O
presidente dos Estados Unidos América (EUA), Donald Trump tem-se preocupado com
a defesa e com a monitorização do Ártico, pelo que chegou a pretender o
controlo político-estratégico do Canadá e a ocupação da Gronelândia (pela
compra ou pela intervenção militar), a pretexto de que a Rússia estava a ultrapassar
o Ocidente, nesta matéria, até porque possui várias dezenas de navios quebra-gelos,
que facilitam a navegação naquele oceano.
Entretanto,
sabe-se que os quebra-gelos não são o único instrumento de defesa e de monitorização
do Ártico, como o demonstra João Azevedo no artigo intitulado “Como Portugal
moldou os novos submarinos do Canadá e afinou a defesa do Ártico”, publicado
pela Euronews, a 22 de abril, frisando que “Portugal é o primeiro país,
na História recente, a operar um submarino convencional sob o gelo do Ártico” e
que o Canadá estuda as adaptações da Marinha a esta missão, devendo incorporá-las
na sua nova frota.
De
acordo com o Centro Nacional de Dados sobre Neve e Gelo (NSIDC) dos EUA, o gelo
marinho do Ártico, que começou, em 1978, a ser monitorizado por satélites, vem recuando nas
últimas décadas (mais de 12%, em cada década, 80 mil quilómetros quadrados, por
ano). A 22 de março, findo o inverno, período de maior acumulação, terá sido
atingida a extensão máxima para 2026, isto é, 14,33 milhões de quilómetros
quadrados – “o pico mais baixo, desde que há registos”, o que se verifica pelo
segundo ano consecutivo.
Com
a região a sobreaquecer quase quatro vezes mais rápido do que o resto do
planeta, abrem-se novas rotas marítimas e oportunidades de negócio para países que,
há séculos, têm a mira no Extremo Norte da Terra, atraídos pelo isolamento do
local, pelas condições climáticas, propícias à investigação científica, e pela riqueza
natural aí depositada, do petróleo e gás aos minerais estratégicos. Recente
relatório do Conselho do Ártico regista o aumento de 40% no número de
navios únicos a operar nesta área, nos últimos 12 anos, tendo a distância
percorrida disparado 95%, de 6,1 milhões para 11,9 milhões de milhas náuticas. Trata-se,
sobretudo, de embarcações dos oito Estados árticos (os EUA, o Canadá, a Islândia,
a Noruega, a Suécia, a Finlândia, a Dinamarca e a Rússia) e das que entram na
zona delimitada por este Código Polar sob bandeira dos Estados Observadores do
Conselho do Ártico.
Embora
o degelo decorrente das alterações climáticas torne atrativa a incursão de
navios militares, de carga e de cruzeiro, a navegação a altas latitudes não
é fácil, nem pacífica.
Ekaterina
Uryupova, investigadora no Instituto do Ártico, admite que “ir para o espaço é
mais fácil do que pilotar e operar navios nas regiões polares”. Além dos
desafios da intensificação do tráfego marítimo, o aquecimento global deixa o
gelo mais fino, aumentando a fragmentação de glaciares e a formação de icebergs.
No verão, acentua-se o derretimento, mercê das temperaturas elevadas. As placas
de gelo à deriva na água, que são imprevisíveis, acumulam-se, quando colidem,
empurradas por ventos e por correntes oceânicas, evoluindo para uma espécie de cadeias
montanhosas à superfície (cristas) e debaixo de água (quilhas), atingindo as
formações subaquáticas dezenas de metros. Este é um dos grandes perigos para as
missões em submarino no Ártico. E no submersível convencional (com autonomia
limitada em imersão), há maior risco, porque, em zonas de cobertura densa,
será difícil ou impossível subir à superfície.
Além
disso, pode haver inundações e incêndios. Eric Moreno, veterano da Marinha dos
EUA e submarinista, entre 2001 e 2008, explicou ao The War Zone, website
especializado em assuntos de defesa, que, quanto mais espaço tiver o submarino,
“maior é a atmosfera disponível para ‘absorver’ um incêndio”, o que confere à
tripulação “mais tempo para reagir adequadamente”. Ao invés, a margem de
manobra é mais estreita num submarino tradicional, que tem propensão para mais
rápida acumulação do calor e do fumo.
Dadas
as condições extremas de operação, desde o final da década de 1950, a navegação
sob o gelo no Ártico tem sido reservada a submersíveis nucleares, a maioria com
mais de 100 metros de comprimento, de alta velocidade e com autonomia
praticamente irrestrita. Contudo, a Marinha portuguesa venceu todos os
receios, inclusive dos aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), e
levou o NRP Arpão, entre abril e junho de 2024, às profundezas das águas
glaciais, sendo a primeira a fazê-lo em submarino convencional na História
recente.
***
O NRP
Arpão (S161) é um submarino convencional de ataque da Classe
Tridente ao serviço da Marinha portuguesa, desde 2010, conhecido pela elevada
capacidade de furtividade (baixa emissão de ruído), pela capacidade de
transportar 16 torpedos e por ter sido o primeiro submarino português a navegar
sob o gelo do Ártico e a cruzar a linha do Equador.
A
guarnição, composta por 30 elementos e comandada pelo capitão de fragata
Taveira Pinto, ficou sob a placa de gelo, na zona da Gronelândia, durante
quatro dias, em missão inédita, pela mestria operacional e pelo esbatimento de
fronteiras julgadas inultrapassáveis, o que levou Portugal a juntar-se aos
EUA, ao Reino Unido e à Rússia, um leque restrito de países que operam sob a
calota polar, mas dispondo de submarinos movidos por reatores nucleares.
O
NRP Arpão largou da Base Naval de Lisboa, a 3 de abril de 2024, no âmbito da
operação da NATO Brilliant Shield, para uma missão de 78 dias,
apoiada pelas marinhas dos EUA, do Canadá e da Dinamarca, e incluiu várias
etapas, com 1800 horas de navegação, das quais 1500 em imersão. Finalizada a
primeira patrulha de 22 dias, de teste dos novos procedimentos e das alterações
feitas, a embarcação atracou no porto de Nuuk, na Gronelândia, onde se reabasteceu
de combustível e de comida. A viagem prosseguiu para Norte, passando o paralelo
66º33’N, que estabelece a fronteira do Círculo Polar Ártico, seguindo a
bordo o então chefe do Estado-Maior da Armada (CEMA), almirante Gouveia e Melo que
tinha idealizado a expedição, há mais de 10 anos. E, após 39 horas e 30 minutos
em imersão profunda sob gelo, procedeu-se à exploração da placa, o que implicou
fazer aberturas naturais, para hipotética subida de emergência e a
monitorização da largura e da densidade da cobertura congelada.
Este
feito foi suportado pela tecnologia de propulsão independente do ar ou AIP (Air
Independent Propulsion) que o Arpão possui – um sistema de células de
combustível, que, munido de depósitos de hidrogénio e de oxigénio, não
exige ar fresco para o carregamento das baterias, assegurando a produção de
energia debaixo de água, o que permite a estes submarinos diesel-elétricos ou
convencionais ampliar o tempo de submersão, até duas a três semanas.
Segundo
a Marinha portuguesa, a confiança para a missão partiu da “avaliação técnica
rigorosa de que a plataforma tinha caraterísticas intrínsecas compatíveis com
este tipo de ambiente”, mas não teria sucesso sem a “preparação exigente”,
de sete meses, com o “estudo aprofundado da área” e de “adaptações materiais
concretas”, após revisão dos sistemas do navio.
A
guarnição encontrou montanhas de gelo que se prolongavam “90 metros para
baixo” da superfície. Estes obstáculos são parte da “combinação complexa de
desafios”, desde “gelo fixo, gelo solto, icebergs” às “condições
acústicas muito diferentes das do mar aberto” e à “forte limitação das opções,
em caso de ocorrência de uma emergência a bordo”.
Uma
das medidas de mitigação de risco foi a instalação de um sonar de alta
frequência, com apoio do Instituto Hidrográfico, e de sensores
específicos, de forma a detetar gelo, a medir a sua espessura e a reforçar a
segurança da navegação. Foram também montadas proteções na torre, para
impedir que os mastros mais sensíveis, nomeadamente, o periscópio e o mastro
optrónico, colidissem com placas de gelo.
A
navegação em imersão, a profundidade que permite posicionar os mastros acima da
linha de água (cota periscópica), na Marginal Ice Zone ou Zona de Gelo
Marginal (MIZ), deixou vincados os méritos da missão portuguesa. Foi uma
manobra que causou geral espanto entre os aliados, confessa o comandante
Taveira Pinto, elegendo-a como o ponto alto da operação. A MIZ é a zona de
confluência entre a placa de gelo rígida e as águas abertas, na qual, pela
exposição a tempestades violentas e a ondas gigantes, os blocos de gelo se
partem mais rapidamente e ganham trajetórias imprevisíveis.
Desde
a II Guerra Mundial, nenhum submarino do Ocidente se atrevera a operar nesta
área “altamente problemática” e de grande “incerteza”, onde a deteção e a
manobra se tornam mais complexas, pelo “gelo fragmentado, pelas placas de
dimensão variável, pelo ruído ambiental muito elevado e pela presença de vida
marinha, que degrada a normal utilização do sonar como sensor principal de
segurança”. O uso dos instrumentos, neste contexto caótico, é tarefa de
especial sensibilidade, devido ao “risco físico associado”. As placas de
gelo podem apresentar uma dimensão que provoque danos estruturais, se entrarem
em contacto com a embarcação. “Foi por isso que a técnica desenvolvida
pelo NRP Arpão para regressar à cota periscópica fez a
diferença e permitiu transformar uma área tradicionalmente evitada num
espaço onde passou a ser possível operar com segurança aceitável”, sustenta a
Marinha, vincando que o exercício proporcionou liberdade de ação e flexibilizou
as operações submarinos no Ártico.
O
Arpão trouxe “inovação tática em ambiente real”, com “capacidade de
adaptação” a “teatro em que o acesso, a sobrevivência e a discrição dependem de
decisões muito finas”. Assim, Portugal “produziu conhecimento
operacionalmente relevante para os aliados”, plasmado num manual de navegação
no Ártico – uma base abrangente que facilita o trabalho de quem decidir lançar-se,
no futuro, em incursões na região – e sistematizou saberes que são “ferramenta
de doutrina”, que ilustra lições colhidas a partir da experiência real. São ensinamentos
tidos em conta pelo Canadá, aliado de Portugal na NATO, para os
ajustamentos necessários à sua nova frota de submarinos e para assegurar a
aptidão dos mesmos para operações no Ártico canadiano, que ocupa 40% do
território e mais de 70% da linha costeira do país.
A
observação do Arpão em operações perto, por cima e debaixo do gelo, segundo o vice-comandante
da Força Submarina do Canadá, ajudará Otava na modernização dos seus
submersíveis, tanto mais que “um dos principais requisitos” do programa de
aquisição em curso é a “capacidade de operar no ambiente do Ártico”. Este
projeto foi lançado, em 2021, para estudar os ambientes operacionais e, depois,
definir as caraterísticas e a tecnologia dos futuros submarinos da Marinha
canadiana, substitutos da atual frota (quatro embarcações), pertencente à
classe Victoria, adquirida ao Reino Unido, em segunda mão, em 1998, e
programada para sair de serviço, no final da década de 2030.
O
ex-primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, não excluiu a hipótese de
propulsão nuclear, o que as autoridades de defesa do país rejeitaram, por causa
do elevado custo. Porém, em agosto de 2025, o governo canadiano, liderado
por Mark Carney, confirmou a intenção de comprar até 12 submarinos, “com
alcance e autonomia alargados que proporcionarão discrição, persistência e
letalidade como capacidades-chave”. Efetivamente, o Canadá, que tem a costa
mais extensa do Mundo (mais de 202 mil quilómetros) precisa de condições de
“detetar, rastrear, dissuadir e, se necessário, derrotar adversários” nos
“três oceanos” do país.
Mesmo
com submarinos convencionais, a aposta implica enorme despesa. Há quem aponte
para 60 mil milhões de dólares, mas analistas do campo da defesa preveem
um custo total na ordem dos 100 mil milhões de dólares, como reportou o
jornal canadiano Ottawa Citizen, segundo o qual pode ser a
maior aquisição militar de sempre na História do Canadá. O governo quer
acelerar o processo e o contrato pode ser assinado neste ano, mas a Marinha
canadiana estimou, em 2025, que o primeiro submarino só ficaria operacional em
2037.
Os
novos submersíveis não possuirão todas as capacidades para navegação sob o gelo
ártico, revelou Angus Topshee, vice-almirante da Marinha do Canadá, citado pelo
jornal The Globe and Mail. É aqui que entra Portugal: as modificações
e acrescentos do Arpão orientarão o trabalho de apetrechamento, a fazer após a
entrega, a nível da estrutura e do equipamento especializado. A colocação de
proteções para abrigar os mastros e aumentar a resistência das torres, uma das adaptações
portuguesas, surge como exigência (a segurança é a prioridade) para evitar
danos estruturais, acautelando eventual cenário de emergência que implique
romper o gelo. E outro aspeto crucial é a eficácia, garantida, em grande
parte, pelo sonar especializado no topo da torre, que foi útil para mapear o
gelo, na parte de cima, e para detetar águas abertas.
A
mistura de águas doces com águas salgadas também pode influir na transmissão e
análise do som. As gravações dos Portugueses serão, pois, importante
recurso de apoio, para que, por exemplo, haja noção dos ecos falsos
próximos do gelo e seja aprimorada a deteção.
***
De
momento, não há planos para novas missões de submarinos portugueses no Ártico, em
função de outras prioridades operacionais e estratégicas, mas Portugal continua
atento ao que acontece na região, onde se intensifica a disputa geopolítica. De
facto, o Ártico está cada vez mais militarizado. A Rússia tem, na península
de Kola, que faz fronteira com a Noruega e com a Finlândia, uma das maiores
concentrações de armas nucleares do Mundo, operando, aí, submarinos com
capacidade para transportar dezenas de ogivas, cada um. E assiste-se ao aumento
da presença submarina russa perto da passagem de GIUK, ponto estratégico no
Atlântico Norte, entre a Gronelândia, a Islândia e o Reino Unido, de crucial
importância para o acesso às águas atlânticas a partir do Ártico.
Por
sua vez, a China, autoproclamou-se, em 2018, “Estado quase ártico” e continua a
investir na “Rota da Seda Polar”, isto é, o plano de criação de percursos
marítimos comerciais pelo oceano Ártico, para reduzir o tempo de viagem entre a
Ásia e a Europa para 18 dias.
Perante
esta escalada de cobiça, a Marinha portuguesa diz-se empenhada no esforço
coletivo da estabilidade do Extremo Norte, mas realça que “a dissuasão e a defesa
da área euroatlântica não se fazem de forma abstrata”. E o que a missão levada
a cabo pelo Arpão também revela é que Portugal e outros países, apesar das
restrições dos submarinos convencionais, têm potencial para desempenhar
papel ativo no combate subaquático, inclusive sob o gelo.
Politicamente,
Portugal provou ser ator credível na defesa da NATO, com um raio de atuação muito
além da sua área imediata, em espaços geográficos distantes do seu território
continental, mas ligados à segurança do Atlântico. E, num momento em que a NATO
reforça a atenção ao High North, países que já provaram capacidade
de operar nesse ambiente tornam-se parceiros valiosos. E a relevância
estratégica de um país da dimensão de Portugal não reside só na escala de meios,
mas também “na capacidade de oferecer competências diferenciadas e úteis à
Aliança”. Por isso, a Marinha acompanhará os desenvolvimentos no Ártico e está preparada
para contribuir em cenários semelhantes, especialmente, no âmbito da NATO.
***
E,
se o Ártico – de mais de 16 milhões de quilómetros quadrados –, não tiver gelo,
no final do verão de 2027, como estará o clima, a navegação, as pessoas e os
ursos polares?
2026.04.22
– Louro de Carvalho