domingo, 5 de abril de 2026

Da subida dos preços na energia à dos alimentos e dos serviços

 

Os conflitos no Médio Oriente e, em especial, o bloqueio do estreito de Ormuz, acrescidos às tempestades de janeiro e de fevereiro, levam alguns economistas a admitir que o choque nos preços estará apenas a começar. Efetivamente, a inflação está a acelerar, em Portugal e na Zona Euro, tendo já atingido, em março, 2,7% e 2,5%, respetivamente – um salto mensal de 0,6%, nas duas taxas, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE) e o Eurostat.

E novas acelerações parecem um dado adquirido para instituições, como o Banco de Portugal (BdP) e para os consumidores, sentindo estes o vazio da carteira, sobretudo, por causa dos preços dos combustíveis, o que é injustificável, porque os preços dos combustíveis, agora, em utilização foram estabelecidos há uns seis meses.

Do encarecimento dos combustíveis passamos, com facilidade, ao de vasta gama de bens e de serviços, desde bens essenciais, como alimentos, a bens duradouros, como computadores e telemóveis. Porém, alguns economistas sustentam – não sei se com razão – que as famílias portuguesas estarão mais preparadas do que em 2022, com salários reais superiores e com poupanças em máximos históricos, mas que a inflação afeta, desproporcionalmente, as famílias com menores rendimentos, no que têm razão.

Com efeito, após anos de fraca inflação, apesar dos esforços do Banco Central Europeu (BCE) de estímulo à procura, o agravamento de preços regressou em 2022, na reta final da pandemia, em que o regresso à vida normal se confrontou com a incapacidade de resposta do lado da oferta, depois de meses de paralisação da atividade produtiva. O choque energético derivado da invasão da Ucrânia pela Rússia e da imposição de sanções económicas ao invasor, da parte do dito Ocidente, incluindo a União Europeia (UE) agravou a situação, com os Portugueses a suportarem uma rápida subida dos preços. Ora, em 2022, as poupanças da pandemia (acumuladas após meses de confinamento e de restrições à mobilidade) ajudaram muitos a enfrentar o aumento do custo de vida. E, agora, a questão é se os Portugueses estão mais preparados, do que então, para nova subida rápida dos preços.

De acordo com o INE, a taxa de crescimento das remunerações médias mensais brutas era de 3,7%, em 2022; de 6,7%, em 2023; de 6,4%, em 2024; e de 5,6%, em 2025. Já a taxa de inflação média anual era de 7,8%, em 2022; de 4,3%, em 2023; de 2,4, em 2024; e de 2,3%, em 2025. E, de acordo com o INE e com o BdP, a taxa de poupança dos particulares era, de 7,3%, em 2022; de 8,9%, em 2023; de 12,5%, em 2024; e de 12,1, em 2025.

Alguns economistas pensam que a ajudar as famílias a suportar o encarecimento dos bens e de serviços, no curto prazo, estão os aumentos salariais dos últimos anos, acima da inflação, e as taxas de poupança em máximos históricos, em Portugal, de 12,5%, em 2024, e de 12,1%, em 2025, de acordo o INE. Assim, para Susana Peralta, professora da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa (Nova SBE), como “o salário real médio tem vindo a aumentar”, as famílias estão mais preparadas, em média, para resistir à crise inflacionista do que estavam em 2022, à saída da grande crise económica. E o facto de a taxa de poupança estar em máximos sinaliza alguma capacidade de absorção do choque inflacionista, pois “é uma poupança sobre um rendimento superior”. Ou seja, é poupança maior, em valor absoluto (em euros), do que no choque de 2022. Porém, não podemos esquecer que, em 2020, a taxa média de poupança era de 12%, tendo descido para 10,9, em 2021. Por outro lado, a taxa de crescimento das remunerações médias mensais brutas era de 3,6%, em 2021 (quando era de 3%, em 2020).

Resta saber se os aumentos salariais e as taxas de poupança continuarão acima da inflação. De facto, os danos em instalações energéticas-chave do Médio Oriente e em portos marítimos já se fazem sentir no aumento dos preços da energia, nas bombas de abastecimento de combustíveis e nos pontos de venda de gás; e estará para breve o efeito nos preços de bens e de serviços.

Como explica Miguel Faria e Castro, economista da Reserva Federal de St. Louis, nos Estados Unidos da América (EUA), a subida dos preços do petróleo causa três efeitos diretos: sendo os produtos derivados do petróleo componente da despesa das famílias, o aumento dos preços reduz o consumo; sendo o petróleo importante bem intermédio para produzir bens e serviços destinados ao consumo final, a subida dos preços do petróleo aumenta os custos de produção, que se repercutem nos preços dos bens finais, reduzindo o consumo; e, como Portugal é importador líquido de produtos petrolíferos, o aumento dos seus preços corresponde a um rendimento negativo, que pode contribuir para a contração do consumo agregado, o que pode ter um efeito de moderação no aumento do nível de preços. Contudo, há consumos inevitáveis.

A evolução do consumo dos bens e de serviços depende da reação da procura à subida dos preços de cada um deles. Há bens e serviços cuja procura aumenta, quando o preço baixa, e diminui, quando o preço sobe. Têm elevada elasticidade a procura/preço bens e serviços cujo consumo não é essencial para as famílias, como as refeições em restaurantes. Já noutros bens e serviços a procura não diminui, quando os preços sobem, pois têm baixa elasticidade a procura/preço dos bens e serviços essenciais, como muitos dos bens alimentares.

“O que se espera é que haja cortes nos consumos menos essenciais (como lazer), adaptações no cabaz de consumo alimentar, a favor de produtos menos afetados pela carestia ou mais baratos tout court (como marcas brancas e produtos de época), e poupanças energéticas (por exemplo, no aquecimento da casa ou nas deslocações em viatura própria)”, diz Susana Peralta.

Porém, a subida generalizada dos preços agrava as desigualdades entre famílias com mais rendimentos e as que menos têm: as primeiras podem prescindir de certos bens e serviços, sem sacrifício do consumo de bens essenciais, o que não sucede com agregados com menores rendimentos, porque a maior parte dos seus rendimentos vai para os bens e serviços de que ninguém pode prescindir, como alimentos ou fornecimento de água.

O aumento do rendimento médio acima da inflação e a almofada das poupanças não se aplicam a todas as famílias, na mesma medida. Nas menos favorecidas, o rendimento não tem aumentado tanto e as poupanças são menores. Não será por, em média, as famílias estarem mais preparadas para fazer face à inflação que todas estão igualmente preparadas. Depois, há muitas categorias do consumo conexas com o petróleo que não são facilmente substituíveis: todos temos de acender luzes em casa, independentemente do rendimento. E muitas pessoas têm de se deslocar para o trabalho ou para levar as crianças à escola, sejam altos ou baixos os rendimentos.

Os governos aconselham o teletrabalho, o uso dos transportes públicos e a poupança de produtos energéticos, mas esquecem que o trabalho presencial continua a ser necessário, em muitos casos, que os transportes públicos são escassos e mal organizados e que os transportes escolares dificilmente cobrem as necessidades de deslocação dos alunos.   

Os valores nominais de despesa em bens e em serviços conexos com petróleo tendem a não variar muito com o nível de rendimento. Por isso, a tendência é haver uma relação negativa entre o nível de rendimento e a percentagem de despesa com bens e serviços conexos com petróleo, despesa pode ser relativamente maior para famílias de baixos rendimentos, as quais podem ser mais afetadas, em termos relativos

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Portugal registou o maior aumento mensal de preços da Zona Euro, entre fevereiro e março, com a taxa de 2,3%, acima da média europeia de 1,2%. A inflação homóloga portuguesa atingiu 2,7%, ultrapassando a meta do BCE de 2%. Os preços da energia subiram 7,5%, o maior aumento desde 1996, devido aos conflitos geopolíticos no Médio Oriente.

O aumento do custo de vida é real para os cidadãos europeus, mas é mais real para uns do que para outros. Com efeito, nenhum país da Zona Euro teve aumento médio dos preços tão rápido como Portugal, entre fevereiro e março.

A taxa de variação em cadeia (de mês para mês) do índice harmonizado de preços no consumidor (IHPC) foi de 2,3%, nos países da Zona Euro, acima da média de 1,2%, para esses países, de acordo com as estimativas do Eurostat de 31 de março. Só em março e em abril de 2022, mercê da guerra na Ucrânia e da reconfiguração dos mercados energéticos europeus que se lhe seguiu, é que houve taxas mensais comparáveis, de 2,6% e 2,4%, respetivamente.

O IHPC é calculado com uma metodologia diferente da do índice de preços no consumidor (IPC) – cujas estimativas foram divulgadas, a 31 de março, pelo INE – para eliminar distorções e permitir comparações entre estados-membros da UE.

Em Portugal, a subida dos preços da energia, entre fevereiro e março de 2026, foi de 7,5%, a maior taxa em cadeia, desde 1996, ano de início da série do Eurostat, superando os aumentos mensais de 2022, nos preços da energia, superiores a 6%, em alguns meses.

No atinente às taxas de variação homóloga, a inflação média da Zona Euro aumentou, em março, 0,6%, para os 2,5%, excedendo a meta de 2% estabelecida pelo BCE como taxa de inflação ideal para garantir a estabilidade dos preços nos países da moeda única. A taxa de variação homóloga (que mede o aumento médio dos preços, num determinado mês, face ao mesmo mês do ano anterior) do IHPC, em Portugal, foi estimada pelo Eurostat nos 2,7%, crescendo 0,6%, em comparação com fevereiro. Foi a 12.ª maior taxa entre os 21 países da zona euro, numa lista encabeçada pela Croácia (4,7%).

Segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU), o bloqueio do estreito de Ormuz, por onde passa 38% do crude e 29% do gás de petróleo liquefeito globais, e o ataque a instalações-chave, como o complexo de Ras Laffan, no Catar, a maior fábrica de gás natural liquefeito (GNL) do Mundo (responsável por 25% da produção mundial de hélio, um subproduto da refinação de gás essencial para o fabrico de semicondutores), concitam comentários alarmantes.

Christine Lagarde, presidente do BCE, em recente entrevista à The Economist, considerou “demasiado otimista” a postura dos investidores, confiantes no regresso rápido à normalidade, e advertiu que o Mundo está ante “um choque real”, provavelmente, além do que imaginamos, neste momento”. E alguns analistas admitem que o banco de Frankfurt, na reunião de política monetária de 30 de abril, aumente as taxas diretoras (a taxa de referência está nos 2%) respondendo, mais depressa do que em 2022, à subida das taxas de inflação. Os dados divulgados pelo Eurostat dão força à tese: a taxa de inflação harmonizada média da Zona Euro estimada para março aumentou para os 2,5%, mais 0,6% do que em fevereiro e bem acima da meta do BCE.

Um dos indicadores seguidos pelos decisores de política monetária é a taxa de inflação subjacente, a qual, ao excluir dos seus cálculos a energia e os bens alimentares por sofrerem frequentes variações de preço, mede a tendência de médio prazo dos preços dos bens e serviços e refletindo persistência da inflação no custo de vida. Em março, este indicador foi estimado pelo Eurostat nos 2,2%, menos 1% do que em fevereiro. Assim, o aumento do custo da energia ainda não se repercutiu no resto do cabaz dos bens e serviços.   

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Outro dado de difícil explicação é o preço internacional do cacau estar em queda e os chocolates da Páscoa serem mais caros. A inflação do chocolate fixou-se nos 13,7%, em fevereiro, em Portugal, seis vezes mais do que o índice geral dos preços, muito acima da inflação geral apesar da forte queda homóloga de 64%, na cotação internacional do cacau. O desfasamento temporal entre a compra de matéria-prima e o produto final, a recuperação de margens e outros custos explicam esta resistência à descida, mas não justificam a subida.

Depois de ter atingido um máximo histórico, em 2024, quando a tonelada chegou aos 12 mil dólares, o cacau negoceia em torno dos 3200 dólares. No último ano, a cotação desta matéria-prima caiu a pique (-64%), mas não se repercutiu no preço que os Portugueses pagam por cada ovo de chocolate no supermercado, que está mais caro do que em 2025.

Em fevereiro, os últimos dados disponíveis revelavam que os preços do chocolate, do cacau e dos produtos à base de cacau subiam 13,7% em Portugal, face ao mesmo período do ano anterior, segundo o INE, muito acima da inflação global, que se fixava nos 2,3%. E a tendência não é recente: em 2025, a subida destes produtos manteve-se, consistentemente, acima dos 14% e ultrapassou os 17%, em vários meses. Assim, mesmo em contexto de desinflação generalizada, o chocolate destoa e pesa mais na carteira. Desde o início da guerra na Ucrânia, a inflação do chocolate cresceu, em Portugal, em média, três vezes mais do que o índice geral dos preços. E no último ano, seis vezes mais.

Não é só questão de calendário. Há também o efeito de recuperação de margens. Após anos de forte pressão sobre custos, com o cacau a disparar, os produtores e retalhistas aproveitam a descida, para recompor rendibilidade, em vez de baixar preços. A isso somam-se outros fatores, como energia mais cara, custos de transporte elevados e embalagens mais dispendiosas.

Os dados de preços em Portugal ajudam a perceber a dimensão da escalada. O índice de preços do chocolate e produtos de cacau passou de cerca de 68%, em fevereiro de 2022, para perto de 99%, em fevereiro de 2026, uma subida acumulada de quase 45%. Nest período, a cotação do cacau aumentou apenas metade (20%). Entretanto, o mercado internacional entrou em nova fase. Em 2025, os preços do cacau recuaram de níveis próximos dos 10 mil dólares para menos de metade, refletindo melhores condições climatéricas, novas plantações e recuperação da oferta global. No início de 2026, a tendência manteve-se em descida de cerca de seis mil dólares, por tonelada, em janeiro, para pouco mais de três mil dólares, em abril.

Face aos preços elevados, as empresas ajustam estratégias. A mais comum é a shrinkflation ou reduflação: produtos mais pequenos ou com menor teor de cacau, mantendo ou aumentando o preço por grama. Em paralelo, há reformulações, com alguns produtos a serem vendidos como “com sabor a chocolate”, em vez de chocolate. Do lado dos consumidores, há abrandamento. Na Europa, a venda de chocolate caiu nos últimos meses, embora a procura resista em períodos sazonais, como a Páscoa, onde o consumo é  um pequeno luxo acessível.

Em Portugal, o contexto não é imune a estas pressões e as consequências veem-se no retalho.  Lojas de gomas e chocolates Hussel encerrarão depois da Páscoa. O fim da operação resulta da falência da marca, na Alemanha, que torna insustentável a manutenção dos 20 espaços do país, apesar dos esforços do grupo Jerónimo Martins para viabilizar o negócio.

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Em maré de crise, os preços sobem precocemente, reina a especulação, geram-se grandes oportunidades para espertos, os preços sobem em cadeia, há consumos inevitáveis, os salários não sobem, o desemprego e a precariedade crescem, os pobres sofrem. Subindo os preços e mantendo-se o consumo, sobe a carga fiscal e os governos distribuem migalhas às famílias e bolos às grandes empresas. Desta feita, querem tributar, excecionalmente, as empresas que lucram com a crise. Não há problema para elas: o cliente paga.

2026.04.05 – Louro de Carvalho

sábado, 4 de abril de 2026

No pico do silêncio pascal, boas festas!

 

As verdadeiras festas costumam preparar-se entre o silêncio e o afã.

A Páscoa é a solenidade (festa-mor) mais relevante do cristianismo. Efetivamente, é a partir da Ressurreição de Jesus conhecida, em primeiro lugar, pela visão e pela comunicação das mulheres – em que pontifica Maria Madalena, a mulher independente e com posses, natural de Magdala, nas costas do Mar da Galileia, que seguiu Jesus, desde o princípio –, aos apóstolos, sobretudo, a Pedro e a João, a princípio, incrédulos, que assenta do dinamismo cristão.

Contra o equivoco do Papa Gregório Magno, Maria Madalena não é a pecadora arrependida, muito menos a prostituta, nem a irmã de Lázaro e de Marta, moradores em Betânia, localizada na encosta Sudeste do Monte das Oliveiras, perto de Jerusalém, na Judeia. Ela é única, tal como se descobriu, em 1969, a “apóstola dos apóstolos”. Os apóstolos, depois de Pedro e João terem ido ao sepulcro, a confirmar as informações das mulheres, receberam a visita do Ressuscitado, na tarde do Domingo da Ressurreição, no cenáculo de Jerusalém, tendo as portas fechadas, pois tinham medo dos judeus. E Jesus acompanhou os discípulo de Emaús, no regresso conturbado dos mesmos a casa, tendo-lhes explicado, na qualidade de companheiro de percurso,  tudo o que as Escrituras diziam do Messias e tendo-se-lhes revelado na fração do pão.

Depois da última ceia judaica de Jesus e dos discípulos ou da primeira ceia cristã, em que o Messias institui a Eucaristia, sacrifício do seu corpo e do seu sangue pela vida do Mundo e para alimento deste, e dá o mandamento do amor fraterno, com a largueza e a profundidade do seu, para marca discipular, tudo é espelhado, publicamente, no Calvário, fazendo nascer do lado aberto de Cristo a Igreja, comunidade dos filhos de Deus. No fim do dia, parecendo que tudo acabou, o Rei dos Judeus é descido da cruz e merece uma sepultura nova, condigna, embora alheia, e a enorme quantidade de unguentos e de perfumes que José de Arimateia e Nicodemos disponibilizaram, bem como os unguentos que as mulheres teimaram em oferecer também.  

Depois de tudo isto, os discípulos ficaram desconsolados, desnorteados e frustrados, em relação ao projeto messiânico em que tinham acreditado e a que tinham aderido.  

Observaram o cego silêncio do medo e do desconforto. Tudo o que aprenderam parece ter sido esquecido ou remetido para a arca da saudade. A entrada triunfal de Jesus na Cidade Santa foi vista como um logro. E não havia meio de virarem a página, pois esqueceram a prece de Cristo pela unidade, pela libertação do mal, mas não de retirada do Mundo, e a promessa do Espírito Santo, o defensor, o consolador e o mestre espiritual.

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Cerca de dois mil anos passados, o Sábado Santo é de silêncio recomendado pela Igreja. Não há qualquer serviço litúrgico, a não ser a recitação da Liturgia das Horas.

Porém, desta feita, não há medo dos judeus de há dois mil anos. O medo dos judeus de hoje é a guerra que fazem aos Palestinianos (sobretudo na Faixa de Gaza), aos Libaneses, aos Iranianos, com um aliado de luxo, Donald Trump, presidente dos Estados Unidos da América (EUA), guerra que se faz com armas altamente sofisticadas e com o bloqueio à distribuição dos bens essenciais à vida das pessoas e dos povos, bem como ao conforto civilizacional.  

O silêncio de Sábado Santo deveria ser para o reencontro da família e dos amigos, bem como para a preparação do cume pascal, o dia da Ressurreição. É esta que valida o sacrifício de Cristo na cruz. Sem ela a Páscoa do Senhor não fazia sentido e nunca seria a nossa Páscoa.

É a Pascoa do Senhor, feita nossa Páscoa, reforçada com o Espírito Santo, a plenitude do dom de Deus no Pentecostes, que originou todo o movimento dos cristãos contra ventos e marés.  

Foi à luz da Ressurreição, guiados pelo Espírito Santo, que os discípulos, constituídos em apóstolos, reinterpretaram tudo quando Jesus lhes ensinara. E foi neste contexto que se foram abrindo ao mistério do Natal, a solenidade que celebra o mistério da encarnação, cujo escopo final é a redenção do homem todo e de todos os homens, sem qualquer exceção.

Se o Natal passou a ser a festa da família, que se reúne, no seio do lar, a Páscoa é a festa da família, que se mostra, que para o trabalho, que confraterniza, que se expande. O Natal é vida discreta, envolta pelo caráter, por vezes, agreste da Natureza, ao passo que a Páscoa é a vida pujante, secundada pela verdura dos campos, pela vasta florescência, por algumas colheitas, pela reprodução animal. É a Natureza a despontar e a afirmar-se amiga da Terra e do Homem.

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É certo que, nos tempos atuais, não se faz silêncio para pensar, nem para curar, nem para rezar. Também não é a palavra ponderada que pontifica, mas o barulho, o afã, a velocidade, a correria, o atropelo. Excecionalmente, pratica-se o silêncio da dureza, do protesto, do amuo.

O Natal, mais do que celebração religiosa, litúrgica e familiar, está eivado de forte mercantilismo, portador de grandeza individual, de submissão social, de viagem para junto da família ou para afastamento da mesma. A indústria hoteleira e os equipamentos de lazer demonstram-no.

De igual modo, está a Páscoa altamente mercantilizada. Muitos dos números da Semana Santa, em vez da compunção e do júbilo litúrgicos ou da piedade cristã popular, reduzem-se a espetáculos ditados por algumas tradições ou a números que mais parecem teatro do que ação religiosa. Fará algum sentido cristão, por exemplo, a procissão da burrinha, a queima do Judas ou o rebentar do Aleluia, sem quê, nem para quê?

Depois, temos as amêndoas (de açúcar ou de chocolate), os ovos da Páscoa (de chocolate) – tudo bombas calóricas, acompanhadas de uma imensidade de bolos e quejandos. E, obviamente, como não podia deixar de ser e o tempo convida, as estâncias de turismo e a indústria hoteleira e similares têm aqui o seu apogeu mercantil.  

Enfim, Natal e Páscoa constituem um dos fatores mais relevantes do turismo religioso, das viagens de finalistas e de tantas formas de fuga da família. E, ironicamente, fala-se do turismo como “indústria da paz”, mesmo em Jerusalém, onde o patriarca latino foi impedido, pela polícia, de celebrar a Missa do Domingo de Ramos, porque, face ao sofrimento que grassa na Faixa de Gaza, entende que não pode ser neutro.

Às vezes, a neutralidade política é uma forma de hipocrisia e de cobardia.

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Não obstante, quero e devo aproveitar o ensejo que me proporciona este silêncio pascal – que não é duro, nem político, nem de amuo, mas de protesto, pelo excesso de mercantilismo pascal – para desejar uma Feliz Páscoa (e santa, para todos os crentes, praticantes ou não) a todas as pessoas com quem tive a oportunidade de conviver, na família, no lazer, no grupo de amigos, nos trabalhos (e foram muitos e diversificados), na política ativa, na análise da sociedade e na cosmovisão. E foram e são muitas essas pessoas que se cruzaram comigo na minha vida multifacetada.

Lamento, profundamente, já não termos connosco, nesta Páscoa, pessoas de grande referência. Nesse sentido, refiro a morte do Papa Francisco, único no estilo e na abertura ao Mundo e às periferias, talvez na linha de São Paulo VI, o meu Papa de referência. Recordo, com imensa saudade, o padre José Augusto Matias Pereira (de 74 anos, mas mais novo uns dias do que eu), de Lamelas, da freguesia e concelho de Castro Daire, altamente apreciado e amado nas paróquias que bem serviu, um homem conhecedor da sociedade e que sempre depositou grande confiança na minha pessoa.

Porém, nem só de eclesiásticos vive o Mundo e a Igreja. Por isso, devo uma palavra de reconhecimento ao arquiteto Manuel Tomás de Carvalho Botelho, uma grande referência na arte e como professor, de quem tive a honra de ser aluno. Já em tempo, lhe fiz uma referência merecida, em meu entender.

Um preito de saudade e de homenagem devo a meu cunhado José Mário da Paixão Pereira, que faleceu a 20 de agosto do ano passado, com 72 anos, no Hospital Santos Silva, de doença não muito prolongada, mas grave. Além de familiar e amigo, foi companheiro nos tempos de adolescência e foi sempre prestável nos melhores e nos piores momentos das nossas vidas. E era um Homem de fortes convicções e um amigo do trabalho, bem como dos seus amigos e familiares. Foi uma perda bem sentida por todos nós, os familiares e os amigos.

Por fim, mas não menos relevante, a referência, que nunca fiz por escrito, e o preito de saudade e de homenagem ao meu primo Abraão de Carvalho, cuja morte no Lar da Associação de Solidariedade Social Alvorada na Serra, em Pendilhe, me surpreendeu, a 27 de janeiro deste ano, por comunicação da filha Armanda, e a cujo funeral não pude comparecer.       

Tanto o senhor Abraão (sempre o tratei assim, pois era mais idoso do que eu) como o resto da família mais próxima prezaram a consideração por mim. Receberam-me, algumas vezes, na sua casa em Pendilhe, incluindo o tempo que não via quase nada por acidente ocular; e receberam-me, muitíssimas vezes, na sua casa em Famões, no concelho de Odivelas. Convidaram-me para o casamento da filha e do filho e para o batismo de dois netos. O filho Paulo faleceu muito novo, aos 50 anos, se não estou em erro.

Com a mesma bonomia como que admirava o meu exercício sacerdotal, aceitou a minha opção pelo casamento.

Além de funcionário da Carris de Lisboa, aplicava-se a outros trabalhos, nos tempos livres, providenciou, no regime de autoconstrução, casa própria e para os filhos. Foi catequista e ministro extraordinário da comunhão, sobretudo, para a visita aos doentes, e sempre mostrou grande preocupação pelos problemas profissionais e sociais.

Por tudo isto, era merecedor da minha profunda consideração, bem como a sua família mais próxima, o que talvez nem sempre eu soube manifestar.

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Enfim, a Páscoa é de festa e festa grande e de júbilo, mas também é de saudade, que se cultiva no silêncio, na memória e na lembrança do bem que nos fazem ou fizeram.  

Votos de Feliz Páscoa!

2026.04.04 – Louro de Carvalho

A durabilidade da crise energética advinda da guerra no Irão

 

Numa altura em que a guerra no Médio Oriente mantém a restrição do abastecimento de petróleo, em 12 milhões de barris, por dia, a União Europeia (UE) tenta resolver o problema do aumento das faturas de energia e exorta os cidadãos do bloco a reduzirem o número de carros. Com efeito, a questão é: Quanto tempo durarão as reservas de petróleo da UE.

Os analistas estimam que os 426 milhões de barris de petróleo libertados pela Agência Internacional de Energia (AIE) – 91,7 milhões dos quais são contributo de 20 países da UE – durarão cerca de cinco meses, mas o bloco conta com reservas de armazenamento.

O nível de alerta em toda a UE-27 intensificou-se quando o comissário da Energia, Dan Jørgensen, mudou o enfoque da questão de preços para a potencial rutura do abastecimento, na sequência da reunião de emergência dos ministros da Energia, a 31 de março. Nesse dia, disse aos governos da UE que o gasóleo e o combustível para aviões corriam maior risco de escassez, devido à dependência do Médio Oriente, alertou para um “potencial conflito prolongado” e apelou à “unidade entre os países da UE”.

A UE consome cerca de 10,5 milhões de barris de petróleo, por dia, isto é, cerca de 10% da procura mundial, liderada pela Alemanha (2,3 milhões de barris), seguindo-se a França (1,6 milhões de barris) e a Itália (1,3 milhões de barris).

O bloco dispõe de reservas petrolíferas de emergência de cerca de 100 milhões de barris, uma mistura de petróleo bruto, gasóleo e gasolina, dos quais cerca de 91,7 milhões foram libertados a 11 de março, no âmbito da libertação coordenada de 426 milhões pela AIE. As reservas são detidas pelos governos nacionais, enquanto a Comissão Europeia coordena as respostas, durante as crises, por forma a garantir uma abordagem unificada. Estima-se que as reservas cubram cerca de 90 dias de importações líquidas, ou cerca de 61 dias de consumo.

De acordo com os dados da UE, a França, com 120 milhões de barris, a Alemanha, com 110 milhões, e a Itália, com 76 milhões, são os principais detentores de reservas da UE. Também a Espanha detém grandes reservas, enquanto países como a Bélgica, o Luxemburgo e Malta detêm reservas substanciais, noutros países da UE.

Como dissemos, 20 dos estados-membros da UE-27 contribuíram para a libertação de emergência de petróleo coordenada pela AIE, num total de 91,7 milhões de barris, ou seja, cerca de 20% dos 426 milhões de barris libertados em 11 de março. A Alemanha libertou 19,5 milhões de barris, seguida da França (14,6), da Espanha (11,6) e da Itália (10).

Assim, as reservas de emergência de petróleo dos estados-membros da UE em resposta às perturbações no Médio Oriente, os países  da UE contribuem com 91,7 milhões (Mb) de barris de um total de 426 Mb libertados pela AIE. Por ordem crescente, surgem: o Luxemburgo, com 0,1 Mb; a Bélgica, a Estónia e a Letónia, com 0,3 Mb, cada; a Lituânia, com 0,6 Mb; a Dinamarca, com 1,2 Mb; a Irlanda, com 1,7 Mb; a Finlândia, com 1,8 Mb; a Grécia e Portugal, com 2 Mb, cada; a Suécia, com 2,1 Mb; a Chéquia, com 2,2 Mb; a Áustria, com 2,4 MB; os Países Baixos, com 5,4 MB; a Hungria, com 6,1 Mb; a Polónia, com 7,5 Mb; a Itália, com 10 Mb; a Espanha, com 11,6 Mb; a França, com 14, 6 Mb; e a Alemanha, com 19,5 Mb.

Homayoun Falakshahi, analista sénior de energia da agência de informação comercial Kpler, disse que as reservas libertadas pela AIE estão a ser utilizadas, a nível interno. Depende dos países, mas estão a ser libertadas ao ritmo de cerca de 2,5 milhões de barris, por dia, o que significa que darão para cerca de 160 dias. Fatih Birol, diretor da AIE, afirmou, a 1 de abril, num podcast com Nicolai Tangen, CEO do Norges Bank Investment Management, que está a considerar nova libertação das reservas estratégicas de petróleo. E Dan Jørgensen declarou ao Financial Times, a 2 de abril, que a UE “não excluirá outra libertação”, se as condições se agravarem.

As reservas da UE contêm, atualmente, 270 milhões de barris de petróleo bruto, o que corresponde a um volume suficiente para três semanas de consumo, depois de refinado em gasóleo, em gasolina ou em combustível para aviões. As reservas estratégicas e a redução das existências estão a fazer parte do ajustamento restante, suportando cerca de seis milhões de barris, por dia, de procura, segundo a empresa de consultoria económica Oxford Economics. Porém os analistas alertam para o facto de estes amortecedores serem finitos e se tornarem menos eficazes, com o tempo, prevendo um défice de cerca de dois milhões de barris de petróleo, por dia. E, no cenário de guerra prolongada com o Irão, estima-se que a lacuna aumente para cerca de 13 milhões de barris de petróleo, por dia, no sexto mês.

Embora a crise energética de 2022 tenha afetado as importações de gás natural, depois de a UE ter perdido, abruptamente, 40% a 45% do combustível russo, a situação está cada vez mais difícil, à medida que se instala a grande escassez de petróleo, o que levou a indústria petrolífera a recordar os cerca de quatro mil milhões de barris de recursos petrolíferos inexplorados, na Europa, de acordo com a Associação Internacional de Produtores de Petróleo e Gás (IOGP).

“A questão não é se precisamos ou não deles. […] A verdadeira escolha é se os produzimos no nosso país ou se importamos mais do estrangeiro”, disse à Euronews Nareg Terzian, diretor de estratégia e comunicação da IOGP Europa, sugerindo que estes recursos inexplorados são uma “rede de segurança à disposição da UE”, juntamente com os esforços contínuos do bloco para eletrificar e para melhorar a eficiência energética, através do isolamento de edifícios e de tecnologias que ajudam a reduzir o consumo de energia.

Além dos campos do Mar do Norte e dos campos em terra, muito mais poderia ser descoberto em áreas de exploração bastante novas, como o Mediterrâneo Oriental e o Mar Negro.

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A subida dos preços do petróleo e do gás, na Europa, resultante da guerra que envolve o Irão, não voltará aos níveis normais tão cedo, mesmo que a paz seja declarada amanhã, alertou o comissário da Energia da UE, a 31 de março, numa conferência de imprensa após a reunião dos ministros da energia da UE, pois, embora não haja escassez imediata de petróleo e de gás em todo o bloco de 27 membros, há pressão sobre o abastecimento de gasóleo e combustível para aviação e restrições crescentes, nos mercados globais de gás, que fazem subir os preços da eletricidade. Contudo, afirmou que o braço executivo da UE está a preparar uma série de medidas para ajudar as famílias e as empresas a fazerem face à subida acentuada dos preços do petróleo, que provocou aumentos de cerca de 70%, no gás, e de 60%, no petróleo, na Europa.

Segundo Dan Jørgensen, desde o início desta guerra, a fatura da UE com a importação de combustíveis fósseis aumentou 14 mil milhões de euros (€), o que implica ação coordenada entre os estados-membros da UE, para “evitar respostas nacionais fragmentadas e sinais perturbadores para os mercados”. A “caixa de ferramentas” de medidas em preparação, que será revelada, em breve, incluirá formas de facilitar aos estados dissociarem os preços do gás dos preços da eletricidade. E está a ser considerada uma redução dos impostos sobre a eletricidade, como foi sugerido pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.

Dan Jørgensen disse que, embora não espere a repetição da crise do gás natural de 2022, durante a qual as empresas obtiveram grandes lucros com a subida dos preços, “continua a ser uma possibilidade” um “imposto extraordinário” sobre essas empresas. Há boas oportunidades para os estados-membros prestarem apoio financeiro a grupos vulneráveis e a indústrias sob “stresse extraordinário”, e a Comissão tornará tais possibilidades ainda mais simples e amplas.

O comissário encorajou os países da UE a considerarem o plano de 10 pontos da AIE, que inclui trabalhar a partir de casa, reduzir a velocidade das autoestradas, promover os transportes públicos e aumentar a partilha de automóveis. Todavia, a UE continua empenhada na proibição da compra de gás russo, para reduzir a dependência dos fornecimentos russos e para cortar o financiamento da guerra russa na Ucrânia. A dependência do gás russo caiu de 45%, antes da guerra, para 10% e espera-se que caia para zero, quando as importações de fornecedores alternativos aumentarem, especialmente dos Estados Unidos da América (EUA). E a UE está a explorar novas fontes de energia do Azerbaijão, da Argélia, do Canadá e de pequenos produtores mundiais.

Dan Jørgensen advertiu que a UE não deve “repetir os erros do passado, permitindo que Putin use a energia como arma contra nós e chantageie os estados-membros”, sendo inaceitável que a UE comprasse energia que ajudaria a financiar guerra que Putin trava na Ucrânia.

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Em poucas semanas, o conflito no Irão redefiniu a equação energética europeia. O preço de referência do gás natural TTF (Title Transfer Facility) holandês subiu, desde o início do mês de março, de 38 para 54 euros por megawatt-hora (MWh), uma subida de 70% que põe março de 2026 na rota do maior aumento mensal dos preços do gás, na Europa, desde setembro de 2021, um número com impacto muito para lá dos mercados de energia.

A 24 de março, as reservas subterrâneas de gás estavam em apenas 28,4%, ou 325 terawatt-hora (TWh), menos 5% do que na mesma data de 2025 e muito abaixo da média sazonal dos últimos cinco anos, segundo a Kyos European Gas Analytics. A Alemanha está entre os países mais expostos, com as instalações a 22,3% da capacidade, quase menos 7%, em termos homólogos. A França apresenta situação semelhante, com 22,1%. Os Países Baixos são o caso mais crítico no continente: o armazenamento caiu para 6,0%, ou 9 TWh, menos de um terço do nível de há um ano e muito abaixo do mínimo histórico para esta altura do ano.

Portugal entra na crise com os reservatórios 85,3% cheios e a Espanha com 55,5%, ambos a beneficiarem de maior capacidade de importação de gás natural liquefeito (GNL), de menor dependência do gás na produção elétrica e de uma expansão das renováveis que reduzem estruturalmente, a exposição às oscilações dos preços grossistas do gás.

O choque de oferta, na origem, é estrutural, não temporário. O Qatar – segundo maior exportador mundial de GNL, com 84 mil milhões de metros cúbicos, por ano, e fornecedor-chave de vários estados-membros da UE – confirmou que não consegue cumprir todas as obrigações contratuais, depois dos ataques do Irão, no início do mês, à Ras Laffan Industrial City.

Numa nota de investigação datada de 22 de março, o Goldman Sachs elevou a sua previsão para o TTF, no segundo trimestre de 2026, de 63 para 72 €/MWh, alertando que a Europa terá de desviar cargueiros de GNL de compradores asiáticos concorrentes para encher, adequadamente, as reservas antes do inverno. Num cenário adverso – em que os fluxos energéticos através de Ormuz se mantêm deprimidos, em 10 semanas, em vez de seis –, a média do TTF, no verão, pode superar os 89 €/MWh. E, em cenário muito adverso, que inclua danos mais prolongados na infraestrutura do Qatar, o TTF pode manter-se acima dos 100 €/MWh, em todo o verão.

Se o trânsito por Ormuz permanecer suspenso durante três meses, o contrato TTF do mês seguinte pode subir para cerca de 90 €/MWh. No limite superior, nesse cenário, os preços podem situar-se entre 115 e 155 €/MWh, visto que cerca de 28,6 mil milhões de metros cúbicos de GNL seriam retirados do mercado mundial. Um encerramento de seis meses faria subir a média do TTF para perto de 160 €/MWh, uma pressão ao estilo de 2022 ou pior, com preços potencialmente entre 145 e 240 €/MWh e com o enchimento das reservas para o próximo inverno a tornar-se “quase impossível”. Para referência, o TTF atingiu um máximo de 345 €/MWh, em agosto de 2022, após a invasão da Ucrânia pela Rússia.

Para as famílias europeias, o choque é real, mas repercute-se de forma desigual nas várias componentes da fatura energética. Os preços da eletricidade estão a subir, à medida que o custo do gás se repercute nos mercados grossistas de eletricidade, mas o impacto é mais diluído, ao nível do consumidor final. O mercado elétrico está a incorporar parte do choque do gás, estimando-se o efeito nas faturas das famílias em alguns pontos percentuais, visível, mas muito abaixo dos 60 a 70% de aumento registados no gás grossista.

Nos combustíveis, a pressão vai além do crude, com fretes mais caros, com prémios de seguro mais elevados e com limitações na refinação a fazerem subir os custos ao longo de toda a cadeia.

Embora a Itália esteja em melhor posição do que a média da UE, com reservas de gás a 43,9%, a ameaça imediata é de preços, não de falta física de gás.

A tendência desinflacionista que a Europa viveu nos últimos três anos terminou, pelo menos, no curto prazo. O Goldman Sachs previa que a inflação homóloga geral na Zona Euro subisse para 2,7% em março, bem acima dos 1,89% de fevereiro, impulsionada quase totalmente pela energia, cujo contributo deverá passar de -3,1% para +5,9% homólogos, num só mês. Também a trajetória de médio prazo mudou de forma abrupta: o banco antecipou uma inflação média de 2,9%, em 2026, com um pico de 3,2%, no segundo trimestre.

A inflação subjacente – que exclui energia e alimentos – deverá subir gradualmente, atingindo 2,5%, no terceiro trimestre, à medida que os custos energéticos começam a refletir-se nos preços dos serviços e nos custos de transporte.

Fechou-se a janela em que o Banco Central Europeu (BCE) podia, de forma credível, alegar que estava a caminho da meta de 2%, pois a equação inverteu-se em poucas semanas. Assim, o Goldman Sachs espera que o Conselho do BCE aumente as taxas em 25 pontos base, na reunião de 30 de abril, e em junho, novamente. Com efeito, o Goldman Sachs reviu, em baixa, o crescimento do produto interno bruto (PIB) da Zona Euro, no conjunto do ano, para 0,7%, quase metade da trajetória prevista antes do conflito.

É pouco provável que o choque se aproxime da magnitude da crise energética de 2022-23, nem que atinja as economias da Zona Euro de forma tão uniforme como nessa altura. O sinal mais claro está nos mercados de eletricidade: embora os preços do gás tenham disparado 80%, desde o início do ano, os preços médios grossistas de eletricidade, nas cinco maiores economias da Zona Euro, mal se mexeram e continuam cerca de 14% abaixo dos níveis do início do ano.

Esse desacoplamento reflete a aceleração da expansão das renováveis na Europa, desde 2022, e o regresso da frota nuclear francesa à plena capacidade, uma mudança estrutural que funciona como amortecedor parcial. E a resposta orçamental deverá ser mais contida: os governos estão mais condicionados, os mercados obrigacionistas menos tolerantes e os decisores políticos mais cônscios dos riscos inflacionistas associados a apoios energéticos pouco focalizados.

A crise de 2022 foi um choque sistémico que expôs as vulnerabilidades que a Europa acumulou ao longo de décadas de gás russo barato. A atual é mais localizada, mais desigual e, por agora, mais gerível. A dúvida é saber até quando se manterá assim.

Por isso, os países-membros da UE devem estar preparados, devendo travar qualquer, tentativa de especulação, procurar novos fornecedores estratégicos, aconselhar a poupança energética e criar condições para ela, apostar nas energias renováveis e incentivar a sua produção e utilização.

2026.04.03 – Louro de Carvalho

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Celebração da Paixão do Senhor: memória e atualidade pascais

 

Em Sexta-feira Santa, dia em que, reunindo-nos em torno da cruz de Cristo, fazemos memória da Morte de Jesus na cruz, cumprem-se as palavras do profeta Zacarias que João nos recorda na sua narração da Paixão e Morte de Jesus: “Hão de olhar para Aquele que trespassaram.” A Liturgia da Palavra leva-nos, de facto, ao centro da celebração: a adoração da cruz de Cristo.

O primeiro contacto com a cruz de Cristo pode causar certo mal-estar. Numa sociedade em que se oculta e se evita o sofrimento, a contemplação do condenado provado pelo sofrimento incomoda e quase instintivamente leva à fuga e à indiferença. Contudo, temos de olhar a cruz de Cristo com olhos de ver e de nos demorar diante dela, sem nos atermos às primeiras impressões. Temos de descobrir o verdadeiro sentido da cruz de Cristo. Na verdade, todas as leituras do dia nos revelam uma dimensão importante da cruz de Cristo.

A primeira leitura (Is 52,13-53, 12), é o quarto cântico do Servo do Senhor, que as primeiras comunidades cristãs viram como imagem profética de Jesus crucificado. Jesus crucificado é o Servo justo e silencioso que não acusa nem invoca maldição e vingança para os que O maltratam, mas oferece a vida e intercede por eles. O sofrimento silencioso do Servo é mais eloquente do que muitos discursos. O silêncio não é resposta normal ao sofrimento indevido. Tanto a experiência comum como o Antigo Testamento nos mostram que os justos inocentes, quando são atingidos pelo sofrimento levantam a voz. Porém, o Servo do Senhor segue rota diferente: sofrendo injustamente, não grita por vingança. Não entra no círculo vicioso da vingança que gera violência atrás de violência, mas trava e vence este círculo de violência pelo perdão. A postura nova e inesperada que assumiu ante os maus tratos leva-nos a pensar. Passamos do profeta que profetiza para o profeta profetizado. Morto e sepultado, não fala. Fala dele Deus, falamos dele nós. Fala do Servo o grupo “nós” que, olhando o Servo, descobre o seu pecado. Como diz este texto e como dirá, mais tarde, Pedro: “Pelas suas chagas fomos curados.”

A segunda leitura (Heb 4,15-16; 5,7-9) apresenta-nos Jesus como o sumo-sacerdote, não num plano humano, porque não pertence a tribo sacerdotal de Levi, nem recebeu ordenação das mãos de homem. É o verdadeiro sacerdote, porque, sendo filho de Deus e verdadeiro Homem, tem todos os requisitos que o tornam o mediador entre Deus e os homens. Pela sua obediência até à morte e morte de cruz, ofereceu a Deus o sacrifício perfeito e obteve-nos a salvação. Deste sumo-sacerdote que se imola no altar da cruz podemos nos aproximar cheios de confiança, porque é Nele e na sua compaixão que encontramos a misericórdia e a sua graça.

O evangelho (Jo 18,1 – 19,42) relata a paixão de Jesus segundo João. Jesus, neste evangelho, tinha predito que “assim como Moisés ergueu a serpente no deserto, é necessário que o Filho do Homem seja erguido ao alto, a fim de que todo o que Nele crê tenha a vida eterna”. Na verdade, é na cruz de Cristo que se revela plenamente Jesus. Ora, este relato acentua a majestade de Jesus. Jesus sabia tudo o que ia acontecer e, por isso, antecede-Se aos acontecimentos, mostrando a sua liberdade. Além disso, João não refere – ou refere muito ao de leve – os elementos que podiam acentuar a humilhação e o sofrimento de Jesus na Paixão. A Paixão é como que a marcha triunfal de Jesus até à cruz e a entronização real de Jesus. O diálogo entre Jesus e Pilatos é sobre a realeza de Jesus. Jesus revela-Se como o rei. São, pois, de extrema importância a apresentação de Jesus como rei por Pilatos aos Judeus e a inscrição que Pilatos mandou colocar na cruz de Cristo. O facto de em Jo 19, 19-22 aparecer, três vezes, a expressão “rei dos judeus” é artefacto de João para se aperceber que Jesus é rei na cruz. A inscrição que Pilatos mandou colocar na cruz é o último ato da revelação da realeza de Jesus. O diálogo entre Jesus e Pilatos prepara-nos para a interpretação da cruz e da morte de Jesus como manifestação da sua realeza.

João também apresenta a morte de Jesus como o verdadeiro e definitivo sacrifício do cordeiro pascal. Além das referências à Páscoa presentes em todo o relato, há detalhes que convém ter presentes. Em primeiro lugar, a unção de Jesus – a consagração de Jesus – acontece “seis dias antes da Pascoa”, isto é, no momento em que as prescrições rituais do Êxodo pedem que se separe o cordeiro destinado ao sacrifício pascal. É de recordar que Jesus morre no dia da preparação, na hora em que os cordeiros pascais eram sacrificados para a festa. Por isso, se recorda o cumprimento da profecia de que “não lhe quebraram nenhum osso”, referência clara a Jesus como verdadeiro cordeiro de Deus. O tema de Jesus como o cordeiro de Deus já tinha sido pré-anunciado no início do quarto evangelho com a proclamação “Eis o Cordeiro de Deus!”

O Deus revelado na cruz de Cristo seduz-nos com a sua beleza e convida-nos a uma maneira muito concreta de seguimento. Defronte do Deus revelado na cruz de Cristo, o homem não pode ficar indiferente: é chamado, na sua liberdade, a tomar uma decisão.

A cruz explica quem é e como é Deus, em cada uma das pessoas da Trindade. Podemos, então dizer que na cruz de Cristo descobrimos a verdadeira beleza: o todo que se revela no fragmento. A verdadeira beleza é o Homem sem beleza nem atrativo de Isaías. É a Beleza cravada no monte do calvário, mortal e salvífica. É mortal, porque recorda aos habitantes do tempo a caducidade da sua permanência. É salvífica, porque nos convida a transgredir o tempo rumo à eternidade. Ao contemplarmos a Beleza cravada no monte do calvário, ocorre um choque em nós. A revelação do amor apaixonado de Deus na Paixão de Cristo não nos deixa indiferentes.

O Deus revelado ‘sub contrario’, na cruz da beleza, convida o homem ao seguimento, a um modo concreto de estar, de se situar e de agir no Mundo. A Igreja, nascida do lado aberto de Cristo do qual manam sangue e água, prefiguração dos sacramentos do batismo e da eucaristia, é chamada a ser discípula da cruz de Cristo. A cruz de Cristo deve ser o princípio hermenêutico e crítico do ser e da autoconstrução da Igreja. A Igreja que segue o Senhor Crucificado tem de ser uma Igreja pobre, que não busque o poder. Os principais beneficiários da ação da Igreja devem ser os pobres. A Igreja que ama o Crucificado tem de amar os crucificados com quem Ele Se identifica. Além disso, a Igreja que segue o Crucificado deve ser uma Igreja fecunda no sofrimento dos seus membros e que se alegra, quando é perseguida pela sua autenticidade. A Igreja, peregrina na Terra, é chamada a seguir Cristo pelos passos do sofrimento, da paixão e da cruz. Como Jesus arriscou a vida em defesa dos valores do Reino, assim a Igreja está chamada a ter uma dimensão profética. Por isso, cada membro da Igreja, corpo místico do Senhor Crucificado, deve seguir a via da cruz, da entrega da vida por amor e fidelidade. Todos e cada um dos discípulos de Jesus devem confrontar a sua imagem com a de Jesus crucificado-ressuscitado. Cristo crucificado tem de ser o critério hermenêutico e fundacional do ser, do pensar e do atuar dos discípulos.

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Os fiéis devem pensar com quais dos personagens do relato da Paixão mais se identificam e não vê-la como facto passado de há dois mil anos, mas atual, com cada cristão a refletir como a Paixão de Cristo se relaciona com a própria vida e com o testemunho da fé na Igreja e na sociedade. Se a Paixão de Jesus acontecesse hoje, nas nossas ruas, nos nossos tribunais, na nossa sociedade, como é que reagiríamos? É claro que é mais fácil anunciar Cristo, agora, do que na época dos primeiros cristãos, com a certeza do testemunho dos apóstolos, da fé dos mártires e tantos santos e santas e de pessoas simples e ilustres que creram firmemente na fé da Igreja.

Há três personagens a destacar: Simão Cireneu, José de Arimateia e Nicodemos – que têm muito a ensinar num Mundo em que as pessoas estão preocupadas com a própria vida, indiferentes à dor do próximo, espalham mentiras sobre os demais e no qual há quem seja capaz de criticar a Igreja por falar sobre amizade social.

O Cireneu não se envergonhou de carregar a cruz de Cristo, sabendo que este foi condenado, injuriado, torturado e acusado como falso profeta. Foi uma pessoa solidária com o sofrimento do próximo, sensível a Jesus que já não aguentava o peso da Cruz. Hoje, a insensibilidade é um dos problemas mais sérios e que faz com que percamos em qualidade humana. Entretanto, Jesus carregou sobre Si o peso que deveria estar sobre nossas costas. Pelas suas feridas, fomos curados. Jesus é o bom samaritano da Humanidade.

Também José de Arimateia e Nicodemos tiveram a coragem de testemunhar a sua adesão a Cristo, para que pudesse ser sepultado condignamente. Tanto José de Arimateia como Nicodemos, embora ocupassem altos cargos, fossem altamente reconhecidos, tiveram a coragem de se expor para dar digna sepultura a Jesus. Declararam-se discípulos de Jesus. Hoje, quantas vezes acontece que, na hora H, as pessoas não se querem expor ou envolver, não se fazem defensoras da verdade, do que é justo, do que é digno e do que merece ser honrado!

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Diferente dos Sinóticos, João apresenta elementos peculiares. Um Jesus dramático na hora final não é uma vítima, mas alguém que decide, consciente e livremente oferecer a sua vida.

“Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste Mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no Mundo, amou-os até o fim”. “Durante a ceia, quando já o diabo pusera no coração de Judas Iscariotes, filho de Simão, a ideia de O entregar, sabendo que o Pai tudo pusera em suas mãos e que viera de Deus e a Deus voltara, levanta-Se da mesa, depõe o manto e, tomando uma toalha, cinge-Se com ela.” O verbo oida (sabendo) indica a plena consciência do que se faz. É o lava-pés, símbolo do serviço e da purificação!

Outro dado importante é o destaque dado ao jardim. A Paixão tem o início e o término no jardim. “Jesus foi com os discípulos para o outro lado da torrente do Cedron. Havia ali um jardim, onde Jesus entrou com os seus discípulos.” “Havia um jardim, no lugar onde Ele fora crucificado e, no jardim, um sepulcro novo, no qual ninguém fora ainda colocado.” É uma alusão ao jardim do Éden. Nele, o velho Adão rejeita o desígnio de Deus para si e depara-se com a morte. Jesus, o novo Adão, acolhe o desígnio de Deus e assume-o até as últimas consequências, oferecendo a sua vida para que pudéssemos ter vida plena.

O relato joanino é o único a usar a expressão “hora de Jesus”, que indica a sua glorificação, o seu retorno ao Pai. Assim, para João, a morte de Jesus na cruz não tem caráter negativo, não é fracasso, derrota, mas, nela manifesta-se a glória, a vitória. É necessário que o Filho do homem seja elevado sobre a cruz. É o julgamento deste Mundo, em que o seu príncipe é derrubado.

No episódio da prisão, Jesus vai ao encontro de Judas e não é pego de surpresa como narra Marcos. O Jesus joânico não se encontra inclinado, não dobra os joelhos, não se prostra com o rosto em terra em oração, não cai por terra. Permanece de pé, pois é Deus.

Os representantes do poder político, civil e religioso são abatidos, quando Jesus diz o seu nome ‘Eu sou’, mostrando que ninguém Lhe pode arrebatar a vida, a não ser que Ele o permita.

Na narrativa joanina, não há um procedimento formal ante Caifás, mas um interrogatório diante de Anás, para saber se Jesus admite algo de revolucionário em seu movimento ou ensinamentos. Neste interrogatório, Jesus apresenta-se absolutamente autoconfiante a Anás, de modo que os seus captores são responsabilizados por O injuriarem. O interrogatório deixa Anás perplexo, e não Jesus. João não menciona o processo judaico, pois o mesmo já se encontra em todo o seu evangelho, desde o início, quando os judeus enviam sacerdotes e levitas para saberem quem era Jesus, até a decisão das autoridades judaicas de matá-lo.

Quanto à negação de Pedro, João apresenta o drama completo do apóstolo. É um dos que cortaram a orelha do soldado. Sobressaem as simultâneas negações de Pedro e da autodefesa de Jesus. E é o único a referir a presença de outro discípulo, que a tradição identifica como João, filho de Zebedeu.

Na presença no tribunal romano, é de destacar o foco de João à postura de Jesus. Apresenta um Jesus eloquente que responde às falsas acusações e aos questionamentos dos opositores, que assume o título de “Rei dos judeus” e testemunha a verdade. Não há um julgamento de Jesus por Pilatos. Não é Jesus que teme Pilatos; é Pilatos quem tem medo de Jesus, o Filho de Deus. Pilatos não tem autoridade independente sobre Jesus.

Na narrativa da crucifixão, da morte e do sepultamento, João não menciona Simão de Cirene. Isso não significa que Simão não tenha ajudado Jesus, mas combate alguns pensamentos heréticos que ventilavam no cristianismo primitivo, como o docetismo, segundo o qual Jesus não sofreu na cruz, mas um outro o substituiu.

Quanto à divisão das vestes de Jesus, João faz alusão explícita, mostrando que essa repartição faz parte do cumprimento das profecias acerca do Messias. “Isso, a fim de se cumprir a Escritura que diz: ‘Repartiram entre si minhas roupas e sortearam minha túnica’.” E  explicita que a túnica de Jesus não foi rasgada, mas dividida. A túnica sem costura fez pensar na Igreja una, que não deve ser dividida. Mas este pensamento é de época posterior, com são Cipriano, quando a unidade da Igreja está ameaçada. Embora tenha uma bela explicação teológica, não é certo que João tenha pensado nisso. O apóstolo terá aludido à veste de José, túnica tecida com mangas, que os irmãos embebem no sangue para que Jacob o julgue morto ou pensará na túnica do Sumo Sacerdote, que era de uma só peça e que Filão compara ao Mundo com os seus quatro elementos. A túnica sem costura usada por Jesus, segundo alguns teólogos, significa que João não queria apresentar Jesus só como rei, mas também como sacerdote. E, no relato da crucificação, destaca-se a presença das mulheres, inclusive a mãe de Jesus que estava ao pé da cruz com o apóstolo João.

As últimas palavras de Jesus na cruz também diferem das tradições de Mateus e de Marcos. Em João, Jesus diz: “Tenho sede” e, “está consumado”. A cena é de calmaria. Com isso, o evangelista apresenta Jesus como Aquele que controlava o seu próprio destino.

Mateus e Marcos colocam na boca de Jesus o início do salmo 22,2. João, ao mencionar o grito de sede de Jesus, pensa no salmo 69,22 que diz: “Como alimento deram-me fel e, na minha sede, serviram-me vinagre”. Até o grito mais humano de: “Tenho sede!” pode ser colocado no contexto do soberano controlo de Jesus sobre seu próprio destino.

A entrega do espírito de Jesus é rica de significado teológico. “Quando Jesus tomou o vinagre, disse “Está consumado!” “E, inclinando a cabeça, entregou o espírito.” Para João, a entrega do Espírito Santo deu-Se com a morte na cruz e na ressurreição, ao soprar sobre os apóstolos o Espírito Santo. João estará a sugerir, por simbólica antecipação, que Jesus entregou o seu Espírito a seus seguidores ao pé da cruz, em particular, aos dois expressamente citados (a mãe e o discípulo amado), idealizados pela comunidade joanina como os seus antecedentes.

João não menciona os sinais externos da Natureza, mas destaca o sinal no corpo de Jesus: “Mas um dos soldados traspassou-Lhe o lado com a lança e, logo, saiu sangue e água.” O sangue lembra a dimensão carnal (humanidade) e a água a dimensão espiritual (divindade). Em João, a água é comparada ao Espírito: “Aquele que crê em mim”, conforme a palavra da Escritura: De seu seio jorrarão rios de água viva. Ele falava do Espírito que deviam receber os que haviam crido nele, pois não havia ainda Espírito porque Jesus ainda não fora glorificado” (Jo 7,38-39). Sendo, para João, a cruz o lugar da glorificação de Jesus, essa profecia cumpre-se, “pois a mistura de sangue e água é o sinal de que Jesus passou desse Mundo para o Pai e foi glorificado. O sangue e a água jorrados do corpo do Crucificado foram interpretados pelos Padres da Igreja como o surgimento dos dois sacramentos da Iniciação Cristã: Batismo e Eucaristia, e desses dois sacramentos, o nascimento da Igreja, a nova Eva, que sai do lado do novo Adão.

No sepultamento de Jesus, João menciona o aparecimento de Nicodemos. “Nicodemos, que procurava, anteriormente, Jesus à noite, também veio, trazendo cerca de cem libras de uma mistura de mirra e aloés.” Não tinha aderido, totalmente, à proposta de Jesus, mas, agora, tem a coragem de mostrar o seu interesse pela pessoa de Jesus. As palavras de Jesus começam a tornar-se verdadeiras: “Quando Eu for elevado da terra, atrairei todos os homens a mim.”

Os Sinóticos referem os perfumes usados para ungir o corpo de Jesus, mas João, ao destacar a enorme quantidade de perfume, cerca de 32 quilos, evidencia a realeza de Jesus. Somente no sepultamento dos reis se usava tamanha quantidade de perfumes. Na Paixão segundo João, Jesus é apresentado como verdadeiro rei. A unção de Nicodemos lembra-nos o que diz o salmista a respeito das núpcias do rei-Messias com a Humanidade: “O teu trono é de Deus, para sempre e eternamente! O centro do teu reino é cetro de retidão! Amas a justiça e odeias a impiedade. Eis porque o teu Deus, te ungiu com óleo da alegria, como nenhum dos teus companheiros; mirra e aloés perfumaram tuas vestes.”

A Paixão de Cristo joanina é diferente dos Sinóticos, em vários aspetos. O Jesus de Mateus e Marcos sente-Se abandonado. Lucas pinta o Jesus que Se preocupa com os que choram e perdoa aos opositores. Para João, o crucificado não é o fracassado, mas o rei soberano vitorioso, sobre quem o mal não tem poder. Porém, todos os retratos de Jesus pintados pelos evangelistas são significativos. Importa que alguns sejam capazes de ver a cabeça pendente de tristeza, enquanto outros observem os braços abertos para perdoar, e outros percebam na tabuleta pregada na cruz a proclamação do rei soberano. A cruz, em João, não é símbolo de maldição, mas trono onde Jesus reina. Ao olhar para a cruz o homem de todos os tempos reconhece e escreve na tabuleta do seu coração que Jesus é o rei da sua vida.

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É de combater a tentação de separar supostos elementos diferentes do mistério pascal. Este coroa, como um todo, a vida de Jesus que passou pelo Mundo a fazer o bem. A entrada triunfal em Jerusalém visa a celebração da Páscoa: na quinta-feira, Jesus institui a Eucaristia (entrega sacrificial e refeição comunitária), ordena a sua celebração, institui o sacerdócio e o mandamento do amor fraterno, como selo discipular; na sexta-feira, isto é exposto, publicamente, no Calvário (o centurião, João, a mãe, Maria Madalena e outras mulheres estão presentes); no sábado, tudo germina na terra silente; e, no domingo, tudo eclode em espanto, força e aleluia!

2026.04.03 – Louro de Carvalho

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Cinquentenário da Constituição não pode albergar o seu canto do cisne

 

Celebrou-se, a 2 de abril, como previsto, em sessão solene da Assembleia da República (AR), a comemoração do cinquentenário da aprovação e da promulgação da Constituição da República Portuguesa (CRP), com a óbvia presença dos deputados e com a comparência de muitos convidados, com destaque para antigos deputados à Assembleia Constituinte (AC), eleita a 25 de abril de 1975, e para antigos capitães de Abril.

Usaram da palavra os deputados únicos representantes de partido, os representantes dos grupos parlamentares, o presidente da Assembleia da República e o Presidente da República.

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Numa sessão parlamentar polarizada, com vem sendo habitual, nos últimos tempos, a intervenção de André Ventura, líder do partido do Chega, provocou saídas do hemiciclo e das galerias, com o antigo secretário-geral do Partido Comunista Português (PCP), Jerónimo de Sousa, convidado na qualidade de deputado da AC, a ser um dos que se levantaram, ao ouvir a acusação de que os partidos de esquerda foram cúmplices de homicídios cometidos após o 25 de Abril.

Tema constante da sessão foi a revisão constitucional, que o presidente da AR, José Pedro Aguiar-Branco, considerou uma “possibilidade política” e não “uma traição”, defendendo que a CRP “é mais flexível e mais abrangente do que muitos pensavam”.

Os representantes das bancadas à direita confluíram na possibilidade de revisão e os da esquerda afastaram-se do processo, entre críticas a eventual entendimento da Aliança Democrática (AD) com o Chega. Eurico Brilhante Dias, líder parlamentar do Partido Socialista (PS), vincou a fidelidade do partido à atual Constituição e o deputado Filipe Sousa, do Juntos pelo Povo (JPP), divergiu do consenso informal, ao advogar a regionalização como justificação para uma revisão. E Paulo Núncio, representante do único partido que votou contra a CRP, em 1976, e líder parlamentar do partido do Centro Democrático Social (CDS) fez a defesa do “voto corajoso, democrático e patriótico e, sobretudo, de liberdade”, através do qual os deputados do partido, então liderado por Freitas do Amaral, deixaram claro que “Portugal merecia muito melhor do que um caminho para uma sociedade socialista”.

O primeiro a discursar foi o deputado do JPP, segundo o qual  “celebrar este momento não pode apenas evocar o passado”, mas obter o reconhecimento pleno das autonomias regionais, por motivo de “justiça territorial”, num país demasiado “centralizado”, onde é preciso “construir um Estado mais equilibrado e próximo das pessoas”, que passa pela regionalização.

Inês de Sousa Real, deputada única do partido Pessoas-Animais-Natureza (PAN), destacou o papel pioneiro dos constituintes, ao darem atenção à proteção do ambiente no texto fundamental que descreveu como “um dos mais ambiciosos catálogos de direitos fundamentais” e à afirmação dos direitos das mulheres, que passaram “a ser cidadãs de pleno direito”. E afastou uma revisão constitucional por partidos que apelam ao ódio, numa alusão à possibilidade de um acordo entre a AD e o Chega, referindo os que defendem “três Salazares no nosso país”.

O deputado único do Bloco de Esquerda (BE), Fabian Figueiredo, salientou o “exercício de coragem coletiva” que implicou a construção da CRP, aprovada por “pessoas tão diferentes” quanto Marcelo Rebelo de Sousa e o líder histórico comunista Álvaro Cunhal, constituindo “um chão comum” – “um texto imune ao sectarismo de trincheira”, escrito “na língua de Camões e Amílcar Cabral”.

O líder parlamentar do CDS, Paulo Núncio, recordou o momento em que a bancada centrista votou contra a CRP: “um voto corajoso, democrático e patriótico e, sobretudo, um voto de liberdade” – menção que mereceu aplausos à direita do hemiciclo, sobretudo, do Chega. Porém, o centrista considerou que as sucessivas revisões se desviaram do caminho para o socialismo e destacou a revisão de 1982, que abriu o caminho para a Europa e substituiu o Conselho da Revolução pelo Tribunal Constitucional, assim como ditou o fim da irreversibilidade das nacionalizações e da Reforma Agrária.

O líder do PCP, Paulo Raimundo, descreveu a Constituição de 1976 como uma “grande vitória dos trabalhadores, da juventude, dos democratas e dos capitães de Abril”. Defendeu que, “apesar dos golpes e das sete revisões, a Constituição continua a dar um rumo de progresso para o país”.

“A Constituição não é neutra e faz opções”, reconheceu o líder comunista, para quem o texto fundamental toma as opções certas, que têm de ser implementadas.

Com um cravo vermelho na mão, Paulo Muacho, deputado do Livre referiu os “muitos problemas” de Portugal, como a subida dos preços das casas e o milhão e meio de Portugueses sem médico de família, afastando que a CRP conste dessa “longa lista”. Pediu que não nos tentem convencer de que os problemas que enfrentamos se resolvem com revisões da CRP. E garantiu  que “os filhos, os netos e os bisnetos do 25 de Abril estarão prontos para defender a democracia”.

Mariana Leitão, líder da Iniciativa Liberal (IL), referiu-se ao “pacto de civilização escrito pela voz de um povo inteiro” na Constituição de 1976, dizendo que “ficaram consagrados direitos que pareciam impossíveis”, “que hoje nos parecem óbvios, porque os temos”. Considera a CRP um alicerce, mas que “precisa da nossa coragem de a atualizar e de a fazer crescer, sem nunca abandonar a defesa da democracia liberal, do Estado de Direito e das liberdades individuais”.

O líder parlamentar do PS, Eurico Brilhante Dias, repetiu a saudação de Mário Soares, na AC, aos militares de Abril; “Nunca é de mais lembrar que somos todos filhos e netos de Abril, da valentia e da coragem dos capitães que derrubaram um regime com partido único.”

Depois, recordou Maria Barroso, para falar no “corte com um passado de guerra, [de] emigração forçada e [de] pobreza”, traduzido na CRP. E, referindo-se aos novos problemas e aos novos desafios como o acesso à habitação, elogiou uma Constituição “na qual se reveem os verdadeiros democratas, da esquerda e da direita”. E voltou às palavras de Mário Soares, há meio século, para dizer que “o PS é fiel à atual Constituição”.

O líder do Chega começou o seu discurso sobre os 50 anos da CRP, “que, de alguma forma, nos projetou o futuro”, dizendo que os problemas do país eram diferentes dos de hoje. Depois, lembrou os presos sem mandato e os mortos em atentados, mencionando grupos terroristas “patrocinados por muitos deputados da Constituinte” e verberando que a AR tenha amnistiado os membros da FP-25 de Abril.

Sustentando que a Constituição não é uma Bíblia sagrada, mas “um consenso de uma comunidade, que muda e se altera”, disse que é necessária uma revisão constitucional, “pois não temos de ter uma Constituição que caminhe para o socialismo nem para o cheganismo”. E termina, citando Sá Carneiro: “A política sem ética é uma vergonha, mas a política sem risco é uma chatice.”

Cristóvão Norte, deputado do Partido Social Democrata (PSD), emocionado, evocou o pai, que foi deputado da AC, dizendo que “uma das forças da Constituição está na capacidade que ela própria prevê de se rever”, sem questionar os seus princípios, mas adaptando-se à realidade. E, evidenciando os “alicerces fundamentais” da democracia, da liberdade e da dignidade humana, de tudo o que pode ser “aperfeiçoado”, frisou que “a democracia exige um chão comum, onde possamos discordar”. “Quando o ressentimento se torna motor da ação política, alimentam-se os radicalismos”, disse, fazendo uma referência ao episódio que marcou a sessão solene. “Ninguém tem de se ir embora. Todos fazemos falta aqui”, proferiu.

O presidente da Assembleia da República começou o seu discurso com uma homenagem a seis repórteres fotográficos que fizeram a cobertura jornalística dos trabalhos da AC, que mereceram aplausos de todas as bancadas do hemiciclo.

Admitindo que falar sobre a Constituição de 1976 “é um exercício exigente, José Pedro Aguiar-Branco disse que todas as palavras que possa dizer “vão ter segundas leituras”, mas assumiu o risco. “É a pedra angular do nosso sistema político e da nossa democracia”, declarou.

Para Aguiar-Branco, a sobrevivência do texto, escrito há 50 anos, com todas as diferenças entre o Portugal de 1976 e de 2026, resiste, “porque é mais flexível e mais abrangente do que muitos pensavam”, pois está escrito, “para se adaptar aos tempos” e a sua revisão é “uma possibilidade política” e não “uma traição”. “Mudamos as palavras, mudamos os textos, mas o elo que nos liga a 1976 permanece”, disse, recordando que o Presidente da República foi deputado e votou a última revisão constitucional. “Temos muitas diferenças, temos muitas causas fraturantes, mas a Constituição não é uma causa fraturante”, continuou, pedindo aos deputados “um pouco mais de confiança na Constituição”, que é um garante de estabilidade.

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Merece realce a intervenção do Presidente da República, para quem a CRP, escrita “com mãos ainda trémulas de liberdade”, é o “pacto mais solene” de Portugal “com o futuro”, pois constitui “a voz de um povo que, saindo das sombras de décadas de silêncio, escolheu a luz da democracia, da dignidade e da justiça social como seus valores fundacionais”. E disse que a data que evocamos, nesta casa, expressão plural da soberania do povo português, pertence “ao Portugal que somos e que queremos continuar a ser”.

Depois, o chefe de Estado homenageou os Capitães de Abril que “nos devolveram a Liberdade e foram fiéis ao seu compromisso: instaurar a Democracia com eleições livres em Portugal”; e à AC, cujos “membros cumpriram a missão, em menos de um ano, em condições instáveis, perante o ceticismo dos habituais Velhos do Restelo que vaticinavam uma tarefa inacabada”, tendo contribuído, decisivamente, “na construção de uma República livre, plural e assente no Estado de Direito democrático”. O chega e o CDS não alinharam no aplauso geral.

Citando o presidente da AC, Henrique de Barros, referiu que os constituintes foram “dignos” de si “próprios, dotando a nossa pátria com uma Constituição que, na sua essência”, resiste “à prova do tempo”. E, citando António Macedo, um dos constituintes, lembrou que “não foi apenas uma lei que revogou outra lei”, mas que, “no mais profundo significado das coisas, foi revogado um país e outro lhe sucedeu”, pois “éramos uma ditadura” e “somos uma democracia”.

Observou que a CRP soube resistir ao tempo, “revelando flexibilidade, sem perder a sua essência”, pois “conjugou sempre a adaptação a novos desafios com o universalismo dos valores que transporta” e “é a matriz comum que dá continuidade e estabilidade à nossa democracia” e “o escudo do cidadão, perante o arbítrio do poder” ou “a garantia da cidadania: todos iguais nos direitos e nos deveres”.

No dizer do Presidente da República, a CRP “serviu de bússola à construção de muitas das respostas que Portugal deu ao nosso povo” e “tornou possível o Estado Social, um percurso de dignidade, solidariedade e projeção de futuro, assente nos direitos à saúde, à educação, à cultura, à habitação e à segurança social”.

Verificando que “os Portugueses guardam pela Constituição um apreço vigilante” e se orgulham “do que ela diz”, mas se inquietam “com o que ela ainda não faz”, clarificou que “não é a Constituição que impede a resolução dos problemas concretos dos Portugueses”, mas o “seu incumprimento” e “a incapacidade de vários poderes [que acordaram demasiado tarde] em concretizarem, de forma efetiva, os direitos que ela consagra”.

O Presidente da República sabe que “não tem poder legislativo nem executivo”, mas, como jurou, tudo fará para “defender, cumprir e fazer cumprir a Constituição da República Portuguesa”. Nesse sentido, trabalhará “em cooperação com os outros órgãos de soberania, para que os desígnios do Estado Social não sejam letra morta”, mas “se consubstanciem em melhores condições de vida para os Portugueses, a começar pela melhoria do Serviço Nacional de Saúde”. De igual modo, cooperará para esbater a “desigualdade socioeconómica, territorial e de género, feridas que se agravam, discriminações que persistem, pobreza que subsiste, mesmo entre quem trabalha”, bem como para  combater a “corrupção que mina o funcionamento da sociedade e a confiança nas instituições”. Com efeito, o chefe de Estado diz que “tem de ser concretizado, um dos mais nobres princípios constitucionais: o de uma sociedade justa e solidária”.

No quadro do acesso à habitação, denuncia “os recordes históricos nos custos de habitação e nas taxas de esforço no arrendamento [que] esmagam o orçamento familiar”.

Aludindo a certos próceres políticos do desvirtuamento da CRP e do seu incumprimento, sustenta que “este património não pode ser destruído, sobretudo, quando a neblina dos tempos difíceis nos tenta desviar do caminho”, e que este é o momento da reafirmação dos princípios fundamentais constantes dos onze artigos iniciais da CRP, “o nosso ADN de nação livre, de vocação universalista e respeitadora do direito internacional”.

O Presidente da República adverte que “a Constituição não existe apenas nas instituições”, mas “vive ou é posta em causa, em cada um de nós” e “nos valores que partilhamos”. Com efeito, “a lei garante direitos e impõe deveres”, esclarece, “mas é a cultura de respeito mútuo que torna esses direitos reais no dia de hoje, na escola, no trabalho, na rua, nas redes sociais”.

Vinca o chefe de Estado que “a Constituição deu-nos ferramentas”, cabendo-nos saber usá-las. E, 50 anos depois, o maior tributo à CRP “é garantir que, a cada dia, estamos mais próximos de uma ‘sociedade justa e solidária’ que não deixa ninguém para trás”.

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A sessão terminou com o Hino Nacional cantado por Kátia Guerreiro. Depois, os deputados da AC desceram ao hemiciclo para uma “foto de família” junto a um original da CRP de 1976. Entre outros homenageados pelo presidente da AR, estiveram o antigo líder comunista Jerónimo de Sousa e o anterior Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. Dos atuais deputados, o momento foi presenciado, entre outros, pelo secretário-geral do PS, José Luís Carneiro, e pelo co-porta-voz do Livre, Rui Tavares.

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É de temer que esta sessão nublada constitua o canto do cisne da CRP com o mínimo do espírito abrilino. O Chega, a IL e o CDS insistem numa revisão que a expurgue da “ideologia” (direitos humanos e socioeconómicos, entre outros). Tudo depende da coragem ou da acomodação do PSD. Se preferir uma revisão à direita pesada, adeus vindima, que os cestos partiram! Se optar por uma revisão em cooperação com forças de democráticas moderadas, a CRP continuará na sua matriz fundacional. Porém, os indícios (leis da migração e nacionalidade) não são bom augúrio.

O PSD devia ler o artigo de Cavaco Silva no Expresso de 27 de março, em que desmascara o Chega (mentira, contradição, incoerência, incapacidade) e diz que, tendo sido ministro das Finanças e do Plano de Sá Carneiro e lido os seus textos, lhe parece que não gostaria deste PSD. Caberá, pois, ao PSD ouvir os politólogos que sustentam não haver condições politicas para uma revisão séria da Lei Fundamental; e ao PS, ao Livre e a outros moderados fazerem eclodir os sobressalto democrático contra uma revisão atrabiliária da CRP.

2026.04.02 – Louro de Carvalho