segunda-feira, 22 de junho de 2026

Transmitir aos outros aquilo que nós contemplámos

 

Os textos bíblicos da Liturgia do 12.º domingo do Tempo Comum no Ano A relevam a dificuldade e a necessidade de viver como discípulo, testemunhando o desígnio de Deus para o Mundo. A par da incompreensão e da perseguição que estão no horizonte do discípulo, persistem a solicitude e o amor de Deus, que não abandonam o discípulo que testemunha a salvação.

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A primeira leitura (Jr 20,10-13) apresenta-nos Jeremias, o paradigma do profeta sofredor, que experiencia a perseguição, a solidão, o abandono, por causa da Palavra, mas persiste em confiar em Deus e em anunciar, coerente e fielmente, a proposta de Deus aos homens.

O profeta, nascido em Anatot, por volta de 650 a.C., exerceu o seu ministério desde 627/626 a.C., até depois da destruição de Jerusalém pelos Babilónios (586 a.C.), tendo como cenário, em geral, o reino de Judá e, sobretudo, a cidade de Jerusalém.

A primeira fase da sua pregação abrange parte do reinado de Josias, rei preocupado em defender a identidade política e religiosa do Povo de Deus, que leva a cabo impressionante reforma religiosa, para banir os cultos aos deuses estrangeiros. E a mensagem de Jeremias traduz-se num constante apelo à conversão, à fidelidade a Javé e à aliança.

Em 609 a.C., a Josias morto em combate contra os egípcios sucede a Joaquim, pelo que a segunda fase da atividade do profeta abrange o tempo deste reinado (609-597 a.C.), um tempo de desgraça e de pecado, para o Povo, e de incompreensão e sofrimento, para Jeremias, que denuncia as injustiças sociais, às vezes, fomentadas pelo rei, e a infidelidade religiosa traduzida, sobretudo, na busca de alianças políticas. Procurar a ajuda dos egípcios significava não confiar em Deus e pôr a esperança do Povo em exércitos estrangeiros. O profeta, convicto de que Judá ultrapassou todas as medidas e de que está iminente a invasão babilónica que punirá os pecados do Povo de Deus, di-lo aos habitantes de Jerusalém. E as previsões funestas concretizam-se: em 597 a.C., Nabucodonosor invade Judá e deporta para a Babilónia parte da população de Jerusalém.

No trono de Judá, fica Sedecias (597-586 a.C.), cujo reinado é palco da terceira fase da missão profética de Jeremias.

Após anos de pacata submissão à Babilónia, Sedecias reexperimenta a velha política das alianças com o Egito. Jeremias discorda da confiança em exércitos estrangeiros mais do que em Javé, mas ninguém lhe presta qualquer atenção. Considerado amaro “profeta da desgraça”, Jeremias apenas consegue criar o vazio à sua volta.

Em contraponto, em 587 a.C., Nabucodonosor cerca Jerusalém; um exército egípcio vem em socorro de Judá; e os babilónios retiram-se. Nesse momento de euforia, Jeremias anuncia o recomeço do cerco e a destruição de Jerusalém. Acusado de traição, é encarcerado e corre perigo de vida. Enquanto Jeremias continua a pregar a rendição, Nabucodonosor toma Jerusalém, destrói a cidade e deporta a sua população para a Babilónia (586 a.C.).

Jeremias é o paradigma dos profetas que sofrem por causa da Palavra. De natureza sensível e cordial, homem de paz, que anseia pelo sossego da família e pelo convívio com os amigos, não foi feito para o confronto, para a agressão, para a violência das palavras ou dos gestos, mas Javé chamou-o para “arrancar e destruir, para exterminar e demolir”, para predizer desgraças e anunciar violência, destruição e morte. Por conseguinte, foi continuamente objeto de desprezo e de irrisão e todos o maldiziam. Mal abria a boca, familiares, amigos, reis, sacerdotes, falsos profetas, o povo inteiro, todos se afastavam. E o homem sensível e delicado sofria terrivelmente pelo abandono e pela solidão a que a missão profética o votava.

Jeremias, verdadeiramente apaixonado pela Palavra de Javé, sabia que não teria descanso, se não a proclamasse com fidelidade. Porém, nos momentos mais negros de solidão e de frustração, deixou que a amargura que lhe ia no coração lhe subisse aos lábios e se transformasse em palavra. Dirigia-se a Deus e censurava-o pelos problemas que a missão lhe trazia. Chegou a comparar-se a jovem inocente e ingénua, de quem Deus se apoderou, forçando-a a fazer algo que não queria.

No Livro de Jeremias aparecem, pari passu, queixas e lamentos do profeta, condenado a vida de aparente fracasso. Alguns textos são conhecidos como “Confissões de Jeremias”, em que o profeta expõe a Javé a sua desilusão, amargura e frustração

O excerto em apreço faz parte de uma dessas “confissões”.

O profeta começa por descrever o quadro que o rodeia. A multidão, farta de escutar anúncios de castigos e de terrores, faz cessar o derrotismo de Jeremias e prepara-se para o calar. Jeremias, o “terror por toda a parte” (é desse modo que a multidão o designa, parodiando uma expressão que o profeta usava para anunciar as desgraças iminentes), é preso, julgado e silenciado. O ambiente faz pensar num esquema de julgamento sumário e de linchamento popular. No entanto, o que mais lhe dói é que os seus amigos mais íntimos lhe voltaram as costas e se juntaram aos que maquinavam a sua perda. O profeta – que não quis magoar ninguém, mas apenas anunciar a Palavra de Deus – sente-se só, abandonado, marginalizado, perdido em negra solidão.

Entretanto, o seu lamento é bruscamente cortado por inesperado hino de louvor a Javé, expressão extraordinária da confiança no Deus que não falha. É provável que estes versículos estejam deslocados do seu contexto, tendo sido pronunciados por Jeremias noutra ocasião e aqui inseridos pelo editor final do livro. Em todo o caso, o hino reproduz a certeza de que, apesar do sofrimento e da incompreensão que tem de enfrentar, o profeta não está só e confia em Deus, no seu poder, na sua justiça, no seu amor, pois sabe que Deus nunca abandona o pobre que n’Ele confia. Aqui, “pobre” é o desprotegido, perseguido injustamente pelos poderosos.

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No Evangelho (Mt 10,26-33), é Jesus que, ao enviar os discípulos, os alerta para a inevitabilidade das incompreensões e das perseguições. Todavia, exorta: “Não temais.” E garante-lhes a presença contínua, a solicitude e o amor de Deus, em toda a sua caminhada pelo Mundo.

É o ambiente da chamada dos discípulos por Jesus e da resposta positiva a esse chamamento, escutando o ensinamento de Jesus e testemunhando os seus sinais. Por isso, são enviados ao Mundo, a fim de continuarem a obra libertadora e salvadora de Jesus. Contudo, antes de partirem, recebem instruções. É o “discurso da missão”, que se prolonga de 9,36 a 11,1.

A comunidade cristã a quem Mateus destina o Evangelho (possivelmente, a comunidade de Antioquia da Síria) é uma comunidade com grande sensibilidade missionária e empenhada em levar a Boa Nova de Jesus a todos os homens. No entanto, os missionários convivem, dia a dia, com as dificuldades e com as perseguições e manifestam algum desânimo e frustração. Os crentes não sabem que caminho percorrer e estão perturbados e confusos.

Neste contexto, o evangelista compôs uma espécie de manual do missionário cristão. Para mostrar que a atividade missionária é um imperativo da vida cristã, encara a missão dos discípulos como continuação da obra libertadora de Jesus, assim como define os conteúdos do anúncio e as atitudes fundamentais que os missionários devem assumir, enquanto testemunhas do Reino.

O tema central do excerto em referência é sugerido pela expressão “não temais”, que se repete, por três vezes, ao longo do texto, e que aparece, com alguma frequência, no Antigo Testamento, dirigida a Israel ou a um profeta, sempre no contexto da eleição. Javé elege alguém (povo ou pessoa) para o seu serviço e confia-lhe uma missão profética no Mundo. E, porque sabe que o eleito se confrontará com forças adversas, que se traduzirão em sofrimento e em perseguição, assegura-lhe a sua presença, ajuda e proteção.

Também, ao enviar os discípulos que elegeu, Jesus assegura-lhes a sua presença, ajuda e proteção, para que superem o medo e a angústia que resultam da perseguição. As palavras de Jesus correspondem à última bem-aventurança: “Bem-aventurados sereis quando, por minha causa, vos insultarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós” (Mt 5,12).

Num primeiro momento, Jesus pede aos discípulos que não deixem o medo impedir a aberta proclamação da Boa Nova. A mensagem libertadora de Jesus não pode correr o risco de ficar, por causa do medo, circunscrita a um pequeno grupo, cobarde e comodamente fechado dentro de quatro paredes, sem correr riscos, nem incomodar a ordem injusta sobre a qual se constrói o Mundo. Ao invés, é uma mensagem que deve ser proclamada com coragem, com convicção, com coerência, de cima dos telhados, a fim de mudar o Mundo e de se tornar Boa Nova libertadora para todos os homens e mulheres.

Num segundo momento, Jesus recomenda aos discípulos que não se deixem vencer pelo medo da morte física. O que é temível, para o discípulo, não é que os perseguidores o possam eliminar fisicamente, mas perder a possibilidade de chegar à vida plena, à vida definitiva. Ora, o cristão sabe que a vida definitiva é um dom, que Deus oferece aos que acolheram a sua proposta e que aceitaram pôr a vida ao serviço do Reino. Os discípulos que procuram trilhar, com fidelidade, o caminho de Jesus não precisam de viver angustiados pelo medo da morte.

Num terceiro momento, Jesus convida os discípulos a desenvolverem a confiança absoluta em Deus. E, para ilustrar a solicitude de Deus, o apóstolo evangelista recorre a duas imagens: a das aves do céu, de que Deus cuida, que revela a tocante ternura e preocupação de Deus por todas as criaturas, mesmo as mais insignificantes e indefesas; e a dos cabelos que Deus conta, que revela a forma peculiar, única, profunda, como Deus conhece o homem, com a sua especificidade, os problemas e dificuldades. Deus é apresentado como um “Pai”, cheio de amor e de ternura, sempre preocupado em cuidar dos seus filhos, em entendê-los e em protegê-los. Ora, descoberto este rosto de Deus, os discípulos não têm qualquer razão para o medo. A certeza de ser filho de Deus alimenta a capacidade do discípulo em empenhar-se na missão, sem medo, sem prevenções, sem preconceitos, sem condições. Nem as dificuldades, nem as perseguições calarão o discípulo que pôs a sua confiança na solicitude, no cuidado e no amor de Deus Pai.

O último segmento discursivo (vv. 32-33) contém uma advertência de Jesus: a atitude do discípulo ante a perseguição condicionará o seu destino último. Aqueles que se mantiverem fiéis a Deus e ao seu desígnio e que testemunharem, com desassombro, a Palavra encontrarão vida definitiva. Porém, os que procuraram proteger-se, instalados numa vida morna, sem riscos e sem coerência, terão recusado a vida em plenitude, pelo que não podem integrar a comunidade de Jesus.

Antes da oração do Angelus, a 21 de junho, Leão XIV comentava este excerto evangélico nos termos seguintes:

Jesus, ao enviar os discípulos em missão, dirige-lhes, entre outras coisas, a exortação: “O que vos digo às escuras, dizei-o à luz do dia; e o que escutais ao ouvido, proclamai-o sobre os terraços.”

Ao mesmo tempo, “estabelece uma ligação entre o que ouvimos, o ouvido – ou seja, ao íntimo do coração – e aquilo que somos chamados a proclamar a todos”, lembrando que o anúncio do Evangelho é “a partilha de um encontro pessoal com Ele, único para cada um”.

A força do apostolado – para lá das técnicas e dos instrumentos – “baseia-se na ação do Espírito Santo em nós e na autenticidade da nossa resposta”. Assim, “Tomás de Aquino referia-se à pregação como a transmissão aos outros do que nós contemplámos: contemplata aliis tradere.”

Ora, a contemplação não é “uma experiência exclusiva, reservada a alguns santos ou aos monges e eremitas”. Todos nós a faremos, “esforçando-nos por reservar, entre as ocupações do nosso dia a dia, momentos de quietude em que nos colocamos em silêncio ante Deus, para ouvir a sua voz, confiar-lhe as nossas alegrias e preocupações, e examinar com Ele a nossa vida”. Isso torna-nos pessoas de “fé sólida e consciente e, consequentemente, apóstolos credíveis e livres, homens e mulheres capazes de refletir a luz do Evangelho em todos os ambientes e em todas as situações da vida, e de dar testemunho d’Ele”, mesmo onde não é compreendido ou aceite.

Mateus, autor do trecho bíblico em apreço, escrevia para comunidades que não tinham vida fácil. Deviam enfrentar hostilidades e perseguições, tal como hoje acontece a tantos cristãos em vários lugares do Mundo. E a tentação era desanimarem e deixarem-se vencer pelo cansaço, pelo medo. Também hoje, o desafio é “permanecer fiéis aos ensinamentos de Jesus e anunciar a sua Palavra: responder ao ódio, com amor, à arrogância, com mansidão, ao desânimo, com perseverança”. Para isso, “é necessário que enraizemos a nossa fé e a nossa missão numa relação intensa com Ele”, a qual nos dá “a força para não desistirmos e para continuarmos a transmitir a todos, em todas as circunstâncias, a sua mensagem de esperança, amor e paz”. É disto que O Mundo precisa!

E o Santo Padre formula o seguinte voto: “Que a Virgem Maria nos ajude a ser discípulos missionários do Senhor Jesus, cada um segundo a sua vocação.”

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Na segunda leitura (Rm 5,12-15), Paulo mostra como a fidelidade ao desígnio de Deus gera vida e como a vida pautada pelo egoísmo e pela autossuficiência gera morte.

No final da década de 50, acentua-se a crise entre os cristãos oriundos do judaísmo e os oriundos do paganismo. Os primeiros sustentam que, além da fé em Cristo, era preciso cumprir as obras da Lei de Moisés, para se ter acesso à salvação, enquanto os segundos rejeitam a obrigatoriedade das práticas judaicas. Isto ameaçava a unidade da Igreja. Neste cenário, o apóstolo mostra aos crentes a unidade da Revelação e da História da Salvação: judeus e não judeus são, de igual modo, chamados por Deus à salvação; o essencial não é cumprir a Lei de Moisés, que não assegurou a ninguém a salvação, mas acolher a oferta de salvação que Deus faz a todos, por Jesus.

O trecho em causa faz parte da primeira parte da Carta aos Romanos (Rm 1,18-11,36). Depois de mostrar que todos (judeus e não judeus) vivem mergulhados no pecado e que é a justiça de Deus que salva a todos, sem distinção, Paulo ensina que é por Jesus Cristo que a vida de Deus chega aos homens e que se faz oferta de salvação para todos.

Para deixar claro que a salvação foi oferecida por Deus aos homens, através de Jesus Cristo, Paulo recorre à antítese. Em concreto, Paulo expõe o seu raciocínio, através de um jogo de oposições entre duas figuras: Adão e Jesus.

Adão é a figura da Humanidade que prescinde de Deus e escolhe trilhos de egoísmo, de orgulho e de autossuficiência. Ora, tal escolha produz injustiça, alienação, desarmonia, pecado. Porque a Humanidade preferiu, tantas vezes, esse caminho, o Mundo entrou na economia de pecado; e o pecado gera morte. A morte deve ser entendida, neste contexto, em sentido global, ou seja, não tanto como morte físico-biológica, mas, sobretudo, como morte espiritual e escatológica que é afastamento temporário ou definitivo de Deus, a fonte da vida autêntica.

Cristo propôs outra viva: viver na permanente escuta de Deus e do seu desígnio, na obediência total ao desígnio do Pai. Esta via leva à superação do egoísmo, do orgulho, da autossuficiência e faz nascer um Homem Novo, plenamente livre, que vive em comunhão com o Deus que é fonte de vida autêntica. A vitória de Cristo sobre a morte é a prova inequívoca de que a comunhão com Deus produz vida definitiva. Foi essa a proposta que Jesus fez à Humanidade. E foi assim que libertou os homens da economia de pecado e introduziu no Mundo a dinâmica nova, a economia de graça que gera vida plena (salvação).

Não é claro que Paulo se esteja a referir ao que a teologia posterior designou como “pecado original”, ou seja, um pecado histórico cometido pelo primeiro homem, que atinge e marca todos os homens que nascerem em qualquer tempo e lugar. O que é claro é que, para o apóstolo, a intervenção de Cristo na História humana se traduziu num dinamismo de esperança, de vida nova, de vida autêntica. Cristo veio propor à Humanidade o trilho de comunhão com Deus e de obediência ao seu desígnio, que põe o homem na senda da vida plena e definitiva, a salvação.

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Por tudo, é salutar rezar como o salmista e cantar com o Evangelho:

“Pela vossa grande misericórdia, atendei-me, Senhor.”

“Por Vós tenho suportado afrontas, / cobrindo-se o meu rosto de confusão. / Tornei-me um estranho para os meus irmãos, / um desconhecido para a minha família. / Devorou-me o zelo pela vossa casa / e recaíram sobre mim os insultos contra Vós.

“A Vós, Senhor, elevo a minha súplica, / no momento propício, meu Deus. / Pela vossa grande bondade, respondei-me, / em prova da vossa salvação. / Tirai-me do lamaçal, para que não me afunde, / livrai-me dos que me odeiam e do abismo das águas.

“Vós, humildes, olhai e alegrai-vos, / buscai o Senhor e o vosso coração se reanimará. / O Senhor ouve os pobres / e não despreza os cativos. / Louvem-No o Céu e a Terra, / os mares e quanto neles se move.”

“Aleluia. Aleluia.”

“O Espírito da verdade dará testemunho de Mim, diz o Senhor, / e vós também dareis testemunho de Mim.”

2026.06.21 – Louro de Carvalho

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