segunda-feira, 29 de junho de 2026

EUA teriam de remover substâncias perigosas da Gronelândia

 

Uma investigação do Politiken – jornal diário dinamarquês, fundado em 1884, com sede em Copenhaga, conhecido pela sua linha editorial liberal e de centro-esquerda, que é parceiro do Expresso na rede European Investigative Collaborations (EIC) – a, pelo menos, 36 antigas bases e instalações militares norte-americanas, na Gronelândia, a maior ilha do Mundo, revela que os Estados Unidos da América (EUA) deixaram, ali, milhares de toneladas de resíduos perigosos e águas residuais radioativas.

Os dados da investigação da EIC foram publicados, a 29 de junho, no Expresso online, por Carl Emil Arnfred, Jesper Thobo-Carlsen e Peter-Emil Hornemann, sob o título Investigação na Gronelândia. Como os EUA deixaram para trás milhares de toneladas de resíduos perigosos e águas residuais radioativas”.

A poluição em causa, que é, segundo os jornalistas, “a mais extensa do que alguma vez foi noticiada”, é visível em “centenas de bidões de petróleo enferrujados, baterias de automóvel, tubos e cabos descartados e placas de amianto estilhaçadas”, contrastando com os icebergues que deslizam, lentamente, no horizonte de Narsarsuaq, no Sul da Gronelândia, onde esteve a maior base norte-americana, na ilha, durante a II Guerra Mundial e para onde se mudaram milhares de soldados norte-americanos, após a criação da base, em 1941.

Agora, é um pequeno aeroporto com uma povoação ao lado, rodeado de “centenas de milhares de litros de gasóleo”, de “muitos milhares de toneladas de resíduos perigosos ou contaminados”, de “milhões de litros de águas residuais de baixa radioatividade”, e de “substâncias tóxicas e metais pesados” – enfim, uma poluição que “está a prejudicar mexilhões e outras formas de vida marinha”, quando os EUA dizem querer regressar a várias das bases.

O que sobressai na zona do aeroporto é a “lixeira” junto ao fiorde, a poucas centenas de metros da pista, com toneladas de resíduos a espalharem-se “por vários hectares ao longo da margem, abandonadas no rio de água do degelo”, que desagua no fiorde. E dizem os jornalistas que, “em vários pontos, os bidões de petróleo e os destroços acumulam-se em camadas com metros de altura” – empurrando “tudo na direção da água” – e que, noutros pontos, “foram enterrados”.

“Durante muitos, muitos anos, o petróleo infiltrou-se na água. Foram afundados vários aviões no fiorde”, conta um mecânico de formação e que foi diretor do aeroporto de Narsarsuaq, durante mais de 20 anos, frisando que os norte-americanos “abandonaram a base militar de Narsarsuaq, em 1958, sem fazerem qualquer limpeza”.

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Entretanto, a 18 de junho de 2021, a revista Sustentável publicou um artigo de Rafael Correia, intitulado “Bactéria é utilizada para limpar solo poluído a gasóleo na Gronelândia”, a pôr em relevo a presença natural, no solo, em postos militares extintos, na Gronelândia, de uma bactéria que limpa o solo poluído a gasóleo, como revelou, em comunicado, a Universidade de Copenhaga, após investigação de cinco anos, em Mestersvig, na Gronelândia Oriental.

Os investigadores do Departamento de Plantas e Ciências Ambientais da Universidade de Copenhaga e do Geological Survey of Denmark and Greenland (GEUS) diziam que a bactéria limpou, em cinco anos, até 82% das cinco mil toneladas de solo contaminado. E, como explicou Jan H. Christensen, professor da Universidade de Copenhaga, as bactérias são eficazes na decomposição da grande maioria dos compostos do gasóleo, podendo este método ser aplicado em mais lugares do Ártico. Em alternativa, dispõe-se do recurso, mais oneroso, à “remoção da contaminação dos solos, através de aeronaves ou navios”.

Este método natural, conhecido como landfarming, geralmente associado a climas mais quentes, no Mundo, antes deste projeto, nunca foi testado, em larga escala, em condições árticas, e “nunca foi tão estudado e documentado como nesta experiência”.

O landfarming funciona com a distribuição do solo contaminado numa camada fina, que é, depois, lavrada, fertilizada e oxigenada, todos os anos, para otimizar as condições para as bactérias degradarem os compostos poluentes. Com efeito, diz o colunista da Sustentável, “as bactérias podem, facilmente, degradar os contaminantes no solo, apesar das temperaturas frígidas”; e, no futuro, espera-se que estas bactérias possam ser usadas para remediar a contaminação em cerca de 30 outras instalações desertas, na Gronelândia.

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Porém, se os EUA querem regressar, além da responsabilidade histórica pela despoluição, há mais um argumento para lhes assacar o ónus da mesma.

Durante a II Guerra Mundial e a Guerra Fria, os EUA operaram em, pelo menos, 36 bases e instalações militares gronelandesas. Hoje, só têm a grande base de Pituffik, mas decorrem intensas negociações diplomáticas entre os EUA, a Dinamarca e a Gronelândia, com o governo norte-americano a procurar reabrir várias bases, nomeadamente, as de Narsarsuaq e de Kangerlussuaq. Ao mesmo tempo, Donald Trump, há muito que ameaça apoderar-se da maior ilha do Mundo. E, recentemente, o seu enviado especial para a Gronelândia, Jeff Landry, publicou uma mensagem sobre o território em que afirmava, que os EUA poderiam ficar mais ricos com um novo estado, já no próximo ano.

O Politiken, que se deslocou à Gronelândia, para investigar em que estado os EUA deixaram as suas muitas antigas bases, apesar de terem sido publicados artigos sobre o legado norte-americano na Gronelândia, considera-se “o primeiro órgão de comunicação a cartografar a poluição das bases dos EUA, com base em vários milhares de páginas de informação obtidas ao abrigo do direito de acesso a documentos” – estudos ambientais e documentos das autoridades dinamarquesas e gronelandesas, que não foram tornados públicos.

A investigação evidnecia a significativa dimensão da poluição: “vários milhares de toneladas de resíduos perigosos ou contaminados abandonados, na Natureza gronelandesa; até 100 mil bidões de petróleo enferrujados e corroídos; poluição por mais de 400 mil litros de gasóleo; até 24 milhões de litros de águas residuais de baixa radioatividade deixados sob o manto de gelo; várias toneladas de baterias descartadas”; deteção de PCB [bifenilos policlorados], em níveis muito acima dos limites legais; e metais pesados, como o chumbo e o cádmio.

Muitas das antigas bases e instalações dos EUA nunca foram investigadas a fundo, quanto à contaminação ambiental. E vários políticos gronelandeses criticam, duramente, a poluição deixada na Gronelândia. Sustentam que “deixar as coisas para trás é um sinal de falta de respeito”. Ora, tendo sido permitido aos EUA irem à Gronelândia, estarem lá e tirarem benefícios dessa posição, “o mínimo que podem fazer é limpar o que sujam”, dizem.

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Na II Guerra Mundial e nos primeiros anos da Guerra Fria, a grande ilha tornou-se foco de interesse para as forças armadas norte-americanas. Primeiro, na guerra contra a Alemanha nazi e, depois, como entreposto de recursos, campo de ensaios para a guerra no Ártico e posto avançado virado para a União Soviética comunista. Desde o início, os termos da presença norte-americana foram negociados, num complexo jogo de política de defesa em que os EUA nem sempre diziam toda a verdade à Dinamarca sobre os seus planos, e o governo dinamarquês agia por cima da cabeça dos gronelandeses.

A 9 de abril de 1941, Henrik Kauffmann, enviado dinamarquês aos EUA, arrogando-se representante do governo de Copenhaga, celebrou um acordo de defesa que lhes concedia o direito de instalarem aeroportos e portos como bases militares na Gronelândia. O governo dinamarquês destituiu Kauffmann, acusando-o de traição, e declarou o acordo inválido, mas os EUA começaram a instalar bases por toda a Gronelândia. E, após a II Guerra Mundial, viam-se como o protetor do Mundo livre, entendiam que isso lhes conferia claros privilégios e quiseram comprar a Gronelândia, por cerca de 100 milhões de dólares, o que foi recusado por Copenhaga.

Em 1950, os norte-americanos gizaram, nas costas da Dinamarca, uma estratégia para o Ártico que previa a extração de urânio, na Gronelândia, a instalação de mísseis telecomandados com o alcance de dois mil a 2500 quilómetros e o desenvolvimento de meios de transporte sob o gelo.

Em 1951, os governos dinamarquês e norte-americano assinaram um acordo de defesa para defenderem, conjuntamente, a Gronelândia sob a égide da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), segundo o qual os EUA podiam “adaptar a zona [terra, mar e ar] para uso militar”, não tendo as bases de “ser devolvidas no estado em que se encontravam no momento em que foram disponibilizadas”. Esta última disposição serviu, indevidamente, de pretexto, para os ocupantes não terem de despoluir.

Apesar de abandonarem, à pressa, a maior parte das bases, os EUA criaram, em 1959, a cerca de 225 quilómetros a Leste da base de Pituffik, no Nordeste da Gronelândia, uma estação de investigação digna de ficção científica, a Camp Century, dotada de uma pequena central nuclear sob o manto de gelo. A estação consistia num extenso sistema de túneis, com a “avenida principal” de 330 metros e mais de 20 túneis adjacentes. O reator nuclear fornecia eletricidade e calor à base e aos 225 ocupantes. Os norte-americanos iniciaram a construção, sem terem recebido a aprovação de Copenhaga. E, em 1966, retiraram o reator nuclear, poucos anos antes de deixarem a base, em 1966. Mas, segundo um relatório de 2016, ficaram sob o gelo até 24 milhões de litros de águas residuais de baixa radioatividade, nove mil toneladas de resíduos de construção e 200 mil litros de gasóleo.

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A poluição por petróleo é, em particular, um enorme problema nas antigas bases dos EUA. É o que se passa, sobretudo, na ilha de Simiutaq, no Sul da Gronelândia. No total, estima-se que haja cerca de 10 mil metros cúbicos de solo contaminado por hidrocarbonetos.

Na costa ocidental, a pouco menos de 70 quilómetros a Sul de Nuuk, os norte-americanos deixaram, pelo menos, oito mil bidões de petróleo, na base de Marraq. A estimativa da quantidade total de gasóleo que contaminou o local “aponta para cerca de 120 mil litros ou mais”. A contaminação era “tão grave que ainda se sentia no local um forte cheiro a petróleo”, apesar de ter ocorrido cerca de 50 anos antes.

A contaminação por petróleo é mais grave na base de Ikkatteq, na costa oriental, de difícil acesso e onde os norte-americanos deixaram dezenas de milhares de bidões de petróleo e veículos antigos espalhados por uma área de mais de 25 mil metros quadrados. Em vários pontos, os bidões foram empilhados em duas ou três camadas, e dizem os investigadores que “as substâncias detetadas nas amostras de solo e de água podem representar um risco para a vida marinha junto à costa, em particular, para os mexilhões do fiorde”.

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Outro grande problema é a quantidade de amianto deixada pelos norte-americanos, havendo amianto em edifícios abandonados em quase todas as bases. Na II Guerra Mundial, os EUA construíram um hospital militar de 250 camas, que se manteve relativamente intacto, até 1972, ano em que ardeu, tendo ficado, durante anos, reduzido a um monte de escombros. E, nos anos 1980, os restos do hospital foram demolidos com bulldozers, mas as placas de amianto ficaram. “Hoje, pequenas placas de amianto brancas espalham-se pelo vale, como bolachas estaladiças esmigalhadas”, relatam alguns habitantes.

Em 2019, um grupo de investigadores da Universidade de Aarhus fazia trabalho de campo em Narsarsuaq. Aí, observaram placas de amianto estilhaçadas espalhadas pela zona. Recolheram amostras, tendo concluído que o material era amianto. E informaram o médico-chefe da Gronelândia das conclusões. “O médico-chefe pediu às autoridades gronelandesas que tomassem medidas para reduzir o risco para a saúde”, leu o Politiken, na ata duma reunião.

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O caso do amianto em Narsarsuaq ilustra como a responsabilidade se perde no jogo do empurra, entre autoridades. O Ministério do Ambiente de Copenhaga diz que a responsabilidade por Narsarsuaq foi transferida para as autoridades gronelandesas, mas o Departamento do Ambiente, Energia, Natureza e Investigação da Gronelândia afirma que o princípio de base é que “quem deixou os resíduos tem de pagar para que sejam removidos”. Cabe ao município local “tentar encontrar o proprietário”, já que os municípios são a autoridade principal em matéria de gestão de resíduos.

Nos anos 1990, os norte-americanos tinham desviado as atenções da Gronelândia. A maioria das bases tinha sido abandonada. Só a Base Aérea de Thule, rebatizada Base Espacial de Pituffik, em abril de 2023, permanecia sob controlo dos EUA. Políticos gronelandeses manifestaram preocupação com as enormes quantidades de resíduos. A 13 de março de 1991, o ministro dos Negócios Estrangeiros e o seu homólogo americano assinaram um acordo em que os EUA se comprometiam a “remover” ou a “neutralizar” todas as substâncias perigosas conhecidas, mas os norte-americanos terão renegado essa promessa, 11 anos depois.

O Politiken perguntou ao Departamento de Defesa dos EUA e ao Ministério do Ambiente dinamarquês se consideram o acordo de 1991 válido e cumprido, mas não obteve resposta

Na década de 2010, políticos gronelandeses intensificaram as críticas ao legado militar dos EUA, as quais suscitaram o acordo de 2012 entre o governo dinamarquês e o governo Autónomo da Gronelândia para limpar o que as forças armadas dinamarquesas deixaram no território, mas sem qualquer menção aos resíduos militares norte-americanos.

Em 2017, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Gronelândia queixou-se ao Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), alegando que a Dinamarca não assumia suficiente responsabilidade da limpeza das instalações militares dos EUA.

O relator especial da ONU para os resíduos perigosos concluiu que “a Dinamarca tem de identificar e remover todos os resíduos militares deixados na Gronelândia” que o povo gronelandês queira ver removidos, instando os EUA a contribuírem para esse esforço. Em 2018, o governo dinamarquês afetou 180 milhões de coroas dinamarquesas, ao longo de seis anos, para limpar bases americanas selecionadas, mas os EUA não contribuíram. As verbas não estão esgotadas e, até agora, só foi limpa uma pequena parte das bases.

Agora que os EUA querem regressar a antigas bases e reforçar a presença militar na Gronelândia, muitas vozes do território exigem medidas que garantam que os erros passados não se repetem. O Departamento de Defesa dos EUA não respondeu às críticas dos políticos gronelandeses, mas, nos últimos seis meses, representantes das forças armadas dos EUA visitaram Narsarsuaq, para inspecionarem a pista, o hotel da povoação e o antigo aeroporto, mas não foram à grande zona com resíduos norte-americanos.

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A diplomacia é, por vezes, muito escusa. Os EUA fazem política egoísta (não só com Trump). O colonizador ou protetor não cuida da colónia ou protetorado, a quem, por mais razão que tenha, pouco se liga. No caso vertente, deve aplicar-se o princípio: “Quem suja limpa.”    

2026.06.29 – Louro de Carvalho

domingo, 28 de junho de 2026

Ondas de calor, na Europa, provocam degelo e morte de pessoas

 

O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS) disse, a 28 de junho, que, desde o dia 21, “foram registadas mais de 1300 mortes em excesso associadas às elevadas temperaturas na Europa”. A este respeito, utilizou a rede social X, para relevar que “o stresse térmico é, frequentemente, designado como o assassino silencioso e que “as habitações, os locais de trabalho e as escolas europeias não foram concebidos para suportar estas temperaturas”.

Tedros Adhanom Ghebreyesus adiantou que a OMS “está a trabalhar com os seus estados-membros e parceiros para enfrentar as ameaças à saúde provocadas pelo calor extremo, centrando-se na preparação, na prevenção e no reforço da capacidade de resposta dos sistemas de saúde”. Em particular, os países estão a ser incentivados “a implementarem planos de ação para a saúde, em situações de calor extremo, como parte de uma agenda mais ampla destinada a proteger a saúde, face às alterações climáticas”.

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A onda de calor extrema continua a afetar a Europa, com temperaturas abrasadoras a persistirem em todo o continente.nNos últimos dias, já foram registadas temperaturas recorde no Reino Unido, na França e na Alemanha, com eventos cancelados e com vendas de álcool restringidas, enquanto os serviços de emergência tentam responder ao aumento de chamadas.

Devido à onda de calor, Paris proibiu o consumo de álcool, na via pública, e a Marcha do Orgulho, prevista para o dia 27, foi adiada. A Torre Eiffel e o museu do Louvre continuam a encerrar mais cedo. De facto, a capital francesa registou temperaturas de 39º C (centígrados ou Celsius), levando muitos habitantes e turistas a dirigirem-se aos canais e parques da cidade para se refrescarem. E Emmanuel Grégoire, presidente da câmara, disse que um homem se afogou no Canal Saint-Martin, na noite de 26, e lembrou o perigo de nadar fora das zonas e horários vigiados.

“Já o dissemos e voltamos a dizê‑lo: nadar fora dos horários em que é permitido o banho vigiado e fora das zonas com vigilância é perigoso”, escreveu Emmanuel Grégoire, no X.

Trinta e sete departamentos permaneciam sob aviso vermelho de calor, no dia 27, baixando para 24, no dia 28, segundo a Météo-France. A França registou, no dia 24, o dia mais quente de sempre, com a temperatura média em 24 horas a atingir 30º C.

Grande parte da Alemanha mantém-se também sob avisos de calor. A cidade ocidental de Saarbrücken registou, no dia 26, o valor mais alto de temperatura alguma vez medido no país, com 41,3º C. Uwe Baumgarten, do serviço meteorológico alemão, disse à AFP que este valor poderia ser ultrapassado no dia 27.

O Reino Unido registou, a 26, o dia mais quente desde que há registos. O Met Office, serviço nacional de meteorologia e clima do Reino Unido, indicou que dados provisórios mostram que a aldeia de Santon Downham, em Suffolk, atingiu 37,3º C. Partes do Leste e do Sudeste de Inglaterra permaneceram sob aviso laranja de calor, no dia seguinte.

Notícias do dia 28 revelam que várias regiões de França ultrapassaram, durante a semana, 40º C, aumentando a pressão sobre hospitais e sobre equipas de emergência, graças aos pedidos. Um futebolista profissional do Guingamp morreu afogado no rio Ródano.

Kenzo Kies, futebolista do Guingamp, clube da segunda liga francesa morreu depois de, alegadamente, se ter afogado no Ródano, durante a onda de calor. Nas redes sociais, o clube lamentou a morte do jogador de 21 anos. “O En Avant Guingamp apresenta as mais sentidas condolências à família de Kenzo Kies e a todos os seus próximos e manifesta‑lhes todo o seu apoio, neste momento difícil”, explicitou.

A França registou, desde o dia 24, cerca de mil mortes adicionais, em relação ao esperado e em comparação com os óbitos registados nos meses anteriores, numa altura em que temperaturas abrasadoras atingem o país, como afirmou a agência francesa de saúde pública Santé Publique France, em comunicado.

As regiões mais afetadas são, sobretudo, as que estiveram sob alerta vermelho de calor, nomeadamente, a Île‑de‑France, a Nova Aquitânia, a Bretanha, o Centro‑Vale do Loire, a Normandia e o Pays de la Loire, indicou a agência, acrescentando que 85 % das mortes dizem respeito a pessoas com 65 ou mais anos.

Também a Alemanha sofre com a primeira vaga de calor do ano. A polícia de Berlim recorreu a meios pouco usuais, para refrescar a população, enviando dois canhões de água para as ruas da capital, habitualmente usados em manifestações. Porém, o jato foi, naturalmente, muito mais suave do que nas manifestações.

Os veículos com canhões de água percorreram a capital e encantaram residentes e turistas. Entre os destinos estiveram, entre outros, a Porta de Brandemburgo, a Potsdamer Platz e o edifício do Reichstag. E, no geral, os locais mais frescos foram muito procurados.

Há já vários dias que a Alemanha enfrenta uma onda de calor, com temperaturas a aproximarem-se da barreira dos 40º C ou mesmo a ultrapassarem esse valor. A situação é particularmente difícil porque, em muitas zonas, durante um longo período, quase não houve arrefecimento noturno e as temperaturas se mantiveram elevadas, mesmo durante a noite.

Segundo dados provisórios do Serviço Meteorológico Alemão (DWD), a noite do dia 27 foi, desde o início dos registos meteorológicos, a mais quente, até agora, na Alemanha. O valor máximo foi registado em Kubschütz, no Leste da Saxónia, onde a temperatura noturna não desceu abaixo dos 29,4º C. E o valor máximo diário provisório de 41,5º C foi medido, no dia 27, às 16h20, em Möckern-Drewitz, na Saxónia-Anhalt.

Prevê-se que a Alemanha arrefeça, ligeiramente, na próxima semana.

O dia 28 terá marcado o auge da onda de calor. De acordo com o DWD, eram esperadas temperaturas extremamente elevadas, entre 37º C e 41º C, com a possibilidade de, localmente, haver trovoadas de calor, acompanhadas de chuva intensa, granizo e rajadas de vento, por vezes, fortes. Para os dias subsequentes, previa-se descida acentuada de temperatura, com períodos de chuva e, pontualmente, trovoadas.

A Espanha tem também enfrentado uma vaga de calor persistente, com temperaturas a ultrapassarem 40º C, em algumas zonas. A agência meteorológica nacional espanhola (Aemet) indicou que as temperaturas se iriam manter “acima do normal”, no início da próxima semana, sobretudo, no Oeste, no Centro e no Sul do território continental.

Na verdade, aquela agência espanhola emitiu, a 23 de junho, avisos por calor, para todo o país, incluindo três de nível máximo (vermelho) para Andaluzia, para a Cantábria e para o País Basco, onde as temperaturas poderiam alcançar 44º C. A única exceção é para as ilhas Canárias.

Por outro lado, foram limitadas, ou até proibidas, as fogueiras, incluindo em praias, assim como espetáculos de pirotecnia, coincidindo com as festas de São João, em vários pontos do país.

Os serviços da Aemet alertaram para a possibilidade de as temperaturas máximas, em zonas da Andaluzia (Sul), alcançarem os 44º C e, na Cantábria e no País Basco (Nordeste) puderem chegar aos 40º C. Outras dez regiões estão sob aviso laranja (o que representa maior risco a seguir ao vermelho) e três estão com aviso amarelo.

As previsões da Aemet eram que se registassem mais de 35º C, naquele dia, na generalidade do território continental da Espanha e nas ilhas mediterrânicas das Baleares, com exceção de alguns pontos do litoral norte e de algumas zonas de montanha. Por outro lado, a Aemet previu que a noite subsequente voltasse a ser tropical ou mesmo tórrida, com as temperaturas mínimas a manterem-se acima dos 20º C, no primeiro caso, e dos 25º C, no segundo.

Por causa da onda de calor que está a atingir Espanha, como outros países da Europa, e do risco de incêndio, alguns governos regionais e municipais adotaram medidas excecionais, por causa das celebrações de São João. Entre essas medidas está a proibição ou limitação de fazer fogo, incluindo fogueiras, em praias, ou a utilização de drones de vigilância. Igualmente limitados ou proibidos, em vários municípios, estão os espetáculos de pirotecnia ou a utilização de outro tipo de pequenos explosivos, como petardos.

Além da Espanha, também a França e a Itália emitiram avisos vermelhos para várias cidades, devido à onda de calor, com as temperaturas a ultrapassar os 40º C, em várias regiões, como indicaram as autoridades destes países. A Europa enfrenta uma nova onda de calor que obrigou vários países a tomar medidas, como o encerramento de escolas.

É a segunda onda de calor a atingir a Europa, em menos de um mês. A Espanha, Portugal, a Bélgica, a Alemanha, os Países Baixos, o Reino Unido, a Suíça, a Áustria e a Macedónia são alguns dos países que estão a ser atingidos pela onda de calor.

A Europa é o continente que está a aquecer mais rapidamente, no Mundo, com as temperaturas a aumentarem duas vezes mais rapidamente do que a média global, desde a década de 1980, de acordo com o Serviço de Alterações Climáticas Copernicus da União Europeia (UE). Nos últimos quatro anos, mais de 200 mil pessoas, em toda a Europa, morreram por causas relacionadas com o calor, e a maioria destas mortes era evitável, como afirmou o gabinete da OMS para a Europa. As temperaturas acima da média podem causar exaustão, pelo calor, e insolação, com risco de vida. Os cientistas alertam que as alterações climáticas estão a agravar a frequência e a intensidade do calor e da seca, especialmente, no Sudeste da Europa, tornando a região mais vulnerável aos impactos na saúde e aos incêndios florestais.

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Um bebé de 18 meses morreu, no hospital, depois de ter sido encontrado inconsciente e em hipertermia, dentro de um carro sobreaquecido, durante uma forte vaga de calor em Marselha, a 23 de junho. Um dos pais ter-se-á esquecido da criança, ao ir trabalhar, no parque de estacionamento do campus de medicina de La Timone. Trata-se da quarta morte deste tipo registada, em oito dias, na França, depois de um caso no Val-d’Oise, no dia 18, e de dois, em Carpentras, no dia 22.

Os serviços de proteção civil indicaram que transportaram de urgência o bebé de 18 meses para o serviço de pediatria, depois de o terem encontrado em estado de hipertermia dentro de um veículo, no parque de estacionamento do campus universitário do hospital da Timone, pertencente à Universidade Aix-Marselha. O bebé foi levado para o serviço de urgência do hospital, em estado crítico, com risco de vida. Acabou por morrer lá.

Os termómetros chegaram aos 33° C, naquele dia, na cidade de Marselha, numa altura em que o departamento de Bouches-du-Rhône estava sob aviso laranja, por causa do calor.

“É com profunda tristeza que tomámos conhecimento do trágico acontecimento no campus da Timone. Endereçamos as nossas mais sinceras condolências à família e aos próximos da vítima. Expressamos, igualmente, o nosso apoio a todas as pessoas que foram testemunhas ou ficaram afetadas por este acontecimento trágico”, reagiu Éric Berton, presidente da Universidade Aix-Marselha, em comunicado enviado à AFP, referindo que a universidade criou uma estrutura de apoio psicológico ao pessoal e às testemunhas.

Além das mortes, em França, uma central nuclear, também em França, foi desligada na noite de 22 de junho, devido a “restrições ambientais” associadas à onda de calor, anunciou um porta-voz da unidade.

A central de Golfech (no Sudoeste do país) possui dois reatores de água pressurizada de 1,3 gigawatt (GW) e utiliza água do rio Garonne para arrefecer os seus reatores. Um deles foi desligado às 23h45 do dia 22, antecipando a subida da temperatura da água do rio para 28° C, que deveria ocorrer no dia 23. Ora, como o primeiro reator está inativo para manutenção, desde maio, a central ficou efetivamente desligada.

Em Portugal, a par das altas temperaturas, em várias zonas do interior e de trovoadas localizadas, que provaram muitos prejuízos nas culturas, os diretores de escolas pediram a suspensão da atividade escolar, nalguns lugares, e houve comboios suprimidos. Porém, a Direcção-Geral da Saúde apenas fez as recomendações habituais: não ingestão de álcool, ingestão de litro e meio de água, por dia, proteção do sol para grupos de risco, evitar o calor entre as 11 e as 17 horas e procurar lugares frescos.

Entretanto, o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) pôs sete distritos do continente sob aviso amarelo, devido ao calor.

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Prevê-se que toda a neve e gelo acumulados no último inverno tenham derretido até ao dia 29, o que, neste século, só costumava acontecer em meados de agosto, segundo a Rede de Monitorização de Glaciares na Suíça (GLAMOS). Esta perda drástica deve-se à onda de calor que se abateu sobre a Europa.

A partir daquela data, cada dia adicional de degelo, entre agora e outubro, fará encolher a dimensão dos glaciares.

O ponto de viragem, conhecido como “dia de perda dos glaciares”, chegou, significativamente, mais cedo do que o habitual. Desde o início da recolha de dados, há mais de duas décadas, só uma vez tinha chegado ainda mais cedo, quando, em 2022, se registou a 26 de junho.

“Estamos a assistir a uma enorme ablação, a taxas de derretimento do gelo e da neve em todo o maciço alpino. […] Estamos três meses adiantados em relação a uma situação considerada saudável”, afirmou, no dia 26, Matthias Huss, responsável da GLAMOS, alertando que os glaciares do país se encontram em mau estado e estão a recuar a um ritmo sem precedentes, acelerado pela onda de calor em curso.

Embora os glaciares dos Alpes suíços tenham começado a recuar, há cerca de 170 anos, o degelo foi relativamente moderado, até às últimas décadas. A perda acelerada de gelo e de neve (a Europa regista aceleração do degelo dos glaciares com temperaturas escaldantes) resulta da subida das temperaturas, na Europa, bem como de menos queda de neve no inverno.

Neste ano, os glaciares suíços receberam cerca de 25% menos neve fresca do que a média entre 2010 e 2020, indicou Mathias Huss. Além disso, temperaturas acima da média, em maio e em junho, incluindo uma onda de calor extraordinária, fizeram a neve desaparecer mais cedo do que o habitual, expondo o gelo glaciar mais escuro por baixo.

Quando a cobertura de neve branca e refletora desaparece da superfície do glaciar, fica exposto o gelo acinzentado por baixo, absorvendo a radiação solar mais rapidamente e acelerando, ainda mais, o processo de degelo. “Se o aquecimento continuar como nas últimas décadas, em 2100, restarão apenas pequenos vestígios de gelo”, advertiu Huss.

O calor extremo que está a castigar a Europa teria sido quase impossível, há algumas décadas, alertam os cientistas, avisando que as alterações climáticas estão a fugir ao controlo.

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As ondas de calor criam exaustão, insolação, dificuldades respiratórias, problemas cardíacos e mortes, nas pessoas. Os animais também não resistem. O degelo aumenta para níveis inéditos. E as trovoadas que sucedem ao calor ou o acompanham danificam as culturas, erodem os solos e inundam ruas e casas. Uma caterva de prejuízos!    

2026.06.28 – Louro de Carvalho

Devem ser aceites a palavra e o testemunho daquele/a que segue Jesus

 

 

A Liturgia da Palavra do 13.º domingo do Tempo Comum, no Ano A, apresenta-nos uma reflexão sobre a marca do discipulado e da sua aceitação por quem o professa e pelos destinatários da palavra e do testemunho. O discípulo é todo/a aquele/a que, pelo Batismo, se identifica com Jesus, faz de Jesus a sua referência e O segue; a sua missão é tornar presente, na História e no tempo, o desígnio de salvação de Deus para os homens; e quem escutar a palavra e interiorizar o testemunho gestual do discípulo receberá o ónus e a recompensa de discípulo.

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A primeira leitura (2Rs 4,8-11.14-16a) mostra como todos podem colaborar na realização do desígnio salvador de Deus. De forma direta (Eliseu) ou de forma indireta (a mulher sunamita), todos têm um papel a desempenhar para que Deus Se torne presente no Mundo e interpele os homens.

Após a morte de Salomão (932 a.C.), o povo de Deus dividiu-se em dois reinos: o de Israel, no Norte, e o de Judá, no Sul, que passaram a ter histórias separadas e, por vezes, antagónicas.

O trecho em apreço remete para o reino de Israel, em meados do século IX a.C., no reinado de Jorão (853-842 a.C.), com Israel a estabelecer relações económicas, políticas e culturais com outros países, as quais o tornam vulnerável a influências religiosas estrangeiras e favorecem a entrada de cultos diversos no país – uma época de sincretismo e de confusão.

Eliseu, discípulo de Elias, continua a obra do mestre, lutando contra o sincretismo religioso e procurando trazer, de novo, os israelitas às sendas da fidelidade à aliança. Faz parte de uma comunidade de filhos de profetas (“benê nebi’im”), isto é, seguidores incondicionais de Javé, que vivem na absoluta fidelidade aos mandamentos de Deus e não se deixam contaminar pelos valores religiosos estrangeiros. Vivem pobremente e são, regularmente, consultados pelo Povo, que neles busca apoio, face aos abusos dos poderosos.

Eliseu é chamado o “homem de Deus” (‘ish Elohim), ou seja, o homem que é intérprete da Palavra de Javé junto dos outros homens. A Palavra que transmite é uma Palavra poderosa, que opera maravilhas e que tem a capacidade de transformar a realidade. Os milagres atribuídos a Eliseu (o grande milagreiro do Antigo Testamento) são a expressão viva da força de Deus, que intervém, pelo profeta, na História, e salva os pobres.

O episódio em causa situa-nos em Sunam – pequena cidade do Sul da Galileia, não longe de Meggido, à entrada da planície de Yezre’el, em casa de uma mulher rica e sem filhos – e tem duas partes distintas: a descrição da hospitalidade que a mulher oferece ao profeta, pelo que é recompensada com o anúncio do nascimento de um filho; e a repentina doença e morte do filho, que exigirá nova intervenção do profeta para lhe devolver a vida. A leitura desta dominga apresenta-nos a primeira parte.

Estamos, pois, ante a generosa hospitalidade que Eliseu encontra em casa da mulher sunamita, que não se limita a oferecer-lhe uma refeição, sempre que este passava por Sunam, nas suas idas ao monte Carmelo e nas respetivas vindas, como também manda construir, expressamente, para ele, um quarto no terraço da sua casa e o mobila adequadamente. O seu gesto não se limita a levar até às últimas consequências o sacramento da hospitalidade, tão relevante entre os povos do Crescente Fértil, mas significa o reconhecimento de que Eliseu é um homem de Deus, pelo qual Deus age no Mundo. Ajudando Eliseu, a mulher mostra a sua adesão a Javé e a sua disponibilidade para colaborar com Deus no projeto de salvação. Em resposta à generosidade da mulher, Eliseu anuncia-lhe o nascimento de um filho. Esta promessa tem valor especial, dada a quase impossibilidade de ter filhos que pesa sobre o casal, devido à avançada idade do marido.

Assim, ficamos a saber que a colaboração com Deus na realização do seu plano de salvação-libertação é fonte de vida e de bênção. Ou seja, Deus não deixa de recompensar todos/as aqueles/as que colaboram com Ele.

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O Evangelho (Mt 10,37-42) é uma catequese sobre o discipulado. Num primeiro passo, define o caminho do discípulo: o discípulo tem de ser capaz de fazer de Jesus a sua opção fundamental e de seguir o mestre na via do amor e da entrega da vida. Num segundo passo, sugere que toda a comunidade é chamada a testemunhar a Boa Nova. E, no terceiro passo, garante recompensa àqueles/as que acolherem, com generosidade e amor, os/as missionários/as do Reino.

O trecho em análise apresenta-nos a parte final de um discurso atribuído a Jesus e que teria sido pronunciado pouco antes do envio dos discípulos em missão.

Na década de 80, Mateus escreve para uma comunidade onde a tradição missionária estava bem enraizada, mas as condições políticas do final do século I (reinado de Domiciano e hostilidade crescente do império em relação ao cristianismo) trazem a comunidade confusa. Face a esta situação, o evangelista compõe então uma espécie de “manual do missionário cristã”, para revitalizar a opção missionária da comunidade. Nesse sentido, enuncia um conjunto de valores e de atitudes que devem orientar a ação dos missionários cristãos.

O excerto pode dividir-se em duas partes. Na primeira (vv. 37-39), temos um conjunto de exigências radicais para quem quer seguir Jesus; na segunda parte (vv. 40-42), aprendemos que toda a comunidade deve anunciar Jesus e que terão recompensa destinada aqueles/as que acolherem os mensageiros do Evangelho, como sucedeu com Eliseu e com a sunamita.

O seguimento de Jesus não é caminho fácil e consensual, ladeado por aplausos e encorajamentos. Mas é caminho radical que pode obrigar a ruturas e a opções exigentes. Quando se trata de escolher entre Jesus e outros valores, a opção do cristão teve ter, sempre, como prioridade a lealdade para com Jesus. Se a alternativa for escolher entre Jesus e a própria família, a escolha do discípulo deve recair em Jesus (a família era a estrutura social que dava sentido à vida dos indivíduos; e a rutura com a família era uma medida extrema, que supunha um desenraizamento social quase completo). O discípulo, necessariamente, de cortar relações com a família para seguir Jesus, mas não pode deixar que a família ou os afetos o impeçam de responder, com coerência e radicalidade, ao desafio do Reino.

Se a alternativa for escolher entre Jesus e as próprias seguranças, a escolha do discípulo deve ser tomar a cruz (o que a Simão Pedro custou a entender) e seguir Jesus. Com efeito, fazer da vida dom total a Deus e aos homens significa romper com todos os esquemas que, na perspetiva dos homens, dão comodidade, bem-estar, realização, felicidade, êxito.

Porém, escolher Jesus e segui-Lo até à cruz não é caminho de fracasso e de morte, mas caminho de vida. Efetivamente, se o homem está muito preocupado em proteger os seus esquemas de seguranças humanas e se fecha no seu egoísmo e na sua autossuficiência, perde a vida verdadeira; e, se o homem aceita viver na obediência ao desígnio de Deus e fazer da sua vida um dom de amor aos irmãos, encontra a vida definitiva.

Na segunda, o evangelista refere-se à recompensa àqueles/as que acolhem os mensageiros da Boa Nova de Jesus, distribuídos por quatro grupos de pessoas, que integram a comunidade cristã e que têm a responsabilidade do testemunho: os apóstolos, os profetas, os justos e os pequenos. A todos incumbe a missão anunciar a Boa Nova de Jesus. Os apóstolos – os que acompanharam sempre Jesus – são as testemunhas primordiais de Jesus, pois diz-se deles que quem os recebe a Jesus recebe. Os profetas são os pregadores itinerantes que, em nome de Deus, interpelam a comunidade e que a ajudam a ser coerente com os valores do Evangelho. Os justos são, provavelmente, os cristãos procedentes do judaísmo, que procuram viver, no seio da comunidade cristã, em coerência com a Lei de Moisés. Os pequenos são os discípulos que não integram, de forma plena, a comunidade, pois estão em processo de amadurecimento da sua opção (podem ser os catecúmenos que estão a descobrir a fé, à espera do compromisso pleno com Cristo e com a Boa Nova). Seja como for, todos estes grupos que formam a comunidade cristã, têm por missão anunciar o Evangelho de Jesus.

Enfim, a tarefa de anunciar o Evangelho pertence a todos os membros da comunidade cristã; e os “missionários” que testemunham a Boa Nova e que entregam a vida ao serviço do Reino devem ser acolhidos com entusiasmo, com generosidade e com amor.

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Leão XIV vê, neste passo evangélico, “algumas exortações de Jesus para vivermos o seguimento e sermos testemunhas do seu Reino”. Não se reporta a “uma ação exterior”, mas à dedicação total a uma relação de amor com Ele, sendo que, para dar fruto, “o amor requer, pelo menos, três coisas: desapego, perda e acolhimento”.

Quanto ao desapego, Jesus diz: “Quem amar o pai ou a mãe mais do que a mim, não é digno de mim. Quem amar o filho ou filha mais do que a mim, não é digno de mim.” Ao enviar os apóstolos em missão, “o Senhor deseja que estejam livres de qualquer vínculo”. E o Papa não acha isto demasiado, pois é o postulado das grandes opções de vida. Por exemplo, só é possível viver, plenamente, a vida matrimonial, deixando a casa dos pais, para uma dedicação à relação conjugal. E, no atinente ao crescimento dos filhos, só é possível ajudá-los a realizarem-se e a serem felizes, educando-os a “caminhar com as próprias pernas” e a fazer as suas escolhas. Na verdade, como diz Santo Agostinho, “é doloroso separar-se do que se ama, mas também o agricultor perde temporariamente o que semeia”. Só “perdendo” aquela semente, lançada à terra, é que poderá vê-la florescer.

Neste sentido, o amor é perda, o que é difícil compreender, num Mundo em que perder parece uma fraqueza e em que se vive na obcecação por ter e possuir. Ao invés, o amor, só produz fruto, ao doar-se: “quando estamos dispostos a perder um pouco do nosso ‘eu’, para dar espaço ao outro, a perder um pouco de tempo para escutar um amigo, a perder um pouco de conforto para compartilhar uma situação complicada”. Segundo o Evangelho, “quem conserva a vida apenas para si mesmo, na realidade, perde-a, porque ela não se abre à alegria do amor e torna-se estéril”. Por isso, Jesus convida a abraçar a Cruz, pois Ele ofereceu-Se, perdeu-Se a Si mesmo e, assim, “pudemos receber a sua vida em abundância”. Também, se vivermos a lógica do dom, “seremos capazes de gerar vida nova nas nossas relações”.

Por fim, no respeitante ao acolhimento, é de sublinhar que o amor se expressa “em escolhas e ações concretas, num empenho feito de pequenos gestos quotidianos, como oferecer um copo de água a quem tem sede. E Jesus, ao enviar os discípulos, pede-lhes que vão sem provisões, isto é, que sejam necessitados, para suscitarem acolhimento naqueles que encontrarem. Assim, acolhendo quem vem em nome de Jesus, acolhe-se a Ele e ao Pai celeste que O enviou. De facto, o amor ao Senhor passa pelo acolhimento dos irmãos.

E o Papa exorta a que “rezemos à Virgem Maria, que amou o seu Filho sabendo-O também perder: que Ela nos ajude a ser testemunhas humildes e alegres do amor de Cristo”.

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A segunda leitura (Rm 6,3-4. 8-11) recorda que o cristão é alguém que, pelo Batismo, se identificou com Jesus. A partir daí, o cristão deve seguir Jesus na senda do amor e do dom da vida e renunciar definitivamente ao pecado.

Fundamentalmente, Paulo sugere aos crentes (divididos pela discussão acerca do caminho mais correto para alcançar a salvação) que a salvação é sempre dom de Deus e não conquista do homem. Se se pode falar de conquista da salvação, isso aplica-se a Jesus, que nos oferece a salvação que conquistou pela sua paixão e morte na cruz, cujo valor redentor foi validado pela ressurreição. Na verdade, apesar do pecado dos homens, Deus a todos justifica e salva de forma gratuita e incondicional. Essa salvação é oferecida aos homens através de Jesus Cristo.


O trecho em causa integra o bloco em que o epistológrafo descreve como a vida de Deus se comunica aos homens através de Jesus Cristo. Na perspetiva paulina, Cristo – ao contrário de Adão, o homem do orgulho e da autossuficiência – optou por viver na obediência a Deus e aos seus planos; e foi a sua obediência de Cristo, ou seja, o cumprimento incondicional da vontade do Pai, que fez chegar a todos os homens a graça da salvação.

Porém, isto não significa que é indiferente pecar ou não pecar, pois, supostamente, a obediência de Cristo a todos salva, de forma incondicional; que o cristão pode pecar, tranquilamente, porque a graça da salvação oferecida por Cristo irá sempre derramar-se sobre o pecador. É, antes de rejeitar o aforismo proclamado em tempos e erradamente atribuído a Santo Agostinho: “Pecca fortiter, sed crede fortius (“peca fortemente, mas crê com mais força ainda”). Não se pode brincar à salvação.

Ao ser batizado (isto é, ao aderir a Cristo e aceitar a oferta de salvação que Cristo faz), o cristão renuncia ao egoísmo e ao pecado, a fim de viver na dinâmica de vida nova. O pecado passa a incoerência e absurdo, uma vez que, pelo Batismo, o cristão enxertou-se em Cristo, ou seja, passou a receber de Cristo a vida que o anima e alimenta.

A vida de Cristo – longe de ser marcada pelo egoísmo, pelo orgulho, pela autossuficiência – foi vivida no amor, na partilha, no dom total de si a Deus e aos homens. Ao viver uma vida segundo Deus, Cristo “matou” o pecado. E, sobretudo, a cruz, enquanto expressão última da vida liberta do egoísmo e feita dom radical, é o “golpe final” no pecado (que é egoísmo, autossuficiência e fechamento em si próprio). A ressurreição mostra a vida nova emana do “não” ao pecado.

Os cristãos, pelo Batismo, são enxertados em Cristo, isto é, passam a fazer parte do Corpo de Cristo e a receber de Cristo a vida que os alimenta. Se neles circula a vida de Cristo, o pecado já não tem lugar: só tem lugar a vida de dom, de amor, de entrega, de serviço que leva à ressurreição, à vida definitiva. Ser batizado é sepultar o pecado e ressuscitar para uma dinâmica de vida nova, de onde o pecado está tem de estar ausente.

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Por tudo, os crentes devem cantar a bondade do Senhor e o estatuto de nação santa:

“Eu canto para sempre a bondade do Senhor.”

“Cantarei eternamente as misericórdias do Senhor / e para sempre proclamarei a sua fidelidade. / Vós dissestes: ‘A bondade está estabelecida para sempre’, / no céu permanece firme a vossa fidelidade.

“Feliz do povo que sabe aclamar-Vos / e caminha, Senhor, à luz do vosso rosto. / Todos os dias aclama o vosso nome / e se gloria com a vossa justiça.

“Vós sois a sua força, / com o vosso favor se exalta a nossa valentia. / Do Senhor é o nosso escudo / e do Santo de Israel o nosso rei.”

“Aleluia. Aleluia.”

“Vós sois geração eleita, sacerdócio real, nação santa, / para anunciar os louvores de Deus, / que vos chamou das trevas à sua luz admirável.”

2026.06.28 – Louro de Carvalho

sábado, 27 de junho de 2026

Ministros da Energia da UE reforçam papel na rede elétrica

 

No termo da Presidência semestral rotativa cipriota do Conselho da União Europeia (UE), os ministros da Energia garantiram, no Luxemburgo, um papel relevante no planeamento do futuro sistema elétrico europeu, depois de lançarem intensa campanha política contra a proposta da Comissão Europeia para reforçar o controlo sobre a rede elétrica da UE. O acordo ora alcançado abre caminho a negociações entre o Parlamento Europeu (PE) e o Conselho.

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Em dezembro de 2025, a Comissão Europeia identificou oito projetos-chave no domínio da energia, no âmbito do “Pacote das Redes”, que anunciou e que visa aumentar o transporte de eletricidade na UE27. Ao mesmo tempo, prometeu apoio a projetos de armazenamento e de hidrogénio. É um investimento de cerca de 1,2 mil milhões de euros, com vista a ajudar os estados-membros da UE a acelerar as licenças para infraestruturas de rede, projetos de energias renováveis e armazenamento, na tentativa de modernizar a rede elétrica da UE.

O atual sistema de planeamento e de licenciamento da rede é criticado por fragmentação e por inadequação ao ritmo da expansão necessária, representando significativo obstáculo à integração das energias renováveis. Por isso, os estados-membros e os intervenientes da indústria vêm apelando ao executivo da UE para acelerar o processo de licenciamento, visto que os projetos de energias renováveis podem levar até nove anos a serem adjudicados, o que provoca atrasos e custos adicionais.

No âmbito do plano de renovação da rede elétrica, o executivo da UE identificou oito projetos – que incluem interconexões elétricas, armazenamento e hidrogénio – para “reforçar as estruturas existentes” e para “assegurar recursos”, a fim de ver “progressos concretos”, em breve.

O plano centra-se nas ligações à rede, pelos Pirenéus, para melhor integrar a Península Ibérica, na ligação de Chipre à Europa continental e na ligação dos Estados Bálticos, pela Lituânia e pela Polónia. E a Comissão apoiará o desenvolvimento de uma plataforma de interconexão offshore na Dinamarca, porque vê, ali, potencial de expansão e de ligação a outros pontos do Báltico.

A Comissão pretende reforçar as capacidades de armazenamento de energia, no Sudeste, e promover a coordenação para desenvolver o corredor meridional de hidrogénio que liga a Tunísia, a Itália, a Áustria e a Alemanha. E será objeto de forte coordenação e de apoio político, por parte da Comissão, o corredor de hidrogénio entre Portugal e a Alemanha.

A UE, que tem a obrigação de atingir a neutralidade climática, até 2050, tem investido fortemente na produção de energias renováveis, mas a infraestrutura obsoleta de transporte de energia elétrica está a atrasar os projetos de energias renováveis que aguardam ligação à rede e a prejudicar a transição climática. Assim, em dezembro, a UE27 não estava no bom caminho para atingir os objetivos de interligação da rede, de 15%, até 2030, pois 14 estados-membros ainda não tinham atingido esse objetivo. Por conseguinte, a Comissão visa combater as infraestruturas obsoletas, sobretudo, no atinente à capacidade de transmissão entre os estados-membros, e melhorar a digitalização, para garantir a adaptação das infraestruturas à futura procura de eletricidade e às necessidades da transição energética.

Se o plano se concretizar, facilitará a integração das energias renováveis, reduzirá os custos da energia, ao longo do tempo – os preços da eletricidade, na UE, são duas a três vezes superiores aos dos Estados Unidos da América (EUA), de acordo com os relatórios Draghi e Letta –, poderá evitar incidentes, como o apagão de 28 de abril de 2025, na Península Ibérica, que afetou mais de 60 milhões de pessoas, e pode ajudar as regiões a beneficiarem de ligações transfronteiriças e de melhor integração da produção local de energia solar ou eólica, bem como a aumentar a eficiência das importações e exportações.

Para evitar contratempos, a organização não governamental (ONG) verde recomenda aos decisores políticos prioridade à implementação da lei das energias renováveis, à digitalização dos processos de licenciamento e à dotação de pessoal e de financiamento adequados às autoridades de licenciamento nacionais e locais. E Kristian Ruby, secretário-geral da Eurelectric, associação comercial representativa da indústria da eletricidade, instou os decisores políticos da UE a considerarem “indispensável” a energia hidroelétrica por bombagem, pois representa mais de 90% da capacidade global de armazenamento de eletricidade.

O executivo da UE, que estimou um investimento gigantesco de 1,2 mil milhões de euros para renovar a infraestrutura da rede elétrica do bloco, até 2040, sustenta que serão necessários cerca de 730 mil milhões de euros, para investimentos na rede de distribuição, e 477 mil milhões de euros, para as redes de transporte. Para tanto, a UE terá de recorrer a uma série de opções, incluindo fundos comunitários, orçamentos nacionais, investimento privado e partilha de custos, especialmente, tendo em conta a grande escala do investimento. E a Eurelectric apelou à Comissão para que criasse um mecanismo de rede descentralizada no orçamento plurianual do bloco, abrangendo o período entre 2028 e 2034, entre outros, e que alocasse parte dos fundos à eletrificação, à modernização, à atualização ou à expansão da rede de distribuição.

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Entretanto, cinco países – a Bulgária, a Finlândia, a França, a Polónia e a Suécia – opuseram-se ao plano da Comissão, devido à visão cada vez mais centralizada para planear o futuro da eletricidade, na UE, aduzindo que a transição verde da União corre o risco de se tornar mais lenta, mais cara e menos segura, se Bruxelas tentar comandar o desenvolvimento da rede, a partir do centro, pelo que propõem uma Europa de regiões coordenadas.

À criação de um cenário central para orientar o investimento, a longo prazo, os signatários opõem a ideia de que tal abordagem não compreende o funcionamento dos sistemas energéticos no terreno, que são demasiado complexos, muito específicos a nível regional, e muito sensíveis, do ponto de vista político, para serem concebidos através de um modelo único liderado por Bruxelas. Por outro lado, sustentam que as empresas nacionais responsáveis pela exploração da rede elétrica de alta tensão e as autoridades regionais têm o conhecimento operacional necessário para identificarem os verdadeiros estrangulamentos, as vulnerabilidades de segurança e as prioridades de investimento, ao passo que o controlo conduzido pela Comissão pode produzir infraestruturas que parecem eficientes, mas que são economicamente inúteis.

As empresas nacionais do transporte de energia, como a Réseau de Transport d’Électricité ou a Svenska kraftnät, devem continuar a ser as arquitetas técnicas do planeamento, enquanto a Comissão deve atuar como coordenadora e não como diretora.

A Suécia, um dos países que mais se tem manifestado contra o plano da Comissão, anunciou, recentemente, planos para suspender a construção de um novo cabo elétrico para a Dinamarca, em resposta à proposta da Comissão de utilizar as receitas das taxas de congestionamento da eletricidade para renovar a infraestrutura elétrica da UE.

A 11 de maio, a ministra sueca da Energia, Ebba Busch, disse que “a UE não deve receber o dinheiro da eletricidade dos suecos”, que o texto legislativo, em negociação, restringe mais a utilização das receitas do congestionamento pelos estados-membros do que a lei atual e que o governo sueco considera a possibilidade de avançar com novos cabos para a Finlândia.

As negociações do “Pacote das Redes” vão além das redes e dos cabos. São um teste à forma como a UE equilibra a coordenação estratégica com o controlo nacional na transição climática. Porém, os cinco países acusam a Comissão de ir além da coordenação e de se aproximar do controlo político sobre o planeamento do investimento. Demasiado controversa é a ideia de que Bruxelas pode iniciar projetos fora dos mecanismos de planeamento nacionais existentes – linha vermelha para os signatários, segundo os quais os países da UE devem manter a autoridade política sobre as escolhas energéticas, especialmente, no respeitante aos cabazes energéticos nacionais e às prioridades estratégicas em matéria de infraestruturas.

A eurodeputada Tsvetelina Penkova (S&D/Bulgária), que lidera o dossiê legislativo no PE apoia um sistema de planeamento de infraestruturas energéticas mais centralizado, embora tente preservar alguns contributos nacionais e salvaguardas de transparência.

A Presidência cipriota da UE, que vem mediando os dossiês políticos entre os 27 Estados-membros, teve em conta “muitas alterações ao texto, para refletir as suas preocupações e necessidades”. “Estamos, agora, a avançar para um compromisso equilibrado e – o que é importante – estamos perto de chegar a um acordo”, disse o porta-voz da Presidência, vincando “a importância deste dossiê”.

A presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, instou os colegisladores da UE (o Conselho e o PE) a acelerarem o acordo político sobre o pacote das redes elétricas, antes do verão. Todavia, devido a lutas políticas internas, com os países a necessitarem de financiamento para a interconexão e com os contribuintes líquidos preocupados com a redistribuição, é provável que o dossier transite para a Presidência irlandesa da UE, a iniciar a 1 de julho.

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Dois temas politicamente sensíveis do plano da UE para renovar a rede elétrica foram debatidos pelos ministros da Energia, no Luxemburgo, a 26 de junho: o novo cenário de planeamento centralizado para os futuros investimentos na rede; e o esforço alargado para acelerar os procedimentos de licenciamento de projetos de energia limpa, que demoram, normalmente, cinco a 10 anos a ser aprovados.

Apesar de a Europa liderar na produção de energia limpa, tem dificuldade em a transportar, devido a infraestruturas envelhecidas. Parques eólicos no Mar do Norte, centrais solares no Sul, produção de hidrogénio e indústrias eletrificadas exigem redes de transporte mais extensas, inteligentes e muito mais interligadas do que o atual sistema fragmentado.

A política energética da UE tem-se concentrado na expansão da produção renovável, que tem estrangulado a rede. Assim, os analistas defendem que a Europa tem investimento renovável planeado suficiente para cobrir grande parte das necessidades futuras, mas que lhe falta capacidade de transporte para levar a eletricidade aonde ela é necessária.

Após a pressão de vários países da UE, nomeadamente, os cinco referidos, a Presidência cipriota da UE – cujo mandato termina a 30 de junho – suavizou a proposta da Comissão apresentada em dezembro, abrindo caminho ao apoio dado pelas capitais europeias.

Nestes termos, o acordo redireciona parte das receitas de congestionamento não utilizadas – verbas geradas quando as linhas de transporte de eletricidade são pontos de estrangulamento – para o financiamento de novos interconectores entre países da UE. “É com satisfação que posso dizer que, hoje, o ‘Pacote das Redes’ parece estar a seguir numa direção completamente diferente”, afirmou aos jornalistas a ministra sueca da Energia, falando de “grande vitória para a Europa, porque os estados-membros continuam a ter mais poder sobre o destino das suas receitas de congestionamento” e “sobre o tipo de investimentos de grande escala feitos na rede que irão afetar os países da UE”.

Por isso, a partir de janeiro de 2028, os operadores de sistemas de transporte de energia, como a francesa RTE (Réseau de Transport d’Électricité) ou a portuguesa REN (Redes Energéticas Nacionais), terão de afetar 10% das receitas anuais de congestionamento, que não tenham sido usadas em investimentos, à rede de projetos da UE, para reduzir o congestionamento nas interligações. Tal percentagem aumentará, gradualmente, para 25%, até 2031.

O comissário europeu Dan Jørgensen disse que o “Pacote das Redes” é um dos dossiês mais importantes do mandato. “Se não conseguirmos expandir, significativamente, as nossas redes mais depressa do que estamos a fazer hoje e se não as conseguirmos utilizar, de forma mais racional e eficiente, esse será um grande estrangulamento da tão precisa transição”, afirmou.

No final, os governos asseguraram papel forte no processo, garantindo que as autoridades nacionais verificarão os dados e as premissas do cenário central, e os planeadores terão em conta as especificidades nacionais e regionais e incorporarão os planos climáticos nacionais.

A evitar uma abordagem rígida e uniforme, o procedimento será complementado com análises de sensibilidade que avaliem combinações alternativas de fornecimento de energia, perfis de procura e tendências futuras. As análises testarão a robustez das premissas de planeamento e contemplarão diferentes vias para atingir os objetivos climáticos da UE. Além disso, haverá revisões regulares do cenário central, que será elaborado, pelo menos, de dois em dois anos, sendo a recolha de dados coordenada com outros reportes, para reduzir a burocracia.

Rheanna Johnston, conselheira sénior para a transição energética, no think tank independente sobre alterações climáticas E3G, afirmou que o acordo mostra que as redes elétricas interligadas são prioridade estratégica para os países da UE, de forma a trazer benefícios concretos para os europeus. Porem, na sua ótica, “o teste mais importante será saber se o acordo final sobre o ‘Pacote das Redes’ fornece o planeamento, a coordenação e os sinais de investimento de longo prazo necessários para acelerar a expansão das redes, em toda a Europa”.

Talvez a reforma com efeitos mais imediatos, no âmbito do “Pacote das Redes”, seja a tentativa de encurtar os prazos de aprovação. Para tanto, as medidas a tomar incluem balcões digitais únicos para licenciamento, presunção de que os projetos de eletricidade e de energias renováveis são de interesse público superior, possibilidade de aprovação tácita e procedimentos simplificados para infraestruturas renováveis. “Tenho plena consciência de que grande parte do que decidimos hoje (26 de junho) não será visível na realidade já amanhã”, afirmou Jørgensen, frisando que acelerar as licenças ajudará a baixar as faturas de eletricidade e que se trata de planeamento de longo prazo, mas que, “a médio prazo, fará uma diferença muito concreta”.

A comissão da Indústria do Parlamento Europeu votará o “Pacote das Redes” a 1 de julho, antes da votação em plenário. Uma vez aprovado, começarão as negociações políticas entre os colegisladores europeus, sob a próxima Presidência irlandesa.

Elisabeth Cremona, responsável pelas infraestruturas energéticas, no think tank Ember, afirmou que a legislação vinda de Bruxelas, por si só, não resolverá os problemas da rede: “Os estados-membros já podem e devem, com urgência, começar a aplicar soluções que respondam às consequências concretas de redes mal preparadas”, vincou.

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Por fim, é de referir que as baterias são essenciais para usar, eficientemente, a eletricidade de solar e eólica. E a maioria dos países procura diversificar as fontes de energia e reduzir a dependência dos combustíveis fósseis. Porém, nessa transição, as baterias são centrais, para as renováveis, pois delas depende quanta eletricidade o sistema de armazenamento consegue reter e injetar na rede elétrica. Ora, como tal capacidade varia muito, na Europa, alguns países já colocaram em operação capacidades de baterias, enquanto outros assumiram investimentos para as ampliar, dando a conhecer as respetivas carteiras de projetos. Portugal está quase na cauda.

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Todo este projeto deve ser desenvolvido em todas as componentes que o integram.

2026.06.27 – Louro de Carvalho

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Consequências do Brexit para o Reino Unido e para a União Europeia

 

Dez anos após o Reino Unido ter votado a saída da União Europeia (UE), a discussão sobre o legado do Brexit está longe de terminada. Os eurodeputados Barry Andrews (Renew Europe) e Sander Smit (Conservadores e Reformistas Europeus) debatem sobre se o Brexit enfraqueceu ou fortaleceu ou a UE e se o Reino Unido poderá ou deverá regressar, um dia, à UE.

O eurodeputado irlandês Barry Andrews defende que a saída da UE foi um erro e um “desastre total” para o Reino Unido, apontando para anos de instabilidade política e de desafios económicos, após o referendo de 2016. E Sustenta que o Brexit reforçou o apoio ao projeto europeu, ao fazer perceber que “já ninguém procura sair da União Europeia”.

Do seu lado, o eurodeputado neerlandês Sander Smit, em perspetiva diferente, considera que a UE continua a sentir falta da “voz crucial do Reino Unido, em matéria de disciplina orçamental e financeira”, alerta para o risco de uma Europa mais centralizada e afirma que “o nosso futuro passa por uma parceria mais forte”, de modo que “que o Reino Unido e os países da UE deixem o passado para trás e trabalhem, em conjunto, como aliados naturais e soberanos”.

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A 23 de junho, em artigo intitulado “O referendo do Brexit, dez anos depois”, publicado no Expresso online, o eurodeputado português Pedro da Silva Pereira sustenta que a avaliação dos cidadãos britânicos é que “o Reino Unido ficou pior, por ter saído”. Com efeito, recentes sondagens apresentam a maioria, que oscila “entre 53 e 58%”, a reconhecer que “o Brexit foi um erro” e que o mesmo afirma a larga maioria (68%) dos jovens dos 18 aos 34 anos. Por isso, o eurodeputado aponta que “mais de 61% dos britânicos” apoiam “a estratégia do governo do Labour no sentido de uma reaproximação à União Europeia” – o “Brexit reset” –, cujo roteiro foi acordado na cimeira entre a UE e o Reino Unido, de maio de 2025.

Efetivamente, como escreve Silva Pereira, “o Brexit falhou o essencial das suas promessas”, com “as suas ilusões desmentidas pela realidade”.

Desde logo, emerge a instabilidade política. Uma democracia que se tinha por musculada conheceu sete primeiros-ministros, em 10 anos. E, como releva o articulista, “à instabilidade política juntam-se incertezas acrescidas sobre o futuro da unidade do Reino Unido, já não apenas na Escócia, mas também na Irlanda do Norte e no próprio País de Gales”.

Também ao invés do prometido, “o crescimento da economia britânica tem sido dececionante, ficando abaixo do da UE e das outras economias avançadas, expostas às mesmas crises de origem externa”, considera Silva Pereira, vincando que a demora de quatro anos para a concretização do Brexit, “agravou as incertezas” e mostrou “como o Reino Unido embarcou nesta tremenda aventura, sem a menor preparação”. Na verdade, o governo, como anota o eurodeputado “demorou nove meses só para enviar a carta de notificação da intenção de sair da UE, envolvendo-se, depois, numa arrastada negociação do Acordo de Saída”, pois os partidários do Brexit não compreendiam que o Reino Unido “não podia sair” da UE e “manter todos os benefícios, como se estivesse dentro”, e que a fronteira externa da UE, entre a República da Irlanda e a Irlanda do Norte, “não podia ser gerida como se o Brexit não tivesse acontecido”. Embora os danos tenham sido limitados pelo Acordo de Comércio e Cooperação, que regula, desde o início de 2021, as relações entre a UE e o Reino Unido, Silva Pereira sublinha que “os agentes económicos sentiram, fortemente, as consequências da perda das liberdades de circulação próprias do Mercado Único”, pelo que o governo britânico estima em cerca de 8% o impacto negativo do Brexit no PIB [produto interno bruto]”.

Ao medíocre desempenho da economia juntaram-se erros de governação, como o “choque fiscal” de Liz Truss, que se fez sentir “nas contas públicas, nas taxas de juro, no investimento e na própria qualidade dos serviços públicos, incluindo o Serviço Nacional de Saúde (NHS)”, para onde os corifeus do Brexit tinham prometido transferir 350 milhões de Libras adicionais, por semana, graças às “poupanças” que resultariam da saída da UE. Daí, como aponta o articulista, resultou “o aumento do custo de vida, com especial incidência nos preços da energia e da habitação”.

Depois, a promessa do Brexit era que, saindo da União Aduaneira e ficando à margem das negociações europeias, “o Reino Unido iria celebrar fantásticos acordos comerciais em todo o Mundo, cumprindo a visão de uma Global Britain”. Porém, como observa o articulista, “os acordos comerciais conseguidos foram dececionantes, com pouco ou nenhum valor acrescentado, face aos negociados pelo muito mais poderoso bloco europeu”.

Quanto à imigração, ao invés do sugerido pelo slogan “take back control”, a realidade dos números mostra o aumento líquido substancial da imigração, com a particularidade de os fluxos migratórios antes provenientes da UE terem sido substituídos por uma imigração oriunda de países terceiros, “tendencialmente menos qualificada e mais problemática, do ponto de vista da integração cultural”.

E, quando o Brexit previa uma atitude mais isolacionista de um Reino Unido ‘orgulhosamente só”, como diz Silva Pereira, “a sucessão de graves crises internacionais – pandemia, guerras, crises energéticas e guerra comercial – tornou evidente que a resposta aos novos desafios geopolíticos e geoeconómicos exige mais cooperação”, e “o Brexit ficou em contraciclo”.

Por isso, embora seja prematuro colocar no centro do debate político britânico o regresso à UE, na ótica do eurodeputado, “o caminho da reaproximação faz sentido e já começou a ser trilhado”, porquanto “o Reino Unido regressou ao programa europeu de investigação científica Horizonte Europa e, a partir de 2027, estará de volta ao programa Erasmus+”. E Silva Pereira anota: “A participação britânica no programa SAFE [Instrumento de Ação para a Segurança da Europa] e noutras iniciativas europeias, no domínio da defesa e segurança, estão também em desenvolvimento. A próxima cimeira UE-Reino Unido, agendada para 22 de julho (mas cujo calendário pode ser prejudicado pela crise política em Londres), dará, certamente, novos passos no sentido deste ‘Brexit reset’, com o reforço da cooperação em matéria de defesa e segurança e […] um novo esquema de vistos para a mobilidade juvenil e uma nova regulação do comércio de produtos agroalimentares, entre outros assuntos.”

Em suma, os últimos dez anos, desde o referendo, foram muito penosos, para o Reino Unido, e a UE ressentiu-se “da perda de um dos seus estados-membros mais poderosos”, mas, como defende Silva Perira, o “efeito dominó” do Brexit, “não aconteceu”: “mais nenhum estado-membro quer sair”, e “há muitos países que querem entrar”.

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Segundo um estudo publicado, em 2014, pela empresa Deloitte, 40% das multinacionais com sede na Europa escolheram Londres para montarem a sua sede ou, simplesmente, para abrirem um escritório, seguido por Paris (8%), Madrid (3%), Amesterdão e Bruxelas (2,5% cada).

Com o Brexit, a UE não apenas perdeu um membro, mas também a que era a sua segunda economia mais importante, que representava cerca de 15% do seu PIB e que contribuía para o seu orçamento com mais de 13 mil milhões de dólares, por ano. E perdeu um país com assento permanente no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) e, um estado cuja capital, Londres, é um dos maiores centros financeiros do Mundo.

No entanto, líderes continentais, como Edouard Philippe, primeiro-ministro francês, de 15 de maio de 2017 a 3 de julho de 2020, viam o Reino Unido a deixar a UE como ocasião para fortalecer a competitividade dos seus países e para atrair empresas instaladas em Londres. “A França tem uma oportunidade única, aproveitando o potencial do nosso centro financeiro, de fazer de Paris o principal centro financeiro europeu após o Brexit”, disse Philippe, em discurso na capital francesa, em 2017.

As autoridades holandesas e alemãs expressaram desejos semelhantes, em relação a Amesterdão e a Frankfurt, respetivamente.

Outra vantagem do Brexit para os países da UE, era que, pelo medo de a organização esfacelar, os seus líderes serem forçados a comunicar, mais claramente, os objetivos aos seus cidadãos e definirem melhor as suas prioridades, o que reforçaria o seu caráter democrático.

Porém, os anos subsequentes mostraram que tudo foi dificultado pela ascensão do populismo, no continente, com a crescente perda de consensos em matérias relevantes, como a imigração, o apoio à Ucrânia na guerra com a Rússia, desde 24 de abril de 2022, o alargamento da UE, a ação climática e a transição energética. Além disso, as sanções decretadas à Rússia não enfraqueceram, significativamente, àquele país a economia, nem o poderio militar, mas trouxeram à UE um grande surto inflacionista, com o inerente aumento do custo de vida, o que levou a grave crise económica na Alemanha, a mais forte economia do bloco europeu.

Por outro lado, nem a dependência energética da Rússia decresceu, como era de esperar, nem novas dependências, como as dos Estados Unidos da América (EUA) ou dos países do Médio Oriente se tornaram mais confortáveis, para o continente, até se agravaram com as guerras entre Israel e o Hamas ou o Hezbollah e entre os EUA/Israel e o Irão, bem como pela entrada dos Houthis nos conflitos regionais.

É ainda de salientar que a junção do Reino Unido à UE, no apoio à Ucrânia, perante a postura errática do presidente dos EUA, em relação ao conflito Rússia-Ucrânia e à participação na Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), disfarçando a fragilidade do bloco europeu e uma certa divisão entre os seus líderes, em alguns pontos.

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A 24 de junho, em artigo do Diário de Notícias (DN) “‘Brexit’ não representou nem colapso, nem renascimento para o Reino Unido”, a agência Lusa, considera que o Reino Unido, continua “a destacar-se” na economia do conhecimento, da tecnologia e da “energia limpa”, mas que se estima “um impacto negativo de 2% a 4% no PIB.

Por ocasião dos 10 anos do Brexit, o estudo “Ten Years After Brexit: Resilience Without Revival”, da Allianz Trade, conclui que o resultado “tem sido mais matizado do que muitos esperavam”, com indicadores a apontar para pontos fortes e para pontos fracos da economia, nem todos conexos com o Brexit.

Estudos independentes estimam que o PIB britânico teria sido 2 a 4% superior, sem a instabilidade política e sem os atritos comerciais provocados pelo Brexit. E sustentam que, desde 2016, as regiões que votaram a favor da saída apresentado, de um modo geral, “um desempenho inferior ao do Reino Unido no seu conjunto”, e 59% da população dessas áreas viu as suas regiões ficarem ainda mais atrás da média nacional do rendimento per capita. Além disso, o crescimento económico tem dependido, cada vez mais, de trabalhadores estrangeiros, o que impulsionou mais de metade da expansão do PIB.

O estudo da Allianz Trade revela que o Brexit “aumentou os atritos e reduziu os fluxos comerciais” apontando as estimativas estruturais que, embora a UE continue a ser o maior parceiro comercial do Reino Unido, o comércio de bens com o bloco europeu será cerca de 21% inferior ao que teria sido sem a saída. Paralelamente, segundo a Lusa, “os novos acordos comerciais e as cadeias de abastecimento diversificadas com os EUA, [com] a China e [com] os países da Commonwealth” não igualam “a escala dos laços económicos anteriormente mantidos no seio da UE”, por forma que “os ativos do Reino Unido continuam a ser negociados com um desconto, em relação aos seus homólogos internacionais”.

Em termos positivos, os setores da economia do conhecimento, da tecnologia e da “energia limpa” continuam a ser os grandes motores do país. Como enfatiza o estudo, as exportações britânicas de TIC [tecnologias da informação e comunicação] para a UE quase duplicaram, desde o Brexit, demonstrando a competitividade contínua da economia do conhecimento britânica”.

Assim, o Reino Unido, o segundo maior exportador mundial de serviços financeiros, com 21% das exportações globais, vem aprofundando a oferta de serviços financeiros aos mercados da UE. E, nos mercados privados, atrai “mais financiamento de capital de risco do que qualquer concorrente europeu: entre 2020 e 2026, angariou cerca de 164 mil milhões de dólares”.

Salientando que Londres “manteve grande parte da sua importância financeira global”, o estudo da Allianz Trade releva que “o Reino Unido continua a representar quase 50% da negociação global de derivados de taxas de juro no mercado de balcão e quase 38% do volume de negócios global em câmbios”. Na energia limpa, “emergiu como líder na Europa”, com a produção eólica a aumentar 130%, desde 2016, reduzindo a dependência dos combustíveis fósseis e permitindo a eliminação gradual e bem-sucedida do carvão, em 2024. Nos mercados, “as ações britânicas tiveram um desempenho inferior ao das norte-americanas e das europeias, refletindo o maior prémio de risco, devido ao contexto de crescentes desequilíbrios orçamentais”.

Enfim, como salienta o estudo, a marca do Brexit é visível nos dois maiores motores de capital privado do Reino Unido: “o capital de investimento e o capital de risco”. Ao mesmo tempo, os investimentos no Reino Unido ficaram 12 a 18% abaixo do cenário sem Brexit, a partir de 2025.

E, apesar dos “bons resultados”, em termos da criação de empresas, da flexibilidade do mercado de trabalho, do ensino superior e da investigação, “face a outras economias avançadas”, segundo a Allianz Trade, “os estrangulamentos internos – expostos pelo Brexit, mas não causados por ele – estão na origem do desempenho de crescimento dececionante do país”.

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Quanto à UE, é de referir que perdeu relevante peso económico e diplomático com o Brexit, além de uma das suas maiores economias e potências militares. A saída do Reino Unido gerou custos económicos amplos, mas serviu para consolidar a unidade (por vezes, frágil) dos restantes 27 estados-membros, reduzindo o peso dos movimentos eurocéticos, no continente.

Quanto às principais perdas e desafios para o bloco europeu, são de destacar: o peso geopolítico e militar, pois a saída o Reino Unido, membro permanente do Conselho de Segurança da ONU e uma das principais potências nucleares da Europa, retirou à UE capacidade de influência global; o potencial económico e financeiro, visto que a saída de um mercado de cerca de 67 milhões de consumidores e de uma das maiores economias mundiais causou interrupções nas cadeias de abastecimento e exigiu nova burocracia comercial; a mudança do centro de serviços financeiros, já que, sendo Londres a indiscutível capital financeira europeia, o Brexit forçou a dispersão da atividade bancária e de investimentos para cidades, como Paris, Frankfurt e Dublin; e a segurança e defesa, pois o Brexit tornou mais complexa e sujeita a novos acordos a coordenação de informações de inteligência e segurança policial entre o continente e as ilhas britânicas.

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Qualquer mudança comporta perdas e ganhos. Aqui, os ganhos foram parcos, para ambas as partes; e as perdas, maiores. A aproximação é vantajosa, mas nada será como antes: a UE terá de ser anglocética, pois o Reino Unido sempre esteve com um pé dentro e outro fora. A sua opção era a talassocracia e um estatuto especial na UE.  

2026.06.26 – Louro de Carvalho