O
presidente norte-americano, Donald Trump, no dia 14 de junho, à noite, disse
que o acordo-quadro, ou seja, o “texto do memorando de entendimento”, entre os
Estados Unidos da América (EUA) e o Irão está “concluído”, será assinado na
Suíça, no dia 19, e abre caminho a um período de 60 dias de negociações.
“O
acordo com a República Islâmica do Irão está, agora, concluído. Parabéns a
todos. […] Este grande acordo trará paz e segurança a toda a região”, afirmou o
inquilino da Casa Branca, no Truth Social, acrescentando: “Por este
meio, autorizo, plenamente, a abertura, sem restrições, do Estreito de Ormuz e,
simultaneamente, autorizo a retirada imediata do bloqueio naval dos EUA. Navios
do Mundo, ligai os vossos motores. Deixai o petróleo fluir.”
Porém,
recuou um pouco, numa publicação posterior, dizendo que a crucial via navegável
reabriria após a assinatura do acordo prevista para o dia 19.
Por
sua vez, Teerão referiu que “o fim imediato e permanente da guerra e das
operações militares em várias frentes, incluindo o Líbano, será anunciado a
partir desta noite”. “O texto do memorando de entendimento foi finalizado, e a
cerimónia oficial de assinatura do Memorando de Entendimento de Islamabad terá
lugar na Suíça, na sexta-feira”, afirmou o vice-ministro dos Negócios
Estrangeiros, Kazem Gharibabadi, frisando: “O texto será divulgado, em breve, e
o público poderá ver tanto as conquistas do Irão como os seus compromissos. Os
nossos compromissos não são comparáveis aos ganhos e conquistas que garantimos.”
Segundo
Teerão, isto abre caminho para negociações de 60 dias, “após a verificação dos
compromissos dos EUA”, incluindo o levantamento do bloqueio norte-americano.
Embora
não tenha mencionado o Estreito de Ormuz, a agência noticiosa estatal Fars afirmou,
em reportagem publicada poucos minutos após o anúncio de Trump, que seria
estabelecido um quadro jurídico para regular a navegação nas águas do Golfo
Pérsico, em cooperação entre o Irão e Omã. E a televisão estatal iraniana
exibiu uma faixa onde se lia: “Os EUA foram forçados a assinar um acordo para
pôr fim à guerra.”
Minutos
antes de Trump, o primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, anunciou que
o acordo estava concluído, apesar das dúvidas anteriores sobre novos ataques
israelitas, no Líbano.
“Após
intensas negociações, temos o prazer de anunciar que foi alcançado o acordo de
paz entre os Estados Unidos da América e a República Islâmica do Irão, escreveu
Sharif, no X, frisando que “ambas as partes declararam o fim imediato e
permanente das operações militares em todas as frentes, incluindo no Líbano”, que
os mediadores facilitarão, nesta semana, reuniões para “lançar as bases para as
negociações técnicas” e que a cerimónia oficial de assinatura terá lugar, a 19
de junho, na Suíça.
Depois,
agradeceu aos EUA e à República Islâmica do Irão, “pelo seu empenho em
encontrar uma solução diplomática para o conflito”, aos “nossos irmãos”, neste
esforço de mediação, à grande liderança do Estado do Catar, pelo seu apoio na
concretização deste acordo, e à “liderança visionária do Reino da Arábia
Saudita e da República da Turquia, pelas suas imensas contribuições neste
sentido”.
Também
o vice-presidente dos EUA, James David Vance, afirmou que o acordo representa um
grande momento, para os EUA, e um “passo muito, muito importante”, mas alertou que
há passos a dar por ambas as partes. “Não vou dizer que, amanhã, todos vão
cantar ‘Kumbaya’. Vai demorar algum tempo a aprender os caminhos da paz”,
afirmou na Fox News.
A
declaração de Teerão, divulgada na noite do dia 14, representa o mais próximo
que o Irão estará de anunciar um acordo de paz com os EUA, mas mantendo a
posição de força e projetando a imagem de que define os termos do acordo e conduz
o processo diplomático.
O
quartel-general operacional militar da República Islâmica, Khatam al-Anbiya,
emitiu um comunicado separado, a afirmar que “o povo resiliente e orgulhoso do
Irão demonstrou, com força, que os inimigos humilhados não têm outra opção
senão aceitar a derrota e render-se perante um povo inspirado por Deus e pelos
soldados do Todo-Poderoso. “Ao impor a sua vontade divina e de ferro aos seus
adversários, provaram que não há alternativa para o inimigo senão reconhecer a
derrota”, disse Khatam al-Anbiya.
No
início do dia 14, o principal negociador do Irão, Mohammad Bagher Ghalibaf,
afirmou que os novos ataques israelitas contra o Hezbollah, grupo próximo de
Teerão, no Líbano, mostravam que os EUA “ou carecem da vontade de cumprir os
seus compromissos ou carecem da capacidade para o fazer”. “Se lhes falta a
vontade e a capacidade para cumprir os seus compromissos, é impossível falar em
continuar por este caminho”, observou.
Os
meios de comunicação estatais iranianos informaram que Teerão não tinha tomado
uma decisão final sobre o acordo de paz destinado a pôr fim à guerra entre os EUA
e o Irão. Porém, Trump e o Paquistão, que tem desempenhado papel fundamental
como mediador nas negociações, deram a entender, no dia 13 que o acordo poderia
ser obtido em 24 horas. “A assinatura do acordo está prevista para amanhã e,
imediatamente após a assinatura, o Estreito de Ormuz ficará aberto a todos”,
escreveu Trump, no Truth Social.
Sharif
tinha afirmado, no início do dia, que um acordo estava mais próximo “do que
nunca”. “Com a conclusão prevista para as próximas 24 horas, o Paquistão está a
preparar-se para a assinatura eletrónica do acordo de paz, imediatamente a
seguir, seguida de conversações a nível técnico, na próxima semana”, escreveu
Sharif, no X.
O
Catar, em destaque, nos últimos dias, como outro negociador-chave nas
conversações entre o Irão e os EUA, saudou, no dia 14, o acordo, que inclui “a
garantia da liberdade de navegação no Estreito de Ormuz”, e considera-o “um
passo importante para a consolidação de uma paz sustentável e a promoção do
crescimento económico a nível regional e internacional”.
“O
Ministério dos Negócios Estrangeiros expressa o apreço do Estado do Catar pela
determinação tanto da parte americana como da iraniana e pelo seu empenho em
avançar na resolução de divergências através de negociações e meios pacíficos”,
escreveu o ministério, no X.
Uma
delegação do Catar esteve na capital iraniana, no início do dia 14, enquanto as
negociações prosseguiam. A agência noticiosa Tasnim afirmou que a
delegação tinha como objetivo “analisar os últimos desenvolvimentos
relacionados com o processo diplomático”.
O
acordo continua a depender da aceitação, por parte de Teerão, de reabrir,
totalmente, o Estreito de Ormuz, uma das principais rotas mundiais para o
transporte de petróleo e gás natural, e de pôr fim ao seu programa de armas
nucleares. E Trump afirmou que o acordo serviria como “garantia contra o
desenvolvimento de armas nucleares”. “Esperemos que todo este processo se
resolva de forma rápida, fácil e sem complicações. Se assim não for, temos a
alternativa de último recurso, a que esperamos nunca mais ter de recorrer”,
advertiu.
***
Enquanto
o Irão reivindica vitória, Israel mantém posição irredutível, no primeiro teste
ao acordo. Na verdade, Teerão afirmou que os EUA “foram forçados a assinar” uma
rendição e os militares iranianos disseram que os inimigos “não tiveram
alternativa senão aceitar a derrota”, mas Israel avisou que as forças de defesa
de Israel (FDI) ficarão no Líbano, na Síria e em Gaza, “por tempo indeterminado”.
Como
é evidente, o acordo enfrenta obstáculos, com Teerão a afirmar que pretende, como
vencedor da guerra, controlar o tráfego marítimo, no Estreito de Ormuz, e com Israel
a insistir em manter o território conquistado no Líbano, na batalha contra o
Hezbollah.
Por
outro lado, o acordo de princípio que pôs fim imediato à guerra fica pendente de
conversações que desemboquem num “acordo final”, e a agência noticiosa Fars
adiantou que será estabelecido, através da cooperação entre o Irão e Omã, um
enquadramento jurídico para a navegação nas águas do golfo Pérsico.
Por
sua vez, Donald Trump, que anunciou, inicialmente, que a via marítima crucial
tinha sido reaberta, com o levantamento do bloqueio naval dos EUA, recuou,
afirmando que isso ficava dependente da assinatura do acordo na Suíça, a 19 de
junho.
Tanto
o Irão como Omã controlam a passagem pelo Estreito de Ormuz, que tem cerca de
38 quilómetros de largura, no ponto mais estreito, por onde circula,
habitualmente, um quinto do petróleo e dos carregamentos de gás natural
liquefeito (GNL) mundiais, bem como outras mercadorias. Porém, Teerão tinha
afirmado que iria introduzir portagens para os navios em trânsito, cobrando
taxas de passagem em conjunto com Omã, uma asserção que Mascate rejeitou, com o
argumento de que não é legal cobrar quaisquer taxas, porque o Estreito de Ormuz
é uma passagem natural e não artificial.
O
Irão publicou, no final de maio, um mapa em que reclama o controlo regulamentar
de uma faixa do Estreito de Ormuz que se estende, profundamente, pelas águas
territoriais dos Emirados Árabes Unidos (EUA) e de Omã, o que levou cinco
Estados do Golfo a advertirem as companhias de navegação, através da
Organização Marítima Internacional (IMO), a não cumprirem essas instruções.
Teerão
tem apresentado o acordo como vitória da República Islâmica e o comando
operacional Khatam al-Anbiya fala dos EUA como “inimigos humilhados”, sem alternativa
à aceitação da derrota infligida por um povo inspirado por Deus.
Kazem
Gharibabadi afirmou que o Irão “derrotou os EUA, no campo de batalha militar”, e
que “as forças armadas iranianas terão sempre o dedo no gatilho para enfrentar
as conspirações dos inimigos”.
Israel,
que participou no primeiro ataque da guerra, a 28 de fevereiro, afirmou que as
suas operações continuarão, apesar do anúncio de que o acordo se aplica a todas
as frentes, incluindo o Líbano. Com efeito, o ministro israelita da Defesa,
Israel Katz, diz que o primeiro-ministro e ele seguem uma política clara
segundo a qual as FDI permanecerão nas zonas de segurança do Líbano, da Síria e
de Gaza, por um período ilimitado, “para proteger a fronteira e as comunidades
israelitas desses locais contra elementos jihadistas”.
Já
o ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, considera o acordo “mau, para Israel
e para todo o Mundo livre”. “Teremos de continuar, por nossa conta e de forma
criativa, a campanha para derrubar o regime e [para] garantir que o Irão nunca
terá armas nucleares”, vincou.
O
Irão criticou, anteriormente, os EUA por não travarem Israel e a sua
intervenção contra o Hezbollah, aliado de Teerão no Líbano, e tem afirmado, repetidamente,
que o fim das hostilidades no Líbano é condição prévia para um acordo de paz
com os EUA. Tanto assim é que o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano,
Abbas Araghchi, afirmou, em comunicado, que falou, separadamente, no dia 15,
com os homólogos turco, iraquiano e egípcio, para exigir que Israel cesse todas
as hostilidades contra o Líbano, e atribuiu aos EUA a responsabilidade pela
implementação do acordo e agradeceu aos três países o apoio ao cessar-fogo e
aos esforços diplomáticos.
O
grupo xiita libanês Hezbollah é o componente mais poderoso do Eixo da
Resistência (como lhe chama o Irão), uma rede de grupos armados em todo o Médio
Oriente, que inclui o Hamas, em Gaza, os Houthis, no Iémen, e milícias xiitas,
no Iraque, que Teerão financia, arma e dirige. A rede foi construída, ao longo
de décadas, pela Força Quds do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica e é o principal
instrumento de influência regional do Irão.
Israel
está envolvido numa intervenção militar contra o Hezbollah, desde os primeiros
dias da guerra com o Irão, que se iniciou com ataques conjuntos dos EUA e de
Israel contra o Irão, no final de fevereiro, e que resultaram na morte do
aiatolá Ali Khamenei. O Hezbollah, em resposta, lançou ataques com mísseis
contra Israel, desencadeando o conflito em curso.
A
campanha israelita provocou a morte a 3700 pessoas, feriu quase 11500 e
deslocou mais de 1,5 milhões, desde março, segundo responsáveis estatais
libaneses.
O
acordo surge após semanas de negociações tensas e de ameaças periódicas de
novos confrontos, mas os detalhes continuam pouco claros. A agência noticiosa
iraniana Mehr noticiou que os EUA desbloquearão 12 mil milhões de
dólares, em ativos iranianos congelados antes do início das negociações, e citou
um memorando de entendimento de 14 pontos, segundo o qual serão libertados 24
mil milhões de dólares, em ativos iranianos congelados no período de
negociações de 60 dias, que se iniciará após a assinatura do acordo de
princípio.
A
administração norte-americana não comentou estes pormenores, que podem vir a
ser polémicos numa altura em que os EUA intensificam os esforços para porem
termo às ambições nucleares de Teerão e para lidarem com o seu stock de
urânio altamente enriquecido, que se diz ter sido enterrado por ataques
norte-americanos, em junho de 2025.
Numa
entrevista ao New York Times, no dia 14, Trump afirmou que os EUA ainda
negoceiam se Teerão suspenderá o enriquecimento, durante 20 anos. E deixou a
entender que poderia aceitar uma suspensão de 15 anos, mas salientou que não
queria negociar através da comunicação social.
A
Casa Branca já tinha rejeitado, anteriormente, como falsas as alegadas versões
preliminares do acordo divulgadas na imprensa.
***
Num
tão grande mar de incerteza, com tantas dúvidas, que bem podem transformar-se em
escolhos que podem deitar tudo a perder – a não ser que os EUA estejam dispostos
a engolir sapos vivos, é de que questionar o avanço de tantos hossanas ao
acordo de princípio, da parte de tantos países e da UE.
Altos
responsáveis da UE saudaram o acordo, afirmando que a Europa está pronta para
contribuir para uma paz duradoura. O presidente do Conselho Europeu, António
Costa, diz que “as armas têm, agora, de se calar”. A presidente da Comissão
Europeia, Ursula von der Leyen, vincando que a prioridade é a rápida e plena
aplicação do acordo, apela a “todas as partes para que respeitem a soberania e
a integridade territorial do Líbano e cumpram um cessar-fogo genuíno”. E Emmanuel
Macron, presidente francês, afirmou que uma missão militar criada por
Paris e Londres, para apoiar o tráfego no Estreito de Ormuz, está pronta a ser
destacada.
Concordo
com o historiador israelo-americano Omer Bartov, segundo o qual, Israel esgotou o crédito para “voltar a
invocar o Holocausto”, como disse, em entrevista a Hélder Gomes, jornalista do Expresso;
e com João
Pedro Barros, editor online do Expresso, para quem, “talvez seja
prudente manter o ponto de interrogação no título “O fim da guerra do Irão?”, face
ao historial
errático de Trump e à natureza do regime teocrático iraniano.
2026.06.15
– Louro de Carvalho
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