quinta-feira, 23 de julho de 2026

Portugal é destino “de confiança” para cabos submarinos

 

A 21 de julho, sob o título “Nuvem já está amarrado em Sines, reforçando Portugal como destino ‘de confiança’ para cabos submarinos”, o ECO online publicou um texto do jornalista Tiago Alexandre Pereira, revelando que o cabo submarino “Nuvem”, de cerca de sete mil quilómetros, da Google, já está amarrado em Sines, reforçando o papel de Portugal nas ligações digitais entre a Europa e os Estados Unidos da América (EUA), e que a nova infraestrutura transatlântica, a entrar em funcionamento, em 2027, “liga Myrtle Beach, na Carolina do Sul, a Sines, na costa alentejana, com passagem pela ilha açoriana de São Miguel e pelas Bermudas”.

Segundo a gigante tecnológica de Mountain View, o “Nuvem” será o primeiro sistema de cabos submarinos a ligar, diretamente, os EUA aos Açores e a Portugal continental, bem como o primeiro sistema transatlântico a ter um ponto de aterragem nas Bermudas.

Como explica o jornalista, o “Nuvem” consiste num novo sistema de cabos submarinos transatlânticos, concebido para reforçar a resiliência das ligações de rede, no Atlântico, a fim de responder ao aumento da procura por serviços digitais e de diversificar as rotas internacionais de conectividade. E, para a Google, o projeto contribuirá para o desenvolvimento da infraestrutura de tecnologias de informação e comunicação (TIC), nos países abrangidos.

Também a 23 de julho, surge na Euronews, sob o título “Sete mil quilómetros de cabos submarinos vão ligar Portugal aos EUA: o que é o sistema ‘Nuvem’?”, em que a jornalista Ema Gil Pires, refere que, “anunciada, pela primeira vez, pela Google, em 2023, a nova ligação transatlântica de cabos submarinos conectará Portugal, as Bermudas e os Estados Unidos [da América]”, prometendo a explicação do projeto, dos objetivos e dos principais intervenientes.

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Decorreu, na manhã do dia 21, a cerimónia oficial de lançamento do sistema de cabos submarinos transatlânticos “Nuvem”, da Google, no Oceanário de Lisboa. No seu discurso, no evento, o ministro Adjunto e da Reforma do Estado, Gonçalo Saraiva Matias, afirmou que está em causa um novo investimento que visa ligar “a América do Norte e a Europa, ao longo de um novo corredor digital que atravessa o Atlântico”.

No dizer do governante, quando “cerca de 95% de todos os dados do Mundo transita por cabos submarinos”, Portugal “chega-se à frente para ser um dos principais atores de um projeto que será o primeiro a conectar, diretamente, o país aos EUA”.

O ministro Adjunto e da Reforma do Estado defendeu que Portugal reúne condições para continuar a atrair investimento tecnológico, destacando que o Estado está a tornar-se “mais rápido, mais simples e mais previsível”, para que os investidores “não encontrem obstáculos, mas parceiros”. E considerou que esse esforço explica a sucessão de investimentos em infraestruturas digitais no país.

Gonçalo Matias sublinhou que o “Nuvem” reforça a posição estratégica de Portugal, nas ligações internacionais de dados, e que o cabo “adiciona resiliência” à rede global ao criar rotas alternativas que reduzem a dependência de um número limitado de corredores, garantindo que, quando uma ligação é interrompida, outras asseguram a continuidade do serviço.

O governante frisou que tal redundância fortalece a segurança e a fiabilidade das comunicações, sustentando serviços essenciais, como hospitais, bancos, administrações públicas e cidadãos. E, em seu entender, o projeto mostra que “as soluções tecnológicas mais avançadas também podem ser as mais seguras”.

Por sua vez, John Arrigo, embaixador dos EUA em Lisboa, defendeu que este investimento confirma a crescente aposta norte-americana em Portugal, onde são esperados, até 2031, mais de 40 mil milhões de dólares de investimento tecnológico norte-americano, valor que, na sua ótica, fará do país “a maior concentração de investimento em infraestrutura de inteligência artificial (IA) americana em toda a Europa”. E, segundo o diplomata, a sucessão de investimentos de empresas norte-americanas mostra que Portugal se consolidou como parceiro estratégico.

O embaixador sublinhou ainda a importância geopolítica dos cabos submarinos, defendendo que Portugal deve continuar a afirmar-se como destino para infraestruturas seguras: “Cada novo cabo de confiança que chega à costa portuguesa é um cabo que deixa de chegar a outro local menos fiável. Devemos garantir que esta infraestrutura crítica seja tratada como tal”, afirmou John Arrigo, vincando que a política dos EUA procura impedir que fornecedores considerados não confiáveis integrem qualquer etapa da cadeia de abastecimento, uma preocupação que é importante para Washington e também o deve ser para Lisboa.

Na sua intervenção, o embaixador apelou à Europa para aprofundar a cooperação com os EUA no desenvolvimento das infraestruturas digitais. “Este é, exatamente, o modelo de que a Europa precisa, agora”, afirmou, incentivando Portugal a levar a mensagem a Bruxelas. Na sua perspetiva, “a escolha da Europa não é entre soberania e parceria”, mas entre “construir o futuro digital com aliados de confiança ou tentar construí-lo sozinho e ficar para trás”. E acrescentou que Portugal, “situado no lado Oeste do Atlântico e no centro do mapa dos cabos transatlânticos”, mostra que “a abertura e a força não são opostas”.

John Arrigo enquadrou o investimento como uma questão de segurança nacional (deveria sê-lo para as duas partes, e não só para os EUA), lembrando que os cabos submarinos transportam mais de 95% do tráfego mundial de dados. Além de suportarem comunicações e transações financeiras, são, como enfatizou o diplomata, fundamentais para a partilha de informação entre os aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), contribuindo para reforçar a segurança coletiva.

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Após o “Equiano”, lançado em 2022 (que aproximou a Europa e a África) e o “Nuvem”, que foi amarrado, agora, em parceria com a MEO, a Google tem prevista, para 2027, a amarração do cabo submarino Sol que, embora não passe pelo território continental, ligará a Florida, nos EUA, as Bermudas, os Açores e a Espanha, funcionando de forma complementar ao “Nuvem”. Em conjunto, estes sistemas deverão interligar-se em pontos estratégicos, reforçando a capacidade e a fiabilidade da rede da Google, designadamente, para suportar serviços de cloud e de inteligência artificial (IA).

O “Nuvem” foi, inicialmente, anunciado em 2023, durante a governação socialista de António Costa, tendo sido destacado pelo então ministro das Infraestruturas, João Galamba, “como um investimento estratégico para posicionar Portugal como porta de entrada de conectividade para a Europa e para a ligação entre continentes”, vincando a importância da articulação entre o governo português, as entidades nacionais e a Google.

O cabo submarino tem a extensão de cerca de 6900 quilómetros. Em termos de capacidade, cada par de fibras óticas terá um débito total projetado de, aproximadamente, 24 terabits, por segundo (Tbps). No total, o sistema será composto por 16 pares de cabos, o que permitirá atingir uma capacidade agregada de 384 Tbps.

O projeto “Nuvem” prevê ainda a instalação de um data center nos Açores, reforçando o papel do arquipélago como hub estratégico nas comunicações transatlânticas. E a Google prevê que o projeto tenha um impacto de 500 milhões de euros na economia portuguesa e espera posicionar a região no centro das ligações entre a Europa e os EUA, no contexto da crescente procura por capacidade de processamento e de armazenamento de dados.

Em declarações à margem do evento, o presidente do Governo Regional dos Açores, José Manuel Bolieiro, defendeu que a amarração dos cabos submarinos da Google representa “uma importância disruptiva” para o papel do arquipélago, na economia do futuro, e que estas infraestruturas poderão ter papel relevante, enquanto smart cables, que permitem acompanhar indicadores climáticos, ambientais e energéticos.

Os Açores deixam de ser só “uma ponte” no Atlântico, para assumirem também o papel de “sala de controlo” das novas economias, graças à conjugação da sua posição geográfica com as novas tecnologias. E o governante açoriano considerou que esta estratégia reforça o posicionamento do país na ligação entre a Europa, a África e todo o continente Americano.

O líder do Governo Regional alertou para a necessidade de renovar os cabos submarinos que asseguram as ligações entre os Açores e o continente, salientando que parte dessas infraestruturas já está em fim de vida útil. “Temos vindo a criar, pressão, porque o chamado Anel CAM, que é a responsabilidade do Estado, e que liga, exatamente, o continente aos Açores e à Madeira, tem de ter redundância. Já terminou a vida útil dos atuais cabos, está na hora de os substituir e [de] fazer um upgrade”, conclui José Bolieiro.

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Ema Gil Pires lembra que o projeto foi anunciado, pela primeira vez, pela Google, em 2023.tendo sido, imediatamente, descrito como “um novo sistema de cabos submarinos transatlânticos” para ligar Portugal, as Bermudas e os EUA. De acordo com a empresa, do lado norte-americano, “o ‘Nuvem’ terá como ponto de amarração a Carolina do Sul”, mais concretamente, Myrtle Beach e, em Portugal, Sines será o terminal, com pontos intermédios nas Bermudas e nos Açores.

Sobre a importância destes cabos, a jornalista, sustenta que estes são a espinha dorsal da Internet mundial, visto que são responsáveis pelo transporte de cerca de 99% de todo o tráfego internacional de dados, desde chamadas, mensagens e vídeos até pagamentos. Sem eles, a comunicação global, transações financeiras e serviços em nuvem seriam inviáveis, já que os satélites não possuem capacidade de banda suficiente.

Ao contrário dos satélites, que podem ser afetados por condições atmosféricas, os cabos repousam no leito oceânico profundo, protegidos por múltiplas camadas de aço, de cobre e de polímeros, que os protegem da pressão, das correntes e até de ataques de tubarões.

É óbvio que os cabos submarinos não estão completamente imunes a avarias, mas a maioria ocorre, acidentalmente, por atividade humana, como a pesca ou a ancoragem, seguidas por riscos naturais, como terramotos, deslizamentos submarinos e tsunamis. Além disso, desafios, como a infraestrutura envelhecida e ambientes regulatórios complexos, podem complicar os esforços para manter a resiliência.

A nível dos objetivos do “Nuvem”, Ema Gil Pires recorda que, ao anunciar o projeto, a Google frisou que o “Nuvem” visava “melhorar a resiliência da rede, no Atlântico, e ajudar a responder à procura crescente por serviços digitais”. Ao mesmo tempo, explicitou que o “percurso do novo cabo” pretende “acrescentar diversidade às rotas internacionais e apoiar o desenvolvimento da infraestrutura de tecnologia de informação e comunicação (TIC), para os continentes e [para os] países envolvidos”.

Do discurso do ministro Gonçalo Matias, na cerimónia de lançamento do “Nuvem”, a jornalista salienta a asserção de que o estabelecimento deste novo sistema “faz mais do que acrescentar mais uma linha” do Atlântico, criando “percursos alternativos para a transmissão de dados” e reduzindo “a dependência da Europa, em relação a um pequeno número de corredores sobrecarregados”. Portanto, o projeto oferece “resiliência”.

Quanto aos envolvidos, o ministro Adjunto e da Reforma do Estado explicitou que o sistema “Nuvem” é um projeto que assenta “na parceria entre a Google e a MEO, entre a ambição pública e o investimento privado, entre duas nações”, Portugal e os EUA, há muito unidas pelo mesmo oceano que, “agora transporta os nossos dados”. E a MEO, em comunicado citado pela agência Lusa, confirmou que vai integrar o sistema de cabo submarino Nuvem, ao tornar-se “investidor e parceiro nacional de uma das mais relevantes infraestruturas digitais do Atlântico”.

No entanto, a MEO não concretizou que investimento realizará no âmbito deste projeto, apenas adiantou que, “ao estabelecer uma ligação direta entre Portugal e os EUA, o sistema reforça, igualmente, a atratividade do país para investimentos em centros de dados, [em] plataformas cloud e [em] serviços tecnológicos globais”.

Porém, como vimos e Ema Gil Pires sublinha, este não é o primeiro investimento deste tipo realizado pela Google, em pleno Oceano Atlântico. Em 2022, o “Equiano” contribuiu para aproximar a Europa e a África. E, tal como descrito pela gigante tecnológica norte-americana, este é um cabo submarino que “começa na Europa Ocidental e percorre a costa oeste da África e liga Portugal à África do Sul, aumentando a conectividade e as oportunidades de envolvimento entre países da Europa e de África”.

À sua instalação seguiu-se a de “Firmina”, um enorme cabo submarino instalado pela tecnológica com vista a conectar a costa Leste dos EUA, uma vez mais, por via da Carolina do Sul, à América do Sul (Argentina, Brasil e Uruguai), não envolvendo, portanto, Portugal.

Porém, ainda sob a alçada da Google, o país espera alojar, em 2027, outro projeto: o “Sol”. Este será, como refere a empresa tecnológica norte-americana, “um novo sistema de cabos submarinos transatlânticos que conectará os EUA, as Bermudas, os Açores e a Espanha”, completando, assim, “o investimento único” da empresa em “resiliência transatlântica”.

A razão de este investimento ser em Portugal é geográfica. “Situamo-nos no extremo ocidental da Europa, no ponto mais próximo das Américas, a ponte natural para África”, sublinhou o governante responsável pela pasta da Reforma do Estado. E a Google tinha já destacado este ponto, apontando que a “localização geográfica estratégica” do país “no Sudoeste da Europa continental” o transformou num “porto para cabos submarinos”.

Porém, o governante acrescentou que o país oferece: “estabilidade, num Mundo onde esta escasseia”; “talento – engenheiros, investigadores, uma geração jovem versada em tecnologia e em línguas”; e “energia limpa e competitiva, de que os centros de dados necessitam tanto quanto precisam de ligação”.

Na verdade, Portugal destaca-se como um dos líderes europeus na transição energética. A Pordata, no “Retrato Ambiental de Portugal, feito pela a propósito do Dia Mundial do Ambiente, que se assinalou a 5 de junho, releva que o país está entre os quatro estados-membros da União Europeia (UE) onde mais de 95% da energia produzida tem origem em fontes renováveis (97,8%), com base em dados referentes a 2024. Porém, para a Google, outro fator revelou-se importante: o “foco do país no reforço da infraestrutura da economia digital”.

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Os cabos submarinos são uma infraestrutura “essencial para a vida moderna e para a economia europeia”. O secretário-geral adjunto da União Internacional de Telecomunicações (UIT), Tomas Lamanauskas, chama-lhes autoestradas digitais, pois transportam enormes quantidades de informação, em pouco tempo, e oferecem menor latência (tempo necessário para um sinal viajar da origem ao destino), bem como preços grossistas mais baixos do que as ligações por satélite. Precisam, no entanto, de vigilância contra ações de sabotagem e contra avarias.

E a Marinha diz que a chegada da Plataforma Naval Multifuncional (o NRP D. João II) será um contributo importante no zelo da soberania, nas águas territoriais e sob jurisdição portuguesa, por onde passam os cabos submarinos, estruturas vitais para as comunicações de dados.

2026.07.23 – Louro de Carvalho

A força e a coragem exemplares de Maria Madalena

 

No Evangelho, a força feminina surge discreta, profunda e decisiva: não como domínio, imposição, conquista de poder, mas como fidelidade, permanência, coragem, maternidade espiritual, escuta, serviço, profecia e testemunho. As mulheres do Evangelho não são meros figurantes na História da Salvação. Participam no caminho de Jesus, acolhem a sua Palavra, servem a sua missão, permanecem ao pé da cruz e são as primeiras testemunhas da Ressurreição. Entre elas, Maria Madalena ocupa um lugar singular. É uma das figuras mais luminosas do Novo Testamento. A sua presença junto ao túmulo vazio, descrita no Evangelho de João, revela admirável força. Chora, procura, permanece e ama. E a cena mostra um dito de enorme intensidade: “Diz-me onde o puseste, e eu irei buscá-lo” (cf. Jo 20,15).

No dito, há uma teologia inteira do amor. A Madalena não sabe onde Jesus está. Não compreende o mistério da Ressurreição. Pensa que terão levado o corpo do Senhor, mas dispõe-se a procurá-lo. Não pergunta se terá força. Não calcula os riscos. Não se intimida, ante a impossibilidade. Apenas ama. E por isso, diz: “Eu vou buscá-lo.” Esta força feminina nasce do amor fiel, não se rende à ausência, não foge ante a dor e não aceita a morte como última palavra.

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Jesus causa uma profunda valorização da mulher. Numa cultura de silenciamento da voz feminina, Ele acolhe, escuta, cura, perdoa, envia e confia missões às mulheres. No Evangelho de Lucas, lê-se que algumas acompanhavam Jesus e os Doze: “Os Doze iam com Ele, e também algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e enfermidades: Maria, a Madalena, da qual haviam saído sete demónios; Joana, mulher de Cusa, administrador de Herodes; Susana e muitas outras, que os serviam com seus bens” (Lc 8,1-3).

O texto mostra que as mulheres não estavam só à margem, a observar de longe, mas participavam na missão: ajudavam, serviam, sustentavam, caminhavam com Jesus. Entre elas, aparece Maria Madalena, profundamente tocada pela misericórdia do Senhor. A saída de sete demónios indica libertação radical. O número sete, na linguagem bíblica, indica totalidade. Assim, a Madalena é a mulher profundamente restaurada de todos os males, e a sua força nasce da experiência da misericórdia. Quem foi levantado por Cristo sabe permanecer com Ele.

As mulheres aparecem e permanecem junto da cruz, quando muitos discípulos se dispersam: “Estavam ali muitas mulheres, olhando de longe; tinham seguido Jesus, desde a Galileia, prestando-lhe serviços” (Mt 27,55). “Estavam ali também algumas mulheres, olhando de longe. Entre elas, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago menor e de José, e Salomé. Elas seguiam-No e serviam, quando Ele estava na Galileia” (Mc 15,40-41). “Junto à cruz de Jesus estavam a sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria de Cléofas, e Maria Madalena” (Jo 19,25).

Aqui aparece uma das dimensões profundas da força feminina: a capacidade de permanecer, tudo parecendo perdido. Elas não impedem a crucifixão, mas permanecem. Não têm poder político para salvar Jesus, mas estão. Não podem retirar os cravos, mas sustentam com presença, com lágrimas e com amor. É uma força não barulhenta, mas de presença corajosa.

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A Madalena não pode ser compreendida, só a partir do túmulo vazio. Para a entender, é de recordar que fez caminho com Jesus. Foi libertada, acompanhou-O, esteve junto à cruz, viu onde o corpo foi colocado e voltou ao túmulo. Não abandona o Senhor. Está presente na paixão, na sepultura e na manhã da Ressurreição. Viu onde Jesus foi colocado: “Maria Madalena e Maria, mãe de José, observavam onde ele era colocado” (Mc 15,47). Foi ao túmulo com outras mulheres: “Passado o sábado, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé compraram perfumes para ungir o corpo de Jesus” (Mc 16,1). E, no Evangelho de João, a sua presença é mais pessoal: “No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo de madrugada, quando ainda estava escuro, e viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo” (Jo 20,1).

A expressão “quando ainda estava escuro” tem valor simbólico. Era noite fora e no coração de Maria, que deambulava na escuridão da perda, da dor, da incompreensão. Porém, foi. A fé nem sempre começa com clareza, mas com um passo no escuro. A Madalena vai ao túmulo, porque ama. O amor move-a, antes da compreensão. A sua fidelidade leva-a ao lugar onde o mistério será revelado. Ela é a imagem do coração inquieto de que fala Santo Agostinho, ao comentar a busca de Deus, afirmando que o coração humano permanece inquieto, enquanto não repousa no Senhor. Ela não se contenta com explicações. Não se satisfaz com a ausência. Não aceita que tudo terminou. Busca Aquele que dá sentido à sua vida. A sua força está nessa busca. Não se acomoda, ante do vazio. Vê o túmulo aberto, vê a ausência do corpo, vê os sinais, mas procura. Quem ama não desiste ao primeiro sinal de perda.

O Evangelho de João narra: “Maria estava do lado de fora do túmulo, chorando. Enquanto chorava, inclinou-se para olhar dentro do túmulo” (Jo 20,11) – uma imagem humana. Está do lado de fora e chora. Este choro não é fragilidade negativa. Na Bíblia, o choro é, por vezes, a linguagem da alma. As lágrimas expressam dor, amor, saudade, impotência e esperança. E algumas não significam falta de fé, mas profundidade do amor. Jesus chorou diante do túmulo de Lázaro: “Jesus chorou” (Jo 11,35). Se o Filho de Deus chora, as lágrimas não são sinal de fraqueza espiritual: podem ser lugar de encontro com Deus. E a Madalena chora, porque perdeu o Senhor. O seu pranto exprime o amor fiel.

A força feminina irrompe: não nega a dor; não finge estar bem; não espiritualiza a perda de modo superficial. Chora, mas não fica paralisada. Inclina-se para olhar para dentro do túmulo. Há movimento na dor. Há busca no pranto. Essa atitude é significativa: chora, mas procura. Maria Madalena representa a força feminina que não precisa de negar a própria sensibilidade para ser forte. A sensibilidade é parte da força. Ela ama com profundidade. E quem ama profundamente sofre profundamente. O amor que sofre é capaz de ir além. Maria olha para dentro do túmulo e vê dois anjos vestidos de branco e sentados onde estivera o corpo de Jesus, um à cabeceira e outro aos pés. E perguntam: “Mulher, por que choras?” (Jo 20,13). O céu interessa-se pelas lágrimas de Maria. Deus não despreza o sofrimento. A dor da mulher diante do túmulo é acolhida pela pergunta dos anjos, que não a repreendem. E a resposta revela o coração: “Levaram o meu Senhor, e não sei onde o puseram” (Jo 20,13).

Não diz que levaram o corpo, mas: “Levaram o meu Senhor”. Esta frase mostra intimidade, pertença, amor. Jesus não é lembrança distante. Ele é “o meu Senhor”. Maria fala tem uma relação pessoal com Cristo. A espiritualidade cristã nasce dessa relação pessoal. Jesus não é só doutrina a estudar, tradição a preservar ou personalidade religiosa a admirar. É o Senhor vivo, amado, procurado, seguido.

São Gregório Magno vê, em Maria Madalena, o ardor da alma que ama. Ela procura o Senhor e, porque procura com amor, torna-se digna de O anunciar. A busca de Maria é pedagógica para a Igreja: quem deseja anunciar Cristo precisa de O amar e de O procurar. Maria não se impressiona com os anjos. Eles aparecem diante dela, mas o coração dela está voltado para Jesus. Os sinais, as consolações e as experiências espirituais são importantes, mas nada substitui o Senhor. Maria não quer só experiências religiosas; quer Cristo.

O texto joânico prossegue: “Dito isto, voltou-se para trás e viu Jesus de pé, mas não sabia que era Jesus” (Jo 20,14). Esta cena revela uma verdade espiritual profunda: às vezes, Jesus está perto, mas a dor impede os olhos de O reconhecerem. Ela vê-O, mas não sabe que é Ele. A ausência que sente é tão forte que não percebe a Presença diante de si. Isto sucede connosco!

Então, Jesus pergunta: “Mulher, por que choras? Quem procuras?” (Jo 20,15). À pergunta dos anjos Jesus acrescenta: “Quem procuras?” É a pergunta central da vida cristã. Procuramos apenas soluções ou procuramos o Senhor? Maria responde, pensando que Jesus era o jardineiro: “Senhor, se foste tu que o levaste, diz-me onde o puseste, e eu irei buscá-lo” (Jo 20,15).

A resposta de Maria é uma das mais belas expressões de amor. Ela está diante de um suposto jardineiro. Acredita que o corpo de Jesus foi retirado. Não sabe onde está, mas declara a sua disposição: “Eu irei buscá-lo”. Essa frase parece humanamente impossível. Maria não poderia carregar, sozinha, o corpo de Jesus, e seria duramente criticada. Porém, o amor não começa pelo cálculo, mas pela entrega. Maria não diz que não pode fazer nada, não pede ajuda, nem pede que avisem os discípulos. Diz que O vai buscar. Esta é a força feminina segundo o Evangelho: a força de quem, ante o impossível, não abandona o amor.

A frase de Maria é legível a vários níveis. Expressa o amor pessoal por Jesus, pois Maria deseja encontrar o Senhor, de modo que o seu coração não aceita a ausência. Expressa coragem, manifesta na disposição de agir, de procurar, de encontrar e de trazer de volta. Expressa fidelidade, pois, mesmo quando Jesus parece morto, desaparecido ou perdido, Maria continua a pertencer-Lhe. E expressa uma dimensão profundamente eclesial, porque Maria é figura da Igreja que procura Cristo, enquanto o Mundo tenta escondê-lo. Ou seja, representa a comunidade dos discípulos, que não aceita viver sem o seu Senhor.

“Eu vou buscá-lo” é a frase da Igreja missionária, que sai à procura de Cristo nos pobres, nos feridos, nos esquecidos, nos afastados, nos que perderam a fé, nos que estão nos sepulcros da dor.

Buscar Cristo, portanto, é também buscar os irmãos. Quem diz “eu vou buscá-lo” precisa de estar disposto a encontrar Cristo onde Ele se deixa encontrar: nos pobres, nos doentes, nos abandonados, nos que choram, nos que foram esquecidos.

O sepulcro é o lugar onde tudo parece terminar, mas, para Maria, é lugar de busca. O “sim” de Maria de Nazaré abriu espaço para a Encarnação. O “eu vou buscá-lo” de Maria Madalena anuncia a força da discípula que não abandona o Senhor. Uma acolhe o Verbo no seu ventre; a outra procura-O no jardim da Ressurreição. Ambas revelam a força feminina como disponibilidade radical diante de Deus. Maria Madalena não aceita o sepulcro como a palavra final. A sua busca antecipa a missão da Igreja: anunciar que a morte foi vencida. Essa capacidade aparece, de maneira luminosa, em Maria Madalena, cuja vida se tornou anúncio de que o amor de Deus reergue, cura, envia e transforma.

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O momento decisivo acontece quando Jesus diz o seu nome: “Jesus lhe disse: Maria! Ela voltou-se e exclamou. em hebraico: Rabuni!, que quer dizer: Mestre” (Jo 20,16). Maria, que não havia reconhecido Jesus, viu-O, ouviu a sua voz. Tudo muda, quando Ele a chama pelo nome. Maria é a ovelha que reconhece o Pastor quando Ele a chama pelo nome. A voz do Ressuscitado atravessa a dor e desperta a fé. A mulher que procurava um corpo morto encontra o Senhor vivo. E não encontra Jesus apenas, porque O procura, mas, sobretudo, porque Ele a chama. A iniciativa última é sempre da graça. Também nós procuramos Deus, porque, primeiro, fomos procurados por Ele. “Nós amamos, porque Ele nos amou primeiro” (1Jo 4,19).

Maria Madalena ensina que a busca humana e a graça divina se encontram. O coração procura, mas é Deus quem se revela. O amor caminha, mas é Cristo quem chama pelo nome.

Depois do encontro, Jesus envia Maria: “Vai a meus irmãos e diz-lhes: Subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus” (Jo 20,17). E Maria Madalena anuncia: “Eu vi o Senhor” (Jo 20,18). Aqui está a plenitude da sua missão. A mulher que chorava diante do túmulo torna-se anunciadora da Ressurreição. A mulher que procurava Jesus torna-se testemunha do Cristo vivo. A mulher que dizia “eu vou buscá-lo”, agora, proclama: “eu vi o Senhor”. Por isso, a tradição cristã a chamou de “apóstola dos apóstolos”, porque foi enviada pelo próprio Ressuscitado para anunciar aos discípulos a notícia central da fé cristã: “Cristo vive!”

O Papa Francisco, ao elevar a liturgia de Santa Maria Madalena (a 22 de julho) ao grau de festa, destacou-a como testemunha da Ressurreição e exemplo de evangelizadora. Nela, a Igreja contempla a força da mulher que, tendo sido curada e amada, se torna enviada.

A frase “eu vou buscá-lo” pode ser aplicada à vida espiritual contemporânea, como um programa de vida espiritual. Em muitos ambientes, Deus parece ausente. Diante disso, a espiritualidade de Maria Madalena ensina-nos a dizer: “Eu vou buscá-Lo, quando a fé esfriar, quando a oração desaparecer, quando a dor confundir a minha alma, quando a Igreja parecer ferida, quando os pobres forem esquecidos, quando a esperança parecer morta, quando eu não compreender os caminhos de Deus.

Há muitas formas de buscar Cristo, hoje. Buscamo-Lo na assembleia eclesial reunida, na Palavra de Deus, na Eucaristia, na oração, na confissão, na caridade, no silêncio, na comunidade, nos pobres, nos doentes, nos encarcerados, nos que sofrem: “Tive fome e destes-Me de comer; tive sede e destes-Me de beber; era estrangeiro e acolhestes-Me; estava nu e vestistes-Me; enfermo e visitastes-Me; preso e fostes ver-Me”. (Mt 25,35-36).

A Madalena revela três dimensões relevantes da força feminina: memória, cuidado e profecia. Lembra o Senhor, não deixando que a sua vivência com Jesus seja apagada pela violência da cruz. Vai ao túmulo, porque deseja cuidar do corpo de Jesus. E torna-se anunciadora da Ressurreição. A sua voz leva aos discípulos a notícia mais importante da História: “Cristo vive!”. A mulher que foi ao túmulo para cuidar de um morto retorna como profeta da vida.

Maria Madalena é imagem da Igreja. Como Madalena, a Igreja também atravessa noites, chora e interroga-se sobre onde colocaram o seu Senhor, quando a fé parece obscurecida. Assim, a pergunta de Jesus – “Quem procuras?” – precisa de ressoar sempre na vida eclesial. Quem a Igreja procura? Procura prestígio e poder ou procura Cristo Vivo?

Sem Cristo, a Igreja é instituição vazia, a missão é ativismo, a liturgia é formalidade, a caridade é filantropia e a palavra perde fogo. Por isso, cada cristão precisa de aprender com Maria Madalena a dizer: “Eu vou busca-Lo!”

Maria Madalena ensina-nos que a força feminina do Evangelho é pascal: nasce aos pés da cruz, atravessa o silêncio do sábado, permanece diante do túmulo e floresce no anúncio da Ressurreição. Maria Madalena continua a falar à Igreja e ao Mundo. Quando tudo parecer perdido, quando a fé parecer sepultada, quando o amor parecer vencido, quando a esperança parecer distante, é preciso escutar, novamente, a força desta mulher diante do túmulo: “Diz-me onde o puseste, e eu irei buscá-lo.” E transformar essa frase em oração:

Senhor, se eu te perdi nos caminhos da vida, eu vou buscar-Te. Se a minha fé esfriou, eu vou buscar-Te. Se a minha esperança foi ferida, eu vou buscar-Te. Se o meu coração está a chorar diante de um túmulo vazio, eu vou buscar-Te.”

Quem ama verdadeiramente não desiste de Deus. E quem procura o Ressuscitado, mesmo entre lágrimas, acabará por ouvir a sua voz chamando pelo nome.

2026.06.22 – Louro de Carvalho


quarta-feira, 22 de julho de 2026

Descoberta a primeira lua fora do Sistema Solar (?)

 

Uma equipa internacional liderada por investigadores do Observatório Europeu do Sul (ESO) anunciou, a 22 de julho, o que pode ser o indício da primeira lua descoberta fora do Sistema Solar, com massa semelhante à de Júpiter – de 1,899 x1027 kg, isto é, cerca de 317,82 vezes a da Terra. Os investigadores salientam que, “por mais exótico que seja”, trata-se de um achado que é “verdadeiramente único e representa um importante avanço” científico A descoberta pode marcar um momento histórico na Astronomia, pois a lua acabada de encontrar não orbita um planeta, mas uma anã castanha.

A este respeito o Expresso online publicou, a 22 de julho, dia do anúncio, por parte do ESO, uma peça jornalística de André Manuel Correia que refere a existência, a 73 anos-luz da Terra, de “um objeto que parece recusar todas as etiquetas que os cientistas lhe tentam atribuir”, tendo o Universo desafiado, mais uma vez, “as definições criadas pelo ser humano para o compreender”. Ou seja, no dizer do jornalista, “voltou a fazer aquilo que faz melhor”.

Os autores do estudo, publicado na revista Nature, admitem ainda não saberem como designar o objeto, pois o caso é peculiar, até para os padrões da Astronomia recente: o candidato a satélite não orbita um planeta, mas uma anã castanha que, por sua vez, orbita uma estrela.

Essa anã castanha tem mais massa do que qualquer planeta conhecido – 37 vezes a massa de Júpiter –, mas não o suficiente para sustentar, no seu núcleo, a fusão de hidrogénio que mantém a estrela a brilhar, durante milhares de milhões de anos. É, pois, um objeto de transição entre um planeta e uma estrela. E, porque não é uma estrela, arrefece e escurece, lentamente, ao longo da sua existência, em vez de manter o brilho. Por isso, estes corpos são, comumente, designados como “estrelas falhadas”.

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A revista Science, da NASA, exibe um texto sob o título “O que torna os anões marrons únicos?” que nos lembra a dificuldade de distinguir, a olho nu, estrela e planeta, “quando se olha para o céu noturno”. Não obstante, os astrónomos da Antiguidade notavam que algumas luzes se moviam pelo céu, enquanto outras pareciam estar numa posição fixa. Os Gregos, na continuidade do trabalho dos cientistas anteriores, chamaram “plánês” ou “planêtês” (errante, vagabundo) a cada um dos pontos de luz itinerantes. E ainda hoje os chamamos planetas (“planêtoi”).

Mas, além de orbitar uma estrela, há algo mais a definir um planeta. À medida que os telescópios se tornam mais sofisticados e aprendemos mais sobre o Universo, ficam ultrapassadas e sem sentido “algumas definições antigas”. Hoje sabemos que alguns planetas são rochosos, como a Terra, enquanto outros são gigantes gasosos, como Júpiter, e que o Sol, na sua fase de meia-idade, é apenas um tipo entre vários tipos de estrelas, classificadas de acordo com a fase do seu ciclo de vida que ainda estamos a tentar compreender. Uma estrela brilha, ao produzir a sua própria luz, a partir da “fusão nuclear no seu núcleo denso e quente”, ao passo que os planetas brilham, aos nossos olhos, na Terra, refletindo a luz das estrelas.

Essas eram as definições simples e precisas de estrelas e planetas, até à descoberta de uma anã castanha (marron), em 1995. Teorizado já na década de 1960, o novo tipo de corpo celeste tornou tênue a linha divisória entre estrela e planeta, exigindo um repensamento empolgante do Universo.

Apesar do nome, as anãs castanhas podem ser até 70 vezes mais massivas do que gigantes gasosos como Júpiter, Saturno, Úrano e Neptuno. Formam-se como as estrelas, pela contração de gás que colapsa em denso núcleo, sob a força da própria gravidade, enquanto os planetas se formam a partir do acúmulo de detritos remanescentes desses nascimentos estelares. Contudo, as anãs castanhas não têm massa suficiente nos seus núcleos, para queimar combustível nuclear e emitir luz estelar. Por isso, chamam-se “estrelas falhadas”. São menores e mais frias do que o Sol e possuem atmosferas externas complexas, semelhantes às de planetas, incluindo nuvens e moléculas como H₂O (água). Atualmente, os astrónomos divergem sobre se alguns corpos “flutuantes” detetados no espaço, que não orbitam uma estrela, mas também não brilham como uma estrela, devem ser chamados de planetas ou de anãs castanhas.

(Cf. https://science.nasa.gov/mission/webb/science-overview/science-explainers/what-makes-brown-dwarfs-unique/) [consultado em 22-07-2026]

Os terraplanistas dizem que a Terra se chama “planeta” porque é um plano. Nada mais desconcertante: “planeta” provém dos termos gregos “plánês” e “planêtês” (errante, vagabundo) – do verbo “planáô: errar, desencaminhar) – e não de “planus, a, um” (liso, direito, plano), que, em Grego, se diria “ísos, ê, ón” ou homalós, ê, ón”.

Parece incrível, mas ainda há quem, no século XXI, acredite que a Terra é plana: são os terraplanistas, que, juntamente com os antivacinistas, formam a maior parte dos negacionistas (o sufixo ‑ista de todos eles evidencia que são seguidores de ideologias ou de doutrinas e constituem verdadeiros movimentos ou seitas). Há ainda outros negacionistas, como os que negam a morte de Elvis Presley e os que negam a morte de Hitler (segundo eles, o Führer está vivo e forte, aos mais de 130 anos de idade). E há os que acreditam que Paul McCartney morreu em 1967 e quem está, até hoje, a gravar discos e fazendo shows em seu lugar é um impostor.

Entende-se que os nossos antepassados da Antiguidade ou da Pré-História pensassem que a Terra é chata, pois a extensão de território que eles conseguiam percorrer era demasiado pequena para que percebessem a curvatura deste corpo celeste. Porém, já Aristóteles argumentava que, se a Terra fosse plana, os navios não desapareceriam no horizonte. E os eclipses mostravam sobre a Lua a sombra circular da Terra, o que os Gregos também já haviam percebido. Aliás, foi na Grécia antiga que se mediu, pela primeira vez, a circunferência da Terra. O autor do brilhante feito foi o matemático e astrónomo Eratóstenes de Cirene, e o seu erro, face à medida atual, foi de apenas 300 quilómetros.

Foi dada à Terra a designação de “planeta”, porque as palavras gregas “plánês” e “planêtês” (viajante, errante) não tem qualquer parentesco com a latina “planus”, que deu o português “plano”. Ou seja, os Gregos não só sabiam que os planetas são esféricos, como também que se movem no espaço. É verdade que o modelo geocêntrico de Ptolomeu colocava a Terra no centro do Mundo, em posição imóvel em torno da qual os outros planetas giravam. Logo, a denominação “planeta” não se aplicava, inicialmente, à Terra. Foram os astrónomos renascentistas, a partir de Copérnico, que compreenderam que o centro era o Sol e que a Terra também se movia (eppur si muove, “e, no entanto, se move”, terá dito Galileu, após ter abjurado do sistema heliocêntrico, ante a Inquisição, a fim de preservar a vida). Portanto, a Terra também era um planeta, isto é, um viajante, um corpo errante no Universo.

(Cf. Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/artigos/rubricas/idioma/o-planeta-tem-esse-nome-porque-e-plano/4965) [consultado em 22-07-2026]

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Voltando ao sistema estelar em estudo, chamado CD-35 2722, a anã castanha, com 37 vezes a massa de Júpiter, orbita, numa trajetória larga e muito alongada, uma estrela com cerca de metade da massa do Sol. É em torno dessa anã castanha, e não da estrela, que orbita o objeto que motivou o estudo: um corpo com massa que ronda a de Júpiter, a completar uma volta a cada 170 dias, à distância equivalente a cerca de metade da que separa Mercúrio do Sol.

Trata-se de uma exolua. Em geral, chama-se exolua a um satélite natural que orbita um planeta fora do Sistema Solar. Porém, não há uma aceitação oficial do termo, o que torna o caso mais complicado: o candidato a satélite não orbita um planeta, mas uma anã castanha, que, por sua vez, orbita uma estrela – uma hierarquia de três níveis, sem equivalente nos corpos do Sistema Solar que bem conhecemos.

A deteção não foi feita por observação direta. A equipa mediu, em mais de dois anos e mais de duas dezenas de noites de observação com o Very Large Telescope do ESO, no Chile, o efeito da gravidade do potencial satélite sobre a anã castanha: um pequeno vaivém periódico no espectro da anã castanha, de poucas centenas de metros, por segundo. É a técnica da velocidade radial, levou a descobrir, em 1995, o primeiro exoplaneta em torno de estrela semelhante ao Sol, o que valeu o Nobel da Física a Michel Mayor e Didier Queloz. Neste caso, o método foi aplicado, a nível mais fundo na hierarquia do sistema, ao espectro da anã castanha em vez do da estrela.

“Este sistema é um pouco difícil de definir, utilizando termos comuns do nosso Sistema Solar, como ‘planeta’ e ‘satélite’”, resume Kevin Hoy, primeiro autor do estudo, citado, em comunicado, descrevendo o sistema, que passou meses a analisar, como “superestranho”, quando comparado com o nosso. E Alice Zurlo, diretora do Núcleo Milénio sobre Exoplanetas Jovens e suas Luas (YEMS) e coautora do estudo, explica o que a equipa julga ter encontrado: “O satélite que parece termos identificado [é] um corpo gasoso gigante que orbita um companheiro de massa elevada, que, por sua, vez tem várias vezes a massa de Júpiter. […] No Sistema Solar, existe uma delimitação clara entre os planetas e o Sol, pelo que definir elementos como satélites é simples. No CD-35 2722, onde as fronteiras entre estrelas, planetas e satélites se tornam difusas, torna-se mais complicado descrever o sistema.”

A própria definição de planeta usada pela União Astronómica Internacional (UAI) colocaria este corpo do lado dos planetas, e não das luas, já que a sua massa, face à da anã castanha, fica bem abaixo do limite usado para separar um planeta de um sistema binário. Todavia, o que pesa a favor de se lhe chamar lua não é o tamanho, mas a posição na hierarquia do sistema.

Essa posição intriga Kevin Hoy: “O exossatélite é claramente massivo o suficiente para ser planeta, mas não orbita uma estrela, embora orbite um objeto que, por sua vez, orbita uma estrela. O facto de se achar no terceiro nível neste sistema leva-nos a querer identificá-lo como uma lua, mesmo que não se pareça, em nada, com as pequenas luas rochosas que vemos no nosso Sistema Solar”, diz o investigador.

Os dados de velocidade radial não permitem, por si, distinguir entre dois cenários igualmente compatíveis com as observações: uma única lua numa órbita excêntrica, ou duas luas mais pequenas em órbitas quase circulares, numa proporção de, aproximadamente, duas voltas de uma por cada volta da outra. Para decidir, a equipa recorreu a simulações do comportamento do sistema, ao longo do tempo. O cenário de duas luas revelou-se instável na maioria das configurações testadas, com uma delas a ser ejetada do sistema, ao fim de poucos séculos. Por isso, os autores consideram mais provável o cenário de uma única lua, ainda que os dados, por si, não permitam excluir, por completo, a outra hipótese.

A procura de luas fora do Sistema Solar não é recente, mas nunca tinha produzido convincente deteção. Nos últimos anos, outras equipas tinham aplicado o mesmo método a companheiros substelares fotografados diretamente, sem detetarem qualquer sinal com a precisão necessária. Há poucos meses, a equipa liderada por Quentin Kral tinha anunciado indícios semelhantes noutro sistema, sem confirmação definitiva. A precisão alcançada, agora, entre dez e cem vezes superior à das tentativas anteriores, é o que a distingue. “Por mais exótico que seja, este sistema é verdadeiramente único e representa um importante avanço: a primeira deteção plausível de um exossatélite”, sublinha Zurlo.

Estatisticamente, a confiança no sinal é elevada, com probabilidade inferior a um em mil de se tratar de falso positivo. Contudo, os autores insistem que só observações futuras poderão confirmar qual dos dois modelos está correto e se este objeto cumpre critérios que nem sequer existem, de forma oficial, para se chamar exolua. O futuro Extremely Large Telescope do ESO, com espelho de 39 metros, deverá permitir detetar luas ainda mais pequenas. Se a deteção for confirmada e for essa a designação que a comunidade científica adotar, este será o primeiro objeto do género alguma vez identificado: uma lua, ou algo parecido, a orbitar, não um planeta, mas uma anã castanha, na direção da constelação da Pomba, no céu do Sul.

A atmosfera de anã castanha é mais fácil de estudar do que a de exoplaneta, que, normalmente, fica obscurecida pela luz ofuscante da sua estrela hospedeira. Porém, anãs castanhas pouco brilhantes também podem ser difíceis de encontrar, pois, eventualmente, a luz visível remanescente do seu nascimento desaparece, completamente, além da extremidade vermelha do espectro visível, e elas emitem apenas luz infravermelha.

Difíceis de detetar, as anãs castanhas revelam as muitas maravilhas não descobertas que o Universo guarda, ocultas por séculos. Grande parte da massa que mantém o Universo unido pela gravidade e indetetável, até ao momento, é conhecida como matéria escura. O Telescópio Espacial James Webb baseia-se no trabalho do Telescópio Espacial Hubble e do Telescópio Espacial Spitzer, ambos da NASA, para sondar as regiões mais distantes e “escuras” do Universo.  O Webb enxerga mais longe e com maior resolução, graças a câmaras e a espectrógrafos infravermelhos, sem precedentes, em sua potência.

Quando o Hubble foi lançado, os únicos planetas conhecidos eram os do Sistema Solar. Não havia imagens de anãs castanhas. O Webb analisará as atmosferas de anãs castanhas e de exoplanetas, determinando a suas temperaturas e composições químicas. Com ​​observações em infravermelho, o telescópio Webb amplia a compreensão da evolução contínua do Universo e do lugar da Terra e do Sistema Solar, nesse contexto mais amplo.

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Apesar de mais de seis mil exoplanetas terem sido descobertos, nenhum satélite orbitando um exoplaneta (exolua) jamais foi detetado com segurança. Embora já haja candidatos, carecem de confirmação clara e permanecem controversos. Além do valor intrínseco da descoberta de novos tipos de objetos no Universo, os satélites podem fornecer informações fundamentais dos mecanismos de formação e da evolução dinâmica dos seus sistemas. Agora, surgiram evidências da existência de um satélite a orbitar a anã castanha companheira da CD-35 2722 B, observada por meio de imagem direta. Aplicou-se a análise de velocidade radial – técnica utilizada para descobrir o primeiro exoplaneta ao redor de uma estrela do tipo solar.

Foi detetado o que parece ser o sinal periódico induzido por, pelo menos, um satélite em órbita. É a primeira vez que tal técnica fornece evidências bem-sucedidas da presença de satélites ao redor de uma anã castanha companheira. Este modelo de melhor ajuste inclui um candidato a satélite com massa mínima de cerca de 0,7 massas de Júpiter e com período orbital de cerca de 170 dias. Embora não se saiba se tal satélite atende aos critérios (ainda não definidos) para ser classificado como exolua, trata-se de um passo importante rumo a essa deteção, já que o avanço tecnológico permitirá aplicar o mesmo método a alvos de menor massa.

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Ciência sempre com novidades, num Universo com muito por descobrir!

2026.07.22 – Louro de Carvalho

terça-feira, 21 de julho de 2026

Portugueses estudam nuvens de Marte com vista a aterragens no planeta

 

Dois investigadores portugueses da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL) são os principais autores de um estudo, publicado na revista científica Journal of Geophysical Research: Planets, que se propôs a “caçar” e analisar as nuvens de Marte, para facilitar futuras missões ao Planeta Vermelho, a 225 milhões de quilómetros (Km) da Terra.

O estudo vem ao encontro da já existente perspetivação de futuras missões tripuladas à superfície de Marte, contribuindo para possibilitar “aterragens mais suaves” em Marte, onde há alguns indícios da existência de vida, no passado e quiçá no presente.

A este respeito, a 21 de julho, a Euronews publicou um artigo intitulado “Cientistas portugueses estudam nuvens de Marte para facilitar futuras aterragens no planeta”, em que a jornalista Ema Gil Pires releva que o objetivo da investigação “consistiu em medir, simultaneamente, a altitude e a velocidade de propagação das ondas atmosféricas marcianas, que são uma peça-chave para compreender como se transporta a energia, na atmosfera desse planeta”.

Aliás, o resumo fornecido pela revista, “em linguagem simples”, refere que “as ondas gravitacionais são ondulações suaves na atmosfera rarefeita de Marte, que podem moldar nuvens e direcionar os ventos”. Através delas, os cientistas pesquisaram “em imagens de nuvens obtidas pela Câmara Estereoscópica de Alta Resolução (HRSC) da Mars Express, durante os anos marcianos 34 a 37”. Primeiro, mapearam “o formato de cada grupo de ondas, incluindo o espaçamento entre as cristas e o tamanho do grupo”. A seguir, utilizaram “os múltiplos canais de cor da HRSC e visualizações repetidas em intervalos de, aproximadamente, 30 minutos, para estimar a altura e o movimento do topo das nuvens”.

Verificaram que “a maioria das ondas apresenta espaçamento entre as cristas de cinco a 35 km e cristas quase orientadas no sentido Leste-Oeste”; que “o topo das nuvens mostra concentração dominante, entre 15 e 40 km, e extensão menos frequente, até 60-100 km”; que “os padrões se movem apenas alguns metros, por segundo, o que implica em escalas verticais curtas para as ondas”; e que, juntas, tais medições “fornecem novas restrições que podem ser usadas para aprimorar a representação das ondas gravitacionais em modelos climáticos de Marte”.

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É de referir que um ano marciano é o tempo que Marte leva para dar uma volta completa à volta do Sol. Corresponde a 687 dias na Terra, isto é, quase o dobro do ano terrestre. O dia marciano (chamado de sol) dura 24 horas e 37 minutos. Assim, o ano de sol tem cerca de 668 sóis.

Como os astrónomos contam os anos marcianos, a partir do ano terrestre de 1956, o Ano 38 de Marte começou em 12 de novembro de 2024.

A Terra está na pista de dentro, e Marte está na pista de fora. Como a pista de Marte é muito maior, ele demora quase o dobro do tempo terrestre a completar uma volta. 

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Como explicou o cientista Francisco Brasil, que liderou o estudo com Pedro Machado, ambos da FCUL e do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço (IA), tal foi conseguido com base em dados da missão Mars Express – uma das mais longas da Agência Espacial Europeia (AEE), em órbita, há 23 anos, e que foi estendida até 2029 – com elementos de destaque desta iniciativa não tripulada a terem estado envolvidos no estudo.

Esclarecendo a importância da investigação, Francisco Brasil considerou que, “para aterrarmos num planeta, assim como aterramos na Terra, precisamos de saber, mais ou menos, como é que essa atmosfera está distribuída em termos de camadas”.

Através da caraterização das ondas atmosféricas de Marte, é possível conhecer “como é a dinâmica da sua atmosfera, nessas altitudes específicas”, um “trabalho que, neste caso em concreto, teve a medição das altitudes das nuvens e dos ventos” como técnicas essenciais. Tudo isto foi possível com recurso a uma câmara de alta resolução a bordo da sonda espacial europeia Mars Express, “que permitiu observar, em ângulos diferentes, o mesmo local”.

Francisco Brasil enfatizou que esta descoberta “será importante, quando “a Humanidade chegar a Marte”, pois leva compreender “as otimizações que têm de ser feitas” nas astronaves que se propõem a chegar “à superfície” marciana, a fim de “controlar os atritos ou as diferenças que existam na atmosfera” do planeta, de modo a “correr tudo bem, na aterragem”.

A razão por que esta análise poderá ter significativo impacto em futuras missões a Marte é a sua atmosfera, “em comparação com a da Terra, é muito rarefeita”, isto é, “tem poucas moléculas”. Por conseguinte, “a força de atrito que existe” no Planeta Vermelho é muito inferior. “É como se estivéssemos quase em queda livre”, exemplificou o astrofísico, vincando que é bastante diferente do que sucede na Terra, onde “é muito difícil pôr um foguetão no espaço”.

Os desafios a este nível, ao longo das últimas décadas, têm sido bastante visíveis. “Tem sido muito difícil enviar rovers para a superfície de Marte”, revelou o astrofísico. De facto, desde 1960, aproximadamente metade das missões de exploração de Marte não correram como esperado, tendo até ocorrido quedas na superfície do planeta, por parte destes veículos robóticos, bem como falhas de lançamento e de órbita.

Rovers são veículos robóticos de exploração espacial desenhados para andarem na superfície de outros planetas ou luas. Como laboratórios ambulantes, ajudam a estudar o solo, o clima e a procurar sinais de vida. A NASA envia-os para lugares muito perigosos para os humanos.

O cientista explica as ditas falhas com base nas dificuldades de aterragem, perspetivando uma eventual missão tripulada à superfície marciana, algo que nunca aconteceu, até agora: “Como não tínhamos tanta informação sobre como a atmosfera estava distribuída, eles [os rovers] acabavam por ter uma queda livre e despenhar-se na superfície de Marte. E não queremos que isso aconteça com os humanos.”

Entretanto, como sustenta o especialista, esta realidade tem vindo a alterar-se, “nos últimos anos”, no decurso dos quais a “taxa de sucesso da aterragem” em Marte foi já bastante superior, em comparação com períodos anteriores, o que se deve também, aos investimentos que vêm a ser feitos em matéria de equipamentos. Nos últimos anos, “todos os rovers têm evoluído muito, na questão de amortecer essa tal queda livre que ocorre em Marte”, diminuindo o impacto no momento da aterragem na superfície, por via de diferentes mecanismos, como “paraquedas muito específicos” e “sistemas de amortecimento” semelhantes a airbags.

Tal como na Terra, há, no Planeta Vermelho, “várias estações do ano”, devido ao facto de ambos terem um “eixo inclinado”, indicou o especialista do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço. Ora, esse facto releva, ao nível da formação de nuvens em Marte. Durante o ano, “são muito esparsas”, caraterizando-se, em particular, por uma certa sazonalidade.

Isso resulta do facto de o planeta ter “calotes polares compostas por gelo de dióxido de carbono (CO2) e de água (H2O) que, à medida que se vai aproximando o verão do Hemisfério Norte, começam a evaporar”, formando o que se apelida de Aphelion Cloud Belt, “uma zona no Hemisfério Norte com muitas nuvens”. Por Conseguinte, “só nessa altura” do ano marciano “é que conseguimos observar mais nuvens”, já que estas, depois, vão “evoluindo, ao longo do tempo”, e respondendo “às várias dinâmicas da atmosfera”. Também por isso, as nuvens de Marte são identificáveis “em poucos sítios do planeta”. Assim, quando “a maioria das pessoas vê uma fotografia de Marte, vê a sua superfície e quase nunca vê nuvens”.

Nestes termos, observa a jornalista que “os dados deste novo estudo encabeçado por Francisco Brasil e Pedro Machado poderão, hipoteticamente, influenciar o momento escolhido para uma missão com destino à superfície de Marte, a partir da órbita do planeta”, pois, sabendo, “à partida”, a estação do ano em que este se encontra, a opção poderá passar por tentar levá-la a cabo, “por exemplo, numa altura em que se tenha menos turbulência, na atmosfera, de forma a ser feita uma aterragem mais suave”.

Questionado sobre a relevância que o estudo da atmosfera marciana tem para a comunidade científica do século XXI, Francisco Brasil referiu que “uma coisa também muito interessante em Marte” é que o planeta “acaba por ser um laboratório natural de alguns fenómenos que temos na Terra”, embora a um nível “extremamente exagerado”. E exemplificou, salientando que ainda não são claras as razões por trás dessas ocorrências: “Temos um fenómeno que é conhecido, que são as tempestades globais, em Marte, que cobrem, por completo, o planeta, e ainda não percebemos bem qual o gatilho que faz acionar essas tempestades.”

E Ema Gil Pires refere que astrofísico elucidou as tempestades “ocorrem, tipicamente, na primavera e no verão do Hemisfério Sul, quando Marte está mais próximo do Sol e o aquecimento da atmosfera é máximo, gerando muita turbulência”. Assim, o meio académico está a estudar quais serão as causas que motivam as tempestades globais, em Marte, derivadas, muitas vezes, da fusão de outras de menores dimensões e, por vezes, de nível local ou regional.

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Nas conclusões do estudo, lê-se que “as ondas atmosféricas foram detetadas, principalmente, no Hemisfério Norte de Marte, devido ao viés geométrico de observação das imagens OMEGA”, já que grande percentagem delas não atendia aos requisitos para deteção da presença das ondas. Os cientistas identificaram, “de forma semimanual, 263 pacotes de ondas, dos quais 125 foram caraterizados, morfologicamente, de forma manual”. Para avaliar o impacto das limitações observacionais, fizeram análise explícita de como o viés de seleção afeta os resultados. Tal abordagem, embora necessária para garantir a fiabilidade das observações, pode levar “à sub-representação de fenómenos atmosféricos que ocorrem fora das condições ideais”.

A distribuição dos pacotes de ondas detetados “varia entre as diferentes regiões”, apresentando algumas áreas a taxa de deteção máxima de 35%, enquanto a taxa média de deteção é de 8%, para o conjunto de dados filtrados. Embora a cobertura de dados seja mais densa no Hemisfério Sul, devido à geometria das observações, “as deteções de pacotes de ondas são mais frequentes no Hemisfério Norte”. Tal disparidade “surge da geometria de observação e das condições mais favoráveis ​​à deteção de ondas nesse hemisfério”.

As propriedades morfológicas das ondas gravitacionais, nomeadamente, os comprimentos de onda horizontais, “variam de seis a 83 km”. Os cientistas encontraram comprimentos de onda horizontais menores, “em grandes estruturas chamadas ruas de nuvens”. Alguns pacotes de ondas têm “comprimentos de onda horizontais de seis a oito quilómetros”.

A distribuição espacial das ondas gravitacionais encontra-se, predominantemente, no Hemisfério Norte, em regiões, como Alba Mons, Tempe Terra, Chryse Planitia, Bacia de Utopia, Elysium Mons e Tharsis Montes.  As ondas detetadas exibem variabilidade espacial e temporal, ocorrendo, predominantemente, em regiões com caraterísticas topográficas significativas, no inverno, em ambos os hemisférios e entre 13 e 17 horas LTST (Local True Solar Time). A atividade das ondas demonstra “maior frequência durante o dia”, particularmente, na faixa de 14 a 16 horas LTST. Além disso, a atividade das ondas é mais prevalente, no inverno, em ambos os hemisférios, sugerindo “uma relação entre variações sazonais e a geração de ondas de gravidade”. Durante o ano de 2028 (MY28), “a grande maioria das ondas detetadas ocorreu pouco antes do início da tempestade de poeira global que ocorreu naquele ano”, em Ls (list) = 260 °.

A deteção de ondas, predominantemente, no inverno, e a sua associação ao período diurno sugerem ainda que “os padrões sazonais de circulação atmosférica e o aquecimento solar podem aumentar a geração e a observabilidade de ondas gravitacionais orográficas”. Além disso, o aumento observado na atividade de ondas, pouco antes do início da referida tempestade de poeira, aponta para o potencial de “as ondas gravitacionais orográficas interagirem com eventos atmosféricos de grande escala e de, possivelmente, serem moduladas por eles”.

Em suma, o estudo ajuda à “compreensão das ondas gravitacionais marcianas e do potencial impacto na baixa atmosfera de Marte”, tal como dá “informações sobre a distribuição espacial e temporal das ondas gravitacionais e das suas propriedades morfológicas”.

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Foi descoberta atividade química em Marte, que pode conter potenciais sinais de vida microscópica antiga. Porém, é necessária análise aprofundada da amostra recolhida pelo rover Perseverance da NASA – idealmente, em laboratórios na Terra – antes de se chegar a quaisquer conclusões. E, embora reconheça que a última análise “não é, certamente, a resposta final”, o chefe da missão científica da NASA, Nicky Fox, disse que é “o mais próximo a que chegámos da descoberta de vida antiga em Marte”.

A percorrer Marte desde 2021, o rover não deteta, diretamente, vida, passada ou presente, mas transporta uma broca para penetrar nas rochas, a fim de guardar as amostras recolhidas em locais mais adequados para acolher vida, há milhares de milhões de anos.

Chamando-lhe “descoberta excitante”, cientistas que não estiveram envolvidos no estudo foram céleres a salientar que processos não biológicos podem ser responsáveis. Tudo o que se pode dizer é que uma das explicações possíveis é a vida microbiana, mas pode haver outras formas de criar este conjunto de caraterísticas. E seria espantoso poder demonstrar, de forma conclusiva, que estas caraterísticas foram formadas por algo que estava vivo, noutro planeta, há milhares de milhões de anos, mas, ainda que não seja o caso, trata-se de lição valiosa sobre todas as formas como a Natureza pode conspirar para nos enganar.

A amostra em causa provém de lamas avermelhadas, ricas em argila, em Neretva Vallis, um canal fluvial que outrora transportou água para a cratera de Jezero, uma grande depressão em Marte, com cerca de 45 km de diâmetro, acreditando os cientistas que abrigou um lago e um rio, há milhares de milhões de anos. Aquele afloramento de rocha sedimentar foi analisado pelos instrumentos científicos do Perseverance, antes da saída da broca.

Juntamente com o carbono orgânico, um bloco de construção da vida, os cientistas encontraram minúsculas manchas, apelidadas de sementes de papoila e manchas de leopardo, que eram enriquecidas com fosfato de ferro e sulfureto de ferro.

Não há provas da existência de micróbios em Marte, mas se houvesse micróbios, no Marte antigo, poderiam ter reduzido os minerais de sulfato, para formar sulfuretos num lago como o da cratera Jezero. Enfim, não há provas da existência de vida atual em Marte, mas a NASA, ao longo das décadas, tem enviado naves espaciais a Marte, em busca de ambientes aquosos passados que possam ter suportado vida, há muito tempo.

Até que as amostras sejam transportadas para fora de Marte por naves espaciais robóticas ou por astronautas, os cientistas terão de confiar em substitutos terrestres e em experiências de laboratório, para avaliarem a viabilidade da vida marciana antiga. Porém, 10 dos tubos de amostras de titânio recolhidos pelo Perseverance foram colocados na superfície marciana, há alguns anos, como reserva para o resto a bordo do rover.

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Marte é o quarto planeta a contar do Sol e o último dos quatro planetas telúricos (rochosos, com metais e com superfície onde se pode caminhar). O seu núcleo é de ferro e de enxofre, mas teve água no passado. Por isso, justificam-se as difíceis missões ao planeta.

2026.07.21 – Louro de Carvalho

As tartarugas-verdes escaparam da extinção, graças aos seus amigos

 

O número de tartarugas-verdes, outrora ameaçadas de extinção, aumentou 28%, desde os anos 70, apesar das ameaças persistentes à sua população. Assim, a sobrevivência destes répteis foi oficialmente reclassificada de “em perigo” para “pouco preocupante”, devido a décadas de conservação marinha.

A tartaruga-verde, tartaruga-aruanã ou só aruanã (nome científico: Chelonia mydas) é tartaruga marinha da família dos quelonídeos (Cheloniidae), cujp nome se deve à coloração esverdeada da gordura corporal, é o único membro do género Chelonia. A espécie, de grande porte (a maior tartaruga de carapaça dura), está distribuída por todos os oceanos, nas zonas de águas tropicais e subtropicais e de qualquer altitude do Mundo, sendo encontrados os indivíduos, habitualmente, em águas costeiras, em ilhas ou em baías, e encontrados, raramente, em alto-mar, com duas populações distintas: no Oceano Atlântico e no Oceano Pacífico. 

Tem o corpo achatado coberto por grande carapaça, possuindo quatro pares de placas laterais de queratina de coloração verde ou verde-acinzentadas, marrom com manchas negras e amareladas, quando juvenis, e dois grandes pares de nadadeiras. Além disso, a carapaça pode variar para tons em oliva-marrom e preto, no Pacífico Oriental. Ao contrário de outros membros da sua família, como a tartaruga-de-pente (Eretmochelys imbricata) e a tartaruga-comum (Caretta caretta), a tartaruga-verde é, principalmente, herbívora, após entrar na fase adulta, enquanto filhote é, predominantemente omnívora com tendências carnívoras. Os adultos habitam, geralmente, lagoas rasas, alimentando-se, principalmente, de ervas marinhas.

Como outras tartarugas marinhas, migram a longas distâncias, entre as áreas de alimentação e as suas praias de incubação. Muitas ilhas, em todo o Mundo, são conhecidas como ilhas das Tartarugas, por causa da nidificação das tartarugas-verdes das suas praias. As tartarugas fêmeas saem às praias e põem ovos em ninhos que escavam durante a noite. Mais tarde, emergem filhotes em direção à água. Os que sobrevivem alcançam a maturidade sexual ao fim de 20 a 50 anos e vivem até 80 anos em liberdade.

Como espécie ameaçada, assim classificada pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) e pela Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies Silvestres Ameaçadas de Extinção (CITES), a tartaruga-verde é protegida contra a exploração, na maioria dos países. É ilegal a sua recolha ou dano ou matá-la. E muitos países têm legislação para proteger as suas áreas de nidificação. Contudo, as populações de tartarugas ainda estão em perigo, por via de diversas práticas humanas. Em alguns países, as tartarugas e os seus ovos são caçados para alimento. A poluição indireta prejudica as tartarugas, tanto na população como a nível individual. Muitas morrem em consequência de terminarem nas redes de pescadores. E a destruição do habitat é uma grande fonte de perda de praias de nidificação.

O ciclo de vida inclui fases oceânicas e costeiras, sendo na fase oceânica que estes animais se encontram em águas açorianas. Em época de postura, as fêmeas fazem múltiplos ninhos, pondo entre 110 e 130 ovos, por ninho, no Atlântico Norte, dependendo o sexo da descendência da temperatura de incubação (sexo dependente da temperatura). O individuo adulto, em média, exibe tamanho (carapaça) de 90 a 120 centímetros, tem peso médio de 110 a 190 quilos. A forma da carapaça é oval, lisa e larga, sendo a sua cor verde-oliva a castanho-escuro. A cabeça é pequena e arredondada. Apresenta quatro pares de placas laterais, uma unha nas barbatanas anteriores e um par de placas pré-frontais (duas escamas acima dos olhos).

Os indivíduos juvenis passam os primeiros anos em águas oceânicas (associados a correntes e comunidades de Sargassum, no Atlântico Norte, nomeadamente, nos Açores) antes de recrutarem para habitats costeiros. Na fase oceânica, apresentam uma dieta mais oportunista, passando a herbívora, na fase costeira (alimentam-se de ervas marinhas e algas). E migram dos locais de alimentação para os locais de nidificação a cada dois a três anos.

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Encontradas, como se disse, em águas tropicais e subtropicais em todo o Mundo, a população global de tartarugas-verdes caiu para níveis preocupantes, na década de 1980, devido a anos de caça intensiva humana. A espécie era, frequentemente, abatida para fazer sopa e outras iguarias culinárias, enquanto os seus ovos eram usados como decoração em muitas culturas.

Todavia, após mais de 40 anos na lista vermelha da IUCN para espécies em perigo, as tartarugas-verdes conseguiram um regresso dramático.

No Congresso Mundial de Conservação da IUCN em Abu Dhabi, em outubro de 2025, foi anunciado que a população global de tartarugas-verdes aumentou, aproximadamente, 28%, desde a década de 1970. Isto significa que passaram de classificadas como “em perigo” para situação “pouco preocupante”, saltando as categorias “vulnerável” e “quase ameaçada”.

A recuperação deve-se a esforços de conservação focados em proteger as fêmeas nidificantes e os ovos nas praias, em reduzir a colheita insustentável de tartarugas e de ovos, para consumo humano, e em combater a captura acidental de tartarugas em equipamento de pesca.

Apesar de escaparem ao iminente risco de extinção, as continuam “significativamente reduzidas”, em comparação com os níveis anteriores à colonização europeia. “Isto é uma grande vitória para a conservação das tartarugas e a prova de que uma ação coordenada pode reverter populações em risco de extinção,” diz Christine Madden, líder global de conservação de tartarugas marinhas do Fundo Mundial para a Natureza, advertindo que, embora este “marco importante” seja positivo, agora, não é altura de “baixar a guarda”.

Na sua ótica, os esforços de conservação devem continuar, para que as populações de tartarugas-verdes prosperem e recuperem, em áreas onde continuam sob ameaça, por emaranhamento em equipamentos de pesca, por sobrepesca e por perda de habitats.

Roderic Mast da IUCN fez eco dessa advertência: “As tartarugas marinhas não podem sobreviver sem oceanos e [sem] costas saudáveis, e os humanos também não. São fundamentais esforços de conservação sustentados, para garantir que esta recuperação dure.”

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Enquanto as tartarugas-verdes foram retiradas da lista vermelha, os especialistas alertam que muitos outros animais continuam ameaçados.

As tartarugas, no Mar Adriático (um dos braços do Mediterrâneo, a Leste da Itália), sobretudo, no Norte, são perturbadas pelas alterações climáticas. Esta área serve de casa para a tartaruga Caretta (ou tartaruga-marinha-comum), a mais numerosa neste habitat, que se alimenta de caranguejos e de medusas. Contudo, também se avistam a tartaruga-verde (Chelonia mydas), menos comum e vista em zonas mais a Leste, bem como a tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea), a maior do Mundo, mas muito rara nesta região. 

Nos fins de junho de 2023, uma equipa de biólogos marinhos interveio numa praia de Cervia, na Itália, depois de uma tartaruga ter posto 91 ovos, muito perto dos veraneantes.

Elementos da Organização das Tartarugas do Adriático apanharam aqueles 91 ovos, postos pela tartaruga fêmea e levaram-nos para um novo ninho, que reconstruiram, exatamente, como o original, posicionando os ovos na mesma ordem em que foram postos. A nova localização ficou protegida por uma equipa de 130 voluntários, que se alternavam para garantir vigilância de 24 horas, por dia. E, na segunda metade de agosto, os ovos eclodiram e as pequenas tartarugas saíram para a areia. Sem pensarem duas vezes, começaram a correr para o mar.

A presença de tartarugas marinhas no Adriático não é ocorrência recente, mas, nos últimos anos, parecem apreciar nadar naquelas águas, também na época invernal – um efeito das alterações climáticas, no dizer dos peritos.

Simone D’Acunto, do Centro para a Proteção do Habitat, Cestha, sustentava que, devido às alterações climáticas e às águas cada vez mais quentes, as tartarugas tendem a ficar no Adriático, por períodos mais longos, e que, historicamente, entram naquelas águas, porque o Adriático superior é uma área de nutrição, mas, agora, ficam também durante o inverno, em vez de migrarem para águas mais quentes, como faziam no passado.

A iniciativa de proteção inclui também as tartarugas adultas, que são, nomeadamente, apanhadas em redes ou lesionadas por hélices de embarcações. E, na clínica para tartarugas, havia então meia centena de espécimes.

Também em julho de 2025, um casal de tartarugas das ilhas Galápagos do Jardim Zoológico de Filadélfia (Zoo), nos Estados Unidos da América (EUA), em perigo crítico de extinção e com quase 100 anos de idade, teve filhotes, pela primeira vez. O objetivo do Zoo era que estas crias fizessem parte de uma população próspera destas tartarugas, no futuro.

Num anúncio feito adrede, o jardim zoológico afirmou estar “radiante” com a chegada das quatro crias, uma estreia nos seus mais de 150 anos de História. Os bebés são filhos da fêmea Mommy e do macho Abrazzo, os dois residentes mais antigos do Zoo.

O quarteto foi mantido em segurança na Casa dos Répteis e Anfíbios, a comer e a crescer. Pesavam entre 70 e 80 gramas, aproximadamente, o peso do ovo de galinha. O primeiro ovo eclodiu a 27 de fevereiro e outros, que ainda podiam eclodir, eram monitorizados pela equipa de cuidados dos animais do Zoo. “Este é um marco significativo na História do Jardim Zoológico de Filadélfia e não podíamos estar mais entusiasmados por partilhar esta notícia com a nossa cidade, [com] a região e [com] o Mundo”, afirmou o presidente e diretor executivo, Jo-Elle Mogerman, em comunicado, vincando: “A mamã chegou ao Zoo, em 1932, o que significa que qualquer pessoa que tenha visitado o Zoo, nos últimos 92 anos, provavelmente já a viu.”

A ideia é que estas crias façam parte de uma população próspera de tartarugas das Galápagos, no planeta, saudável daqui a 100 anos.

A Mommy é considerada uma das tartarugas das Galápagos de maior valor genético no plano de sobrevivência de espécies da Associação de Zoos e Aquários (AZA SPP), que tem por objetivo assegurar a sobrevivência da tartaruga de Santa Cruz Ocidental das Galápagos e manter uma população geneticamente diversificada.

A espécie está classificada como “criticamente em perigo” pela IUCN, com ameaças que incluem conflitos entre o homem e a vida selvagem, a introdução de espécies invasoras e a perda de habitat. “A certa altura, cada uma das ilhas Galápagos tinha a sua própria tartaruga das Galápagos, mas, infelizmente, várias delas estão, agora, extintas”, disse Rachel Metz, vice-presidente do bem-estar e conservação animal do jardim zoológico, frisando: “Estas crias não só protegem a espécie da extinção como servem de embaixadores importantes para inspirar os visitantes a salvar a vida selvagem e os lugares selvagens.”

A tartaruga é a mãe de primeira viagem mais velha da sua espécie em qualquer jardim zoológico dos EUA, de acordo com a coordenadora do SSP da tartaruga das Galápagos e guardiã do livro genealógico, Ashley Ortega, do Gladys Porter Zoo, no Texas. “Antes das crias, havia apenas 44 indivíduos de tartarugas gigantes de Santa Cruz Ocidental em todos os jardins zoológicos dos EUA, pelo que estas novas adições representam uma nova linhagem genética e uma ajuda muito necessária para a população da espécie”, explicou.

A última ninhada de tartarugas deste tipo a eclodir num jardim zoológico acreditado pela AZA foi em 2019, no Riverbanks Zoo and Garden em Columbia, na Carolina do Sul. O Zoo de San Diego, o Zoo de Miami e o Zoo de Honolulu também têm pares reprodutores.

O jardim zoológico planeou uma estreia pública dos recém-nascidos, a 23 de abril, bem como um concurso de atribuição de nomes.

A tartaruga-das-galápagos (Chelonoidis nigra) é o maior réptil terrestre do Mundo, pesando até 400 quilos e medindo dois metros. Exclusiva do arquipélago equatoriano de Galápagos, é famosa pela longevidade de mais de 150 anos e por ter ajudado Charles Darwin na Teoria da Evolução das Espécies. Possui um metabolismo lento que lhe permite sobreviver até um ano, sem comida ou sem água. A forma do casco varia de acordo com as ilhas onde habita, dividindo-se em dois tipos: forma de cúpula (em ilhas de vegetação abundante e húmida) e forma de sela (em ilhas áridas: esticam o pescoço, para atingirem catos e arbustos).

No mesmo mês, uma tartaruga marinha adulta, a Pennywise, com 137 quilogramas, foi libertada no Oceano Atlântico, após recuperar de ferimentos causados por colisão com um barco na costa da Florida. Foi encontrada encalhada em maio e passou por reabilitação no Loggerhead Marinelife Centre. Devido ao seu tamanho, foi levada a uma clínica para cavalos, a fim de realizar exames, onde se descobriu que estava a transportar ovos. E, uma vez recuperada, regressou ao oceano, durante a época de nidificação da Florida, que decorre até outubro.

O referido centro apelou aos navegadores para reduzirem a velocidade nas Zonas de Proteção das Tartarugas Marinhas, onde são mais prováveis os encontros.

Aquelas tartarugas marinhas estavam classificadas como ameaçadas ou em perigo, e os conservacionistas sublinhavam a importância de as proteger, naquele período crítico.

Há também tartarugas que são molestadas pelo frio. Assim, em fins de março de 2025, após recuperarem de hipotermia (causada pelo frio extremo na Nova Inglaterra, nos EUA), 19 tartarugas marinhas foram libertadas no Oceano Atlântico, ao largo de Jacksonville, na Florida, com ajuda da organização sem fins lucrativos Turtles Fly Too e do Johnny Morris Sea Turtle Center, em Springfield. Uma vez reabilitadas no Missouri, foram devolvidas ao Atlântico.

As tartarugas, incluindo 20 espécies da tartaruga-cabeçuda e da Kemp, foram transportadas do Aquário da Nova Inglaterra, em Boston, para o Wonders of Wildlife National Museum & Aquarium, onde foram tratadas. Embora uma tartaruga, que se encontrava gravemente doente, não tenha sobrevivido, as demais receberam cuidados contínuos para recuperarem do frio extremo, condição desencadeada por quedas súbitas na temperatura da água.

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Além das tartarugas marinhas, também outras espécies marinhas estão em risco. Por exemplo, a foca-de-capuz passou de “vulnerável” para “em perigo”, e a foca-barbuda e a foca-da-Gronelândia passaram de “pouco preocupante” para “quase ameaçada”. Como “ameaça principal”, para estas focas do Ártico, foi citada a perda de gelo marinho, por via do aquecimento global, fazendo com que seja mais difícil reproduzirem-se, descansarem e alimentarem-se.

A atividade humana, como a caça, a sobrepesca e a exploração petrolífera, também pressiona as espécies. “As mudanças climáticas não são problema distante – estão a desenrolar-se, há décadas, e a ter impactos, aqui e agora,” diz Kit Kovacs da IUCN, avisando: “Proteger as focas do Ártico vai além dessas espécies. Trata-se de salvaguardar o equilíbrio delicado do Ártico, que é essencial para todos nós.”

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A preservação dos ecossistemas e da biodiversidade e a boa gestão das necessidades humanas postulam a proteção das espécies e o abandono das ações que as prejudiquem. Há que salvar o planeta e a Humanidade.

2026.07.21 – Louro de Carvalho