O
Papa Leão XIV chegou a Madrid, na Espanha, a 6 de junho, às 10h12, para a
visita apostólica de sete dias, que inclui Barcelona e as Canárias. A última
vez que o país recebeu um papa foi em 2011, quando Bento XVI participou, em
Madrid, na Jornada Mundial da Juventude.
Leão
XIV foi recebido pelo rei Felipe VI e pela rainha Letizia, pelo
primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, e vários membros do governo. Também
participaram na receção o arcebispo Piero Pioppo, núncio apostólico na Espanha
e no Principado de Andorra, e o arcebispo de Valladolid, Luis Javier Argüello
García, presidente da Conferência Episcopal Espanhola (CEE). O Pontífice
cumprimentou as delegações ao longo do tapete vermelho, no Aeroporto de Madrid
Adolfo Suarez-Barajas. Depois, dirigiu-se para o Palácio Real de Madrid, onde
lhe foram prestadas honras militares (hinos do Vaticano e da Espanha, com salva
de 21 tiros de morteiro, e revista às tropas em parada), após o que se dirigiu
ao Salão de Honra, para breve encontro privado com a família real.
***
No
encontro com as autoridades, a sociedade civil e o corpo diplomático, às 12h30,
no Palácio Real de Madrid, o Santo Padre disse ao que vinha.
Vincando
a multifacetada riqueza do país que acolheu a Palavra do Evangelho, há quase
dois milénios, interpretou o facto de a tradição associar a evangelização da
Península Ibérica à pregação de Tiago, o Maior, como expressão da consciência
da Igreja local de estar em continuidade com a missão apostólica. E lembrou que
a ligação entre a fé cristã e estas terras lhes “moldou, profundamente”, a
cultura e constitui “uma fonte de esperança e de orientação entre os desafios
que devemos enfrentar juntos, como família humana”. Na verdade, diz o
Pontífice, “as expressões da fé popular”, que são “dramaturgia da salvação, ao
ritmo do ano e nos diversos contextos da vida”, a par do património
artístico-musical e das múltiplas irmandades e associações de caráter
caritativo, “dão testemunho do fecundo encontro” entre Jesus Cristo e este povo
“cheio de paixão, que ama a vida e o manifesta”.
Propõe-se
“confirmar, encorajar e inspirar uma renovada fidelidade ao Evangelho, da parte
dos fiéis, bem como a reconciliação e a cooperação mais profundas “entre as
diferentes forças desta nação”. Com efeito, a História da Espanha sugere que é
a cultura do encontro “que gera estabilidade e prosperidade”. Por conseguinte,
a mensagem de paz, que ressoa, para alguns, como ingénua e, para outros, como
provocadora, “encontra acolhimento em quem não se fecha em ideologias
pré-fabricadas, mas se abre à verdade”. E, citando o seu predecessor Francisco
diz que há “tensão bipolar entre a ideia e a realidade: a realidade
simplesmente é, a ideia elabora-se”, devendo estabelecer-se o diálogo constante
entre as duas, pois “é perigoso viver no reino só da palavra, da imagem, do
sofisma”. De facto, como dizia Francisco, a verdade é maior do que nós e, por
isso, surpreende-nos e atrai-nos para caminhos de purificação e de reconciliação,
nos quais é fundamental o diálogo com os outros – e com “o Outro”.
Depois,
evocou duas figuras do país que alimentam, há cinco séculos, a vida da Igreja e
a busca espiritual de muitos: João da Cruz e Teresa de Ávila, que se tornaram
amigos na paixão pelo Mistério divino e cuja “mística é de olhos abertos”, levando
“à raiz das questões, ao coração da realidade”. Em particular, o tema da noite,
caro a João da Cruz – cujo Ano Jubilar estamos a celebrar –, ajuda a “interpretar
as transformações e a suportar as tensões que tornam a nossa época tão sombria”.
Na sede de luz, ele aprendeu a apreciar a escuridão, “como o tempo em que a
alma se liberta do que presumia conhecer e possuir”. Também hoje, no dizer do Papa,
o que mais assusta, provocando, em muitos, a escuridão da razão e a violência
das emoções, é “o desconhecido, face ao qual pode prevalecer a desorientação, a
sensação de já não termos mapas”. Por isso são necessários, na vida pública,
homens e mulheres que intuam, na escuridão, a luz como “o irromper de uma
verdade tal qual luz que ainda cega, mas que, se confiarmos e encontrarmos paz,
nos trará delicadamente em direção a si mesma”.
Efetivamente,
assinala Leão XIV que esta época, “abalada por terríveis desequilíbrios e
conflitos, no seu íntimo, clama por paz, por um novo conhecimento da pessoa
humana e da sua dignidade inviolável, pela civilização do amor”.
Santa
Teresa, segundo o Pontífice, percorre o mesmo itinerário com a imagem do
castelo interior. Avançando em direção ao lugar mais íntimo – isto é, cada um
em direção ao seu coração, santuário da verdade –, “o espaço alarga-se, a mente
abre-se, as contradições resolvem-se, as tensões dissolvem-se, os outros
encontram o seu lugar, o universo torna-se lar”. Não é fuga intimista, mas “a
radical abertura ao totus Alius et semper Novus, que se realiza
quando voltamos a nós mesmos” – dimensão do ser humano que “é o motivo pelo
qual é preciso proteger a liberdade religiosa e de consciência”. Ora, porque a
tentação de ganhar popularidade, atiçando o fogo das polarizações parece
crescer, “a dignidade humana continua a ser violada”, o que mostra a
necessidade de cultura, de interioridade, de educação livre e de qualidade, de transcendência.
E a Igreja está ao serviço desta sede do
coração humano, não de modo impositivo, mas com o testemunho evangélico apoiado
na multidão de mártires e de santos, disposta a colocar-se “ao serviço do
futuro de um povo que busca a reconciliação e a paz”.
Assim,
o Papa a todos convida, “por amor à verdade, a abandonarem as narrativas
divisórias e polarizadoras” da realidade social e da História, para que se
passe das simplificações estéreis à fecunda apreciação da complexidade. Vê uma
vocação específica da Europa, da qual a Espanha é protagonista original e
fundamental. É o presente que o Velho Continente pode dar ao Mundo, se quiser
permanecer jovem, pois “jovem é quem sente que tem um futuro e uma missão que
ainda o interpelam”. É preciso “apreciar a complexidade e estudá-la, aprendendo
a vivê-la como bênção […] e fugindo das abordagens identitárias que parecem
esclarecer tudo, mas que povoam o Mundo de fantasmas e inimigos”. E diz Leão
XIV que as tecnologias se tornaram num ambiente artificial que põe à prova opções
fundamentais, exacerba preconceitos, enfraquece o pensamento crítico e leva os
interesses prepotentes a semear impulsos de morte.
Frisando
que “o bem pode resistir e ser comunicado”, o Pontífice sustenta que,
sobretudo, por parte de quem tem responsabilidades económicas, políticas e
institucionais, é preciso “um salto qualitativo, uma mudança de rumo nos
investimentos destinados à escola, à universidade e à investigação, às
comunidades locais e à sociedade civil, como sementeira de participação e
mediação cultural”, pois a segurança, que se pensa provir das armas e dos muros,
amadurece, quando se aprende a avançar com o outro, crescendo juntos. A História
da Espanha o atesta. Por exemplo, a presença do Islão na Península constituiu duradoura
realidade política, cultural e religiosa. Nesse período, a par do confronto,
tentou-se criar espaço de relação, de conversa e de diálogo sobre o sentido da
verdade entre cristãos, muçulmanos e judeus. Na escola de tradutores de Afonso
X, o Sábio, especialistas oriundos das três religiões colaboraram na tradução
do património árabe, grego e hebraico, contribuindo para a difusão de textos
como os dos filósofos Averróis (1126-1198) e Maimónides (1138-1204). Cidades,
como Córdova e Toledo tornaram-se lugares de mediação entre línguas, religiões
e saberes. Esta é a verdade que contam as cidades europeias, a sua
estratificação histórica, o tecido de solidariedade que, em séculos, moldou as
suas diferenças, transformando inevitáveis conflitos em pontos de partida.
Em
provações e fracassos é possível repensar tudo, como fez Inácio de Loyola, que ousou
dar crédito às desolações e consolações do coração, num exercício de
discernimento e imaginação pelo qual preferiu a paz às armas e os santos aos
poderosos. Compreendeu que o bem que o atraía não era utópico, e a sua crise
transformou-se em graça. Isto pode acontecer com as novidades que nos inquietam
e sobre as quais estão divididas as nossas sensibilidades. Há que evitar
palavras que humilhem ou criem oposições, escolher a clareza que ilumina e a
franqueza que abre caminhos, não abençoar entusiasmos ingénuos, não alimentar
medos estéreis. É preciso gizar critérios de discernimento – dignidade da
pessoa, destinação universal dos bens, opção pelos pobres, cuidado da Casa
comum, paz – e transformá-los em ações: com projetos responsáveis, com avaliações
de impacto humano e social, com inclusão dos mais frágeis, com alfabetização
digital, com pesquisa e com indústria, rumo à justiça e à paz.
Leão
XIV agradeceu à Espanha a fidelidade ao direito internacional e ao
multilateralismo, que se traduz no compromisso com a paz e com a solidariedade
entre os povos. E encorajou-a a cultivar o diálogo e a amizade social
internamente, a ter em conta as perspetivas dos pobres e dos jovens, a imaginar
o futuro, a harmonizar as exigências de autonomia e de unidade, e a “impulsionar
o processo de união europeia, não em oposição a outras potências, mas como dom
para toda a família humana”.
***
A
8 de junho, o Pontífice apresentou-se ao Congresso e a 700 convidados como
Bispo de Roma e Pastor da Igreja católica, cônscio de que a missão petrina,
como princípio e fundamento de unidade dos Bispos e dos fiéis, coloca a Santa
Sé, de modo peculiar, em diálogo com os povos e com os Estados. Disse que a sua
presença quer ser gesto de proximidade, na mútua cooperação, e uma palavra ao
serviço da pessoa humana, pois, na sua ótica, “a Igreja “caminha com a Humanidade”,
partilhando suas esperanças e feridas, escutando as aspirações de cada época e
deixando-se interpelar por tudo o que atinge os homens e as mulheres.
Por
isso, ao dirigir-se à vida pública, respeita a missão própria das instituições
e a legítima responsabilidade de quem recebeu o mandato de legislar. Vinca “a
autonomia das realidades terrenas” e “a distinção entre comunidade eclesial e
comunidade política”; e, a partir dessa consciência, “oferece a reflexão
nascida do desejo de servir o bem comum e de recordar o que “torna
verdadeiramente humana a convivência”.
Dando-se,
no hemiciclo, forma jurídica à convivência social, na escuta e ordenamento das
diferenças, para serem convertidas, quando possível, em decisão partilhada, toda
a tarefa legislativa se depara com a pergunta decisiva: “Que conceção da pessoa
humana inspira as leis e que tipo de sociedade elas constroem? É questão para a
qual a Espanha possui memória rica. A sua identidade geográfica e política
foi-se entrelaçando com uma História em que a fé e a razão, a arte e o direito,
a tradição e o pensamento souberam encontrar-se.
Cervantes
proclamou que “a liberdade […] é um dos dons mais preciosos que os céus
concederam aos homens” e Unamuno sustentava que o homem “não se resigna a
morrer de todo”. E a Espanha, olhando o ser humano como algo mais do que peça
da ordem social, económica ou política, reconheceu-o como criatura aberta à
verdade, dotada de liberdade e movida pela sede de eternidade que nenhuma
realidade temporal consegue extinguir.
A
partir de Espanha, a reflexão da Escola de Salamanca – e, em particular, frei
Francisco de Vitória com outros dominicanos e jesuítas – contribuiu para formar
uma consciência jurídica e moral capaz de recordar que a autoridade traz consigo
uma responsabilidade e que todo o ser humano deve ser reconhecido como sujeito
de direitos e deveres, pressuposto que postula que “a dignidade, a justiça e o
bem comum sejam a medida das relações sociais, tanto ao nível nacional como ao
nível internacional”. E a questão salmantina acompanha a tarefa de quem serve a
vida pública. Hoje, os novos mundos que se abrem já não se desenham nos mapas: “desdobram-se
na técnica, na economia, na biomedicina e no universo digital, onde o poder
humano alcança âmbitos cada vez mais delicados da vida pessoal e social”.
O
progresso oferece admiráveis possibilidades, nomeadamente, no desenvolvimento de
novas tecnologias. Porém, a tecnologia não é neutra, porque “toma o rosto de
quem a concebe, a financia, a regula e a utiliza”, pelo que, face às
transformações do nosso tempo, “o discernimento deve centrar-se no lugar que
ocupa a pessoa humana nas nossas decisões e como se reflete sobre a dignidade
do trabalho, a solidariedade, a política social e o bem comum”. Ora, tal discernimento
começa pela afirmação primeira: “Toda a sociedade justa se edifica sobre o
reconhecimento da dignidade inviolável da pessoa humana”. Tal dignidade precede
qualquer concessão do Estado e não pode ficar subordinada a consensos sociais
mutáveis ou à oscilação das maiorias de cada momento. Pertencendo a todo o ser
humano, pelo facto de existir, deve orientar todo o ordenamento jurídico. Quando
esta convicção permanece viva, o direito converte-se em amparo de todos e em
garantia ante a imposição de interesses e de agendas particulares, que levam,
tantas vezes, à cultura do descarte, esquecendo o bem comum como “a forma
social da dignidade humana”.
Leão
XIV tentou unir os políticos da Espanha dividida e polarizada, com o governo socialista
a avançar com o processo de inscrever o aborto na Constituição. Para tanto, precisa
do apoio do Partido Popular (PP), pois a reforma constitucional exige amplo
consenso.
É
neste quadro que as palavras de Leão XIV sublinham a dignidade humana e a primazia
da vida humana. E, se isto é esquecido, os mais vulneráveis são as primeiras
vítimas e a lei perde o seu significado mais profundo: servir e proteger cada
pessoa”. “A defesa da vida humana não é uma questão parcial nem um interesse
confessional: é uma meta de civilização”, disse o Papa, que destacou, entre os grupos
mais vulneráveis, os migrantes e refugiados, a quem mostrará apoio, quando
visitar Tenerife e Las Palmas, duas das oito ilhas Canárias, consideradas
portas de entrada para a Europa. O Pontífice apontou as “rotas cada vez mais
perigosas” que migrantes e refugiados são forçados a percorrer, onde são “presas
de traficantes e de contrabandistas que se aproveitam do seu desespero” – uma
situação que “exige uma resposta que olhe para as pessoas, que enfrente as
causas que as obrigam a partir e que vá além da mera gestão de fluxos”.
Nesta
dolorosa situação, no dizer de Leão XIV, surge a dupla exigência de justiça
social: “oferecer vias seguras e legais, acolhimento respeitoso e
possibilidades reais de integração; e promover o direito a permanecer na
própria terra, trabalhando para que ninguém tenha de abandonar o seu lar por
falta de paz, segurança ou condições dignas de vida, pelas desigualdades económicas
e os efeitos da crise climática”.
“Quando
uma pessoa é discriminada pela sua origem nacional, étnica, religiosa ou
linguística, ou pela sua condição económica ou social, viola-se, gravemente, o
princípio universal da igual dignidade de todos os seres humanos”, disse o
Santo Padre.
O
Papa elegeu a família “como realidade humana primeira e fundamento natural da
comunidade” e a primeira escola de humanidade onde se aprende a gramática
elementar da convivência: “receber a vida, cuidar do outro, perdoar, servir e
pertencer”, tal como disse que “toda a vida humana deve ser reconhecida e
guardada desde a sua conceção até ao seu ocaso natural”, pois “a grandeza moral
de uma nação manifesta-se, acima de tudo, na sua capacidade de acompanhar,
proteger e amar as vidas que atravessam maior fragilidade”.
Depois,
fez apelos à unidade na diversidade e à construção da paz justa e duradoura, no
diálogo e na prossecução do desenvolvimento em ordem ao bem comum.
***
O
discurso político-histórico, à luz do Evangelho, será a pedrada no charco da polarização?
2026-06.10
– Louro de Carvalho
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