Desde
o verão de 2025 com os protestos em apoio aos organismos anticorrupção, a
sociedade civil ucraniana não se mobilizava tanto como, agora, após a demissão
do ministro da Defesa Mykhailo Fedorov. É um protesto invulgar, em tempo de
guerra, para o defender e apoiar, atenta a popularidade do ex-governante, sobretudo,
na sociedade civil.
Os
apelos à manifestação surgiram nas redes sociais, logo após o presidente
Volodymyr Zelenskyy ter demitido Federov, na noite de 15 de julho. A
indignação transformou-se em plano para se reunirem nas principais cidades às
09h01 do dia 16, imediatamente após o minuto de silêncio diário em memória dos
combatentes e civis ucranianos mortos.
Dmytro
Koziatynskyi, veterano de guerra e um dos principais organizadores dos
protestos em massa, no verão de 2025, em apoio ao Gabinete Nacional
Anticorrupção da Ucrânia (NABU) e à Procuradoria
Especializada Anticorrupção (SAPO), discorreu, nas redes sociais, que “o
ministro da Defesa está a ser afastado”, quando “as reformas são eficazes” e
substituído por quem não garante que as reformas prossigam, numa alusão ao
ministro do Interior, Ihor Klymenko, que se preparava para substituir Fedorov,
o que não aconteceu.
Esperava-se
que Fedorov fosse substituído pelo general Ihor Klymenko, que dirigiu a Polícia
Nacional, entre 2019 e 2023, e foi nomeado ministro do Interior, após a morte
do seu antecessor, Denys Monastyrsky.
Em
consequência, o referido veterano de guerra apelou a todos que se juntassem na
Praça Franko e mostrassem ao presidente que estão “contra as constantes
remodelações no governo e contra a substituição de ministros eficazes por
oportunistas convenientes”. “Nunca vamos derrotar a Rússia, enquanto a mesma
estagnação total e corrupção governarem o nosso exército e os nossos
ministérios”, escreveu Dmytro Koziatynskyi.
O
subcomandante da Força Aérea da Ucrânia, Pavlo Yelizarov, anunciou a sua demissão,
a 16 de julho, dizendo que a exoneração de Fedorov – cujas prioridades incluíam
a reforma do setor da defesa antiaérea – “é um grande mal para a capacidade de
defesa do país” e “provocará mais vítimas e destruição na Ucrânia”, pelos
ataques russos com mísseis e com drones.
Também
Serhii Sternenko, ativista e blogger, que foi conselheiro de Fedorov
para a guerra com drones, afirmou que Fedorov “é o melhor ministro da Defesa de
toda a nossa História” e classificou a sua demissão como “a maior
desmoralização desde o início da guerra”.
À
medida que a mobilização nas redes sociais ganhava ritmo, trocavam-se ideias de
slogans para cartazes feitos em pedaços de cartão: “O povo protege o
ministro da Defesa”, “Mais trabalho feito em meio ano do que alguns fazem em
dois”, “Despediste o errado”.
Diz-se
que o presidente demitiu Fedorov na sequência de conflito com o comandante‑chefe
Oleksandr Syrskyi. Por isso, a maioria dos que publicavam os seus trabalhos apelava
a que Zelenskyy revertesse a decisão, mantendo Fedorov no cargo.
O
atrito entre Fedorov e Syrskyi (acusado de dividir o país e de travar reformas)
surgiu com a proposta do ex-ministro de reforma do setor militar, em especial, no
atinente ao funcionamento do Ministério da Defesa. O diferendo é tido como um
choque geracional entre o gestor jovem e inovador, com experiência em startups,
e o general mais tradicional. Por isso, muitos cidadãos direcionaram a revolta contra
Syrskyi, que mantém o cargo, acusando o presidente de sacrificar um ministro da
Defesa popular, num momento tão crítico da guerra.
Ao
confirmar, de imediato, a sua demissão, Fedorov publicou um balanço do que
considera serem as principais conquistas e falhas da sua equipa, nos seis meses
no cargo. Falando de falhas, disse não ter concluído a transformação
organizacional do Ministério da Defesa em linha com a Organização do Tratado do
Atlântico Norte (NATO) e com o bom senso. “A nova estrutura foi criada, muitas
pessoas foram dispensadas” disse, frisando que foram ativados muitos processos,
mas que “era preciso ser ainda mais decidido a afastar quem travava as mudanças”.
Entre
os êxitos, destacou a suspensão do uso dos sistemas Starlink – rede de Internet
por satélite criada pela SpaceX, que usa satélites que orbitam perto da Terra
para dar Internet rápida e estável onde não chega a fibra ótica – pelas
forças russas, a campanha contra a logística russa na Crimeia ocupada e a
iniciativa de reforma militar impopular, mas muito importante.
Agradeceu
a cada um dos que defendem a Ucrânia e trabalham pela vitória e a toda a sua equipa,
“pelo serviço eficaz, 24 horas por dia, sete dias por semana”, assim como
prometeu “continuar a trabalhar na missão” com que chegou ao Ministério da
Defesa, “derrotar o inimigo, através da assimetria, da velocidade da inovação e
da força da nossa organização”.
***
A
12 de julho, Zelenskyy anunciou a remodelação, alegando que o governo precisava
de um “reinício” e que a remodelação permitirá recalibrar a estratégia da
Ucrânia em guerra, com foco na resiliência energética e na adesão do país à União
Europeia (UE).
Circulavam,
há semanas, rumores da demissão da primeira-ministra, Yulia Svyrydenko, mas esperava-se
que a remodelação acontecesse no final de agosto ou no início do outono. Todavia,
foi afastada do cargo, cinco dias antes do primeiro aniversário do governo.
Desde
que foi divulgada a remodelação do governo, a permanência de Fedorov à frente
do Ministério da Defesa foi o tema que mais concitou especulações e críticas a
Zelenskyy por ponderar a sua demissão. Já a saída de Svyrydenko e a célere
nomeação do novo primeiro-ministro, Sergii Koretskyi pouco impacto tiveram na
opinião pública. A nomeação de Koretskyi é vista como escolha natural, dada a
sua experiência na Naftogaz, durante a campanha da Rússia para paralisar o
sistema energético da Ucrânia.
Com
as eleições nacionais suspensas ao abrigo da lei marcial, em situação de guerra,
a remodelação é o único instrumento de renovação política disponível. Em
consonância com o objetivo de Kiev de acelerar a sua integração europeia,
Vsevolod Chentsov, chefe da missão da Ucrânia junto da UE, desde 2021, assumiu
o cargo de vice-primeiro-ministro para a integração na UE. E Taras Kachka, que
ocupava este cargo, deverá suceder a Chentsov em Bruxelas, permitindo a Kiev
manter os funcionários mais experientes nas pastas-chave para a adesão à UE, ao
mesmo tempo que troca os seus cargos.
O
ministro dos Negócios Estrangeiros – cargo que o presidente propõe
separadamente – ainda não foi aprovado, mas afirma-se que Andrii Sybiha deverá
manter o cargo. E o deputado Yaroslav Zheleznyak afirmou, no Telegram,
que os novos responsáveis pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros e pelo
Ministério da Defesa serão nomeados pelo Parlamento, a 18 de agosto.
A
15 de julho, o parlamento aceitou a demissão da primeira-ministra, Yulia
Svyrydenko, abrindo portas à remodelação. E Zelenskyy afirmou ter-lhe oferecido
nova função centrada na cooperação com um dos “parceiros-chave” da Ucrânia,
alimentando a especulação de que poderá ser nomeada embaixadora de Kiev em
Washington.
Svyrydenko
é bem conhecida nos meios políticos norte-americanos, pois liderou as
negociações do acordo sobre minerais entre os Estados Unidos da América (EUA) e
a Ucrânia, concluído em 2025, o que ajudou a alcandorá-la ao cargo de
primeira-ministra.
Por
seu turno, Koretskyi, o sucessor, assume funções numa altura em que a Ucrânia
enfrenta ataques russos contínuos contra a sua infraestrutura energética e Kiev
afirma que preparar o sistema para o inverno é a prioridade máxima, visto que
Moscovo prossegue a campanha para degradar a rede elétrica do país, mergulhando
cidades na escuridão, em frio intenso. Ora, o primeiro-ministro está envolvido
neste esforço, desde que se tornou diretor-executivo da Naftogaz, em maio de
2025, após ter sido nomeado pelo conselho de supervisão da empresa, tendo centrado
o seu mandato na estabilidade energética, apesar dos ataques repetidos contra
as unidades de produção. Isto, após ter chefiado as empresas públicas Ukrnafta
e Ukrtatnafta, entre novembro de 2022 e maio de 2025.
A
16 de julho, enquanto milhares de cidadãos protestavam contra a demissão do titular
da Defesa, o parlamento aprovou Serhii Koretskyi como primeiro-ministro, no
âmbito da remodelação do governo promovida por Volodymyr Zelenskyy, medida
menos contestada do que as mudanças na Defesa. Koretskyi prometeu concentrar-se
na defesa, na estabilidade económica e na integração na UE. Entretanto, no
exterior, os manifestantes bradavam que a batalha sobre quem controla as forças
armadas, e de que forma, só estava a começar.
Ainda
nesse dia, Zelenskyy nomeou o chefe do SBU, Yevhenii Khmara, como
ministro da Defesa interino, e afirmou que iria solicitar a aprovação do
Parlamento para a nomeação de Khmara como ministro. Com efeito, reuniu-se com
Khmara e discutiram uma visão estratégica sobre a forma como a Ucrânia deve
continuar a agir, de forma proativa, para defender a independência e obrigar a
Rússia à via diplomática. Segundo Zelenskyy, Khmara adquiriu vasta
experiência na condução de operações de ataque de alta tecnologia: “É,
precisamente, nisso que os nossos esforços de defesa nesta guerra devem
centrar-se”, enfatizou.
A
notícia surgiu no meio de manifestações contra a decisão de Zelenskyy de
demitir Fedorov do cargo de ministro da Defesa. E o presidente, em conferência
de imprensa realizada, no mesmo dia, considerou que era correto que os
ucranianos pudessem realizar protestos pacíficos e expressar as suas opiniões,
mesmo durante a guerra.
***
Os
protestos levam Zelenskyy a rever a estratégia de guerra, sob pressão da
sociedade civil e das forças armadas, enquanto a presidência pede calma. Enfim,
o que começou como indignação espontânea transformou-se numa onda de
contestação pública à gestão das forças armadas por Zelenskyy, com
manifestantes a exigirem mudanças radicais no comando de topo. E Zelenskyy trava
um confronto amargo entre o ex-ministro da Defesa, um reformista ligado às
tecnologias e com amplo apoio nas forças armadas e na sociedade civil, e o
chefe do exército, que está no centro do esforço de guerra da Ucrânia.
Se
as mudanças no governo se enquadram no padrão de Zelenskyy a procurar tecnocratas
para reforçar a economia, em tempo de guerra, a turbulência no Ministério da
Defesa abriu uma frente mais volátil. Os protestos prolongam-se, sem sinais de
abrandarem, e exigem uma reforma mais profunda do comando militar e contestam a
saída do ministro da Defesa.
A
17 de julho, reagindo à conferência de imprensa de Fedorov, o conselheiro
presidencial Dmytro Lytvyn elogiou a prestação do ex-ministro e disse que, se
os responsáveis governamentais comunicassem com esta abertura e clareza, com
mais frequência, tudo seria muito mais fácil para todos. Contudo, não explicou o
afastamento de Fedorov, remetendo para “muitos assuntos sensíveis”. “Quando
todas as mudanças estiverem implementadas, explicaremos em mais detalhe”, prometeu
aos jornalistas.
Desde
que começaram a circular rumores sobre a remodelação, um grupo de WhatsApp
com o gabinete do presidente ficou em permanente atividade, mas dezenas de
perguntas dos meios de comunicação ficaram sem resposta, enquanto as mudanças
eram aprovadas.
Ao
falar com jornalistas no chat presidencial de WhatsApp, no dia 17,
Lytvyn procurou justificar a escolha de Khmara e a forma caótica como tudo foi
lançado. “O que está a determinar tudo, neste momento, são os ataques de longo
e médio alcance, disse, acentuando que “Khmara é realmente brilhante nisso”.
A
escolha, à última hora, do ministro da Defesa interino, vindo dos serviços de
segurança, reforçou a perceção de que Zelenskyy estará a proteger-se do
escrutínio a si e à sua equipa, em vez de enfrentar as frustrações sobre a
estratégia, a mobilização e as condições na linha da frente. Efetivamente, ao
tentar reforçar o controlo sobre a estrutura da Defesa, Zelenskyy acabou por se
encurralar numa crise política. Provavelmente, não antecipou a dimensão da
reação à saída de Fedorov e vê agora as suas opções reduzidas. Repor Fedorov no
cargo seria um recuo pessoal, mas arrisca aprofundar a cisão com Syrskyi, o
chefe máximo do exército. Por outro lado, avançar com um ministro interino,
enquanto os protestos crescem, pode consolidar a narrativa de presidente surdo
e cego à opinião pública, em tempo de guerra. Na verdade, as reivindicações dos
manifestantes já vão além do destino de um ministro popular e incluem apelos à “reorganização
total” do comando militar de topo.
Para
muitos, as presentes cenas de protesto junto à presidência evocam memórias dos
protestos do verão de 2025. Em julho desse ano, a tentativa de Zelenskyy de pôr
o NABU e a SAPO sob controlo mais apertado desencadeou os maiores protestos de
rua, desde a invasão russa, com ativistas, organizações de combate à corrupção
e cidadãos comuns a mobilizarem-se contra uma lei que iria prejudicar a
independência dessas entidades. Na altura, a UE emitiu dura reprimenda,
alertando para “um sério retrocesso” na rota de adesão da Ucrânia, enquanto o NABU
e o SAPO soavam, publicamente, o alarme.
Sob
pressão da sociedade civil e dos parceiros europeus, Zelenskyy inverteu a
marcha, apresentando nova legislação para restaurar as “garantias plenas de
independência das agências anticorrupção”, que o parlamento aprovou,
devolvendo-lhes autonomia.
Com
base na experiência difícil conquistada no Maidan (manifestações e agitação
civil na Ucrânia, de novembro de 2013 a fevereiro de 2014) e em décadas de
mobilização de protesto, a experiente sociedade civil ucraniana sabe que a
pressão contínua e organizada, sobretudo, se apoiada por aliados
internacionais, pode obrigar o presidente a repensar as decisões controversas.
E, no presente, há poucos incentivos para que se dispersem, antes de verem
respondidas as suas exigências sobre a liderança militar e política.
No
dia 15, Zelenskyy reuniu-se com Fedorov e com o comandante-chefe, para discutirem
os desafios que enfrentam as forças armadas. A questão do recrutamento terá
sido argumento de peso na decisão do presidente, que recusou dizer se demitiria
Fedorov, vincando que quer as forças armadas ucranianas unidas e em sintonia. “A
prioridade é o diálogo entre o Exército e o Ministério da Defesa, resolver os
problemas do recrutamento e fechar o céu”, afirmou.
Entre
2019 e janeiro de 2026, Fedorov foi vice-primeiro-ministro e ministro da
Transformação Digital, elogiado pela implementação da estratégia ucraniana de
“Estado no telemóvel”, integrada no esforço de redução da burocracia. Tem tido papel
decisivo no desenvolvimento e produção de drones, bem como em reformas na
educação e no projeto que liga o Ministério da Transformação Digital ao
Ministério da Defesa, a impulsionar a tecnologia militar. E, há pouco, lançou a
campanha ucraniana de “transformar a Crimeia numa ilha”, operação
considerada muito eficaz, dirigida contra a logística russa e contra
instalações militares na Crimeia, anexada por Moscovo, e em regiões
temporariamente ocupadas no sul da Ucrânia.
***
Já
não bastava a guerra à Ucrânia, para ter de arrostar com divisões internas a nível
cimeiro, uma fragilidade que o invasor pode muito bem explorar. Entendam-se, já
que os protestos não são contra a guerra, mas contra a ineficácia. Ouçam o
povo!
2026.07.20
– Louro de Carvalho