segunda-feira, 24 de agosto de 2026

No problemático 35.º aniversário da independência da Ucrânia

 

Líderes europeus reuniram-se em torno de Volodymyr Zelenskyy, em Kiev, a 24 de agosto, para a celebração do 35.º aniversário da independência da Ucrânia, numa altura em que este país europeu já vai no quinto ano da guerra com a Rússia a Ucrânia. É, pois, este o quinto Dia da Independência, desde a invasão em grande escala da Rússia, alegadamente, para desmilitarizar e para desnazificar o país invadido – um marco que poucos esperavam quando as forças russas avançaram sobre a capital ucraniana, em fevereiro de 2022.

Andy Burnham, primeiro-ministro britânico, na sua primeira deslocação ao estrangeiro, desde que tomou posse, juntou-se ao presidente do Conselho Europeu, António Costa, e a outros altos responsáveis europeus, em Kiev, para as comemorações e para encontros com o presidente ucraniano. Também os outros líderes europeus da Coligação da Boa Vontade – nomeadamente, o presidente francês, Emmanuel Macron, o chanceler alemão, Friedrich Merz, o primeiro-ministro irlandês, Micheal Martin, e o primeiro-ministro do Luxemburgo, Luc Frieden – participaram, à distância, num encontro com Zelenskyy.

Foi notória a ausência de qualquer membro da administração norte-americana na cerimónia, designadamente, Steve Witkoff, enviado especial dos Estados Unidos da América (EUA) para o Médio Oriente, e Jared Kushner, conselheiro sénior, entre 2017 e 2021, no primeiro mandato do presidente dos EUA e, no atual mandato, intermediário-chave nas negociações diplomáticas relativas à guerra Israel-Hamas e à guerra Rússia-Ucrânia.

Apesar da especulação de que o Dia da Independência poderia assinalar a sua primeira visita à Ucrânia, os dois enviados especiais do inquilino da Casa Branca não compareceram. Aliás, desde que assumiram papel de destaque nos esforços diplomáticos da administração norte-americana, nenhum deles viajou para Kiev, embora tenham participado em repetidos encontros com responsáveis russos e Witkoff tenha feito oito visitas a Moscovo.

Não obstante, é de assinalar que Mike Pence, antigo vice-presidente dos EUA, e Keith Kellogg, antigo enviado especial de Donald Trump para a Ucrânia, bem como os senadores Richard Blumenthal e James Lankford, se deslocaram-se a Kiev, durante o fim de semana, e participaram em eventos associados ao 35.º aniversário. E o anfitrião disse que os informou da contínua ameaça de mísseis balísticos da Rússia e da necessidade de reforçar as defesas aéreas.

Kiev aproveitou o ensejo para pressionar os aliados a ajudarem a Ucrânia a obter mais mísseis de defesa aérea, antes do inverno.

Em resposta, António Costa, falando ao lado de Zelenskyy e do primeiro-ministro britânico, na cerimónia realizada na praça em frente da catedral de Santa Sofia, prestou homenagem ao povo ucraniano pela “coragem e bravura” que, disse, “inspiram o Mundo”.

“Continuaremos a prestar todo o apoio necessário, durante o tempo que for preciso”, afirmou, alargando esse compromisso para lá da guerra, até à futura adesão da Ucrânia à UE [União Europeia]. […] O direito internacional tem de prevalecer. A Rússia não irá prevalecer. […] A União Europeia não pode ser neutra, quando o direito internacional está a ser violado. Não somos neutros. Estamos do lado da Ucrânia”, afirmou o presidente do Conselho Europeu.

Por seu turno, Andy Burnham comparou a resistência da Ucrânia à Rússia à luta do Reino Unido contra a Alemanha nazi, dizendo aos ucranianos: “A minha nação manteve viva, no século XX, a chama da liberdade europeia; vós mantendes essa chama no século XXI.”

Depois, comprometeu-se também a ajudar Kiev a reforçar a sua defesa aérea, antes do inverno.

Também o ministro da Defesa britânico, Luke Pollard, confirmou que Londres vai partilhar tecnologia com a Ucrânia, para apoiar a produção interna do míssil de longo alcance SCALP, afirmando: “Estaremos ao lado deles, durante o tempo que for preciso.”

E a UE, anunciou, neste dia, um novo pacote de 6,1 mil milhões de euros em ajuda militar.

Num discurso que assinalou o Dia da Independência, Volodymyr Zelenskyy disse aos ucranianos e aos líderes internacionais que, há 35 anos, os serviços de informações duvidavam de que a Ucrânia sobrevivesse como Estado independente, sugerindo que voltaria a cair sob influência russa. “Mas os ucranianos restauraram a independência do seu Estado e iremos, certamente, proteger a independência da Ucrânia. Não há qualquer dúvida”, afirmou, aludindo às avaliações dos serviços de informações ocidentais, antes da invasão em grande escala da Rússia, de que a Ucrânia poderia cair em poucos dias ou semanas.

Quando as forças russas avançaram, rapidamente, em direção a Kiev, a 24 de fevereiro de 2022, poucos esperavam que a Ucrânia resistisse ao ataque. Seis meses depois, o país assinalou o primeiro Dia da Independência, desde o início da guerra em grande escala.

“Os ucranianos não serão pedras de calçada, sob os pés de czares e de governantes. Os ucranianos não se vão submeter. Os ucranianos não serão moeda de troca, em disputas entre capitais. Os ucranianos não aceitarão aquilo em que não acreditam. E, certamente, não abandonarão o seu próprio sonho – o sonho de viver em liberdade e independência”, bradou o chefe de Estado do país invadido, há mais de quatro anos.

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As comemorações refletiram também o enorme custo de preservar a independência, contra as repetidas tentativas da Rússia em desestabilizar e em “desfazer” o país.

Zelenskyy e a primeira-dama, Olena Zelenska, começaram o dia a homenagear os combatentes mortos, antes de o presidente entregar algumas das mais altas condecorações do país a militares, homens e mulheres. As famílias dos soldados mortos na defesa da Ucrânia receberam distinções atribuídas a título póstumo.

Não houve o tradicional desfile militar no centro de Kiev. Em vez disso, a Ucrânia exibiu drones de produção nacional e outras tecnologias de defesa que se tornaram centrais no esforço de guerra.

A cerimónia aconteceu após uma forte escalada dos ataques russos contra a Ucrânia. Na verdade, Moscovo intensificou os ataques com mísseis balísticos e com drones contra cidades ucranianas, elevando o número de vítimas civis aos níveis mais altos desde os primeiros meses da invasão e revelando a crescente escassez de mísseis intercetores avançados na Ucrânia.

Zelenskyy afirmou que o envio de mísseis intercetores Patriot, diminuiu significativamente, mesmo com o aumento dos ataques com mísseis russos. Por isso, pretendendo obter, pelo menos, mais 330 mísseis intercetores, antes do inverno, fez da defesa aérea um dos temas centrais das conversações com os seus aliados europeus.

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A deslocação do primeiro-ministro britânico à capital ucraniana surgiu após o anúncio de que o Reino Unido vai apoiar Kiev na produção interna de mísseis de longo alcance.

Segundo o respetivo comunicado, o Reino Unido “acordou que a empresa de defesa MBDA pode divulgar informação classificada sobre componentes de fabrico britânico do míssil de longo alcance SCALP, para estabelecer linhas de montagem locais na Ucrânia”. Ora, esta decisão de divulgar a informação classificada sobre o míssil, que utiliza tecnologia britânica e francesa, permite à França e à Ucrânia avançarem com a montagem do míssil em território ucraniano.

Além disso, o comunicado acrescenta: “Complementa também o importante esforço britânico para desenvolver, rapidamente, armas avançadas de ataque de longo alcance e de baixo custo para a Ucrânia, através do projeto Brakestop”.

“No 35.º aniversário da independência da Ucrânia, o povo ucraniano não deve ter dúvidas: o Reino Unido está convosco hoje e pelo tempo que for necessário”, afirmou Andy Burnham em comunicado.

O Reino Unido tem sido um dos principais apoiantes da Ucrânia desde a invasão em grande escala da Rússia em 2022, comprometendo até agora cerca de 25 mil milhões de libras (29,2 mil milhões de euros) em apoio, incluindo 16 mil milhões de libras (18,7 mil milhões de euros) em ajuda militar.

Já no dia 23, presidente ucraniano reuniu-se com líderes nórdicos e bálticos e manteve conversações bilaterais centradas na cooperação em matéria de defesa.

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A Comissão Europeia anunciou, no dia em que se celebra a Independência da Ucrânia, 6,1 mil milhões de euros em novas aquisições de material de defesa para o país. Este financiamento integra o Empréstimo de Apoio à Ucrânia, no valor de 90 mil milhões de euros, e aconteceu num dia em que se realizou, em Kiev, uma reunião da Coligação da Boa Vontade.

“No Dia da Independência da Ucrânia, a Comissão Europeia aprovou 6,1 mil milhões de euros em novas aquisições de material de defesa para a Ucrânia. Este financiamento abrange sistemas de defesa aérea e antimíssil, mísseis, munições e radares, reafirmando o compromisso da Europa em apoiar a defesa e a resiliência da Ucrânia, perante a contínua agressão russa”, indica o executivo comunitário, em comunicado.

Ursula von der Leyen, realçou que esta iniciativa “demonstra que o apoio [da UE] é inabalável e concreto” e que, perante a intensificação dos ataques russos, a UE está a reforçar o apoio a Kiev, para “ajudar a Ucrânia a proteger a sua população e a defender o seu espaço aéreo”. “A Europa está ao lado da Ucrânia e iremos fornecer-lhe o que necessita, quando necessita”, garantiu no dia em que a Coligação da boa vontade se reuniu, em Kiev, para celebrar o 35.º aniversário da independência da Ucrânia.

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A reunião teve um formato híbrido – não estiveram em Kiev alguns dirigentes, como os já referidos e o ministro dos Negócios Estrangeiros português, que participou por videoconferência. Paulo Rangel reafirmou, numa publicação nas redes sociais o apoio de Portugal à soberania, integridade territorial e ao futuro europeu da Ucrânia.

O Presidente da República de Portugal enviou uma videomensagem ao homólogo ucraniano, Volodymyr Zelensky, “e a todos os cidadãos ucranianos”, prestando tributo àqueles “que defendem esta independência no terreno”.

De acordo com uma nota divulgada pela Presidência da República, António José Seguro frisou que “o apoio de Portugal à Ucrânia, à sua soberania e integridade territorial e ao corajoso povo ucraniano continua e continuará a ser incondicional, tal como tem sido desde o primeiro dia”. E, reiterando que Portugal “continuará a prestar apoio político, humanitário, financeiro e militar à Ucrânia, enquanto for necessário”, o chefe de Estado “formulou votos muito sinceros para que as comemorações do 24 de agosto de 2027 decorram já em tempo de paz”.

“O 35.º aniversário da independência da Ucrânia representa, hoje, volvidos quatro anos desde o início de uma trágica guerra, uma dupla vitória: a vitória do tempo, que consolidou a identidade nacional, e a vitória da vontade coletiva do corajoso povo ucraniano, que se recusa a ceder perante a força”, destacou Seguro, sustentando: “Hoje é dia para honrar aqueles que defendem esta independência no terreno, é dia para reconhecer o sacrifício de tantas famílias, é dia para reafirmar a capacidade de um povo de manter viva a soberania, mesmo quando ela é, direta e reiteradamente, desafiada”.

“Estes 35 anos de independência são um testemunho vivo de que a identidade de um povo não se mede pela ausência de adversidade, mas pela forma como a enfrenta”, prosseguiu Seguro, completando que “a amizade entre Portugal e a Ucrânia é uma amizade entre povos que partilham valores fundamentais e uma comum determinação de defender a liberdade, a democracia e o respeito pelo Direito Internacional”.

Em representação do presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar-Branco, estiveram em Kiev deputados do Grupo Parlamentar de Amizade Portugal-Ucrânia, nomeadamente, o líder parlamentar do Partido Socialista (PS) e presidente deste grupo parlamentar, Eurico Brilhante Dias, os seus vice-presidentes Francisco Figueira, do Partido Social Democrata (PSD), e Rodrigo Saraiva, Rui Tavares, do Livre, e Paulo Núncio, líder parlamentar do partido do Centro Democrático Social (CDS).

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A celebração do Dia da Independência e a aprovação do financiamento (já referido) pela UE surgem numa altura em que a Rússia intensifica os ataques com mísseis balísticos e drones. No entanto, numa mensagem divulgada nas redes sociais, o presidente ucraniano garantiu que a Ucrânia não se renderá à Rússia. “A Ucrânia quer a paz, sem dúvida, mas não está pronta para simplesmente se render”, disse Volodymyr Zelensky, citado pela Reuters, vincando que a cedência à exigência russa para abdicar da parte restante do Donbass não é suficiente para pôr um ponto final na guerra e acusando Vladimir Putin de estar “preso ao passado”.

Ao mesmo tempo, solicitou à China que se manifeste contra as ameaças de Moscovo sobre o uso de armas nucleares. “A China não pode continuar em silêncio”, defendeu. “A China deve provar a ambição de ser um dos líderes mundiais, não só nos campos económico e tecnológico, mas também no civilizacional, deixando claro que nenhum ditador deve ameaçar o planeta com ogivas obsoletas”, afirmou, elogiando “a força de espírito” do povo ucraniano.

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Desde a sua independência, a Ucrânia apresentou várias mudanças, tendo Maryna Mykhailenko,

embaixadora da Ucrânia em Portugal destacado (cf. Expresso online de 24 de agosto): ter mostrado ao Mundo quem são os ucranianos, não como república pós-soviética ou na esfera de influência da Rússia, mas como país e nação livres e independentes; ter escolhido, de forma definitiva e irreversível, o caminho do desenvolvimento democrático, após décadas de totalitarismo soviético, pois os ucranianos sempre tiveram, pela sua própria mentalidade, uma forte predisposição para a democracia, nomeadamente, graças às sólidas tradições históricas de autogoverno; e ter optado pela adesão à UE.

E a diplomata conclui que a agressão armada da Rússia contra a Ucrânia não é “uma guerra por territórios”, pelo que “quaisquer concessões territoriais não contribuirão para uma paz duradoura”. Trata-se, antes, de “uma guerra existencial pelo direito do povo ucraniano à existência, à liberdade, ao seu próprio Estado e à sua escolha europeia”, bem como uma guerra que “é também travada pela Rússia para preservar a sua capacidade de determinar a segurança europeia e [de] ditar as suas condições à Europa”.

Com efeito, na ótica da embaixadora, “a Rússia pretende limitar, drasticamente, a soberania ucraniana e determinar a nossa política interna e externa”, tal como pretende “uma Europa dependente dos seus recursos energéticos, intimidada pelo seu exército e governada por aqueles que apoia – e não são forças políticas que tenham os valores europeus no seu ADN”.

Sem desmentir o entendimento da diplomata, é de referir que o “Ocidente” foi ambicioso na subtração de áreas territoriais à influência da poderosa ex-União Soviética e não soube libertar-se da sua dependência estratégica e económica. Agora, torce a orelha.

2026.08.24 – Louro de Carvalho


As chaves são fundamentalmente para abrir, mas alguns só sabem fechar

 

O centro da reflexão suscitada pela liturgia do 21.º domingo do Tempo Comum, no Ano A, evidencia dois temas da construção e da estruturação da existência cristã: Cristo e a Igreja.

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A primeira leitura (Is 22,19-23) mostra como deve ser concretizado o poder “das chaves”. O que detém as chaves não pode usar a autoridade para concretizar interesses pessoais ou para vedar aos irmãos o acesso aos bens essenciais, nomeadamente, os eternos, mas deve exercê-la como serviço de pai que procura o bem dos filhos, com solicitude, com amor e com justiça.

Isaías nasceu por de 760 a.C., provavelmente, em Jerusalém. Bastante jovem, sentiu-se chamado por Deus à profecia (“no ano da morte do rei Ozias”, ou seja, por volta de 740-739 a.C.) e profetizou durante um longo lapso de tempo (os seus últimos oráculos são de finais do século VIII ou de princípios do século VII a.C.), sendo a consciência crítica dos vários reis que, nessa fase, presidiram aos destinos do Povo de Deus. De família nobre, é homem culto, decidido, enérgico, que frequenta os círculos de poder e faz parte dos notáveis de Judá. Participa nas decisões atinentes à condução do reino, fala com autoridade a altos funcionários e aos reis.

Porém, não apoia as classes altas: os seus maiores ataques são dirigidos aos grupos dominantes: autoridades, juízes, latifundiários, políticos, mulheres da classe alta que vivem em escandaloso luxo. Defende, com paixão, os oprimidos, os órfãos, as viúvas, o povo explorado e desencaminhado pelos governantes. E insta, continuamente, o povo à conversão, exortando a que volte para Javé, que respeite os compromissos assumidos, que reaprenda a viver a Aliança, que ponha, de novo, Deus e os mandamentos no centro da vida e da História.

O oráculo assumido na liturgia desta dominga leva-nos à época do rei Ezequias, que atinge a maioridade e assume os destinos de Judá, em 714 a.C. Ezequias, pretendendo a reforma religiosa e a independência política, manifesta propensão para alianças políticas contra os assírios (que, desde o reinado de Acaz, mantêm Judá sob a sua autoridade). Em resposta, Senaquerib ataca Judá e devasta-a. E, em 701 a.C., Jerusalém é cercada pelos assírios e Ezequias tem de aceitar uma submissão mais onerosa do que a anterior.

Todavia, o episódio em causa não se refere aos grandes acontecimentos políticos em que Judá se vê envolvido. Aborda, antes, um caso palaciano. Shebna e Elyaqîm são altos funcionários de Ezequias, que o 2.º livro dos Reis cita a propósito de episódio associado à invasão de Senaquerib.

O oráculo dirige-se, inicialmente, a Shebna, “administrador do palácio”. Anuncia-lhe a destituição do cargo e a sua substituição por Elyaqîm, porque Shebna talhou “para si um sepulcro no alto e cavou para si na rocha um mausoléu”. A sua atitude é condenável, porque é sinal do orgulho de Shebna, que usa o poder para se projetar na sociedade, porque Shebna utilizou o dinheiro do povo ou porque despendeu dinheiro em futilidades, num momento difícil para o povo. Na verdade, sempre o detentor do poder tende a projetar-se acima de todos, a utilizar dinheiro do povo em benefício próprio e a gastar em ninharias e petulâncias, recursos que fazem falta ao povo. Numa dessas tentações terá caído o administrador do palácio.

Shebna será substituído nas suas funções. Para tanto, será despojado das insígnias do poder (a túnica, o cinto, a chave do palácio), que passarão para Elyaqîm, que receberá o poder das chaves do palácio. O simbolismo das chaves é sugestivo: o mordomo, entre outras coisas, conservava em seu poder as chaves do palácio real, administrava os bens do rei, fixava a abertura e o fechamento das portas e definia quais os visitantes a introduzir junto do soberano.

A frase usada pelo profeta – “ele será um pai para os habitantes de Jerusalém e para a casa de Judá” – indica que Elyaqîm exercerá o serviço da autoridade com solicitude, com amor, com justiça; e a referência à “estaca” (“fixá-lo-ei como uma estaca num lugar firme”), revela que, na ótica de Isaías, Elyaqîm desempenhará as suas funções com firmeza.

A autoridade não pode tornar-se em poder absoluto; deve servir para aumentar a robustez da comunidade. A “auctoritas” latina é cognata do verbo “augere”, que significa “aumentar”, fazer crescer”. E a tentação é, muitas vezes, apoucar os outros e aumentar o poder pessoal.

Este episódio palaciano – de corrupção e de validade – é-nos proposto como Palavra de Deus, porque nos prepara para melhor entendimento do Evangelho, pois define em que consiste o serviço “das chaves”, o serviço da autoridade: ser pai para aqueles sobre quem se tem responsabilidade e procurar o bem de todos com solicitude. A chave, é fundamentalmente, para abrir, para incluir, mas alguns detentores usam-na para fechar, para vedar, para excluir

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O Evangelho (Mt 16,13-20) convida os discípulos a aderirem a Jesus e a acolherem-No como “o Messias, Filho de Deus”. Desta adesão, nasce a Igreja – comunidade dos discípulos de Jesus, convocada e organizada à volta de Pedro, mas sempre referenciada a Cristo. A missão da Igreja é testemunhar salvação que Jesus trouxe. À Igreja e a Pedro é confiado o poder das chaves – isto é, a faculdade de interpretar as palavras de Jesus, de adaptar o ensino de Jesus aos desafios do Mundo e de acolher na comunidade todos os que aderem à via da salvação.

Estamos no Norte da Galileia, perto das nascentes do Jordão, em Cesareia de Filipe (atual Bânias), construída por Herodes Filipe (filho de Herodes o Grande) no ano 2 ou 3 a.C., em honra do imperador Augusto.

O trecho em causa é central no Evangelho mateano. Aparece num momento de viragem, quando se perfila no horizonte de Jesus um destino de cruz. Após o êxito inicial do seu ministério, Jesus começou a experienciar a oposição dos líderes e desinteresse por parte do Povo. A sua proposta do Reino não é acolhida, senão por um pequeno grupo – o grupo dos discípulos. Então, dirige-se aos discípulos a interrogá-los sobre Si próprio, não para medir a sua quota de popularidade, mas para clarificar, nos discípulos, a índole da sua opção e para os confirmar nessa opção de seguimento e de aposta no Reino.

O relato de Mateus é diferente do relato do mesmo episódio feito por outros evangelistas, nomeadamente, Marcos. Mateus remodelou e ampliou o texto de Marcos, juntando a afirmação de que Jesus é o Filho de Deus e a missão confiada a Pedro. O trecho em causa é divisível em duas partes: a primeira, cristológica, centra-se em Jesus e na sua identidade; a segunda, eclesiológica, centra-se na Igreja, que Jesus convoca à volta de Pedro.

Na primeira parte (vv. 13-16), Jesus interroga os discípulos: acerca do que as pessoas dizem dele e do que eles próprios pensam. A opinião dos “homens” vê Jesus em continuidade com o passado (“João Baptista”, “Elias”, “Jeremias” ou “algum dos profetas”). Não captam a condição única de Jesus. Na perspetiva dos “homens”, Jesus é, apenas, um homem bom, justo, generoso, que escutou o apelo de Deus e Se esforçou por ser um sinal vivo de Deus, como tantos outros homens antes d’Ele. É muito, mas não basta: não entenderam a novidade do Messias.

A opinião dos discípulos acerca de Jesus vai muito além da opinião comum. Pedro, porta-voz da comunidade, sintetiza o sentir da comunidade do Reino na asserção: “Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo”. Nestes dois títulos resume-se a fé da Igreja mateana e a catequese aí feita sobre Jesus. Dizer que Jesus é “o Cristo” (Messias) significa dizer que Ele é o libertador que Israel esperava, enviado por Deus para libertar o seu Povo e para lhe doar a salvação definitiva. Porém, para os membros da comunidade do Reino, Jesus não é apenas o Messias: é também o “Filho de Deus”. No Antigo Testamento, a expressão “Filho de Deus” é aplicada aos anjos, ao Povo eleito, aos vários membros do Povo de Deus, ao rei e ao Messias/rei da linhagem de David. Designa a condição de alguém que tem relação particular com Deus, a quem Deus elegeu e a quem Deus confiou uma missão. Definir Jesus como o “Filho de Deus” significa, não só que Ele recebe vida de Deus, mas que vive em total comunhão com Deus, que desenvolve com Deus a relação de profunda intimidade e que Deus Lhe confiou uma missão única para a salvação dos homens; significa reconhecer a profunda unidade e intimidade entre Jesus e o Pai e que Jesus conhece e realiza o desígnio do Pai no meio dos homens. Os discípulos são convidados a entender dessa forma o mistério de Jesus.

Na segunda parte (vv. 17-20), Jesus responde à confissão de fé da comunidade discipular, feita pela voz de Pedro. Jesus felicita Pedro (e a comunidade) pela clareza da fé que o anima, que não é mérito de Pedro, mas dom de Deus (“não foram a carne e o sangue que to revelaram, mas o meu Pai que está nos céus”). Pedro (os discípulos) pertence ao grupo dos pobres, dos simples, abertos à novidade de Deus, que têm coração disponível para acolher o dom de Deus (pobres e simples contrapõem-se a líderes – fariseus, doutores da Lei, escribas – instalados nas certezas, seguranças e preconceitos, incapazes de abrirem o coração aos desafios de Deus).

O que é que significa Jesus dizer a Pedro que ele é “a rocha” (“Pedro” é a tradução grega do hebraico “Kephâ” – “rocha”) sobre a qual a Igreja de Jesus é construída? As palavras de Jesus têm de ser vistas no contexto da confissão de fé acabada de proferir. Mateus está, pois, a afirmar que a base firme e inamovível sobre a qual assenta a “Ekklesía” (Igreja) de Jesus é a fé que Pedro e a comunidade dos discípulos professam: a fé em Jesus como o Messias, Filho de Deus vivo.
Para que seja possível a Pedro testemunhar que Jesus é o Messias Filho de Deus e edificar a comunidade do Reino, Jesus promete-lhe “as chaves do Reino dos céus” e o poder de “ligar e desligar”. A entrega das chaves equivale à nomeação do administrador do palácio de que falava Isaías. Por outro lado, a expressão “atar e desatar” designava, entre os judeus, o poder para interpretar a Lei, com autoridade, para declarar o que era ou não permitido, para excluir ou reintroduzir alguém na comunidade do Povo de Deus. Assim, Jesus nomeia Pedro administrador e supervisor da Igreja, com autoridade para interpretar as palavras de Jesus, para adaptar os ensinamentos de Jesus a novas necessidades e situações, e para acolher ou não novos membros na comunidade dos discípulos do Reino. Porém, é de clarificar que todos são chamados por Deus a integrar a comunidade do Reino; mas aqueles que não estão dispostos a aderir a Jesus não podem aí ser admitidos.

Não se trata de confiar a um homem (Pedro) um primado, enquanto liderança absoluta (o poder das chaves, o poder de ligar e desligar) da comunidade dos discípulos, stricto sensu. Pedro é, aqui, o discípulo que dá voz a todos os que acreditam em Jesus, que representa a comunidade dos discípulos e que os confirma na fé. Não há Igreja sem Pedro (a Igreja existe com Pedro), mas Pedro, que representa a Igreja, não a substitui.

O poder de “ligar e desligar” aparece noutro contexto, confiado à totalidade da comunidade e não a Pedro em exclusivo (cf. Mt 18,18). Assim, a postura mais correta é ver em Pedro o protótipo do discípulo; nele, está representada a comunidade que se reúne à volta de Jesus e que proclama a sua fé em Jesus como o Messias e o “Filho de Deus”. É a esta comunidade, representada por Pedro, que Jesus confia as chaves do Reino e o poder de acolher ou excluir. Isso não invalida que Pedro seja a figura de referência para os cristãos e que tenha desempenhado papel de primeiro plano na animação da Igreja nascente, sobretudo nas comunidades da Síria, a que o Evangelho de Mateus se destina.

Por fim, uma palavra sobre a rocha petrina. As portas do inferno não prevalecerão contra ela, porque é dura e forte. Porém, ela tem a outra face mais simpática para os filhos de Deus: no seu seio (gruta) eles são acolhidos e protegidos e sentem-se irmãos. Para tanto, alguns têm de se encarregar, permanente ou temporariamente, da vigilância contra os perigos e da ampliação da gruta, porque todos são chamados a entrar e a permanecer nela.

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Perante os fiéis reunidos na Praça de São Pedro, para a oração do Angelus, Leão XIV sublinhou que o Evangelho nos coloca ante uma pergunta que interpela cada um de nós na via da fé: “Quem é Jesus para cada um?”. O que outrem pensa não me compromete, mas o que eu creio.

“A partir da narração evangélica, percebe-se quanto esta pergunta é decisiva para a experiência do discipulado. Ainda que os apóstolos já tivessem compartilhado muito da vida e do ministério do Mestre, Jesus não quis pressupor que eles O conheciam e que tinham compreendido o mistério do Reino de Deus. Por isso, depois de perguntar quais eram as opiniões das pessoas sobre Ele, dirige-se-lhes, diretamente: “E vós, quem dizeis que Eu sou?”

“Este é um passo fundamental para cada um de nós, pois a fé não nos é dada de uma vez para sempre; antes, precisamos, constantemente, de redescobrir o rosto de Cristo e o seu Evangelho, aprofundar a sua mensagem e renovar as escolhas, para que sejam coerentes com o que professamos, vencendo a tentação de pensar que sabemos tudo e de transformar a fé num costume. Esta pergunta surge, especialmente, na oração e na meditação sobre o Evangelho, mas também quando nos deparamos com as feridas e com as necessidades dos irmãos, ou nas relações e nas situações que mais interpelam a nossa consciência.

“Enfim, no âmbito da nossa vida, avaliamos se, para nós, Jesus é só uma grande figura da História que disse e fez coisas importantes, ou se é o Cristo, Aquele que foi enviado para nos introduzir no amor do Pai e transformar a nossa vida e o Mundo em que vivemos.”

Por conseguinte, o Papa exorta a que “aprendamos a não nos fecharmos nas nossas convicções e certezas religiosas, para nos mantermos abertos a uma relação autêntica com Cristo”. De facto, por vezes, no atinente à fé cristã, contentamo-nos com o que ‘ouvimos dizer’, com os lugares-comuns, com o que nos foi transmitido. Ora, Jesus pede-nos uma resposta pessoal, que O conheçamos de perto, que nos deixarmos escrutinar, a partir da amizade com Ele, num encontro sempre novo que pode exigir que trilhemos caminhos inéditos e que façamos escolhas diferentes das que imaginávamos. Isto é válido para o percurso pessoal, para o caminho da Igreja e para as escolhas pastorais, já que, às vezes, pensamos que basta continuar a fazer como sempre fizemos.

“Ao invés, importa que nos perguntemos, frequentemente: ‘Para mim, quem é o Senhor? Conheço-O? O que me pede o seu Evangelho? Que passos e que escolhas deveria tomar?’

“Invoquemos a Virgem Maria, que, no seu coração, procurava a vontade de Deus, através do seu Filho, para que nos guie sempre no caminho da fé.

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A segunda leitura (Rm 11,33-36) insta a contemplar a riqueza, a sabedoria e a ciência de Deus que, de modo misterioso e desconcertante, realiza o seu desígnio de salvação do homem. Ao homem resta entregar-se na mão de Deus e deixar que o seu espanto, reconhecimento e adoração se transformem em hino de amor e de louvor a Deus salvador e libertador.

Israel rejeitou a oferta da salvação que Deus fez, através de Jesus Cristo, mas isso não significa que Israel esteja arredado da salvação, pois Deus, que lhe prometeu a salvação, não pode ser infiel às suas promessas. Talvez tenha deixado que Israel, num primeiro momento, recusasse a salvação, para que, cedo, os gentios beneficiassem dos dons de Deus. Deus pode ter permitido algo de aparentemente mau, para daí tirar um bem maior. De resto, Israel foi, desde os primeiros instantes da sua existência, chamado a ser o Povo de Deus; e esse chamamento é irrevogável. O Povo eleito, chamado por Deus, desde os seus inícios, não pode deixar de ser objeto especial da misericórdia de Deus. O trecho em apreço, a conclusão desta reflexão paulina, é um belo hino de louvor, de reconhecimento e de adoração que exalta o desígnio salvador de Deus.

Paulo, totalmente abismado, contempla a riqueza, a sabedoria e a ciência de Deus – qualidades de Deus que levam às exclamações e interrogações que preenchem o resto do hino.

O apóstolo reconhece que o desígnio de Deus é misterioso e ultrapassa, infinitamente, a capacidade de compreensão e de entendimento do homem. Deus é sempre mais do que aquilo que o homem imagina: mais sábio, mais poderoso, mais misericordioso. Ao homem resta reconhecer a sua pequenez, os seus limites, a sua finitude, a sua incapacidade de compreender, totalmente, o Deus desconcertante e incompreensível. Mesmo quando as coisas parecem não fazer sentido (a lógica de Deus é diferente da lógica dos homens), ao homem resta atirar-se, com confiança, para os braços de Deus, acolher humildemente a sua Palavra e procurar seguir, com simplicidade e amor os seus caminhos. O verdadeiro crente é o que, embora não entenda o alcance total do desígnio de Deus, se entrega confiadamente nas suas mãos e deixa que o seu espanto e adoração se transformem num hino de louvor: “Glória a Deus para sempre. Ámen”.

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Toda a dinâmica da salvação é fruto da misericórdia de Deus, pelo que Ele é digno de todo o louvor para sempre. Louvemo-Lo e aceitemos a Palavra de Cristo:

“Senhor, a vossa misericórdia é eterna: não abandoneis a obra das vossas mãos.”

“De todo o coração, senhor, eu Vos dou graças / porque ouvistes as palavras da minha boca. / Na presença dos Anjos Vos hei de cantar / e Vos adorarei, voltado para o vosso templo santo.

“Hei de louvar o vosso nome pela vossa bondade e fidelidade, / porque exaltastes acima de tudo o vosso nome e a vossa promessa. /Quando Vos invoquei, me respondestes, / aumentastes a fortaleza da minha alma.

“O Senhor é excelso e olha para o humilde, / ao soberbo conhece-o de longe. / Senhor, a vossa bondade é eterna, / não abandoneis a obra das vossas mãos.

“Aleluia. Aleluia. Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja / e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.”

2026.08.23 – Louro de Carvalho


domingo, 23 de agosto de 2026

Vai ser possível distribuir periódicos em todo o Portugal Continental

 

A VASP - Distribuição e Logística ganhou o concurso para a distribuição diária de jornais e de revistas, no próximo triénio, garantindo a distribuição nos dois lotes do concurso público internacional lançado pelo governo, a 2 de junho, que se enquadra no Plano de Ação para a Comunicação Social (PACS) e que ocorre após longo processo de conceção de um modelo de apoio à distribuição, em território nacional, que abre a porta a eventuais concorrentes.

O Executivo dividiu o concurso em dois lotes, correspondentes às regiões Norte e Sul de Portugal Continental. Assim, o Lote 1 respeita ao Norte e ao Centro; e o Lote 2, ao Oeste e ao Vale do Tejo, à Grande Lisboa, à Península de Setúbal, ao Alentejo e ao Algarve.

A Pergaminhos Flash Distribuição – sociedade constituída, em junho, para se candidatar ao concurso, por José Manuel Rogeira de Jesus, dono da Parsoc, acionista do Jornal de Notícias (JN) – liderada, no âmbito do concurso, por Rui Marques dos Santos, antigo executivo da VASP, foi a única concorrente da VASP, na distribuição de periódicos. O resultado preliminar do concurso atribui à vencedora a distribuição nos dois lotes, por 763 mil euros, por ano, ou 2,29 milhões de euros, no total dos três anos de vigência dos contratos para os dois lotes, bastante abaixo do preço estimado pelo governo.

A VASP, detida por Marco Galinha, dono do grupo BEL- que é também acionista do Diário de Notícias (DN) –, opera, atualmente, em monopólio, depois da saída do mercado de concorrentes na distribuição de publicações. A insolvência, em 2017, da Distrinews II, do Grupo Urbanos, transformou a VASP na incumbente deste negócio, em território nacional. Recorde-se que a Impresa, proprietária do Expresso e da SIC, alienou, em 2021, a sua participação de 33,33% na VASP ao grupo BEL e à Cofina Media, hoje, Medialivre, por 2,1 milhões de euros.

A inclusão do financiamento público à distribuição no PACS era reivindicação dos autarcas do interior e das empresas do setor dos media, face à possibilidade de vários municípios de baixa densidade populacional ficarem sem acesso à imprensa escrita. O governo, por seu lado, recusou a possibilidade de um apoio direto à VASP.

A distribuidora chegou, a 4 de dezembro de 2025, a anunciar que estaria a avaliar “ajustamentos”, em rotas nos distritos de Beja, de Évora, de Portalegre, de Castelo Branco, da Guarda, de Viseu, de Vila Real e de Bragança, aduzindo “uma situação financeira particularmente exigente, resultante da quebra contínua das vendas da imprensa e do aumento significativo dos custos operacionais, que colocam sob forte pressão a sustentabilidade da atual cobertura de distribuição de imprensa diária”. Em março, a empresa reconheceu ter remetido “informações financeiras incompletas” ao gabinete do ministro da Presidência, António Leitão Amaro, explicando as suas razões e apresentado pedido de desculpas.

Os resultados do concurso para a distribuição de jornais e revistas, no próximo triénio, foram comunicados aos concorrentes a 20 de agosto, abrindo-se, agora, o período de pronúncia dos concorrentes sobre o relatório preliminar. Os passos que se seguem são a aprovação do relatório final, a adjudicação definitiva e a celebração dos contratos.

Contudo, a Pergaminho flash, vai contestar a decisão e pedir ao júri a reanálise do processo. “O resultado final não está naturalmente alinhado com a nossa expectativa”, disse ao JN Rui Marques Santos, após analisar a documentação disponível no portal do concurso, vincando que há “vários itens que merecem contestação jurídica. Assim, a concorrente vai contestar os dois lotes, dispondo de cinco dias para apresentar a sua pronúncia.

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O caderno de encargos dividiu Portugal continental em dois blocos geográficos, já indicados: o Lote 1, com o preço base de 1,7 milhões de euros, para três anos, e o Lote 2, com o preço base de 1,3 milhões de euros, também para três anos.

No Lote 1, a proposta da VASP, de cerca de 1,23 milhões de euros, obteve 65 pontos, ficando à frente da proposta da Pergaminhos flash, de 1,4 milhões euros, pontuada com 59,53 pontos. No Lote 2, a proposta da Pergaminhos flash foi excluída pelo júri, por não assegurar pontos de venda em todos os concelhos abrangidos, requisito obrigatório do concurso, faltando os concelhos de Alcoutim e de Marvão. A VASP ficou, assim, como única concorrente admitida neste lote, com uma proposta na ordem de um milhão de euros.

No conjunto dos dois lotes, a proposta da VASP totaliza cerca de 2,29 milhões de euros para três anos (cerca de 763 mil euros, por ano), menos de cerca de 712 mil euros do que o preço base global de três milhões euros, uma poupança de cerca de 24% para o Estado.

O contrato definitivo obrigará o operador vencedor a garantir, no mínimo, um ponto de venda ativo por cada concelho do continente, a assegurar o transporte totalmente não discriminatório de todos os títulos concorrentes e a submeter relatórios mensais detalhados de vendas e custos à fiscalização do Estado.

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A questão vem de longe. Marco Galinha, presidente do Conselho de Administração da VASP, a 20 de janeiro – falando na comissão parlamentar de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto, no âmbito da audição da administração da VASP, a requerimento do grupo parlamentar do partido do Chega sobre a anunciada suspensão, no mês anterior, da distribuição de imprensa, em oito distritos do interior do país –, afirmou que a empresa estava na iminência de cortar rotas, por não ser viável distribuir jornais no interior, pois, como alegou, não consegue suportar resultados negativos recorrentes, no interior do país, mas que está ao lado dos editores e preocupada com as pessoas lá residentes.

Por sua vez, o administrador da VASP, Rui Moura, sublinhou que a empresa “sempre falou com todos os grupos parlamentares” e que se reunira, “há 10 dias”, com a Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP). Mais referiu que os custos têm sido absorvidos pela VASP, mas que, “desde 2019”, não é viável distribuir jornais no interior do país.

Marco Galinha lamentou a “insensibilidade” existente para a atual situação e observou que a VASP é “um monopólio natural”, porque todos os concorrentes faliram. “Se vier outra empresa duplica os custos e torna mais inviável a operação”, salientou.

Recordou que ficou “muito satisfeito”, quando o governo, em outubro de 2024, anunciou o PACS, com medidas fundamentais para as pessoas comprarem jornais. Disse ter havido “várias reuniões”, nomeadamente, com o ministro da tutela de então, Pedro Duarte, que prometeu lançar o concurso, em sete semanas, mas “o governo caiu e as coisas voltaram à estaca zero”.

Marco Galinha referiu que a subida do salário mínimo, que tem um impacto de quase um milhão de euros, por ano, na VASP, e o fim do grupo Trust in News (TiN) são dois fatores que afetam o negócio. Por outro lado, na sua ótica, a distribuição “é um negócio que está a sofrer uma transformação” e que a inteligência artificial (IA) não é tudo.

Paulo Ribeiro, vice-presidente da Associação Portuguesa de Imprensa (APImprensa), sustentou, na mesma audição, que o digital não substitui o papel e que a entidade ainda não recebeu qualquer informação sobre como o governo vai resolver o problema da distribuição dos jornais. Porém, na sua intervenção, considerou “fundamental”, para a coesão territorial, levar a imprensa a territórios de baixa densidade e enfatizou o papel da associação na capacitação dos editores para que possam fazer essa transformação. “A questão está no modelo de negócio e a proliferação gratuita” das publicações, apontou.

Questionado pelo Livre sobre se receberam informação do governo, no atinente à questão da distribuição, o responsável da APImprensa disse que não. “Não recebemos ainda do governo qualquer informação respeitante de como vai resolver o problema da distribuição” e “os CTT não resolvem o problema da distribuição”, sublinhou, explicitando: “Temos vindo aqui a alertar que o modelo de distribuição dos correios” tem tido impacto no setor e que o serviço postal universal (SPU) “não está a ser assegurado, o que leva à deterioração do negócio e à perda de assinantes”, por não receberem a horas.

Em resposta ao Chega sobre o PACS, o responsável destacou uma medida “bem feita” e que foi logo aplicada, que é o aumento do porte pago. Depois, falou de “uma medida importante”, que não foi tomada: os jornais e revistas estarem no Plano Nacional de Leitura, pois, na sua perspetiva, se tal entrasse nas escolas, seria uma outra forma de começar a haver um novo consumo de imprensa. E, por fim, disse que a APImprensa defende que todos os apoios “devem fazer feitos por via indireta”.

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Em dezembro de 2025, Joaquim Brigas, Presidente do Instituto Politécnico da Guarda (IPG), afirmou que a iminência de oito distritos do interior ficarem sem distribuição de jornais e revistas, a partir de 2026, era um sinal político preocupante. Trata-se de um problema mais simbólico do que estrutural, mas que não é menos relevante. Como sabem os diretores da imprensa que assinaram a carta aberta “Em defesa da imprensa, alerta à democracia”, a migração de leitores do suporte impresso para o digital é estrutural e inevitável. Todavia, este é mais um sinal da marginalização progressiva a que, nas últimas décadas, têm sido sujeitos os territórios periféricos. Embora seja fenómeno europeu e norte-americano, em Portugal tem expressão particularmente grave. Por exemplo, o centralismo estatal e a macrocefalia das grandes cidades espanholas são muito menores do que em Portugal.

Mais do que o acesso à informação – que a digitalização tende a resolver –, o desaparecimento dos jornais impressos alimenta a “geografia do descontentamento” e causa danos reais à democracia e à coesão territorial. E, na ótica do líder do IPG, “deixar regiões para trás tem consequências políticas profundas e representa um risco sério para a democracia.

E, citando José Manuel Ribeiro, ex-presidente da delegação portuguesa no Comité Europeu das Regiões, diz: “A ‘geografia do descontentamento’ revela que áreas economicamente estagnadas se tornam focos de voto antissistema [e] a erosão da confiança nas instituições democráticas ocorre precisamente nos territórios onde as pessoas sentem que foram esquecidas.”

Ora, segundo Joaquim Brigas, para combater este sentimento de abandono, que redunda em radicalização política e em rejeição das elites, é relevante manter a distribuição de jornais impressos no interior; e, como sucede com o porte pago da imprensa regional, o governo pode criar um subsídio que assegure a entrega de jornais nacionais em todos os concelhos. Contudo, em seu entender, tal subsídio não deve ser entregue, exclusivamente, à VASP, o único operador de distribuição de imprensa, mas deve ser aberto, de forma concorrencial, às cadeias da grande distribuição que dispõem de redes logísticas com cobertura nacional, que operam em quase todos os municípios.

Assim, “com o estímulo certo, e sem beneficiar, indevidamente, qualquer operador, será possível garantir a chegada da imprensa a todo o país. […] Será necessário pouco dinheiro, uma vez que a procura por jornais e revistas impressos é hoje reduzida. Mas fará toda a diferença, para a coesão territorial e para a qualidade da nossa democracia”, observou.

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Também em dezembro, Cláudia Maia, presidente da APImprensa criticou, em entrevista à Lusa, as “máquinas de comunicação das autarquias” – melhores do que algumas equipas de jornais –, que contribuem para uma comunicação não escrutinada.

Frisando que uma das propostas da associação ao governo é a promoção da literacia mediática, através da compra de jornais, em bibliotecas, espaços públicos, lojas do cidadão e escolas”, observou que, “para algumas autarquias interessa que não haja jornais, são municípios que têm máquinas de comunicação muito fortes, às vezes máquinas de comunicação muito melhores do que as equipas dos jornais”. Tais autarquias “comunicam o que querem, sem filtros, sem escrutínio e, portanto, interessa, às vezes, que não haja a distribuição de jornais.”

Quando foi apresentado, em outubro de 2024, o PACS, havia quatro concelhos que não estavam a receber publicações periódicas. Porém, após uma negociação, em 2024, e um apoio do anterior governo para que houvesse distribuição de jornais, nestes locais, dois deles não estavam interessados e, à data, ainda não tinham pontos de venda.

Para a entrevistada, em causa está comunicação não escrutinada, pois as ferramentas de comunicação dos municípios têm orçamentos e recursos superiores aos dos jornais regionais, substituindo a função da imprensa local. Porém, as estratégias de comunicação das câmaras municipais não cumprem a obrigação de publicitar as deliberações e medidas, na imprensa regional, e ocultam ou retêm informação para a utilizarem nas suas publicações institucionais e difundir conteúdos não sujeitos a escrutínio jornalístico. Isso prejudica o direito do cidadão a receber informação plural e verificada e põe em causa, em último grau, o direito à liberdade de imprensa dos cidadãos destas comunidades.

Numa perspetiva para 2026, Cláudia Maia considera que o desafio para os media “se resume a uma palavra: sustentabilidade”. É claro que, “sem sustentabilidade, não há jornais; [e], sem jornais, não há democracia”, sentenciou.

Na entrevista, Cláudia Maia alertou que a VASP, responsável pela distribuição de jornais, tem de ter rotas que não podem dar prejuízo, incentivando ao aumento da concorrência. Ora, a empresa informara, a 4 de dezembro, que estava a avaliar a necessidade de ajustamentos na distribuição diária de jornais, nos oito distritos já referidos. A isto, Cláudia Maia responde que, se tal decisão avançar, “é muito grave, porque, se um jornal diário não chega, todos os dias, o leitor acaba por perder interesse na subscrição e não tem informação atualizada”.

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A VASP – que diz ter “assumido e garantido, com elevado sentido de responsabilidade e em condições de igualdade, o acesso de todos os cidadãos à imprensa escrita e ao bem público fundamental que é a informação” – manifestou, a 17 de março, preocupação com a proposta do governo sobre a distribuição de imprensa, vincando que tem o potencial de gerar efeitos contrários aos pretendidos, ao fragmentar um sistema logístico nacional. Porém, disse que prosseguirá com “esta missão, não obstante os custos que, com total transparência, tem dado a conhecer às entidades públicas e governamentais com intervenção e responsabilidades nesta área, que, no passado, reputaram esta prestação como serviço público”.

A VASP sustenta que “opera sob um conjunto de condições e obrigações, no âmbito da sua atividade regulada pela Autoridade da Concorrência, e através da supervisão de um mandatário de monitorização, tendo sempre pautado a sua atuação por princípios de rigor, transparência e colaboração institucional”. E enfatiza que é “um sistema logístico complexo que funciona diariamente”, envolvendo “recolha nas gráficas, reparte, expedição, transporte noturno, distribuição capilar no território, recolha e controlo de sobras e gestão, faturação e cobrança de milhares de pontos de venda, bem como o pagamento a editores”.

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Agora, é de perguntar: “O concurso contribuirá para maior coesão territorial e para melhor democracia?”

2026.08.23 – Louro de Carvalho


sábado, 22 de agosto de 2026

Vestígios das guerras mundiais: uns ameaçadores, outros peças de museu

 

Nos últimos meses, incêndios florestais devastadores vêm consumindo vastas áreas do oeste da Europa, com o continente a enfrentar temperaturas escaldantes e secas, e os bombeiros a encararem a ameaça adicional, potencialmente mortal, de projéteis que explodem. São bombas enterradas e não detonadas das I e II Guerras Mundiais, tendo-se registado explosões na França, na Alemanha, na Bélgica e nos Países Baixos. E há rios que recuam e mostram navios de guerra, uma moto da Wehrmacht (tropas nazis) e uma bomba.  

Sarah Njeri, especialista em paz e conflitos na School of Oriental and African Studies, em Londres, afirmou que “as alterações climáticas estão, agora, a fazer o trabalho de desenterrar e reativar aquilo que antes era estável”.

Tudo isto é relatado em artigos de Nathan Rennolds e de Nela Heidner, respetivamente, sob os títulos “Europa: fogos devastadores revelam ameaça de bombas enterradas da I e II Guerras Mundiais”, de 22 de agosto, e “Restos de dois soldados da Wehrmacht na Danúbio: um serviu na Waffen-SS”, de 12 de agosto, publicados pela Euronews.

Nathan Rennolds refere que “um incêndio perto da cidade de Bordéus, no sudoeste de França, revelou um conjunto de munições que se acredita serem da época da II Guerra Mundial, enquanto, na província de Liège, no leste da Bélgica, o governador local, Hervé Jamar, afirmou que os serviços de emergência se estão a adaptar para terem em conta munições enterradas na área do incêndio”, que “foram ouvidas algumas detonações esporádicas”, recentemente, e que nenhuma equipa de bombeiros corria perigo, mas os media locais publicaram fotos de um bombeiro manuseando uma bomba enferrujada.

Liège foi palco de intenso incêndio na área de High Fens, que se estende para lá da fronteira com a Alemanha. Ora a Batalha das Ardenas, um dos combates mais sangrentos da II Guerra Mundial, travou-se em High Fens e arredores. As forças alemãs lançaram grande ofensiva contra as tropas aliadas, na região, a 16 de dezembro de 1944, obtendo sucesso inicial, ao apanharem os militares norte-americanos de surpresa. Porém, o ataque esmoreceu, no final do mês, à medida que chegavam reforços aliados e os recursos alemães se esgotavam.

Igualmente, as secas, na Europa, têm trazido à superfície viaturas militares e armas da época, com rios em retração a revelarem navios de guerra alemães, uma moto da Wehrmacht e uma bomba. Christina Greene, investigadora na Universidade do Arizona, afirmou que “o legado da guerra continua a voltar à superfície”, devido às alterações climáticas, e acrescentou: “Estamos a reviver os legados de guerra e conflito de uma forma com que, há muito, não tínhamos de lidar em determinados locais.”

Tais bombas e minas enferrujadas põem em risco as equipas de combate a incêndios, pois alguns desses dispositivos detonaram, em virtude do calor intenso. Por isso, uma equipa de desativação de explosivos foi mobilizada para vasculhar uma floresta ameaçada pelas chamas perto dum local de intensos combates na província de Limburg, em 1944.

Impulsionados pelas mudanças climáticas, os incêndios e as explosões mostram que a “sorte climática do continente se está a esgotar. Antes, as temperaturas estáveis ​​e as chuvas previsíveis garantiam que a maioria das munições enterradas estivesse inativa. Agora, as alterações climáticas desenterram e reativam o que, antes, era estável. Os incêndios podem acender munições antigas ou queimar a vegetação rasteira e os arbustos que as escondem.

Segundo um estudo publicado, em julho, pelo grupo World Weather Attribution, esta temporada de incêndios florestais foi exacerbada pelas chuvas de janeiro, que favoreceram o crescimento de vegetação que tornou combustível para as chamas, no verão. As altas temperaturas, combinadas com a seca, a baixa humidade e os ventos fortes, geraram o ambiente ideal para incêndios. À medida que avançavam, as chamas espalharam-se por territórios onde havia munições não detonadas, um legado mortal que persistiu além do silêncio das armas.

Numa floresta seca e ressequida da França, um grande incêndio florestal nos arredores da cidade de Bordéus, no sudoeste do país, revelou um depósito do que se acredita ser munição da II Guerra Mundial, durante a qual armadilhas, bombas e minas foram espalhadas pela densa floresta de turfa da província, conhecida como Fagnes Heights. Nos primeiros quatro anos após a rendição da Alemanha, em 1945, as munições mataram seis civis, explicou Bernard Collard, historiador local e diretor do Museu Truschbaum, perto da fronteira entre a Bélgica e a Alemanha, que abriga uma coleção de artefactos de guerra, advertindo que, quando se entra numa floresta como aquela, não sabe onde estão os explosivos, e dizendo que se lembra de o seu pai ter detonado uma bomba que encontrou numa pedreira.

O incêndio nas Colinas de Fagnes e arredores, que ultrapassou a fronteira para o território alemão, alastrou sobre um campo de batalha (o das Ardenas) que foi palco de sangrentos combates entre os nazistas e as tropas aliadas e chegou perto do local de duas escaramuças menos conhecidas ao longo da crista de Elsenborn e na Floresta de Hürtgen, que duraram 88 dias e de resultou a morte de cerca de 33 mil soldados americanos e 28 mil alemães.

Bernard Collard está autorizado a usar um detetor de metais para procurar nos antigos campos de batalha, agora florestas, pastagens e terrenos agrícolas. Já encontrou projéteis de morteiro, metralhadoras, capacetes, caixas de cigarros e um esqueleto humano. “Nunca se sabe o que se pode encontrar, e não é algo a ser encarado de ânimo leve”, alertou ele, de pé num local que outrora foi palco de um banho de sangue. Nas proximidades, arbustos de mirtilo cobrem antigas trincheiras, valas e crateras profundas causadas por disparos de artilharia.

O historiador trabalha, frequentemente, com a equipa belga de retirada de minas, convivendo bem com isso, pois faz parte da História do país. E, em cada ano, o Serviço Belga de Desativação e Destruição de Artefactos Explosivos atende a mais de três mil solicitações, na Bélgica, e desativa entre 200 e 250 toneladas de munições das duas guerras mundiais.

Porém, os incêndios não são a única ameaça. Também a seca ajuda a revelar o passado: a queda no fluxo dos rios e nos níveis dos lagos expôs a presença de armas antigas. Na Eslováquia, o nível da água do Danúbio recuou, expondo duas minas navais que a polícia retirou da água e enterrou numa vala para detonação controlada. As autoridades húngaras fecharam a Ponte Margarida, em Budapeste, após uma bomba da guerra em causa ser revelada, na sua base, pela água que recuou. E a seca do Reno, mostrou às autoridades alemãs uma bomba da mesma guerra.

Christina Greene, que, juntamente com Sarah Njeri, foi coautora de um artigo sobre incêndios florestais, na Europa, e sobre o risco representado por munições não detonadas, disse que “o legado da guerra continua a ressurgir”, devido às mudanças climáticas, de uma forma com a qual não tivemos que lidar, durante muito tempo, em certos lugares”.

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Em mais de oito décadas, os corpos de dois soldados alemães permaneceram enterrados no lodo do Danúbio. Só o nível excecionalmente baixo do rio, em Budapeste, trouxe à luz a sua história. E, junto aos corpos, foram encontradas chapas de identificação alemãs totalmente intactas. Isso abre uma boa oportunidade de os identificar, mais de 80 anos depois.

A descoberta está ligada a uma DKW NZ 350-1, também em notável bom estado de conservação, localizada no início de agosto na margem do Danúbio, no lado de Buda.

Por baixo da moto ou na sua proximidade imediata, funcionários do Instituto e Museu Húngaro de História Militar encontraram restos humanos. Gábor Kohlrusz, colaborador do Volksbund Deutsche Kriegsgräberfürsorge (comissão alemã de sepulturas de guerra), ou simplesmente, Volksbund, retirou os ossos dos dois homens do leito do rio agora exposto.

Kohlrusz trabalha, na Hungria, como responsável pelas trasladações do Volksbund. Entre as suas tarefas, contam-se a procura, a recuperação e a documentação de mortos de guerra alemães, bem como a recolha de objetos pessoais e de chapas de identificação. E, com historiadores e parceiros locais, contribui para esclarecer a identidade dos soldados caídos e reconstruir destinos de guerra que permaneceram sem resposta, durante décadas.

Durante a II Guerra Mundial, as chapas de identificação dos soldados alemães mortos em combate eram partidas em duas: uma metade permanecia com o corpo, a outra era enviada para o serviço de informações da Wehrmacht, em Berlim, permitindo registar os óbitos e informar os familiares. Como, no caso destes dois homens, ambas as chapas estão intactas, tudo indica que as famílias terão esperado em vão por comunicação oficial.

Além das chapas, encontrou-se uma aliança e um emblema de manga Kuban. Se for atribuído, inequivocamente, o emblema a um dos soldados, fornecerá um dado relevante do seu percurso militar. O Kuban-Schild era concedido a militares alemães destacados, em 1943 (ano da criação do emblema), na cabeça de ponte de Kuban, no sul da União Soviética. E, se se confirmar que um deles o usava, indicará que, já anos antes da morte, servira na Frente Oriental.

Arne Schrader, responsável pelo serviço de sepulturas de guerra e pelas relações internacionais, sabe como é difícil fazer este tipo de correspondência. Para determinar se as duas chapas de identificação pertencem aos corpos encontrados, são necessárias várias análises. Os nomes dos titulares originais podem ser identificados relativamente depressa, mas isso não basta para esclarecer, por completo, a identidade. O ponto de partida é o exame rigoroso dos restos mortais. Desde logo, o comprimento de determinados ossos pode fornecer pistas sobre a estatura da pessoa. Para isso, recorre-se, se possível, a vários ossos, como tíbias e fémures. Dos diferentes dados recolhidos resulta, gradualmente, um quadro que pode ser comparado com as informações conhecidas sobre os possíveis titulares das chapas de identificação.

Para estimar a idade dos soldados, há diversos indicadores anatómicos que permitem avaliar, com grande probabilidade, se um osso pertence a alguém com menos de 20 anos, entre 20 e 25 anos, ou a pessoa mais velha, até mais de 40 anos. No caso, desconhece-se a idade dos dois soldados. O exame antropológico dos restos mortais deverá, entre outros aspetos, recorrer a ossos, epífises e dentes do siso, para determinar a sua idade aproximada.

Uma das chapas recuperadas no Danúbio pertencia a um soldado da Wehrmacht, a segunda a um membro da Waffen-SS (ramo militar da SS - Schutzstaffel, a organização paramilitar do Partido Nazista), mas é necessário verificar se cada chapa corresponde, efetivamente, a um dos corpos recuperados. Uma eventual identificação preliminar feita pelo Volksbund teria de ser oficialmente confirmada pelo Arquivo Federal alemão.

O local da descoberta situa-se numa zona de acumulação de lodo portuário, misturado com gasóleo. Estas condições terão contribuído para a conservação excecional de partes da moto e das chapas de identificação. E o Volksbund pode cruzar os dados das chapas com documentação militar, com participações de desaparecimento e a com a sua própria “Gräbersuche Online”, base de dados que já reúne cerca de 5,4 milhões de registos.

A moto é uma DKW NZ 350-1, fabricada na Saxónia. Este modelo começou a ser desenvolvido em 1944, para utilização em operações militares. Contudo, ter sido encontrada com os dois corpos não prova que os soldados a utilizavam. Há vários cenários possíveis: os dois podem tê-la conduzido, com um ao volante e o outro como passageiro; a DKW pode ter pertencido a uma unidade, sem ligação direta aos dois militares; e pode ter chegado ao local, após a morte deles, caindo ao Danúbio, durante os combates, ou sido afundada mais tarde.

Nos trabalhos de recuperação, teve de se recorrer ao serviço de desativação de explosivos porque, além de outro material militar, foram descobertas minas anticarro do tipo 35: minas alemãs da II Guerra Mundial. O Instituto Militar Húngaro admite que o local corresponda a uma zona de deposição de material de guerra e de resíduos, criada após o fim do cerco.

Do ponto de vista histórico, é plausível a ligação aos combates pela cidade de Budapeste. Com efeito, a batalha de Budapeste decorreu entre o final de outubro ou o início de novembro de 1944 e 13 de fevereiro de 1945 e foi um dos combates mais sangrentos e militarmente mais intensos da fase final da II Guerra Mundial, na Hungria. A cidade foi defendida por unidades alemãs e húngaras contra o Exército Vermelho soviético e conta as forças romenas. E, após o cerco, no fim de dezembro de 1944, o confronto transformou-se num cerco prolongado, que terminou com a tomada de Budapeste pelas tropas soviéticas, a 13 de fevereiro.

Só futuras investigações poderão confirmar se os dois homens recuperados do Danúbio morreram na batalha de Budapeste. Só se sabe que os seus restos mortais serão depositados no cemitério de guerra de Budaörs. E a descoberta mostra quantos vestígios do passado estarão escondidos nos rios europeus. O Danúbio foi sempre importante via de transporte e comunicação. E o Volksbund admite que, devido ao nível atualmente baixo das águas, possam recuperar-se outros mortos de guerra, a partir de destroços de navios que venham à tona.

A fotografia da moto da Wehrmacht recuperada em Budapeste está a correr mundo: desde a “Times of India” e a “Vietnam.VN” a meios britânicos, como o “Daily Mirror”, até plataformas norte‑americanas, como a Yahoo Autos, todos relatam a descoberta espetacular.  

As DKW NZ 250 e NZ 350 eram especialmente robustas e fiáveis. A partir de 1944 foi lançada a variante NZ 350-1, para o contexto de guerra. O museu húngaro recuperou-a, a 2 de agosto, na praça Batthyány, em frente ao Parlamento. A motocicleta está quase totalmente preservada. Como ficou encharcada de água e de lama, durante a operação de resgate, pesava mais de 200 quilos. Agora, está a ser limpa e conservada no hangar do museu, em Budapeste.

É de referir um detalhe que passa facilmente despercebido: na parte traseira do quadro existia uma espécie de aleta ou raspador de lama e neve, para impedir que a lama e a neve se acumulassem no pneu e entrassem no sistema de transmissão. Igualmente, sobressai o bloco do motor em ferro fundido cinzento, uma liga de ferro fundido com elevado teor de grafite. Uma das razões era a escassez de alumínio provocada pela guerra. Contudo, não é ainda possível datar o exemplar concreto, com dia ou com mês de produção.

Nos últimos dias, além da moto, foram encontrados no leito seco do Danúbio componentes do equipamento original, entre eles um jerricã de combustível, um arnês em Y e um porta-baioneta. O arnês em Y era um sistema de tiras de couro que se usava sobre os ombros e se ligava à frente e atrás a outras correias, para fixar equipamento ao corpo, como sacos de pão, bolsas de munições ou cantis (a designação “Y” deriva da forma das tiras sobre os ombros”. E o porta-baioneta é o suporte da baioneta, fixado ao cinto ou ao equipamento, ou seja, é aí que a baioneta é transportada quando não está montada na espingarda.

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As alterações climáticas revelam que alguns vestígios das Grandes Guerras são perigosos, mas que todos eles têm interesse histórico, a nível humano e a nível técnico-científico.

2026.08.22 – Louro de Carvalho