domingo, 28 de junho de 2026

Ondas de calor, na Europa, provocam degelo e morte de pessoas

 

O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS) disse, a 28 de junho, que, desde o dia 21, “foram registadas mais de 1300 mortes em excesso associadas às elevadas temperaturas na Europa”. A este respeito, utilizou a rede social X, para relevar que “o stresse térmico é, frequentemente, designado como o assassino silencioso e que “as habitações, os locais de trabalho e as escolas europeias não foram concebidos para suportar estas temperaturas”.

Tedros Adhanom Ghebreyesus adiantou que a OMS “está a trabalhar com os seus estados-membros e parceiros para enfrentar as ameaças à saúde provocadas pelo calor extremo, centrando-se na preparação, na prevenção e no reforço da capacidade de resposta dos sistemas de saúde”. Em particular, os países estão a ser incentivados “a implementarem planos de ação para a saúde, em situações de calor extremo, como parte de uma agenda mais ampla destinada a proteger a saúde, face às alterações climáticas”.

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A onda de calor extrema continua a afetar a Europa, com temperaturas abrasadoras a persistirem em todo o continente.nNos últimos dias, já foram registadas temperaturas recorde no Reino Unido, na França e na Alemanha, com eventos cancelados e com vendas de álcool restringidas, enquanto os serviços de emergência tentam responder ao aumento de chamadas.

Devido à onda de calor, Paris proibiu o consumo de álcool, na via pública, e a Marcha do Orgulho, prevista para o dia 27, foi adiada. A Torre Eiffel e o museu do Louvre continuam a encerrar mais cedo. De facto, a capital francesa registou temperaturas de 39º C (centígrados ou Celsius), levando muitos habitantes e turistas a dirigirem-se aos canais e parques da cidade para se refrescarem. E Emmanuel Grégoire, presidente da câmara, disse que um homem se afogou no Canal Saint-Martin, na noite de 26, e lembrou o perigo de nadar fora das zonas e horários vigiados.

“Já o dissemos e voltamos a dizê‑lo: nadar fora dos horários em que é permitido o banho vigiado e fora das zonas com vigilância é perigoso”, escreveu Emmanuel Grégoire, no X.

Trinta e sete departamentos permaneciam sob aviso vermelho de calor, no dia 27, baixando para 24, no dia 28, segundo a Météo-France. A França registou, no dia 24, o dia mais quente de sempre, com a temperatura média em 24 horas a atingir 30º C.

Grande parte da Alemanha mantém-se também sob avisos de calor. A cidade ocidental de Saarbrücken registou, no dia 26, o valor mais alto de temperatura alguma vez medido no país, com 41,3º C. Uwe Baumgarten, do serviço meteorológico alemão, disse à AFP que este valor poderia ser ultrapassado no dia 27.

O Reino Unido registou, a 26, o dia mais quente desde que há registos. O Met Office, serviço nacional de meteorologia e clima do Reino Unido, indicou que dados provisórios mostram que a aldeia de Santon Downham, em Suffolk, atingiu 37,3º C. Partes do Leste e do Sudeste de Inglaterra permaneceram sob aviso laranja de calor, no dia seguinte.

Notícias do dia 28 revelam que várias regiões de França ultrapassaram, durante a semana, 40º C, aumentando a pressão sobre hospitais e sobre equipas de emergência, graças aos pedidos. Um futebolista profissional do Guingamp morreu afogado no rio Ródano.

Kenzo Kies, futebolista do Guingamp, clube da segunda liga francesa morreu depois de, alegadamente, se ter afogado no Ródano, durante a onda de calor. Nas redes sociais, o clube lamentou a morte do jogador de 21 anos. “O En Avant Guingamp apresenta as mais sentidas condolências à família de Kenzo Kies e a todos os seus próximos e manifesta‑lhes todo o seu apoio, neste momento difícil”, explicitou.

A França registou, desde o dia 24, cerca de mil mortes adicionais, em relação ao esperado e em comparação com os óbitos registados nos meses anteriores, numa altura em que temperaturas abrasadoras atingem o país, como afirmou a agência francesa de saúde pública Santé Publique France, em comunicado.

As regiões mais afetadas são, sobretudo, as que estiveram sob alerta vermelho de calor, nomeadamente, a Île‑de‑France, a Nova Aquitânia, a Bretanha, o Centro‑Vale do Loire, a Normandia e o Pays de la Loire, indicou a agência, acrescentando que 85 % das mortes dizem respeito a pessoas com 65 ou mais anos.

Também a Alemanha sofre com a primeira vaga de calor do ano. A polícia de Berlim recorreu a meios pouco usuais, para refrescar a população, enviando dois canhões de água para as ruas da capital, habitualmente usados em manifestações. Porém, o jato foi, naturalmente, muito mais suave do que nas manifestações.

Os veículos com canhões de água percorreram a capital e encantaram residentes e turistas. Entre os destinos estiveram, entre outros, a Porta de Brandemburgo, a Potsdamer Platz e o edifício do Reichstag. E, no geral, os locais mais frescos foram muito procurados.

Há já vários dias que a Alemanha enfrenta uma onda de calor, com temperaturas a aproximarem-se da barreira dos 40º C ou mesmo a ultrapassarem esse valor. A situação é particularmente difícil porque, em muitas zonas, durante um longo período, quase não houve arrefecimento noturno e as temperaturas se mantiveram elevadas, mesmo durante a noite.

Segundo dados provisórios do Serviço Meteorológico Alemão (DWD), a noite do dia 27 foi, desde o início dos registos meteorológicos, a mais quente, até agora, na Alemanha. O valor máximo foi registado em Kubschütz, no Leste da Saxónia, onde a temperatura noturna não desceu abaixo dos 29,4º C. E o valor máximo diário provisório de 41,5º C foi medido, no dia 27, às 16h20, em Möckern-Drewitz, na Saxónia-Anhalt.

Prevê-se que a Alemanha arrefeça, ligeiramente, na próxima semana.

O dia 28 terá marcado o auge da onda de calor. De acordo com o DWD, eram esperadas temperaturas extremamente elevadas, entre 37º C e 41º C, com a possibilidade de, localmente, haver trovoadas de calor, acompanhadas de chuva intensa, granizo e rajadas de vento, por vezes, fortes. Para os dias subsequentes, previa-se descida acentuada de temperatura, com períodos de chuva e, pontualmente, trovoadas.

A Espanha tem também enfrentado uma vaga de calor persistente, com temperaturas a ultrapassarem 40º C, em algumas zonas. A agência meteorológica nacional espanhola (Aemet) indicou que as temperaturas se iriam manter “acima do normal”, no início da próxima semana, sobretudo, no Oeste, no Centro e no Sul do território continental.

Na verdade, aquela agência espanhola emitiu, a 23 de junho, avisos por calor, para todo o país, incluindo três de nível máximo (vermelho) para Andaluzia, para a Cantábria e para o País Basco, onde as temperaturas poderiam alcançar 44º C. A única exceção é para as ilhas Canárias.

Por outro lado, foram limitadas, ou até proibidas, as fogueiras, incluindo em praias, assim como espetáculos de pirotecnia, coincidindo com as festas de São João, em vários pontos do país.

Os serviços da Aemet alertaram para a possibilidade de as temperaturas máximas, em zonas da Andaluzia (Sul), alcançarem os 44º C e, na Cantábria e no País Basco (Nordeste) puderem chegar aos 40º C. Outras dez regiões estão sob aviso laranja (o que representa maior risco a seguir ao vermelho) e três estão com aviso amarelo.

As previsões da Aemet eram que se registassem mais de 35º C, naquele dia, na generalidade do território continental da Espanha e nas ilhas mediterrânicas das Baleares, com exceção de alguns pontos do litoral norte e de algumas zonas de montanha. Por outro lado, a Aemet previu que a noite subsequente voltasse a ser tropical ou mesmo tórrida, com as temperaturas mínimas a manterem-se acima dos 20º C, no primeiro caso, e dos 25º C, no segundo.

Por causa da onda de calor que está a atingir Espanha, como outros países da Europa, e do risco de incêndio, alguns governos regionais e municipais adotaram medidas excecionais, por causa das celebrações de São João. Entre essas medidas está a proibição ou limitação de fazer fogo, incluindo fogueiras, em praias, ou a utilização de drones de vigilância. Igualmente limitados ou proibidos, em vários municípios, estão os espetáculos de pirotecnia ou a utilização de outro tipo de pequenos explosivos, como petardos.

Além da Espanha, também a França e a Itália emitiram avisos vermelhos para várias cidades, devido à onda de calor, com as temperaturas a ultrapassar os 40º C, em várias regiões, como indicaram as autoridades destes países. A Europa enfrenta uma nova onda de calor que obrigou vários países a tomar medidas, como o encerramento de escolas.

É a segunda onda de calor a atingir a Europa, em menos de um mês. A Espanha, Portugal, a Bélgica, a Alemanha, os Países Baixos, o Reino Unido, a Suíça, a Áustria e a Macedónia são alguns dos países que estão a ser atingidos pela onda de calor.

A Europa é o continente que está a aquecer mais rapidamente, no Mundo, com as temperaturas a aumentarem duas vezes mais rapidamente do que a média global, desde a década de 1980, de acordo com o Serviço de Alterações Climáticas Copernicus da União Europeia (UE). Nos últimos quatro anos, mais de 200 mil pessoas, em toda a Europa, morreram por causas relacionadas com o calor, e a maioria destas mortes era evitável, como afirmou o gabinete da OMS para a Europa. As temperaturas acima da média podem causar exaustão, pelo calor, e insolação, com risco de vida. Os cientistas alertam que as alterações climáticas estão a agravar a frequência e a intensidade do calor e da seca, especialmente, no Sudeste da Europa, tornando a região mais vulnerável aos impactos na saúde e aos incêndios florestais.

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Um bebé de 18 meses morreu, no hospital, depois de ter sido encontrado inconsciente e em hipertermia, dentro de um carro sobreaquecido, durante uma forte vaga de calor em Marselha, a 23 de junho. Um dos pais ter-se-á esquecido da criança, ao ir trabalhar, no parque de estacionamento do campus de medicina de La Timone. Trata-se da quarta morte deste tipo registada, em oito dias, na França, depois de um caso no Val-d’Oise, no dia 18, e de dois, em Carpentras, no dia 22.

Os serviços de proteção civil indicaram que transportaram de urgência o bebé de 18 meses para o serviço de pediatria, depois de o terem encontrado em estado de hipertermia dentro de um veículo, no parque de estacionamento do campus universitário do hospital da Timone, pertencente à Universidade Aix-Marselha. O bebé foi levado para o serviço de urgência do hospital, em estado crítico, com risco de vida. Acabou por morrer lá.

Os termómetros chegaram aos 33° C, naquele dia, na cidade de Marselha, numa altura em que o departamento de Bouches-du-Rhône estava sob aviso laranja, por causa do calor.

“É com profunda tristeza que tomámos conhecimento do trágico acontecimento no campus da Timone. Endereçamos as nossas mais sinceras condolências à família e aos próximos da vítima. Expressamos, igualmente, o nosso apoio a todas as pessoas que foram testemunhas ou ficaram afetadas por este acontecimento trágico”, reagiu Éric Berton, presidente da Universidade Aix-Marselha, em comunicado enviado à AFP, referindo que a universidade criou uma estrutura de apoio psicológico ao pessoal e às testemunhas.

Além das mortes, em França, uma central nuclear, também em França, foi desligada na noite de 22 de junho, devido a “restrições ambientais” associadas à onda de calor, anunciou um porta-voz da unidade.

A central de Golfech (no Sudoeste do país) possui dois reatores de água pressurizada de 1,3 gigawatt (GW) e utiliza água do rio Garonne para arrefecer os seus reatores. Um deles foi desligado às 23h45 do dia 22, antecipando a subida da temperatura da água do rio para 28° C, que deveria ocorrer no dia 23. Ora, como o primeiro reator está inativo para manutenção, desde maio, a central ficou efetivamente desligada.

Em Portugal, a par das altas temperaturas, em várias zonas do interior e de trovoadas localizadas, que provaram muitos prejuízos nas culturas, os diretores de escolas pediram a suspensão da atividade escolar, nalguns lugares, e houve comboios suprimidos. Porém, a Direcção-Geral da Saúde apenas fez as recomendações habituais: não ingestão de álcool, ingestão de litro e meio de água, por dia, proteção do sol para grupos de risco, evitar o calor entre as 11 e as 17 horas e procurar lugares frescos.

Entretanto, o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) pôs sete distritos do continente sob aviso amarelo, devido ao calor.

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Prevê-se que toda a neve e gelo acumulados no último inverno tenham derretido até ao dia 29, o que, neste século, só costumava acontecer em meados de agosto, segundo a Rede de Monitorização de Glaciares na Suíça (GLAMOS). Esta perda drástica deve-se à onda de calor que se abateu sobre a Europa.

A partir daquela data, cada dia adicional de degelo, entre agora e outubro, fará encolher a dimensão dos glaciares.

O ponto de viragem, conhecido como “dia de perda dos glaciares”, chegou, significativamente, mais cedo do que o habitual. Desde o início da recolha de dados, há mais de duas décadas, só uma vez tinha chegado ainda mais cedo, quando, em 2022, se registou a 26 de junho.

“Estamos a assistir a uma enorme ablação, a taxas de derretimento do gelo e da neve em todo o maciço alpino. […] Estamos três meses adiantados em relação a uma situação considerada saudável”, afirmou, no dia 26, Matthias Huss, responsável da GLAMOS, alertando que os glaciares do país se encontram em mau estado e estão a recuar a um ritmo sem precedentes, acelerado pela onda de calor em curso.

Embora os glaciares dos Alpes suíços tenham começado a recuar, há cerca de 170 anos, o degelo foi relativamente moderado, até às últimas décadas. A perda acelerada de gelo e de neve (a Europa regista aceleração do degelo dos glaciares com temperaturas escaldantes) resulta da subida das temperaturas, na Europa, bem como de menos queda de neve no inverno.

Neste ano, os glaciares suíços receberam cerca de 25% menos neve fresca do que a média entre 2010 e 2020, indicou Mathias Huss. Além disso, temperaturas acima da média, em maio e em junho, incluindo uma onda de calor extraordinária, fizeram a neve desaparecer mais cedo do que o habitual, expondo o gelo glaciar mais escuro por baixo.

Quando a cobertura de neve branca e refletora desaparece da superfície do glaciar, fica exposto o gelo acinzentado por baixo, absorvendo a radiação solar mais rapidamente e acelerando, ainda mais, o processo de degelo. “Se o aquecimento continuar como nas últimas décadas, em 2100, restarão apenas pequenos vestígios de gelo”, advertiu Huss.

O calor extremo que está a castigar a Europa teria sido quase impossível, há algumas décadas, alertam os cientistas, avisando que as alterações climáticas estão a fugir ao controlo.

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As ondas de calor criam exaustão, insolação, dificuldades respiratórias, problemas cardíacos e mortes, nas pessoas. Os animais também não resistem. O degelo aumenta para níveis inéditos. E as trovoadas que sucedem ao calor ou o acompanham danificam as culturas, erodem os solos e inundam ruas e casas. Uma caterva de prejuízos!    

2026.06.28 – Louro de Carvalho

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