quarta-feira, 10 de junho de 2026

Leão XIV em visita à Espanha entre Política, História e Religião

 

O Papa Leão XIV chegou a Madrid, na Espanha, a 6 de junho, às 10h12, para a visita apostólica de sete dias, que inclui Barcelona e as Canárias. A última vez que o país recebeu um papa foi em 2011, quando Bento XVI participou, em Madrid, na Jornada Mundial da Juventude.

Leão XIV foi recebido pelo rei Felipe VI e pela rainha Letizia, pelo primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, e vários membros do governo. Também participaram na receção o arcebispo Piero Pioppo, núncio apostólico na Espanha e no Principado de Andorra, e o arcebispo de Valladolid, Luis Javier Argüello García, presidente da Conferência Episcopal Espanhola (CEE). O Pontífice cumprimentou as delegações ao longo do tapete vermelho, no Aeroporto de Madrid Adolfo Suarez-Barajas. Depois, dirigiu-se para o Palácio Real de Madrid, onde lhe foram prestadas honras militares (hinos do Vaticano e da Espanha, com salva de 21 tiros de morteiro, e revista às tropas em parada), após o que se dirigiu ao Salão de Honra, para breve encontro privado com a família real.

***

No encontro com as autoridades, a sociedade civil e o corpo diplomático, às 12h30, no Palácio Real de Madrid, o Santo Padre disse ao que vinha.

Vincando a multifacetada riqueza do país que acolheu a Palavra do Evangelho, há quase dois milénios, interpretou o facto de a tradição associar a evangelização da Península Ibérica à pregação de Tiago, o Maior, como expressão da consciência da Igreja local de estar em continuidade com a missão apostólica. E lembrou que a ligação entre a fé cristã e estas terras lhes “moldou, profundamente”, a cultura e constitui “uma fonte de esperança e de orientação entre os desafios que devemos enfrentar juntos, como família humana”. Na verdade, diz o Pontífice, “as expressões da fé popular”, que são “dramaturgia da salvação, ao ritmo do ano e nos diversos contextos da vida”, a par do património artístico-musical e das múltiplas irmandades e associações de caráter caritativo, “dão testemunho do fecundo encontro” entre Jesus Cristo e este povo “cheio de paixão, que ama a vida e o manifesta”.

Propõe-se “confirmar, encorajar e inspirar uma renovada fidelidade ao Evangelho, da parte dos fiéis, bem como a reconciliação e a cooperação mais profundas “entre as diferentes forças desta nação”. Com efeito, a História da Espanha sugere que é a cultura do encontro “que gera estabilidade e prosperidade”. Por conseguinte, a mensagem de paz, que ressoa, para alguns, como ingénua e, para outros, como provocadora, “encontra acolhimento em quem não se fecha em ideologias pré-fabricadas, mas se abre à verdade”. E, citando o seu predecessor Francisco diz que há “tensão bipolar entre a ideia e a realidade: a realidade simplesmente é, a ideia elabora-se”, devendo estabelecer-se o diálogo constante entre as duas, pois “é perigoso viver no reino só da palavra, da imagem, do sofisma”. De facto, como dizia Francisco, a verdade é maior do que nós e, por isso, surpreende-nos e atrai-nos para caminhos de purificação e de reconciliação, nos quais é fundamental o diálogo com os outros – e com “o Outro”.

Depois, evocou duas figuras do país que alimentam, há cinco séculos, a vida da Igreja e a busca espiritual de muitos: João da Cruz e Teresa de Ávila, que se tornaram amigos na paixão pelo Mistério divino e cuja “mística é de olhos abertos”, levando “à raiz das questões, ao coração da realidade”. Em particular, o tema da noite, caro a João da Cruz – cujo Ano Jubilar estamos a celebrar –, ajuda a “interpretar as transformações e a suportar as tensões que tornam a nossa época tão sombria”. Na sede de luz, ele aprendeu a apreciar a escuridão, “como o tempo em que a alma se liberta do que presumia conhecer e possuir”. Também hoje, no dizer do Papa, o que mais assusta, provocando, em muitos, a escuridão da razão e a violência das emoções, é “o desconhecido, face ao qual pode prevalecer a desorientação, a sensação de já não termos mapas”. Por isso são necessários, na vida pública, homens e mulheres que intuam, na escuridão, a luz como “o irromper de uma verdade tal qual luz que ainda cega, mas que, se confiarmos e encontrarmos paz, nos trará delicadamente em direção a si mesma”.

Efetivamente, assinala Leão XIV que esta época, “abalada por terríveis desequilíbrios e conflitos, no seu íntimo, clama por paz, por um novo conhecimento da pessoa humana e da sua dignidade inviolável, pela civilização do amor”.

Santa Teresa, segundo o Pontífice, percorre o mesmo itinerário com a imagem do castelo interior. Avançando em direção ao lugar mais íntimo – isto é, cada um em direção ao seu coração, santuário da verdade –, “o espaço alarga-se, a mente abre-se, as contradições resolvem-se, as tensões dissolvem-se, os outros encontram o seu lugar, o universo torna-se lar”. Não é fuga intimista, mas “a radical abertura ao totus Alius et semper Novus, que se realiza quando voltamos a nós mesmos” – dimensão do ser humano que “é o motivo pelo qual é preciso proteger a liberdade religiosa e de consciência”. Ora, porque a tentação de ganhar popularidade, atiçando o fogo das polarizações parece crescer, “a dignidade humana continua a ser violada”, o que mostra a necessidade de cultura, de interioridade, de educação livre e de qualidade, de transcendência.  E a Igreja está ao serviço desta sede do coração humano, não de modo impositivo, mas com o testemunho evangélico apoiado na multidão de mártires e de santos, disposta a colocar-se “ao serviço do futuro de um povo que busca a reconciliação e a paz”.

Assim, o Papa a todos convida, “por amor à verdade, a abandonarem as narrativas divisórias e polarizadoras” da realidade social e da História, para que se passe das simplificações estéreis à fecunda apreciação da complexidade. Vê uma vocação específica da Europa, da qual a Espanha é protagonista original e fundamental. É o presente que o Velho Continente pode dar ao Mundo, se quiser permanecer jovem, pois “jovem é quem sente que tem um futuro e uma missão que ainda o interpelam”. É preciso “apreciar a complexidade e estudá-la, aprendendo a vivê-la como bênção […] e fugindo das abordagens identitárias que parecem esclarecer tudo, mas que povoam o Mundo de fantasmas e inimigos”. E diz Leão XIV que as tecnologias se tornaram num ambiente artificial que põe à prova opções fundamentais, exacerba preconceitos, enfraquece o pensamento crítico e leva os interesses prepotentes a semear impulsos de morte.

Frisando que “o bem pode resistir e ser comunicado”, o Pontífice sustenta que, sobretudo, por parte de quem tem responsabilidades económicas, políticas e institucionais, é preciso “um salto qualitativo, uma mudança de rumo nos investimentos destinados à escola, à universidade e à investigação, às comunidades locais e à sociedade civil, como sementeira de participação e mediação cultural”, pois a segurança, que se pensa provir das armas e dos muros, amadurece, quando se aprende a avançar com o outro, crescendo juntos. A História da Espanha o atesta. Por exemplo, a presença do Islão na Península constituiu duradoura realidade política, cultural e religiosa. Nesse período, a par do confronto, tentou-se criar espaço de relação, de conversa e de diálogo sobre o sentido da verdade entre cristãos, muçulmanos e judeus. Na escola de tradutores de Afonso X, o Sábio, especialistas oriundos das três religiões colaboraram na tradução do património árabe, grego e hebraico, contribuindo para a difusão de textos como os dos filósofos Averróis (1126-1198) e Maimónides (1138-1204). Cidades, como Córdova e Toledo tornaram-se lugares de mediação entre línguas, religiões e saberes. Esta é a verdade que contam as cidades europeias, a sua estratificação histórica, o tecido de solidariedade que, em séculos, moldou as suas diferenças, transformando inevitáveis conflitos em pontos de partida.

Em provações e fracassos é possível repensar tudo, como fez Inácio de Loyola, que ousou dar crédito às desolações e consolações do coração, num exercício de discernimento e imaginação pelo qual preferiu a paz às armas e os santos aos poderosos. Compreendeu que o bem que o atraía não era utópico, e a sua crise transformou-se em graça. Isto pode acontecer com as novidades que nos inquietam e sobre as quais estão divididas as nossas sensibilidades. Há que evitar palavras que humilhem ou criem oposições, escolher a clareza que ilumina e a franqueza que abre caminhos, não abençoar entusiasmos ingénuos, não alimentar medos estéreis. É preciso gizar critérios de discernimento – dignidade da pessoa, destinação universal dos bens, opção pelos pobres, cuidado da Casa comum, paz – e transformá-los em ações: com projetos responsáveis, com avaliações de impacto humano e social, com inclusão dos mais frágeis, com alfabetização digital, com pesquisa e com indústria, rumo à justiça e à paz.

Leão XIV agradeceu à Espanha a fidelidade ao direito internacional e ao multilateralismo, que se traduz no compromisso com a paz e com a solidariedade entre os povos. E encorajou-a a cultivar o diálogo e a amizade social internamente, a ter em conta as perspetivas dos pobres e dos jovens, a imaginar o futuro, a harmonizar as exigências de autonomia e de unidade, e a “impulsionar o processo de união europeia, não em oposição a outras potências, mas como dom para toda a família humana”.

***

A 8 de junho, o Pontífice apresentou-se ao Congresso e a 700 convidados como Bispo de Roma e Pastor da Igreja católica, cônscio de que a missão petrina, como princípio e fundamento de unidade dos Bispos e dos fiéis, coloca a Santa Sé, de modo peculiar, em diálogo com os povos e com os Estados. Disse que a sua presença quer ser gesto de proximidade, na mútua cooperação, e uma palavra ao serviço da pessoa humana, pois, na sua ótica, “a Igreja “caminha com a Humanidade”, partilhando suas esperanças e feridas, escutando as aspirações de cada época e deixando-se interpelar por tudo o que atinge os homens e as mulheres.

Por isso, ao dirigir-se à vida pública, respeita a missão própria das instituições e a legítima responsabilidade de quem recebeu o mandato de legislar. Vinca “a autonomia das realidades terrenas” e “a distinção entre comunidade eclesial e comunidade política”; e, a partir dessa consciência, “oferece a reflexão nascida do desejo de servir o bem comum e de recordar o que “torna verdadeiramente humana a convivência”.

Dando-se, no hemiciclo, forma jurídica à convivência social, na escuta e ordenamento das diferenças, para serem convertidas, quando possível, em decisão partilhada, toda a tarefa legislativa se depara com a pergunta decisiva: “Que conceção da pessoa humana inspira as leis e que tipo de sociedade elas constroem? É questão para a qual a Espanha possui memória rica. A sua identidade geográfica e política foi-se entrelaçando com uma História em que a fé e a razão, a arte e o direito, a tradição e o pensamento souberam encontrar-se.

Cervantes proclamou que “a liberdade […] é um dos dons mais preciosos que os céus concederam aos homens” e Unamuno sustentava que o homem “não se resigna a morrer de todo”. E a Espanha, olhando o ser humano como algo mais do que peça da ordem social, económica ou política, reconheceu-o como criatura aberta à verdade, dotada de liberdade e movida pela sede de eternidade que nenhuma realidade temporal consegue extinguir.

A partir de Espanha, a reflexão da Escola de Salamanca – e, em particular, frei Francisco de Vitória com outros dominicanos e jesuítas – contribuiu para formar uma consciência jurídica e moral capaz de recordar que a autoridade traz consigo uma responsabilidade e que todo o ser humano deve ser reconhecido como sujeito de direitos e deveres, pressuposto que postula que “a dignidade, a justiça e o bem comum sejam a medida das relações sociais, tanto ao nível nacional como ao nível internacional”. E a questão salmantina acompanha a tarefa de quem serve a vida pública. Hoje, os novos mundos que se abrem já não se desenham nos mapas: “desdobram-se na técnica, na economia, na biomedicina e no universo digital, onde o poder humano alcança âmbitos cada vez mais delicados da vida pessoal e social”.

O progresso oferece admiráveis possibilidades, nomeadamente, no desenvolvimento de novas tecnologias. Porém, a tecnologia não é neutra, porque “toma o rosto de quem a concebe, a financia, a regula e a utiliza”, pelo que, face às transformações do nosso tempo, “o discernimento deve centrar-se no lugar que ocupa a pessoa humana nas nossas decisões e como se reflete sobre a dignidade do trabalho, a solidariedade, a política social e o bem comum”. Ora, tal discernimento começa pela afirmação primeira: “Toda a sociedade justa se edifica sobre o reconhecimento da dignidade inviolável da pessoa humana”. Tal dignidade precede qualquer concessão do Estado e não pode ficar subordinada a consensos sociais mutáveis ou à oscilação das maiorias de cada momento. Pertencendo a todo o ser humano, pelo facto de existir, deve orientar todo o ordenamento jurídico. Quando esta convicção permanece viva, o direito converte-se em amparo de todos e em garantia ante a imposição de interesses e de agendas particulares, que levam, tantas vezes, à cultura do descarte, esquecendo o bem comum como “a forma social da dignidade humana”.

Leão XIV tentou unir os políticos da Espanha dividida e polarizada, com o governo socialista a avançar com o processo de inscrever o aborto na Constituição. Para tanto, precisa do apoio do Partido Popular (PP), pois a reforma constitucional exige amplo consenso.

É neste quadro que as palavras de Leão XIV sublinham a dignidade humana e a primazia da vida humana. E, se isto é esquecido, os mais vulneráveis são as primeiras vítimas e a lei perde o seu significado mais profundo: servir e proteger cada pessoa”. “A defesa da vida humana não é uma questão parcial nem um interesse confessional: é uma meta de civilização”, disse o Papa, que destacou, entre os grupos mais vulneráveis, os migrantes e refugiados, a quem mostrará apoio, quando visitar Tenerife e Las Palmas, duas das oito ilhas Canárias, consideradas portas de entrada para a Europa. O Pontífice apontou as “rotas cada vez mais perigosas” que migrantes e refugiados são forçados a percorrer, onde são “presas de traficantes e de contrabandistas que se aproveitam do seu desespero” – uma situação que “exige uma resposta que olhe para as pessoas, que enfrente as causas que as obrigam a partir e que vá além da mera gestão de fluxos”.

Nesta dolorosa situação, no dizer de Leão XIV, surge a dupla exigência de justiça social: “oferecer vias seguras e legais, acolhimento respeitoso e possibilidades reais de integração; e promover o direito a permanecer na própria terra, trabalhando para que ninguém tenha de abandonar o seu lar por falta de paz, segurança ou condições dignas de vida, pelas desigualdades económicas e os efeitos da crise climática”.

“Quando uma pessoa é discriminada pela sua origem nacional, étnica, religiosa ou linguística, ou pela sua condição económica ou social, viola-se, gravemente, o princípio universal da igual dignidade de todos os seres humanos”, disse o Santo Padre.

O Papa elegeu a família “como realidade humana primeira e fundamento natural da comunidade” e a primeira escola de humanidade onde se aprende a gramática elementar da convivência: “receber a vida, cuidar do outro, perdoar, servir e pertencer”, tal como disse que “toda a vida humana deve ser reconhecida e guardada desde a sua conceção até ao seu ocaso natural”, pois “a grandeza moral de uma nação manifesta-se, acima de tudo, na sua capacidade de acompanhar, proteger e amar as vidas que atravessam maior fragilidade”.

Depois, fez apelos à unidade na diversidade e à construção da paz justa e duradoura, no diálogo e na prossecução do desenvolvimento em ordem ao bem comum.

***

O discurso político-histórico, à luz do Evangelho, será a pedrada no charco da polarização?

2026-06.10 – Louro de Carvalho


Sem comentários:

Enviar um comentário