terça-feira, 3 de março de 2026

Portugal pode ser alvo do Irão, mas não é inimigo prioritário

 

O recente conflito dos Estados Unidos da América (EUA) e de Israel com o Irão não demorou a expandir-se aos países vizinhos, com bases militares norte-americanas e outras infraestruturas a serem atacadas pelos Iranianos, como retaliação aos ataques conjuntos de Israel-EUA. E Portugal não está livre de alguma forma de desestabilização, em consequência do ataque, sobretudo, por conivência.

O embaixador do Irão, Majid Tafreshi, já “veio pedir satisfações ao governo sobre a nossa alegada cumplicidade no ataque”, questionando-o sobre a utilização da Base das Lajes.

O analista do Expresso Tomé Ribeiro Gomes argumenta que esta nova ronda de ataques contra o Irão “pode criar problemas, mais até do que em junho, porque, desta vez, houve muito mais preparação, houve muito mais conversa, antes da operação militar”.

Diana Rosa Rodrigues explica muito do que se passa, em artigo intitulado “Ameaça iraniana: “Portugal não é um inimigo prioritário do Irão’”, publicado pela Euronews, a 2 de março.

A pretexto da utilização da Base das Lajes pelos EUA, por autorização tácita, o nosso país pode ser alvo do Irão, mas parece remoto ser atacado diretamente. Ainda assim, refere a articulista que “os especialistas alertam para a possibilidade das chamadas ‘ameaças híbridas’, assim como [para] os potenciais impactos na diplomacia”. Com efeito, a operação “Fúria Épica”, iniciada a 28 de fevereiro, pela sua dimensão, não é efetuável sem forte apoio logístico. Por isso, as autoridades iranianas foram céleres a avisar que “todos os locais envolvidos” nas operações militares dos EUA contra a República Islâmica “são alvos legítimos”, o que pode incluir a nossa base açoriana, onde circulam, a todo o gás, aviões norte-americanos.

O ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi, na televisão iraniana, declarou: “As forças armadas iranianas consideram como alvos legítimos os locais de onde foram conduzidas as operações norte-americanas e sionistas [Israel], bem como os locais de todas as ações levadas a cabo contra as operações de defesa iranianas.”

Face a esta declaração, João Annes, do Observatório de Segurança e Defesa da SEDES, sustenta que o Irão “decidiu tratar Portugal como um inimigo”, o que, em sua opinião, “o Estado português”, na sua política externa, deve levar “consideração, nas relações com o Irão”, já que pode haver “reação mais robusta, do ponto de vista diplomático, com Portugal”. Porém, em termos pragmáticos, defende que “Portugal não é um inimigo prioritário do Irão”.

Defende o analista que, “em termos de qualquer tipo de risco de ataque direto cinético, de mísseis ou drones, a partir, diretamente, do Irão”, isso “não é plausível, nem é credível que Portugal corra qualquer tipo de risco, nessa matéria”, pois a distância geográfica e a ausência de contencioso bilateral entre Portugal e o Irão não apontam para isso, mas há “outras possibilidades de retaliação, nomeadamente, através do ‘formato híbrido’ e em três dimensões distintas”: “utilização de proxies, neste caso, [através de] organizações criminosas locais”; “instrumentalização de personalidades políticas e do foro mediático para atingir os interesses portugueses, seja a nível nacional, seja a nível dos nossos interesses políticos externos”; e “utilização do ciberespaço para atingir, diretamente, Portugal”.

Observa João Annes que o Irão mantém capacidade intacta, no ciberespaço, para ciberataques, para espionagem e para outros tipos de ameaças; e tem histórico de procura de relação (por exemplo, no Reino Unido e na Alemanha) com organizações criminosas que operam, localmente, na Europa, para atacar sinagogas, interesses judaicos ou outros. Portanto, a questão terá que ver com eventuais ameaças internas promovidas pelo Irão.

Segundo o analista, a ameaça terrorista existe, mas “não é nova, nem deve ser introduzida apenas no contexto internacional atual”, pois, como recorda, “a ameaça iraniana, do ponto de vista do terrorismo, dentro da Europa, existe desde 1979”. Por isso, acredita que as forças de segurança nacionais e europeias acompanham, “de forma muito próxima, todas as movimentações, seja das organizações terroristas, patrocinadas, diretamente, pelo Irão, a maior parte delas de inspiração xiita, seja aquelas com que o Irão consegue estabelecer laços e ligações, nomeadamente, a Irmandade muçulmana”.

Mais refere que “Portugal já provou, no caso das ameaças do Estado Islâmico, que está muito bem preparado e muito bem informado” para “prevenir essas ameaças”. Porém, adverte que Portugal, são sendo alvo não prioritário, continua, como país da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) e da União Europeia (UE), a ser um alvo de potenciais vetores terroristas por parte do Irão, porque já o era antes. Por isso, Portugal deve reforçar os meios de prevenção das ameaças e priorizar as áreas, dentro das forças e dos serviços de segurança, que lidam com este tipo de ameaças e aumentar a capacidade de resposta a nível ‘ciber’.

Na ótica do analista, os alvos prioritários, além dos EUA e de Israel, são, por exemplo, a França, que está a “espoletar” um porta-aviões, o Charles de Gaulle, para aquela região, e a prometer multiplicar as ogivas nucleares, na Europa, e o Reino Unido, que está, neste momento, a atuar como quem reconhece, no Irão, uma ameaça. No entanto, João Annes avisa: “Não somos um alvo prioritário, mas não devemos relaxar a guarda.”

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A posição de Portugal, em relação à “Fúria Épica” constitui um risco. Nós olhamos para os EUA, não tanto como um parceiro ou aliado, mas como patrão. Já a vizinha Espanha depressa condenou os ataques, afirmando tratar-se de decisão unilateral à revelia do Direito Internacional, pois não decorre de decisão ou de autorização da NATO ou da Organização das Nações Unidas (ONU), mas de ordem do presidente dos EUA, sem autorização do seu Congresso.

Assim, o ministro espanhol dos Negócios Estrangeiros, José Manuel Albares, negou que os EUA estejam a utilizar as bases militares de Rota, em Cádis, e de Morón de la Frontera, em Sevilha, para a operação militar no Irão, ou que o tenham informado, previamente, do ataque: “Não vamos emprestar as nossas bases para nada que não esteja no Tratado ou para algo que não se enquadre na Carta das Nações Unidas”, afirmou o chefe da diplomacia espanhola, em entrevista à RTVE, vincando: “São bases de uso conjunto, mas de soberania espanhola e, portanto, a Espanha tem a última palavra sobre o uso dessas bases.”

O governante espanhol admitiu que  pode haver navios de guerra em Rota, “o que não significa que a base esteja a ser emprestada para esta operação”, e relevou que a decisão agradou ao regime iraniano, como a embaixada do Irão comunicou nas redes sociais: “O Irão reconhece e respeita, plenamente, esta posição, que está em conformidade com o direito internacional.”

“Estamos perante uma escalada militar com consequências imprevisíveis, consequências que já estamos a ver diante dos nossos olhos: o Estreito de Ormuz completamente paralisado, o aumento do preço do petróleo ou o prolongamento da guerra”, comentou Albares.

Também Margarita Robles, ministra espanhola da Defesa, negou que as bases americanas em solo espanhol estejam a ser utilizadas na luta contra o regime dos Ayatollahs. “Categoricamente não, não foi prestado qualquer tipo de assistência nas bases de Morón e Rota”, respondeu a ministra da Defesa, num evento em Granada, esclarecendo que, embora haja um acordo com os EUA para a utilização das bases andaluzas, este acordo permite que estas operem no âmbito da legalidade internacional, ao passo que, “neste momento”, Israel e os EUA “estão a atuar unilateralmente, sem o apoio de uma resolução internacional”.

Em Portugal, a Base das Lages mantém as movimentações dos aviões norte-americanos, intensificadas nos últimos dias. O ministro do Estado e dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, confirmou que  os EUA poderiam usar a Base das Lajes para uma operação militar contra o Irão, desde que respeitassem os termos do tratado assinado com Portugal, aduzindo que o Acordo de Cooperação e Defesa entre Portugal e os Estados Unidos, assinado em 1995, prevê “autorizações tácitas, que são dadas com um prazo relativamente curto”.

A 2 de março, em entrevista à CNN, o governante revelou que Portugal concedeu aos EUA uma “autorização condicional” para utilização da Base das Lajes, mas apenas após Washington ter informado Lisboa de que tinha feito uma intervenção militar no Médio Oriente, mas sublinhou que nenhum meio militar envolvido na operação norte‑americana partiu dos Açores (Era o que faltava: é bastante longe!). Além disso, esclareceu que a autorização dada para eventual uso das Lajes na intervenção em curso está sujeita a três requisitos essenciais: só pode ser utilizada em resposta a um ataque, num quadro de defesa ou retaliação; a ação tem de ser necessária e proporcional; só pode visar alvos de natureza militar.

É caso para questionar: Está a querer enganar quem? Faz-me lembrar um antigo ministro da Defesa, que, ao ser questionado por jornalistas – e, mais tarde, pelos deputados, na Assembleia da República (AR) – por a OGMA– Indústria Aeronáutica de Portugal ter reparado motores de aviões indonésios, declarou, candidamente, que a OGMA não sabia qual era a sua origem, pois os motores não têm número e marca de origem.

Além disso, a despropósito, invocou o Decreto-Lei n.º 2/2017, de 6 de janeiro, que, nos termos do artigo 2.º, se aplica “em tempo de paz”, para dizer que, até 27 de fevereiro, todas as movimentações aéreas de aeronaves militares norte‑americanas foram autorizadas ao abrigo do regime geral (entrada cortês de navios e aeronaves no território). Nestes casos, como aduziu, os pedidos são comunicados e tornam‑se tacitamente válidos, se Portugal não se opuser, no prazo de 24 horas. Ora, tais movimentações eram preparatórias da gigantesca operação, como era do conhecimento público. Donald Trump nunca escondeu o seu intento!

Já há dias, citei a posição do advogado Ricardo Silva a contrariar tal postura do governo.

Francisco Pereira Coutinho, professor catedrático de Direito Internacional na Nova School of Law, diz que a posição do governo é uma sonsice, pois, segundo o acordo, “tem de haver avisos” que não requerem autorização, em operações da NATO ou de outras organizações internacionais, mas uma operação unilateral dos EUA requer “autorização expressa”.

Também Tiago André Lopes, professor de Relações Internacionais, na Universidade Lusíada do Porto, considera que os tratados são “claros” e que os EUA têm de informar o governo das operações e, nestes casos, solicitar autorização, revelando a posição de Portugal submissão aos EUA. “Isto é um mau sinal porque dá a ideia de uma diplomacia de submissão, e não de cooperação. […] Os EUA têm uma necessidade e nós vamos prover essa necessidade, numa relação que não é simétrica e não é de parceria”, diz o professor, sustentando que a decisão do governo coloca problemas na posição portuguesa no Mundo e na neutralidade que diz mostrar.

“Estamos, sempre, a rogar que a nossa diplomacia é pela neutralidade, que é uma diplomacia de cooperação e de pontes com todas as zonas geográficas, mas pontes não se fazem dando apoio político, que é o que nós demos, a um ataque unilateral, quando está a decorrer um processo negocial que o mediador dizia estar a correr bem”, observa o especialista, frisando que o governo não vê que alianças “não são relações de dependência” e que “o bom aliado chama a atenção do seu parceiro, quando este erra”.

Sobre as potenciais consequências para Portugal, no apoio à operação militar norte-americana, Tiago André Lopes não aponta nenhuma, “para já”, mas adverte que não podemos excluir que o cenário mude, a médio prazo, nomeadamente, nos campos económico e diplomático.

Por exemplo, manter o estreito de Ormuz fechado fará estragos na economia europeia e, em particular, na portuguesa. Também depois da Guerra dos Seis Dias, em 1967, quando Portugal apoiou Israel, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) embargou a venda de petróleo a Portugal e à África do Sul, o que “impactou bastante a nossa economia”. E, se Portugal vier a concorrer a um lugar no Conselho de Segurança da ONU e precisar dos votos do Mundo árabe, pode não os conseguir, haver por a ideia de que Portugal alinha com agendas muito específicas.

E o Presidente da República, em Braga, a 28 de fevereiro, na sua despedida da Forças Armadas, em discurso inflamado (embora rico de conteúdo), garantiu que os militares estão, dedicadamente, ao serviço de Portugal, que está sempre com os aliados. Porém, questionado pelos jornalistas sobre o conflito com o Irão, remeteu para o comunicado do governo.

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Supõe-se que os efeitos do conflito já chegaram à Europa.

Um drone atingiu a base aérea britânica da RAF (Força Aérea Real) em Acrotíri, no Chipre, pouco depois da meia-noite de 1 para 2 de março. Os danos materiais são limitados e não houve feridos,

mas a situação continua a ser investigada pelas autoridades cipriotas e britânicas.

O presidente cipriota, Nikos Christodoulides, numa declaração à comunidade cipriota, em que revelou o incidente, sublinhou o facto de estarmos “numa região de particular instabilidade geopolítica, com muitos desafios e problemas, que está a atravessar uma crise sem precedentes”, mas que o país não participa nem tenciona participar em qualquer operação militar.

Como a RAF Acrotíri é território ultramarino britânico perto de Limassol, Londres enviou meios adicionais para a área para “fins defensivos”, incluindo sistemas de defesa antiaérea e antidrone, radar e caças F-35, e aumentou o nível de proteção das forças na região. E as bases britânicas aconselharam os residentes de Acrotíri a ficarem, em local seguro, até nova ordem.

Em todos os outros locais (Episkopi, Dhekelia, Agios Nikolaos), os locais de trabalho, as empresas e as instalações permanecerão abertos normalmente, sem restrições.

Ora, o incidente ocorreu no contexto de tensões acrescidas no Médio Oriente. Segundo a AFP, a Grã-Bretanha concordou em autorizar aos EUA a utilização das bases militares britânicas para ataques “defensivos” destinados a destruir os mísseis iranianos e os seus lançadores. Porém, o primeiro-ministro afirmou que o Reino Unido “não esteve envolvido nos ataques iniciais contra o Irão e não se envolverá agora em ações ofensivas”.

Não obstante, a AFP refere que o ataque suspeito com drones ocorreu após as declarações de Keir Starmer sobre a assistência aos EUA, no contexto do conflito com o Irão.

As estimativas sobre a possível origem do drone, incluindo cenários que excluem um lançamento direto a partir de território iraniano, devido à sua distância, ou relatos de possível envolvimento do Hezbollah, provêm de fontes militares citadas pelos meios de comunicação social cipriotas, mas não foram oficialmente confirmadas.

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Seja como for, o ambiente está ao rubro e as consequências são imprevisíveis. Tudo isto é devido à ambição dos EUA, secundada pela cooperação ativa, pela conivência, pela falsa neutralidade e pela alegação da ação meramente defensiva. E a paz não tem voz, nem vez!

2026.03.02 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 2 de março de 2026

A Transfiguração do Senhor remete-nos para o nosso futuro com Deus

 

O II domingo da Quaresma, no Ano A, pela vocação de Abraão e pela Transfiguração do Senhor, transporta-nos para o horizonte de felicidade que almejamos e que nos espera. Para tanto, mesmo no sofrimento e na adversidade, teremos de purificar e de cultivar a nossa fé, que precisa sempre de revitalização para alicerçar e robustecer a esperança e configurar e impulsionar a caridade.

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A primeira leitura (Gn 12,1-4) coloca-nos ante os olhos Abraão, que a catequese de Israel tem por modelo do crente. Após ouvir Deus dizer-lhe “põe-te a caminho”, Abraão deixa tudo, corta todas as amarras e avança para o desconhecido, disposto a abraçar os desafios que Deus lhe venha apresentar. A obediência total e a confiança inabalável, com que o patriarca se entrega nas mãos de Deus, interpela e desafia todo os crentes.

O trecho em apreço faz parte de um bloco de textos a que se dá a designação de “tradições patriarcais” (Gn 12-36), um conjunto de relatos singulares, originalmente independentes uns dos outros, que reúnem materiais diversos: mitos de origem (isto é que descreviam a tomada de posse de um lugar pelo patriarca de um clã), lendas cultuais (narrativas cheias de elementos fantásticos, que descreviam como uma figura divina aparecera num determinado lugar ao patriarca e lhe deixara uma mensagem, dando origem a um culto), indicações sobre o quotidiano dos clãs nómadas que circularam pela Palestina, no segundo milénio (nascimentos e mortes, casamentos, conflitos familiares, lutas pela água ou pelas pastagens contra os pastores de outros clãs ou contra os povos sedentários das regiões que atravessavam) e reflexões teológicas posteriores que visavam apresentar aos crentes israelitas modelos de vida e de fé.

Ao quadro teológico e catequético que nos é proposto subjazem as migrações históricas de diversos povos nómadas, antepassados do povo bíblico, no início do segundo milénio a.C. Nessa época, a História regista forte movimento migratório de povos amorreus, entre a Mesopotâmia e o Egito, passando por Canaã. São povos que não conseguiram fixar-se na Mesopotâmia ou que a abandonaram, devido a convulsões políticas registadas, nessa zona, no início do segundo milénio, e que continuaram o caminho migratório, ao longo do Crescente Fértil, à procura de terra onde implantar a sua tenda, de forma a escapar aos perigos e incomodidades da vida nómada.

Os clãs referenciados nas tradições patriarcais transportavam consigo os seus sonhos e esperanças, concretizáveis no desejo de encontrar uma terra fértil e bem irrigada, bem como possuir uma família forte e numerosa que perpetuasse a memória da tribo e se impusesse aos inimigos.

Abraão viveu por volta de 1850 a.C.

Nos primeiros capítulos do livro do Génesis (Gn 3-11), a catequese de Israel apresentou o quadro de uma Humanidade que, tendo optado por caminhos de autossuficiência, pretendeu viver de costas voltadas para Deus. Por conseguinte, as suas opções erradas fizeram-na conhecer o pecado, o sofrimento e a morte.

A opção errada do homem não quer dizer que o projeto de Deus falhou, nem que, dececionado com a ingratidão do homem desistiu de o salvar, nem que renunciará ao desígnio de construir uma História de relação e de comunhão com o homem. Deus não desiste, porque ama a Humanidade que criou; e amor verdadeiro nunca desiste. O que Javé vai fazer é tentar de novo, deforma diferente. Desta vez, lança o olhar sobre o Mundo, escolhe um homem, interpela-o diretamente, começa com ele uma relação, elege-o para ser, no meio das nações, um sinal de Deus. Esse homem, escolhido de Deus, é Abraão.

O nome “Abraão” é amorreu (significa “o pai é exaltado”). O seu clã é originário de Ur, na baixa Mesopotâmia. Porém, Abraão e a família terão emigrado para Ocidente, para Haran, talvez para fugir às convulsões políticas que agitavam a baixa Mesopotâmia. Foi de Haran que Abraão, após a morte de seu pai, desceu para a terra de Canaã.

Todavia, a catequese de Israel não vê na migração de Abraão para Canaã um acontecimento banal, fruto das circunstâncias da vida ou das vicissitudes da História. Para o teólogo javista, Abraão procedeu assim, por indicação de Deus. Foi Deus que o convidou a deixar a sua terra e a sua família e a partir ao encontro de uma outra terra. Esse convite está ligado, segundo o relato javista, a uma bênção e à promessa de uma descendência numerosa. E, como o catequista javista não dá explicação para esta iniciativa de Deus em chamar este homem, em particular, estamos ante um exemplo típico do mistério, sempre novo e não explicado, da vocação.

É de ter em conta que, para os antigos, abandonar a terra (horizonte natural onde o clã vive e onde tem as suas referências), a pátria (espaço onde o clã encontra o afeto a solidariedade e o seu espaço protegido por usos, leis e costumes) e a família (o círculo familiar íntimo, onde o homem encontra apoio e complemento), quase irrealizável. Porém, Abraão foi capaz de arriscar tudo, deixando o seguro, para apostar num projeto nebuloso e incerto.

Face ao chamamento de Deus, Abraão mantém-se mudo, sem discutir, sem objetar, sem pedir explicações, sem impor nenhuma condição, depois de escutar o desafio de Deus, simplesmente, pôs-se a caminho. O verbo “yalak” (“ir”, “partir”, “pôr-se a caminho”) tem extraordinária força e expressa a audácia do crente que é capaz de arriscar tudo, de “cortar amarras”, de deixar as seguranças, para apostar em algo que não é certo, confiando apenas em Deus e na sua Palavra. É um rasgo maravilhoso que define a atitude de fé radical, de confiança total, de obediência incondicional ao desígnio de Deus. Nesta passagem onde o que se conta de Abraão tem valor de modelo: o hagiógrafo ensina aos concidadãos a obediência radical a Deus.

Por sua vez, Deus compromete-se com Abraão e acena-lhe com a promessa que se expressa na bênção (a raiz “abençoar” é repetida cinco vezes, nestes versículos). A bênção é comunicação de vida pela qual Deus realiza a sua promessa de salvação. Aqui, a bênção concretiza-se como descendência numerosa (noutros textos das tradições patriarcais, a bênção, além da descendência numerosa, completa-se com a promessa de uma terra).

Importantíssima é a ideia de que o Povo nascido de Abraão será fonte de bênção para todas as nações. inaugura-se, aqui, a ideia de que Israel é o centro do Mundo e de que a sua vocação é ser testemunha da salvação de Deus diante de todos os povos da Terra. Esta eleição, mais do que privilégio que Deus, de forma inexplicável e parcial, concede a um povo, é a responsabilidade de Israel ser um “sinal” de Deus na História e na vida do Mundo.

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No Evangelho (Mt 17,1-9), Jesus reforça o pedido aos discípulos de que confiem n’Ele e que ousem segui-Lo no caminho de Jerusalém, o qual, embora tenha de passar pela cruz, conduz à ressurreição, à vida nova e eterna. Aos discípulos, relutantes e assustados, Deus confirma a verdade de Jesus: “Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O.” E à proclamação, quase idêntica, do momento do Batismo, acrescenta-se o imperativo “Escutai-O”, o que era é difícil para os discípulos.

O episódio da transfiguração de Jesus situa-se, praticamente, no final da etapa da Galileia. Durante um tempo relativamente longo, Jesus tinha andado pela Galileia, s anunciar – com palavras e com gestos poderosos – a chegada do Reino de Deus. Ao longo dessa etapa, Jesus andava acompanhado por um grupo de discípulos, que tinha escutado o chamamento de Jesus, que decidira segui-Lo e que, depois de tudo o que tinham visto e escutado, enquanto O acompanhavam pelas vilas e aldeias da Galileia, estavam convictos que Ele era, realmente, o Messias que Israel esperava. Porém, alguns dias antes da cena da transfiguração, tinham ficado perplexos pelo modo como Jesus lhes descreveu o futuro próximo, a nova etapa que os esperava. Disse-lhes que “tinha de ir a Jerusalém e sofrer muito, da parte dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos doutores da Lei, ser morto e, ao terceiro dia, ressuscitar”.

Os discípulos, que pensavam noutro tipo de messianismo, ficaram estupefactos: o caminho que Jesus se propunha seguir passava pelo sofrimento e pela morte (Ele falou em ressurreição, mas, nessa altura, eles não sabiam o que isso significava). E Pedro expressou a sua oposição, num gesto radical. Tomando  Jesus de parte, “começou a repreendê-Lo, dizendo: ‘Deus te livre, Senhor! Isso nunca te há de acontecer’!” Para piorar as coisas, Jesus pediu-lhes, logo a seguir, que renunciassem a si mesmos, tomassem a cruz e o seguissem no dom da vida até à morte.

Gerou-se, pois, uma crise que deixou o grupo num estado de absoluto desânimo. Jesus achou, face a este estado de coisas, que tinha chegado a hora de lhes desvelar o sentido do caminho que se propunha seguir. Chamou Pedro, Tiago e João – o núcleo duro do grupo – e convidou-os a subirem com Ele a um monte. Iriam achar respostas para as perguntas que os inquietavam.

O texto não identifica o monte em causa. Porém, a tradição fala do Monte Tabor, que tinha sido, em tempos antigos, lugar sagrado para os povos cananeus. Nesse monte, aqueles três discípulos vão entrever, ainda que por breves instantes, o projeto de Deus.

Literariamente, esta narração (como a do chamamento de Abraão) é uma teofania, isto é, uma manifestação de Deus. Portanto, evangelista elaborou um quadro com todos os ingredientes que, no imaginário judaico, acompanham as manifestações de Deus (e que encontramos quase sempre nos relatos teofânicos veterotestamentários): monte, voz do céu, aparições, vestes brilhantes, nuvem, medo e perturbação dos que presenciam o encontro com o divino. Estamos, pois, ante uma catequese destinada a confirmar que Jesus é o Filho amado de Deus, que traz aos homens um projeto que vem de Deus, e que é preciso escutá-Lo.

Jesus, com Pedro, Tiago e João, subiu ao monte. O monte situa-nos num contexto de revelação: é sempre num monte que Deus Se revela; e, em especial, é num monte que faz aliança com o seu Povo e dá a Moisés as tábuas da Lei. A mudança do rosto e as vestes de brancura resplandecente recordam o resplendor de Moisés, ao descer do Sinai, depois de se encontrar com Deus e de ter recebido as tábuas da Lei. E o branco é a cor de Deus: indica que estamos no âmbito do divino.

A nuvem indica a presença de Deus: era nela que Deus manifestava a sua presença, quando conduzia o seu Povo através do deserto.

Moisés e Elias, as duas figuras veterotestamentários que aparecem no cenário da transfiguração de Jesus, representam a Lei e os Profetas (que anunciam Jesus e que permitem entender Jesus); e são personagens que, segundo a catequese judaica, deviam aparecer no “dia do Senhor”, quando se manifestasse a salvação definitiva.

As tendas que Pedro pretende montar no cimo daquele monte (aludirão à “festa das tendas”, em que se celebrava o tempo do êxodo, quando o Povo de Deus habitou em tendas, no deserto) serão uma forma de referir a esperança dos discípulos, assustados com as implicações do seguimento de Jesus: deterem-se ali, num momento de revelação gloriosa, evitando “descer” à planície para enfrentar um destino de sofrimento, de cruz e de morte.

O medo que toma conta dos discípulos é a reação habitual do homem, ante a manifestação da grandeza, da omnipotência e da majestade de Deus.

Porém, o elemento mais significativo é “a voz” que vem da “nuvem” (o espaço onde Deus se oculta). Essa “voz” dirige-se aos discípulos e declara solenemente: “Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O”. O próprio Deus apresenta Jesus e garante que Ele é o Filho que veio ao encontro dos homens com mandato do Pai. E o testemunho de Deus sobre Jesus completa-se com um imperativo: “Escutai-o.” Os discípulos ficam avisados de que devem escutar e acolher as indicações de Jesus, segui-Lo sem hesitações e sem medos, pois o caminho que Ele propõe está conforme o projeto de Deus.

Sobre todo o cenário, iluminando-o, paira a luz gloriosa da ressurreição. A glória de Deus que se manifesta em Jesus, as “vestes de uma brancura refulgente” (lembram as “túnicas brancas como a neve” do “anjo do Senhor que, na manhã de Páscoa, apareceu às mulheres que tinham ido procurar Jesus ao túmulo) apontam nesse sentido. Os discípulos são, pois, convidados a olhar para lá da cruz e a descobrir que, no final do caminho de Jesus, não está o fracasso, mas está a ressurreição, a vida plena, a vitória sobre a morte.

Mateus, na linha do que Marcos já tinha feito, pegou em todos estes elementos e com eles construiu a sua catequese. Nela, Jesus é apresentado, antes de mais, como o Filho, o Eleito, em quem se manifesta a glória do Pai. Ele não é um visionário que vive iludido e que não tem os pés assentes na terra; nem é revolucionário com sede de protagonismo que se aproveita, em benefício do seu projeto político, de um grupo de ingénuos. Ele é o Filho de Deus, enviado aos homens para lhes propor a salvação e a Vida verdadeira. Tudo o que Ele diz e propõe está conforme o desígnio salvador de Deus. Os discípulos devem escutá-Lo, levar a sério as suas indicações, mesmo quando Ele propõe um caminho de morte, de dom da vida até às últimas consequências. Jesus é o Messias libertador e salvador esperado por Israel, anunciado pela Lei (Moisés) e pelos Profetas (Elias). E veio concretizar as promessas que, na História da salvação, Deus fez ao seu Povo.

Jesus é, enfim, o novo Moisés (e mais do que Moisés), Aquele através de quem Deus dá ao seu Povo a nova Lei e através de quem propõe aos homens a nova Aliança. Da ação libertadora do novo Moisés, nascerá um novo Povo de Deus. Guiado por Jesus, o Povo caminhará pelo deserto da cruz e da morte, até chegar à Terra Prometida, onde o espera a Vida em abundância.

Mateus termina o relato evocando a “ordem” de Jesus, quando desciam do monte: “Não conteis a ninguém esta visão, até o Filho do Homem ressuscitar dos mortos”. É provável que, após a ressurreição, tenha resultado claro para os discípulos o que experimentaram naquele monte. Mas, desde logo, aquele momento constituiu, para os discípulos, uma inoculação de esperança ou do ânimo de que precisavam para seguirem Jesus no caminho para Jerusalém.

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Na segunda leitura (2Tm 1,8b-10), o epistológrafo recorda que Deus conta connosco para sermos, no Mundo, arautos da Boa Notícia da salvação. Isso exige correr riscos, enfrentar medos, suscitar oposições, viver em sobressalto, mas a proposta não pode ser riscada das sendas da Humanidade: tem de ser proclamada de cima dos telhados e chegar ao coração de todos os homens.

O epistológrafo, que refere a sua situação de prisioneiro por causa do Evangelho, exorta Timóteo a ser, para a comunidade cuja responsabilidade lhe foi confiada, modelo de fidelidade, de amor, de bom senso e de fortaleza, no testemunho da fé. Foi para isso que recebeu a “imposição das mãos”, gesto que o capacitou para o cumprimento da missão apostólica. O dom de Deus, continuamente reavivado, fará com que Timóteo supere a sua juventude e timidez e testemunhe Cristo e o seu Evangelho. Timóteo deverá ter sempre presente que foi escolhido e chamado para colaborar no projeto de Deus em favor dos homens.

Recorrendo a um fragmento de um hino litúrgico cantado nas primeiras comunidades cristãs, o epistológrafo lembra a Timóteo a grandeza e a beleza desse projeto: Deus, no seu amor infinito, quer que todos os homens se salvem e encontrem vida em abundância. Sem ter em conta as faltas e a indignidade dos homens, Deus quis oferecer-lhes, gratuitamente, a salvação que apresentou, na História humana, na pessoa de Jesus, o Filho de Deus que desceu ao encontro dos homens, que caminhou com eles, que lhes ofereceu a salvação, que lutou contra a injustiça, a violência e o pecado, que derrotou a morte, que irradiou a vida e a imortalidade pelo Evangelho.

Esta maravilhosa iniciativa de Deus é o acontecimento decisivo da História dos homens. Nesse longo caminho que a Humanidade vem percorrendo, nada há de mais grandioso e de mais decisivo do que o desígnio de Deus. Ora, Paulo e Timóteo foram escolhidos por Deus para ministros deste desígnio. É uma vocação sublime. Apesar dos seus limites e fragilidades, Deus quis contar com eles, para darem testemunho no meio dos homens da sua salvação. Paulo e Timóteo – e todos quantos Deus escolhe e envia – são arautos da salvação de Deus. Não podem esconder-se, demitir-se da responsabilidade que lhes foi confiada, deixar-se abater pelo medo, calar a Boa Notícia que Jesus lhes confiou e os convidou a testemunhar em toda a Terra.

Aproximam-se tempos de dificuldade e de perseguição para os que aderiram à salvação que Jesus veio trazer. O império declarou guerra ao Evangelho e as comunidades cristãs sentem enfraquecer a coragem e diminuir o compromisso. Muitos instalam-se na mediocridade, deixam-se arrastar pela corrente. Nestes tempos difíceis, porém, aqueles que, como Paulo e como Timóteo, presidem às comunidades e animam os irmãos na fé, devem levar a sério a missão que lhes foi confiada mantendo-se fortes e sendo, no meio dos irmãos mais frágeis, testemunhas vivas, entusiastas e corajosas do projeto salvífico e amoroso de Deus.

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 Por tudo isto, vale a pena desejar e acolher a bênção de Deus e prometer escutar Jesus:

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“Desça sobre nós a vossa misericórdia, / porque em Vós esperamos, Senhor.”

 “A palavra do Senhor é reta, / na fidelidade nascem as suas obras. / Ele ama a justiça e a retidão: / a Terra está cheia da bondade do Senhor.

“Os olhos do Senhor estão voltados para os que O temem, / para os que esperam na sua bondade, / para libertar da morte as suas almas / e os alimentar no tempo da fome.

“A nossa alma espera o Senhor: / Ele é o nosso amparo e protetor. / Venha sobre nós a vossa bondade, / porque em Vós esperamos, Senhor.”

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“A salvação, a glória e o poder a Jesus Cristo, Nosso Senhor.”

“No meio da nuvem luminosa, ouviu-se a voz do Pai:

‘Este é o meu Filho muito amado: escutai-O’”. 

 2026.03.01 – Louro de Carvalho

domingo, 1 de março de 2026

Ataque dos EUA e de Israel ao Irão terá consequências

 

Os meios de comunicação social estatais do Irão confirmaram que o líder supremo iraniano, o Ayatollah Ali Khamenei, foi morto nos ataques da manhã de 28 de fevereiro, em Teerão, depois de o presidente dos Estados Unidos da América (EUA), Donald Trump, ter anunciado o facto, na noite do mesmo dia, assim como anunciaram 40 dias de luto público e sete dias de feriado, por causa da morte de Khamenei. A notícia surgiu, no dia 28, à noite, depois de o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, Netanyahu, ter dito que havia “muitos sinais” de que o Ayatollah Ali Khamenei estava morto.

De acordo com informação do Canal 12, antes da declaração de Donald Trump, foi mostrada ao primeiro-ministro israelita uma fotografia do corpo de Khamenei, depois de este ter sido recuperado dos escombros da sua residência. E um alto funcionário israelita partilhou a mesma informação com os meios de comunicação internacionais.

O presidente dos EUA disse que Khamenei foi morto, no início do dia, após vários relatos e declarações de autoridades israelitas de que morrera como consequência dos ataques dos EUA e de Israel, nesse dia. “Khamenei, uma das pessoas mais maléficas da História, morreu”, escreveu o líder norte-americano, no Truth social. E, numa entrevista telefónica à NBC, no dia 28, à noite, Donald Trump disse que muitos dos principais líderes do Irão desapareceram. “Não sabemos tudo, mas uma grande parte dos grandes decisores foi-se embora”, declarou.

Questionado sobre quem poderia assumir as rédeas em Teerão, o inquilino da Casa Branca, o timoneiro desta guerra de sucessão, respondeu, de forma claramente sarcástica: “Não sei, mas, a dada altura, vão telefonar-me a perguntar quem eu gostaria de ter.”

O exército israelita disse que sete altos funcionários iranianos, incluindo o general Mohammad Pakpour, o líder da Guarda Revolucionária do Irão (IRGC), também foram mortos nos ataques. O brigadeiro-general Effie Defrin, porta-voz das forças armadas israelitas, fez o anúncio, numa declaração transmitida pela televisão que mostrava fotografias de algumas das pessoas mortas.

O Pentágono, que designou a ofensiva por “Operação Fúria Épica”, alertou para o risco de a ofensiva alargar o conflito no Médio Oriente.

Em contraponto, os ataques levaram Teerão a disparar uma barragem de mísseis contra várias cidades do Médio Oriente, com drones a atingirem alvos civis, no Bahrein e nos Emirados Árabes Unidos (EAU) na noite do dia 28, obrigando os residentes a abrigar-se.

Em 1989, Khamenei tornou-se o ayatollah do Irão, após a morte de Ruhollah Khomeini, fundador da República Islâmica do Irão, pois Khamenei desempenhara um papel importante no movimento que derrubou o Xá Mohammad Reza Pahlavi, na revolução de 1979. E, aos 86 anos, era o comandante em chefe do Irão, com a última palavra em todas as questões políticas e religiosas. O Conselho dos Guardas da Revolução, força sujeita a severas sanções dos EUA e da União Europeia (UE) e considerada o pilar militar do regime de Teerão, respondia diretamente perante ele. Ao comando da repressão nas manifestações, no Irão, desde o final do ano passado, afirmou,

recentemente, que o Irão estava pronto a retaliar contra qualquer ataque norte-americano.

Um dos primeiros ataques do dia 28 atingiu-o perto dos seus escritórios, em Teerão. Não ficou, imediatamente, claro onde Khamenei se encontrava, na altura, uma vez que não era visto, há dias.

Os meios de comunicação social estatais de Teerão negaram a notícia da morte de Khamenei, citando fontes próximas do seu gabinete e assegurando que permaneceu, “firmemente, no comando”. E o ministro dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, afirmou que Khamenei estava vivo, “tanto quanto sabia” – uma versão, agora, negada pela própria comunicação social iraniana.

Durante a operação, Donald Trump, aconselhou os Iranianos a procurarem abrigo e afirmou, num vídeo partilhado nas redes sociais, que o Irão persiste em expandir o seu programa nuclear e que pretende construir mísseis capazes de atingir os EUA.

As tensões entre Washington e Teerão intensificaram-se fortemente após a última ronda de negociações nucleares em Genebra, a 26 de fevereiro, com o objetivo de finalizar um novo acordo. E, ainda no dia 28, Emanuel Macron instou o regime iraniano a “entrar em negociações de boa-fé”, para pôr fim aos seus programas nucleares e balísticos, o que, em seu entender, “é absolutamente essencial para a segurança de todos, no Médio Oriente”.

A UE adotou sanções extensas, em resposta às violações dos direitos humanos do Irão, ao apoio militar do país à guerra da Rússia contra a Ucrânia e às suas atividades de proliferação nuclear. Assim, em janeiro, impôs novas sanções contra membros do regime iraniano, depois de milhares de pessoas terem sido mortas na repressão do regime contra manifestantes, e acrescentou o Corpo de Guardas da Revolução Islâmica (IRGC) do Irão à lista de terroristas da UE.

Depois de ter sido noticiada a morte de Khamenei, na noite de 28 de fevereiro, ecoaram aplausos, em algumas zonas de Teerão, com residentes a saíram à janela para aplaudirem e para tocarem música de celebração. De acordo com várias testemunhas e registos, os festejos começaram pouco depois das 23 horas locais, galvanizaram muita gente e prolongaram-se pela noite.

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Os líderes europeus reagiram com um misto de alarme e de cautela às primeiras notícias dos ataques militares conjuntos dos EUA e de Israel contra o Irão.

A presidente do Parlamento Europeu (PE), Roberta Metsola, alertou contra “uma espiral que pode ameaçar o Médio Oriente, a Europa e não só”.

Numa declaração conjunta, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente do Conselho Europeu, António Costa, apelidando os acontecimentos de “muito preocupantes”, instaram todas as partes a evitarem medidas que possam inflamar, ainda mais, as tensões ou enfraquecer o quadro mundial de não proliferação. Ao mesmo tempo, reafirmaram “compromisso firme da UE em salvaguardar a segurança e a estabilidade regional”. “Apelamos a todas as partes para que exerçam a máxima contenção, protejam os civis e respeitem, plenamente, o direito internacional”, escreveram Ursula von der Leyen e António Costa, numa declaração publicada no X.

A chefe da diplomacia da UE, Kaja Kallas, adotando tom um pouco mais comedido e caraterizando a situação como “perigosa”, escreveu que o regime iraniano “matou milhares de pessoas” e que “os seus programas de mísseis balísticos e nuclear, juntamente com o apoio a grupos terroristas, representam uma séria ameaça à segurança global”. Garantindo que “a proteção dos civis e do direito internacional humanitário é uma prioridade”, relevou que a força naval “Aspides” da UE permanece “em alerta máximo”, no Mar Vermelho, e “está pronta a ajudar a manter o corredor marítimo aberto”.

O presidente francês Emmanuel Macron classificou os ataques como uma “escalada de guerra” que “acarreta graves consequências para a paz e para a segurança internacionais”, pelo que a França vai pedir uma “reunião urgente” do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU).

Ministros dos Negócios Estrangeiros europeus manifestaram preocupação com os ataques.

O chefe da diplomacia espanhola, José Manuel Albares, disse que Espanha estava a acompanhar a situação e exigiu respeito pelo direito internacional. “A violência só traz o caos. A desescalada e o diálogo são o caminho para a paz e [para] a estabilidade”, escreveu, nas redes sociais, mas afirmou que todas as embaixadas de Espanha na região continuam operacionais para os seus cidadãos.

Estas declarações foram feitas poucas horas depois de os EUA e Israel terem lançado ataques em larga escala, em todo o Irão, alegadamente, visando um complexo no centro de Teerão que se acredita albergar a residência do líder supremo do Irão, Ali Khamenei.

***

A posição de Portugal, face ao conflito, parece a prevista, a partir das meias palavras do nosso chefe de diplomacia, o qual referia que, se os EUA cumprissem o estipulado nos tratados, não tinham de solicitar prévia autorização para o uso da Base das Lages.

Ora, como referi, noutro artigo, o acordo técnico estipula que, no caso de o uso da Base das Lages se destinar a operações que envolvam organizações de que Portugal não faça parte, é exigida a respetiva autorização prévia, que deve ser solicitada em tempo útil. E, eu ressalva que, se o ministro dos Negócios Estrangeiros entendia que tal autorização não era necessária, era porque Portugal era parte interessada ou foi dada, sem conhecimento público.   

Neste sentido, é esclarecedor um artigo intitulado “Governo de Portugal do lado de Trump e Netanyahu no ataque ao Irão”, de Ricardo Figueira, publicado, a 1 de março, pela Euronews, pois, “ao contrário do chefe do governo espanhol, Pedro Sánchez, que condenou a operação israelo-americana, o governo liderado por Luís Montenegro está a tomar claramente o partido dos EUA e Israel, ao condenar as ações do Irão, mas não as da aliança Trump-Netanyahu”.

No dizer do articulista, o presidente do governo espanhol, apressou-se a “condenar, sem reservas, as ações israelo-americanas”, enquanto, o primeiro-ministro português, Luís Montenegro se mostrou, “desde a primeira hora, claramente do lado da administração Trump”. “Os dois vizinhos ibéricos, parceiros e cúmplices em tantos domínios, não poderiam estar mais distantes do que na questão da operação iniciada por Israel e pelos Estados Unidos [da América], na madrugada de sábado [dia 28 de fevereiro], contra o Irão”, escreveu Ricardo Figueira.

O governo português emitiu um comunicado em que condena as ações do Irão. E, no texto que republicou, na sua conta no X, o primeiro-ministro português “condena os injustificáveis ataques do Irão aos países vizinhos da região – entre eles, a Arábia Saudita, o Catar, os Emirados Árabes Unidos, o Kuwait e a Jordânia –, que devem cessar imediatamente”, mas não condena, nem critica a ofensiva dos governos de Trump e de Netanyahu. E sustenta que “o fim do programa nuclear iraniano é essencial para alcançar a paz e a estabilidade na região”.

Com esta postura, afasta-se do vizinho espanhol e do secretário-geral da ONU, que o antecedeu, de 1990 a 2001, como chefe do governo português, António Guterres, que também condenou a ofensiva. O líder da ONU disse que o ataque dos EUA e Israel e a consequente retaliação iraniana minam a segurança internacional.

Sustenta Ricardo Figueira que esta posição do executivo português de centro-direita está em linha com a utilização da base das Lajes, por parte das forças norte-americanas. Efetivamente, a base norte-americana na ilha Terceira, nos Açores, tem um papel nas operações, nomeadamente, como base para aviões reabastecedores que estão a ser usados nos ataques. Tanto assim é que, no dia 28, os repórteres no local observaram a descolagem de cinco aviões reabastecedores KC-46 Pegasus da Força Aérea dos EUA.

Lembra o articulista que o ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, já tinha admitido que “a base poderia ser usada num eventual ataque ao Irão, desde que os tratados com Portugal fossem respeitados”.

Em contraponto, o uso da base aérea açoriana no ataque ao Irão está a ser fortemente contestado pela oposição. O Livre anunciou que irá questionar o governo na Assembleia da República (AR) sobre o tema. Em declarações aos jornalistas, na manifestação do dia 28 contra o Pacote Laboral, o deputado Jorge Pinto, ex-candidato à Presidência da República, vincou: “Não queremos Portugal associado, de qualquer maneira, a um ataque feito ao arrepio dos direitos internacionais, contrário à Carta das Nações Unidas e que, no fundo, crava mais um prego no caixão do direito internacional.”

Sem condenar diretamente o ataque norte-americano e israelita, o secretário-geral do Partido Socialista (PS), José Luís Carneiro, falou do tema, no discurso do mesmo dia, nos jardins da sede do Largo do Rato, em que apresentou a recandidatura, declarando que “as intervenções militares não podem, não devem ocorrer à margem do direito internacional”.

Também o Bloco de Esquerda (BE) se mostrou muito crítico, face à posição do governo. O líder do partido, José Manuel Pureza, classificou a ação dos EUA e Israel como “um ato odioso”.

Já o Chega, embora preocupado com o eclodir do conflito, nas palavras do líder André Ventura, em publicação no X, diz ser necessário “atingir os objetivos” desta operação, nomeadamente, impedindo “o acesso a armas nucleares pela ditadura iraniana” e libertando “o povo iraniano (sobretudo as mulheres) da opressão e da tirania”.

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Entretanto, ao invés da UE, a Alemanha, a França e o Reino Unido admitem intervir na guerra dos EUA e Israel contra o Irão, para defesa dos interesses europeus e dos parceiros regionais, caso Teerão continue a bombardear outros países na região.

O presidente dos EUA imagina que o processo leve cerca de quatro semanas. Numa entrevista, revelou: “Então, por mais forte que seja [o Irão] – é um país grande –, [a ação militar] durará quatro semanas ou menos”, explicou Donald Trump, que garante, num vídeo, que os ataques ao Irão vão continuar, até que os objetivos dos EUA “sejam alcançados”.

Após o assassínio do líder supremo do Irão, em menos de 48 horas, foi formado um conselho de liderança de três membros, de acordo com a Constituição, e o próximo líder do Irão será nomeado pela Assembleia de Peritos.

O objetivo dos EUA e de Israel é a mudança de governo e de regime no Irão, mas, dependendo da resistência do regime e da vontade dos Iranianos, bem como da capacidade de luta dos diversos grupos, o resultado pode desembocar em guerra civil e alastrar a todo o Médio Oriente. Além disso, como foram mortas figuras relevantes do ramo xiita do Islamismo, o Irão já avisou que o Ocidente, em especial, Washington, e países alinhados com os EUA e com Israel contarão com a guerra dos xiitas. E alguns clérigos xiitas já emitiram fátuas de jihad e apelaram aos muçulmanos de todo o Mundo para vingarem o assassínio de Ali Khamenei, atacando os EUA e Israel.

Para já, o Irão confirmou a morte do líder supremo, Ayatollah Ali Khamenei, do ex-presidente iraniano (entre 2005 e 2013), Mahmoud Ahmadinejad, um inimigo declarado de Israel, de Ali Shamkani, secretário do Conselho de Defesa do Irão e conselheiro do líder supremo, e de Mohammad Pakpour, comandante da Guarda Revolucionária Islâmica. E uma fonte dos serviços de informação e uma fonte militar, citadas pela CBS News, referem que cerca de 40 autoridades iranianas foram mortas nos ataques.

Enfim, é a guerra, que nunca se satisfaz com o sangue das vítimas, nem com a poeira dos escombros. E o nosso governo, pobre em efetivos militares e em armas, colabora!

2026.03.01 – Louro de Carvalho

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Renúncia de que resultou uma lufada de ar fresco para a Igreja

 

Foi a 28 de fevereiro (há 16 anos) de 2013 que Bento XVI renunciou ao Sumo Pontificado, em consequência de uma sua declaração, datada de 10 de fevereiro, mas lida, em Latim, aos cardeais, no dia 11, com total surpresa para a Igreja e para o Mundo. Eis o texto da declaração:

Caríssimos Irmãos,

“Convoquei-vos para este Consistório, não só por causa das três canonizações, mas também para vos comunicar uma decisão de grande importância para a vida da Igreja. Depois de ter examinado, repetidamente, a minha consciência diante de Deus, cheguei à certeza de que as minhas forças, devido à idade avançada, já não são idóneas para exercer, adequadamente, o ministério petrino. Estou bem consciente de que este ministério, pela sua essência espiritual, deve ser cumprido, não só com as obras e com as palavras, mas também e igualmente sofrendo e rezando. Todavia, no mundo de hoje, sujeito a rápidas mudanças e agitado por questões de grande relevância para a vida da fé, para governar a barca de São Pedro e anunciar o Evangelho, é necessário também o vigor, quer do corpo quer do espírito; vigor este, que, nos últimos meses, foi diminuindo de tal modo, em mim, que tenho de reconhecer a minha incapacidade para  administrar bem o ministério que me foi confiado. Por isso, bem consciente da gravidade deste ato, com plena liberdade, declaro que renuncio ao ministério de Bispo de Roma, Sucessor de São Pedro, que me foi confiado pela mão dos Cardeais em 19 de abril de 2005, pelo que, a partir de 28 de fevereiro de 2013, às 20,00 horas, a sede de Roma, a sede de São Pedro, ficará vacante e deverá ser convocado, por aqueles a quem tal compete, o Conclave para a eleição do novo Sumo Pontífice.

“Caríssimos Irmãos, verdadeiramente de coração, vos agradeço por todo o amor e a fadiga com que carregastes comigo o peso do meu ministério, e peço perdão por todos os meus defeitos. Agora, confiemos a Santa Igreja à solicitude do seu Pastor Supremo, Nosso Senhor Jesus Cristo, e peçamos a Maria, sua Mãe Santíssima, que assista, com a sua bondade materna, os Padres Cardeais na eleição do novo Sumo Pontífice. Pelo que me diz respeito, nomeadamente, no futuro, quero servir de todo o coração, com uma vida consagrada à oração, a Santa Igreja de Deus.

“Vaticano, 10 de Fevereiro de 2013. Benedictus PP XVI”

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A decisão de Bento XVI surpreendeu o mundo ao anunciar sua renúncia ao papado, um evento raro na História recente da Igreja Católica. Porém, ele não tinha forças para continuar. Aliás, mais tarde, confessaria ao seu biógrafo que mal dormia, desde a Jornada Mundial da Juventude, em Colónia, na Alemanha, em agosto de 2005, poucos meses depois de suceder a São João Paulo II como Papa.

Quase ao mesmo tempo que tornou pública a histórica renúncia, começaram as especulações sobre as suas causas últimas, pois sempre houve um crédulo círculo de teorias da conspiração que viam nessa decisão cuidadosamente pensada motivações obscuras, se não tramas, que continuariam durante o pontificado de Francisco.

Entretanto, em agosto de 2025, veio a público uma carta datada de 2014, na qual o papa alemão, falecido em 2022, escrevera ao teólogo italiano Nicola Bux, que interrogou Joseph Ratzinger sobre as dúvidas e incertezas pendentes, após a sua renúncia.

E nessa carta, relatada por “Katholisch”, “o Papa Emérito rejeita, firmemente, a especulação de que nunca renunciou ou que permaneceu no cargo como uma espécie de ‘antipapa’. Tais ideias são ‘absurdas’ e contradizem o ‘claro ensinamento dogmático-canónico’ da Igreja. Qualquer um que afirme o contrário ‘não é um verdadeiro historiador, nem um verdadeiro teólogo’. O Papa Emérito também considera infundadas as advertências de um cisma eclesiástico progressivo contidas na carta”. Aliás, penso eu, não é crível que Bento XVI tivesse sido tão claro, nas suas asserções públicas, e estivesse, nos bastidores, a tramar o inverso do que proclamara.

“A afirmação de que, com a minha renúncia, ‘renunciei apenas ao exercício do cargo e não também ao múnus’ contradiz a clara doutrina dogmática e canónica [...]. Quando alguns jornalistas falam de ‘cisma progressista’, não merecem atenção”, escreveu Ratzinger.

Embora a existência da carta já fosse conhecida, Bux publicou- a, em 2025 como apêndice, incluindo uma fotocópia do original, no livro “Realidade e Utopia da Igreja”, relata o Kath.net.

No mandato de Francisco (2013-2025), a legitimidade do seu pontificado foi, repetidamente, questionada, na Itália, especialmente, por grupos conservadores e tradicionalistas, como aponta o “Katholisch”, alegando alguns que Bento XVI não renunciou, voluntariamente, em 2013, mas pressionado ou impedido de exercer seu cargo.

Segundo essa teoria, o papado não estava realmente vago e Francisco não era o chefe legítimo da Igreja. Agora, tudo foi esclarecido, mas, para alguns, não será suficiente.

Quando Bento XVI renunciou ao cargo de Sumo Pontífice, acrescentou nova dimensão ao papado, disse o seu secretário pessoal Georg Gänswein, que permaneceu como prefeito da Casa Pontifícia, trabalhando diretamente com Bento XVI e com o Papa Francisco.

O arcebispo falou sobre o pontificado de Bento e das suas decorrências, na sua apresentação, de 20 de maio, do livro “Oltre la crisi della Chiesa” (“Além da Crise da Igreja”), do padre Roberto Regoli, historiador e professor da Pontifícia Universidade Gregoriana. O livro pretende ser a primeira avaliação do pontificado de Bento XVI baseada na História.

Gänswein ressaltou que havia apenas um Papa legítimo – Francisco. No entanto, durante os últimos três anos, os católicos têm vivido “com dois sucessores de Pedro vivos, entre nós”. Porém, disse que Bento e Francisco “não estão em concorrência um com o outro, por mais que ambos tenham uma presença extraordinária”. Para Gänswein, o anúncio da renúncia de Bento XVI, em 11 de fevereiro de 2013, marcou a introdução de nova instituição na Igreja Católica: o Papa emérito.

O Papa Bento usou uma frase-chave no seu discurso de renúncia: “Munus Petrinum”. Esta frase é, usualmente, traduzida como “ministério petrino”. De acordo com o arcebispo, a palavra latina “múnus” tem muitos significados: serviço, compromisso, guia, presente, até mesmo admiração. Assim, “Bento XVI considerou o seu comprometimento como uma participação nesse ministério petrino”, opinou o arcebispo, sustentando que “isso significa que deixou o sólio papal, mas não abandonou este ministério”.

Bento XVI, desde a renúncia, atuava “numa dimensão colegial e sinodal” e num “ministério comum” que parece ecoar seu lema episcopal e papal: “cooperatores veritatis” (“cooperadores da verdade”). Assim, desde a eleição de Francisco, não passou a haver dois papas, mas “um ministério, de facto, ampliado, com um membro ativo e outro contemplativo”.

Segundo o arcebispo, foi por isso que Bento não renunciou ao nome papal, nem abriu mão da batina branca, e é a razão pela qual o tratamento correto, para ele, era de ‘Vossa Santidade’. “Esta é, finalmente, a razão pela qual ele não se retirou para um mosteiro isolado”, mas permaneceu “dentro dos muros do Vaticano, como se, simplesmente, desse um passo ao lado, para dar espaço ao seu sucessor e a uma nova etapa na História do papado”, vincou Gänswein, sustentando que “esta é a forma como Bento XVI transformou, de maneira profunda e duradoura”, o ministério papal, durante o seu “pontificado excecional”.

Gänswein  refletiu sobre o significado da eleição de Bento XVI, alegando que a eleição foi, “certamente, o resultado de um choque”, cuja interpretação-chave havia sido feita pelo próprio cardeal Ratzinger, na sua homilia da missa pré-conclave, a 18 de abril de 2005. O então cardeal Ratzinger, refletindo sobre o choque de duas forças, criticou uma possível “ditadura do relativismo”, que não reconhece nada como definitivo e cujo objetivo final consiste, unicamente, no ego e no desejo de alguém”. Com isso, disse Gänswein , Ratzinger pôs em relevo os objetivos cristãos de Jesus Cristo, o Filho de Deus, e “o homem de verdade”, sendo esta “a medida do verdadeiro humanismo”.

O confronto entre o relativismo e o verdadeiro humanismo é sintetizado no que Gänswein chama “a luta dramática” entre dois partidos no conclave: um, o “Sal da Terra”, nome dado a partir do título de uma entrevista do tamanho de um livro feita com Ratzinger, reunindo os cardeais Lopez Trujillo, Ruini, Herranz, Rouco Varela e Medina Estevez; o outro,  o “grupo de São Galo”, reunido em torno dos cardeais Daneels, Martini, Silvestrini e Murphy-O’Connor. O segundo é o grupo, observou Gänswein, que o próprio Daneels, divertidamente, descreveu como ‘uma espécie de clube da máfia’. E Gänswein disse que “a ditadura do relativismo” está a ser divulgada, através de novos media, que mal poderiam ser imaginadas em 2005.

De uma vez por todas, Gänswein rejeitou a ideia de que Bento XVI tenha renunciado por causa dos escândalos ou do “ano negro” de 2010, que foi marcado por novos escândalos de abuso sexual do clero europeu, e em que houve controvérsias, como a do bispo lefebvrista Richard Williamson, cuja excomunhão foi levantada, sem o conhecimento das suas observações que minimizam o número de mortes de judeus no Holocausto.

Gänswein disse que havia, de facto, mais razões pessoais para o Papa considerar 2010 como “um ano negro”. Foi o ano da morte de Manuela Camagni, uma das quatro mulheres leigas consagradas pertencentes a Memores Domini e membro do grande movimento de Comunhão e Libertação, que faziam parte da Casa Pontifícia. Ela morreu, depois de ter sido atingida por um carro. “O sensacionalismo dos media desses anos, desde o caso Williamson até a onda de ataques crescentes contra o Papa, não o abateram tanto como a morte de Manuela”, disse Gänswein.

O mordomo papal, Paolo Gabriele, foi então exposto como a fonte de informações confidenciais sobre o papado, nomeadas pelas notícias de “Vatileaks”. E o arcebispo sublinhou como o Papa, chocado com a morte repentina de Manuela Camagni, acabou sofrer, também muito, com a traição de Paolo Gabriele.

Porém, Bento não renunciou, devido a esses fatores ou a outras “notícias picantes”. Em vez disso, como o ex-pontífice disse, no seu anúncio de renúncia, a decisão foi baseada na sua idade avançada e na diminuição da sua força, o que o levou a acreditar que não podia mais exercer o ministério que lhe fora confiado. “Nenhum traidor ou qualquer jornalista poderia pressionar o Papa a essa decisão”, salientou Gänswein , pois “o escândalo era muito pequeno”, em comparação com o “passo histórico bem ponderado” de Bento XVI, na sua renúncia.

***

Contudo, a renúncia papal são se ficou com o facto em si. Deu, sobretudo, ensejo a uma nova forma de expressão do Sumo Pontificado, com outra personagem de estilo diferente.

Com Francisco, a palavra “misericórdia” ganhou força. Ele insistiu que a Igreja não devia apontar erros, mas acolher. Enfrentou temas difíceis com coragem: abusos sexuais, migração, meio ambiente, desigualdade. Publicou encíclicas que desafiaram o poder económico dominante e chamou os fiéis a assumirem responsabilidades sociais concretas. O seu legado vai muito além das palavras: trata-se de transformação profunda em temas sociais, eclesiais e ambientais, com impactos duradouros.

Um dos conceitos centrais do pontificado de Francisco é o tema da “Igreja em saída”, apresentado na exortação apostólica Evangelii Gaudium (2013). Convocou a Igreja a sair de si mesma, a ir às periferias e a estar próxima dos que sofrem. A Igreja não pode ser autorreferencial; deve ser missionária, acolhedora e misericordiosa.

A opção preferencial pelos pobres é revitalizada com força e com constância. E Francisco enfatizou, com palavras e gestos, que os pobres não devem ser apenas objeto de caridade, mas protagonistas da sua própria História. Em 2016, instituiu o Dia Mundial dos Pobres, a celebrar, anualmente, como apelo à solidariedade e à ação concreta dos cristãos.

Francisco procurou reformar a própria estrutura eclesial. Deu ênfase à sinodalidade, ou seja, à escuta e à participação de todos os membros da Igreja – leigos, religiosos, bispos – nos processos decisórios. O Sínodo da Sinodalidade (2021-2024) representa um dos eventos mais emblemáticos da eclesiologia de Francisco, com ampla escuta e repercussão em todo Mundo católico.

Um dos legados mais inovadores de Francisco é a contribuição à ecologia integral, expressa na encíclica Laudato Si (2015), que não é apenas uma defesa ao meio ambiente, mas uma chamada à conversão ecológica, articulando justiça social e o cuidado com o planeta.

Em 2023, Francisco reforçou esse compromisso com a exortação apostólica Laudate Deum, que retoma os apelos da Laudato Si e desafia os lideres mundiais a agirem com urgência, ante a crise climática.

Francisco também se destacou no compromisso com o diálogo inter-religioso. Marco importante foi a visita aos Emirados Árabes Unidos, em 2019, onde assinou, com o grande imã de Al-Azhar, Ahmed el-Tayeb, o Documento sobre A Fraternidade Humana, em defesa da paz, do respeito mútuo e da convivência entre as religiões. As viagens a países, como o Iraque, Marrocos e Bahrein evidenciam diplomacia espiritual, baseada na escuta, no respeito e na dignidade humana.

Outro traço distintivo de Francisco foi a abordagem pastoral. Procurou acolher, antes de condenar, compreender, antes de julgar, o que é patente, por exemplo, na postura ante as pessoas LGBTQI, os divorciados recasados e outras situações consideradas irregulares pela tradição católica. Francisco introduziu nova linguagem e atitude, marcadas pela misericórdia.

A exortação Apostólica Amoris Laetitia (2016), resultado do Sínodo sobre a Família, abre espaço a discernimentos pastorais nos casos complexos, valorizando a consciência individual e o acompanhamento espiritual. Essa abordagem gerou tensões com setores mais conservadores, que o acusavam  de ambiguidade doutrinal. Porém, Francisco defendia que a fé não é uma ideologia, nem um conjunto de normas rígidas, mas experiência viva de encontro com Deus e com o próximo. Essas tensões revelam que a sua herança não é unanimidade, mas também que ele representa um ponto de inflexão na história da Igreja.

O legado de Francisco é múltiplo, complexo e profundamente humano. Revitalizou a centralidade do Evangelho como boa nova para os pobres, para os marginalizados e para a criação. O seu pontificado marcou um retorno às origens da fé cristã, com uma linguagem contemporânea, próxima e profética. Os seus gestos e palavras ressoaram como convite à conversão, não só moral ou doutrinal, mas existencial. Convidou a Igreja a ser menos rígida e mais compassiva, menos preocupada com estruturas e mais atenta às pessoas.

A História julgará o impacto duradouro de suas reformas, mas já é possível afirmar que Francisco deixou como herança uma nova forma de ser Igreja no mundo: mais sinodal, mais ecológica, mais aberta, mais fiel ao Evangelho. Tudo, fruto positivo de renúncia que parecia fuga!

2026.02.28 – Louro de Carvalho