quarta-feira, 15 de julho de 2026

Metade dos incendiários padece de distúrbios psicológicos

 

Avelino Lima, que lidera a Diretoria do Centro da Polícia Judiciária (PJ), revela, em entrevista ao jornalista do Expresso Hugo Franco, publicada a edição online, a 9 de julho, que metade dos incendiários padece de distúrbios psicológicos e garante que, nas investigações da PJ, os inspetores não têm encontrado “relação entre a autoria dolosa dos incêndios e possíveis interesses económicos”.

A Diretoria do Centro da PJ centraliza as investigações aos incêndios florestais que assolam, em todos os anos, o país. E, para Avelino Lima, líder desta equipa, o perfil de incendiário que mais o preocupa é o do que padece de distúrbios psicológicos. “São pessoas que deviam estar a ser tratadas pela saúde mental. E que acabam por nos provocar enormes problemas”, adianta.

Confrontado com a questão se os diretos televisivos fazem subir o número de incêndios, considera que o espetáculo mediático provoca um “efeito muito grande” nos autores de incêndios florestais, pois muitos incendiários “gostam de ver a sua obra a ser publicitada nas televisões”. Porém, não arrisca dizer que as televisões são responsáveis pelos incêndios, mas sustenta que “este mediatismo não tem ajudado nada a conter algumas iniciativas deste tipo de pessoas” e acusa as televisões do crescendo de colheita e de exibição de “imagens da desgraça, o mais violentas possível, das pessoas que estão ali a ser objeto das chamas e da proximidade das chamas junto das habitações”, considerando que “isto é um negócio para as televisões, que passam horas e horas a dar as mesmas imagens”. Deduz-se, pois, que parece haver, em sua tácita opinião, certa cumplicidade, não propositada, entre as televisões e o incendiarismo.

Sobre o hipotético crescimento da sofisticação dos incendiários, pensa que, “historicamente, não temos tido grandes profissionais dos incêndios”. Contudo, menciona o caso, “fora do comum”, de um engenheiro da Zona Centro, que está a cumprir a pena mais elevada em Portugal, de 25 anos, agora, de 23, por decisão do Supremo Tribunal de Justiça (STJ). De resto, apontas “as franjas mais débeis da nossa sociedade”, como “pessoas do interior muito isolado, com fragilidades sociais, económicas e algumas debilidades mentais”. Depois, fala em episódios de “um ou outro indivíduo que tem uma tendência para atear fogos” e de “alguns indivíduos que já percebem um bocado da teoria do fogo: como se projeta, como se alastra, que usam retardantes para poderem ter tempo para se afastarem”.

Este último grupo é mais preocupante, na ótica de Lima, porque se trata de pessoas que não ateiam apenas um incêndio e, embora não sejam muitos casos, “têm crescido, nos últimos anos”.

Quanto à suposição de Luís Neves, ministro da Administração Interna e ex-diretor nacional da PJ, da existência de mão criminosa num incêndio de grandes proporções que terá sido ateado durante a noite, em Vouzela, o diretor do Centro da PJ, teceu o seguinte comentário: “Parece-me pacífico que alguma intervenção humana terá ocorrido, não acredito na espontaneidade do incêndio. A investigação está no terreno, para determinar as causas.”

Questionado pelo jornalista sobre se estes incendiários ateiam o fogo de noite, por ser mais difícil serem detetados, Avelino Lima desenvolve que tem havido “muitas combustões cujo alerta é dado à noite”, visto que, “por norma, é propício haver ventos”, “muito do calor que está ainda no subsolo pode extravasar por outras áreas e reinicia-se uma combustão”. Por isso, adverte que “nem sempre o facto de ser de noite significa que haja uma autoria intencional para prática do crime”. E, cautelosamente, observa que, “por vezes, de noite, também acontecem acidentes”, que já houve “incêndios que se iniciaram através de veículos, com a faísca de travagens, com peças sobreaquecidas que se soltam dos carros”, que “houve, recentemente, um incêndio em que a combustão começou com uma ave que foi carbonizada num poste de alta tensão” e que os maiores incêndios de 2025 se deram “por causas naturais”.

Quanto às investigações abertas, neste ano, pela PJ, por suspeita de crimes de incêndio florestal, referiu estarem abertos 316 inquéritos, mas que é difícil comparar com o período homólogo de anos anteriores”, pelo que “é preferível esperar com calma e ter os números completos”. E, no atinente aos perfis de suspeitos destes crimes, a PJ fala de “uma ferramenta com o número de pessoas que foram detidas e [com] o perfil psicológico do incendiário florestal, construída a partir de 2015”, sendo, no total, um número muito próximo de mil.

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Em 15 de agosto de 2024, Hugo Franco escrevia, no Expresso online, que a PJ tinha “uma lista com mais de 800 incendiários” (“um número recorde”) que foram constituídos arguidos ou detidos, o que permitia à PJ “perceber a evolução dos perfis dos suspeitos e as novas tendências deste crime, podendo até antecipar possíveis repetições de fogo posto”.

Dizia o jornalista que fonte policial revelara que “o perfil dos incendiários é hoje bem diferente do do passado recente”: “É cada vez mais raro o fogo ser ateado pelo ‘tolinho’ da aldeia, desinserido socialmente ou com problemas de alcoolismo, que nem se apercebia bem do que fazia.” Por outro lado, como escrevia Hugo Franco, “os casos tornaram-se mais complexos de investigar, porque o crime se tornou mais ‘sofisticado’, muitas vezes, envolvendo engenhos tecnológicos que permitem o retardamento da chama, que, quando deflagra, já o incendiário se encontra longe do local do crime, tornando-se mais difícil de o apanhar”.

Parece que o diretor do Centro da PJ não se cola muito a este discurso.

Entretanto, jornalista sustentava que A PJ se apercebeu de que “muitos destes fogos são espoletados por desavenças criadas e ampliadas nas redes sociais entre vizinhos ou ex-cônjuges e que os suspeitos agem motivados por ‘uma vingança fria’”, tendo a grande maioria dos incendiários “plena consciência do que vai fazer”, sendo “mais organizada, mais elaborada”, e atuando “por mera futilidade”.

Uma das dores de cabeça das autoridades é a repetição do crime de incêndio florestal por pessoas que foram alvo de pena de prisão. Segundo fontes judiciais, até à referida data de 2024, tinham sido detetados casos de fogo posto cometidos por “caras bem conhecidas das autoridades”. Vários estudos mostram que metade dos incendiários detidos é reincidente.

Desde o início de 2024, diz Hugo Franco, a PJ abriu cerca de 650 investigações por estes crimes. O número elevado é inferior ao de 2023. “Houve uma redução significativa das ignições, graças ao trabalho mais ágil e de partilha das informações entre as polícias, a proteção civil e Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas [ICN]”, resumia fonte da PJ.

Depois da pandemia, as autoridades têm intensificado o uso de tecnologia no combate às chamas. Nas zonas onde costumam ser ateados fogos, há câmaras de videovigilância (as autoridades dizem ‘videoproteção’), “para se evitarem repetições” e, todos os dias, são postos drones no ar com a missão de prevenir ou de, pelo menos, detetar, atempadamente, as primeiras chamas. Uma beata de cigarro que terá feito deflagrar um fogo florestal foi alvo de perícias biológicas com meios tecnológicos sofisticados, algo que, há poucos anos, não se fazia.

A investigação criminal considera o “ponto de início” como o momento-chave para se descobrir a autoria destes crimes. Os bombeiros têm, por exemplo, indicações de “não encharcarem de água” a área suspeita de início do incêndio para se preservarem possíveis provas do crime. O incêndio florestal não é “investigação fácil, por causa da erosão dos indícios”, dizia o jornalista, com base em informação policial.

Lembrava Hugo Franco que a Justiça estava a encarar estes crimes com maior dureza. Os serviços prisionais indicavam, em 2024, que havia 69 pessoas a cumprir pena efetiva e em prisão preventiva, ao passo que, em 2013, havia 21 pessoas a cumprir pena por atearem fogos na floresta. E, se no passado recente muitos dos suspeitos de incêndio saíam em liberdade, após o primeiro interrogatório, agora, as medidas de coação, como internamento compulsivo, pulseira eletrónica e prisão domiciliária, são “já cerca de metade” do total, sendo até superiores aos últimos anos, permitindo, segundo a PJ, “melhor qualidade na investigação aos fogos”.

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Voltando à entrevista, é de acentuar que Avelino Lima diz serem “as patologias” o que mais o preocupa, pois trata-se de “pessoas que deviam estar a ser tratadas pela saúde mental, porque muitas delas, não sendo inimputáveis, não deixam de ter um conjunto de patologias ou necessidades saúde, que, sendo graves, acabam por nos provocar enormes problemas”. ​Admite que alguns são pirómanos, pois, “no último ano, 49% dos detidos por crime de incêndio florestal tinha problemas psicológicos, 25% apresentava consumo excessivo de álcool e 6,3% pessoas têm as duas patologias associadas”.

Em relação ao facto de o primeiro-ministro ter apontado o dedo “aos interesses que sobrevoam” os incêndios, o diretor do Centro da PJ sustenta que “não foi muito clara a expressão”. É de recordar que, na noite de 17 de setembro de 2024, o chefe do governo surgiu a culpar “os criminosos” pelo atear dos fogos, a prometer pulso firme para os levar à Justiça e a anunciar a criação de uma “equipa especializada” para trabalhar em articulação com a Procuradoria-Geral da República e com o Ministério da Justiça. E foi taxativo: “Há coincidências a mais”, disse, considerado que há “criminosos” que têm “interesses” nos fogos florestais e é contra esses que o governo tem de ser implacável para os identificar e levar à Justiça.

Todavia, Avelino Lima contrapõe que, nas investigações, a PJ não tem encontrado associação ou relação entre a autoria dolosa dos incêndios e os interesses económicos, até porque “está mais do que documentado que a madeira queimada não tem o mesmo valor económico”.

Por outro lado, como sustenta, “dificilmente, agora, um juiz coloca um destes suspeitos sem estar privado de liberdade. Em 2025, das 94 detenções da autoria da PJ do Centro, cerca de 50 suspeitos ficaram privados de liberdade e 11 a 14 ficaram em prisão domiciliária. Isto é, cerca de 64% ficaram com medidas privativas de liberdade, o que, dificilmente, acontecerá com medidas de coação para suspeitos de outros crimes.

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Mais de 15 mil hectares arderam em Portugal nos primeiros dias de julho, tendo a área ardida duplicado entre os dias 1 e 5, como revelam dados do Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais (SGIFR), que é gerido pela Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais (AGIFR) e, segundo o qual, os 4592 incêndios florestais registados, neste ano, provocaram 30155 há (hectares) de área queimada. Em relação a igual período de 2025, embora tenha diminuído o incendiarismo, a área ardida quase quadruplicou, registando-se, neste ano, a maior desde 2017. O incêndio que deflagrou em Tourelhe, na União das Freguesias de Cambra e Carvalhal de Vermilhas no concelho de Vouzela, a 2 de julho, tornou-se o maior da Europa, neste ano, concentrando 70% de toda a área ardida no continente. Em três dias de calor extremo, o fogo na Beira Alta consumiu 14 mil hectares.

Passei, a 3 de julho, de manhã e à tarde, pela ampla e dispersa zona do incêndio: várias frentes de fogo e fumo, a ameaçar casas, pessoas, animais, culturas e estradas. Segundo os bombeiros, os estímulos eram: vento forte de nordeste (“ventos endiabrados”), temperaturas elevadas e vegetação extremamente seca. Temia-se o comportamento errático do fogo e a mudança do vento. Eram permanentes a incerteza e a vigilância e intenso o combate, com o apoio das populações. Porém, a orografia dificultava o combate ao fogo. E, face ao agravamento das condições meteorológicas, o governo declarou Situação de Alerta para o território continental até dia 6, restringindo a atividade suscetível de provocar incêndios.

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Os incêndios rurais (fenómenos de deflagração ou progressão do fogo, não planeada ou não controlada, em território rural) são um dos principais obstáculos à sustentabilidade da floresta e dos ecossistemas associados, causando a sua degradação e o desequilíbrio no prover de bens e serviços, quer de natureza económica e social, quer de natureza ambiental.

Segundo o ICN, a área total ardida, anualmente, apresenta grande variabilidade, conexa com a severidade meteorológica, tendo sido observados valores máximos, nos anos de 2017, de 2003 e de 2005. O número de ocorrências (fogachos e incêndios rurais) revela tendência de diminuição, desde 2006. A base de dados nacional de incêndios rurais, para 2024, regista 6255 incêndios rurais de que resultaram 137651 ha de área ardida, entre povoamentos florestais (82009 ha), matos e pastagens naturais (46089 ha) e áreas agrícolas (9553 ha).

O ano de 2024 registou o valor mais reduzido do número de incêndios e o 3.º valor mais elevado de área ardida da década 2014-2023. Observando a distribuição da área ardida, por tipo de ocupação do solo, verifica-se que, entre 1995 e 2024, os incêndios consumiram, maioritariamente, povoamentos florestais, áreas de matos e pastagens naturais. E, no decénio de 2015-2024, ocorreram, em média, 12183 incêndios rurais, por ano, com a área ardida média, por ano, de 123938 ha, sendo 67054 ha (54%) de povoamentos florestais, 47847 ha (39%) de matos e pastagens naturais e 9037 ha (7%) de áreas agrícolas.

O pinheiro-bravo e o eucalipto foram as espécies mais afetadas, correspondendo a 85% da área ardida. Esta situação contribuiu para a forte redução da área de pinheiro-bravo (menos 265 mil hectares do que entre 1995 e 2015) e para o aumento da área de matos.

Em 2024, os distritos que registaram maior número de incêndios, por ordem decrescente, foram o do Porto (1376), o de Braga (650) e o de Viana do Castelo (626). O mais afetado, no atinente à área ardida, foi o de Viseu, com 49931 ha, seguido do de Aveiro, com 27006 ha, e do do Porto, com 19703 ha, representando, respetivamente, 36%, 20% e 14% da área ardida.

Do total de 6255 incêndios rurais que ocorreram em 2024, foram investigados 6164 e têm o processo de averiguação de causas concluído (99% do número total de incêndios, responsáveis por 89% da área ardida). Destes, a investigação levou à atribuição de causa para 4354 incêndios (71% dos incêndios investigados, responsáveis por 80% da área ardida).

Em 2024, as causas de incêndio mais frequentes foram o “incendiarismo – imputáveis” (34%) e o “uso do fogo” (32%), sendo que nesta última se destacam as “queimadas de sobrantes florestais ou agrícolas” (13%). Os reacendimentos representam 9% do total das causas.

Em 2024, setembro foi o mês que registou maior número de incêndios rurais, com 1773 incêndios (28% do número total do ano), e o que apresentou a maior área ardida, com o total de 126839 ha, o que corresponde a 92% do total de área ardida registado no ano.

Tendo em conta a cartografia de áreas ardidas, de 2024, na Rede Nacional de Áreas Protegidas (RNAP) arderam 3572 ha de espaços rurais, o que corresponde a cerca de 0,5% da totalidade da RNAP. Destaca-se a Paisagem Protegida Regional Parque das Serras do Porto, pela maior extensão de área ardida, com 2011 há (56% da área total ardida na RNAP.

A área ardida média anual (75557 ha) ultrapassa os valores médios admissíveis para 2020-2030 (60 mil hectares); a percentagem de incêndios com mais de 500 ha (0,56%, em 2024) ultrapassa o valor estabelecido para a meta definida (0,3%); e a área ardida está a aumentar.

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São muitas as causas dos incêndios, mas não são descartáveis, à partida, questões atinentes a negócios, de forma explícita ou implícita. Há demasiadas coincidências. E uma investigação deve considerar todas as hipóteses.

2026.07.15 – Louro de Carvalho

terça-feira, 14 de julho de 2026

Fátima propõe uma inteligência do coração

 

A Academia de Estudos do Santuário de Fátima (AESF), que organiza os Cursos de Verão Santuário de Fátima, escolheu, para 11.ª edição, que se desenvolveu, de 1 a 3 de julho, no Centro Pastoral Paulo VI, o tema “Fátima depois de outubro de 1917: o ciclo cordimariano”.

Marco Daniel Duarte, diretor da AESF e coordenador do curso, na sinopse de apresentação, explica: “No ano em que se celebra o centenário das aparições de Pontevedra (1925 e 1926), o Santuário de Fátima […] dedica o Curso de Verão a aprofundar o conhecimento sobre esta temática. Com recurso a abordagens científicas multidisciplinares, asseguradas por investigadores de diferentes academias, será analisado o contexto histórico, espiritual e religioso contemporâneo, as devoções ao Sagrado Coração de Jesus e ao Imaculado Coração de Maria, a narrativa dos ciclos angélico, mariano e cordimariano e outros conteúdos da Mensagem de Fátima, como o Imaculado Coração e a devoção dos Cinco Primeiros Sábados. No curso estará ainda presente a dimensão artística relacionada com a iconografia do Imaculado Coração de Maria.”

Uma vista de olhos pelo programa, vê a agenda do dia 1 de julho, com os seguintes subtemas: “Portugal e o mundo no(s) século(s) de Fátima”, por Teresa Maria e Sousa Nunes, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FL-UL); “Espiritualidades quentes num mundo frio: os Corações de Jesus e de Maria”, por José Eduardo Franco, da Universidade Aberta (UA); “As mariofanias segundo o magistério da Igreja”, por Tiago Freitas, da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa (FT-UCP); “Ciclo angélico: as visões do Anjo da Paz, da Pátria e da Eucaristia”, pelo bispo D. Alexandre Palma, da FT-UCP; “Roteiro do Imaculado Coração de Maria no Santuário de Fátima”: visita guiada por Marco Daniel Duarte, do Museu do Santuário de Fátima; e Visita temática à exposição “Refúgio e Caminho: exposição comemorativa do centenário das aparições de Nossa Senhora de Fátima em Pontevedra”, na galeria de exposições temporárias do Museu do Santuário de Fátima (piso inferior da Basílica da Santíssima Trindade).

No dia 2, os temas em agenda eram: “Ciclo mariano: as visões da Senhora mais brilhante que o sol”, por Luís Miguel Ferraz, da AESF; “O Imaculado Coração de Maria nas aparições de Fátima, pelo padre Carlos Cabecinhas, reitor do Santuário de Fátima; “Lúcia no Instituto de Santa Doroteia (Porto, Pontevedra, Tui e Gaia)”, por Marco Daniel Duarte, da AESF; “Fontes e narrativa das aparições de Pontevedra (10 de dezembro de 1925 e 15 de fevereiro de 1926)”, por Sónia Vazão, da AESF; e Apresentação do livro “As Aparições de Fátima no jornal O Mensageiro (1917–1927): história e teologia do seu impacto para a revitalização do catolicismo no contexto da I República e da I Guerra Mundial”, da autoria de Luís Miguel Ferraz, por  Paulo Fontes, do Centro de Estudos de História Religiosa (CEHR) da UCP.

Para o dia 3, os temas em agenda eram:Iconografia do Imaculado Coração de Maria: tradução artística da espiritualidade cordial de Fátima”, por Marco Daniel Duarte, do Museu do Santuário de Fátima; “A reparação na Mensagem de Fátima”, por da Teresa Messias, FT-UCP; “A linguagem da pedagogia: os preceitos dos Cinco Primeiros Sábados [aula de campo na exposição Refúgio e Caminho], por Marco Daniel Duarte, já referido; e “A linguagem da pedagogia: as razões de serem cinco os Primeiros Sábados [aula de campo na exposição Refúgio e Caminho], por Marco Daniel Duarte, já referido.  

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A AESF propôs que a edição deste ano dos Curso de Verão, que juntou cerca da dezena de investigadores e mais da centena de participantes, decorresse sob a perspetiva de, em tempo de inteligência artificial (IA), se promover uma interpretação e um entendimento do Mundo à luz de uma “inteligência cordial”. O mote, lançado na sessão de abertura, dissipou as interrogações que o tema desta edição pudesse ter gerado. Afinal, do que se fala, quando o diálogo se desenrola em torno desta invulgar palavra: “cordimariano”?

A abrir os Cursos de Verão, que se realizaram com o tema “Fátima depois de outubro de 1917: o ciclo cordimariano”, Marco Daniel Duarte, coordenador da formação, colocou Fátima em diálogo direto com o presente. Na verdade, na ótica do orador, em tempos de IA, Fátima propõe uma inteligência cordial”, uma forma de ler o Mundo que não parte apenas da razão, mas, sobretudo, do coração. É essa “inteligência que vem do coração” que atravessou o programa do curso e ajudou a compreender por que razão o episódio de Fátima não se esgota nos acontecimentos de 1917, prolongando-se em ciclos sucessivos, com impacto nos dias de hoje.

Marco Daniel Duarte recordou que a ideia de “inteligência cordial” encontra reflexo nas recentes palavras do Papa Leão XIV, cuja primeira encíclica, a Magnifica Humanitas, repete, por dezenas de vezes, a palavra “coração”. Em particular, preocupa o Santo Padre que o crescimento da técnica leve a Humanidade a perder a sua beleza e que o Mundo deixe de reconhecer no coração humano “o lugar onde Deus deseja habitar”. E, na linha de Leão XIV, reiterou que também Fátima propõe essa inteligência, que nasce da afetividade, e não apenas da razão.

Esta linha de pensamento foi particularmente aprofundada pelo investigador José Eduardo Franco, ao trazer aos Cursos de Verão o tema “Espiritualidades quentes num mundo frio: os corações de Jesus e de Maria”. 

José Eduardo Franco defende que existem, ao longo da História do Cristianismo, duas correntes de espiritualidade: as frias, racionalistas e distanciadoras entre o Homem e Deus; e, em contraste, as quentes, afetivas e centradas na proximidade e na misericórdia divinas. É nesta segunda família que se inserem o que designa de “espiritualidades sinedocais”, na medida em que tomam uma parte pelo todo, ou seja, uma parte do corpo de Cristo para significar o todo do mistério cristão. É aqui que o historiador enquadra a devoção aos Sagrados Corações de Jesus e de Maria e, por extensão, mensagem de Fátima.

A espiritualidade “cordial” nasceu contra as correntes racionalistas e severas que emergiram a partir do Renascimento e da Reforma. O Calvinismo e o Jansenismo punham Deus numa posição distante e viam a religião pelo prisma de rigor moral e da desconfiança, face às emoções. Contra esse pano de fundo, autores, como Santo Agostinho, Santo Inácio de Loyola, São João Eudes, entre outros, foram, ao longo dos séculos, desenvolvendo a teologia do coração, como símbolo do amor, da interioridade e do encontro entre o Homem e Deus.

O historiador percorreu os marcos históricos que conduziram ao século XIX, “século do coração de Jesus”, até indicar Fátima como “ponto de chegada” do longo processo que associa a espiritualidade dos corações de Jesus e de Maria; o Santuário enquadra-se na História florescente da espiritualidade dos corações, que a legitima e lhe dá projeção mundial, no dealbar do século XX; e a espiritualidade cordimariana – devoção ao Coração de Maria – ganha, em Fátima, interiorização profunda e assume, definitivamente, dimensão eclesial e global.

Fátima não criou esta devoção, mas foi decisiva para a transformar numa espiritualidade de alcance universal. A ideia foi reforçada pelo reitor do Santuário de Fátima, padre Carlos Cabecinhas, que defendeu que, embora a devoção já existisse, foi em Fátima que adquiriu um protagonismo inédito e passou a ocupar um lugar central na vida da Igreja.

Recorrendo aos estudos e a citações dos mariólogos Joaquim Maria Alonso e Stefano De Fiores, o reitor lembrou que o Imaculado Coração de Maria constitui “a alma da mensagem de Fátima” e o seu “fio condutor”. Desde as aparições do Anjo, em que o coração de Maria vem associado ao Sagrado Coração de Jesus, até às aparições na Cova da Iria e na Galiza, surge a espiritualidade cordimariana como via privilegiada para conduzir os crentes até Deus.

Carlos Cabecinhas pôs em relevo o papel das aparições de Pontevedra, em 1925 e 1926, e de Tui, em 1929, só com Lúcia de Jesus, na concretização prática desta devoção, nomeadamente, através da ação reparadora dos primeiros sábados. E, recordando o testemunho de vida dos Pastorinhos, sublinhou que, mais do que elaborações teológicas, Francisco, Jacinta e Lúcia encarnaram esta devoção, de forma afetiva e existencial. Lúcia dedicou toda a sua vida religiosa à missão de dar a conhecer esta devoção e de a transmitir à hierarquia da Igreja: “Foi incansável no cumprimento desta missão, ao longo da sua vida, procurando, por todos os meios ao seu alcance, divulgar os pedidos do Céu”, lembrou.

O reitor salienta que a influência de Fátima ultrapassou o âmbito devocional, ao contribuir, de forma decisiva, para a integração da memória litúrgica do Imaculado Coração de Maria no calendário universal da Igreja. Segundo explicou, foi a projeção mundial da mensagem de Fátima que permitiu que a celebração, até então, circunscrita a determinadas dioceses e congregações religiosas, passasse a fazer parte da vida litúrgica de toda a Igreja. Em 1996, a celebração foi elevada à categoria de memória obrigatória, decisão para a qual, em seu entender, “as aparições de Fátima tiveram direta e clara influência”.

Sobre a promessa de Nossa Senhora, na segunda parte do segredo de Fátima, “por fim, o meu Imaculado Coração triunfará”, o padre Carlos Cabecinhas reconhece o caráter aparentemente contraditório da expressão. Habitualmente, o triunfo associa-se à vitória dos fortes, ao êxito dos vencedores, ao poder de quem se impõe aos outros. Ao invés, o coração remete para a fragilidade. Porém, considera que é, precisamente, aquela leitura que importa evitar. O triunfo do Imaculado Coração de Maria não corresponde à lógica dos vencedores da História. Não se trata da vitória do guerreiro, do chefe, do herói. Basta recordar a forma como Nossa Senhora apresenta o seu coração, em Fátima, cravado de espinhos, em sinal de dor e de sofrimento.

Ao mesmo tempo, a promessa interpela a liberdade de cada pessoa. O triunfo do Imaculado Coração realiza-se sempre que alguém escolhe o bem, acolhe a vontade de Deus e responde ao seu chamamento, seguindo o exemplo de Maria. Nesse sentido, não corresponde a acontecimento espetacular nem a demonstração de poder. É a manifestação silenciosa da ação de Deus na História e na vida das pessoas: “É um triunfo que não se mede pela lógica do domínio do poder, mas pela lógica do amor, do serviço e da oferta da própria vida”, concluiu, estabelecendo a ponte com a parte final da intervenção de José Eduardo Franco.

O investigador sustenta que o triunfo de que fala a mensagem de Fátima é um caminho alternativo que se apresenta ao “Homem líquido” ou “Homem espuma” – expressões usadas por diversos autores, para classificar os que esvaziaram a sua dimensão afetiva – e defende que a espiritualidade da misericórdia, o “movimento do coração” que abre o ser humano ao outro e ao transcendente, continua a oferecer uma alternativa. Num tempo marcado pela “hipertecnização” e pela IA, elogiou e defendeu o conceito de “inteligência cordial”, antes avançado por Marco Daniel Duarte e que voltou a estar em destaque na intervenção que o diretor da AESF dedicou à iconografia do Imaculado Coração de Maria, no último dia dos Cursos de Verão.

Nesse contexto, sublinhou o coordenador da formação, Fátima, não só inaugura uma nova forma de apresentar o coração de Maria, cercando-o de espinhos – as dores da Humanidade –, como também recorre a esse símbolo para exprimir o amor de Jesus Cristo.

A partir da definição bíblica de coração, centro da existência humana para o qual confluem a razão, a vontade e a sensibilidade, Marco Daniel Duarte reforçou que Fátima convida a uma inteligência cordial, a única capaz de trazer os Homens à reconciliação.

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Em pol do tema complementar “O coração que Deus tem e que o homem procura”, Frederico Lourenço, professor catedrático da Universidade de Coimbra, tradutor da Bíblia e especialista em Línguas e Literaturas Clássicas, na visita temática, de 1 de julho, à exposição temporária “Refúgio e Caminho”, mostrou que o coração pode ser dor, pureza, razão, memória ou humildade.

Face à pergunta “Que dizem os textos bíblicos sobre o coração?” Frederico Lourenço mostrou “o coração que Deus tem” e, olhando para o coração nas Escrituras, frisou que é nele que ocorre a verdadeira conversão.

À questão “Deus tem coração?” respondeu: “Tem, sim.” Com efeito, “inequívoca é a resposta da Bíblia”. A partir do Génesis, levou os 190 participantes da visita a ver as duas primeiras vezes em que surge a palavra “coração”: “uma fala do coração do homem; outra, do coração de Deus”. Citou dois versículos seguidos o Dilúvio (cf. Gn 6,5-6) e disse: “Deus viu a maldade dos homens, e o seu próprio coração sofreu amargamente”. Daí acentuou a asserção “o seu próprio coração sofreu”, referente ao coração de Deus, destacando-o como “lugar de encontro do homem com Deus”, “onde Deus Se revela ao homem”, e “lugar do chamamento de Deus”.

Dos manuscritos bizantinos de Lucas, Frederico Lourenço citou “uma versão de Isaías que não está nas edições modernas da Bíblia”: “o Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar o amor aos mendigos e para curar os despedaçados no coração”. “Cristo cura o nosso coração partido”, concluiu. A expressão “coração partido” é originária não do anglicismo heartbroken, mas do profeta Isaías, notou.

Entre as obras “Banquete” de Platão e “A Cidade de Deus” de Santo Agostinho, formulou a ideia de que a pureza de coração decorre da intenção antes da ação, pois “a beleza de coração exigida para vermos Deus tem a ver com aquilo que o coração sente”.

Em percurso reflexivo, Frederico Lourenço levou os participantes a observarem o coração nos Quatro Evangelhos: Mateus, Marcos, Lucas e João. Em Mateus, mostrou que “o coração compreende”, quando Jesus diz: “Os olhos servem para ver, os ouvidos servem para ouvir e o coração serve para compreender.” “Compreender com o coração” é converter-se. De Marcos, mencionou, de novo, a pureza de coração, quando Jesus disse: “Nada há fora do homem que, entrando nele, o possa contaminar; mas o que sai do homem, isso é o que o contamina.” De João, destacou o momento em que Jesus consolou os Apóstolos: “Não se agite o vosso coração.” A Lucas, referiu-o como “evangelista de Nossa Senhora”, atento ao coração de Maria. Porque, depois da Adoração dos Pastores, notou que “Maria conservava todas estas coisas, ponderando-as no seu coração”. E, no Magnificat, Maria afirmou que “o Senhor derrubou os poderosos dos seus tronos e exaltou os humildes”.

A concluir, relacionou o Coração Imaculado de Maria e o Sagrado Coração de Jesus. Salientou o substantivo “humildade”, o qual, no conjunto dos quatro evangelhos, ocorre só no Magnificat, no segmento: “porque pôs os olhos na humildade da sua serva”. Pela humildade relacionou o Coração de Maria com o Coração de Jesus, pois, no Novo Testamento, o Coração de Jesus tem “mansidão e humildade”, “duas qualidades raras”, pelas quais “todos ganhamos em imitar Cristo”, disse.

Terminou com um convite: “Sejamos, pois, mansos e humildes.”

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Fátima não se limita ao acolhimento, ao culto e à formação a ele atinente, mas procura a formação explícita em torno do conhecimento do homem e do mundo, servindo-se de estudos académicos e apostando na via da pulcritude, educação artística, cultural e lúdica.

2026.07.14 – Louro de Carvalho

“Só vem de Deus, aquilo que nos une, nunca aquilo que nos divide”

 

Celebrou-se, a 12 e 13 de julho, a terceira peregrinação internacional aniversária ao Santuário de Nossa Senhora do Rosário de Fátima (abreviadamente, Santuário de Fátima), sob a presidência do bispo de Portalegre-Castelo Branco, D. Pedro Alexandre Simões Gouveia Fernandes. Para esta peregrinação, inscreveram-se, nos serviços do Santuário de Fátima, 83 grupos de peregrinos, provenientes de 18 países. Além de Portugal, os países com mais peregrinos inscritos foram a Espanha e a Polónia.

Entretanto, como o dia 12 foi domingo, já na missa principal havia muitos peregrinos, que foram desafiados a deixar que a Palavra atinja e determine todos os aspetos e dimensões da vida. 

Para esta missa, inscreveram-se, nos serviços do Santuário de Fátima, 12 grupos de peregrinos, a maioria de origem portuguesa, mas também de países estrangeiros, nomeadamente, da Espanha, dos Estados Unidos da América (EUA), dos Camarões e da Costa do Marfim.

O reitor do Santuário de Fátima, padre Carlos Cabecinhas, que presidiu, no Recinto de Oração, à missa dominical, cujo tema fulcral era a semeadura da Palavra de Deus, desafiou os peregrinos a deixarem-se transformar pela Palavra divina, acolhendo-a por forma que ela determine todas as opções, atitudes e dimensões da vida. “Deixemo-nos transformar pela Palavra de Deus. Deixemos que ela atinja e determine todos os aspetos e dimensões da vida de cada um de nós”, exortou o presidente da celebração.

Carlos Cabecinhas iniciou a homilia com um diagnóstico das palavras que são ruídos do Mundo atual, alertando para o perigo de não permitirem distinguir o essencial do supérfluo. “Nós vivemos num Mundo cheio de palavras, de tal modo que muitas delas se tornam, para nós, apenas música de fundo, ruído a que se não presta atenção. Quantas vezes não se corre o risco de que a Palavra de Deus proclamada pertença a este grupo de ruído?”, lembrou o reitor, desafiando cada peregrino a interrogar-se se, ao fim da missa, saberia responder do que falavam as leituras.

A partir dos textos proclamados, em que o profeta Isaías vinca a eficácia e a ação transformadora da Palavra de Deus, Carlos Cabecinhas advertiu que, se a nossa vida não muda, a falha não é da Palavra, mas da nossa “desatenção” ou da “falta de disponibilidade interior” para a acolher. Neste sentido, elencou alguns obstáculos que impedem a Palavra de dar fruto: as preocupações do dia a dia, a inconstância do coração, o medo das incompreensões alheias e o erro de “não darmos a Deus o lugar que só a Deus é devido”, na nossa vida.

E, a concluir, apresentou Nossa Senhora como modelo de escuta e vivência da Palavra, descrevendo a Mãe de Deus como o “exemplo perfeito” de quem guarda a Palavra no coração e a leva à vida prática. “Foi com ela que os santos Pastorinhos de Fátima, Francisco e Jacinta, aprenderam a ser terreno fértil, onde a Palavra de Deus deu fruto abundante”, frisou o padre Carlos Cabecinhas, instando os peregrinos a entrarem nesta “Escola de Maria”, para aprenderem a arte da escuta da Palavra de Deus.

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O bispo de Portalegre-Castelo Branco deixou clara, na noite do dia 12, a que é, no seu entender, a missão urgente dos cristãos, no momento atual: “valorizar e propor valores mais altos e plenos, que ultrapassem o círculo estreito e mortífero da busca do simples poder, do simples ter e do simples prazer”.

Na Celebração da Palavra, o prelado alacrense e albicastrense lembrou os peregrinos que, no Mundo contemporâneo, tão marcado por projetos egoístas e parciais, “só Cristo pode trazer plenitude e consistência à vida”.

Dirigindo-se aos cerca de 10 mil peregrinos presentes no Recinto de Oração e aos que acompanharam a transmissão pelos canais televisivos e digitais, o presidente da peregrinação propôs que a vontade de Deus fosse o critério fundamental para orientar as relações humanas e os projetos de vida. Neste sentido, a partir da leitura do Evangelho de São Mateus, salientou que Cristo propõe um critério para a construção de relações que ultrapassa os laços de parentesco: “Quem faz a vontade de Deus” pertence verdadeiramente à sua família, ou seja, as relações humanas são “mais positivas e autênticas”, quando deixam de estar centradas nos próprios interesses e se tornam “integradoras da diferença, tolerantes e fraternas”, clarificou.

Na reflexão que partilhou com os peregrinos, o presidente da celebração apresentou Maria como modelo de quem “procura ver Jesus”, “sempre aberta a Deus, sempre disponível para se deixar iluminar por Ele e, desse modo, se tornar luminosa para os outros”. “A grandeza de Maria reside na pureza da sua relação com Deus, na sua disponibilidade à ação do Espírito Santo e na sua determinação em conduzir todos a Cristo”, Observou.

Neste contexto, D. Pedro Fernandes convidou cada peregrino a interrogar-se sobre as motivações que o trouxeram ao Santuário de Fátima, naquela noite, e sobre o projeto de vida que deseja construir. “Que me trouxe a Fátima, nesta peregrinação do aniversário de uma das aparições? A que projeto de vida me convida Maria?”, perguntou, enquanto incentivava os fiéis a descobrirem o desejo mais profundo inscrito por Deus na alma de cada um.

Por fim, lembrou que “só Cristo pode trazer plenitude e consistência à vida” e pediu a intercessão de Maria para que os fiéis permaneçam abertos à ação do Espírito Santo, deixando-se guiar por Deus na construção de uma sociedade mais fraterna e orientada para o bem comum.

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Na missa da peregrinação internacional aniversária – em que participaram, pelo menos, sete mil peregrinos e concelebraram, além de D. José Ornelas, bispo de Leiria-Fátima, o cardeal D. António Marto, bispo emérito de Leiria-Fátima, D. Augusto César, bispo emérito de Portalegre-Castelo Branco, 89 presbíteros e oito diáconos –, D. Pedro Fernandes convidou os peregrinos a serem construtores da justiça e da paz.

Na homilia proferida no Recinto de Oração, o bispo de Portalegre-Castelo Branco, recorreu à antítese metafórica bíblica luz-trevas, para refletir sobre os desafios da sociedade contemporânea, desde as guerras e dos discursos de ódio até às divisões que ameaçam a comunhão na Igreja. “Atravessamos, hoje, uma época de insegurança e desorientação”, referiu. “Povos invadindo povos, pessoas violentando pessoas, discursos de ódio e divisão que proliferam e tentam impor-se à comunidade humana”, sublinhou.

A partir do relato da Anunciação, D. Pedro Fernandes apresentou Maria como exemplo de humildade e de disponibilidade à ação de Deus. “A atitude de Maria não é de heroicidade conquistadora, é, antes, de disponibilidade humilde, de quem se coloca à escuta do que Deus quer, reconhecendo n’Aquele que é a fonte de toda a vida a única autoridade capaz de transformar as nossas trevas em luz e a nossa violência em mansidão”, afirmou.

Neste contexto, evocou a recente encíclica Magnifica Humanitas, do Papa Leão XIV, para alertar para a ambiguidade dos avanços tecnológicos. “Se os recursos da tecnologia e da inteligência artificial [IA] nos podem abrir as portas para um quase imediato acesso à informação e um fácil recurso a soluções complexas, podem também introduzir-nos num perigoso jogo em que verdade e falsidade se confundem”, lembrou.

Para D. Pedro Fernandes, tal confusão favorece discursos manipuladores e estratégias populistas que exploram o medo e a insegurança, dividindo pessoas e povos. “À tenebrosa estratégia populista do ‘dividir para reinar’ opõe-se a luminosa proposta da Palavra de Deus, que nos fala de ‘uma Paz sem fim’, alcançada pelo ‘direito e pela justiça’ e não pela força e pela arrogância”, discorreu, evocando os conflitos que destroem o Médio Oriente, a Ucrânia e outras regiões do Mundo, com as raízes da guerra e da violência a manifestarem-se, de modo subtil, nos corações e na forma como as pessoas criam relações pessoais, sociais, políticas e económicas.

No âmbito eclesial, o antístite do Sever e do Pônsul alertou para o perigo das atitudes sectárias e da arrogância espiritual. Ao relembrar o recente caso de uma comunidade que se pôs em situação de excomunhão, sustentou que a pretensão de um grupo se considerar mais próximo de Deus “gera divisão que não pode vir de Deus”. Assim, o bispo, instando os fiéis a regressarem à humildade de Maria e a prepararem o Reino de Cristo através de opções concretas de paz, reconciliação e perdão, deixou claro que “só vem de Deus, aquilo que nos une, nunca aquilo que nos divide”, e que a unidade da Igreja e a construção de uma sociedade baseada nos valores do Evangelho são da responsabilidade de todos os cristãos.

Por fim, implorou a intercessão de Maria, para que os peregrinos renovem a determinação de combater todas as formas de violência, de preconceito e de exclusão, através da oração, do discernimento, da solidariedade e do compromisso na construção da justiça e da paz.

Na palavra aos doentes, André Pereira, diretor do Departamento de Acolhimento e Pastoral do Santuário de Fátima, afirmou que a eucaristia congrega os fiéis como membros de um só corpo, transformando cada pessoa em sofrimento num “sacrário vivo” da presença de Jesus. “Na tua fragilidade, és constituído sua testemunha privilegiada e sacramento do seu amor: Jesus dá-te – e, em ti, a todos nós – a mais eficaz das curas, a única que verdadeiramente restabelece as forças, mesmo que o corpo permaneça fraco: a da oferta de tudo por amor, o amor que salva”, vincou.

Na saudação final, o bispo da Diocese de Leiria-Fátima, apelou à solidariedade global, evocando as populações em sofrimento, com destaque para a Venezuela, devastada por um sismo recente, e para as vítimas das ondas de calor na Europa e das guerras que espalham terror e morte (esqueceu o grande incêndio de Vouzela). E, a terminar, exortou os peregrinos a não deixarem que os “ventos de guerra” apaguem a chama da esperança e da paz, devendo cada peregrino regressar a casa como um “mensageiro e agente” de justiça, fraternidade e solidariedade no Mundo.

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Para facilitar o acesso ao Santuário de Fátima, foram estabelecidos os Caminhos de Fátima, isto é, uma rede de itinerários religiosos e culturais que partem de diversos locais e terminam no Santuário de Fátima.  

São eles: Caminho do Norte ao Centro – 364 Km (quilómetros): Valença-Fátima; Caminho da Nazaré (54 Km): Nazaré-Fátima; Caminho do Tejo (150 Km); Lisboa-Fátima; Rota Carmelita (111 Km): Coimbra-Fátima; Caminho do Médio Tejo: Rota de Tomar (31 Km), Rota da Sertã (98 Km) e Rota de Abrantes (91 Km); Caminho dos Candeeiros (63 Km): Rio Maior- Fátima; e Caminho do Centenário (212 Km): Vila Nova de Gaia-Fátima.

Desenvolvidos pelo Centro Nacional de Cultura CNC, desde 1996, em parceria com múltiplas instituições e em articulação com o Santuário de Fátima, criam condições seguras e aprazíveis, sobretudo, para peregrinos e caminhantes que se dirigem, a pé, ao Santuário de Fátima, evitando as estradas de grande circulação automóvel, em favor de caminhos de terra e de pequenas estradas rurais. Proporcionam verdadeira espiritualidade, em ligação com a Natureza e com as vivências religiosas e culturais. São itinerários que percorrem territórios variados, com grande interesse cultural e paisagístico e articulam-se com outros itinerários de âmbito nacional e internacional. 

Para facilitar a utilização destes itinerários, foram editados os Roteiros dos Caminhos de Fátima, que disponibilizam, de forma sistemática, informação completa sobre estes percursos, destacando a paisagem, o património, a cultura e as ambiências locais. 

Apresentam cartografia associada a cada um dos Caminhos, bem como conteúdos descritivos sobre os respetivos itinerários. No final de cada Roteiro, há um conjunto de informações sobre o Santuário de Fátima, com a descrição dos lugares mais emblemáticos, desde as Basílicas à Capelinha, evidenciando a História e a simbologia de cada um destes espaços. 

Estão disponíveis para consulta e download, nas plataformas caminhosdefatima.org e pathsoffaith.com, incluindo a cartografias no formato GPX e KML.

Estes itinerários de peregrinação são identificados pela marca “Caminhos de Fátima”, que incorpora elementos simbólicos: uma azinheira, local de aparição da virgem aos pastorinhos, árvore caraterística da paisagem onde se enquadra Fátima e espécie botânica protegida em Portugal (quercus ilex); e a cor azul, símbolo do azul celeste e da ambiência atmosférica que se experiencia, diretamente, no Santuário e no espaço envolvente.

A marca é propriedade do CNC e a sua utilização exige autorização.

O CNC é uma Associação Cultural de utilidade pública. Criado, a 13 de maio de 1945, por um grupo de monárquicos e católicos de oposição ao regime, foi concebido como um “clube de intelectuais” para debate de ideias. Registou os seus estatutos em 1952. 

Sempre com o objetivo da “defesa de uma cultura livre”, nos anos 60, sob a liderança de Sophia de Mello Breyner Andresen, Francisco Sousa Tavares, Gonçalo Ribeiro Telles, João Bénard da Costa e António Alçada Baptista, afirmou-se como um fórum democrático participado por intelectuais e criadores culturais.

Depois do 25 de Abril de 1974, sob o impulso da equipa liderada por Helena Vaz da Silva, iniciou uma nova fase, centrada na internacionalização e na valorização da cultura e do património, com atividades muito variadas e dirigidas a um público diversificado: “Passeios de Domingo”, ciclos de viagens culturais , cursos de formação e de divulgação, encontros internacionais, seminários, exposições, edições, concursos literários e artísticos, prémios e bolsas, atividades infantis, prestação de serviços culturais a escolas, a empresas e a grupos estrangeiros de visita a Portugal.

No século XXI, reforça a sua matriz identitária, valorizando a memória histórica, promovendo a criação contemporânea e fortalecendo o debate no plano da cultura e da cidadania ativa. Tem como grandes linhas de ação a defesa, divulgação e valorização do património cultural, com base numa noção integrada de território, de comunidade, de ambiente, de património e de turismo. No quotidiano, a sua ação pode resumir-se como uma política de “pôr em contacto”, de “articular”, de “fazer acontecer”. 

A partir do bairro do Chiado em Lisboa, onde tem as suas instalações, incluindo uma biblioteca e um café literário (Café no Chiado), desenvolve atividades e projetos. O CNC é membro de redes internacionais e assegura a representação oficial da Europa Nostra em Portugal. É a entidade titular do projeto Caminhos de Fátima e proprietária da respetiva marca.

2026.07.13 – Louro de Carvalho


segunda-feira, 13 de julho de 2026

A polémica da contaminação da Base Aérea das Lajes, nos Açores

 

Um estudo realizado na Universidade de Coimbra (UC), por um doutorando em Antropologia Forense, revela que um conjunto de esqueletos de habitantes do concelho da Praia da Vitória, na ilha Terceira, nos Açores – onde se situa a Base Aérea n.º 4 –, apresenta concentrações de chumbo e de outros metais pesados muito superiores às dos esqueletos de Angra do Heroísmo, a 23 quilómetros das zonas contaminadas pelos derrames de combustíveis realizados ao longo de décadas pelos militares norte-americanos.

Disto nos dá conta o jornalista do Expresso Vítor Matos em, pelo menos, seis artigos, dos quais se retiram os dados mais pertinentes, complementados com informações da Lusa, do Diário de Notícias e do Observador.

Segundo a tese de Félix Rodrigues, de 32 anos, natural da Terceira, os metais mais relevantes são o cádmio, o crómio e o molibdénio, como “provável resultado de exposição ambien­tal, durante a vida”, pois “são contaminantes conhecidos nos solos e aquíferos da zona”, como escreve o grupo de cientistas ligados ao projeto – financiado pelo governo regional – em artigo publicado na revista científica Springer Nature, em março de 2025. Já o chumbo só foi detetado, em volume relevante, quando a amostra de esqueletos cresceu de 64 para 97.

O problema é se houver relação comprovada de causa/efeito entre a contaminação dos solos e as doenças oncológicas, o que levará centenas de pessoas a pedir indemnizações ao Estado americano ou ao português. Porém, como não há certezas, os investigadores propõem um estudo epidemiológico sobre a prevalência de doenças oncológicas junto à Base Aérea.

Os casos de cancro surgidos na zona foram objeto de estudo, mas alguém alegava que a causa não estava no tabaco que se fumava, mas em causas ambientais. E estudo foi cancelado, porque, segundo um dos investigadores nele envolvidos, “a universidade não quis que se concluísse o estudo, porque tinha uma parceria com uma universidade no Massachusetts e estávamos a pôr em causa os americanos”. Contudo, apesar de várias fontes apontarem para uma espécie de “silenciamento”, o governo regional está a financiar o projeto de investigação de Félix Rodrigues, que encontrou chumbo nos esqueletos.

Outro problema é a saúde dos funcionários da Base das Lajes. Vários trabalhadores atuais e reformados referiram a falta de um programa preventivo de saúde, por parte do empregador, a Força Aérea norte-americana. Os trabalhadores são apenas submetidos a um audiograma anual e só algumas categorias, como os bombeiros, fazem radiografias e análises anuais, por estarem mais expostos a elementos tóxicos.

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No entanto, entre 2020 e 2022, os Estados Unidos da América (EUA) não fizeram trabalhos para remediar os danos ambientais na zona da Base das Lajes, por entenderem que a contaminação de solos e aquíferos – identificada, desde 2003, por estudos dos norte-americanos – não é prejudicial à saúde de quem ali vive e trabalha. E os responsáveis pela Força Aérea dos Estados Unidos na Europa (USAFE) ameaçaram parar os trabalhos de mitigação dos contaminantes nas zonas poluídas, onde a investigação de doutoramento detetou metais pesados e chumbo (potencialmente cancerígenos) em esqueletos de habitantes. Tal intenção dos EUA, que mantêm um destacamento militar de cerca de 170 efetivos na Base Aérea nº 4, após a grande redução de há 10 anos, foi comunicada em reunião por videoconferência, a 11 de setembro de 2025.

A informação consta no relatório de 2025, conhecido em abril deste ano, do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), de “Análise e Acompanhamento dos Trabalhos de Reabilitação Ambiental” no concelho da Praia da Vitória, classificado como “reservado”. Por sua vez, os peritos do LNEC participantes na reunião referiram “esperar que, face à revisão dos resultados, essa decisão fosse reapreciada”.

Nos últimos anos, as relações com os EUA, neste âmbito, foram difíceis. Em 2021, um documento da Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos dos Açores (ERSARA), comunicava ao governo regional que os EUA ocultavam informação sobre as obras ambientais. Um dos casos relatados versava um furo não declarado pela Força Aérea norte-americana, em 2019, realizado junto à pista, apesar de análises realizadas pela USAFE (não comunicadas) apresentarem “valores de hidrocarbonetos em concentrações elevadas”. Mais tarde, um estudo do Ministério da Defesa verificava que os valores tinham baixado, mas o LNEC não afastava riscos de contaminação. Além disso, as autoridades portuguesas queixavam-se de os representantes norte-americanos na Comissão Técnica bilateral (CTB) alegarem a “inexistência de obrigações legais, por parte dos EUA, na descontaminação de locais situados fora dos limites das instalações militares”, apesar de a poluição ser devida às suas atividades.

Para o governo regional, como “a análise de risco” norte-americana deixa “de fora o risco potencialmente existente fora das áreas militares”, a posição dos EUA “não” abrange “os interesses de proteção da saúde pública da ilha Terceira como um todo”.

A ERSARA concluiu que “a simples presença de hidrocarbonetos na água não é desejável”. Coincidentemente, há obras a decorrer no valor de 5,3 milhões de euros, para mudar a captação de água, em alguns locais no concelho. Com efeito, nos 10 anos anteriores, tinham sido identificados “36 casos de amostras com concentrações de hidrocarbonetos acima do limite”, apesar de o LNEC sustentar que a água da rede pública apresenta “parâmetros em conformidade com as normas”.

O ministro da Defesa, Nuno Melo, desvalorizou a tese de doutoramento que detetou metais potencialmente cancerígenos nos esqueletos, mas Artur Lima, líder do partido do Centro Democrático Social dos Açores (CDS Açores) e vice-presidente do governo regional, diz “manter a linha” e financiará “mais doutoramentos” sobre o tema. Nuno Melo disse aos deputados que o “foco são entidades públicas certificadas”, com “respeito por teses legítimas”, mas que não pode “validar cientificamente”, e que são “ótimas” para “consumo da comunicação social”. E desconsiderou a UC, ao dizer que “essa certificação não aconteceu ao nível das entidades públicas” – o LNEC e a ERSARA, que têm relatórios críticos dos EUA a apontar riscos para a saúde nos locais contaminados.

Contudo, Nuno Melo, defende o empenho do governo na monitorização da contaminação de solos e aquíferos na Base das Lajes e apelou aos EUA para assumirem as suas responsabilidades.

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Apesar de, pelo menos, desde 2003, os terrenos estarem identificados como contaminados por hidrocarbonetos, clorofórmio e combustíveis, nenhuma autoridade mandou interditá-los ao pastoreio. Dois biólogos – Cristina Branquinho, professora catedrática da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, e Miguel Pardal, professor e biólogo marinho da Universidade de Coimbra –, face aos dados do relatório do LNEC, alertam que não pode haver gado nessas pastagens e que é urge fazer análises, para ver se há contaminação de pastos e de carne.

“Nessas zonas não se deve dar nenhum uso que possa contaminar a cadeia humana”, diz Cristina Branquinho. “Neste tipo de solos, não pode lá estar nada, por princípio de precaução”, pelo risco de os contaminantes entrarem na cadeia alimentar. “Nenhuma carne alimentada em zonas com hidrocarbonetos pode ser consumida, mesmo sem haver grandes concentrações”, sustenta Miguel Pardal, que orientou teses sobre a entrada na cadeia alimentar de peixes contaminados. “Se os solos estão contaminados, não podem ter usos para nenhum derivado usado para alimentação humana, nem o leite”, considera, vincando: “Depois, logo se trata dos solos, mas as vacas têm de sair de lá.”

Cristina Branquinho diz que, “se a água está contaminada”, é de “bom senso” fazer, “urgentemente, análises ao solo, com elevada resolução espacial, para se mapear, exatamente, os limites dessa contaminação”, visto que “os hidrocarbonetos são bioacumulados nos tecidos gordos” e “alguns são associados a leucemias”, como o benzeno. Por isso, “se fosse investigar, ia analisar estes compostos no leite”. E Miguel Pardal reforça que se devem “analisar as plantas que as vacas comem, os músculos das vacas, e o leite”, pois, “se a ciência diz que um local está contaminado e é perigoso para vida, qualquer organismo que vive numa zona contaminada tem grande probabilidade de estar contaminado”.

Na Porta de Armas da Base Aérea n.º 4, classificada como “site 3001”, em junho de 2025 “detetaram-se concentrações de Hidrocarbonetos Totais do Petróleo (HTP) acima do limiar, na maioria dos piezómetros [aparelho de medição], embora, em setembro, os valores tenham baixado”. Segundo o LNEC, “foram encontrados vestígios de clorofórmio e de vários Hidrocarbonetos Aromáticos Policíclicos (HAP) acima dos limites nacionais, mas abaixo das normas internacionais (Canadá/Holanda)”. Apesar de classificado como “reservado”, o relatório foi distribuído a 29 de junho aos grupos parlamentares da Assembleia Regional dos Açores e disponibilizado, publicamente, no site da Câmara Municipal da Praia da Vitória.

A quase dois quilómetros, fica a South Tank Farm, os enormes depósitos de combustível, onde houve, em 1982, grandes derrames, e em que lamas de combustível com chumbo foram usadas para compactar os solos. E havia gado nos terrenos adjacentes aos tanques.

Todavia, junto à zona Porta de Armas da Base Aérea nº 4, dispersam-se dezenas de enormes rolos pretos com erva para alimentar o gado e é comum encontrar vacas nas pastagens de fronteira com a pista. a forragem e o gado pertencem à Força Aérea Portuguesa (FAP), que conhece bem os locais contaminados e que possui, anualmente, entre 80 e 120 vacas (10% das quais usadas para consumo nas messes e o resto para venda no mercado).

Parte da alimentação do gado é a forragem que a FAP corta junto à pista – onde se veem 15 aviões reabastecedores KC-46 dos EUA, que participaram na guerra do Irão – contaminada pelos metais pesados dos combustíveis das aeronaves. Além disso, a erva que cresce junto à pista continua a ser “regada” por hidrocarbonetos, porque os resíduos causados pela água da chuva que entra nos pits de abastecimento das aeronaves são despejados no solo. Porém, a FAP garante o cumprimento das medidas de segurança alimentar: “A presença destes animais é regulada por entidades competentes, internas e externas, que asseguram a saúde e a qualidade de vida dos mesmos”, respondeu ao Expresso o gabinete de relações públicas do Estado-Maior da FAP.

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Quem não está com meias tintas é o governo dos Açores que vai contratar uma empresa estrangeira, para fazer cessar o monopólio do LNEC nos estudos sobre a contaminação em redor da Base das Lajes, e determinou a constituição de uma Comissão Técnica Independente (CTI), para analisar a contaminação dos solos na ilha Terceira, provocado pela atividade militar norte-americana, na Base Aérea, em décadas, devendo apresentar relatórios semestrais. Trata-se de uma deliberação dos partidos com assento na Assembleia Legislativa Regional dos Açores, exceto o partido do Chega.

Entretanto, foram adiadas as duas reuniões da CTB que junta representantes de Portugal e dos EUA, que também tem a missão de acompanhar os trabalhos de descontaminação e de discutir as conclusões dos relatórios do LNEC sobre poluição de solos e aquíferos. Foi numa destas reuniões, em setembro de 2025, que os peritos da USAFE informaram o LNEC de que os norte-americanos não continuariam os trabalhos de remediação ambiental, por entenderem que a contaminação verificada não afeta a saúde humana.

O ministro da Defesa chegou a dizer que os EUA tinham de “assumir as suas responsabilidades”, mas a decisão da USAFE parece que vai em frente.

A CTI, criada por iniciativa do Bloco de Esquerda (BE) – e que funcionará a partir de janeiro de 2027, para dar resposta ao passivo ambiental e sanitário na Terceira –, fará recomendações, mas, segundo a lei, Portugal é responsável por despoluir o que os EUA contaminaram.

Há a perceção, entre a população e os profissionais de saúde, da elevada incidência de cancros em zonas mais expostas do concelho da Praia da Vitória, bem como a desconfiança de que há muitos casos de crianças com autismo, mas nada está esclarecido, cientificamente, apesar de haver um estudo sobre o cancro, há seis anos, na secretária Regional da Saúde.

Outro aspeto a considerar, segundo Artur Lima, é a Lei de Finanças Regionais cuja revisão está a ser negociada entre Ponta Delgada e Lisboa. Segundo a nossa lei, a responsabilidade da descontaminação ou da mitigação ambiental não é obrigação da entidade poluente – no caso, os EUA – mas do Estado português. Os EUA só fazem as obras ambientais, como as que realizaram entre 2022 e 2025, se quiserem. A Lei de Finanças Regionais protege os EUA e atribui todas as responsabilidades a Portugal, ao estabelecer: “A solidariedade nacional traduz-se ainda na obrigação de o Estado repor a situação anterior à prática de danos ambientais, por ele ou por outros Estados, causados nas regiões autónomas, decorrentes do exercício de atividades, nomeadamente, em virtude de acordos ou tratados internacionais, ou de disponibilizar os meios financeiros necessários à reparação desses danos.”

Esta norma consta do n.º do artigo 8.º da Lei Orgânica n.º 2/2013, de 2 de setembro, quando Paulo Portas era ministro dos Negócios Estrangeiros de Passos Coelho e a administração norte-americana de Barack Obama ameaçava reduzir, fortemente, o contingente na Lajes, o que acabou por acontecer. Ricos governantes que nós tivemos e grande presidente dos EUA!

A Direção Regional da Agricultura, Veterinária e Alimentação (DRAVA) dos Açores também vai avançar com ações imediatas, nos próximos 30 dias, para obter de cartografia atualizada das plumas de combustíveis que contaminam os solos e aquíferos nas imediações da Base das Lajes, e cruzar esses dados com a localização das explorações, captação de águas e pastagens usadas nas explorações pecuárias. E António Ventura, secretário Regional que tutela a área, anunciou que iam ser tomadas medidas, entre as quais, segundo o Diário Insular, a criação de níveis de ação preventiva para solos e pastagens, a fim de se gizarem medidas cautelares, antes de se confirmarem incumprimentos legais nos alimentos para o consumo humano. O objetivo é garantir que a gestão do risco ambiental na envolvente da Base Aérea se baseie em evidência científica, para salvaguardar a saúde pública e a rastreabilidade dos produtos de origem animal.

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Por fim, é de referir que o Chega recomenda ao governo da República que acompanhe, institucionalmente, o estudo da UC sobre a zona envolvente da Base das Lajes, que aponta níveis elevados de metais pesados em amostras humanas, e o futuro estudo epidemiológico. E o Partido Comunista Português (PCP) questiona o governo de Lisboa sobre a mesma matéria.

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A sujeição do governo aos interesses dos EUA não é só de hoje, como o controlo da investigação não surge apenas da parte dos decisores políticos, também a ciência é condicionada por acordos entre universidades. Como se pode dispensar da tarefa da descontaminação a entidade poluente? Como pode a FAP incumprir os requisitos de salubridade ambiental e pública?

2026.07.13 – Louro de Carvalho

“Quem tem ouvidos, ouça!”

 

A liturgia do 15.º Domingo do Tempo Comum convidou-nos a tomar consciência da importância da Palavra de Deus e da centralidade que ela deve assumir na vida dos crentes.

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A primeira leitura (Is 55,10-11) garante que a Palavra de Deus é fecunda e criadora de vida: dá-nos esperança, indica-nos os caminhos que devemos percorrer e dá-nos o ânimo para intervirmos no Mundo. Produz sempre efeito, embora não atue, sempre, de acordo com os nossos critérios.

O Deuteroisaías é um profeta que exerce a sua missão entre os exilados da Babilónia, consolando e mantendo acesa a esperança do povo amargurado, desiludido e dececionado. Por isso, chama-se “Livro da Consolação” aos textos que recolhem a sua mensagem (Is 40-55).

Na primeira parte desse livro (cf. Is 40-48), o profeta anuncia aos exilados a libertação do cativeiro e o novo êxodo do Povo de Deus para a Terra Prometida; e, na segunda (cf. Is 49-55), fala da reconstrução e da restauração de Jerusalém. O trecho em apreço aparece no final do “Livro da Consolação”. Após convidar o Povo, que ainda está na Babilónia, a buscar e invocar o Senhor, o profeta relembra a eficácia da Palavra de Deus proclamada aos exilados.

Estamos na fase final do Exílio (à volta de 550/540 a.C.). A comunidade está farta de palavras e de promessas de libertação que tardam a concretizar-se. A impaciência, a dúvida e o ceticismo minam, lentamente, a resistência e a fé dos exilados. Porém, as promessas de Deus vão concretizar-se Deus, pois Ele não se esquece do seu Povo. A sua Palavra não deixará de se concretizar, porque Ele é, eternamente, fiel às suas promessas. A Palavra de Deus, eficaz, transformadora, geradora de vida, nunca falha.

Para expressar a ideia da eficácia da Palavra de Deus, o profeta dá o exemplo da chuva e da neve: “Assim como a chuva e a neve que descem do céu fecundam a terra e multiplicam a vida nos campos, assim a Palavra de Javé não deixará de se concretizar e de criar vida plena para o Povo de Deus.”

A imagem sugestiva lembra aos exilados na Babilónia as chuvas que caem no Norte de Israel e as neves do monte Hermon. A água caída do céu alimenta o rio Jordão, o qual, por sua vez, correndo por toda a terra de Israel, deixa um rasto de vida e de fecundidade. Ora, a Palavra de Deus é como essa água bendita que, inevitavelmente, gera a vida que nutre o Povo de Deus.

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O Evangelho (Mt 13,1-23) propõe-nos, em primeiro lugar, uma reflexão sobre a forma como acolhemos a Palavra e exorta-nos a ser a “boa terra”, disponível para escutar as propostas de Jesus, para as acolher e para deixar que deem abundantes frutos na nossa vida de cada dia. Garante-nos também que o “Reino” anunciado por Jesus será imparável realidade, onde se manifestará, em todo o seu esplendor e fecundidade, a vida de Deus.

Em três domingos, o Evangelho apresenta-nos parábolas de Jesus. A parábola é imagem, símile ou comparação, que ilustra determinada mensagem ou ensinamento.

A linguagem parabólica não foi inventada por Jesus. É habitual na literatura dos povos do Médio Oriente: o génio oriental gosta mais de instruir por imagens, comparações e alegorias, do que por discursos lógicos, frios e racionais, típicos da civilização ocidental.

A linguagem parabólica várias vantagens, face ao discurso lógico e impositivo. A imagem ou comparação da linguagem parabólica é mais rica, em força de comunicação e em poder de evocação, do que a exposição teórica. Sendo mais profunda, mais carregada de sentido, mais evocadora, mexe mais com os ouvintes. Por ser excelente arma de controvérsia, a linguagem figurada leva o interlocutor a admitir certos pontos que, de outro modo, não mereceriam a sua concordância. E, por constituir um verdadeiro método pedagógico, que ensina as pessoas a refletirem, a medirem os prós e os contras, a encontrarem soluções para os dilemas da vida, estimula a curiosidade, incita à busca, insta à descoberta da verdade.

No capítulo 13 do seu Evangelho, Mateus apresenta-nos sete parábolas, pelas quais Jesus revela aos discípulos a realidade do Reino. São as “parábolas do Reino”. Dessas parábolas, três provêm da tradição sinóptica (o semeador e a semente, o grão de mostarda, o fermento); as outras (o trigo e o joio, o tesouro escondido, a pérola preciosa, a rede) não se encontram em Marcos, nem em Lucas. Serão originárias da antiga fonte dos “ditos” de Jesus, que Mateus usou, abundantemente, na composição do seu Evangelho.

A preocupação do evangelista é a vida da sua comunidade. Nestas parábolas e na interpretação que as acompanha, percebe-se a preocupação do pastor que exorta, anima, ensina e fortalece a fé dos crentes a quem destina o seu Evangelho.

A parábola do trecho em referência – o semeador que saiu a semear a sua semente – é uma das mais conhecidas e emblemáticas das parábolas de Jesus. Porém, o texto do Evangelho vai um pouco mais além da parábola em si. Apresenta três partes: a parábola, um conjunto de “ditos” sobre a função das parábolas e a explicação da parábola.

A primeira parte contém a parábola, que assenta nas técnicas agrícolas usadas na Palestina de então: o agricultor lançava a semente à terra e passava a arar o terreno. Assim, compreende-se porque é que parte da semente pôde cair “à beira do caminho”, outra em “sítios pedregosos onde não havia muita terra” e outra “entre os espinhos”.

As diferenças do terreno significam, neste símile, as diferentes formas como é acolhida a semente, mas nem isso é o mais significativo: o que é impressionante é a espantosa quantidade de frutos que a semente lançada na “boa terra” produz. Tendo em conta que, à época, a colheita de sete por um era considerada farta, os cem, sessenta e trinta por um deviam parecer aos ouvintes de Jesus algo surpreendente, exagerado, miraculoso.

Mateus enuncia esta parábola num contexto em que a ideia de Jesus parece condenada ao malogro. As cidades do lago (Corozaim, Betsaida, Cafarnaum) tinham rejeitado a sua pregação; os fariseus atacavam-No, por Ele não respeitar o sábado, e queriam matá-Lo. Além disso acusavam-No de agir, não pelo poder de Deus, mas pelo poder de Belzebu, príncipe dos demónios. Não acreditavam nas suas palavras e exigiam d’Ele sinais. O Reino anunciado sofria grande contestação e parecia encaminhar-se para um rotundo fracasso. É possível que a parábola tenha sido apresentada por Jesus neste contexto de crise.

Àqueles que manifestavam desânimo e desconfiança, em relação ao êxito do projeto do “Reino”, Jesus fala de resultado final grandioso. Com a parábola, Jesus exorta os discípulos desiludidos a que não desanimem, pois apesar do aparente fracasso, o Reino é imparável; e o resultado final será surpreendente, maravilhoso, inimaginável.

A segunda parte comporta um excurso sobre a função das parábolas. O ponto de partida é a questão levantada pelos discípulos sobre o motivo por que Jesus fala em parábolas. E Mateus vê nelas a ocasião para que apareçam, com nitidez, o acolhimento e a recusa da mensagem de Jesus. Ou seja, as parábolas apresentam o “Reino” numa linguagem sugestiva, rica, clara, concreta, questionante, interpelante. Tornam tudo claro para os ouvintes. Por isso, após escutar a mensagem das parábolas, só não aceita a mensagem quem tiver o coração endurecido e não estiver mesmo interessado na mensagem. As parábolas são, pois, o fator decisivo: propõem, inequivocamente, a realidade do “Reino”. Quem acolher a mensagem, receberá mais e terá em abundância, isto é, irá entrando, cada vez mais, na dinâmica do “Reino”; mas quem não a acolher, apesar da sua clareza e acessibilidade, está a rejeitar o “Reino” e a possibilidade de integrar a comunidade da salvação. Nos que rejeitam Jesus, cumpre-se a profecia de Isaías, que fala de um povo de coração endurecido, que quanto mais ouve a profecia, mais se irrita, agravando a sua culpa.

Os discípulos são os que escutam a proposta do “Reino” e estão dispostos a acolhê-la. Portanto, compreendem, as parábolas e aceitam a realidade que elas contêm. São felizes, porque abriram o coração a Jesus, escutaram as suas palavras, viram e entenderam os seus gestos e sinais; são felizes, pois, ao invés dos que endurecem o coração e fecham os ouvidos, integram o “Reino”.

A terceira parte apresenta a explicação da parábola, aplicando-a à vida dos cristãos.

Na explicação, a parábola deixa de ser a apresentação da forma grandiosa como o “Reino” se vai manifestar, para passar a ser uma reflexão sobre as diversas atitudes com que a comunidade acolhe a Palavra de Jesus. E é essa a grande preocupação das comunidades cristãs.

Na perspetiva dos catequistas que prepararam esta aplicação, o acolhimento do Evangelho não depende da semente, nem de quem semeia, mas da qualidade da terra. Ao semeador compete sair a semear a sua semente, sem olhar para trás e sem fazer escolhas de terreno. Deus não faz aceção de pessoas. E a semeadura é do semeador e não de outrem.

Face à Palavra de Jesus, há várias atitudes, espelhadas nas imagens de terreno apontadas na parábola. Há os que têm o coração duro como o chão de terra batida dos caminhos: a Palavra de Jesus não penetra nessa terra, pelo que não dará fruto. Há os que têm o coração inconstante, capaz de se entusiasmar, de imediato, mas que desanimam ante as primeiras dificuldades: a Palavra de Jesus não cria raízes aí. Há os que têm um coração materialista, que prioriza, sempre, a riqueza e os bens materiais: a Palavra de Jesus é aí facilmente sufocada por esses interesses dominantes. E há aqueles que têm um coração disponível e bom, aberto aos desafios de Deus: a Palavra de Jesus é aí acolhida e dá muito fruto. Os verdadeiros discípulos, a “boa terra”, identificam-se com os que escutam as parábolas, as entendem e acolhem o “Reino”.

Há, portanto, aqui, uma exortação aos cristãos no sentido de acolherem a Palavra de Jesus, sem deixarem que as dificuldades, os acidentes da vida, os outros valores a asfixiem e a tornem em semente estéril, sem vida. E é de atentar no repto de Jesus: “Quem tem ouvidos, ouça!” – que significa que a responsabilidade de atender ou não atender a palavra é nossa.

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Leão XIV comentou este passo evangélico aos fiéis reunidos na Praça da Liberdade, em Castel Gandolfo, para a oração do Angelus, sustentando que a parábola do semeador que saiu a semear a sua semente descreve a generosidade e a confiança com que Deus espalha a sua Palavra no nosso coração e o seu poder em nós. O próprio Jesus, “o Verbo que Se fez homem e deu a sua vida pela nossa salvação, é a semente que o Pai espalha pelo Mundo, para que, ao morrer, dê muito fruto”. Ele, às vezes, encontra em nós terreno duro e insensível e, outras vezes, distraído, semelhante ao solo batido dos caminhos, ao terreno pedregoso ou aos arbustos espinhosos. Porém, há momentos em que encontra uma terra recetiva e fértil e, “então, desencadeiam-se milagres de amor capazes de mudar tudo”, como nós já experimentámos na vida. Por isso, o Pai não desiste de semear, porque “o poder do seu amor é mais forte do que a nossa fraqueza”.

Di-lo São João Crisóstomo, referindo-se à semente da Palavra de Deus: “Como pode ser razoável semear entre espinhos, em terreno pedregoso, à beira do caminho? No caso das sementes e da terra, isso não seria razoável, mas no caso das almas e dos ensinamentos, isso é muito louvável.” Com efeito, “é possível que, nas mãos de Deus, o terreno pedregoso se transforme em terra fértil; que o caminho deixe de ser pisado e de estar exposto a todos os transeuntes, passando a ser solo fértil; que os espinhos sejam eliminados e as sementes desfrutem de grande segurança”.

A generosidade de Deus para connosco não é ingénua, mas sábia, e aproveita, em nós, a possibilidade do bem do qual, por vezes, nem nos apercebemos. Por isso, o Senhor, que conhece o terreno do nosso coração melhor do que nós, acredita em nós, no que somos e naquilo em que nos podemos tornar, dia após dia, se nos entregarmos a Ele com fé.

A partir da gratuitidade e da confiança com que a semente é lançada e da humildade e disponibilidade com que é recebida, crescem em nós e difundem-se, como ensina São Paulo, os frutos do Espírito Santo: “amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, autodomínio”. E mundo precisa deles e de ser preenchido e transformado por eles.

Por isso, o Papa exorta a que nos empenhemos em dedicar tempo à escuta, à leitura e à meditação da Palavra de Deus, cultivando momentos significativos de silêncio e de oração, para que, renovados no corpo e no espírito, estejamos prontos para anunciar a Boa Nova do Evangelho e cada vez mais capazes de cooperar no crescimento do Reino de Deus. “Que Maria, Rainha dos Apóstolos e Estrela da Evangelização, nos ajude nisto”.

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A segunda leitura (Rm 8,18-23) apresenta a temática da solidariedade entre o homem e o resto da criação” que não parece relacionada com o tema desta dominga, a Palavra de Deus. Contudo, é a Palavra de Deus que fornece os critérios para que o homem viva “segundo o Espírito” e para que possa construir o “novo Céu e a nova Terra” com que sonhamos.

Paulo oferece-nos uma catequese sobre o rumo a tomar para acolher a salvação que Deus oferece. A salvação é dom de Deus, dom gratuito, que é fruto da bondade e do amor de Deus; chega por Jesus Cristo; e atua em nós pelo Espírito que Jesus derrama sobre os que aderem ao seu projeto e entram na sua comunidade.

Nos versículos anteriores ao trecho em causa, o apóstolo mostrou aos crentes o exemplo de Cristo e convidou-os a seguirem a mesma rota. Em especial, disse-lhes que seguir o exemplo de Cristo implica deixar a vida “segundo a carne”, isto é, a vida do egoísmo, do orgulho, da autossuficiência e aderir à vida “segundo o Espírito”, ou seja, a vida de escuta de Deus, de obediência ao desígnio de Deus, de doação aos homens.

Na perspetiva paulina, o homem não é o único interessado na opção pela vida “segundo o Espírito”: toda a criação está dependente das escolhas que o homem faz. Na verdade, em resultado do pecado do homem, a criação inteira ficou submetida ao império do egoísmo e da desordem e está condenada à finitude e à caducidade. Se o homem aderir a Cristo e passar a viver “segundo o Espírito”, superará o destino de maldição e de morte em que o pecado o lançou. Por conseguinte, também o resto da criação será libertado e nascerá o novo Céu e a nova Terra. É a solidariedade entre o homem, os outros animais e a Natureza, tão enraizada na Bíblia.

Assim, toda a criação aguarda, ansiosamente, que o homem escolha a vida “segundo o Espírito”. Até lá, vai nascendo – na dificuldade e na dor – o Homem Novo e Novo Céu e Nova Terra com que todos sonhamos. Isso acontece na dificuldade e na dor, porque a vida “segundo o Espírito” supõe a renúncia ao egoísmo, aos interesses mesquinhos, ao comodismo, ao orgulho e a opção por uma senda de entrega e de dom da própria vida a Deus e aos outros. Paulo utiliza o exemplo das dores do parto, para iluminar a mensagem que está a transmitir. O nascimento da criança ocorre na dor, que é via obrigatória para o nascimento de nova vida.

Vale a pena viver segundo o Espírito. Padecimentos, renúncias, dificuldades, não são nada, em comparação com a felicidade sem fim que espera os crentes no fim do caminho.

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É, pois, justo enaltecer a força da Palavra de Deus e ter consciência de que o semeador é Cristo, que sai a semear a sua semente. Já nós, quando saímos a semear, devemos semear, não a nossa semente, mas a de Cristo, que devemos assumir como nossa.

“A semente caiu em boa terra e deu muito fruto.”

Visitastes a terra e a regastes, / enchendo-a de fertilidade. / As fontes do céu transbordam em água / e fazeis brotar o trigo.

“Assim preparais a terra; / regais os seus sulcos e aplanais as leivas, / Vós a inundais de chuva /
e abençoais as sementes.

“Coroastes o ano com os vossos benefícios, / por onde passastes brotou a abundância. / Vicejam as pastagens do deserto / e os outeiros vestem-se de festa.

“Os prados cobrem-se de rebanhos / e os vales enchem-se de trigo. / Tudo canta e grita de alegria.”

“Aleluia. Aleluia.” “A semente é a palavra de Deus e o semeador é Cristo. / Quem O encontra viverá eternamente.”

2026.07.12 – Louro de Carvalho