quarta-feira, 3 de junho de 2026

Tesouros quase bimilenares sob a catedral de Notre-Dame, em Paris

 

No fim de 2024, após anos de restauração, subsequente ao incêndio de 2019, foi reaberta a catedral de Notre-Dame. Paralelamente, a prefeitura de Paris iniciou o projeto de transformação da área envolvente num espaço mais arborizado e agradável, mas, antes de qualquer intervenção urbana, tornou-se necessário investigar o que jazia sob o solo.

A este respeito, a revista “Aventuras da História” publicou, a 2 de junho, um texto jornalístico de Mariana Lima, sob o título “Arqueólogos revelam dois mil anos de História sob Notre-Dame”, segundo o qual, enquanto filas de turistas visitam a catedral, arqueólogos trabalham numa escavação considerada a “escavação do século” pela imprensa francesa.

Também, em Portugal, o Diário de Notícias (DN), no mesmo dia, publicou um texto jornalístico intitulado “Debaixo da catedral de Notre-Dame, a ‘escavação do século’ revela 1700 anos de História”, em que David Pereira, citando a Associated Press (AP), se refere ao tema, em termos similares aos de Mariana Lima.  

De acordo com a reportagem da revista “Indendent”, abriu-se um grande sítio arqueológico numa parte da praça, tendo a escavação revelado centenas de objetos que ajudam a reconstruir cerca de 20 séculos da História de Paris. Segundo os arqueólogos envolvidos no projeto, os primeiros vestígios históricos aparecem a apenas 50 centímetros de profundidade. No entanto, as equipas continuaram a trabalhar até quatro metros abaixo da superfície atual.

Camille Colonna, a arqueóloga responsável pelas escavações, observou que, aquando do início da construção de Notre-Dame, em 1163, toda a área da praça era ocupada por casas medievais, separadas por uma única rua, das quais foram encontrados os porões, durante as escavações. E, abaixo dessas estruturas, os investigadores identificaram poços de armazenamento de grãos dos períodos merovíngio e carolíngio, datados entre os séculos VI e X. A níveis ainda mais profundos surgiram vestígios dum bairro romano dos séculos IV e V. Ao todo, cerca de 20 séculos de ocupação humana estão concentrados em quatro metros de terra. Entre os objetos encontrados está uma moeda do século VI com a imagem do imperador Constantino, que parecia, de início, um disco escurecido pelo tempo, mas exames de raio-X revelaram a origem.

Também os arqueólogos encontraram diversos fragmentos de cerâmica medieval. Durante o processo de limpeza desses objetos, foram identificadas marcas avermelhadas pintadas no seu interior, que aparecem, repetidamente, em diferentes fragmentos. O significado das inscrições ainda não foi decifrado, o que as transformou num dos mistérios intrigantes da escavação.

Algumas das descobertas mais surpreendentes vieram de antigos poços localizados sob as ditas casas medievais, os quais funcionavam como latrinas e como locais de descarte de resíduos. Foi nesse ambiente que os arqueólogos encontraram jarros, xícaras e outros recipientes praticamente intactos, bem como pratos quebrados e ossos de animais. Segundo os arqueólogos, a composição orgânica desses poços ajudou a preservar muitos dos objetos ao longo dos séculos, permitindo que peças completas chegassem aos nossos dias.

As descobertas conexas com o período romano, em que Paris era conhecida como Lutécia, estão entre as mais importantes do projeto. Os arqueólogos explicam que, no declínio do Império Romano, a população passou a concentrar-se na Île de la Cité, a mesma onde Notre-Dame seria construída séculos depois. E, durante a escavação, a equipa encontrou evidências desse processo, como, por exemplo uma antiga porta romana que fazia parte de uma estrutura maior, mas que foi, em algum momento, removida, transportada e reutilizada como pavimentação de uma estrada. Para os especialistas, esses achados ajudam a compreender melhor um dos períodos menos conhecidos da História da cidade.

Todos os objetos encontrados são enviados para o centro arqueológico da cidade de Paris, onde passam por análise e conservação, enquanto o projeto de renovação da praça prossegue, prevendo-se que o espaço receba cerca de 160 novas árvores e áreas destinadas a amenizar o calor no verão. Também está prevista a reabertura do antigo estacionamento subterrâneo como um centro de visitantes com vista para o rio Sena. E, apesar dos avanços obtidos, os arqueólogos esperam ir mais fundo. O objetivo é alcançar vestígios anteriores ao período romano e descobrir mais evidências dos povos que habitavam a região antes do surgimento de Paris.

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Na citada revista “Indendent”, de 2 de junho, sob o título “Arqueólogos que escavam sob Notre-Dame descobrem 2000 anos de História”, Thomas Adamson e Jeffrey Schaeffer sustentam que, enquanto os turistas sobem à catedral e admiram as suas gárgulas icónicas, se opera uma Parte inferior do formulário

profunda imersão no passado de Paris, em consequência do incêndio do templo e dos planos subsequentes de revitalização do pátio frontal. Numa cidade rica em História, nenhum terreno pode ser perturbado, sem se escavar o que se encontra abaixo, protegendo-o contra possíveis danos a artefactos históricos de valor inestimável. Por isso, parte do pátio frontal de Notre-Dame foi transformada em sítio arqueológico ativo. E Lucie Altenburg, conservadora da unidade de arqueologia de Paris, vincou a importância do projeto, afirmando: “É uma oportunidade rara para nós trabalharmos em algo que fará uma diferença na História de Paris.”

Falando da moeda do século IV e dos intrigantes fragmentos de cerâmica medieval, diz tratar-se de um mistério que levou alguns a compará-lo a um “Código Da Vinci moderno”. Por outro lado, as descobertas têm cativado os visitantes, para os quais Notre-Dame parecer viva, novamente. Ao irem ver a catedral, percebem que há outra cidade sob os seus pés.

Os pesquisadores, nalguns dias, encheram 15 caixas de achados subterrâneos que permaneceram intactos, durante décadas. Ora, o que se passa em Paris confirma que a História não se limita aos museus, mas está sob as ruas. Roma, por exemplo, viu o nível do solo subir cerca de nove metros, desde a queda do seu império, no século V d.C. Atenas, quando construiu o sistema de metro para as Olimpíadas de 2004, desencadeou a maior escavação da História da Grécia, revelando dezenas de milhares de artefactos agora expostos nas próprias estações. E Paris, que tem a sua origem na Île de la Cité, no Sena, não é diferente. Séculos após a fundação de Paris, a Notre-Dame surgiu nesta mesma ilha.

Camille Colonna explicou que, à época da construção da catedral, toda a praça era densamente povoada por casas medievais. E, à medida que a sua equipa escavava mais fundo, descobriu os porões dessas casas. Abaixo deles, encontram-se silos de grãos merovíngios e carolíngios datados do século VI ao X e, mais fundo, um denso bairro romano dos séculos IV e V. No total, 20 séculos de História estão concentrados em quatro metros de terra – aproximadamente, a altura de dois Napoleão Bonaparte e meio. E Yasmine Benali, estudante de arqueologia, observando por trás das barreiras, refletiu sobre o significado do local: “Aqui você pode ver as camadas – a Paris medieval, a Paris romana, talvez até mesmo antes disso. Isso faz com que a cidade pareça menos um cartão-postal e mais algo que ainda está sendo descoberto.”

Valentine Breloux, outro arqueólogo da equipa, observou a raridade das descobertas encontradas nas latrinas: “É raro encontrar cerâmicas completas.” Os resíduos orgânicos e macios, nessas fossas, proporcionaram o efeito de amortecimento, preservando os itens inteiros, ao longo dos séculos. E, para maior surpresa dos especialistas, os conservadores, ao limparem o que parecia cerâmica medieval comum, descobriram ténues inscrições avermelhadas pintadas na parte interna e que apareciam em fragmento após fragmento. E Breloux descreveu tais objetos como os mais “surpreendentes” de todos os que limpou de Notre-Dame.

As moedas, inicialmente, pareciam discos pretos corroídos pela ferrugem. Porém, sob raios X, foi revelado o rosto de Constantino, que reinou no início do século IV d.C. Tais artefactos, segundo Altenburg, podem ser inestimáveis ​​para a data da camada subterrânea.

As descobertas romanas são valiosas para os arqueólogos, pois representam o período mais profundo, mais antigo e menos compreendido. Com o declínio do Império Romano, as pessoas refugiaram-se na Île de la Cité, futuro local de Notre-Dame, fortificando-a com pedras de estruturas anteriores. A equipa encontrou evidências tangíveis da reutilização: um degrau de porta romano, proveniente de um edifício muito maior, que foi transportado, invertido e usado como pavimentação em uma estrada. Por fim, cada artefacto desenterrado é transportado para o Norte, para o centro arqueológico da cidade, que se tornou “um enorme depósito arqueológico”, um verdadeiro tesouro da História de Paris.

Para os arqueólogos, esta escavação é um privilégio raro. Na França, como noutros lugares, as escavações só costumam ocorrer quando é iminente nova construção – cenário semelhante ao de trabalhadores de pedreiras industriais que descobrem, inesperadamente, restos de dinossauros. “Isso só acontece porque a cidade de Paris decidiu embelezar a área”, observou Altenburg. Com efeito, tal iniciativa faz parte da estratégia mais ampla de Paris para se adaptar aos verões cada vez mais quentes, devido ao aquecimento global. Entretanto, a equipa de Notre-Dame nutre ambições de explorar ainda mais a História da cidade – para lá dos romanos, em direção aos gauleses, que deram nome à cidade. “A esperança é que possamos retroceder no tempo ainda mais do que jamais fizemos”, concluiu Altenburg.

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Já em 28 abril de 2022, a revista “National Geographic” referia que os arqueólogos, tendo escavado uma área abaixo do transepto, onde foi colocada a plataforma e andaimes para levantar a torre de substituição, encontraram um caixão, fragmentos de estátuas e parte da tela da catedral destruída na Contrarreforma. E sustentava que podia haver outros tesouros sob o chão da catedral, mas os arqueólogos só foram autorizados a escavar aquela área.

O caixão fechado, analisado por uma pequena câmara, contém os restos mortais de um dignitário local, talvez um alto dignitário da Igreja dos anos 1300, disse o Institut National de Recherches Archéologiques Préventives da França (INRAP). Os fragmentos de estátuas são mãos, pés e rostos esculpidos, alguns ainda pintados, incluindo uma cabeça que pode representar Jesus. Partes da tela estão enterradas amplamente sob o piso, mas a permissão de escavação só se aplica à área especificada de fevereiro a abril. Fotografias da visita do presidente Emmanuel Macron, na Sexta-feira Santa daquele ano, mostram pedra clara limpa ao longo das paredes, indicando que a catedral, outrora escura ficará mais brilhante, quando reabrir.

Em 27 de novembro de 2024, Robert Kunzig observava que, em fevereiro de 2022, a reconstrução da catedral estava pronta para começar. Todavia, primeiro, foi preciso chamar os arqueólogos, visto que, segundo a lei francesa, qualquer projeto de construção que perturbe o solo onde possam ser encontrados artefactos ou vestígios antigos exige a intervenção de arqueólogos do governo. Em Notre-Dame, a função deles era garantir que nada de valor fosse destruído pelos andaimes de 770 toneladas necessários para reconstruir a torre. 

Christophe Besnier e a sua equipa do INRAP receberam, inicialmente, cinco semanas para escavarem sob o piso de pedra no cruzamento, onde o transepto (os braços menores da igreja cruciforme) encontra a nave e o coro. Artefactos históricos são comuns em Notre-Dame, quando se escava a profundidade suficiente, pois o local foi ocupado por mais de um milénio, antes da construção da catedral, nos séculos XII e XIII. Mas, como a equipa estava autorizada a escavar só 40 centímetros abaixo do piso a profundidade da fundação do andaime, não esperava encontrar muita coisa. Estava enganado. Os vestígios revelaram-se muito mais ricos do que o esperado. Ao todo, a equipa encontrou 1035 fragmentos de diversas obras de arte.

Os arqueólogos desenterraram magníficas obras de arte que, originalmente, ficavam no centro da catedral, o que o crítico francês Didier Rykner chamou de “algumas das obras de escultura mais excecionais de qualquer período do Mundo”.  E cerca de 30 dessas esculturas, que estiveram perdidas por séculos, foram exibidas no Museu de Cluny.

Assim que a equipa de Besnier removeu os ladrilhos do chão e uma fina camada de terra e entulho, apareceu a tampa de um caixão de chumbo. Perto dali, começaram a surgir esculturas de calcário: cabeças e torsos em tamanho real, alinhados sob o piso, junto à entrada do coro. Por isso, Besnier obteve permissão para escavar a mais de 40 centímetros de profundidade, para poder extrair os artefactos. E foi encontrado outro caixão de chumbo, assim como alguns sepultamentos menos luxuosos, o que não surpreende, porque há túmulos por toda a catedral.

As estátuas revelaram-se a descoberta mais significativa. Os arqueólogos determinaram que são remanescentes do retábulo de calcário do século XIII (obra-prima da escultura gótica pintada), que isolava o coro e o santuário da vista do público. Desmontado no início do século XVIII, o retábulo de quatro metros de altura quase desapareceu. Só existiam fragmentos e nenhuma representação completa dele, nem registo do seu destino. Agora, proporciona a lembrança vívida de quão diferente era a experiência de visitar Notre-Dame na Idade Média.

Entre as figuras em tamanho natural, estavam a cabeça e o torso de Cristo sem vida: olhos fechados, sangue vermelho escorrendo da ferida de lança no seu lado. “A escultura é excecional na sua delicadeza, na sua atenção aos detalhes”, dizia Besnier. “A representação das pálpebras, das orelhas, do nariz é incrível.”

No século XIII, quando Notre-Dame foi concluída, a vista do altar era interrompida pelo retábulo, encimado por um crucifixo gigante. Esse retábulo foi destruído, no início do século XVIII, e partes dele foram então enterradas sob a catedral. O coro da catedral tinha duas funções, segundo Mathieu Lours, historiador de arquitetura: a primeira era dar aos padres uma plataforma para lerem as escrituras ao público reunido na nave; a segunda era a privacidade: os padres estavam isolados, no coro, da vista do público durante as oito celebrações diárias de oração. E as telas do retábulo mostravam os temas centrais a História do Cristianismo, pois os ritos eram em Latim.

O retábulo permaneceu de pé, durante quase cinco séculos. Com o tempo, as práticas litúrgicas mudaram, tal como a moda artística, e o estilo gótico passou a ser malvisto. Porém, o clero de Notre-Dame manteve o retábulo por mais tempo do que a maioria das igrejas francesas, mas, sob pressão do rei Luís XIV, que desejava um coro mais aberto – que incluísse grandes estátuas dele e do pai, Luís XIII – o retábulo foi desmontado, na década de 1710, e enterrado ao lado de onde ficava. Embora as esculturas tivessem sido desmontadas e quebradas, ainda eram consideradas sagradas, pelo que não podiam sair da igreja. Em 2024, os arqueólogos desenterraram cerca de mil fragmentos do retábulo, de todos os tamanhos, dos quais cerca de 700 apresentavam vestígios de tinta. Acredita-se que, originalmente, as esculturas de Notre-Dame, incluindo as da fachada principal, eram pintadas com cores vibrantes, mas tal prática caiu em desuso. E as cores preservadas nas esculturas do retábulo oferecerão pistas sobre a aparência original do templo.

Besnier não tinha a certeza de quanta parte da tela a sua equipa escavou, mas acreditava que muito mais dela esteja enterrada sob o coro, fora do escopo da escavação. Por outro lado, dizia que, se não fosse pelo incêndio, a sua equipa jamais teria tido o ensejo de descobrir sequer essa parte do coro divisório. E, as escavações arqueológicas não atrasaram o restauro.

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Há sempre oportunidade gratificante de encontrar o desconhecido histórico, mas dá trabalho.

2026.06.03 – Louro de Carvalho

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