quarta-feira, 3 de junho de 2026

Lisboa é a capital europeia menos acessível para viver

 

Em toda a Europa, o custo de uma vida confortável tem aumentado, gradualmente, muitas vezes, mais do que o salário médio consegue acompanhar. Em 2026, alimentos, serviços, arrendamento, transporte e itens básicos de higiene pessoal ficam mais caros, em cada mês. E, enquanto algumas capitais europeias oferecem aos seus residentes um poder de compra suficiente, para fazerem face às despesas diárias e para viverem confortavelmente, noutras, isso torna-se cada vez mais difícil, mesmo para pessoas que auferem o salário médio.

A equipa da Traginpedia, coordenada por Michael Fisher, analisou o custo de vida e os salários locais em 37 países europeus, com foco nas capitais, comparando os custos mensais básicos para uma pessoa solteira e para uma família de quatro pessoas, incluindo alimentação, habitação, transporte, cuidados pessoais e lazer. Com esses dados, estimou o rendimento mensal necessário para viver com relativo conforto e quanto poderia ser economizado com ajustes inteligentes no estilo de vida nas capitais mais emblemáticas da Europa.

O cálculo do custo de vida inclui: na alimentação, custos mensais para uma quantidade mínima de queijo local, peito de frango desossado, ovos, coca-cola, maçãs, tomates, batatas, leite integral e pão; no alojamento, a renda mensal de um apartamento mobilado de 45 metros quadrados (m²), para uma pessoa, ou de um apartamento de 85m² fora de áreas caras ou centrais, para família de quatro pessoas, incluindo água, luz, Internet e produtos básicos de higiene pessoal; no transporte, passe mensal de transporte público, para uma pessoa, e preços médios de combustível, para famílias que viajam de carro; na higiene pessoal, o corte de cabelo masculino padrão, desodorizante, absorventes internos, xampu, dentífrico e papel higiénico; e, no entretenimento, cinema e teatro, refeições em restaurantes, jantares em pubs, coquetéis, cerveja, café e uma mensalidade de academia.

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Nestes termos, entre as capitais mais baratas da Europa, numa classificação por despesas mensais básicas, Sarajevo, na Bósnia e Herzegovina é a capital mais barata em 2026, com o custo de vida médio mensal de 584 euros (€), para uma pessoa solteira.

Minsk, na Bielorrússia, vem a seguir, com despesas mensais médias de 596€, destacando-se pelo custo de vida muito equilibrado, sobretudo, na habitação e nos transportes.

Viver confortavelmente em Chisinau, capital da Moldávia, custa aproximadamente 626€, por mês, o que a torna a terceira capital mais barata da Europa.

Skopje, na Macedónia do Norte também figura entre as capitais europeias mais económicas, com despesas mensais médias de 702€, por pessoa.

Podgorica, no Montenegro, completa a lista das capitais mais baratas da Europa, com um custo de vida mensal estimado em 760€. Esta capital combina custos de habitação moderados, em torno de €443 por mês, com preços de alimentos comparativamente acessíveis, onde uma cesta básica de compras custa, em média, 110€, por mês. Apesar do aumento dos preços na Europa, Podgorica continua a ser uma das capitais mais baratas do continente.

Entre as capitais mais caras da Europa, segundo o mesmo critério, surge à cabeça, Londres, no Reino Unido, com despesas mensais estimadas em 3611€, para um residente, liderando os rankings de habitação, de entretenimento e de transporte. A habitação é o item que mais pesa.

Berna, capital da Suíça, vem a seguir, com o custo de vida médio mensal de 3244€. Como a Suíça não é membro da União Europeia (UE), não está sujeita aos acordos comerciais que ajudam a manter os preços competitivos em toda a UE, o que, aliado ao facto de o franco suíço ser uma das moedas mais fortes do Mundo, eleva o custo de tudo, incluindo as importações. Assim, uma cesta básica média, para uma pessoa solteira custa 332,94€, por mês.

Reiquejavique, na Islândia, ocupa o terceiro lugar, com despesas mensais médias próximas de 2972€, um dos custos de vida mais altos da Europa, devido ao isolamento geográfico do país, onde quase tudo precisa de ser importado, com todos os custos de transporte e de logística repassados ​​diretamente aos consumidores.  

Amesterdão, nos Países Baixos, é a quarta capital mais cara da Europa, com um custo de vida mensal estimado em 2668€, registando a grave escassez de habitações, que se vem acumulando, há décadas. A cidade é geograficamente limitada pela sua rede de canais e de terras recuperadas do mar, o que significa que a expansão é lenta e complexa, enquanto a demanda de trabalhadores internacionais e turistas continua a crescer.

Dublin, na Irlanda, é a quinta capital mais cara da Europa, com um custo de vida médio mensal de 2396€, sendo a habitação o principal fator de pressão.

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Comparar preços pode enganar, pois o impacto real do custo de vida depende do rendimento local. Uma cidade pode parecer “barata” no papel, mas, se os salários médios forem baixos, as despesas diárias engolem grande parte do rendimento dos moradores. Analisar o rendimento local, juntamente com os preços, mede a acessibilidade financeira – mostrando quão acessíveis são, para as pessoas, a habitação, a alimentação, o transporte ou o lazer. Na Europa, isso é muito importante, pois, embora os preços ao consumidor, em muitos setores, sejam muito semelhantes, em todo o continente, os salários variam drasticamente.

Assim, entre as cidades europeias mais acessíveis, para uma pessoa solteira, Bruxelas surge como a capital europeia mais acessível, apesar do alto padrão de vida. Com efeito, embora as despesas mensais dessa pessoa totalizem 1444€, representam 49% do salário médio mensal, após impostos, de 2945€. Como centro administrativo da UE, tem os serviços públicos bem financiados e os custos de infraestrutura distribuídos e evitou a inflação imobiliária descontrolada.

Copenhaga, na Dinamarca, é a segunda capital mais acessível para os cidadãos, com despesas mensais médias de 2119€. Parece muito, mas considerando o salário médio de 4204€, tais despesas representam cerca de 50,4% do salário típico dinamarquês.

Apesar da reputação da Suíça com cidades caras, Berna, a sua capital, está entre as cidades mais acessíveis da Europa, para residentes que recebem o salário médio. As despesas mensais de uma pessoa solteira giram em torno de 3244€, mas, com um salário líquido médio de 6424€, esses custos representam apenas 50,5% do rendimento mensal.  

As despesas de vida típicas para uma pessoa solteira, no Luxemburgo, chegam a 2333€, cerca de 50,9% do salário médio de 4580€. Sendo um dos países mais ricos do Mundo, em rendimento per capita, os altos salários são impulsionados pelo seu setor financeiro robusto e pelo seu papel como centro das instituições europeias.

Estocolmo, na Suécia, é considerada, há muito tempo, uma das capitais mais caras da Europa, impulsionada, principalmente, pelos altos custos de habitação e de transporte. Arrendar um pequeno apartamento mobilado de 45 m², com contas de água, luz e Internet inclusas, custa, em média, cerca de 1188€, por mês.

Entre as cidades europeias menos acessíveis, para uma pessoa solteira, vem no topo, Lisboa. Apesar de o salário médio mensal atingir 1343€, superior ao de cidades, como Atenas (1157€) e Belgrado (1084€), os residentes enfrentam um custo de vida estimado em1631€, cerca de 127% do salário mensal típico da cidade. A habitação é, de longe, o maior fardo financeiro. Apesar do crescente apelo de Lisboa entre nómadas digitais e trabalhadores internacionais, o rápido aumento do custo de vida exerce pressão significativa sobre os residentes.

Além de ser a sétima capital mais barata entre as 37 capitais europeias analisadas, Tirana, na Albânia, é a segunda menos acessível, para os residentes, devido aos salários excecionalmente baixos. O salário médio mensal na capital albanesa é de 760€, enquanto as despesas estimadas com a habitação (a habitação é o maior fardo) chegam a 853€, por mês.

Atenas, na Grécia, vem logo em seguida, com um custo de vida mensal estimado em 1151€, que consome, integralmente, o salário médio mensal da cidade, de 1157€. A habitação continua relativamente cara, em comparação com os rendimentos locais. Apesar do apelo duradouro da capital grega e dos preços, comparativamente moderados, para os padrões da Europa Ocidental, o poder de compra da população continua bastante limitado.

Varsóvia mantém-se como uma das capitais europeias mais caras, para moradores solteiros, embora a situação da cidade tenha melhorado, em comparação com 2025. As despesas médias mensais, em 2026, totalizam 1836€, contra salários de cerca de 1911€, deixando os moradores com apenas cerca de 74€ no final do mês.

Roma, na Itália, também figura entre as cinco capitais europeias menos acessíveis, em 2026. Um residente solteiro com o salário médio local de 1790€ gasta cerca de 1674 €, por mês, com despesas de subsistência, restando apenas cerca de 116€, após cobrir o essencial. Embora Roma continue a ser mais barata do que muitas das principais capitais da Europa Ocidental, em termos absolutos, os salários locais, relativamente modestos, tornam a vida confortável na cidade cada vez mais difícil, para os cidadãos que recebem o salário médio.

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Para as famílias, o panorama da acessibilidade varia, significativamente, na Europa. Em cidades como Berna, Luxemburgo e Copenhaga, dois salários médios são mais do que suficientes para sustentar uma família de quatro pessoas, deixando margem considerável para poupanças. Em Berna, as despesas familiares representam 33,8% do rendimento familiar combinado, o que significa que as famílias têm mais de 8500€ para pouparem ou gastarem como quiserem. Luxemburgo surge a seguir, com 38,8%, enquanto, em Copenhaga, os custos de vida familiar consomem 43,7% dos rendimentos combinados. Bruxelas e Amesterdão também figuram entre as capitais mais acessíveis da Europa para famílias, onde as despesas representam 45% e 47,2% dos orçamentos familiares com dois rendimentos.

No outro extremo do ranking, Lisboa figura como a capital menos acessível para famílias na Europa, com as despesas mensais consumindo 95,8% do rendimento familiar conjunto. Tirana vem a seguir, com 89%, enquanto, em Atenas, os custos de vida familiar absorvem 82,3% do rendimento conjunto. Roma e Varsóvia completam a lista das cinco piores, onde as despesas médias familiares consomem 72,4% e 76,8% dos salários conjuntos, respetivamente.

A acessibilidade à habitação continua a ser uma das linhas divisórias mais claras entre as capitais europeias. Lisboa figura como a cidade menos acessível, para inquilinos, com o custo de um apartamento mobilado de 45m², incluindo contas de água, luz e Internet, em média, 226€, por mês, o equivalente a 91,3% do salário médio mensal de 1343€. Em Varsóvia, o mesmo apartamento custa 1303€, por mês, 68,2% do rendimento médio. Tirana também está entre as cidades menos acessíveis, em termos de habitação, onde o arrendamento e as contas de água, luz e gás custam, em média, 504€, por mês, consumindo 66,3% do salário médio. Roma (na Itália) e Belgrado (na Sérvia) ocupam o 4.º e o 5.º lugar, respetivamente, com os custos de habitação em, respetivamente, 62,6% e 61,5% dos salários médios.

No extremo oposto do ranking, Bruxelas destaca-se como a capital mais acessível da Europa, em termos de habitação, face aos salários locais. Estocolmo e Berna também figuram entre as capitais mais acessíveis da Europa, para inquilinos, face aos rendimentos. No entanto, Sófia, na Bulgária, destaca-se como um caso atípico. Ao invés das capitais mais ricas do Norte e do Oeste da Europa que a cercam no ranking, esta capital alcança a sua acessibilidade por meio de arrendamentos comparativamente baixos, em vez de salários excecionalmente altos.

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Entre as capitais europeias onde o custo de vida mais aumentou, destaca-se o Luxemburgo, com o aumento mais significativo no custo de vida, face aos salários, entre 2025 e 2026. Em 2025, um residente solteiro com salário médio gastava cerca de 40% em despesas diárias, percentagem que subiu 10,9%, chegando a 50,9%, em 2026. O custo de vida aumentou moderadamente, mas a acentuada deterioração da acessibilidade financeira foi resultado direto do crescimento salarial mais lento e da redução da remuneração líquida, após mudanças nas contribuições previdenciárias do país e uma pausa prolongada na indexação salarial automática.  Berna ficou logo atrás, com o custo de vida a subir de 40,6% para 50,5% da média salarial. Em Roma, o custo de vida mensal subiu de 83,6% para 93,5% do salário médio, impulsionado, principalmente, pelo aumento do custo típico de habitação, para uma pessoa solteira, de 948€ para 1121€, por mês. Em Helsínquia, na Finlândia, o custo de vida subiu de 50,1% para 57,8% do salário médio, no último ano. O custo da habitação, para uma pessoa solteira, aumentou de 889€ para 994€, por mês, principalmente, devido ao aumento dos custos de financiamento e manutenção.

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Lisboa é, pois, a capital europeia menos acessível, para uma pessoa solteira ou para uma família, em 2026. Apesar de os salários médios mensais atingirem os 1343€, superiores aos de cidades, como Atenas (1157€) e Belgrado (1084€), os lisboetas enfrentam “despesas de subsistência estimadas em 1631€, cerca de 127% do salário mensal típico da cidade. Segundo a Tradingpedia, “a habitação é, longe, o maior fardo financeiro da cidade, com um apartamento mobilado de 45 m2 e as contas de serviços públicos a custarem cerca de 1226 euros, por mês, mais do dobro dos custos de habitação observados em muitas capitais europeias com níveis salariais semelhantes”. Só a renda consome mais de 91% do salário médio local.

De acordo com o estudo da Tradingpedia, Lisboa é também a capital menos acessível da Europa, para as famílias, com as despesas mensais a consumirem 95,8% do rendimento familiar combinado. E, em Lisboa, os residentes enfrentam um défice mensal de 288€, enquanto, por exemplo, os de Tirana ficam com um défice de 93€.

Os analistas da Tradingpedia compararam os dados de 37 capitais europeias, considerando as despesas diárias e os salários líquidos mensais médios (o salário real, após as deduções e os impostos serem retidos do salário bruto). E consideram Bruxelas a capital “mais acessível da Europa, em 2026”, com os custos essenciais, como a habitação, a alimentação, os cuidados pessoais e os transportes, a representarem 1444€, apenas 49% do salário médio mensal.

Finalmente, é de referir que um estudo EAPN Portugal/Rede Europeia Antipobreza, publicado na última semana de maio, revela que a sobrecarga com a habitação eleva a percentagem da população em risco de pobreza para quase 28%. Todavia, poderá haver mais famílias em risco, já que são cada vez mais frequentes as situações de grande vulnerabilidade.

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Nas estrelinhas, percebe-se que organização e planeamento, apoio público, oferta habitacional acessível e salários médios altos geram produtividade e competitividade, assim como ajudam a encarar o custo de vida. Ao invés, salário baixo e vida cara não geram produtividade, nem competitividade, mas enriquecem uns tantos e derrotam um cidadão, na dignidade e na sua saúde.   

2026.06.03 – Louro de Carvalho

Tesouros quase bimilenares sob a catedral de Notre-Dame, em Paris

 

No fim de 2024, após anos de restauração, subsequente ao incêndio de 2019, foi reaberta a catedral de Notre-Dame. Paralelamente, a prefeitura de Paris iniciou o projeto de transformação da área envolvente num espaço mais arborizado e agradável, mas, antes de qualquer intervenção urbana, tornou-se necessário investigar o que jazia sob o solo.

A este respeito, a revista “Aventuras da História” publicou, a 2 de junho, um texto jornalístico de Mariana Lima, sob o título “Arqueólogos revelam dois mil anos de História sob Notre-Dame”, segundo o qual, enquanto filas de turistas visitam a catedral, arqueólogos trabalham numa escavação considerada a “escavação do século” pela imprensa francesa.

Também, em Portugal, o Diário de Notícias (DN), no mesmo dia, publicou um texto jornalístico intitulado “Debaixo da catedral de Notre-Dame, a ‘escavação do século’ revela 1700 anos de História”, em que David Pereira, citando a Associated Press (AP), se refere ao tema, em termos similares aos de Mariana Lima.  

De acordo com a reportagem da revista “Indendent”, abriu-se um grande sítio arqueológico numa parte da praça, tendo a escavação revelado centenas de objetos que ajudam a reconstruir cerca de 20 séculos da História de Paris. Segundo os arqueólogos envolvidos no projeto, os primeiros vestígios históricos aparecem a apenas 50 centímetros de profundidade. No entanto, as equipas continuaram a trabalhar até quatro metros abaixo da superfície atual.

Camille Colonna, a arqueóloga responsável pelas escavações, observou que, aquando do início da construção de Notre-Dame, em 1163, toda a área da praça era ocupada por casas medievais, separadas por uma única rua, das quais foram encontrados os porões, durante as escavações. E, abaixo dessas estruturas, os investigadores identificaram poços de armazenamento de grãos dos períodos merovíngio e carolíngio, datados entre os séculos VI e X. A níveis ainda mais profundos surgiram vestígios dum bairro romano dos séculos IV e V. Ao todo, cerca de 20 séculos de ocupação humana estão concentrados em quatro metros de terra. Entre os objetos encontrados está uma moeda do século VI com a imagem do imperador Constantino, que parecia, de início, um disco escurecido pelo tempo, mas exames de raio-X revelaram a origem.

Também os arqueólogos encontraram diversos fragmentos de cerâmica medieval. Durante o processo de limpeza desses objetos, foram identificadas marcas avermelhadas pintadas no seu interior, que aparecem, repetidamente, em diferentes fragmentos. O significado das inscrições ainda não foi decifrado, o que as transformou num dos mistérios intrigantes da escavação.

Algumas das descobertas mais surpreendentes vieram de antigos poços localizados sob as ditas casas medievais, os quais funcionavam como latrinas e como locais de descarte de resíduos. Foi nesse ambiente que os arqueólogos encontraram jarros, xícaras e outros recipientes praticamente intactos, bem como pratos quebrados e ossos de animais. Segundo os arqueólogos, a composição orgânica desses poços ajudou a preservar muitos dos objetos ao longo dos séculos, permitindo que peças completas chegassem aos nossos dias.

As descobertas conexas com o período romano, em que Paris era conhecida como Lutécia, estão entre as mais importantes do projeto. Os arqueólogos explicam que, no declínio do Império Romano, a população passou a concentrar-se na Île de la Cité, a mesma onde Notre-Dame seria construída séculos depois. E, durante a escavação, a equipa encontrou evidências desse processo, como, por exemplo uma antiga porta romana que fazia parte de uma estrutura maior, mas que foi, em algum momento, removida, transportada e reutilizada como pavimentação de uma estrada. Para os especialistas, esses achados ajudam a compreender melhor um dos períodos menos conhecidos da História da cidade.

Todos os objetos encontrados são enviados para o centro arqueológico da cidade de Paris, onde passam por análise e conservação, enquanto o projeto de renovação da praça prossegue, prevendo-se que o espaço receba cerca de 160 novas árvores e áreas destinadas a amenizar o calor no verão. Também está prevista a reabertura do antigo estacionamento subterrâneo como um centro de visitantes com vista para o rio Sena. E, apesar dos avanços obtidos, os arqueólogos esperam ir mais fundo. O objetivo é alcançar vestígios anteriores ao período romano e descobrir mais evidências dos povos que habitavam a região antes do surgimento de Paris.

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Na citada revista “Indendent”, de 2 de junho, sob o título “Arqueólogos que escavam sob Notre-Dame descobrem 2000 anos de História”, Thomas Adamson e Jeffrey Schaeffer sustentam que, enquanto os turistas sobem à catedral e admiram as suas gárgulas icónicas, se opera uma Parte inferior do formulário

profunda imersão no passado de Paris, em consequência do incêndio do templo e dos planos subsequentes de revitalização do pátio frontal. Numa cidade rica em História, nenhum terreno pode ser perturbado, sem se escavar o que se encontra abaixo, protegendo-o contra possíveis danos a artefactos históricos de valor inestimável. Por isso, parte do pátio frontal de Notre-Dame foi transformada em sítio arqueológico ativo. E Lucie Altenburg, conservadora da unidade de arqueologia de Paris, vincou a importância do projeto, afirmando: “É uma oportunidade rara para nós trabalharmos em algo que fará uma diferença na História de Paris.”

Falando da moeda do século IV e dos intrigantes fragmentos de cerâmica medieval, diz tratar-se de um mistério que levou alguns a compará-lo a um “Código Da Vinci moderno”. Por outro lado, as descobertas têm cativado os visitantes, para os quais Notre-Dame parecer viva, novamente. Ao irem ver a catedral, percebem que há outra cidade sob os seus pés.

Os pesquisadores, nalguns dias, encheram 15 caixas de achados subterrâneos que permaneceram intactos, durante décadas. Ora, o que se passa em Paris confirma que a História não se limita aos museus, mas está sob as ruas. Roma, por exemplo, viu o nível do solo subir cerca de nove metros, desde a queda do seu império, no século V d.C. Atenas, quando construiu o sistema de metro para as Olimpíadas de 2004, desencadeou a maior escavação da História da Grécia, revelando dezenas de milhares de artefactos agora expostos nas próprias estações. E Paris, que tem a sua origem na Île de la Cité, no Sena, não é diferente. Séculos após a fundação de Paris, a Notre-Dame surgiu nesta mesma ilha.

Camille Colonna explicou que, à época da construção da catedral, toda a praça era densamente povoada por casas medievais. E, à medida que a sua equipa escavava mais fundo, descobriu os porões dessas casas. Abaixo deles, encontram-se silos de grãos merovíngios e carolíngios datados do século VI ao X e, mais fundo, um denso bairro romano dos séculos IV e V. No total, 20 séculos de História estão concentrados em quatro metros de terra – aproximadamente, a altura de dois Napoleão Bonaparte e meio. E Yasmine Benali, estudante de arqueologia, observando por trás das barreiras, refletiu sobre o significado do local: “Aqui você pode ver as camadas – a Paris medieval, a Paris romana, talvez até mesmo antes disso. Isso faz com que a cidade pareça menos um cartão-postal e mais algo que ainda está sendo descoberto.”

Valentine Breloux, outro arqueólogo da equipa, observou a raridade das descobertas encontradas nas latrinas: “É raro encontrar cerâmicas completas.” Os resíduos orgânicos e macios, nessas fossas, proporcionaram o efeito de amortecimento, preservando os itens inteiros, ao longo dos séculos. E, para maior surpresa dos especialistas, os conservadores, ao limparem o que parecia cerâmica medieval comum, descobriram ténues inscrições avermelhadas pintadas na parte interna e que apareciam em fragmento após fragmento. E Breloux descreveu tais objetos como os mais “surpreendentes” de todos os que limpou de Notre-Dame.

As moedas, inicialmente, pareciam discos pretos corroídos pela ferrugem. Porém, sob raios X, foi revelado o rosto de Constantino, que reinou no início do século IV d.C. Tais artefactos, segundo Altenburg, podem ser inestimáveis ​​para a data da camada subterrânea.

As descobertas romanas são valiosas para os arqueólogos, pois representam o período mais profundo, mais antigo e menos compreendido. Com o declínio do Império Romano, as pessoas refugiaram-se na Île de la Cité, futuro local de Notre-Dame, fortificando-a com pedras de estruturas anteriores. A equipa encontrou evidências tangíveis da reutilização: um degrau de porta romano, proveniente de um edifício muito maior, que foi transportado, invertido e usado como pavimentação em uma estrada. Por fim, cada artefacto desenterrado é transportado para o Norte, para o centro arqueológico da cidade, que se tornou “um enorme depósito arqueológico”, um verdadeiro tesouro da História de Paris.

Para os arqueólogos, esta escavação é um privilégio raro. Na França, como noutros lugares, as escavações só costumam ocorrer quando é iminente nova construção – cenário semelhante ao de trabalhadores de pedreiras industriais que descobrem, inesperadamente, restos de dinossauros. “Isso só acontece porque a cidade de Paris decidiu embelezar a área”, observou Altenburg. Com efeito, tal iniciativa faz parte da estratégia mais ampla de Paris para se adaptar aos verões cada vez mais quentes, devido ao aquecimento global. Entretanto, a equipa de Notre-Dame nutre ambições de explorar ainda mais a História da cidade – para lá dos romanos, em direção aos gauleses, que deram nome à cidade. “A esperança é que possamos retroceder no tempo ainda mais do que jamais fizemos”, concluiu Altenburg.

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Já em 28 abril de 2022, a revista “National Geographic” referia que os arqueólogos, tendo escavado uma área abaixo do transepto, onde foi colocada a plataforma e andaimes para levantar a torre de substituição, encontraram um caixão, fragmentos de estátuas e parte da tela da catedral destruída na Contrarreforma. E sustentava que podia haver outros tesouros sob o chão da catedral, mas os arqueólogos só foram autorizados a escavar aquela área.

O caixão fechado, analisado por uma pequena câmara, contém os restos mortais de um dignitário local, talvez um alto dignitário da Igreja dos anos 1300, disse o Institut National de Recherches Archéologiques Préventives da França (INRAP). Os fragmentos de estátuas são mãos, pés e rostos esculpidos, alguns ainda pintados, incluindo uma cabeça que pode representar Jesus. Partes da tela estão enterradas amplamente sob o piso, mas a permissão de escavação só se aplica à área especificada de fevereiro a abril. Fotografias da visita do presidente Emmanuel Macron, na Sexta-feira Santa daquele ano, mostram pedra clara limpa ao longo das paredes, indicando que a catedral, outrora escura ficará mais brilhante, quando reabrir.

Em 27 de novembro de 2024, Robert Kunzig observava que, em fevereiro de 2022, a reconstrução da catedral estava pronta para começar. Todavia, primeiro, foi preciso chamar os arqueólogos, visto que, segundo a lei francesa, qualquer projeto de construção que perturbe o solo onde possam ser encontrados artefactos ou vestígios antigos exige a intervenção de arqueólogos do governo. Em Notre-Dame, a função deles era garantir que nada de valor fosse destruído pelos andaimes de 770 toneladas necessários para reconstruir a torre. 

Christophe Besnier e a sua equipa do INRAP receberam, inicialmente, cinco semanas para escavarem sob o piso de pedra no cruzamento, onde o transepto (os braços menores da igreja cruciforme) encontra a nave e o coro. Artefactos históricos são comuns em Notre-Dame, quando se escava a profundidade suficiente, pois o local foi ocupado por mais de um milénio, antes da construção da catedral, nos séculos XII e XIII. Mas, como a equipa estava autorizada a escavar só 40 centímetros abaixo do piso a profundidade da fundação do andaime, não esperava encontrar muita coisa. Estava enganado. Os vestígios revelaram-se muito mais ricos do que o esperado. Ao todo, a equipa encontrou 1035 fragmentos de diversas obras de arte.

Os arqueólogos desenterraram magníficas obras de arte que, originalmente, ficavam no centro da catedral, o que o crítico francês Didier Rykner chamou de “algumas das obras de escultura mais excecionais de qualquer período do Mundo”.  E cerca de 30 dessas esculturas, que estiveram perdidas por séculos, foram exibidas no Museu de Cluny.

Assim que a equipa de Besnier removeu os ladrilhos do chão e uma fina camada de terra e entulho, apareceu a tampa de um caixão de chumbo. Perto dali, começaram a surgir esculturas de calcário: cabeças e torsos em tamanho real, alinhados sob o piso, junto à entrada do coro. Por isso, Besnier obteve permissão para escavar a mais de 40 centímetros de profundidade, para poder extrair os artefactos. E foi encontrado outro caixão de chumbo, assim como alguns sepultamentos menos luxuosos, o que não surpreende, porque há túmulos por toda a catedral.

As estátuas revelaram-se a descoberta mais significativa. Os arqueólogos determinaram que são remanescentes do retábulo de calcário do século XIII (obra-prima da escultura gótica pintada), que isolava o coro e o santuário da vista do público. Desmontado no início do século XVIII, o retábulo de quatro metros de altura quase desapareceu. Só existiam fragmentos e nenhuma representação completa dele, nem registo do seu destino. Agora, proporciona a lembrança vívida de quão diferente era a experiência de visitar Notre-Dame na Idade Média.

Entre as figuras em tamanho natural, estavam a cabeça e o torso de Cristo sem vida: olhos fechados, sangue vermelho escorrendo da ferida de lança no seu lado. “A escultura é excecional na sua delicadeza, na sua atenção aos detalhes”, dizia Besnier. “A representação das pálpebras, das orelhas, do nariz é incrível.”

No século XIII, quando Notre-Dame foi concluída, a vista do altar era interrompida pelo retábulo, encimado por um crucifixo gigante. Esse retábulo foi destruído, no início do século XVIII, e partes dele foram então enterradas sob a catedral. O coro da catedral tinha duas funções, segundo Mathieu Lours, historiador de arquitetura: a primeira era dar aos padres uma plataforma para lerem as escrituras ao público reunido na nave; a segunda era a privacidade: os padres estavam isolados, no coro, da vista do público durante as oito celebrações diárias de oração. E as telas do retábulo mostravam os temas centrais a História do Cristianismo, pois os ritos eram em Latim.

O retábulo permaneceu de pé, durante quase cinco séculos. Com o tempo, as práticas litúrgicas mudaram, tal como a moda artística, e o estilo gótico passou a ser malvisto. Porém, o clero de Notre-Dame manteve o retábulo por mais tempo do que a maioria das igrejas francesas, mas, sob pressão do rei Luís XIV, que desejava um coro mais aberto – que incluísse grandes estátuas dele e do pai, Luís XIII – o retábulo foi desmontado, na década de 1710, e enterrado ao lado de onde ficava. Embora as esculturas tivessem sido desmontadas e quebradas, ainda eram consideradas sagradas, pelo que não podiam sair da igreja. Em 2024, os arqueólogos desenterraram cerca de mil fragmentos do retábulo, de todos os tamanhos, dos quais cerca de 700 apresentavam vestígios de tinta. Acredita-se que, originalmente, as esculturas de Notre-Dame, incluindo as da fachada principal, eram pintadas com cores vibrantes, mas tal prática caiu em desuso. E as cores preservadas nas esculturas do retábulo oferecerão pistas sobre a aparência original do templo.

Besnier não tinha a certeza de quanta parte da tela a sua equipa escavou, mas acreditava que muito mais dela esteja enterrada sob o coro, fora do escopo da escavação. Por outro lado, dizia que, se não fosse pelo incêndio, a sua equipa jamais teria tido o ensejo de descobrir sequer essa parte do coro divisório. E, as escavações arqueológicas não atrasaram o restauro.

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Há sempre oportunidade gratificante de encontrar o desconhecido histórico, mas dá trabalho.

2026.06.03 – Louro de Carvalho

terça-feira, 2 de junho de 2026

Previsões macroeconómicas estão a ser revistas em alta

 

De acordo com informação do portal “Economia e Finanças” de 30 de maio, a Comissão Europeia (CE) coloca previsão para a inflação nos 3,0%, em 2026, no novo cenário macroeconómico para a União Europeia (UE), que divulgou no seu “European Economic Forecast Spring 29026”.

Assim, com a previsão anterior da mesma instituição era de 2,0%, verifica-se uma subida de um ponto percentual, em poucos meses, pelo que temos uma revisão de 100 pontos base.

O valor previsto para Portugal cai em cima da previsão para média da Zona Euro (21 países) e fica uma décima abaixo do previsto para o total da UE, que é de 3,1%

Para 2027, a expectativa é de que a inflação desacelere para 2,3%, em Portugal e na Zona Euro. Mais três décimas, ou seja, mais 30 pontos base do que na previsão anterior. E, na UE, prevê-se que desacelere para 2,4%.

A instabilidade no mercado da energia provocada pelo conflito no Médio Oriente e no Golfo Pérsico, em especial, após o ataque dos EUA e Israel ao Irão, que pôs o trânsito marítimo no Estreito de Ormuz em suspenso, estará entre as principais causas para esta revisão.

No final de março, o Banco de Portugal (BdP) atualizou as suas projeções macroeconómicas para Portugal e tinha antecipado, para 2026, o novo valor de 2,8%, para inflação, um valor, ainda assim inferior ao agora projetado, em maio, pela CE.

Porém, nem só a inflação é impactada pelas revisões. A previsão para o produto interno bruto (PIB) real é, agora, das mais modestas: 1,7%, em 2026 (quando na previsão anterior era de 2,2%), e 1,8%, em 2027, quando na previsão anterior da CE, era de 2,1%. Na zona Euro, a média é de 0,9%, e na UE, é de 1,1%.

A taxa de desemprego resiste a este cenário global menos favorável. A previsão de primavera da CE, para 2026, é igual à que havia feito nas previsões de inverno: 5,9%. E, para 2027, a expectativa é até melhor 5,8% versus 6,1%. Na zona Euro, a média é de 6,4%, e na UE, é de 6,0%.

Com evolução favorável face às previsões anteriores surge o saldo orçamental. A CE continua a prever o regresso dos défices, em 2026 e em 2027, de 0,1% e 0,4%, respetivamente, mas traça uma expectativa melhor do que a avançada há cerca de meio ano, que apontava para um défice superior tanto em 2026 (0,3%) como em 2027 (0,5%).

No entanto, é de lembrar que se trata de previsões cuja volatilidade está patente na magnitude das mudanças que muitos dos indicadores sofreram em menos de meio ano.

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Também Patrícia Abreu, a 2 de junho, em artigo intitulado “Inflação na Zona Euro supera 3%, pela primeira vez, desde 2023”, publicado no jornal ECO online, focando-se na situação macroeconómica recente, considera que a “inflação acelerou para 3,2%, em maio, sobretudo, devido ao aumento dos preços da energia, por causa da guerra no Médio Oriente, num momento em que se espera que BCE [Banco Central Europeu] suba juros, a 11 de junho.

A jornalista precisa que a taxa de inflação homóloga na Zona Euro acelerou para 3,2%, em maio, acima dos 3% registados em abril e o valor mais elevado desde setembro de 2023, segundo mostra a estimativa rápida divulgada pelo Eurostat, a 2 de junho (dados ligeiramente diferentes dos apontados pela CE, note-se). A puxar pelos preços está a energia, devido aos efeitos provocados pela guerra no Irão, num momento em que o mercado aguarda uma subida de juros por parte do BCE, na próxima reunião do seu Conselho (11 de junho).

Observa Patrícia Abreu que a taxa de inflação, medida pela variação do Índice Harmonizado de Preços no Consumidor (IHPC), manteve a tendência de aceleração registada desde o início do conflito, que levou os preços da energia a disparar, por causa do ao encerramento do Estreito de Ormuz, por onde passava cerca de 20% do petróleo consumido, diariamente, a nível global. E é a energia que continua a puxar pelo IHPC. Segundo o gabinete de estatísticas europeu (o Eurostat), a componente da energia deverá ter registado uma evolução homóloga de 10,9%, ligeiramente acima dos 10,8% fixados em abril, seguida pelos serviços, com a taxa de 3,5%, face a 3%, em abril. Já a inflação dos alimentos, álcool e tabaco contrariou a tendência de subida e desacelerou para 2%, face a 2,4%, em abril, enquanto a dos bens industriais não energéticos se fixou em 0,9%, contra 0,8%, em abril.

A divulgação destes números confirma a tese que o BCE deverá anunciar, no final da reunião de 11 de junho, a primeira subida de juros, desde que iniciou o atual ciclo de descidas. “Uma semana antes da próxima reunião do BCE, esta é a subida esperada da inflação que levará o banco central a decidir por uma subida de juros de caráter preventivo”, afirma Carsten Brzeski, responsável global de macroeconomia do ING [ING Group ou ING Bank, sediado nos Países Baixos], mas reforçando que a situação é diferente de 2022, em que a entidade mexeu nos juros, pela primeira vez, em julho, com a inflação acima dos 8%, sendo a taxa de juro negativa: -0,5%.

Porém, apesar de os especialistas lembrarem que a situação macroeconómica é distinta, pois o BCE parte com uma taxa de juro de 2%, é preciso acautelar o futuro. Nestes termos, “mesmo que a guerra no Médio Oriente terminasse amanhã, o estrago na inflação já está feito”, explica Brzeski, frisando que vai continuar a afetar a economia europeia.

Por conseguinte, o economista sustenta que, “tendo em conta a experiência de 2022, é provável que o BCE opte por uma subida das taxas de juro por precaução”, ou seja, não por a subida vir a ter “um efeito significativo nas expectativas de inflação”, mas por constituir “um gesto simbólico” a sublinhar “a determinação do BCE em agir”.

Por fim, Patrícia Abreu observa que, em Portugal, a inflação medida pelo IHPC abrandou para 3,1%, abaixo dos 3,3% registados em abril.

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Na mesma linha, Piero Cingari, em artigo intitulado “Inflação atinge 3,2%, máximo desde 2023: subida das taxas do BCE é inevitável?”, publicado, a 2 de junho, pela Euronews, sustenta que “a inflação, na Zona Euro, subiu para 3,2%, em maio, máximo desde 2023, impulsionada pela energia e pelos serviços”, pelo que “os mercados dão como certa subida a de juros do BCE, na próxima semana [11 de junho]”.

Segundo o Eurostat, a taxa de facilidade de depósito do BCE, em março, era de 2%, enquanto a taxa de inflação na Zona Euro era de 2,5%.

Também este analista financeiro vê como causa desta subida da inflação, na Zona Euro (aliás, num valor alinhado com as previsões dos economistas), as perturbações provocadas pelo bloqueio no Estreito de Ormuz a propagarem-se pelos mercados de energia, o que levou a inflação ao nível mais alto, em quase três anos, e reforçou as expectativas de iminente subida das taxas de juro do BCE.

Precisa o analista que, ao sinalizarmos a subida da inflação, na Zona Euro, para 3,2%, em maio, face a 3,0%, em abril (a mais elevada, desde setembro de 2023), falamos de previsão da inflação anual, não de inflação de abril ou de maio.

Piero Cingari observa que a energia continua a ser o principal motor da subida, com os preços, neste segmento, 10,9% acima dos de há um ano, praticamente inalterados, face aos 10,8% de abril. Ao mesmo tempo, entende que, para a autoridade da política monetária, mais preocupante foi o comportamento da inflação nos serviços, o indicador que o Conselho do BCE acompanha mais de perto, para detetar sinais de pressões internas sobre os preços.

Este indicador, diz o analista financeiro, acelerou para 3,5%, a partir de 3,0%, um salto que preocupa muito mais Frankfurt do que o valor global, por sugerir que o choque energético começa a infiltrar-se no resto da economia. Com efeito, a inflação subjacente, que exclui a energia, subiu de 2,2% para 2,4%.

A evolução foi desigual entre os estados-membros. A Espanha registou o ritmo mais rápido, entre as maiores economias, com 3,6%, seguida de Itália, com 3,3%, onde a inflação acelerou, de forma marcada, face aos 2,8% de há um mês. A França situou-se em 2,8% e a Alemanha, maior economia do bloco, em 2,7%. E Portugal foi um dos poucos países a registar uma desaceleração, descendo para 3,1%, face aos 3,3% de abril.

As taxas de inflação anual nos estados-membros da Zona Euro, maio de 2026, mostra-nos onde a inflação está a subir mais rapidamente na Europa.

Assim, na Bulgária, a taxa de inflação anual, prevista em maio, era 6,3%; na Lituânia, 5,1%; na Grécia, 5%; na Croácia, 4,9%; no Luxemburgo, 4,5%; na Bélgica, 4,1%; na Estónia e na Eslováquia, 4%; na Eslovénia, 3,8%; na Áustria e em Chipre, 3,%; na Espanha, 3,6%; na Irlanda, 3,5%; na Letónia e nos Países Baixos, 3,4%; na Itália, 3,3%; em Portugal, 3,1%; na Finlândia 3%; na França, 2,8%, na Alemanha, 2,7%; e em Malta, 2,1%.

No topo da inflação, está a Bulgária e, no patamar inferior, está Malta.

Estes dados do Eurostat surgem acompanhados de novos sinais de que as famílias se preparam para uma continuação das subidas de preços.

De acordo com o Inquérito às Expectativas dos Consumidores do BCE para abril, divulgado a 1 de junho, a mediana das expectativas para a inflação nos próximos 12 meses manteve-se em 4,0%, o dobro da meta do banco central, enquanto a taxa de inflação percebida para o último ano subiu de 3,5% para 4,0%.

Todavia, as expectativas de mais longo prazo permanecem relativamente bem ancoradas. Na verdade, as expectativas de inflação, a três anos, recuaram ligeiramente para 2,9%, enquanto as de cinco anos permaneceram estáveis, em 2,4%. Mesmo assim, o BCE assinala que a incerteza em torno destas expectativas continua elevada.

O inquérito destaca também a deterioração das perspetivas económicas. Efetivamente, os consumidores tornaram-se mais pessimistas, quanto ao crescimento no próximo ano, enquanto as expectativas de aumento da despesa subiram, o que sugere que as famílias antecipam nova pressão sobre o custo de vida. E, nos mercados financeiros, cresce a convicção de que o BCE tem pouca margem para evitar um novo aperto da política monetária.

O mercado de previsões Polymarket atribui a probabilidade de 97% a um aumento de 25 pontos base na taxa de depósito do BCE, na próxima reunião do seu Conselho.

É uma leitura partilhada por vários economistas. Bill Diviney, economista sénior do ABN AMRO (um dos maiores bancos comerciais e de investimento dos Países Baixos, com sede em Amesterdão), antecipa duas subidas consecutivas nas próximas duas reuniões. “Para uma instituição que se afastou da orientação prévia, isto é o mais próximo de um sinal de subida de juros que se pode ter”, afirmou, referindo-se aos comentários recentes de Christine Lagarde, presidente do BCE.

Carsten Brzeski, já citado, considera que a reunião de junho se assemelha cada vez mais a uma subida preventiva, destinada a impedir que as expectativas de inflação se desancorem.

Para Joe Nellis, conselheiro económico na firma de consultoria e auditoria MHA (anteriormente conhecida como MHA MacIntyre Hudson), o BCE enfrenta um compromisso cada vez mais difícil. “Com esta subida da inflação, é cada vez mais provável que o BCE aumente as taxas de juro em 0,25 pontos percentuais, na próxima semana”, afirmou.

E, como os custos de financiamento mais elevados podem vir a pesar ainda mais no investimento das empresas, o consumo das famílias e os governos mais endividados, o conselheiro económico explica: “O BCE enfrenta um exercício de equilíbrio complexo. Taxas de juro mais altas vão acrescentar pressão sobre empresas que já adiam investimentos e sobre famílias confrontadas com prestações de crédito à habitação em alta e [com] orçamentos apertados.”

Ruben Segura-Cayuela, economista do Bank of America, continua a antecipar duas subidas de um quarto de ponto, em junho e em julho, levando a taxa de depósito para 2,5%, embora dados económicos mais fracos possam adiar a segunda decisão para setembro.

Nos mercados cambiais, Enrique Díaz-Alvarez, economista-chefe da empresa de serviços financeiros Ebury, considera que os responsáveis do BCE sinalizaram, de forma suficientemente clara, um movimento, em junho, para que pouco possa agora travá-lo, vendo, ao mesmo tempo, pouca margem para novo aperto, assim que os preços da energia recuem e à medida que os Estados Unidos da América (EUA) e o Irão se aproximam de um acordo para reabrir Ormuz. E sustenta que o euro não valorizou tanto quanto o recuo dos preços da energia poderia sugerir, travado pela fraca confiança das empresas espelhada nos índices PMI.

O PMI (Purchasing Managers’ Index ou Índice de Gestores de Compras) é indicador económico essencial que mede a “temperatura” da atividade do setor privado (indústria, serviços e construção), com base em inquéritos mensais a gestores de compras empresariais.

O debate central passa por saber se o choque energético se esbate como episódio transitório ou se as perturbações nas cadeias de abastecimento geram o tipo de efeitos de segunda ordem, que o BCE mais teme. Na verdade, para o BCE, a decisão de 11 de junho parece fechada. A questão mais difícil é saber quanto tempo dura o aperto, uma vez que o choque de oferta que o motivou dá mostras de começar a dissipar-se.

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A confirmar-se a subida de 25 pontos base, levando a taxa de facilidade permanente de depósito do BCE a subir de 2% para 2,25%, valor que encostará no atual valor das Euribor a três meses.

Neste momento, as Euribor a três, a seis e a 12 meses registam valores crescentes com o prazo, com intervalos correspondentes a sensivelmente uma subida de 25 pontos entre cada prazo (ver tabela em baixo), o que indicia que a expectativa dos mercados é a de que as taxas diretoras continuarão a subir nos próximos seis e 12 meses, antecipando uma subida global de cerca de 75 pontos base no espaço de um ano.

Assim, agora, o cenário mais provável será o de a Euribor a três meses ir crescendo para próximo do atual valor da Euribor a seis meses e a Euribor a seis meses para o atual valor da Euribor a 12 meses e assim sucessivamente. A confirmar-se este percurso mais provável, estaremos perante um encarecimento do preço do dinheiro com impactos garantidos em todos os créditos indexados às Euribor, nomeadamente, o crédito à habitação.

Do lado da poupança, destacam-se os certificados de aforro, por terem embutido a indexação à Euribor a três meses, uma relação que se mantém até esta atingir os 2,5% (Certificados de Aforro Série F), valor a partir do qual os certificados de aforro atingem o máximo de remuneração (além dos prémios de permanência). Já os depósitos a prazo têm vindo, progressivamente a subir as taxas médias para novos depósitos e é natural que esse movimento se mantenha até haver uma inversão do atual ciclo, patrocinado pela inflação largamente importada, devido aos eventos em curso no Golfo Pérsico e no Médio Oriente.

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Enfim, um futuro próximo cheio de incerteza para as famílias modestas e para o investimento!

2026.06.02 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 1 de junho de 2026

 

O enunciado em epígrafe é o refrão do salmo responsorial (ou cântico de meditação) subsequente à proclamação da primeira leitura da Eucaristia da Solenidade da Santíssima Trindade, no Ano A, que ocorreu a 31 de maio, domingo.

Esta solenidade não convida a decifrar o mistério que se esconde por detrás de um só Deus em três pessoas”, mas a contemplar o Deus que é amor, que é família, que é comunidade e que criou os homens para os fazer comungar nesse mistério de amor.

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Na primeira leitura (Ex 34,4b-6.8-9), o Deus da comunhão e da aliança, apostado em estabelecer laços familiares com o homem, autoapresenta-se: clemente e compassivo, lento para a ira e rico de misericórdia. É um trecho que integra as “tradições sobre a aliança do Sinai”, de origem diversa, cujo denominador comum é a reflexão sobre o compromisso (“berit”: “aliança”) que Israel assumira com o Senhor (Javé).

Estamos no deserto do Sinai, “em frente ao monte”. O texto bíblico não dá indicação geográfica suficiente para identificarmos o “monte da aliança”. “Sinai” designa a enorme península de forma triangular, com cerca de 420 quilómetros de extensão Norte/Sul, que se estende entre o mar Mediterrâneo e o mar Vermelho (no sentido Norte/Sul) e o golfo do Suez e o golfo da Áqaba (no sentido Oeste/Este). É um deserto árido, de terreno acidentado e com várias montanhas que chegam a atingir a altura de 2400 metros.

O texto pode ter sido a primitiva versão javista da aliança do Sinai (século X a.C.); mas, na versão final do Pentateuco (séculos V-IV a.C.), foi utilizado para descrever a renovação da primeira aliança, rompida pelo pecado do Povo. No estado atual do Pentateuco, o esquema é: Israel comprometeu-se com Javé; durante a ausência de Moisés, que estava no cimo do monte, o Povo construiu um bezerro de ouro, para representar Javé – o que era interdito pelos mandamentos da aliança; Moisés intercedeu pelo Povo; e Deus renovou a aliança com Israel.

Obtido o perdão de Deus para o Povo, Moisés subiu sozinho à presença de Javé, levando as duas novas tábuas de pedra que havia talhado e sobre as quais seriam gravados os mandamentos da aliança. E aqui o hagiógrafo insere a teofania (manifestação de Deus): Deus aproxima-Se de Moisés na nuvem.

A nuvem, que paira a meio caminho do Céu e da Terra, é, no Antigo Testamento, símbolo privilegiado para exprimir a presença do Deus que vem ao encontro do homem, mas, ao mesmo tempo, esconde e manifesta, sugerindo o mistério de Deus, escondido e presente, cujo rosto o homem não pode ver, mas cuja presença adivinha.

A teofania continua com a autoapresentação de Javé. Nesta apresentação, Deus não menciona a sua grandeza e omnipotência, o seu poder e majestade, mas releva as qualidades que O tornam o parceiro ideal na aliança: Ele é o “Deus clemente e compassivo, sem pressa para Se indignar e cheio de misericórdia e fidelidade”. Num desenvolvimento que aparece no texto bíblico, mas que a leitura desta solenidade não conservou, Javé fala da sua misericórdia, “até à milésima geração”, ilimitada e desproporcional, se comparada com a sua ira, “até à terceira e à quarta geração”. Os números não devem ser tomados à letra, porque são uma forma de representar a desproporcional misericórdia de um Deus, infinitamente mais inclinado para o perdão do que para o castigo. Por isso, Israel é instado a descobrir Deus e a comprometer-se com o Deus que é sempre fiel aos seus compromissos e solidário com todos aqueles que d’Ele necessitam.

Nisto, o essencial é: Deus ama o seu Povo e cuida dele com bondade e ternura. A sua misericórdia é ilimitada e, aconteça o que acontecer, triunfará sempre. Israel, o Povo da aliança, pode estar confiante, pois Javé, o Deus do amor e da misericórdia, garante a sua eterna fidelidade a esses atributos que caraterizam o seu ser.

Moisés responde a esta apresentação com as petições habituais: que Javé continue a acompanhar o Povo em caminhada da terra da escravidão para a terra da liberdade; que Javé entenda a dureza do coração do Povo e que lhe perdoe os pecados; que Javé renove a eleição. E Deus, confirmando a autoapresentação (Deus de amor e de bondade, lento para a ira e rico de misericórdia), perdoa ao Povo e propõe-lhe a renovação da aliança.

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Na segunda leitura (2Cor 13,11-13), Paulo exprime – na fórmula litúrgica “a graça do Senhor Jesus Cristo, o amor do Pai e a comunhão do Espírito Santo estejam convosco” – o Deus que é comunhão, que é família e que pretende atrair os homens para a dinâmica de amor.

A Primeira Carta aos Coríntios, criticando alguns membros da comunidade, por atitudes pouco condizentes com os valores cristãos, provocou reação extremada e uma campanha organizada no sentido de desacreditar o apóstolo. Este, informado de tudo, partiu, apressadamente, para Corinto e teve violento confronto com os detratores. Depois, retirou-se para Éfeso. Tito, amigo de Paulo, fino negociador e hábil diplomata, demandou Corinto, para tentar a reconciliação. Entretanto, Paulo partiu para Tróade, onde reencontrou Tito, regressado de Corinto. As notícias trazidas por Tito eram animadoras: o diferendo fora ultrapassado e os Coríntios estavam, de novo, em comunhão com Paulo.

Reconfortado, Paulo escreveu uma apologia do seu apostolado, com o apelo a uma coleta para os pobres da Igreja de Jerusalém. Estamos nos anos 56/57.

O trecho em apreço é a conclusão da Segunda Carta de Paulo aos Coríntios. Dizem alguns que, se compararmos esta despedida com a da Primeira Carta, ficaremos surpreendidos pela brevidade, pela frieza e pela impessoalidade, parecendo a despedida entre partes que conservam certa tensão na relação. Não obstante, como as cartas paulinas eram lidas às comunidades destinatárias no início da sua reunião, na qual se celebrava a eucaristia, as palavras finais (vv.12-13) já teriam o cunho litúrgico que ainda conservam. Por outro lado, fala-se da saudação dos santos (os cristãos) e a saudação é no ósculo santo.

Paulo começa por deixar algumas recomendações de caráter geral aos membros da comunidade. Pede-lhes que sejam alegres; que procurem, sem desistir, chegar à perfeição; e que, nas relações fraternas, se animem mutuamente, tenham os mesmos sentimentos e vivam em paz. São conselhos que devem ser entendidos no contexto das dificuldades e das tensões vividas recentemente pela comunidade, bem como na perspetiva do futuro.

O mais notável da carta é a fórmula final de saudação: “A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam convosco”. Esta fórmula – a mais claramente trinitária do Novo Testamento – é, certamente, de origem litúrgica, provavelmente, a fórmula que os cristãos utilizavam, quando, na celebração eucarística, trocavam a saudação da paz.

Esta fórmula constitui uma confissão de fé no Deus trino e manifesta a fé dos crentes no Deus que é amor e, portanto, que é família, que é comunidade. Ao utilizarem esta fórmula, os crentes reconhecem-se como membros da família de Deus e reconhecem que ser família de Deus é fazerem todos parte de uma única família de irmãos. São, pois, convocados para viverem em unidade: na comunhão com Deus e na união com todos os irmãos.

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No Evangelho (Jo 3,16-18), João convida-nos a contemplar o Deus cujo amor pelos homens é tão grande, a ponto de enviar ao Mundo o seu Filho unigénito; e Jesus, o Filho, cumprindo o plano do Pai, fez da sua vida um dom total, até à morte na cruz, a fim de oferecer aos homens a vida definitiva. Nesta fantástica história de amor (que vai até ao dom da vida do Filho unigénito e amado), plasma-se a grandeza do coração de Deus.

O trecho em causa integra a secção introdutória do Quarto Evangelho (Jo 1,19-3,36), em que o evangelista apresenta Jesus e procura – com os contributos das personagens que vão ocupando, sucessivamente, o centro do palco e recitando o seu texto – dizer quem é Jesus. Assim, estamos perante um dos momentos da conversa entre Jesus e Nicodemos, um “chefe dos judeus”, que foi visitar Jesus “de noite”, supostamente, para não se comprometer e arriscar a posição destacada de que gozava na estrutura religiosa judaica (perspetiva diferente da de Leão XIV, como veremos adiante). Membro do Sinédrio, Nicodemos aparecerá, mais tarde, a defender Jesus, perante os chefes dos fariseus, assim como estará presente na altura em que Jesus for descido da cruz e colocado no túmulo.

A conversa entre Jesus e Nicodemos apresenta três etapas ou fases. Na primeira (Jo 3,1-3), Nicodemos reconhece a autoridade de Jesus, graças às suas obras; mas Jesus sustenta que não basta: o essencial é reconhecê-Lo como o enviado do Pai. Na segunda (Jo 3,4-8), Jesus anuncia a Nicodemos que, para entender a sua proposta, é preciso “nascer de Deus” e explica-lhe que esse novo nascimento é o nascimento “da água e do Espírito”. Na terceira (Jo 3,9-21), Jesus descreve a Nicodemos o plano de salvação de Deus: é iniciativa do Pai, tornada presente no Mundo e na vida dos homens através do Filho e que se concretizará pela cruz/exaltação de Jesus.

O trecho proclamado nesta solenidade da Santíssima Trindade, está contido nesta terceira parte.

Tendo explicado que o Messias tem de “ser levantado ao alto”, como “Moisés levantou a serpente” no deserto – evocando o episódio da caminhada pelo deserto em que os Hebreus, mordidos pelas serpentes, olhavam a serpente de bronze levantada num estandarte por Moisés e se curavam –, a fim de que “todo aquele que n’Ele acredita tenha vida definitiva”, Jesus explicita como é que a cruz se insere no desígnio de Deus. A explicação vem em três passos.

O primeiro refere-se ao significado último da cruz. O homem que vai ser levantado na cruz veio ao Mundo, incarnou na História, assumiu a nossa fragilidade, partilhou a nossa humanidade; e, porque lutou contra as forças das trevas e da morte que escravizavam os homens, foi preso, torturado e morto. A cruz é o último ato da vida vivida no amor, na doação, na entrega. Esse Homem é o Filho unigénito de Deus. A expressão evoca, provavelmente, o sacrifício de Isaac. Deus comporta-Se como Abraão, que foi capaz de se desprender do próprio filho por amor (no caso de Abraão, amor a Deus; no caso de Deus, amor aos homens). A cruz é, portanto, a expressão suprema do amor de Deus pelos homens, a quem Ele quer oferecer a salvação.

O objetivo de Deus, ao enviar o seu Filho unigénito ao encontro dos homens, é libertá-los do egoísmo, da escravidão, da alienação, da morte, e dar-lhes a vida eterna. Com Jesus – o Filho que morreu na cruz –, os homens aprendem que a vida definitiva está na obediência aos planos do Pai e no dom da vida aos homens, por amor.

O segundo passo deixa claro que a intenção de Deus, ao enviar ao Mundo o seu Filho, não tem uma intenção negativa. Jesus veio ao Mundo, porque o Pai ama os homens e quer salvá-los. O Messias não veio em missão judicial, nem veio excluir ninguém da salvação. Ao invés, Ele veio oferecer aos homens – a todos – a vida definitiva, ensinando-os a amar sem medida e dando-lhes o Espírito que os transforma em Homens Novos. Deus não enviou o seu Filho ao encontro de homens perfeitos e santos, mas de homens pecadores, egoístas, autossuficientes, a fim de lhes apresentar um novo modo de vida. E foi o amor de Jesus – bem como o Espírito que Jesus deixou – que transformou os homens egoístas, orgulhosos, autossuficientes e os inseriu numa dinâmica de vida nova e plena.

O terceiro passo explicita as duas atitudes que o homem pode tomar, ante a oferta de salvação que Jesus faz: quem aceita Jesus, adere a Ele, recebe o Espírito, vive no amor e na doação, escolhe a vida definitiva; e quem prefere continuar escravo de esquemas de egoísmo e de autossuficiência, autoexclui-se da salvação. A salvação ou a condenação não são prémio ou castigo de Deus ao homem pelo bom ou mau comportamento, mas o resultado da escolha livre do homem, face à oferta incondicional de salvação que Deus lhe faz. A responsabilidade pela vida definitiva ou pela morte eterna não recai sobre Deus, mas sobre o homem.

Na perspetiva joânica, também não existe um julgamento futuro, no final dos tempos, no qual Deus pesa na sua balança os pecados dos homens, para ver se salva ou condena: o juízo realiza-se aqui e agora e depende da atitude que o homem assume ante a proposta de Jesus.

Em suma: Porque ama a Humanidade, Deus enviou o seu Filho unigénito ao Mundo com um projeto de salvação. Essa oferta, que nunca foi retirada, continua aberta e à espera de resposta. Ante a oferta de Deus, o homem escolhe a vida eterna ou autoexclui-se da salvação.

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Leão XIV, antes da recitação do Angelus com os peregrinos reunidos na Praça de São Pedro, em Roma, comentou esta passagem evangélica.

Vincando que se concluiu o Tempo Pascal com a solenidade do Pentecostes, explicitou que, ao celebrarmos o Mistério do Deus Trindade, nos é oferecido o ensejo de repensarmos o caminho percorrido, a partir do centro: a vida de Deus que nos foi dada em Jesus Cristo, a qual “é uma comunhão dinâmica, inesgotável e fecunda, que, agora, nos envolve: o Espírito que une o Pai e o Filho foi, efetivamente, derramado nos nossos corações, de modo que, no Mundo, toma forma a Igreja, sacramento de comunhão, espaço de encontro, de amor e de vida, onde o Céu e a Terra já se tocam”.

Nicodemos, importante personalidade de Israel, sentiu-se profundamente atraído por Jesus e, na perspetiva do Pontífice, tanto assim é que foi ter com Ele – à noite, para não ser visto –, ansioso por conhecer melhor este misterioso Mestre e para lhe fazer perguntas. Recebendo-o, o Senhor deu importância à sua busca. Surpreendeu-o, declarando-lhe que um adulto podia renascer e deixou-o intuir que a vida de Deus poderia transformar a sua vida. Jesus falou-lhe sobre o Espírito Santo, iluminou a sua noite com a verdade que, nesta solenidade, “ressoa em todas as nossas igrejas: ‘Tanto amou Deus o Mundo, que lhe entregou o seu Filho Unigénito, a fim de que todo o que nele crê não se perca, mas tenha a vida eterna.’ E ainda: ‘Deus não enviou o seu Filho ao Mundo para condenar o Mundo, mas para que o Mundo seja salvo por Ele’.”

Diz Leão XIV que, “no Mistério de Deus, Pai, Filho e Espírito Santo, estamos em casa, tal como Nicodemos se sentiu em casa, junto de Jesus”, e que a vida de Deus, “maravilhosa e envolvente, traz paz ao nosso coração, muitas vezes tão inquieto, e nos faz encontrar irmãos e irmãs, na alegria do Espírito”. Assim, na ótica do Papa, “a Trindade leva-nos a amar tudo e todos”, pois “descobrimos que cada criatura foi feita para a comunhão, para a relação, para o encontro”. Ao mesmo tempo, compreendemos, por contraste, a razão por que “as divisões, as polarizações e o desprezo pelas diversidades trazem ao Mundo destruição, tristeza e aridez”.

Lembra o Santo Padre que Nicodemos fazia parte do Sinédrio, o Conselho dos chefes de Israel, e que, ao ouvir ali palavras de desprezo contra Jesus, instou-os a ouvirem-No, antes de O condenarem. Com efeito, havia recebido de Deus, por Cristo, o Espírito de comunhão, que abre o coração à nova verdade e à verdadeira novidade. Quem não acolhe este Espírito, envelhece cedo, na lamentação; encontra-se sozinho, nunca tem alegria no coração.

E o Papa exclamou: “Hoje, porém, queridos irmãos e irmãs, é festa! A festa de Deus é a nossa festa. Por isso, São Paulo escreve aos Coríntios: ‘Sede alegres, tendei para a perfeição, confortai-vos uns aos outros, tende um mesmo sentir, vivei em paz e o Deus do amor e da paz estará convosco’.”

Por fim, exortou a que, pela oração do Angelus, nos dirigíssemos à Virgem Maria, para que, “no seu ‘sim’ à Vontade divina floresça também o nosso ‘sim’ ao amor da Santíssima Trindade”.

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É, pois, justo e salutar cantar com o profeta Daniel:

“Digno de louvor e de glória para sempre.”

“Bendito sejais, Senhor, Deus dos nossos pais: / digno de louvor e de glória para sempre.
“Bendito o vosso nome glorioso e santo: / digno de louvor e de glória para sempre.

“Bendito sejais no templo santo da vossa glória: / digno de louvor e de glória para sempre.
“Bendito sejais no trono da vossa realeza: / digno de louvor e de glória para sempre.

“Bendito sejais, vós que sondais os abismos / e estais sentados sobre os Querubins: / digno de louvor e de glória para sempre.
“Bendito sejais no firmamento dos céus: / digno de louvor e de glória para sempre.”

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E, com toda a Igreja, bendizer a Santíssima Trindade:

“Aleluia. Aleluia.”

“Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo, / ao Deus que é, que era e que há de vir.”

2026.06.01 – Louro de Carvalho

Celebrar as crianças e saber porque não as há ou porque são maltratadas

 

O Presidente da República (PR), a 1 de junho, por ocasião do Dia Mundial da Criança, diz que, neste dia, “celebramos todas as crianças” e que somos convocados para “refletir sobre o país que construímos, diariamente, para o futuro das novas gerações”.

Referindo que, “nas últimas semanas, fomos confrontados com estatísticas alarmantes sobre a realidade das crianças, em Portugal”, releva a existência de “crianças que passam fome”; de “crianças privadas de atividades escolares, culturais ou desportivas, por falta de recursos”; de “crianças que crescem em contextos de pobreza, negligência, violência ou exclusão”; e de crianças vítimas de abuso sexual e de violência doméstica”.

Celebrar é necessário e justo, mas ficar por aí é muito pouco, face à lancinante realidade que nos convoca, pois, como salienta o chefe de Estado, “por detrás de cada um destes casos há um rosto, uma infância que é forçada a enfrentar demasiado cedo o peso da adversidade”, bem como “sonhos que se vão apagando, talentos que ficam por revelar e caminhos que se estreitam quando deveriam abrir-se ao Mundo”.

Lembra o PR que o modo de proteção das crianças constitui prova de humanidade e de maturidade democrática, pois, se as circunstâncias de nascimento limitam o futuro de uma criança, é o país que falha, “no dever de lhe garantir dignidade, igualdade de oportunidades e esperança”.

Reconhecendo que o país avançou na promoção dos direitos das crianças, António José Seguro chamou a atenção para implementação, em curso, da Estratégia Única dos Direitos das Crianças e Jovens 2025-2035, “instrumento importante para uma resposta pública mais integrada e eficaz”. Porém, sustenta que “nenhuma estratégia produzirá os resultados desejados nas políticas públicas, sem o compromisso ativo de toda a sociedade”.

Por conseguinte, na ótica presidencial, face ao “agravamento das desigualdades” e à “crescente exposição das crianças a novos riscos”, precisamos, “de instituições mais articuladas, de comunidades mais próximas, de escolas mais inclusivas, de famílias mais acompanhadas e de uma sociedade mais consciente do dever coletivo de proteger a infância”, bem como de “garantir a todas as crianças o direito de continuarem a sonhar”, sem esquecermos as que vivem em “maior vulnerabilidade”, ou seja, as crianças “em situação de pobreza, com deficiência ou doenças crónicas, pertencentes a minorias ou expostas à violência, ao abandono e aos riscos do ambiente digital”.

Com efeito, como assegura o PR, proteger a infância não é só responder às fragilidades do presente, mas garantir à criança “espaço para crescer livre, [para] descobrir os seus talentos e [para] alimentar os sonhos que darão forma ao país de amanhã”. E, enquanto damos o exemplo às crianças para que elas aprendam, teremos também de saber reaprender com elas.

Por fim, o chefe de Estado, considerando que “nenhuma criança nasce a odiar, a discriminar ou a excluir”, mas que “todas nascem com a capacidade de acolher, de respeitar e de acreditar”, faz votos por que as crianças nos inspirem, “a olhar o outro com mais humanidade, a reconhecer na diferença uma riqueza e não uma ameaça, e a construir uma sociedade mais justa, mais livre, mais humana e mais solidária”.

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Em peça jornalística intitulada “Portugal é o segundo país da UE onde a população infantil mais diminuiu nos últimos 50 anos”, publicado pela Euronews, a 1 de junho, Inês dos Santos Cardoso – citando a Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFS), que retratou, através da Pordata, a evolução da população infantil da União Europeia (UE) – releva que “ Portugal é o segundo país que perdeu mais crianças, nos últimos 50 anos”, tendo registado uma das maiores quebras da população infantil, neste horizonte temporal..

Com um milhão e 58 mil crianças a viver em Portugal, entre as 50,6 milhões da UE, o país teve uma quebra de 12,1%, a segunda maior a seguir à Espanha. Em 1975, Portugal era o segundo país com mais crianças (22%), enquanto, em 2025, era o quarto país com menos (9,8%).

A Itália é o país do bloco europeu com menor proporção de crianças (9,1%), enquanto a Irlanda (14,2%), a Suécia (13,2%) e a França (12,8%) apresentam as percentagens mais elevadas de população infantil.

Alguns municípios portugueses contrariam a tendência, entre eles: Aljezur (+8,8%), Lisboa (+9,2%), Montijo (+10,6%) e Vila Velha de Ródão (+6,6%). Nestas localidades, a proporção de crianças até aos 10 anos aumentou. Já nos municípios de Câmara de Lobos, Ribeira Grande e Porto Moniz, a quebra do número de crianças foi maior.

Nos 308 municípios de Portugal, de acordo com dados de 2024, a percentagem de crianças com menos de 10 anos varia entre 3,6% (Almeida) e 11,1% (Ribeira Grande).

Os dados indicam que, em Portugal, num total de 793 mil agregados familiares com, pelo menos, uma criança menor de 12 anos, 69% das crianças vive com um casal (73%, na UE); 20% vive em famílias com mais de dois adultos (15%, na UE); e 11% vive em famílias monoparentais (12%, na UE). A Estónia é o país da UE onde mais crianças vivem em famílias monoparentais, contrastando com a Suécia, que apresenta a maior proporção de crianças a viver com um casal (85%).

As crianças portuguesas estão entre as que passam mais horas, por semana, nos estabelecimentos de educação e ensino. Entre os 6 e os 11 anos, as crianças passam 38 horas, por semana, na escola, estando acima da média da UE, de 31,5 horas. Dos três aos seis anos (ou seja, até começar a escolaridade obrigatória), as crianças passam nos estabelecimentos de educação e ensino 38,3 horas, quando a média da UE é de 30,8 horas. Até aos três anos, o número de horas que as crianças portuguesas passam nos estabelecimentos de educação e ensino é ligeiramente mais baixo (36,7 horas), face à média da UE, de 30,5 horas.

A Hungria é o único país do bloco em que as crianças têm uma carga horária média superior a Portugal. Já a Alemanha, a Irlanda e os Países Baixos têm uma carga horária média semanal inferior a 30 horas, em qualquer um dos grupos etários. Em 2025, quase 58% das crianças até aos três anos estava abrangido por algum tipo de educação formal, em creches ou em amas certificadas. Este valor coloca Portugal entre os países com maior cobertura na UE e acima da média europeia de 40,5%. Tal tendência também se verifica na educação pré-escolar: em 2024, 94,5% das crianças entre os três anos e a idade de entrada na escola (100%, aos cinco anos; 98,5%, aos quatro anos; e 88,9%, aos três anos) frequentavam este patamar de educação, em Portugal, o que representa um aumento de 5,8%, face a 2013.

Os dados da Pordata retratam os contextos socioeconómicos em que as crianças portuguesas estão inseridas, com Portugal a integrar o grupo de sete países da UE onde as taxas de risco de pobreza ou exclusão social das crianças com menos de 12 anos são das mais baixas. Em 2025, 157 mil crianças menores de 12 anos viviam nesta situação, em Portugal. Na verdade, nos últimos 10 anos verifica-se uma melhoria significativa, com menos 103 mil crianças em risco de pobreza, face ao ano de 2015, em que o número era 260 mil. Na UE, em 2015, estavam em risco de pobreza 10,9 milhões de crianças, número que baixou para 9,4 milhões, em 2025.

No total, existem cerca de 793 mil famílias com crianças até aos 12 anos, em Portugal, o equivalente a 17% das famílias portuguesas, ligeiramente acima da média da UE, que é de 16%, em 33 milhões de famílias.

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Segundo o relatório “Portugal, Balanço Social 2025”, o risco de pobreza, em Portugal, caiu de 17%, em 2023, para 15,4%, em 2025, e o poder de compra das famílias aumentou 25,2%, na última década, mas o país continua com desigualdades profundas, sobretudo entre crianças, famílias vulneráveis e diferentes regiões do território. Em 2024, 15% das famílias pobres não conseguiram garantir às crianças uma alimentação saudável e nutritiva e uma em cada 20 crianças não conseguiu comer por falta de recursos financeiros.

Os dados do relatório, elaborado por investigadores da Nova SBE, com base em dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), mostram um país que melhorou, nos últimos anos, mas onde persistem “fragilidades estruturais”.

Uma das maiores preocupações é a pobreza infantil. Apesar da descida da taxa de risco de pobreza em crianças, de 22,8%, em 2008, para 17,8%, em 2024, uma em cada seis crianças até aos cinco anos vive em situação de pobreza. Há dois anos, 301 mil crianças eram pobres, em Portugal. Quase 30% das crianças pobres vive em situação de privação material e social. Metade não participa, regularmente, em atividades extracurriculares ou de lazer e muitas enfrentam limitações básicas, como participar em visitas de estudo pagas.

As privações também se fazem sentir ao nível da alimentação: 15% dos agregados com crianças pobres não foram capazes de assegurar “uma alimentação saudável e nutritiva”. Mesmo com fome, uma em cada 20 crianças não comeu, por não ter recursos financeiros.

Cerca de uma em cada dez crianças com idades até aos cinco anos não frequentou, pelo menos, 30 horas semanais de educação pré-escolar ou creche. “Esta proporção é quase o dobro em crianças que vivem em agregados em situação de pobreza (18,5%) das crianças que vivem em agregados não pobres (9,8%)". Além disso, três em cada dez viviam em alojamentos sobrelotados.

Em suma, nascem menos crianças, fazem parte de famílias mais diversas, passam muito tempo na escola e são menos pobres. Todavia, ainda há muitas crianças pobres. Apesar da melhoria na última década, o risco de pobreza continua a marcar parte significativa das crianças.

O risco também dependente do contexto. Por exemplo, quando os pais têm apenas o ensino básico, a taxa de vulnerabilidade ultrapassa os 40%, ao passo que, se têm o ensino superior, desce para valores próximos dos 5%.

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As atividades atinentes ao Dia Mundial da Criança multiplicaram-se, um pouco por toda a parte. E é de destacar a ocorrida em Portugal, a 29 de maio. Turistas e residentes locais que passavam na baixa lisboeta tiveram, por instantes, contacto com a realidade devastadoras em Gaza, através de uma instalação artística feita de brinquedos e de roupa infantil, com o objetivo de chamar a atenção para os milhares de crianças mortas nos últimos meses do conflito.

A ação foi organizada por grupos da sociedade civil para assinalar a efeméride a celebrar a 1 de junho. Durante esse dia e os subsequentes, os organizadores apelaram a doações de roupa e de brinquedos para crianças, para encher a Rua do Carmo, uma das mais emblemáticas do centro histórico de Lisboa. E, por todo o país, realizaram-se vários outros eventos, num apelar ao cessar-fogo imediato.

Na verdade, a guerra em Gaza tem sido devastadora para as crianças. De acordo com o Ministério da Saúde de Gaza, foram mortos mais de 54 mil Palestinianos, na sua maioria mulheres e crianças. E muitas crianças mal sobrevivem ou não sobrevivem à fome, à subnutrição e às infeções (algumas das quais em termos epidémicos).

A guerra começou quando o Hamas atacou Israel, a 7 de outubro de 2023, matando cerca de 1200 pessoas, na sua maioria civis, e fazendo 250 reféns, alguns ainda em cativeiro em Gaza.

Os organizadores da ação que decorreu em Lisboa referiram o número anunciado pela UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância), a agência da Organização das Nações Unidas (ONU) segundo a qual mais de 50 mil crianças foram mortas ou feridas, desde outubro de 2023.

É de recordar que, no dia 27 de maio, centenas de Palestinianos invadiram um armazém de alimentos da ONU no centro de Gaza, desesperados por ajuda, devido à fome que assolava o território, após meses de encerramentos nas fronteiras. Multidões empurraram e gritaram à entrada do armazém, com alguns a rasgarem as paredes de metal para alcançarem os mantimentos. Muitos saíram carregando sacos de 25 kg de farinha, navegando por entre as pessoas que ainda tentavam entrar. Duas pessoas foram mortas e várias ficaram feridas.

A luta por comida evidenciava uma crise crescente, com Gaza a aproximar-se de uma situação de fome, após quase três meses de restrições israelitas. E as agências de ajuda diziam que os sistemas não conseguiam atender às necessidades dos 2,3 milhões de habitantes de Gaza.

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Também é de assinalar que, em Portugal, o número de crianças vítimas de violência doméstica, em casas de abrigo e em outros espaços de acolhimento de emergência, foi, no primeiro trimestre do ano, pela primeira vez, mais elevado do que o número de mulheres.

Segundo os dados divulgados a 27 de maio, no Portal de Violência Doméstica, pela Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG), nos primeiros três meses deste ano, estavam na Rede Nacional de Apoio às Vítimas de Violência Doméstica 1383 pessoas, entre elas 678 mulheres, 684 crianças e 21 homens.

Comparando com o trimestre anterior, as casas de abrigo e outros espaços de acolhimento de emergência acolheram mais 61 crianças, nos meses de janeiro, de fevereiro e de março deste ano e menos 27 mulheres.

Nos primeiros três meses do ano, morreram oito pessoas vítimas de violência doméstica, seis mulheres e duas crianças, segundo os dados divulgados no Portal da Violência Doméstica e que, neste caso, têm como base informações da Polícia Judiciária (PJ).

O número de ocorrências participadas à Polícia de Segurança Pública (PSP) e à Guarda Nacional Republicana (GNR) também aumentou, em relação ao último trimestre, com 6949 participações por violência doméstica, no primeiro trimestre de 2026, mais 276 ocorrências. E os dados mostram que 6389 pessoas eram abrangidas pela teleassistência, no primeiro trimestre, número também recorde e com mais 289 pessoas abrangidas do que no trimestre anterior.

Em contexto prisional, atingiu o recorde o número de presos por violência doméstica, nos primeiros três meses do ano, com 1607 reclusos, 398 em preventiva e 1209 a cumprir pena. De acordo com os dados reunidos pela CIG e que têm como base os números da Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais (DGRSP), no primeiro trimestre deste ano, estavam mais 25 pessoas a cumprir pena de prisão e mais 22 em preventiva do que nos três meses anteriores – outubro, novembro e dezembro de 2025.

Além disso, os indicadores publicados mostram que, nos primeiros três meses do ano, foi aplicada a medida de coação de pulseira eletrónica a 959 pessoas e 3168 pessoas frequentavam programas para agressores, sendo o número de presos nestes programas muito inferior ao número de pessoas que os frequentam na comunidade, 211 e 2957, respetivamente, mas o número de agressores tem sido sempre acima dos 2500 participantes, desde 2021.

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Há, pois, muito que fazer em prol da dignidade das pessoas e, em especial, da criança, que precisa de um desenvolvimento harmonioso e tranquilo, embora com sentido de exigência.

2026.06.01 – Louro de Carvalho