O
ministro da Administração Interna (MAI) – denunciado pela comunicação social
como tendo cometido irregularidades, enquanto foi diretor nacional da Polícia
Judiciária (PJ), pelo que está sob inquérito por ordem do Ministério da Justiça
(MJ), vai a julgamento no Tribunal de Contas (TdC) e está sob averiguação
preventiva na Procuradoria Europeia – já prestou, a tempo e a destempo, várias
declarações públicas que se sintetizam, basicamente, em ter cometido erros, mas
não crimes, nem ilegalidades (no que pode ter razão ou não), talvez
irregularidades e informalidades. Depois, garante que esteve sempre do lado do
bem, que fez boa gestão e que nunca prejudicou o Estado, antes o favoreceu.
Nas
declarações que fez a 1 de setembro, afirmou-se vítima de campanha populista,
acusando, em especial, o presidente do partido do Chega que, alegadamente,
pretende criar o caos para dominar a agenda política e condicionar a
governação. E porfia que vai continuar a governar contra todas as formas de
populismo.
Ora
bem, do meu ponto de vista, o único argumento válido que permite dizer que irá
continuar a governar é a confiança que, reiteradamente, vem recebendo do
primeiro-ministro (PM), o qual, segundo parece, não terá acolhido alertas, em
privado, do Presidente da República (PR), que não tem o desplante do antecessor
de criticar, na praça pública, os governantes, respeita, em público, as opções
do chefe do governo, mas vai puxando pelos deveres das instituições.
André
Ventura, que prometeu, a 28 de agosto (e
reafirmou no dia 31) a apresentação de proposta da criação de uma
comissão parlamentar de inquérito (CPI) sobre o que se passou na PJ, durante a
liderança do atual MAI, mudou de agulha, prometendo a apresentação de moção de
censura contra o governo, pelo facto de o PM não forçar a demissão de Luís
Neves (que, na ótica do Chega, atingiu um nível “grotesco” e “inaceitável”),
antes, reafirmando-lhe a confiança política e elogiando o seu trabalho
ministerial, designadamente, em matéria de incêndios estivais e na solução das
esperas nos aeroportos. É deu um prazo: a moção de censura, que pode fazer cair
o governo, seria apresentada, caso o governante em causa não se demita até 1 de
setembro, o que, pelos vistos, não aconteceu e está longe de acontecer.
Fica
por explicar o motivo por que o líder do Chega passou da CPI para a moção de censura,
que é uma posição política mais drástica. Terá entendido que apenas significaria
perda de tempo, pois o próprio MAI se afirmou confortável com esse mecanismo parlamentar?
Terá querido experimentar a “coragem” ou a modorra do Partido Socialista (PS) na
relação com caso Luís Neves? Uma vez que os dois partidos que apoiam o governo
votarão contra a moção, para que ela tenha êxito, o Chega precisa do voto
favorável do PS. Dificilmente, o PS passará da abstenção para o voto a favor,
para não dizer que votará contra. Com efeito, se o governo cair, o PS perderá
no eleitorado, porque será tido como responsável por novas eleições; o governo
pode ficar fragilizado ou robustecido, a juízo do eleitorado; e o Chega crescerá
na sua ânsia de governar ou de condicionar a governação.
***
Luís
Neves, respondendo ao repto do Chega, tinha prometido esclarecimentos sobre as polémicas
que o envolvem e cumpriu. A 1 de setembro, a partir do Funchal e em reação à
possível moção de censura que o Chega ameaçou apresentar contra o governo, o governante
falou aos jornalistas, para garantir que não deixará o cargo no executivo.
“Nada me vai afastar daquilo que me levou a aceitar este cargo”, afirmou, dizendo-se
alvo de uma campanha de intimidação.
E
prosseguiu: “Escolheram a única estratégia que conhecem: lançar suspeitas,
atacar a honra e tentar intimidar. A mim não me intimidam, jamais me
intimidarão. Nada disto me intimida ou condiciona, não me vai impedir de
governar.”
Na
declaração perante os jornalistas, reconheceu já ter errado, mas garante que
nada pode colocar em causa o trabalho realizado e as ações tomadas. “Cometi um
ou outro erro que já reconheci, mas que não põe em causa a minha ação. […] Há
uma distância, que não permitirei que seja apagada, entre os erros que assumi e
os crimes que não cometi”, confessou, mas enfatizando: “Nunca tomei uma decisão
que pudesse prejudicar o Estado, nunca, jamais, em tempo algum.”
No
início do discurso, lembrou o trabalho desenvolvido enquanto diretor nacional
da PJ, frisando que investigou, “sempre com provas”, porque, “sem provas,
não há acusação, há difamação”.
André
Ventura indicou, a 31 de agosto, que iria reunir com a direção nacional e com a
bancada parlamentar do Chega, para decidir sobre a apresentação de uma moção de
censura, caso Luís Montenegro não resolvesse a situação de Luís Neves.
Por
isso, o líder do Chega não ficou de fora das palavras do ministro atingido
pelas críticas. “Não aceito que André Ventura transforme aquilo que assumi,
naquilo que nunca fiz”, afirmou o governante, reforçando: “Quem vive apenas da
espuma do caos, ignora a essência da governação. […] O que importa são as
pessoas. É alarmante ver como alguns acabam contaminados pela agenda do caos.
Quem vive apenas a espuma do caos ignora a essência da governação. Há quem
precise do caos para crescer. A criação do caos dá jeito.”
Depois,
afirmou-se determinado para continuar no cargo e para “derrotar o populismo”. “O
populismo não quer instituições fortes, não quer uma política de segurança,
quer uma política de receio e medo. Quem transforma segurança em espetáculo,
não protege o país, está a explorar os seus receios”, afirmou Luís Neves,
lamentando que André Ventura o tenha comparado a um “gangster”. E reforçou,
ironicamente: “Só falta dizer que ando a vender droga na rua […] Podem
continuar a gritar, eu vou continuar a governar. Podem continuar a
insultar. Há quem precise do caos para crescer, nós trabalhamos para fortalecer
Portugal.”
Luís
Neves garantiu que “nada o envergonha” e diz estar totalmente disponível para
responder às perguntas de André Ventura na Assembleia da República (AR). “No
próximo dia 8, terei a audição regimental no Parlamento. Quero dizer ao doutor
André Ventura que estou totalmente disponível para lhe responder a qualquer
questão que ali seja colocada.”
Em
reação ao discurso, André Ventura considerou a intervenção do ministro “inqualificável”.
Numa publicação na rede social X, o presidente do Chega qualificou como “impressionante,
inenarrável e inqualificável” o discurso de Luís Neves e questionou “o que
saberá” o ministro sobre Luís Montenegro.
Todavia,
o partido de Ventura ainda não decidiu a atitude a tomar, que ficou adiada par
ao dia 2, porque pretende avistar-se, previamente, com o Presidente da
República.
Também
a presidente da Iniciativa Liberal (IL) defende que Luís Neves não tem
condições para continuar como ministro da Administração Interna, considerando “absolutamente
irresponsável” a sua continuidade no governo. “É absolutamente irresponsável
deixar que Luís Neves continue no governo. Se o primeiro-ministro não tem
coragem para o demitir, por razões que só ele saberá, Luís Neves deve colocar a
nação à frente da sua lamentável circunstância pessoal e demitir-se”, escreve
Mariana Leitão, na rede social X.
Mariana
Leitão diz mesmo que a continuidade de Luís Neves no governo “não combate o
populismo, pelo contrário, alimenta-o”. “Provoca uma crise grave nas
instituições, destrói a imagem da PJ, arrasta o governo e impede-o de se
concentrar em governar”, afirma.
Esta
é a reação de Mariana Leitão às declarações do ministro da Administração
Interna, que disse estar a ser alvo de mentiras e que “vai continuar a
governar”.
A
IL junta-se, assim, ao Chega, que classificou o discurso de Luís Neves como
“impressionante, inenarrável e inqualificável”.
***
A
mais recente polémica a envolver o atual MAI é o facto de conduzir, em
regime de comodato, um Volkswagen Golf GTD, viatura que pertence ao traficante
de droga Rúben Oliveira, conhecido como “Xuxas”, que foi detido pela PJ, em
2022, e é considerado um dos maiores traficantes de droga em Portugal.
Nas
declarações de 1 de setembro, Luís Neves sustenta que a legislação, que “reporta
a 2007”, permite a utilização do veículo e que, enquanto diretor da PJ, deve
ter feito a “afetação, ao serviço do Estado, de mais de 800 viaturas e outros
bens”. “Parece que alguém, agora, está do lado de quem cometeu crimes. Porventura
que fiquem com o património que utilizaram no crime, porventura que fiquem com
o património branqueado do crime organizado”, discorreu.
O
caso foi denunciado por investigação da TVI/CNN/Nascer do Sol.
O Decreto-Lei n.º 11/2007, de 19 de janeiro, estabelece regras específicas para
a utilização de bens apreendidos por órgãos de polícia criminal, prevendo a sua
utilização provisória para fins operacionais. No entanto, o carro desportivo (como,
aliás, outros bens apreendidos, como um televisor ou uma máquina de ginásio e
outros objetos apreendidos) que efeito operacional tem na PJ ou no MAI?
***
O
ministro, que é a segunda vez no espaço de um mês que responde, publicamente,
às polémicas de que tem sido alvo, salientou que tem “motivação adicional” para
continuar na pasta. Disse que quer contribuir para derrotar, politicamente, o “populismo”
e a ideia de que “vale tudo”, a normalização da mentira e a acusação sem
provas, e impedir que “o pior que esta democracia produziu” destrua o que
várias gerações construíram.
Todavia,
o MAI – que tem razão, ao denunciar que o populismo “não quer respostas”, mas “suspeitas
permanentes”, e que “precisa de repetir, até à exaustão, uma mentira, até que
as pessoas deixem de perguntar se é verdadeiro, precisa de convencer os portugueses
de que todos os políticos são corruptos, precisa de que ninguém confie em
ninguém” – não pode acusar os órgãos de comunicação social de mentirem ou de terem
orquestrado uma campanha de mentiras. Quando muito, pode acusar o Chega ou a IL
de exagero ou de aproveitamento político-partidário.
Na
verdade, os órgãos de comunicação social cumprem a sua função escrutinadora
numa democracia destemida e adulta; e não constituem nenhuma forma de censura
moderna. E há factos denunciados pelos media e pelas redes sociais em
que não há mentira. Não se pode é dizer, com certeza, que constituam
ilegalidade ou crime ou que tenha havido dolo. Só os tribunais o poderão afirmar
ou negar, mediante processo adequado.
É
óbvio que Luís Neves não é nenhum gangster, nem criou um “Estado dentro do
Estado”. Porém, as suas justificações são quase sempre evasivas.
Por
exemplo, disse não ter prestado declarações de rendimentos e de património,
porque não fora notificado, como se isso fosse necessário. O gestor público
sabe os seus deveres!
Quanto
a notícias de que televisores, equipamentos de ginásio, cadeiras e sofás
apreendidos numa operação tenham sido reclamados pela PJ para uso operacional (que
uso?), ou da utilização pessoal de um carro apreendido a um traficante de droga,
fugiu ao essencial da questão, ao alegar: “Nunca tomei uma decisão que pudesse
prejudicar o Estado. Apliquei a lei, uma legislação que se reporta a 2007. Os
bens do crime, sempre que a lei permite, devem ser colocados ao serviço de quem
combata o crime. Não é ao fim de sete ou oito anos que iremos aproveitar o
património de quem cometeu crimes que está afeto ao Estado. Farei sempre isso.
Há quem veja nisso um escândalo, por ignorância ou por má fé.”
Lembrou
que, enquanto diretor nacional da PJ, declarou, operacionalmente, feita a
afetação ao serviço do Estado de mais de 800 viaturas e de outros bens,
vincando que teve “a coragem de atacar o status quo”. Salientou que
algumas das investigações jornalísticas em que tem sido visado se baseiam em invejas
e falsidades de pessoas que foram afastadas por si, quando era diretor nacional
da PJ. E lançou um repto aos inimigos: “Dizem que estou desaparecido em
combate. Nunca estive tão presente onde verdadeiramente interessa: no combate
por mais polícias na rua, ao crime organizado, ao tráfico de droga, na
prevenção e [na] resposta aos incêndios.”
Há
um mês, numa conferência de imprensa, o MAI tinha admitido alguns erros, mas
garantiu que nunca cometera ilegalidades. Admitiu que, “se fosse hoje”, não
voltaria a contratar o empreiteiro João Carvalho para as obras da sua
propriedade, apesar de não ver nisso “conflito de interesses”. Falou também do
atrelado apreendido numa operação antidroga e que foi encontrado num armazém da
empresa de João Carvalho, em Barcelos, frisando: “Não foi desviado qualquer
bem, não foi comprometida qualquer prova, não foi beneficiado quem quer que
fosse e não há, aqui, qualquer ligação ao tráfico de droga.”
Disse
que, na altura, concordou “com uma proposta de armazenamento” que lhe foi feita
por um alto quadro da PJ que cuja “competência e integridade” mereciam, então,
merecem, agora a sua total confiança. E assumiu: “É uma decisão minha e não
dele. Voltaria hoje a tomá-la. Foi um ato de boa gestão.”
O
MAI revelou que o atrelado estava em instalações da Marinha, porque não havia
espaço nos armazéns da PJ, mas que a Marinha pediu a sua remoção urgente. O
orçamento que havia para a destruição do material ascendia a quase 150 mil
euros e a PJ não tinha cabimentação. Porém, soube-se, mais tarde, que havia
quem se disponibilizasse por guardar o atrelado e os materiais por bem menos
dinheiro e que as despesas não seriam da PJ, mas do MJ.
Por
causa desta decisão, foi instaurado um inquérito-crime pelo Ministério Público
(MP) em estão a ser investigados os crimes de abuso de poder e descaminho.
Contudo, o ministro não viu “razões para ser constituído arguido”, apesar de
admitir tal hipótese. Não disse se se demitiria se o MP o constituísse arguido,
antes, garantiu: “Nunca pedi a demissão ao primeiro-ministro.”
***
Depois
de o governante ter reiterado a sua inocência e verberado o Chega, a presidente
da IL, insiste que não há condições para Luís Neves se manter no cargo. Nisso,
em vez de se juntar aos partidos do governo, junta-se ao partido de Ventura.
Aliás, em agosto, a IL apresentou um requerimento, na AR, a pedir audição “urgente”
de Luís Neves, tendo em conta que ficaram várias questões por responder sobre
as polémicas que envolvem o ex-diretor da PJ, tal como solicitou que sejam
ouvidos também, na AR, o dono da Construbarcelos e o atual diretor da PJ, que
também é apontado como tendo, alegadamente, mentido em tribunal.
***
Provavelmente,
a novela continuará, porque a explicação do MAI não é satisfatória, parecendo
sofrer de anarquia mental, e a ambição do partido de Ventura é ilimitada. De certo
modo, espelha o que muitos insatisfeitos querem ouvir. Por outro lado, a
postura do PS, no caso, é mal definida e até nebulosa. E é possível que o
ex-diretor da PJ tenha criado anticorpos na corporação. Nem sempre pessoa vinda
de dentro chefia melhor do que magistrados, como dantes. Conhece a instituição,
mas dificilmente constrói o necessário distanciamento.
Por
fim, enquanto se discutem estas questões, passam ao lado os grandes problemas do
país.
2026.09.01
– Louro de Carvalho