Em
toda a Europa, o custo de uma vida confortável tem aumentado, gradualmente,
muitas vezes, mais do que o salário médio consegue acompanhar. Em 2026,
alimentos, serviços, arrendamento, transporte e itens básicos de higiene
pessoal ficam mais caros, em cada mês. E, enquanto algumas capitais europeias
oferecem aos seus residentes um poder de compra suficiente, para fazerem face às
despesas diárias e para viverem confortavelmente, noutras, isso torna-se cada
vez mais difícil, mesmo para pessoas que auferem o salário médio.
A
equipa da Traginpedia, coordenada por Michael Fisher, analisou o
custo de vida e os salários locais em 37 países europeus, com foco nas capitais,
comparando os custos mensais básicos para uma pessoa solteira e para uma
família de quatro pessoas, incluindo alimentação, habitação, transporte,
cuidados pessoais e lazer. Com esses dados, estimou o rendimento mensal
necessário para viver com relativo conforto e quanto poderia ser economizado
com ajustes inteligentes no estilo de vida nas capitais mais emblemáticas da
Europa.
O
cálculo do custo de vida inclui: na alimentação, custos mensais para uma
quantidade mínima de queijo local, peito de frango desossado, ovos, coca-cola,
maçãs, tomates, batatas, leite integral e pão; no alojamento, a renda mensal de
um apartamento mobilado de 45 metros quadrados (m²), para uma pessoa, ou de um
apartamento de 85m² fora de áreas caras ou centrais, para família de quatro
pessoas, incluindo água, luz, Internet e produtos básicos de higiene
pessoal; no transporte, passe mensal de transporte público, para uma pessoa, e
preços médios de combustível, para famílias que viajam de carro; na higiene
pessoal, o corte de cabelo masculino padrão, desodorizante, absorventes
internos, xampu, dentífrico e papel higiénico; e, no entretenimento, cinema e
teatro, refeições em restaurantes, jantares em pubs, coquetéis, cerveja,
café e uma mensalidade de academia.
***
Nestes
termos, entre as capitais mais baratas da Europa, numa classificação por
despesas mensais básicas, Sarajevo, na Bósnia e Herzegovina é a capital mais
barata em 2026, com o custo de vida médio mensal de 584 euros (€), para
uma pessoa solteira.
Minsk,
na Bielorrússia, vem a seguir, com despesas mensais médias de 596€, destacando-se
pelo custo de vida muito equilibrado, sobretudo, na habitação e nos transportes.
Viver
confortavelmente em Chisinau, capital da Moldávia, custa aproximadamente 626€, por
mês, o que a torna a terceira capital mais barata da Europa.
Skopje, na
Macedónia do Norte também figura entre as capitais europeias mais económicas,
com despesas mensais médias de 702€, por pessoa.
Podgorica,
no Montenegro, completa a lista das capitais mais baratas da Europa, com
um custo de vida mensal estimado em 760€. Esta capital combina custos de
habitação moderados, em torno de €443 por mês, com preços de alimentos
comparativamente acessíveis, onde uma cesta básica de compras custa, em média, 110€,
por mês. Apesar do aumento dos preços na Europa, Podgorica continua a ser uma
das capitais mais baratas do continente.
Entre
as capitais mais caras da Europa, segundo o mesmo critério, surge à cabeça, Londres,
no Reino Unido, com despesas mensais estimadas em 3611€, para um residente,
liderando os rankings de habitação, de entretenimento e de transporte. A
habitação é o item que mais pesa.
Berna,
capital da Suíça, vem a seguir, com o custo de vida médio mensal de 3244€.
Como a Suíça não é membro da União Europeia (UE), não está sujeita aos acordos
comerciais que ajudam a manter os preços competitivos em toda a UE, o que, aliado
ao facto de o franco suíço ser uma das moedas mais fortes do Mundo, eleva o
custo de tudo, incluindo as importações. Assim, uma cesta básica média, para
uma pessoa solteira custa 332,94€, por mês.
Reiquejavique,
na Islândia, ocupa o terceiro lugar, com despesas mensais médias próximas
de 2972€, um dos custos de vida mais altos da Europa, devido ao
isolamento geográfico do país, onde quase tudo precisa de ser importado, com
todos os custos de transporte e de logística repassados diretamente aos
consumidores.
Amesterdão,
nos Países Baixos, é a quarta capital mais cara da Europa, com um custo de vida
mensal estimado em 2668€, registando a grave escassez de habitações, que se
vem acumulando, há décadas. A cidade é geograficamente limitada pela sua rede
de canais e de terras recuperadas do mar, o que significa que a expansão é
lenta e complexa, enquanto a demanda de trabalhadores internacionais e turistas
continua a crescer.
Dublin,
na Irlanda, é a quinta capital mais cara da Europa, com um custo de vida médio
mensal de 2396€, sendo a habitação o principal fator de pressão.
***
Comparar
preços pode enganar, pois o impacto real do custo de vida depende do rendimento
local. Uma cidade pode parecer “barata” no papel, mas, se os salários
médios forem baixos, as despesas diárias engolem grande parte do rendimento dos
moradores. Analisar o rendimento local, juntamente com os preços, mede a
acessibilidade financeira – mostrando quão acessíveis são, para as pessoas, a
habitação, a alimentação, o transporte ou o lazer. Na Europa, isso é muito
importante, pois, embora os preços ao consumidor, em muitos setores, sejam muito
semelhantes, em todo o continente, os salários variam drasticamente.
Assim,
entre as cidades europeias mais acessíveis, para uma pessoa solteira, Bruxelas surge
como a capital europeia mais acessível, apesar do alto padrão de vida. Com
efeito, embora as despesas mensais dessa pessoa totalizem 1444€, representam 49% do
salário médio mensal, após impostos, de 2945€. Como centro administrativo da
UE, tem os serviços públicos bem financiados e os custos de infraestrutura
distribuídos e evitou a inflação imobiliária descontrolada.
Copenhaga,
na Dinamarca, é a segunda capital mais acessível para os cidadãos, com despesas
mensais médias de 2119€. Parece muito, mas considerando o salário médio de 4204€,
tais despesas representam cerca de 50,4% do salário típico dinamarquês.
Apesar
da reputação da Suíça com cidades caras, Berna, a sua capital, está entre as
cidades mais acessíveis da Europa, para residentes que recebem o salário médio.
As despesas mensais de uma pessoa solteira giram em torno de 3244€, mas, com um
salário líquido médio de 6424€, esses custos representam apenas 50,5% do rendimento
mensal.
As
despesas de vida típicas para uma pessoa solteira, no Luxemburgo, chegam
a 2333€, cerca de 50,9% do salário médio de 4580€. Sendo um dos países
mais ricos do Mundo, em rendimento per capita, os altos salários são
impulsionados pelo seu setor financeiro robusto e pelo seu papel como centro
das instituições europeias.
Estocolmo,
na Suécia, é considerada, há muito tempo, uma das capitais mais caras da
Europa, impulsionada, principalmente, pelos altos custos de habitação e de transporte.
Arrendar um pequeno apartamento mobilado de 45 m², com contas de água, luz e Internet
inclusas, custa, em média, cerca de 1188€, por mês.
Entre
as cidades europeias menos acessíveis, para uma pessoa solteira, vem no topo, Lisboa.
Apesar de o salário médio mensal atingir 1343€, superior ao de cidades, como
Atenas (1157€) e Belgrado (1084€), os residentes enfrentam um custo de vida
estimado em1631€, cerca de 127% do salário mensal típico da cidade. A
habitação é, de longe, o maior fardo financeiro. Apesar do crescente apelo de
Lisboa entre nómadas digitais e trabalhadores internacionais, o rápido aumento
do custo de vida exerce pressão significativa sobre os residentes.
Além
de ser a sétima capital mais barata entre as 37 capitais europeias
analisadas, Tirana, na Albânia, é a segunda menos acessível, para os
residentes, devido aos salários excecionalmente baixos. O salário médio mensal
na capital albanesa é de 760€, enquanto as despesas estimadas com a habitação (a
habitação é o maior fardo) chegam a 853€, por mês.
Atenas,
na Grécia, vem logo em seguida, com um custo de vida mensal estimado em 1151€, que
consome, integralmente, o salário médio mensal da cidade, de 1157€. A habitação
continua relativamente cara, em comparação com os rendimentos locais. Apesar do
apelo duradouro da capital grega e dos preços, comparativamente moderados, para
os padrões da Europa Ocidental, o poder de compra da população continua
bastante limitado.
Varsóvia
mantém-se como uma das capitais europeias mais caras, para moradores solteiros,
embora a situação da cidade tenha melhorado, em comparação com 2025. As
despesas médias mensais, em 2026, totalizam 1836€, contra salários de cerca de
1911€, deixando os moradores com apenas cerca de 74€ no final do mês.
Roma,
na Itália, também figura entre as cinco capitais europeias menos acessíveis, em
2026. Um residente solteiro com o salário médio local de 1790€ gasta cerca
de 1674 €, por mês, com despesas de subsistência, restando apenas cerca de
116€, após cobrir o essencial. Embora Roma continue a ser mais barata do
que muitas das principais capitais da Europa Ocidental, em termos absolutos, os
salários locais, relativamente modestos, tornam a vida confortável na cidade
cada vez mais difícil, para os cidadãos que recebem o salário médio.
***
Para
as famílias, o panorama da acessibilidade varia, significativamente, na Europa.
Em cidades como Berna, Luxemburgo e Copenhaga, dois
salários médios são mais do que suficientes para sustentar uma família de
quatro pessoas, deixando margem considerável para poupanças. Em Berna, as
despesas familiares representam 33,8% do rendimento familiar combinado, o
que significa que as famílias têm mais de 8500€ para pouparem ou gastarem como
quiserem. Luxemburgo surge a seguir, com 38,8%, enquanto, em Copenhaga, os
custos de vida familiar consomem 43,7% dos rendimentos combinados. Bruxelas e Amesterdão
também figuram entre as capitais mais acessíveis da Europa para famílias,
onde as despesas representam 45% e 47,2% dos orçamentos familiares com
dois rendimentos.
No
outro extremo do ranking, Lisboa figura como a capital menos acessível
para famílias na Europa, com as despesas mensais consumindo 95,8% do
rendimento familiar conjunto. Tirana vem a seguir, com 89%, enquanto,
em Atenas, os custos de vida familiar absorvem 82,3% do
rendimento conjunto. Roma e Varsóvia completam a lista das cinco
piores, onde as despesas médias familiares
consomem 72,4% e 76,8% dos salários conjuntos, respetivamente.
A
acessibilidade à habitação continua a ser uma das linhas divisórias mais claras
entre as capitais europeias. Lisboa figura como a cidade menos acessível,
para inquilinos, com o custo de um apartamento mobilado de 45m², incluindo
contas de água, luz e Internet, em média, 226€, por mês, o
equivalente a 91,3% do salário médio mensal de 1343€.
Em Varsóvia, o mesmo apartamento custa 1303€, por mês, 68,2% do rendimento
médio. Tirana também está entre as cidades menos acessíveis, em termos de
habitação, onde o arrendamento e as contas de água, luz e gás custam, em
média, 504€, por mês, consumindo 66,3% do salário médio.
Roma (na Itália) e Belgrado (na Sérvia) ocupam o 4.º e o 5.º lugar, respetivamente,
com os custos de habitação em, respetivamente, 62,6% e 61,5% dos
salários médios.
No
extremo oposto do ranking, Bruxelas destaca-se como a capital mais
acessível da Europa, em termos de habitação, face aos salários locais. Estocolmo e Berna também
figuram entre as capitais mais acessíveis da Europa, para inquilinos, face aos
rendimentos. No entanto, Sófia, na Bulgária, destaca-se como um caso atípico.
Ao invés das capitais mais ricas do Norte e do Oeste da Europa que a cercam no ranking,
esta capital alcança a sua acessibilidade por meio de arrendamentos comparativamente
baixos, em vez de salários excecionalmente altos.
***
Entre
as capitais europeias onde o custo de vida mais aumentou, destaca-se o Luxemburgo,
com o aumento mais significativo no custo de vida, face aos salários, entre
2025 e 2026. Em 2025, um residente solteiro com salário médio gastava
cerca de 40% em despesas diárias, percentagem que subiu 10,9%, chegando a
50,9%, em 2026. O custo de vida aumentou moderadamente, mas a acentuada
deterioração da acessibilidade financeira foi resultado direto do crescimento
salarial mais lento e da redução da remuneração líquida, após mudanças nas
contribuições previdenciárias do país e uma pausa prolongada na indexação
salarial automática. Berna ficou
logo atrás, com o custo de vida a subir de 40,6% para 50,5% da média
salarial. Em Roma, o custo de vida mensal subiu de 83,6% para 93,5%
do salário médio, impulsionado, principalmente, pelo aumento do custo típico de
habitação, para uma pessoa solteira, de 948€ para 1121€, por mês. Em Helsínquia,
na Finlândia, o custo de vida subiu de 50,1% para 57,8% do salário
médio, no último ano. O custo da habitação, para uma pessoa solteira, aumentou
de 889€ para 994€, por mês, principalmente, devido ao aumento dos custos de
financiamento e manutenção.
***
Lisboa
é, pois, a capital europeia menos acessível, para uma pessoa solteira ou para uma
família, em 2026. Apesar de os salários médios mensais atingirem os 1343€,
superiores aos de cidades, como Atenas (1157€) e Belgrado (1084€), os lisboetas
enfrentam “despesas de subsistência estimadas em 1631€, cerca de 127% do
salário mensal típico da cidade. Segundo a Tradingpedia, “a habitação é,
longe, o maior fardo financeiro da cidade, com um apartamento mobilado de 45 m2
e as contas de serviços públicos a custarem cerca de 1226 euros, por mês, mais
do dobro dos custos de habitação observados em muitas capitais europeias com
níveis salariais semelhantes”. Só a renda consome mais de 91% do salário médio
local.
De
acordo com o estudo da Tradingpedia, Lisboa é também a capital menos
acessível da Europa, para as famílias, com as despesas mensais a consumirem
95,8% do rendimento familiar combinado. E, em Lisboa, os residentes enfrentam
um défice mensal de 288€, enquanto, por exemplo, os de Tirana ficam com um
défice de 93€.
Os
analistas da Tradingpedia compararam os dados de 37 capitais europeias, considerando
as despesas diárias e os salários líquidos mensais médios (o salário real,
após as deduções e os impostos serem retidos do salário bruto). E consideram Bruxelas
a capital “mais acessível da Europa, em 2026”, com os custos essenciais, como a
habitação, a alimentação, os cuidados pessoais e os transportes, a
representarem 1444€, apenas 49% do salário médio mensal.
Finalmente,
é de referir que um estudo EAPN Portugal/Rede Europeia Antipobreza, publicado na
última semana de maio, revela que a sobrecarga com a habitação eleva a percentagem
da população em risco de pobreza para quase 28%. Todavia, poderá haver
mais famílias em risco, já que são cada vez mais frequentes as situações de
grande vulnerabilidade.
***
Nas
estrelinhas, percebe-se que organização e planeamento, apoio público, oferta
habitacional acessível e salários médios altos geram produtividade e
competitividade, assim como ajudam a encarar o custo de vida. Ao invés, salário
baixo e vida cara não geram produtividade, nem competitividade, mas enriquecem
uns tantos e derrotam um cidadão, na dignidade e na sua saúde.
2026.06.03
– Louro de Carvalho
Sem comentários:
Enviar um comentário