Já
Pedro Garcias, jornalista, enólogo e vitivinicultor, na sua rubrica “Elogio do
vinho”, publicada, habitualmente, no caderno semanal de sábado “Fugas” do
jornal Público, alertara para a necessidade de antecipar a vindima, pelo
menos, de algumas vinhas ou de algumas castas, na região do Douro, mercê da
intensidade do calor.
Agora,
a 24 de setembro, num pequeno texto sob o título “Vindimas noturnas são
resposta de herdade alentejana aos fenómenos de calor extremo”, publicado pela Euronews,
Diana Rosa Rodrigues, com a AFP (Agence France-Presse), sustenta
que “as ondas de calor, cada vez mais frequentes, estão a mudar a forma como os
viticultores trabalham”. Assim, no Alentejo, numa das regiões mais quentes de
Portugal, a Herdade das Servas implementou o regime de vindima noturna, a fim
de melhorar as condições de trabalho.
Na
noite cerrada, as uvas são iluminadas pela luz dos capacetes e dos tratores que
se atravessam no terreno. Uma componente das dezenas de pessoas que trabalham
na apanha de uva confirmou à AFP que a mudança não atrapalhou o processo
e que, graças à luz que traz consigo, até “vê melhor as uvas do que à luz do
dia”, pois, no seu modo de ver, “o corpo habitua-se a fazer do dia noite e da
noite dia.
Naquela
herdade, a apanha das uvas, durante a noite, começou em 2024, como teste, tendo
sido implementada como prática oficial, desde 2025, em resposta ao calor
intenso e aos eventos climáticos extremos, cada vez mais frequentes. “Esta colheita noturna surgiu da necessidade
de proporcionar melhores condições de trabalho às equipas, para trabalharem,
porque o Alentejo tem um clima muito duro, no verão, explicou à AFP
Renato Neves, viticultor e enólogo, para quem a vindima noturna não é opção,
mas realidade inevitável para os viticultores da região.
Renato
Neves considera que, “no futuro, vai ser inevitável”. Cada vez mais empresas
adotarão esta prática, até porque será muito difícil as pessoas continuarem a
vindimar a partir das 11h00 ou do meio-dia, sob temperaturas de 40º C (40 graus
Celsius), 41º C ou 42º C.
O
Alentejo é uma das regiões mais quentes e secas de Portugal continental, atingindo,
facilmente, temperaturas máximas entre os 35º C e os 38º C, no verão, e picos
superiores em vagas de calor, episódios cada vez mais comuns atribuídos às
alterações climáticas.
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Também
na Herdade da Fonte Santa, em Vimieiro, no concelho de Arraiolos, no distrito de
Évora, os trabalhadores começaram, em 2025, a sua atividade vindimeira, à
meia-noite, nos 20 hectares de vinhas, inteiramente cultivadas de forma
biológica. Trabalhavam durante sete horas, em condições mais frescas e
agradáveis, à luz lua e das estrelas, para evitarem o calor do dia. Além disso,
o ar fresco noturno traz o aroma da fruta madura, enquanto os trabalhadores
selecionam cada cacho, rindo em contraponto ao silêncio do amassar das folhas.
O
murmúrio suave das conversas e o brilho suave dos faróis na vinha, a
complementar a luz estelar e lunar, realçam a adaptabilidade e a resiliência dos
cuidadores das videiras. Por volta das 3h00 da manhã, fazem a pequena pausa,
para descansarem e para saborearem uma refeição leve, mas refrescante, a
“bucha”.
O
encarregado da herdade diz preferir colher à noite, por ser menos quente,
embora haja algumas noites mais quentes, logo no início de agosto.
A
colheita noturna é uma prática cuidadosa e tradicional na viticultura, já
enraizada no desejo de preservar a frescura inata e os aromas cativantes das
uvas. Ao contrário do método mais comum de colheita durante o dia, a apanha
noturna envolve a recolha das uvas, à luz da lua, uma decisão que transforma
não só o fruto, mas também os próprios vinhos resultantes. Na sua essência, a
colheita noturna é uma escolha deliberada dos produtores de vinho, para
protegerem as qualidades delicadas das suas vindimas e para facilitarem o
trabalho.
Porém,
objetivo principal é proteger as uvas dos efeitos adversos do calor diurno, da
luz solar e da oxidação, que podem envelhecer, prematuramente, a fruta e
diminuir a sua complexidade aromática. Ao colher à noite, os viticultores podem
preservar os sabores vibrantes e o bouquet fresco que são as marcas
distintivas de um vinho excecional.
“Como
vindimamos à noite, as uvas permanecem sempre frescas, não há necessidade de
refrigeração, dentro da adega ou nos tanques, nem durante o processo de
pré-vindima para arrefecer as uvas. E o risco de oxidação também é menor”,
explicou Barbara Monteiro, coproprietária e gerente da Herdade da Fonte Santa,
para quem as uvas são, por natureza, incrivelmente sensíveis às flutuações de
temperatura.
Durante
o dia, especialmente, em climas mais quentes, como no Alentejo, onde a quinta
está localizada, o sol pode aquecer as vinhas a temperaturas bem acima dos
40°C. Ora, este calor intenso acelera os processos metabólicos nas bagas de
uva, aumentando a velocidade a que perdem acidez e compostos aromáticos
voláteis. Além disso, o calor pode promover o início precoce da fermentação, visto
que as leveduras selvagens e as bactérias se tornam mais ativas, arriscando
sabores indesejados e deterioração.
À
noite, as temperaturas descem, normalmente, por vezes, até 20° C ou mais. Este
ambiente fresco retarda o metabolismo das uvas, permitindo-lhes reter a sua
acidez natural, fator essencial para a frescura e para o equilíbrio do produto
final. E a preservação dos compostos aromáticos é, igualmente, crucial, pois
são as moléculas delicadas responsáveis pelas notas florais, frutadas e
herbáceas que distinguem os grandes vinhos dos comuns.
Além
dos benefícios imediatos na qualidade das uvas, a colheita noturna aborda
desafios mais amplos enfrentados pelos produtores de vinho atualmente,
particularmente, os causados pelas alterações climáticas, que surgiram, nas
últimas décadas, como um enorme desafio para a agricultura, em todo o Mundo,
não sendo exceção a arte de produzir vinho.
O
aumento das temperaturas, os padrões climáticos imprevisíveis e as mudanças nas
estações alteraram a própria natureza da viticultura. Face a estas mudanças, os
produtores de vinho estão cada vez mais a recorrer a práticas inovadoras, para
preservarem a qualidade e a sustentabilidade das uvas. E uma dessas práticas, a
colheita noturna, tornou-se uma ferramenta poderosa na adaptação às realidades
de um Mundo em aquecimento.
Segundo
Bárbara Monteiro, as alterações climáticas influenciaram muito a colheita e o
processo. Assim, em todos os anos, os viticultores adaptam processos, como a
poda. Ou seja, fazem-na mais tarde, para tentarem atrasar o início da colheita,
mas estão a colher mais cedo, a cada ano, pois “as alterações climáticas,
claramente, têm um impacto significativo”.
Temperaturas
mais quentes podem acelerar o amadurecimento, fazendo com que as uvas atinjam a
maturidade açucarada, antes da maturidade fenólica e aromática, resultando em
vinhos com maior teor alcoólico, mas com menor complexidade. Além disso, o
calor extremo, a seca e os eventos climáticos imprevisíveis ameaçam tanto o
rendimento como a qualidade.
À
medida que a indústria vinícola lida com as suas responsabilidades ambientais,
a colheita noturna surgiu como prática sustentável, porque há menores emissões
de carbono, menor necessidade de intervenção química e conservação da água.
Além
disso, o stresse na videira, causado por temperaturas muito altas para a
maturação correta e pode queimar os cachos; a chuva fora de tempo faz apodrecer
as uvas; e o granizo rasga ou perfura as bagas e destrói a folhagem, abrindo
caminho a doenças
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As
alterações climáticas também são culpadas pela pior vindima dos últimos 65 anos.
Em fins de abril de 2024, um relatório concluía que a produção global de vinho
atingiu um mínimo histórico, em 2023, podendo as alterações climáticas ser as
culpadas.
A
Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV), organização
intergovernamental com 50 estados-membros, representando 75% da área de vinha
do Mundo, diz que a bebida atingiu o nível mais baixo, desde 1962. E os
especialistas culpam as “condições ambientais extremas”, como secas e incêndios,
que induzem a tendência de queda da produção.
Embora
as alterações climáticas não sejam inteiramente culpadas, no dizer a OIV, estas
condições são o maior desafio que a indústria enfrenta. As videiras são,
frequentemente, cultivadas em áreas fortemente afetadas e incrivelmente
vulneráveis às mudanças no clima. E estas condições conduziram a um declínio
acentuado, com impacto nas principais regiões produtoras de vinho nos dois hemisférios:
Norte e Sul.
Na
União Europeia (UE), a produção de vinho diminuiu 10%, em 2023, o segundo menor
volume de vinho registado desde o início do século. Alguns países viram a
primavera chuvosa causar odor, inundações, danos e perdas nas vinhas. Outros,
especialmente, os do Sul da Europa, sofreram a seca severa. E os especialistas
alertam que secas regulares podem tornar-se o novo normal em todo o
Mediterrâneo, em meados do século, se não agirmos, imediatamente, nas
alterações climáticas.
Além
disso, aqueda na produção vem a par da queda do consumo de vinho no seu nível
mais baixo, desde 1996, devido aos aumentos de preços decorrentes da inflação e
à quebra acentuada no consumo de vinho, na China, devido ao abrandamento
económico.
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Ao
mesmo tempo, as alterações climáticas estão a redesenhar o mapa global do vinho.
Bordéus
poderá, em breve, ter concorrência para o título de região vinícola mais famosa
do Mundo. Com efeito, à medida que as alterações climáticas afetam a
pluviosidade e as temperaturas sobem, os especialistas preveem que regiões tão
a norte, como Yorkshire, no Reino Unido, pode, tornar-se os principais
produtores de vinho, até ao final do século.
De
acordo com um relatório do Monitor do Mercado de Vinhos Finos e Restaurantes,
Hull poderá ser conhecida pelo seu cabernet sauvignon, já em 2100, à
medida que as alterações climáticas afetam Bordéus e transformam o Norte de
Inglaterra em ponto de acesso à produção.
Na
última década, surgiram colheitas de renome em locais tidos como improváveis. Os
vinhos espumantes ingleses estão a ganhar reconhecimento mundial, enquanto os
brancos suecos têm feito incursões surpreendentes na cena internacional. E
zonas do Norte, como a Dinamarca, prosperarão com estações de crescimento mais
longas e condições mais amenas.
Esta
mudança também está a acontecer muito para lá da Europa. “Penso que vamos
começar a ver mais vinho a sair de locais como a China, à medida que os
produtores de vinho utilizam a amplitude das regiões onde o podem produzir, de
Ningxia a Yunnan”, afirma Ottara Pyne, uma sommelier birmanesa-americana e a
gestora do portfólio da Wine Garage, empresa de importação e distribuição
sediada em Banguecoque, na Tailândia, que trabalha com adegas familiares e
artesanais, em todo o Mundo.
Também
nos Estados Unidos da América (EUA), há mais vinho sério a ser produzido em
locais, como a Virgínia, Maryland e até no extremo de Long Island.
Enquanto
surgem novas áreas, as capitais do vinho de longa data enfrentam desafios
existenciais.
O
relatório alerta para o facto de Bordéus poder em breve deixar de produzir, de
forma fiável, os seus vinhos de assinatura, uma vez que a seca, o calor e os
períodos de maturação mais curtos tornam o cultivo mais volátil. A famosa
região francesa de Chablis registou perdas de até 60% em 2023, com geadas
tardias, granizo e míldio a dizimarem as colheitas.
Agora,
alguns produtores estão a vindimar mais cedo, a replantar com variedades mais
resistentes ou a explorar novas técnicas. Outros apelam à reforma das regras de
denominação, o que lhes daria mais flexibilidade, quanto às uvas que podem
cultivar sob rótulos protegidos. E, mesmo em zonas tradicionalmente resistentes
do Sul da Europa, os viticultores questionam a viabilidade, a longo prazo, das
suas vinhas familiares.
Tal
como a famosa mostarda Dijon, da Borgonha, e o queijo Gouda, dos Países Baixos
enfrentam a extinção, devido às alterações climáticas, os vinhos emblemáticos
poderão, em breve, estar em risco. Todavia, Pyne afirma que os efeitos das
alterações climáticas não são tão simples como a deslocação das regiões
vinícolas para norte ou para sul, ou o desaparecimento total de grandes vinhos
de regiões famosas. “A Borgonha e o Vale de Napa estarão sempre presentes. Tentarão
produzir grandes vinhos, aconteça o que acontecer”, diz, mas admitindo que
podem não ser os habituais cabernet ou pinot noir.
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Já
em 2020, as vindimas começaram a 5 de agosto, na França, algo nunca visto para
um viticultor do vale de Agly, nos Pirenéus Orientais, o local de França onde a
colheita das uvas é mais precoce. “Para as uvas pequenas Muscat, é muito cedo. Com
certeza, é por causa do aquecimento global. Já nos outros anos, começámos por
volta do dia 15 de agosto. Fizemos um ou dois dias antes do dia 15 e, depois,
recomeçávamos a vindima”, relatava o viticultor Jean-Marie Dereu.
O
Ministério da Transição Ecológica de França confirmava que, em média, as
vindimas estavam a acontecer 18 dias antes, comparativamente com há 40 anos.
Alguns produtores estavam a pensar em mudar as variedades das videiras, para
que se adaptarem às alterações climáticas.
Em
2025, os viticultores franceses foram obrigados a antecipar a vindima, porque
as temperaturas elevadas fizeram com que as uvas amadurecessem mais cedo do que
na época tradicional da vindima, entre setembro e outubro. Na verdade, os
vindimadores do Château Carbonnieu descobriram que as temperaturas próximas dos
40º C causaram tensão nos cachos de uvas para vinho branco. Sob condições de
calor e de falta de água, os bagos amadureceram antes do previsto. Como
resultado, os brancos do Château Carbonnieu têm assinatura muito mais
mediterrânica do que atlântica. O impacto do calor faz com que as uvas tenham
um teor de açúcar mais elevado (menor acidez e menor frescura), o que, pelo
processo de fermentação, se traduz em vinhos com maior teor alcoólico. E as
uvas utilizadas na produção de vinho branco, em particular, enfrentam um
problema, porque as regras rigorosas da França, para os vinhos com denominação
de origem protegida (DOC), estipulam o teor de açúcar permitido.
O
enólogo Andrea Perrin é responsável pelo cumprimento destas novas exigências. O
principal problema reside neste excesso de açúcar, que está a conduzir a
colheita desta área de 45 hectares a níveis de álcool de cerca de 14%. E, além
de entrarem em conflito com os regulamentos da DOC, os vinhos brancos com teor
alcoólico tão elevado não são, geralmente, populares, entre os consumidores.
Porém,
como não é área muito extensa, o enólogo contou com a colheita mais tardia nos “terroirs”
preferidos para os vinhos brancos, sobretudo, os solos argilosos que preservam
a água e a acidez. Tais uvas compensariam os elevados níveis de açúcar da
primeira colheita, atingindo níveis de álcool de cerca de 12% ou talvez 13% no cuveé
(mistura de diferentes uvas) final.
***
Enfim,
também o vinho, que alegra o coração do homem e à mulher não desagrada, sofre
com as alterações climáticas.
2026.09.24
– Louro de Carvalho