terça-feira, 18 de agosto de 2026

Banquete do Reino de Deus e sua casa de oração são acessíveis a todos

 

A liturgia do 20.º domingo do Tempo Comum, no Ano A, evidencia a universalidade da salvação, porque Deus ama a todos e a cada um dos seus filhos e a todos convida para o banquete do Reino.

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Na primeira leitura (Is 56,1.6-7), Javé garante ao seu Povo a chegada da nova era, em que se revelará, plenamente, a salvação de Deus, que não se destina só a Israel, mas a todos os homens e mulheres que aceitem o convite para integrarem a comunidade do Povo de Deus.

O trecho em referência integra um bloco de textos que se chamam “Tritoisaías” (Is 56-66). Para alguns, são textos dum profeta anónimo, pós-exílico, que exerceu o ministério em Jerusalém, entre os retornados da Babilónia, nos anos 537-520 a.C.; e, para a maioria, são textos provenientes de uma pluralidade de autores, e que foram redigidos ao longo de um arco de longo tempo (provavelmente, entre os séculos VI e V a.C.), mas na época pós-exílica.

Os retornados estão desiludidos, porque a tarefa da reconstrução é morosa e difícil. O país está arruinado, as cidades destruídas e desabitadas, os campos incultos e abandonados. Os ricos oprimem os pobres e a esmagam os humildes. No âmbito religioso, o ambiente é de incompreensão dos planos de Deus, de ceticismo e de desconfiança, de culto meramente exterior e de retorno às práticas idolátricas. Agora, têm papel fundamental o sacerdote Josué e o governador Zorobabel, responsáveis pela reconstrução do Templo.

No quadro da relação dos retornados a Jerusalém, nesta fase, com os outros povos, alguns textos epocais mostram certa abertura à universalidade, sugerindo que o exílio, ao permitir o contacto com outras realidades culturais e religiosas, levou o Povo de Deus a alguma tolerância para com as outras nações. Porém, outros manifestam cada vez mais acentuado fechamento, que culminará na política xenófoba de Esdras e Neemias. Além da experiência dramática do exílio, a oposição dos povos vizinhos, na altura em que os retornados tentam reconstruir Jerusalém, aumenta a desconfiança para com os estrangeiros, pelo que, na segunda metade do século V a.C., são proibidos os casamentos mistos entre judeus e estrangeiros e anulados os existentes.

Embora não possamos situar, exatamente, em termos cronológicos, os acontecimentos em causa, trata-se do ambiente pós-exílico, rico de desafios, mas cheio de contradições.

A essa comunidade desiludida e dececionada, o profeta anuncia que está para chegar um tempo novo caracterizado pela presença na comunidade do Povo de Deus da salvação e da justiça. Porém, a comunidade precisa de se preparar para receber o dom de Deus, observando o direito e praticando a justiça (“mishpat” e “zedaqa” – as decisões justas dos tribunais, que fundamentam a reta ordem social).

Até aqui, a “promessa” não apresenta novidade. A justiça foi pregada e anunciada, vezes sem conta – com estas palavras ou com outras semelhantes –, por todos os profetas de Israel. A verdadeira novidade aparece a seguir. A salvação que Deus vai oferecer não se destina apenas a Israel, mas também aos estrangeiros. Trata-se de uma espantosa revolução no universo religioso do Povo de Deus.

Para os deuteronomistas, os estrangeiros deviam ser vencidos e votados à destruição; Israel não podia fazer qualquer pacto, nem aceitar alianças matrimoniais com eles. Os altares dos povos estrangeiros deviam ser destruídos, os seus monumentos quebrados, os seus postes sagrados cortados, os seus ídolos queimados. E, se Israel assim não procedesse e tolerasse os estrangeiros, a cólera de Javé inflamar-se-ia contra o Povo e exterminá-lo-ia, rapidamente.

Agora, é Deus que quer oferecer a sua salvação a todos os povos, inclusive aos estrangeiros. O que é necessário aos estrangeiros para entrarem na comunidade do Povo de Deus (“os estrangeiros que desejam unir-se ao Senhor para O servirem, para amarem o seu nome e serem seus servos”) é “guardarem o sábado, sem o profanarem” e serem “fiéis à Aliança”. Serão, então, membros de pleno direito da comunidade do Povo de Deus e participarão, plenamente, na vida litúrgica do Povo de Deus e o próprio Javé os conduzirá ao Templo, onde oferecerão holocaustos e sacrifícios, como os israelitas. O Templo não será condomínio fechado a que só Israel tem acesso, mas será a “casa de oração para todos os povos”. Esta perspetiva deve ter conhecido tal dificuldade para se firmar, em Israel, que, mesmo na época neotestamentária, os estrangeiros que visitavam Jerusalém não podiam passar da esplanada exterior do Templo – o átrio dos gentios – e em nunca podiam penetrar no “átrio dos israelitas”.

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O Evangelho (Mt 15,21-28) apresenta a realização da profecia do Tritoisaías, indicada na primeira leitura. Jesus, depois de ver como os fariseus e os doutores da Lei recusam a sua proposta do Reino, entra numa região pagã e montra como os pagãos são dignos de acolher o dom de Deus. Face à grandeza da fé da mulher cananeia, Jesus oferece-lhe a salvação que Deus prometeu derramar sobre todos os homens e mulheres, sem exceção.

Continuamos na “instrução sobre o Reino”. Depois de apresentar a pregação sobre o Reino em parábolas, o evangelista descreve a resposta dos interlocutores de Jesus à sua proposta. Em geral, a comunidade judaica responde negativamente ao repto lançado por Jesus. Os nazarenos, Herodes, os escribas, os fariseus e os saduceus recusam embarcar na aventura do Reino. Torna-se, cada vez mais claro, que a comunidade judaica não está disposta a acolher Jesus.

O episódio em apreço é antecedido de um confronto entre Jesus, por um lado, os fariseus e doutores da Lei, por outro, por causa das tradições judaicas. Em rutura com os fariseus e com os doutores da Lei, Jesus “retirou-Se dali e foi para os lados de Tiro e de Sídon”. A recusa de Israel em acolher o Reino Deus faz com que a pregação de Jesus se dirija para fora das fronteiras de Israel. E a comunidade dos discípulos – o grupo que escutou, atentamente, a proposta do Reino e a acolheu – acompanha Jesus.

Estamos na “região de Tiro e Sídon”. Apresenta-se a Jesus uma mulher “cananeia”. O apelativo “cananeia” designa, no Antigo Testamento, a mulher pagã (no caso, uma mulher fenícia, residente na região de Tiro e Sídon). A Fenícia não era “recomendável”, aos olhos dos judeus. De lá tinham vindo, frequentemente, exércitos inimigos e influências religiosas nefastas, que afastavam os israelitas da fé em Javé e os levavam a correr atrás dos deuses cananeus. Jezabel, mulher do rei Acab, que potenciou o culto a Baal e Asserá (meados do século IX a.C., na época de Elias) e que má memória deixou entre os fiéis a Javé, era filha de um rei de Sídon. Não admira, pois, que os fariseus e doutores da Lei, defensores da Lei e da pureza da fé, considerassem os habitantes dessa zona como cães (designação que, para os judeus, tinha sentido altamente pejorativo).

O apelo da mulher fenícia vai no sentido de também ela aceder aos benefícios da salvação que Jesus traz consigo. Todos se questionam se Jesus passará por cima dos preconceitos religiosos dos judeus e oferecerá a salvação a esta pagã, ou seja, se uma mulher fenícia (estrangeira, inimiga, oriunda de uma região com má fama e, ainda por cima, mulher) merece a graça da salvação.

As três intervenções da cananeia mostram a sua ânsia de salvação e a fé firme e convicta que a anima. As designações “filho de David”, que equivale a “Messias”, e “Senhor” (“Kýrios”) com que se dirige a Jesus, lidas em contexto cristão, equivalem à confissão de fé. A mulher impressiona pela fé, pela humildade e pelo sofrimento que transparece no seu apelo.

Surpreende a forma dura como Jesus trata esta mulher que pede ajuda. Começa por passar em silêncio, aparentemente, insensível aos apelos da mulher. Depois, face à insistência dos discípulos (que, no momento, apenas se queriam ver livres dela, pelo incómodo dos seus clamores) responde: “Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel.” E, ante o dramático último apelo da mulher (“Socorre-me, Senhor”), responde: “Não é justo que se tome o pão dos filhos para o lançar aos cães.”

Parecia alinhado com a mentalidade israelita de fechamento. É difícil entender esta atitude, aparentemente, rude e insensível do mestre galileu, empenhado em gestos concretos do amor e da misericórdia de Deus. A reação de Jesus resultará da convicção de que a salvação devia derramar-se, em primeiro lugar, pelos judeus, antes de alcançar os gentios, pois foi com eles que Deus fez a experiência de aliança, que tinha de ser validada com a aceitação do Messias, mas, a partir de Jerusalém, devia galgar as fronteiras da Palestina e ir até aos confins do Orbe.

Por outro lado, a atitude de Jesus faz sentido, se a encararmos como estratégia pedagógica a mostrar a insensatez dos preconceitos judaicos contra os pagãos. Jesus conduziu o jogo de forma a mostrar como eram ridículas as atitudes de discriminação dos pagãos, veiculadas pela catequese oficial judaica. Endurecendo, progressivamente, a sua atitude face ao apelo da “cananeia”, Jesus dá à mulher a possibilidade de mostrar a firmeza e a convicção da sua fé e prova aos judeus que os pagãos são dignos – talvez mais dignos do que esses santos membros do Povo de Deus – de se sentarem à mesa do Reino. Esta mulher, na sua humildade, nem sequer reivindica equiparar-se ao Povo eleito, convidado por Deus para o banquete do Reino. Está disposta a ficar apenas com “as migalhas” que caem da mesa, mas pede, insistentemente, que lhe permitam ter acesso a essa salvação que Jesus traz, ao invés dos fariseus e dos doutores da Lei, os quais, fechados na sua autossuficiência e nos seus preconceitos, rejeitam, continuamente, a salvação que Jesus não cessa de lhes oferecer.

No final de toda esta caminhada de afirmação da bondade e do merecimento desses pagãos que a teologia oficial de Israel desprezava, Jesus conclui: “Mulher, grande é a tua fé. Faça-se como desejas. Esta asserção quer dizer que a mulher está disposta a acolher Jesus como o enviado do Pai e a aceitar o pão do Reino, com que Deus mata a fome de vida de todos os seus filhos, pelo que recebe a salvação que se destina a todos os de coração aberto ao dom de Deus.

Mateus, com esta catequese, estará a responder a uma situação concreta da sua comunidade. Na década de 80, alguns judeo-cristãos ainda tinham dificuldade em aceitar a entrada dos pagãos na Igreja de Jesus. E o evangelista recorda-lhes que, para Jesus, o que é decisivo não é a raça, a História, a eleição, mas a adesão firme e convicta à salvação que, em Jesus, Deus faz aos homens. Com efeito, a proposta de Jesus é para todos. A comunidade de Jesus é, verdadeiramente, uma comunidade universal. O que é decisivo, no acesso à salvação, é a fé – isto é, a capacidade de aderir a Jesus e à sua proposta de vida.

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Luís André Nepomuceno, do Centro Universitário de Patos de Minas, no artigo “Mofina e Cananeia: o teatro religioso tardio de Gil Vicente”, sustenta que Gil Vicente, no “Auto de Mofina Mendes” e no “Auto da Cananeia”, vinca a conversão e a salvação dos gentios e estrangeiros.

O “Auto da Cananeia”, surgiu “por rogo da muito virtuosa e nobre senhora dona Violante, dona abadessa do muito louvado e santo convento do mosteiro de Oudivelas, a qual senhora lhe pediu que por sua devação lhe fizesse um auto sobre o evangelho da Cananea”. O atendimento a uma solicitação mostra que o dramaturgo parecia acreditar que ainda tinha algo a dizer no seu teatro religioso tardio. Parecia ter descido das alturas do além imaginado no tríptico das barcas para olhar o homem na sua potencialidade moral e na sua capacidade de redenção.

Mofina Mendes é a negação da Virgem Maria e a antítese da perseverança da cananeia; e os aldeões que não acodem à súplica de oferecer lume às candeias de José opõem-se aos pastores que seguem o anjo a Belém. Enfim, os dois autos são versões contrárias de sentimentos humanos: a negligência, de um lado, e a perseverança espiritual, de outro.

No “Auto da Cananeia”, uma mulher cananeia (portanto, estrangeira) pede que Jesus interceda pela sua filha endemoniada, e Ele, inicialmente, recusa, dizendo que não foi enviado “senão às ovelhas perdidas da casa de Israel”. E, insinuando-lhe a condição de estrangeira, diz: “Não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos”. No entanto, impõem-se a fé e a perseverança da mulher, que, pela ação de Jesus, lhe salvam a filha amaldiçoada.

As três pastoras – Silvestra, Hebreia e Veredina – representam, respetivamente os gentios, os hebreus e a Igreja. “Serra que tal gado tem / não na subirá ninguém”, diz Silvestra, a respeito do povo gentio, a considerar que é gente perdida. “Os patriarcas primeiros / eram gados celestiais / ovelhas, santos carneiros / e os profetas cordeiros / e os d’agora lobos tais”, diz Hebreia, sobre o povo judeu que caiu em perdição, ao longo dos séculos. E diz Veredina, a respeito dos cristãos da Igreja: “Um só Deus que no Céu mora / Ele m’enviou agora / das alturas cá em terra / pera ser flor dessa serra.”

Gil Vicente tecerá considerações sobre a origem estrangeira da Cananeia. A saga da mulher que pede a Cristo que liberte os demónios do corpo da filha é, na versão do dramaturgo, precedida de dois quadros: conversa entre Satanás e Belzebu, o primeiro a lamentar a sua incapacidade para tentar Cristo no deserto, e o segundo, a noticiar os tormentos que impõe à filha da Cananeia; e diálogo entre Cristo e os apóstolos, em que Ele ensina o valor da oração verdadeira e contrita. Portanto, o caso da estrangeira que não pertence às “ovelhas perdidas da casa de Israel” é antecipado de quadros dramáticos que explicam o motivo central do auto. E o dramaturgo parece insinuar um diálogo com o tema da “ovelha perdida”, frequente nos Evangelhos.

O “Auto da Cananeia” é a história de uma ovelha perdida e reencontrada, mas em nova roupagem dramatúrgica. O último auto religioso vicentino é a releitura dramática de um fragmento do Evangelho, uma peça de maturidade, em que o dramaturgo abandona a veia cómica e a velha obsessão pela sátira. A cananeia, antítese de Mofina Mendes, é mulher forte e determinada: penitencia-se, confessa-se pecadora e indigna (“confesso que sou cadela / e de cadela nasci / e sou mais perra que ela”), mas não perde a fé, mesmo ante as duras provas que Jesus lhe impõe.

Segundo o articulista, os cananeus teriam sido um dos sete povos, ou divisões étnicas, expulsos pelos israelitas, após o Êxodo, o que fez cair sobre eles a calamidade da traição, pois recusaram unir-se aos irmãos mais velhos nas terras de Ham. E a cananeia não é a única voz, nos evangelhos, de um estrangeiro amaldiçoado, qual ovelha perdida, mas reencontrada em Cristo. São bons exemplos o episódio da samaritana no poço de Jacob e o do centurião romano, gentio que pede a Cristo que lhe cure o servo paralítico.

Como São Paulo, Gil Vicente acreditava que os judeus se converteriam. E, para Dalila Pereira Costa, no teatro religioso vicentino, o desfecho é a vinda de Cristo, seja o Cristo da Natividade, seja o Cristo da Ressurreição, o mal é realidade presente, no plano da salvação, tal como a necessidade de o extirpar. E, a considerar isto na totalidade do primeiro teatro religioso vicentino, o dramaturgo tinha algo novo a dizer, e de forma nova, após o seu longo percurso pelo teatro profano. Precisava de dizer ao seu público que “as ovelhas perdidas e reencontradas são ainda mais amadas por Deus do que as ovelhas que jamais se perderam”.

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A segunda leitura (Rm 11,13-15.29-32) sugere que a misericórdia de Deus se derrama sobre todos os seus filhos, mesmo sobre os que rejeitam as suas propostas. Deus respeita sempre as opções dos homens, mas não desiste de propor, em todos os momentos e a todos os seus filhos, oportunidades novas de acolher a salvação que Ele quer oferecer. Porém, a hipótese de o Povo de eleito de Deus e o Povo da Promessa ficar à margem da salvação, por ter recusado a salvação oferecida em Cristo fazia sofrer Paulo, a ponto de confessar a sua dor e tristeza, ao ver o seu povo obstinado na recusa da vida nova de Deus. Até admitia aceitar ser separado, ele, de Cristo, se isso servisse para o Povo judeu aceitar a salvação que Deus não desiste de lhe oferecer.

Contudo, o apóstolo vai verificar que a questão não está encerrada: uma pequena parte (um “resto”) de Israel aderiu a Jesus e entrou na comunidade do Reino (o próprio Paulo faz parte desse grupo); e o endurecimento de Israel, ante a oferta de salvação, estava previsto na Escritura e insere-se, certamente, nos planos de Deus. Aliás, a recusa de Israel fez com que o Evangelho fosse pregado, mais cedo, aos gentios. Deus escreve direito por linhas tortas!

Entretanto, Paulo, que prossegue o seu ministério apostólico entre os gentios, com a esperança de que os israelitas sintam ciúmes e acolham o dom de Deus, está convicto de que, um dia, todo o Israel será salvo. Assim será, não só porque está anunciado na Escritura, mas, sobretudo, porque Deus permanece fiel às suas promessas. Da sua parte, os gentios não têm de se sentir superiores aos israelitas. Israel foi chamado por Deus, desde os seus inícios, e o chamamento de Deus é irrevogável. Os gentios, que antes estavam longe de Deus, agora, tiveram acesso à graça; e os judeus, que, agora, se afastaram dos dons de Deus, hão de também alcançar a graça. Parece enquadrar-se tudo no projeto salvífico de um Deus que permitiu que todos sejam rebeldes, a fim de sobre todos deixar cair a sua misericórdia. E Israel, o Povo eleito, chamado por Deus, desde os seus inícios, não pode deixar de ser objeto da misericórdia de Deus.

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Por isto, é bom cantar o louvor de Deus e implorar a sua bênção, aceitando a pregação do Reino e testemunhando-o.

“Louvado sejais, Senhor, pelos povos de toda a terra.”

“Deus Se compadeça de nós e nos dê a sua bênção, / resplandeça sobre nós a luz do seu rosto.
“Na terra se conhecerão os vossos caminhos / e entre os povos a vossa salvação.

“Alegrem-se e exultem as nações, / porque julgais os povos com justiça e governais as nações sobre a Terra.

“Os povos Vos louvem, ó Deus, / todos os povos Vos louvem.

“Deus nos dê a sua bênção / e chegue o seu temor aos confins da terra.

“Aleluia. Aleluia. Jesus proclamava o evangelho do reino / e curava todas as doenças entre o povo.”

2026.08.17 - Louro de Carvalho


segunda-feira, 17 de agosto de 2026

A árvore mais antiga de Portugal é uma oliveira de mais de 3700 anos

 

 

Até há pouco tempo, a “Oliveira do Mouchão”, com 3350 anos (nascida no século XIV a.C.), era considerada a árvore mais antiga de Portugal.

De acordo com o portal Florestas.pt, no reinado de Ramsés II, no antigo Egito, despontava a “Oliveira do Mouchão”, nas proximidades de Abrantes.  E a “Oliveira Velha”, como também era chamada, assistiu à passagem de Fenícios, de Celtiberos e de Romanos, entre outros povos, pelo território que hoje é a vila de Mouriscas. Era, pois, considerada a árvore mais antiga em Portugal, de acordo com um método científico desenvolvido pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD).

O trabalho de datação, liderado pelo Departamento Florestal da UTAD, em 2016, estimou que a “Oliveira do Mouchão” teria 3350 anos. A idade estimada da oliveira resulta de um método matemático que relaciona a idade com caraterísticas do tronco, como o diâmetro, altura e o perímetro. Esta, que era considerada como a árvore mais antiga de Portugal está ainda classificada como Arvoredo de Interesse Público e como Árvore Monumental de Portugal pelo ICNF – Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas.

O tronco da velha “Oliveira do Mouchão” eleva-se a mais de três metros. Para o abraçar são precisas cinco pessoas, pois o seu perímetro à altura do peito (PAP) mede cerca de 6,5 metros. Apesar da idade grandiosa, produz azeitonas e azeite de qualidade, como se fosse jovem, mas o seu principal interesse, atualmente, é constituir um marco da cultura e das tradições locais. Na verdade, os pescadores costumavam reunir-se junto da oliveira, que era uma espécie de linha de partida numa corrida até aos pesqueiros. O pescador que chegasse primeiro ao Tejo, tinha o ensejo de escolher a Pesqueira do Mochão, a melhor zona para pescar.

A UTAD já classificou outras oliveiras milenares em território nacional, embora não sejam tão antigas como a “Oliveira do Mouchão”. Em Santa Iria da Azoia regista-se uma oliveira com 2850 anos e, em Monsaraz, há um exemplar com 2450 anos.

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Porém, de acordo com a UTAD, esta já não será a mais antiga árvore de Portugal. A 17 de agosto (a Euronews, por lapso, refere 18/08/2026), um artigo de Ema Gil Pires, intitulado “Portugal guarda centenas de oliveiras milenares – e uma pode ter mais de 3700 anos”, dá a primazia da longevidade à oliveira que existe, na Vidigueira, há mais de 3700 anos [século XVI a.C.]. O método científico de datação é o de uma equipa da UTAD, que tem permitido calcular a idade de centenas de oliveiras milenares, de Norte a Sul do país. E, no estrangeiro, a UTAD já classificou oliveiras em Bordéus, na França, em Girona, em Málaga e na Ilha de Minorca, na Espanha, tendo classificado, nesta última, uma oliveira com 2310 anos.

José Luís Louzada, investigador da UTAD, lidera uma equipa que, há vários anos, criou um método científico inovador capaz de datar árvores com mais de três mil anos e que tem vindo a ser usado na datação de oliveiras, em Portugal e no estrangeiro.

“A oliveira está muito bem-adaptada ao nosso clima mediterrâneo e, por isso, atinge uma notável longevidade. Há centenas de oliveiras portuguesas que já ultrapassam a idade de Cristo e podemos encontrá-las, especialmente, a sul do Mondego. É, sem dúvida um dos seres vivos que mais resiste ao tempo, pela sua grande capacidade de rejuvenescimento. Um pedaço de tronco, por mais velho que esteja, tem a capacidade de voltar a rebentar e a oliveira continuar a produzir azeitona”, explicou o investigador.

“Em teoria – afirma Luís Louzada –, a oliveira pode viver uma eternidade, ultrapassando a idade das inúmeras gerações que passem pelo mesmo território. Não é em vão que, em muitos territórios nacionais, quem é dono das terras não é dono das oliveiras. Estas estão doadas, desde há séculos, a instituições que garantam a longevidade do seu uso, como sejam algumas irmandades religiosas ou as próprias Santas Casas da Misericórdia. E o azeite produzido é, muitas vezes, para sustento das igrejas e capelas, ou para alumiar nas lamparinas.”

A UTAD, em cooperação com a empresa Oliveiras Milenares, continua a assegurar a datação das oliveiras mais antigas.

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Na Alemanha foi descoberta, recentemente, uma árvore que pode ser a mais antiga conhecida naquele país, com cerca de 1100 anos, a qual, não sendo plurimilenar, não é despicienda.

A este respeito, Nela Heidner, escrevia a 6 de agosto, na Euronews: “Numa remota pradaria alpina no Allgäu, ergue-se um livro vivo da História: um teixo [árvore cónica de folha persistente] com mais de 1100 anos, possivelmente, a árvore mais antiga da Alemanha, que já sobreviveu a várias gerações.” A seguir, explicita que “as árvores envelhecem muito lentamente”, graças à “renovação constante dos seus tecidos” (agulhas ou folhas, casca, ramos, tronco e raízes), que “são formados, repetidamente, enquanto as partes mais antigas vão morrendo, gradualmente”. E, enquanto “o tronco e a copa estão expostos ao vento, ao clima, aos animais e aos lenhadores”, o vasto sistema radicular subterrâneo da árvore continua a viver oculto, por muito mais tempo.

Esta árvore ergue-se, em excecional isolamento, numa pastagem alpina, com gado, entre Steibis e Balderschwang, no Alto Allgäu, a 1100 metros de altitude. Para a Sociedade Dendrológica Alemã, associação de especialistas em árvores, o teixo terá cerca de 1100 anos e o seu tronco tem um PAP de 5,1 metros. Localizada em encosta virada a noroeste, a árvore está perto do limite altitudinal da distribuição do teixo nos Alpes, que se situa em torno dos 1300 metros. Segundo os especialistas, no semestre de inverno, mal recebe sol e é, claramente, mais fria do que nas encostas Sul à mesma altitude. “É um milagre ter sobrevivido a todos estes séculos e aparentar boa saúde. Provavelmente, até beneficia do aquecimento atual”, observam.

Desconhece-se como chegou o teixo àquela remota pastagem alpina. Uma coisa é certa: dificilmente terá sido plantado. É provável que um pássaro tenha deixado a semente no local. Porém, há cinco mil anos, no Neolítico, os teixos já tinham importância especial para as populações dos Alpes do Tirol do Sul. Ötzi, o “homem do gelo”, encontrado numa fenda glacial, a mais de três mil metros de altitude, levava um arco de caça feito de teixo.

Atualmente, no Allgäu, o teixo está a substituir a tília da aldeia de Upstedt, na Baixa Saxónia. Até agora, a tília-de-verão, com cerca de mil anos, era considerada a árvore mais antiga da Alemanha. A seguir, vinha o carvalho de Feme de Erle, em Raesfeld, no Westmünsterland, com cerca de 900 anos. O carvalho tem uma circunferência de tronco superior a 12 metros e é, provavelmente, o exemplar mais grosso desta espécie, naquele país. Entre 1363 e o final do século XVI, realizavam-se, sob a sua copa, tribunais de Feme, o que faz desta a mais antiga árvore de julgamentos conhecida na Europa. E era temida na Idade Média, pois parte dos processos decorria em segredo e as sentenças, incluindo penas de morte, podiam ser ali executadas.

É de salientar que o teixo-europeu, como este exemplar com 1100 anos, já existia, há cerca de 150 milhões de anos. É, pois, a mais antiga espécie arbórea autóctone da Europa.

Se nos ativermos apenas à idade da parte aérea, a árvore mais antiga do Mundo é um pinheiro nas White Mountains, na Califórnia, nos Estados Unidos da América (EUA), com mais de cinco mil anos. No Parque Nacional de Fulufjället, na Suécia, cresce o “Old Tjikko”, um abeto-comum cujo sistema radicular terá cerca de 9550 anos. E a mais antiga é a colónia de clones “Pando”, na Floresta Nacional de Fishlake, nos EUA, cujo sistema de rizomas, uma rede subterrânea de raízes de álamo-tremedor, terá cerca de 80 mil anos. Uma colónia de clones é um conjunto de plantas geneticamente idênticas por todas terem origem no mesmo antepassado.

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Todavia, em Portugal, contabilizam-se inúmeras árvores centenárias, milenares e plurimilenares, em particular, oliveiras, cuja idade estimada ultrapassa já os dois mil anos e que têm vindo, ao longo dos anos, a ser alvo de certificação pela UTAD.

Durante vários anos, tudo apontava para que a “Oliveira do Mouchão”, na freguesia e vila de Mouriscas, no concelho de Abrantes, no distrito de Santarém, fosse a mais antiga em território nacional. É, como dissemos, “contemporânea de Fenícios, de Celtiberos e de Romanos” e que, segundo revelado pela UTAD, no princípio de 2022, continuava “a produzir azeitona, como na flor da juventude, apesar do tronco carcomido pelas inclemências do tempo”.

Sobreviveu à passagem de povos invasores, de bárbaros e de povos refugiados, ao longo de milénios, “graças às raízes fundas que criou” no solo. E foi uma das candidatas à eleição da Árvore Europeia de 2022, tendo ficado em 5.º lugar, no concurso nacional, pelo que não foi a representante de Portugal na competição internacional.

A estimativa foi obtida, como dissemos através de um método desenvolvido por uma equipa de investigadores da UTAD, já patenteado e que, implementado no contexto da colaboração com a empresa Oliveiras Milenares, tem permitido calcular a idade de inúmeros espécimes, tanto em Portugal como no estrangeiro. Este método tem por base um modelo matemático que relaciona a idade da árvore com caraterísticas do seu tronco, como o diâmetro, altura ou perímetro, segundo o portal Florestas.pt, iniciativa da The Navigator Company e do Raiz – Instituto de Investigação da Floresta e Papel.

No entanto, já por altura da descoberta em Abrantes, tinha sido possível certificar “muitas outras oliveiras milenares” espalhadas por vários pontos do país. Contudo, no site da empresa Oliveiras Milenares, que coopera com a UTAD, nesta missão de certificação, desde 2007, informa-se que foi identificada uma outra oliveira com ainda maior antiguidade do que as anteriores. Fica no Alentejo, mais precisamente, na Herdade do Peso, na Vidigueira, no distrito de Beja, e terá superado já os 3700 anos, segundo o reconhecimento feito em 2021.

Esta “Oliveira do Peso”, como é designada, disputou o título de Árvore Europeia de 2024, concurso nacional no qual ficou em terceiro lugar e cujo vencedor representaria Portugal na competição europeia equivalente. A candidatura foi justificada pela “significância patrimonial” daquela que é a “oliveira milenar mais antiga da Herdade do Peso”, localizada numa planície onde fica “um conjunto de oliveiras cuja soma de idades ultrapassa os sete mil anos de idade”, segundo comunicado da referida propriedade.

Além destes, outros exemplos que vêm sendo sublinhados pela instituição de ensino transmontana e alto duriense localizam-se em Monsaraz, no distrito de Évora, onde há várias oliveiras milenares, uma das quais com cerca de 2450 anos. Porém, segundo a UTAD, há muitas outras, em Portugal, espalhadas por locais, como Estremoz, Montemor-o-Novo, Lagoa, Beja, Vilamoura, Évora e o Parque de Serralves, no Porto. E a UTAD revelou ter sido convidada a datar oliveiras, no estrangeiro, em países, como a Espanha e a França, como já foi referido.

José Luís Louzada, já mencionado, apontou que a oliveira é, “sem dúvida, um dos seres vivos que mais resistem ao tempo, pela sua grande capacidade de rejuvenescimento”. Assim, um “pedaço de tronco, por mais velho que esteja, tem a capacidade de voltar a rebentar”, possibilitando que a árvore continue “a produzir azeitona”.

Na ótica do investigador, essa longevidade deve-se, entre outros fatores, ao facto de ser uma espécie “muito bem-adaptada ao nosso clima mediterrâneo”, o que a leva a atingir “uma notável longevidade”. Em Portugal, estas oliveiras encontram-se, “especialmente, a sul do Mondego” e podem, “em teoria”, viver “uma eternidade, ultrapassando a idade das inúmeras gerações que passem pelo mesmo território”.

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Por falar de árvores antigas, lembro-me de duas no distrito de Viseu: a carvalha (ou carvalho ancião) do Presépio, no Mosteiro, em Castro Daire; e o castanheiro do Parque de Nossa Senhora dos Remédios em Lamego.

A Carvalha do Presépio fica junto à capela de Nossa Senhora do Presépio, na localidade de Mosteiro, da freguesia e concelho de Castro Daire, que visitei lagunas vezes, antes de ter sucumbido, em 1987, à intempérie e depois.

Quando o carvalho ancião morreu, as autoridades houveram por bem plantar novo exemplar, exatamente, no mesmo sítio, em jeito de homenagem ao velho carvalho, e sem retirar a imensidão do cepo, que ficou a servir de proteção e a fornecer nutrientes ao jovenzinho.

Segundo Abílio Pereira de Carvalho, a antiga árvore era da espécieParte superior do formulário

Parte inferior do formulário

 Quercus robur L, tinha uma idade estimada de mais de mil anos e foi classificada como de interesse público, a 2 de março de 1942. O PAP media 10,50 metros e o diâmetro à altura do peito (DAP) media 3,34 metros.

O cepo da velha árvore está, agora, protegido com uma estrutura interna de suporte que consiste em três barras de metal, arranjadas de forma a suportar o peso do cepo e a impedir que desabe para o interior; e um cabo de aço, no exterior, sustém o cepo.

Esta estrutura está bastante bem concebida, tem impacto visual reduzido e permite a sustentação do cepo, perpetuando o valor da árvore que ali esteve e garantindo a segurança dos que ainda hoje a vão admirar. A árvore, apesar de morta, segundo alguns, merecia uma placa de identificação, a mencionar o facto de ter sido o carvalho mais antigo de Portugal, pois, já na altura da sua classificação, era considerado milenar.

Do castanheiro (aliás, são dois) do Parque do Santuário de Nossa Senhora dos Remédios, em Lamego, escreveram, a 10 de outubro de 2024, no blogue “Dias com árvores”, Paulo V. Araújo e Maria P. Carvalho: “Estas árvores, onde já morou incontáveis vezes o espírito do outono, são, agora, a expressão mais triste do inverno. […] Uma cabeleira inesperada de heras esconde a decrepitude do primeiro castanheiro a ser classificado de interesse público (em 1940), no nosso país; e não são muitos os castanheiros classificados: apenas mais quatro, segundo o documento ‘Árvores isoladas, maciços e alamedas de Interesse Público’, onde se pode ler sobre este castanheiro, estar ele ‘totalmente decrépito’ e ter ‘cerca de 700 anos’. Na árvore que conserva algumas pernadas, na extremidade de um dos ramos, viam-se ainda sinais do tempo cíclico: folhas carcomidas e ouriços! Estas verdadeiras relíquias mereciam muito mais [do]que estreitos canteiros e placa comemorativa!”

A este respeito, escreveu Ernesto Goes, em “Árvores monumentais de Portugal (1984): “Trata-se de dois castanheiros multisseculares, decrépitos, tendo o maior 9 m [nove metros] de PAP, que, segundo Taborda de Morais (1936), deve ter cerca de 900 anos, sendo um dos mais velhos do País. Esta árvore está considerada de interesse público, por Decreto publicado em Diário do Governo. Foi assinalado por Sousa Pimentel, no seu livro ‘Árvores gigantes de Portugal’, publicado em 1894. […] Este castanheiro pertence à irmandade de Nossa Senhora dos Remédios.”

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Oliveira, teixo, carvalho e castanheiro mostram que “as árvores morrem de pé”, mas nem todas.

2026.08.17 – Louro de Carvalho

domingo, 16 de agosto de 2026

Numa mão Kalashnikov e Corão noutra: Talibãs no poder há cinco anos

 

No quinto aniversário da retomada do poder no Afeganistão, após a retirada das tropas dos Estados Unidos da América (EUA), os Talibãs celebraram, a 15 de agosto, o que chamam “estabilidade restaurada e fim de décadas de conflito”. Porém, os críticos receiam agravamento das violações de direitos humanos.

Milhares de afegãos, apoiantes do novo regime, juntaram-se nas ruas de Cabul, a capital, em celebrações, com carros cobertos de bandeiras. Em frente à antiga embaixada dos EUA, enquanto helicópteros militares lançavam flores, realizou-se um desfile de atletas, apenas homens, já que às mulheres é proibido participarem em atividades desportivas. Também noutras províncias afegãs, houve celebrações, com bandeiras talibãs e com slogans em cartazes com que exaltam o regresso do movimento ao poder.

Passados cinco anos, alguns países (o Irão, a China, o Uzbequistão, a Índia, os Emirados Árabes Unidos, o Qatar, a Arábia Saudita e a Turquia) mantêm relações oficiosas com a administração talibã, embora só a Rússia a reconheça, formalmente, como governo legítimo do Afeganistão. E, no aniversário assinalado a 15 de agosto, Zia Ahmad Takal, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros dos Talibãs, apelou a que mais países “invistam e tirem amplo partido das oportunidades económicas disponíveis” no Afeganistão.

Quase imediatamente, após tomarem o poder em 2021, os Talibãs contrariaram as promessas de permitir o acesso das mulheres à educação e ao emprego, impondo uma proibição à educação de raparigas além do 6.º ano e, mais tarde, banindo, por completo, o ensino superior para mulheres. Atualmente, as mulheres têm o acesso fortemente limitado ao espaço público, estão impedidas de frequentar locais, como parques e ginásios, e estão totalmente proibidas de praticarem desporto e de viajarem para outras localidades, sem a presença de um homem. É, pois, o tratamento dos Talibãs a mulheres e a raparigas que se mantém como um dos principais óbices a um reconhecimento internacional mais amplo do seu governo.

Sem o Mundo dar grande atenção ao facto, os Talibãs, como refere António Rodrigues, no jornal “Público”, a 15 de agosto, lideram “uma experiência político-religiosa, edificando, no século XXI, um emirado assente nos ensinamentos do século VII”, interpretando, conservadoramente, as suras do Corão (ou Alcorão). Os antigos estudantes de Teologia islâmica são professores ou mestres e hostilizam o Paquistão, que os ajudou a subir ao poder, em 1966. O Afeganistão é “um país de homens com barba e [com] mulheres escondidas que desafia o Mundo moderno, com o Corão numa mão e a Kalashnikov na outra” e que o Mundo está prestes a readmitir no concerto das nações. E, se não fosse a guerra com Islamabad (que bombardeou Cabul), as autoridades diriam o provérbio afegão: “A noite está a passar e Deus é misericordioso.”

Em vídeo divulgado nas redes sociais, Richard Bennett, relator especial das da Organização das Nações Unidas (ONU) para os direitos humanos no Afeganistão, afirmou que o país atravessa profunda crise de direitos humanos. Segundo a UNESCO, agência da ONU para a educação e cultura, cerca de 2,4 milhões de raparigas são excluídas do ensino secundário. O Programa Alimentar Mundial (PAM) da ONU indica que a subnutrição infantil atingiu níveis críticos, num terço das províncias, devendo agravar-se, por falta de financiamento. E, segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), mais de 80% dos agregados familiares está endividado e grande percentagem não acede ao mais básico de subsistência.

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Os Talibãs reassumiram o poder, em 2021, após a retirada das forças dos EUA e dos seus aliados, na sequência da guerra de duas décadas que custou cerca de um bilião de dólares, segundo Joe Biden, então presidente norte-americano. A saída impreparada, precipitada, rápida e desordenada azou caóticas cenas no aeroporto de Cabul, com multidões a tentarem fugir do país, em desespero, e ofereceu, de bandeja, aos Talibãs um país pronto a obscurecer.

Os novos governantes não pretendem apenas governar, mas querem transformar, profundamente, o país. De imediato, aboliram o Ministério das Mulheres e criaram o Ministério da Propaganda, da Virtude e da Prevenção do Crime. As mulheres começaram a desaparecer das instituições públicas, das escolas e dos locais de trabalho.

Num comunicado divulgado recentemente, o Ministério dos Negócios Estrangeiros francês reafirmou a solidariedade com os cidadãos afegãos, vincando que não haverá normalização do regime talibã, enquanto este não cumprir as suas obrigações internacionais, em matéria de direitos humanos, de combate ao terrorismo e de governação inclusiva.

Também a União Europeia (UE) reiterou, em comunicado, que “não reconhece, nem legitima as autoridades de facto controladas pelos Talibãs, mas mantém contactos operacionais com elas, em torno dos seus valores e interesses essenciais, incluindo os direitos das mulheres e das raparigas”. Não obstante, responsáveis da UE e representantes do Talibãs reuniram-se em Bruxelas, a 23 de junho, para discutirem a aceleração das deportações de migrantes afegãos para o país – iniciativa criticada como normalização das relações com o regime.

Na verdade, responsáveis da Comissão Europeia e de 15 estados-membros reuniram-se, discretamente, com uma delegação talibã, para tentarem acelerar o retorno de migrantes afegãos. Porém, a reunião, cujos detalhes e local não foram divulgados, foi alvo de fortes críticas de eurodeputados progressistas e de organizações da sociedade civil, por estabelecer contactos com um regime autoritário que viola, regularmente, os direitos humanos.

O encontro, copresidido pela Suécia, um dos países com maior população afegã per capita, ocorreu fora das instalações institucionais da Comissão e decorreu só a nível técnico, devido à ausência de reconhecimento do governo talibã, que reassumiu o controlo do país, em 2021. A discussão focou-se no regresso de afegãos em situação irregular que cometeram crimes graves ou que representam ameaça à segurança, segundo um porta-voz da Comissão.

Efetivamente, os países europeus não conseguem, muitas vezes, repatriar estas pessoas, porque as autoridades afegãs não aceitam o seu regresso. “É extremamente importante que estes criminosos sejam deportados. E isso, hoje, não é possível. Não querem colaborar. Não querem regressar a casa”, disse o ministro sueco da Migração, Johan Forssell, aos media.

Na Suécia, cerca de 200 cidadãos afegãos aguardam deportação, depois de condenados por crimes graves, como violação agravada e tráfico agravado de estupefacientes. E, perante as críticas, Johan Forssell defendeu que o governo tem de negociar com ditaduras, em determinadas situações, para “proteger os interesses suecos”.

O executivo da UE não dispõe de dados sobre quantos afegãos em situação irregular são responsáveis por crimes graves ou representam ameaça à segurança na Europa. Todavia, o convite aos Talibãs refere apenas o regresso de “cidadãos afegãos sem direito de permanência na UE”, sem mencionar a componente criminal.

As conversações com os Talibãs inserem-se numa estratégia mais ampla da UE para aumentar o regresso de migrantes em situação irregular aos países de origem, uma taxa que, atualmente, se situa nos 29% e mal se alterou, nos últimos anos. Porém, o retorno revela-se muito difícil, no caso dos afegãos, que estiveram entre as principais nacionalidades alvo de ordens de regresso, em 2025. Segundo a Eurostat, dos 14270 cidadãos afegãos obrigados a deixar a UE, nos primeiros nove meses de 2025, apenas 340 foram reenviados, o que corresponde a uma taxa de regresso de 2%. Entretanto, continuam as chegadas à Europa. Mais de 3300 afegãos cruzaram, irregularmente, as fronteiras da UE, nos primeiros quatro meses de 2026, sobretudo, pela rota do Mediterrâneo Oriental, e pediram asilo na UE, em 2025, mais de 63 mil cidadãos afegãos, isto é, 10% do total de requerentes de asilo.

Trata-se apenas de uma fração da diáspora afegã que fugiu à tomada do poder pelos Talibãs, em 2021. Estima-se que mais de 90% dos afegãos deslocados vivam em países vizinhos, sobretudo, no Irão e no Paquistão. Agora, a Comissão Europeia deu o passo controverso de contactar os Talibãs, sob crescente pressão das capitais europeias. Em outubro, 19 estados-membros e a Noruega assinaram uma carta a apelar a uma abordagem comum, para reforçar as deportações, confirmando a disponibilidade para dialogar com Cabul, visando tal objetivo. Contactos técnicos decorrem, há vários meses, e a reunião de 23 de junho foi considerada a continuação da visita de uma delegação do executivo europeu a Cabul, em janeiro.

Desde a retomada de poder, em 2021, após a retirada dos EUA, a UE não reconhece o regime talibã como governo legítimo e opta pela política de “envolvimento operacional”. Com efeito, manter contactos com os Talibãs é considerado uma linha vermelha pelo Parlamento Europeu (PE) e pela sociedade civil, que alertam que tal aproximação equivale à normalização das relações com um regime de violações generalizadas dos direitos humanos. O Afeganistão ocupa a 140.ª posição entre 142 países no Índice de Estado de Direito do World Justice Project.

Os críticos também levantam dúvidas sobre a compensação financeira que Bruxelas pode oferecer ao governo talibã, em troca de aceitar de volta os seus cidadãos, mas a Comissão Europeia insiste que o diálogo, para já, não chega a compromissos políticos. Em todo o caso, a eurodeputada socialista Cecilia Strada classifica a reunião como um “capítulo vergonhoso para a Europa”, por conferir legitimidade “a um regime que espezinha os direitos das mulheres e das raparigas e impõe um sistema de apartheid de género”. A eurodeputada, Saskia Bricmont, dos Verdes, julga inaceitável receber representantes de um regime que “oprime, sistematicamente, as mulheres, reprime toda a oposição e nega liberdades fundamentais”. E uma resolução não vinculativa do PE insta a Comissão a manter o não-reconhecimento e a não-normalização dos talibãs, assim como lamenta a decisão de os convidar para Bruxelas. Assim, foi suprimida da nova lei de migração a disposição que permitiria discussão sobre readmissão com entidades de países terceiros não reconhecidas. E o Conselho Europeu para os Refugiados e Exilados sustenta que o Afeganistão não pode ser considerado seguro para regresso, devido ao agravamento da situação dos direitos humanos, à falta de proteção jurídica efetiva e a riscos de perseguição.

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Enfim, cinco anos após o regresso ao poder, os Talibã mantêm um regime de graves violações dos direitos humanos, de fortes restrições às mulheres e às raparigas, de repressão da liberdade de expressão e com a crise humanitária a agravar-se (28 milhões, em 45,1 milhões, vivem abaixo do limiar de pobreza). Trata-se, pois, de regime que se traduz numa das mais graves crises de direitos humanos do Mundo, sobretudo, para mulheres e raparigas.

No seu mais recente relatório, a organização não-governamental (ONG) de defesa dos direitos humanos Human Rights Watch (HRW) lembrou que, tomado o poder, em 2021, os Talibãs anunciaram a proibição de as mulheres e as raparigas acederem ao ensino secundário e superior. Isto é, foram barradas da educação, a partir do 6.º ano de escolaridade, o que se concretizou em 2022. E, em 2024, já 76% das mulheres relatava a redução do acesso à educação.

As mulheres enfrentam fortes restrições no emprego, na liberdade de expressão e na circulação fora de casa, o que dificulta o acesso das organizações de ajuda humanitária. Jornalistas, ativistas e pessoas tidas por críticas dos Talibãs são alvo de intimidação, de detenções, de prisões arbitrárias e de tortura. E várias centenas de membros das forças de segurança do anterior governo foram vítimas de desaparecimentos forçados e de execuções extrajudiciais.

Os afegãos enfrentam também uma crise humanitária prolongada. Na sequência da suspensão da maior parte da ajuda externa ao país, metade da população necessita de assistência alimentar e médica. Mais de 3,7 milhões de crianças enfrentam desnutrição aguda e os serviços de saúde foram gravemente enfraquecidos, sem medicamentos, nem equipamento médico. O regresso em massa de refugiados afegãos expulsos do Paquistão e do Irão agravou a crise, pois a maioria não tem habitação, nem de meios de subsistência. E o reinício do conflito armado com o Paquistão e ataques esporádicos do grupo extremista Daesh causaram centenas de vítimas civis.

Apesar da quase total impunidade pelos abusos cometidos, no conflito, por todas as partes, ao longo das últimas décadas, os esforços para fazer justiça ganharam novo impulso, em 2025, com a emissão de mandados de detenção pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) e a criação histórica de um mecanismo de investigação da ONU.

A HRW faz a sua súmula dos últimos cinco anos:

Em gosto de 2021, quando as forças talibãs entraram em Cabul, o Afeganistão mudou de um dia para o outro. Milhares de pessoas concentraram-se junto ao aeroporto, na desesperada tentativa de abandonarem o país. Na verdade, jornalistas, ativistas da sociedade civil, defensores dos direitos humanos, antigos funcionários do governo, incluindo juízas, e pessoas que trabalharam com governos ocidentais temiam represálias. As garantias públicas dos dirigentes talibãs foram, rapidamente, contrariadas por relatos de ameaças e buscas domiciliárias.

Após tomarem o poder, as forças talibãs efetuaram execuções de vingança contra ex-membros das forças de segurança do governo, apesar das promessas públicas de amnistia. E a HRW documentou execuções sumárias e desaparecimentos forçados em várias províncias.

O regime agiu, de imediato, para restringir os meios de comunicação social independentes. Agrediu e deteve jornalistas, impôs restrições à cobertura noticiosa e vigiou redações. Por conseguinte, centenas de órgãos de comunicação social encerraram, o financiamento secou e muitos jornalistas fugiram do país ou deixaram de trabalhar. As jornalistas foram afastadas do ar ou das redações. E a diminuição do espaço cívico tornou a informação independente.

Em março de 2022, os Talibãs proibiram o ensino secundário para as raparigas, afetando toda uma geração: raparigas que esperavam ser médicas, professoras, engenheiras ou jornalistas foram obrigadas a ficar em casa, após o 6.º ano de escolaridade. Em 2024, como se disse, 76% das mulheres acusava redução do acesso à educação. Depois, no ano seguinte, 56% reportava o declínio nesse acesso, face ao ano anterior. E, neste ano, 33% das mulheres entrevistadas, em 2024, dizem que a situação piorou entre 2025 e 2026.

Assim, afegãs em protesto tornaram-se o rosto da resistência aos Talibãs, manifestando-se em Cabul, em Herat, em Bamiyan e noutras províncias. Os Talibãs reagiram, violentamente, com espancamentos, com ameaças e com detenções arbitrárias. Algumas mulheres foram detidas, mantidas incomunicáveis, pressionadas a confessar e avisadas para não mais protestarem. Assim, “pão, trabalho, liberdade” é o grito de mobilização das mulheres afegãs que continuam a protestar, apesar da vigilância, das ameaças e das detenções. E 68% das mulheres afegãs acredita que, um dia, alcançará os seus objetivos educativos e profissionais.

Porém, a UE dispõe-se a negociar temas melindrosos com este país!

2026.08.15 – Louro de Carvalho


Missa na Solenidade da Assunção da Bem-aventurada Virgem Maria

 

Esta solenidade celebra o facto de Jesus ressuscitado acolher a sua mãe na glória do Céu. Com efeito, Jesus vivo, glorificado à direita do Pai, põe sobre a cabeça da sua e nossa mãe a coroa de doze estrelas de que fala o Livro do Apocalipse.

Pela sua humidade e disponibilidade para o desígnio de Deus, ao ser elevada ao Céu, em corpo e alma, após o cumprimento da sua missão terrena, Maria tornou-se a primeira criatura a alcançar a plenitude da Salvação. É a consequência da sua maternidade divina: a Mãe de Deus não podia passar pela corrupção sepulcral. E é fruto da íntima relação com Cristo, pela qual participou no mistério do Cristo morto, ressuscitado e catapultado à gloria de Deus.

Este privilégio mariano é corolário da sua imaculada conceição e da sua perpétua virgindade, que assinala a singularidade da encarnação do Verbo de Deus, assim como precede o triunfo da Igreja, quando, juntamente com a Humanidade, atingir a plenitude da glória. Assim a assunção de Maria, o garante de que o homem se salvará inteiro, é penhor seguro de que o homem triunfará da morte. Nestes termos, a mãe de Jesus é sinal de esperança e de alegria para o Povo de Deus que peregrina pela Terra, em demanda da pátria definitiva.

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A primeira leitura (Ap 11,19a;12,1-6a.10ab) apresenta-nos Maria, imagem da Igreja, pois, como Ela, a Igreja gera, na dor, o Mundo novo e participa na vitória de Cristo sobre o Mal. As visões do Apocalipse, expressas em linguagem codificada, revelam que Deus arranca os fiéis de todas as formas de morte. Por transposição, a visão o sinal grandioso é ser aplicável a Maria.

O livro foi composto no ambiente das perseguições que se abatiam sobre a jovem Igreja, ainda tão frágil. Na linguagem do profeta cristão, os animais terrificantes designam os perseguidores. A Mulher representa a Igreja, novo Israel, de que Maria é imagem e protótipo, o que é sugerido pelo número 12 (as estrelas). O seu nascimento é o do batismo que deve dar à Terra nova Humanidade. O Dragão, o perseguidor, põe tudo em ação para destruir este recém-nascido. Mas o destruidor não tem a última palavra, pois o poder de Deus em ação protege o seu Filho.

A mulher que deu à luz o seu filho e se retirou para o deserto é imagem da Igreja, incompreendida e perseguida, mas salva pela compaixão de Deus; e de Maria, que se retirou para o deserto do silêncio e do encontro com Deus, para reaparecer, sempre que é necessário intervir para interceder por nós junto de Jesus (“eles não têm vinho”) e para ser missionária de Jesus junto de nós (“fazei tudo o que Ele disser”).

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Na segunda leitura (1Cor 15,20-27), surge Cristo o novo Adão, que faz da Virgem Maria uma nova Eva, sinal de esperança para todos os homens.

Ora, a Assunção, uma forma privilegiada de Ressurreição, tem a sua origem na Páscoa de Jesus e manifesta a emergência da nova Humanidade, em que Cristo é a cabeça, como novo Adão.
Todo o capítulo 15 desta epístola é uma longa demonstração da ressurreição. Na passagem em apreço, o apóstolo expões uma espécie de genealogia da ressurreição e uma ordem de prioridade na participação neste grande mistério. O primeiro é Jesus, o princípio e o autor da nova Humanidade. Por isso, o apóstolo O designa como o novo Adão, mas que se distingue, absolutamente, do primeiro Adão; este levou a Humanidade à morte, ao passo que o novo Adão conduz à vida aqueles que o seguem.

O apóstolo não evoca, explicitamente, Maria, mas a proclamação desta perícopa na Assunção mostra que a Igreja vê o lugar eminente da Mãe de Deus no grande movimento da ressurreição. Com efeito, se às primícias se seguem os frutos da colheita, à Ressurreição de Cristo seguir-se-á a nossa. Ele é o vencedor da morte, mas só o pode ser, vencendo-a em todos os seus, em todo o seu Povo. Ora, Maria é o primeiro elemento do Povo de Deus e, pela assunção, tornou-se primícias (em regime de participação com Jesus) de todos os ressuscitados.

Dizer que os corpos ressuscitam ou que Maria foi assunta em corpo e alma que dizer que o homem se salva inteiro, e não apenas pela alma.

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O Evangelho (Lc 1,39-56) mostra-nos Maria, a mãe dos crentes, cheia do Espírito Santo, a primeira a encontrar as palavras proféticas da fé e da esperança: “Doravante todas as gerações A chamarão bem-aventurada!”

A vinda do Messias é a grande obra de Deus, pela qual Ele cumpre o seu desígnio de salvação, cuja concretização se começa a realizar pela encarnação do Verbo no seio de Maria, a que Ela assentiu. Por isso, Isabel a reconhece e proclama “bendita entre as mulheres”, pois, pela sua maternidade virginal, supera todas as mulheres; e, consequentemente, proclama bendito o filho de Maria, que está na origem de tudo isto, com o Pai e o Espírito Santo. 

O cântico de Maria explana o programa que Deus tinha começado a realizar desde o começo, que prosseguiu em Maria e que cumpre, agora, na Igreja, para todos os tempos. Pela Visitação que teve lugar na Judeia, Maria levava Jesus pelos caminhos da Terra. Pela Dormição e pela Assunção, é Jesus que leva a mãe pelos caminhos celestes, para o templo eterno, para a Visitação definitiva. Nesta solenidade, com Maria, proclamamos a obra grandiosa de Deus, que chama a Humanidade a juntar-se a Ele pelo caminho da ressurreição. Em Maria, Ele já realizou a sua obra na totalidade; e, com Ela, proclamamos: “Dispersou os soberbos, exaltou os humildes.” Os humildes são os que creem no cumprimento da palavra de Deus e se põem a caminho, os que acolhem até ao mais íntimo do ser a Vida nova, Cristo, para o levar ao nosso Mundo. Deus debruça-se sobre eles e cumpre neles maravilhas. Assim, a Assunção é forte apelo à celebração da Páscoa, alimentados do pão ázimo da pureza e da verdade e cultivando a afeição às coisas do Alto.

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É, pois, com disposição pascal que proclamamos bendita a Virgem Maria, prefigurada na esposa veterotestamentária do rei. Ela tem os favores de Deus e está associada, para sempre, à glória do seu Filho (primogénito: a seguir, vimos nós):

“À vossa direita, Senhor, a Rainha do Céu, ornada do ouro mais fino.”

“Ao vosso encontro vêm filhas de reis, / à vossa direita está a rainha, ornada com ouro de Ofir.

“Ouve, minha filha, vê e presta atenção, / esquece o teu povo e a casa de teu pai.

“Da tua beleza se enamora o Rei; / Ele é o teu Senhor, presta-Lhe homenagem.

“Cheias de entusiasmo e alegria, / entram no palácio do Rei” (salmo responsorial).

“Aleluia. Aleluia. Maria foi elevada ao Céu; / alegra-se a multidão dos Anjos” (aclamação ao Evangelho).

“A Virgem Mãe de Deus foi elevada à glória do céu. Ela é a aurora e a imagem da Igreja triunfante,
ela é sinal de consolação e esperança para o vosso povo peregrino. Vós não quisestes que sofresse a corrupção do túmulo Aquela que gerou e deu à luz o Autor da vida, vosso Filho feito homem” (do prefácio da missa da solenidade)

***

Na homilia missa da solenidade, na paróquia São Tomás de Villanova, em Castel Gandolfo, Leão XIV frisou que o Magistério da Igreja ensina que “Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial” (Pio XII, Constituição Apostólica Munificentissimus Deus, de 1 de novembro de 1950, que proclamou este dogma) e nos indica, neste Mistério, o cumprimento da plenitude da graça que Deus Lhe concedeu na Imaculada Conceição. Por isso, muitas obras de arte A retratam, no fim da sua vida terrena, como jovem belíssima que se eleva, fisicamente, da Terra ao Céu, inspiradas na cena do Livro do Apocalipse: “Uma Mulher vestida de Sol, com a Lua debaixo dos pés”. Quer dizer que, “no coração de Maria, se encontram o Céu e a Terra, o tempo e a eternidade”.

Esta imagem contrasta com a experiência que provoca em nós o passar dos anos. O corpo torna menos ágil, mais lento; a pele não fica mais fresca, mas mostra sinais da velhice; os cabelos não ganham cor, nem brilho, mas tornam-se grisalhos e, depois, brancos. Então, o Pontífice pergunta o que temos em comum com a jovem maravilhosa retratada nas telas dos altares. Para responder, sustenta que devemos manter unidos dois sinais: o corpo incorrutível da Mãe de Deus e o seu Coração Imaculado. É a pureza da alma que, em Maria – tal como em nós –, pela graça de Deus, ilumina e transfigura a pessoa inteira, levando-a à glória do Céu.

A glorificação de Maria, em corpo e alma, ensina que a verdadeira beleza não consiste em esconder os sinais do tempo, mas em mostrar, impressos na nossa carne, os sinais do amor que não tem fim. Convida-nos, assim, a rever muitos dos padrões estéticos que o Mundo nos impõe, predominantemente, de caráter hedonista e consumista, e que correm o risco de nos aprisionar em pesados condicionamentos, levando-nos a desperdiçar energias preciosas no que não tem valor, nem dura para sempre.

Na experiência comum, encontramos pessoas de rosto marcado pelos anos e pelo sofrimento, mas que são capazes de irradiar serenidade, benevolência e paz; da mesma forma podemos observar outras, talvez exteriormente atraentes, mas duras e frias, no íntimo. É fácil compreender onde reside a verdadeira beleza e onde há necessidade de conversão, de perdão e de cura. Se queremos descobrir e cultivar a beleza divina que nos envolve e para a qual fomos criados, difundindo-a à nossa volta, temos de aprender a lê-la no rosto terno da criança e nas rugas do idoso; na vivacidade do jovem e na compostura do adulto; nos adornos festivos, nas roupas e nos instrumentos de trabalho. Enfim, temos de ouvir as histórias de amor únicas que cada uma destas realidades nos conta, reconhecendo nelas pequenos recantos de céu, pois “é o amor o mais belo ornamento do homem: o amor que transfigura, transforma, enobrece, eleva, que nos torna leves, livres, próximos de Deus, mesmo através das vicissitudes da vida.

São Paulo VI, meditando a Assunção da Virgem, dizia que, para se compreender o seu significado, “é preciso tornar superlativos e absolutos os termos que usamos na linguagem terrena […], para imaginar em pequena dimensão o eterno”. E, a propósito deste encontro entre o infinito e o finito na Mãe de Deus, o Papa Francisco escrevia: “Maria é Aquela que sabe transformar um curral de animais na casa de Jesus, com uns pobres paninhos e uma montanha de ternura.”

O milagre que a donzela de Nazaré viveu no seu coração inocente, e que a levou à glória do Céu, é o encontrar-se de extremos, como ela testemunha nas palavras inspiradas do Magnificat. Neste cântico, pelas expressões humildes da sua fé, a Mãe do Céu fala-nos, de forma simples, de mistérios grandiosos: de Deus que nela Se faz homem para salvar os homens, do Eterno que nela Se manifesta no tempo, para nos reabrir “o caminho da eternidade”, mostrando-nos, ao mesmo tempo, na sua condição de “humilde serva”, a “pequena dimensão” na qual, como dizia São Paulo VI, “podemos encontrar o Senhor”.

Portanto, não devemos procurar longe a sublimidade do Mistério que celebramos. Podemos encontrá-la onde há verdadeira caridade: nos olhos do pai e da mãe que regressam a casa, após um dia de trabalho, cansados, mas felizes por estarem com os filhos; nos rostos dos avôs e das avós que, apesar dos achaques da idade, se iluminam com inesperada energia ao cuidarem dos netos; no empenho dos jovens que se esforçam por crescerem íntegros e honestos, dispostos até a irem contra a corrente em relação ao que “todos fazem”; e, por fim, na obra de tantos homens e mulheres que, diariamente, com fé e dedicação, contribuem para trazer um pouco do Céu à terra e levar a terra para o Céu.

O belíssimo rosto de Nossa Senhora da Assunção é único, ultrapassa qualquer representação possível. Porém, é familiar: é o rosto das pessoas que estão ao nosso lado, mesmo neste momento, dos irmãos e irmãs com quem partilhamos, na fé, a oferta diária da nossa vida. Por isso, na mulher do Apocalipse, a Comunidade dos fiéis vê-se a si própria, e o Concílio Vaticano II descreve Maria como “imagem e início da Igreja, […] sinal de esperança segura e de consolação” (Constituição dogmática Lumen gentium, 68). Na sua humanidade santa, pela graça de Deus, está também a nossa; lá estamos nós, chamados a viver a plenitude de vida e a partilhar a mesma glória.

Santo Agostinho, ao falar da ressurreição de Cristo, convidava os cristãos do seu tempo a fazerem dela a bússola e o ponto de referência da sua existência. Dizia: “Cristo ressuscitou para nunca mais morrer […]. Muda de rumo, segue a luz! Começa por levantar-te do mesmo lugar de onde Ele ressuscitou” (Enarratio in Psalmos 126, 7).

E o Papa exorta: “Acolhamos o convite. Sigamos a luz do Ressuscitado, mudando de rumo, se necessário. Façamo-lo, também hoje, olhando para Maria, que Deus coroou de glória em corpo e alma, e nos deu como Mãe, guia, companheira de viagem e protetora na rota do Céu.

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Antes da recitação do Angelus na Praça da Liberdade, também em Castel Gandolfo, o Santo Padre falou desta solenidade e da sua relevância para a teologia católica e para a devoção popular. Com efeito, é uma data comemorada intensamente em várias comunidades, especialmente, onde a catedral ou a igreja paroquial é dedicada à Nossa Senhora da Assunção.

Para contemplar este mistério da fé, podemos recorrer aos dois modelos iconográficos com que os artistas o têm representado.

O mais antigo, que foi o único, durante quase um milénio, é o da “dormição” da Mãe de Deus: Ela aparece deitada num catafalco, adormecida na morte; à sua volta estão os Apóstolos, que a veneram comovidos em oração; no centro, de pé, está Jesus ressuscitado, que segura nos braços a alma de Maria, como a de criança recém-nascida. Veio buscá-La para A levar consigo para a glória de Deus, “no Céu”, como dizemos simbolicamente. De facto, o Senhor cumpriu com sua Mãe o que prometeu a todos os seus amigos: “Quando eu for [para junto do Pai] e vos tiver preparado um lugar, virei, novamente, e hei de levar-vos para junto de mim” (Jo 14,3). Este modelo realça a verdade central: é Cristo, morto e ressuscitado, que nos conduz à meta para a qual estamos, desde sempre, destinados, a vida eterna. É isto que gerações e gerações de fiéis contemplaram ao rezarem, perante os ícones da Dormição, e que se pode admirar em Roma, no grande mosaico da abside da Basílica de Santa Maria Maior.

Já a iconografia mais recente, que se desenvolveu, posteriormente, no Ocidente, mostra-nos a Virgem Maria de corpo inteiro, no Céu, envolta de luz, frequentemente rodeada por anjos e santos. Aqui, no centro, encontra-se o corpo glorificado da Virgem, em consonância com o que se lê no Livro do Apocalipse: “Apareceu no Céu um grande sinal: uma Mulher vestida de Sol, com a Lua debaixo dos pés e com uma coroa de doze estrelas na cabeça” (Ap 12,1).

Este modelo realça a verdade de que Maria foi elevada em corpo e alma, ou seja, na integridade da sua pessoa. Aquela mulher que, na terra, deu corpo e sangue ao Verbo encarnado e o seguiu até à união perfeita no sacrifício de amor, foi por Ele, para sempre, à glória.

Alguns artistas combinaram os dois esquemas, representando, na parte superior, a Virgem gloriosa e, na parte inferior, o seu túmulo vazio, frequentemente repleto de flores multicoloridas, e os Apóstolos com o olhar voltado para ela, no céu.

Assim, a iconografia permite-nos contemplar o nosso destino. A plenitude de vida, que admiramos, com alegria em Maria, espera-nos também a nós, no fim dos tempos, quando, como diz São Paulo, Cristo Ressuscitado transfigurar “o nosso pobre corpo, conformando-o ao seu corpo glorioso”), revestindo o que é corruptível de incorruptibilidade e o que é mortal de imortalidade. Então, com a nossa carne transformada pelo amor do Redentor, viveremos eternamente, na festa sem fim.

Depois do Angelus, Leão XIV relevou que Maria Santíssima, assunta na glória do Céu, é para todo o povo de Deus um sinal de esperança e de consolação. Por isso, o Papa desejou invocar a sua intercessão maternal em favor das comunidades que têm especial necessidade de serem consoladas e de continuarem a ter esperança. É o caso dos irmãos e das irmãs da Terra Santa, que é também, por excelência, a Terra de Maria. É o caso dos povos ucraniano e russo, unidos por uma devoção filial à Santa Mãe de Deus. É caso dos cristãos que sofrem discriminação ou perseguição e nos povos que sofrem os efeitos da guerra e/ou das catástrofes naturais e as de erro ignorância ou negligência humana.

2026.08.15 – Louro de Carvalho