sexta-feira, 26 de junho de 2026

Consequências do Brexit para o Reino Unido e para a União Europeia

 

Dez anos após o Reino Unido ter votado a saída da União Europeia (UE), a discussão sobre o legado do Brexit está longe de terminada. Os eurodeputados Barry Andrews (Renew Europe) e Sander Smit (Conservadores e Reformistas Europeus) debatem sobre se o Brexit enfraqueceu ou fortaleceu ou a UE e se o Reino Unido poderá ou deverá regressar, um dia, à UE.

O eurodeputado irlandês Barry Andrews defende que a saída da UE foi um erro e um “desastre total” para o Reino Unido, apontando para anos de instabilidade política e de desafios económicos, após o referendo de 2016. E Sustenta que o Brexit reforçou o apoio ao projeto europeu, ao fazer perceber que “já ninguém procura sair da União Europeia”.

Do seu lado, o eurodeputado neerlandês Sander Smit, em perspetiva diferente, considera que a UE continua a sentir falta da “voz crucial do Reino Unido, em matéria de disciplina orçamental e financeira”, alerta para o risco de uma Europa mais centralizada e afirma que “o nosso futuro passa por uma parceria mais forte”, de modo que “que o Reino Unido e os países da UE deixem o passado para trás e trabalhem, em conjunto, como aliados naturais e soberanos”.

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A 23 de junho, em artigo intitulado “O referendo do Brexit, dez anos depois”, publicado no Expresso online, o eurodeputado português Pedro da Silva Pereira sustenta que a avaliação dos cidadãos britânicos é que “o Reino Unido ficou pior, por ter saído”. Com efeito, recentes sondagens apresentam a maioria, que oscila “entre 53 e 58%”, a reconhecer que “o Brexit foi um erro” e que o mesmo afirma a larga maioria (68%) dos jovens dos 18 aos 34 anos. Por isso, o eurodeputado aponta que “mais de 61% dos britânicos” apoiam “a estratégia do governo do Labour no sentido de uma reaproximação à União Europeia” – o “Brexit reset” –, cujo roteiro foi acordado na cimeira entre a UE e o Reino Unido, de maio de 2025.

Efetivamente, como escreve Silva Pereira, “o Brexit falhou o essencial das suas promessas”, com “as suas ilusões desmentidas pela realidade”.

Desde logo, emerge a instabilidade política. Uma democracia que se tinha por musculada conheceu sete primeiros-ministros, em 10 anos. E, como releva o articulista, “à instabilidade política juntam-se incertezas acrescidas sobre o futuro da unidade do Reino Unido, já não apenas na Escócia, mas também na Irlanda do Norte e no próprio País de Gales”.

Também ao invés do prometido, “o crescimento da economia britânica tem sido dececionante, ficando abaixo do da UE e das outras economias avançadas, expostas às mesmas crises de origem externa”, considera Silva Pereira, vincando que a demora de quatro anos para a concretização do Brexit, “agravou as incertezas” e mostrou “como o Reino Unido embarcou nesta tremenda aventura, sem a menor preparação”. Na verdade, o governo, como anota o eurodeputado “demorou nove meses só para enviar a carta de notificação da intenção de sair da UE, envolvendo-se, depois, numa arrastada negociação do Acordo de Saída”, pois os partidários do Brexit não compreendiam que o Reino Unido “não podia sair” da UE e “manter todos os benefícios, como se estivesse dentro”, e que a fronteira externa da UE, entre a República da Irlanda e a Irlanda do Norte, “não podia ser gerida como se o Brexit não tivesse acontecido”. Embora os danos tenham sido limitados pelo Acordo de Comércio e Cooperação, que regula, desde o início de 2021, as relações entre a UE e o Reino Unido, Silva Pereira sublinha que “os agentes económicos sentiram, fortemente, as consequências da perda das liberdades de circulação próprias do Mercado Único”, pelo que o governo britânico estima em cerca de 8% o impacto negativo do Brexit no PIB [produto interno bruto]”.

Ao medíocre desempenho da economia juntaram-se erros de governação, como o “choque fiscal” de Liz Truss, que se fez sentir “nas contas públicas, nas taxas de juro, no investimento e na própria qualidade dos serviços públicos, incluindo o Serviço Nacional de Saúde (NHS)”, para onde os corifeus do Brexit tinham prometido transferir 350 milhões de Libras adicionais, por semana, graças às “poupanças” que resultariam da saída da UE. Daí, como aponta o articulista, resultou “o aumento do custo de vida, com especial incidência nos preços da energia e da habitação”.

Depois, a promessa do Brexit era que, saindo da União Aduaneira e ficando à margem das negociações europeias, “o Reino Unido iria celebrar fantásticos acordos comerciais em todo o Mundo, cumprindo a visão de uma Global Britain”. Porém, como observa o articulista, “os acordos comerciais conseguidos foram dececionantes, com pouco ou nenhum valor acrescentado, face aos negociados pelo muito mais poderoso bloco europeu”.

Quanto à imigração, ao invés do sugerido pelo slogan “take back control”, a realidade dos números mostra o aumento líquido substancial da imigração, com a particularidade de os fluxos migratórios antes provenientes da UE terem sido substituídos por uma imigração oriunda de países terceiros, “tendencialmente menos qualificada e mais problemática, do ponto de vista da integração cultural”.

E, quando o Brexit previa uma atitude mais isolacionista de um Reino Unido ‘orgulhosamente só”, como diz Silva Pereira, “a sucessão de graves crises internacionais – pandemia, guerras, crises energéticas e guerra comercial – tornou evidente que a resposta aos novos desafios geopolíticos e geoeconómicos exige mais cooperação”, e “o Brexit ficou em contraciclo”.

Por isso, embora seja prematuro colocar no centro do debate político britânico o regresso à UE, na ótica do eurodeputado, “o caminho da reaproximação faz sentido e já começou a ser trilhado”, porquanto “o Reino Unido regressou ao programa europeu de investigação científica Horizonte Europa e, a partir de 2027, estará de volta ao programa Erasmus+”. E Silva Pereira anota: “A participação britânica no programa SAFE [Instrumento de Ação para a Segurança da Europa] e noutras iniciativas europeias, no domínio da defesa e segurança, estão também em desenvolvimento. A próxima cimeira UE-Reino Unido, agendada para 22 de julho (mas cujo calendário pode ser prejudicado pela crise política em Londres), dará, certamente, novos passos no sentido deste ‘Brexit reset’, com o reforço da cooperação em matéria de defesa e segurança e […] um novo esquema de vistos para a mobilidade juvenil e uma nova regulação do comércio de produtos agroalimentares, entre outros assuntos.”

Em suma, os últimos dez anos, desde o referendo, foram muito penosos, para o Reino Unido, e a UE ressentiu-se “da perda de um dos seus estados-membros mais poderosos”, mas, como defende Silva Perira, o “efeito dominó” do Brexit, “não aconteceu”: “mais nenhum estado-membro quer sair”, e “há muitos países que querem entrar”.

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Segundo um estudo publicado, em 2014, pela empresa Deloitte, 40% das multinacionais com sede na Europa escolheram Londres para montarem a sua sede ou, simplesmente, para abrirem um escritório, seguido por Paris (8%), Madrid (3%), Amesterdão e Bruxelas (2,5% cada).

Com o Brexit, a UE não apenas perdeu um membro, mas também a que era a sua segunda economia mais importante, que representava cerca de 15% do seu PIB e que contribuía para o seu orçamento com mais de 13 mil milhões de dólares, por ano. E perdeu um país com assento permanente no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) e, um estado cuja capital, Londres, é um dos maiores centros financeiros do Mundo.

No entanto, líderes continentais, como Edouard Philippe, primeiro-ministro francês, de 15 de maio de 2017 a 3 de julho de 2020, viam o Reino Unido a deixar a UE como ocasião para fortalecer a competitividade dos seus países e para atrair empresas instaladas em Londres. “A França tem uma oportunidade única, aproveitando o potencial do nosso centro financeiro, de fazer de Paris o principal centro financeiro europeu após o Brexit”, disse Philippe, em discurso na capital francesa, em 2017.

As autoridades holandesas e alemãs expressaram desejos semelhantes, em relação a Amesterdão e a Frankfurt, respetivamente.

Outra vantagem do Brexit para os países da UE, era que, pelo medo de a organização esfacelar, os seus líderes serem forçados a comunicar, mais claramente, os objetivos aos seus cidadãos e definirem melhor as suas prioridades, o que reforçaria o seu caráter democrático.

Porém, os anos subsequentes mostraram que tudo foi dificultado pela ascensão do populismo, no continente, com a crescente perda de consensos em matérias relevantes, como a imigração, o apoio à Ucrânia na guerra com a Rússia, desde 24 de abril de 2022, o alargamento da UE, a ação climática e a transição energética. Além disso, as sanções decretadas à Rússia não enfraqueceram, significativamente, àquele país a economia, nem o poderio militar, mas trouxeram à UE um grande surto inflacionista, com o inerente aumento do custo de vida, o que levou a grave crise económica na Alemanha, a mais forte economia do bloco europeu.

Por outro lado, nem a dependência energética da Rússia decresceu, como era de esperar, nem novas dependências, como as dos Estados Unidos da América (EUA) ou dos países do Médio Oriente se tornaram mais confortáveis, para o continente, até se agravaram com as guerras entre Israel e o Hamas ou o Hezbollah e entre os EUA/Israel e o Irão, bem como pela entrada dos Houthis nos conflitos regionais.

É ainda de salientar que a junção do Reino Unido à UE, no apoio à Ucrânia, perante a postura errática do presidente dos EUA, em relação ao conflito Rússia-Ucrânia e à participação na Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), disfarçando a fragilidade do bloco europeu e uma certa divisão entre os seus líderes, em alguns pontos.

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A 24 de junho, em artigo do Diário de Notícias (DN) “‘Brexit’ não representou nem colapso, nem renascimento para o Reino Unido”, a agência Lusa, considera que o Reino Unido, continua “a destacar-se” na economia do conhecimento, da tecnologia e da “energia limpa”, mas que se estima “um impacto negativo de 2% a 4% no PIB.

Por ocasião dos 10 anos do Brexit, o estudo “Ten Years After Brexit: Resilience Without Revival”, da Allianz Trade, conclui que o resultado “tem sido mais matizado do que muitos esperavam”, com indicadores a apontar para pontos fortes e para pontos fracos da economia, nem todos conexos com o Brexit.

Estudos independentes estimam que o PIB britânico teria sido 2 a 4% superior, sem a instabilidade política e sem os atritos comerciais provocados pelo Brexit. E sustentam que, desde 2016, as regiões que votaram a favor da saída apresentado, de um modo geral, “um desempenho inferior ao do Reino Unido no seu conjunto”, e 59% da população dessas áreas viu as suas regiões ficarem ainda mais atrás da média nacional do rendimento per capita. Além disso, o crescimento económico tem dependido, cada vez mais, de trabalhadores estrangeiros, o que impulsionou mais de metade da expansão do PIB.

O estudo da Allianz Trade revela que o Brexit “aumentou os atritos e reduziu os fluxos comerciais” apontando as estimativas estruturais que, embora a UE continue a ser o maior parceiro comercial do Reino Unido, o comércio de bens com o bloco europeu será cerca de 21% inferior ao que teria sido sem a saída. Paralelamente, segundo a Lusa, “os novos acordos comerciais e as cadeias de abastecimento diversificadas com os EUA, [com] a China e [com] os países da Commonwealth” não igualam “a escala dos laços económicos anteriormente mantidos no seio da UE”, por forma que “os ativos do Reino Unido continuam a ser negociados com um desconto, em relação aos seus homólogos internacionais”.

Em termos positivos, os setores da economia do conhecimento, da tecnologia e da “energia limpa” continuam a ser os grandes motores do país. Como enfatiza o estudo, as exportações britânicas de TIC [tecnologias da informação e comunicação] para a UE quase duplicaram, desde o Brexit, demonstrando a competitividade contínua da economia do conhecimento britânica”.

Assim, o Reino Unido, o segundo maior exportador mundial de serviços financeiros, com 21% das exportações globais, vem aprofundando a oferta de serviços financeiros aos mercados da UE. E, nos mercados privados, atrai “mais financiamento de capital de risco do que qualquer concorrente europeu: entre 2020 e 2026, angariou cerca de 164 mil milhões de dólares”.

Salientando que Londres “manteve grande parte da sua importância financeira global”, o estudo da Allianz Trade releva que “o Reino Unido continua a representar quase 50% da negociação global de derivados de taxas de juro no mercado de balcão e quase 38% do volume de negócios global em câmbios”. Na energia limpa, “emergiu como líder na Europa”, com a produção eólica a aumentar 130%, desde 2016, reduzindo a dependência dos combustíveis fósseis e permitindo a eliminação gradual e bem-sucedida do carvão, em 2024. Nos mercados, “as ações britânicas tiveram um desempenho inferior ao das norte-americanas e das europeias, refletindo o maior prémio de risco, devido ao contexto de crescentes desequilíbrios orçamentais”.

Enfim, como salienta o estudo, a marca do Brexit é visível nos dois maiores motores de capital privado do Reino Unido: “o capital de investimento e o capital de risco”. Ao mesmo tempo, os investimentos no Reino Unido ficaram 12 a 18% abaixo do cenário sem Brexit, a partir de 2025.

E, apesar dos “bons resultados”, em termos da criação de empresas, da flexibilidade do mercado de trabalho, do ensino superior e da investigação, “face a outras economias avançadas”, segundo a Allianz Trade, “os estrangulamentos internos – expostos pelo Brexit, mas não causados por ele – estão na origem do desempenho de crescimento dececionante do país”.

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Quanto à UE, é de referir que perdeu relevante peso económico e diplomático com o Brexit, além de uma das suas maiores economias e potências militares. A saída do Reino Unido gerou custos económicos amplos, mas serviu para consolidar a unidade (por vezes, frágil) dos restantes 27 estados-membros, reduzindo o peso dos movimentos eurocéticos, no continente.

Quanto às principais perdas e desafios para o bloco europeu, são de destacar: o peso geopolítico e militar, pois a saída o Reino Unido, membro permanente do Conselho de Segurança da ONU e uma das principais potências nucleares da Europa, retirou à UE capacidade de influência global; o potencial económico e financeiro, visto que a saída de um mercado de cerca de 67 milhões de consumidores e de uma das maiores economias mundiais causou interrupções nas cadeias de abastecimento e exigiu nova burocracia comercial; a mudança do centro de serviços financeiros, já que, sendo Londres a indiscutível capital financeira europeia, o Brexit forçou a dispersão da atividade bancária e de investimentos para cidades, como Paris, Frankfurt e Dublin; e a segurança e defesa, pois o Brexit tornou mais complexa e sujeita a novos acordos a coordenação de informações de inteligência e segurança policial entre o continente e as ilhas britânicas.

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Qualquer mudança comporta perdas e ganhos. Aqui, os ganhos foram parcos, para ambas as partes; e as perdas, maiores. A aproximação é vantajosa, mas nada será como antes: a UE terá de ser anglocética, pois o Reino Unido sempre esteve com um pé dentro e outro fora. A sua opção era a talassocracia e um estatuto especial na UE.  

2026.06.26 – Louro de Carvalho

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