Em
noite iluminada por milhares de velas, na peregrinação aniversária
internacional de maio, em Fátima, os peregrinos foram desafiados a serem luz, num
Mundo ferido, por D. Rui Valério, patriarca de Lisboa e presidente das celebrações,
que lhes pediu que se tornem luz no Mundo. Porém, as asserções mais tocantes, vertidas
em epígrafe, ficaram para o dia 13.
Nestes dois dias da primeira grande peregrinação
de 2026, participaram nas celebrações 430 mil peregrinos, provenientes dos
cinco continentes.
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Cerca
de 250 mil peregrinos participaram nas celebrações do dia 12, no Santuário de
Fátima. Na homilia da Celebração da Palavra, D. Rui Valério exortou os
peregrinos a tornarem-se luz, num Mundo ferido pela guerra, pela violência,
pela divisão e pela solidão, que precisa de luz interior. “Não basta
acender uma vela. Não basta receber luz. É preciso tornar-se luz”, bradou o
patriarca, apresentando como caminho de santidade e de conversão interior a
prática diária do perdão, da reconciliação, da caridade concreta e da escuta
paciente de quem sofre.
O
metropolita lisbonense lembrou o contexto em que Nossa Senhora apareceu há 109
anos, na Cova da Iria, para fazer verificar a atualidade da mensagem de Fátima
no Mundo atual. “Em Fátima, Nossa Senhora não aparece com estrondo, nem com
imposição. Aparece como luz suave, como presença materna, como sinal de
esperança. Ela vem ao encontro de um Mundo ferido – como o nosso – e traz uma
mensagem simples e exigente: oração, penitência, conversão, confiança em Deus”,
lembrou o patriarca de Lisboa.
O
presidente da peregrinação apresentou, depois, as velas acesas, na procissão
das velas, como “uma imagem viva da Igreja”, que caminha junta, na diversidade.
“Caminhamos guiados pela fé. Caminhamos com Maria. Esta procissão é um
testemunho para o Mundo: a Igreja é um povo em caminho, que não desiste, que
não se resigna, que continua a acreditar que a luz vence as trevas”, afirmou D.
Rui Valério.
Na
conclusão, o patriarca de Lisboa desafiou os peregrinos a meditarem sobre a
forma como podem ser luz para o Mundo e pediu a intercessão de Nossa Senhora
neste desafio de conversão interior. “Que luz preciso de reacender em mim? Que
sombra preciso de entregar? Que ferida precisa de ser iluminada pela
graça? Entreguemos a Maria as nossas noites: os medos, as dúvidas, os
pecados, as feridas escondidas”, interpelou e exortou D. Rui Valério.
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A 13 de maio, o pano de fundo homilético foi a asserção
patriarcal de que “Fátima não é um ponto de chegada”, mas “um ponto de envio”.
Aliás, o cristianismo vive a dialética da aproximação ao centro – onde
pontifica a Eucaristia, sacramento da comunhão, do amor e da unidade e sacrifício
de Cristo – e o envio às periferias existenciais, incluindo as geográficas, as
sociais e as religiosas,
Neste 13 de maio, os peregrinos foram desafiados
a concretizarem a experiência e a mensagem de Fátima para o Mundo. Ou seja, os
peregrinos são chamados a ser luzeiros do Mundo e arautos da mensagem de
Fátima, que tem óbvias raízes evangélicas. Para tanto, necessitam de ir ao
santuário, seja ele o de Fátima, seja o da sua comunidade territorial, a paróquia
e a cabeça da diocese. Porém, não podem ficar especados no santuário. Há que
partir com luz e com ideias-força. Assim, pode dizer-se que Fátima foi apresentada
pelo presidente desta peregrinação internacional aniversária como um “ponto de
envio” a milhares de peregrinos reunidos no Recinto de Oração, que foram
exortados a serem missionários.
“Não basta admirar Fátima. É preciso viver
Fátima. Não basta acender uma vela. É preciso tornar-se luz. Não basta passar
por este lugar. É preciso deixar que este lugar passe pela nossa vida. “Fátima
não é um ponto de chegada. Fátima é um ponto de envio”, salientou o Patriarca
de Lisboa, na homilia da missa, ao exortar a gestos concretos para assumir a
missão pedida. “Partimos para levar esperança aos desanimados, partimos para
levar reconciliação aonde há divisão, partimos para levar paz aonde há
violência, partimos para levar luz aonde há trevas. Não tenhais medo de ser
luz. Não tenhais medo de ser santos. Não tenhais medo de mostrar ao Mundo a
beleza de Deus”, concretizou, em tom assertivo e exortativo.
D. Rui Valério perspetivou a paz mundial
não apenas como um acordo político, mas como resultado de uma
transformação pessoal e interior. “O cristão não leva ao Mundo apenas palavras.
Leva uma luz recebida. Leva um coração transformado. Leva uma paz nascida da
contemplação. Por isso, Fátima não é apenas um lugar de devoção. Fátima é uma
escola de transformação interior. Aqui aprendemos que a Humanidade só
reencontra o caminho, quando volta a levantar os olhos para Deus”, disse o
presidente da celebração, ao lançar aos peregrinos o desafio de levarem a
experiência de Fátima para o Mundo.
“Tudo aquilo que aqui vivemos – a oração, o
silêncio, a conversão, a reconciliação, a comunhão – não pode permanecer
encerrado nesta Cova da Iria. Tem de descer à vida. Tem de entrar nas nossas
casas, nas nossas famílias, nas nossas cidades e aldeias, no nosso trabalho,
nas nossas escolas e universidades, nas nossas relações, nas feridas e alegrias
do quotidiano”.
No dia do nono aniversário da canonização dos
Santos Pastorinhos, Rui Valério apontou para o exemplo dos irmãos santos Francisco
Marto e Jacinta Marto, para lembrar que, “quando Deus encontra um coração
disponível, uma pequena chama pode iluminar o Mundo inteiro”. E, ao admirar a
multidão de peregrinos que encheu o Recinto de Oração, o Patriarca de Lisboa
apelou à fraternidade como chave para a paz mundial. “Esta é uma das maiores
profecias de Fátima para o nosso tempo: a Humanidade só encontrará paz, quando
descobrir, novamente, que é família. Aqui ninguém é estrangeiro. Aqui ninguém
está sozinho. Aqui todos somos filhos acolhidos pela mesma Mãe”, concluiu.
No momento de adoração eucarística, os doentes
presentes na Cova da Iria e em casa foram os destinatários de uma palavra que
apresentou Nossa Senhora como guia e refúgio, nos momentos de maior desânimo e
sofrimento, e os santos Pastorinhos como exemplo de fé e de resiliência. “Como
os santos Pastorinhos Francisco e Jacinta Marto, unamos o nosso sofrimento ao
de Jesus na Cruz, pela paz, pela salvação do Mundo. Façamos da nossa
fragilidade um lugar de encontro, assumamos como nossas as palavras confiantes
de Lúcia, no seu diário: ‘Espero também na proteção do Imaculado Coração de
Maria, que será sempre o meu refúgio, o meu guia, a minha força, a luz do meu
caminho’”, lembrou a Irmã Inês Vasconcelos, da Congregação das Servas de
Nossa Senhora de Fátima.
Na palavra final, o bispo de Leiria-Fátima, D.
José Ornelas, agradeceu a presença de D. Rui Valério e reforçou o apelo à
fraternidade deixado pelo presidente da peregrinação. “Que o Coração de Maria
transforme o nosso coração. Com Ela e como Ela levemos às nossas casas, às
nossas comunidades cristãs, à Igreja e ao Mundo a mensagem de Fátima, mensagem
da Mãe que cuida de todos, que não distingue nacionais e estrangeiros, para
construir um Mundo mais humano, marcado pelo amor de Jesus, na justiça, na
fraternidade e na paz”, disse o prelado do Lis e anfitrião de tantos milhares
de peregrinos.
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Na Eucaristia deste 13 de maio, dia em que
passaram 45 anos sobre o atentado à vida do Papa São João Paulo II, foi usado o
cálice que o santo polaco ofereceu ao Santuário de Fátima.
Em Roma, após ter rezado no local do atentado, na
Praça de São Pedro, o Papa Leão XIV lembrou a festa litúrgica da Virgem Santa
Maria do Rosário de Fátima, durante a audiência geral de quarta-feira. Na
saudação aos fiéis de língua portuguesa, o Santo Padre apontou o olhar para a
Cova da Iria, onde já decorria a recitação do Rosário, na Capelinha das
Aparições. Disse o Santo Padre: “Saúdo os fiéis de língua portuguesa: Neste
dia, festa litúrgica da Virgem Santa Maria de Fátima, dirigimos o nosso olhar
para o Santuário, onde Nossa Senhora entregou aos três Pastorinhos uma mensagem
de paz. Naquele lugar, tão querido a todos os cristãos, encontram-se, hoje,
numerosos peregrinos, oriundos dos cinco continentes: a sua presença é sinal da
necessidade de consolação, de unidade e de esperança dos homens do nosso tempo.
Confiemos ao Imaculado Coração de Maria o clamor de paz e concórdia que se
eleva de todas as partes do Mundo, especialmente, dos povos afligidos pela
guerra. Para todos vós, a minha bênção!”
O Sumo Pontífice dedicou a sua catequese da audiência
geral a Maria, enfatizando sua “concretude histórica” como uma jovem chamada a
viver uma experiência extraordinária. À Virgem o Papa confiou o “clamor pela
paz” dos povos afligidos pela guerra.
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Na procissão e na missa internacional aniversária
da peregrinação, foi usada uma nova cruz processional com as respetivas
lanternas. A nova cruz tem a particularidade de ser adornada com um disco que
vai sendo alterado, consoante o tempo litúrgico.
“Se, no Tempo Comum, o resplendor se assume como
metáfora do tempo, à maneira de um mostrador solar, no tempo do Advento, no Natal,
na Quaresma e na Páscoa convocará as figuras e imagens bíblicas que a Igreja
também convoca para dizer o Evangelho de Cristo: José, Maria grávida, João
Batista e os Profetas (Advento); Maria, o Anjo e os Pastores, a estrela e os
Magos (Natal); Maria e João no Calvário (Quaresma); Madalena, as chamas do
Pentecostes e as flores da festa (Páscoa)”, explica a memória descritiva.
As peças litúrgicas, criadas pela artista
plástica Sílvia Patrício, com programa iconográfico de Marco Daniel Duarte,
foram concebidas em latão fundido e recortado e em madeira torneada, e têm
cerca de 2,5 metros de altura. Nas lanternas, as linhas decorativas, mais que
um mero ornamento, servem para reforçar o significado da chama, evocando a luz
que os peregrinos de Fátima carregam nas vigílias de oração e nas suas próprias
vidas. O movimento dinâmico dessas linhas inspira-se nos raios do sol, dando às
lanternas o sentido de elevação e de vida nova que nasce do Batismo.
Também
na celebração da Eucaristia, D. Rui Valério apresentou-se paramentado com uma
casula de bordado de Castelo Branco, oferecida ao Santuário por um grupo de
peregrinos. Segundo a memória
descritiva da casula, os motivos bordados foram inspirados no Salmo 44 (45):
“Com um manto multicolor é apresentada ao Rei”, da liturgia do dia 13. O manto
multicolor evoca “o jardim das origens, o novo Éden que adorna a nova Eva, a
Esposa de Cristo, a Igreja”. Nesse manto, “Maria representa a flor mais bela,
consubstanciando em si a primavera da Igreja”.
De
acordo com o documento, a expressão visual dos bordados evoca, por
representação visual metafórica, a diversidade de virtudes, a graça e a
santidade, encontradas em Maria, Mãe e imagem da Igreja.
A
memória descritiva refere que “o dia 13 de maio ocorre em tempo Pascal”. De
forma detalhada e particular, menciona que, “no cimo da casula, encontra-se a
Árvore da Vida coroada com o diadema real, repleta de flores, folhas e frutos”,
símbolo da “fecundidade de Maria, a Mãe da nova Humanidade, nascida da Páscoa
de Cristo onde nos tornamos filhos de uma só Mãe, figura e imagem da Igreja, já
coroada de glória, com o diadema real a coroar a árvore, que aqui evoca a
azinheira das aparições”.
Em
tom mais conclusivo, sublinha que “é este o mistério de Cristo celebrado em
Fátima, a vivência da fé em comunidade, onde o centro e cume de cada
peregrinação é a Eucaristia” e a casula é paramento daquele que “preside, em
nome e na pessoa de Cristo, à celebração do mistério Pascal, do povo reunido em
festa como num grande Cenáculo com Maria Mãe de Jesus”.
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A
afirmação de Rui Valério “Aqui, ninguém é estrangeiro” tocou o coração de
muitas pessoas e mereceu titular uma crónica de Luís Osório, escritor,
jornalista e cronista, no Diário de Notícias (DN), a 14 de maio.
Lembra
o cronista que o pai, dizendo que “era ateu graças a Deus”, seguia sempre pela
televisão a procissão das velas. Ao invés, a mãe, devota de Nossa Senhora, na
noite do nascimento de Luís Osório, rezara à Virgem e sonhara “com o bebé que
tinha na barriga”. Uma vez acordada, tranquilizou médicos e enfermeiras de que
a criança “estava bem”, quando eles duvidavam do êxito do parto.
Diz
o cronista que sempre ouviu esta narrativa que lhe apraz contar, talvez “por
saudades da mulher que arriscou a sua vida” para que ele existisse.
Não
faz ideia se Maria apareceu às três crianças – aliás, “as aparições não são dogma
para a Igreja” –, mas considera Fátima “um milagre”, que “há qualquer de
especial, naquele lugar, uma energia que não parece ser daqui”. E relata que,
da última vez em que lá esteve, escreveu perguntas no seu bloco de notas. “Onde
começa a humanidade? Onde começa o que somos? Que sopro nos anima? O que
realmente importa? Que perguntas não conhecemos? Que palavras estão por
inventar? Onde acaba o que acaba? E Deus? Em que parte de nós adormece? Tudo
começa, quando achamos que termina?”
Confessa
que foi isto que escreveu, “mas sem o talento de acertar na frase certa, a que
ontem, em Fátima, foi dita por Rui Valério, Patriarca de Lisboa”: “Aqui,
ninguém é estrangeiro.” E, conclui: “Por vezes, basta isto: a simplicidade de
uma frase que tudo diz, que é inquestionável para quem acredita que somos mais
do que os nossos miseráveis e terrenos instintos.”
Carla
Oliveira, uma das seguidoras do jornalista no Facebook, comentou assim: “Ali
ninguém é estrangeiro, porque o colo de uma mãe acolhe um filho, sem
estranheza. Ninguém é estranho, no colo de sua mãe. Fátima é isto: o colo de
uma MÃE que acolhe cada um dos seus filhos. E não, não há quem determine quem
são esses filhos, se os intelectuais, se os humildes, se os espirituais, se os
religiosos, se os religiosos assim assim... Todos os que procuram o colo de uma
mãe encontram-no em Fátima. Sem questões e sem julgamentos, simplesmente o
melhor colo que podemos ter, colo da MÃE. Ninguém é estrangeiro ao colo de sua
MÃE! Obrigada a D. Rui Valério, pela tradução do amor de mãe que se encontra em
Fátima.”
E
um dos seus seguidores, Rui Almeida, sustenta que “quem vai a Fátima, mesmo não
sendo crente (e muitos vão, mesmo de outras religiões) sente ali algo de
especial”.
Segundo
o seu testemunho, ele que é crente (“embora as aparições não sejam um dogma de
fé”), quando lá vai, sente “uma paz, uma tranquilidade e uma força” que não sente
em muitos lados. E confessa: “E vou lá, só porque sinto isso, sinto-me bem… não
vou cumprir promessas. Há mais de cem anos que é assim. Cada um que tire as
suas ilações. Há ali uma mistura de fé e de piedade popular que não é fácil
descrever. Aconselho mesmo a quem não tem fé que faça essa experiência; até
recomendo uma visita num sábado, fora das grandes datas.”
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Em
suma, Fátima prossegue a sua marcha eclesial, tocando os corações de muita
gente. Porém, como diz Lurdes Nobre, outra das seguidoras, “bem pode o
patriarca dizer as frases que quiser, mas, se gente que se diz da igreja, que
vai à missa ao domingo, que é filmada a rezar, depois apregoa coisas contra os
estrangeiros e o padre da paróquia [e os demais crentes] que frequenta não os
repreendem e os fazem ser humanistas (sic), esta frase é conversa para boi dormir”.
Com
efeito, o sentido do acolhimento, da inclusão de todos e do testemunho deve ser
obra em todas as comunidades paroquiais e similares.
2026.05.16 – Louro de Carvalho