domingo, 26 de julho de 2026

As alterações climáticas aumentam o risco de afogamento

 

Mais de 90% das mortes por afogamento ocorrem em países de baixo e médio rendimentos, sendo as principais vítimas as crianças e os jovens. A subida das temperaturas e os fenómenos extremos têm aumentado a ocorrência de afogamentos. Por isso, a Organização Mundial de Saúde (OMS) aposta na promoção da interação segura com a água.

Neste 25 de julho, a Organização das Nações Unidas (ONU) marcou o Dia Mundial da Prevenção do Afogamento, uma das 10 principais causas de morte, entre crianças dos cinco aos 14 anos, e responsável pela morte de cerca de 300 mil pessoas, por ano. 

A OMS – verificando que mais de 90% das mortes, por afogamento, ocorre em rios, lagos, canais, embarcações, poços, reservatórios domésticos de água e piscinas, sobretudo, em países de rendimentos baixos e médios, tendo sido os mais afetados as crianças e os adolescentes das zonas rurais – lançou um novo guia técnico para ajudar os governos e as comunidades a implementar medidas para redução da mortalidade associada ao afogamento. 

O diretor-geral da OMS, Tedros Ghebreyesus, afirma que cada afogamento constitui uma tragédia e adverte que a grande maioria dos casos é evitável.

Neste ano, o tema “Unir para inverter a maré” reflete a necessidade de uma ação coordenada entre governos, setores e comunidades, para prevenir afogamentos e salvar vidas. As sete estratégias traduzem a visão da primeira Estratégia Global para a Prevenção do Afogamento, lançada em 2025, em orientações sustentadas por evidências.

Entre as medidas sugeridas, destacam-se a promoção de infraestruturas seguras, a formação de profissionais de socorro, a promoção da natação e a criação de sistemas de proteção de crianças, bem como a preparação para cheias e para outras emergências similares.

Nos últimos anos, as alterações climáticas têm vindo a aumentar os riscos de afogamento. À medida que os fenómenos extremos, como as ondas de calor, ocorrem com maior frequência, verifica-se um aumento do risco de afogamento.

No Reino Unido, a subida de 1° C (centígrado) na temperatura está associada ao aumento de 7,2% do número de afogamentos. O risco é também quase cinco vezes superior em dias em que as temperaturas ultrapassam os 25°C, em comparação com dias abaixo dos 10 °C.

O Dia Mundial da Prevenção do Afogamento foi proclamado pela Assembleia Geral da ONU em 2021, com vista a ampliar a conscientização sobre uma causa evitável de morte (o afogamento não é inevitável) e a reforçar a responsabilidade dos formuladores de políticas públicas, dos governos e das comunidades na criação de ambientes mais seguros junto à água.

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O referido guia técnico é o pacote técnico PROTECT – Seven strategies to prevent drowning, ou seja, sete estratégias para reduzir as mortes por afogamento, que a OMS apresentou, a 23 de julho, num evento online, às vésperas do Dia Mundial da Prevenção do Afogamento, celebrado em 25 de julho, e que transforma a Estratégia Global para Prevenção do Afogamento em medidas práticas para governos e para formuladores de políticas.

O documento é um pacote técnico para apoiar decisões públicas e para orientar a implementação de ações de prevenção, estimulando a interação segura com a água e oferecendo aos responsáveis por políticas públicas um conjunto de medidas aplicáveis em diferentes contextos.

A OMS associa o agravamento do risco às temperaturas mais elevadas e à ocorrência de fenómenos extremos, fatores que ampliam a exposição das populações a situações perigosas. O lançamento do pacote técnico reuniu representantes de governos, da ONU, das academias e da sociedade civil, para urgir a adoção das estratégias e a troca de experiências.

O pacote “Sete estratégias para prevenir afogamentos” oferece aos formuladores de políticas orientações práticas e baseadas em evidências, para ajudar governos a fortalecer a prevenção de afogamentos, por meio de políticas, de leis e de regulamentações. Apresenta sete estratégias prioritárias que abrangem: a infraestrutura física; o resgate e a reanimação; a segurança ocupacional para trabalhos em áreas aquáticas; as normas de segurança no transporte aquático; a educação em natação básica e em segurança na água; os sistemas de cuidados e proteção infantil; e a preparação para inundações e para outras emergências com múltiplos riscos.

Em conjunto, as estratégias promovem uma abordagem sistémica para a redução dos afogamentos e apoiam objetivos amplos de saúde, de desenvolvimento e de equidade.

Desenvolvido para formuladores de políticas de diversos setores, o pacote foi concebido para apoiar os países no desenvolvimento, na implementação e no fortalecimento de políticas que criem ambientes mais seguros, em relação à água. E, como os países se encontram em diferentes estágios de desenvolvimento, o pacote deve ser adaptado aos contextos nacionais e utilizado, em conjunto com os esforços já existentes, em saúde pública, em desenvolvimento sustentável, em resiliência climática e em desenvolvimento socioeconómico.

Crianças pequenas, adolescentes, trabalhadores expostos à água, comunidades costeiras e populações dependentes de transporte fluvial correm riscos distintos. E os episódios não fatais também podem produzir lesões neurológicas, respiratórias, psicológicas e funcionais graves, com necessidades de cuidados intensivos e de reabilitação prolongada. Enfim, o afogamento, que não acontece só no mar ou durante atividades recreativas, é um problema de saúde pública.

As sete estratégias do referido pacote técnico são: estruturas físicas junto à água; capacidade de salvamento e de reanimação; segurança profissional em trabalhos aquáticos; normas de segurança no transporte por água; ensino de natação básica e de segurança aquática; sistemas de segurança e de proteção infantil; e preparação para cheias e para outras ameaças.

* Estruturas físicas junto à água. A preparação começa antes de se entrar na água. Barreiras físicas em redor de massas de água, coberturas adequadas, manutenção de poços, iluminação e desenho seguro de margens podem impedir exposições perigosas, devendo-se juntar a supervisão infantil e o ensino estruturado de competências aquáticas.

Saber nadar não elimina o risco de afogamento, mas redu-lo. E é de advertir que água fria, traumatismos, fadiga, álcool e problemas de saúde podem afetar mesmo nadadores experientes.

* Capacidade de salvamento e de reanimação. Quando ocorre uma emergência, os primeiros minutos são decisivos. São necessários sistemas que aliem capacidade de salvamento, acesso rápido aos serviços de emergência e formação em reanimação. A tentativa de resgate deve ser feita sem colocar uma segunda pessoa em perigo. Quem não tem formação específica não deve entrar, diretamente, na água (entrar na água sem formação pode criar uma segunda vítima), mas pedir ajuda e procurar alcançar ou lançar um objeto flutuante, a partir de uma posição segura.

E profissionais de saúde, professores, trabalhadores marítimos, responsáveis por piscinas e comunidades isoladas podem receber formação adequada ao contexto em que trabalham.

Muitas vítimas não conseguem agitar os braços nem gritar, e o episódio pode ocorrer rapidamente e em modo de silêncio.

* Segurança profissional em trabalhos aquáticos. No contexto profissional, a prevenção deve integrar avaliação de risco, equipamento de proteção, trabalho em equipa, planos de emergência e formação periódica. E há que advertir que pescadores, tripulações, trabalhadores portuários, equipas de manutenção, forças de segurança e profissionais de turismo podem estar expostos a riscos específicos.

* Normas de segurança no transporte por água. A OMS recomenda normas para embarcações, como utilização de coletes, limitação de lotação, formação de tripulações, comunicações de emergência e adaptação às condições meteorológicas.

* Ensino de natação básica e de segurança aquática. Saber nadar reduz o risco, mas não evita o afogamento. Correntes, fadiga, água fria, álcool, doença súbita e sobrestimação das capacidades individuais podem criar uma emergência. Por conseguinte, os programas, além da natação, devem capacitar em competências práticas, como: segura entrada na água e respetiva saída; flutuação e controlo respiratório; reconhecimento de correntes e de outros perigos; utilização de coletes de salvação; pedido de ajuda; e resgate sem entrar na água.   

* Sistemas de segurança e de proteção infantil. A supervisão infantil deve ser próxima, continuada e feita por adulto que possa intervir. Muita gente não garante, por si, eficácia. Conversas ao telemóvel, outras conversas e refeições podem interromper a vigilância. E é de anotar que o afogamento costuma ser rápido e discreto.

Os sistemas de creche e de supervisão comunitária são importantes para crianças que vivem ou brincam junto de rios, de canais, de lagos e de lagunas ou de poços de água. E lembro-me de uma criança que se afogou num pocito junto a uma obra em construção, em dia de feira, estando os pais ocupados no seu terrado comercial e a criança a brincar em sossego. 

* Preparação para cheias e para outras ameaças. Isso implica a boa gestão das barragens, a limpeza de vias de escoamento de águas (valetas, aquedutos, sarjetas), a regularização de pequenos cursos de água, a monitorização (e reforço, se necessário) de diques, de edifícios e de infraestruturas públicas e a limitação de construções junto a linhas de água.

A OMS avisa que ondas de calor, tempestades e cheias podem aumentar a exposição à água e criar novos riscos. Efetivamente, elevadas temperaturas levam mais pessoas a procurar rios, lagos e praias, incluindo locais sem vigilância. E o risco é aumentado, através de comportamentos inadequados, de ingestão de álcool, bebidas geladas, tempo de exposição, caraterísticas locais e falta de vigilância no terreno.

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Os profissionais de saúde podem e devem contribuir para a minimização dos riscos, através de aconselhamento, de identificação de famílias vulneráveis, de educação em supervisão infantil e de promoção de primeiros socorros. Nos cuidados após um episódio de afogamento não fatal, é preciso avaliar se há complicações respiratórias, lesão neurológica, necessidade de reabilitação, impacto psicológico e segurança no local do acidente.

Os cuidados e medidas individuais não substituem as políticas públicas – aliás, muitas medidas constantes das Sete Estratégias do pacote postulam decisões políticas (por exemplo, a gestão de barragens, a regularização de cursos de água ou a limitação de construções em determinados locais) –, mas podem reduzir os riscos. Em especial, as crianças devem ser supervisionadas permanentemente, as piscinas devem ter barreiras adequadas e devem ser utilizados coletes de salvação nas embarcações. E é importante respeitar a sinalização, evitar a ingestão de álcool, antes de nadar, verificar as condições meteorológicas e escolher zonas vigiadas.

O PROTECT tem, obviamente limitações. De facto, é um pacote de orientação para políticas e não um ensaio clínico. A eficácia depende da aplicação em concreto, da fiscalização, do financiamento, da adaptação cultural e da qualidade dos sistemas de vigilância.

Os registos de afogamento podem levar à subestimação do problema, sobretudo, quando as mortes associadas a cheias, a transporte ou a acidentes são catalogadas de forma diferente.

As prioridades devem ser adaptadas ao perfil do país ou da região, identificando os grupos, os locais e as atividades de maior risco.

As estratégias mostram que prevenir afogamentos é mais do que recomendar prudência em praias, já que o afogamento pode ocorrer em mais lugares e em mais circunstâncias. Requer-se uma abordagem abrangente que combine infraestruturas, educação, proteção da infância, segurança profissional, transporte seguro, resposta de emergência e preparação climática. Para decisores políticos, para profissionais de saúde, para escolas, para municípios e para as comunidades, a mensagem é clara: “A maioria dos afogamentos pode ser prevenida através de sistemas bem concebidos e bem planeados e por ações iniciadas antes da emergência.”

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Em Portugal, o Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM), adverte que o afogamento não envolve grito de ajuda, porque é rápido e silencioso. A pessoa em transe de afogamento não pede ajuda, pois tenta respirar. Assim, os comportamentos típicos de quem se está a afogar incluem: dificuldade dentro de água e de se manter à superfície; desaparecimento súbito debaixo de água; e realização de movimentos semelhantes ao de subir um escadote (na vertical e com as mãos a pressionar, ligeiramente, a superfície da água) ou de movimentos circulares e para trás com os braços estendidos na lateral.

O afogamento pode ocorrer em: praias, piscinas, albufeiras, lagoas, rios, parques aquáticos, tanques de água e poços sem muros de proteção. No caso de crianças, os principais locais de afogamento são as piscinas (28%), seguidas das praias (22%), tanques e poços (22%) e os rios, ribeiros e lagoas (22%). A maior parte dos acidentes ocorre devido à má avaliação dos riscos, nomeadamente: o estado do mar (em termos de corrente, vento, rebentação); a profundidade dos locais de mergulho; a sobrevalorização das capacidades do nadador; a realização de desportos sem a devida proteção; o consumo excessivo de álcool ou de drogas ilícitas; e a existência de doenças debilitantes.

O afogamento é uma das principais causas de morte de crianças e jovens, logo a seguir ao acidente de viação. A maioria das mortes por afogamento ocorre no verão (mais de um terço das mortes é por afogamento), por ser quando a população de risco mais se expõe aos ambientes aquáticos. Uma criança pode afogar-se em menos três minutos, a menos de um palmo de água. Porém, a gravidade do afogamento não se limita aos casos de morte, já que a pessoa hospitalizada na sequência de afogamento tem, não raro, prognóstico reservado.

A forma mais eficaz de prevenção do afogamento é o controlo do acesso à água. Ou seja, a prevenção implica eliminar ou minimizar as causas, que se podem controlar, a saber: frequentar praias vigiadas e respeitar os sinais das bandeiras e as instruções dos nadadores-salvadores; cumprir as regras de segurança na praia e nas piscinas (públicas ou privadas) e seguir as indicações dos nadadores-salvadores; em piscinas privadas, colocar uma vedação e um trinco de fecho automático, para impedir o acesso das crianças à água. Fazer o mesmo para o acesso a poços e a reservatórios de água; em espaço desconhecido, inspecionar o local e tapar poços, tanques e depósitos de armazenamento de água com redes pesadas e não mergulhar, nem deixar as crianças mergulhar; vigiar as crianças (não confiar a segurança de criança pequena a outra mais velha e não deixar correr atrás de bola perdida); ensinar as crianças a nadar, o mais cedo possível; em atividades de recreio, usar colete de salvação e outros dispositivos de segurança; não entrar de repente na água, após longo período de exposição ao sol; evitar refeições pesadas e bebidas alcoólicas e esperar três horas após a refeição, antes de entrar na água; verificar a profundidade da água e se há rochas ou outros obstáculos; evitar nadar sozinho; avisar as pessoas próximas, dos riscos, quando fizer caminhada em rios e em lagoas; e, em caso de cãibra, fora de pé, respirar fundo, pôr-se de costas e boiar até poder nadar para a margem.

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Enfim, toda a cautela é pouca. A vida acima de tudo!

2026.07.26 – Louro de Carvalho

sábado, 25 de julho de 2026

Protestos na Índia levaram à demissão do ministro da Educação

 

Dezenas de milhares de estudantes e outros jovens, que tomaram as ruas de Nova Deli, no dia 20 de julho, e tentaram marchar até à Sansad (Parlamento indiano, com a Lok Sabha, a câmara baixa ou do povo, e a Rajya Sabha, a câmara alta ou Conselho dos Estados), para exigirem a renúncia do ministro da Educação, Dharmendra Pradhan, enfrentaram um vasto cerco das forças de repressão, que dispararam bombas de gás lacrimogéneo, realizaram cargas com cassetetes e desmontaram estruturas do acampamento instalado em Jantar Mantar.

Mantra Yantra ou Jantar Mantar (literalmente, a “fórmula de instrumento”) é uma coleção de 19 instrumentos astronómicos construídos pelo rei Rajput Sawai Jai Singh, o fundador de Jaipur, a capital e a maior cidade do estado do Rajasthan.

No mesmo dia, a Frente Estudantil Revolucionária (RSF) e diversas organizações estudantis e populares (profissionais, famílias e ativistas) organizaram uma marcha de massas na região do terminal de autocarros 8B, em Jadavpur, tradicional ponto de concentração de manifestações perto da Universidade de Jadavpur, em Calcutá, no estado de Bengala Ocidental.

A manifestação de Calcutá reuniu cerca de 1500 pessoas, em apoio aos estudantes de Nova Déli e reivindicou, além da saída de Pradhan, as reivindicações de dissolução da Agência Nacional de Testes (NTA) e a revogação da Política Nacional de Educação de 2020 (NEP 2020).

Convocada pelo Partido Popular das Baratas (CJP, sigla inglesa para Cockroach Janta Party) – movimento juvenil surgido em maio de 2026, depois que jovens desempregados transformaram em ironia uma comparação depreciativa com baratas, feita pelo presidente da Suprema Corte (Supremo Tribunal de Justiça) indiana –, a mobilização concentrou-se em Jantar Mantar e tentou progredir até à Sansad, no primeiro dia da sessão parlamentar de monções de verão. A Polícia de Nova Deli havia negado autorização para a marcha, imposto medidas de exceção no centro da capital e fechado diferentes acessos à região.

Por conseguinte, milhares de manifestantes atravessaram ruas bloqueadas e enfrentaram barricadas policiais. Foram disparadas bombas de gás lacrimogéneo nas proximidades do Clube de Imprensa da Índia, entidade que reúne jornalistas na capital, e do Clube da Constituição da Índia, espaço utilizado por parlamentares e para a realização de debates e atividades políticas. E as forças de repressão atacaram os estudantes com cassetetes, tendo desmantelado, no fim do dia, barracas e outras estruturas montadas no local do protesto. Os portões da Sansad chegaram a estar fechados, temporariamente, ante o avanço da mobilização.

A revolta estudantil ganhou força, depois das denúncias de fugas de informação da prova nacional de ingresso nos cursos de Medicina e de outras áreas da Saúde, a NEET-UG (National Eligibility cum Entrance Test – Undergraduate, principal exame de acesso unificado a estes cursos), tendo mais de dois milhões de estudantes sido atingidos pela anulação dos resultados e pela determinação de realização de nova prova. Os manifestantes sustentam que as sucessivas fugas de informação, as fraudes e os cancelamentos destroem anos de preparação e aprofundam a insegurança entre os jovens pobres, que dependem dos exames nacionais para ingressarem nas universidades ou para conseguirem empregos estatais.

Representantes do CJP apresentaram três reivindicações imediatas a Jagat Prakash Nadda, ministro da Saúde e do Bem-Estar Familiar e membro do gabinete do primeiro-ministro, Narendra Damodardas  Modi: a saída do ministro da Educação, Dharmendra Pradhan; o fim das medidas coercitivas contra o ativista Sonam Wangchuk, retirado à força do acampamento, durante uma greve de fome; e o pagamento de um crore – unidade indiana equivalente a 10 milhões de rúpias – às famílias dos estudantes que morreram, por suicídio, após as fugas de informação da prova. O governo ouviu as reivindicações, mas não assumiu qualquer compromisso de as atender.

Em nota divulgada, após a jornada, a RSF afirmou: “Ontem, 20 de julho de 2026, em apoio aos estudantes em luta em Deli, foi realizada, em Jadavpur 8B, uma marcha de massas, por iniciativa da Frente Estudantil Revolucionária, ao lado de diversas organizações estudantis e populares, exigindo a renúncia do ministro da Educação da União [Indiana], Dharmendra Pradhan, o fim da NEP 2020 e a dissolução da NTA, entre outras reivindicações.”

A marcha saiu do terminal de autocarros 8B, em Jadavpur, e seguiu até Golpark, movimentada área do Sul de Calcutá. Além da RSF, participaram organizações estudantis de esquerda e agrupamentos reunidos numa articulação denominada Fraternidade Estudantil-Juvenil. Também ocorreram ações de solidariedade promovidas por estudantes da Universidade de Jadavpur, da Universidade Presidency, do Colégio Médico de Calcutá e do Instituto Indiano de Estatística, incluindo marchas, concentrações e greves de fome em solidariedade aos estudantes mobilizados em Nova Déli.

Imagens mostram estudantes carregando faixas com as palavras de ordem “Dissolver a NTA” e “Dharmendra Pradhan deve renunciar”. Barnana Mukherjee, militante da Federação dos Estudantes da Índia (SFI), declarou que diferentes organizações se haviam unido em solidariedade aos manifestantes atacados pelas forças de repressão, em Nova Deli. As ações em Calcutá fizeram parte da onda nacional de solidariedade que alcançou Mumbai, Bengaluru, Goa, Guwahati, Thiruvananthapuram, Jammu, Ahmedabad e outras cidades. A repressão não isolou a mobilização da capital: ao contrário, ajudou a transformar uma luta, inicialmente, concentrada nos exames nacionais num amplo questionamento ao governo de Narendra Modi.

A ofensiva de Narendra Damodardas Modi contra a educação não é fenómeno isolado. Medidas semelhantes avançam em outros países: cortes orçamentais, centralização das avaliações, expansão do ensino privado e à distância, precarização do trabalho docente e formação subordinada às necessidades dos grandes monopólios.

Na Índia, o Banco Mundial aprovou, em 2020, um empréstimo de 500 milhões de dólares para o programa “Fortalecimento do Ensino-Aprendizagem e dos Resultados nos Estados” (STARS), destinado à aplicação da NEP 2020 em seis estados. O projeto vincula o financiamento à implantação de avaliações, de metas de desempenho, de recolha de dados e de adequação dos currículos ao mercado de trabalho. Desde 1994, o organismo já destinou mais de três mil milhões à educação escolar indiana. Outro empréstimo de 500 milhões de dólares, destinado ao estado de Gujarat, que abrange 11 milhões de estudantes e 400 mil professores e prioriza a formação para a “empregabilidade”.

É óbvio que os empréstimos do Banco Mundial, como os do Fundo Monetário Internacional (FMI), exigem o cumprimento de normas impostas pela instituição financiadora, mormente, reformas estruturais (ou seja, cortes em salários, em pessoal e em serviços).

A NEP 2020 reúne essas orientações, ao ampliar o ensino virtual, a formação profissionalizante, a centralização dos exames, a autonomia financeira das instituições e a entrada de universidades estrangeiras. E o governo utiliza a reforma para impor, nos currículos, o nacionalismo hindu e conceções bramânicas e anticientíficas. A revista anti-imperialista Nazariya denuncia que a “indianização” da educação combina a difusão da ideologia Hindutva (fascismo indiano) com a submissão do ensino aos interesses imperialistas e dos grandes capitalistas indianos.

A RSF também denuncia a NEP 2020 como medida de privatização da educação, de perseguição política nas universidades e de destruição da formação científica (à laia de Donald Trump). Nas suas mobilizações, a organização liga a reforma educativa à ofensiva fascista bramânico-hindutva e à exploração promovida pelo grande capital estrangeiro e indiano.

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Os protestos continuaram, no dia 23, com milhares de jovens – até adultos de várias idades (profissionais, famílias e ativistas) – a revindicarem a demissão do ministro da Educação indiano, após o escândalo das provas de exame divulgadas ilegalmente, e a exigirem mais transparência, mais emprego e mais oportunidades económicas. Este movimento contestatário e reivindicativo é visto como um dos maiores desafios do governo de Narendra Modi.

A mobilização tornou-se um símbolo de frustrações mais amplas entre a juventude. Em resposta, o primeiro-ministro abordou o tema, numa intervenção televisiva, no dia 23, apelando à criação de tribunais de tramitação acelerada para julgar casos de fuga de exames. E, na plataforma X, afirmou: “Nada é mais importante do que o bem-estar e o futuro dos nossos jovens.”

Entretanto, um dos manifestantes, o estudante de Direito Daksh Bhargava, afirmou: “Em vez de procurar uma solução que lhe seja conveniente, deveria trabalhar para uma solução que sirva o país e dar o exemplo.”

Os protestos, que duram, há mais de um mês, e começaram após fugas de informação, em alguns dos exames de acesso mais competitivos a faculdades de Medicina e a empregos públicos, já ultrapassaram as queixas ligadas às provas. Entre as reivindicações, contam-se reformas do sistema de exames e indemnizações para as famílias dos estudantes que morreram, por suicídio, após as fugas de informação e de provas. O movimento, que ganhou apoio entre indianos de várias idades, pela maneira como aborda a responsabilidade do governo, o desemprego e as oportunidades económicas, é apontado como um dos maiores desafios, até agora, ao executivo de Narendra Modi.

Apesar dos bloqueios nas estradas, os manifestantes reorganizaram-se, na manhã do dia 23, e regressaram ao local do protesto. Entretanto, as autoridades encerraram 16 estações de metro, em toda a zona central de Nova Deli, na tentativa de limitar o acesso às manifestações.

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O movimento lançado pela Cockroach Janta Party, projeto de índole satírica que nasceu nas redes sociais, ganhou força quando o conhecido ativista Sonam Wangchuk se juntou à iniciativa e iniciou uma greve de fome que durou mais de três semanas.

Os líderes garantiam que não interromperiam os protestos, até à demissão do ministro da Educação. Por seu lado, Dharmendra Pradhan acusa a oposição de explorar os estudantes para benefício político. Os partidos da oposição deram apoio às manifestações e utilizam o tema para desafiar o governo, na Sansad. E outras cidades indianas associaram-se ao movimento com iniciativas de solidariedade. Mas os protestos contra o executivo têm levado a repressão mais ampla contra ativistas, contra figuras da oposição e contra manifestações públicas.

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Entretanto, a 25 de julho, Dharmendra Pradhan anunciou a demissão, numa publicação, na rede X, dando grande vitória ao movimento juvenil que liderou protestos, vigílias e greves de fome, em todo o país, contra as alegadas fugas de exames e contra irregularidades no sistema de ensino. “Entristece-me ver o que aconteceu nos últimos dez dias. Isto não é uma questão de prestígio pessoal para mim”, disse Pradhan, em comunicado divulgado na plataforma social X, frisando: “Enviei a minha carta de demissão [redigida em híndi] ao primeiro-ministro.”

Reagindo, o CJP, movimento impulsionado pelas redes sociais que lidera os protestos, afirmou, após o anúncio da demissão de Pradhan, que todas as exigências tinham sido satisfeitas, numa nova ronda de negociações, e que iria pôr fim às manifestações, centradas no local de protesto de Jantar Mantar, no centro de Nova Deli. “Apelamos a todos que abandonem, pacificamente, os locais de protesto”, afirmou, em conferência de imprensa, em Nova Deli, Ashutosh Ranka, porta-voz do CJP, que lançou o movimento.

A demissão de Pradhan representa a primeira concessão significativa do governo do primeiro-ministro a uma das vagas de contestação pública mais visíveis que enfrentou nos últimos anos.

O governo raramente cedeu a pressões públicas prolongadas, nos mais de 12 anos de mandato de Modi. A exceção mais notória ocorreu em 2021, quando foi obrigado a revogar leis agrícolas controversas, após um ano de protestos de agricultores.

A notícia da demissão de Pradhan desencadeou celebrações entre os milhares de manifestantes que acampam, há mais de um mês, no principal local de protestos de Nova Deli. Muitos abraçaram-se e agitaram a bandeira indiana.

O governo tinha procurado, antes, aliviar as tensões, ao anunciar tribunais de tramitação acelerada, para casos de fugas de exames, e ao prometer legislação para reforçar medidas, contra a fraude e contra a corrupção no sistema de provas. Porém, as medidas não convenceram os manifestantes, por não responderem à questão da responsabilidade do governo. E os partidos da oposição, que se juntaram aos protestos, sustentaram que a demissão de Pradhan mostra que o executivo cedeu, ante uma pressão pública prolongada.

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Condenam-se todas as formas de repressão, mas a Índia pode dar-nos uma lição.

Em Portugal, temos um governo sob o espectro da Spinum viva, mas cuja questão ética (e potenciais irregularidades) não foi considerada relevante pelo eleitorado, que renovou a vitória eleitoral do partido do primeiro-ministro, liderado pelo mesmo.

O Ministério da Presidência não passa de departamento de propaganda e de apadrinhamento da política anti-imigração.

O Ministério da Saúde está a desmantelar o Serviço Nacional de Saúde (SNS), através do reforço da privatização, da crise das urgências e das emergências.

O Ministério do Trabalho tentou, por todas as vias, uma iníqua reforma laboral, desrespeitadora dos direitos e da saúde dos trabalhadores e atentatória da dignidade humana em certos casos, mas que não foi por diante. Ainda bem!

O Ministério da Economia e da Coesão Territorial atrasa as compensações às vítimas de incêndios ou de tempestades, atirando com as culpas para outrem, e parece dar a entender que importa “dar” dinheiro aos contribuintes, que eles votarão nos partidos do governo.

O Ministério da Educação atacou a Estratégia Nacional da Educação para a Cidadania, por estar ideologizada e por abusos (sem identificar um caso); não sabe dizer, ao certo, quantos alunos têm estado sem aulas e em que disciplinas; desmantelou uma forte estrutura educativa, entregando os serviços a agências ou a institutos públicos, e criou o caos nos exames nacionais (folhas perdidas, erros na digitalização, problemas com agrafadores, falhas na leitura de QR code, fragilidade nas plataformas, provas trocadas, prazos e calendários alterados – descredibilização dum serviço blindado), começando por atirar as culpas para todos os lados.

O Ministério da Reforma do Estado é liderado por um titular que baseia a reforma no sistema tentativa-erro, quando seria mais eficiente baseá-la na simulação e na testagem. 

O Ministério da Administração Interna é dirigido por personalidade tão elogiada, a princípio (ainda o é por elementos do Partido Socialista), no que não alinhei, mas a sua folha curricular (de jogos informais tão ambíguos), enquanto líder da principal polícia de investigação criminal, teria recomendado a sua não inclusão no governo, sobretudo, a dirigir polícias, cuja missão é a ordem e a segurança pública e o combate à transgressão e ao crime.

Nenhum (a) se demitirá (são bastantes), pois têm a coragem de mudar o país (!).

2026.07.25 – Louro e Carvalho

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Novo pacote: “Reforma da Justiça Administrativa e Fiscal”

 

O Conselho de Ministros de 23 de julho foi dedicado a diplomas na área da Justiça, mormente, a Justiça Administrativa e Fiscal. As medidas foram apresentadas, em conferência de imprensa, pela ministra da Justiça, Rita Alarcão Júdice, e pelo ministro Adjunto e da Reforma do Estado, Gonçalo Saraiva Matias. O próximo passo será o envio à Assembleia da República (AR), atualmente em férias parlamentares, sob a forma de proposta(s) de lei de autorização legislativa para o governo legislar por decreto-lei.

A ocorrência surge em virtude do volume de processos pendentes nos tribunais administrativos e fiscais (TAF), em grande parte, por causa das medidas tomadas em relação à imigração e à nacionalidade, mas também por causa das críticas da Comissão Europeia, segundo a qual a eficiência do sistema judicial se deteriorou em Portugal.

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No relatório anual sobre o Estado de Direito, divulgado a 17 de julho, o executivo comunitário conclui que não só “não se registaram novos progressos, no sentido de melhorar a eficiência do sistema judicial”, como esta se “deteriorou ainda mais”, em particular, nos TAF, com a taxa de resolução dos processos a cair para 48%, em 2024, e o tempo médio de decisão a atingir os 861 dias. Além disso, teme que a deterioração das condições e da segurança nas instalações dos tribunais e do Ministério Público (MP) afete o funcionamento dos tribunais.

Em síntese, Bruxelas aponta, novamente, falhas na eficiência da Justiça, alerta para atrasos na verificação de declarações pela Entidade para a Transparência e reconhece críticas às alterações dos estatutos da agência de notícias Lusa.

Por conseguinte, recomenda a Portugal que intensifique os esforços para melhorar a eficiência do sistema judicial, nomeadamente, garantindo infraestruturas e equipamento adequados nos edifícios dos tribunais e do MP, resolvendo o problema da escassez de oficiais de justiça, e tomando novas medidas para melhorar a digitalização, designadamente, no âmbito da publicação online e da acessibilidade digital das sentenças.

Em 2025, o executivo da União Europeia (UE) pedia mais medidas atinentes aos megaprocessos. Agora, reconhece progressos “significativos”, apontando as medidas em debate na AR e promete continuar a monitorizar os desenvolvimentos nesta área.

Também, no ano passado, a Comissão Europeia insistia na regulamentação da atividade de lóbi e na necessidade de o governo concluir as reformas para melhorar a transparência do processo legislativo. Conclui que, em ambas as áreas, houve “progressos”, incluindo a aprovação, no início do ano, da nova lei do lóbi, mas avisa que “são necessárias novas medidas de implementação e recomenda que o país assegure a criação e a rápida entrada em funcionamento do registo público de lobbying”. E, quanto à transparência do processo legislativo, recomenda a “implementação de instrumentos de avaliação de impacto” e adverte que, apesar de a Entidade para a Transparência estar totalmente operacional, é preocupante o atraso na verificação de declarações, “na sequência de um aumento repentino do número de declarações apresentadas após as recentes eleições”. O problema estará na escassez de recursos humanos.

É ainda de referir que, no final de junho, o Sindicato dos Jornalistas português (SJ) pediu à Comissão Europeia, que verificasse se Portugal está a cumprir o Regulamento para a Liberdade dos Meios de Comunicação Social, em concreto, no caso dos novos estatutos da Lusa. Embora a queixa não venha descrita no relatório, este faz saber que o executivo comunitário reconhece as críticas feitas às alterações na Lusa.

Há ainda referência ao Media Pluralism Monitor de 2026 (MPM 2026). “Embora o MPM 2026 classifique o risco para a independência dos meios de comunicação social de serviço público como muito baixo, salienta o risco que os novos estatutos da Lusa representam para a sua autonomia editorial e a consequente necessidade de acompanhar, de perto, o seu modelo de governação, dado o seu papel central como serviço público”, lê-se no relatório.

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Por conseguinte, o governo anunciou uma reforma da Justiça, na qual sobressai a criação de juízos especializados em imigração, asilo e proteção internacional, a fim de acelerar a resolução dos milhares de processos e intimações contra a Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA), que se acumulam no Tribunal Administrativo de Círculo de Lisboa (TACL). Nos últimos tempos, tem sido este o recurso mais usado pelos cidadãos estrangeiros para obrigar a AIMA a agendar pedidos de autorização de residência, renovações e agrupamento familiar que, sem esta medida, podem demorar anos a ter uma vaga de atendimento.

Foi, igualmente, aprovado o fim da concentração, em Lisboa, dos processos contra a AIMA. Os imigrantes poderão apresentar as ações no tribunal correspondente à sua área de residência, “para equilibrar a distribuição pelo território”. E a simplificação passará também pela criação de formulários específicos, que “facilitem a análise e decisão”.

Estas medidas fazem parte do pacote “Reforma da Justiça Administrativa e Fiscal” (mais um pacote). Neste âmbito, a titular da pasta da Justiça anunciou um mecanismo simplificado para resolver ações administrativas cujo valor não exceda 15 mil euros e que, segundo a governante, representam 23% dos processos, os quais passam a ter “tramitação eletrónica, prazos reduzidos a metade e duração do processo até 18 meses”. Os processos serão redistribuídos entre tribunais e é reforçada a segunda instância com, pelo menos, 58 novas vagas. 

O pacote prevê a possibilidade de criação de novos centros de arbitragem, institucionalizados, à semelhança do Centro de Arbitragem Administrativa (CAAD). A este respeito, o ministro Adjunto e da Reforma do Estado diz que o governo pretende dar mais opções aos cidadãos e às empresas e tirar processos contra o Estado dos TAF, pois os árbitros são juristas com, pelo menos, 10 anos de experiência em Direito Administrativo. Igualmente, está em cima da mesa a criação de uma câmara de resolução de litígios de contratação pública, “para decidir, de forma mais rápida, litígios sobre concursos públicos, adjudicações e exclusões de concorrentes”.

O governo inspirou-se na Espanha e na Dinamarca, onde os casos se resolvem em 35 dias. O recurso para tribunal continua possível, mas o processo segue o seu curso, não ficando suspenso. Deste modo, pretende-se impedir que os concursos públicos fiquem bloqueados, de cada vez que um dos concorrentes impugna o processo.

Outra medida que está em cima da mesa é a criação do procedimento administrativo voluntário de indemnização por responsabilidade civil extracontratual do Estado que permita aos cidadãos pedirem, diretamente, uma indemnização ao Estado. Gonçalo Matias diz que, hoje, os cidadãos estão obrigados a recorrer aos tribunais para pedirem o dinheiro. No futuro, os tribunais só intervirão, se não houver acordo entre as partes.

A justiça administrativa e fiscal tem sido alvo de sucessivas vagas de reforma ou planos de reforma. O governo apresenta mais uma. Todavia, em vez de apresentar as propostas legislativas na AR, para discussão parlamentar, avança com a figura do pedido de autorização legislativa, que limita o campo de ação da oposição.

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“É sabido que a justiça administrativa e fiscal sofre de um problema de prazos. Era necessária uma reforma de fundo e que olhasse para os vários problemas”, disse Gonçalo Matias, no briefing do Conselho de Ministros. “Há um conjunto de questões que podem ser resolvidas por redução dos litígios e, ainda, medida importantes de natureza processual com o reforço de meios dos tribunais administrativos e fiscais”, declarou, vincando que é preciso “tornar esta justiça mais rápida e simples”. Para tanto, será criada a câmara de resolução de litígios, para permitir, em 35 dias, resolver litígios relativos a contratos, o que possibilitará resolver, em pouco mais de um mês, “casos de concursos públicos que ficavam parados por impugnação de uma das partes”. Ou seja, uma autoridade administrativa independente, com sede em Lisboa, decidirá, “de forma mais rápida, litígios sobre concursos públicos, adjudicações e exclusões de concorrentes”. E as suas decisões são vinculativas e executórias, mas admitindo recurso para os TAF.

Além disso, o ministro reformador falou da possibilidade de acesso dos cidadãos ao procedimento administrativo voluntário para efeitos de indemnização, sem terem de recorrer, de imediato, aos tribunais. O pedido pode ser apresentado, no prazo de um ano, após o facto lesivo, e o Estado pode propor uma solução, em dinheiro, em espécie ou em pagamentos periódicos. Se o cidadão não aceitar a proposta, mantém o direito de recorrer aos tribunais. Igualmente, haverá um novo regime de resolução de litígios entre cidadãos ou empresas e a administração pública (AP) fora dos tribunais, pela criação de centros de arbitragem. “O Estado vincula-se à decisão desses centros, e o cidadão tem uma opção”, explicitou o governante, frisando que a diversificação dos meios de resolução dos litígios ajuda a retirar processos dos TAF.

Em concreto: todas as ações em que uma das partes seja o Estado – por exemplo, a Autoridade Tributária (AT) – e cujo valor não ultrapasse os 15 mil euros terão de ser resolvidas – em primeira instância (TAF ou TACL), antes do recurso – no período de 18 meses. E a produção de prova será limitada aos aspetos essenciais. Caso exista ou se consiga acordo entre as partes, os tribunais devolvem 25% do valor pago em taxas de justiça. As ações serão todas feitas, utilizando formulários eletrónicos padronizados e a sentença do juiz pode ser meramente oral, e não por escrito, como tem sido até aqui.

A proposta de reforma da justiça administrativa e fiscal prevê ainda a criação de juízos especializados em imigração e proteção internacional, e o fim da concentração em Lisboa dos processos judiciais contra a AIMA. Entre as principais alterações está a possibilidade de os cidadãos passarem a apresentar ações contra a AIMA no tribunal correspondente à sua área de residência – substituindo o atual modelo que concentra estes processos no TACL – com o objetivo de reduzir atrasos e descongestionar aquele tribunal.

A proposta prevê ainda a criação de juízos especializados em imigração, asilo e proteção internacional, bem como alterações ao Estatuto dos Tribunais Administrativos e Fiscais, para reforçar a transparência e a gestão dos magistrados.

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“Queremos reduzir pendências e, para isso, fizemos uma radiografia aos tribunais administrativos e fiscais” disse Rita Júdice, no briefing do Conselho de Ministros, vincando o problema agudo, nos TAF e em Lisboa, e prometendo, para as ações, até 15 mil euros, que representam 23% do total, um sistema de simplificação para esses processos.

Na ótica do governo, “grande parte destes processos corresponde a litígios de reduzido valor económico que, apesar da sua menor complexidade, seguem, atualmente, a mesma tramitação aplicável aos restantes processos, consumindo recursos e contribuindo para o aumento dos atrasos”.  Porém, o novo regime mantém as garantias processuais, permitindo que os processos sejam remetidos para a tramitação comum, sempre que a sua complexidade o justifique, assegurando resposta célere, sem comprometer a qualidade da decisão judicial. O objetivo é “incentivar soluções consensuais e reduzir a litigância desnecessária, procurando responder a um problema estrutural da justiça administrativa” que se traduz em excesso de processos pendentes, em tramitação demasiado pesada para litígios de reduzido valor, em demora na resolução de conflitos entre cidadãos, empresas e a AP.

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As pendências na primeira instância (TAF e TACL) têm sido reduzidas, nos últimos anos, mas, desde 2024, verifica-se um problema agudo com os processos urgentes de intimação. De 2023 para 2024, o número de processos com um ano de atraso passou de cerca de 12700 para cerca de 58600, os processos com entre um e cinco anos desceram de cerca de 25900 para cerca de 21400 e os processos com mais de cinco anos diminuíram de cerca de 11200 para cerca de 10800. Este problema está, em grande medida, geograficamente circunscrito ao TACL, com impacto significativo no seu desempenho global.

Em Lisboa, de 2023 para 2024, o número de processos com um ano de atraso passou de cerca de 3600 para cerca de 49600, enquanto os processos com entre um e cinco anos desceram de cerca de 7600 para cerca de 900, e os processos com mais de cinco anos subiram de cerca de 4400 para cerca de cinco mil. Há ainda problemas conexos com a duração média dos processos e com constrangimentos na segunda instância, nomeadamente, no Tribunal Central Administrativo do Sul (TCAS), onde a maioria dos processos tinha cerca de sete anos, em junho de 2024.

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Em síntese, a medidas preconizadas são:

* Criação da autoridade administrativa independente, para decidir, rapidamente, litígios atinentes a concursos públicos, a adjudicações e a exclusão de concorrentes. As decisões são vinculativas, mas há possibilidade de recurso para os TAF.

* Pedido de indemnização, através de procedimento administrativo. Se o cidadão não concordar com a proposta apresentada, mantém o direito de recorrer à Justiça.

* Rapidez nos processos. As ações administrativas até 15 mil euros terão tramitação eletrónica, prazos reduzidos para metade e duração máxima de 18 meses. E são reforçados os poderes dos juízes, na gestão de processo, e clarificadas regras de processos urgentes e cautelares.

* Mais arbitragem. Cidadãos e empresas poderão resolver litígios com a AP, através de centros de arbitragem, evitando os tribunais, em alguns casos.

* Mudanças na organização dos TAF, com destaque para a imigração: serão criados juízos especializados em imigração e proteção internacional; os processos contra a AIMA são distribuídos por diferentes zonas do país; e o Conselho Superior dos Tribunais Administrativos e Fiscais (CSTAF) ganha mais competências de gestão e de disciplina.

* Aumento do o número de árbitros, de 40 para 60, no Tribunal Arbitral do Desporto; distribuição equilibrada dos processos; e reforço das garantias de independência e de proteção de menores e de pessoas vulneráveis.

* Reorganização da AP. É reforçado o papel do Centro Jurídico do Estado, criado um Conselho Consultivo e aumentada a estrutura interna da AIMA.

* Criação da unidade especializada no CSTAF, para auditar sistemas informáticos, identificar riscos, como os atinentes à inteligência artificial (IA), e reforçar a proteção de dados.

* Carreiras. Haverá novas regras para o recrutamento de técnicos de justiça e escrivães; extingue-se a carreira de administrador prisional; haverá novas carreiras de técnico superior de reintegração social e de técnico de reintegração social.

* Por fim, aprovação do regime único de assessoria técnica especializada para juízes e magistrados do MP, para libertar magistrados para a atividade jurisdicional, reduzir pendências processuais e melhorar a qualidade técnica das decisões judiciais.

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Esta reforma junta-se à que está curso no Código Penal (CP) e no Código do Processo Penal (CPP), bem como na orgânica do Tribunal de Contas (TdC). Veremos se o ministro reformador terá mais sorte, nesta área do que teve na da Educação.

2026.07.24 – Louro de Carvalho

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Portugal é destino “de confiança” para cabos submarinos

 

A 21 de julho, sob o título “Nuvem já está amarrado em Sines, reforçando Portugal como destino ‘de confiança’ para cabos submarinos”, o ECO online publicou um texto do jornalista Tiago Alexandre Pereira, revelando que o cabo submarino “Nuvem”, de cerca de sete mil quilómetros, da Google, já está amarrado em Sines, reforçando o papel de Portugal nas ligações digitais entre a Europa e os Estados Unidos da América (EUA), e que a nova infraestrutura transatlântica, a entrar em funcionamento, em 2027, “liga Myrtle Beach, na Carolina do Sul, a Sines, na costa alentejana, com passagem pela ilha açoriana de São Miguel e pelas Bermudas”.

Segundo a gigante tecnológica de Mountain View, o “Nuvem” será o primeiro sistema de cabos submarinos a ligar, diretamente, os EUA aos Açores e a Portugal continental, bem como o primeiro sistema transatlântico a ter um ponto de aterragem nas Bermudas.

Como explica o jornalista, o “Nuvem” consiste num novo sistema de cabos submarinos transatlânticos, concebido para reforçar a resiliência das ligações de rede, no Atlântico, a fim de responder ao aumento da procura por serviços digitais e de diversificar as rotas internacionais de conectividade. E, para a Google, o projeto contribuirá para o desenvolvimento da infraestrutura de tecnologias de informação e comunicação (TIC), nos países abrangidos.

Também a 23 de julho, surge na Euronews, sob o título “Sete mil quilómetros de cabos submarinos vão ligar Portugal aos EUA: o que é o sistema ‘Nuvem’?”, em que a jornalista Ema Gil Pires, refere que, “anunciada, pela primeira vez, pela Google, em 2023, a nova ligação transatlântica de cabos submarinos conectará Portugal, as Bermudas e os Estados Unidos [da América]”, prometendo a explicação do projeto, dos objetivos e dos principais intervenientes.

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Decorreu, na manhã do dia 21, a cerimónia oficial de lançamento do sistema de cabos submarinos transatlânticos “Nuvem”, da Google, no Oceanário de Lisboa. No seu discurso, no evento, o ministro Adjunto e da Reforma do Estado, Gonçalo Saraiva Matias, afirmou que está em causa um novo investimento que visa ligar “a América do Norte e a Europa, ao longo de um novo corredor digital que atravessa o Atlântico”.

No dizer do governante, quando “cerca de 95% de todos os dados do Mundo transita por cabos submarinos”, Portugal “chega-se à frente para ser um dos principais atores de um projeto que será o primeiro a conectar, diretamente, o país aos EUA”.

O ministro Adjunto e da Reforma do Estado defendeu que Portugal reúne condições para continuar a atrair investimento tecnológico, destacando que o Estado está a tornar-se “mais rápido, mais simples e mais previsível”, para que os investidores “não encontrem obstáculos, mas parceiros”. E considerou que esse esforço explica a sucessão de investimentos em infraestruturas digitais no país.

Gonçalo Matias sublinhou que o “Nuvem” reforça a posição estratégica de Portugal, nas ligações internacionais de dados, e que o cabo “adiciona resiliência” à rede global ao criar rotas alternativas que reduzem a dependência de um número limitado de corredores, garantindo que, quando uma ligação é interrompida, outras asseguram a continuidade do serviço.

O governante frisou que tal redundância fortalece a segurança e a fiabilidade das comunicações, sustentando serviços essenciais, como hospitais, bancos, administrações públicas e cidadãos. E, em seu entender, o projeto mostra que “as soluções tecnológicas mais avançadas também podem ser as mais seguras”.

Por sua vez, John Arrigo, embaixador dos EUA em Lisboa, defendeu que este investimento confirma a crescente aposta norte-americana em Portugal, onde são esperados, até 2031, mais de 40 mil milhões de dólares de investimento tecnológico norte-americano, valor que, na sua ótica, fará do país “a maior concentração de investimento em infraestrutura de inteligência artificial (IA) americana em toda a Europa”. E, segundo o diplomata, a sucessão de investimentos de empresas norte-americanas mostra que Portugal se consolidou como parceiro estratégico.

O embaixador sublinhou ainda a importância geopolítica dos cabos submarinos, defendendo que Portugal deve continuar a afirmar-se como destino para infraestruturas seguras: “Cada novo cabo de confiança que chega à costa portuguesa é um cabo que deixa de chegar a outro local menos fiável. Devemos garantir que esta infraestrutura crítica seja tratada como tal”, afirmou John Arrigo, vincando que a política dos EUA procura impedir que fornecedores considerados não confiáveis integrem qualquer etapa da cadeia de abastecimento, uma preocupação que é importante para Washington e também o deve ser para Lisboa.

Na sua intervenção, o embaixador apelou à Europa para aprofundar a cooperação com os EUA no desenvolvimento das infraestruturas digitais. “Este é, exatamente, o modelo de que a Europa precisa, agora”, afirmou, incentivando Portugal a levar a mensagem a Bruxelas. Na sua perspetiva, “a escolha da Europa não é entre soberania e parceria”, mas entre “construir o futuro digital com aliados de confiança ou tentar construí-lo sozinho e ficar para trás”. E acrescentou que Portugal, “situado no lado Oeste do Atlântico e no centro do mapa dos cabos transatlânticos”, mostra que “a abertura e a força não são opostas”.

John Arrigo enquadrou o investimento como uma questão de segurança nacional (deveria sê-lo para as duas partes, e não só para os EUA), lembrando que os cabos submarinos transportam mais de 95% do tráfego mundial de dados. Além de suportarem comunicações e transações financeiras, são, como enfatizou o diplomata, fundamentais para a partilha de informação entre os aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), contribuindo para reforçar a segurança coletiva.

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Após o “Equiano”, lançado em 2022 (que aproximou a Europa e a África) e o “Nuvem”, que foi amarrado, agora, em parceria com a MEO, a Google tem prevista, para 2027, a amarração do cabo submarino Sol que, embora não passe pelo território continental, ligará a Florida, nos EUA, as Bermudas, os Açores e a Espanha, funcionando de forma complementar ao “Nuvem”. Em conjunto, estes sistemas deverão interligar-se em pontos estratégicos, reforçando a capacidade e a fiabilidade da rede da Google, designadamente, para suportar serviços de cloud e de inteligência artificial (IA).

O “Nuvem” foi, inicialmente, anunciado em 2023, durante a governação socialista de António Costa, tendo sido destacado pelo então ministro das Infraestruturas, João Galamba, “como um investimento estratégico para posicionar Portugal como porta de entrada de conectividade para a Europa e para a ligação entre continentes”, vincando a importância da articulação entre o governo português, as entidades nacionais e a Google.

O cabo submarino tem a extensão de cerca de 6900 quilómetros. Em termos de capacidade, cada par de fibras óticas terá um débito total projetado de, aproximadamente, 24 terabits, por segundo (Tbps). No total, o sistema será composto por 16 pares de cabos, o que permitirá atingir uma capacidade agregada de 384 Tbps.

O projeto “Nuvem” prevê ainda a instalação de um data center nos Açores, reforçando o papel do arquipélago como hub estratégico nas comunicações transatlânticas. E a Google prevê que o projeto tenha um impacto de 500 milhões de euros na economia portuguesa e espera posicionar a região no centro das ligações entre a Europa e os EUA, no contexto da crescente procura por capacidade de processamento e de armazenamento de dados.

Em declarações à margem do evento, o presidente do Governo Regional dos Açores, José Manuel Bolieiro, defendeu que a amarração dos cabos submarinos da Google representa “uma importância disruptiva” para o papel do arquipélago, na economia do futuro, e que estas infraestruturas poderão ter papel relevante, enquanto smart cables, que permitem acompanhar indicadores climáticos, ambientais e energéticos.

Os Açores deixam de ser só “uma ponte” no Atlântico, para assumirem também o papel de “sala de controlo” das novas economias, graças à conjugação da sua posição geográfica com as novas tecnologias. E o governante açoriano considerou que esta estratégia reforça o posicionamento do país na ligação entre a Europa, a África e todo o continente Americano.

O líder do Governo Regional alertou para a necessidade de renovar os cabos submarinos que asseguram as ligações entre os Açores e o continente, salientando que parte dessas infraestruturas já está em fim de vida útil. “Temos vindo a criar, pressão, porque o chamado Anel CAM, que é a responsabilidade do Estado, e que liga, exatamente, o continente aos Açores e à Madeira, tem de ter redundância. Já terminou a vida útil dos atuais cabos, está na hora de os substituir e [de] fazer um upgrade”, conclui José Bolieiro.

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Ema Gil Pires lembra que o projeto foi anunciado, pela primeira vez, pela Google, em 2023.tendo sido, imediatamente, descrito como “um novo sistema de cabos submarinos transatlânticos” para ligar Portugal, as Bermudas e os EUA. De acordo com a empresa, do lado norte-americano, “o ‘Nuvem’ terá como ponto de amarração a Carolina do Sul”, mais concretamente, Myrtle Beach e, em Portugal, Sines será o terminal, com pontos intermédios nas Bermudas e nos Açores.

Sobre a importância destes cabos, a jornalista, sustenta que estes são a espinha dorsal da Internet mundial, visto que são responsáveis pelo transporte de cerca de 99% de todo o tráfego internacional de dados, desde chamadas, mensagens e vídeos até pagamentos. Sem eles, a comunicação global, transações financeiras e serviços em nuvem seriam inviáveis, já que os satélites não possuem capacidade de banda suficiente.

Ao contrário dos satélites, que podem ser afetados por condições atmosféricas, os cabos repousam no leito oceânico profundo, protegidos por múltiplas camadas de aço, de cobre e de polímeros, que os protegem da pressão, das correntes e até de ataques de tubarões.

É óbvio que os cabos submarinos não estão completamente imunes a avarias, mas a maioria ocorre, acidentalmente, por atividade humana, como a pesca ou a ancoragem, seguidas por riscos naturais, como terramotos, deslizamentos submarinos e tsunamis. Além disso, desafios, como a infraestrutura envelhecida e ambientes regulatórios complexos, podem complicar os esforços para manter a resiliência.

A nível dos objetivos do “Nuvem”, Ema Gil Pires recorda que, ao anunciar o projeto, a Google frisou que o “Nuvem” visava “melhorar a resiliência da rede, no Atlântico, e ajudar a responder à procura crescente por serviços digitais”. Ao mesmo tempo, explicitou que o “percurso do novo cabo” pretende “acrescentar diversidade às rotas internacionais e apoiar o desenvolvimento da infraestrutura de tecnologia de informação e comunicação (TIC), para os continentes e [para os] países envolvidos”.

Do discurso do ministro Gonçalo Matias, na cerimónia de lançamento do “Nuvem”, a jornalista salienta a asserção de que o estabelecimento deste novo sistema “faz mais do que acrescentar mais uma linha” do Atlântico, criando “percursos alternativos para a transmissão de dados” e reduzindo “a dependência da Europa, em relação a um pequeno número de corredores sobrecarregados”. Portanto, o projeto oferece “resiliência”.

Quanto aos envolvidos, o ministro Adjunto e da Reforma do Estado explicitou que o sistema “Nuvem” é um projeto que assenta “na parceria entre a Google e a MEO, entre a ambição pública e o investimento privado, entre duas nações”, Portugal e os EUA, há muito unidas pelo mesmo oceano que, “agora transporta os nossos dados”. E a MEO, em comunicado citado pela agência Lusa, confirmou que vai integrar o sistema de cabo submarino Nuvem, ao tornar-se “investidor e parceiro nacional de uma das mais relevantes infraestruturas digitais do Atlântico”.

No entanto, a MEO não concretizou que investimento realizará no âmbito deste projeto, apenas adiantou que, “ao estabelecer uma ligação direta entre Portugal e os EUA, o sistema reforça, igualmente, a atratividade do país para investimentos em centros de dados, [em] plataformas cloud e [em] serviços tecnológicos globais”.

Porém, como vimos e Ema Gil Pires sublinha, este não é o primeiro investimento deste tipo realizado pela Google, em pleno Oceano Atlântico. Em 2022, o “Equiano” contribuiu para aproximar a Europa e a África. E, tal como descrito pela gigante tecnológica norte-americana, este é um cabo submarino que “começa na Europa Ocidental e percorre a costa oeste da África e liga Portugal à África do Sul, aumentando a conectividade e as oportunidades de envolvimento entre países da Europa e de África”.

À sua instalação seguiu-se a de “Firmina”, um enorme cabo submarino instalado pela tecnológica com vista a conectar a costa Leste dos EUA, uma vez mais, por via da Carolina do Sul, à América do Sul (Argentina, Brasil e Uruguai), não envolvendo, portanto, Portugal.

Porém, ainda sob a alçada da Google, o país espera alojar, em 2027, outro projeto: o “Sol”. Este será, como refere a empresa tecnológica norte-americana, “um novo sistema de cabos submarinos transatlânticos que conectará os EUA, as Bermudas, os Açores e a Espanha”, completando, assim, “o investimento único” da empresa em “resiliência transatlântica”.

A razão de este investimento ser em Portugal é geográfica. “Situamo-nos no extremo ocidental da Europa, no ponto mais próximo das Américas, a ponte natural para África”, sublinhou o governante responsável pela pasta da Reforma do Estado. E a Google tinha já destacado este ponto, apontando que a “localização geográfica estratégica” do país “no Sudoeste da Europa continental” o transformou num “porto para cabos submarinos”.

Porém, o governante acrescentou que o país oferece: “estabilidade, num Mundo onde esta escasseia”; “talento – engenheiros, investigadores, uma geração jovem versada em tecnologia e em línguas”; e “energia limpa e competitiva, de que os centros de dados necessitam tanto quanto precisam de ligação”.

Na verdade, Portugal destaca-se como um dos líderes europeus na transição energética. A Pordata, no “Retrato Ambiental de Portugal, feito pela a propósito do Dia Mundial do Ambiente, que se assinalou a 5 de junho, releva que o país está entre os quatro estados-membros da União Europeia (UE) onde mais de 95% da energia produzida tem origem em fontes renováveis (97,8%), com base em dados referentes a 2024. Porém, para a Google, outro fator revelou-se importante: o “foco do país no reforço da infraestrutura da economia digital”.

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Os cabos submarinos são uma infraestrutura “essencial para a vida moderna e para a economia europeia”. O secretário-geral adjunto da União Internacional de Telecomunicações (UIT), Tomas Lamanauskas, chama-lhes autoestradas digitais, pois transportam enormes quantidades de informação, em pouco tempo, e oferecem menor latência (tempo necessário para um sinal viajar da origem ao destino), bem como preços grossistas mais baixos do que as ligações por satélite. Precisam, no entanto, de vigilância contra ações de sabotagem e contra avarias.

E a Marinha diz que a chegada da Plataforma Naval Multifuncional (o NRP D. João II) será um contributo importante no zelo da soberania, nas águas territoriais e sob jurisdição portuguesa, por onde passam os cabos submarinos, estruturas vitais para as comunicações de dados.

2026.07.23 – Louro de Carvalho

A força e a coragem exemplares de Maria Madalena

 

No Evangelho, a força feminina surge discreta, profunda e decisiva: não como domínio, imposição, conquista de poder, mas como fidelidade, permanência, coragem, maternidade espiritual, escuta, serviço, profecia e testemunho. As mulheres do Evangelho não são meros figurantes na História da Salvação. Participam no caminho de Jesus, acolhem a sua Palavra, servem a sua missão, permanecem ao pé da cruz e são as primeiras testemunhas da Ressurreição. Entre elas, Maria Madalena ocupa um lugar singular. É uma das figuras mais luminosas do Novo Testamento. A sua presença junto ao túmulo vazio, descrita no Evangelho de João, revela admirável força. Chora, procura, permanece e ama. E a cena mostra um dito de enorme intensidade: “Diz-me onde o puseste, e eu irei buscá-lo” (cf. Jo 20,15).

No dito, há uma teologia inteira do amor. A Madalena não sabe onde Jesus está. Não compreende o mistério da Ressurreição. Pensa que terão levado o corpo do Senhor, mas dispõe-se a procurá-lo. Não pergunta se terá força. Não calcula os riscos. Não se intimida, ante a impossibilidade. Apenas ama. E por isso, diz: “Eu vou buscá-lo.” Esta força feminina nasce do amor fiel, não se rende à ausência, não foge ante a dor e não aceita a morte como última palavra.

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Jesus causa uma profunda valorização da mulher. Numa cultura de silenciamento da voz feminina, Ele acolhe, escuta, cura, perdoa, envia e confia missões às mulheres. No Evangelho de Lucas, lê-se que algumas acompanhavam Jesus e os Doze: “Os Doze iam com Ele, e também algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e enfermidades: Maria, a Madalena, da qual haviam saído sete demónios; Joana, mulher de Cusa, administrador de Herodes; Susana e muitas outras, que os serviam com seus bens” (Lc 8,1-3).

O texto mostra que as mulheres não estavam só à margem, a observar de longe, mas participavam na missão: ajudavam, serviam, sustentavam, caminhavam com Jesus. Entre elas, aparece Maria Madalena, profundamente tocada pela misericórdia do Senhor. A saída de sete demónios indica libertação radical. O número sete, na linguagem bíblica, indica totalidade. Assim, a Madalena é a mulher profundamente restaurada de todos os males, e a sua força nasce da experiência da misericórdia. Quem foi levantado por Cristo sabe permanecer com Ele.

As mulheres aparecem e permanecem junto da cruz, quando muitos discípulos se dispersam: “Estavam ali muitas mulheres, olhando de longe; tinham seguido Jesus, desde a Galileia, prestando-lhe serviços” (Mt 27,55). “Estavam ali também algumas mulheres, olhando de longe. Entre elas, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago menor e de José, e Salomé. Elas seguiam-No e serviam, quando Ele estava na Galileia” (Mc 15,40-41). “Junto à cruz de Jesus estavam a sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria de Cléofas, e Maria Madalena” (Jo 19,25).

Aqui aparece uma das dimensões profundas da força feminina: a capacidade de permanecer, tudo parecendo perdido. Elas não impedem a crucifixão, mas permanecem. Não têm poder político para salvar Jesus, mas estão. Não podem retirar os cravos, mas sustentam com presença, com lágrimas e com amor. É uma força não barulhenta, mas de presença corajosa.

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A Madalena não pode ser compreendida, só a partir do túmulo vazio. Para a entender, é de recordar que fez caminho com Jesus. Foi libertada, acompanhou-O, esteve junto à cruz, viu onde o corpo foi colocado e voltou ao túmulo. Não abandona o Senhor. Está presente na paixão, na sepultura e na manhã da Ressurreição. Viu onde Jesus foi colocado: “Maria Madalena e Maria, mãe de José, observavam onde ele era colocado” (Mc 15,47). Foi ao túmulo com outras mulheres: “Passado o sábado, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé compraram perfumes para ungir o corpo de Jesus” (Mc 16,1). E, no Evangelho de João, a sua presença é mais pessoal: “No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo de madrugada, quando ainda estava escuro, e viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo” (Jo 20,1).

A expressão “quando ainda estava escuro” tem valor simbólico. Era noite fora e no coração de Maria, que deambulava na escuridão da perda, da dor, da incompreensão. Porém, foi. A fé nem sempre começa com clareza, mas com um passo no escuro. A Madalena vai ao túmulo, porque ama. O amor move-a, antes da compreensão. A sua fidelidade leva-a ao lugar onde o mistério será revelado. Ela é a imagem do coração inquieto de que fala Santo Agostinho, ao comentar a busca de Deus, afirmando que o coração humano permanece inquieto, enquanto não repousa no Senhor. Ela não se contenta com explicações. Não se satisfaz com a ausência. Não aceita que tudo terminou. Busca Aquele que dá sentido à sua vida. A sua força está nessa busca. Não se acomoda, ante do vazio. Vê o túmulo aberto, vê a ausência do corpo, vê os sinais, mas procura. Quem ama não desiste ao primeiro sinal de perda.

O Evangelho de João narra: “Maria estava do lado de fora do túmulo, chorando. Enquanto chorava, inclinou-se para olhar dentro do túmulo” (Jo 20,11) – uma imagem humana. Está do lado de fora e chora. Este choro não é fragilidade negativa. Na Bíblia, o choro é, por vezes, a linguagem da alma. As lágrimas expressam dor, amor, saudade, impotência e esperança. E algumas não significam falta de fé, mas profundidade do amor. Jesus chorou diante do túmulo de Lázaro: “Jesus chorou” (Jo 11,35). Se o Filho de Deus chora, as lágrimas não são sinal de fraqueza espiritual: podem ser lugar de encontro com Deus. E a Madalena chora, porque perdeu o Senhor. O seu pranto exprime o amor fiel.

A força feminina irrompe: não nega a dor; não finge estar bem; não espiritualiza a perda de modo superficial. Chora, mas não fica paralisada. Inclina-se para olhar para dentro do túmulo. Há movimento na dor. Há busca no pranto. Essa atitude é significativa: chora, mas procura. Maria Madalena representa a força feminina que não precisa de negar a própria sensibilidade para ser forte. A sensibilidade é parte da força. Ela ama com profundidade. E quem ama profundamente sofre profundamente. O amor que sofre é capaz de ir além. Maria olha para dentro do túmulo e vê dois anjos vestidos de branco e sentados onde estivera o corpo de Jesus, um à cabeceira e outro aos pés. E perguntam: “Mulher, por que choras?” (Jo 20,13). O céu interessa-se pelas lágrimas de Maria. Deus não despreza o sofrimento. A dor da mulher diante do túmulo é acolhida pela pergunta dos anjos, que não a repreendem. E a resposta revela o coração: “Levaram o meu Senhor, e não sei onde o puseram” (Jo 20,13).

Não diz que levaram o corpo, mas: “Levaram o meu Senhor”. Esta frase mostra intimidade, pertença, amor. Jesus não é lembrança distante. Ele é “o meu Senhor”. Maria fala tem uma relação pessoal com Cristo. A espiritualidade cristã nasce dessa relação pessoal. Jesus não é só doutrina a estudar, tradição a preservar ou personalidade religiosa a admirar. É o Senhor vivo, amado, procurado, seguido.

São Gregório Magno vê, em Maria Madalena, o ardor da alma que ama. Ela procura o Senhor e, porque procura com amor, torna-se digna de O anunciar. A busca de Maria é pedagógica para a Igreja: quem deseja anunciar Cristo precisa de O amar e de O procurar. Maria não se impressiona com os anjos. Eles aparecem diante dela, mas o coração dela está voltado para Jesus. Os sinais, as consolações e as experiências espirituais são importantes, mas nada substitui o Senhor. Maria não quer só experiências religiosas; quer Cristo.

O texto joânico prossegue: “Dito isto, voltou-se para trás e viu Jesus de pé, mas não sabia que era Jesus” (Jo 20,14). Esta cena revela uma verdade espiritual profunda: às vezes, Jesus está perto, mas a dor impede os olhos de O reconhecerem. Ela vê-O, mas não sabe que é Ele. A ausência que sente é tão forte que não percebe a Presença diante de si. Isto sucede connosco!

Então, Jesus pergunta: “Mulher, por que choras? Quem procuras?” (Jo 20,15). À pergunta dos anjos Jesus acrescenta: “Quem procuras?” É a pergunta central da vida cristã. Procuramos apenas soluções ou procuramos o Senhor? Maria responde, pensando que Jesus era o jardineiro: “Senhor, se foste tu que o levaste, diz-me onde o puseste, e eu irei buscá-lo” (Jo 20,15).

A resposta de Maria é uma das mais belas expressões de amor. Ela está diante de um suposto jardineiro. Acredita que o corpo de Jesus foi retirado. Não sabe onde está, mas declara a sua disposição: “Eu irei buscá-lo”. Essa frase parece humanamente impossível. Maria não poderia carregar, sozinha, o corpo de Jesus, e seria duramente criticada. Porém, o amor não começa pelo cálculo, mas pela entrega. Maria não diz que não pode fazer nada, não pede ajuda, nem pede que avisem os discípulos. Diz que O vai buscar. Esta é a força feminina segundo o Evangelho: a força de quem, ante o impossível, não abandona o amor.

A frase de Maria é legível a vários níveis. Expressa o amor pessoal por Jesus, pois Maria deseja encontrar o Senhor, de modo que o seu coração não aceita a ausência. Expressa coragem, manifesta na disposição de agir, de procurar, de encontrar e de trazer de volta. Expressa fidelidade, pois, mesmo quando Jesus parece morto, desaparecido ou perdido, Maria continua a pertencer-Lhe. E expressa uma dimensão profundamente eclesial, porque Maria é figura da Igreja que procura Cristo, enquanto o Mundo tenta escondê-lo. Ou seja, representa a comunidade dos discípulos, que não aceita viver sem o seu Senhor.

“Eu vou buscá-lo” é a frase da Igreja missionária, que sai à procura de Cristo nos pobres, nos feridos, nos esquecidos, nos afastados, nos que perderam a fé, nos que estão nos sepulcros da dor.

Buscar Cristo, portanto, é também buscar os irmãos. Quem diz “eu vou buscá-lo” precisa de estar disposto a encontrar Cristo onde Ele se deixa encontrar: nos pobres, nos doentes, nos abandonados, nos que choram, nos que foram esquecidos.

O sepulcro é o lugar onde tudo parece terminar, mas, para Maria, é lugar de busca. O “sim” de Maria de Nazaré abriu espaço para a Encarnação. O “eu vou buscá-lo” de Maria Madalena anuncia a força da discípula que não abandona o Senhor. Uma acolhe o Verbo no seu ventre; a outra procura-O no jardim da Ressurreição. Ambas revelam a força feminina como disponibilidade radical diante de Deus. Maria Madalena não aceita o sepulcro como a palavra final. A sua busca antecipa a missão da Igreja: anunciar que a morte foi vencida. Essa capacidade aparece, de maneira luminosa, em Maria Madalena, cuja vida se tornou anúncio de que o amor de Deus reergue, cura, envia e transforma.

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O momento decisivo acontece quando Jesus diz o seu nome: “Jesus lhe disse: Maria! Ela voltou-se e exclamou. em hebraico: Rabuni!, que quer dizer: Mestre” (Jo 20,16). Maria, que não havia reconhecido Jesus, viu-O, ouviu a sua voz. Tudo muda, quando Ele a chama pelo nome. Maria é a ovelha que reconhece o Pastor quando Ele a chama pelo nome. A voz do Ressuscitado atravessa a dor e desperta a fé. A mulher que procurava um corpo morto encontra o Senhor vivo. E não encontra Jesus apenas, porque O procura, mas, sobretudo, porque Ele a chama. A iniciativa última é sempre da graça. Também nós procuramos Deus, porque, primeiro, fomos procurados por Ele. “Nós amamos, porque Ele nos amou primeiro” (1Jo 4,19).

Maria Madalena ensina que a busca humana e a graça divina se encontram. O coração procura, mas é Deus quem se revela. O amor caminha, mas é Cristo quem chama pelo nome.

Depois do encontro, Jesus envia Maria: “Vai a meus irmãos e diz-lhes: Subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus” (Jo 20,17). E Maria Madalena anuncia: “Eu vi o Senhor” (Jo 20,18). Aqui está a plenitude da sua missão. A mulher que chorava diante do túmulo torna-se anunciadora da Ressurreição. A mulher que procurava Jesus torna-se testemunha do Cristo vivo. A mulher que dizia “eu vou buscá-lo”, agora, proclama: “eu vi o Senhor”. Por isso, a tradição cristã a chamou de “apóstola dos apóstolos”, porque foi enviada pelo próprio Ressuscitado para anunciar aos discípulos a notícia central da fé cristã: “Cristo vive!”

O Papa Francisco, ao elevar a liturgia de Santa Maria Madalena (a 22 de julho) ao grau de festa, destacou-a como testemunha da Ressurreição e exemplo de evangelizadora. Nela, a Igreja contempla a força da mulher que, tendo sido curada e amada, se torna enviada.

A frase “eu vou buscá-lo” pode ser aplicada à vida espiritual contemporânea, como um programa de vida espiritual. Em muitos ambientes, Deus parece ausente. Diante disso, a espiritualidade de Maria Madalena ensina-nos a dizer: “Eu vou buscá-Lo, quando a fé esfriar, quando a oração desaparecer, quando a dor confundir a minha alma, quando a Igreja parecer ferida, quando os pobres forem esquecidos, quando a esperança parecer morta, quando eu não compreender os caminhos de Deus.

Há muitas formas de buscar Cristo, hoje. Buscamo-Lo na assembleia eclesial reunida, na Palavra de Deus, na Eucaristia, na oração, na confissão, na caridade, no silêncio, na comunidade, nos pobres, nos doentes, nos encarcerados, nos que sofrem: “Tive fome e destes-Me de comer; tive sede e destes-Me de beber; era estrangeiro e acolhestes-Me; estava nu e vestistes-Me; enfermo e visitastes-Me; preso e fostes ver-Me”. (Mt 25,35-36).

A Madalena revela três dimensões relevantes da força feminina: memória, cuidado e profecia. Lembra o Senhor, não deixando que a sua vivência com Jesus seja apagada pela violência da cruz. Vai ao túmulo, porque deseja cuidar do corpo de Jesus. E torna-se anunciadora da Ressurreição. A sua voz leva aos discípulos a notícia mais importante da História: “Cristo vive!”. A mulher que foi ao túmulo para cuidar de um morto retorna como profeta da vida.

Maria Madalena é imagem da Igreja. Como Madalena, a Igreja também atravessa noites, chora e interroga-se sobre onde colocaram o seu Senhor, quando a fé parece obscurecida. Assim, a pergunta de Jesus – “Quem procuras?” – precisa de ressoar sempre na vida eclesial. Quem a Igreja procura? Procura prestígio e poder ou procura Cristo Vivo?

Sem Cristo, a Igreja é instituição vazia, a missão é ativismo, a liturgia é formalidade, a caridade é filantropia e a palavra perde fogo. Por isso, cada cristão precisa de aprender com Maria Madalena a dizer: “Eu vou busca-Lo!”

Maria Madalena ensina-nos que a força feminina do Evangelho é pascal: nasce aos pés da cruz, atravessa o silêncio do sábado, permanece diante do túmulo e floresce no anúncio da Ressurreição. Maria Madalena continua a falar à Igreja e ao Mundo. Quando tudo parecer perdido, quando a fé parecer sepultada, quando o amor parecer vencido, quando a esperança parecer distante, é preciso escutar, novamente, a força desta mulher diante do túmulo: “Diz-me onde o puseste, e eu irei buscá-lo.” E transformar essa frase em oração:

Senhor, se eu te perdi nos caminhos da vida, eu vou buscar-Te. Se a minha fé esfriou, eu vou buscar-Te. Se a minha esperança foi ferida, eu vou buscar-Te. Se o meu coração está a chorar diante de um túmulo vazio, eu vou buscar-Te.”

Quem ama verdadeiramente não desiste de Deus. E quem procura o Ressuscitado, mesmo entre lágrimas, acabará por ouvir a sua voz chamando pelo nome.

2026.06.22 – Louro de Carvalho