No
fim de 2024, após anos de restauração, subsequente ao incêndio de 2019, foi
reaberta a catedral de Notre-Dame. Paralelamente, a prefeitura de Paris iniciou
o projeto de transformação da área envolvente num espaço mais arborizado e
agradável, mas, antes de qualquer intervenção urbana, tornou-se necessário
investigar o que jazia sob o solo.
A
este respeito, a revista “Aventuras da História” publicou, a 2 de junho, um
texto jornalístico de Mariana Lima, sob o título “Arqueólogos revelam dois mil
anos de História sob Notre-Dame”, segundo o qual, enquanto filas de turistas visitam
a catedral, arqueólogos trabalham numa escavação considerada a “escavação do
século” pela imprensa francesa.
Também,
em Portugal, o Diário de Notícias (DN), no mesmo dia, publicou um
texto jornalístico intitulado “Debaixo da catedral de Notre-Dame, a ‘escavação
do século’ revela 1700 anos de História”, em que David Pereira, citando a Associated
Press (AP), se refere ao tema, em termos similares aos de Mariana
Lima.
De
acordo com a reportagem da revista “Indendent”, abriu-se um grande sítio
arqueológico numa parte da praça, tendo a escavação revelado centenas de
objetos que ajudam a reconstruir cerca de 20 séculos da História de Paris. Segundo
os arqueólogos envolvidos no projeto, os primeiros vestígios históricos
aparecem a apenas 50 centímetros de profundidade. No entanto, as equipas
continuaram a trabalhar até quatro metros abaixo da superfície atual.
Camille
Colonna, a arqueóloga responsável pelas escavações, observou que, aquando
do início da construção de Notre-Dame, em 1163, toda a área da praça era
ocupada por casas medievais, separadas por uma única rua, das quais foram
encontrados os porões, durante as escavações. E, abaixo dessas estruturas, os investigadores
identificaram poços de armazenamento de grãos dos períodos merovíngio e
carolíngio, datados entre os séculos VI e X. A níveis ainda mais profundos
surgiram vestígios dum bairro romano dos séculos IV e V. Ao todo, cerca de 20
séculos de ocupação humana estão concentrados em quatro metros de terra. Entre
os objetos encontrados está uma moeda do século VI com a imagem do imperador Constantino,
que parecia, de início, um disco escurecido pelo tempo, mas exames de raio-X
revelaram a origem.
Também
os arqueólogos encontraram diversos fragmentos de cerâmica medieval. Durante o
processo de limpeza desses objetos, foram identificadas marcas avermelhadas
pintadas no seu interior, que aparecem, repetidamente, em diferentes fragmentos.
O significado das inscrições ainda não foi decifrado, o que as transformou num
dos mistérios intrigantes da escavação.
Algumas
das descobertas mais surpreendentes vieram de antigos poços localizados sob as
ditas casas medievais, os quais funcionavam como latrinas e como locais de
descarte de resíduos. Foi nesse ambiente que os arqueólogos encontraram jarros,
xícaras e outros recipientes praticamente intactos, bem como pratos quebrados e
ossos de animais. Segundo os arqueólogos, a composição orgânica desses poços
ajudou a preservar muitos dos objetos ao longo dos séculos, permitindo que
peças completas chegassem aos nossos dias.
As
descobertas conexas com o período romano, em que Paris era conhecida como
Lutécia, estão entre as mais importantes do projeto. Os arqueólogos explicam
que, no declínio do Império Romano, a população passou a concentrar-se na Île
de la Cité, a mesma onde Notre-Dame seria construída séculos depois. E, durante
a escavação, a equipa encontrou evidências desse processo, como, por exemplo uma
antiga porta romana que fazia parte de uma estrutura maior, mas que foi, em
algum momento, removida, transportada e reutilizada como pavimentação de uma
estrada. Para os especialistas, esses achados ajudam a compreender melhor um
dos períodos menos conhecidos da História da cidade.
Todos
os objetos encontrados são enviados para o centro arqueológico da cidade
de Paris, onde passam por análise e conservação, enquanto o projeto de
renovação da praça prossegue, prevendo-se que o espaço receba cerca de 160
novas árvores e áreas destinadas a amenizar o calor no verão. Também está
prevista a reabertura do antigo estacionamento subterrâneo como um centro de
visitantes com vista para o rio Sena. E, apesar dos avanços obtidos, os
arqueólogos esperam ir mais fundo. O objetivo é alcançar vestígios anteriores
ao período romano e descobrir mais evidências dos povos que habitavam a região
antes do surgimento de Paris.
***
Na citada revista “Indendent”, de 2 de junho, sob o título “Arqueólogos que escavam sob Notre-Dame descobrem 2000 anos de História”, Thomas Adamson e Jeffrey Schaeffer sustentam que, enquanto os turistas sobem à catedral e admiram as suas gárgulas icónicas, se opera uma
profunda
imersão no passado de Paris, em consequência do incêndio do templo e
dos planos subsequentes de revitalização do pátio frontal. Numa cidade rica em História,
nenhum terreno pode ser perturbado, sem se escavar o que se encontra abaixo,
protegendo-o contra possíveis danos a artefactos históricos de valor
inestimável. Por isso, parte do pátio frontal de Notre-Dame foi transformada em
sítio arqueológico ativo. E Lucie Altenburg, conservadora da unidade de
arqueologia de Paris, vincou a importância do projeto, afirmando: “É uma
oportunidade rara para nós trabalharmos em algo que fará uma diferença na História
de Paris.”
Falando
da moeda do século IV e dos intrigantes fragmentos de cerâmica medieval, diz tratar-se
de um mistério que levou alguns a compará-lo a um “Código Da Vinci moderno”. Por
outro lado, as descobertas têm cativado os visitantes, para os quais Notre-Dame
parecer viva, novamente. Ao irem ver a catedral, percebem que há outra cidade
sob os seus pés.
Os
pesquisadores, nalguns dias, encheram 15 caixas de achados subterrâneos que
permaneceram intactos, durante décadas. Ora, o que se passa em Paris confirma que
a História não se limita aos museus, mas está sob as ruas. Roma, por
exemplo, viu o nível do solo subir cerca de nove metros, desde a queda do seu
império, no século V d.C. Atenas, quando construiu o sistema de metro para
as Olimpíadas de 2004, desencadeou a maior escavação da História da Grécia,
revelando dezenas de milhares de artefactos agora expostos nas próprias
estações. E Paris, que tem a sua origem na Île de la Cité, no Sena, não é
diferente. Séculos após a fundação de Paris, a Notre-Dame surgiu nesta mesma
ilha.
Camille
Colonna explicou que, à época da construção da catedral, toda a praça era
densamente povoada por casas medievais. E, à medida que a sua equipa escavava
mais fundo, descobriu os porões dessas casas. Abaixo deles, encontram-se silos
de grãos merovíngios e carolíngios datados do século VI ao X e, mais fundo, um
denso bairro romano dos séculos IV e V. No total, 20 séculos de História estão
concentrados em quatro metros de terra – aproximadamente, a altura de dois
Napoleão Bonaparte e meio. E Yasmine Benali, estudante de arqueologia, observando
por trás das barreiras, refletiu sobre o significado do local: “Aqui você pode
ver as camadas – a Paris medieval, a Paris romana, talvez até mesmo antes
disso. Isso faz com que a cidade pareça menos um cartão-postal e mais algo que
ainda está sendo descoberto.”
Valentine
Breloux, outro arqueólogo da equipa, observou a raridade das descobertas encontradas
nas latrinas: “É raro encontrar cerâmicas completas.” Os resíduos orgânicos e
macios, nessas fossas, proporcionaram o efeito de amortecimento, preservando os
itens inteiros, ao longo dos séculos. E, para maior surpresa dos especialistas,
os conservadores, ao limparem o que parecia cerâmica medieval comum, descobriram
ténues inscrições avermelhadas pintadas na parte interna e que apareciam em
fragmento após fragmento. E Breloux descreveu tais objetos como os mais “surpreendentes”
de todos os que limpou de Notre-Dame.
As
moedas, inicialmente, pareciam discos pretos corroídos pela ferrugem. Porém,
sob raios X, foi revelado o rosto de Constantino, que reinou no início do
século IV d.C. Tais artefactos, segundo Altenburg, podem ser inestimáveis
para a data da camada subterrânea.
As
descobertas romanas são valiosas para os arqueólogos, pois representam o
período mais profundo, mais antigo e menos compreendido. Com o declínio
do Império Romano, as pessoas refugiaram-se na Île de la Cité, futuro
local de Notre-Dame, fortificando-a com pedras de estruturas anteriores. A equipa
encontrou evidências tangíveis da reutilização: um degrau de porta romano, proveniente
de um edifício muito maior, que foi transportado, invertido e usado como
pavimentação em uma estrada. Por fim, cada artefacto desenterrado é
transportado para o Norte, para o centro arqueológico da cidade, que se tornou “um
enorme depósito arqueológico”, um verdadeiro tesouro da História de Paris.
Para
os arqueólogos, esta escavação é um privilégio raro. Na França, como noutros
lugares, as escavações só costumam ocorrer quando é iminente nova construção – cenário
semelhante ao de trabalhadores de pedreiras industriais que descobrem,
inesperadamente, restos de dinossauros. “Isso só acontece porque a cidade de
Paris decidiu embelezar a área”, observou Altenburg. Com efeito, tal iniciativa
faz parte da estratégia mais ampla de Paris para se adaptar aos verões cada vez
mais quentes, devido ao aquecimento global. Entretanto, a equipa de Notre-Dame
nutre ambições de explorar ainda mais a História da cidade – para lá dos romanos,
em direção aos gauleses, que deram nome à cidade. “A esperança é que possamos
retroceder no tempo ainda mais do que jamais fizemos”, concluiu Altenburg.
***
Já
em 28 abril de 2022, a revista “National Geographic” referia que os arqueólogos,
tendo escavado uma área abaixo do transepto, onde foi colocada a plataforma e
andaimes para levantar a torre de substituição, encontraram um caixão, fragmentos
de estátuas e parte da tela da catedral destruída na Contrarreforma. E
sustentava que podia haver outros tesouros sob o chão da catedral, mas os
arqueólogos só foram autorizados a escavar aquela área.
O
caixão fechado, analisado por uma pequena câmara, contém os restos mortais de
um dignitário local, talvez um alto dignitário da Igreja dos anos 1300, disse o
Institut National de Recherches Archéologiques Préventives da França (INRAP). Os
fragmentos de estátuas são mãos, pés e rostos esculpidos, alguns ainda
pintados, incluindo uma cabeça que pode representar Jesus. Partes da tela estão
enterradas amplamente sob o piso, mas a permissão de escavação só se aplica à
área especificada de fevereiro a abril. Fotografias da visita do presidente
Emmanuel Macron, na Sexta-feira Santa daquele ano, mostram pedra clara limpa ao
longo das paredes, indicando que a catedral, outrora escura ficará mais
brilhante, quando reabrir.
Em
27 de novembro de 2024, Robert Kunzig observava que, em fevereiro de 2022, a
reconstrução da catedral estava pronta para começar. Todavia, primeiro, foi
preciso chamar os arqueólogos, visto que, segundo a lei francesa, qualquer
projeto de construção que perturbe o solo onde possam ser encontrados
artefactos ou vestígios antigos exige a intervenção de arqueólogos do governo.
Em Notre-Dame, a função deles era garantir que nada de valor fosse destruído
pelos andaimes de 770 toneladas necessários para reconstruir a torre.
Christophe
Besnier e a sua equipa do INRAP receberam, inicialmente, cinco
semanas para escavarem sob o piso de pedra no cruzamento, onde o transepto (os
braços menores da igreja cruciforme) encontra a nave e o coro. Artefactos
históricos são comuns em Notre-Dame, quando se escava a profundidade suficiente,
pois o local foi ocupado por mais de um milénio, antes da construção da
catedral, nos séculos XII e XIII. Mas, como a equipa estava
autorizada a escavar só 40 centímetros abaixo do piso a profundidade da
fundação do andaime, não esperava encontrar muita coisa. Estava enganado. Os
vestígios revelaram-se muito mais ricos do que o esperado. Ao todo, a equipa
encontrou 1035 fragmentos de diversas obras de arte.
Os
arqueólogos desenterraram magníficas obras de arte que, originalmente, ficavam
no centro da catedral, o que o crítico francês Didier Rykner chamou
de “algumas das obras de escultura mais excecionais de qualquer período do Mundo”. E
cerca de 30 dessas esculturas, que estiveram perdidas por séculos, foram
exibidas no Museu de Cluny.
Assim
que a equipa de Besnier removeu os ladrilhos do chão e uma fina camada de terra
e entulho, apareceu a tampa de um caixão de chumbo. Perto dali, começaram a
surgir esculturas de calcário: cabeças e torsos em tamanho real, alinhados sob
o piso, junto à entrada do coro. Por isso, Besnier obteve permissão para
escavar a mais de 40 centímetros de profundidade, para poder extrair os artefactos.
E foi encontrado outro caixão de chumbo, assim como alguns sepultamentos menos
luxuosos, o que não surpreende, porque há túmulos por toda a catedral.
As
estátuas revelaram-se a descoberta mais significativa. Os arqueólogos
determinaram que são remanescentes do retábulo de calcário do século XIII (obra-prima
da escultura gótica pintada), que isolava o coro e o santuário da vista do
público. Desmontado no início do século XVIII, o retábulo de quatro metros
de altura quase desapareceu. Só existiam fragmentos e nenhuma representação
completa dele, nem registo do seu destino. Agora, proporciona a lembrança
vívida de quão diferente era a experiência de visitar Notre-Dame na Idade Média.
Entre
as figuras em tamanho natural, estavam a cabeça e o torso de Cristo sem vida:
olhos fechados, sangue vermelho escorrendo da ferida de lança no seu lado. “A
escultura é excecional na sua delicadeza, na sua atenção aos detalhes”, dizia
Besnier. “A representação das pálpebras, das orelhas, do nariz é incrível.”
No
século XIII, quando Notre-Dame foi concluída, a vista do altar era
interrompida pelo retábulo, encimado por um crucifixo gigante. Esse retábulo foi
destruído, no início do século XVIII, e partes dele foram então enterradas sob
a catedral. O coro da catedral tinha duas funções, segundo Mathieu Lours,
historiador de arquitetura: a primeira era dar aos padres uma plataforma para
lerem as escrituras ao público reunido na nave; a segunda era a privacidade: os
padres estavam isolados, no coro, da vista do público durante as oito
celebrações diárias de oração. E as telas do retábulo mostravam os temas
centrais a História do Cristianismo, pois os ritos eram em Latim.
O
retábulo permaneceu de pé, durante quase cinco séculos. Com o tempo, as
práticas litúrgicas mudaram, tal como a moda artística, e o estilo gótico
passou a ser malvisto. Porém, o clero de Notre-Dame manteve o retábulo por mais
tempo do que a maioria das igrejas francesas, mas, sob pressão do rei Luís XIV,
que desejava um coro mais aberto – que incluísse grandes estátuas dele e do
pai, Luís XIII – o retábulo foi desmontado, na década de 1710, e enterrado ao
lado de onde ficava. Embora as esculturas tivessem sido desmontadas e
quebradas, ainda eram consideradas sagradas, pelo que não podiam sair da
igreja. Em 2024, os arqueólogos desenterraram cerca de mil fragmentos do
retábulo, de todos os tamanhos, dos quais cerca de 700 apresentavam vestígios
de tinta. Acredita-se que, originalmente, as esculturas de Notre-Dame,
incluindo as da fachada principal, eram pintadas com cores vibrantes, mas tal
prática caiu em desuso. E as cores preservadas nas esculturas do retábulo
oferecerão pistas sobre a aparência original do templo.
Besnier
não tinha a certeza de quanta parte da tela a sua equipa escavou, mas acreditava
que muito mais dela esteja enterrada sob o coro, fora do escopo da escavação. Por
outro lado, dizia que, se não fosse pelo incêndio, a sua equipa jamais teria
tido o ensejo de descobrir sequer essa parte do coro divisório. E, as
escavações arqueológicas não atrasaram o restauro.
***
Há
sempre oportunidade gratificante de encontrar o desconhecido histórico, mas dá
trabalho.
2026.06.03
– Louro de Carvalho
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