segunda-feira, 15 de junho de 2026

Jesus viu, compadeceu-se e chamou: a messe é grande

 

No 11.º domingo do Tempo Comum no Ano A, a Palavra de Deus recorda a constante presença de Deus no Mundo e a vontade que Ele tem de oferecer aos homens, a cada passo, a vida e a salvação. Porém, concretiza a sua intervenção na História humana através daqueles que chama e envia, como sinais vivos do seu amor e como testemunhas da sua bondade.

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A primeira leitura (Ex 19,2-6a) apresenta-nos o Deus da aliança, que elege um povo para com ele estabelecer laços de comunhão e de familiaridade, confiando-lhe a missão sacerdotal, que torna Israel o povo reservado para o serviço de Javé, isto é, para ser sinal de Deus, ante as outras nações. O trecho em apreço, insere-se nas tradições da aliança do Sinai – tradições de origem diversa, cujo denominador comum é a reflexão sobre o compromisso (“berit” – “aliança”) que Israel assumiu com Javé.

Estamos no deserto do Sinai, “em frente do monte”. O texto bíblico não dá indicações geográficas suficientes de identificação do “monte da aliança”. “Sinai”, em si, não designa um monte, mas a enorme península triangular, com cerca de 420 quilómetros de extensão Norte/Sul, estendendo-se entre os mares Mediterrâneo e Vermelho (no sentido Norte/Sul) e os golfos do Suez e o da Áqaba (no sentido oeste/este). É um deserto árido, escassamente povoado, de terreno acidentado e com várias montanhas que chegam a atingir 2400 metros de altura. Uma tradição cristã do século IV d.C. identifica o monte da aliança com o “Gebel Musah” (monte de Moisés), de 2244 metros de altitude, situado a Sul da península sinaítica. Embora a identificação do monte da aliança com este lugar levante problemas, o “Gebel Musah” é lugar de peregrinação para judeus e cristãos.

Foi, pois, diante de um monte que Javé e Israel se comprometeram numa aliança. O termo hebraico “berit” define um pacto entre duas partes, que implica direitos e obrigações recíprocos. A “berit”, raramente escrita, tinha sempre valor jurídico. Habitualmente, era selada por um ritual, consagrado pelo uso, que incluía o juramento e a imolação de animais em sacrifício. Foi no quadro deste esquema jurídico que Israel representou o seu compromisso com Javé.

É de anotar que a iniciativa da aliança é de Deus: Ele convoca Moisés – o intermediário entre Deus e o Povo – para a montanha e propõe, através dele, uma aliança à casa de Jacob. A iniciativa de estabelecer laços de comunhão e de familiaridade com o povo é sempre de Deus. Depois, é de atentar em que a aliança que Deus propõe é realidade que envolve toda a História do povo. As palavras de proposição da aliança aparecem em segmentos textuais, abarcando, cada um, um tempo – passado, presente e futuro –, na relação que aponta à totalidade da caminhada do povo de Deus.

O primeiro (v. 4) refere-se ao passado, com referência à libertação da escravidão do Egito (“vistes o que Eu fiz no Egito”), à presença e assistência amorosa de Deus, ao longo do deserto (“como vos transportei sobre asas de águia”) e ao chamamento à comunhão com Deus (“e vos trouxe até Mim”). Tudo isso resulta do compromisso que Deus assumiu com Israel, ainda antes da aliança do Sinai.

O segundo (v. 5a) refere-se ao presente. Javé insta Israel a aceitar estabelecer com Ele laços privilegiados de comunhão e de familiaridade. Para tanto, Deus pede a Israel que escute a sua voz e guarde a aliança: os mandamentos são os quesitos de compromisso do povo.

O terceiro (vv. 5b-6) refere-se ao futuro. Se Israel se comprometer com Deus numa aliança, Ele oferecerá ao povo uma relação que o tornará o povo eleito de Deus, um reino de sacerdotes e uma nação santa. Entre todos os povos da Terra, Israel passará a ser o povo que Deus escolheu entre todos os povos da Terra para uma relação única. Será um reino de sacerdotes, ou seja, um povo cuja missão é testemunhar Deus e torná-Lo presente no Mundo. Será nação santa, isto é, povo à parte, separado do convívio dos outros, para se dedicar apenas ao serviço de Javé.

A aliança faz parte integrante do desígnio de salvação que Deus tem para os homens. Israel é convidado por Deus a desempenhar um papel primordial no processo: se aceitar fazer parte da comunidade de Deus e percorrer o caminho dos mandamentos), será o povo escolhido por Deus para o seu serviço e para ser sinal de Javé à vista de todos os outros povos. Esta eleição não é privilégio, mas serviço, que se concretiza na missão profética de ser sinal vivo de Deus. É este o sentido fundamental do Êxodo: a libertação do Egito não se reduz a fazer sair povo da escravidão para a liberdade: a caminhada que Javé começou com o povo, no Egito, aponta para o compromisso com Deus e com os homens e para a construção de um povo que ganha a liberdade e se torna testemunha, sinal e sacerdote de Deus no Mundo.

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O Evangelho (Mt 9,36-10,8) traz o discurso da missão, com Mateus a apresentar a catequese da escolha, do chamamento e do envio de doze discípulos (que representam a totalidade do Povo de Deus) a anunciar o Reino. Os Doze são os continuadores da missão de Jesus, que devem levar a toda a Terra a salvação e a libertação que Deus dá aos homens em Jesus.

Depois de ter apresentado Jesus e de O mostrado a anunciar o Reino, em palavras e em obras, o evangelista narra o envio dos discípulos em missão. Os discípulos são os que Jesus chamou, que responderam ao chamamento e seguiram Jesus. E, na caminhada com Jesus, escutaram os seus ensinamentos e testemunharam os seus sinais. Formados por Ele na escola do Reino, podem ser enviados ao Mundo, a anunciar a todos a chegada do Reino dos Céus.

Os estudiosos do Evangelho de Mateus chamam ao texto que vai de 9,36 a 11,1, o “discurso da missão”: Jesus envia os discípulos e define a missão deles – anunciar a vinda do Reino. Este discurso consta de várias partes: introdução (Mt 9,36-38); chamamento e envio dos discípulos (Mt 10,1-15); instrução sobre o caminho que os discípulos têm de percorrer (Mt 10,16-42); e conclusão (Mt 11,1). É um discurso composto pelo evangelista, a partir de diversos materiais, combinando relatos de envio, ditos de Jesus acerca dos Doze e várias sentenças de Jesus que, originalmente, não terão sido proferidas neste contexto.

Mateus escreve na década de 80. Dirige o Evangelho a uma comunidade viva e entusiasta, empenhada na atividade missionária (será a comunidade cristã de Antioquia da Síria). Porém, as dificuldades encontradas no anúncio do Evangelho e a perseguição traziam a comunidade perturbada. Por isso, Mateus compôs um manual do missionário, que enraíza a missão em Cristo, elenca os conteúdos do anúncio que os discípulos são chamados a proclamar e as atitudes fundamentais que os missionários devem assumir. O trecho em causa inclui a introdução e uma parte do relato do chamamento e do envio dos discípulos.

É de considerar, na introdução (Mt 9,36-38), a atitude de Jesus: olhou e viu a multidão, semelhante a ovelhas sem pastor, pelo que Se condoeu em compaixão. Assim, Mateus explica que essa missão a que Jesus chama os discípulos é expressão da solicitude de Deus, que oferece ao seu povo a salvação. Mateus – que escreve para uma comunidade onde havia significativo número de crentes de origem judaica – usa, para transmitir esta mensagem, imagens retiradas do Antigo Testamento e muito familiares para os judeus.

Nas palavras de Jesus, Israel é comunidade abatida e desnorteada, cujos pastores (os líderes religiosos) se demitiram das suas responsabilidades. São os maus pastores de que falam os profetas. Ao invés, o coração de Deus está cheio de compaixão pelo rebanho abatido e desanimado. Por isso, Deus assume as suas responsabilidades e conduz o seu povo às pastagens onde há vida. E, como Jesus, os discípulos devem olhar, condoer-se e agir.

A referência à “messe” indica que a missão é urgente, não havendo muito tempo para a levar a cabo. Nos profetas, a messe vem ligada à imagem do juízo iminente de Deus; a referência ao “pedido” que deve ser feito ao Senhor da messe é o apelo a que a comunidade contemple a missão como obra de Deus a levar a cabo com os critérios de Deus. Por isso, a comunidade deve rezar, para se aperceber do desígnio, da perspetiva e dos critérios de Deus, antes de empreender a tarefa de anunciar o Evangelho.

Vem, depois, o chamamento dos discípulos (Mt 10,1-4). Mateus deixa claro que a iniciativa é de Jesus: “chamou-os”. Não há explicação dos critérios que levaram à escolha: falar de vocação e de eleição é falar de mistério insondável, que depende de Deus e que o homem nem sempre consegue compreender e explicar.

A seguir, o evangelista aponta o número dos discípulos: “doze”. Doze é número simbólico que lembra as doze tribos que formavam o antigo povo de Deus. Assim, estes doze, cujos nomes são referidos, representam a totalidade do povo de Deus, do novo povo de Deus.

Depois, Mateus define a missão que Jesus lhes confiou (“deu-lhes poder de expulsar os espíritos impuros e de curar todas as doenças e enfermidades”). Os espíritos impuros, as doenças e as enfermidades representam tudo o que escraviza o homem e o impede de chegar à vida em plenitude. A missão dos discípulos é, pois, lutar contra tudo aquilo – de caráter físico ou de caráter espiritual – que destrói a vida e a felicidade do homem. Ou seja, a missão dos discípulos é lutar contra o pecado.

E Mateus aponta os nomes dos Doze: Simão Pedro; André; Tiago, filho de Zebedeu; João; Filipe; Bartolomeu; Tomé; Mateus; Tiago, filho de Alfeu; Tadeu; Simão, o cananeu; e Judas Iscariotes). As listas apresentadas pelos evangelistas apresentam diferenças, seja na ordem dos nomes, seja nos próprios nomes (por exemplo, Tadeu é, em Lucas, Judas). Seja como for, Pedro encabeça a lista e Judas Iscariotes fecha-a. Estes dois são as duas personagens mais fortes e que, ao longo da caminhada com Jesus, terão assumido algum protagonismo no grupo.

O último passo é o envio dos discípulos, antecedido das instruções para a missão (Mt 10,5-8). Primeiro, Jesus define os destinatários da missão: numa primeira fase, são “as ovelhas perdidas da casa de Israel”. Esta interpretação restritiva da missão explica-se pelo modo da expansão do cristianismo, em termos geográficos: começou na Palestina e, só depois, ultrapassou as fronteiras da Palestina. Também terá a ver com as tensões na comunidade mateana, onde alguns judeo-cristãos tinham dificuldade em aceitar que o Evangelho fosse anunciado aos pagãos. Mais tarde, Mateus deixará claro que o anúncio se destina também aos pagãos e que a “casa de Israel” rejeitou Jesus e a sua proposta do Reino.

A seguir, o evangelista aponta os sinais que devem acompanhar o anúncio da chegada do Reino: cura dos doentes, ressurreição dos mortos, expulsão dos demónios. Não deve constar só de palavras, mas também de gestos que sejam sinal vivo da libertação que o Reino traz.

Por fim, aparece o apelo à gratuitidade: os discípulos não podem partir em missão a pensar em dividendos pessoais ou na satisfação de interesses egoístas. O mandato “recebestes de graça, dai de graça” insta a fazer da vida dom gratuito ao Reino, sem esperar recompensa.

A missão dos discípulos surge como prolongamento da missão de Jesus. O anúncio confiado aos discípulos é o que Jesus fazia: o Reino; os gestos que os discípulos são convidados a fazer para anunciar o Reino são os de Jesus; os destinatários da mensagem que Jesus apresentou são os da mensagem a que os discípulos se dirigem. Ao apresentar a missão dos discípulos em paralelo e em continuidade com a missão de Jesus, Jesus convida a Igreja (os discípulos) a continuar, na História, a obra libertadora que Ele iniciou em prol do homem.

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A segunda leitura (Rm 5,6-11) sugere que a comunidade dos discípulos é comunidade de pessoas a quem Deus ama. A sua missão no Mundo é testemunhar o amor de Deus pelos homens – amor eterno, inquebrável, gratuito e único.

A Carta aos Romanos, texto sereno e amadurecido, escrito por Paulo, por volta do ano 57/58, apresenta uma síntese da sua mensagem e da sua pregação. O pretexto é o projeto de passagem por Roma, a caminho de Espanha. Paulo, sentindo terminada a sua missão no Oriente, quer anunciar o Evangelho no Ocidente. Contudo, os estudiosos sustentam que o apóstolo se serve do pretexto para lembrar aos cristãos vindos do judaísmo (para quem a salvação dependia da prática da Lei de Moisés) e aos cristãos vindos do paganismo (para quem a Lei de Moisés era empecilho) o essencial da mensagem cristã. E Paulo insiste no facto de a salvação não ser conquista do homem, mas dom do amor de Deus. De facto, todos vivemos mergulhados no pecado, pois o pecado é realidade universal, mas Deus, na sua bondade, a todos justifica e salva; e a salvação é oferecida por Deus ao homem, por Jesus Cristo, cabendo ao homem aderir à salvação, na fé.

O trecho em referência é a parte final da perícopa que começa em Rm 5,1, com Paulo a explicar o que brota da justificação que Deus nos ofereceu: a paz, que é a plenitude dos bens; e a esperança, que nos permite caminhar por este Mundo de cabeça levantada, de olhos postos no futuro glorioso da vida em plenitude.

Sermos justificados, isto é, recebermos, de forma totalmente gratuita, uma salvação não merecida, postula descobrir quanto Deus nos ama. O amor de Deus pelos homens é algo que nunca deixará de espantar; e é esse espanto que Paulo quer transmitir aos cristãos. Com efeito, a História da Salvação é uma indizível história de amor.

Como o homem, se contar só com as suas forças, não supera a situação de escravidão, de egoísmo e de pecado para que descambou, Deus enviou o seu Filho ao Mundo. Ele ofereceu toda a sua vida – até à cruz – para que os homens percebam que o egoísmo gera morte e sofrimento e que só o amor gera felicidade e vida sem fim. Desse modo, salvou os homens da escravidão do egoísmo e do pecado e ofereceu-lhes, de forma totalmente gratuita, a salvação. Porém, o mais indizível é que tudo aconteceu “quando éramos, ainda, pecadores”. É algo incompreensível, humanamente, que subverte a lógica dos homens. Talvez aceitássemos morrer por alguém a quem amamos muito, mas não estaríamos dispostos a dar a vida por alguém egoísta, orgulhoso e autossuficiente. Porém, Deus ama de tal modo os homens todos que aceitou que o próprio Filho morresse pelos ímpios.

O amor de Deus é indizível, ilógico, inexplicável. Soa a absoluto, a eternidade. Nada nem ninguém o consegue vencer, derrotar, eliminar. Mais: se Deus nos amou desta forma, quando éramos pecadores, com muito mais razão nos amará, agora, que nos reconciliámos com Ele. Este amor inapagável e impagável é penhor de vida em plenitude.

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Por tudo isto, no dizer de Santo Atanásio, “o Senhor faz cantar aos redimidos um hino de vitória”, e o salmista canta a alegria de quem entra no templo:

“Nós somos o povo de Deus, as ovelhas do seu rebanho.”

“Aclamai o Senhor, Terra inteira, /servi o Senhor com alegria, /vinde a Ele com cânticos de júbilo.

“Sabei que o Senhor é Deus, / Ele nos fez, a Ele pertencemos, / somos o seu povo, as ovelhas do seu rebanho.

“Porque o Senhor é bom, / eterna é a sua misericórdia, / a sua fidelidade estende-se de geração em geração.”

“Aleluia, aleluia!”

“Está próximo o Reino de Deus. / Arrependei-vos e acreditai no Evangelho.”

2026.06.15 – Louro de Carvalho

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