves, exigir ao PM que “tome as decisões que se impõem” para que a crise “não se alastre”.

Acusando o Chega de ajudar o governo a escapar ao escrutínio do governo da AD, José Luís Carneiro defendeu que 29% da redução de receita de IRS se deve a decisões do último executivo socialista. E, sobre a abstenção à moção de censura, com que os deputados socialistas “impedem uma crise política”, o secretário-geral do PS diz que o governo tem uma oportunidade para dizer o que vai fazer quanto “às falhas graves” na Saúde ou na Habitação. A esse propósito, acusa o executivo de ter feito “disparar em flecha” o preço dos arrendamentos com a definição de 2300 euros como renda moderada.

“Vai continuar refém do Chega e da sua vontade de sobreviver?”, perguntou o secretário-geral do PS, no final da sua intervenção.

Já o deputado socialista Marcos Perestrello tinha pegado nas referências ao “Portugal feliz”, feitas na intervenção inicial de Luís Montenegro, para evocar a rábula do “Senhor Contente e Senhor Feliz”, protagonizada, há quase meio século, por Nicolau Breyner e por Herman José.

Depois, dirigiu-se à bancada do PSD, confessando-se preocupado pelas vezes sucessivas em que esse partido fez acordos com o Chega, preparando-se para o fazer uma quinta vez, neste caso na revisão constitucional. “É o masoquismo político do PSD que alimenta o sadismo do Chega”, disse o deputado, confessando-se “preocupado” com a “irresponsabilidade” social-democrata, sobretudo, quando considera pôr em causa o texto fundamental.

Todavia, o PS não recebeu críticas apenas do PSD e do Chega. Também o líder parlamentar da IL, Mário Amorim Lopes, defendeu que o PS “é um lobo nas palavras e um carneiro nas ações”, referindo-se ao facto de os socialistas se absterem na votação da moção de censura, apesar de criticarem o “oportunismo do Chega”. E atirou: “José Luís Carneiro veio ensaiar aquela tática muito conhecida do ‘vocês segurem-me, se não vou a eles’.”

Prevendo que a moção de censura seria aprovada apenas pelo grupo parlamentar que a apresentou, André Ventura contava pressionar o primeiro-ministro e os restantes partidos da oposição, dos quais dizia esperar “consistência e coerência”, quanto à permanência de Luís Neves no Ministério da Administração Interna – mas sem qualquer efeito.

Cavaco Silva foi o único primeiro-ministro que viu cair o seu executivo, devido à aprovação de uma moção de censura na AR, acabando por obter duas maiorias absolutas consecutivas. Os governos têm caído, sobretudo, pela não aprovação de moções de confiança ou pela aprovação de moções de rejeição do seu programa. Desta vez, o governo não cai, mas nem tudo fica na mesma: o Chega reforça o seu protagonismo, o governo está mais desnudado, o ministro visado optou por deixar-se ferver em lume brando e o grande debate será feito em torno do Orçamento do Estado para 2027. As medidas de redução do IRS até ao 6.º escalão e o bónus nas pensões baixas pretendem ser almofada social de apoio ao governo, em caso de eventual crise política.

2026.09.10 – Louro de Carvalho