quinta-feira, 11 de junho de 2026

Com a guerra no Irão a alimentar inflação, o BCE sobe os juros

O Banco Central Europeu (BCE), a 11 de junho, decidiu, para entrar em vigor a 17 deste mês, o aumento das suas taxas diretoras em 25 pontos base, elevando-as de 2% para 2,25% – a primeira subida desde setembro de 2023.

O BCE define a política monetária da Zona Euro, através de três taxas de juro de referência, sendo a taxa da facilidade de depósito o principal indicador da sua orientação.

A taxa da facilidade de depósito do BCE tinha sido aumentada, pela última vez, em setembro de 2023, quando atingiu o pico de 4,0%, no culminar de um ciclo de aperto destinado a estabilizar a crise inflacionista do pós-pandemia.

O conselho de governadores do BCE justificou o aperto com o impacto inflacionista da guerra no Médio Oriente, que é preciso conter e que eleva riscos para as perspetivas de inflação de médio prazo. Em comunicado, a autoridade monetária da Zona Euro sublinha que a medida é robusta, face a vários cenários de evolução do choque e que a orientação da política monetária continuará “dependente dos dados e reunião a reunião”. Com o ajuste acabado de decidir, as três taxas de referência passam a ser: facilidade de depósito: 2,25%; operações principais de refinanciamento; 2,40%; e facilidade de cedência de liquidez: 2,65%.

A presidente do BCE, Christine Lagarde, afirmou, depois, em conferência de imprensa, em Frankfurt, que a subida das taxas de juro em 25 pontos base “é um sinal e é necessário” e que a decisão foi tomada por unanimidade, sem terem sido debatidas outras alternativas. O BCE atualizou, igualmente, as projeções macroeconómicas do Eurossistema, devendo a inflação média na Zona Euro deverá situar‑se em 3%, em 2026, 2,3%, em 2027, e 2%, em 2028. Já a estimativa para o crescimento foi revista em baixa – 0,8%. em 2026, 1,2%, em 2027, e 1,5%, em 2028 – refletindo um impacto mais forte da guerra nos mercados de matérias‑primas, nos rendimentos reais e na confiança.

Christine Lagarde recusou a ideia de BCE ter subido as taxas de juro, de forma “preventiva”. Pelo contrário, assumiu a presidente da instituição, insistindo que a decisão foi tomada de forma “unânime e sem reservas” pelos governadores da Zona Euro.

“Li aqui e ali que o BCE tomaria uma ‘decisão de seguro’ […], uma decisão preventiva sobre as taxas”, comentou ainda. Mas “não foi assim que discutimos o assunto”, declarou, ao lado do novo vice-presidente croata, Boris Vujčić.

A líder da autoridade monetária da Zona Euro salientou que subir, agora, os juros “claramente sinaliza algo e é [uma medida] necessária, dada a atual situação económica e a incerteza que estamos a enfrentar”. “Se não tivéssemos tomado esta decisão óbvia de política monetária, então, no final do médio prazo, que é o que consideramos para efeitos de projeção, estaríamos acima do nosso objetivo”, alertou. Por mais do que uma vez avisou que, se o BCE não controlar a inflação, desde o início, terá mais dificuldade em fazê-lo mais tarde.

Christine Lagarde revelou que, só no outono do próximo ano, é que a inflação regressará à meta de 2% do banco central e que já se começa a assistir a uma “expansão da inflação em toda a economia”, e não apenas nos preços energéticos. “Isto acontece, obviamente, em termos de efeito direto, mas também em termos de efeito indireto – ainda não, neste momento, nos efeitos de segunda ordem, mas estaremos extremamente atentos”, observou.

Depois de um ano de pausa, o BCE voltou a subir as taxas de juro para conter uma nova escalada da inflação provocada pela guerra no Irão e que causou um grande choque nos preços da energia.

A presidente do BCE não deixou pistas sobre o futuro, depois de questionada sobre se estamos perante um ciclo de subidas: “Não nos estamos a comprometer antecipadamente com uma trajetória de taxas específica”.

Porém, os mercados esperam mais uma subida de 25 pontos base este ano.

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A subida das principais taxas de juro marca uma inversão clara do ciclo de afrouxamento que tinha caraterizado a estratégia do BCE, durante grande parte de 2025. Em maio, a inflação, na Zona Euro, atingiu 3,2%, o valor mais elevado, desde setembro de 2023, impulsionada por um aumento de 10,9% nos preços da energia. Porém, o conselho de governadores concluiu que a inação deixara de ser sustentável.

Antes da reunião do dia 11, os mercados financeiros já davam, praticamente, como certa uma subida das taxas, depois de membros do conselho de governadores do BCE, tanto do campo mais restritivo como do mais acomodatício, terem sinalizado um aumento, em junho.

A subida surge numa fase difícil para a economia da Zona Euro. Com efeito, a economia do bloco contraiu-se em 0,2%, no primeiro trimestre de 2026, levando economistas a alertar para um período de estagflação, com fraco crescimento, com inflação em alta e com a confiança em queda. O próprio Inquérito a Especialistas em Previsão do BCE aponta para um crescimento do produto interno bruto (PIB) de apenas 0,9%, em 2026, uma revisão em baixa atribuída diretamente ao impacto negativo da subida dos preços da energia decorrente da guerra no Irão.

A inflação subiu para 3,2%, o nível mais alto desde 2023, e a inflação subjacente, que exclui os componentes mais voláteis de alimentação e energia, aumentou também de 2,2%, em abril, para 2,5%, em maio, enfraquecendo a tese de que as pressões sobre os preços continuam confinadas apenas à energia.

Para as famílias e para as empresas dos 21 países da Zona Euro, a decisão do BCE traduz-se em custos de financiamento mais elevados para créditos à habitação e para empréstimos às empresas, numa altura em que o poder de compra já está a ser comprimido pelos preços elevados dos combustíveis e do gás. Os mercados atribuem ainda cerca de 50% de probabilidade a nova subida, em setembro, o que sugere que a atual decisão é vista como o início de uma nova fase de aperto, e não como uma intervenção pontual.

A defesa desta subida, em termos de enquadramento económico, foi feita, antecipadamente e de forma mais incisiva, por Isabel Schnabel, membro da Comissão Executiva do BCE responsável pelas operações de mercado do banco, a qual defendeu que o BCE deveria subir as taxas em junho, independentemente de as atuais negociações de paz sobre o Irão resultarem ou não num acordo, apontando para a duração do conflito e para o grau em que os preços elevados da energia se estão a repercutir no conjunto da economia.

Falando numa conferência em Seul, Isabel Schnabel avisara que “o risco de desancoragem das expectativas de inflação está a aumentar” e que o banco já não podia “ignorar este choque”.

Também o economista-chefe, Philip Lane, afirmou que as condições se tinham deteriorado, desde as projeções de março do banco e que a reunião de junho traria uma revisão em alta das previsões de inflação do BCE. Porém, Isabel Schnabel foi mais longe, antecipando que a inflação poderá subir para 4%, antes do final do ano.

No fim de maio, a maioria dos analistas considerava que a subida de taxas de juro na Zona Euro era inevitável, porque a inflação subiu de forma vincada, em maio superando a fasquia dos 3%, em termos homólogos, como confirmou o Eurostat, a 2 de junho. Esta escalada dos preços dura desde janeiro e o valor de maio é o maior em quase três anos.

Desde maio de 2023, que o BCE só desceu juros, sendo que a taxa diretora estava estacionada em 2% (desde junho de 2025), o valor mais baixo desde finais de 2022, o primeiro ano da guerra da invasão da Ucrânia pela Rússia. Segundo a estimativa rápida do gabinete europeu de estatísticas, o agravamento dos preços atingiu 3,2% em maio, um valor considerado totalmente incompatível com a meta de 2% a médio prazo desejada e perseguida BCE.

As taxas de juro de mercado, como as Euribor, que são as referências para os contratos de crédito e para os depósitos a prazo, já estavam a antecipar isto, pois começaram a subir, há uns meses, com o advento da nova guerra dos Estados Unidos da América (EUA) contra o Irão e o encerramento das rotas comerciais (energia, fertilizantes e outras mercadorias) do Golfo Pérsico.

Assim, já se esperava que a autoridade monetária sediada em Frankfurt, na Alemanha, subisse a taxa de juro principal da Zona Euro, dos atuais 2% para 2,25%, na reunião de junho.

Houve quem tenha aventado a hipótese de o BCE esperar um pouco mais, para ver o que acontecia aos preços da Zona Euro, se a inflação se estava a enraizar noutras partes do mercado, além da energia e dos alimentos. Porém, o problema é que o valor de 3,2%, avançado pelo Eurostat, tornou inevitável um aumento de juros.

A inflação europeia, assim como a dos restantes países do euro, está a subir de forma imparável desde o início deste ano (em janeiro, antes da guerra, os preços estavam controlados e a subida média estava em 1,9%) e a subida de 3,2%, agora registada, é o valor mais agressivo desde setembro de 2023.

Carsten Brzeski, economista-chefe para a área de macroeconomia global no grupo financeiro holandês ING, observou que esta inflação de 3,2%, registada em maio (contra 3%, em abril), “é o nível mais elevado, desde setembro de 2023”, embora o quadro geral da evolução de preços esperada para 2026 continue “em linha com o cenário base do BCE divulgado em março”. Não obstante, o economista relevou que “a inflação subjacente subiu para 2,5%, em comparação com o mesmo período do ano anterior, contra 2,2%, em abril”. Assim, uma semana antes da próxima reunião do BCE, este é o aumento da inflação que motivará o banco central a decidir sobre uma subida preventiva das taxas de juro”, previa o economista-chefe, desmentido por Christine Lagarde, quanto ao caráter preventivo da subida.

“Tendo em conta a experiência de 2022, é provável que o BCE opte por um aumento preventivo das taxas de juro. Não que este aumento de taxas vá afetar, significativamente, as expectativas de inflação, mas seria uma medida simbólica, sublinhando a determinação do BCE em agir”, explicou o analista do ING.

Em 2022, com a guerra a decorrer na Ucrânia, desde fevereiro desse ano, e apesar do choque petrolífero e inflacionista de grandes dimensões que decorria, o BCE só agiu (aumentou juros) no final de julho. Deste vez, deu a entender que pretendia atuar mais cedo. Por isso, os investidores e os mercados monetários estavam a contar com um primeiro aperto nos juros, já em junho, e colocavam a hipótese de duas ou três subidas de juros, até final do ano

Na semana anterior, antes dos novos sinais inflacionistas do Eurostat, segundo o departamento de estudos económicos do Banco BPI “dois importantes administradores do BCE, Isabel Schnabel e Philip Lane, apontaram para uma próxima subida das taxas em junho”.

Numa entrevista à Reuters, Schnabel disse ver necessidade de subida na reunião de junho, e Lane deu a entender que a subida seria necessária, ao antecipar o aumento das projeções do BCE para a inflação e ao sugerir que a Zona Euro está a afastar-se do cenário de impacto benigno do conflito no Médio Oriente. “Globalmente, os mercados estão muito confiantes de que o BCE aumentará as taxas, em junho (taxa de depósito em 2,25%, com mais de 90% de probabilidade) e, em setembro (taxa a 2,5%, com 90% de probabilidade)”, referiu a equipa do BPI.

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Entretanto, o ministro português das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, considerou que a subida das taxas de juro “não era absolutamente necessária” e que a crise atual é “diferente” da de 2022, adiantando, contra a corrente, que as perspetivas para a economia nacional são “bastante positivas”. “Como já tinha tido a oportunidade de vos dizer em algumas ocasiões, esta é uma crise diferente da de 2022. Quando a Rússia invadiu a Ucrânia, a inflação já estava nos 6%. A inflação está muito longe desses valores, a inflação core, ou seja, sem energia e sem bens alimentares, continua próxima dos 2%”, explicou o governante, em declarações aos jornalistas reproduzidas pela RTP Notícias.

O titular da pasta das Finanças frisou que o BCE “decidiu subir as taxas de juro, mas estamos numa situação muito diferente, quer do ponto de vista de inflação, quer do ponto de vista de taxas de juro do Banco Central, e, depois, daquelas que interessam às pessoas, a Euribor. Mas, obviamente, a decisão do Banco Central também tem impacto”. “Estamos muito longe da situação de 2022”, insistiu Miranda Sarmento, realçando que “as famílias têm assistido a um aumento da Euribor”, mas “ainda muito longe daquilo que aconteceu em 2022”. 

“A Euribor, dependendo das maturidades, está próxima de 2,5%. Em 2022, chegou a ultrapassar os 4%. Portanto, veremos nos próximos meses. Há muita incerteza sobre a situação no Médio Oriente [...], que é, naturalmente, má para a economia, mas estamos muito longe do que aconteceu em 2022, quer em termos de inflação, quer em termos de taxas de juro, e as perspetivas para a economia portuguesa continuam a ser bastante positivas”, explicitou o governante.

Já o governador do Banco de Portugal (BdP), Álvaro Santos Pereira, considerava, no fim de maio, que o risco de refinanciamento da dívida pública é baixo e que as famílias se desendividaram, mas sustentava que é preciso ter cautela sobre a trajetória da evolução do endividamento e acautelar a exposição da banca ao crédito à habitação, no contexto de subida da inflação e de eventual subida das taxas de juro por parte do BCE, a 11 de junho.

Álvaro Santos Pereira aproveitou a conferência de apresentação do Relatório de Estabilidade Financeira do BdP para confirmar a redução da taxa de esforço na concessão de crédito à habitação de 50% para 45%, visto que “o principal risco da economia portuguesa é o aumento dos preços no imobiliário”. Efetivamente, como o preço das casas vem a aumentar, nos últimos 11 anos, defende a necessidade de proceder a uma correção num mercado em que o crescimento da oferta de habitação é insuficiente, face à procura.

E o BdP avisava que a potencial descida dos preços das casas poderá ser uma ameaça para o sistema financeiro. Em 2025, os preços da habitação mantiveram a trajetória de crescimento expressivo, sustentada por uma procura robusta, impulsionada por medidas públicas (garantia do Estado), pela participação de compradores estrangeiros e por constrangimentos persistentes do lado da oferta – uma dinâmica que reforça os indícios de sobrevalorização e agrava os problemas de acessibilidade da habitação, assim como aumenta o peso do crédito nas transações de imóveis e o peso da exposição da banca no mercado habitacional interno.

Por isso, atento aos riscos que pairam no horizonte, o supervisor prepara um aperto nos critérios de concessão de crédito e defende que as suas recomendações passem a ser vinculativas para a banca, em linha com as melhores práticas internacionais. Contudo, esse reforço legal das recomendações dependerá de aprovação por parte do governo.

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A inflação sobe, os juros aumentam e os preços superam as possibilidades das famílias. Paralelamente, a habitação é inacessível, o emprego decresce, a precariedade cresce e a pobreza alastra. Porém, o governador do BdP não se resigna ao papel do provedor de Justiça, fazendo meras recomendações; que que sejam lei. Ao mesmo tempo, a guerra escala!

2026.06.11 – Louro de Carvalho


quarta-feira, 10 de junho de 2026

Leão XIV em visita à Espanha entre Política, História e Religião

 

O Papa Leão XIV chegou a Madrid, na Espanha, a 6 de junho, às 10h12, para a visita apostólica de sete dias, que inclui Barcelona e as Canárias. A última vez que o país recebeu um papa foi em 2011, quando Bento XVI participou, em Madrid, na Jornada Mundial da Juventude.

Leão XIV foi recebido pelo rei Felipe VI e pela rainha Letizia, pelo primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, e vários membros do governo. Também participaram na receção o arcebispo Piero Pioppo, núncio apostólico na Espanha e no Principado de Andorra, e o arcebispo de Valladolid, Luis Javier Argüello García, presidente da Conferência Episcopal Espanhola (CEE). O Pontífice cumprimentou as delegações ao longo do tapete vermelho, no Aeroporto de Madrid Adolfo Suarez-Barajas. Depois, dirigiu-se para o Palácio Real de Madrid, onde lhe foram prestadas honras militares (hinos do Vaticano e da Espanha, com salva de 21 tiros de morteiro, e revista às tropas em parada), após o que se dirigiu ao Salão de Honra, para breve encontro privado com a família real.

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No encontro com as autoridades, a sociedade civil e o corpo diplomático, às 12h30, no Palácio Real de Madrid, o Santo Padre disse ao que vinha.

Vincando a multifacetada riqueza do país que acolheu a Palavra do Evangelho, há quase dois milénios, interpretou o facto de a tradição associar a evangelização da Península Ibérica à pregação de Tiago, o Maior, como expressão da consciência da Igreja local de estar em continuidade com a missão apostólica. E lembrou que a ligação entre a fé cristã e estas terras lhes “moldou, profundamente”, a cultura e constitui “uma fonte de esperança e de orientação entre os desafios que devemos enfrentar juntos, como família humana”. Na verdade, diz o Pontífice, “as expressões da fé popular”, que são “dramaturgia da salvação, ao ritmo do ano e nos diversos contextos da vida”, a par do património artístico-musical e das múltiplas irmandades e associações de caráter caritativo, “dão testemunho do fecundo encontro” entre Jesus Cristo e este povo “cheio de paixão, que ama a vida e o manifesta”.

Propõe-se “confirmar, encorajar e inspirar uma renovada fidelidade ao Evangelho, da parte dos fiéis, bem como a reconciliação e a cooperação mais profundas “entre as diferentes forças desta nação”. Com efeito, a História da Espanha sugere que é a cultura do encontro “que gera estabilidade e prosperidade”. Por conseguinte, a mensagem de paz, que ressoa, para alguns, como ingénua e, para outros, como provocadora, “encontra acolhimento em quem não se fecha em ideologias pré-fabricadas, mas se abre à verdade”. E, citando o seu predecessor Francisco diz que há “tensão bipolar entre a ideia e a realidade: a realidade simplesmente é, a ideia elabora-se”, devendo estabelecer-se o diálogo constante entre as duas, pois “é perigoso viver no reino só da palavra, da imagem, do sofisma”. De facto, como dizia Francisco, a verdade é maior do que nós e, por isso, surpreende-nos e atrai-nos para caminhos de purificação e de reconciliação, nos quais é fundamental o diálogo com os outros – e com “o Outro”.

Depois, evocou duas figuras do país que alimentam, há cinco séculos, a vida da Igreja e a busca espiritual de muitos: João da Cruz e Teresa de Ávila, que se tornaram amigos na paixão pelo Mistério divino e cuja “mística é de olhos abertos”, levando “à raiz das questões, ao coração da realidade”. Em particular, o tema da noite, caro a João da Cruz – cujo Ano Jubilar estamos a celebrar –, ajuda a “interpretar as transformações e a suportar as tensões que tornam a nossa época tão sombria”. Na sede de luz, ele aprendeu a apreciar a escuridão, “como o tempo em que a alma se liberta do que presumia conhecer e possuir”. Também hoje, no dizer do Papa, o que mais assusta, provocando, em muitos, a escuridão da razão e a violência das emoções, é “o desconhecido, face ao qual pode prevalecer a desorientação, a sensação de já não termos mapas”. Por isso são necessários, na vida pública, homens e mulheres que intuam, na escuridão, a luz como “o irromper de uma verdade tal qual luz que ainda cega, mas que, se confiarmos e encontrarmos paz, nos trará delicadamente em direção a si mesma”.

Efetivamente, assinala Leão XIV que esta época, “abalada por terríveis desequilíbrios e conflitos, no seu íntimo, clama por paz, por um novo conhecimento da pessoa humana e da sua dignidade inviolável, pela civilização do amor”.

Santa Teresa, segundo o Pontífice, percorre o mesmo itinerário com a imagem do castelo interior. Avançando em direção ao lugar mais íntimo – isto é, cada um em direção ao seu coração, santuário da verdade –, “o espaço alarga-se, a mente abre-se, as contradições resolvem-se, as tensões dissolvem-se, os outros encontram o seu lugar, o universo torna-se lar”. Não é fuga intimista, mas “a radical abertura ao totus Alius et semper Novus, que se realiza quando voltamos a nós mesmos” – dimensão do ser humano que “é o motivo pelo qual é preciso proteger a liberdade religiosa e de consciência”. Ora, porque a tentação de ganhar popularidade, atiçando o fogo das polarizações parece crescer, “a dignidade humana continua a ser violada”, o que mostra a necessidade de cultura, de interioridade, de educação livre e de qualidade, de transcendência.  E a Igreja está ao serviço desta sede do coração humano, não de modo impositivo, mas com o testemunho evangélico apoiado na multidão de mártires e de santos, disposta a colocar-se “ao serviço do futuro de um povo que busca a reconciliação e a paz”.

Assim, o Papa a todos convida, “por amor à verdade, a abandonarem as narrativas divisórias e polarizadoras” da realidade social e da História, para que se passe das simplificações estéreis à fecunda apreciação da complexidade. Vê uma vocação específica da Europa, da qual a Espanha é protagonista original e fundamental. É o presente que o Velho Continente pode dar ao Mundo, se quiser permanecer jovem, pois “jovem é quem sente que tem um futuro e uma missão que ainda o interpelam”. É preciso “apreciar a complexidade e estudá-la, aprendendo a vivê-la como bênção […] e fugindo das abordagens identitárias que parecem esclarecer tudo, mas que povoam o Mundo de fantasmas e inimigos”. E diz Leão XIV que as tecnologias se tornaram num ambiente artificial que põe à prova opções fundamentais, exacerba preconceitos, enfraquece o pensamento crítico e leva os interesses prepotentes a semear impulsos de morte.

Frisando que “o bem pode resistir e ser comunicado”, o Pontífice sustenta que, sobretudo, por parte de quem tem responsabilidades económicas, políticas e institucionais, é preciso “um salto qualitativo, uma mudança de rumo nos investimentos destinados à escola, à universidade e à investigação, às comunidades locais e à sociedade civil, como sementeira de participação e mediação cultural”, pois a segurança, que se pensa provir das armas e dos muros, amadurece, quando se aprende a avançar com o outro, crescendo juntos. A História da Espanha o atesta. Por exemplo, a presença do Islão na Península constituiu duradoura realidade política, cultural e religiosa. Nesse período, a par do confronto, tentou-se criar espaço de relação, de conversa e de diálogo sobre o sentido da verdade entre cristãos, muçulmanos e judeus. Na escola de tradutores de Afonso X, o Sábio, especialistas oriundos das três religiões colaboraram na tradução do património árabe, grego e hebraico, contribuindo para a difusão de textos como os dos filósofos Averróis (1126-1198) e Maimónides (1138-1204). Cidades, como Córdova e Toledo tornaram-se lugares de mediação entre línguas, religiões e saberes. Esta é a verdade que contam as cidades europeias, a sua estratificação histórica, o tecido de solidariedade que, em séculos, moldou as suas diferenças, transformando inevitáveis conflitos em pontos de partida.

Em provações e fracassos é possível repensar tudo, como fez Inácio de Loyola, que ousou dar crédito às desolações e consolações do coração, num exercício de discernimento e imaginação pelo qual preferiu a paz às armas e os santos aos poderosos. Compreendeu que o bem que o atraía não era utópico, e a sua crise transformou-se em graça. Isto pode acontecer com as novidades que nos inquietam e sobre as quais estão divididas as nossas sensibilidades. Há que evitar palavras que humilhem ou criem oposições, escolher a clareza que ilumina e a franqueza que abre caminhos, não abençoar entusiasmos ingénuos, não alimentar medos estéreis. É preciso gizar critérios de discernimento – dignidade da pessoa, destinação universal dos bens, opção pelos pobres, cuidado da Casa comum, paz – e transformá-los em ações: com projetos responsáveis, com avaliações de impacto humano e social, com inclusão dos mais frágeis, com alfabetização digital, com pesquisa e com indústria, rumo à justiça e à paz.

Leão XIV agradeceu à Espanha a fidelidade ao direito internacional e ao multilateralismo, que se traduz no compromisso com a paz e com a solidariedade entre os povos. E encorajou-a a cultivar o diálogo e a amizade social internamente, a ter em conta as perspetivas dos pobres e dos jovens, a imaginar o futuro, a harmonizar as exigências de autonomia e de unidade, e a “impulsionar o processo de união europeia, não em oposição a outras potências, mas como dom para toda a família humana”.

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A 8 de junho, o Pontífice apresentou-se ao Congresso e a 700 convidados como Bispo de Roma e Pastor da Igreja católica, cônscio de que a missão petrina, como princípio e fundamento de unidade dos Bispos e dos fiéis, coloca a Santa Sé, de modo peculiar, em diálogo com os povos e com os Estados. Disse que a sua presença quer ser gesto de proximidade, na mútua cooperação, e uma palavra ao serviço da pessoa humana, pois, na sua ótica, “a Igreja “caminha com a Humanidade”, partilhando suas esperanças e feridas, escutando as aspirações de cada época e deixando-se interpelar por tudo o que atinge os homens e as mulheres.

Por isso, ao dirigir-se à vida pública, respeita a missão própria das instituições e a legítima responsabilidade de quem recebeu o mandato de legislar. Vinca “a autonomia das realidades terrenas” e “a distinção entre comunidade eclesial e comunidade política”; e, a partir dessa consciência, “oferece a reflexão nascida do desejo de servir o bem comum e de recordar o que “torna verdadeiramente humana a convivência”.

Dando-se, no hemiciclo, forma jurídica à convivência social, na escuta e ordenamento das diferenças, para serem convertidas, quando possível, em decisão partilhada, toda a tarefa legislativa se depara com a pergunta decisiva: “Que conceção da pessoa humana inspira as leis e que tipo de sociedade elas constroem? É questão para a qual a Espanha possui memória rica. A sua identidade geográfica e política foi-se entrelaçando com uma História em que a fé e a razão, a arte e o direito, a tradição e o pensamento souberam encontrar-se.

Cervantes proclamou que “a liberdade […] é um dos dons mais preciosos que os céus concederam aos homens” e Unamuno sustentava que o homem “não se resigna a morrer de todo”. E a Espanha, olhando o ser humano como algo mais do que peça da ordem social, económica ou política, reconheceu-o como criatura aberta à verdade, dotada de liberdade e movida pela sede de eternidade que nenhuma realidade temporal consegue extinguir.

A partir de Espanha, a reflexão da Escola de Salamanca – e, em particular, frei Francisco de Vitória com outros dominicanos e jesuítas – contribuiu para formar uma consciência jurídica e moral capaz de recordar que a autoridade traz consigo uma responsabilidade e que todo o ser humano deve ser reconhecido como sujeito de direitos e deveres, pressuposto que postula que “a dignidade, a justiça e o bem comum sejam a medida das relações sociais, tanto ao nível nacional como ao nível internacional”. E a questão salmantina acompanha a tarefa de quem serve a vida pública. Hoje, os novos mundos que se abrem já não se desenham nos mapas: “desdobram-se na técnica, na economia, na biomedicina e no universo digital, onde o poder humano alcança âmbitos cada vez mais delicados da vida pessoal e social”.

O progresso oferece admiráveis possibilidades, nomeadamente, no desenvolvimento de novas tecnologias. Porém, a tecnologia não é neutra, porque “toma o rosto de quem a concebe, a financia, a regula e a utiliza”, pelo que, face às transformações do nosso tempo, “o discernimento deve centrar-se no lugar que ocupa a pessoa humana nas nossas decisões e como se reflete sobre a dignidade do trabalho, a solidariedade, a política social e o bem comum”. Ora, tal discernimento começa pela afirmação primeira: “Toda a sociedade justa se edifica sobre o reconhecimento da dignidade inviolável da pessoa humana”. Tal dignidade precede qualquer concessão do Estado e não pode ficar subordinada a consensos sociais mutáveis ou à oscilação das maiorias de cada momento. Pertencendo a todo o ser humano, pelo facto de existir, deve orientar todo o ordenamento jurídico. Quando esta convicção permanece viva, o direito converte-se em amparo de todos e em garantia ante a imposição de interesses e de agendas particulares, que levam, tantas vezes, à cultura do descarte, esquecendo o bem comum como “a forma social da dignidade humana”.

Leão XIV tentou unir os políticos da Espanha dividida e polarizada, com o governo socialista a avançar com o processo de inscrever o aborto na Constituição. Para tanto, precisa do apoio do Partido Popular (PP), pois a reforma constitucional exige amplo consenso.

É neste quadro que as palavras de Leão XIV sublinham a dignidade humana e a primazia da vida humana. E, se isto é esquecido, os mais vulneráveis são as primeiras vítimas e a lei perde o seu significado mais profundo: servir e proteger cada pessoa”. “A defesa da vida humana não é uma questão parcial nem um interesse confessional: é uma meta de civilização”, disse o Papa, que destacou, entre os grupos mais vulneráveis, os migrantes e refugiados, a quem mostrará apoio, quando visitar Tenerife e Las Palmas, duas das oito ilhas Canárias, consideradas portas de entrada para a Europa. O Pontífice apontou as “rotas cada vez mais perigosas” que migrantes e refugiados são forçados a percorrer, onde são “presas de traficantes e de contrabandistas que se aproveitam do seu desespero” – uma situação que “exige uma resposta que olhe para as pessoas, que enfrente as causas que as obrigam a partir e que vá além da mera gestão de fluxos”.

Nesta dolorosa situação, no dizer de Leão XIV, surge a dupla exigência de justiça social: “oferecer vias seguras e legais, acolhimento respeitoso e possibilidades reais de integração; e promover o direito a permanecer na própria terra, trabalhando para que ninguém tenha de abandonar o seu lar por falta de paz, segurança ou condições dignas de vida, pelas desigualdades económicas e os efeitos da crise climática”.

“Quando uma pessoa é discriminada pela sua origem nacional, étnica, religiosa ou linguística, ou pela sua condição económica ou social, viola-se, gravemente, o princípio universal da igual dignidade de todos os seres humanos”, disse o Santo Padre.

O Papa elegeu a família “como realidade humana primeira e fundamento natural da comunidade” e a primeira escola de humanidade onde se aprende a gramática elementar da convivência: “receber a vida, cuidar do outro, perdoar, servir e pertencer”, tal como disse que “toda a vida humana deve ser reconhecida e guardada desde a sua conceção até ao seu ocaso natural”, pois “a grandeza moral de uma nação manifesta-se, acima de tudo, na sua capacidade de acompanhar, proteger e amar as vidas que atravessam maior fragilidade”.

Depois, fez apelos à unidade na diversidade e à construção da paz justa e duradoura, no diálogo e na prossecução do desenvolvimento em ordem ao bem comum.

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O discurso político-histórico, à luz do Evangelho, será a pedrada no charco da polarização?

2026-06.10 – Louro de Carvalho


O mar como fator da identidade portuguesa e de apelo ao futuro

 

A 10 de junho, em Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, neste ano de 2026, na Ilha Terceira, nos Açores, o discurso do Presidente da República (PR) partiu dos versos do açoriano Vitorino Nemésio – “Quando penso no mar, o mar regressa / a certa forma que só teve em mim – / Que onde acaba, o coração começa.” – para vincar a ideia de que o mar não é só paisagem, mas “uma condição” e “uma forma de ser no Mundo.

Tendo sido “diante do Atlântico que aprendemos a olhar mais longe”, na perspetiva do chefe de Estado, os Portugueses viram, nele, “um caminho”, que os ensinou a “partir” e a “regressar”, resilientes ante as “tempestades”, humildes ante a “imensidão” e determinados ante o “desconhecido”. E o PR sentenciou: “Falar de mar é falar da identidade portuguesa.”

Depois, salientou o lugar singular dos Açores na identidade, na História e no futuro de Portugal, pois, situando-nos “num ponto estratégico” entre a Europa e o continente americano, entre o Atlântico Norte e as rotas marítimas e aéreas estruturantes da ordem global, induziram-nos à assunção de “responsabilidades e deveres”, na afirmação “da nossa soberania, dos nossos interesses e do nosso futuro estratégico”. Frisou que “a autonomia estratégica europeia como prioridade não é contraditória com a defesa transatlântica”, mas “seu complemento natural”. E sustentou que o presente e o futuro da Europa e da América do Norte são dimensões da mesma comunidade de segurança, que tem o seu pilar fundamental na Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO). Com efeito, “o Atlântico faz parte da autonomia estratégica europeia”, a nível “político, económico, energético, tecnológico e de segurança e defesa”.

É pertinente a assunção presidencial da autonomia como “liberdade de decisão e responsabilidade, aperfeiçoando, atualizando e reforçando cooperações bilaterais com os nossos aliados”. Na verdade, como observa o também comandante supremo das forças armadas, só é possível garantir a segurança da Europa em articulação com os aliados, na “relação de equilíbrio e reciprocidade, de respeito pela soberania dos Estados, assente em valores” que não mudam – paz, liberdade, direitos Humanos e multilateralismo – que norteiam a ação das forças armadas em Portugal e em missão por todo o Mundo, as quais “são um dos pilares fundamentais do Estado democrático” e “a garantia” da soberania da República, da integridade territorial e da liberdade do povo português”. Por isso, merece gratidão a sua lealdade, dedicação e amor a Portugal.

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Pensando na celebração de meio século das autonomias regionais, o Presidente da República, referiu que, depois ter estado, no Luxemburgo, com uma das comunidades da diáspora e após a sua presença nos Açores, estaria na Madeira no dia 11. E relevou que a sua presença nos dois arquipélagos projeta uma ideia a que atribui valor fundamental: “Portugal é maior, quando é plural. A unidade nacional não se faz pela uniformidade, faz-se pelo reconhecimento das diferenças. Um país capaz de gerir a sua própria diversidade interna tem mais capacidade para enfrentar os desafios que vêm de fora.”

Recordou que, em 1976, quando a Constituição da República Portuguesa (CRP) consagrou a autonomia político-administrativa das regiões autónomas, alguns questionavam a capacidade de as ilhas se governarem. Duvidavam da “viabilidade de territórios fragmentados, ultraperiféricos, distantes dos centros de decisão”, ou seja, “de que a descentralização fosse compatível com a coesão nacional”. Porém, passados 50 anos, a resposta é clara: “A autonomia não enfraqueceu Portugal. Fortaleceu-o”. Efetivamente, como desenvolveu o PR, “criou instituições com legitimidade democrática”, gizou “políticas adaptadas às realidades locais [e] gerou identidades regionais robustas que não contradizem a identidade portuguesa, antes a enriquecem.”

Contudo, o chefe de Estado, alertou para “as assimetrias persistentes entre o continente e as regiões autónomas, [para] o custo real da insularidade que continua a pesar sobre famílias e empresas, [para] a necessidade de um modelo de financiamento que reflita, com mais precisão e [com] mais justiça a especificidade destas regiões”.

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Sobre a assunção do 10 de Junho, desde 1978, como Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, António José Seguro observou que esta junção não foi “detalhe administrativo”, nem “escolha inocente”, mas “decisão profunda sobre a forma como os Portugueses olham para si próprios, para a sua História e para o seu futuro”. Com efeito, na ótica presidencial, neste dia, “celebramos uma comunidade histórica, uma memória coletiva, uma língua, uma ideia de pertença que atravessou guerras, crises, mudanças de regime, separações e reencontros”, isto é, o Portugal de 900 anos, “com as suas grandezas e contradições, com os seus erros e a sua extraordinária capacidade de resistência”.

Por outro lado, celebrar Camões será, talvez, evocar “a expressão mais poderosa da consciência portuguesa”, pois nenhum outro “escreveu tão profundamente” o que fomos, o que desejámos ser e o que procuramos; e, como disse o PR, “depois de Camões, nenhuma cultura europeia produziu um poema nacional com semelhante densidade humana, simbólica e histórica”. Por isso, António José Seguro, salienta que evocar a figura e a obra de Luís de Camões significa, não escolher “o passado e, muito menos, permanecer nele”, mas “reconhecer a sua herança e a sua importância simbólica para o nosso modo de ser atual e para nos prolongarmos como povo”. Com efeito, é graças a Camões que Natália Correia (também açoriana) podia dizer: “Foi por línguas de fogo que aprendi a falar.”

Camões – prosseguiu o Presidente da República – está vivo, entre nós por ter escrito o que é peculiar à condição humana: “o medo, a ambição, o amor, a perda, a coragem, a dúvida, a inveja, o desejo de grandeza e a fragilidade da condição humana”. Ao mesmo tempo, “ensinou-nos a falar da beleza e da violência, da glória e do fracasso, do heroísmo e da miséria” e, sobretudo que “uma nação não se constrói apenas pelas suas vitórias”, mas também “pela capacidade de enfrentar as suas contradições.

Assinalou, existencialmente, o chefe de Estado que “todos já nos identificámos com Luís de Camões, num verso, numa imagem, numa frase ou numa passagem que sabemos de cor”. Por exemplo, em “Os Lusíadas”, o épico interroga-se sobre qual pode ser o nosso refúgio: “Onde pode acolher-se um fraco humano? / Onde terá segura a curta vida? / Que não se arme, e se indigne o céu sereno/ contra um bicho da terra tão pequeno?” (Canto I, estância 106).

“Nós somos esse ‘bicho da terra’, frágil e à procura de um lugar a que pertencemos e onde nos sentimos protegidos. E esse lugar é Portugal”, comenta António José Seguro, discorrendo que celebrar Camões, hoje, é “uma forma de sermos portugueses, porque ele nos escreveu a todos”, e celebrarmos uma língua antiga e que suscitou a Vergílio Ferreira uma das mais belas definições: “Uma língua é o lugar de onde se vê o Mundo. Da minha língua vê-se o mar.”

Neste dia, celebramos as Comunidades Portuguesas espalhadas pelo Mundo: “as que vivem no território nacional e as que transportam Portugal consigo, através dos continentes, das gerações e da distância”, destacou o chefe de Estado, vincando que a diáspora “é uma das nossas maiores riquezas”, pois trata-se de “comunidades unidas por uma língua, por referências comuns, por uma herança afetiva e cultural que o tempo transformou, mas nunca, mas nunca, destruiu”.

E o Presidente da República não perdeu o ensejo de fazer declaração apelante a todos, estejam onde estiverem: “Portugal pensa em vós. Portugal precisa de vós. E Portugal estará sempre de braços abertos a receber-vos, se e quando assim o decidir[des].”

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A seguir, considerando que “vivemos um tempo de trincheiras”, explicitou que as ansiedades na economia, na geopolítica, na segurança, na proteção dos mais desfavorecidos, nas questões da vida das pessoas, criam o “impulso de fechar fileiras, de escolher um lado, de erguer muros”, faltando “as palavras do meio”, que “não nascem entre muros, mas nos espaços abertos”, que “não ficam sitiadas, nem sitiam”, mas que instam “ao diálogo e ao encontro”. São, na linha de pensamento presidencial, “mais de tolerância do que de exclusão, mais de disponibilidade do que de afastamento”; são elas que facilitam “a aproximação, a criação de pontes entre as pessoas, entre os Portugueses, entre as instituições, entre as ideias; e “são o antídoto para o vírus da polarização” que substitui “a argumentação, o debate e a negociação”.

Tais palavras são do dicionário que antecipa o diálogo, porque “criam a disponibilidade para que ele aconteça” e “têm a ver com o desejo do bem comum, com um desígnio coletivo, com um país unido, com liberdade de pensar e de criar”, explicou o chefe de Estado.

Lembrando que a sua eleição para Presidente da República “foi marcada pelo desejo de unir os Portugueses e de unir Portugal”, António José Seguro advertiu que “unir o país não significa uma unanimidade artificial e indesejável”, mas reconhecer que “a pátria é um chão comum e que nele há espaço para todos”. Por isso, em advertência política, sustentou que “não haverá democracia firme e pujante, se os partidos não reconhecerem que a política, sendo um espaço de confronto, é também um lugar de compromisso” – com tolerância para quem pensa de forma diferente ou tem origens, religiões e credos distintos, por forma que “Portugal seja, para todos, um chão comum” – tendo sido isso que “nos permitiu ser o melhor do que fomos”.

Numa referência à governação, o PR relevou que estamos num tempo que nos pede a coragem “de fazer escolhas difíceis, sem ceder ao populismo”, de dizer a “verdade”, quando é desconfortável, de “investir no futuro”, quando o presente aperta, de “defender o interesse de longo prazo”, quando “o ciclo eleitoral empurra para o curto prazo”. Apelou à humildade de “reconhecer que ninguém tem o monopólio das soluções, que nenhuma região ou comunidade é dispensável [e] que nenhuma geração é proprietária do país”, porque, tendo-o recebido em herança, “temos a obrigação de o deixar em melhores condições para quem nos suceder”. E, frisando que “é uma responsabilidade que não podemos escamotear”, disse que este tempo nos exige a ambição justa de “não nos conformarmos com menos do que merecemos”, a ambição de quem “conhece o seu valor e se recusa a aceitá-lo como uma promessa adiada”.

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António José Seguro vê “um país que tem mais do que aquilo que, por vezes, reconhece em si próprio”. Neste âmbito, falou de investigadores e de cientistas reconhecidos e premiados internacionalmente, de universidades que “atraem estudantes de todo o Mundo”, de empresas que exportam com valor, que inovam em setores onde competem com os melhores e que vencem, e da cultura que se expande pelo Mundo, através da língua, da música, da literatura, do cinema, das artes e da língua falada por 300 milhões de pessoas, em todos os continentes, a qual “é, simultaneamente, um laço afetivo entre povos, um instrumento diplomático e um ativo económico de enorme valor e que ainda não soubemos aproveitar plenamente”.

O chefe de Estado reconheceu os jovens extraordinariamente qualificados, que “aprenderam a ser competitivos num mercado global, que dominam línguas, que circulam entre culturas com uma naturalidade que as gerações anteriores não tinham”. Por isso, julga que o problema não é, nem nunca foi o talento, mas que “esse talento parte para outros destinos, demasiadas vezes, porque não encontra em Portugal as condições para crescer”. Com efeito, na sua perspetiva, “o que se ganhou em qualificação não tem sido acompanhado em remuneração” e “a habitação”, que “é praticamente inacessível”, “esgota qualquer orçamento”. Enfim, na ótica do Presidente, o Estado e as empresas têm de reconhecer que o mercado de trabalho não aprendeu a recompensar o conhecimento e a inovação, o que “é inaceitável” e tem de se alterar.

Rejeitando a ideia da queda no fatalismo e a da espera por milagres, o Presidente da República defende que o país necessita de decisões que dependem de nós e que estão ao nosso alcance, assim como precisa de “políticas que fixem talento, em vez de o exportarem”, de “salários que reflitam a produtividade e a qualificação dos trabalhadores”, de “um mercado de habitação que permita aos jovens construírem uma vida no país onde nasceram ou estudaram”, de “um Estado que simplifique, em vez de complicar, que antecipe, em vez de reagir, que planeie além do mandato, em vez de gerir apenas a urgência do presente”, de “empresas que invistam em investigação e [em] desenvolvimento”, de “um sistema financeiro” que avalie o “valor do conhecimento” e não só o dos “ativos tangíveis”, de “universidades” mais ligadas ao “tecido produtivo” e de “centros de investigação” que, nas descobertas, encontrem soluções para as pessoas e para as empresas. Enfim, segundo o PR, é necessária, sobretudo, “uma cultura de confiança”.

Disse o chefe de Estado que, em países de crescimento sustentável, os cidadãos confiam uns nos outros e nas instituições e arriscam, porque sabem que os outros cumprirão a sua parte. Sustentando que o presente não pode bloquear o futuro, disse que “a capacidade de reinvenção é algo que a História portuguesa demonstra, repetidamente”, em contextos diferentes, porque a reinvenção faz das “limitações” oportunidades”, encontra “rotas”, quando se fecham os caminhos conhecidos, e faz o necessário, quando as circunstâncias parecem impedi-lo.

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António José Seguro porfiou que Portugal está, neste espaço, pelo trabalho de “milhões de pessoas que, todos os dias, se esforçam para melhorar a sua qualidade de vida e dos seus filhos”; está nas Ilhas, no continente e na diáspora que, longe, “continua a ser profundamente portuguesa”; e está “em todos os que constroem este país com competência e com dignidade, muitas vezes sem o reconhecimento que merecem”.

E, antes de terminar, citou Emanuel Félix, nascido em Angra do Heroísmo, que escreveu: “Somos herdeiros de uma lembrança / de tesouros afundados / e arpoamos a esperança.” Destes versos infere que somos “herdeiros de uma memória longa, de conquistas e fracassos, de grandeza e fragilidade”, e que “projetamos a esperança com a determinação de quem sabe que o futuro se pode moldar”, pelas “decisões”, pela “coragem” e pela “determinação”. E assegurou que a esperança é uma das “palavras do meio”, que leva a combater “a polarização”.

Por fim, apelou à renovação da confiança no país, na capacidade de criar, de inovar e de enfrentar o futuro com coragem, pois isso “é dar continuidade à vocação atlântica de abertura ao Mundo, de diálogo e de humanidade, porque “Portugal, tal como o mar, é feito de profundidade, de movimento e de infinito”.

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Foi um discurso que articulou política, estratégia, História e Literatura, e que, evocando o passado e firmado no presente, a transformar, constitui um impulso para um futuro de riqueza e de justiça social. Neste sentido, é de salientar que o chefe de Estado citou Ruy Belo, que escreveu: “O Portugal futuro é um país aonde o puro pássaro é possível”.

Não sei se o PR é poeta, mas ficou patente que aprecia a poesia e a Literatura, em geral, que pode dar forma à política, como ao amor e ao destino. Camões dizia de Júlio César que tinha, “numa mão a pena e, noutra a lança”. E ele próprio se assumiu como militar, poeta e amador, como César: “Numa mão sempre a espada, e noutra a pena” (Os Lusíadas, Canto V, estância 96 v 3 e Canto VII, 79 v8, respetivamente).

2026.06.10 – Louro de Carvalho

terça-feira, 9 de junho de 2026

Está a diminuir o comércio entre os EUA e a UE

 

No rescaldo da agressão da Rússia contra a Ucrânia, a União Europeia (UE) aumentou as suas importações de produtos energéticos dos Estados Unidos da América (EUA). Por conseguinte, as importações da UE dos EUA cresceram mais do que as importações da China e do resto do Mundo, e permaneceram num nível comparativamente mais alto.

No entanto, as tensões comerciais entre os EUA e a UE, devido à imposição trumpiana do regime de tarifas a vários países do Mundo e à UE, levaram a que as exportações, que foram impulsionadas, no primeiro trimestre de 2025, tivessem sofrido uma queda acentuada no resto desse ano. Com o acordo comercial no horizonte, no primeiro trimestre de 2026, as importações e as exportações cresceram modestamente, em comparação com o quarto trimestre de 2025. Porém, em comparação com o primeiro trimestre de 2025, as exportações caíram para um pouco mais de 30% e as importações para 6%. Consequentemente, o superavit comercial da UE encolheu para 34 mil milhões de um pico de 80 milhões, no primeiro trimestre de 2025.

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O comércio é importante indicador da prosperidade e do lugar da Europa no Mundo. A UE está integrada aos mercados globais, para os produtos que fornece e para as exportações. A sua política comercial é um dos pilares das suas relações com o resto do Mundo.

Uma vez que os 27 estados-membros da UE partilham um mercado único e uma única fronteira externa, dispõem de política comercial única. Assim, falam e negociam coletivamente, tanto na Organização Mundial do Comércio (OMC), onde as regras do comércio internacional são acordadas e aplicadas, como com parceiros comerciais individuais. Esta política permite falar a uma só voz, nas negociações comerciais, maximizando o seu impacto nessas negociações, o que se afigura ainda mais premente num mundo globalizado em que as economias tendem a agrupar-se em grupos regionais. Nestes termos, a abertura do regime comercial da UE significou que a UE é o maior ator no cenário comercial mundial e continua a ser boa região para fazer negócios. Graças à facilidade de transporte e de comunicações modernas, agora, é mais fácil produzir, comprar e vender mercadorias, em todo o Mundo, o que dá às empresas europeias de todos os tamanhos o potencial para negociar fora da Europa.

Os valores comerciais são expressos em milhões ou biliões (mil milhões) de euros e correspondem ao valor estatístico, ou seja, ao montante que seria faturado, em caso de venda ou de compra na fronteira nacional do país inquirido. É chamado de valor FOB (livre a bordo) para exportações e um valor CIF (custo, seguro, frete) para importações.

Os EUA têm sido o principal destino de exportação da UE e um dos seus principais parceiros de importação. Esta relação bilateral tem gerado, consistentemente, um excedente comercial para a UE, embora a sua magnitude flutue de um período para outro. Em 2025, esse padrão persistiu, mas com variações notáveis. Em particular, a ameaça de potencial guerra comercial entre os EUA e a UE desencadeou um aumento acentuado dos fluxos comerciais bilaterais, no primeiro trimestre de 2025, com as importações e, especialmente, as exportações a registarem significativo aumento, seguido de um declínio acentuado, no segundo trimestre de 2025. No terceiro trimestre de 2025, as importações cresceram ligeiramente, enquanto as exportações registaram modesta uma diminuição, um declínio que teria sido consideravelmente maior, se uma grande empresa não tivesse negociado, com sucesso, uma pausa temporária nas tarifas sobre produtos químicos com os EUA. Este acordo levou a acentuado aumento nas exportações de produtos químicos, em setembro de 2025, compensando, parcialmente, o amplo declínio observado nos meses anteriores. Segundo o Eurostat, no quarto trimestre de 2025, tanto as importações (-7%) quanto as exportações (-12%) diminuíram acentuadamente, mas, no primeiro trimestre de 2026, as importações (+1%) e as exportações (+3%) aumentaram modestamente.  

Em resultado disso, o superavit comercial da UE em bens com os EUA diminuiu de 80,44 mil milhões, no primeiro trimestre de 2025, para 33,52 mil milhões, no primeiro trimestre de 2026. Com efeito, enquanto, no primeiro trimestre de 2025, as exportações totalizaram 171,49 mil milhões de euros e as importações totalizaram 91,05 mil milhões de euros, no primeiro trimestre de 2026, as exportações totalizaram 119,42 mil milhões de euros e as importações totalizaram 85,90 mil milhões de euros.

E os dados do Eurostat permitem continuar com a informação, como segue.

A taxa de crescimento tributário no comércio da UE de mercadorias com os EUA, no primeiro trimestre de 2026, foi de 0,95%, nas importações, e de 3,18%, nas exportações.

No primeiro trimestre de 2026, os excedentes combinados para produtos químicos e produtos conexos, para máquinas e veículos, para outros bens manufaturados e para alimentos e bebidas foram maiores do que os défices combinados de energia, matérias-primas e outros bens. Em comparação com o primeiro trimestre de 2021, a balança comercial para energia caiu de -3 (três) mil milhões para -18 mil milhões, enquanto o saldo para máquinas e veículos aumentou de 16 mil milhões de euros para 23 milhões, tendo atingido um pico de 29 mil milhões, no quarto trimestre de 2023.

Também é de referir que, entre o primeiro trimestre de 2021 e o primeiro trimestre de 2022, o crescimento das importações da UE dos EUA, da China e do resto do Mundo se desenvolveu em linhas semelhantes. E, no rescaldo da agressão da Rússia contra a Ucrânia, a UE aumentou as suas importações de produtos energéticos dos EUA. Daí resultou que as importações da UE dos EUA cresceram mais do que as importações da China e do resto do Mundo, tendo permanecido num nível comparativamente mais alto. Assim, no primeiro trimestre de 2021, as importações da UE dos EUA totalizaram 166,82 mil milhões de euros; da China 135,59 mil milhões; e do resto do Mundo, 130,28 mil milhões.

Após a invasão da Ucrânia pela Rússia e a imposição de proibições de petróleo e de gás russos, os EUA substituíram, parcialmente, a Rússia como fonte dessas importações. Consequentemente, em 2025, os combustíveis foram o grupo de produtos mais importados dos EUA, seguido por máquinas e produtos farmacêuticos. Assim, as importações de combustíveis dos EUA para a UE somaram 76,95 mil milhões de euros, em 2024, e 70,44 mil milhões, em 2025; as de máquinas somaram 53,44 mil milhões de euros, em 2024, e 57,15 mil milhões, em 2025; as de produtos farmacêuticos somaram 37,11 mil milhões de euros, em 2024, e 43,61 mil milhões, em 2025; as de instrumentos, somaram 28,00 mil milhões de euros, em 2024, e 27,98 mil milhões, em 2025; as de produtos químicos e orgânicos somaram 19,03 mil milhões de euros, em 2024, e 25,38 mil milhões, em 2025; as de aeronaves somaram 20,07 mil milhões de euros, em 2024, e 23,32 mil milhões, em 2025; as de máquinas elétricas somaram 18,11 mil milhões de euros, em 2024, e 18,04 mil milhões, em 2025; e as de veículos, somaram 11,76 mil milhões de euros, em 2024, e 10,52 mil milhões, em 2025.

Os três principais grupos de produtos exportados para os EUA, em 2025, foram produtos farmacêuticos, máquinas e produtos químicos orgânicos. As exportações de produtos químicos orgânicos aumentaram, fortemente, em 2025 em comparação com 2024, devido aos exportadores anteciparem o aumento das tarifas e apressarem as suas exportações, antes que as tarifas entrassem em vigor. Assim, as exportações de produtos farmacêuticos da UE para os EUA somaram 106,92 mil milhões de euros, em 2024, e 108,87 mil milhões, em 2025; as exportações de máquinas somaram 91,77 mil milhões de euros, em 2024, e 90,91 mil milhões, em 2025; as de produtos químicos orgânicos somaram 31,84 mil milhões de euros, em 2024, e 68,11 mil milhões, em 2025; as de veículos somaram 53,35 mil milhões de euros, em 2024, e 42,48, mil milhões, em 2025; as de produtos máquinas elétricas somaram 39,47 mil milhões de euros, em 2024, e 40,99 mil milhões, em 2025; as de produtos instrumentos somaram 36,41 mil milhões de euros, em 2024, e 35,56 mil milhões, em 2025; as de produtos aeronaves somaram 14,83 mil milhões de euros, em 2024, e 12,60 mil milhões, em 2025; e as de plásticos somaram 10,11 mil milhões de euros, em 2024, e 10,01 mil milhões, em 2025.

A UE retira a informação da base de dados COMEXT do Eurostat, base de dados de referência para o comércio internacional de mercadorias, dando acesso a dados recentes e históricos dos estados-membros da UE, bem como às estatísticas de significativo número de países terceiros. As estatísticas agregadas e pormenorizadas do comércio internacional divulgadas pelo sítio Web do Eurostat são compiladas, mensalmente, a partir de dados COMEXT.

Os dados são recolhidos pelas competentes autoridades nacionais dos estados-membros da UE e compilados de acordo com uma metodologia harmonizada estabelecida pelos regulamentos da UE, antes da transmissão ao Eurostat. No atinente ao comércio extra-UE, a informação é fornecida, sobretudo, pelos comerciantes com base em declarações aduaneiras.

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A este respeito, Alessio Dell’Anna, em artigo intitulado EUA e União Europeia: como está a diminuir o comércio?”, publicado pela Euronews, a 9 de junho, observa que “já se faz sentir o impacto das tarifas de Trump no mercado da UE, com uma tendência negativa no comércio apenas superada pela registada com o Irão”.

Efetivamente, como vimos, as exportações do bloco europeu para os EUA caíram quase um terço, nos primeiros três meses de 2026, numa altura em que a UE se prepara para aplicar a sua parte de um acordo comercial com Washington. Nos primeiros três meses de 2026, a UE perdeu 30,23% do valor, em euros, dos bens trocados com os EUA, face a igual período de 2025.

Em agosto de 2025, os EUA empurraram a UE para um acordo comercial, com a fixação de uma tarifa de 15% sobre vários bens. O inquilino da Casa Branca justificou a medida alegando um défice superior a 300 mil milhões de euros, nas trocas com a UE.

É certo que o desequilíbrio norte-americano em bens, face à UE é real, situado em cerca de 200 mil milhões de euros. Porém, é compensado pelo valor das exportações de serviços norte-americanos para a UE, o que reduz o excedente comercial global da UE para apenas 21 mil milhões de euros, pois as tarifas norte-americanas atingiram setores europeus fundamentais, como o automóvel, os produtos farmacêuticos, os semicondutores, o vinho e o queijo.

Enquanto a UE se prepara para aplicar a sua parte do acordo, os EUA continuam, ainda assim, a ser o seu maior mercado de exportação, com cerca de 120 mil milhões de euros, aproximadamente 19% do valor total das exportações de bens do bloco.

Na verdade, a UE e os EUA mantêm a maior relação bilateral de comércio e de investimento do Mundo e desfrutam da relação económica mais integrada do planeta. Em bens, em serviços e em investimentos, são, de longe, os maiores parceiros comerciais um do outro.  

Milhões de empregos, nos EUA, estão associados ao comércio e ao investimento entre a UE e os EUA. A UE é uma fonte confiável de suprimentos essenciais para os EUA, incluindo ingredientes medicinais e produtos farmacêuticos, máquinas e equipamentos avançados, além de peças e de componentes aeroespaciais. Ao mesmo tempo, a UE é a maior compradora de gás natural e petróleo dos EUA, um elemento importante para garantir a segurança energética transatlântica e permitir resposta conjunta e robusta à agressão militar da Rússia à Ucrânia. 

Porém, a quebra nas trocas com Washington contribuiu para uma descida de 9%, no valor global das exportações da UE, para o resto do Mundo, em comparação com o primeiro trimestre de 2025.

As exportações também recuaram, embora de forma menos acentuada, para outros principais parceiros, a China (8,17%) e a Turquia (8,37%). A queda mais forte, porém, foi registada com o Irão, -44,33%, sobretudo, devido às sanções atinentes ao seu programa nuclear, ao apoio à Rússia e às violações de direitos humanos.

A diferença das exportações da UE em bens, do primeiro trimestre de 2025 para o segundo trimestre de 2026, é de -7,53%, para o Japão; de -7,57%, para a China (excluindo Hong Kong); de -8,17%, para a Argélia; de -8,37%, para a Turquia; de -12,07%, para a Arábia Saudita; de -16,13%, para os Emirados Árabes Unidos (EAU); de -16,27%, para a Líbia; de -16,63%, para o Cazaquistão; de -22,13, para a Nigéria; de -30,23%, para os EUA; e de -44,33%, para o Irão.

Em registo mais positivo, as exportações para a Indonésia dispararam 22,97%, no primeiro trimestre de 2026. Este aumento segue-se à conclusão do Acordo de Parceria Económica Global (CEPA), que visa reduzir ou eliminar tarifas sobre a maioria das exportações da UE e simplificar os procedimentos aduaneiros, constituindo um caminho de abertura, de parceria e de prosperidade partilhada, pois abrirá novos mercados, criará mais oportunidades para as respetivas empresas e ajudará a fortalecer as cadeias de abastecimento de matérias-primas críticas, essenciais para a indústria europeia de tecnologias limpas e para a siderurgia.

O aumento das exportações da UE em bens, do primeiro trimestre de 2025 para o segundo trimestre de 2026, é de 22,97%, para a Indonésia; de 8,93%, para o Egito; de 8,43%, para a Austrália; de 7,17%, para a África do Sul; de 6,83%, para o Canadá; de 5,7%, para a Ucrânia; de 5,67%, para a Tunísia; de 5,47%, para a Tailândia; de 4,73, para Hong Kong; de 3,37%, para Singapura; e de 3,17%, para a Noruega.

As exportações também cresceram, mas de forma menos expressiva, para a Índia (1,8%) e para o Reino Unido (2,3%). Depois dos EUA, o segundo maior mercado consistente de exportação da UE é o Reino Unido (14%), seguido da Suíça (9%), da China (7%) e da Turquia (4%).

Porém, a saga da guerra comercial entre a UE e Washington pode não ter chegado ao fim. Com efeito, em maio, Donald Trump ameaçou impor novas tarifas de 10%, ou mais, sobre importações provenientes da UE e de outros parceiros comerciais, acusando a UE de não combater o comércio de bens produzidos com recurso a trabalho forçado, prejudicando os interesses comerciais dos EUA. E a UE rejeitou a acusação, classificando-a como “injustificada”.

Trump queixou-se também de que Bruxelas não tinha aplicado os compromissos assumidos no acordo comercial alcançado em julho de 2025. Por isso, deu à UE até 4 de julho para aprovar a sua parte do acordo, e o bloco prepara-se para aprovar o acordo, com uma votação marcada para 16 de junho. Segundo a Casa Branca, a UE deverá eliminar as tarifas sobre bens industriais dos EUA e dar acesso preferencial ao mercado para vários produtos do mar e agrícolas, “incluindo frutos de casca rija, lacticínios, frutas e legumes frescos e transformados, produtos alimentares transformados, sementes para plantação, óleo de soja e carne de porco e de bisonte”.

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Por fim, é de atentar na declaração de Enrico Letta ao programa “Europe Today” da Euronews: “A Europa tem de continuar a acelerar o seu roteiro para integrar, plenamente, o mercado único e criar uma estratégia industrial europeia, sob pena de se tornar subalterna face às grandes potências mundiais, afirmou o antigo primeiro-ministro italiano, frisando que não queremos ser uma colónia dos EUA, nem da China, mas “queremos ser europeus”.

A Europa não pode estar, nem dar a impressão de estar desorientada ou cansada.

2026.06.09 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 8 de junho de 2026

A guerra no Médio Oriente está a complicar-se

 

Não bastava o bloqueio do Estreito de Ormuz aos navios que deviam transitar por ali, para virem, agora, os rebeldes houthis do Iémen decretar uma interdição à navegação israelita no mar Vermelho, pondo em risco esta via marítima, bem como o golfo de Áden e o estreito de Bab el-Mandeb, que os liga, o que, juntamente com o anúncio, a 8 de junho de um ataque com mísseis a Israel, dá entender que se juntaram, formalmente, de novo, a Terão na guerra contra Israel. Esta arremetida ameaça um terço do petróleo e de gás enviados por mar.

Durante a guerra entre Israel e o Hamas, em Gaza, os Houthis atacaram navios de carga nesta rota marítima vital, por onde passavam, todos os anos, bens avaliados em cerca de um bilião de dólares (866 mil milhões de euros), com perto de 200 incidentes, obrigando muitas empresas a um longo desvio em torno do extremo sul de África.

O desvio em causa adiciona, em geral, cerca de 14 dias e custos significativos às viagens entre a Ásia e a Europa. O volume de petróleo que atravessa o estreito de Bab el-Mandeb desceu de 8,8 milhões para cerca de quatro milhões de barris, por dia, durante a campanha.

Os Houthis suspenderam os ataques após o cessar-fogo, em Gaza, em outubro de 2025, mas avisaram que os retomariam, se a guerra do Irão escalasse. Agora, o presente anúncio surge numa altura em que o estreito de Ormuz, porta de entrada para o Golfo e para os seus exportadores de energia, continua bloqueado por Teerão, colocando, simultaneamente, sob ameaça dois dos pontos de estrangulamento marítimo mais críticos do Mundo.

O Bab el-Mandeb, com apenas 26 quilómetros de largura, no seu ponto mais estreito, liga o mar Vermelho ao golfo de Áden e ao mais vasto oceano Índico. Cerca de 12% do comércio marítimo mundial passa por ali. Por sua vez, o Estreito de Ormuz é a rota de cerca de um quinto do petróleo e do gás transportados por mar em todo o Mundo, além de outras cargas.

Não obstante, num comunicado das forças armadas dos Houthis, lê-se: “Declaramos uma proibição completa e total da navegação marítima israelita no mar Vermelho. […] Consideramos todos os movimentos do inimigo alvos militares legítimos para as nossas forças armadas, a partir do momento em que este comunicado é divulgado.”

Os Houthis, que, em março aderiram, formalmente, à guerra do Irão, em apoio de Teerão, não anunciavam um ataque com mísseis contra Israel, desde o início do frágil cessar-fogo, em 8 de abril. Desta vez, afirmaram ter lançado uma barragem de mísseis contra alvos sensíveis do inimigo israelita e que as investidas atingiram os objetivos, com precisão.

Antes do anúncio, o exército israelita escreveu, na rede social Telegram, que “identificou o lançamento de um míssil, a partir do Iémen, em direção a território israelita e que os sistemas de defesa aérea estão a operar para intercetar a ameaça”.

O ataque dos Houthis ocorreu, a 6 de junho, enquanto Israel e o Irão trocavam fogo, colocando o cessar-fogo sob nova pressão e ameaçando as esperanças de um acordo de paz.

Os Houthis e o Hezbollah, sediado no Líbano, integram o Eixo da Resistência, apoiado, treinado e armado por Teerão, que inclui o Hamas e milícias no Iraque. Oficialmente designados por Ansar Allah, os Houthis, que são um grupo político e militar xiita zaydita sediado no Iémen, formado na década de 1990, para resistir à influência ocidental e para combater o wahabismo (movimento fundamentalista do islamismo sunita, originado no século XVIII, na Península Arábica), controlam grande parte do país, há mais de uma década, após terem tomado a capital Sanaa e derrubado o governo em setembro de 2014.

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Entretanto, o Irão ameaçou atacar infraestruturas energéticas, em países vizinhos e no resto da região, se continuarem os ataques israelitas contra instalações energéticas iranianas, numa altura em que os dois lados trocaram ataques contra complexos petroquímicos, também a 6 de junho.

Uma fonte não identificada, próxima da Guarda Revolucionária do Irão, declarou à agência noticiosa Fars que qualquer novo ataque contra instalações energéticas do Irão desencadearia ataques contra ativos energéticos dos Estados Unidos da América (EUA), de Israel e dos respetivos parceiros regionais. E sublinhou que as petrolíferas e empresas de energia a operar na região com acionistas norte-americanos ou com israelitas eram consideradas alvos legítimos.

Antes dessa declaração, os meios de comunicação iranianos noticiaram que Israel atacara a fábrica petroquímica de Karun, situada na cidade portuária de Mahshahr, na província de Khuzestan, no Sudoeste do Irão, uma das principais zonas petroquímicas e industriais do país.

Na verdade, o complexo de Karun é um dos maiores produtores de etileno do Irão e um elemento crucial da infraestrutura de exportação química do país.

Cerca de uma hora depois, a Guarda Revolucionária afirmou que a sua força aeroespacial atacara, em retaliação, instalações petroquímicas em Haifa, o principal porto industrial de Israel e o centro do seu setor petroquímico, acolhendo a refinaria da Bazan Group, a maior do país, bem como várias fábricas químicas e terminais de armazenamento.

Os ataques à zona industrial de Haifa implicam significativos riscos para civis e para o ambiente, dada a concentração de materiais perigosos ali armazenados. Porém, a Guarda Revolucionária do Irão disse que os ataques visavam “instalações industriais semelhantes” às atingidas no Irão e acusou Israel de ter lançado “um jogo perigoso”, ao visar infraestruturas energéticas civis. Por seu turno, as forças israelitas indicaram, em separado, ter atacado alvos militares no Oeste e Centro do Irão, horas depois de o Irão lançar mísseis contra Israel, em resposta a um ataque israelita anterior aos subúrbios sul de Beirute.

Na conferência de imprensa semanal de 8 de junho, o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Irão, Esmaeil Baghaei, rejeitou, diretamente, a alegação de Donald Trump de que Washington tentara impedir os ataques israelitas. “Ninguém acredita que [Israel] tome qualquer iniciativa sem coordenação com os Estados Unidos da América”, afirmou Baghaei, acrescentando que o Comando Central dos EUA estava “totalmente alinhado” com Israel, “tanto nas operações ofensivas como nas defensivas”.

Baghaei afirmou que as vertentes militar e diplomática do Irão decorriam em paralelo, que as forças armadas iranianas atuarão, “sempre que necessário”, e que o ataque de retaliação do Irão foi realizado ao abrigo do artigo 51.º da Carta da Organização das Nações Unidas (ONU), que consagra o direito dos estados-membros à autodefesa individual ou coletiva, em resposta a um ataque armado.

Responsabilizou, diretamente, os EUA pelas ações israelitas, dizendo que Washington assumia responsabilidade, como parte no cessar-fogo de 8 de abril, e que “qualquer desenvolvimento na região que resulte numa violação do cessar-fogo implica responsabilidade direta dos EUA”.

No sinal diplomático mais significativo do briefing, Baghaei referiu, pela primeira vez, que o stock de urânio enriquecido do Irão poderia ser incluído numa segunda fase de negociações, uma mudança notável face à posição anterior de Teerão de que o tema não era negociável.

“Qualquer discussão sobre vários aspetos do programa nuclear do Irão, incluindo o seu stock de urânio enriquecido, é, nesta fase, puramente especulativa”, declarou, observando que, “se esta fase chegar a uma conclusão bem-sucedida, essa questão será um dos temas a discutir na próxima fase de negociações”. E acrescentou que as conversações atuais continuam centradas no fim da guerra, não estando, por agora, em cima da mesa uma troca de prisioneiros com os EUA.

Baghaei negou ainda que o Irão tivesse atacado a base aérea Prince Sultan, na Arábia Saudita, após relatos de um ataque desse tipo. “As nossas forças armadas anunciam, abertamente e com coragem, qualquer alvo que atinjam, no quadro do legítimo direito de autodefesa do Irão. Neste caso, não recebemos qualquer declaração ou anúncio desse teor, por parte das nossas forças armadas”, porfiou.

Acusou, igualmente, o diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), Rafael Grossi, de adotar uma abordagem “completamente parcial, não técnica e política”, em relação ao dossiê nuclear iraniano, o mais recente episódio numa série de críticas públicas iranianas à forma como Grossi tem conduzido a supervisão da agência, desde o início da guerra.

A troca de ataques ocorre apesar de um cessar-fogo entre o Irão e os EUA em vigor desde 8 de abril. Teerão insiste que o acordo abrange todas as frentes, incluindo o Líbano e as operações israelitas, posição rejeitada por Washington e por Israel.

Relatos e imagens divulgadas nas redes sociais, a partir do Irão, indicavam que os ataques israelitas contra Teerão e contra outras grandes cidades continuavam, com os sistemas de defesa aérea acionados para intercetar ameaças em aproximação.

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Enquanto sucede tudo isto, é de recordar que o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, anunciou, a 7 de junho, que as suas forças armadas bombardearam os subúrbios do Sul de Beirute, indicando que foi o primeiro ataque contra a capital libanesa, desde o acordo do novo cessar-fogo alcançado em Washington, a 4 de junho.

“De acordo com as instruções do primeiro-ministro Netanyahu e do ministro da Defesa Katz, as forças de defesa de Israel [FDI, o exército] atacaram o quartel-general terrorista no bairro de Dahye, em Beirute, em resposta aos disparos do Hezbollah contra território israelita”, referiu o comunicado do gabinete do governante israelita, criado pela agência de notícias espanhola EFE.

Os subúrbios do sul de Beirute bombardeados por Israel são conhecidos como Dahye e constituem um bastião do grupo xiita Hezbollah.

Segundo avançou a agência de notícias Associated Press (AP), citando o comunicado de imprensa do primeiro-ministro, os ataques constituíram uma retaliação aos disparos efetuados, anteriormente, pelo grupo militante Hezbollah contra o Norte de Israel. Porém, o Hezbollah não reivindicou, imediatamente, a responsabilidade por esses ataques.

Israel atacou os extensos bairros urbanos, duas vezes, desde que o primeiro acordo entre o Líbano e Israel entrou em vigor a 17 de abril. Os ataques sobre o sul do Líbano, continuam diariamente, onde combatentes do Hezbollah e tropas israelitas também entraram em confronto. Segundo a AP, os residentes ouviram três explosões na área, mas não há notícias de vítimas.

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Também guerra a Ucrânia prossegue, como diria Camilo Castelo Branco, “convenientemente”.

O comandante das Forças Armadas ucranianas, Oleksandr Syrsky, garantiu que a Ucrânia recuperou cerca de 100 quilómetros quadrados de território, no mês de maio.

Numa publicação, no Telegram, Syrsky aponta que, “na sequência das operações realizadas em maio”, o saldo entre território recuperado e perdido foi favorável à Ucrânia, em cerca de 100 quilómetros quadrados. Segundo o chefe militar, mais de 600 quilómetros quadrados de território ucraniano foram libertados, desde o início do ano.

Oleksandr Syrsky faz ainda um balanço das operações militares de maio, afirmando que as unidades de drones “atingiram mais de 88 mil alvos” e “neutralizaram mais de 30500 soldados russos”. Não obstante, de acordo com a Reuters, um ataque russo com drones contra a cidade de Zaporizhzhia, no Sudeste da Ucrânia, provocou a morte de duas pessoas e, pelo menos, 15 ficaram feridas, segundo o governador regional, Ivan Fedorov.

Mostrando-se o presidente dos EUA cansado com as negociais entre Washington e Moscovo, o Reino Unido, a França e a Alemanha estão a combinar, entre si e com o presidente ucraniano, a forma de colocar Moscovo e Kiev em conversações para obter o fim da guerra, o que Vladimir Putin vem pondo de parte, ao não ceder nos seus objetivos territoriais.

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Por sua vez, Donald Trump avisou Israel e o Irão de que devem travar os ataques, imediatamente.

Em duas publicações nas redes sociais, o inquilino da Casa Branca exigiu que os dois lados parassem de “disparar”. Inicialmente, apenas o Irão anunciou o fim dos ataques, mas, após um telefonema entre o presidente norte-americano e o primeiro-ministro israelita, Israel terá concordado com a suspensão das hostilidades.

Depois de a Guarda Revolucionária do Irão ter anunciado que os seus ataques contra Israel poderiam continuar durante toda a semana, as forças armadas do Irão anunciaram o fim das operações militares contra Israel, mas avisaram, no entanto, que ataques “muito mais severos” ocorrerão, caso Israel retome as ofensivas contra o Sul do Líbano.

Mais tarde, foi a vez de uma autoridade israelita afirma ao canal 12 do país que também Israel vai cessar os ataques, a pedido do chefe de Estado norte-americano. Contudo, os ataques no Sul do Líbano prosseguirão, se o Hezbollah atacar Israel.

Após a mais recente troca de ataques entre o Irão e Israel, o chefe de Estado norte-americano continua a vincar que ambos os países “procuram um cessar-fogo imediato”.

O presidente dos EUA disse, em declarações aos jornalistas, que “não estava feliz” com os ataques de Teerão, mas que estes “não teriam qualquer impacto no acordo”. E insistiu que “quem dá as ordens” é o chefe de Estado norte-americano, e não Benjamin Netanyahu, com quem entrou em rota de colisão, recentemente.

Apesar de Trump afirmar que a paz está próxima, os sinais indicam que está a perder influência na crescente crise. O analista militar Michael Clarke referiu, em declarações à Sky News, que a administração norte-americana tem desenvolvido uma “diplomacia amadora”.

Por outro lado, o governo paquistanês, que tem empreendido esforços, enquanto mediador entre Israel e o Irão, não acredita que um acordo esteja próximo.

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Vladimir Putin persiste na sua soberba ambição de hegemonia militar e de expansão territorial. Donald Trump continua convencido que pode ser o senhor da guerra e construtor da paz. Benjamin Netanyahu vê terroristas em qualquer esquina. Masoud Pezeshkian (presidente do Irão) e Mojtaba Khamenei (líder supremo do Irão) dizem que se limitam a responder a ataques armados.

Todos dizem querer a paz, mas nenhum abdica das suas ambições (armas nucleares, poderio militar, político e económico, terras raras, controlo do petróleo e dos seus derivados, domínio territorial, etc.).

Toda esta hipocrisia sanguinolenta me faz lembrar o epíteto “puñetero y desalmado”, com que “El Credo de la Misa Campesina” carateriza Pôncio Pilatos. Com efeito, porfiou que Jesus de Nazaré era inocente, mas, no entanto, mandou-o flagelar e coroar de espinhos e, lavando as mãos para se afirmar irresponsável pela sua morte, entregou-o à crucifixão.  

Não serão também verdadeiros “puñeteros y desalmados” estes senhores da guerra que, enquanto conversam, instigam à matança de tanta gente e à destruição de património e de ecossistemas?

2026.06.08 – Louro de Carvalho