A Palavra de Deus do 5.º domingo do
Tempo Comum no Ano A desafia-nos a ser a “luz” que brilha e que ilumina o Mundo
com as cores de Deus, sendo deste modo que devemos marcar a nossa passagem pela
Terra.
***
Na primeira leitura (Is 58,7-10),
um profeta do século VI a.C. insta os habitantes de Jerusalém a serem uma luz
de Deus que ilumina a noite do Mundo. Para tanto, não podem oferecer a Deus o
espetáculo de uma religião feita de rituais vazios e desligados da vida, porque
ser luz de Deus requer a partilha do pão com os famintos, a proximidade com os
injustiçados, o cuidado daqueles de que ninguém cuida, o testemunho da
misericórdia e da bondade de Deus junto de quem sofre.
O jejum é, no universo veterotestamentário,
um ato religioso. Pela sua prática, o crente exprime a Deus, a humildade, a
entrega, o amor. Privar-se de alimento significa a disponibilidade do fiel para
renunciar ao egoísmo, para se humilhar, para se purificar e converter a Deus, para
Lhe obedecer, para se entregar-se nas suas mãos, para acolher a sua ação e o
seu dom.
Os habitantes de Jerusalém esperavam,
com repetidos jejuns, agradar a Deus e obter a intervenção de Deus para que
tudo lhes corresse bem. Todavia, ante a falta de resposta de Deus, insurgiam-se
e que perguntavam para que servia o jejum e a humilhação, se Deus não lhes
prestava atenção.
Deus, através do profeta, explica-Se:
“No dia do vosso jejum, só cuidais dos vossos negócios e oprimis todos os
vossos empregados. Jejuais entre rixas e disputas, dando bofetadas, sem dó nem
piedade. Não jejueis como tendes feito até hoje, se quereis que a vossa voz
seja ouvida no alto.”
Isto significa que o jejum, misturado
com a exploração dos pobres e com violências, se torna um mero ato exterior sem
significado, uma farsa que proclama o que não se sente, nem se vive. Tal jejum
não agrada a Deus, não chega ao céu, ao coração de Deus, porque é uma mentira.
O jejum que Deus aceita e que Lhe
agrada é o cumprimento dos deveres morais e humanos, para a libertação dos
oprimidos, para a eliminação da injustiça, da violência e dos gestos de ameaça.
O trecho em apreço, que define o jejum
autêntico, o que agrada a Deis, postula que se reparta o pão com os pobres e
que se elimine a opressão, a injustiça, a violência, os gestos de ameaça.
Trata-se de viver segundo os compromissos do âmbito da Aliança, obedecendo aos
mandamentos de Deus. Só então o culto fará sentido e será expressão de amor a
Deus e Deus voltará o coração e o rosto para o povo, virá ao encontro de Judá e
caminhará com o povo (“então, se chamares, o Senhor responderá, se o invocares,
dir-te-á: ‘aqui estou’.”). Vivendo de acordo com as indicações de Deus, Judá
será uma luz que brilha no meio do Mundo; e as feridas do Exílio e do pecado
ficarão definitivamente curadas.
Deus não está interessado numa
religião feita de liturgias solenes, de gestos teatrais vazios de significado.
Javé chamou Israel, libertou-o da escravidão, fez com ele uma Aliança,
enviou-lhe os profetas para que fosse luz de Deus a brilhar entre as nações.
Ora, com gestos concretos, sinceros, justos, compassivos, saídos do coração que
ama Deus e obedecem aos seus mandamentos, que o povo de Deus testemunhará, no Mundo
a bondade, a misericórdia e o amor de Deus. Porém, na penúria e de estômago
vazio, não se vê qualquer luz.
***
No Evangelho (Mt 5,13-16),
Jesus recorre a duas metáforas para definir os contornos da missão a confiar
aos discípulos. Os que integram a comunidade do Reino de Deus devem ser “sal da
Terra” e “luz do Mundo”. Com as suas boas obras, devem dar sabor à vida e fazer
desaparecer as sombras que trazem sofrimento à vida dos irmãos.
O grupo dos discípulos, gente pobre e
pouco influente, que aceita viver o espírito das bem-aventuranças não se irá
diluindo, irremediavelmente, no meio do vasto império romano, sem conseguir
contagiar o Mundo com a proposta que recebeu de Jesus. Jesus acredita que,
apesar da grandeza da tarefa e da hostilidade do Mundo, os membros da
comunidade do Reino farão a diferença. Di-lo através de duas metáforas simples,
audazes e surpreendentes: “Vós sois o sal da Terra”, “vós sois a luz do Mundo”.
O sal tornou-se, para nós, elemento
tão normal que não o valorizamos convenientemente. Até o dispensamos por fazer
mal à saúde. Porém, na Antiguidade, era algo bem precioso, de tal modo que os
soldados romanos chegavam a receber o seu soldo pago em sal (o “salário”).
Servia para dar sabor aos alimentos, transformando alimentos insípidos em
alimentos saborosos, e era usado para a conservação dos alimentos, assegurando-lhes
incorruptibilidade. Nesse sentido, usava-se a imagem do sal para significar o
valor durável de um contrato: “aliança de sal” queria dizer “contrato
duradouro”, imperecível, não afetado pela corrupção dos elementos. Também era
habitual colocar-se uma placa de sal nos fornos de terra, como substância capaz
de catalisar o calor. Com o tempo, a placa ia perdendo a capacidade
catalisadora, ficando esse sal inutilizado. Jesus estaria a referir-se a isto,
quando falou do sal que se desvirtua e deixa de ser utilizado para o fim em
vista, mas também à perda da capacidade de salgar, por via da saturação pela
acumulação de alimentos, ao longo do tempo. Era por isso que tinha de se
substituir o sal de vez em quando. Já os discípulos não são substituíveis,
devendo ser fiéis até ao fim.
Com a imagem do sal, Jesus queria
dizer que os discípulos são chamados a trazer ao Mundo algo que este não tem e
que dá sabor à vida humana; e pretendia dizer que, da fidelidade ao programa das
bem-aventuranças, depende a perenidade da Aliança entre Deus e os homens e a
permanência do desígnio salvador e libertador de Deus no Mundo, e que os discípulos
têm como missão iluminar e aquecer o Mundo com a verdade do Evangelho.
Se, porém, os discípulos se recusarem
a ser sal, demitindo-se das suas responsabilidades, o Mundo ficará privado dos
dons de Deus, continuará a conduzir-se por critérios de egoísmo, de injustiça,
de violência, de perversidade, e estará cada vez mais distante da realidade do
Reino que Jesus veio inaugurar. Então, os discípulos, com o seu desleixo, com a
sua preguiça, com a sua recusa em cumprir a missão que lhes foi confiada, terão
defraudado, gravemente, o desígnio de Deus e as esperanças dos homens.
Por seu turno, a metáfora da luz era notória
no judaísmo. Jesus explicita-a em duas imagens.
A imagem da cidade situada sobre um
monte, que não se pode ocultar, leva-nos a Is 60,1-3, onde se fala da luz
de Deus que devia brilhar sobre Jerusalém e, a partir de lá, iluminar todos os
povos. A interpretação judaica do segmento textual “as nações caminharão à tua
luz, e os reis ao esplendor da tua aurora” aplicava a frase a Israel, o Povo de
Deus que devia ser o reflexo da luz libertadora e salvadora de Javé diante de
todos os povos da Terra. A imagem da lâmpada colocada sobre o candelabro, para
alumiar a todos os que estão em casa, repete e explicita a mensagem da primeira,
mas sublinha que esconder a luz de Deus priva o Mundo da referência de que os
homens precisam. Teremos uma alusão ao “Servo de Javé” de Is 42,6 e
49,6, cuja missão consiste em ser, com a sua entrega e com o seu testemunho, a
“luz das nações”.
No Evangelho de João, quem é
apresentado como “a luz” é Jesus (“Eu sou a luz do Mundo. Quem Me segue não
andará nas trevas, mas terá a luz da vida”). Então, os discípulos – os que
aderem a Jesus e são iluminados pela luz de Jesus – participam da missão de
Jesus. Os que vivem o espírito das bem-aventuranças e aderem ao Reino de Deus
são, como Jesus, luz que ilumina o Mundo e aponta caminhos aos homens. De
acordo com Mateus, a luz recebida de Jesus deve manifestar-se, não só em belas
palavras, mas também nas boas obras que praticam e que testemunham o amor, a
bondade, a ternura, a misericórdia de Deus. Essas boas obras são as que Mateus
apresenta na segunda parte das bem-aventuranças: a misericórdia, a pureza de
coração, a construção da paz, a luta pela justiça.
Dessa forma, a comunidade do Reino, o
novo povo de Deus, será a “nova Jerusalém”, a “cidade santa”, a partir da qual
a luz de Deus brilha sobre as nações, elimina as sombras do Mundo e faz
irradiar sobre todos os povos a salvação de Deus. Contudo, a visibilidade que
Jesus pede aos discípulos não postula que procurem lugares privilegiados, onde
podem exibir-se ante o Mundo e concitar aplausos, benefícios e recompensas;
significa, apenas, que devem desempenhar a sua missão profética sem
interrupção, deixando, a cada momento, ao Mundo e aos homens as interpelações e
os desafios de Deus. De resto, a vida de Deus manifesta-se na fraqueza, na
humildade, na simplicidade, na pequenez.
Vivendo como “sal da Terra” e “luz do
Mundo”, os discípulos de Jesus serão fermento da nova Humanidade. Com as boas
obras, anunciarão o Mundo que há de vir, o Mundo de Deus, novo de vida e de
felicidade sem fim, que espera todos os que acolhem a salvação.
***
Na segunda leitura (1Cor
2,1-5), o apóstolo convida os Coríntios a agarrarem-se à “sabedoria de Deus” e
a prescindirem da “sabedoria do Mundo”. A salvação não vem de belas palavras, de
sistemas filosóficos bem elaborados ou de qualidades humanas dos arautos da
mensagem salvífica, mas do amor de Deus, expresso na cruz onde o Filho de Deus
ofereceu a vida e nos deixou a lição do amor até ao extremo. Paulo é testemunha
privilegiada dessa mensagem: viver a partir da loucura da cruz dá pleno sentido
à vida do homem.
Paulo foi enviado por Deus a anunciar
o Evangelho de Jesus na cidade de Corinto. Porém, seja como evangelizador, seja
como ser humano, desenvolveu a missão que lhe foi confiada, apoiando-se apenas
em Deus, sabendo que não podia contar muito com as suas próprias forças e com
as suas poucas qualidades. Como evangelizador, não se apresentou com palavras
grandiosas, com discursos sublimes, com filosofias elaboradas e coerentes, mas com
toda a simplicidade para anunciar o paradoxo de um Deus frágil, que morreu numa
cruz, rejeitado por todos. Ora, apesar das poucas qualidades humanas do
evangelizador, em Corinto nasceu uma comunidade cristã motivada e comprometida,
cheia de força e de fé. E, como homem, apresentou-se cônscio da sua fraqueza,
assustado e cheio de temor.
Não foi pela sedução da sua
personalidade arrebatadora, pelas suas brilhantes qualidades de orador, nem
pelo brilho e coerência da sua exposição ou do seu pensamento que os Coríntios
se sentiram atraídos por Jesus e pelo Evangelho. Abraçaram a fé – difícil de digerir,
visto que se baseia no estranho caso de um Deus que morre na cruz para dar vida
aos homens – porque a força de Deus se impõe, muito além dos limites do homem
que apresenta a proposta ou do ouvinte que a escuta. O Espírito de Deus está presente
e age no coração dos crentes, de modo que eles não se fiquem pelos esquemas da
sabedoria humana, mas se deixem tocar pela sabedoria de Deus.
Os Coríntios devem ter claro que a
salvação não vem da sabedoria do homem, das palavras bonitas do homem, ou das
qualidades do homem; a salvação vem de Deus, vem do amor de Deus mostrado aos
homens na cruz onde Jesus ofereceu a vida. A loucura da cruz manifesta a
“sabedoria de Deus”. É nessa loucura e nessa sabedoria que os Coríntios devem
apostar, pois é aí que está a chave da salvação e da plena realização do ser
humano.
***
Também Leão XIV comentou esta
Liturgia da Palavra, nos ternos seguintes:
“Proclamadas as bem-aventuranças,
Jesus dirige-se aos que as vivem, dizendo que, graças a eles, a Terra já não é
a mesma e o Mundo já não está na escuridão. ‘Vós sois o sal da Terra. […] Vós
sois a luz do Mundo’ (Mt 5,13-14). É a verdadeira alegria que dá
sabor à vida e traz à luz o que antes não existia. Esta alegria irradia de um
estilo de vida, de um modo de habitar a Terra e de as pessoas viverem juntas
que deve ser desejado e escolhido. É a vida que resplandece em Jesus, o novo
sabor dos seus gestos e das suas palavras. Tendo-o encontrado, ‘parece insípido
e opaco’ tudo o que se afasta da sua pobreza de espírito, da sua mansidão e
simplicidade de coração, da sua fome e sede de justiça, que despertam
misericórdia e paz como dinâmicas de transformação e reconciliação.
“O profeta apresenta uma lista de
gestos concretos que põem fim à injustiça: partilhar o pão com o faminto,
acolher em casa os miseráveis, os sem-abrigo, vestir quem vemos nu, sem
esquecer os vizinhos e as pessoas da nossa casa. ‘Então – continua o profeta –
a tua luz surgirá como a aurora, e as tuas feridas não tardarão a cicatrizar-se’.
E vemos a luz, a que não se pode esconder, porque é grande como o sol que todas
as manhãs afugenta as trevas; e uma ferida que, antes, ardia e, agora, está a
cicatrizar.
“É doloroso perder o sabor e
renunciar à alegria, mas é possível ter esta ferida no coração. Jesus parece
avisar quem O escuta, que não renuncie à alegria. O sal que perdeu o sabor, diz
ele, ‘não serve para mais nada, senão para ser lançado fora e ser pisado pelos
homens’. Quantas pessoas – e talvez já tenha acontecido também connosco – se
sentem descartáveis, imperfeitas. É como se a sua luz tivesse sido escondida.
Jesus, porém, anuncia-nos um Deus que nunca nos descartará, um Pai que guarda o
nosso nome, a nossa singularidade. Qualquer ferida será curada ao acolhermos a
palavra das Bem-aventuranças e ao voltarmos a caminhar pela via do Evangelho.
“São os gestos de abertura aos outros
e de atenção que reacendem a alegria. Com certeza que, na sua simplicidade, colocam-nos
em contracorrente. O próprio Jesus, no deserto, foi tentado por outros
caminhos: afirmar a sua identidade, exibi-la, ter o Mundo a seus pés. Todavia, rejeitou
os caminhos em que perderia o verdadeiro sabor, o qual encontramos todos os
domingos no Pão partido: a vida doada, o amor que não faz barulho.
“Deixemo-nos alimentar e iluminar
pela comunhão com Jesus. Sem qualquer tipo de ostentação, seremos como a cidade
no monte, visível, convidativa e hospitaleira: a cidade de Deus, onde todos
desejam habitar e encontrar a paz. A Maria, Porta do Céu, dirijamos o nosso
olhar e oração, para que nos ajude a tornarmo-nos e a permanecermos discípulos
do seu Filho.”
***
Por tudo, é bom louvar com o salmista
e proclamar com o evangelista:
“Para o homem reto nascerá uma luz no
meio das trevas.”
“Brilha aos homens retos, como luz
nas trevas, / o homem misericordioso, compassivo e justo. / Ditoso o homem que
se compadece e empresta / e dispõe das suas coisas com justiça.
“Este jamais será abalado; / o justo
deixará memória eterna. / Ele não receia más notícias: /seu coração está firme,
confiado no Senhor.
“O seu coração é inabalável, nada
teme; / reparte com largueza pelos pobres, / a sua generosidade permanece para
sempre / e pode levantar a cabeça com altivez.”
“Aleluia. Aleluia.”
“Eu sou a luz do mundo, diz o Senhor:
quem Me segue terá a luz da vida.”
2026.02.09 – Louro de Carvalho